A última canção

20/03/2017

21mar2017

O que mais impulsionava sua voz, a raiva por ela brincar assim com seus sentimentos ou o ódio por pressentir que mais uma vez não conseguiria resistir?

A ÚLTIMA CANÇÃO

.
Esta é a última canção
Que eu faço pra você

Ele cantou os primeiros versos da música. A música que até poucas horas antes não existia. Ainda estava surpreso com a forma com que ela saíra: pela manhã, quando acordava, ela lhe veio pronta, do começo ao fim, isso nunca tinha acontecido. Não planejou cantá-la aquela noite, mas o bar estava quase vazio… Se por um lado o fraco movimento significava que em breve seria despedido, e o aluguel da quitinete seguiria atrasado, por outro lado era uma oportunidade de testar uma nova música sem pressão. E, além disso, já passava de meia-noite, era a última música mesmo. Talvez aquele bêbado deitado na calçada gostasse.

Já cansei de viver iludido
Só pensando em você

Foi então que viu… aqueles cabelos loiros… Sergiana. Ele quase engasgou no meio da estrofe. Olhou de novo, não podia ser ela… Mas era. Sentada numa mesa no fundo do bar. Sozinha. Que droga, o que ela fazia ali?, ele pensou, desviando o olhar, subitamente nervoso. Ela fora muito clara quando disse, no último encontro, que o namoro havia terminado, dessa vez definitivamente, e que ela até já estava com outro. E ele, na solidão das noites seguintes, lutou bastante para acreditar que dessa vez a coisa era mesmo para valer, que, ao contrário de todas as outras vezes em que ela o deixava e depois se arrependia e voltava, agora era mesmo o fim, sem apelação. E aquela música surgindo de forma incrível, confirmando que jamais voltaria a fazer canções para aquele amor sem juízo e sem futuro… Mas agora, menos de uma semana depois, ali estava ela, vendo-o cantar, olhando silenciosa para ele.

Se amanhã você me encontrar
De braços dados com outro alguém
Faça de conta que pra você não sou ninguém

Apesar do nervosismo, ele não interrompeu a música. Em vez disso, para não ceder à tentação de olhar para ela, fechou os olhos. E foi assim, de olhos bem fechados, que ele agarrou-se desesperadamente aos versos, a cada um deles, cada mínima palavra, e cantou com vigor, interpretando cada frase com a emoção que ele só agora percebia que os versos continham. O que mais impulsionava sua voz, a raiva por ela brincar assim com seus sentimentos ou o ódio por pressentir que mais uma vez não conseguiria resistir? Após terminar a música, esperou por algum aplauso, que não veio, e então desplugou o violão e desceu do palco, evitando olhar para o fundo do bar. Enquanto guardava o violão na caixa, uma mulher aproximou-se e, sem que esperasse, beijou-o na boca, com tanta vontade que quase o derrubou. Absolutamente surpreso, ele balbuciou qualquer coisa para a mulher desconhecida enquanto tentava localizar Sergiana no bar. Mas ela havia sumido.

Mas você deve sempre lembrar
Que já me fez chorar
E que a chance que você perdeu
Nunca mais vou lhe dar

Ele despertou e viu que ao seu lado, inteiramente nua, dormia a garota do bar. Paulinha… Enquanto admirava as curvas de seu corpo gracioso, lembrou do beijo repentino que ela lhe dera no bar, depois as cervejas que tomaram, ela falando que ele cantava muito bem e que ela o apresentaria a uns amigos que eram donos de bares bem melhores que aquele, depois mais beijos, mais cervejas e, finalmente, os dois ali em sua cama, consumando o imenso desejo despertado… Ele estava encantado com ela, com o modo como tudo acontecera. Sim, ele conhecia aquele sentimento: era paixão. Quando entendeu isso, sentiu-se tomado por uma completa leveza, como se sua alma houvesse se libertado de um peso carregado durante anos e anos. Nesse instante, Paulinha despertou e sorriu docemente para ele, e o abraçou, dizendo que adorara a noite. E contou que pouco antes, quando ele ainda dormia, bateram na porta e ela foi atender, e era uma mulher, uma mulher loira, que queria falar com ele. E você disse o quê para ela?, ele quis saber, alarmado. E ela: Respondi que meu namorado me esperava na cama e fechei a porta, fiz certo? Ele ficou alguns segundos sem saber o que dizer. Então uma sensação de alívio inundou seu espírito e ele sorriu feliz, abrindo os braços, e Paulinha aninhou-se em seu peito.

E as canções tão lindas de amor
Que eu fiz ao luar para você
Confesso, iguais àquelas não mais ouvirá

Um mês depois muitas coisas haviam acontecido. Paulinha, além de linda, bem-humorada e sem frescuras, era um legítimo amuleto, como ele gostava de dizer aos amigos. Sim, pois depois que a conhecera, conseguiu trabalho em bares excelentes e agora estava ganhando bem, as contas finalmente em dia. E quanto a Sergiana, ela agora fazia parte de seu passado, só isso. Uma noite, porém, o passado ressurgiu. Ele bebia com os amigos quando atendeu o celular e, após um instante de silêncio, escutou uma voz conhecida, triste, quase um sussurro: Volta pra mim, por favor… Os amigos o cutucavam, querendo saber quem era. Ele sorriu, tranquilo e vitorioso, e desligou o celular. E respondeu: Ligação errada.

E amanhã sei que esta canção
Você ouvirá no rádio a tocar
Lembrará que seu orgulho maldito
Já me fez chorar por muito lhe amar

Quando, depois de mais uma apresentação de sucesso, o homem lhe estendeu o cartão, dizendo ser de uma gravadora, ele estremeceu. Porque sentiu que finalmente havia chegado o momento com o qual sonhava havia tantos anos. E estava certo. Quatro meses depois seu disco estava gravado e sua música, aquela que compusera de uma vez só para seu antigo amor, tocava todo dia nas rádios. Ele agora era um artista de sucesso. Certo dia, numa entrevista ao vivo na rádio, ele respondia às perguntas de fãs que ligavam para o programa e o apresentador atendeu o ouvinte seguinte: Alô, quem fala? Nesse momento ele ouviu, e todos os ouvintes ouviram, a voz triste de uma mulher, engasgada em choro: Volta pra mim, por favor…

Peço, não chore, mas sinta por dentro a dor do amor
E então você verá o valor que tem o amor
E muito vai chorar ao lembrar o que passou

O sucesso aumentou e ele deixou de tocar em bares, passando a fazer apenas shows bem produzidos, com uma banda formada pelos melhores músicos da cidade. Comprou um carro à vista. Agora tinha até fã-clube. Os convites para shows aumentaram e ele teve de se mudar para São Paulo, levando Paulinha com ele. Tornou-se nacionalmente conhecido. Comprou uma cobertura. Viajou com Paulinha para a Europa, foram escolhidos o casal do ano. Várias vezes a agenda cheia o obrigou a recusar convites de programas de tevê. Que mais poderia desejar da vida? Trabalhava com o que gostava, era um artista consagrado e tinha consigo a mulher mais maravilhosa do mundo, que o amava e que, para sua completa felicidade, estava grávida e em breve lhe daria um filho. Mas o passado voltou mais uma vez numa noite em que, chegando a seu prédio, uma mulher loira o abordou. Era Sergiana. Chorando bastante, o rosto marcado pela angústia, ela disse que estava arrependida, que reconhecia não ter sido a mulher que ele merecia, que ainda o amava muito, muito, e que só precisava de uma, apenas uma chance para mostrar que na verdade a mulher da vida dele era ela, sempre fora ela… Ele engoliu seco. Sentiu as pernas fraquejarem. Nesse momento entendeu que no último ano tudo que fizera foi enganar-se: ele ainda a amava. E agora, olhando para ela assim, chorando, fragilizada, sincera, ele sabia que a amava mais do que alguma vez a havia amado e mais do que poderia amar a qualquer outra mulher. Ela aproximou os lábios dos dele e ele aceitou, fechando os olhos, inteiramente rendido à força do amor que nem o tempo nem outra mulher nem nada no mundo poderia jamais derrotar.

Esta é a última canção que eu faço pra você

Ele tocou o último acorde da música e finalmente abriu os olhos, sentindo-se como se despertasse de um sonho. Demorou alguns segundos até se situar no tempo presente. Viu o bar quase vazio. Viu o bêbado deitado na calçada, aplaudindo. Olhou para o fundo do bar e viu que Sergiana continuava lá na mesa. Mas não olhava mais para ele, e sim para o homem que entrava no bar. O homem passou entre as mesas e, chegando à dela, inclinou-se e a beijou na boca, e ela sorriu feliz. Chocado, desviou o olhar, deixou o palco e caminhou até o balcão, procurando manter-se tranquilo, e lá o gerente disse que não poderia pagá-lo, que acertaria com ele depois. Ele pediu que pagasse ao menos a passagem de ônibus, pois não tinha um centavo. O gerente deu-lhe algumas moedas, e então ele apanhou o violão e saiu. Uma hora depois, do outro lado da rua, enquanto ainda aguardava o ônibus que demorava, ele pôde ver que o bar estava quase fechando, que o gerente esperava apenas sair um último casal que se beijava apaixonadamente numa mesa ao fundo.

.
Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

.

.
Este conto integra os livros Vocês Terráqueas e Trilha da Vida Loca. A letra usada é da música A Última Canção, de autoria de Carlos Roberto, e foi imortalizada na interpretação de Paulo Sérgio (1944-1980), tornando-se um clássico da dor de cotovelo.

.

Trilha da Vida Loca
Ricardo Kelmer, contos

O amor é belo. Mas também é ridículo, risível, trágico… Aqui estão reunidas seis histórias inspiradas em grandes sucessos musicais da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor. Amar é para estômagos fortes.

.

.

PAULO SÉRGIO CANTA “A ÚLTIMA CANÇÃO”

.

A ÚLTIMA ENTREVISTA DE PAULO SÉRGIO, 11.07.80
(18 dias antes de sua morte)

.

.
PauloSergio-01aSOBRE PAULO SÉRGIO

Paulo Sérgio de Macedo, mais conhecido como Paulo Sérgio (Alegre, 10 de março de 1944 – São Paulo, 29 de julho de 1980), foi um cantor e compositor brasileiro. Teve uma morte prematura, aos 36 anos, em decorrência de um derrame cerebral. É lembrado como um dos maiores nomes da música romântica nacional. Iniciou sua carreira em 1968, no Rio de Janeiro, lançando um compacto com o sucesso A Última Canção. O disco obteve sucesso imediato e vendeu 60 mil cópias em apenas três semanas, transformando seu intérprete num fenômeno de vendas. A despeito da curta carreira, Paulo Sérgio lançou treze discos e algumas coletâneas, obtendo uma vendagem superior a 10 milhões de cópias em apenas 13 anos de carreira. (Na Wikipedia)

.

