O dia em que o chinlone me pegou

02/02/2014

02fev2014

Assim como o chinlone, na vida é fundamental harmonizar-se com o mundo ao redor pra que o jogo fique bonito de se ver

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O DIA EM QUE O CHILONE ME PEGOU

Ou a arte zen de sair por aí à toa e encontrar o que se precisa
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E lá eu ia caminhando pela Visconde de Pirajá, seis da tarde. Apesar das pessoas apressadas e dos automóveis barulhentos, eu seguia leve e tranquilo. Na verdade, até me sentia meio em harmonia com toda aquela zorra. Levava uns exemplares do meu livro Baseado Nisso e uma missão ultrassecreta: deixá-los na La Cucaracha, uma loja em Ipanema que vende uns baratos ligados a cultura alternativa: roupas, livros, revistas, CDs e, é claro, sedinha para enrolar o baseado, maquininha de debulhar, essas coisas. Melhor lugar para vender meu livro só mesmo na passeata da legalização.

Na loja, meu livro ficou, mui honradamente, ao lado do sensacional Capitão Presença, livro do desenhista Arnaldo Branco. O Presença é o único super-herói que realmente salva. E foi inspirado no dono da loja, Matias Maxx, uma figuraça. Aí entraram dois caras e um deles foi direto no meu livro. Era simplesmente… o Arnaldo Branco. Uau! E o outro era o Allan Sieber, outro monstro dos quadrinhos. Fiquei tão abobalhado diante dos meus ídolos que depois de dez minutos é que consegui dizer algo além de dâââ…

Cessada a fase monga, troquei nossos contatos, combinei uma entrevista e nos despedimos. E segui caminhando de volta para casa, exercitando minhas pernas e admirando as das ipanemenses. Eis porém que, numa banca de revista, reconheço uma senhora… É Alzira, uma amiga recente, que dia desses me levou para ver uma peça sobre o Torquato Neto, que foi seu amigo. Você por aqui, que coisa boa, abraço, beijo. Ela me pegou pelo braço e saímos, ela comentando sobre um conto meu que havia lido. Depois falou que eu precisava conhecer o Álvaro, dono da Pororoca, uma famosa livraria especializada em misticismo. Mal fecha a boca, Álvaro se materializa bem à nossa frente. O susto foi tão grande que quase saí correndo.

O Álvaro é um cara simples, cinquentão com cara e jeito de garoto. Conversamos sobre livros e mercado editorial, ele disse que lembrava de meu primeiro livro e marcamos de continuar o papo outro dia em sua loja. E seguimos eu e Alzira, eu satisfeito com tantos bons encontros. Ela então me levou a uma galeria para conhecer o Estação Ipanema, com suas duas salas de cinema que eu, vergonhosamente, ainda não conhecia. Alzira me deu um puxão de orelha e subimos para conhecer.

No momento em que olhávamos a programação do Festival do Rio, um desconhecido chegou e… me ofereceu um ingresso de presente. Um ingresso para Mystic Ball, um filme do festival, última oportunidade de ver. Perguntei a Alzira se ela ficaria chateada se eu aceitasse aquele inesperado presente. Claro que não, aproveita que hoje você tá iluminado… Dei um abraço nela, depois te conto do filme, tchau, peguei o ingresso e entrei na sala escura, nem lembrava a última vez que eu fora ao cinema sem saber qual era o filme.

Tchan, tchan, tchan, tchan…. Que surpresa! Desde o instante em que sentei até o fim do filme, eu fiquei hipnotizado pelas imagens, fascinado, torcendo para não acabar. Como pude viver quarenta e dois anos sem saber que existia aquilo? O documentário conta a história de um canadense que se tornou o primeiro ocidental a praticar o chinlone ao lado dos mestres. E agora se dedica a divulgá-lo pelo mundo. Poizé, mas que diabo é chinlone?

Ronaldinho Gaúcho. Você certamente já o viu brincar com a bola, sem deixar cair no chão. Pois o chinlone é parecido. É um esporte tradicional de Mianmar, sudeste da Ásia, e existe há mil e quinhentos anos. Seis jogadores, homens ou mulheres, formam uma pequena roda e, usando apenas pés e pernas, passam a bola entre si, revezando-se como solista no meio da roda. A bola é oca, feita de feixes entrelaçados de ratan com espaços vazios formando pequenos buracos. Sem finalidade competitiva, o chinlone está mais para exibição artística, pois não basta não deixar a bola cair no chão – é preciso que as jogadas sejam plasticamente belas. Então o que se vê é uma espécie de dança coletiva regida pela própria bola, onde os movimentos combinam a graça delicada e sutil das danças do oriente com a rapidez e a precisão das artes marciais. Ou seja: Ronaldinho não daria nem para o começo.

O chinlone requer atenção aguda e permanente ao movimento da bola e dos outros jogadores. Requer também alto grau de leveza e elasticidade corporal. Mas, sobretudo, é indispensável que o grupo esteja totalmente harmonizado em torno da bola e funcione como uma única entidade feita de uma bola e doze pernas em contínua movimentação. O chinlone prioriza ao mesmo tempo a noção de grupo e o talento individual. E esses talentos não têm sexo ou idade: entre os melhores jogadores há garotas e velhinhos de setenta anos. Certas jogadas são tão curiosas e rápidas que só em câmera lenta pode-se entender como aconteceram. A habilidade dos jogadores é impressionante, e suas improváveis piruetas levam a pensar sobre onde afinal estão os limites da capacidade humana. Depois de ler os créditos finais, demorei a me levantar da poltrona ‒ estava inteiramente apaixonado pelo que acabara de conhecer. E louco de vontade de escrever a respeito. O mundo precisava conhecer aquilo.

Saí da sala com um sentimento de gratidão por uma noite tão generosa. Tantos encontros e surpresas incríveis… Mas ainda havia um último encontro a me esperar. E ele estava à minha frente, na saída da sala, segurando uma bola… de chinlone. Era Greg Hamilton, diretor e personagem principal do filme. Reconheci-o de imediato e, ignorando a timidez, fui falar com ele. Parabenizei-o, peguei a bola, fiz perguntas tolas em meu inglês capenga, ele me falou sobre o chinlone e ganhei um postal do filme. E fui embora para casa feliz, pensando… Assim como o chinlone, na vida é fundamental harmonizar-se com o mundo ao redor para que o jogo fique bonito de se ver. Não basta viver, é preciso encontrar-se.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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DOCUMENTÁRIO (em português)
Narração: Gilberto Gil

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CHINLONE, THE MYSTIC BALL

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DICA DE LIVRO

ICI2011Capa-01dO Irresistível Charme da Insanidade
Ricardo Kelmer – romance

Dois casais, nos séculos 16 e 21, vivem duas ardentes e misteriosas histórias de amor, e suas vidas se cruzam através dos tempos em momentos decisivos. Ou será o mesmo casal? Nesta história, repleta de suspense e reviravoltas, Luca é um músico obcecado pelo controle da vida, e Isadora uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. A uni-los e desafiá-los, o amor que distorce a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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É a Tao coisa – Uma maneira intuitiva de compreender a realidade através da harmonia com o Tao

Rumo à estação simplicidade – Jurei me manter sempre no caminho, sem pesos nem apegos excessivos, pronto pra pegar a estrada no momento em que a vida assim quisesse

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Eu, Ro Ro e o lado B

26/01/2014

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Naquele momento, o lado B do mundo sorria pra mim cantando blues, oferecendo tão somente seu calor e seu endereço

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EU, RO RO E O LADO B

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Gamei quando a vi cantando no Chacrinha, 1979. Depois escutei suas músicas na FM e comprei o disco. Adorava aquela voz rouca, o jeito largado de cantar, o escracho… O nome dela: Ângela Ro Ro. Eu tinha 15 anos, era só um adolescente bobo e certinho. E ainda estudava no colégio militar. Mas naquele momento, o lado B do mundo sorria pra Ricardinho cantando blues. Oferecendo tão somente seu calor e seu endereço. E eu sorri de volta.

Ingênuo, eu nem sabia que aquilo era blues. E também demorei a perceber que minha musa era sapata. Quando descobri, gostei ainda mais. Transgressão, esta era a senha. Moça sem recato, desacato à autoridade. Já me atraíam os que ousam e assumem sua loucura. Eu escutava Ro Ro horas a fio, arrancando os blues só pra maltratar. Me divertia com seus escândalos, os amores ruidosos, os porres homéricos. Aliás, naquele mesmo ano tomei meu primeiro porre. E no ano seguinte mudei de colégio, fugi da convivência diária com a lógica militar, eu me sentia violentado. Ainda era bobo, mas começava a entender que eu só deveria prestar obediência verdadeira a mim e a mais ninguém.

O garoto bobo cresceu. Namoradas, sexo e poesia, faculdade de comunicação, baseados, meu mal é a birita e um violão. Agora lia Bukowski, escutava Janis e Doors, me encantava o submundo artístico, os bregas de cabaré, o alternativo sempre mais interessante que o oficial. Minha ídola seguia seu caminho, arrasada, acabada, maltratada, torturada, desprezada, liquidada. Novos escândalos, novos discos. Mas eu preferia as antigas músicas, que obrigava as namoradas a escutar enquanto praticávamos sexo bonsai, ou seja, no banco do fusca. Assim não vai dar, minha vontade é tão grande, não pode esperar…

Bem, o Ricardinho bobo agora é quarentão. Mas continua fiel ao lado B. E neste momento tá na plateia do seu primeiro show da Ro Ro, uma falha no currículo que ele hoje consertará. Cai uma chuvinha chata sobre o Rio de Janeiro, mas o Circo Voador recebe um público razoável. O show será gravado pro DVD, o primeiro da carreira. E eu presente, que honra.

Ela está toda de preto, calça e blusa, cabelo solto. Ro Ro deixou de beber, pelo menos oficialmente. Que coisa. Ela agora é uma senhora desrespeito. Abana-se com um leque, reclama do calor, bebe água e brinca com a plateia, sempre palhaça. Mas não tá muito à vontade com o esquema meio careta de gravação, câmeras, maquiadora… Ela chama o primeiro convidado. Entra Luz Melodia, outro legítimo representante do lado B, e juntos cantam Tola Foi Você. Quer dizer, ela canta e ele tenta, lendo a letra no pedestal. Melódia tá meio viajandão e erra a letra. Deve ter mandado um venenoso no camarim.

Mando uma golada de vodca pra esquentar, não tire da minha mão esse copo. A segunda convidada é Alcione e elas cantam Joana Francesa. Mas a Marrom tá tensa, não se solta, pede pra repetir, depois erra a letra. Só na quarta tentativa a música sai. Quem diria, a Marrom amarelando… Depois Frejat divide com Ro Ro A Mim e a Mais Ninguém. Esse não errou a letra, palmas pra ele. Ro Ro reclama do calor de novo, será que ela tá na menopausa? Bebe mais água. Deve ser água, não é possível que seja vodca disfarçada.

A ruidosa plateia atiça e Ro Ro responde às gracinhas com seu velho humor agudo. Mas uma gracinha é gracinha demaaais… e ela não resiste. Pergunta o nome da garota, é Alice, a idade, tem 22 aninhos, flerta com ela, Alice no país das maravilhas lá em casa, e no fim anota seu telefone num papel e pede pra gracinha ligar na segunda. É isso aí, Ro Ro, tem que organizar a agenda. Depois ela enche o saco de retocar a maquiagem e dispensa a maquiadora, o cabelo já meio desalinhado, baixou o caboco roquenrou. Depois se agacha pra pegar o leque e confessa: Putz, quase peidei. Esta é a Ro Ro que tanto aprendemos a amar…

No fim, Melódia volta pra cantar de novo Tola Foi Você. Ah, agora o homem tá mais aterrissado, não parece aquela tarântula chapada do começo do show. E dessa vez acerta a letra, ufa. Depois Ro Ro faz o bis e se despede. Pronto, sua parte ela fez, agora é com o pessoal da edição do DVD.

E Ricardinho, cadê ele? Ele corre e alcança Alice, quer conhecer a musa da artista. Hummm, é uma menina linda e charmosa, não é que a Ro Ro tem bom gosto? Dou meu cartão e ela me recebe com simpatia. E aí, como você se sentiu com aquela azaração pública? Ela ri e diz que tá muito lisonjeada. E será que esse número que ela deu tá certo? Tomara que sim, ela responde. E você vai ligar? Ela dá um sorrisinho maroto e diz talvez. Mulher quando diz talvez, quer dizer sim, eu brinco. Ela sorri e confirma: talvez.

Volto pra casa satisfeito. Finalmente vi um show da minha primeira musa do lado B, tá consertada a falha no currículo. E quanto à bela Alice Talvez… Bem, se Ro Ro estiver muito ocupada, qualquer coisa eu tô por aqui, viu, Alice? Ricardinho aceitaria com muita honra ser o lado B da Ro Ro.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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Ângela Ro Ro e Luiz Melodia cantam Tola Foi Você
(DVD Ângela Ro Ro ao vivo, Circo Voador, 2006)

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> Ângela Ro Ro na Wikipedia

> Ângela Ro Ro no programa Marília Gabriela

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Entre rocks e feridos

05/09/2013

05set2013

De repente, caiu a ficha: Putz, vinte anos atrás eu estava no Rock in Rio

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ENTRE ROCKS E FERIDOS

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Dizem que o cara começa a envelhecer no dia em que acorda, se espreguiça diante do espelho e diz, todo satisfeito: Nunca me senti tão jovem! Pois tenho outra teoria. Você começa a ficar velho no dia em que vira objeto de arqueologia jornalística. Para ser exato, quando alguém te liga e diz assim: Oi, Ricardo, nosso jornal está fazendo uma matéria sobre os vinte anos do Rock in Rio e queremos entrevistar os que sobreviveram.

Generosas leitoras, diletos leitores, comunico oficialmente que acabo de ficar velho. Ou, para soar mais heróico, que sou um sobrevivente. De repente, caiu a ficha: Putz, vinte anos atrás eu estava no Rock in Rio! Rio de Janeiro, janeiro de 1985. Eu e meus febris vintanos, minhalma deslumbrada… Lembro como se fosse há duas décadas, eu e Paulo Marcio compramos a camiseta do festival, botamos a mochila nas costas e pegamos o semileito, dois dias e duas noites de estrada sem fim. Cheguei no Rio sem bunda, eu que já não tenho muita. Se fosse hoje, acho que eu surtaria antes de chegar em Minas, mas naqueles dias eu era super-homem, não precisava dormir e tinha fígado blindado. A viagem inteira na manguaça, cada parada uma festa. Até namorada arrumei no ônibus, acredita? A danada era noiva, e no escurinho do último banco me escolheu para sua despedida de solteira, que honra.

Confesso que não lembro muita coisa do festival. Quando penso que hoje as crianças já nascem com quinhentos giga de memória, que inveja. Eu, particularmente, não disponho de mais que um mói de vaga lembrança. Mas vamos lá, queimemos os últimos neurônios… Lembro que no caminho para Jacarepaguá perdi uma lente do meu oclim e tive que encarar o festival cego de um olho. Isso explica metade da minha amnésia. Que mais? Lembro que foi Vinicius de Moraes, falecido anos antes, quem abriu o festival. Não, não tomei um ácido e vi a alma dele no palco. É que Ney Matogrosso fez a abertura cantando Rosa de Hiroxima, letra do poeta.

Que mais? Lembro dos malucos do AC/DC, o new age do B52, a doidinha da Nina Hagen que tinha um leruaite com o, desculpe, Supla… Lembro também do Moraes Moreira, Paralamas… Ué, mas não era festival de rock? Era, né, mas isso é Brasil, minha filha, entenda. Que mais? Lembro de um torpedo desse tamanho que eu fumei e, inexperiente, entrei numa lombra de que todas as cem mil pessoas olhavam para mim com aquelas máscaras das crianças do filme The Wall, pense na paranoia. Apavorado, fui me esconder debaixo da catraca da bilheteria, Paulo Marcio rezando por mim. Acabei na enfermaria, glicose na veia, nunca mais na vida eu fumo maconha. Mas sejamos justos, a culpa não foi da planta, coitada, eu é que antes enxuguei meio litro de Tonel 01. O fato é que eu morri e lá no inferno ninguém me atendeu, todo mundo acompanhando o rock pela TV. Acordei recuperado e saí correndo de volta a tempo de ver o Rod Stewart. Ainda tomei uma cerva para comemorar. Jovem é assim, imortal.

Bem, agora que cumpri com meu dever de alertar a juventude sobre o perigo demoníaco das drogas, do rock’n’roll e das noivas taradas dos semileitos, dá licença que vou tomar um domecq e escutar meu Led Zeppelin. E fazer uma pajelança em honra da minha pessoa, eu, sobrevivente do primeiro Rock in Rio. Não tão imortal quanto naqueles dias, admito. Mas mais jovem que nunca.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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01- Se estar velho é ter vivênciado o primeiro Rock in Rio, que dirá ter curtido o Woodstock… Tô fudido. Um abraço primo. Jamiro Dias de Oliveira Junior, Fortaleza-CE – jan2005

02- Caro Ricardo, Foi delicioso ler sua crônica, pena que tenha sido tão curtinha de curtir. Num outro ônibus ia eu com as noivas daquele outro ônibus. E que viagem foi aquela… no ônibus para Jacarepaguá, onde até o cobrador fumava e nem cobrava nada. Na lama da cidade do rock, todo mundo se melando de alguma. Os amigos, as namoradas, as amigas… que viagem. Sucesso, feliz ano novo. E viva o rock’n’roll. Abraço. Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – jan2005

03- Oi Ric! Adorei a crônica…espero que estejas bem.Quando vens por aqui? Beijinhos brancos com sabor de PAZ. Viviane Avelar, Sobral-CE – jan2005

04- Oi velhinho, a anestesia de 85 era boa, né? Ainda bem que sim pq agora está difícil, tem que nas escolhas conscientes senão dançamos, não ao maravilhoso som do ROCK en ROLL mas na vida mesmo. Obrigada pelas boas risadas que dei. bj bem graaaaaandão! Dijé, Fortaleza-CE – jan2005

05- rickie boy, é, o peso dos ânus! Eles passam avoando… Lembra o tempo do… como é que chamava mesmo? Legal… O que conta é não perder o rumor, quer dizer, o humor! Abração. Max Krichanã, Fortaleza-CE – jan2005

06- Sensacional, Kelmer! Que inveja… neste tempo eu tava aprendendo a dançar forró numa cidadezinha do interior, tentando conseguir uma primeira namorada, perto dos meus 14 anos. Só assisti o Rock in Rio II que não chegou nem perto do primeiro. Acho que a coisa mais próxima do primeiro deve ter sido Woodstock! Abraço, Parabéns pelas excelentes lembranças. Ronald de Paula, Fortaleza-CE – jan2005

07- Kelmo, Adorei a sua crônica sobre o Rock in Rio. Eu apesar de ser da sua mesma era geológica sofri muito mais porque morava em Quixeramobim, a muitos e muitos quilômetros de Jacarepaguá. Um grande abraço do seu eterno fã. Tibico Brasil, Fortaleza-CE – jan2005

08- Vc é um Gênio extrmamente criativo. Abrazos. Heloise Riquet, Fortaleza-CE – mar2005

09- Showwww de texto, viajei na história hehehe. Tbem estive no Rock in Rio, o q trouxe várias lembranças. Tem toda razão, quando jovens somos imortais ou ao menos pensamos que somos kkkk. Abner Rios de Alencar, Fortaleza-CE – set2013

10- Galera que vai pro Rock in Rio, se prepara que daqui há vinte anos quero ouvir as histórias! Ricardo Kelmer como sempre formidável! Jessika Thais, Fortaleza-CE – set2013

11- Muito boa, sorri e gargalhei….eu tb. usava oclinho e perdi a lente um dia, fora as lentes de contato perdidas no escurinho dos cinemas e “boites” (alguém sabe o que é/era isso?kkk) Marialucia da Silveira, Campinas-SP – set2013

12- Teu texto é uma viagem Ricardo!! Bjao. Liliana Araujo Moreira, Madri-Espanha, set2013

13- Bem que podia rolar ” Diários de Itapemirim” kkk. Francisco Coelho, Rio de Janeiro-RJ – set2013

14- Acho que vc não envelheceu tanto assim…continua o mesmo garoto com alma de poeta dos velhos tempos do Colégio Cearense. Yvana Oliveira, Fortaleza-CE – set2013


Profissão: sitcomicozinho

25/08/2013

25ago2013

Criatividade, senso de grupo e representatividade de talentos individuais: eis o segredo de uma boa equipe de sitcom

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PROFISSÃO: SITCOMICOZINHO

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Galera, tem um pessoal aí de uma faculdade pesquisando sobre o trabalho de roteirista em equipe. Ah, legal, manda entrar. Oi, prazer, tudo bem? Senta aí. Vocês querem saber como funciona trabalhar em equipe, né? Então vamos lá.

Escrever roteiro de sitcom em equipe requer bem mais que talento criativo. Os integrantes da equipe devem formar um conjunto harmônico e eficiente e, para que isso seja possível, no grupo deve haver diferença de talentos: fulano é melhor criando piadas, sicrano na estrutura, beltrano nos diálogos e por aí vai. Criatividade, senso de grupo e representatividade de talentos individuais, eis o segredo de uma boa equipe de sitcom.

A equipe tem um líder. Sem ele, as ideias soltas do grupo ficam sem foco nem direção. Ele não é necessariamente o mais criativo ou o melhor piadista, mas deve reunir qualidades como liderança, senso de equipe, organização, disciplina, calma e paciência. Ele deve fazer com que todos se sintam inteiramente à vontade para criar e expor. Ele deve escutar todas as ideias e decidir qual é a melhor mas, caso fique em dúvida, todos votam para decidir. O melhor líder é aquele que sabe extrair o melhor de seus companheiros. Numa equipe de sitcom isso é fundamental: se o líder não incentiva ou se desrespeita o processo criativo, a equipe se desmotiva e o trabalho não rende.

Toda história nasce de uma entre as diversas ideias básicas que são apresentadas pelos integrantes da equipe. Os produtores analisam as ideias e selecionam a da vez. A ideia básica escolhida é então detalhada num texto curto, com começo, meio e fim. Após isso, a história é dividida em dois atos e as cenas são especificadas. A etapa seguinte é amplificar cada cena, detalhando as situações, marcando as piadas e citando os diálogos. Com a história finalmente estruturada em todas as suas cenas, monta-se o roteiro propriamente dito, com ações e diálogos especificados, além dos cenários e atores necessários para cada cena, a passagem exata do tempo e as orientações de dia ou noite para o pessoal da iluminação. A equipe de roteiristas tem ainda de fazer uma última leitura em conjunto, onde são corrigidas as falhas que restaram. Esse processo todo costuma acontecer em média em cinco ou seis dias.

A partir daí, entra-se em ritmo de ensaio e gravação. Numa reunião com atores, diretores e roteiristas, o roteiro é lido (cada ator lendo as falas de seu personagem), e então os roteiristas têm uma melhor noção das falas e das piadas, podendo alterar algo. Após as alterações, o roteiro é distribuído para elenco, direção e equipe técnica e começam os ensaios, que podem durar dois ou mais dias e são sempre acompanhados por um roteirista. Há um ensaio geral (o corridão) e depois acontece a gravação. O material é então levado à sala de edição, onde o episódio é montado cena a cena. O produto final de tudo isso é o que espectador vê na tela.

Não basta a história ser boa. É preciso que os atores saibam interpretá-la e que o diretor saiba conduzi-los em cena. É fundamental também o trabalho do pessoal da edição, que monta as cenas no computador, no tempo certo. Além disso há o trabalho de cenógrafos, maquiadores, figurinistas, iluminadores e assistentes e todos os profissionais que não aparecem na tela, mas que são imprescindíveis, desde o pessoal da limpeza e do refeitório até o motorista e o contínuo.

