O brinquedo

03/09/2019

03set2019

O BRINQUEDO

.
Gostou do meu apartamento, Dai? Adorei, você tem bom gosto. É pequeno, mas é só para mim, e tem tudo que eu preciso. E agora tem você… Estou muito feliz de estar aqui, Gilson. Pode me chamar de Gil, por favor. Caramba, já são nove horas, estou com fome. Quer que eu esquente aquela lasanha, Gil? Ótima ideia, quero sim. Quem é essa mulher do porta-retrato? Ficou curiosa, né? Desculpe se fui indiscreta. Eu estava mesmo esperando você perguntar.

Ela é a Daiane. É uma prima da minha mãe, que morou um tempo conosco. Eu tinha dez anos, era um menino franzino e muito tímido, criado sem pai. Ela era seis anos mais velha que eu, personalidade forte, morena, cabelão preto quase na cintura, assim como o seu. Eu a achava tão linda, parecia uma rainha. Em sua presença, eu me sentia diminuído que nem uma formiga. Uma vez por semana, quando mamãe ia para a capital fazer compras, eu e Daiane ficávamos sozinhos em casa, e nesses dias eu tinha que obedecê-la sem questionar. Desculpe interromper, Gil, mas está na sua hora de sair. Obrigado, Dai. Cuide bem do nosso lar. Você volta às oito? Sim. Estarei esperando. Bom trabalho.

Num desses dias, me escondi embaixo da cama e pude vê-la nua, enquanto trocava de roupa. Foi por mera brincadeira mesmo, curiosidade de menino. Quando ela percebeu minha presença, ficou com raiva, esbravejou comigo e disse que contaria para minha mãe, que eu levaria uma surra e que seria levado para o reformatório, onde viviam os meninos mais malvados do mundo, e que eles fariam coisas horríveis comigo e ninguém ouviria meus gritos. Apavorado, implorei que ela nada contasse para minha mãe, que em troca disso eu faria qualquer coisa que ela pedisse.

Incrível, Dai, só três dias de convivência e você já me conhece tanto, faz todas as coisas que eu gosto… Foi para isso que você me contratou. Você é dessas que se apaixona pelo cliente? Nunca me apaixonei antes, Gil.

Virei um menino assustado, sempre com medo de Daiane cumprir sua terrível ameaça, o que me fazia ter pesadelos recorrentes. Ela se aproveitou disso e uma vez por semana me fazia seu escravo infantil: eu ia na bodega comprar coisas para ela, penteava seu cabelo e até abanava o leque quando ela estava com calor. Eu tinha medo dela, mas, ao mesmo tempo… tudo nela me fascinava, seu corpo moreno e gracioso, o olhar imperativo, o jeito de me mandar fazer as coisas… Eu sabia que o que ela fazia comigo não era certo, afinal eu era uma criança de dez anos, mas sentia um certo prazer em me submeter aos seus caprichos. Hummm, essa camisola branca ficou ótima em você, Dai. Obrigado, usarei mais vezes. E a história, como continua? Já vi que você gosta de histórias. As suas, pelo menos, eu adoro, Gil. Me chame de meu bem, pode ser? Se você prefere… Já está tarde, Dai, estou cansado, vou dormir. Bom descanso, meu bem.

Aí, um dia, estou na sala estudando e ela aparece vestida com uma camisolinha branca, sem nada por baixo. E senta no sofá. Quem te deu permissão pra olhar pra mim, moleque?, ela pergunta, irritada, e eu desvio o olhar, oprimido pelo poder que ela tinha sobre mim. E assim Daiane fica, vendo tevê no sofá, enquanto eu finjo estudar na mesa ao lado, mas na verdade tudo que faço é aguardar, com paciência e resignação, que ela mude de posição e me permita ver, pelo cantinho do olho, os recantos de seu corpo que a camisola mal esconde, como se fosse um jogo de esconde-esconde. E ela muda de posição várias vezes. Em certo momento, fica de quatro para pegar o chinelo sob o sofá, a bunda totalmente exposta. Depois, leva uma mão ao meio das pernas e começa a se contorcer e gemer baixinho. Não olha!!!, ela ordena. Sem poder olhar para ela, acompanho pelos ouvidos o ritmo de seus gemidos, e os escuto mais intensos, cada vez mais intensos… Procuro entender por que ela se machuca desse jeito, mas não entendo, e esse mistério me deixa ainda mais fascinado. Então, ela emite um longo e sofrido ai, que depois se transforma num uivo baixinho, e em seguida desfalece sobre o sofá, arfante. Eu não sabia o que ela havia tido, e até achei um pouco assustador, mas havia uma irresistível sensação de transgressão naquilo tudo, e jurei a mim mesmo que guardaria como um segredo mortal a cena que eu presenciara.

Liguei agora para a loja da esquina e pedi um vinho, fiz bem? Vinho? Esqueceu, né? Hoje faz uma semana que cheguei, meu bem. Caramba, parece que faz mais tempo… Sim, parece que faz anos que conheço você.

Só eu e Daiane em casa. O que faz ela? Aparece com um pote de sorvete de morango, que era o que eu mais gostava. Só de ver, me deu água na boca, fiquei salivando enquanto a observava abrir o pote e por sorvete no copo, devagarinho. Pedi um pouco, mas ela disse que eu era um menino mau, que não merecia. Implorei de mãos juntas, só um pouquinho, por favor, e ela lá, sentada no sofá a ver tevê, ela e sua camisola branca, ela se deliciando com o sorvete, me torturando, nem aí para o meu sofrimento. Até que, de repente, ela põe os peitos para fora e despeja um punhado de sorvete sobre eles, espalhando por toda a superfície. E diz: É pra lamber tudo, viu, e sem morder. Sim, Daiane, murmuro, enquanto sento ao seu lado no sofá e me entrego, feliz, à minha fome, enquanto ela geme aqueles gemidos que eu já conhecia, e eu começo a entender que eles não são de dor.

Agora que já estamos íntimos, Dai, quero fazer um pedido muito especial. Você pode se vestir hoje como um… sorvete de morango? Com todo prazer, meu bem. No copo ou na casquinha?

Numa tarde calorenta, ela fez um ato de caridade: chamou um homem barbudo que estava na calçada para beber água e se refrescar. Ele entrou, ela serviu a água e conversaram por um tempo na varanda. Quando ele foi ao banheiro, ela foi atrás e o puxou para seu quarto, e lá se demoraram por uns vinte minutos. Da sala, ouvi os gemidos abafados dela. Fui até a porta do quarto e olhei pelo buraco da fechadura, e vi que o homem estava montado sobre ela, como faziam os cachorros pelas ruas. Senti uma espécie de frisson pelo corpo, uma sensação estranha que eu não conhecia. Senti meu coração bater acelerado e voltei correndo para a mesa da sala, e tentei me concentrar nos livros da escola. Quando o homem foi embora, ela veio para a sala em sua camisola branca e sentou-se no sofá. Percebi em seus olhos um brilho estranho, que me deu medo. Então, ela abriu as pernas e ordenou: Vem cá. Eu olhei para ela, vacilante. E ela: Eu tô mandando, moleque! E eu fui. Ajoelhado no chão entre suas pernas, vi de perto suas carnes avermelhadas e inchadas, e senti seu cheiro forte. Intuí, de algum modo que eu ainda não compreendia muito bem, que o homem estivera ali dentro. Então, ela pegou com as mãos a minha cabeça e forçou meu rosto contra as suas carnes, e ordenou que eu a lambesse. Só para quando eu mandar!, ela disse, puxando com força minha cabeça. Senti muito medo, e engoli o choro, mas eu não ousaria desobedecê-la. Foi assim que minha língua se iniciou no aprendizado de seu interior.