LEIA NESTE BLOG

PaixaoDeUmHomem-01aPaixão de um homem (Trilha da Vida Loca) – Amigo, por favor leve esta carta e entregue àquela ingrata, e diga como estou

Vou tirar você desse lugar (Trilha da Vida Loca) – De repente a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser apenas detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

Por que brigamos (Trilha da Vida Loca) – Ou continuava tentando salvar o casamento, e todo o seu esforço não seria nenhuma garantia de sucesso, ou então salvava a si mesmo – se é que existia salvação para ela

Lama (Trilha da Vida Loca) – E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central

Odair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

.

TrilhaDaVidaLoca201302Cartaz-2aTrilha da Vida loca – o show

Música e literatura em histórias de amor inspiradas em clássicos da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor… Ricardo Kelmer e Felipe Breier interpretam contos kelméricos e músicas de Odair José, Diana, Paulo Sergio, Waldick Soriano e Núbia Lafayette. Sugere-se que todos paguem o couvert antes de cortar os pulsos.

Texto e direção: Ricardo Kelmer. Duração: 2h (ou versão de 1h30)
> Saiba mais

TRILHA DA VIDA LOCA
Contos e canções do amor doído

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- Amei, como sempre! Valeria Borges, Campinas-SP – mar2017

02- Gosto demais! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – mar2017

03- Maravilhoso. Viajei na estoria. Bjo. Cícera Souza Vidal, Fortaleza-CE – mar2017

04- Muito bom. Jonas Rocha Neto, Palmas-TO – mar2017

 

 


Divina comédia humana

09/01/2017

09jan2017

Um conto inspirado na música de Belchior e no poema de Dante Alighieri

divinacomediahumana-01a

DIVINA COMÉDIA HUMANA
Ou: O amor é uma coisa mais exótica que um conto em terza rima

.
A sombria floresta de Beatriz anunciou-se naquela tarde de sábado, num ponto de ônibus do centro, após ela sair do culto na igreja. Anunciou-se nos olhos do atraente moço de porte atlético que lhe pediu informação. Com simpatia, ela lhe explicou que ônibus deveria tomar, e era o mesmo que ela tomaria, ora veja. E juntos sentaram, ele com sua mochila vermelha, ela com a bíblia ao colo, quase a mão dele em sua mão. Chamava-se Antonio, e Beatriz soube que estudava filosofia, mas gostava mesmo era de ser goleiro, e nos fins de semana jogava por times de bairro, e ela achou isso tão lindo… Ele desceu primeiro, mas antes do ônibus os separar, correu até embaixo da janela e a convidou, Vai me ver jogar amanhã, e ela seguiu o resto do percurso a conversar manhosa com as estrelas, enquanto em seu peito borbulhava a nascente do rio a que chamam os poetas perdição.

Eu te amo, eu te amo, ela disse e repetiu ao ouvido dele, sussurrando baixinho. Lá fora, a última estrela se despedia e o amanhecer clareava aos poucos a suíte do Dante motel. Eu te quero tanto, meu goleirão, ela murmurou, lembrando que horas antes o admirava embaixo das traves, e reparou que, dormindo, ele parecia um anjinho. Beatriz beijou-o nos olhos e agradeceu ao seu deus pela dádiva daquele amor imenso, que surgira num bobo encontro casual, e agora, um ano depois, a instalara definitivamente no céu. Então Antonio se aconchegou e Beatriz sentiu a urgência de seu desejo, e ela nem sabia mais quantas vezes nas últimas horas haviam se amado. Ele a beijou com ardência, depois a virou de costas para ele e aguardou que ela se preparasse, e ela, percebendo vazio o tubo de lubrificante, não teve dúvidas: Ah, vai sem gel.

Um dia Antonio sumiu, simplesmente sumiu, sem deixar um mísero bilhete, sem que houvesse discussão ou algo que pudesse deixá-lo bravo. Só pode ser uma brincadeira, ele sempre gostou de me pregar peças…, Beatriz disse para si mesma, sem encontrar explicação convincente. Mas as semanas se passaram e ele não voltou, e da vida fez-se o limbo, a angustiante espera da definição que não vinha, a existência uma peça suspensa em pleno ato. O que fazer com o amor que tanto dá sentido ao tempo, e depois, de uma hora para outra, parece que disso se arrepende? Era o que pensava quando, pesquisando os sites de futebol de bairro, soube que Antonio jogaria naquele tarde em outra cidade ‒ e para lá Beatriz se mandou. Torceu por ele o jogo inteiro, no alambrado encostadinha, engasgada num choro que ela segurou firme… até vê-lo tomar um gol no fim da partida, e foi exatamente aí que ela entendeu que estava tudo acabado, que a eternidade daquele amor se desmanchara no ar, feito uma estrela cadente.

Na floresta escura dos meses seguintes, sonhava à noite com Antonio, ele jogando e ela torcendo, mas ele sempre olhava para ela no momento errado e, angustiado, tomava o gol. Solidão e desamparo foram suas companhias inseparáveis, e nem as orações na igreja trouxeram luz aos subterrâneos do seu desgraçado ser. Então, na agência lotérica em que trabalhava, no nono subsolo do shopping, ah, e como combinavam com sua alma os subsolos, um dia o sol voltou. Uma antiga amiga de colégio, Carla o nome dela, após receber o troco da mega-sena, a reconheceu: Beatriz, é você? Daí, foi o chope após o expediente, as boas lembranças colegiais revividas com alegria, mais dois chopes, tantas coisas para contar, outro chope ‒ era a velha amizade que retornava. Um mês depois, quando Carla precisou dormir em seu apartamento, e a amizade já cedia espaço aos carinhos e estes à sedução, elas consumaram na cama, abençoadas pela noite estrelada, aquilo que em seus corpos ansiava por acontecer.

Ironias do destino: amigas de colégio, anos sem se ver, e agora lá estão elas tornadas outra vez adolescentes, peles coladas noite e dia, ternamente apaixonadas. Beatriz frita os bolinhos prediletos de Carla, que desenha corações coloridos no caderno de Beatriz, que, da janela do quarto, suspira feliz para as estrelas, recuperada de seu passado sofredor. Porém, naquela noite na igreja, o pastor bradou enfático: A mulher nasceu para o homem, e aquela que desobedece às leis divinas sucumbirá na condenação, para sempre amaldiçoada!!! Ela voltou para casa e buscou dormir, mas as leis divinas não permitiram, e foi assim que abandonou a igreja, trocando-a por outra que a aceitava, a ela e seu pecaminoso amor. E tudo se resolveu, mas só até o dia em que o fantasma do passado ressurgiu na tela do celular: era Antonio, que dizia ter errado, implorava por perdão e pedia encarecidamente um encontro. Assustada, Beatriz desligou, mas ele insistiu e ela teve de explicar que seu amor agora era de outra pessoa, e que ele a esquecesse, por favor.

Bastou aquele telefonema para castigar as certezas de Beatriz, substituindo a paz celestial que Carla trouxera aos seus dias por aquele pesadelo dos demônios. O amor que, ao custo de um mar de lágrimas ferventes, jurava haver esquecido, voltava para lembrá-la daquilo que tão bem ela sabia. Sim, apesar de tudo ainda amava Antonio, sim, e agora a profundidade desse amor vinha assombrá-la num íntimo e cruel confronto. Na semana seguinte, após acordar de uma noite em que não brilharam estrelas em seu céu, Beatriz foi até a cozinha, onde Carla preparava o café, respirou fundo e lhe pediu imensas desculpas por tê-la envolvido nos descaminhos de sua alma tresloucada, sua pobre alma que no amor parecia sofrer de disritmia. A cena é tão melancólica: Carla escutando a tudo em silêncio, e ao fim pegando suas coisas e indo embora, deixando no ar a pesada sombra das palavras que no peito preferiu calar. Na cozinha fica Beatriz, encostada à parede, massacrada pela tristeza de saber que fizera o que devia ser feito, enquanto na mesa o café esfria.

Nossa história bem que podia terminar aqui, com a mocinha, enfim purgada de seus pecados, vivendo com seu amado na bem-aventurança seculum seculorum ‒ mas, ai, ai, é justamente quando julgamos ter a gerência da vida que a própria vida trata de tudo bagunçar. Acertada outra vez com seu adorado goleiro, embalada novamente pela melodia das estrelas, Beatriz, surpresa, vê-se saudosa de tudo que tinha com Carla, e experimenta em si a estranha contradição de saber-se amada e amando, mas… incompleta. Antonio a abraça, compreensivo, e diz que em nenhum momento lhe exigiu exclusividade, e que se ela ainda ama a ex-namorada, ele perfeitamente entenderá. Mas se você me ama, como pode aceitar que eu ame também a outro alguém, perdeu o senso, foi?, ela pergunta, confusa, e ele explica o que aprendeu nos dias em que duelava no inferno contra sua própria possessividade: que só há salvação no amor que liberta. Naquela mesma noite, na igreja, ao ouvir o pastor pregar a fidelidade e a monogamia, Beatriz nem esperou pelo fim do sermão: ergueu-se decidida, pegou de volta o dízimo que deixara na caixinha, saiu e foi até a casa de Carla, e contou-lhe, emocionada, que havia finalmente se libertado e encontrado a iluminação de sua vida inteira. Bem, a história ainda deu umas boas voltas, é vero, mas para encurtar: Carla resistiu, resistiu, mas um dia também encontrou a luz, aleluia!, e semana passada, inclusive, aceitou ir com Beatriz ver Antonio jogar ‒ mas deu-se o direito de não aplaudir suas defesas, porque afinal ela ainda não está tão iluminada, tem que dar um tempo, ?

E assim vão os três, novos atores para essa velha comédia de sucesso chamada amor, onde ouvir as augustas estrelas não garante absolutamente nada, e, como bem nos ensina a terza rima, tudo é eterno enquanto não vem a palavra derradeira.

.
Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

.

.

SOBRE O CONTO – Foi com este conto que participei do livro Para Belchior com Amor (Miragem Editorial, 2016). A música que o inspirou, do mesmo nome, foi, por sua vez, inspirada no poema Divina Comédia, de Dante Alighieri, que Belchior pretende, ou pretendia, traduzir para o português numa versão mais popular. Para criar meu conto, baseei-me na estrutura temática do poema (Inferno, Purgatório e Céu) e escrevi uma história que fala da salvação-condenação pelo amor, e suas complexidades e contradições. E como o magistral poema de Dante, que é um dos maiores clássicos da literatura ocidental, foi escrito em terza rima, esse entrelaçado e dinâmico sistema rimático criado por ele, impus-me o desafio de fazer o mesmo em meu conto, compondo as rimas com a última palavra de cada um dos períodos gramaticais dos parágrafos. Ignoro se antes alguém já havia feito terza rima com prosa. Não foi fácil, mas gostei da experiência.

SOBRE A IMAGEM – A imagem que ilustra esta postagem é uma reprodução parcial do quadro Os Fantasmas de Paolo e Francesca Aparecem para Dante e Virgílio, de Ary Scheffer (1835). No poema Divina Comédia (Inferno, Canto V) Dante e Virgílio encontram num dos círculos do Inferno o casal  Paolo e Francesca, condenados por seu amor adúltero. Francesca de Rimini e Paolo Malatesta viveram na Itália no sec. 13 e foram assassinados por Gianciotto Malatesta, marido de Francesca e irmão de Paolo, por eles terem se apaixonado um pelo outro.

O ANALISTA – Putz, há tanto o que dizer sobre a letra de Divina Comédia Humana… As referências ao poema de Dante Alighieri são várias, mas há mais coisas. O analista, por exemplo. Ele insiste em desqualificar as relações que não se enquadram nas sagradas regras do amor romântico tradicional. Para ele, a sensualidade e a paixão são negativas. O analista quer nos convencer de que o amor é uma coisa mais profunda que encontros casuais e transas sensuais, e que se não entendermos isso, viveremos insatisfeitos.

Se o analista está certo ou não, é algo a se discutir. Belchior, porém, rejeita ser conduzido por essa lógica racional que enquadra o amor. Ele prefere viver intensamente o que sente no momento, com ardência e paixão, com os céus e infernos inerentes, mesmo que seja breve, mesmo que não seja amor, ou mesmo que seja outro tipo de amor, pois sabe que tudo é transitório, inclusive o sagrado amor romântico tão defendido pelo analista. Belchior diz não às convenções dos sentimentos, ignora as racionalidades analíticas e dessacraliza o amor, e canta sua liberdade de amar ao seu modo profano.

Pensei em escrever para o livro Para Belchior com Amor uma análise dessa letra, mas meu lado ficcionista falou mais alto e achei mais interessante contar uma história, até porque eu queria também homenagear o poema de Dante. Mas que essa letra dá um bom estudo, ah, isso dá.

DIVINA COMÉDIA HUMANA (Belchior)

Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando você entrou em mim como o sol no quintal
Aí um analista amigo meu
Disse que desse jeito não vou ser feliz direito
Porque o amor é uma coisa mais profunda
Que um encontro casual
Aí um analista amigo meu
Disse que desse jeito não vou viver satisfeito
Porque o amor é uma coisa mais profunda
Que uma transa sensual

Deixando a profundidade de lado
Eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia
Fazendo tudo, e de novo dizendo sim à paixão
Morando na filosofia
Eu quero gozar no seu céu
Pode ser no seu inferno
Viver a divina comédia humana onde nada é eterno

Ora, direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso
E eu vos direi, no entanto:
Enquanto houver espaço, corpo, tempo
E algum modo de dizer não
Eu canto

.

DICAS

stelle.com.br – Site criado por Helder da Rocha com material sobre a Divina Comédia, inclusive o texto original e uma versão em prosa, em português, do poema.

Divina Comédia na Wikipedia

.

Divina Comédia Humana
gravação original, álbum Todos os Sentidos (1978)

.

.

parabelchiorcomamorcapa3d-01Para Belchior com Amor

Neste livro, organizado pelo escritor Ricardo Kelmer e lançado em out2016, o poeta, cantor e compositor cearense Belchior é homenageado por catorze autores conterrâneos, que escreveram contos, crônicas e cartas inspirados em suas músicas, as mesmas que tanto encantaram os mais velhos e continuam a encantar os mais novos. Literatura para celebrar um notável literato. Ele que soube, como poucos, harmonizar música e poesia, e que fez de sua obra e sua vida um intenso canto de amor, liberdade, questionamento e rebeldia. Salve Belchior!

.

MAIS SOBRE BELCHIOR

O dia em que entendi Belchior (crônica) – Ele já não tinha metas, estava finalmente livre para deixar a roda-viva que nos entorpece diariamente com a sedução das falsas necessidades

Esses jovens que resgataram Belchior (crônica) – É um grito latino-americano que brota da dor das minorias e dos excluídos, de todos que não comungam com o deus mercado e vomitam a ração diária fornecida pela mídia poderosa

.

OUTROS LIVROS

ICI2011Capa-01fRomance – Contos – Crônicas – Ensaio – Poemas

.

VENDAS
Livrarias, Amazon ou direto com o autor (depósito bancário ou Pag Seguro: cartão e boleto). Impresso e eletrônico.

.

.

.

Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

.

.

elalivro10Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

 COMENTÁRIOS
.

01- Excelente! Revejo-me nessa Beatriz, nesse duelo entre a consciência moral cultivada e o chamado do outro lado do espelho, de dentro de si mesma, a ânsia de libertação, mas não o poder fazer. Precisou que Antônio a libertasse…. Ah, safado, e esqueceste-te de mandar o meu livro pelo Felipe! Susana X Mota, Leiria-Portugal – jan2017

02- Conto e livro sensacionais!!!! Caroline de Paula, Garanhuns-PE – jan2017

03- Brilhante, Ricardo Kelmer! Giba C. Carvalho, Recife-PE – jan2017

04- ele estava traduzindo.em 99 encontrei o Belchior no lançamento do CD auto Retrato e perguntei sobre a tradução ele respondeu.Por enquanto estou no inferno!..rsrs. F Moreno Set, São Paulo-SP – jan2017

05- Nao obstante, é meu conto predileto do livro! Ricardo, essa música, em especial, me marcou muito! E você a eternizou em forma literária de uma maneira magnífica. Como não admirar e ser grata? E desde a primeira vez que li, senti que era algo fundamentado e trabalhado. Esse post só só confirmou isso. Vc e Belchior: dois literatos admiráveis! Melissa Fernandes, Alfenas-MG – jan2017

06- li de novo. curti de novo. ❤ a vida traz destas bagunças malukas no meio de tantos presentes e tantas surras! né? é nosso brinde! kkkk bjs querido, volte logo pra fusta! (as cadeiras do serpentina não estão mais nem rosnando, o q dirá latindo!). Clarisse Ilgenfritz, Fortaleza-CE – jan2017

07- Caríssimo RK, fico muito feliz com o sucesso da iniciativa do livro e eventos em homenagem a Belchior. Alto nível e merecida recepção. A versão do dantesco monumento literário é realmente um desafio, mas a arte é uma experiência em diálogo no tempo e no espaço. Redobrados parabéns! Abraço do Leite Jr., Fortaleza-CE – fev2017


Os pesadelos de Michel

06/09/2016

06set2016

O pior é que os pesadelos agora se materializam fora de sua mente. Para todo lugar que olhe, lá está a palavra golpe, que maldição

ospesadelosdemichel-01

OS PESADELOS DE MICHEL

.
Michel acordou todo suado. Novamente aquele pesadelo horrível, milhões de pessoas gritando nas ruas: Golpista, golpista!!! Impossível dormir com aquilo ecoando sem parar dentro de sua cabeça. Enquanto enxuga o suor do rosto e ajeita a faixa presidencial, com a qual gosta de dormir, observa Marcela ao lado, dormindo seu sono belo e recatado. Vendo-a assim, tão inocente em seu mundo cor-de-rosa, Michel deseja por um segundo a bênção da ignorância. Mas não, não tem esse direito. Ao aliar-se a Cunha para derrubar Dilma, ele bem sabe, cruzou a última fronteira de sua dignidade, e já não é mais possível retornar.

Então levanta-se e bebe um pouco de água, mas ela não afoga os gritos de golpista que martelam dentro de sua cabeça. Vai até a janela, e observa os seguranças lá fora. Ele está protegido. As manifestações contra seu governo, que se espalham rapidamente pelo país, ali não chegarão. Ele tem o apoio dos barões da mídia, dos grandes grupos financeiros e de setores da Justiça e da Polícia Federal. A banda podre do Congresso fechou com ele. Está blindado, conforme todos eles combinaram. E Deus, que, como bem lembrou comadre Janaína, iniciou o processo de impeachment, haverá de ajudá-lo. Bem, há o PSDB, é verdade, que no momento certo o apunhalará, mas isso ainda demora um pouco.

O pior é que os pesadelos agora se materializam fora de sua mente. Para todo lugar que olhe, lá está a palavra golpe, que maldição. Proibiu Michelzinho de ver luta na tevê porque o narrador não para de falar em golpe. Avião da Gol na pista, então, é uma visão insuportável. Precisa fazer alguma coisa. Um decreto para excluir a palavra golpista da língua portuguesa ‒ quanto a Globo cobraria para convencer o povo disso?

As pedaladas agora não são mais crime, ufa. O mesmo pretexto que usaram para afastar Dilma já não podem mais usar contra ele. Ótimo. Mas não devia ter falado que não aceitaria ser chamado de golpista ‒ só piorou a situação. E essa campanha ridícula que criaram, Diga Fora Temer e ganhe desconto nisso e naquilo, ganhe um beijo, parcele até 2018… Para sacaneá-lo, todos são criativos, que merda.

Vai até a estante. Um bom livro ajudará a silenciar aqueles malditos gritos em sua cabeça. Não, Golpe de Mestre, não, melhor não. Talvez uma novelinha na tevê… Ah, não, estão reprisando A Usurpadora! Aquilo já é um complô, querem enlouquecê-lo. E os gritos não param: Golpista, golpistaaaa, golpistaaaaaaaa!!!…

‒ Mimi, o que você tá fazendo aí? ‒ pergunta Marcela, encontrando-o minutos depois no banheiro, com a cabeça dentro da privada.

‒ Essas vozes, amor… não me deixam em paz… Socorro…

Desesperada, Marcela corre e liga para um psiquiatra de plantão. A atendente fala: “Bom dia. Diga Fora Temer e seja atendida imediatamente.” Ela fica em dúvida. E se Mimi estiver possuído pelo demo? Talvez seja melhor chamar o Marco Feliciano. Não. Não confia em homem que seja mais vaidoso que ela.

‒ Fora Temer… ‒ diz Marcela, bem baixinho. Mas a atendente não escuta e pede para ela repetir. ‒ Fora Temer ‒ Marcela repete, um pouco mais alto. Mas a atendente novamente não escuta. Marcela vai até o banheiro, onde Michel continua com a cabeça dentro da privada, fecha a porta bem fechado e volta. Respira fundo, benze-se três vezes e grita ao telefone:

‒ Fora Temeeeeerrrrr!!!

A atendente repassa a ligação para o psiquiatra. Marcela explica a situação. Do outro lado da linha, o psiquiatra responde:

‒ Só tem um jeito, senhora. Dê descarga.

Foi assim que Michel entrou pelo ralo da história.

.
Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

.

.

> Imagem: montagem sobre o quadro O Grito, de Edvard Munch

OGritoEdvardMunch-01O Grito (no original Skrik) é uma série de quatro pinturas do norueguês Edvard Munch, a mais célebre das quais datada de 1893. A obra representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial. O plano de fundo é a doca de Oslofjord (em Oslo) ao pôr-do-Sol. O Grito é considerado como uma das obras mais importantes do movimento expressionista e adquiriu um estatuto de ícone cultural, a par da Mona Lisa de Leonardo da Vinci. (Wikipedia)

.