Algumas vezes a história é excelente, mas na gravação ela não é tão bem contada quanto poderia ser. Isso, evidentemente, é uma enorme frustração para os roteiristas. Outras vezes atores e diretores, com seu talento, conseguem transformar uma história, que no papel não era tão boa, em cenas tão divertidas que no fim a história acabou ficando melhor. Pode ocorrer também da edição final conter falhas e comprometer o esforço de roteiristas, diretores e atores. Enfim, são muitos detalhes envolvidos na qualidade do produto final – mas tudo começa na sala dos roteiristas, com uma boa história e com boas piadas.

Criar. Inventar. Puxar da cartola uma boa ideia. O trabalho de um roteirista de sitcom é por ideias para fora de sua mente, uni-las a outras ideias, lapidá-las e encaixá-las num determinado contexto. É uma tarefa cotidiana, que não pode parar, pois o cronograma tem de ser respeitado. Chova ou faça sol, os roteiristas devem ter ótimas ideias sempre, feito uma máquina de churros.

Mas nem sempre você está num bom dia, né? É aqui que entra a equipe. Se tudo dependesse de um roteirista apenas, no dia em que ele tivesse comido um acarajé estragado, as piadas não viriam, a história não andaria. Como são vários roteiristas, um acaba compensando o outro e a média de qualidade do trabalho é mantida. Outra coisa importante é o entrosamento e a confiança, ou seja, a capacidade de seus integrantes de funcionarem como uma equipe esportiva onde um passa a bola para o outro que faz o gol. O importante não é você fazer o gol, mas o gol acontecer. Você faz uma piadinha ruim, assumidamente ridícula, mas ela inspira o colega a fazer outra e você, por sua vez, a aperfeiçoa. O que vale é o produto final.

Se um roteirista se considera mais importante que os demais ou tem dificuldade de abdicar de sua ideia por uma ideia que a maioria considera melhor, não haverá harmonia na equipe e isso pode levar ou à saída do roteirista orgulhoso ou à queda de qualidade dos trabalhos. Trabalhar em equipe não é fácil. Quando os integrantes sabem abdicar de sua autoimportância e se entendem como partes integrantes de um mesmo organismo, pensando sempre em termos de grupo, então as boas ideias sempre vêm e os bons roteiros aparecem.

Pronto? Mais alguma informação? Então tá. Avisa quando for publicado, heim? Valeu. Tchau. Aí, galera, acabou a entrevista, todo mundo voltando ao trabalho, cadê aquela Playboy que eu tava lendo?

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

OS SITCOMICOZINHOS –  Roteiristas da foto, da esquerda para a direita: Ana Paul, Fábio Danesi Rossi, Ricardo Tiezzi, Ricardo Kelmer, Gustavo Melo, Luciana Bezerra e Macarrão (Alexandre Magalhães). Na equipe original constavam ainda os roteiristas Claudio Yosida, Nixxon Alves e Silva, Rinaldo Teixeira, Ricardo Barretto e Nina Crintzs. A equipe foi formada pela produtora americana Picante Pictures em 2003-2004 para a criação e produção de sitcons no Brasil, a partir de sua base no Rio de Janeiro. O sitcom Mano a Mano, criado pela equipe, teve sua primeira temporada de 12 episódios gravada na cidade do Rio de Janeiro e é considerado o primeiro sitcom brasileiro feito no formato tradicional do sitcom americano. Os episódios foram dirigidos por Vicente Barcellos, João Camargo e Estela Renner e exibidos e reprisados em 2005 pela RedeTV.
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Crônica para cabelos rebeldes

26/07/2013

26jul2013

Então, descobri uma das maiores invenções da humanidade: o creme hidratante sem enxágue

CronicaParaCabelosRebeldes-05

CRÔNICA PARA CABELOS REBELDES

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Olhei no espelho e minha alma roqueira mandou: Deixa o cabelo crescer, maluco! É, pensei eu, por que não? A última vez fora aos vinte anos, tava com saudade de ter cabelão. O espelho, mais sensato, me alertou: Aí em cima já tá faltando telha, cabelo fino e quebradiço, tu vai ser o espantalho que fugiu da roça…. Fiz que não ouvi. Então, com vocês, na sessão sem noção, O Quarentão Roqueiro.

No começo, tudo bem. Mas logo o cabelo não parava quieto. Eu passava em frente ao salão e o dilema me roía, corto ou não corto? Em nome do roquenrou, resisti e não cortei. Mas o espantalho fujão comprou um boné. De dia até resolvia, mas… sair de boné à noite? Comprei um preto, que é mais discreto. Depois comprei um com as cores do meu time. No vigésimo boné, quando vi que comprara um repetido, entendi as mulheres viciadas em sapatos.

Descobri o gel fixador. Ufa, meus fios rebeldes enfim se acalmaram. Mas fiquei com uma cara estranha, parecia que tinha levado uma lambida de vaca. Será por isso que as pessoas riam de mim na rua? Aí, no camelô, conheci um gorro simpático, paguei e já sai com ele na cabeça. Na esquina, uma garotinha apontou pra mim: Olha, mãe, o Ziggy do Mundo Bizarro! Desconheço o Ziggy, mas voltei pra casa arrasado. Comprei outro gorro, mas piorou, fiquei o próprio rapper em crise existencial. Então li algo sobre cabelos rebeldes e no dia seguinte, arrá!, o exterminador de cabelos indisciplinados invadiu raivosamente o banheiro, jogou fora o dois-em-um e trocou por um xampu decente e um condicionador. É, mas de dia ainda preciso do boné, e sempre atento pra não cruzar com a garotinha sádica, e à noite o gel – e aquela impressão de escutar um mugido…

Um ano sem cortar, o cabelo no meio do pescoço. Tentei usar liguinha pra prender atrás, mas sobravam fios na frente, não deu certo. Então, descobri uma das maiores invenções da humanidade: o creme hidratante sem enxágue. Fiquei encantado. A vida ganhou novo sentido. Infelizmente, na estreia exagerei na dose e fiquei a semana inteira com cara de quem saiu do banho.

Obsessão capilar: não podia ver uma farmácia que ia lá dar uma olhadinha nos cremes. Um dia, entrei pra perguntar se já tinham inventado calmante pra cabelo e… minha vida mudou. Conheci Geísa, ah, Geísa. Casei com ela? Não, ela era a atendente e se tornou minha conselheira capilar. Me explicou tudo, que eu devia substituir imediatamente o neutrox, usar hidratante com filtro solar, variar o xampu, me apresentou um oleozinho pra passar nas pontas e indicou a promoção do condicionador, paga quatro e leva cinco…

Faz ano e meio desde aquele dia no espelho. O cabelo tá no ombro, já posso montar a banda de rock. E tem todo um ritual: xampu duas vezes, condicionador, hidratante e depois o oleozinho nas pontas. Como é tudo marca boa, agora a grana só dá pra almoçar duas vezes por semana. Virei o Faquir Cabeludo. E não é que ontem uma amiga me recomendou, olha só, uma pomada à base dágua, diz que é uma maravilha pra usar após o oleozinho. Deve ser. Mas custa os olhos da cara. E agora, almoço ou pomadinha? Geísaaaaaaa!

Mulheres, por causa do roquenrou eu hoje entendo vocês. Perdoem todas as vezes que reclamei da demora pra se arrumar, aquele monte de creme na pia do banheiro… Sou um homem mais sábio. Aprendi o que é frizz. E sei que, assim como caneta e isqueiro, liguinha de cabelo também some misteriosamente. Noite dessas sonhei que uma ponta dupla queria me estrangular, olha que horror. Levei o sonho pra Geísa interpretar e ela disse que era hora de aparar o cabelo. Ok, vou aparar. Mas vou logo avisando que eu gosto de rock progressivo, sim, mas escova progressiva, aí já é demais, né?

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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GALERIA DO QUARENTÃO ROQUEIRO

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MemoriasDeUmaJubaRebelde-01Memórias de uma juba rebelde

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CronicaParaCabelosRebeldesElas-03Um brinde a você que aturou minha rebeldia capilar

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RK200704JeriTurma03 Quarentão roqueiro arrumou bico de garçom em Jericoacoara. Flagrante dele xavecando as holandesas.

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CronicaParaCabelosRebeldesRK-02. Quarentão roqueiro fazendo programa pra completar a renda de escritor. A vida não tá fácil pra ninguém.

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.RK200703JuazeiroDoNorte02Quarentão roqueiro aliviando a bexiga após noite de sexo selvagem e drogas pesadas no convento das Irmãzinhas do Santo Prepúcio.

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CronicaParaCabelosRebeldesRK-011- Foto pro concurso de sósia do Fábio Jr.
2- Ziggy, do Mundo Bizarro
3- Garoto-propaganda de cachaça. A vida não tá fácil
4- No meio do mato esperando o papel higiênico

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LEIA NESTE BLOG

Ser mulher não é pra qualquer um – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

A celebração da putchéuris – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

A volta da Intocáveis – Oh não! – Um show com os restos mortais da Intocáveis Putz Band

Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro

Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

A pouca vergonha do escritor peladão – Foi minha vizinha louca de Botafogo, a Brigite, quem me deu a ideia: Por que você não faz um ensaio fotográfico peladão pra comemorar seus 40 anos?

O dia em que morri no Rock in Rio – O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

Galinha ao molho conjugal – Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?

Confissões de um míope – O míope então restringe suas relações visuais com as pessoas a um raio de dez metros e quem estiver além disso não faz parte de seu mundo. E acaba ganhando uma imerecida fama de boçal

> Postagens no tema “biográfico”

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01- Quase morro de rir aqui com a briga tua com os cabelos, amei… Impossível compreender a alma feminina sem antes passar por uma experiência como essa. Definitivamente vc já é um PHD no assunto.:P Mas num corta o cabelo não… Eu também posso te dar vários toques. Se bem que já que vc conhece o creme sem inxague, seus problemas já estão praticamente resolvidos. Agora é só ficar aparando as pontas para não ter mais pesadelos, procurar fazer uma hidratação mensal e pelamordedeus exterminar o neutróquis, depois é só soltar a juba ao vento e partir para o roquenrou. Beijos, lindinho. Rafaela Almeida, Fortaleza-CE – jan2006

02- RICARDO TÁ MASSA, MUITO MASSA MESMO!!!! Adorei!!! Olha esse texto tá muito bom…quando eu voltar o traduzirei, adorei mesmo! Isabella Furtado, Modena-Itália – jan2006

03- kkkkkkkkkkkkkk!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Hilariante! Lembrei da minha filhinha que passa os mesmo problemas seu. Mostrei a crônica, ela deu muita risada. Só que ela disse o seguinte, shampoo só pode passar uma vez kkkkk!!!! bjs. Marcia Morozoff, Brasília-DF – jan2006

04- (…Foi quando descobri uma das maiores invenções da humanidade: o creme hidratante sem enxágue. Fiquei encantado…) Caraca velho… A crônica sobre o cabelo é a minha cara… Estou entre 2 e 3 anos sem cortar e passei pelo mesmo problema da revolta do FRIZZ e também pela solução do creme!!! Só ainda não cheguei no óleo 😀 Até minha namorada já tá achando bonitinho o danado. O mais engraçado é que ela tem cabelo curto (tempos modernos!). Mas confessa… O pior mesmo é ter que APARAR depois de ter tido tanto cuidado!!! Parece que estão cortanto um pedaço de você! humm… mas pera aí! Eles estão! Abraço. Nigini Abilio Oliveira, Campina Grande-PB – jan2006

05- Kelmer, adorei a crônica para cabelos rebeldes…vc me deu “dicas” ótimas…hehehehehee. Leila Siqueira, Fortaleza-CE – jan2006

06- Crônica para cabelos rebeldes é realmente muito engraçado Meus parabéns pelas idéias brilhantes! Tenha um 2006 cheio de realizações,saúde e muitas idéias Kelméricas! Luciana Lopes, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

07- Qué isso, cara, sai dessa!! Cabelo zuado É O QUE HÁ! Eheheheh! Tá bonito assim! beijos!! Giovanna Milozo, Jaú-SP – jan2006

08- Ricardo querido, prepare-se agora para uma nova saga: o trauma do cabeleireiro caro! Sim, porque depois de tanto sacrifício e conhecimento acumulado, você não vai deixar suas madeixas aos cuidados de um barbeiro de dez real, né?! Acho que você estava se achando muito lindo de cabelão na foto que abre essa seção… tá até com um jeitinho daqueles efebeos efeminados da Roma antiga… sem ofensas! Beijos grandes, Myla, Brasília-DF – jan2006

09- É cara, vc nao é o único quarentão a passar por isso. Sente o meu drama. Separado, doido pra voltar ao mercado, malhando na academia todo dia, 5 e maia da manhã (só dá tempo nessa hora). Imagina o esforço. Deu resultado, saradão, arrumo uma namorada 16 anos mais nova (e ainda psicóloga, te analisa até dormindo). Bom, aí ela vem: amor, vc tem cara de menino, deixa o cabelo crescer, vai… eu acho lindo, que nem piloto de fórmula 1… ai meu Deus, só faltava essa. Bom o que um ego disposto não faz. Aí deixei. Um mês, dois, três, quaaaatro…O cabelo não se entendia mais, ondulado na frente, liso atrás, um horror. E ela achando liiiiindo! Bota um boné, amor! Meu pai puto! Isso não é cabelo de empresário, cadê a credibilidade! 41 anos! Vc vai deixar de fechar negócio por causa desse cabelo! Minhas filhas, então… a mais velha (de 13) disse: pai, vc tá querendo paquerar minhas amigas é? Por que filha? A Diana disse que vc tá um gato! Que absurdo! Bom, foi aí que eu também apelei pros gelzinhos e pro “redutor de volume capilar”. É mole? Até que gostei do resultado. O bicho (o cabelo) até ficou mais comportado (mas cabelo grande não é rebeldia? Rebelde comportado? Ah quarentão indeciso…) Bom, aí veio o golpe fatal. Fui ao lanámento de uma livro de uma tia, num centro cultural aqui em Fortaleza. Muita gente cabeça, intelectuais, umas gatas…(tava de namorada a tiracolo, bem entendido). Aí chega uma amiga (linda) de uma prima e solta essa: Vc é metrossexual? (Pense no sangue esquentando)… Bom, eu disse, o Bilau é grande mas não tem um metro não…Quer saber duma coisa, chega de creminhos, cabelo enorme… Meu barbeiro (bom é cabelereiro mesmo, frescura de macho) tava com uma saudade de mim…Cara, vc voltou? Tem uns seis meses que eu cortei teu cabelo. Era promessa? Tá bom, corta logo essa p…Mas muito curto não! Deixa cobrindo o orelha porque minha gatinha acha que eu fico parecido com piloto de F1! Mas a grana…ainda tá meio longe… Valeu Ricardão! Um abraço com saudade! Sergio Nogueira, Fortaleza-CE – jan2006

10- Muito bom!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! A crônica do cabelo é ótima!!!!!!!!!!!! Luce Érida Galvão de Sá, Fortaleza-CE – jan2006

11- Oi Ricardo Fiquei totalmente solidária com você, também tenho cabelos finos, rebeldes e quebradiços. Pior que isso, tenho um redemoinho no alto da cabeça, bem no vértice do ângulo de 90%, que forma um aclive súbito, no formato de alça… detona qualquer visual chique. Teve até uma chapinha que já andou surfando nas minhas ondas, domou-as completamente, uma única vez, mas quando olhei no espelho e não vi aquele mar crespo e revolto, morri de tédio e de saudades dos meus cachos cheios de vida e rebeldia. Mas, segundo o último boletim fashion, chapinha é coisa do passado, pelo menos no momento “… os cabelos da estação apresentarão um visual muito mais descontraído e as ondas desalinhadas estarão em alta…” Então, relaxa (não os cabelos), a moda finalmente nos alcançou. Beijos. Marli Myllius, Curitiba-PR – jan2006

12- ricardo, adorei, nunca passei por esse processo não, até por que tenho calvice e os cabelos depois dos 30 sempre curtos, mais o damito deixou os cabelos uma epoca crescer e foi exatamente isso, e depois de curtos nunca mais deixou de usar o tal creme, muito bom. parabens. Glaucia Costa, Fortaleza-CE – jan2006

13- Cara, lí uma crônica tua, mto boa, excelente, vim aki te parabenizar, rolei de rir com a tua briga com os cabelos hauahauhaua, parabéns, vc eh mto bom!!!! Yve Santana do Nascimento, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

14- Hummmmmmmmm… agora vc entende as mulheres? o creme para pentear sem enxague é uma maravilha não? 🙂 hihihihhihihihihi Beijos, lindo! Teu cabelo tá gigante! 🙂 Mellina Farias, Campina Grande-PB – jan2006

15- Ô comédia… Meu pai me chamou hj todo preocupado e pediu pra eu explicar umas coisas a ele. Quando eu vejo, uma sacola xeia de tubos de produtos de cabeleireiro e eu explicando como era que usava o creme sem enxágue…hehehhehe Daí nem resisti e botei a ele ler tua crônica e pra variar, adorou:P Rafaela Almeida, Fortaleza-CE – jan2006

16- Há um tempinho conheço seu trabalho e gosto muito do seu jeito de escrever. Por sinal, a sua saga para deixar o cabelo crescer foi demais!!!! Passamos por isso aqui em casa, quando meu marido, analista de uma empresa super careta, resolver dar uma de roqueiro também! Meus filhos e eu quase piramos. Passamos por todas aquelas etapas, como você, porém, com um agravante: ele se recusava a reconhecer os cabelos brancos! Pronto, lá fui eu tentar uma tinta, que não fizesse cair os poucos cabelos que lhe restavam! Fizemos muitas tentativas. Ficou castanho, achou escuro! Daí resolvi apelar para o dourado. Do louro ao louríssimo foi um pulo!!! Hoje, dois anos depois, muitos cremes, reparadores de pontas(o oleozinho), mousses, arquinhos( aqueles diademas fininhos, prá prender o cabelo da franja), liguinhas e toda a parafernália que só a minha menina e eu usávamos, ele resolveu que dá muito trabalho. Resolveu cortar o cabelo. AH! Ele nem briga mais com as minhas idas ao salão de beleza todos os sábados….rsrs Quando ele leu seu texto, quase morreu de rir e disse: “Viu? não sou o único louco no mundo!!!” Vanessa Campos, Uberlândia-MG – mai2006

17- Adorei, mas seus cabelos te conferem muito charme, mesmo ralinhos. Bjo. Christina, Rio de Janeiro-RJ – mai2006

18- Prefiro do jeito que tá agora… Samara Do Vale, Fortaleza-CE – jul2013

19- Kkkkkkkkk Tentei a uns 10 anos atrás também. Mas meus cabelos ficaram mais rebeldes ainda e foram embora… Francisco Junior, Fortaleza-CE – jul2013

20- Meu querido, esse é seu visual hoje? Deixou o cabelo crescer depois de Campina Grande, ou essa foto é antiga? Rógeres Bessoni, Recife-PE – jul2013

21- Amei! Aliás, to rindo muito no seu blog! rs. Isa Suzartt, São Paulo-SP – jul2013

22- Amei! A crônica, o cabelo!!! ahh, me envia o contato da Geisa? hehe. Marisa Vieira, Rio de Janeiro-RJ – jul2013

23- ahahahahahahah ri alto de algumas cenas que te vi. Adorei a leitura! Magna Mastroianni, São Paulo-SP – jul2013

24- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Ana Claudia Domene Ortiz, San Diego-EUA – jul2013

25- Boa! Magna Vanuza Araujo, Boqueirão-PB – jul2013

26- Muito bom RK! Eu lembro desse cabelo numa palestra tua ( talvez não igual a essa foto…. Tinha bem menos ). Fiquei curiosa pra saber quem é Ziggy Kkkkk. Ivonesete Zete Nizete, Fortaleza-CE – jul2013

27- “Sou um homem mais sábio. Aprendi o que é frizz.” KKKKKKKKKKKKKK ADOREI!!! Débora Araújo, Fortaleza-CE – jul2013

28- Mais uma preciosidade! Ana Erika Oliveira Galvao, Fortaleza-CE – jul2013

29- Kkkkkkk… ADOREI!!!!!! Denise Borges, Fortaleza-CE – jul2013

30- Toma jeito Kelmer e compra um pente. Alberto Marsicano Rodrigues, São Paulo-SP – jul2013

31- Curtinho, e “faltando telha” em cima, com pêlos caindo na testa: adoro! Combina mais com seu jeito “escritor quarentão” safado. Samara Do Vale, Fortaleza-CE – jul2013

32- Boa demais! Pedro Machado, Fortaleza-CE – jul2013

33- Ainda bem que passou. Tereza Cristina da Silva, Fortaleza-CE – jul2013

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Espirros e roteiros

14/06/2013

14jun2013

Se antes eu tinha insônia por me preocupar demais em descobrir o que precisava fazer, hoje me delicio em abrir a janela dos quartos dos hotéis, molhar a ponta do dedo e botar no vento

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ESPIRROS E ROTEIROS

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Foi minha saudosa avó Waltrudes, muito católica, quem me ensinou a, depois de espirrar, dizer sempre “Ave Maria”. E se espirrasse três vezes seguidas? Ave Maria, Ave Maria, Ave Maria. Foi com essa simpática mandinga que, durante a infância, eu pedia boa saúde. Tempos depois, achei que era hora de trocar de mandinga. Agradeci à Virgem os serviços prestados e adotei um verso de Manuel Bandeira que, por aqueles dias, virou meu lema de vida. Assim, depois do espirro, passei a proclamar, solene: “Vou-me embora pra Pasárgada”. Ah, ser amigo do rei e ter as mulheres que quiser na cama que escolher… Poesia, prazeres e paixões. Saúde é isso aí!

O rei era gente boa e nossa amizade durou alguns anos. Até o momento em que o taoísmo me abriu os olhos para a necessidade de ser mais fluido com a vida, captar seus ciclos e me harmonizar com seu ritmo. Então adaptei a mandinga à ideologia taoísta: “Vou-me embora pra onde tiver de ir”. Uma frase bem simples, mas que a partir daí nortearia minha vida, sempre me lembrando que é preciso confiar e estar inteiramente disponível para a vida a cada momento.

Corta para 2004. Lá estou eu largadão em casa, fazendo as contas da classificação do time, quando recebo um convite inesperado: escrever roteiros de TV para uma produtora americana. Precisava apenas tomar o avião no dia seguinte e passar uns tempos na cidade do Rio de Janeiro, onde havia morado dez anos antes. O Rio da violência, da guerra de traficantes, daquele casal de desgovernadores… Mas não precisei pensar muito, nem espirrar, para perceber que sim, devia aceitar o desafio.

Então cá estou no Rio de Janeiro, hospedado num hotel em Copacabana. Hoje é sábado de aleluia. Daqui da janela do quarto observo o trânsito nas ruas e lembro que combinara de ir ver um velho amigo que mora em São Conrado. Acontece que o acesso ao bairro passa pela Rocinha. Alguma daquelas balas do tiroteio entre policiais e traficantes pode ter o meu nome, sei lá, nunca se sábado o que pode acontecer.

Decidi ficar no hotel. Refém da guerra do tráfico, quem diria. Vendo TV e enchendo o cinzeiro de meleca. Mas não posso reclamar. Muito pior é a situação dos moradores da Rocinha que têm suas casas invadidas por bandidos e policiais indelicados e morrem de bala perdida na sexta-feira santa simplesmente porque escolheram a hora errada de devolver a fita na locadora. Isso sim ninguém merece. Tem mais: você segue em seu carro pela avenida e, de repente, um bando de homens armados surge na pista, aí instintivamente você pisa no acelerador e por conta disso morre metralhado no volante. Os assassinos planejavam roubar carros para com eles invadir a favela, destronar o chefe do tráfico e assumir o controle dos pontos de venda. De posse desses pontos, lucrariam mais e teriam mais poder para subornar policiais, políticos e juízes. Daria um bom roteiro para Por um Punhado de Pó, né? Ou Infiltração Máxima. Mas infelizmente esse é o roteiro da vida real da cidade maravilhosa.

Minha mãe liga, preocupada com as notícias. Lamenta a hora infeliz que escolhi para morar no Rio de Janeiro. Fazer o quê, mãe, sou apenas um operário de meu próprio destino. E estou sempre aprendendo que os interesses imediatistas do ego nem sempre constroem os melhores caminhos. Por isso é que abdiquei do controle racional sobre a vida, permitindo que o próprio caminho se manifeste. É um estilo arriscado de viver, eu sei, parece não oferecer nenhuma segurança. No entanto, é assim, me dispondo para a vida, que sinto a vida mais presente, ela e seus desígnios misteriosos e sábios, e o que ela traz é tudo o que eu preciso. Se antes eu tinha insônia por me preocupar demais em descobrir o que precisava fazer, hoje me delicio em abrir a janela dos quartos dos hotéis, molhar a ponta do dedo e por no vento.

É preciso estar no mundo, mãe, ainda que ele seja um lugar violento e só haja incertezas em suas estradas. O mundo é o que ele é, bom ou ruim, e é assim que sempre foi e será. Esconder-se das dores e dos perigos do mundo é se esconder da própria vida. Pasárgada é o melhor lugar que existe, mas melhor ainda é viver no lugar onde a gente deve estar. Melhor é confiar nos ventos do próprio destino e entrar em tal harmonia com eles que o roteiro que os ventos traçarem será sempre o mesmo que você precisa – justamente porque você não deseja nada, a não ser, é claro, ir para onde tiver de ir. Atchim!

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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Bizarra vizinhança

06/06/2013

06jun2013

Qualquer dia darei minha contribuição e botarei no último volume o cedê do Geraldo Luz, aquela música que diz que o suicídio é a melhor solução

BizarraVizinhanca-01

BIZARRA VIZINHANÇA

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Finalmente consegui alugar um quarto-e-sala enquanto procuro um lugar definitivo para morar. É um pequeno apartamento, todo mobiliado. O prédio é mais velho que eu, mas está mais conservado. A dona do apê é uma artista plástica, por isso a sala é cheia de quadros estranhos, desses que a cada dia você vê uma coisa diferente. Ontem descobri um lobisomem saindo de uma concha, olhando feio pra mim…

Da janela dá pra ver o Cristo. Detesto aporrinhar os deuses, mas com uma semana pedi pro Cristo me ajudar. Sabe o que é, é o meu vizinho do sexto, ele é meio estressado, tem problema com a ex-mulher e vive gritando que a odeia e que vai matar a desgraçada, o prédio todo escuta. Minha vizinha de baixo, pra abafar os palavrões, bate carne na cozinha. A de cima berra umas músicas evangélicas, tão desafinada que Deus obviamente não vai aceitá-la. E eu no meio desse inferno.

Apesar dos queridos e bizarros vizinhos, estou gostando do bairro. Nas ruas tem muito carro, ônibus, moto, pedestre e camelô, mas de algum modo todos se entendem. Imagine um caminhão cheio de bode: na curva todos se amontoam, caem por cima dos outros, aquela confusão. Mas logo depois se ajeitam e tudo volta ao normal, né? Botafogo é parecido. A diferença é que aqui o caminhão está sempre fazendo a curva.

No primeiro passeio encontrei uma livraria, três cinemas e sete bancas de revista. E uma dúzia de bodegas. Me senti em casa. Perto do metrô vi uma banquinha de livros usados e parei pra olhar os títulos. E escutei sussurrarem meu nome… Era um livro do Castaneda, justamente o que faltava em minha coleção. O dono, um ex-hippie cinquentão, estava sentado lá dentro, incenso fumaçando, o três-em-um mandando ver no roquenrou. Ao saber que eu era do Ceará, se animou e me contou sua viagem pra Canoa Quebrada nos anos 70, mochila, carona na estrada, unzinho ao por do sol. Eu folheando o livro e ele lembrando de dunas, surubas e cogumelos, botou até uma fita do Led Zeppelin, gravação pirata. Saí de lá na maior maresia. Mas com o livro do Castaneda, e pela metade do preço. Botafogo, o bairro ideal.

Dias depois eu passava pela rua e escutei o grito: Ô, Ceará!!! Era o maluco psicodélico da banquinha, me acenando com um raro do Terence MacKenna, pechincha, dez real. Livro é mesmo uma droga perigosa. Assim como o alcoólatra não pode dar o primeiro gole, gente como eu não pode nem passar em frente a um sebo. Não resisti e levei o MacKenna. Botafogo é ideal, mas tem seus perigos.

Aos poucos, vou me ambientando no bairro, descobrindo atalhos, fazendo a simbiose. O jornaleiro guarda pra mim o JB das sextas. O dono da bodega na esquina é cearense e quando estaciono no balcão nas noites de frio, ele capricha na dose de Domecq. E na quarta-feira o cinema é mais barato, olha que bom. Só o meu vizinho estressado é que não tem jeito. Hoje, por exemplo, acordei outra vez com ele gritando e quebrando as coisas em casa, e embaixo o bate-bate na tábua de carne, e encima os aleluias desafinados. Reclamei com o Cristo, mas ele anda ocupado desviando balas perdidas. Qualquer dia darei minha contribuição e botarei no último volume o cedê do Geraldo Luz, aquela música que diz que o suicídio é a melhor solução. Bizarro por bizarro…

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

> Pois o suicídio ainda é a melhor soluçãããooo…
Escute a música de Geraldo Luz (A droga)

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01- Kelmer, olha que “dunas, surubas e cogumelos”…. KKKKKKKK ADOREI!!! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK. Gustavo Lima Verde, Fortaleza-CE – jun2013



Paz e amor express

06/12/2012

06dez2012

Durante cinco dias, o Festival Express cruzou a leste-oeste do verão canadense levando em seus vagões os ideais da união pela música, a esperança ainda viva de um mundo de paz e amor

PazEAmorExpress-1

PAZ E AMOR EXPRESS

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Em 1970, uns produtores malucos tiveram uma ideia maluca: alugar um trem, botar dentro um povo bem maluco e percorrer o Canadá fazendo shows de rock e blues. Que ideia abençoadamente louca! Durante cinco dias, o Festival Express cruzou a leste-oeste do verão canadense levando em seus vagões os ideais da união pela música, a esperança ainda viva de um mundo de paz e amor. Os passageiros? Anote aí: Janis Joplin, Greateful Dead, Buddy Guy, The Band, Sha Na Na, Flying Burrito Brothers e outros, tudo gente boa. A viagem está registrada num filme, Festival Express (direção de Bob Smeaton), que após trinta anos de pendengas judiciais, finalmente foi liberado para exibição.

Escolho a sessão da meia-noite do domingo. Um horário maluco para um filme maluco, podiscrê. Masco meu chiclete alucinógeno, entro no clima e me mando para o Espaço Unibanco. A fila para entrar é enorme, atrás de mim uma camiseta Janis Joplin Forever, na frente uma do Raulzito, todo mundo empolgado, ninguém quer perder o trem. A sala fica lotada, gente sentada no chão. As luzes se apagam, a viagem vai começar…

Se Woodstock foi um presente para o público, o Festival Express foi um presente para todos aqueles músicos. Os produtores lhes proporcionaram uma viagem inesquecível pelas paisagens canadenses, a raríssima oportunidade de estarem todos juntos num trem, muita música, a filosofia de paz e amor, algo que jamais aconteceria de novo. E eles aproveitam até a última ponta aquela louca festa sobre trilhos. O vagão-bar é o mais concorrido: um chega com a guitarra, outro traz a percussão, um beque em lá maior e a festa vira a noite, sem hora para acabar, como todas as festas deviam ser.

Sabe as rodinhas que a gente faz com os amigos, birita e violão, as músicas preferidas, falar besteira, celebrar a amizade, brindar à vida? Pois imagine a rodinha com aqueles malucos geniais, tudo chapado, se abraçando, improvisando letras absurdas em músicas sem pé nem cabeça, o uísque rolando solto, a fumaça no meio do mundo, Jerry Garcia no violão, Janis morrendo de rir… Como eram as músicas? Ah, bem profundas, coisas do tipo Tudo foi queimado até o talo… e o horizonte se abriu… uou-uou-uuu…

No meio da viagem acaba a birita. Os aloprados simplesmente beberam todo o bar do trem, bando de esponja. E agora? Roquenrôu is ríar tuistêi, mas sem encher a lata não dá, né? Paraí, motorista, vamos resolver esse problema! Então os malucos entram na primeira loja e compram todo o estoque de bebida, saem levando caixas e caixas, rindo como crianças fazendo danação. Agora sim, singue dâ blus, mêm!

A viagem está tão viajante que os músicos esquecem que têm de fazer shows, ih, é mesmo, o show… O trem para em Toronto, desce todo mundo, vamos trabalhar. A multidão fora do estádio é tamanha que o show é transferido para a praça. Quando Janis surge na telona do cinema corre um frisson pela plateia, exclamações, gritinhos. Eu me ajeito na poltrona, sei que lá vem paulada. A bluseira texana manda ver Cry Baby, aquela fossa doída que só ela sabia cantar, honey, i know she told you that she loved you much more than i did… Estou paralisado, nem pisco, but all i know is that she left you… São sete minutos antológicos, Janis berrando, miando, se descabelando, Janis rasgando a alma com o punhal de seu blues, o sangue respingando tela afora, i’ll always be around if you ever want me… Olho para trás e vejo duzentos pares de olhos arregalados, todos em transe. Esse é um de seus últimos shows, em breve ela partirá, so come on, come on and cry, baby… Estou todo arrepiado e não contenho as lágrimas. Quando Janis termina, o cinema inteiro explode em gritos emocionados como num show ao vivo, as pessoas se levantam para aplaudir, coisa de louco.

O filme também mostra um solo inenarrável de Buddy Guy, performances conjuntas das bandas e depoimentos dos artistas e produtores, além das belas imagens do público, aquela gente bacana e suas roupas coloridas, às vezes sem roupa mesmo, tudo na paz, ainda botando fé que as flores venceriam os canhões. Mas infelizmente a viagem dos anos 60 já estava no fim. Os Beatles pediram o divórcio e Janis, Jimmy e Jim saltaram do trem, não viveriam para ver em que se transformaria o mundo que eles um dia sonharam, esperançosos, que podia ser melhor. O trem dos sonhos parou, foi recolhido na garagem da história e fecharam o portão. Ficaram as músicas, as imagens. E a guimba de uma esperança, pequenininha, quase nada, mas que insiste em não apagar. 

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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Esta crônica inegra o livro Blues da Vida Crônica

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FILMEFestivalExpress-03FESTIVAL EXPRESS
Reino Unido/Canadá 2003
Dir.: Bob Smeaton
Com Janis Joplin, Greateful Dead, Buddy Guy, The Band, Sha Na Na e outros

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Janis em Cry Baby (Festival Express, Toronto, 1970)

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Trecho do filme Festival Express
Festinha num dos vagões do trem. Pense numa chapação grande…

 

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RK201401EitaPazEAmorExpress-03Performance da crônica Paz e Amor Express (Eita Sarau, jan2014, São Paulo)

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Odair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

Maluquice beleza – Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra

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Rumo à estação simplicidade

05/11/2011

05nov2011

Jurei me manter sempre no caminho, sem pesos nem apegos excessivos, pronto para pegar a estrada no momento em que a vida assim quisesse

RUMO À ESTAÇÃO SIMPLICIDADE

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São Paulo surge aos poucos, me dando as boas vindas através das fábricas, indústrias e motéis que passam pela janela do ônibus. Ao longe, a silhueta paulistana de concreto, os altos prédios envoltos naquele eterno abraço cinzento. Aqui na poltrona, eu respiro fundo: mais uma estação, lá vamos nós, ô vidinha cigana…

Intuição. Ela de novo. Fazia uns meses que a danada sussurrava em meu ouvido, apontando os sinais pelo caminho. Até que, naquela manhã de primavera carioca, me espreguiçando na cama, lembrei do sonho que tivera. E então eu soube exatamente o que deveria fazer, uma certeza tranquila, que vinha não apenas da mente, mas também do corpo inteiro. Saltei da cama e enviei mensagens aos amigos, avisando que iria tentar a vida em São Paulo. E comuniquei à dona do apartamento que eu desocuparia o quarto no fim do mês. E onde ficaria em São Paulo? Não sabia. Mas isso não importava, o importante era que eu havia decidido. E que os sinais do mundo concordavam comigo.

Mudanças, mudanças… Já devia estar acostumado, eu sei, mas é que ainda não consegui me livrar desse friozinho que dá na barriga, o próprio corpo querendo me lembrar do pacto. Sim, um dia fiz um pacto: jurei me manter sempre no caminho, sem pesos nem apegos excessivos, pronto para pegar a estrada no momento em que a vida assim quisesse. E em troca dessa disponibilidade, a vida cuidaria do resto.

Percebi que, de fato, precisava ser ainda mais desapegado quando chegou a hora de me desfazer dos excessos acumulados em dois anos de Rio de Janeiro. Não era muita coisa, mas para quem está sempre se mudando, qualquer peso a mais faz diferença. Além do mais, eu nem sabia onde ficaria em São Paulo. E estava levando o computador. E ainda havia os meus próprios livros, que preciso ter sempre comigo para vender, afinal ainda sou um escritor camelô. Então a mesa e a estante eu dei. A tevê eu vendi. Pensei em levar o ventilador, mas desisti, seria um capricho. E as roupas, deixei metade delas, não foi tão difícil. Porém, admito que fraquejei ao me despedir de uma mimosa calcinha, lembrança de uma noite especial. Desculpa, dona da calcinha, mas até os caprichos românticos pesam na mochila.

Levei alguns dias para me desfazer dos livros e cedês. Cada vez que fazia a triagem, faltava coragem e eu deixava para amanhã. Mas não tinha outro jeito, e acabei dando todos os cedês, não escapou nem mesmo o da Intocáveis Putz Band, que entreguei olhando para o outro lado, para nem ver. Com os livros, porém, o dilema alcançou proporções horripilantes. Era a escolha literária de Sofia: precisei ir várias vezes ao sebo, cada vez levando um pouquinho mais de livros. No fim, decidi que iriam comigo apenas meu velho I Ching e uma dúzia de livros que precisava ler com urgência. Sentia-me triste por abandonar os velhos companheiros, mas ao mesmo estava aliviado por fazer o que devia ser feito.

Então lá estava eu olhando para os meus pertences, tudo socado em uma bolsa, duas mochilas e três caixas, sendo duas só para o computador, esse trambolho. Notebook para o escritor camelô! – esta será minha próxima campanha da fraternidade kelmérica. Pois bem, aquela tralha toda me repreendendo, ô rapaz, você tem que se tornar mais leve e ágil, quando… puff, captei! Subitamente compreendi que o tal pacto que eu fizera anos antes era mais sutil e profundo do que eu imaginava. Tratava-se de se tornar fisicamente leve, sim, para se sair bem nas mudanças – mas tratava-se também de se tornar leve de espírito, de se desapegar cada vez mais de ideias e padrões de comportamento que se tornaram pesados. Assim como as coisas se acumulam no armário, certas ideias e posturas também perdem a utilidade e, se antes eram fundamentais, com o tempo se tornam meros caprichos, e mais adiante viram um trambolho difícil de carregar. Era incrível, o pacto tinha outra camada de entendimento por baixo… A vida parecia jogar comigo, deixando mensagens cifradas pelo caminho.

Salto na rodoviária, pisando finalmente o chão paulistano, nas mãos o endereço de uma casa na zona sul. Lembro do velho ensinamento taoísta que diz que a simplicidade é a última das estações – será que ela ainda está muito longe? Enquanto o táxi avança pelas ruas, sinto-me estranhamente leve e confiante, acho que ainda estou sob efeito do clarão de percepção do dia anterior, parece um baseado de efeito prolongado. Então sorrio, pensando no quanto tentamos controlar a vida e complicamos tudo. E rio ao lembrar que uma semana antes eu não tinha sequer um lugar para ficar. Rio mais ainda quando lembro que não tenho nenhum trabalho à vista. Chego quase a gargalhar pensando na ridícula simplicidade e obviedade de tudo… O motorista me olha desconfiado. Como dizer a ele que acabo de descobrir que a coisa mais simples que pode existir é… viver?

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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Necessário, somente o necessário
trecho do filme Mogli, o Menino Lobo (1967)

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ICI2011Capa-01dO Irresistível Charme da Insanidade
Ricardo Kelmer. Romance

Dois casais, nos séculos 16 e 21, vivem duas ardentes e misteriosas histórias de amor, e suas vidas se cruzam através dos tempos em momentos decisivos. Ou será o mesmo casal? Nesta história, repleta de suspense e reviravoltas, Luca é um músico obcecado pelo controle da vida, e Isadora uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. A uni-los e desafiá-los, o amor que distorce a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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É proibido fazer blues na praia – Arriscar outros movimentos, sem ficar determinando de antemão que é impossível, não pode não senhor

I Ching das patricinhas – Se alguém procura revelações com pressa e sem seriedade, jamais terá as revelações

Somente o necessário – É o urso Balu quem ensina: Necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais

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O dia em que morri no Rock in Rio

18/09/2011

18set2011

O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

O DIA EM QUE MORRI NO ROCK IN RIO

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Janeiro de 1985. Cidade do Rio de Janeiro. Missão Rock in Rio 1. Plano: burlar a segurança e entrar com uma garrafa de Tonel 21, cachaça da boa. Ok, plano bem sucedido. Agora eu e meu amigo Paulo podemos relaxar um pouco: um gole na bicha, um olho no palco, outro nas garotas. Cem mil pessoas em celebração. Outro gole. É um sonho pra mim. Vinte anos, estudante de comunicação, cabelão no ombro e oclinhos redondos à John Lennon. Todo pronto pra ver Rod Stewart, o ex-coveiro da voz rouca. Mais um gole. Putz, a vida é mesmo um filme emocionante!

Paralamas, Moraes Moreira, Rita Lee – no palco, o time doméstico dava seu recado. No gramado, eu e Paulo vivíamos intensamente o primeiro ano do resto de nossas vidas. E tentávamos prosseguir no plano: conseguir um baseado. Dizem que é pecado, mas não perderíamos a chance de começar a pecar em pleno Rock in Rio. Conseguimos um enorme e, aventureiros inexperientes, mandamos tudo de uma vez. Logo a mente e o corpo adentravam outro nível de realidade e tudo ficou diferente. Mas havia algo estranho, todos olhavam pra mim com aquelas máscaras das crianças em The Wall. Cem mil olhares inquisidores me perseguindo onde quer que eu fosse, inútil se esconder. Como todos podiam saber que eu estava doidão? Um real e amargo pesadelo.

Pouco depois comecei a me sentir enjoado e o enjoo foi piorando até que não me aguentei mais em pé. Revelei ao meu amigo: Paulo, eu tô morrendo…, e ele caiu na gargalhada, calma, Bete, calma. Bem, já que eu era um cabra marcado pra morrer, pelo menos morresse decentemente. Fraco e inteiramente chapado, me dirigi às bilheterias desertas. Arrumei uns papelões e deitei sob uma catraca. Meio litro de cana no sangue mais um torpedo canábico na mente tinha que dar nisso: todo o meu eu era uma rebelião em alto mar. Paulo, deixo pra você meu livro do Pessoa, e se encontrar a moça do ônibus, diga que eu a amo… Então, fechei os olhos e saudei Nick Beal, o agente do Inferno que chegava pra me levar à ilha das almas perdidas…

Mas Beal não veio. Preferiu curtir Ozzy Osbourne berrando lá no palco. Salvo pelo Ozzy, que ironia. Abri os olhos e percebi que estava vivo. E Paulo ao lado, vigiando minha morte. Dois perdidos numa noite suja. Das profundezas de minhalma uma voz ordenou que eu levantasse e fosse pra enfermaria. Meu amigo desaprovou: Tá louco, vão descobrir que você fumou, vão te prender! Amizade em conflito. Concordei e disse que então iria comprar algo pra comer. Saí… mas desviei pra enfermaria. Estava realmente decidido em minha tragédia de homem ridículo. Não me pergunte como, mas cheguei lá. Aí olhei a fila e desanimei: duzentas pessoas aguardavam atendimento.

Mas os lobos não choram. Furei a fila e balbuciei ao atendente: Eu tô morrendo… Acho que ele concordou, pois ato contínuo me botou pra dentro. Fui levado a uma saleta toda branca onde uma fria médica nazista me atendeu. Quis saber nome, endereço, idade, o tamanho do bagulho, ia anotando tudo. Era o terror kafkiano, eu morrendo e tendo que passar pela burocracia de um inquérito absurdo. Ah, mas aquela médica partidária do Grande Irmão não me pegaria tão fácil. Então menti em todas as respostas, eh, eh, eh. Depois estiquei o braço e puff!, injeção de glicose na veia. Deitei na maca e apaguei.

Súbito, percebi uns acordes… eram familiares… vinham de muito longe… Rod Stewart! Começando a cantar You´re in My Heart, uau! Despertei de um salto. Sentia-me bem, inteiramente revigorado. Quanto tempo se passara? A médica nazista não estava mais na sala. Na maca ao lado um rapaz se contorcia numa viagem pior que a minha, eu podia escutar os gritos do seu silêncio. Era preciso fugir daquele terrível asilo. A música estava acabando, o destino batia à minha porta e não havia muito tempo.

Boto meus oclinhos. A porta da saleta está aberta. Meto a cabeça no corredor e de lá avisto a saída do asilo. Brad Davis escapando daquela penitenciária turca. Deixo meu dublê de corpo lá na maca e saio em disparada pelo corredor, empurrando os enfermeiros. Corra, Lola, corra! Ah, não, me empolguei, desculpe, Lola é mais recente. Na saída, salto a corda e, nas asas da liberdade, me infiltro na multidão. Estou salvo. Já não precisam me mandar flores. Posiciono-me num lugar razoável e enfim concretizo meu sonho de ver o velho Rod. Missão cumprida.

Depois desse sufoco até o compadre 007 diria nunca mais outra vez. Mas Sua Majestade entenda: tenho apenas vinte anos e todo o pique do mundo. E sou eterno. Assim como os diamantes.

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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica está cheinha de referências a filmes de 1985 e de anos anteriores. Quais você encontrou?

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Rod Stewart canta You’re in My Heart
no Rock in Rio de 1985
+ clipe do festival

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Ser mulher não é pra qualquer umÉ dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

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A pouca vergonha do escritor peladão – Foi minha vizinha louca de Botafogo, a Brigite, quem me deu a ideia: Por que você não faz um ensaio fotográfico peladão pra comemorar seus 40 anos?

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01- Cada história, hein, seo Kelmer. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – set2011

02- É uma figura!! Carmem Mouzo, Rio de Janeiro-RJ – set2011

03- Peguei todas as referências cinéfilas dos anos 80, nesse Expresso da Meia-Noite no Rock-n-Rio entre dois Daunbailó! Divertido… Téo Lorent, São Paulo-SP – set2011

RK: Expresso da Meia-Noite (dir: Alan Parker, 1978). Ponto para Téo Lorent! Mas Daunbailó (Jim Jarmusch) eu não citei não, até porque não havia visto. 🙂

04- Não ligue para o seu passado, vai que ele atende!!! Nonato Freire, Salvador-BA – set2011

05- Adorei, ri de montão por aqui, vc a cada dia me surpreende mais. Bjokinhas. Mariucha Madureira, Brasília-DF – set2011

06- Ricardo, Valeu pela cronica meu velho ! Adorei … nesta época de Rock in Rio vale demais relembrar aonde e como cada um de nós estava no priemrio. Eu, por exemplo, estava em Quixeramobim assistindo tudo pela TV com uma sensaçao muito estranha de estar no lugar errado na hora certa ! um abraço forte. Tibico Brasil, Fortaleza-CE – set2011

07- muito boa, kelmer! adorei essa. lembrei quando fui ao meu primeiro hollywood rock ver bob dylan… e quando tomei todas na abertura do roger waters… quase perdi essa apresentação por causa de uma garrafa de roseira, uma pinga feita pela minha família lá no sul de MG… adorei a crônica! abç. Rodrigo Oliveira, Fortaleza-CE – set2011

08- hehehe, jóia! Giovanni Iemini, Brasília-DF – set2011

09- ‎”O dia em que morri no Rock in Rio” me deu espasmos de risos. Só tu mesmo, visse. Excelente! Rafaela Silva, Campina Grande-PB – set2011

10- Adorei! Ana Maria van Erven de Figueiredo, São Paulo-SP – set2011

11- Ótimo, Rico. Marta Crisóstomo Rosário, Brasília-DF – set2011

12- Se eu não tivesse nascido em meados dos anos 80, certamente teria pulado “o muro” com vocês “dois, perdidos numa noite suja”, e seria mais uma dando uma de “james bond”, nessa “ilha das almas perdidas” que descreveu… De fato, Kelmer, estaria também “marcada para morrer”. mas “os diamantes são eternos”, et voilà, aqui estamos nós! prontos para qualquer Rock in Rio que porventura possa acontecer… vou indo sr. dos labirintos descritivos, não fique triste. afinal, “lobos não choram”. Érika Zaituni, Fortaleza-CE – out2011


Inculta e bela, dengosa e cruel

16/06/2009

16jun2009

Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

IncultaEBelaDengosaECruel-8

INCULTA E BELA, DENGOSA E CRUEL

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O plano era ficar na cidade um ou dois anos, descansar, rever amigos e família, escrever o novo livro sossegado. Depois pegar a estrada novamente. Mas Fortaleza tem pernas lindas, não sei se você já percebeu, e mais uma vez a danada me enfeitiçou, me envolveu. Isso dá um samba apaixonado, né? Tanto dá que acabei ficando. Sete anos de um romance daqueles: quanto mais briga, mais prazer no enredo da paixão.

Fortaleza tem um corpinho generoso, taberna sem hora para fechar. Muito nos divertimos, eu e ela por aí, miando nos telhados. Depois da festa eu me esquecia em seu colo e adormecia sorrindo. Mas sempre despertava assustado no meio da noite, o horizonte sussurrando meu nome… Eu sou da estrada, ela sempre soube, a poeira do meu casaco ela nunca conseguiu tirar. É no horizonte ali na frente que os meus sonhos reluzem, eu nunca escondi. Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar.

Ah, o desafio de ser escritor num país de não leitores… Um desatino, claro, coisa de quem não tem juízo. Mas fazer o quê se me excita isso de estar no mundo por um fio, se me seduzem as curvas incertas do mundo? Imperdoável é morrer sem tentar.

Já se passaram alguns meses. Queria saber como ela está. Quem sabe falando de mim, Fortaleza resolva ligar. Então esta singela cartinha escrevi. Alguém, quem sabe você, a encontrará por aí e dirá: ele escreveu, está bem, ancorou em Botafogo, é o abraço do Cristo que o acorda de manhã. Mora sozinho, faz sua comida, escuta o disco da Kátia, saudade de todos. Trabalha com roteiro de cinema e TV, finaliza o livro novo. E gosta de pegar a última sessão do Espaço Unibanco, é pertinho, vai a pé, achando graça dos bêbados nos botequins.

Diga para ela que tenho saudade, claro que sim. Dos amigos para toda obra, dos bares tão familiares, a noite dengosa. As coisas engraçadas que ela diz, a comidinha que só ela faz. Eu olho as modernidades daqui e lembro de seu jeito brejeiro, o falso verniz cosmopolita, o sotaque que ela tenta esconder nos letreiros em inglês. Fortaleza é uma menina deslumbrada, lindamente incoerente: de segunda a sábado importa modernices, e no domingo veste a roupa melhor que tem.

Mas toda linda menina é sádica. Ela brinca de morder e soprar com seus artistas. Eu lembro deles e chego a achar poético o eterno sufoco, a patética dificuldade de voar. Quase acho belo a pouca sorte, o ar cultural rarefeito, a arte com falta de ar… Mas então lembro de mim mesmo, suando na aridez dos dias claros, tão sádicos de sol, tanto sol na vista e nada em vista, nada que invista. Não, não é poético. Não é belo engravidar de uma ideia, parir com esmero, embalar o sonho, criar projetos e ver a prole chorar na barra do vestido, a vida passando e a arte com fome, a vida com fome de arte, vida e arte sem ter o que comer.

Fortaleza não gosta que eu fale assim. Mas é a verdade, seu amor verdadeiro é para forasteiro. Ela se magoa, faz contas, lista desculpas. Eu digo que é desculpa de quem não quer, de novo a velha discussão. Ela desconversa, me chama para sair, se esbaldar nos forró-tais da vida. Obrigado, meu amor, mas esta noite preciso ficar só, tenho uma decisão a tomar. Ela pressente e diz que sou igual a todos que se foram, por isso é que a esses ingratos não lhe interessa agradar. E sai, batendo a porta. Para dias depois voltar, as pernas no vestidinho preto, ai, ai, tirando agradinhos da sacola: uma livraria nova, um espetáculo diferente, festival na serra, bienal. E eu, que só quero um pretexto para ficar, sorrio deliciado e outra vez esqueço de ir…

Ela já sabe mas, só para finalizar, diga que não guardo mágoas, sei que tudo é difícil. Mas lamento. É pena que no dia seguinte seus amantes tenham de ir, levando sua arte, empobrecendo a paisagem. Se ela não os sufocasse tanto, quem sabe ficariam, tudo seria diferente… Mas deixa, não precisa falar. Amar é aceitar, não é assim que se diz? Então tá. Aceito Fortaleza como é, inculta e bela, dengosa e cruel. E ela aceita minha fome de horizontes. E prometemos nos respeitar, na alegria e na tristeza. E assim vamos levando nosso amor, brindando às noites maravilhosas que vivemos e ao belo futuro que jamais nos pudemos dar. Tim-tim!
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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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INCULTA E BELA, DENGOSA E CRUEL (trecho)
Gravado em jul2017, Praça dos Leões, Fortaleza

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FALARAM POR AÍ

Uma noite kelmérica – Herlene Santos escreve sobre a palestra a que assistiu em 2012, em especial sobre a crônica Inculta e Bela, Dengosa e Cruel

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MaiorQueMeuHorizonte-03aMaior que meu horizonte (por Wanessa, inspirado na crônica Inculta e Bela, Dengosa e Cruel) – E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

Essa loirinha desmiolada de sol – Duvido que ela tenha uma marquinha de biquíni assim – a loirinha insiste, com a graciosidade tristonha das cidades que sabem que seus argumentos são ótimos mas que não vão adiantar

Confissões de uma leitorinha nua (por Leitorinha) – Fiquei tão à vontade pra ler a página dele na net que agora o fazia completamente nua

Nas curvas do teu litoral – Uma música para Fortaleza

Crimes de paixão – Detetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite

O reino encantado de Jericoacoara – Perder-se em Jeri, eu recomendo. Perder-se de paixão. Perder a noção do tempo, a carteira de identidade, o medo de se experimentar…

Postagens nos temas “biográfico” e “Fortaleza”

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01- Você a cada dia está melhor. Ler tuas crônicas é alimento, numa cidade que nada diz. Resta-nos somente apreciar a Luizianne na TV como alento e desejar que o Moroni não seja nossa próxima programação. Que bom que o teremos mais perto nos diários do povo. Quem sabe assim consigamos nos realegrar com sua poesia e sorriso. Saudades de você meu caro. Ricardo Black, Fortaleza-CE – out2004

02- Grande morador da Eduardo Guinle, Muito boa essa crônica, como afinal são todas as suas. Fortaleza já disse se gostou ou não?… Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – out2004

03- Prezado Ricardo Kelmer, digo, prezado, tanto pela formalidade, quanto pelo prazer que tive ao ler a sua crônica-carta, publicada no jornal O Povo, de 09 de outubro. Eu, que sou fortalezense desde o começo, sinto coisas muito parecidas, quando baixa o tédio por falta de outros horizontes de cultura e profissão. Já tentei partir várias vezes e volto sempre: pela beleza do mar, do céu azul, do sol dourado; pelo clima agradável, caminhadas na praia, amizades boas, familiaridade dos lugares, informalidade dos bares, sei lá o que mais…. Você tem razão, é se fazendo dengosa que ela esconde o lado inculto e cruel: com um jeitinho meio bobo, matuto mesmo, vai fazendo você de besta; sorri alegre e vai lhe enfiando a faca, lhe tirando o tapete dos pés, oferendo o melhor para os amigos e familiares, envenenada de inveja do sucesso alheio, fechando portas como quem convida para uma festa. É dançando forró que Fortaleza vai lhe dando um traço. Estou fazendo novamente as malas e já sentindo saudade. Pode??? Parabéns pela crônica! Acho que você pisou no rabo da cobra. Juraci Maia, Fortaleza-CE – out2004

04- Oi Ricardo, Muito boa, a crônica. Adorei! Mas acho que vai tocar sempre quem “mora” em Fortaleza e por algum motivo tem que estar fora. Melhor ainda foi saber que você mora só, acorda com o Cristo, ouve música e vai ao cinema. Sinal que está bem, em? Você estará em Fortaleza no natal? Eu e o Valmir iremos … Aqui tudo bem. Estivemos em Paris semana passada e encontramos com Valdo e Paulinha. Nada das farras de antigamente, porque agora eles estão com uma filhinha e tudo mudou. Beijo grande Liliana Costa, Lisboa-Portugal – out2004

05- Vejo que a distância e a saudade te fez escrever melhor ainda. A “croniquinha” está bela e verdadeira. Bela porque trágica, verdadeira porque cômica. Comer o quê? Precisa ter fome de algo. Esta fome existe por aqui também, as pessoas é que não sabem ainda o que seria uma boa e saborosa refeição. É questão de gosto, educação e oportunidade. Tem quem tem, não é nem quem pode, porque muitas vezes quem pode tem é menos ainda. Bem, que se fodam os outros, penso eu que apenas consumo arte. Para quem faz é um pouco diferente. Abraço e parabéns pelos sonhos. Do amigo, Ronald de Paula, Fortaleza-CE – out2004

06- É meu amigo, corajoso é você que consegue ficar longe de Fortaleza, mesmo com o coração doído. Temos saudades. Um abraço. Claudio Roberto, Fortaleza-CE – out2004

07- Ricardo, deliciei-me com cada palavra que voce escreveu. Vi-me refletido na tela do computador e em cada expressao de amor e saudade que voce desenhou com suas maos de poeta. Aqui, milhares de quilometros distantes – que podem ser traduzidos em dois dias de viagens de aviao – a presenca ausente dessa nossa namorada partilhada e ainda maior. Lembro-me do Fagner que dizia ter necessidade de voltar a Fortaleza pelo menos uma vez por ano para se reenergizar. Quando ouvi aquilo a primeira vez pareceu-me coisa de artista. Hoje sinto exatamente a mesma coisa. Tenho falta de Fortaleza (e do Ceara) como se fosse parte de mim – apesar de nao ter nascido la (que esta aqui dentro de mim). Assim, ela nao e minha mae. E minha namorada. Eu a conquistei e fui conquistado por ela. Tin-tim pelo texto e pelas palavras que transmitem o que tambem sinto. José Paulo de Araújo, Filipinas – out2004

08- Adorei o texto, saudades … Bj Liége Xavier, Fortaleza-CE – out2004

09- Porra Ricardo, adorei esta tua crônica. Com licença, mas repassei a alguns amigos exportados. Um abração e boa sorte sempre. Crisóstomo Frota, Fortaleza-CE – out2004

10- KELMER li também essa no jornal o povo. me emocionei com essa cronica. falei pros amigos no sábado à noite no bar do papai e recomendei a leitura. um grande abraço! Ciribá Soares, Fortaleza-CE – out2004

11- Eis eu aqui pensando que tive uma dia otimo, na chegada do outono, as folhas em tons de laranja, vermelho, amarelo. Chego em casa, abro o e-mail e sua cronica poe meu coracao num aperto de doer, de saudade, de Fortaleza, de mim, dos amigos, de voce. Queria eu escrever assim e deixar que as palavras confortem e aceitem o que nao pode ser negado, que o destino que escolhemos nos levam para longe de Fortaleza, lugar inexplicavel porque gera dentro da gente uma paixao sem medidas, insubstituivel e que para onde sempre retornaremos, mesmo que os nossos barcos deem a volta ao mundo. Muitas saudades e obrigada…. Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – out2004

12- Achei linda a crônica. Já havia lido. Aliás, estou concluindo minha especialização sobre crônica e concorrendo ao mestrado de literatura tbm sobre crônica em 2005 (Rubem Braga). Gostei muito de ler como essa amante ingrata trata seus talentos e recebe os externos. A má e bela criatura está quase me fazendo desistir dos seus encantos e dos dois únicos bares que freqüento. Mande notícias do mundo de lá… Beijos. Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – out2004

13- Ei amigo, Surpreso fiquei em saber que vc. não está morando em Fortaleza. O que a vida nos faz ! Sua crônica é “demais”, até fiquei com saudades, não sei se de Fortaleza ou de você, com seus pensamentos tranquilos e aquela habilidade sinucal. Quem sabe vc. não encontra um parceiro, nesses bares famosos do Rio e joga algumas partidinhas. Espero que tudo esteja legal com vc., gosto muito de receber seus e-mails e desejo toda a SORTE do mundo. Fortaleza tem braços longos e está te abraçando daqui. Forte abraço. Claudio Angelim, Fortaleza-CE – out2004

14- ola! Querido Ricardo Foi uma surpresa enorme receber sua cronica, fiquei feliz tao feliz que espero receber outras, e bom saber que nao esqueceu de mim dentro tantos amigos antigos, e eu hoje me considero tb uma amiga de verdade… e muito proxima.. espero que venha volte aqui e possamos nos encontar assim no caso como naquele dia da Plaza, que tenha todo o sucesso no Rio… e seja muito feliz mil bjos. Teresa Lia, Fortaleza-CE – out2004

15- Inculta e bela, dengosa e cruel, uma das mais belas páginas q já li. Guardarei para netos. Parabéns… Aládia, Fortaleza-CE – abr2005

16- Linda essa homenagem…! Pior é que Fortaleza é isso mesmo: aquela primeira pinga (vodka, vinho, champagne) que se quer evitar, mas depois que experimenta, sempre volta prá bicar. É o velho dilema, ficar no colinho de mamãe ou ganhar o mundo! Lucilene Anderson, Brasília-DF – abr2005

17- Oi Ricardo, Adorei essa crônica sobre Fortaleza, pois moro aqui a muito tempo e nunca parei para ver minha cidade dessa forma. Já fui morar em Recife, não gostei a saudade era muita e acabei voltando. Foi como se Fortaleza guiasse minha vida. Parabéns adorei. Estou amam Você. Cacilda Luna, Fortaleza-CE – jun2005

18- Meu velho amigo, acabo de ler “Inculta e bela, dengosa e cruel”. Obrigado Ricardo, a emoçao q eu e a Sephira sentimos com essas suas letras foi muito intensa e verdadeira. Um grande abraço e espero de te encontrar de novo um dia, ou melhor uma noite, quem sabe nos bares de Fortaleza.” Daniele Schiavi, Verona, Itália – nov2009

19-  Gosto demais desse texto… Beijo! Dalu Menezes, Fortaleza-CE – abr2013

20- Nunca tinha lido nada que representasse nossa capital de maneira tão digna. Claro, isso foi até eu ler a poesia a lá Ricardo Kelmer *-* Herlene Santos, Fortaleza-CE – abr2013

21- Ain eu já tinha lido, e adoro esse texto. Não encontrei nenhuma outra crônica que ficasse à altura dessas palavras seduzentes do Kelmer, homenageando Fortaleza. Simplesmente lindo *u* Beijo Kelmer. Cynthia Martins, Fortaleza-CE – abr2013

22- O cara eh bom mesmo, parabens a Fortaleza e a vc, claro. Henrique Vilela Sales, Fortaleza-CE – abr2013

23- Adoro demais esse texto, muito significativo. Parabéens, Kelmer. Alana Gabriela, Fortaleza-CE – abr2013

24- Linda Nossa Fortaleza!!! Míriam Cearucha, Porto Alegre-RS – abr2015

25- Massa Ricardo Kelmer. Ana Lucia Castelo, Newark-EUA – abr2015

26- Adaise Brasil, Joel Brasil, hj é dia da terrinha. Ada Maia de Sousa, Fortaleza-CE – abr2015

27- O mais perfeita tradução de Fortaleza! Amei. Bete Augusta, Fortaleza-CE – abr2015

28- saudades…. Susana X Mota, Leiria-Portugal – abr2015

29- Show, amigo! Paulo César Norões, Fortaleza-CE – abr2015

30- Maravilhoso!!!! Carla Soraya Florêncio, Fortaleza-CE – abr2015

31- Tens q conhecer Porto Alegre, para escrever algo. Carla Lsp, Porto Alegre-RS – abr2015

32- Lindo, adorei!!!!!!!!!!!!!!! Luciana Brasileiro de Holanda, Fortaleza-CE – abr2015

33- Amo linda graciosa é a nossa Fortaleza. Milca Maria Alves Costa, Fortaleza-CE – abr2015

34- …ameiiiii!! sucesso meu lindoo. Katia Knox, São José dos Campos-SP – abr2015

35- Não conhecia Kelmer! Maldade chamá-la de inculta, fedorenta ainda vai…. rsrsrssrsrsr. Lílian Martins, Fortaleza-CE – abr2015

IncultaEBelaDengosaECruel-8a


Protegido: Íntima idade (o ensaio peladão)

16/01/2009

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Os discretos sócios do narcotráfico

15/12/2008

15dez2008

Quem ganha e quem perde com a proibição das drogas?

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OS DISCRETOS SÓCIOS DO NARCOTRÁFICO

(2a parte da trilogia Rio Droga de Janeiro)

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Todo mundo está careca de saber que há policiais que são pagos pelos próprios bandidos, ganhando muito mais que seu baixo salário na corporação. O narcotráfico paga, e muito bem, a advogados, juízes, políticos, religiosos, empresários e, não duvide, até a governantes que fazem acordos com as quadrilhas. Todos são elos na longa rede do narcotráfico e todos lucram com a ilegalidade da droga. São sócios discretos da bandidagem, e para eles o caos social é financeiramente vantajoso, nada de mudanças, por favor.

É tanta a dinheirama envolvida que as ideologias, o bom senso e a consciência ficam em segundo plano. Que se foda o mundo! ‒ pensa o sujeito ao fazer as contas de quanto lucrará dando uma mãozinha, só uma mãozinha, ao tráfico. Vai todo mundo para o inferno mesmo, o que é que eu vou ficar fazendo sozinho no céu?… Pois é. Todo mundo comprado. Parece aqueles filmes onde o mocinho descobre horrorizado que todos ao redor são cruéis alienígenas disfarçados e que não há saída.

O negócio da droga ilegal é o maior do planeta, movimentando imensas fortunas. As quadrilhas internacionais mexem também com pirataria de CDs e DVDs, cigarros, armas, tráfico de órgãos, imigrantes ilegais… Elas movimentam mais dinheiro que um país inteiro. E os governos? Ah, sim, os governos. Bem, eles declararam guerra às drogas, claro. Que nome pomposo! Dá quase para ouvir as cornetas e os tambores. Quase posso ver os cidadãos marchando com seus estandartes, todos gritando, rumo ao campo de batalha…

Mas, peraí. Quem vão combater? Os bandidos? Ou os usuários? Já sabemos que não adianta desmantelar as quadrilhas ou matar seu líder, pois para cada um que sai de cena, há dez querendo entrar. Também não dá para prender todo mundo que fuma um baseado. Então talvez seja mesmo um combate à própria droga. Mas qual droga? E como se combate a droga? Fuzilando pés de maconha? Erradicando folhas de coca da face do planeta? E como lutar contra as drogas sintéticas, miniaturizadas em pílulas que qualquer bunda-suja fabrica no quartinho do fundo da casa e transporta no bolso da bermuda?

E o cigarro? E o álcool? São drogas também, e comprovadamente mais nocivas que um baseado. Ok, ok, não vamos falar disso agora senão a discussão vai se ramificar mais que o próprio tráfico. A questão primordial, então, não é como combater as drogas. A questão é: será mesmo possível combater algo que a própria sociedade deseja?

A guerra às drogas já nasceu perdida. Não sejamos hipócritas: o mundo quer e sempre quis as drogas. As sociedades sempre conviveram com as drogas, lícitas ou não, porque precisam delas. Então: se há demanda, sempre haverá oferta. Chegamos agora a um nível mais profundo da questão: não estamos perdendo tempo, dinheiro e vidas tentando exterminar algo que nós mesmos não queremos que morra?

Não é um mundo sem drogas o que as pessoas desejam, até porque na prática seria impossível. E seria injusto, pois há os que fazem uso de drogas, legais ou ilegais, dentro de limites saudáveis, sem prejudicar a si ou a outros. O que as pessoas verdadeiramente desejam é um mundo sem violência, isso sim. Mas as drogas geram violência, há quem diga. Não, o buraco é mais embaixo. Culpar as drogas pela violência é um julgamento injusto, fruto da histeria coletiva causada pela tal guerra às drogas. Isso é lógica reducionista. É caça às bruxas. O que de fato gera violência não é a droga em si, mas a sua proibição, que automaticamente a liga à criminalidade.

Veja o caso da cerveja e do cigarro: causam mais mortes que as drogas ilícitas. Ninguém, porém, os relaciona à criminalidade, pois são drogas abençoadas pela lei. No entanto, se fossem proibidas, haveria igualmente em torno delas redes de tráfico, corrupção, violência e crimes. Cientes disso e de que as pessoas consumirão álcool e cigarro sendo ou não proibidos (veja o caso da fracassada Lei Seca americana dos anos 1930), o que fariam os governos? Assumiriam a responsabilidade, fiscalizando produção e venda e cobrando impostos para serem aplicados no controle da qualidade, em pesquisas e campanhas educacionais, e para obter estatísticas e tratar dos males causados pelo mau uso. Melhor ter o controle de algo tão perigoso que deixá-lo nas mãos de bandidos.

A guerra às drogas é de uma ingenuidade risível. Os sócios do narcotráfico sabem disso. Gasta-se uma fortuna diária para manter a droga proibida e, no entanto, ela esta aí para quem quiser e na hora que quiser, e diariamente somos violentados pelos que têm a droga e realmente mandam no pedaço. A guerra às drogas jamais funcionará, simplesmente porque mira o alvo errado. O grande inimigo não é a droga: é a criminalização de seu uso.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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.Foto: Psicotropicus

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Textos da trilogia Rio Droga de Janeiro

Quem tem a droga tem o poder
Os discretos sócios do narcotráfico
Guerras às drogas não, antiproibicionismo sim

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JeffersonPeres-01As drogas chegam ao senado

Nesses dias de avacalhação geral da classe política, é muito bom ver que há sensatez e honestidade lá no Congresso. O senador Jefferson Peres (PDT-AM), falecido em 2008, foi mais um dos que se convenceram que a legalização das drogas é a única saída para o problema da violência e da corrupção gerado pelo narcotráfico no mundo inteiro. Sua fala revela lucidez, equilíbrio e visão ampla dos problemas brasileiros e mundiais. E revela também muita franqueza e coragem de dizer aquilo que muitos concordam, mas têm medo de dizer. Parabéns, senador!

> Entrevista
> Vídeo de discurso no Senado

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LEIA NESTE BLOG

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A Jurema e as portas da percepção (VIP) – Relato detalhado da experiência narrada em Minha Noite com a Jurema. Exclusivo para Leitor Vip. Basta digitar a senha do ano da postagem

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DICA DE LIVRO

baseadonissocapaa6aBaseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha
Ricardo Kelmer

Os pais que decidem fumar um com o filho, ETs preocupados com a maconha terráquea, a loja que vende as mais loucas ideias… RK reuniu em dez contos alguns dos aspectos mais engraçados e pitorescos do universo dos usuários de maconha, a planta mais polêmica do planeta. Inclui glossário de termos e expressões canábicos. O Ministério da Saúde adverte: o consumo exagerado deste livro após o almoço dá um bode desgraçado.

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- haverá uma tregua na base do acordo no periodo COPA-OLIMPIADAS pra gringo ver…porem contudo todavia, o fantastico programa dominical insiste em mostrar que é tudo de verdade o circo no RJ.. abestados os que assistem a essa palhaçpada… Angélica Santos, Osasco-SP – nov2011

02- Os zilhões que são gastos na guerra contra as drogas resolveriam o problema da miséria no mundo. É tudo uma questão de foco ou, no caso, de falta de foco. Antonio Martins, Maceió-AL – nov2011


Um ano na seca

11/08/2008

O que pode acontecer a um homem após um ano sem sexo?

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Esta série foi publicada originalmente em capítulos semanais no antigo blog Kelmer Para Mulheres. Aqui você pode lê-la na íntegra, com os comentários.

Em 2008 Ricardo Kelmer publicou em seu blog, em capítulos semanais, a série Um Ano na Seca, um relato verídico de sua tragicômica experiência de abstinente sexual no Rio de Janeiro. Dosando humor e suspense, a história prendeu a atenção dos leitores por vários meses, principalmente das mulheres, que puderam conhecer certas particularidades do universo do desejo masculino que geralmente os homens preferem não revelar.

A versão livro de Um Ano na Seca foi lançada em nov2010 (bolso, 48 pag). E em 2013 inspirou uma música da banda Bardoefada (vídeo no fim da postagem).

PARA ADQUIRIR

PELO BLOG  DO KELMER

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UM ANO NA SECA

Ricardo Kelmer
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EU JÁ FIQUEI UM ANO sem sexo. Verdade. Quer saber mesmo? Foi quando eu tinha 4 anos.

Ahahahah! Desculpe, leitorinha, não resisti à piada. Agora falando sério, já fiquei um ano no perigo sim, e eu já era quarentão, olha que coisa. Em 2004 eu havia me mudado pro Rio de Janeiro e, sem amigos com quem sair, sem namorada e sem dinheiro, tudo que eu fazia era ir pro trabalho e voltar pra casa. No começo não teve problema algum pois minha energia tava tão voltada pro trabalho e pra economizar grana que as ex-namoradas resolviam o problema. Comassim? Ora, era só, na hora do banho, lembrar delas…

Mas depois de seis meses a coisa começou a ficar feia e as ex já não resolviam, eu já havia homenageado todas elas, tava até repetindo.

Putz, mas será que você tá realmente interessada nesse papo de punheteiro véi safado? Bem, sejamos francos: se você frequenta este blog, é porque santa você não é, né? Então dá licença que eu vou continuar a história.

Seis meses de Rio de Janeiro. Seis meses sem dar nenhumazinha. Morando sozinho, vivia de casa pro trabalho e do trabalho pra casa, a energia totalmente voltada pra economizar o máximo de dinheiro possível. Sem amigos homens com quem sair, sem namorada, sem nem um rolinho sequer, o jeito era ficar em casa escrevendo e ouvindo música, bebendo sozinho. Vivia uma fase de repensar a vida e reavaliar valores, precisava mesmo de solidão.

No começo o tesão até que ficou comportado. Eu me resolvia com as ex-namoradas mesmo, homenageando-as durante o banho: apoiava um braço na parede, escolhia a ex da vez e mandava ver. A água quentinha escorrendo pelo corpo é uma diliça, mas o perigo dessa posição, não sei se você sabe, é que as pernas ficam bambas, a vista escurece e bufo!, a gente cai pro lado, se estatelando duro no chão. Um dia caí e bati a cabeça na privada, fiquei com um galo horrível na testa durante uma semana. Mas os acidentes também têm seu lado positivo. Esse me fez perceber, finalmente, que aquilo já tava passando dos limites. No outro dia tomei uma decisão: revesti a privada com esponja.

Um dia abateu-se sobre mim a desgraça: eu lá, sob o chuveiro, pronto pra mais uma homenagem quando percebi que… o estoque de ex havia se esgotado. Simplesmente não tinha mais nenhuma ex, todas já haviam passado por aquele chuveiro, até mesmo os casos, os rolos de um mês, de uma semana, de uma noite, as ficantes, todas, todas. Putz, e agora? Desesperado, vesti uma roupa e saí. Nunca fui de pagar por sexo mas tava decidido: só voltaria pra casa acompanhado.

Voltei com Daniele, uma morena linda, jeitinho meigo, uma bunda doce e irresistível. Ainda tentei barganhar o preço, mas o dono da banca foi irredutível. Paguei oito reais, pus a Sexy na mochila e voltei pra casa. Sou um cara exigente com mulher, até mesmo com mulher de papel, não gasto meus zóides com qualquer peladona não. Qualé? Tá pensando que achei os bichinhos no lixo?

Daniele me fez companhia durante algumas semanas. Como ela não gostava de água, namorávamos na cama mesmo, nada de chuveiro. Até que um dia…

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NÃO FOI NADA ENGRAÇADO ficar um ano inteiro sem sexo, mas se isso hoje diverte o respeitável público, então ótimo, vou encarar a coisa como, digamos assim, uma saudável reciclagem das desgraças da minha vida pregressa.

Pois bem. Durante algumas semanas eu e Daniele vivemos bons momentos, mas… havia um probleminha. Eu sempre queria Dani de quatro, ela ficava linda assim. Mas na hora H, quando eu tava chegando lá, a página virava e Dani passava pra outra posição, uma posição bem sem graça, que merda. Acabamos discutindo, eu querendo Dani safada de quatro e ela se querendo toda comportadinha numa poltrona.

Percebi que meus sentimentos já não eram os mesmos do início. Então fui até a janela e disse, sem olhar pra ela, mirando o fim de tarde lá fora: Beibe, preciso de um tempo. Ela ficou meio tristinha, mas entendeu na boa. É uma vantagem das mulheres de papel, elas sempre entendem quando o cara precisa de um tempo. Daniele acabou na quarta gaveta do guarda-roupa, junto com a caixinha do brau. Até hoje desconfio que foi ela quem fumou o precioso, um especialíssimo que eu tinha guardado pro carnaval. Mas tudo bem, foi bom enquanto durou. Meses depois eu me mudei de Botafogo e desde então não tenho notícia de Dani, acho que a coitada caiu da mudança. Sorte de quem pegou.

Com isso, acabei voltando às ex-namoradas debaixo do chuveiro. Nada contra, claro, mas acontece que naquela secura de seis meses eu já havia homenageado todas elas, não havia sobrado nem mesmo uma fulana que anos atrás me atacou numa festa, terminamos num hotelzinho vagabundo e, quando acordei de manhã, sozinho no quarto, a última coisa que eu lembrava era a gente saindo da festa e cadê que eu conseguia lembrar do nome da criatura? Nem do rosto eu lembrava mais. E até eu hoje não lembro. Imagine o estado do cidadão… Pois bem, até essa eu homenageei, lá debaixo do chuveiro, sim, pra você ver a consideração que eu tenho com minhas ex e até com as taradas de festa, viu?

Foi aí que um amigo me apresentou Sonja. Que não era de papel.

Ih, infelizmente acabou o espaço. Posso continuar semana que vem? Não? Ah, mocinha, não seja tão exigente comigo, entenda minha situação, eu tô precisando desabafar, aprendi isso com vocês, botar pra fora os sentimentos, né isso? Então, tô botando. Mas não dá pra botar tudo de uma vez. Se você estiver aqui na próxima semana, eu continuo. Você vem, beibe?

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EU HAVIA CONTADO pra um camarada sobre minha trágica situação e ele, compadecido, combinou que me apresentaria a uma ninfeta deveras generosa chamada Sonja. O nome dela é esse mesmo?, perguntei. Não, não era. Era nome de guerra. Ah, tá. Sonja, a guerreira. Mas do jeito que eu tava a perigo, ela é quem teria que se defender.

Marcamos pra uma quinta-feira, lá mesmo em meu apartamento em Botafogo. Na hora marcada meu amigo chegou, devidamente acompanhado da ninfeta. Ele nos apresentou, fazendo umas piadinhas que me deixaram meio sem jeito. E ela, pelo jeito, já devia estar acostumada. Sentei na poltrona e eles no sofá. Botei um Led Zeppelin pra gente escutar, mas acho que ela não curtiu muito, acho que gostava mais de hip hop. Servi domecq mas ela não bebeu, Sonja não bebia. Logo depois meu amigo foi embora, me deixando a sós com a ninfeta. Eu tava meio nervoso, mas ela tava na dela, tranquila, me olhando com aqueles olhos grandes e verdes que ela tinha.

Lá pelas tantas achei que já tava bom de lero-lero: peguei Sonja pela mão e levei pra sacada pra gente ver o Cristo iluminado. Enquanto ela olhava, eu não me aguentei mais nas calças e, bufo!, derrubei-a no chão, que nem um homem das cavernas alucinado. E comecei a soprar dentro dela. Nunca em toda a minha vida eu tinha feito aquilo, juro. Soprei durante meia hora, e no fim eu tava caído no chão, botando os bofes pra fora, parecia que havia corrido uma maratona. Em compensação, Sonja tava bem cheinha. Meu amigo tinha razão: ela era bem fornida. Peituda e bunduda do jeito que homem do sexo masculino gosta.

Meu amigo me garantira que ela tava bem limpinha, ele a havia lavado no dia anterior. Mas achei melhor garantir e dei um bom banho na Sonja, com detergente e água sanitária, até botei um rexona no sovaco dela. De volta à sacada, nos encostamos na grade e enquanto eu bolinava sua bunda, recitei uns poemas do Vinicius pra fazer um clima assim meio romântico, de tudo ao meu amor serei atento. Olhei pra Sonja e ela tava de boca aberta, os olhos arregalados, certamente enternecida com meu esforço por agradá-la. Ela não me disse, mas senti que meu amigo, com ela, não valorizava muito as preliminares. Homens…

Então os sete meses sem sexo gritaram dentro de mim e perguntei se ela queria ir pro meu quarto ou se preferia fazer ali mesmo. Você escolhe, Ricardinho… Acho que ela falou isso, não lembro bem. É que eu já tinha tomado metade do domecq e quando chego nesse ponto, dou pra ouvir coisas, ver gente morta, é um horror. Então eu escolhi o lugar, e escolhi ali mesmo, na sacada, sacomué, Sonja, sempre fui chegado em locais inusitados. Foi quando ela falou, maliciosa: Locais inusitados assim tipo o meu cu, né, fofo?

Nesse exato instante eu me apaixonei. Quem não se apaixonaria?

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SEMANA PASSADA EU PAREI na parte em que eu encoxava Sonja na sacada do meu palacete de Botafogo. E, enquanto recitava Vinicius, descobria-me apaixonado por uma boneca inflável, dessas bem fuleragem, até remendo ela tinha, acredita? Adivinha onde? Poizé. Meu amigo deve ter abusado muito da moça, coitada.

Aliás, homem na secura é um horror, você nem imagina do que somos capazes de fazer. E jovens, então, quando os hormônios são os nossos verdadeiros governantes e a cabeça de baixo sempre fala mais alto? Putz… Heim? Controle de qualidade? O que é isso?

No interior, até hoje o povo come jumenta, o povo homem, claro. Diz que é bem quentinho, aconchegante… E que ela nunca espera que o cara ligue no dia seguinte.

Por falar em jumenta… Corta agora pros meus saudosos vinte anos. A gente ia pra praia e na volta passava por um terreno onde sempre havia uma jumentinha amarrada, a Jupira. A Jupira tinha um bundããão… Pois a Jupira era apaixonada os quatro pneus e o estepe pelo meu amigo Perretis, é sério, era só a gente parar o carro que ela já se virava assim de ladinho e ficava toooda dengosa pra ele. E a Jupira ainda era fiel: um dia eu quis dar umazinha com ela e ela não quis não, só queria se fosse o Perretis. Putz, fiquei arrasado, quando um homem chega nesse ponto de nem jumenta aceitar, é mesmo a decadência total…

O Netonha, outro amigo fuleragem, na sua infância lá no Crateús era o terror das galinhas. Galinha de pena mesmo. Sim, é sempre bom explicar, porque em Crateús, sabe como é, né? Diz que na casa do Netonha não escapou uma galinha: ele chegava das festas do sábado e, meio truviscado da cabeça, ia pro terreiro atrás da casa e traçava todas. O melhor é que no domingo o almoço sempre era galinha, a família toda comia, até o padre ia pra esses almoços. Uia.

Um outro amigo, o Marquim, uma vez comeu um peixe. Verdade. Ou era uma peixa? Não sei. Só sei que o peixe morreu e ele ficou muito arrependido e deixou de comer peixe. Mas o Marquim não conta, ele era tarado, nem caule de bananeira o disgramado dispensava, diz que tem uma textura boa. E eu? Bem, como minha infância foi urbana, não tive sorte de ter essas namoradinhas do dadivoso reino animal. Mas devo admitir que lá em casa sempre teve umas poodles bem fofinhas… Mas não, cachorra por cachorra, melhor as sem pelo. Mas uma vez eu estuprei um rolo de papel higiênico, eu juro. Ué, qual é o problema? Nenhuma menina queria me dar! E aquele era o único buraco decente que tinha por perto…

E você, leitorinha querida, fica só rindo dessas histórias cavernosas, né? Fica aí só achando graça desse bizarro universo masculino, né? Mas aposto que você também já teve aqueles dias de desespero em que a bacurinha só falta pegar um autofalante e gritar: Uma caridade, pelo amor de Jesuscristim!!!

Taí, agora fiquei curioso. Mulher também sofre quando os hormônios sexuais botam a boca no trombone e, no entanto, não tem ninguém pra aliviar a tensão? Claro, né? Mas imagino que vocês não apelam pros jumentos, afinal animal por animal, já bastam os homens, né, fia? Mas pra alguma coisa vocês devem apelar. Quem quer contar primeiro? Ah, vamos lá, boneca, fica só entre nós, vai. Pensa que eu não sei que você agora tá rindo aí do outro lado do computador, é? Poizeu sei. Se tá rindo é porque tem o que contar. Conta! Conta! Conta!

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ONDE PAREI MESMO? Ah, tá, eu e Sonja na sacada do apartamento, oitavo andar, eu com meio litro de conhaque na cachola, irc! Bêbado que nem um gambá, sim, deploravelmente bêbado, mas a poucos segundos de finalmente acabar com a maldita seca que já durava sete meses. Pois bem. Após seu singelo consentimento, Sonja encostou-se na grade da sacada, de costas pra mim, aquele bundão espetaculoso, e eu abri a calça, abaixei a cueca e botei o Jeitoso pra fora. Poizé, o nome dele é Jeitoso, tinha esquecido de apresentar vocês. Também conhecido no submundo do crime desorganizado como Jeitosão 17. Então. Nem preciso dizer como ele tava, né? Parecia menino em dia de aniversário, uma animação só.

Abri as nádegas de Sonja e vi que seu cu era rosado, um tipo raro por essas bandas. Não sei se você sabe, leitorinha, mas na Tabela de Estética Anal o cu rosado só perde pro cu salmon, este é raríssimo, tem gente que morre sem conhecer um cu salmon. Pois bem, Sonja tinha um cu rosado, muito simpático e convidativo, com certeza meu amigo já se deliciara bastante por aquelas vias. Afastei-me pra trás e mandei um golão no conhaque, um brinde a mim por suportar com tamanha dignidade sete difíceis e eternos meses sem dar umazinha sequer.

Nesse momento, porém, soprou um vento repentino e Sonja, vupt, voou por sobre a grade da sacada. Desesperado, larguei o copo e corri pra segurar. Mas não deu tempo: Sonja havia caído, despencado do oitavo andar no meio da escuridão da noite. Putz. Fiquei ali parado por um tempo sem acreditar. Seu idiota incompetente!, gritou o Jeitoso, já murcho e muito puto, nem mulher inflável tu consegue segurar? Quando o sujeito não consegue nem manter uma relação com uma boneca inflável, ele precisa admitir que chegou ao fundo do poço.

Peguei o elevador e desci pro poço, quer dizer, pro térreo. Procurei lá embaixo na área lateral e não encontrei Sonja. Onde ela estaria? Olhei lá pra cima e entendi: ela caíra numa das sacadas abaixo da minha. E agora?

Voltei pro apartamento num dilema mortal. Não podia abandonar Sonja assim dessa maneira. E tudo que houve entre nós? E todo o futuro lindo que nos esperava? E seu cu rosado? Mas, por outro lado, cadê a coragem pra bater na porta do vizinho às duas da manhã? Oi, minha namorada caiu na sua sacada, você poderia pegar pra mim?

Não, minha dignidade jamais me permitiria descer tanto. Preferível comprar uma boneca nova pro meu amigo. Que merda… Desculpa, Sonja, eu não queria que tudo terminasse assim… A não ser… A não ser que eu desse uma de Homem-Aranha…

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TRUVISCADO DE DOMECQ como eu tava, considerei seriamente a hipótese de me pendurar na minha sacada e saltar pra sacada de baixo. O Resgate de Sonja – sexo, suspense, emoção… e uma perna quebrada. Felizmente um resquício de bom senso me fez desistir da aventura. Mas nem sempre tive esse tal bom senso, viu, isso é coisa da idade.

Restava-me bater na porta do vizinho. Às três da madrugada. Eu até poderia fazer isso, dada a minha lastimável condição de secura. Mas onde ficaria minha reputação de moço sério, trabalhador e respeitador dos bons costumes? Eu seria rebaixado à categoria de cruel estuprador de bonecas infláveis, que horror.

Voltei ao meu apê arrasado. E caí na cama à beira de um ataque de choro. Minha pobre Sonja, coitadinha, passaria o resto da noite no chão sujo de uma sacada, ao relento, nua e abandonada. Poderia pegar um resfriado, a bichinha. Adormeci exausto e deprimido. Putz, eu estivera a centímetros de dar fim àquela secura desgraçada que já durava sete meses… Mas o vento levou minha felicidade.

Tive pesadelos terríveis. Num deles Sonja me esnobava e preferia se suicidar a trepar comigo, e então se atirava da sacada. Irgh! Será que eu sou assim tão asqueroso? Só porque depois dos 40 comecei a ficar barrigudo, careca e banguelo? No outro pesadelo o vizinho do 702, logo o idiota do 702, enrabava minha Sonja na sacada e eu acordei suando de ciúmes, desesperado, ouvindo Sonja uivando de prazer… Que dor!

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ACORDEI NO DIA SEGUINTE numa ressaca horrorosa. A primeira coisa que fiz foi correr pra sacada e procurar por Sonja. Enquanto procurava, minha atenção foi atraída pro colégio que ficava ao lado do meu prédio. Era a hora do intervalo e os alunos jogavam futebol no campo de areia. E pareciam especialmente animados naquele dia, correndo e gritando bastante. Quando saquei o motivo, quase tive uma síncope cardíaca: a bola do jogo era nada mais nada menos que… minha querida Sonja, que subia e descia pelo ar, toda desmantelada, um braço já faltando, parecia um molambo voador.

Gritei pra eles pararem com aquela selvageria mas não me ouviram. Então desci e fui correndo até o colégio, expliquei o que acontecera e minutos depois um funcionário me trouxe o corpo de Sonja, seco e totalmente desfigurado, a cabeça decepada… Levei-a de volta pra casa, tentei encher e remontar, mas foi impossível, o estrago fora enorme. Teria que comprar outra boneca pro meu amigo. Então deitei Sonja na cama e, olhando ela ali deitadinha… de bundinha murcha pra cima… pensei que ela merecia uma última e sincera homenagem.

Em toda a minha vida de perigoso maníaco sexual eu nunca antes havia transado com uma boneca inflável. Muito menos com um cadáver inflável. Olha só aonde a minha secura havia me levado! Estuprar uma boneca inflável morta, toda murcha, sem braço e sem cabeça…

Mas o estrago fora ainda maior do que eu imaginava. Aqueles monstrinhos assassinos haviam enchido os buracos de Sonja com todo tipo de coisa. Só da bucetinha dela tirei uma borracha, duas tampas de caneta Bic, um mp3 quebrado, um boneco Power Rangers e um bagaço de maçã, que horror. E o cu, o belo cuzinho rosado de Sonja, haviam tampado com um chiclete. Que absurdo, as pessoas não têm mais sentimento! Como podem fazer isso com um ser humano inflável?

Não deu, amiga, simplesmente não deu. Não consegui comer Sonja. Por mais maníaco sexual que eu seja, tudo tem um limite, né? A secura continuaria. Eita fase de urubu danada…

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APÓS A TRISTE DESVENTURA com Sonja, dei um tempo em minhas desesperadas tentativas de acabar com a secura sexual, que já chegava aos oito meses, que horror. Achei que era melhor me aquietar e deixar que as coisas acontecessem de forma mais natural. O problema é que as coisas não estavam acontecendo nem naturalmente e nem antinaturalmente, a maré tava braba mesmo. Sozinho numa cidade estranha, sem amigos, sem namorada, sem dinheiro pra sair, o que me restava?

Então tive uma ideia genial: decidi montar um harém. Sim, o Kelmer Harém de Celebridades (KHC). Pra quê? Ô, minha filha, que pergunta boba… Pra dar uma variada em minhas punhetas, lógico. Sim, variar, afinal fazia oito meses que eu homenageava minhas ex-namoradas quase diariamente, nem elas aguentavam mais tanta homenagem. Pra você ter uma ideia, desde que começara a secura, só pra Aninha eu já tinha tocado 105 punhetas. Você sabe o que significa isso, leitorinha querida? Pois vou te dizer. Se uma ejaculada tem em média 100 milhões de zóides, então só pensando na bunda da Aninha foram 10 bilhões de zóides que jamais tiveram nem jamais terão sequer uma remotíssima chance de ver um óvulo rebolando à sua frente, coitados, ninguém merece.

Pois bem. Em poucos dias o melhor harém que jamais existiu na face da Terra tava todinho dentro do meu noutibuk, que era velhinho, mas que com a chegada das meninas rejuvenesceu cinco anos. Tinha de um tudo no harém: loira, morena, ruiva, negra, índia, japonesa, esquimó. Tinha odaliscas do presente e do passado, de Brigitte Bardot às Sheilas do Tchan. Tinha celebridades e anônimas, lobas e ninfetas, profissionais e amadoras, ai, as amadoras. Infelizmente minha musa Ana Paula Bandeirinha ainda não havia posado pra Playboy… Senão ela também estaria no harém. Aliás, ela teria um harém só pra ela.

– Ricardinho, harém de uma odalisca só não existe…

– Ahnnn… É verdade, Ana Paula. Mas você teria mesmo assim. Pra você não tem impedimento.

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MAS CALMA LÁ, LEITORINHA. Só porque era um harém, não vá pensando que era só ser bonitinha ou gostosinha que já tava dentro. Nananinanão. Punheteiro safado sem-vergonha também tem seus critérios, ora! Afinal punheta é coisa séria, é uma homenagem singela e sincera às mulheres que amamos. E por mais tarado que a gente seja, a gente também tem nossas objeções. Essas modelos magricelas e sem bunda, por exemplo. Comigo não têm vez, quem gosta de osso é arqueólogo. Então magricela não entrou nenhuma.

Por falar em bunda, numa segunda fase o Harém de Celebridades se especializou: criei o harém dos peitos e o harém das bundas, olha que chique. Claro que por causa da minha tara que você já conhece, o harém das bundas ficou beeeeem mais numeroso. E como era o harém que eu mais visitava, todas queriam estar nele. Mas me mantive incorruptível. Adriane Galisteu, por exemplo, tentou dar uma de penetra mas foi barrada na porta, é muita pretensão mesmo! Gisele Bundchen tentou entrar também, mas ficou só no harém dos peitos. Sim, Gisele, eu sei que os gringos admiram sua bunda, eu sei, mas no Brasil, a média pra passar é bem mais alta, viu, fia?

O KHC tava indo bem. O problema era que, com essa minha velha mania de justiça, eu insistia em revezar as meninas, uma homenagem pra cada uma, pra que elas não se sentissem preteridas, você sabe, rola muita inveja nesse meio. Mas, putz, eram centenas de odaliscas! Se eu sentisse saudade da Karina Bacchi ou da Mulher Samambaia, que, por sinal, constavam com todo o merecimento nos dois haréns, eu teria que esperar cinco anos pra poder vê-las de novo.

– Ah, não, Riquinha, assim não – Karina reclamou, é lógico. – Pode dar logo um jeito nessa situação.

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FOI ENTÃO QUE DESCOBRI algo revolucionário: era possível organizar as fotos num programinha de slide e botar no automático. Uaaaaau! Ficou uma maravilha. O KHC tornou-se dinâmico, e eu nem precisava mais ficar clicando, agora a outra mão tava liberada pra dar um gole no Domecq. Minhas odaliscas passaram a desfilar ordenadamente, uma após a outra, cinco segundos pra cada uma me seduzir com suas curvas, protuberâncias e malemolências…

– Oi, Luma. Eu apareço depois da Grazielli. Já chamaram ela?

‒ Calma, Sabrina, antes dela ainda tem eu. Ops, é a minha vez, tchau.

Algumas tinham mais fotos que outras, claro, e por isso se demoravam mais pros meus olhos. Porém, depois estavam livres o resto do dia pra fazer o que quisessem, passear no shopping, tomar chá com as amigas, fazer a escova… Estavam livres até pra me trair com quem quisessem. Desde que no outro dia estivessem de volta, lindas e dadivosas, tudo bem.

Ah, foram três meses de paz e tranquilidade com minhas meninas…

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UM DIA FUMEI UNZINHO. Você já transou fumada, leitorinha? Uau, é uma loucura… Comigo as sensações ficam tão amplificadas que eu todo viro um imenso caleidoscópio sensitivo, o tempo estica… Pois bem, fumei, deitei na cama, pus o noutibuk do ladinho e mandei ver. Foi tão bom, mas tão bom, mas tão bom, e o gozo tão intenso, tão intenso, e viajei pra tão longe, tão longe… que de repente só escutei o barulho: Pooou!!! Abri os olhos e vi que o noutibuk tinha caído no chão. Que merda.

Tantas mulheres lindas e gostosas de uma vezada só foi demais pro meu velho noutibuk de guerra. Dia seguinte mandei o coitado pra oficina, mas não teve jeito de recuperar. Resultado: perdi todas as minhas meninas. Três meses formando meu harém e, de repente, elas se vão numa só gozada. Ô gozada poderosa! Fiquei tão arrasado que não tive forças pra chamá-las de volta, não quis mais saber de Danielas, nem de Julianas, nem de qualquer mulher de pixels. Nem mulher de papel. Nem de plástico. Enchi o saco de punheta. Quer dizer, esvaziei o saco. Caramba, eu precisava de uma mulher de verdade, dessas que todo dia passavam por mim na rua. E não me percebiam. Mas naquela cidade estranha, sem amigos e sem dinheiro, como fazer?

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NO CAPÍTULO ANTERIOR, você lembra, eu tava arrasado por ter perdido meu Harém de Celebridades, tão cuidadosa e criteriosamente montado. E tava sem qualquer ânimo pra montá-lo de novo, apesar de toda a insistência das meninas. Até a Vera Fischer implorou, olhassó, a Verinha, ela que naquele tempo andava quietinha, uma santa. Até a Priscila Fantin, aiai, que nunca posou pelada, prometeu que posaria caso eu reativasse o superfamoso e hiperconcorrido Kelmer Harém de Celebridades.

– Puxa, Rica, tô arrasada… Você seria o único motivo pra eu virar uma peladona.

– Gosto muito de você, Priscila, mas não vai dar.

– Se você não me quiser, vou entrar pro convento!

Não reativei o KHC, eu simplesmente não aguentava mais mulher de pixels. Eu precisava agora é de uma mulher de verdade, de carne e osso, mais carne que osso, claro. Eu precisava dar umazinha, só umazinhazinha, já tava na secura havia 11 meses!

Foi quando apareceu a oportunidade de um trabalho inusitado: escrever um roteiro sobre prostituição na Vila Mimosa. Uau!

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ENTÃO FUI CONTRATADO pra escrever o roteiro de uma revistinha em quadrinhos pra uma ONG que trabalhava com prostitutas na Vila Mimosa, tradicional zona de prostituição do centro do Rio de Janeiro. O roteiro deveria abordar temas como saúde, prevenção, doenças sexualmente transmissíveis e coisital. Topei na hora, tava muito precisando de um dinheirinho na conta, não aguentava mais comer miojo.

Imagine um centro comercial popular, desses que existem nos centros das metrópoles, aquele movimento incessante, os corredores cheios de gente olhando vitrine e comprando, a barulheira, a confusão… Pois a Vila Mimosa é a mesma coisa, sendo que as lojas são uma centena de bares e boates com quartinhos e a mercadoria é sexo. E é 24h!!! Fiquei bobo de ver.

Na Vila Mimosa tem menina de 18 a 70 anos e boa parte delas vive do que a Vila lhes dá. Algumas têm emprego formal (diaristas, vendedoras, secretárias…) e batem ponto lá alguns dias por semana pra completar o orçamento. Uma pequena parte mantém os estudos, ainda bem. Há também as meninas que cursam faculdade. E há também mulheres de nível superior, acredite, cheguei a entrevistar uma professora de geografia e uma enfermeira. E há também muitas mulheres casadas, que são mães, e às vezes os maridos ou maridas sabem de tudo.

Mesmo sendo mais culta ou mais bonita, não importa: se a mulher quer trabalhar na Vila Mimosa, tem que se adequar ao esquema popular e de alta rotatividade. Então o preço médio era (em 2005) R$ 25 por meia hora, sendo que R$ 5 ela repassava ao dono do estabelecimento pelo uso do quartinho. Conheci algumas que faziam uma média de 8 a 10 programas nos dias bons.

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FIZ TRÊS VISITAS à Vila Mimosa pra entrevistar as meninas. Na segunda noite conheci Rose, uma morena de 22 anos, e ela me contou sua história, o noivado desfeito, o desemprego em Goiânia, o filho pra sustentar, a ida pro Rio… Ela era bonita, tinha certa classe e usava vestidinho e sandália, tudo muito mimoso. E tinha uma boa bunda. Na terceira vez conversamos mais e, como agradecimento, presenteei-a com um crédito de R$ 10 no vendedor ambulante de calcinhas, dava pra comprar duas. Ela adorou e me deu um singelo beijo no rosto.

Puta nunca foi minha especialidade, você sabe. Nada contra, mas é que gosto quando a mulher também me deseja, gosto de beijar na boca, servir bebidinha, botar música pra ela, recitar poeminha safado no ouvidinho, rir junto, admirá-la enquanto vou e volto dentro dela… Ou seja, sou um cara romântico mesmo, assumo. Safado, ok, mas romântico. Então meu pau não se entusiasmou com a Vila Mimosa. Porém…

Naquela noite, como já havia fechado todas as entrevistas, sentei numa mesa pra tomar uma e relaxar, curtir o visual das meninas, os modelitos, o delicioso teatro do sexo pago. E convidei Rose pra beber comigo. Ela explicou que tava trabalhando, claro, tinha que fazer dinheiro. Mas como havia me achado um cara legal…

Conversamos descontraidamente por uma hora. Ela se soltou e falou mais sobre sua vida, contou detalhes dos programas, suas preferências, que às vezes, com uns poucos homens, ela sentia prazer mas que, na verdade, pra ser bem sincera, gostava de foder mais com mulher.

Você sabe, né, leitorinha, eu gosto de mulheres bissexuais, várias de minhas namoradas eram bi, sinto uma espécie de simpatia gratuita, uma cumplicidade natural com elas. Foi Rose me falar isso e, pronto, o Jeitoso virou o incrível Hulk dentro de minha calça: Me solta, me soltaaa, me soltaaaaaa!!

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EU TOMAVA UMA CERVEJA na Vila Mimosa, conversando com a morena Rose, e ao ouvi-la contar sobre os programas que fazia e sobre suas transas com mulheres, o Jeitoso, coitado, que havia 11 meses não via uma xaninha na sua frente, simplesmente enlouqueceu e virou o incrível Hulk dentro da minha calça, parecia um bicho destruindo a jaula: Me solta, seu disgramado, eu quero saiiiiirrr!!!

– Cabô o doce…

– Não me atrapalha que eu tô concentrado.

É Tábata, minha barata voadora de estimação. Não pode me ver escrevendo sobre mulheres que fica logo enciumada, fica voando na frente da tela toda histérica. Uma barata com ciúmes, pode uma coisa dessa?

– Cabô o doce e eu tô com fomeeeee…

Hummm, dessa vez não é ciúme. O docim de amendoim acabou mesmo, o potinho que fica aqui do lado do computador tá vazio. Putz, vou ter que sair pra ir na bodega comprar mais, eu e Tábata não passamos sem essas barrinhas deliciosas.

Dá um tempo, leitolinha linda do meu colação. Volto já pra contar o fim da história. Vem, Tábata. Bota o agasalho que tá frio.

E ainda gosta de passear, pode?

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PRONTO, VOLTEI. Tábata, de barriga cheia, ronca quietinha dentro do meu tênis. Eu já disse pra ela não dormir lá, é perigoso, mas ela simplesmente é louca pelo meu chulé. Pode?

Continuando a história. Estávamos numa mesa, eu e Rose, no interior de um daqueles barzinhos com jeito de boate, o bar embaixo e os quartinhos encima. Com a pressão insuportável do Jeitosão (quando ele tá assim, é pior que você na TPM, acredite), percebi que havia chegado a hora, os onze meses de secura terminariam naquela noite mesmo. Ufa! Ainda bem que o pesadelo não passaria de um ano. Já que não foi com namorada, nem com amiga caridosa, nem com boneca inflável, seria com puta mesmo. Nada contra puta, claro, tenho muito respeito e admiração pela profissão, acho até que já fui puta numa vida passada. Mas ter que pagar por sexo, logo eu, que até outro dia era o terror da Praia de Iracema, quem diria…

Falei pra Rose que queria fazer um programa com ela. Ela, parecendo surpresa, disse que não esperava pois eu dissera que nosso contato seria apenas em função das entrevistas. Você quer mesmo?, ela perguntou.

– Ele quer! Ele quer, sim!!! Nós queremos!!!!! – gritou o Jeitoso, que nem um louco.

– Quem falou isso? – Rose quis saber, olhando ao redor.

– Ahn… Fui eu, sou ventríloquo, sabia? – falei, antes que o de baixo se manifestasse novamente. – Mas vamos ao que interessa, né?

Ventríloquo de bilau, ainda tem essa. Pois bem. Enquanto Rose ia ao balcão e solicitava um quarto à dona do estabelecimento, aproveitei e pedi que Jeitoso tivesse modos, ele tava simplesmente indomável, que coisa, rapaz, essa não foi a educação que eu te dei, viu?

Que nada. Ele continuou lá, arrebentando a jaula.

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ENQUANTO SUBÍAMOS A ESCADINHA em espiral, eu olhava pra bunda de Rose bem à frente dos meus olhos como o centroavante que há vários jogos não marca e que agora vai bater o pênalti e olha pra bola, ela ali, só esperando ele chutar… É um momento mágico. Mesmo que não haja ninguém vendo o jogo, tudo para na hora do pênalti, sabia? Pois saiba, o Universo inteiro para, o tempo para, nada mais importa. Os astrônomos estão errados. Não houve um Big Bang, houve um Big Pênalti.

O ambiente do primeiro andar era de penumbra e havia um corredor com três quartinhos de cada lado. Entramos num deles. Antes, porém, olhei de novo pro fim do corredor pra me certificar de que o que eu via não era nenhuma alucinação. Não, não era. Ali, encostado à parede do fim do corredor, reluzia uma privada, com um cestinho ao lado lotado de papel. Uma privada! Sem porta, sem nada. Apenas uma privada no fim do corredor, que coisa mais surreal. E, pelo odor, que era bem real, alguém tinha comido uma panelada vencida e depositado lá. Argh… Como alguém conseguiu fazer cocô naquele local? E se eu chego e tem um cidadão cagando?

O quartinho era um cubículo de dois metros por um. Tinha um elevado de cimento bem estreito com um colchonete, uns cabides e só. Nem luz tinha. E as paredes eram apenas divisórias que sequer chegavam ao teto, o que nos permitia escutar tudo o que acontecia nos outros cubículos. Hummm. Confesso que nesse momento cogitei desistir…

Mas não, não. Eu já havia ido longe demais pra voltar. Vamos, Rica, respire fundo e vá em frente, garoto!

Respirar fundo. Eu até tentei. Mas aquela panelada estragada lá na privada não deixou. Teria que ficar vinte minutos sem respirar, será que eu conseguiria? Aliás, vinte não, dezoito, o tempo corria.

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TIREI A ROUPA RAPIDINHO. Rose também. Ué, não tem nem um lençolzinho?, perguntei. E ela explicou que não sabia, que não fazia programas naquela casa, fazia na outra em frente. Vesti a roupa novamente e desci a escada. No balcão, pedi um lençol à dona, uma senhora que, pelo jeito, tinha muitos quilômetros de lençóis rodados. Ela perguntou se a menina que tava comigo não trouxera o lençol dela. Não, ela não trouxe, respondi, procurando manter meu famoso equilíbrio zen. A senhora então falou: Não costumo fazer isso mas vou te emprestar o meu, tá, depois me devolve. E me entregou um lençol dobrado, aparentemente limpo.

Subi a escada evitando pensar naquelas palavras “não costumo”, “emprestar”, “me devolve”… Eu só tinha agora dezesseis minutos.

Cobri o colchonete com o lençol emprestado (ai…), tirei a roupa novamente e sentei. Rose sentou ao meu lado. Do quartinho ao lado alguém sussurrava, hum, ahmm, aaahrnmmff…

De repente lembrei do meu primeiro namoro, doze anos, foi meio daquele jeito, os dois sentadinhos lado a lado, quer namorar comigo?, aceito, então tá, amanhã a gente continua. Isso lá é hora de lembrar uma coisa dessa, homem! Afastei a lembrança inoportuna e tentei me concentrar, vamos lá, garoto. Quinze minutos. Comecei a acariciar o corpo de Rose… a cintura… as pernas… beijei seus seios… apalpei sua bunda… Quando olhei pro Jeitoso, não acreditei: ele simplesmente não se manifestava. Ué, cadê o incrível Hulk?

– Não priemos cânico, não priemos cânico – falei pra mim mesmo, fingindo um senso de humor que naquele momento eu tava muito longe de ter. Doze minutos. Pense rápido, garoto, pense rápido. Então perguntei a Rose se ela, bem, se ela poderia me fazer um boquete. Afinal um copo dágua e um boquete não se negam a ninguém, né?

– Sem camisinha não dá.

– Ah, claro, claro…

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PEGUEI A CALÇA e, depois de procurar em todos os bolsos, encontrei uma salvadora camisinha na carteira, ufa! Voltei e sentei ao lado de Rose, que aguardava com uma paciência profissional. Peguei a camisinha, posicionei o Jeitoso e… Quem disse que camisinha desenrola em pau murcho? Aiaiai… Dez minutos. Metade do tempo já tinha ido pelo ralo e eu nem de pau duro tava, que merda. Vamos ao plano B, é o jeito. Então comecei a me masturbar freneticamente, tentando não ligar pra onda de terror que me engolfava mais e mais a cada instante.

– Vamulá, sua cobra caolha, não me abandone logo agora…

Mas o Jeitoso continuou desanimado. Oito minutos. O foda da brochada é esse maldito terror que imediatamente nos envolve logo que sentimos cheiro de brochada no ar, essa imediata sensação de que não, não vamos conseguir. Tsc, tsc, minha amiga leitora, você não saberá nunca o que é isso, só nós sabemos. Mas eu conseguiria, sim, vamulá, pensamento positivo, neurolinguística, método Silva de controle mental, nunca desista de seus sonhos… Putz, mas com aquele fedor horrendo ali do lado tava realmente difícil.

– Rose, será que você não poderia abrir uma exceção e me chupar sem camisinha? Eu tenho essa cara de maluco, mas eu sou limpinho. E por ele só passou menina bacana, viu? Bem, quer dizer…

Não, eu não falei nada disso. Mas quase falei, de tão desesperado. Em vez disso pedi pra ela tocar uma pra mim, quem sabe a mão feminina, mais delicada… Rose, compreensiva, aceitou, ufa. Sete minutos. Agora vai, agora vai.

Fechei os olhos e convoquei todas as ex-namoradas e casos e rolos e rolitos possíveis, por favor, Beatriz, me acode, você também, Silvinha, e você, Karine, seis minutos, e você, Bibi, aquelazinha que a gente deu no meio do laranjal, lembra, vamos, Maristela, Renata, cinco minutos, Tânia, Karine, Karine já foi, não, a outra, Gil, Andréa, Jaque, Beatriz, Beatriz já foi, mas vai de novo, vai de novo, quem mais, Leka, Paulinha, quatro, Larissa, Milene, que Milene?, aquela da garagem do prédio, ah, sim, Valéria, três, Laurita, dois, Bebel, um…

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– VINTE MINUTOS! Vinte minutos!

A voz vinha de algum lugar próximo, uma voz abafada, meio metálica…

– Vinte minutos! Desocupandôôô!!!

Abri os olhos. A voz feminina vinha de um tubo de PVC que saía da parede. Era a dona lá embaixo nos avisando que o tempo acabara. Sistema de som engenhoso…

– Putamerda, seu desgraçado duma figa! Não era você quem tava todo enlouquecido vinte minutos atrás?!! Como que você me faz uma coisa dessa, seu traíra?!!!

Não, eu não falei isso, sou incapaz de gritar com ele, o Jeitosão tem muito crédito comigo, você nem imagina o quanto ele já me salvou. Só pensei, dentro da minha mente extenuada e entristecida. Aliás, se eu fosse ele, também teria sentido a pressão, coitado, o cubículo feio, o lençol emprestado, os vizinhos barulhentos, a privada surreal, a panelada vencida, o tempo acabando… Pô, paudagente também é gente.

Afastei a mão de Rose e levantei. Vesti a roupa e calcei o tênis, enquanto ela se vestia também. Procurei algo pra dizer, na verdade pra não ter que escutar os hummms e ahnrmfs que vinham dos outros cubículos, mas não achei nada que valesse a pena ser dito, dizer o quê? Descemos, devolvi o lençol (quem seria o próximo?), paguei pelo quarto e paguei Rose também. Ela ainda tentou se desculpar, mas eu não deixei e falei que tudo bem, a companhia dela tinha sido muito agradável. E nos despedimos.

Caminhei até a praça e esperei passar algum ônibus, tendo como companhia a plena convicção do ridículo de tudo aquilo. Um dia ainda escreverei sobre isso e darei boas risadas, era o que eu pensava, pra ocupar o pensamento na madrugada fria e solitária. Mas o pensamento sempre escorregava pra um único fato: em três semanas a secura completaria um ano. Um ano.

O ônibus chegou e parou no ponto. O motorista abriu a porta e ele entrou, o centroavante que no último minuto do jogo chuta o big pênalti pra fora.

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DEPOIS DESSA ENTENDI que devia me concentrar no trabalho de vez e esquecer esse negócio de buceta. Até que consegui. Em parte, claro, pois o bicho homem masculino nunca consegue esquecer de verdade do famoso pé-de-barriga rachado. Mas fiz direitim meu trabalho de roteirista e recebi meu dinheirim suado. Suado e broxado.

Aí aconteceu duma leitora me enviar um e-mail dizendo que iria pra um congresso no Rio e queria aproveitar e comprar uns livros meus diretamente comigo, aproveitar e me conhecer pessoalmente, que ela só conhecia pelos meus textos na internet, que por sinal gostava muito e coisital. Claro, claro, será uma honra, eu disse.

Macaco velho, fui logo no Orkut dela pra saber quem era a criatura. Marília o nome dela, era de Santos, solteira (oba), bebia (obaaa) e não fumava (obaaaaa). Era uma balzaca morena, razoavelmente bonita, parecia ser mulher carnuda, mas como as fotos eram todas bem comportadas, não deu pra ver bem as curvas da estrada de Santos.

Pô, Kelmérico, deixa de ser tarado véi seboso! A moça quer apenas comprar uns livros, só isso, é tudo apenas negócio. Você e sua mente suja…

Bem, na verdade eu mesmo não pensei bobagem, juro que pensei apenas na graninha. Quem pensou bobagem foi ele, o Jeitoso, como sempre, esse pedaço cilíndrico de carne pendurado que só pensa naquilo, é um horror. Coitado, mais de um ano sem frequentar periquitas e rabichos, a gente entende, a gente entende.

Então, no dia marcado ela me ligou. Tava num barzinho perto do hotel, não era longe de onde eu morava, será que eu podia ir lá? Claro, claro. Troquei de roupa, botei os livros na mochila e peguei o busão.

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FIZ LOGO AS CONTAS: se ela me comprar dois livros, já vai dar pra fazer o supermercado da semana, ô maravilha, não aguento mais comer miojo com xarope de groselha.

Paralelamente às minhas contas, o Jeitoso também fez as dele: um ano e dois meses sem encarar uma periquita, 14 meses sem molhar o biscoito, 54 semanas sem ensaboar a banana, 378 dias sem acoplar à nave mãe, 9.072 horas sem espetar o cassaco…

Se você, leitorinha querida, tivesse um pingolim aí pendurado entre suas pernocas, você saberia o tanto que esses seres podem ser chatos, insuportavelmente chatos, quando estão desesperados na secura. A gente vai à praia e tem que ficar sentado pra não passar por tarado véi seboso. A gente olha pra uma chave de fenda e o pingolim só vê a fenda, é um horror, um horror.

Pois bem. Peguei o busão e fui encontrar Marília no bar, perto do hotel onde ela tava hospedada, em Copacabana. Ela me acenou de uma mesa na calçada, de frente pro mar, um ótimo lugar. Tava bronzeada, certamente pegara um solzinho. E era mesmo carnuda como nas fotos, do jeito que eu aprecio, humm. Vestia jeans e uma camisa preta com um top preto. Infelizmente não deu pra ver a bunda quando ela levantou pra me cumprimentar com dois beijinhos, mas tudo bem, eu tiraria a dúvida assim que ela fosse ao banheiro. Na mesa havia uma caipirinha pela metade.

Sentei e ela perguntou se eu aceitava uma caipirinha, eu disse que sim. Ela fez sinal pro garçom trazer mais uma e aí danou-se a falar, disse que tinha chegado mais cedo pra ver o pôr do sol, que adorava ir ao Rio de Janeiro, que aquela já era a segunda caipirinha, que adorava caipirinha, que caipirinha era sua perdição, e que era uma honra conhecer pessoalmente o autor dos textos que tanto a faziam rir no computador do trabalho, e falou dos que mais gostava, quis saber de onde eu tirava tanta ideia, como era o processo de criação, e pediu pra ver os livros, que eu tirei da mochila e pus sobre a mesa, e ela olhou todos, achou a capa do Insanidade bonita…

Eu juro, leitorinha, juro que tentei prestar atenção a tudo que ela dizia. Mas não dava. Com aqueles peitos olhando pra mim, simplesmente não dava. Marília tinha peitos grandes e bonitos, até aí tudo bem. O problema é que metade deles tava pra fora do top, sem exagero. Acho que ela errou o número quando comprou. Ou na pressa de fazer a mala, se enganou e botou o top da filha de oito anos. Será que todas as minhas leitoras de Santos andam na rua assim, com os peitos pra fora?

Senti que o Jeitoso começava a se inquietar. Aproveitei que Marília pedia mais uma caipirinha pra ela e dei um tabefe no Jeitoso, plá!, te aquietaí, ô saidinho, não vai me estragar uma venda boa! Mas o perturbado não se aquietou, tive que cruzar a perna pro outro lado pra disfarçar. E diabo dessa mulher que não se levanta pra ir ao banheiro! Ô Marília, minha filha, você não mija não? Não, claro que não perguntei isso, imagina, também não sou tão sem noção assim, né? Que juízo você faz de mim!

Por falar em juízo, vem cá, leitorinha, me diz uma coisa com toda sinceridade… O que uma mulher pretende quando vai encontrar um cara pela primeira vez e deixa metade dos peitos pra fora da roupa, heim? Você, leitorinha, já fez isso? Conhece alguma mulher que faz isso? Você deve saber, afinal você é mulher, você tem peitos, quer dizer, eu suponho que tenha. Não é possível que uma mulher faça isso assim de graça, sem ter noção da confusão que vai causar, principalmente pra sujeitos sensíveis como eu. Putz, vocês são realmente tão cruéis assim, são? Me diga que não, por favor, senão vou perder pra sempre o resto de confiança que eu ainda tinha na raça feminina…

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VOLTANDO À MESA. Lá tava eu confuso, sem saber o que deduzir. Tentava me concentrar na conversa de qualquer maneira, até virei a cadeira e sentei assim meio de lado pra não ter que olhar praquele par de melões morenos caindo do caixote da Ceasa bem na minha frente… e eu há mais de um ano sem comer. O Jeitoso, inclusive, já havia levado mais dois tapas e de nada adiantou, ele também queria ver os peitos da santista, claro.

É, tava difícil. A ideia de que aquela morena fornida podia estar interessada em algo mais que simplesmente comprar meus livros me deixava num estado tal de excitação e dúvidas e fantasias e nervosismo e esperanças e insegurança e expectativas que, de repente, tive medo de perder o controle e, sei lá, fazer uma besteira grande, tipo saltar pra dentro daquele decote, me agarrar nos peitos da morena ali na frente de todo mundo e ficar gritando lá pendurado: Fome zero! Campanha da fraternidade!! Eu podia tá roubando, mas tô aqui pedindo só uma chupadinha!!!

Olhei as horas no celular. Ela imediatamente perguntou se eu tinha pressa, e eu ia dizer que mais ou menos, mas ela me interrompeu e disse que fecharíamos a conta, que ela fazia questão de pagar, e que se eu não me importasse, nós dois iríamos ao hotel dela pegar o dinheiro dos livros, que ela queria comprar todos. Todos? Sim, quero todos, mas o dinheiro tá no meu quarto, vamos lá comigo pegar? Ahn, no seu quarto? Sim, no meu quarto, vamos?

Todos os livros… Vamos comigo no meu quarto… Aquelas palavras esvoaçavam feito borboletas zonzas em minha cabeça. Eu precisava responder algo, e de preferência algo assim que não revelasse meu estado de absoluta debilidade mental.

Subir, quarto, mim Tarzan, iú Jane – foi o que consegui dizer. Acho que foi uma boa resposta, pois ela sorriu e levantou-se, apontando pro hotel na outra quadra.

Fiz rapidamente umas contas pra saber quanto dava o total dos livros. Putz, daria pro supermercado do mês inteiro, que maravilha. E o Jeitoso, claro, fazia as contas dele: decote + caipirinhas + convite pra subir ao quarto = ripa na chulipa!!! Calma, Jeitoso, a lógica das mulheres não é como a sua, eu tentei explicar. Mas é como eu disse antes, leitorinha: quando eles estão assim, não tem jeito que dê jeito, como cantava o Raimundo Soldado. E quando eles estão assim há catorze meses, ou a gente vai logo pra guerra ou então volta pra casa e toca duas seguidas pra poder dormir.

Quando atravessamos a rua, deixei ela sair um pouco antes e finalmente consegui olhar a bunda da moça. Foi bem rápido mas foi o suficiente. A santista era muuuito bem nutrida de glúteos. Aiaiai… Pobre de mim.

Entramos no elevador e ela apertou o 12. Eu havia posto a mochila à frente da cintura, você sabe, o Jeitoso a essa altura parecia uma garrafa de coca-cola fechada depois de dez minutos chacoalhando, tava a um milímetro de explodir. Aí no 2 a porta abriu, era o andar do restaurante, e um senhor entrou. Vestia terno e gravata, parecia que ia ou vinha de um jantar de negócios. Ele olhou pra Marília e, sério, perguntou se ela tava indo pro quarto. Ela respondeu que sim. Depois a porta abriu no 12 e eu e ela saímos. Antes da porta fechar, percebi que o senhor olhava fixamente pra ela, muito sério.

Caminhamos pelo corredor até a porta de seu quarto. Não resisti e perguntei quem era aquele homem do elevador. E ela respondeu: Meu marido. Gelei no mesmo instante. Como assim, marido?, pensei, tentando organizar as ideias. Mas no Orkut o seu estado civil está como solteira, né? – pensei em perguntar. Mas desisti.

Primeiro aqueles peitões em minha cara. Depois me convida pra subir ao seu quarto. E depois me revela que é casada – e o marido tá ali no hotel! Afinal, leitorinha, que tipo de seres são vocês, heim? Por que vocês fazem isso???

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ENTRAMOS NO QUARTO. Marília fechou a porta, acendeu a luz e disse que eu ficasse à vontade pois ela iria ao banheiro. O quarto era bacana, cama de casal, poltrona, abajur, cortina na janela, quadro bonito na parede, frigobar, controle de som e tevê na cama. Aproveitei pra olhar dentro do guarda-roupa: nada de roupas masculinas, que estranho. Será que o marido tava hospedado em outro quarto?

O Jeitoso tava como eu, confuso, mas perguntou se eu tinha levado camisinha, ele sempre pergunta, menino atento, foi bem ensinado. Sim, eu tinha. Aliás, nos últimos tempos camisinha comigo sempre perdia a validade, que horror.

Marília voltou do banheiro e sentou na cama. E pediu pra eu sentar também. Sentei. Ela pediu que eu lhe mostrasse os livros. Abri a mochila, tirei e pus sobre a cama. Enquanto ela selecionava um exemplar de cada, eu tentava não olhar pro decote dela, parecia até que os peitos haviam crescido depois da ida ao banheiro. Marília perguntou quanto era, eu disse que era tanto mas daria um desconto, mas ela disse que não aceitava o desconto, tirou o dinheiro da bolsa e me entregou. Agora eu quero uma dedicatória bem especial, primeiro neste aqui – e me estendeu o primeiro livro.

– Quer tomar algo pra se inspirar? Um uisquinho?

Um uisquinho? Hummm, o que realmente aquela mulher tinha em mente? Bem, seriam seis dedicatórias especiais, eu precisaria de inspiração mesmo. Aceitei. Ela então levantou, abriu o armário e tirou de lá… uma garrafa de Jack Daniel´s! Lacrada. Eu não acreditei quando vi. Acho que ela percebeu minha cara de idiota:

– Eu sabia que você ia gostar…

Putz. Minha bebida predileta. Ela certamente lera em meu site ou no Orkut. Será que ela comprara minha bebida predileta só pra que eu escrevesse umas dedicatórias nos livros dela? Ou havia algo mais? Será que ela havia bolado tudo aquilo, todos aqueles detalhes, o encontro no bar, o decotão assassino, o convite pra subir ao quarto, o Jack Daniel´s, tudo foi pra me seduzir? Ou aquele era o jeito dela mesmo, simpática e espontânea, e a minha mente pérfida, junto com o Jeitoso, claro, é que imaginava besteira? Mas… e o marido? Onde ele estaria naquele momento?

Tirei o lacre e devolvi a garrafa. Ela serviu dois copos, eu disse que queria sem gelo, ela disse que preferia com, pôs três pedras no dela e brindamos. Ao escritor, ela disse. Qual escritor? Você, seu bobo. Ah, claro… eu… a mim, claro… não, a mim e a você, à leitoa, quer dizer, à leitora do escritor.

Putz, leitoa é foda. Será possível que eu não consigo falar nada que preste nesses momentos? Pelo menos uma vez na vida eu bem que poderia fazer como aqueles caras do cinema, que mesmo nas situações mais inesperadas sempre dizem a frase perfeita que a mulher quer ouvir.

Brindamos e bebemos. Só o cheiro do Jack já me leva às nuvens, é sério. E o primeiro gole, hummm, o líquido descendo a garganta feito um fogo gostoso queimando por dentro, a saliva que, ato contínuo, inunda a boca, o calor no estômago… e um acorde de blues soando em algum lugar de minha alma, sempre, sempre toca um blues quando bebo Jack Daniel´s. Ah, leitorinha, beber esse uísque não é apenas beber um ótimo uísque, é beber junto a história do blues, é beber com Muddy, Buddy, Billie, Eric, Jim, Janis e todos os outros.

E tem outra coisa. Jack Daniel´s é um poderoso excitante pra mim. No sentido sexual, inclusive. Não sei bem o porquê, mas é uma bebida que me deixa com tesão, que coisa louca, né? E se Marília sabia que eu gostava tanto do Jack, devia saber também desse complemento. Aiai. Que mulher era aquela?

Sentei-me na poltrona pra escrever as dedicatórias. Marília perguntou se eu não preferia escrever com música e antes que eu pudesse responder, ela ligou o rádio e Tim Maia preencheu o quarto com seu vozeirão, acho que era Azul da Cor do Mar. Achei ótimo. Mas quem disse que consegui escrever alguma coisa? Travei total, não consegui me concentrar. Aquela situação, eu e Marília naquele quarto, o lance do marido dela…

– Acho que preciso de outra dose… – pedi, após entornar o resto da primeira. E precisava mesmo, juro, meu coração tava aos pulos. Ah, se eu pudesse decifrar o que ela tencionava com tudo aquilo… Ou ela não queria nada, queria apenas brincar comigo e na verdade tava se deliciando com meu sofrimento? Gente, isso não se faz com o cidadão trabalhador. O que vocês ganham com isso, meninas, heim? Será uma espécie de necessidade atávica de vingança sobre os homens? Putz, logo comigo que defendo tanto vocês, que sacanagem.

Marília pegou a garrafa e enquanto me servia novamente, comentou que gostava muito daquela música. Então tomei coragem pra fazer a pergunta.

– Marília… ahn… você… aquele senhor…

– Depois você escreve – ela disse, me interrompendo e puxando delicadamente a caneta da minha mão. – Vamos dançar?

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DANÇAR?, EU PERGUNTEI, talvez não tivesse ouvido muito bem. Sim, dançar, esta música é tão linda, ela respondeu, como se convidar pra dançar um escritor que tá no seu quarto de hotel autografando livros fosse assim a coisa mais normal, corriqueira e lógica do mundo.

Levantei da poltrona e no instante seguinte lá estávamos nós dois dançando ao som de Tim Maia, girando devagarinho no meio do quarto, coladinhos, rosto com rosto, o perfume dela… e os peitos a pressionar meu tórax, aqueles dois peitões impossíveis de não sentir… eu afastava o rosto um pouquinho e podia vê-los logo abaixo do equador do meu queixo, os dois montes da perdição, aquele abismo entre eles sussurrando meu nome, Kelmeeeeeeer… Kelmeeeeeeer…, sim, não sei se você sabe, leitorinha, mas há peitos que sussurram nossos nomes, é um mistério milenar, os Peitos Sussurrantes, ninguém explica. Poizé, eles sussurram, e aí lá estamos nós, Ulisses eternamente a resistir ao chamado das sereias… ou a se jogar de vez ao mar.

Pois Ulisses não resistiu. Livrou-se das cordas que o mantinham preso ao mastro e, tchibum!, joguei-me ao mar. Não deu pra resistir, seo delegado, me prenda, me jogue na masmorra, me leve à guilhotina, mas a certas coisas o homem peniano masculino simplesmente não consegue resistir, o senhor sabe, né? Não deu pra resistir, leitorinha: no instante seguinte meu rosto se encontrava entre os peitos de minha leitora, as mãos a arrancar o top, aquele par de peitos impossíveis saltando fora e minha boca absolutamente descontrolada, sem conseguir se decidir entre um e outro, entre o outro e o um, os dois ao mesmo tempo, os três se três houvesse.

Foi a poltrona que amparou nossa queda. Caímos sentados, eu na poltrona, Marília em meu colo, de frente pra mim, os peitos em minha boca. Eu todo era um par de mãos enlouquecidas e uma boca descontrolada, um andarilho esfomeado diante do par de mangas maduras e suculentas, eu era o Tesão em esTado bruTo. E Marília em meu colo, forçando minha cabeça contra suas mangas, o sumo delas já escorrendo da minha boca, eu gemendo, ela assanhando meu cabelo, cravando as unhas no couro cabeludo, ela também rendida ao descontrole do desejo urgente.

Então era isso mesmo que ela queria…, pensei, num raro momento em que meu pensamento perdido conseguiu unir duas ideias. Tá vendo, eu não disse, eu não disse?, mandou de lá o Jeitoso, a voz abafada pelo peso do corpo de Marília a esfregar-se sobre ele. É curioso… Paudagente só pensa em sexo mas, vendo as coisas do ângulo dele, o ângulo de baixo, tudo são bundas e bucetas, tocas pra entrar, reentrâncias a preencher. Não dá pra culpá-los por pensarem sempre assim. Ok, Jeitosão, você tava certo, nunca mais discutirei com você.

Então Marília levantou-se, deixando meu colo. Minhas mãos pareciam pregadas com velcro nos peitos dela, tão difícil foi soltá-los. De pé à minha frente, ela arrancou o que sobrava do top e libertou de vez seus peitos, libertas quae sera chupem. Não sei se você sabe, leitorinha, mas todos os peitos anseiam por serem libertados, e é por isso, arrááá!, é por isso que eles sussurram nossos nomes: eles clamam por seus libertadores. Os Peitos Sussurrantes, mistério resolvido.

Marília tirou o jeans, a calcinha e deitou-se na cama, todinha nua, e sussurrou: Vem, meu escritor tarado. Escritor tarado só podia ser eu, não havia mais nenhum escritor naquele quarto. Levantei da poltrona e cinco segundos depois já havia atirado longe roupa, meia e tênis e tava agora ao lado dela na cama. Foi nesse exato instante, admirando seu corpo nu ao meu lado, que o descontrole e a impaciência, de repente, cederam lugar a outra sensação, a velha sensação que me acomete quando chega o momento da união sexual e que me faz ser possuído por um misto de encantamento e reverência à Mulher, aquela súbita percepção do Sagrado que a figura feminina simboliza, a certeza de que outra vez serei instrumento da vontade da Deusa na reedição do casamento sagrado do feminino com o masculino.

Parece estranho falar disso agora, eu sei, mas é que o sexo pra mim é algo meio místico. E a mulher que tá comigo nunca é apenas uma mulher: ela é a Filha da Deusa. E por isso ela é também a própria Deusa. Que me escolheu, entre todos, pra ser seu cavaleiro no sagrado ritual da fertilidade e…

– Porra! Deixa de viadagem e me põe logo lá dentro! – berrou o Jeitoso, me interrompendo. O danado tava lá todo empertigado, parecia uma serpente naja pronta pro bote.

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DEITEI MARÍLIA NA CAMA e por algum tempo admirei emocionado seu corpo nu, o moreno da pele contrastando com o branco do lençol, as marquinhas do biquíni, tudo formando um quadro mais bonito do que qualquer pintor poderia pintar. Putz, como as mulheres ficam lindas neste momento em que todo o seu corpo é um chamado silencioso e ardente para…

– Que chamado silencioso o quê! – protestou o Jeitoso. – Me bota logo lá dentro senão vou te denunciar à Sociedade Protetora dos Animais!

Ignorei o escândalo do meu pinto. Aquele era um momento especialíssimo e não seria um pinto falante e mal-educado que o estragaria. Depois de um ano e dois meses, eu estaria novamente dentro de uma mulher, que coisa! Tanto tempo… A secura chegara ao fim, finalmente.

Delicadamente pousei um beijo sobre o pé daquela que naquele momento era a representante da Deusa, meu gesto simbolizando minha rendição e reverência à beleza e ao mistério daquela mulher.

– Não tem mistério nenhum, idiota! Tudo que tu tem de fazer é me…

Deixei o menino maluquinho falando sozinho e continuei o ritual. E minha língua começou sua bela jornada pelo corpo de Marília, avançando lentamente pela trilha sinuosa de suas pernas, deixando pra trás um rastro de saliva agradecida. Ela passou pelo joelho, pelas coxas, demorou-se um pouco no interior delas e finalmente chegou a seu destino, feito o andarilho sedento que alcança o oásis onde saciará sua sede na fonte da água mais pura e saborosa.

Toc, toc, toc!!!

Não, não foi minha língua que bateu na porta do oásis. Até porque oásis não tem porta, né? Foi alguém que bateu na porta do quarto. Putamerda, o marido!, pensaram as minhas células, todas arrepiadas. E elas mesmas responderam, resignadas: Agora fudeu.

Como que eu pude esquecer do marido da outra, como?!

O susto foi horrível. E o que aconteceu depois foi bem rápido, nem sei como aconteceu. Só sei que no segundo seguinte após as batidas na porta eu me encontrava atrás da poltrona, todo agachadinho, parecia um embrulho ridículo. Tenho certeza que não saltei da cama direto pra lá, nunca fui ginasta olímpico. Acho que o susto foi tão grande que meu corpo se desmaterializou e, pufff, reapareceu atrás da poltrona, só isso explica a velocidade.

Marília levantou calmamente, vestiu um roupão, abriu a porta e o maridão entrou, bufando de raiva, o próprio incrível Hulk. Olhou no armário, não viu ninguém lá dentro. Foi no banheiro e também não viu ninguém. Então voltou e empurrou a poltrona com o pé. E eu apareci lá atrás, nu e agachado, morto de lindo.

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– TU QUERIA COMER MINHA MULHER, ô cabeludo?

– Quem, eu?

– Com esse pinto murcho aí?

– Quem, ele?

– Minha mulher me falou muito bem de ti.

– Quem, ela?

– Tão bem que eu me apaixonei.

Ih, agora fudeu…

Não, isso não rolou. Rolou apenas em minha mente doentia de roteirista de sitcom enquanto eu me agachava atrás da poltrona que nem um guaxinim com dor de barriga e esperava meu triste fim. Roteirista tem esse vício, tá sempre retocando as cenas da vida.

Mas já que falamos de piada, tem aquela clássica em que o marido chega em casa e o amante da mulher se esconde atrás do aparelho de som, mas deixa o saco aparecendo, e aí o marido nota algo estranho no aparelho e a mulher diz que é porque mandou trocar o botão do volume, que agora o botão é penduradinho, novo dezáine, aí o marido quer testar e bota um disco da Maria Bethânia e aperta o saco do coitado achando que é o botão do volume, e o cara geme baixinho, segurando o grito, aí o marido diz que não tá ouvindo a música e, crau!, gira o saco do cara todinho, e aí o cara não aguenta e solta o berro: Aaaaaaaaaiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!! E continua imediatamente, cantando: Minha Mãe, minha Mãe Menininhaaaaaaa…

– Já vai – gritou Marília, enquanto vestia calmamente um roupão. Ela fez sinal pro guaxinim com dor de barriga continuar atrás da poltrona e se dirigiu à porta. O Jeitoso, coitado, tava mais apavorado que eu – cinco segundos antes ele era o fodão do pedaço e agora o infeliz tava tão encolhido que parecia que tinha entrado dentro do saco. O pinto que virou tatu. Ah, não ria, leitorinha, não seja cruel. Paudagente também é gente.

Escutei a porta abrir e percebi que Marília falava alguma coisa que não compreendi, pois o som do rádio continuava ligado. Depois escutei som de passos entrando no quarto, passos de homem. Agachei-me ainda mais, a testa colada no chão, e preparei-me pra morrer naquela posição ridícula, de bunda pra cima. Tão novo, quarenta anos, na flor da idade. Tinha um futuro brilhante pela frente, venderia livro que nem Paulo Coelho (mas recusaria a Academia de Letras), casaria com a Priscila Fantin num ritual xamânico à beira-mar, tomaria demorados banhos de Jack Daniel´s em seu ofurô…

Pô, agora falando sério: tanta gente bacana aí pra morrer e morro eu! Por que não o Maluf ou o casal Garotinho?

Dizem que nesses momentos o filme da vida da gente passa diante dos olhos, né? Pra mim não passou filme nenhum. Tudo que vi, por baixo da poltrona, foi um par de sapatos pretos masculinos ao lado da cama. Depois eles deram meia-volta e saíram de meu campo de visão. E escutei a porta do quarto fechar.

– Pode sair daí, gatinho.

A voz de Marília, me chamando.

– Não, obrigado, tá bom aqui, miaaau…

Ela me puxou pelo braço e me mostrou a bandeja sobre a cama.

– Eu tinha pedido um lanchinho pra gente e esqueci, a recepção mandou deixar. Tá com fome?

Caramba, então não era o marido, era o garçom. Ufa! Bem, eu não tava com fome mas talvez fosse melhor mesmo dar um tempo, forrar o estômago. Aproveitar e perguntar sobre o marido, vai que da próxima vez é ele quem bate na porta. Meu coração ainda ribombava no peito, afinal segundos antes eu tava a centímetros da morte e agora tava diante de um sanduíche árabe delicioso e de uma bela morena peituda vestida num robe branco me servindo uma nova dose de Jack Daniel´s. Diadorim tem razão, viver é muito arriscoso.

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O LANCHE TAVA DELICIOSO, deu pra forrar bem o estômago, e o bendito Jack me fez relaxar. Mas só relaxei verdadeiramente depois que Marília me explicou tudo: ela e o marido viviam um casamento não muito ortodoxo, separados mas ainda morando na mesma casa, e como eram sócios num negócio, às vezes viajavam juntos e geralmente ficavam no mesmo hotel, em quartos separados. Eu não deveria temer nada, ela garantiu.

Putz. Gente civilizada é otre chose.

Depois ela serviu mais Jack pra gente e riu muito, lembrando do meu jeito apavorado atrás da poltrona. Ri também, né, já dava pra rir da desgraça. Aproveitei e contei a tal da piada do marido que chega em casa e o amante se disfarça de aparelho de som, o que provocou uma crise de risos em Marília de tal forma que ela não conseguia mais parar de rir, e eu ria da risada dela, e durante um tempão ficamos nós dois lá na cama, nus e abraçados, gargalhando que nem dois dementes, rindo até chegar às lagrimas. Ai, rir é muito bom, e rir a dois, assim, é um prazer quase sexual. Sexo risal.

Enquanto aos poucos se esgotava o estoque de riso e nossos corpos se acalmavam, a boca de Marília começou a deslizar por meu peito, pela barriga, o umbigo… até chegar ao Jeitoso, já pronto pro serviço. Ela o envolveu delicadamente com a mão, sentindo-o pulsar, e falou baixinho:

– Ai, Jesus, que pau fantástico…

– Você diz isso pra todos…

– Eu juro.

– Ele é só três centímetros acima da média nacional, já pesquisei na Wikipédia.

Fiquei olhando a outra lá toda meiga em sua paixão à primeira vista pelo meu pau. Tem mulher que se apaixona pelo paudagente, é tão mimoso isso, dá vontade de tirar uma foto dela abraçada com ele pra levar sempre na carteira. Mas cá pra nós, leitorinha, o Jeitoso não tem nada demais. É até meio torto pro lado direito e tem uma marquinha que os fetiches sadomasoquistas de uma doida um dia me deixaram. Em concurso de beleza de pau, que nem aquele da piada do corcunda, ele levaria uma chuva de ovo.

Mas reconheço no parceiro uma grande virtude: ele é estrategicamente anatômico, vai enlarguecendo assim discretamente, como se pra permitir que o orifício se acostume com o volume dele, e assim, quando você se dá conta, pufff, El Ludibriador já tá todo serelepe lá dentro. É um chato convencido insuportável – mas é realmente jeitoso, admito.

Poizentão. O Jeitosão teve que ralar pra caramba nessa noite. Um ano sem sexo, você sabe o que é isso? A sorte é que Marília é do tipo que gosta muito do leriado, senão ela não teria aguentado as cinco horas, sim, cinco horas, de nheconheco. Mas aguentou com louvor toda a sequência de boquete, meia-nove, frango-assado, torninho frontal, torninho costal, diladinho, poltrona, janela, pia do banheiro, cahorrinho, segura-peão, carrossel da Xuxa, garupa de rã e a clássica posição chinesa ventania no bambuzal. Uau! A morena teve três, quatro, cinco, seis orgasmos e eu sempre retendo o gozo, deixando pro final.

Que maravilha quando uma mulher se entrega ao sexo livremente, sem pudores ou medo de ser considerada isso ou aquilo. Sim, eu sei que isso também depende de quem tá com ela, do quanto o outro ou a outra a deixa à vontade. Mas há mulheres que naturalmente gostam do sexo pelo sexo em si, como os homens, e se isso pode assustar alguns deles, a mim me fascina e encanta. Juro que não temo as mulheres livres.

Quando avisei que iria gozar, ela parou e sugeriu uma nova posição. E assim fizemos. Sentei-me bem na beirinha da cama com as pernas abertas, pra fora da cama, e deitei as costas. Marília ajoelhou-se no chão, entre minhas pernas, e envolveu meu pau com seus peitões generosos. Uma espanhola!, pensei, adorando a ideia de ser masturbado pelos peitos dela.

Hummm… Foi a melhor espanhola que já recebi nas últimas sete encarnações, inclusive a que vivi na Andaluzia. E o mais louco é que enquanto subia e descia seus peitos em torno do meu pau, ela ainda o chupava! Perfeito, leitorinha, simplesmente perfeito, só você tendo um pau pra saber como é.

Tive um orgasmo inesquecível, longo, intenso e emocionante. Urrei e me sacudi que nem um bicho. E ejaculei tanto que Marília se atrapalhou e não conseguiu engolir tudo. Quando eu enfim ressuscitei, lambi-lhe nos peitos e no pescoço as sobras fugitivas do meu gozo e as dividi com ela em sua boca. E logo depois apagamos os dois, bêbados, exaustos e em paz, abraçados sobre a cama em desalinho, roupas e lençóis e travesseiros e livros e pratos e copos e talheres pra todo lado, o hotel fora bombardeado, tudo destruído, Dresden após a bomba Orgasmoton.

 

 

DESPERTEI SEI LÁ QUE HORAS, ainda bêbado e de pau duro, e quando vi Marília nua ao meu lado, dormindo de bunda pra cima, não resisti. Como é que resiste? Ai, Marilinha.

Abri-lhe as nádegas e admirei seu cu retraído-depilado, tom castanho-médio, um tipo de boa cotação no mercado, bom que se diga. E caí de língua. Aos poucos, sem pressa, ela começou a reagir às minhas lambidas. Passei gel no dedo e brinquei com seu cu, e aí sim ela começou a gemer. Depois dois dedos, depois três… e o resto foi com o jeitosão ludibriador de reentrâncias traseiras. E foi assim que ela acordou, sua bunda preenchida de mim, docemente estuprada em sonho real, Marilinha gemendo as palavras mágicas não para e mete mais, ô coisa boa encontrar uma mulher que tem prazer pela bunda. E foi assim, meio dormindo, meio acordada, que Marília gozou mais uma vez, agora junto comigo, coisa boa gozar junto, dois cometas cujas trajetórias se cruzam no infinito espaço sideral e explodem numa chama orgástica que por instantes aquece a eterna noite fria do Universo.

Quando despertei novamente, já amanhecia lá fora. Vesti-me rápido e peguei a mochila. A morena adormecida de Santos continuava lá, curtindo o céu dos guerreiros sexuais, sem imaginar o alcance do maravilhoso presente que ela me dera aquela noite e o tanto que eu lhe seria grato por todos os seculum seculorum. Deixei um beijo agradecido em seu generoso derrière e saí, me deliciando por saber que tava ali dentro o registro do meu prazer, hummm, diliça.

Minutos depois, enquanto esperava o ônibus na Nossa Senhora de Copacabana, não pude deixar de atentar pro significado de estar ali, numa rua com aquele nome. A Deusa Eterna, reencarnada em trajes cristãos, ganhara nome de avenida. Bela homenagem, sem dúvida. Mas melhor homenagem lhe fazem sempre os amantes, ofertando-lhes a união de seus corpos e a essência sagrada de seus gozos transcendentais, reverenciando a Deusa do Amor e se fazendo instrumentos pra mais uma reedição do sagrado casamento alquímico entre o Feminino e o Masculino. Pro bem do mundo. Pro bem da vida.

Se o chato do Jeitoso estivesse em condições, ele já estaria reclamando desse papo místico. Mas ele agora era um morto-vivo, tadinho, dormiria o dia todo, só acordando pra mijar. Ele merece. Paudagente também é gente.

O ônibus chegou, hora de ir pra casa. A secura chegara ao fim, que alívio. Um ano e dois meses, que coisa… Só pode ter sido praga de ex, eu, heim!

Durante o trajeto a paisagem que eu via eram as cenas dessa história ridícula, todas as tentativas frustradas de sexo, tantas trapalhadas. Quem sabe um dia eu não escreveria essa história? Mas quem leria algo tão bizarro, punhetas, brochadas, um cara que conversa com seu pau?

– Tem gosto pra tudo, abestado – rosnou o outro lá embaixo, voltando, por alguns segundos, de sua dormência.

E outra vez o menino maluquinho tinha razão, precisei admitir.

 

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FIM

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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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A SECURA ACABOU EM MÚSICA
A banda Bardoefada compôs uma música inspirada no conto Um Ano na Seca. Veja o vídeo:

A Bardoefada é uma banda que canta o tesão e a liberdade de amar.
Site da banda: bardoefada.com.br

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Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

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01- Sobre seu ano de abstinência uma curiosidade: vc contou o tempo? como foi o primeiro encontro? Suely, Brasília-DF – 2008

02- Meu desejo de ruiva é que você termine a historinha de 1 ano de seca. kkk Sucesso, Kelmer. Rafaela, Campina Grande-PB – 2008

03- Fiquei curiosa pra saber como vc foi levando a secura depois do 6º mês. Conta, vai! Ah, não esquece de contar também como foi que vc saiu desse 1 ano de secura! A pobrezinha sobreviveu? (brincadeirinha…) Jéssica (de onde mesmo?)- 2008

04- muito me interessou a sua experiência de um aninho sem nada..pobrezinho.. pq eu, nossaaaa, meu namo já sabe quando fico irritada.. das duas uma ou é tpm ou é falta…conte aí mais de como vc saiu dessa, todas nós mujeres queremos saber!!! besos 😉 GG, Fortaleza-CE – 2008

05-Você tá é enrolando, não quer continuar sua saga para nós, sensíveis mulheres que somos, nos deleitarmos com sua seca quase nordestina. Continue, continue… Rafaela, Campina Grande-PB – 2008

06- Como é que pode? Fico uma semana esperando ansiosamente você postar e no final das contas você não termina a história..Isso não é coisa que se faça com suas pobres leitoras! hehe Ow Kelmer, continuuaaaa, por favor. Flávia, Fortaleza-CE – 2008

07- Dessa vez, vc se superou! Sua narrativa tá tão engraçada que eu fiquei rindo sozinha feito doida, na frente do micro. Mas esse suspense todo já tá me dando ansiedade.  Conta logo o resto da saga, vaaaiii!!! Jessica (de onde mesmo?) – 2008

08- Oi meu querido…rapaz as meninas estão com toda razão..(vc faz muuuuuito suspense…)conta logooooo…vc não imagina o quanto nos deliciamos lendo suas histórias, reais ou não, e outra é tudo de bom vermos a opnião sincera de um homem, saber o que vcs pensam é tudo. Ahhh, quanto as risadas da Jéssica ela não está só (EU TAMBÉM.. HEHEHEH). PIOR, QUE SEMPRE LEIO NO TRABALHO… KKKKKK BJOOOOO. GG, Fortaleza-CE – 2008

09- Continua a história do 1 ano na seca q está ótima, tô imaginando quem seja a Sonja. Daniela, São Paulo-SP – 2008

10- Meu desejo pra 2008: saber o final da saga kelmérica de 1 ano na seca. Não faça assim, clemência!!! Prometo lhe indicar novos leitores. Mas, por favor, continue a saga da estiagem! Jessica – 2008

11- Ei, isso não vale! Ah, seu chantagista safado !!! Tô aqui, tremendo feito viciada (que de fato estou) nas tuas histórias, e vc me vem com essa, não vai terminar de contar sobre a tua abstinência… Isso não se faz, viu?! Hunf! Cristie – 2008

12- entresafra é fogo…continua e estoria meu escritor-favorito, vai. Christina, Rio de Janeiro-RJ – 2008

13- É. Eu não fazia idéia mesmo, fico sempre lhe subestimando e nunca acho que você vai se superar na continuação da saga de secura de 1 ano. E deve ser por isso mesmo que tomarei um remedinho pra cólicas daqui a pouquinho. Vai matar outro de rir, Kelmer, aliás, Ricardinho! (falei isso com a boca aberta e olhos arregalados, enternecidos…kkk) Rafaela, Campina Grande-PB – 2008

14- Vc sabe tudo… e a Sonja também… INCRIVEL…”catártico” Ô Ricardooooo Termina essa estória pelamordeDeus…rsrsr… Cristina Rodrigues, Santos-SP – 2008

15- hum.. já ficou assanhado lembrando da sonja e seu orifício dilicioso.. arráaaa Sou uma das leitoras que como foi mesmo que você disse .. ah.. as “bem comidas”.. meu marido faz a parte dele direitinho!! aiai Mas é claro que as vezes, ele está lá no seu dia de trabalho árduo e eu aqui em casa a pensar na vida…. ai já viu né.. não sei por causa de quê..??? começa a vim um fogo e olho para o relógio e penso: mãos pra que te quero.. e ai meu filho vai eu e o travesseiro, rolando de uma lado para outro… quer os detalhes né safado.. eu não.. só se você me explicar primeiro essa tal posição da ventania no bambuzal.. Pandora, Goiânia-GO – 2008

16- Hahahahaha! Diz que homem na secura é um horror…mulher mal comida então, sem comentários. O mau humor chega a ser quase palpável, ninguém merece! Ainda bem que meu namorado me mantem assim, muito, muito bem humorada. Lu Robles, São Paulo-SP – 2008

17- Fui seca na sua saga e vc não escreveu quase nada. rsrsrsrs Tá querendo matar a gente de curiosidade? Gosto dos seus textos com uma pitada de pimenta. rsrsrsrs. Alessandra Pereira, Brasília-DF – 2008

18- caramba, vc tem que continuar com os posts de ‘um ano na seca’, e quando acabar continue em ‘dois anos na seca’ e assim sucessivamente 😀 hahaha. Vamille – 2008

19- “Um Ano na Seca” me faz entender muuuiiito sobre o universo masculino. Rosa, Fortaleza-CE – 2008

20- Quando eu penso “Kelmer já esgotou toda inspiração que tinha, desse Um Ano de Seca não vai sair mais nada, já deu o que tinha que dar!”, lá vem tu com essa história de fazer um roteiro sobre prostituição na Vila Mimosa. Tá, já die meu braço a torcer. Agora continue, seu cabra. Rafaela, Campina Grande-PB – 2008

21- Desconfio que você tem um lado SADO… E olha que disso eu entendo, rsrsrs. Conte logo o final dessa história com a Rose. Mesmo usando minha imaginação, não é a mesma coisa. bjs. Clara Yasmin, Rio de Janeiro-RJ – 2008

22- Ai, Kelmer, e a Rose, hein? Marréóviu, marréclaro que eu quero ver esse final. Foi ou não? Beijos, querido! Cada vez mais fã, seu mimoso! Rosa, Fortaleza-CE – 2008

23- Como pode alguém fazer de uma situação ruím ,uma coisa engraçada,só vc mesmo,olha eu parecia uma louca rindo aqui no meu trabalho,kkkk,momentos taum engraçados,e que é dificíl naum te encaixar na foto,pq minha mente é fértil demais,por outro lado vc acaba passando para suas leitorinhas o homem romantico,carismatico e sensual que vc é,e fora outras cositas massss…..rsrsrs,deixa pra lá,dá vontade de ler td de novo.bjus e abraços. Lucia Lima, Fortaleza-CE – dez2010

24- Muito bem escrito e divertido. Adorei tudo, da Sonja à Marília. bjo. Renata Regina, São Paulo-SP – fev2011

25- Hoje li ‘um ano na seca’ e como me diverti! Espero me divertir mais sendo uma leitorinha VIP! Bjo! Gloria Guimarães, Fortaleza-CE – mar2011

26- Menino, hoje, quer dizer, ontem, tirei pra ler teu blog, e fui me envolvendo de um jeito que não consegi fazer outra coisa… São exatamente 3h25 e desde as 23h to aqui morrendo de rir das tuas loucuras, principalmente do Um ano na seca. Tu parece q tá dentro da cabeça da gente, ou que instalou um programa q percebe todas as nossas movimentações. Adorei a historia, voltarei sempre que sentir saudades de vc 😉 Grande beijo meu caro, obrigada por mais esse prazer literário… Nadine Araújo, Fortaleza-CE – out2011

27- A minha irmão está lendo o seu livro “Um ano na seca” e está adorando! Bjos saudosos! Juliana Melo, Fortaleza-CE – fev2013

27- Finalmente consegui terminar de ler. Chorei do começo ao fim (DE TANTO RIR!!!). O que é isso, meu filho? Eu tava ficando com tanta pena de você que tava quase reescrevendo o final da história pra te dar uma força. Mas confesso, foi bastante enriquecedor, aprendi sobre termos e objetos que não conhecia, kkkkkkkkkk. Só você mesmo pra escrever tanta maluquice! Adorei! Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – jan2012

28- ah eu adoreiiiiiiiiii……=D. Laís, São Paulo-SP – jan2012

29- recomendo o livro UM ANO NA SECA..melhor e mais divetido dia dos namorados 🙂 Flávia Lemos, São Paulo-SP – jun2012

30- Olá Ricardo, Td bom?? Eu quero te agradecer pelo livro “Um ano na seca”, achei muito legal, chorei de rir…adorei! Mto obrigada mesmo! Logo mais quero adquirir o Vocês terráqueas [=D] Abraços. Tatiane Beltramini, Taboão da Serra-SP – ago2012

31- E aí meu xará? Antes de dormir li o “Um ano na seca” em um tapa e ri litros. Acabei que acordei inspiradão e escrevi uma música nova totalmente baseada no teu conto. Assim que eu gravar a música nova eu te mando. Abraço! Bardo, Santo Ângelo-RS – mar2013

32- Cara to lendo Um ano na seca! Rindo litros… Comecei a ler no ônibus e parei… o povo já tava curioso pra saber do que se tratava! KKKK. Kelmer, seus escritos sempre me divertindo muito! Jéssica Sousa, Fortaleza-CE – mar2013

33- Ricardo Kelmer, devorei o seu “Um ano na seca”! Ao mesmo tempo em que solidarizava pela situação de secura, bolava de rir com as situações descritas. Bom era eu lendo isso no trabalho, me abrindo de rir e o chefe olhando com cara de “valha, ela tá doida”! Leitura leve, satisfatória e bem, bem, gostosa, como a vida deve ser. 😀 Kaliza Holanda, Fortaleza-CE – mar2013

34- Só mesmo uma leitura pra gente abstrair todo esse trânsito infernal. Os delírios do Kelmer salvando a noite. 😉 Li quase de um fôlego só! Foi ótimo! Olha, não sei pra você, mas pra mim, foi maravilhoso. hahahahha. Jessika Thaís, Fortaleza-CE – mai2013

35- Infelizmente dei altas risadas da sua desgraça de um ano na seca hahahaha. Vika Mancini, Leme-SP – dez2014


Quem tem a droga tem o poder

14/07/2008

14jul2008

Quem ganha e quem perde com a proibição das drogas?

QUEM TEM A DROGA TEM O PODER

(1a parte da trilogia Rio Droga de Janeiro)

“A gente não torce mais para a polícia acabar com as quadrilhas, pois a gente sabe que isso é impossível. A gente agora torce é para que apenas uma quadrilha se estabeleça no lugar onde a gente mora, pois é só assim que a gente tem um pouco de paz. De preferência a quadrilha que tem apoio da polícia.”

Quem disse isso foi uma amiga minha que mora no Morro do Vidigal, favela carioca da zona sul, um dos lugares com a vista mais deslumbrante do Rio de Janeiro. Ela lamentava a guerra entre quadrilhas de traficantes que há meses violenta o dia a dia de sua comunidade e obriga os moradores a conviver com tiros e explosões na madrugada, enfrentamento de quadrilha com quadrilha e quadrilha com polícia, mortes, toque de recolher imposto pelos bandidos…

Quem tem a droga tem o poder ‒ esta é a lógica cruel do Rio de Janeiro atual. Junte-se a isso pobreza, despreparo das forças de segurança, descaso dos governantes, indiferença das elites, interesses comerciais, corrupção em todos os poderes e, também, é claro, a existência de um ávido mercado consumidor e, pronto, você terá um poder paralelo capaz de se infiltrar em todos os níveis da sociedade, corroer suas bases, estabelecer suas próprias leis e tornar a vida do cidadão um inferno.

Os criminosos querem poder, muito poder, quanto mais melhor. Para isso, precisam de muito dinheiro. Droga é um negócio perigoso, mas é bastante lucrativo pois há muitos consumidores, inexiste fiscalização e não se paga imposto. Os maiores pontos de venda ficam nas favelas porque lá o Estado se recusa a ir. Lá as quadrilhas são o Estado: elas fazem as leis, fiscalizam seu cumprimento e punem os faltosos. Antigamente o traficante do morro era nascido no morro e era um romântico, pois atuava como um benfeitor da comunidade abandonada pelo Estado, usando seu poder para amenizar as dificuldades de sua gente. Hoje não é mais assim. O negócio da droga é para profissionais e não para Robin Hoods românticos. Os chefões não estão interessados em melhorar a vida de ninguém, mas em obter mais poder e se defender das outras quadrilhas que cobiçam seu território. E o cidadão? Este fica lá, impotente e apavorado no meio do fogo, sem ter a quem recorrer.

Se o problema ficasse restrito às favelas, as elites não estariam nem um pouco preocupadas. Mas a violência gerada pela bandidagem desceu o morro e alcançou a classe média e os ricos. Não há mais onde se esconder. Carro blindado, vidro escuro, condomínio fechado, cerca elétrica, câmeras de vigilância ‒ a sociedade gasta fortunas para se proteger, mas um dia a violência descobre uma brecha e ataca, nos transformando em mais um número das estatísticas. As quadrilhas, cada vez mais ousadas, exibem seu poder à luz do dia, decapitando o inimigo, tocando fogo no corpo e largando-o nas ruas, perto do metrô, para que todos entendam de uma vez quem é que manda no pedaço.

Minha amiga não quer guerra onde ela mora. Ninguém quer. O Estado deveria proteger os cidadãos, mas entra ano e sai ano, entra década e sai década, e isso não acontece. O que sobra ao cidadão? Apenas torcer para que a quadrilha que manda no bairro não seja atacada por outra quadrilha. A coisa chegou a tal ponto que é melhor viver na paz do tráfico que na guerra do tráfico, veja só o absurdo. Já que o narcotráfico não vai acabar nunca, melhor se entender com quem realmente manda no pedaço. E esse alguém não é a polícia. Nem o governador.

E por que diabos as forças de segurança não agem? Arrá! Chegamos a um segundo nível da questão. A polícia é incapaz de conter a força dos traficantes não exatamente porque são muitos e bem armados, mas porque os bandidos possuem conexões com a própria polícia, as forças armadas, políticos, juízes e governantes. Até mesmo com empresários e igrejas. Como derrotar algo tão poderoso?

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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Foto 1: Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
Foto 2: Psicotropicus

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Textos da trilogia Rio Droga de Janeiro

> Quem tem a droga tem o poder
> Os discretos sócios do narcotráfico
> Guerras às drogas não, antiproibicionismo sim

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JeffersonPeres-01As drogas chegam ao Senado

Nesses dias de avacalhação geral da classe política, é muito bom ver que há sensatez e honestidade lá no Congresso. O senador Jefferson Peres (PDT-AM), falecido em 2008, foi mais um dos que se convenceram que a legalização das drogas é a única saída para o problema da violência e da corrupção gerado pelo narcotráfico no mundo inteiro. Sua fala revela lucidez, equilíbrio e visão ampla dos problemas brasileiros e mundiais. E revela também muita franqueza e coragem de dizer aquilo que muitos concordam, mas têm medo de dizer. Parabéns, senador!

> Entrevista
> Vídeo de discurso no Senado

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DICA DE LIVRO

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-03aBaseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha
Ricardo Kelmer

Os pais que decidem fumar um com o filho, ETs preocupados com a maconha terráquea, a loja que vende as mais loucas ideias… RK reuniu em dez contos alguns dos aspectos mais engraçados e pitorescos do universo dos usuários de maconha, a planta mais polêmica do planeta. Inclui glossário de termos e expressões canábicos. O Ministério da Saúde adverte: o consumo exagerado deste livro após o almoço dá um bode desgraçado.

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elalivro10Seja Leitor Vip e ganhe:

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