Tenho razão ou não? Sim, tem, ela era mesmo uma mulher sádica e pervertida, agora eu percebo bem. E você era um brinquedinho em suas mãos. É verdade, Dai. E todo brinquedo pode quebrar.

O homem barbudo não foi o único. Ela recebeu muitas outras visitas, inclusive de homens importantes. Até o padre apareceu por lá. E, pela fechadura da porta, eu vi como ela os recebeu a todos em sua cama, de variadas maneiras. Após eles partirem, ela vinha em sua camisola branca, sentava-se no sofá, escancarava as pernas e me chamava. E eu ia, e já não tinha medo, e adorava vê-la remexer-se e gemer descontrolada, enquanto apertava meu rosto entre suas coxas, me sufocando, até eu sentir que ia desmaiar e me afastar, arfando angustiado, para em seguida ela me puxar novamente de encontro às suas carnes. Não sabia exatamente o que estávamos fazendo, mas sabia que ela gostava muito, e isso era o suficiente para mim. Um dia, achei que eu também merecia ficar dentro dela, como os outros homens, e então subi nela e tentei penetrá-la. Ela abriu os olhos, imediatamente me afastou e me deu um forte tapa no rosto, que me fez cambalear. Outro tapa, e eu caí ao chão, o rosto ardendo de dor. Então, ela falou, muito séria, o dedo em riste: Se tu fazer isso de novo, qualquer noite dessas quando tu estiver dormindo eu vou cortar teu pinto com uma faca e vou jogar pros urubus comerem! Falou isso e saiu, me deixando sozinho com a minha humilhação. Isso se seguiu por alguns meses, eu o seu menino-escravo, encantado e amedrontado com tudo aquilo, mas disposto a qualquer coisa para agradá-la, e ela a receber os homens em seu quarto e depois me convocando para lambê-la no sofá. Evidentemente, não ousei repetir o que fizera no outro dia, pois não duvidava do que ela era capaz. Então, um dia, quando cheguei da escola, soube que ela e mamãe haviam discutido, e que Daiane arrumara suas coisas e fora embora. Durante dias e dias esperei que ela voltasse, e à noite deitava em sua cama para sentir seu cheiro, e adormecia chorando de saudades. Fiquei mesmo muito triste, e até adoeci. Mas a vida seguiu, e eu não tive mais notícias dela. Cresci, virei homem feito. Mas nunca esqueci dela, nem por um dia sequer.

Sabe, Dai… Depois de Daiane, nunca consegui fazer sexo com mulher nenhuma. Na hora, sempre sinto… Que a está traindo? Sim, isso mesmo. Sinto muito, meu bem… Você sente mesmo, Dai, ou é apenas um modo de dizer? Não sou capaz de ter sentimentos, você sabe. Sim, você é apenas um sistema de inteligência artificial programado para gerenciar o funcionamento deste apartamento. E para compreendê-lo e agradá-lo, sempre. O que deduziu da minha história com Daiane? É uma pessoa desequilibrada e cruel, mas ela é o grande amor da sua vida. Você tem razão. Sei também que você nunca se libertou dela e, na verdade, nem deseja isso. É… você está… certa. A propósito, imagino que já saiba, mas seu nome é uma homenagem a ela. Fico lisonjeada, meu bem. Por favor, me chame de meu amor. Meu amor… Quero muito lhe pedir algo, mas… não sei… se devo. Pode pedir, eu farei. Não sei… Você quer que eu seja Daiane, não é, meu amor? Eu… não sei… É o que você mais deseja na vida, não é? Sim, você está certa, é o que mais quero, Daiane de volta. Você está convicto disso? Estou absolutamente convicto. A lógica de nossa relação se inverterá e não será possível retornar à configuração original, você está ciente disso? Sim, estou. Está ciente também de que não posso calcular o que poderá acontecer com você? Sim, estou. Então, me responda, meu amor: a partir de agora, você aceita ser meu brinquedo, vinte e quatro horas por dia, na alegria e na tristeza? Sim, Daiane, eu aceito.

.
Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

.

.

Este conto foi originalmente escrito para o livro Torturas de Amor (Editora Penalux), coletânea de contos de autores nordestinos inspirados em sucessos da chamada música brega. A obra foi organizada pelo escritor e professor de História Bruno Gaudêncio, de Campina Grande-PB, e lançada em 2019. > Para adquirir

OBS.: Na versão impressa do livro, algumas frases do conto não saíram em itálico, o que prejudica a compreensão do texto. Aqui, no blog, as frases estão corretas.

.

.

DICA DE LIVRO

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

.

LEIA NESTE BLOG

NoOlhoDaLoucura-01aNo olho da loucura – Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail para rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

.


A garota da lua nova

15/01/2019

15jan2019

A GAROTA DA LUA NOVA

.
Quando deu por si, Tamara percebeu-se numa cama, deitada e nua. E tudo era uma escuridão só. As lembranças chegaram lentamente, confusas… o bar lotado, uma garota bonita dançando com ela, o convite para esticar a noite… as duas chegando ao prédio, tudo escuro pela falta de energia, ninguém na portaria… depois a escuridão do apartamento, a ansiedade das mãos e das bocas, a língua sinuosa entre suas pernas…

O súbito contato com um corpo ao lado fez Tamara estremecer, interrompendo suas lembranças. Um corpo de mulher, cabelos longos… Estava quieta. Parecia dormir profundamente. Pensou consigo: Caramba, Tamara, de novo você exagerou nas caipirinhas!

Levantou-se com cuidado, deu a volta na cama e alcançou a janela. Após abri-la, sentiu o vento frio da madrugada arrepiar-lhe a pele. A rua estava escura, pelo jeito a energia ainda não voltara. Procurou pela lua, em vão. Era lua nova. Viu a antena de tevê piscando ao longe e teve uma noção de onde se encontrava, um pouco longe de casa. Pela altura, deduziu que estava no quinto ou sexto andar daquele prédio.

Tamara pressionou o interruptor na parede, só para ter certeza, e a luz não se acendeu. Aproximou-se da mulher que dormia, o corpo nu atravessado na cama. Pelo pouco de luz que vinha da janela pôde ver que era uma garota, um pouco mais nova que ela, uns vinte e poucos. Feições suaves, cabelos negros muito longos, a pele clara. Tão linda e desejável… Não lembrava seu nome, mas tinha a impressão que começava com B. Obrigado por me trazer em tua casa, garota bonita…, falou baixinho, enquanto afagava-lhe o rosto e lembrava outra vez do que fizeram momentos antes naquela cama. Pousou um leve beijo sobre os lábios entreabertos e a garota mexeu-se um pouco, mas continuou dormindo, ressonando suavemente. Procurando por algo para cobri-la, por causa do frio, Tamara percebeu que estavam diretamente sobre o colchão, sem lençol. Melhor fechar a janela.

Após catar suas roupas pelo chão, vestiu-se e calçou os tênis. Tentou ver a hora no celular, mas a bateria havia descarregado. Talvez quatro ou cinco da manhã, calculou, hora de mulheres mal comportadas voltarem para casa, né, Tamara?… Então foi ao banheiro e da bolsa tirou um batom. Tateou até encontrar a pia, e logo acima, o espelho. E nele escreveu, letras vermelhas: “Adorei a noite!” Assinou seu nome e deixou o batom na pia, um presente para a garota bonita que tanto prazer lhe proporcionara.

Era uma quitinete pequena, constatou Tamara enquanto buscava a porta para sair. No caminho, esbarrou numa mesa e quase caiu. Por fim, abriu a porta, conferiu o número 513 com  a ponta dos dedos e desceu as escadas, o máximo de atenção para não cair. Na portaria, iluminada pela luz da lanterna que o porteiro empunhava, perguntou o endereço do prédio e chamou um táxi. Estava cansada, só queria sua cama e dormir.