LEIA NESTE BLOG

DemocraciaERegualacaoDaMidia-01aDemocracia e regulação da mídia – A informação é um produto e, como todo mercado, o mercado da informação precisa de regras, caso contrário o grupo que tem mais dinheiro monopolizará a informação, para prejuízo da sociedade em geral

Roubalheiras, desigualdade social e o reconhecimento popular – Se hoje o povo usa essa lógica para manter o PT no poder, o motivo reside justamente na histórica insensibilidade, ou incapacidade, dos outros governos perante as necessidades mais urgentes do povo

Acabou a paciência – Cada um que protesta traz em si a frustração acumulada de tantas gerações por trabalhar dia após dia por um sistema econômico que finge querer o bem de todos mas concentra a renda

Eu esfaqueei o deputado Não temem que as pessoas se revoltem e invadam seus lindos gabinetes, que os sequestrem, que joguem uma bomba no congresso?

Manual prático de autoenforcamento – Ameaça de morte a senador termina em autoenforcamento

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

COMENTÁRIOS
.

01- muuuuito booommm!! Shirlene Holanda, São Paulo-SP – set2016

02- Vaza, desgraça golpista. Golpista, golpista!! Fauhber Pinheiro, Fortaleza-CE – set2016

03- Sensacional !!! 👏👏👏👏👏 Auritânia Mendes, São Paulo-SP – set2016

04- Captou bem o momento do Temer, adorei! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – set2016

05- Ótima leitura! Vânia Vieira, Fortaleza-CE – set2016

06- Esse Kelmer tem uns enredos da hora…kkkkk. Ana Saskia Tavares, Curitiba-PR – set2016

07- Leiam Leiam. Nicole Guilhon, Fortaleza-CE – set2016

08- kkkkkk Avião da Gol na pista… muito bom! Luciana Marques, Fortaleza-CE – set2016

09- Ótimo!! Cibele Baptista, Barretos-SP – set2016

10- Ricardo, já te adorei! Ana Paula Santos, São Paulo-SP – set2016

11- Delicioso! Elisabete Maria Ferreira, Lousã-Portugal – set2016

12- Muito bom!! Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – set2016

13- Muito bom!!! Lia Rocha, Belém-PA – set2016

14- Ele que diga para as vozes que não tolera ser chamado de golpista… Bom texto. Susana X Mota, Leiria-Portugal – set2016

15- Arregaçou!!!! Pedro Ismael Falcão, Fortaleza-CE – set2016

16- Fora pau velho! Cuidado com os cupins. José S Silva, Bananeiras-PB – set2016

17-  Singular … Renato Olga Arruda Cabral Ludvig, Brasília-DF – set2016

18- Kkkkk pesadelos de uma noite de verão… felizmente não é um pesadelo, é a realidade de um golpista. Ana Cristina Sousa, São Paulo-SP – set2016

19- Ponto para o conto!!! Kkkkkkkkk….. Kátia Valevski Sales Fernandes, Campos dos Goitacazes-RJ – set2016

20- Sensacional!! !! Jaqueline Resende, Campos dos Goitacazes-RJ – set2016

21- Dê descarga, kkkkkkkk… Cida Bertonceli, Nova Friburgo-RJ – set2016

22- Como sempre perfeito seu texto, rsrsrs…!!!😂😘 Leide de Assis, Belém-PA – set2016

23- Não leria crônica boa assim em blog nenhum. Excelente…e #foratemer. Hahahaha. Keite Moreira, Belém-PA – set2016

24- Muito bom Ricardo Kelmer !!!!!!!! Iara Cristina, São Paulo-SP – set2016

25- Fora caráter zero.golpistaaaaaaaaaaa. Tânia Benevides, Fortaleza-CE – set2016

26- Muito bom Ricardo Kelmer. E #ForaTemer🎤🚽💣 Iris Medeiros, Campina Grande-PB – set2016

27- Namastemer, não mais Temer… Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – set2016

> Postagem no Facebook


Protegido: A rabada da turca loca

24/02/2016

Este conteúdo está protegido por senha. Para vê-lo, digite sua senha abaixo:


Tábata, a mulher barata

24/02/2016

24fev2016

Não fazia parte dos meus planos ter uma secretária ninfômana, alcoólatra e escandalosa, mas fazemos uma boa dupla no mundo das investigações sexuais

TÁBATA, A MULHER BARATA

.
Erri Kelmer Investigações Sexuais, bundiiiiinhaaa… É assim que minha secretária Tábata atende o telefone, toda sexy. Eu adoro. Aliás, ela atendia, pois o telefone tá cortado por falta de pagamento. É, essa vida de investigador sexual é emocionante, mas não é fácil. Moro e trabalho numa quitinete alugada, num prédio velho aqui no centrão. É tanta putaria que rola no prédio que ele já devia ter caído, mas a reza forte da minha vizinha macumbeira mantém o danado de pé.

Claro que não recebo a clientela aqui, não ia pegar bem. Recebo numa lanchonete embaixo do prédio chamada Miami Mix. Nome horrível, né? Também acho. Mas todo mundo conhece por Cu Frito. Esse nome é por causa do petisco mais vendido de lá, anéis de lula na chapa, aliás, muito bom, recomendo. O local nunca ganhou qualquer prêmio por sua limpeza, é verdade, mas lá toca sempre Roberto Carlos dos anos 70 (antes dele virar Roberto Carola) e, além disso, o Jéovas, que é o dono, fez um acordo legal comigo: atendo minha clientela lá e o Cu Frito pra mim sai de graça. Nada mal.

Já investiguei uns casos famosos, como o da morena turbinada, aquela gaúcha que virou musa da internet quando suas fotos íntimas vazaram na rede. Outro caso é o da ex-atriz pornô americana Sasha Grey, que descobri que na verdade é cearense e torcedora do Fortaleza. Mas minha especialidade são os segredos de alcova, no que sou imbatível, modéstia à parte. E devo isso ao auxílio luxuoso de minha prestimosa secretária Tábata, que saca o ramo como ninguém. Não sei o que seria de mim sem essa danada.

Conheci Tábata no Cu Frito. Foi num dia em que eu almoçava lá com minha namorada Jimena. Lembro bem, Robertão cantava Vista a Roupa Meu Bem. De repente uma barata passou voando por sobre as mesas. As mulheres começaram a berrar e os caras tentaram pegá-la, mas a barata driblou o time inteiro e pousou… onde? Bem na minha mesa. Jimena ficou imediatamente muda e paralisada. Quando eu me preparava pra esmagá-la com o cardápio (a Jimena não, a barata), percebi que ela era assim um tanto, ahn, sexy. A barata usava meia e cinta-liga, e eu tenho um fraco horrível por essa invenção do demônio. Ela olhou pra mim, piscou o olho e falou: Ai, se eu te pego.

Uma barata falante. E romântica. Achei aquilo tão mimoso que protegi a barata dos seus perseguidores e a trouxe aqui pra casa. Jimena recusou-se a vir comigo e terminou o namoro ali mesmo. Uma pena, nunca mais achei um boquete chicabom como o de Jimena. Mas não se pode ter tudo, né? Pois bem. Agradecida, a barata me contou sua história: chamava-se Tábata e nascera sobre uma calcinha usada que fora descartada no lixão de uma usina nuclear. Sim, as cientistas atômicas também tiram suas calcinhas, ora, por que não? A radiação alterou seu DNA, ela tornou-se meio barata e meio mulher e agora pode viver cem anos. Aí ela foi ficando por aqui e acabou ficando. E, em troca de barrinhas de doce de amendoim, que ela adora, e de poder dormir dentro do meu tênis (ela ama o meu chulé), Tábata me passa as mais quentes novidades sexuais, ela que conhece todos os inferninhos da cidade. A danada fotografa tudo com sua visão hipersensível de barata mutante e me envia os arquivos, pois suas antenas captam sinais da internet.

Mas Tábata é de veneta, tipo mulher mesmo. Tem um humor do cão, principalmente quando tá perto de menstruar. Às vezes some e eu fico dias sem saber dela. Aí de repente ela entra pela janela e cai em minha cama, exausta, uma cara de ressaca desse tamanho, e ronca o dia inteiro. Então já sei que andou novamente se esbaldando aí pelos bueiros, tomando todas e dando que nem uma doida condenada na masmorra, ô mulher barata.

Ela é apaixonada por mim, diz que foi à primeira vista, naquele momento em que desisti de esmagá-la e Robertão cantava Vista a Roupa Meu Bem. Aliás, Tábata diz que essa é a nossa música, que sou eu cantando pra ela, é mole? Já lhe repeti mil vezes que gosto dela como amiga e que nunca daríamos certo por causa da diferença de altura. Bem, admito que da minha parte rola um tesãozinho sim, principalmente quando ela dorme de bruços. Mas minha saudosa avó Valtrudes me ensinou que onde se ganha o pão não se come a carne, principalmente carne de barata. Aí ela chora, faz drama, arruma sua trouxinha e vai embora – e volta uma hora depois, arrependida, e jura se comportar. Aí no dia seguinte cisma com minhas amigas do Facebook e me xinga, dizendo que tenho péssimo gosto pra mulher, que mereço mesmo é uma quenga fulerage que me passe chifre com o borracheiro e outras baixarias do tipo. Então lhe atiro um doce de amendoim e ela se aquieta. E assim vamos.

Não fazia parte dos meus planos ter uma secretária ninfômana, alcoólatra e escandalosa, mas fazemos uma boa dupla no submundo das investigações sexuais. Isso, evidentemente, quando ela não tá de porre, não tá menstruada, não tá em suas crises de ciúme ou não tá dando feito doida por aí pelos bueiros, ô mulher barata. Fora isso, ela é ótima. E adoro quando ela atende o telefone, com sua vozinha sexy: Erri Kelmer Investigações Sexuais, bundiiiiinhaaa… E semana passada comprou meia nova, com uns desenhos tribais, um escândalo. Vou te contar, se Tábata fosse mais altinha, acho que eu pegava.

(Leia aqui a continuação deste capítulo. Exclusivo para leitor vip)

.
Ricardo Kelmer 2012 – blogdokelmer.com

.

Ilustração: Liliana Ostrovsky

> A rabada da turca loca – O primeiro caso da dupla Errikelmer e Tábata. Acesso exclusivo para Leitores Vips (basta digitar a senha correspondente ao ano da postagem). Ainda não é Leitor Vip? Vamos resolver isso agora, clique aqui.

.

.

CASOS DA DUPLA ERRIKELMER E TÁBATA

O mistério da morena turbinada – Aí um dia ela, inocentemente, leva o computador numa loja pra consertar. Algum tempo depois dezenas de fotos suas estão na rede, inclusive fotos íntimas

O mistério da cearense pornô da California – Uma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e entre uma orgia e outra luta pela liberação das mulheres?

.

SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada

As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz

Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

Por trás do sexo anal (1) – Se esotérico significa a parte mais oculta de uma tradição ou ensinamento, aquilo que somente iniciados alcançam após muito estudo e dedicação, então o sexo anal é o lado esotérico do sexo

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

COMENTÁRIOS
.

01- hahahahaha sensacional! tava com saudade desse seu lado mais sacana, sei lá. já tava achando que vc tava ficando mais careta. quer dizer que toda vez que vc chega em casa a barata da Tabata tá na tua cama? muito fofa e muito carismática ela, vai fazer o maior sucesso. hehe bjs. Wanessa Bentowkski, Fortaleza-CE – nov2012

02- É muita criatividade num texto só!!! Genial! Alice Alba, Blumenau-SC – fev2016

03- Grande texto, Ricardo Kelmer. Parabéns, meu velho! Giba Carvalho, Recife-PE – fev2016

04- Muito bom. Texto alucinado, do jeito que eu gosto. A ilustração tá ótima também. Teo Ponciano, São Paulo-SP – fev2016

05- essa tábata é um barato! … ôps… não exatamente… rsrsr… Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – fev2016

06- Sou fã demais da Tábata! – Nem Kafka alcança esse barato! Dayane Moura Herculano, Fortaleza-CE – fev2016

07- Risos…texto grande e grande texto. ShoW! Regina Zamora, São Paulo-SP – fev2016

08- Ótimo! Cristiane Bastos, Taíba-CE – fev2016

09- Adorei!!! Celina Bezerra, Fortaleza-CE – fev2016

10- kkkkkkkkk !! Tive que ler ao som de “Vista a roupa meu bem” mesmo. Leite Neto, Fortaleza-CE – fev2016

11- Minha personagem kelmérica preferida. Kkkk. Paula Izabela, Juazeiro do Norte-CE – fev2016

12- otimo, parabéns! Jan Hillen, Foz do Iguaçu-PR – fev2016

13- Nunca me lembraria de chamar cu frito aos calamares Emoticon tongue gosto dessa Tábata, principalmente porque voa! Aqui não há baratas voadoras…. Susana X Mota, Leiria-Portugal – fev2016

14- Brasileiro tem alcunha para tudo! Francisco Fontenele Veras Neto, Lourinhã-Portugal – fev2016

15- Só tu! Ô cara criativo da gota. Virgínia Ludgero, Lourinhã-Portugal – fev2016

16- Ricardo Kelmer, tu é fera! Roberto Maciel, Fortaleza-CE – fev2016

> Postagem no Facebook


,


O segredo da princesa prometida

09/11/2015

09nov2015

Ele é um cantor famoso, e ela é uma garota num vestido preto que quer realizar seu sonho secreto

OSegredoDaPrincesaPrometida-01

O SEGREDO DA PRINCESA PROMETIDA

.
Entro no banheiro da suíte, fecho a porta e me olho no espelho. A maquiagem disfarça os meus recém-completados dezoito anos. E espero que disfarce também o meu segredo. Sorrio satisfeita e me concentro no retoque do batom vermelho. Acho que ele adorou meu decote, não parava de olhar. Ajeito a flor no cabelo e confiro mais uma vez meu vestido. Adoro vestido preto, eles me deixam mais… mulher. Então escuto sua voz do outro lado da porta e ela me traz novamente o conflito. Sabendo tudo o que agora sei, ainda faz sentido estar com ele nesta suíte de hotel cinco estrelas? Estou realmente confusa. Será que já fui longe demais para voltar?

Mamãe me criou sozinha após meu pai morrer num acidente. Como na época eu era um bebê de dois anos de idade, não tenho nenhuma lembrança dele. Quando cresci o suficiente para entender que eu era órfã, fiquei muito triste, claro, mas minha mãe, que não casou novamente, me ajudou a assimilar a situação.

A dona da boca vermelha que me olha insinuante do espelho respira fundo e sai do banheiro. Agora vejo-o na porta do quarto recebendo o vinho que o garçom veio deixar. A decoração do quarto é sóbria e a iluminação é suave, e no rádio toca baixinho uma música romântica que eu gosto, ele escolheu bem a estação. Ele serve o vinho e me oferece uma taça, gentil como um homem da sua idade deve ser. À linda princesa que a vida trouxe hoje para mim, ele diz, sorrindo e me olhando nos olhos. Eu não sei o que dizer e as taças tilintam, respondendo por mim. O vinho é gostoso e bebo rapidamente. Ele suspende seu gole e diz, sempre sorridente e compreensivo: Calma, temos a madrugada inteira. Sim, eu respondo, quase engasgando. Sim, sim!, eu grito por dentro, eufórica e nervosa. E bebo o resto da taça.

Tive uma infância normal, sem a presença de um pai mas com toda a atenção de minha mãe, que se desdobrou para que nada faltasse à filha única. Em meu aniversário de treze anos, ela me presenteou com uma decoração nova em meu quarto, no estilo princesa. Gostei. Mas o que eu queria mesmo, não ganhei: meu melhor presente seria que mamãe me levasse para ver o show de um cantor romântico que eu gostava muito. Bastante surpresa com meu pedido, ela justificou a negativa explicando que havia outros artistas mais apropriados para minha idade. Insisti, e pela primeira vez mamãe foi grosseira comigo. Esse presente eu não dou e nunca mais me peça nada desse homem, ela falou, enfática, e saiu batendo a porta. De fato, eu era uma exceção entre minhas amigas, pois enquanto elas gostavam de artistas bem mais novos, eu gostava dele, trinta anos mais velho, cheio de classe ‒ para mim ele era como um rei. E foi embalada por sua voz masculina e sensual que descobri os prazeres deliciosos que uma garotinha pode ter à noite, sozinha em seu quarto de princesa.

Enquanto bebemos o vinho, sentados na cama da suíte, seu celular toca. Ele me pede desculpas, precisa atender, é sua empresária. Enquanto conversa sobre detalhes do show que fará no dia seguinte, observo-o mais atentamente. Veste jeans e camiseta sem mangas, está descalço. Gosto dos seus pés, são bem feitos. Reparo que seu peito é largo e que ele tem uma charmosa barriguinha. Está em ótima forma para os quase cinquenta anos que tem. E o cabelo grisalho que eu acho encantador… Caramba, de pertinho assim ele é ainda mais lindo e majestoso.

De nada adiantou a birra materna: não só continuei gostando como virei fanzona declarada: agora tinha todos os discos e DVDs do meu ídolo, todas as músicas, camisetas, as revistas com as matérias, tudo. Vendo que não tinha mesmo jeito, mamãe acabou aceitando, embora contrariada, mas desde então negou-se a comentar o assunto. Achei exagerado de sua parte, mas se ela preferia assim, por mim tudo bem. E quanto à minha fantasia predileta, melhor que ela jamais soubesse, pois nela o meu cantor amado era o meu primeiríssimo homem, aquele a quem eu daria o privilégio de me iniciar nos prazeres a dois.

Ele finaliza a ligação, pede desculpas mais uma vez e diz: Agora sou todo seu. E desliga o celular, pondo-o dentro da gaveta da mesinha ao lado. Ele percebe a garrafa quase vazia e ri. Vou pedir outro vinho, mas você vai beber devagar, promete? E eu prometo, claro, princesa prometida que dele sou.

Foi na semana passada que aconteceu. Eu olhava uns antigos álbuns de fotos e, mexendo no armário de minha mãe, me chamou a atenção uma bonita caixa de chocolate importado. Dentro encontrei uma foto, na qual mamãe sorria feliz, abraçada a um homem. Pela data no verso da foto, calculei que mamãe estava grávida de mim. Mas… aquele homem não era papai. Então, de repente… eu o reconheci.

Ele pergunta sobre mim e eu digo que sou apenas uma admiradora que, estando ele fazendo show pela primeira vez em minha cidade, não perderia por nada a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Ele sorri seu sorriso cavalheiro e conta, num tom de confissão, que está acostumado com as abordagens de suas fãs, mas que nessa noite, no restaurante do hotel, ficou realmente interessado na moça bonita de vestido preto e flor no cabelo que lhe oferecia de presente uma caixa de chocolate, parecia uma princesa. Como você sabe que esse sempre foi meu chocolate predileto?, ele me pergunta, e parece bem intrigado. Respondo que é segredo e ele ri, e diz que adora segredos, e que em agradecimento por um presente tão especial, fará tudo que eu quiser essa noite. Ponho a taça sobre a mesinha e, silenciosamente, começo a tirar os sapatos, depois o vestido e, por fim, a calcinha. Ele parece um bobo, sem acreditar no que vê. Agora, vestido ao chão e inteiramente nua, não sei como consegui fazer o que acabo de fazer. Mas sei também que não há mais retorno. Nua, de pé em frente a ele, sinto-me estranha… mas me sinto ótima. É como se nesse momento eu não fosse eu. É como se nesse momento eu finalmente fosse meu verdadeiro eu. Tudo que eu quiser? Sim, tudo que você quiser. Então quero que esta noite o rei cuide muito bem de sua princesa.

Sim, é o seu cantor, mamãe falou, respondendo à minha pergunta, e não sei dizer quem ali estava mais surpresa, se eu ou ela. Então, ainda olhando a foto que eu lhe mostrava, mamãe respirou fundo e pediu desculpas por ter escondido de mim o que agora iria revelar. E contou que o conhecera quando ela já estava casada e ele ainda não era um cantor famoso, que ela se apaixonou perdidamente e eles tiveram um caso secreto, e que quando eu nasci ele já a havia abandonado. Enquanto mamãe enxugava os olhos marejados, eu finalmente entendia o motivo de sua birra com meu cantor: bem antes de mim, ela também o amara. E, o que era pior, talvez ainda o amasse… Não sei dizer o que exatamente senti. No início, não consegui acreditar, mas depois senti raiva misturada com ciúme e outros sentimentos contraditórios. Lembrei do show que na semana seguinte ele, pela primeira vez, faria em nossa cidade, para o qual eu já havia comprado meu ingresso, e tive vontade de lhe contar que eu iria e o veria de pertinho, e até sabia o hotel em que ele ficaria, e tive vontade de contar até mesmo da minha fantasia secretíssima… Porém, nesse instante, intuí que poderia haver algo mais naquela história toda, algo bem mais sério. Mãe, tem mais alguma coisa sobre esse homem que eu ainda não sei?, perguntei, e estremeci ao pensar que aquela podia ser a pergunta que durante dezoito anos ela esperou não ter jamais que responder.

A tensão que me dominava o corpo aos poucos evapora ao toque de suas mãos, tão fortes, tão seguras. Eu fecho os olhos, e no escuro dos meus sentidos já não sei mais quem é o homem que me acaricia, mas sim, eu sei muito bem quem ele é, e ele não sabe quem eu sou, e o meu segredo me faz poderosa… Lembro de mamãe e me divirto imaginando que agora ela me vê… Esses meus pensamentos, porém, eles são tão pesados, não me deixam voar… Então, finalmente me solto do conflito e voo pelo céu de sensações que sua língua atrevida me provoca a explorar os mistérios guardados do meu corpo, e o afasto para que ele pare um pouco, me deixe respirar, senão eu posso morrer e eu não quero morrer ainda. Mas morrer assim é tão bom e eu lhe ordeno, vem, e ele obedece à sua princesa e vem, vem desde lá dos meus pés, vem subindo sobre meu corpo, e minhas pernas o abraçam como num laço de presente, o meu presente. Eu te amo, sussurro em seu ouvido, e ele, olhando em meus olhos, diz que me ama também, e eu choro porque sempre quis ouvir isso, e ele lambe as minhas lágrimas, provando o gosto da minha longa espera, e me beija a boca apaixonado, misturando lágrimas e saliva num beijo doce e verdadeiro. Tão doce e verdadeiro quanto a dor que subitamente sinto quando, num movimento mais forte, ele avança em direção ao meu profundíssimo desejo e me faz, finalmente, sua mulher.

Na fresta da cortina da janela as primeiras luzes do amanhecer se encontram com meu olhar. Meu olhar de quem não conseguiu dormir, pois os prazeres e as dores que vivi ainda formigam pelo meu corpo. Ele dorme ao meu lado, mas é como se ainda estivesse dentro de mim, másculo, gentil e experiente, cuidando para que tudo seja perfeito, e mais perfeito do que foi eu não poderia mesmo imaginar. Mas já passou, e estou aliviada porque tudo que resta do turbilhão de pensamentos conflitantes que me angustiavam a alma é uma mancha vermelha no lençol. Já passou, já foi, e agora preciso voltar para casa. Quando estou saindo, ele desperta e, bocejando, diz que me espera à noite no show. Sorrio satisfeita, mas não respondo, e saio, fechando a porta devagar. No saguão do hotel há uma lixeira. É lá que atiro o ingresso do show, comprado um mês atrás. E é assim que me vou, leve e reluzente como uma mulher amanhecida. Ou como uma princesa malcriada.

.
Ricardo Kelmer 2012  – blogdokelmer.com

.

.

Este conto integra o livro Indecências para o Fim de Tarde

.

IndecenciasParaOFimDeTardeCAPA-01aINDECÊNCIAS PARA O FIM DE TARDE
Ricardo Kelmer – Contos eróticos

Os 23 contos deste livro exploram o erotismo em muitas de suas facetas. Às vezes ele é suave e místico como o luar de um ritual pagão de fertilidade na floresta. Outras vezes é divertido e canalha como a conversa de um homem com seu pênis sobre a fase de seca pela qual está passando. Também pode ser romântico e misterioso como a adolescente que decide ter um encontro muito especial com seu ídolo maior, o próprio pai. Ou pode ser perturbador como uma advogada que descobre que gosta de fazer sexo por dinheiro.

O erotismo de Ricardo Kelmer faz rir e faz refletir, às vezes choca, e, é claro, também instiga nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir. Seja em irresistíveis fetiches de chocolate ou numa selvagem sessão de BDSM, nos encontros clandestinos de uma lolita num quarto de hotel ou no susto de um homem que descobre verdadeiramente como é estar dentro de uma mulher, as indecências destas histórias querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. > saiba mais

INDECÊNCIAS PARA VOCÊ TIRAR A ROUPA

IndecenciasParaVoceTirarARoupa-01aMuitas mulheres têm esse fetiche, o de exibirem-se anonimamente para o público. Então criei uma promoção: envio o livro e a leitorinha faz uma foto erótica com ele, sem precisar mostrar o rosto, e a foto será usada em cartazes de divulgação do livro. Você gostaria de participar? Clica aqui.

.

.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- Adorei essa princesa! Quando comecei a leitura eu tive a impressão de que ela tinha um quê de Anastasia Steele, mas não, ela é muito mais resoluta, e exala uma sensualidade linda a cada movimento que ela descreve. Me identifiquei, viu? Acho superexcitante essa fantasia da fã se entregar ao seu ídolo, acho que nunca perdi isso com vc. 🙂 E nossa, que coisa mais machadiana! Quando ela pergunta pra mãe se tem algo a mais naquela história que ela deveria saber, fica a dúvida se a mãe respondeu algo ou não. E afinal, o rei era mesmo pai da princesa? São tantas emoções… Muito bom seu jeito de deixar isso na cabeça do leitor sem que esteja explícito no texto nem mesmo em forma de dúvida da narradora. E acho que vc soube explorar bem essa rivalidadezinha que existe entre mãe e filha sem cair na competição declarada, que é o que rola na realidade muitas vezes. Os planos de encontrar o tal cantor no hotel parecem anteriores à descoberta do caso antigo da mãe. O que será que a fez desistir de ir ao show e, ao que parece, desistir de continuar encontrando o rei? Acho que esse segredo a princesa vai levar com ela, né? Amei o conto, é adorável, misterioso, surpreendente. Mais uma Lolita kelmérica inesquecível e mal criada. Wanessa, Fortaleza-CE – 2014

02- Porrada. A narrativa me conduziu ansioso até a última linha. Vai revelando aos poucos a surpresa. Tem a sutileza dela ser a princesa e ele o rei… Pra mim, só faltou um detalhe pro gosto final da leitura ganhar um poder literário mais definitivo: antes do “…como uma mulher amanhecida. Ou como uma princesa malcriada” poderia haver alguma informação a mais que nos fizesse realmente cúmplice de algum “pensamento/desejo impronunciável” dela – desculpe o clichê, mas a essa hora minha cabeça não conseguiu pensar nada melhor… – que desse uma pista sobre a motivação que a levou a querer se deitar com seu pai, digo, rei. De resto, o ritmo me parece perfeito, assim como as descrições, como os personagens vão se explicando. Tudo delicado, suave, contrastando com a porrada do tabu que se anuncia. Marcelo Pinto, Rio de Janeiro-RJ – 2014

03- Gostei sim dele, principalmente no final, mulheres vingativas estão sempre presentes em teus contos. A questão de que pode ser o pai dela e tal, apesar de não dizer com todas as palavras, deixa uma pulguinha atrás da orelha. (Lembra os contos de Machado). Geralmente é assim né, garotas se vingam dando o que tem de melhor, pelo menos isso já ocorreu comigo. A história tá ótima, só senti falta dos detalhes mais eróticos da noite de amor deles. Nadine, Fortaleza-CE – 2014

04- Posso te rasgar de elogios? rsrsrs O texto está ótimo, com detalhes importantes para aguçar a imaginação erótica do leitor (eu fiquei hipnotizada, depois surpresa com o desfecho). A priore, parece extenso, mas é de leitura fácil, prendeu minha atenção e, como na maioria dos textos, me fez colocar-se no lugar da “princesa”. Achei que fosse descrever a fantasia da moça, com detalhes de ‘sadomaso’, mas depois vi que eram pensamentos dela e o drama de praticamente dividir o belo cantor de cabelos grisalhos com a mãe. Isso aí dá ‘pano pra manga’, diria mais, dá um bom livro! Samara do Vale, Fortaleza-CE – 2014

05- Texto excelente. Você, como ninguém, sabe fazer essas voltas ao passado como flashes de filme… Os cortes de tensão nos lugares certos deixaram o clima de suspense intacto do início ao fim.  Princesinha complexa essa, né? No início fiquei meio penalizada pela história de vida dela, uma fragilidade imensa, depois ela se transfigurou em um menina diferente, um tanto quanto calculista, sádica até. Há nela uma determinação obsessiva em cumprir seu objetivo e isso foi muito bem descrito por você. A questão chave é a surpresa provocada no leitor com a revelação da mãe, que não chega a ser uma revelação literal. Imaginar a cena sensual e ao mesmo tempo possivelmente incestuosa causa uma confusão de sensações no leitor (pelo menos em mim causou). Os elementos de alguma maneira se completam, mesmo que antagonicamente: as fantasias, sonhos que se tornam realidade, a figura da princesa, tudo tão ingênuo, em seguida se transforma em algo mais ácido, nada infantil. O prazer que ela sente em “afrontar” a mãe parece que é muito maior que o próprio gozo sexual, enfim, personagem freudiana dá nessas nóias. A narração em primeira pessoa, sendo uma personagem feminina, sempre vai me surpreender quando se trata de Ricardo Kelmer. Tu soube transcrever realmente o pensamento de uma jovem cheia de conflitos, curiosa, lacônica, sedutora, fatal, menininha, maquiavélica, mulher. Parabéns, querido. Sou cada vez mais tua fã. Rosa Emília, Fortaleza-CE – 2014 

06- Rapas, muito bom. Eu juro que visualizei o Reginaldo Rossi nesse conto. E bem maluco essa mistério… Será que o hómi é o pai dela? Tô até imaginando uma adaptação… Bora! Publica logo que é muito bom. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – 2014

07- Oi! Curti!! Mas fantasiei outras coisas…rs…juraaaava que ele era o pai dela.. Bacana…prende a atenção e desconstrói a expectativa no final 🙂 Flávia L, São Paulo-SP – 2014

08- Conto: Segredo da Princesa. Qualidade literária: eu acho que vc escreve bem. Sexualmente excitante: sim. Prende a atenção: sim. Divertido: não é divertido, mas prende a atenção de outra forma, a iniciação sexual é sempre um marco, é tara para os homens e busca para as mulheres, aliando prazer a isso faz o conto ficar mais interessante. Provoca reflexões: sim, muitas… Muito legal ! Excitante, psicologico rico e interessante, pois lida com o desafio da menina que se torna mulher, é o momento em que ela tem que desafiar a mãe, e a menina faz isso, apesar de ter medo e receio, as mulheres vão se identificar com isso, ao mesmo tempo há o lance do proibido, do primeiro amor/amante ser o pai, isso é algo provocante, que mexe com o inconsciente da mulher, nosso primeiro amor é sempre o pai, ou alguém parecido com ele, mesmo que não tenhamos muita noção disso, e seu conto traz isso a tona, achei bom o tema, o desenvolvimento da historia, só acho que no final poderia colocar algo de disputa com a mãe, isso seria provocar ao máximo rs…talvez uma frase: “minha mãe nem imagina que amei o mesmo homem que ela” assim a menina prova que realmente vivou mulher e ainda de forma safada, um pouco Nelson Rodrigues sabe…rs. Adriana A, São Paulo-SP – 2014

09- O Segredo da Princesa eu não curti tanto, não achei excitante e nem divertido. Nota 2, e na questão prendeu a atenção 3. Cris B, São Paulo-SP – 2014

10- Achei o conto com muita história para ser desenvolvida e sobrou pouco para o erótico, faltou detalhe, um toque machadiano. A carga do mistério do plano de fundo foi grande comparada ao erótico que ficou apagado. Independente dessa opinião, super rigorosa, é um bom conto. Qualidade literária: 4. Sexualmente excitante: 2. Prende a atenção: 3. Divertido: 3. Provoca reflexões: 2. Marcela F, Rio das Ostras-RJ – 2014

> Postagem no Facebook


O cilindro da luz azul

17/08/2015

17ago2015

OCilindroDaLuzAzul-01.

.

GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bEm sua luta para sobreviver no cenário apocalíptico de um mundo de opressão e violência, casal descobre estranhos cilindros trazidos pelo mar.

Mistério, ficção científica.

.

(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

.

O CILINDRO DA LUZ AZUL

.
LILA FECHOU A PORTA do apartamento e desceu as escadas o mais silenciosamente possível. Chegou à calçada do prédio, olhou ao redor e certificou-se de que estava só, todos já haviam se recolhido aos seus pequenos apartamentos. A escuridão da rua protegeria seus movimentos e também, assim esperava, suas perigosas intenções.

Caminhou por alguns minutos pelas ruas desertas. Havia muito lixo acumulado nas calçadas e as lâmpadas dos postes estavam quase todas quebradas. Dali podia-se escutar bem próximo os tiros e as bombas, a fronteira do bairro sendo intensamente disputada pelas gangues. No alto de um prédio um enorme cartaz anunciava a novidade em segurança pessoal, um lança-chamas que, instalado no automóvel, protege contra assaltos.

Lila parou numa esquina, agachou-se junto à parede e olhou o relógio. Eram 22 horas.

“Ele tem que aparecer, não pode falhar…”

Quando soou o alarme, vindo de um alto-falante num poste próximo, ela sentiu um calafrio – era agora uma desobediente do toque de recolher. Toque de recolher não, “horário de descanso”, como o Controle preferia. Um desobediente podia ser preso e enquadrado como destoante. E um destoante não escapava para contar a história. Ela não tinha dúvida que era esse o fim que a esperava caso seu plano desse errado. Pois bem, pensou, apertando as mãos com ansiedade, agora era tudo ou nada.

Enquanto aguardava, lembrou de Matias. Naquele momento ele estava deitado no sofá do apartamento esperando por ela e dependia do sucesso da operação para não morrer. Ele estava muito doente. Resistira o quanto pôde mas agora já lhe faltavam as forças. Lila dizia que era apenas uma indisposição passageira, porém ele sabia que ela tentava apenas não assustá-lo. Ambos sabiam que Matias havia contraído a doença típica dos resistentes – mais cedo ou mais tarde todos eles apresentavam os mesmos sinais de tristeza e desânimo. Uma fraqueza geral os impedia até de comer e a grande maioria definhava e morria. Procurar hospitais significava entregar-se, pois o Controle já conhecia a doença. A única saída continuava sendo fugir da cidade.

Não resistir era a preferência da imensa maioria das pessoas. Numa época em que a população estava dominada pelos seus piores instintos, era sempre mais cômodo ir junto. Miséria, violência, epidemias, experimentos atômicos, poluição ambiental, ódios raciais e terrorismo religioso – o mundo sucumbira às suas próprias sombras e eram poucos os que conseguiam manter-se equilibrados no meio de toda a realidade confusa e opressiva.

Lila e Matias sabiam de amigos que conseguiram fugir da cidade. No início ainda receberam algumas mensagens que foram lidas com alegria e esperança. No entanto, isso fora alguns anos antes, quando a perseguição aos destoantes e a vigilância das estradas ainda não eram tão fortes. Agora, escapar era quase impossível.

– Lila, você entende que o que vai fazer é muito arriscado, não é? – dissera Matias antes dela sair à rua aquela noite. – Pode ser o fim.

– Eu sei, meu amor. Mas a única coisa em que ainda podemos acreditar são aqueles sonhos.

– Não sei, sinceramente não sei mais… – respondera ele baixando a cabeça. A doença turvava-lhe o raciocínio e a esperança.

– É nossa única chance, Matias. Se eu não voltar em duas horas, estarei numa delegacia. Ou morta. De qualquer modo não o entregarei, isso eu prometo.

– Você sabe que ninguém resiste aos métodos deles.

Ela apenas o beijou, carinhosamente, e saiu. Fechou a porta devagar e desceu as escadas em silêncio, para que os vizinhos nada percebessem.

.
.

UM DIA OS CILINDROS CHEGARAM. Milhares deles começaram a ser trazidos pelas ondas do mar sem que ninguém soubesse de onde vinham. Simplesmente amanheciam na areia das praias. Eram feitos de vidro transparente, tinham o tamanho de uma garrafa comum de refrigerante e pareciam conter apenas ar. Mas havia uma estranha luminosidade azulada em seu interior, um belo e instigante azul que de longe chamava a atenção.

A imprensa logo noticiou o fato, fazendo com que muitos curiosos corressem às praias. Imediatamente o Controle entrou em ação e seus soldados vigiaram as praias, evitando que outros cilindros chegassem à população. Conseguiram também recuperar muitos dos que haviam sido recolhidos. Mas não todos.

Algum tempo depois começaram os boatos. Eles diziam que destoantes conseguiam escapar utilizando o cilindro. No entanto, ninguém sabia explicar como faziam isso, se é que realmente faziam. O Controle fiscalizou barcos e navios, interrogou e prendeu centenas de pessoas, tudo com absoluto rigor. Entretanto, o mistério envolvendo os cilindros continuava.

Quando souberam o que estava chegando à praia, Lila e Matias lembraram imediatamente dos sonhos. Anos antes, eles sonharam, ambos e na mesma noite, com uma misteriosa luz azul pairando sobre o mar. Comentaram entre si o sonho e falaram sobre a forte aura de esperança que o envolvia. O sonho voltou outras vezes, sempre muito intenso, e eles entenderam que deviam manter a esperança e ficar atentos.

Lila ainda tentou se apoderar de algum dos cilindros, mas o Controle já enviara soldados às praias. Então ela agiu rápido e em poucos dias fez os contatos necessários, sempre com muita discrição. Precisava chegar às pessoas certas, caso contrário seria como pisar numa mina explosiva. Depois de todos os contatos realizados, passaram a aguardar. Tinham apenas que suportar até que chegasse a encomenda. Mas as semanas passavam devagar e o mundo ao redor parecia ele todo uma imensa correnteza sedutora a sussurrar: desistam, é bem melhor se entregar…

.
.

ENTÃO LILA O AVISTOU. O homem vinha pela calçada, protegido pelas sombras, caminhando rápido. Lila sentiu a expectativa quase explodindo seu coração. Olhou mais uma vez para um lado, para outro, para as janelas dos apartamentos. A rua estava deserta e tudo que podia fazer era torcer para que não a vissem.

– Demorei por causa dos Cães, moça. Eles já conseguiram controlar todas as entradas do bairro.

O homem retirou um embrulho do bolso do sobretudo e, com cuidado, passou a ela.

– Aqui está. Não me interessa o que pretende. Mas nunca vi ninguém me dizer a utilidade disso.

Ela guardou com cuidado o embrulho na mochila e entregou-lhe o dinheiro.

– Este mês você é a terceira pessoa que me pede esse troço.

– E as outras duas?

– Ninguém sabe.

O homem virou-se e rapidamente sumiu na escuridão da rua.

Por um instante Lila não teve forças para sair do lugar. Finalmente ali estava o cilindro. Era como se, depois de tantos anos, aqueles sonhos estranhos houvessem de repente se materializado em suas mãos. Teve vontade de chorar. Chorar por todo aquele tempo de resistência, por todos os perigos que passaram e por terem acreditado desde o início na mensagem de esperança dos sonhos. Então respirou profundamente e deu o primeiro passo de volta para casa.

As quadras seguintes pareceram intermináveis. Ela percebeu que algumas pessoas a viam das janelas dos prédios. Sabia que bastava uma delas ligar para um número e rapidamente uma viatura a recolheria como desobediente. E tudo estaria perdido. Sabia também que nem todos concordavam com o sistema de denúncias. Mas os que discordavam não ousavam se pronunciar. Ela e Matias estavam sós, eles e todos os que ainda mantinham um mínimo de lucidez naquele inferno.

– Matias?

Deitado no sofá, Matias abriu os olhos devagar, despertando de um sono profundo.

– Está tudo bem? Estava dormindo?

– Sim – ele respondeu, ainda sonolento. Tentou lembrar o que estava sonhando… parecia ser um sonho interessante… mas não conseguiu. Então sentou-se e calculou mentalmente os movimentos da companheira pela sala. – Que bom que você voltou. Deu tudo certo?

– Espero que sim. Aqui está o cilindro.

Lila tirou o embrulho da mochila e pôs sobre a mesa. Pela janela chegavam distantes sons de tiros e explosões. Os Cães aos poucos expulsavam todas as outras gangues do bairro. Eles logo o conseguiriam, estavam muito melhor armados e tinham o apoio dos Guerreiros de Deus, a gangue do bairro vizinho. Em breve o monopólio das drogas e das armas estaria com eles.

– E você, está bem?

– Só um pouco nervosa… Mas já está passando.

– Certificou-se de que não foi seguida?

– Não fui, fique tranquilo.

Ela sentou-se ao lado dele no sofá e o abraçou. Matias estava sem forças. Uma dieta à base de comidas mais saudáveis o ajudava a preservar o restante de lucidez, mas estava difícil encontrar bons alimentos no bairro.

– Lila, meu amor… – ele disse e seus olhos esbranquiçados estavam úmidos. – Esse tempo todo você cuidando de mim e de você, sozinha… Arriscou-se tantas vezes…

– Ah, Matias, deixe disso – ela o interrompeu, acariciando-lhe o rosto magro e abatido. – Você deve estar com fome. Vou fazer uma sopinha bem gostosa.

Enquanto cozinhava para o companheiro, Lila lembrou do dia em que ele cansara, simplesmente cansara. Naquele dia não adiantaram seus apelos: Matias simplesmente desistiu de nadar contra a corrente e se rendeu. Discutiram e ele terminou indo embora, deixando um bilhete em que lamentava não ser tão forte quanto ela e a incentivando a seguir, sem ele por perto a atrapalhar seus passos, ela era uma mulher forte, conseguiria sobreviver.

Dois anos depois ela conseguiu finalmente encontrá-lo – num hospital psiquiátrico. Matias estava cego e em deplorável estado físico. Não duraria muito tempo naquele lugar, principalmente porque o Controle costumava eliminar doentes como ele. Então, gastando o resto de suas economias, ela subornou algumas autoridades e conseguiu retirá-lo de lá.

Durante meses cuidou dele até que recobrasse um pouco de suas forças e da esperança. Tentou arrumar-lhe trabalho, mas aqueles dois anos haviam deixado em Matias graves sequelas e o máximo que ele conseguiu foram subempregos clandestinos que lhe desgastaram ainda mais a saúde.

Isso acontecera quinze anos antes. Agora a cegueira já não o incomodava tanto, pois ele desenvolvera os outros sentidos e adquirira uma ótima noção do espaço, guiando-se por meio do som, do cheiro e da movimentação do ar. Mas estava cada vez mais fraco e o desânimo havia voltado. Morrer era apenas uma questão de tempo, eles sabiam. A não ser que Lila conseguisse um dos cilindros. Mas o que exatamente podiam os cilindros fazer por ele?

– O homem disse que este é o terceiro cilindro que ele vende este mês – comentou Lila, verificando de um canto da janela a rua lá embaixo. – Há outras pessoas lúcidas nesta cidade. E eu tenho certeza que todas escaparão.

– Agora que temos o cilindro, o que faremos?

– Sinceramente, não sei.

– Isso tem que servir para alguma coisa – ele falou, apalpando e cheirando o cilindro. – Mas não tem nenhuma abertura.

Então aconteceu. Foi tudo muito rápido. De repente, para Matias, foi o barulho de porta sendo arrombada e homens gritando que eles estavam presos, não tentassem nada senão morreriam.

Matias percebeu o rápido deslocamento de ar no ambiente e compreendeu que haviam levado Lila para longe dele. Sentiu o cilindro ser puxado de suas mãos e, ao tentar reagir, um objeto moveu-se rapidamente na direção de sua cabeça. Ele ainda teve reflexo para, num mínimo movimento de pescoço, amortecer o golpe, mas mesmo assim a dor foi enorme e ele caiu, sentindo que estava prestes a desmaiar. Lila gritou e ele percebeu que ela já estava imobilizada. Quis falar para ela não reagir, mas não conseguiu.

Caído ao chão, ficou quieto, sentindo a cabeça sangrar. Tentou reorganizar a apreensão do espaço ao redor. Eram quatro homens. Um deles estava com Lila. Outro na porta da sala. Um terceiro próximo à mesa, e certamente devia estar com o cilindro. E o quarto bem próximo, muito provavelmente o que lhe atingira com uma arma.

– Deus não quer violência, já basta a que existe – disse o que estava perto da mesa. – Então vocês nos dizem para que serve o cilindro e nós deixamos vocês em paz.

– E você, logicamente, acha que nós acreditamos nisso… – respondeu Lila.

– Podemos negociar suas vidas. Na condição de vocês, isso já é muita coisa.

Então o Controle continuava sem saber manipular os cilindros, concluiu Matias, ainda imóvel no chão. Era uma boa notícia. Porém, ele e Lila também não sabiam. Sequer haviam-no aberto.

– Estamos esperando… – falou o da mesa, que parecia ser o chefe.

– Nós não sabemos para que serve – a voz de Lila soou do outro lado e, pelo ritmo e inflexão, Matias sentiu que ela estava bem atenta. Precisava ganhar um pouco mais de tempo, ainda estava grogue.

– Ah, deixe ver se entendi. Compraram um objeto, pagaram muito caro e não sabem para que serve. Isso não me parece lá muito inteligente… Cadela vagabunda!!!

O som forte e abafado de um soco doeu nos ouvidos de Matias. Escutou os gemidos de Lila e o som de seu corpo caindo ao chão. Tentou gritar, mas não teve forças.

– A cadela vagabunda tem cinco segundos para dizer como funciona o cilindro – disse o da mesa. Matias percebeu que o quarto homem se aproximava. Sentiu o cano de uma arma tocando sua cabeça. – Se não quiser, obviamente, que os miolos do ceguinho sujem o chão da sala. Cinco… Quatro…

– Mas eu já disse! – Lila gritou. – Nós não chegamos a usar!

– Três…

– Nós não sabemos, acredite em mim!

– Dois…

– Não faça isso, por favor!

– Um…

– Eu mostro… como funciona – disse Matias. A voz finalmente voltava.

– Ah, o ceguinho fala…

Matias levantou-se com dificuldade. Sentiu-se tonto e segurou-se na mesa para não cair. Perguntou onde estava o cilindro.

– Aqui está. E não tente ser esperto.

Matias recebeu o cilindro com as duas mãos, segurando firme. O homem que guardava a porta da sala continuava lá, no mesmo lugar, calculou ele. O da mesa estava ao seu lado. O terceiro continuava com Lila. O quarto homem se afastara um pouco, mas certamente ainda lhe apontava a arma.

– Estou muito fraco… não sei se vou conseguir abrir – ele disse.

– Além de cego, mentiroso.

– Ele está doente, estúpido! – gritou Lila.

Então Lila estava em pé de novo, Matias calculou rapidamente. Ela estava em pé e percebera que devia falar para que ele determinasse sua exata localização.

– Então abra você, cadela. Sem gracinhas.

Matias sentiu que o quarto homem se aproximava. Percebeu que ele pegaria o cilindro de suas mãos. Nesse exato instante entendeu que não deveria entregá-lo. Foi uma certeza estranha, como se na verdade sempre houvesse sabido disso. Então abriu as mãos e deixou o cilindro cair…

O cilindro, porém, não chegou ao chão: o homem moveu-se rápido e o apanhou no último momento. Entendendo que nada mais restava a fazer, Matias saltou sobre o da mesa, o que parecia ser o chefe. Caiu sobre ele, abraçando-o, e os dois chocaram-se contra a parede. Suas mãos encontraram uma arma na cintura de seu oponente. Mas não conseguiu retirá-la, o outro era forte e ele estava fraco demais. O homem afastou-o de si e em seguida um golpe o atingiu no rosto, fazendo-o cair.

Tentou erguer-se, mas não conseguiu. Sentiu gosto de sangue na boca. Nesse instante percebeu que Lila gritava e tentava alcançá-lo, mas era impedida. No chão, recebeu dois chutes. O primeiro partiu-lhe algumas costelas e o segundo arrancou-lhe vários dentes. Mais gosto de sangue. Muita dor. Mais golpes, na cabeça, no peito, por todo o corpo. E depois nada mais sentiu, nenhuma dor, nada. Apenas adormeceu, lentamente…

.
.

– MATIAS?

Ele escutou a voz, trazida pelas ondas do mar, os sons quebrando em alguma longínqua praia de seu pensamento…

– Está tudo bem?

Ele abriu os olhos. Viu que estava deitado na cama.

– Sim, tudo bem…

– Você estava gemendo. Fiquei preocupada.

Matias sentou-se, esfregando os olhos. Reconheceu o quarto da pousada praiana onde passavam o fim de semana com amigos, o abajur ligado, o som distante do mar… E Lila ao seu lado.

– Tive um sonho… tão estranho…

– Toma, bebe um pouco – ela disse, entregando-lhe um copo dágua.

– Um mundo de autoritarismo e opressão… Era uma vida difícil, perigosa… Eu era cego e você cuidava de mim. E havia uns cilindros esquisitos, com uma luz azul…

– E o que acontecia?

– Fomos capturados, algo assim. E nos mataram.

– Ai, que horrível.

– Acho que nunca tive um sonho tão… tão real.

– Foi só um sonho, meu amor, está tudo bem agora – ela disse, em meio a um bocejo. – Vamos dormir? Amanhã cedo vamos passear de barco com a turma.

Ele não respondeu, ainda lembrando do sonho.

– Amanhã você me conta mais. Estou morrendo de sono.

Lila puxou a coberta, aconchegando-se ao corpo de Matias. Ele esticou o braço, desligando o abajur, e o quarto ficou escuro, iluminado apenas pela luz do luar que chegava pelas frestas da janela. Ele deixou-se envolver pelo calor do corpo da namorada e tentou adormecer. As imagens e a atmosfera do sonho, porém, insistiam em voltar. A sensação de ser um cego, de ser cuidado por Lila, de resistirem juntos, tudo era muito real. E o cilindro com aquela luz misteriosa, aquele azul…

– Lila?

– Hummm…

– Olha pra mim.

Ela abriu os olhos, sonolenta, e seu rosto foi iluminado pelo luar. Ele sorriu, confirmando para si mesmo: a luz do cilindro tinha a mesma cor dos olhos dela.

– O que foi? – ela perguntou, curiosa.

– Obrigado, meu amor.

– Pelo quê?

– Por existir.

Ela riu.

– Se você não me deixar dormir, amanhã eu serei uma morta-viva…

Ela o beijou e juntou seu corpo ao dele, buscando novamente o sono. Ele sorriu, feliz. E assim adormeceu, embalado pela melodia silenciosa que exalava da presença da mulher que tanto amava.

.
.

– MATIAS?

Deitado no sofá, Matias abriu os olhos devagar, despertando de um sono profundo.

– Está tudo bem? Estava dormindo?

– Sim – ele respondeu, ainda sonolento. Tentou lembrar o que estava sonhando… parecia ser um sonho interessante… mas não conseguiu. Então sentou-se e calculou mentalmente os movimentos da companheira pela sala. – Que bom que você voltou. Deu tudo certo?

– Espero que sim. Aqui está o cilindro.

Lila tirou o embrulho da mochila e pôs sobre a mesa.

– Lembrei!

– O quê?

– O sonho.

– Que sonho?

– Foi tão real. Estávamos numa pousada na praia… Era um tempo bom, nós tínhamos amigos, éramos felizes. E eu enxergava.

– E o Controle?

– Não havia Controle.

Lila sorriu, comovida.

– Talvez esse outro mundo exista.

– Ele existe, Lila. Eu sei que existe.

Matias ergueu-se e caminhou até onde ela estava, ao lado da mesa.

– Este é o cilindro? – perguntou, apalpando o embrulho.

– Sim.

Ele abriu o embrulho e pegou o cilindro com cuidado.

– A luz dentro dele está acesa?

– Sim – ela respondeu. – E é mesmo azul.

– Da cor dos seus olhos… – ele sussurrou.

– Meus olhos são castanhos, meu amor, você esqueceu?

Ele sorriu. E seu sorriso era de pura tranquilidade.

– Não. São azuis.

No instante seguinte ele abriu as mãos, deixando o cilindro cair…

.
.

ENQUANTO DOIS HOMENS vigiavam a porta e a janela, outro homem examinava os corpos do casal no chão.

‒ Chegamos cinco minutos atrasados ‒ disse ele.

– Estão mortos? ‒ perguntou o outro homem, ao lado da mesa.

– Sim, chefe. Nenhuma marca, nada de sangue.

– Que merda.

Enquanto os outros três homens colocavam os corpos em sacos e os levavam, o chefe abaixou-se e começou a juntar os pedaços de vidro espalhados pelo chão. Aquilo estava deixando-o louco. Era sempre a mesma coisa: destoantes inexplicavelmente mortos, sempre com a expressão serena, como se estivessem dormindo, e o maldito cilindro espatifado no chão. Ele mesmo já quebrara alguns cilindros, mas nada acontecera. Que diabo de mistério era aquele?

Pôs os pedaços de vidro dentro da valise, fechou e caminhou até a saída. Deu uma última olhada na sala, apagou a luz e saiu, batendo a porta.

.

Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

.

GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1cEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

.

01- Baita texto do meu amigo Ricardo Kelmer, um dos meus preferidos, e que deixaria até o mestre Philip K. Dick pra lá de orgulhoso. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – ago2015


%d blogueiros gostam disto: