O dia em que morri no Rock in Rio

18set2011

O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

O DIA EM QUE MORRI NO ROCK IN RIO

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Janeiro de 1985. Cidade do Rio de Janeiro. Missão Rock in Rio 1. Plano: burlar a segurança e entrar com uma garrafa de Tonel 21, cachaça da boa. Ok, plano bem sucedido. Agora eu e meu amigo Paulo podemos relaxar um pouco: um gole na bicha, um olho no palco, outro nas garotas. Cem mil pessoas em celebração. Outro gole. É um sonho pra mim. Vinte anos, estudante de comunicação, cabelão no ombro e oclinhos redondos à John Lennon. Todo pronto pra ver Rod Stewart, o ex-coveiro da voz rouca. Mais um gole. Putz, a vida é mesmo um filme emocionante!

Paralamas, Moraes Moreira, Rita Lee – no palco o time doméstico dava seu recado. No gramado eu e Paulo vivíamos intensamente o primeiro ano do resto de nossas vidas. E tentávamos prosseguir no plano: conseguir um baseado. Dizem que é pecado, mas não perderíamos a chance de começar a pecar em pleno Rock in Rio. Conseguimos um enorme e, aventureiros inexperientes, mandamos tudo de uma vez. Logo a mente e o corpo adentravam outro nível de realidade e tudo ficou diferente. Mas havia algo estranho, todos olhavam pra mim com aquelas máscaras das crianças em The Wall. Cem mil olhares inquisidores me perseguindo onde quer que eu fosse, inútil se esconder. Como todos podiam saber que eu estava doidão? Um real e amargo pesadelo.

Pouco depois comecei a me sentir enjoado e o enjoo foi piorando até que não me aguentei mais em pé. Revelei ao meu amigo: Paulo, eu tô morrendo…, e ele caiu na gargalhada, calma, Bete, calma. Bem, já que eu era um cabra marcado pra morrer, pelo menos morresse decentemente. Fraco e inteiramente chapado me dirigi às bilheterias, desertas. Arrumei uns papelões e deitei sob uma catraca. Meio litro de cana no sangue mais um torpedo canábico na mente tinha que dar nisso: todo o meu eu era uma rebelião em alto mar. Paulo, deixo pra você meu livro do Pessoa, e se encontrar a moça do ônibus, diga que eu a amo… Então fechei os olhos e saudei Nick Beal, o agente do Inferno que chegava pra me levar à ilha das almas perdidas…

Mas Beal não veio. Preferiu curtir Ozzy Osbourne berrando lá no palco. Salvo pelo Ozzy, que ironia. Abri os olhos e percebi que estava vivo. E Paulo ao lado, vigiando minha morte. Dois perdidos numa noite suja. Das profundezas de minhalma uma voz ordenou que eu levantasse e fosse pra enfermaria. Meu amigo desaprovou: Tá louco, vão descobrir que você fumou, vão te prender! Amizade em conflito. Concordei e disse que então iria comprar algo pra comer. Saí… mas desviei pra enfermaria. Estava realmente decidido em minha tragédia de homem ridículo. Não me pergunte como, mas cheguei lá. Aí olhei a fila e desanimei: duzentas pessoas aguardavam atendimento.

Mas os lobos não choram. Furei a fila e balbuciei ao atendente: Eu tô morrendo… Acho que ele concordou, pois ato contínuo me botou pra dentro. Fui levado a uma saleta toda branca onde uma fria médica nazista me atendeu. Quis saber nome, endereço, idade, o tamanho do bagulho, ia anotando tudo. Era o terror kafkiano, eu morrendo e tendo que passar pela burocracia de um inquérito absurdo. Ah, mas aquela médica partidária do Grande Irmão não me pegaria tão fácil. Então menti em todas as respostas, eh, eh, eh. Depois estiquei o braço e puff!, injeção de glicose na veia. Deitei na maca e apaguei.

Súbito percebi uns acordes… eram familiares… vinham de muito longe… até que os reconheci. Rod Stewart! Começando a cantar You´re in My Heart, uau! Despertei de um salto. Sentia-me bem, inteiramente revigorado. Quanto tempo se passara? A médica nazista não estava mais na sala. Na maca ao lado um rapaz se contorcia numa viagem pior que a minha, eu podia escutar os gritos do seu silêncio. Era preciso fugir daquele terrível asilo. A música estava acabando, o destino batia à minha porta e não havia muito tempo.

Boto meus oclinhos. A porta da saleta está aberta. Meto a cabeça no corredor e de lá avisto a saída do asilo. Brad Davis escapando daquela penitenciária turca. Deixo meu dublê de corpo lá na maca e saio em disparada pelo corredor, empurrando os enfermeiros. Corra, Lola, corra! Ah, não, me empolguei, desculpe, Lola é mais recente. Na saída salto a corda e, nas asas da liberdade, me infiltro na multidão. Estou salvo. Já não precisam me mandar flores. Posiciono-me num lugar razoável e enfim concretizo meu sonho de ver o velho Rod. Missão cumprida.

Depois desse sufoco até o compadre 007 diria nunca mais outra vez. Mas Sua Majestade entenda: tenho apenas vinte anos e todo o pique do mundo. E sou eterno. Assim como os diamantes.

Súbito percebi uns acordes… eram familiares… vinham de muito longe… até que os reconheci. Rod Stewart! Começando a cantar  Despertei de um salto. Sentia-me bem, inteiramente revigorado. Quanto tempo se passara? A médica nazista não estava mais na sala. Na maca ao lado um rapaz se contorcia numa viagem pior que a minha, eu podia escutar os gritos do seu silêncio. Era preciso fugir daquele terrível asilo. A música estava acabando, o destino batia à minha porta e não havia muito tempo.
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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica está cheinha de referências a filmes de 1985 e de anos anteriores. Quais você encontrou?

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Rod Stewart canta You’re in My Heart
no Rock in Rio de 1985
+ clipe do festival

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Cada história, hein, seo Kelmer. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – set2011

02- É uma figura!! Carmem Mouzo, Rio de Janeiro-RJ – set2011

03- Peguei todas as referências cinéfilas dos anos 80, nesse Expresso da Meia-Noite no Rock-n-Rio entre dois Daunbailó! Divertido… Téo Lorent, São Paulo-SP – set2011

RK: Expresso da Meia-Noite (dir: Alan Parker, 1978). Ponto para Téo Lorent! Mas Daunbailó (Jim Jarmusch) eu não citei não, até porque não havia visto. 🙂

04- Não ligue para o seu passado, vai que ele atende!!! Nonato Freire, Salvador-BA – set2011

05- Adorei, ri de montão por aqui, vc a cada dia me surpreende mais. Bjokinhas. Mariucha Madureira, Brasília-DF – set2011

06- Ricardo, Valeu pela cronica meu velho ! Adorei … nesta época de Rock in Rio vale demais relembrar aonde e como cada um de nós estava no priemrio. Eu, por exemplo, estava em Quixeramobim assistindo tudo pela TV com uma sensaçao muito estranha de estar no lugar errado na hora certa ! um abraço forte. Tibico Brasil, Fortaleza-CE – set2011

07- muito boa, kelmer! adorei essa. lembrei quando fui ao meu primeiro hollywood rock ver bob dylan… e quando tomei todas na abertura do roger waters… quase perdi essa apresentação por causa de uma garrafa de roseira, uma pinga feita pela minha família lá no sul de MG… adorei a crônica! abç. Rodrigo Oliveira, Fortaleza-CE – set2011

08- hehehe, jóia! Giovanni Iemini, Brasília-DF – set2011

09- ‎”O dia em que morri no Rock in Rio” me deu espasmos de risos. Só tu mesmo, visse. Excelente! Rafaela Silva, Campina Grande-PB – set2011

10- Adorei! Ana Maria van Erven de Figueiredo, São Paulo-SP – set2011

11- Ótimo, Rico. Marta Crisóstomo Rosário, Brasília-DF – set2011

12- Se eu não tivesse nascido em meados dos anos 80, certamente teria pulado “o muro” com vocês “dois, perdidos numa noite suja”, e seria mais uma dando uma de “james bond”, nessa “ilha das almas perdidas” que descreveu… De fato, Kelmer, estaria também “marcada para morrer”. mas “os diamantes são eternos”, et voilà, aqui estamos nós! prontos para qualquer Rock in Rio que porventura possa acontecer… vou indo sr. dos labirintos descritivos, não fique triste. afinal, “lobos não choram”. Érika Zaituni, Fortaleza-CE – out2011

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8 respostas para O dia em que morri no Rock in Rio

  1. cata diogo disse:

    Sempre me surpreendo lendo seus escritos… BOMDEMAAAASSS…

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  2. Márcia M.B. disse:

    “Corra, Lola, corra!” kkkk Tu tem q gerar netos, cara, p dizerem pós tudo: “essa é mais uma kelmérica história do nosso lendário avô RK! bjão

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  3. erika zaituni disse:

    Se eu não tivesse nascido em meados dos anos 80, certamente teria pulado “o muro” com vocês “dois, perdidos numa noite suja”, e seria mais uma dando uma de “james bond”, nessa “ilha das almas perdidas” que descreveu… De fato, Kelmer, estaria também “marcada para morrer”. mas “os diamantes são eternos”, et voilà, aqui estamos nós! prontos para qualquer Rock in Rio que porventura possa acontecer… vou indo sr. dos labirintos descritivos, não fique triste. afinal, “lobos não choram”.

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  4. Danielle disse:

    os que eu peguei foram: o primeiro ano do resto de nossas vidas, the wall, amargo pesadelo, bete balanço, dois perdidos numa noite suja, os lobos não choram, dublê de corpo e os diamantes são eternos. se tivesse idade na época com certeza teria estado lá… bj Ricardo.

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