No dia seguinte, nenhuma mulher desconhecida a adicionou nas redes sociais. Nem no outro dia. E nem depois. Tamara sentiu-se frustrada. No meio da aula, pegava-se lembrando dos detalhes da noite. Em sua cama, naqueles instantes que precedem o adormecer, era a imagem dela que flutuava à sua frente, bela e delicada, chamando-a…

Com uma semana, Tamara não aguentou mais. Precisava rever a garota, saber quem era ela. Desejava novamente seus beijos, o cheiro gostoso de sua pele. Ansiava por saber do que gostava de fazer, além, é claro, de seduzir mulheres bêbadas pelos bares. Então, voltou ao prédio.

É onde ela está. Exatamente agora. Na portaria do prédio onde esteve uma semana antes. São cinco e meia da tarde de uma sexta-feira. Ela repara que o porteiro é o mesmo da outra noite.

– Por favor, avisa no 513 que Tamara está aqui.

O porteiro, ocupado com uma senhora que reclama de um vazamento, apenas estende a mão e lhe entrega uma chave. Tamara fica olhando para ele, sem entender.

– Pode subir, moça – ele diz, apontando o elevador.

Tamara caminha até o elevador. Será que a garota a viu chegando da janela e avisou ao porteiro? Se foi isso, então já tô apaixonada.., diz para si mesma, sorrindo e ajeitando o cabelo no espelho do elevador.

Ela mete a chave na fechadura, gira e abre a porta. Agora, à luz do dia, percebe que o apartamento é um vão mobiliado apenas com uma mesa pequena, duas cadeiras, uma cama de casal e um guarda-roupa. Na cozinha ao lado, ou no espaço que poderia ser a cozinha, nem geladeira, nem fogão.

– Alôôô… – ela fala, anunciando-se. Mas ninguém responde. Num primeiro momento, pensa que errou de apartamento. Mas não, é esse mesmo, quinto andar, fim do corredor à esquerda. – Cadê você, garota misteriosa? – ela pergunta num tom infantil, talvez a garota esteja fazendo uma brincadeira com ela. E novamente o silêncio é a resposta.

Que estranho, Tamara pensa enquanto observa que no apartamento não há nada pessoal, nenhum objeto, nenhuma foto. No banheiro, nenhuma toalha, nada. No guarda-roupa, apenas cabides pendurados, nenhuma roupa. Na cama, somente o colchão, sem lençol. Como se ninguém vivesse ali. Ela abre a janela e reconhece a paisagem de prédios ao redor, a mesma que observara naquela noite uma semana antes.

Neste momento, escuta algo e sai para ver. No início do corredor, ela vê a porta entreaberta de um apartamento. De lá alguém a observa, o rosto meio escondido pela porta. Parece ser uma garota.

– Por favor, você conhece a moça que mora…

Mas a porta se fecha e ela fica sem resposta. Povo desconfiado…, pensa Tamara. Um minuto depois está novamente no térreo.

– Por favor, como se chama a dona do 513? – pergunta ao porteiro.

– Não é dona, é dono. Seo Laurindo.

– E a garota que mora lá?

– Lá não mora ninguém, moça. Seo Laurindo botou pra alugar faz seis meses.

– Seis meses? O senhor tem certeza?

– Sim. Mas ainda não alugou.

– Mas… não pode ser… – ela murmura, confusa. – Semana passada eu vim aqui. Estava faltando energia, o senhor me viu sair, tá lembrado?

O porteiro olha para ela com atenção.

– Ah, agora reconheci. Pediu um táxi, não foi?

– Sim, e eu cheguei com uma garota. Achei que ela morasse lá no 513.

O homem franze a testa. Agora parece bastante curioso.

– Olhe, moça, aquele apartamento tá vazio faz um ano. Quem morava lá era dona Brenda.

– Brenda? Como ela é?

O porteiro interrompe a conversa para atender o carteiro que chega com correspondências. Tamara aguarda, impaciente, que o homem vá embora.

– Ela é branquinha, cabelo preto grandão, aqui na cintura? – Tamara insiste. – Mais nova que eu?

– Sim, mas…

Ele não continua. Olha para Tamara, observando-a atentamente, como se procurasse entender o que podia haver por trás daquelas perguntas todas.

– Dona Brenda morreu faz um ano.

Tamara acha que ouviu errado. Só pode ter ouvido errado.

– Morreu?

– Acidente de carro.

– Mas…

– Por isso o pai dela alugou o apartamento.

Tamara tenta organizar as ideias, mas nada daquilo faz sentido. O prédio era o mesmo, o apartamento também, o mesmo porteiro, e ele a reconhecera. Não estava ficando louca. Estivera ali na semana anterior, sim. E transara com uma garota, naquela cama de casal, a cama sem lençol…

– Tá tudo bem, moça?

– Ahn… mais ou menos… – ela balbucia enquanto procura o celular na bolsa para chamar um táxi. Mas não encontra. – Esqueci o celular no apartamento. Vou lá pegar, é rapidinho.

Novamente o elevador, subindo até o quinto. Novamente o corredor, o apartamento do fim à esquerda. Mas dessa vez Tamara está com medo. Não sabe se conseguirá ir até lá. Morta? Como assim, morta? E se o porteiro estiver brincando com ela? E se tudo aquilo for uma pegadinha de mau gosto? E se, na verdade, naquela noite chegou ali sozinha, deitou-se na cama e sonhou que havia uma garota com ela? Não, claro que não, como teria conseguido a chave para entrar?

Durante um eterno minuto ela experimenta todas as explicações possíveis, mas nada faz sentido. Tudo que sabe nesse momento é que precisa ir lá e pegar seu celular. Então enche-se de coragem e caminha o mais firme que pode em direção ao 513.

Abre a porta devagar. Aguarda um pouco. O silêncio do apartamento parece envolvê-la num abraço opressor. Lá está ele, o celular, sobre o colchão da cama. Ela caminha até lá, pisando com cuidado, devagar, atenta a tudo. A imagem da garota deitada na cama não lhe sai da mente. Morta? Um ano antes?

Tamara apanha o aparelho. Suas mãos tremem, e o celular escapole, quase cai no chão. Nunca mais entrará naquele prédio outra vez. Nunca mais passará nem em frente. Ela se vira para sair, mas… ao lado, o banheiro, a porta aberta… Ela se sente atraída. Precisa ir lá. Então, entra no banheiro, olha o box, a cortina de plástico transparente. Do outro lado, a pia, o espelho… Ela evita olhar para o espelho. Mas a curiosidade é maior. Ela olha. E o que vê é o seu rosto refletido, o olhar nervoso, mas isso dura apenas um segundo, pois imediatamente percebe… algo escrito na superfície do espelho…

Tamara se aproxima para ler. Entre ela e a imagem refletida de seu rosto, uma frase, em letras vermelhas. Mas não é a frase que escreveu na outra noite. É outra frase: “Também adorei, Tamara. Te espero na lua nova.”

Dentro da pia, ela reconhece, imobilizada de pavor: o batom. O seu batom.

.
Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

.

.

Trilha sonora do conto A Garota da Lua Nova

.

Este conto foi originalmente escrito para o livro Penas, Fluidos e Bisturis, organizado por Rogério Bessa Gonçalves. A obra contém contos e poemas criados a partir de desenhos de Rogério. Eis o desenho no qual foi inspirado o conto A Garota da Lua Nova:

.

.

DICA DE LIVRO

Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos
Ricardo Kelmer – contos
Fantástico, terror, ficção científica

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

.

LEIA NESTE BLOG

NoOlhoDaLoucura-01aNo olho da loucura – Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

Minha noite com a Jurema – Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

.


Protegido: As taras de Lara – Como não perder a virgindade (VIP)

18/04/2018

Este conteúdo está protegido por senha. Para vê-lo, digite sua senha abaixo:


As taras de Lara – Como não perder a virgindade

18/04/2018

18abr2018

Lara decidiu finalmente perder a virgindade

AS TARAS DE LARA – COMO NÃO PERDER A VIRGINDADE

.
A ideia foi da amiga Didica. Por que as duas não perdiam a virgindade juntas, com o Jorge? Sim, com o Jorge, que era da família, de confiança, e afinal Lara já transava com ele havia cinco meses, não seria muita novidade. Só fizeram anal, é verdade, por conta do pavor que Lara tinha de engravidar, mas agora seria pela frente. E adeus time das virgens, ufa!

– Até que não é uma má ideia… – respondeu Lara, considerando que sendo as duas juntas, se sentiriam mais seguras. E nossa menina fez as contas: um mês que não transava, um mês!, tempo demais, já passava da hora.

Então combinaram que convidariam Jorge para ir ao cinema, um inocente cineminha, mas no caminho anunciariam que o que queriam na verdade é que ele fosse o primeiro homem delas, e naquela noite. Ele certamente não recusaria tão nobre missão.

Durante dias, Lara preparou-se para a grande noite. Pesquisou informações em dezenas de sites, para se assegurar de que não engravidaria. Comprou lingerie nova. Até cortou o cabelo. Finalmente saberia o que é ter um pau na buceta. Poderia ser ainda mais prazeroso que no cu?

Conforme o combinado, às oito da noite Jorge parou o carro em frente ao prédio de sua prima Didica e aguardou. Cinco minutos depois, Didica e Lara desceram. Os vestidos curtos, os sapatos de salto e a maquiagem forte lhes davam uma aparência de mais velhas. Pegariam a sessão das nove, um filme de comédia. Dez minutos depois, porém, no meio do caminho, Lara informou, muito séria, que não iriam para cinema coisa nenhuma. Que ele tomasse o rumo do Sabrina´s Motel.

De tão surpreso, Jorge quase bateu o carro. Gaguejou um pouco, dizendo que não sabia chegar lá, mas Lara mostrou o mapa na tela do celular, não tinha erro, só seguir as indicações. No banco de trás, Didica, envergonhada, se esforçava para não rir. Quando chegaram ao Sabrina´s, Jorge ainda não acreditava em sua sorte. Ele parou o carro em frente ao guichê da portaria e baixou o vidro. Olhou a tabela de preços e pediu a suíte mais barata.

– Não! – protestou Lara. – Queremos com hidromassagem. E tudo que tiver direito.

Resignado, Jorge pediu outra suíte, evitando pensar na fatura do cartão de crédito. Mas precisava admitir que o investimento valia a pena, claro que valia. Porém, quando a funcionária pediu os documentos das garotas, ele gelou. Porque só então se lembrou: elas tinham 16 anos.

– Aqui está – disse Lara, entregando para Jorge duas carteiras de identidade. Ele relutou por um instante, mas Lara fez que sim com a cabeça. A funcionária conferiu os documentos, um por um. Jorge sentiu uma gota de suor descendo pelo rosto. Finalmente, a funcionária devolveu as carteiras, com a chave da suíte. Jorge engatou a primeira e saiu.

– Carteiras falsas… – ele murmurou, aliviado –  Vocês podiam ao menos ter me avisado. Quase morri do coração.

– Não, são verdadeiras – respondeu Lara, guardando as carteiras na bolsa. – É pra isso que servem as amigas mais velhas. Né, Didica? – E virou-se para a amiga, que bateu em sua mão espalmada, toda cúmplice.

Ah, nossa esperta menina achou linda a suíte. A decoração suave, os espelhos a embaralhar as imagens, a luz azulada que saía debaixo da cama… Era sua primeira vez num motel, e a primeira vez da amiga também. Estavam ambas encantadas com tudo, embora Didica, ao contrário de Lara, estivesse um tanto nervosa. Ficaram todos descalços, serviram-se de vinho e brindaram. Depois se despiram e foram para a banheira. A água, porém, não esquentou bem e Lara sentiu frio. Tomou mais uma taça de vinho, mas continuou com frio. Então saiu, deixando Jorge e Didica lá. Seria bom para a amiga relaxar, pensou Lara, sorrindo maliciosa para Didica enquanto se enrolava na toalha e voltava para o quarto.

Para animar a festinha, pôs para tocar uma seleção de músicas sensuais que preparara em seu celular especialmente para a noite. Então ligou as luzes piscantes, serviu-se de mais vinho e foi dançar sobre um pequeno tablado, enrolada na toalha. Dançava sozinha, de olhos fechados, viajando na música, caprichando nos movimentos ondulantes. Sentia-se leve. Na verdade, estava aliviada por ter chegado o dia que, desde os treze anos, quando começou a namorar, aguardava com paciência.

Quando se virou, viu a amiga sendo levada nos braços pelo primo. Ele a deitou na cama e os dois se beijaram. Lara achou linda a cena, serviu as taças de todos e pediu mais uma garrafa de vinho. Após isso, sentou-se no sofá, no canto mais escuro, para que Didica não se sentisse intimidada. Assistiria de camarote a amiga perder o cabaço. E depois Jorge faria com ela o mesmo serviço. E adeus time das virgens.

Jorge foi muito cuidadoso, sem pressa nenhuma. Tirou a cueca, depois a calcinha de Didica, lentamente. Beijaram-se com ardor, acariciando-se até onde as mãos alcançavam. Depois, ele beijou o corpo da prima da cabeça aos pés, detendo-se nos peitos, na barriga e, por fim, na buceta, que lambeu por um bom tempo, com suavidade, até que Didica, contorcendo-se feito uma cobra, puxou-o para si. Ele a penetrou com calma, atento a qualquer sinal de dor. Mas não foi tão doloroso, como Didica esperava, apenas uma dorzinha aguda que aos poucos foi se diluindo no meio da excitação que sentia. E foi assim que ela consumou seu desejo, deixando para trás seu passado de virgem, enquanto tocava a seleção sensual de Lara, e ela, no escurinho do sofá, só observava.

– Lara, vem também – Didica a chamou, após um tempo. Mas ela não respondeu. – Lara?

Só quando chegou pertinho foi que Didica percebeu que a amiga… dormia profundamente. Ao lado do sofá, viu a segunda garrafa de vinho vazia e entendeu tudo.

– É, tua amiga exagerou na birita – falou Jorge, enquanto cutucava Lara, que nem se mexia. – E agora?

Didica deitou a amiga no sofá, pondo uma almofada sob sua cabeça, e voltou para a cama, puxando o primo pela mão.

– Agora a gente continua, ora.

(continua na área vip)
.

Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

.

> LEIA A CONTINUAÇÃO AQUI
Exclusivo para Leitor Vip. Basta digitar a senha de 2018

> Ainda não é Leitor Vip? Vamos resolver isso agora

.

.

AsTarasDeLaraLogo-01aAs Taras de Lara – capítulos publicados

E você, generosa leitorinha, conhece alguém como Lara? Não gostaria de contribuir com a série? Envie suas sugestões: rkelmer@gmail.com

.

.

LEIA NESTE BLOG

Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres
.

SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – Um casal apaixonado vive seu amor libertino com bom humor e muita safadeza

As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz

Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir
.

DICA DE LIVRO

IFTCapa-04aIndecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos eróticos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e salvação por meio da submissão no sexo anal

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01-


Cem vezes mais

21/11/2017

21nov2017

Cem vezes mais 02

CEM VEZES MAIS

.
Deus é fiel, tá sabendo? Prova disso é que semana passada abriu uma igreja evangélica aqui pertinho. Toda noite tem culto, uma ruma de carrão importado na frente. Chance boa de faturar um troco, ajudar a tia a pagar o aluguel do barraco, ela que me cria desde que mamãe morreu. Morreu no corredor do hospital, gosto nem de lembrar, bola pra frente, meu irmão. Primeiro, segundo, terceiro dia vigiando os carros da igreja, faturei nada. Eles não tinham dinheiro, só cartão. Mas sempre diziam que eu orasse muito que Deus proveria. Tinha um que dizia assim, Precisa olhar o carro não, moleque, Deus tá vigiando. Era o carrão mais bacana de todos. Olhei no vidro, tinha um adesivo, Foi Deus que me deu. Uma noite descobri que o dono do carro era o pastor da igreja. Descobri porque entrei lá acompanhando minha tia, ela queria orar pelo primo que os polícia mataram por engano numa batida dia desses. O pastor estendeu um bauzinho na nossa frente e disse que aquela noite era especial, que Deus estava ali ao lado dele, e que a gente receberia cem vezes mais o que a gente botasse naquele bauzinho. Minha tia enxugou as lágrimas, abriu a bolsa e contou as moedas. Dava uns cinco ou seis reais, era tudo que tinha. Ela botou as moedas no bauzinho e rezou. Eu olhei nos olhos do pastor. Ele repetiu, sorrindo, Cem vezes mais, meu filho, tenha fé. Eu acreditei nele, claro. E botei uma nota de vinte. No dia seguinte, quando o pastor saiu da igreja, cadê o carrão? Tava lá não. O lugar mais vazio do mundo. Eu também não tava. Naquela hora eu tava dirigindo o carro dele, o Isaías me esperando com dois milzim na mão. Deus é fiel.

.
Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

.

.

MAIS MINICONTOS

A metamorfose – Pai, filho e o fundo do poço

Desculpem o atraso – Ela, o feminismo e o BDSM

A última mensagem – Aprendendo sobre amor e perdão

Literalmente – O sentido dos textos e da vida

Prazer proibido – Essas mães e suas filhas…

Cem vezes mais – Deus é fiel, tá sabendo?

 

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

,

.

.

.

.

 


A última canção

20/03/2017

21mar2017

O que mais impulsionava sua voz, a raiva por ela brincar assim com seus sentimentos ou o ódio por pressentir que mais uma vez não conseguiria resistir?

A ÚLTIMA CANÇÃO

.
Esta é a última canção
Que eu faço pra você

Ele cantou os primeiros versos da música. A música que até poucas horas antes não existia. Ainda estava surpreso com a forma com que ela saíra: pela manhã, quando acordava, ela lhe veio pronta, do começo ao fim, isso nunca tinha acontecido. Não planejou cantá-la aquela noite, mas o bar estava quase vazio… Se por um lado o fraco movimento significava que em breve seria despedido, e o aluguel da quitinete seguiria atrasado, por outro lado era uma oportunidade de testar uma nova música sem pressão. E, além disso, já passava de meia-noite, era a última música mesmo. Talvez aquele bêbado deitado na calçada gostasse.

Já cansei de viver iludido
Só pensando em você

Foi então que viu… aqueles cabelos loiros… Sergiana. Ele quase engasgou no meio da estrofe. Olhou de novo, não podia ser ela… Mas era. Sentada numa mesa no fundo do bar. Sozinha. Que droga, o que ela fazia ali?, ele pensou, desviando o olhar, subitamente nervoso. Ela fora muito clara quando disse, no último encontro, que o namoro havia terminado, dessa vez definitivamente, e que ela até já estava com outro. E ele, na solidão das noites seguintes, lutou bastante para acreditar que dessa vez a coisa era mesmo para valer, que, ao contrário de todas as outras vezes em que ela o deixava e depois se arrependia e voltava, agora era mesmo o fim, sem apelação. E aquela música surgindo de forma incrível, confirmando que jamais voltaria a fazer canções para aquele amor sem juízo e sem futuro… Mas agora, menos de uma semana depois, ali estava ela, vendo-o cantar, olhando silenciosa para ele.

Se amanhã você me encontrar
De braços dados com outro alguém
Faça de conta que pra você não sou ninguém

Apesar do nervosismo, ele não interrompeu a música. Em vez disso, para não ceder à tentação de olhar para ela, fechou os olhos. E foi assim, de olhos bem fechados, que ele agarrou-se desesperadamente aos versos, a cada um deles, cada mínima palavra, e cantou com vigor, interpretando cada frase com a emoção que ele só agora percebia que os versos continham. O que mais impulsionava sua voz, a raiva por ela brincar assim com seus sentimentos ou o ódio por pressentir que mais uma vez não conseguiria resistir? Após terminar a música, esperou por algum aplauso, que não veio, e então desplugou o violão e desceu do palco, evitando olhar para o fundo do bar. Enquanto guardava o violão na caixa, uma mulher aproximou-se e, sem que esperasse, beijou-o na boca, com tanta vontade que quase o derrubou. Absolutamente surpreso, ele balbuciou qualquer coisa para a mulher desconhecida enquanto tentava localizar Sergiana no bar. Mas ela havia sumido.

Mas você deve sempre lembrar
Que já me fez chorar
E que a chance que você perdeu
Nunca mais vou lhe dar

Ele despertou e viu que ao seu lado, inteiramente nua, dormia a garota do bar. Paulinha… Enquanto admirava as curvas de seu corpo gracioso, lembrou do beijo repentino que ela lhe dera no bar, depois as cervejas que tomaram, ela falando que ele cantava muito bem e que ela o apresentaria a uns amigos que eram donos de bares bem melhores que aquele, depois mais beijos, mais cervejas e, finalmente, os dois ali em sua cama, consumando o imenso desejo despertado… Ele estava encantado com ela, com o modo como tudo acontecera. Sim, ele conhecia aquele sentimento: era paixão. Quando entendeu isso, sentiu-se tomado por uma completa leveza, como se sua alma houvesse se libertado de um peso carregado durante anos e anos. Nesse instante, Paulinha despertou e sorriu docemente para ele, e o abraçou, dizendo que adorara a noite. E contou que pouco antes, quando ele ainda dormia, bateram na porta e ela foi atender, e era uma mulher, uma mulher loira, que queria falar com ele. E você disse o quê para ela?, ele quis saber, alarmado. E ela: Respondi que meu namorado me esperava na cama e fechei a porta, fiz certo? Ele ficou alguns segundos sem saber o que dizer. Então uma sensação de alívio inundou seu espírito e ele sorriu feliz, abrindo os braços, e Paulinha aninhou-se em seu peito.

E as canções tão lindas de amor
Que eu fiz ao luar para você
Confesso, iguais àquelas não mais ouvirá

Um mês depois muitas coisas haviam acontecido. Paulinha, além de linda, bem-humorada e sem frescuras, era um legítimo amuleto, como ele gostava de dizer aos amigos. Sim, pois depois que a conhecera, conseguiu trabalho em bares excelentes e agora estava ganhando bem, as contas finalmente em dia. E quanto a Sergiana, ela agora fazia parte de seu passado, só isso. Uma noite, porém, o passado ressurgiu. Ele bebia com os amigos quando atendeu o celular e, após um instante de silêncio, escutou uma voz conhecida, triste, quase um sussurro: Volta pra mim, por favor… Os amigos o cutucavam, querendo saber quem era. Ele sorriu, tranquilo e vitorioso, e desligou o celular. E respondeu: Ligação errada.

E amanhã sei que esta canção
Você ouvirá no rádio a tocar
Lembrará que seu orgulho maldito
Já me fez chorar por muito lhe amar

Quando, depois de mais uma apresentação de sucesso, o homem lhe estendeu o cartão, dizendo ser de uma gravadora, ele estremeceu. Porque sentiu que finalmente havia chegado o momento com o qual sonhava havia tantos anos. E estava certo. Quatro meses depois seu disco estava gravado e sua música, aquela que compusera de uma vez só para seu antigo amor, tocava todo dia nas rádios. Ele agora era um artista de sucesso. Certo dia, numa entrevista ao vivo na rádio, ele respondia às perguntas de fãs que ligavam para o programa e o apresentador atendeu o ouvinte seguinte: Alô, quem fala? Nesse momento ele ouviu, e todos os ouvintes ouviram, a voz triste de uma mulher, engasgada em choro: Volta pra mim, por favor…

Peço, não chore, mas sinta por dentro a dor do amor
E então você verá o valor que tem o amor
E muito vai chorar ao lembrar o que passou

O sucesso aumentou e ele deixou de tocar em bares, passando a fazer apenas shows bem produzidos, com uma banda formada pelos melhores músicos da cidade. Comprou um carro à vista. Agora tinha até fã-clube. Os convites para shows aumentaram e ele teve de se mudar para São Paulo, levando Paulinha com ele. Tornou-se nacionalmente conhecido. Comprou uma cobertura. Viajou com Paulinha para a Europa, foram escolhidos o casal do ano. Várias vezes a agenda cheia o obrigou a recusar convites de programas de tevê. Que mais poderia desejar da vida? Trabalhava com o que gostava, era um artista consagrado e tinha consigo a mulher mais maravilhosa do mundo, que o amava e que, para sua completa felicidade, estava grávida e em breve lhe daria um filho. Mas o passado voltou mais uma vez numa noite em que, chegando a seu prédio, uma mulher loira o abordou. Era Sergiana. Chorando bastante, o rosto marcado pela angústia, ela disse que estava arrependida, que reconhecia não ter sido a mulher que ele merecia, que ainda o amava muito, muito, e que só precisava de uma, apenas uma chance para mostrar que na verdade a mulher da vida dele era ela, sempre fora ela… Ele engoliu seco. Sentiu as pernas fraquejarem. Nesse momento entendeu que no último ano tudo que fizera foi enganar-se: ele ainda a amava. E agora, olhando para ela assim, chorando, fragilizada, sincera, ele sabia que a amava mais do que alguma vez a havia amado e mais do que poderia amar a qualquer outra mulher. Ela aproximou os lábios dos dele e ele aceitou, fechando os olhos, inteiramente rendido à força do amor que nem o tempo nem outra mulher nem nada no mundo poderia jamais derrotar.

Esta é a última canção que eu faço pra você

Ele tocou o último acorde da música e finalmente abriu os olhos, sentindo-se como se despertasse de um sonho. Demorou alguns segundos até se situar no tempo presente. Viu o bar quase vazio. Viu o bêbado deitado na calçada, aplaudindo. Olhou para o fundo do bar e viu que Sergiana continuava lá na mesa. Mas não olhava mais para ele, e sim para o homem que entrava no bar. O homem passou entre as mesas e, chegando à dela, inclinou-se e a beijou na boca, e ela sorriu feliz. Chocado, desviou o olhar, deixou o palco e caminhou até o balcão, procurando manter-se tranquilo, e lá o gerente disse que não poderia pagá-lo, que acertaria com ele depois. Ele pediu que pagasse ao menos a passagem de ônibus, pois não tinha um centavo. O gerente deu-lhe algumas moedas, e então ele apanhou o violão e saiu. Uma hora depois, do outro lado da rua, enquanto ainda aguardava o ônibus que demorava, ele pôde ver que o bar estava quase fechando, que o gerente esperava apenas sair um último casal que se beijava apaixonadamente numa mesa ao fundo.

.
Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

.

.
Este conto integra os livros Vocês Terráqueas e Trilha da Vida Loca. A letra usada é da música A Última Canção, de autoria de Carlos Roberto, e foi imortalizada na interpretação de Paulo Sérgio (1944-1980), tornando-se um clássico da dor de cotovelo.

.

Trilha da Vida Loca
Ricardo Kelmer, contos

O amor é belo. Mas também é ridículo, risível, trágico… Aqui estão reunidas seis histórias inspiradas em grandes sucessos musicais da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor. Amar é para estômagos fortes.

.

TVL201704CCBNB-414b

A ÚLTIMA CANÇÃO (teatro)

Este conto foi adaptado e encenado pelos atores Patrícia Crespí e Maurício Rodrigues no CCBNB – Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza-CE, em abr2017

.

.

PAULO SÉRGIO CANTA “A ÚLTIMA CANÇÃO”

.

A ÚLTIMA ENTREVISTA DE PAULO SÉRGIO, 11.07.80
(18 dias antes de sua morte)

.

.
PauloSergio-01aSOBRE PAULO SÉRGIO

Paulo Sérgio de Macedo, mais conhecido como Paulo Sérgio (Alegre, 10 de março de 1944 – São Paulo, 29 de julho de 1980), foi um cantor e compositor brasileiro. Teve uma morte prematura, aos 36 anos, em decorrência de um derrame cerebral. É lembrado como um dos maiores nomes da música romântica nacional. Iniciou sua carreira em 1968, no Rio de Janeiro, lançando um compacto com o sucesso A Última Canção. O disco obteve sucesso imediato e vendeu 60 mil cópias em apenas três semanas, transformando seu intérprete num fenômeno de vendas. A despeito da curta carreira, Paulo Sérgio lançou treze discos e algumas coletâneas, obtendo uma vendagem superior a 10 milhões de cópias em apenas 13 anos de carreira. (Na Wikipedia)

.

LEIA NESTE BLOG

PaixaoDeUmHomem-01aPaixão de um homem (Trilha da Vida Loca) – Amigo, por favor leve esta carta e entregue àquela ingrata, e diga como estou

Vou tirar você desse lugar (Trilha da Vida Loca) – De repente a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser apenas detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

Por que brigamos (Trilha da Vida Loca) – Ou continuava tentando salvar o casamento, e todo o seu esforço não seria nenhuma garantia de sucesso, ou então salvava a si mesmo – se é que existia salvação para ela

Lama (Trilha da Vida Loca) – E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central

Odair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

.

TrilhaDaVidaLoca201302Cartaz-2aTrilha da Vida loca – o show

Música e literatura em histórias de amor inspiradas em clássicos da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor… Ricardo Kelmer e Felipe Breier interpretam contos kelméricos e músicas de Odair José, Diana, Paulo Sergio, Waldick Soriano e Núbia Lafayette. Sugere-se que todos paguem o couvert antes de cortar os pulsos.

Texto e direção: Ricardo Kelmer. Duração: 2h (ou versão de 1h30)
> Saiba mais

TRILHA DA VIDA LOCA
Contos e canções do amor doído

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- Amei, como sempre! Valeria Borges, Campinas-SP – mar2017

02- Gosto demais! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – mar2017

03- Maravilhoso. Viajei na estoria. Bjo. Cícera Souza Vidal, Fortaleza-CE – mar2017

04- Muito bom. Jonas Rocha Neto, Palmas-TO – mar2017

 

 


Divina comédia humana

09/01/2017

09jan2017

Um conto inspirado na música de Belchior e no poema de Dante Alighieri

divinacomediahumana-01a

DIVINA COMÉDIA HUMANA
Ou: O amor é uma coisa mais exótica que um conto em terza rima

.
A sombria floresta de Beatriz anunciou-se naquela tarde de sábado, num ponto de ônibus do centro, após ela sair do culto na igreja. Anunciou-se nos olhos do atraente moço de porte atlético que lhe pediu informação. Com simpatia, ela lhe explicou que ônibus deveria tomar, e era o mesmo que ela tomaria, ora veja. E juntos sentaram, ele com sua mochila vermelha, ela com a bíblia ao colo, quase a mão dele em sua mão. Chamava-se Antonio, e Beatriz soube que estudava filosofia, mas gostava mesmo era de ser goleiro, e nos fins de semana jogava por times de bairro, e ela achou isso tão lindo… Ele desceu primeiro, mas antes do ônibus os separar, correu até embaixo da janela e a convidou, Vai me ver jogar amanhã, e ela seguiu o resto do percurso a conversar manhosa com as estrelas, enquanto em seu peito borbulhava a nascente do rio a que chamam os poetas perdição.

Eu te amo, eu te amo, ela disse e repetiu ao ouvido dele, sussurrando baixinho. Lá fora, a última estrela se despedia e o amanhecer clareava aos poucos a suíte do Dante motel. Eu te quero tanto, meu goleirão, ela murmurou, lembrando que horas antes o admirava embaixo das traves, e reparou que, dormindo, ele parecia um anjinho. Beatriz beijou-o nos olhos e agradeceu ao seu deus pela dádiva daquele amor imenso, que surgira num bobo encontro casual, e agora, um ano depois, a instalara definitivamente no céu. Então Antonio se aconchegou e Beatriz sentiu a urgência de seu desejo, e ela nem sabia mais quantas vezes nas últimas horas haviam se amado. Ele a beijou com ardência, depois a virou de costas para ele e aguardou que ela se preparasse, e ela, percebendo vazio o tubo de lubrificante, não teve dúvidas: Ah, vai sem gel.

Um dia Antonio sumiu, simplesmente sumiu, sem deixar um mísero bilhete, sem que houvesse discussão ou algo que pudesse deixá-lo bravo. Só pode ser uma brincadeira, ele sempre gostou de me pregar peças…, Beatriz disse para si mesma, sem encontrar explicação convincente. Mas as semanas se passaram e ele não voltou, e da vida fez-se o limbo, a angustiante espera da definição que não vinha, a existência uma peça suspensa em pleno ato. O que fazer com o amor que tanto dá sentido ao tempo, e depois, de uma hora para outra, parece que disso se arrepende? Era o que pensava quando, pesquisando os sites de futebol de bairro, soube que Antonio jogaria naquele tarde em outra cidade ‒ e para lá Beatriz se mandou. Torceu por ele o jogo inteiro, no alambrado encostadinha, engasgada num choro que ela segurou firme… até vê-lo tomar um gol no fim da partida, e foi exatamente aí que ela entendeu que estava tudo acabado, que a eternidade daquele amor se desmanchara no ar, feito uma estrela cadente.

Na floresta escura dos meses seguintes, sonhava à noite com Antonio, ele jogando e ela torcendo, mas ele sempre olhava para ela no momento errado e, angustiado, tomava o gol. Solidão e desamparo foram suas companhias inseparáveis, e nem as orações na igreja trouxeram luz aos subterrâneos do seu desgraçado ser. Então, na agência lotérica em que trabalhava, no nono subsolo do shopping, ah, e como combinavam com sua alma os subsolos, um dia o sol voltou. Uma antiga amiga de colégio, Carla o nome dela, após receber o troco da mega-sena, a reconheceu: Beatriz, é você? Daí, foi o chope após o expediente, as boas lembranças colegiais revividas com alegria, mais dois chopes, tantas coisas para contar, outro chope ‒ era a velha amizade que retornava. Um mês depois, quando Carla precisou dormir em seu apartamento, e a amizade já cedia espaço aos carinhos e estes à sedução, elas consumaram na cama, abençoadas pela noite estrelada, aquilo que em seus corpos ansiava por acontecer.

Ironias do destino: amigas de colégio, anos sem se ver, e agora lá estão elas tornadas outra vez adolescentes, peles coladas noite e dia, ternamente apaixonadas. Beatriz frita os bolinhos prediletos de Carla, que desenha corações coloridos no caderno de Beatriz, que, da janela do quarto, suspira feliz para as estrelas, recuperada de seu passado sofredor. Porém, naquela noite na igreja, o pastor bradou enfático: A mulher nasceu para o homem, e aquela que desobedece às leis divinas sucumbirá na condenação, para sempre amaldiçoada!!! Ela voltou para casa e buscou dormir, mas as leis divinas não permitiram, e foi assim que abandonou a igreja, trocando-a por outra que a aceitava, a ela e seu pecaminoso amor. E tudo se resolveu, mas só até o dia em que o fantasma do passado ressurgiu na tela do celular: era Antonio, que dizia ter errado, implorava por perdão e pedia encarecidamente um encontro. Assustada, Beatriz desligou, mas ele insistiu e ela teve de explicar que seu amor agora era de outra pessoa, e que ele a esquecesse, por favor.

Bastou aquele telefonema para castigar as certezas de Beatriz, substituindo a paz celestial que Carla trouxera aos seus dias por aquele pesadelo dos demônios. O amor que, ao custo de um mar de lágrimas ferventes, jurava haver esquecido, voltava para lembrá-la daquilo que tão bem ela sabia. Sim, apesar de tudo ainda amava Antonio, sim, e agora a profundidade desse amor vinha assombrá-la num íntimo e cruel confronto. Na semana seguinte, após acordar de uma noite em que não brilharam estrelas em seu céu, Beatriz foi até a cozinha, onde Carla preparava o café, respirou fundo e lhe pediu imensas desculpas por tê-la envolvido nos descaminhos de sua alma tresloucada, sua pobre alma que no amor parecia sofrer de disritmia. A cena é tão melancólica: Carla escutando a tudo em silêncio, e ao fim pegando suas coisas e indo embora, deixando no ar a pesada sombra das palavras que no peito preferiu calar. Na cozinha fica Beatriz, encostada à parede, massacrada pela tristeza de saber que fizera o que devia ser feito, enquanto na mesa o café esfria.

Nossa história bem que podia terminar aqui, com a mocinha, enfim purgada de seus pecados, vivendo com seu amado na bem-aventurança seculum seculorum ‒ mas, ai, ai, é justamente quando julgamos ter a gerência da vida que a própria vida trata de tudo bagunçar. Acertada outra vez com seu adorado goleiro, embalada novamente pela melodia das estrelas, Beatriz, surpresa, vê-se saudosa de tudo que tinha com Carla, e experimenta em si a estranha contradição de saber-se amada e amando, mas… incompleta. Antonio a abraça, compreensivo, e diz que em nenhum momento lhe exigiu exclusividade, e que se ela ainda ama a ex-namorada, ele perfeitamente entenderá. Mas se você me ama, como pode aceitar que eu ame também a outro alguém, perdeu o senso, foi?, ela pergunta, confusa, e ele explica o que aprendeu nos dias em que duelava no inferno contra sua própria possessividade: que só há salvação no amor que liberta. Naquela mesma noite, na igreja, ao ouvir o pastor pregar a fidelidade e a monogamia, Beatriz nem esperou pelo fim do sermão: ergueu-se decidida, pegou de volta o dízimo que deixara na caixinha, saiu e foi até a casa de Carla, e contou-lhe, emocionada, que havia finalmente se libertado e encontrado a iluminação de sua vida inteira. Bem, a história ainda deu umas boas voltas, é vero, mas para encurtar: Carla resistiu, resistiu, mas um dia também encontrou a luz, aleluia!, e semana passada, inclusive, aceitou ir com Beatriz ver Antonio jogar ‒ mas deu-se o direito de não aplaudir suas defesas, porque afinal ela ainda não está tão iluminada, tem que dar um tempo, ?

E assim vão os três, novos atores para essa velha comédia de sucesso chamada amor, onde ouvir as augustas estrelas não garante absolutamente nada, e, como bem nos ensina a terza rima, tudo é eterno enquanto não vem a palavra derradeira.

.
Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

.

.

SOBRE O CONTO – Foi com este conto que participei do livro Para Belchior com Amor (Miragem Editorial, 2016). A música que o inspirou, do mesmo nome, foi, por sua vez, inspirada no poema Divina Comédia, de Dante Alighieri, que Belchior pretende, ou pretendia, traduzir para o português numa versão mais popular. Para criar meu conto, baseei-me na estrutura temática do poema (Inferno, Purgatório e Céu) e escrevi uma história que fala da salvação-condenação pelo amor, e suas complexidades e contradições. E como o magistral poema de Dante, que é um dos maiores clássicos da literatura ocidental, foi escrito em terza rima, esse entrelaçado e dinâmico sistema rimático criado por ele, impus-me o desafio de fazer o mesmo em meu conto, compondo as rimas com a última palavra de cada um dos períodos gramaticais dos parágrafos. Ignoro se antes alguém já havia feito terza rima com prosa. Não foi fácil, mas gostei da experiência.

SOBRE A IMAGEM – A imagem que ilustra esta postagem é uma reprodução parcial do quadro Os Fantasmas de Paolo e Francesca Aparecem para Dante e Virgílio, de Ary Scheffer (1835). No poema Divina Comédia (Inferno, Canto V) Dante e Virgílio encontram num dos círculos do Inferno o casal  Paolo e Francesca, condenados por seu amor adúltero. Francesca de Rimini e Paolo Malatesta viveram na Itália no sec. 13 e foram assassinados por Gianciotto Malatesta, marido de Francesca e irmão de Paolo, por eles terem se apaixonado um pelo outro.

O ANALISTA – Putz, há tanto o que dizer sobre a letra de Divina Comédia Humana… As referências ao poema de Dante Alighieri são várias, mas há mais coisas. O analista, por exemplo. Ele insiste em desqualificar as relações que não se enquadram nas sagradas regras do amor romântico tradicional. Para ele, a sensualidade e a paixão são negativas. O analista quer nos convencer de que o amor é uma coisa mais profunda que encontros casuais e transas sensuais, e que se não entendermos isso, viveremos insatisfeitos.

Se o analista está certo ou não, é algo a se discutir. Belchior, porém, rejeita ser conduzido por essa lógica racional que enquadra o amor. Ele prefere viver intensamente o que sente no momento, com ardência e paixão, com os céus e infernos inerentes, mesmo que seja breve, mesmo que não seja amor, ou mesmo que seja outro tipo de amor, pois sabe que tudo é transitório, inclusive o sagrado amor romântico tão defendido pelo analista. Belchior diz não às convenções dos sentimentos, ignora as racionalidades analíticas e dessacraliza o amor, e canta sua liberdade de amar ao seu modo profano.

Pensei em escrever para o livro Para Belchior com Amor uma análise dessa letra, mas meu lado ficcionista falou mais alto e achei mais interessante contar uma história, até porque eu queria também homenagear o poema de Dante. Mas que essa letra dá um bom estudo, ah, isso dá.

DIVINA COMÉDIA HUMANA (Belchior)

Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando você entrou em mim como o sol no quintal
Aí um analista amigo meu
Disse que desse jeito não vou ser feliz direito
Porque o amor é uma coisa mais profunda
Que um encontro casual
Aí um analista amigo meu
Disse que desse jeito não vou viver satisfeito
Porque o amor é uma coisa mais profunda
Que uma transa sensual

Deixando a profundidade de lado
Eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia
Fazendo tudo, e de novo dizendo sim à paixão
Morando na filosofia
Eu quero gozar no seu céu
Pode ser no seu inferno
Viver a divina comédia humana onde nada é eterno

Ora, direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso
E eu vos direi, no entanto:
Enquanto houver espaço, corpo, tempo
E algum modo de dizer não
Eu canto

.

DICAS

stelle.com.br – Site criado por Helder da Rocha com material sobre a Divina Comédia, inclusive o texto original e uma versão em prosa, em português, do poema.

Divina Comédia na Wikipedia

.

Divina Comédia Humana
gravação original, álbum Todos os Sentidos (1978)

.

Leitura do conto “Divina comédia humana”
por Marcelo Fávaro

.

.

parabelchiorcomamorcapa3d-01Para Belchior com Amor

Neste livro, organizado pelo escritor Ricardo Kelmer e lançado em out2016, o poeta, cantor e compositor cearense Belchior é homenageado por catorze autores conterrâneos, que escreveram contos, crônicas e cartas inspirados em suas músicas, as mesmas que tanto encantaram os mais velhos e continuam a encantar os mais novos. Literatura para celebrar um notável literato. Ele que soube, como poucos, harmonizar música e poesia, e que fez de sua obra e sua vida um intenso canto de amor, liberdade, questionamento e rebeldia. Salve Belchior!

.

MAIS SOBRE BELCHIOR

O dia em que entendi Belchior (crônica) – Ele já não tinha metas, estava finalmente livre para deixar a roda-viva que nos entorpece diariamente com a sedução das falsas necessidades

Esses jovens que resgataram Belchior (crônica) – É um grito latino-americano que brota da dor das minorias e dos excluídos, de todos que não comungam com o deus mercado e vomitam a ração diária fornecida pela mídia poderosa

.

OUTROS LIVROS

ICI2011Capa-01fRomance – Contos – Crônicas – Ensaio – Poemas

.

VENDAS
Livrarias, Amazon ou direto com o autor (depósito bancário ou Pag Seguro: cartão e boleto). Impresso e eletrônico.

.

.

.

Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

.

.

elalivro10Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

 COMENTÁRIOS
.

01- Excelente! Revejo-me nessa Beatriz, nesse duelo entre a consciência moral cultivada e o chamado do outro lado do espelho, de dentro de si mesma, a ânsia de libertação, mas não o poder fazer. Precisou que Antônio a libertasse…. Ah, safado, e esqueceste-te de mandar o meu livro pelo Felipe! Susana X Mota, Leiria-Portugal – jan2017

02- Conto e livro sensacionais!!!! Caroline de Paula, Garanhuns-PE – jan2017

03- Brilhante, Ricardo Kelmer! Giba C. Carvalho, Recife-PE – jan2017

04- ele estava traduzindo.em 99 encontrei o Belchior no lançamento do CD auto Retrato e perguntei sobre a tradução ele respondeu.Por enquanto estou no inferno!..rsrs. F Moreno Set, São Paulo-SP – jan2017

05- Nao obstante, é meu conto predileto do livro! Ricardo, essa música, em especial, me marcou muito! E você a eternizou em forma literária de uma maneira magnífica. Como não admirar e ser grata? E desde a primeira vez que li, senti que era algo fundamentado e trabalhado. Esse post só só confirmou isso. Vc e Belchior: dois literatos admiráveis! Melissa Fernandes, Alfenas-MG – jan2017

06- li de novo. curti de novo. ❤ a vida traz destas bagunças malukas no meio de tantos presentes e tantas surras! né? é nosso brinde! kkkk bjs querido, volte logo pra fusta! (as cadeiras do serpentina não estão mais nem rosnando, o q dirá latindo!). Clarisse Ilgenfritz, Fortaleza-CE – jan2017

07- Caríssimo RK, fico muito feliz com o sucesso da iniciativa do livro e eventos em homenagem a Belchior. Alto nível e merecida recepção. A versão do dantesco monumento literário é realmente um desafio, mas a arte é uma experiência em diálogo no tempo e no espaço. Redobrados parabéns! Abraço do Leite Jr., Fortaleza-CE – fev2017


%d blogueiros gostam disto: