Bar do Araújo é a salvação

25/05/2015

25mai2015

Espremido entre duas igrejas evangélicas, o Bar do Araújo é a última resistência dos ateus. E do bom humor

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BAR DO ARAÚJO É A SALVAÇÃO

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É na pequena cidade de Jaguaribana, no sertão central do Ceará, que está localizado o Bar do Araújo. Espremidinho entre duas igrejas evangélicas, o bar lota quase todos os dias, graças à sua fiel clientela, feita de ateus, agnósticos, livres pensadores e até de religiosos moderados, que se divertem com o inusitado da situação. De passagem pela região, estiquei até a cidade, disposto a ver de perto aquele trio improvável. Mas não dei sorte no horário. Era meio-dia e tanto as igrejas quanto o bar estavam fechados. Felizmente consegui falar com os proprietários e alguns frequentadores do bar.

“No início o bar, que existe há sete anos, tinha pouco movimento, mas após a chegada das duas igrejas (no mesmo ano) ele foi fervorosamente adotado pelos ateus e livres-pensadores da cidade, que fizeram do local uma espécie de centro de resistência ateísta na região. A partir daí o bar converteu-se ao bom humor e a sátira religiosa virou sua marca registrada, o que irritou bastante as igrejas. Entretanto, por contraditório que pareça, os frequentadores não querem que as igrejas saiam. “Os crentes querem expulsar o bar de qualquer jeito, pois pra eles ateu é seguidor do Diabo, mas nós queremos que eles fiquem. Isso aqui é uma bela mensagem de luta contra o fanatismo religioso, que não aceita nada que pense diferente deles”, diz Marcos, um ateu que já foi evangélico da igreja Deus, Eva e Adão no Paraíso. Sua namorada, Carol, uma ex-católica que hoje se define como espiritualista eclética, conta: “Primeiro achei muito debochadas as piadas que o pessoal do bar faz com religião, mas depois achei muito pior a falta de humor dos meus irmãos de fé, e aí deixei de crer em religião”.

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Jaguaribana-CE

“Se Cristo morreu entre dois ladrões, este bar tá no lugar certo”, defende Rogério, seguidor do pastafarianismo, que começou a frequentar o bar no dia em que soube que o pastor da Universal foi flagrado subornando um fiscal da prefeitura. Outra frequentadora assídua é Tomásia, que é agnóstica e filha de evangélicos. Ela conta que os pais e a irmã frequentam a Deus É Amor e que uma vez chegaram no culto e, ao saberem que o dízimo mínimo havia aumentado, foram ao bar lhe pedir dinheiro emprestado. A seguir, faz gozação com uma questão interessante: “Minha irmã diz que eu vou pro Inferno, e ela vai pro Céu porque paga o dízimo da igreja. Mas se ajudei a pagar, também posso ir, né?” Sua amiga Íris, que na adolescência frequentou a Congregação Cristã dos Fiéis Vencedores Salvos da Macumba, mas que hoje se diz neopagã, brinca: “Deusa te livre! Se você chegar no Céu dos crentes, vão te barrar só pelo bafo de pinga.”

E o Araújo? Ele é uma entidade que nunca aparece. Na verdade, o bar já se chamava assim quando três irmãs o compraram e mantiveram o nome. Elas são três Marias: Auxiliadora, Madalena e Aparecida, filhas de pais muito católicos, já falecidos. Auxiliadora, a mais velha e ateia, explica que o bar recebe igualmente a todos, sem distinção de crença ou não crença, e que é amiga de vários fieis das igrejas vizinhas, mas faz uma ressalva: “Menos de uns fanáticos aí, que oram todo dia pra Deus mandar um raio bem em cima do bar. Quando eu pergunto se o raio não vai atingir também as igrejas, eles dizem que vai atingir a outra, não a deles.” Madalena é a filha do meio, batizada em homenagem à apedrejada personagem bíblica, mas é umbandista, e é mais conhecida pelo apelido, Madá das Pedras, por ser ela quem prepara a tradicional Sopa de Pedra, servida às terças. E Cida, a caçula, que já frequentou todas as igrejas evangélicas da cidade e não esquentou o banco em nenhuma, diz que adora trabalhar no bar porque os ateus e ateias aceitam sem problemas sua bissexualidade e sua alma livre. Indagada sobre suas crenças, ela responde: “Eu sei que Deus existe, mas Ele detesta religião e fica puto com essas louvações todas. Deus já passou dessa fase.”

As três Marias

As três Marias

O bar é simples e sem sofisticações, mas suas donas primam pelo tratamento criativo e bem humorado dado aos frequentadores. A casa abre e fecha sempre ao som de trombetas e, obviamente, funciona também em dia santo. Toda noite, antes fechar, rola uma rodada de Expulsadeira do Éden, cachaça artesanal da região. Após um ano, o cliente ganha a carteirinha de Testemunha de Araújo, que dá direito a pendurar a conta, ou melhor, crucificar a conta, pois ela é literalmente pregada num madeiro em X que fica atrás do balcão. Assim como seus vizinhos, no Bar do Araújo também existe o dízimo, com a diferença que quem cobra é o próprio cliente: toda dose dá direito a uma choradinha dizimal. Quanto aos banheiros, eles não são divididos por gênero masculino ou feminino, mas pela fé de cada um. Na porta de um, “Fé demais”, e na do outro, “Fé de menos”. O segundo é mais usado.

Antes o bar sofria bastante com os cultos das igrejas, pois a zoadeira espantava os clientes, principalmente em dia de exorcismo. Como o poder público era indiferente à poluição sonora divina, o bar resolveu a questão fazendo shows com a banda de rock Lucy Feryna exatamente na hora dos cultos. A gritaria dos vizinhos combinou tão bem com o som pesado da banda que caravanas de roqueiros chegavam na cidade só para ver os shows. Incomodados, e cientes de que contribuíam para o sucesso da banda, os pastores instalaram isolamento acústico nas igrejas, o que fez os shows perderem a graça. Mas o episódio fez surgir um novo gênero musical, o demogospel metal, e inspirou o surgimento de várias bandas, como a Danação Eterna e a Hordas do Louvor, que se especializaram em fazer shows ao lado de igrejas evangélicas, aproveitando o coro dos cultos.

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Testemunha de Araújo faz manifestação em defesa do bar

Dos três estabelecimentos, apenas o bar paga impostos, pois igrejas são isentas por lei. Alegando desrespeito religioso, ambas as igrejas já tentaram fechar o bar várias vezes, sem êxito. Já tentaram também alugar o espaço, mas estão condenadas à convivência já que o dono do imóvel, que preferiu não ter o nome divulgado, pretende manter os aluguéis do jeito que está. Apesar de serem ambas evangélicas, as igrejas possuem diferenças entre si e são comuns desavenças entre seus fieis. Numa delas, um ano atrás, evangélicos dos dois lados discutiram e atiraram, uns contra os outros, dezenas de garrafas de água milagrosa do rio Jordão. “Foi um pandemônio, era vidro pra todo lado. E os nossos clientes, coitados, no meio do fogo, tiveram que se proteger embaixo das mesas”, conta Auxiliadora, relembrando o caso. Felizmente ninguém se feriu seriamente, e depois desse dia os pastores passaram a vender a água milagrosa em garrafa de plástico. Desde então não houve mais grandes confusões. “Até agora este é o único milagre comprovado da água milagrosa”, conclui Madá, a das pedras.

A seguir, uma amostra do cardápio, da programação e das promoções do Bar do Araújo.

CARDÁPIO:

Xis-Gospel (com e sem queijo) – Linguiça do Pastor – Pastel Convertido – Dogão de Salomão (duas salsichas) – Encosto de Moela – Amarradinho de Frango – Exuspetinho (com farofa e vinagrete) – Torresminho de Ateu – Chucrute na Santa – Pecadinho de Fígado – Línguas de Fogo ao Molho Madeira – Encruzilhada de Bode – Fornicadinho de Azeitona e Queijo – Benzidão de Porco na Chapa – Sarapatel da Arrependida – Condenada na Grelha (galinha assada) – Pimenta Braba do Anticristo – Heresia de Peixe com Fritas – Pomba com Ovos Dentro – Rabada da Crente – Arrebatada com Macaxeira – Vodu de Camarão no Palito – Ungido de Vatapá – Buchada Poderosa do Juízo Final – Blasfemo Cozido (tem espinha, cuidado) – Galeto Crucificado com Farofa – Patê de Ateu – Ressuscita Jesus (caldo de mocotó com tripa de surucucu) – Capetinha de Frutas – Vinho de Jurubeba Filhas de Ló – Ponche de Pilatos – Pinga Milagrosa do Rio Jordão – Mexidão do Moisés (com ketchup do Mar Vermelho) – Admoestada com Pepino e Cenoura – Possuída ao Molho Cabidela

PROGRAMAÇÃO:

Segunda do Arrependimento: quanto mais pecado, mais desconto
Terça da Salvação: sopão grátis para expulsos da igreja
Quartafobia: teatro com o grupo Os Ex-ex-gays
Quinta do Descarrego: a quinta cerveja é por conta do Cão
Na sexta tem show com as bandas Dizimados no Apocalipse e Jericos de Jericó
No sábado Jesus não paga (mas tem que apresentar documento com foto)
No domingo: show de humor com a dupla Paifilho e Espírito Santo

BarDoAraujoEASalvacao-03PROMOÇÃO: ESTE COPO NÃO TE PERTENCE
Quem bebe no gargalo tem desconto (economia de água na lavagem dos copos)

AVISO SOB O RELÓGIO NA PAREDE:
Que oração? Hora que passa.

AVISO NO CARDÁPIO:
Aqui todos falamos em línguas (enroladas)

INVOCAÇÃO ETÍLICO-DEMONÍACA
(para ler refletido no espelho, à meia-noite)
SÁRBARREF, MIUR ASIOC, OSOHNIT
ZAPAR ORP AGNIP E AÇOM ARP AGNIP

BEBEU DEMAIS E NÃO PODE DIRIGIR?
Disque Arrebatação. Somente mototáxis credenciados.

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RESSUSCITA ARAÚJO
Em frente ao bar e desesperado, Testemunha de Araújo pede milagre

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Ricardo Kelmer 2015 – blogdokelmer.com

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ESTA POSTAGEM INTEGRA A SÉRIE REAL PARALELO
Onde ficção e realidade se encontram no infinito
Mais postagens:

AsCiclistasOrgasticasDaColombia-01As ciclistas orgásticas da Colômbia – Ciclistas adotam uniforme polêmico e usam a energia de seus orgasmos para vencer corridas

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FALARAM DO BAR DO ARAÚJO PELAÍ

Blog da Socaba (Sagrada Ordem dos Cavaleiros do Bar) – SOCABA Adota a Campanha: Resiste Bar do Araújo
Blog do Tiago Cabral – A verdadeira história do “Bar do Araujo”
Site Paulopes – Foto do Bar do Araújo se torna viral a favor da resistência laica


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LEIA NESTE BLOG

MeuFuturoDePopistarCristao-02bMeu futuro de popistar cristão – Meus shows seriam superanimados, sempre acompanhados de meu time de ruivinhas cristãs de minissaia, as Noviças Viçosas

As fogueiras de Beltane – A sexualidade sem culpa de uma sacerdotisa pagã

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O mundo é uma mentira – Este filme mostra o quanto a história é manipulada pelas elites religiosas e econômicas, que “criam” os fatos e nos fazem todos acreditarmos neles, lutarmos por eles, matarmos por eles

Religião no esporte é gol contra – Se nada for feito, a religião invadirá os campos e quadras e o esporte virará uma cruzada entre os jogadores e seus deuses

Entrevista com o ateu – Um pregador evangélico entrevista um escritor ateu. O que pode sair desse mato?

O armário dos ateus – Os dados da ONU e a pesquisa de Phil Zuckerman desmentem uma velha crença dos religiosos e teístas, a de que uma sociedade sem Deus fatalmente descambará pra criminalidade e infelicidade geral

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- kkkk. e depois, o exorcismo é no banheiro!!! Fernando Vasqs, São Paulo-SP – mai2015

02- cada um com sua lombra. Eduardo Freire, Fortaleza-CE – mai2015

03- KKKKKKKKKK. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – mai2015

04- Show de bola ! Carlos Almir, Fortaleza-CE – mai2015

05- Cerveja, deve se quente. HumbertoGirao Filho Girao, Fortaleza-CE – mai2015

06- esse exuspetinho me deu água na boca rsrsrsrsrsrsrsrsrs. Amaury Candido Bezerra, Fortaleza-CE – mai2015

07- Lembra me o livro “As Pelejas de Ojuara” do escritor Ney Leandro de Castro, avô da minha querida amiga Giselle Leandro Fleury! Ojuara (Araujo ao contrário)! O homem que desafiou o Diabo! Cauê Procópio, São Paulo-SP – mai2015

08- Boa Cp! Literalmente!!!!! Giselle Leandro Fleury, Rio de Janeiro-RJ – mai2015

09- Fabiano Souza, olha o cardápio do Herói Araujo rsrsrsrsrsrsrs. Fexx Efexx, São Paulo-SP – mai2015

10- Olha o cardápio e a programação, Ivo Pinto. Oriana Menescal, Fortaleza-CE – mai2015

11- O melhor é seguir o caminho do meio! Alexandre Domene Ortiz, Fortaleza-CE – mai2015

12- Kelmer o texto completo do blog tá sensacional, parabéns… eu já tinha visto a foto, mas com essa crônica acompanhando ficou incrível kkkkk. Christiane Ramos, Fortaleza-CE – mai2015

13- Seo Kelmer, isso é genial. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – mai2015

14- ótimo. Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – mai2015

15- tem que dar muita força pro Araujo. pq igreja da muito mais dinheiro do que um bar. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – mai2015

16- Ricardo Kelmer, meu poeta, achei q era so foto, nao tinha lido o texto. q phueda, crônica-reportagem de primeira. genial, amigo. bjo. Xico Sá, São Paulo-SP – mai2015

17- Procurando socios para montar uma igreja Ja tem o nome “Santa Sacolinha”.. kkkk. Marie Anne Bauer, Fortaleza-CE – mai2015

> Postagem oficial no Facebook


O improvável, o impossível e o inacreditável

06/05/2015

06mai2015

Numa hora dessa, como ainda ter forças pra superar um rival que virou o jogo no fim com um jogador a menos, que já conseguiu o impossível?

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O IMPROVÁVEL, O IMPOSSÍVEL E O INACREDITÁVEL

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Três de maio de 2015. Acompanharei o jogo pelo rádio, sozinho em meu apartamento aqui em São Paulo. Jogamos pelo empate mas não tenho ilusões, sei que será difícil pra caramba. Por isso trato logo de imaginar um roteiro bem sofrido: meu time fará 1×0, no segundo tempo o rival empatará e, no fim do jogo, pênalti pra eles… que o nosso goleiro defenderá. Isso mesmo, dor e angústia até o fim. Pronto, estou preparado. Mas não. Ninguém poderia estar preparado pro que aconteceria.

O ano começou ruim pro Fortaleza Esporte Clube. O último título tricolor fora o tetracampeonato estadual de 2010. Agora, porém, o clube amargava cinco anos na Série C do Brasileiro, um pesadelo horroroso, enquanto o maior rival, Ceará, mais organizado e com mais dinheiro em caixa, se preparava pra um provável pentacampeonato. Restava ao Leão superar as próprias limitações e realizar o improvável. E, principalmente, evocar a tal “mística daquelas camisas”, uma força misteriosa e inexplicável que amedronta até o maior rival e que sempre esteve presente nas grandes conquistas do clube, mas que andava meio sumida.

Acesso a internet e ligo o rádio. Estou tão nervoso que nem lembro de beber algo pra relaxar, isso é incrível, e meu intestino, coitado, nem vou comentar. Mas a camisa tricolor está lá, hasteada no alto do armário, como a estrela-guia da esperança. No primeiro jogo das finais, um domingo antes, surpreendemos e vencemos por 2×1, revertendo a vantagem do Ceará, e agora jogamos pelo empate. Uau, estamos perto de realizar o que era improvável… A conquista da Copa do Nordeste pelo rival, quatro dias antes, o faz chegar pra esse segundo jogo com o merecido status de melhor time da região. É, não vai ser fácil. Mas estou preparado. Tsc, tsc… Ô ilusão.

O golaço de Daniel Sobralense me alivia. Agora eles têm que virar o jogo pra nos tomar o título. Mas continuo desconfiado, não pode ser assim tão facinho… Começa o segundo tempo e o jogo segue difícil, chances dos dois lados. Então eles têm um jogador expulso. Oba, ficou mais fácil. Sim, mas a desconfiança não me deixa relaxar. Chegamos aos 36 minutos. Agora só o impossível pra nos tirar o título.

E eles empatam. Aos 37 do segundo tempo. Que merda. Agora virão uns treze minutos de desespero. Segue o jogo. Mas o tempo não passa. Minhas mãos suam, o coração vai sair do peito, tenho certeza. E aos 45 eles viram o jogo. Não pode ser… Eles alcançaram o impossível. É o pior dos pesadelos pro meu Leão.

Prevejo os dias seguintes, as gozações, vai ser insuportável. Penso em desligar o rádio, me poupar dessa tortura. Mas isso seria covardia, não posso abandonar o time agora. Olho pra camisa lá no alto e me agarro ao último fiozinho de esperança. Mas numa hora dessa, como ainda ter forças pra superar um rival que virou o jogo no fim com um jogador a menos, que já conseguiu o impossível?

Quando o narrador grita o gol inacreditável de Cassiano, aos 47 minutos, demoro a crer, espero um tempo, vão anular o gol… Mas é verdade. É mágico, é inacreditável, mas é real, empatamos! O jogo termina, um jogo épico que entrará pra história. Quem poderia imaginar roteiro tão fantástico? Eu sou campeão, que maravilha! Mas ainda estou tão perplexo… Eu sei que é verdade, mas acho que não consigo acreditar que realmente aconteceu…

É um grande guerreiro aquele que realiza o improvável. É um gigante quem alcança o impossível. Mas como chamar quem consegue o inacreditável? Pode chamar de Fortaleza, é este o seu nome. Parabéns a nós tricolores. A mística daquelas camisas está de volta.
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Ricardo Kelmer 2015 – blogdokelmer.com

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> Site oficial do Fortaleza Esporte Clube
> Fortaleza Esporte Clube na Wikipedia

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Clipe com gols das duas finais
edição: RK

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DETALHES DA CONQUISTA

01- Wanderson, que foi eleito o melhor lateral esquerdo do campeonato, teve participação fundamental no título, e não apenas por suas boas atuações. No lance do gol de Assisinho, aos 45 do segundo tempo, enquanto seus companheiros pareciam sem forças para reagir, ele imediatamente foi buscar a bola dentro do gol e a levou até o centro do gramado, posicionando-a para que o jogo recomeçasse logo. Dada a saída, Correa tocou para Wanderson na esquerda, que driblou Assisinho com um giro de corpo, atraiu mais dois adversários e fez um lançamento preciso na direita para Tinga, que cabeceou para Cassiano fazer o gol. Tinga, que também participou do gol de Éverton, no primeiro jogo, cruzando para ele cabecear, era um dos jogadores mais questionados pela torcida, mas subiu de rendimento nas finais.

02- O goleiro Deola e o volante Dudu Cearense foram as contratações mais caras. O primeiro alternou boas atuações com falhas preocupantes, e o segundo demorou a entrar no ritmo, lesionou-se e decepcionou os que nele tanto acreditavam. Felizmente os volantes Vinicius Hess e Auremir, ao lado de Correa, o grande maestro do time, tiveram bom rendimento e se entrosaram bem com os zagueiros e laterais, fazendo do sistema defensivo o ponto forte do time. O meio de campo melhorou com a subida de rendimento de Éverton e a chegada de Daniel Sobralense. Quanto ao ataque, nenhum dos jogadores se destacou, e esse foi o setor de pior rendimento.

03- Foram frequentes os problemas de contusão durante o campeonato, principalmente na primeira metade do certame, o que dificultou bastante o trabalho do técnico Nedo Xavier, demitido após derrota para o Ceará na segunda fase. Sem poder contar com jogadores como Romarinho e Radar, que quase não jogaram, o técnico Marcelo Chamusca também teve problemas com as contusões. Daniel Sobralense, por exemplo, precisou por duas vezes interromper sua sequência de jogos, voltando a atuar nas finais, sem muito ritmo de jogo. Felizmente seu talento compensou tudo.

04- O ressurgimento do caso David Madrigal no meio do campeonato e a polêmica decisão do TJDF-CE de excluir o Fortaleza do campeonato e rebaixá-lo para a segunda divisão, pegou a todos de surpresa. O clube agiu rápido e conseguiu o efeito suspensivo, o que lhe garantiu jogar as semifinais e as finais. O caso, porém, em vez de dificultar ainda mais a vida dos tricolores, pareceu injetar um novo ânimo no Pici e serviu para unir mais a torcida em torno do time. A solicitação de árbitro de fora para as finais, feita pelo Fortaleza, foi mais uma jogada inteligente, reforçando a ideia de que o clube, além do rival Ceará, também lutava contra a Federação e os interesses obscuros do TJDF-CE.

05- A invasão do campo por parte da torcida do Fortaleza, após o apito final, poderia ter sido evitada com a presença de mais policiais no campo, afinal era uma atitude perfeitamente previsível. A comemoração tricolor provocou a ira da torcida do Ceará, que soltou rojões sobre os torcedores tricolores no campo e invadiu o gramado para brigar. Erraram as duas torcidas. Falharam as autoridades da segurança. Perdeu o futebol e perderam os dois clubes, que tiveram de pagar pelo prejuízo dos assentos quebrado e certamente sofrerão penalidades nos tribunais.

06- Onde você estava quando Cassiano fez o gol do título? – Na página oficial do clube no Facebook, dezenas de torcedores relatam suas experiências

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HINO DO FORTALEZA EM NOVE VERSÕES
00m00 – Original 1967 com Manoel Paiva
02m40 – Lírica com Ayla Maria e Raimundo Arraes
04m59 – Raimundo Fagner
08m44 – Reggae com banda Okolofé
12m10 – Voz e violão com Calé Alencar
14m22 – Forró com Neo Pi Neo
16m58 – Versão rock (Alexandre Carvalho. Instrumental: André Carvalho)
20m09 – Original regravação 2002
22m35 – Em francês (Voz: Giselle Café)

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AMisticaDaquelasCamisas-01aA mística daquelas camisas (crônica) – Eu era um menino de nove anos quando a magia daquelas camisas invadiu minha vida. Os radialistas falavam sobre a tal mística das camisas do Fortaleza Esporte Clube, mas eu ainda não podia entender o que era. No entanto, o azul-vermelho-e-branco já seduzia meus olhos de criança, e me fascinavam as histórias sobre as vitórias impossíveis. 

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FECLeao-02O Hino O primeiro hino do Fortaleza foi composto em 1959, por José Jatahy. Em 1967 é composto o hino oficial pelo poeta Jackson de Carvalho, sendo sua gravação em outubro do mesmo ano, tendo como arranjador o maestro Manuel Ferreira e como intérprete o cantor Manoel Paiva. Em entrevista à revista Veja, o cantor e compositor Chico Buarque afirma que considera o hino do Fortaleza o segundo hino mais belo do futebol brasileiro, sendo o primeiro o do seu clube, o Fluminense.

Fortaleza, clube de glória e tradição
Fortaleza, quantas vezes campeão
Fortaleza, querido idolatrado
Estás sempre guardado
Dentro do meu coração.

Altivo, tua vida sempre foi um marco
Tua glória é lutar e vencer também
Salve o Tricolor de Aço
No campo, provaste mesmo que não tens rival
Tua turma valente é sensacional
Salve o Tricolor de aço

Soberbo, tua fibra representa um norte
Combativo, aguerrido, vibrante e forte
Sem demonstrar cansaço
Receba um sincero abraço da torcida tão leal
Meu Tricolor de Aço

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> Hino oficial do Fortaleza Esporte Clube
> Hino oficial (Fagner)
> Hino oficial, versão lírica (Ayla Maria e Raimundo Arraes)
> Hino oficial, versão forró (Neo Pi Neo)
> Hino oficial, versão rock (Voz: Alexandre Carvalho. Instrumentos: André Carvalho)

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01- Maravilha de crônica Kelmer! Viva o Tricolor de Aço! Bj saudoso. Madalena Bonfim, Fortaleza-CE – mai2015

02- A cronica estava linda demais e o futubol realmente surpreendeu! Michelle SJ, Fortaleza-CE – mai2015

03- Curti a crônica, não a “A mística daquelas camisas está de volta.” Rsrs. Parabéns, tricolor Kelmer. André Domene Ortiz, Fortaleza-CE – mai2015

04- Ai dentro. Carniça. Marcella Costa, Fortaleza-CE – mai2015

05- Beleza pura a crônica. Eugênio Oliveira, Fortaleza-CE – mai2015

06- Texto lindo e perfeito! Saudações tricolores! Jacqueline Moura, Fortaleza-CE – mai2015 

07- Saudações Cassianas! Halder Gomes, Fortaleza-CE – mai2015 

08- Parabens pela linda crônica,parabens pela vitória do Foraleza. Vilma Galvão, Fortaleza-CE – mai2015

09- bom demais, tricolor. bjo. Xico Sá, Rio de Janeiro-RJ – mai2015

10- Adorei a crônica. Saudações tricolores, tem que ser sofrido sim, porque torcer fortaleza é para os fortes, não é mesmo? Valeu! Ana Nathalia Simões, Fortaleza-CE – mai2015

11- Traduziu nossa angustia e ao mesmo tempo nossa grande conquista!!!! Parabéns a todos os tricolores!!! Eduardo Maranhão, Fortaleza-CE – mai2015

12- Caros amigos tricolores! Fantástico texto do meu amigo Ricardo Kelmer! Alfredo Junior Franco, Fortaleza-CE – mai2015

13- É isso, Ricardo Kelmer. Aproveito e coloco aqui sua observação:”A confusão e a violência entre torcedores arruaceiros entristecem o futebol, sim, mas o futebol em si é belo e emocionante. É justo separar uma coisa da outra, pois a imensa maioria dos torcedores é de bem e vai pro estádio apenas pra torcer por seu time.” Rosângela Aguiar, Fortaleza-CE – mai2015

14- O campeão voltou! Eugênio Oliveira, Fortaleza-CE – mai2015

15- Vale a leitura! Parabéns Ricardo Kelmer Fabio Mota, Fortaleza-CE – mai2015

15- Vale a leitura! Parabéns Ricardo Kelmer Fabio Mota, Fortaleza-CE – mai2015

16- Nossa.Me emocionei dnv. Otimo trabalho !! Paulo Jose, Fortaleza-CE – mai2015

17- Que texto massa!!! Todo tricolor tem que ler e conhecer Ricardo Kelmer! Mto show!!! Renata Damasceno, Fortaleza-CE – mai2015

18- Show. Stefany Sousa, Fortaleza-CE – mai2015

19- Bacana demais!!!somos tricolor de aço. Ereneide Viana, Fortaleza-CE – mai2015

20- Para os campeões ! Carlos Sampaio, Fortaleza-CE – mai2015

21- Parabéns Ricardo Kelmer. Emocionante seu texto. Senti exatamente o mesmo… Ao ler seu fantástico texto senti toda emoção de domingo mais uma vez. Esse é o nosso leão. Impossível, improvável e inacreditável! Hugo de Freitas, Fortaleza-CE – mai2015

22- O texto retrata o sentimento dos tricolores, que apesar de torcedores, sabem bem separar paixão e razão, e tinham consciência do melhor momento do rival. O receio, a desconfiança no que o time poderia fazer estavam presentes nesses tricolores e, ao que parece, o sentimento foi esse mesmo durante os 90 minutos. Marcos André, Fortaleza-CE – mai2015

23- Realmente retrata quase tudo que passei! Parabéns! Joao Batista Mota, Fortaleza-CE – mai2015

24- perfeito! AAIii meu coração!!! É verdade, meu Deus!!! Andrea Mesquita Lima, Fortaleza-CE – mai2015

25-  Eu também demorei a acreditar, nem vi direito pois já estava me sentindo derrotada. Mas valeu! Bom demais!! Te amo Leão!!! Cristiane Bastos, Taíba-CE – mai2015

26- Parabéns, grande Ricardo Kelmer. Eu senti tudo isso, só que às avessas, hehehe. Augusto Caminha, Fortaleza-CE – mai2015

27- Outra foi aquela que chegamos no segundo tempo de Fortaleza e Ceará aos 35m e o Fortaleza perdia de 3×0, não é q empatou.. Andre Soares Pontes, Fortaleza-CE – mai2015

28- Emocionante! Quase me transportei pro passado naquele dia! Emoções mil, eu vivi extasiado! José Milton Fontenelle, Fortaleza-CE – mai2015

29- Como eu estou com 60 anos, essa linda crônica fez-me lembrar do inesquecível Blanchard Girão, o criador da “mística daquelas camisas”. Francisco Celio Cavalcante Marinho, Fortaleza-CE – mai2015

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A marmota do ano

26/02/2015

26fev2015

O dia em que Fortaleza aplaudiu um artista que nunca existiu

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A MARMOTA DO ANO

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Oi, recebi teu recado. Tô no orelhão, fala rápido. O quê? Sério? Não, eu não acredito… Quer dizer que atualmente o maior sucesso aí em Fortaleza é um artista japonês que nunca existiu? Não, vocestão de sacanagem comigo. Heim? Os jornais fizeram matéria de capa? O quê?! Entrevistaram o japa?! Não, assim vocês não querem que eu volte…

Yuri Firmeza? É um artista daí de Fortaleza? Não sei, acho que não conheço. Ah, foi ele quem inventou o artista japonês. Tá. E acertou com o Centro Cultural Dragão do Mar uma exposição no Museu de Arte Contemporânea? Como se fosse do japa? Putz… Comué, ele criou um passado pro japa? Criou fotos das obras do cara, inventou uma assessoria de imprensa, enviou informações pros jornais? Deu entrevista por e-mail como sendo o japa? Que louco… Tá, mas o que tinha na exposição? Cópias de mensagens de e-mail? Ah, tá, que Yuri trocou com um filósofo, exatamente sobre a ideia da farsa. Ahahah! Sensacional! Isso sim é que é molecagem contemporânea!

Mas por que ele fez isso? Chamar a atenção sobre o quê? A questão da arte, tá. E denunciar a negligência da imprensa com os artistas locais? Hummm, olhassó… Danado esse Yuri, heim? E o público, o que achou? A maioria se manifestou favorável ao artista moleque? Certo. Os leitores do jornal o quê? Ah, criticaram o pedantismo dos jornalistas. Ok. E os jornalistas? Ahn? Apedrejaram o artista? Comassim? Quer dizer que não reconheceram o próprio erro? O quê? O jornalista afirmou que tudo isso era medíocre e que o objetivo do artista foi arranhar a credibilidade e a boa reputação dos jornalistas? Entendi. Peraí que tá passando um caminhão limpa-fossa.

Pronto, já passou. Heim? O jornalista disse que muitos idiotas vão entender a coisa como um alerta sobre a cobertura jornalística da cultura no Ceará? Vixe, e é pra entender o quê? Ops, volta a fitaí, ele disse “idiotas”? Não, ele não disse isso, não é possível. Bem, então muito prazer, eu sou um dos idiotas. Corajoso o jornalista, né? Chamar o artista de medíocre, vá lá, é a opinião dele, apesar de ter um cheirinho de ressentimento. Mas chamar seus próprios leitores de idiotas? Uau! Afinal, o que tá havendo com a minha querida imprensa alencarina? Devem ter botado alguma coisa na bebida desse povo, não é possível.

Como é mesmo o nome do japa? Souzousareta Geijutsuka? Diabo de nome é esse? Quer dizer o quê em japonês? Artista inventado? Não, tu já tá sacaneando. Mas peraí… Nenhum jornalista se deu ao trabalho de pesquisar se esse Zé Sareta existia mesmo? Não tem internet nas redações do Ceará não? Heim? Os jornalistas disseram que o Dragão do Mar perdeu a credibilidade? Pois pra mim, isso que o Dragão fez foi uma benfeitoria pública. É. Afinal tudo isso serviu pra mostrar que o rei tá pelado e que o pinto do rei é pequeno. Sim, todo mundo sabia. Menos o rei.

O papo tá bom mas os créditos tão acabando, vamo ter que encerrar. Mas antes manda um recado aí pra turma. Diz que eu voto nessa história pro acontecimento jornalístico de 2006. Claro. A marmota do ano. De uma lapada só fez a cidade inteira discutir arte, lógica de mercado, subserviência cultural ao que vem de fora, o papel da imprensa e sua credibilidade, a postura dos jornalistas… Ah, é, e também serviu pra mostrar como são idiotas os tais leitores do jornal. Eu principalmente, que leio todo dia.

Olhassó, esse Yuri devia fazer uma estátua. Dele não, do Zé Sareta. Isso, no Dragão do Mar. O Ceará não é a terra da molecagem? Não foi Fortaleza quem uma vez vaiou o sol na Praça do Ferreira? Então. Uma estátua do japa lendo jornal. Pra gente nunca mais esquecer do dia em que Fortaleza aplaudiu um artista que nunca existiu.
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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica. A imagem que ilustra o texto é uma montagem feita a partir de trabalhos de Yuri Firmeza.

> A crônica A Marmota do Ano foi publicada em minha coluna Kelméricas, no site do jornal O Povo (Fortaleza), dez dias após a abertura da exposição de Yuri Firmeza. O texto a seguir, Quem Aprendeu, Aprendeu, foi publicado em meu site pessoal no mesmo ano, 2006. Minha defesa do artista e do Centro Cultural Dragão do Mar, junto às minhas críticas ao comportamento da imprensa, infelizmente não foram bem recebidas por alguns colegas jornalistas e me renderam antipatias. Fazer o quê?

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AMarmotaDoAno-05aQUEM APRENDEU, APRENDEU
Ricardo Kelmer, 2006

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Minha intenção com a crônica A Marmota do Ano não é debochar dos jornais ou dos jornalistas que caíram no conto do japa, até porque no lugar deles, naquele corre-corre das redações que eu conheço bem, cheio de serviço para ontem, eu certamente também cairia. Pretendo, isso sim, chamar a atenção para um fato que é tão absurdo que parece mentira, para que o leitor reflita sobre esse acontecimento riquíssimo de implicações artísticas, jornalísticas e sociais, e tire suas próprias conclusões.

É interessante notar que num primeiro momento, após a descoberta da farsa, o jornal O Povo, em seu editorial, chama o artista de “frustrado”, “recalcado” e “rancoroso” e a sua atitude de “mesquinha” e “irresponsável”. E chama de “deplorável” o comportamento do Centro Dragão do Mar por ser conivente com a proposta do artista. No único momento de mea culpa, o editorial admite que não custava nada checar na internet informações sobre o artista japonês. Mea culpa? Hummm, nem tanto. Na verdade, era só um trampolim estilístico para a frase final que insinua que o Dragão não tem mais credibilidade.

Infelizmente o editorial esqueceu de comentar que um dos objetivos da pegadinha era justamente denunciar a subserviência da mídia ao que vem de fora e seu descaso com os artistas locais. Mas, pensando bem, seria reforçar ainda mais o ridiculamente óbvio: a subserviência está estampada, em manchete, no espaço cedido ao forasteiro famoso… que jamais existiu. E quanto ao descaso, bem, se existia descaso, agora os artistas não têm mais do que reclamar. Ganharam até editorial!

Mas não sejamos injustos. Na última matéria O Povo resume toda a marmota, informando corretamente, deixando o ressentimento de lado e atendo-se aos fatos. E no mesmo dia, no site, disponibiliza o fórum para que seus leitores se manifestem. E eles se manifestam: a imensa maioria aplaude o artista e critica duramente as atitudes do jornal e do jornalista, como se fosse um grito de inconformismo, guardado por muito tempo, contra a postura dos meios de comunicação e o pedantismo de seus profissionais. E, dez dias após o início do caso, o portal Noolhar, que é ligado ao jornal O Povo, publica minha crônica A Marmota do Ano, provando que, assim como o jornal, o site também entende o valor da multiplicidade de opiniões num veículo democrático. Ponto para o jornal e para o portal.

Há uma outra questão envolvida: a coragem do artista. Imagine se algum jornalista, antes de escrever sua matéria, resolve investigar algo sobre Souzousareta. Ou imagine se os planos de Yuri vazam por descuido ou delação de alguns dos envolvidos. A farsa fatalmente seria descoberta, os jornalistas se livrariam do ridículo e automaticamente o repassariam a Yuri Firmeza. O artista seria desmascarado e, certamente, criticado e ridicularizado pela imprensa e até por artistas. Talvez virasse persona non grata das redações (bem, talvez já o seja…). Seu esforço teria sido em vão. O público possivelmente não o apoiaria como agora faz. É, o artista foi muito corajoso. E assumiu um risco enorme, que quase ninguém ousaria assumir. Você assumiria?

Trabalho com comunicação e escrevo para jornais e sites. Como profissional da notícia, o episódio me deixou constrangido. Infelizmente estamos sujeitos a pegadinhas como essa. Mas nesse caso apoio o artista e o Centro Dragão do Mar. Eles foram muito úteis à sociedade e à imprensa. O que Yuri Firmeza fez, admitamos, foi genial e, mesmo constrangendo a nós que fazemos jornalismo, nos ensinou coisas muito importantes. Quem aprendeu, aprendeu.

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AMarmotaDoAno-05aCRONOLOGIA DA MARMOTA

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09.01.06 – Desconstruindo a arte
(jornal O Povo-CE)

Chamada para a exposição de Souzousareta Geijutsuka

10.01.06 – Arte, natureza e tecnologia (jornal Diário do Nordeste-CE)
Entrevista com o artista japonês e imagens de suas obras

11.01.06 – Pegadinha contemporânea de artista cearense (jornal O Povo-CE)
Notícia da farsa. Informação apenas, sem paixões

11.01.06 – Arte e molecagem (jornal O Povo-CE)
O jornalista ataca e desmerece o artista e critica o museu

11.01.06 – Exposição factóide compromete Instituto Dragão do Mar (jornal Diário do Nordeste-CE)
Notícia da farsa. O jornal tenta descredibilizar o Centro Dragão do Mar

12.01.06 – Provocação infeliz (jornal O Povo-CE)
O editorial do jornal O Povo ataca o artista, critica o Dragão do Mar e faz um meia-mea-culpa

12.01.06 – A arte do absurdo (jornal O Povo-CE)
Resumo do fato. O jornal informa sem julgar

12.01.06 – A arte no jornalismo (jornal O Povo-CE)
A editoria do Vida & Arte se manifesta. Nem contra nem a favor

13.01.06 – Fórum do leitor (portal Noolhar-CE)
O site do jornal abre espaço para que os leitores se manifestem, e a grande maioria apoia o artista e critica o jornal. Ponto para o jornal

17.01.06 – A arte inventada (jornal O Estado de São Paulo-SP – site Observatório da Imprensa)
A notícia corre o mundo

20.01.06 – A marmota do ano (portal Noolhar)
O site do jornal O Povo publica a crônica de Ricardo Kelmer (em sua coluna Kelméricas), onde ele critica a posição do jornal e dos jornalistas e apoia o artista e o Dragão do Mar. Ponto para o jornal

23.01.06 – A cilada do artista invasor (jornal O Globo-RJ)
O jornal carioca publica matéria de capa e página inteira. Dá voz ao artista, ao diretor do museu mas não ouve os jornalistas envolvidos

Comentários dos leitores (site pessoal do escritor Ricardo Kelmer)
Leitores comentam. Comentários também de pessoas e instituições envolvidas, como Yuri Firmeza, Centro Dragão do Mar e o jornalista Felipe Araújo, do jornal O Povo

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AMarmotaDoAno-05a

REPRODUÇÃO DAS MATÉRIAS

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CAPÍTULO 1

O jornal anuncia a exposição

O jornal O Povo publica, em seu caderno cultural, uma chamada para a abertura da exposição de Souzousareta Geijutsuka no dia seguinte. Provavelmente, o repórter copiou as informações diretamente do material de divulgação distribuído pelo MAC – Museu de Arte Contemporânea, um recurso muito comum em redações de jornal, preenchendo o resto com algumas considerações próprias. Vale registrar que.
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Reprodução – Jornal O Povo (CE), Vida & Arte
09.01.06 – Matéria sem assinatura

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DESCONSTRUINDO A ARTE

Imagine uma exposição onde as obras são flores e vegetais carbonizados e que isso representasse o equilíbrio entre a vida e a morte. Ficou difícil? Pode até ser, mas ousado como é o artista plástico japonês Souzousareta Geijutsuka, não se intimida como estranho. Tudo, alías, é bem moderno, ao olhos de sua arte. Usar e abusar da tecnologia e da ciência é sua marca, e transformar o que – nem de longe – parece arte, em arte, se tornou uma característica. Souzousareta chega a Fortaleza hoje, às 22h, para apresentar sua mais recente mostra intitulada Geijitsu Kakuu, que acontece dentro do projeto Artista Invasor, do Museu de Arte Comtemporânea do Ceará.

A exposição de Souzousareta busca a harmonia entre a natureza que nasce e morre, empregando equipamentos tecnológicos, para abordar a discussão em torno da fragilidade da vida e suas conseqüentes contradições. O artista conquistou fama mundo afora, exatamente por elencar assuntos tão distintos, como: arte, ciência e tecnologia em suas exposições. Souzousareta desenvolve pesquisas na Eletrônica e Telecomunicações, isso aliado aos conceitos de tempo real, simultaneidade, supressão de espaço e imaterialidade. O uso de objetos e tecnologias tão ousadas são influências da “desmaterialização” dos anos 60/70. “Esse fenômeno, com abandono do “objeto de arte” por muitos artistas, deu lugar a uma variedade e uma multiplicação de usos mediáticos”, explica.

De acordo com o artista, a arte eletrônica, apesar de não ter o reconhecimento e respeito dos historiadores de arte, é uma questão capital. “Freqüentemente contestada, seu endereçamento, entretanto, insere-se em nosso destino de participantes de uma época da história em que a tecnologia tornou-se parte de todos os atos da nossa vida. Acredito em sua importância humanizadora”. Seja como for, a arte de Souzousareta faz um paralelo entre o novo, o velho e o que está por vir. Ele desconstrói para, mais tarde, reconstruir de acordo com sua interpretação.

SERVIÇO: Artista Invasor – Souzousarta Geijutsuka apresenta a mostra Geijitsu Kakuu, a partir de 10 de janeiro, no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, no CDMAC. Visitação de terça-feira a domingo, das 14h às 22h. Ingressos: R$ 2,00 (inteira) e R$ 1,00 (meia). Informações: 3488.8622.

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CAPÍTULO 2
A entrevista – Ô japonezinho pra falar…

O jornal Diário do Nordeste, além de divulgar a exposição, destaca um repórter para entrevistar o artista japonês. Como Souzousareta ainda não está em Fortaleza, a entrevista acontece por e-mail, com tradução de sua assessoria de imprensa (papel exercido no processo pela namorada de Yuri). Nas respostas do artista, podemos perceber várias pistas sobre a farsa. A matéria é ilustrada com imagens de suas obras, na verdade fotos simplórias feitas por Yuri, sendo uma de uma paisagem praiana, editada para parecer arte abstrata, e outra de um gato de rua, como se fosse cena de um videoarte.

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Reprodução – Jornal Diário do Nordeste (CE), Caderno 3
12.01.06 – Matéria de Dawlton Moura

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SOUZOUSARETA
Arte, natureza e tecnologia

Espaço aberto para a arte eletrônica. O Museu de Arte Contemporânea, do Centro Dragão do Mar, abriga a partir de hoje, dentro do programa “Artista Invasor”, trabalhos do japonês Souzousareta Geijutsuka, reunidos na exposição ´Geijitsu Kakuu´. O olhar de um experimentador de linguagens atuais e novas tecnologias sobre fenômenos da natureza

Esta é a quarta vez em que Souzousareta, considerado um dos nomes mais importantes quanto à interface entre arte contemporânea, ciência e novas tecnologias, participa de eventos no Brasil. O sofisticado equilíbrio entre vida e morte na natureza é o fio temático de sua exposição “Geijitsu Kakuu”, em que flores e vegetais são revisitadas por meio de objetos carbonizados, em um convite a reflexões sensoriais sobre a fragilidade da vida.

Os trabalhos de Souzousareta, que entre outras cidades já expôs em Tóquio, Nova York, Berlim e São Paulo, incluem parcerias com cientistas e engenheiros, em pesquisas sobre eletrônica e telecomunicações. Entre os conceitos contemplados, estão os de operação em tempo real, simultaneidade, supressão do espaço e imaterialidade. A robótica é outra área explorada, em diálogo com esculturas e instalações ambientais. Ele também é responsável pelo desenvolvimento de uma nova técnica fotográfica, batizada “Shiitake”, que busca apreender fenômenos invisíveis ocorridos na atmosfera.

O pintor e escultor francês Marcel Duchamp (1887-1968) é citado por Souzousareta como uma de suas grandes influências, quanto à chamada “arte eletrônica”. Para o artista japonês, a arte eletrônica adquire uma importância fundamental, a partir do momento em que a tecnologia está presente em cada momento de nossas vidas – do mais banal, ao mais grandioso. Apesar disso, Souzousareta considera que as linguagens artísticas eletrônicas ainda são marginalizadas pela concepção mais tradicional de “história da arte”.

Em entrevista via e-mail ao Caderno 3, Souzousareta aborda esses e outros temas, criticando a acomodação do público e dos críticos, falando das influências que vem recebendo em sua descoberta do Brasil e apostando que a intensidade de uma proposta artística sempre será mais importante que os meios empregados para realizá-la. Confira:

Caderno 3 – Esta é a quarta vez que trabalhos seus são expostos em eventos no Brasil. Que importância esse contato com o País tem para o seu trabalho?

INFOGRAVURA DE Souzousareta, para quem “os historiadores da arte são iguais aos públicos: têm dificuldades de reagir ao que não entendem”

INFOGRAVURA DE Souzousareta, para quem “os historiadores da arte são iguais aos públicos: têm dificuldades de reagir ao que não entendem”

Souzousareta GeijutsukaAcabo de chegar ao País. Tenho aprendido muito sobre a cultura brasileiras em livros e vídeos aos quais tenho acesso no Japão. Inclusive, acabo de ler um livro e ver um filme fabulosos feitos no Brasil. “O povo brasileiro”, do (Darcy) Ribeiro, me parece ser esse o nome correto, e “Deus e o diabo na terra do sol”, do já conhecido Glauber Rocha. Até acredito que esses dois trabalhos me influenciaram de alguma maneira na preparação de minha exposição no Brasil. É claro que minha estadia aqui vai intensificar muito a influência dos elementos de brasilidade sobre o meu trabalho. Inclusive essa é uma constante em meu trabalho: a inclusão de elementos locais agenciados aos procedimentos eletrônicos.

Caderno 3 – Que resposta vem obtendo do público e das instituições de arte brasileiras?

SouzousaretaMuito pequena, como deve ser o caso da maioria dos artistas contemporâneos, pelo menos aqueles que ainda resistem a uma total subordinação dos procedimentos e problemas estéticos aos imperativos de cosumo. Não só no Brasil, mas me parece que em vários países desenvolvidos, as atividades da cultura precisam apresentar relevância mercadológica para encontrar linhas abertas de financiamento e incentivo. Acontece o mesmo com o público, sobretudo com a arte eletrônica. Precisamos estar o tempo todo brigando com nossa própria produção para não deixar que os clichês tomem conta de tudo. E é esse o problema, o público, em geral, adora clichês. Espero encontrar coisa diferente no Brasil.

Caderno 3 – Em que estágio o Brasil pode ser situado, dentro do contexto mundial da chamada ´arte tecnológica”?

SouzousaretaO Brasil ocupou um lugar de destaque no cenário artístico mundial durante os anos 60 e 70: Lígia Clark, Hélio Oiticica, Glauber Rocha, de que já falamos, e outros. Mas acho que esse foi um momento de vitalidade estética em quase todo o mundo. Também no Japão tivemos reações importantes aos valores da civilização moderna através da arte. Pnesemos em Nam June Paik, por exemplo. Não sei em que pé estão as artes plásticas brasileiras nesse momento, nem mesmo a arte eletrônica. Temos o privilégio de poder contar, no Japão, com um parque tecnológico bastante desenvolvido e aberto; não sei se esse é o caso do Brasil. A dificuldade de acesso de uma sociedade à tecnologia implicará em dificuldades para o florescimento de uma boa arte tecnológica. Mas o Brasil conta com tantas ferramentas expressivas, que não vai ter problemas.

Caderno 3 – Falando nisso, que definição de ´arte tecnológica” é possível? De que modo esse conceito – que, você cita, vem desde Marcel Duchamp – se aplica aos dias de hoje?

SouzousaretaPode ser definida como arte tecnológica toda operação estética que conta com suportes tecnológicos do tipo computadores, sintetizadores, softwares dos mais variados para produzir campo de percepção e sensação. Nesse sentido, é óbvio que o que interessa não são os suportes materiais, que podem ser extremamente desenvolvidos e potentes, mas os agenciamentos em que entram, que também têm que ser poderosos. O que continua valendo hoje na arte, como há três mil anos atrás, é a intensidade que passa pela obra, e não a obra como representação de alguma coisa.

Caderno 3 – Há ainda uma forte resistência do público a esse tipo de arte, em formas não-convencionais, ou já é mais fácil aproximar a arte eletrônica do público em geral?

SouzousaretaO público sempre resiste ao que não é convencional. Por isso a arte necessita tanto do marketing nos dias de hoje.

Caderno 3 – Você já declarou que os “historiadores de arte” ainda vêem com reservas a arte tecnológica. Há possibilidades de se reverter esse quadro? Em que prazo?

SouzousaretaNormalmente os historiadores da arte, assim como os historiadores da filosofia, são iguais aos públicos: têm dificuldades de reagir ao que não entendem.

Caderno 3 – Que diálogos são possíveis entre a arte eletrônica, que se vale das novas tecnologias, e as formas clássicas/convencionais de arte?

SouzousaretaTodas as conexões são possíveis, desde que o teu “problema próprio” necessite dessa ou daquela operação que pertence a um outro período da história da arte. Por exemplo, num certo momento, o encontro com as tradições milenares do Japão me foi necessário, como forma de explorar determinado problema a respeito do medo existente na cultura japonesa, e incrustado nos hábitos mais elementares. Foi só por isso que cruzei arte eletrônica com cultura milenar. Num outro projeto, essa referência à tradição não seria necessária.

Caderno 3 – Você falou da arte tecnológica como uma possibilidade de humanização, dentro de todo o universo tecnológico-informativo em que estamos cada vez mais imersos. Isso não vai de encontro ao velho receio de um “totalitarismo tecnológico”? De que modo a arte pode contribuir para “humanizar” a tecnologia?

YuriFirmezaSouzousaretaGeijutsuka-02

CENA DE VÍDEO do artista japonês Souzousareta Geijutsuka: “O que continua valendo na arte é a intensidade que passa pela obra”

SouzousaretaSe falei em humanização anteriormente, estava equivocado. O humanismo não tem nenhum problema de conviver com os piores tipos de atrocidades. Não é verdade que os direitos humanos criem algum tipo de constrangimento ao crescimento vertiginoso da pobreza e da angústia em parcelas importantes da população global. Humanismo e capitalismo selvagem fazem parte de uma mesma máquina. É preciso perguntar como a arte tecnológica, mas não só, pode mudar os usos que são feitos.

Caderno 3 – A arte tecnológica não correria também o perigo de se ater a limites do consumo (o mercado de novas tecnologias, produtos eletro-eletrônicos, computadores, sintetizadores, projetores)?

SouzousaretaSem dúvida!

Caderno 3 – Seria possível sintetizar o conceito e o objetivo da exposição “Geijitsu Kakuu”, que será mostrada aqui em Fortaleza? De que modo trabalha o contraste entre vida e morte, natureza e tecnologia?

SouzousaretaEssa exposição tem várias facetas, justamente para poder lidar com vários problemas. Tudo está integrado a um exercício do simulacro, cujo objetivo é retirar os hábitos de seu estado de evidência. Inclusive hábitos estéticos, do tipo “Por que gostamos de arte?”. É preciso ver a exposição. (DM)

SERVIÇO: “Geijitsu Kakuu”, exposição de Souzousareta Geijutsuka. Abertura hoje, no Museu de Arte Contemporânea, do Centro Dragão do Mar. De terça a domingo, das 14h às 22h. Ingressos: R$ 2,00 e R$ 1,00 (meia). Info.: 3488-8622.

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CAPÍTULO 3
O Povo anuncia a farsa

O jornal O Povo noticia a farsa, no mesmo caderno da chamada do dia anterior, num texto meramente informativo, sem considerações, nem paixões. O jornal, porém, refere-se ao trabalho de Yuri usando aspas: “trabalho artístico”. No mesmo dia, publica também contundente artigo do jornalista Felipe Araújo.
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Reprodução – Jornal O Povo (CE), Vida & Arte
11.01.06 – Matéria sem assinatura

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EXPOSIÇÃO
Pegadinha contemporânea de artista cearense

A exposição Geijitsu Kakuu, que conforme matérias divulgadas ontem na imprensa local – inclusive no Vida & Arte, do O POVO – seria aberta no Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Centro Dragão do Mar, não existe. A mostra fictícia, que seria de autoria de um artista plástico japonês, é na verdade uma criação do artista contemporâneo cearense Yuri Firmeza.

Na semana passada, Firmeza – com a conivência do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – divulgou para os jornais locais um press-release contendo informações sobre a suposta mostra e o currículo do artista japonês. Como parte de seu ”trabalho artístico”, Firmeza criou uma assessoria de imprensa também fictícia, que entrou em contato com as redações por telefone para reforçar a divulgação do material. Procurado, também na semana passada, pelo O POVO, em duas ocasiões, o Centro Dragão do Mar confirmou a realização da exposição no MAC.

Ontem, quando a farsa foi revelada para a imprensa, Yuri Firmeza explicou que a intenção da iniciativa foi ”pensar o que move o campo da arte, refletir o museu, a galeria, o jornal como meio de sedução”. Já o diretor do MAC, Ricardo Resende, afirmou não acreditar que o episódio fere a credibilidade do Centro Dragão do Mar. Segundo ele – que confirmou que a direção do Centro tinha ciência da divulgação das falsas informações – é papel do Museu dar condições para a criatividade dos artistas locais.

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CAPÍTULO 4
O jornalista não gostou da brincadeira

O jornalista Felipe Araújo, do jornal O Povo, ataca Yuri Firmeza, desmerece seu trabalho e critica o Centro Dragão do Mar. O artigo diz que são idiotas os leitores que concordam com o artista, em sua crítica à cobertura jornalística da cultura.
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Reprodução – Jornal O Povo (CE), seção Opinião
11.01.06 – Matéria de Felipe Araújo

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ARTIGO
Arte e molecagem

A recente molecagem do artista plástico Yuri Firmeza, que inventou o pseudônimo de Souzousareta Geijutsuka e divulgou para a imprensa local seu (dele, Souzousareta) brilhante currículo de exposições no exterior como forma de conseguir espaço na mídia, revelou alguns traços do espírito da arte contemporânea em Fortaleza. Com algumas caras exceções, uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação; que acham que estão sendo corajosos quando não fazem mais do que espernear e gritar por uma mesadinha ou por uma berlinda oficial. Nelson Rodrigues é que estava certo: os idiotas perderam a modéstia.

Não há nenhuma novidade na invenção de pseudônimos como forma de afirmar determinados discursos artísticos. Yuri, aliás, tem todo o direito do mundo de fazer a brincadeira ou a provocação que quiser. Como ”artista contemporâneo”, sua provável falta de domínio sobre certos procedimentos criativos e o discurso esquálido naturalmente ampliam seu horizonte de atuação estética às raias da falsidade ideológica. O que estranha é o fato de a presidência do Dragão do Mar – principal centro cultural da Cidade – e a direção do Museu de Arte Contemporânea chancelarem uma irresponsabilidade desse tamanho.

A título de ”denúncia” sobre uma suposta negligência da imprensa com a produção local, Yuri tentou arranhar a credibilidade e a boa reputação de alguns profissionais. É fato que, demagogicamente, vai arregimentar a simpatia de uma classe artística boçal que (feitas as devidas exceções) projeta na imprensa a frustração de seu próprio fastio criativo. E é fato também que muitos idiotas vão entender esse gesto como um alerta oportuno sobre a cobertura jornalística da cultura em nosso Estado. A imprensa tem seus problemas e deve permanentemente questionar e ser questionada sobre sua responsabilidade com as artes e a cultura. Mas o que se viu nesse episódio foi apenas a face mais evidente da mediocridade.

O pecado dos jornalistas envolvidos no episódio talvez tenha sido o de acreditar na boa fé e no respeito que sempre pautou a relação entre as redações e o Dragão do Mar. E acreditar na reputação do Dragão como um centro que, através do MAC, quer promover exposições e discussões procedentes sobre a arte contemporânea. Não somente a credibilidade do Centro junto à imprensa, mas a própria credibilidade do Dragão junto à opinião pública estão gravemente arranhadas a partir de agora. Afinal, quem iria a uma exposição de Souzousareta sabendo que se trata de uma exposição de Yuri Firmeza?

FELIPE ARAÚJO é repórter especial do O POVO

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CAPÍTULO 5
O Diário do Nordeste anuncia a farsa

O jornal Diário do Nordeste noticia a farsa. O tom geral da matéria é de contenção, mas o texto tenta descredibilizar o Centro Dragão do Mar já a partir do título, sustenta que o episódio compromete sua credibilidade junto à imprensa e a sociedade e afirma ser bastante obscura a compreensão do trabalho de Yuri Firmeza. Ao contrário do jornal concorrente, o Diário do Nordeste não abordará mais o fato, limitando-se a esta pequena matéria. Agindo assim, o jornal perde ótima oportunidade de explorar um tema tão rico, ainda que tivesse de expor sua constrangedora participação no episódio.
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Reprodução – Jornal Diário do Nordeste (CE)
11.01.06 – Matéria sem assinatura

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GEIJITSU KAKUU
Exposição factóide compromete Instituto Dragão do Mar

Quem compareceu à abertura da exposição “Geijitsu Kakuu”, ontem, no Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar, se surpreendeu. Atribuída ao artista plástico japonês Souzousareta Geijutsuka a exposição não foi apresentada em nenhuma das salas da instituição. Também pudera: numa atitude inusitada, após a divulgação na mídia, a exposição não existia, isto porque seu autor simplesmente não existe.

Portanto, o que poderia ter passado como um atraso ou outra falha no processo de montagem da exposição, acabaria se revelando, na verdade, uma grande farsa engendrada pelo artista plástico Yuri Firmeza, em total concordância com o Museu de Arte Contemporânea e a direção do Centro Dragão do Mar. Assumindo a divulgação do evento, bem como a identidade fictícia do artista e de suas presumíveis obras (sacadas da internet), o artista e a instituição (Museu/Dragão do Mar) acabaram colocando em xeque ou até mesmo comprometendo o vínculo de credibilidade estabelecido junto aos veículos de comunicação e a sociedade cearense.

Na sala prevista para a montagem, o que se via era uma placa descrevendo: “exposição em desmontagem”. Em uma das paredes, um texto assinado pelo Diretor do Museu de Arte Contemporânea, Ricardo Resende, fazia alusão a um projeto artístico conceitual “que foge do puramente contemplativo e exige do público a reflexão sobre o que se vê ou o quê não se vê”. Em outro momento, o texto sugere que estamos diante de um “jovem artista que lida com a ‘ficção’ de se fazer arte na atualidade”, sem fazer qualquer menção a exatamente que arte estaria se referindo.

Na verdade, o texto de Ricardo Resende estará inserido entre uma série de reproduções de e-mails trocados entre o artista plástico e o sociólogo Tiago Themudo, discorrendo sobre os conceitos ocultos por trás da sua empreitada criativa, cuja compreensão o próprio artista deixa bastante obscura. Citando referências teóricas de artistas plásticos como Hans Jacke, Michel Duchamp e Alfredo Jaar, ele considera que sua obra é ele mesmo enquanto artista.

“Meu objetivo não é constranger o público, aliás, o público é uma das peças dessa engrenagem”, provoca. Yuri considera que sua “obra” discute questões como o sistema e a crítica da arte, a mídia e o papel dos espaços criativos.

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CAPÍTULO 6
A voz oficial do O Povo

Em editorial, o jornal O Povo ataca o artista, chamando-o de frustrado, recalcado e rancoroso, e diz ser mesquinho e irresponsável o que ele fez. O texto também critica fortemente o Centro Dragão do Mar, cita um caso parecido envolvendo a revista Veja e (finalmente) joga uma parcela da responsabilidade para os próprios jornalistas.
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Reprodução – Editorial do jornal O Povo (CE)
12.01.06 – Matéria sem assinatura

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EDITORIAL
Provocação infeliz

Estarrecedor é o diretor Ricardo Resende dizer que a direção do Dragão do Mar tinha conhecimento da divulgação das falsas informações e, o que é pior, achar que é papel do Museu dar condições para a criatividade dos artistas locais. Um estranho conceito de criatividade

Os meios jornalísticos e culturais de Fortaleza foram sacudidos ontem por um estranho e constrangedor episódio: a exposição de um artista plástico japonês, cuja abertura fora anunciada pela imprensa para terça-feira, no Museu de Arte Contemporânea, do Centro Dragão do Mar, não se realizou porque o personagem principal, o autor dos trabalhos, simplesmente não existia.

Era fictício, ou virtual, para usar palavra da moda, criado pelo artista plástico Yuri Firmeza, que utilizou um factóide para provocar a imprensa. Uma forma de denunciar a ”negligência dos meios de comunicação locais com a produção artística da terra”. O próprio Dragão do Mar divulgou a mostra.

O caso merece reflexões e, de uma forma infeliz, servirá de advertência para a imprensa para evitar futuras aventuras irresponsáveis e, também, de parâmetro no relacionamento com entidades e produtores culturais.

O sr. Yuri Firmeza extravasou suas frustrações e recalques na mídia. Mas foi longe demais em suas elucubrações. Precisava usar de artifício tão mesquinho e irresponsável para divulgar seu trabalho e seu protesto? Mas ele tem liberdade para exercitar a sua “criatividade”. Não entramos nesse mérito.

Deplorável nisto tudo é o comprometimento do nome de uma instituição do porte do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, através do Museu de Arte Contemporânea. São estranhas as declarações do diretor do MAC, Ricardo Resende, publicadas na edição do O POVO de quarta-feira (Cotidiano, página 5), sobre o caso do artista plástico fictício. Para ele, o lamentável episódio não fere a credibilidade do Centro Dragão do Mar. Mas Resende esquece o seguinte: o caso fere o que um jornal tem de mais precioso: a credibilidade, a confiança dos leitores.

Estarrecedor é o diretor Ricardo Resende dizer que a direção do Dragão do Mar tinha conhecimento da divulgação das falsas informações e, o que é pior, achar que é papel do Museu dar condições para a criatividade dos artistas locais. Um estranho conceito de criatividade.

O próprio site oficial do Centro Dragão do Mar assume a travessura de Firmeza quando diz, ao divulgar o Projeto Artista Invasor, no Chá com Porradas: ”Yuri buscou repensar a arte contemporânea através da interferência na rede que constrói sua credibilidade, formada por museus, curadores, galerias e veículos de comunicação. A concretização dessa idéia se deu através da construção de um artista japonês fictício, Sousouzareta Geijutsuka”.

O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, inaugurado em abril de 1999, é uma instituição respeitada dentro e fora do Ceará. A participação da entidade em devaneios de um artista rancoroso e irresponsável compromete um nome construído ao longo de quase sete anos de trabalho eficaz.

Embora não sirva de consolo, a imprensa cearense não é pioneira nesse tipo de episódio. Em 1983, a revista Veja, em sua edição de 27 de abril, reproduziu uma brincadeira de revista britânica New Science, feita para o Dia da Mentira, que divulgara estranha descoberta científica, fruto da fusão em laboratório de células vegetais e animais, isto é, de boi com tomate, o ”boimate”.

A tal conquista, feita na universidade alemã de Hamburgo, era atribuída aos biólogos Barry MacDonald e William Wimpey. A matéria da Veja louvava a experiência inédita que “permite sonhar com um tomate do qual já se colhe algo parecido com um filé ao molho de tomate. E se abre uma nova fronteira científica”. A New Science dava pistas: Hamburgo, MacDonald, Wimpey (outro nome de rede de lanchonetes)… Mas a revista brasileira embarcou na história.

É preciso reconhecer que a imprensa cearense também não sai ilesa do caso do japonês fictício. Em plena era da Internet, com sites de busca tão precisos, não custava nada uma checagem em torno do nome divulgado. Apenas a credibilidade no Dragão do Mar não era suficiente. Que sirva de lição.

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CAPÍTULO 7
O Povo resume o fato, atendo-se aos fatos

O jornal O Povo publica um resumo dos fatos, num ótimo texto informativo, sem análises ou julgamentos. Para o leitor, tudo fica mais claro a partir das falas do artista, de seu amigo filósofo e do diretor do museu.
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Reprodução – Jornal O Povo (CE), Vida & Arte
12.01.06 – Matéria sem assinatura

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POLÊMICA
A arte do absurdo

Divulgada pelo Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, a exposição Geijitsu Kakuu e seu autor japonês Souzousareta Geijutsuka, na verdade, não existem. Tudo não passa de um “artista fictício” inventado pelo cearense Yuri Firmeza

Por essa, poucos esperavam. Uma exposição de arte contemporânea anunciada pela imprensa local era peça de ficção e seu autor, inexistente. Afinal de contas, quem iria de prontidão pôr em cheque a existência de um “renomado” artista plástico japonês, que viria ao Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – entidade-referência nas arte no Estado – para montar uma exposição sobre arte e tecnologia? Mas tanto a mostra Geijitsu Kakuu quanto o artista japonês Souzousareta Geijutsuka não passavam de um simulacro que ganhou um breve status de realidade. Após a veiculação de matérias de destaque nos principais jornais da cidade, o segredo é revelado: a tal exposição e o tal artista nada mais eram que invenções do artista plástico cearense (esse sim, real!) Yuri Firmeza.

Yuri não chega a definir o suposto artista japonês como pseudônimo nem como personagem. “Ambos são o meu trabalho, que basicamente procura questionar as regras do jogo que movem o campo da arte contemporânea”, explica. Yuri acrescenta que a tradução de Souzousareta Geijutsuka, do japonês para o português, significa ‘artista inventado’ e o nome da exposição Geijitsu Kakuu traduz-se por ‘arte e ficção’. “Na verdade, não se trata de uma crítica à arte contemporânea em geral, mas sim de revelar nas entrelinhas como se estrutura o sistema que vai desde museus, galerias e bienais até curadores, críticos de arte e imprensa. Esses elementos acabam legitimando a arte de tal forma, que para se criar um artista hoje não se leva mais em conta apenas o estético, mas sobretudo fatores mercadológicos. Boa parte da produção contemporânea se submete a isso”, afirma.

Segundo Yuri, a divulgação da exposição fictícia nos jornais foi uma das peças fundamentais para que seu trabalho desse certo. “Se não tivesse sido publicado no jornal, não conseguiria trazer à tona toda essa discussão. O trabalho corria riscos desde o início, porque era preciso publicar essa exposição como se fosse real na mídia. O jornal acaba sendo um meio de espetacularização da arte”, explica. O artista cearense apóia-se nas teorias do filósofo e sociólogo Pierre Bourdieu para argumentar que o jornalismo tem poder de sedução do público de massa. “Em Livre-Troca, Bourdieu diz que cinco minutos de jornal vale mais do que uma palestra de cinco mil pessoas. Todas as instituições querem visibilidade na mídia. A arte perde a autonomia e se rende ao capital”, afirma.

No entanto, para questionar tal visibilidade, era preciso fazer uso da mesma. Yuri chegou até a criar uma assessoria de imprensa – independente do Centro Dragão do Mar – com o intuito de tornar crível a divulgação da exposição aos meios de comunicação. Primeiro, escreveu um atraente press-release sobre a suposta exposição e o currículo do tal artista japonês, reafirmando sua importância no “panorama das relações entre arte, ciência e tecnologia”. Em anexo, foram enviadas algumas fotografias, que nada mais eram que imagens caseiras feitas por Yuri, manipuladas no photoshop. Depois, usando o codinome de uma assessora fictícia batizada de “Ana Monteja”, o próprio Yuri mandou o material à imprensa por e-mail. Já a assessoria do Centro Dragão do Mar divulgou o evento como se fosse uma exposição normal, sem qualquer conhecimento prévio de que tal exposição não existia. Yuri acrescenta que seu trabalho de “conotação política” não tem a intenção de denegrir qualquer jornal ou museu específicos, mas defende que “nenhuma instituição pode interferir na liberdade de criação do artista”.

Questionado sobre a possibilidade do episódio da “falsa exposição” afetar a credibilidade do Museu de Arte Contemporânea e do Centro Dragão do Mar enquanto instituições perante à imprensa e ao público, o diretor do MAC, Ricardo Resende, afirma que o museu tinha pleno conhecimento da iniciativa de Yuri, convidado para participar da quarta edição do projeto Artista Invasor, que já expôs obras de Jared Domício, Marta Neves e Solon Ribeiro. “Quando convidamos o Yuri para ser o artista invasor no período de janeiro a março, ele veio com essa proposta bastante provocadora do artista ficcional. Obviamente não sabíamos quais seriam as conseqüências e ainda estamos refletindo sobre isso. O trabalho de Yuri é conceitual e faz com que a gente repense a maneira como entendemos arte e como as informações são construídas. Não podemos reprimir essas experimentações”, explica. Até o fechamento desta edição, a reportagem do O POVO tentou contactar o presidente do Centro Dragão do Mar, Augusto César Costa, mas a assessoria da instituição afirmou que ele não concederia qualquer entrevista à imprensa e que só se pronunciaria sobre o assunto, durante o “Chá com Porradas”, bate-papo marcado para a noite de ontem com Yuri Firmeza e Ricardo Resende, no MAC. Yuri afirmou estar disposto inclusive a conversar abertamente com jornalistas sobre o episódio. “Dessa vez, será verdade”, brincou o artista.

Segundo a jornalista Adísia Sá, houve erro tanto por parte do Centro Dragão do Mar, que perpertuou a brincadeira, quanto dos próprios jornalistas, que acreditaram na fonte sem apurar sua veracidade. “O Dragão compactuou com a farsa, para fazer charme. Quem se desgasta é a fonte. Vai demorar muito para o Dragão restaurar sua credibilidade. Por outro lado, não há fonte absolutamente veraz. A informação deve ser buscada e investigada pelos jornalistas”, explica Adísia. Já Resende reafirma que a credibilidade do MAC não será afetada. “Yuri nos colocou nesse caldeirão. Nós assumimos esse risco, mas não vejo como seríamos desacreditados por causa do trabalho de um artista, que na verdade está provocando um simulacro. Se a exposição tivesse sido divulgada como sendo de Yuri Firmeza, talvez o artista não tivesse tido a repercussão que está tendo agora”, comenta. Resende diz que a direção do museu sentiu-se inclusive estimulada a criar em breve um curso de crítica de arte, para o segundo semestre de 2006. Segundo o diretor do MAC, a iniciativa polêmica de Yuri não é única no cenário da arte contemporânea. Ele lembra o trabalho do alemão Hans Haacke, que faz críticas severas à maneira como o Estado americano financia a cultura. Quando se fala de ludibriar a mídia com farsas bem elaboradas, os exemplos no campo da arte em geral são muitos: desde a transmissão radiofônica de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, pelo cineasta Orson Welles como se fosse uma verídica invasão de alienígenas na Terra; até a criação do heterônimo Julinho da Adelaide, por Chico Buarque, em plena ditadura militar dos anos 70.

Para Yuri, poucos são os artistas contemporâneos que têm a coragem de fugir dos clichês. “A arte contemporânea corre sérios riscos de não exercitar mais sua criatividade. Ao ficar subordinada ao mercado, tudo se torna mais fácil, mas muitos trabalhos não tem força para causar frisson no público. A arte precisa revelar suas forças e potências estéticas. É claro que existe uma produção contemporânea que vai na contramão, mas muitos trabalhos que vejo não dizem nada para mim. Então, das duas uma: ou o problema está na obra ou está no público”, questiona. De acordo com Yuri, a arte contemporânea precisa estimular as sensações e fazer com que o público tenha uma percepção diferente do comum. “A arte deve transvalorizar o que está imposto como moda ou padrão, estimulando o pensamento como vagões desordenados. O meu trabalho não deixa o público indiferente”, argumenta.

Enquanto O POVO divulgou a abertura da exposição Geijitsu Kakuu em uma breve coordenada – que, por ironia do destino, foi intitulada de “desconstruindo a arte” – na capa da edição de terça-feira do caderno Vida & Arte, o Diário do Nordeste dedicou duas páginas com direito à entrevista por e-mail com o suposto artista japonês Souzousareta. Na entrevista ao Caderno 3, Yuri “na pele” de Souzousareta já vinha dando pistas das discussões que pretendia levantadar com seu feito. “Não só no Brasil, mas me parece que em vários países desenvolvidos, as atividades da cultura precisam apresentar relevância mercadológica para encontrar linhas abertas de financiamento e incentivo. Precisamos estar o tempo todo brigando com nossa própria produção para não deixar que os clichês tomem conta de tudo. E é esse o problema, o público, em geral, adora clichês. Espero encontrar coisa diferente no Brasil”, afirmou na entrevista. Segundo Yuri, o trabalho do artista existe no momento em que tal arte é definida como tal.

Farpas ao vento, nada do que foi divulgado como obra do artista japonês está exposto no Museu de Arte Contemporânea. O espaço abriga a singela reprodução da troca de e-mails que Yuri teve com o doutor em Filosofia, Tiago Themudo, durante todo o processo de construção da idéia. “Foram cerca de 30 e-mails trocados com o Tiago, pensando todas as questões da arte contemporânea que já citei”. Segundo Tiago Themudo, o trabalho de Yuri Firmeza chama a atenção para a indistinção entre os produtos da arte e o campo do entretenimento. “O lucro e a boa campanha de marketing acabam se sobrepondo aos critérios estéticos. Além disso, todos os dias os jornais publicam mentiras. Seria até um contrasenso exigir do artista a verdade”, argumenta. Tiago entende como “ressentimento editorial dos jornais” toda a repercussão depreciativa feita por alguns veículos de comunicação que chegaram a desclassificar Yuri e seu trabalho, além de pôr em cheque a credibilidade do Museu de Arte Contemporânea e do Dragão do Mar. “Espero que isso não se torne um mal-estar moral dentro das redações de jornal, mas uma oportunidade para fortalecer as discussões”.

Com a polêmica rolando solta no ar, Yuri ainda confirmou que novas surpresas ainda estão por vir. “Vou realizar performances que não tem data, horário nem local prévio, durante os próximos dois meses”, acrescenta o artista que, desde 2001, acumula no currículo performances polêmicas, como andar nu em locais públicos. Para quem duvida das proezas de Yuri, não custa nada conferir o site (http://yurifirmeza.multiply.com) ou o blog (www.yurifirmeza.zip.net) do artista.

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CAPÍTULO 8
A editoria do caderno Vida & Arte se manifesta

A editora Regina Ribeiro, do caderno Vida & Arte, comenta o episódio, faz considerações e sugere questões sobre a arte e o jornalismo. Não chega a apoiar o artista, mas reconhece a eficiência de sua estratégia.

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Reprodução – Jornal O Povo (CE), Vida & Arte
12.01.06 – Matéria de Regina Ribeiro

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PONTO DE VISTA
A arte no jornalismo

Regina Ribeiro
da Redação

A modernidade esgarçou ao infinito a possibilidade da arte nos moldes aristotélicos. Além do mais a chamada pós-modernidade, com todos os hibridismos e conexões entre o possível e o inverossímil, transforma tudo em arte. Que pode ser nada. No entanto a raiz do que se pode chamar de criação artística ganha força quando se observa pelo menos um dos argumentos do filósofo grego: a “idéia” que pode ser expressa em ação é um dos componentes vitais da arte. Existe algo mais cabível na arte contemporânea, mesmo a que nega toda e qualquer explicação?

Deixa pra lá essa pendenga, porque o que importa mesmo é o esse novo artista, o japonês Souzousareta Geijitsuka, que “desembarcou” na cidade trazendo na bagagem a vontade de pôr sobre a mesa alguns incômodos que cercam o mundo da arte e os suportes que ela utiliza para se estabelecer.

A começar pelo imbróglio em torno do real. Souzousareta aprendeu que o artista não tem nenhum compromisso com a verdade. Isso é coisa da História, a começar por Homero. O que a arte deve ter é verossimilhança. Precisa convencer. E ele não perdeu isso de vista quando contratou “assessores de imprensa” – a incômoda muleta do jornalismo pós-moderno – para construir a imagem de um artista múltiplo e pesquisador – quase horaciano – da virtualidade e da eletrônica. E acertou de novo. Deu entrevista por internet para uma imprensa ávida pela apresentação do novo, do estrangeiro e do discurso rebelde-planetário recheado de clichês.

Tanto no Japão, quanto no resto do mundo contemporâneo a exposição artística se viabiliza ou é referendada a partir da mediação dos espaços midiáticos. E isso não acontece só com a arte, que tem em si, a função de ser apreciada desde as imagens pictóricas das cavernas, passando pelos poetas que contavam a aventura de homens e deuses na disputa eterna pelos feitos heróicos. A política há muito tempo é subserviente às câmeras e jornalistas. O terrorismo, idem.

E aqui sim, chegamos ao ponto crítico em torno de Souzousareta, o artista japonês considerado pela imprensa local “um dos nomes mais importantes quanto à interface ente arte contemporânea, ciência e novas tecnologias”, que já “expôs em vários países” e chega ao Brasil pela “quarta vez”. Que fala de Glauber Rocha, Darcy Ribeiro e Hélio Oiticica com aquela proficiência dos verbetes de almanaque. Aquele que está em busca da “harmonia entre a natureza que nasce e morre empregando equipamentos tecnológicos”.

A questão é que Souzousareta só existe a partir da informação publicada. É uma invenção. Uma fábula.(Portanto, arte.) Não se materializa em torno de uma alma pensante, mas existe como discurso. É real enquanto informação.

Mesmo diante da possibilidade da infinitude da interpretação de uma obra de arte que se propõe “aberta” e que trafega no espaço singular do imprevisível e das descobertas, o jornalismo é convidado a participar, quando ele é suporte dessa arte. Pronto. O bosque está pronto para ser explorado.

E aqui estão alguns vales e muitos atalhos. Os recursos e sistemas da produção da notícia deixam o jornalismo vulnerável a que tipos de armadilhas ?Criamos ou fazemos parte de um exército de crédulos seguindo discursos pré-fabricados com interesses anteriores definidos sem nenhuma reflexão? Por que nos dobramos tão facilmente ao que é estrangeiro? Por que referendemos com tantos adjetivos (bons e maus) o que não conhecemos? Será que são todas essas questões que arrastam o jornalismo para o mero entretenimento? (Pelo menos lá não há motivos para indignações).

E a verdade – motivo da revolta em torno do japonês e a forma como ele se fez criar a partir da mídia local- se apequena diante do volume de outras “criações” políticas, bélicas, científicas que o jornalismo contemporâneo tem ajudado a tornar reais. Sem dúvida, Souzousareta existe.

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CAPÍTULO 9
A notícia da marmota cruza a cancela

Uma semana após a descoberta da farsa, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo e reproduzido no site Observatório da Imprensa, o jornalista e biografista Lira Neto resume o episódio, sem analisá-lo.
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Reprodução – Jornal O Estado de S. Paulo (SP) e site Observatório da Imprensa
17.01.06 – Matéria de Lira Neto

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Arte inventada
Lira Neto

Um artista ‘genial’. E ele nem existia

Seria um acontecimento. O japonês Souzousareta Geijutsuka, anunciado pela imprensa cearense como um dos principais nomes da arte contemporânea universal, era ansiosamente esperado semana passada em Fortaleza, para abrir a exposição Geijitsu Kakuu. Convidado especial da curadoria do Museu de Arte Contemporânea do Ceará, Geijutsuka mostraria ao público cearense por que seu trabalho é aclamado em todo o planeta como uma obra revolucionária que, segundo o material de divulgação de sua eficiente assessoria de imprensa, incorpora ‘novos conceitos à arte’, como os de ‘operação em tempo real, simultaneidade, supressão do espaço e imaterialidade’. Os jornais locais deram amplos espaços para a divulgação da exposição. Um deles chegou a publicar, no dia marcado para a abertura do evento, uma entrevista de página inteira com Geijutsuka. Tudo perfeito, não fosse um detalhe: Souzousareta Geijutsuka não existe.

A idéia de inventar o tal japonês que – segundo informava um jornal de Fortaleza – ‘conquistou fama mundo afora por unir arte, ciência e tecnologia’ partiu de um jovem artista de 23 anos, Yuri Firmeza, paulistano radicado na capital cearense desde a infância. ‘A intenção foi mostrar como a arte hoje em dia encontra-se subordinada a exigências e manipulações mercadológicas e a modelos construídos e legitimados pela mídia, pelas galerias e pelos museus’, explica Firmeza. Para tornar sua história mais verossímil, ele conseguiu convencer especialistas a escreverem textos críticos sobre a obra do fictício Geijutsuka, incluindo aí o próprio diretor técnico do Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC), Ricardo Resende, 43 anos, ex-curador do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). ‘Vivemos uma era em que muitas outras forças, além daquelas que o artista naturalmente dispõe para criar, regem o sistema da arte’, já denunciava também Resende, de forma velada, no texto de apresentação da ‘exposição’.

Tudo foi planejado nos mínimos detalhes. A namorada de Yuri Firmeza se fez passar por assessora de imprensa e abasteceu os jornais locais com imagens de algumas das ‘obras’ de Geijutsuka. Entre elas, uma série de fotos prosaicas de um gato, que foram publicadas na imprensa local como sendo cenas de um ‘videoarte’ do ‘genial japonês’. ‘Era apenas um gatinho que vi na rua, num bairro aqui em Fortaleza, e fotografei com minha máquina digital doméstica’, revela Firmeza. Uma fotografia de uma ensolarada praia cearense, distorcida em um editor de imagens para parecer uma figura abstrata, foi estampada também pela imprensa local como um ‘infográfico’ de Geijutsuka. Na legenda da ilustração, uma frase pinçada da longa ‘entrevista’ que ele havia concedido, por e-mail, ao jornal: ‘Os historiadores da arte são iguais ao público: têm dificuldades de reagir ao que não entendem’.

Yuri deixou algumas pistas propositais, que não foram decodificadas pelos jornalistas. Em japonês, Souzousareta Geijutsuka significa exatamente ‘artista inventado’. E o nome da exposição, Geijitsu Kakuu, pode ser traduzido como ‘arte e ficção’. No material de divulgação repassado à imprensa, dizia-se ainda que o suposto artista havia criado a fotografia ‘Shiitake’, nome do cogumelo que pode ser encontrado em qualquer restaurante japonês, mas que foi definida por sua ‘assessoria de imprensa’ como uma ‘técnica que permite a captação dos fenômenos invisíveis ocorridos na atmosfera’.

No dia da abertura da anunciada exposição, em vez das obras revolucionárias de Souzousareta Geijutsuka, o público deparou-se apenas com uma série de e-mails pregados na parede da sala reservada ao evento pelo museu. Nas mensagens, Yuri Firmeza e um amigo trocavam idéias sobre arte contemporânea e discutiam animadamente a obra de autores como Gilles Deleuze, Antonin Artaud e Pierre Bordieu. Dessa troca de e-mails é que surgira a idéia de criar um artista imaginário. ‘O que me interessa é interrogar sobre a qualidade do que compõe todo esse sistema de legitimação estética: críticos, jornais, artistas, curadores, galerias, museus e o próprio público’, escreveu Firmeza em uma dos e-mails ao amigo. ‘Não sei como será a receptividade em relação ao Geijutsuka, mas acredito que suscitará saudáveis desconfortos’, previa.

Dito e feito. Revelado o simulacro, a reação da imprensa cearense foi violenta. Yuri Firmeza foi chamado de ‘moleque’ pelos jornais e foi alvo de editoriais indignados. Sobraram farpas também para a direção do MAC por ter ‘compactuado com a farsa’. ‘Em vez de irritar-se, a imprensa está perdendo uma ótima oportunidade para refletir sobre as provocações que Yuri Firmeza fez a todos nós’, avalia o diretor técnico do museu. ‘Não se tratou de uma ferroada à mídia local, o mesmo poderia ter ocorrido em qualquer lugar do país. No Brasil, somos deslumbrados pelo que vem de fora e pelo que nos é apresentado como algo novo e revolucionário, é nisso que todo esse episódio nos obriga igualmente a refletir’, analisa Resende.

‘Bastaria fazer uma rápida pesquisa no Google para que os jornalistas descobrissem que não havia, na internet, nenhuma menção ao tal Geijutsuka, apresentado como um artista famoso, com exposições consagradoras em Tóquio, Nova York, São Paulo e Berlim’, diz Yuri Firmeza. ‘Mas eu não quis provocar apenas a imprensa, isso seria reduzir o alcance da denúncia; a provocação foi extensiva a todo o circuito das artes em geral’, insiste ele, que mantém uma página pessoal na internet (http://yurifirmeza.multiply.com/) onde registra suas principais performances – ou suas ‘orgias multipoéticas’, como prefere definir. Não se estranhe nada do que for visto ali. Afinal, na pele de Souzousareta Geijutsuka, na ‘entrevista’ à imprensa de Fortaleza, ele já advertira: ‘Tudo está integrado a um exercício do simulacro, cujo objetivo é retirar os hábitos de seu estado de evidência’. Seja lá o que isso possa vir a significar.”

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CAPÍTULO 10
O Globo publica com destaque

Em matéria destacada em seu caderno cultural, o jornal O Globo dá voz ao diretor do museu e ao artista, mas infelizmente não ouve nenhum dos jornalistas envolvidos na farsa, deixando de informar melhor aos seus leitores. A matéria revela que os jornais de Fortaleza não deram importância às edições anteriores do Artista Invasor, nas quais participaram artistas locais, e nenhum japonês.
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Reprodução – Jornal O Globo (RJ), Cultura
23.01.06 – Matéria sem assinatura

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A CILADA DO ARTISTA INVASOR
Artista cearense engana imprensa inventando um colega japonês

A informação chegou aos cadernos de cultura do Ceará e foi ali reproduzida. Um célebre e renomado artista japonês, Souzousareta Geijutsuka, viria ao país pela quarta vez para abrir, no dia 10 deste mês, sua exposição “Geijitsu kakuu”, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Fortaleza. No dia seguinte à divulgação do evento pela imprensa local, veio a revelação: Souzousareta não existia. Era tudo uma invenção de um artista de 23 anos, Yuri Firmeza, que quis criar um trabalho justamente sobre os critérios para o reconhecimento da arte nos dias de hoje. Depois de pregada a peça, a imprensa cearense passou a discutir o assunto de forma apaixonada na semana passada, uns com louvores à idéia de Firmeza, outros — sobretudo os que caíram na cilada — atacando ferozmente o que seria uma molecagem de menino. Além da atitude do artista, foi criticada a participação do MAC, reconhecida instituição de arte contemporânea, por ter colaborado com a farsa.

— Quis questionar o papel do museu, da formação de artes visuais e da imprensa. O artista que criei é a própria obra, e o suporte do trabalho foi o jornal — diz Firmeza, recentemente selecionado para o projeto Rumos, do Itaú Cultural, que trará jovens talentos para uma exposição no Paço Imperial este ano. — Achava que os jornalistas teriam mais humor. Faltou reconhecer que eles têm esse interesse pelo que é de fora, querem ser seduzidos pelos mesmos artifícios com que seduzem o público. Eles provaram ainda mais o quanto são reacionários. Levaram para o lado pessoal, o ego foi ferido.

Não havia registro do artista na internet

Mas o humor ficou mesmo por conta da releitura dos textos publicados. Segundo o jornal local “O Povo”, o trabalho do artista era reconhecido no mundo todo e tinha como foco “a harmonia entre a natureza que nasce e morre, empregando equipamentos tecnológicos, para abordar a discussão em torno da fragilidade da vida e suas conseqüentes contradições”. Informações retiradas da assessoria de imprensa do artista, feita pela namorada de Firmeza.

Além de um texto exaltando a arte eletrônica de Souzousareta, a competente assessora enviou registros do trabalho: uma foto de um gato, que seria um trecho de um vídeo, e uma imagem, distorcida em photoshop, da Praia Porto das Dunas. Se passaram ao largo do fato de não haver qualquer registro do japonês na internet ou em textos impressos, é normal que ninguém tenha percebido as pistas deixada por Firmeza no próprio nome que deu ao artista, que em português significa “artista inventado”, e à exposição, “arte e ficção”. Diretor do MAC há 11 meses, Ricardo Resende não interferiu nessa divulgação, mas admite que passou por uma saia justa:

— Um jornalista do “Diário do Nordeste” me ligou para saber da mostra porque não estava encontrando informações. Fui pego de surpresa. Disse que pediria para o artista entrar em contato com ele.

Foi o que o artista fez. No papel de Souzousareta, respondeu a uma entrevista por e-mail, que foi publicada em página inteira. Foi uma repercussão da qual museu e artista não tinham idéia quando Firmeza propôs o artista inventado ao ser convidado para o projeto Artista Invasor.

— Procuro dar a máxima liberdade para o artista criar. Convidei o Yuri pensando em suas performances, que já achei que seriam bastante ousadas (ele faz muitas das performances nu). Mas ele foi mais ousado ainda e me testou, para ver até onde eu iria. Eu fui adiante, porque tive o apoio da presidência do museu. Sabíamos que poderia haver um conflito, mas a imprensa podia não ter publicado uma linha sobre o assunto — avalia o diretor do MAC de Fortaleza.

Para Resende, a divulgação só prova o preconceito da imprensa com os artistas cearenses, já que nas outras edições do Artista Invasor não houve qualquer reportagem:

— Há um certo deslumbramento com o que vem de fora no Brasil todo, não só no Ceará. A mídia insistiu em publicar a matéria, mesmo com dificuldades de achar informações. Foi uma ingenuidade, ou mesmo uma falta de conhecimento de arte contemporânea. Depois houve uma tentativa de jogar o erro para o outro, enquanto o grande erro foi da própria mídia.

Firmeza, apesar de enfatizar que o problema é da imprensa em geral, faz críticas à falta de especialização no estado.

— Acho que a imprensa de São Paulo e do Rio também poderia ter caído nessa. Mas o Ceará é uma província. Aqui os jornalistas não têm fundamentação teórica sobre arte, é uma verborragia — diz ele, citando o artigo “Arte e molecagem” do jornalista Felipe Araújo, de “O Povo”, que afirma que a arte contemporânea é, “com raras exceções, uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação.” — Todo o preconceito está ali.

Para diretor, museu cumpriu seu papel

No museu, o visitante poderá ver a troca de e-mails entre Firmeza e um amigo sociólogo, com conversas sobre Bourdieu, Nietzsche e Deleuze, inspiradoras da idéia de se criar um artista inventado. Aos poucos, o local receberá ainda as fotos do suposto japonês, divulgadas para a imprensa, reportagens sobre o caso e performances e registros em vídeo de Yuri — que não sabe como a exposição teria sido montada se nada houvesse sido publicado nos jornais:

— Foi um risco que corri desde o início. Mas de qualquer modo estaria lá a troca de e-mails. As performances aconteceriam e também voltariam ao museu como registros. Só sei que se o Yuri tivesse enviado o material, nada teria sido publicado na imprensa.

Para Resende, o museu saiu fortalecido no meio artístico porque mostrou que funciona para ousar:

— Nossa credibilidade não está ferida. Acho que as pessoas se perguntam que mídia é esta, que informações estão lendo. O museu só está cumprindo seu papel de ser o espaço do artista. O trabalho deu muito certo porque chegou ao editorial do jornal e a outras áreas em que a arte contemporânea nunca é tratada. Ele foi realmente um invasor.

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ESCREVERAM SOBRE O CASO

O que a imprensa cearense publicou, antes e depois – Seleção de artigos e editoriais

Shiitake – Geijutsuka, o “desmaterializador” – Coluna da Mônica Bergamo, Folha de São Paulo, 21.01.2006

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YuriFirmeza2006-01Yuri Firmeza (2006)
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YuriFirmeza2006-04Yuri Firmeza (2006)
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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- ADOREI… ABRAÇOS. José Alberto Simonetti, Fortaleza-CE – jan2006

02- Gostei!!!!!!!!! Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – jan2006

03- Olá grande e insano Ricardo … Há exatamente um ano atrás estava trabalhando na Produção do Festival Vida e Arte, quando as obras contemporãneas do Yuri causaram certa divergência quanto ao conceito  do evento que queria algo mais moderno. Resultado O Grande Yuri e suas idéias ficaram de fora do FESTIVAL, mas em menos de uno depois ele ressurge das cinzas, assim como fênix,ou melhor, ele não eles…rsrsrs…ele e seu Japa alencarino, e dão um show ( literalmente falando) !!! E eu perdi a chande cumprimentá-lo, pois estava no ponto de parada do coletivo ( Campus do pici-Unifor)…vulgo buzão, ao lado desta fera chamada Yuri, não sei se um só ou dois agora…e fiquei mumificado…não conseguia falar!!! mas o seu feito é maior que qualquer palavra. Seu artigo está show….aliás você é show!!! Um abraço e apareça aqui em Fortalville! É isso aí…Ana carolina e seu Jorge cantam: “Há quem acredite em milagres”. Fabiano Brilhante, Fortaleza-CE – jan2006

04- Aí, perfeito. Abraços. Júlio Cesar Montenegro, Fortaleza-CE – jan2006

05- Grande Kelmer, Que bom nos encontrarmos em mais uma presepada !!! Fico feliz que você tenha tido a compreensão da nossa séria brincadeira. Vamos promover alguns debates emum seminário sobre comunicação e cultura em março.Retomaremos este e outros assuntos.No mais obrigado pelos tão bem vindos apoios nestashoras de muitas incompreensões. Forte abraço. Luis Carlos Sabadia, Diretor de Ação Cultural, Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Fortaleza-CE – jan2006

06- Ducarái!! Adorei! Valdo Siqueira, Fortaleza-CE – jan2006

07- Fascinante! Eu não estava sabendo… Também, eu vivo em outro mundo. Que cara genial. Claudio Roberto Azevedo, Fortaleza-CE – jan2006

08- Muito boa Ricardo. Du cacete!!!. Rodrigo Grunewald, Campina Grande-PB – jan2006

09- Valeu! Inclusive, acabo de repassar tua marmota prum grupo de discussão sobre música do qual participo, cheio de gente boa — alguns de Fortaleza –, que saberá apreciar a ironia. Alexandre Feitosa, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

10- Pois num eh… Foi uma comédia mesmo! rsrs Uma comédia providencial, diga-se de passagem.. Jéssica Giambarba, Fortaleza-CE – jan2006

11- Boa, Ricardo, boa mesmo! Abraço. Felipe Costa, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

12- Ô, Ricardo Por essas e outras marmotas é que acredito que será 2006, realmente, um ano bom. E, aproveitando o contexto da confusão, me deu uma vontade muito grande de comer sushi… Raimundo Netto, Fortaleza-CE – jan2006

13- Ótima essa história, em? E esse Yuri é meu primo. Na verdade, filha da prima legítima da mamãe. Olha só o nome do japa, Sousa … e eu, Liliana de Sousa Costa. Tudo em família. Beijo grande em você. Liliana Costa, Lisboa-Portugal – jan2006

14- Uau! Demais. Giovanna Bressan, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

15- Hehehehe… Muito bom o artigo, camarada Kelmer! Temos que botar isso para frente. Esta história de estátua seria uma ótima! No Dragão seria perfeito, mas em qualquer outro lugar tá de bom tamanho. Um grande abraço. Nelson Eulálio, Fortaleza-CE – jan2006

16- Caraca, embora a idéia não seja muito original o que é triste é que jornalista sempre cai. Frô, São Paulo-SP – jan2006

17- Caro Ricardo, E veja só, que o jornal de maior circulação do Ceará abriu foto de três colunas na capa da edição de hoje para dar um artista plástico que faz greve de fome no calçadão da Beira Mar. Mais cearense e mais real impossível. Abraço, querido. Do amigo, cheio de novidades pra contar e morrendo de vontade de dar boas gargalhadas da vida e dos vivos. Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – jan2006

18- Ricardo, você provou que é um artista “antenado” ( no sentido poundiano), que está enxergando bem mais longe que os mais comuns dos mortais. Sua análise está perfeita e topa comprar uma briga com a mediocridade ainda reinante. Você pôs o dedo na ferida. Faltou apenas aprofundar um pouco derme a dentro. Eu acho que você conseguiu até ir longe demais. No mais, achei bom ler um resumo de tua gloriosa biografia e descobri que temos mais coisas em comum do que eu imaginava: primeiro, você fala de uma “santa pneumonia”. Eu falo de uma “santa hepatite” que tive aos 17 anos e que me fez passar uns trinta dias de cama e lendo livros que foram decisivos na minha formação cultural. Segundo, você morou em Manaus, São Paulo e Rio de Janeiro. Eu também. Nosso placar, está 2 a 2. Fico contente em saber que o amigo continua lúcido, produzindo e deleitando os leitores com um papo inteligente e divertido. Um abraço do Francis Vale, Fortaleza-CE – jan2006

19- Bravo! Bravíssimo! grande abraço desse idiota que concorda em gênero, número e grau com vossa opinião. Fernando Costa, Fortaleza-CE – jan2006

20- eu adorei isso… hehehehe abração, cara! Adriano de Lavôr, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

21- É impressionante como o povo marmotoso se atrai! Pode até vir japonês, coreano o que for, mas a vaga de marmotoso-mór da terrinha aqui já tá preenchida:P Rafaela Almeida, Fortaleza-CE – jan2006

22- Muito bom, Kelmer! Li essa historia pelo Lira e depois diretamente nos jornais cabeca-chata e bolei de ri aqui. Abracos. Antonio Marinho, Fortaleza-CE – jan2006

23- Caro RK, valeu a crônica – “A marmota do ano”. Pensando bem, o Yuri Firmeza ninjou nos brios das torres gêmeas de nossa provinciana imprensa. E ambas caíram do salto. E você, como um bom e genuíno observador de uma virtual Praça do Ferreira, é que faz a verdadeira imprensa da contemporaneidade – a crônica -, não perdeu a brecha dessa saia-justa. Valeu e, pensando um pouco mais, aproveitano a foto, etc. vejo que o Yuri Firmeza é a cara do Bin Laden… Esteticamente falando, enfim,  ficou no ar a pólvora de uma molecagem que, no seu desconcerto, é nosso maior instrumento de exercício dionisíaco do Belo. Fica o abraço do Leite Jr., Fortaleza-CE – jan2006

24- Sobremaneira, os debates que decorreram do acontecido deixaram enfim espaço na imprensa jornalistica escrita para se falar de pensamento e que pensar faz parte da vida. Mesmo em tempos de sofisticadas tecnologias não se pode abrir mão do pensamento no sentido stricto e que a universidade, os intelectuais e as vanguardas têm ainda um papel na nossa sociedade. Sobretudo, valeu para furar as páginas já escritas dos jornais dos dias que virão. Terão ou tiveram obrigatóriamente que escrever ‘outra’ história. Foi muito inteligente. É importante também ressaltar que os museus (Dragão e de Arte do Ceará) fizeram um papel responsável. A função dessas instituições não deve ser a da perpetuação e reprodução das leis que compoem um campo de poder e sim o de se aliar as linhas de força que tentam resistir e provocar a reconfiguração deste campo. Foi muito profissional e responsável conceitualmente a acolhida que deram para Yuri. Agora é ler, ouvir, escrever, conversar. Viver. Um abraço. Rosângela Matos, Fortaleza-CE – jan2006

25- Me fez lembrar o “Porco” do Leiner, enviado ao Salão de artes plásticas de Brasília. Diuk Mourão, Brasília-DF – jan2006

26- Caro Ricardo, Como sempre acompanho com sincera admiração sua coluna, não me contive diante de seu texto sobre a marmota do Dragão e decidi escrever-lhe só para deixar claro alguns pontos. Primeiro, reafirmo o que escrevi no meu artigo (“Arte e molecagem”) sem tirar uma vírgula. Segundo, não me cabia pedir desculpas para ninguém já que não fui eu que escrevi as “barrigadas”. Essa é uma iniciativa que caberia, se eles assim entenderem, às editorias e aos jornais envolvidos no caso.  Minha colher nesse debate foi apenas o artigo. Mas é aquele negócio: uma coisa é uma coisa e um pneu é um pneu. Embora discorde de tudo que você escreveu (mas tenho que reconhecer que seu estilo continua muito afiado…), reconheço, ops… perdão, acaba de passar um limpa-fossa por aqui também…, peraí… Pronto. Devo dizer que adorei a expressão sobre a nudez do rei e o tamanho do pinto real. Mas me admira o fato de você, passado na casca do alho, ter achado que descobriram que o rei só ficou nu agora. Lagartão, muita gente já tinha visto o pau do rei há algum tempo por aqui. Não foi a intrujice do doidinho e do Dragão que nos fez ter esse “privilégio”. Vamos bater na imprensa (às vezes, é um troço saudável inclusive para os jornalistas, em especial para os sadomasoquistas), mas vamos aprender a socar primeiro e, se possível, de maneira leal. Dar uma “cabeçada” (eita!) por trás (EITA!) pode, às vezes, doer nos próprios cornos. Acho que é isso. Vou indo que o disco do Frankito Lopez, o índio apaixonado, terminou de tocar e tenho que procurar o CD do Carlos Santos. Sincero abraço e saudações alvinegras, Felipe Araújo, Fortaleza-CE – jan2006

27- Intervenção interessante. Um ensaio razoável de crítica, mas eu diria que de efeito bumerangue. Teria sido melhor se o autor não tivesse caído na tentação de dar explicações para o feito. Deixasse o pau troar, as carapuças serem vestidas e a obra falar por si. Mesmo assim,  acho que a participação do MAC compromete os objetivos inicias da crítica ou, melhor, traz o outro lado da mesma moeda. Ao tentar a crítica aos ‘ fatores mercadológicos ‘ que afetam a produção artística revelou o fator-estado que aprisiona a arte e seus produtores ( locais? e não-locais? ). Teria sido perfeito se o tento tivesse sido realizado sem a conivência do papai-estado , numa espécie de ensaio anti-sistêmico. Ai, sim, poderíamos começar a pensar a tal liberdade de cria –ação . Por enquanto, acho que o bom castigo para todos os envolvidos, inclusive nós ‘ idiotas’ leitores, é pensar mais e melhor sobre a questão. Lilia Costa, Fortaleza-CE – jan2006

28- Oi Ricardo Kelmer. Valeu pela força em relação ao japonês. Mesmo que a imprensa local não esteja reconhecendo (pelo menos não publicamente) a sua vulnerabilidade, a falta de compromisso, o descaso com os artistas locais… acho que o trabalho funcionou, justamente por estar conseguindo um espaço de discussão enorme aqui na net. Isso é maravilhoso!!!  Muito legal o seu texto Ricardo, incisivo e com humor. Humor que faltou por parte da imprensa local. Vi o fórum do jornal, legal ver o pessoal dando uma força, tenho recebido muitos e-mails de pessoas que não conheço, a maioria dando força e tal…  O artigo do Felipe foi péssimo, demonstrou o preconceito dele com a arte e artistas locais… que bom que o pessoal também entendeu dessa forma e começam a se manifestar…Você falou de um japonês no Orkut, eu conhecia a comunidade… o japonês realmente não sou eu, e concordo com você, o japa usou palavras agressivas demias… que eu realmente não usaria e não usei em momento algum… Parabéns novamente pelo seu texto!!! Obrigado pela força, massa!!! Abraços. Yuri Firmeza, Fortaleza – jan2006

29- ADOREI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! beijos da fã Armôndega Porvilho. Monica Buonfiglio, Campinas-SP – jan2006

30- É isso aí velho, a melhor resenha do fato é mesmo sua, com todas as letras e calafrios – e ainda um caminhão limpa-fossa passando ao fundo… Tem até cenário a marmota!  Parabéns! Max Krichanã, Fortaleza-CE – jan2006

31- Camarada Kelmer, Gostaria de lhe parabenizar pela crônica: “A MARMOTA DO ANO”. Parabenizar não só pelo texto em si, que diga-se de passagem: tá excelente, mas principalmente pela coragem de publicá-lo na imprensa cearense através do veículo que mais atacou Yuri Firmeza e toda a categoria artística cearense, o Museu de Arte Contemporânea – MAC – na pessoa de seu diretor Ricardo Resende (que tem tido uma gestão atípica, coisa que tem projetado o MAC em nível nacional e de forma positiva) e, por tabela o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, além de nós meros mortais consumidores dos produtos dos Deuses (ou pelo menos agem como se assim o fossem) da impressa cearense – os coronéis da mídia local. Como escrevi no fórum do “O Povo” sinto-me vingado! Isso antes de ler sua crônica. Depois, estou dando gargalhadas até agora da cara dos pseudo-jornalistas locais (sim, pois ainda acredito que existam jornalistas sérios, pena que são raros) quando viram sua iniciativa. Markus Markans, Fortaleza-CE – jan2006

32- Adorei do texto!! PERFEITO!!! Pra você ver a quantas anda a imprensa cearense… eu acho bem feito. Então a estratégia de guerra é desqualificar uma pessoa que põe em xeque as sagradas empresas jornalísticas? Até parece que elas são infalíveis… Muito bom mesmo o que o Iuri Firmeza fez. Esse jornalecos cearenses que se acham portadores da verdade mereciam mesmo uma lição. E não só os cearenses, bem sabemos. A imprensa nacional, mundial, inter-galática (sic! hehe) é pedante! “Sim, nós somos um veículo de denúncia em prol da comunidade”… Pois tá. Me engana se te faz feliz. Falo dos jornais do Ceará porque sei que não têm comprometimento com outra coisa que não seja o lucro. Já trabalhei em um deles, sei o que se passa lá dentro. Os “jornalistas” são na maioria estagiários, que se prejudicam na academia pra fazer trabalho grande. É assim que eles qualificam um profissional? Provavelmente, as fontes não foram checadas “direito” porque o cara responsável por isso tinha aula… Talvez se investissem e respeitassem mais o profissional a coisa fosse diferente…Não sei. Aliás, quem sou eu pra dizer alguma coisa que não seja carregada de juizo de valor? Enfim, o que o tal Firmeza fez não foi novo, mas na minha opinião foi justo. Patrícia, Fortaleza-CE – jan2006

33- Adorei o texto, o pior que isso acontece mesmo (risos). Um grande beijo. Mariucha Madureira, Brasília-DF – jan2006

34- Sobremaneira, os debates que decorreram do acontecido deixaram enfim espaço na imprensa jornalistica escrita para se falar de pensamento e que pensar faz parte da vida. Mesmo em tempos de sofisticadas tecnologias não se pode abrir mão do pensamento no sentido stricto e que a universidade, os intelectuais e as vanguardas têm ainda um papel na nossa sociedade. Sobretudo, valeu para furar as páginas já escritas dos jornais dos dias que virão. Terão ou tiveram obrigatóriamente que escrever ‘outra’ história. Foi muito inteligente. É importante também ressaltar que os museus (Dragão e de Arte do Ceará) fizeram um papel responsável. A função dessas instituições não deve ser a da perpetuação e reprodução das leis que compoem um campo de poder e sim o de se aliar as linhas de força que tentam resistir e provocar a reconfiguração deste campo. Foi muito profissional e responsável conceitualmente a acolhida que deram para Yuri. Agora é ler, ouvir, escrever, conversar. Viver. Um abraço. Rosângela Matos, Aracaju-SE – jan2006

35- Prezado Ricardo, Considero um  exagero esse massacre da imprensa cearense no episódio do artista japonês inexistente. Só quem não tem intimidade com pesquisas no Google é que pode acreditar que “bastava uma googlada” para descobrir a inexistência do artista. Como se fosse fácil !!! Criou-se esse mito de que o Google acha tudo. Nada mais enganoso. Não só o Google não acha tudo, como existe uma enorme fatia do planeta onde ele não penetra, pelo menos com pesquisas feitas usando o alfabeto latino. O fato de não se achar referências ao nome do artista não quer dizer que ele não exista! Será isto tão difícil de entender? Ainda mais se tratando de artista “japonês”. As buscas no Google usando o romaji (=japonês escrito com alfabeto latino) são totalmente inconclusivas, porque 99.99% do que está escrito em japonês não é transcrito para esta escrita fonética (que se usa mais para comunicar com ocidentais). Para uma busca precisa seria necessário digitar nos caracteres japoneses (ideogramas) e naturalmente entender o conteúdo. Uma pessoa pode ser uma celebridade local no Japão e não existir uma única menção acessível via romaji. Fica a questão: para ser jornalista é preciso falar e escrever em japonês? E se o “artista” fosse russo, coreano, tailandês, vietnamita ou grego? Cada uma dessas línguas tem o seu próprio alfabeto e portanto são mundos fechados para o Google digitado em alfabeto romano. Tem que saber a língua e digitar no seu alfabeto… E, como sabemos, são muito poucos os grupos de comunicação no Brasil que tem bala na agulha para manter uma rede de correspondentes internacionais. Acredito que muitos jornalistas tenham feito a pesquisa no Google, afinal isso é hábito na profissão. Mas na falta de confirmação, preferiram dar o benefício da dúvida e publicar a nota, afinal a fonte construiu uma relação de confiança ao longo de anos e centenas de releases verdadeiros. Não havia razão para duvidar. Abraços. Alan Romero, Lisboa-Portugal – jan2006

36- Oi, Kelmer, como está? Achei super bacana seu artigo sobre o Zé Sareta; comungo com sua idéia de erguer uma estátua dele. Um abraço! Jorge Ritchie, Fortaleza-CE – jan2006

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O major da China

08/05/2013

08mai2013

A folha em branco era o próprio Partido Comunista Chinês a me desafiar: ou você escreve trinta linhas ou então zapt!

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O MAJOR DA CHINA

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Com 11 anos, entrei para o Colégio Militar, lá se foi meu cabelão anos 70. No início até me empolguei com a novidade, mas aos poucos emergiram certas incompatibilidades com a filosofia militar. Eu era um aluno estudioso, sim, mas ali a minha energia criativa e os anseios de liberdade não encontravam muito espaço. O colégio parecia desafiar minha natureza: Ei, mocinho, esse lugar é pequeno demais para nós dois…

Passar por média era importante, porém bem melhor foi me sagrar campeão do Torneio de Tampinha de 1977, organizado pelo grêmio, uma final arduamente disputada entre eu e Celestino ‒ e a medalha, ostentei-a orgulhosamente no peito durante meses. Havia uma máfia que protegia calouros em troca de lanche na cantina, e eu fiz parte, claro. E participava das excursões ao Colégio Imaculada Conceição para paquerar as alunas, e depois, inspirado nelas, escrevia contos eróticos que circulavam secretamente durante as aulas. Era divertido. Mas havia todas aquelas regras, hierarquias, a ênfase no obedecer ordens…

Então, na sétima série, o major professor de geografia, disciplina que eu adorava, marcou a prova final. E, como sempre, nos passou cinco temas para a redação, um deles cairia. Segui minha velha e infalível estratégia, inspirada na lei das probabilidades: estudar três temas, dar uma olhadinha no quarto e desprezar o quinto. Pois dessa vez falhou: caiu a China, o tema que eu não estudara. Putz, bateu logo a angústia. Eu, um dos melhores em geografia, tirar zero na redação, que vergonha. Respirei fundo, me concentrei. Mas a folha em branco era o próprio Partido Comunista Chinês a me desafiar: ou você escreve trinta linhas ou então zapt!

Aumentei logo o tamanho da letra, recurso básico. E tratei de errar aqui e ali, riscando e reescrevendo em seguida, tudo para preencher as trinta linhas. Sobre a China, nada de economia, clima, bacias hidrográficas – apenas o ridiculamente óbvio: era um país enorme, ficava na Ásia, capital Pequim, o Japão bem ao lado, e tinha a muralha. Estiquei bem o trivial, que nem os olhos dos chineses. No fim percebi, desanimado, que ainda restavam sete intermináveis linhas. O que mais poderia dizer?

Resolvi apelar para o bom humor. O major, gente boa, ia entender. “Como já disse no primeiro parágrafo, caro professor, a China é o país mais populoso do mundo. Há quem diga por aí que isso se deve, veja só o senhor, ao fato dos chineses comerem com dois pauzinhos. Mas não há confirmação científica.” Pois é, juro por minha medalha de ouro de tampinha que escrevi isso. A piadinha cumpriu seu papel, sim, mas ainda restavam três malditas linhas. Então, aberta a porteira, soltei a boiada: “Bem, major, isso é tudo que sei. Se o senhor quiser saber mais, só me resta dizer: vá pra China!”

Entreguei a prova satisfeito, crente que minha espirituosidade renderia uma boa nota. Três dias depois o major manda me chamar, eu deveria vestir a farda e ir até sua residência. Como o major morava perto de minha casa, fui caminhando até lá, sonhando com honras ao mérito. Ele me recebeu fardado, muito sério. Bati continência e ele me conduziu à sua sala. E me passou um sermão que jamais esquecerei. Falou de minha petulância e falta de respeito, que eu zombava da autoridade, que se eu pensava que podia mandá-lo para a China e ficar impune, estava muito enganado. “Por causa dessa estupidez, vou lhe dar um zero, não só na redação mas na prova inteira, e você vai para a recuperação! E só não será expulso do colégio por consideração a seu pai, de quem sou amigo.”

Expliquei que não quis ofender, só tentei por um pouco de humor… “Respeite a instituição, aluno! O Colégio Militar não é circo!”, ele metralhou, do alto de sua patente, os meus ingênuos 13 anos. Mas major, eu só estava brincando, o senhor não sentiu? “Eu não julgo as coisas pelo que sinto! Eu julgo pelo que vejo!”

Saí de lá humilhado. E decepcionado, pois gostava do major, era um bom professor. Mas o pior era a recuperação em geografia, que merda. Por essas e outras é que no ano seguinte saí do colégio. Por vontade própria, bom que se diga. Comemorei deixando o cabelo crescer por um tempão, viva a liberdade capilar.

Não guardo nenhum ressentimento, pelo contrário, tenho ótimas lembranças. O colégio militar me ensinou disciplina, me deu amigos e uma medalha de ouro. E o major? Nunca mais vi. Hoje rio do episódio e percebo que serviu para a fortalecer minhas convicções ‒ por isso sou grato ao meu professor. Tornei-me escritor profissional e sempre lutei para que as regras não tolhessem minha criatividade e meus sonhos. A vida não é um quartel, mas há algo pelo qual vale a pena fazer uma guerra, ah, vale: é a essência do que somos.
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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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01- Kelmer, eu nao conhecia esta sua estoria. Parabens, e realmente foram anos incriveis! Helder Avila, Fortaleza-CE – jun2013

02- Histórias verídicas da época do Colégio Militar contadas pelo meu amigo Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos. Quem não acreditar, vá pra China. Rsrs João Ilo Barbosa, Fortaleza-CE – jun2013

03- Que legal!!! Gostei do que li!!! Adeli Timbó, Fortaleza-CE – jun2013

04- Lembro de uma discussão que tive com o Maj. Studart na sala, sobre o Rio Nilo. Eu não aceitava que o Nilo nascesse no centro sul da África e desaguasse no Mediterrâneo que fica bem ao norte. Caramba, foi metade da aula para entrar na minha cabeça que Sul, não sobe para o Norte e o Norte não desce para o Sul. rsrsrsrsrsrs. João Guy Almeida, Fortaleza-CE – jun2013


Pelas coxias de Guaramiranga

26/09/2011

26set2011

Entre uma peça e outra sempre dá tempo de cruzar uns olhares, nativos e forasteiros, e exercitar o roteiro das abordagens

PELAS COXIAS DE GUARAMIRANGA

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Desde pequeno, confesso, que me sacodem uns arroubos de artista. Quando criança queria ser ator. Sabe aquela boneca Amiguinha, tamanho G? Minha irmã tinha uma que era do meu tamanho e eu treinava beijo com a boneca, escondido. Treinando beijo pra ser ator da novela Locomotivas. Um dia minha irmã nos flagrou e findou aí meu intensivo oscular. Fiz-me ator? Não pude, Amiguinha. Sou escritor menor, perdoai.

Tudo isso pra dizer que estou em Guaramiranga, 7ª edição do Festival Nordestino de Teatro. É ator pra todo lado, de puxar de rodo. Ar puro, verde exuberante, friozinho gostoso, uma semana longe da poluição política de Fortaleza… Maravilha de cenário. Imagine uma grande quermesse, gente na rua, nos bares, pousadas, violão aqui, roda de flautas ali, cerveja acolá… Sabe cidadezinha do interior, né? Tem a rua principal, a pracinha, a matriz pra um lado, a zona pro outro e acabou. E todo mundo se conhece.

Entre uma peça e outra sempre dá tempo de cruzar uns olhares, nativos e forasteiros, e exercitar o roteiro das abordagens assobiando Luiz Gonzaga: “A todo mundo eu dou psiu, perguntando por meu bem…” Paralela à pontuação oficial das peças, corre outra pontuação onde ficar com alguém local, por exemplo, vale 50 pontos mais que com alguém de Fortaleza. Mais um motivo pra ir ali na mesa da morena. E depois das peças, os shows musicais, a feirinha alternativa, uma batucada na Ilha de Caras (só dá artista…), Pink Floyd no som do treiler. De dia visitar o Pico Alto, um banho na cachoeira, a sinuca do hotel. Guaramiranga é uma festa que dura nove dias. Uma grande celebração da arte. Da vida, por que não dizer?

Dito assim, parece que a coisa toda é mero pretexto pra festa. Não é. A proposta é séria e a organização se supera pra fazer do evento uma referência nacional. Aqui respira-se, bebe-se e vomita-se teatro. Além das peças, há debates, exposições e oficinas. O povo da cidade e arredores vê espetáculos que de outra forma não veria, e a preços populares. E aproveita pra travar contato com esse povo diferente das cidades grandes, o figurino esquisito, a performance assim meio assim. Dona Leninha do treiler de sanduíche é quem me confidencia, rindo: “O cara chega aqui, pede uma cerveja, todo homem… Uma hora depois parece uma moça! Mas a gente já acostumou, sete anos, né?”

Quatro da madruga. Forro o estômago com um sandubão. Não tem gosto de nada mas é ótimo. Vejo lá em cima, no meio do nevoeiro, a torre da igreja do mosteiro, pairando iluminada no meio da serração. Que nem uma visagem. Aliás, o mosteiro é uma atração à parte. O que atrapalha são aqueles degraus todos pra subir. São tantos que quando a gente chega lá, a língua já tá toda de fora, pronta pra receber a hóstia da absolvição. Mas vale a pena.

E as lindas pinturas das paredes do mosteiro? Quem as teria feito? Bisbilhotei e descobri a história de Marcio. Chegou adolescente, vindo de Limoeiro, fazer o noviciado. O frei diretor concluiu que ele, com aquela delicadeza toda… bem, concluiu que ele não tinha vocação pra frade capuchinho. Então foi pra Fortaleza. Depois viajou, conheceu o mundo. Muitos anos depois voltou a Guaramiranga. Aí Marcio já havia virado Marcia, de alma e corpo também – cirurgia muito bem feita, atesta quem viu. Uma mulher culta, viajada, fluente em vários idiomas. Um tanto excêntrica e transbordante de dons artísticos. Foi ela quem fez as pinturas do mosteiro, inclusive o teto da capela. Também cantou e atuou como a beata Mocinha no filme Milagre em Juazeiro, e ainda contribuiu pros textos em latim. Marcia faleceu recentemente, ainda nova, purpurina que o vento soprou pelo maciço afora. Mas deixou sua bela marca.

O festival está no fim, logo descerão as cortinas. O clima já é de saudade. Eu boto o blusão, dou um gole na vodca e encaro o frio de 16 graus. Moletons e cachecóis caminhando pela rua, de um lado pro outro. Na esquina um carro com o porta-mala aberto mandando um pagode nas alturas. Irgh, nem aqui esses poluidores sonoros nos dão sossego. Jogo uma praga no desgraçado e sigo, mãos no bolso, assobiando Luiz Gonzaga. Ainda dá tempo ver uma peça. Ou, quem sabe, pontuar um pouco mais, ando precisando. Não virei ator, Amiguinha. Requer mais que saber beijar. Mas sou chegado numas coxias…
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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.com

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01- É sempre um prazer ler Ricardo Kelmer! Adorei a referência à boneca Amiguinha 🙂 Bjs. Alzira Aymoré, Fortaleza-CE – ago2011

02- É… Ricardo Kelmer…! Muita coisa mudou em Guaramiranga, a Ilha de Caras não existe mais, por exemplo! Mas muita coisa boa permanece, como o próprio FNT! São 18 anos de Festival, com muita gente boa das artes cênicas do Nordeste e de outras regiões se encontrando, fazendo, discutindo e trocando conhecimentos de TEATRO! É de um riqueza sem tamanho…! E esse ano é tudo de graça, mas ruas, praças… Essa edição vai ser histórica! Sonia Lage, Fortaleza-CE – ago2011


O dia em que morri no Rock in Rio

18/09/2011

18set2011

O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

O DIA EM QUE MORRI NO ROCK IN RIO

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Janeiro de 1985. Cidade do Rio de Janeiro. Missão Rock in Rio 1. Plano: burlar a segurança e entrar com uma garrafa de Tonel 21, cachaça da boa. Ok, plano bem sucedido. Agora eu e meu amigo Paulo podemos relaxar um pouco: um gole na bicha, um olho no palco, outro nas garotas. Cem mil pessoas em celebração. Outro gole. É um sonho pra mim. Vinte anos, estudante de comunicação, cabelão no ombro e oclinhos redondos à John Lennon. Todo pronto pra ver Rod Stewart, o ex-coveiro da voz rouca. Mais um gole. Putz, a vida é mesmo um filme emocionante!

Paralamas, Moraes Moreira, Rita Lee – no palco o time doméstico dava seu recado. No gramado eu e Paulo vivíamos intensamente o primeiro ano do resto de nossas vidas. E tentávamos prosseguir no plano: conseguir um baseado. Dizem que é pecado, mas não perderíamos a chance de começar a pecar em pleno Rock in Rio. Conseguimos um enorme e, aventureiros inexperientes, mandamos tudo de uma vez. Logo a mente e o corpo adentravam outro nível de realidade e tudo ficou diferente. Mas havia algo estranho, todos olhavam pra mim com aquelas máscaras das crianças em The Wall. Cem mil olhares inquisidores me perseguindo onde quer que eu fosse, inútil se esconder. Como todos podiam saber que eu estava doidão? Um real e amargo pesadelo.

Pouco depois comecei a me sentir enjoado e o enjoo foi piorando até que não me aguentei mais em pé. Revelei ao meu amigo: Paulo, eu tô morrendo…, e ele caiu na gargalhada, calma, Bete, calma. Bem, já que eu era um cabra marcado pra morrer, pelo menos morresse decentemente. Fraco e inteiramente chapado me dirigi às bilheterias, desertas. Arrumei uns papelões e deitei sob uma catraca. Meio litro de cana no sangue mais um torpedo canábico na mente tinha que dar nisso: todo o meu eu era uma rebelião em alto mar. Paulo, deixo pra você meu livro do Pessoa, e se encontrar a moça do ônibus, diga que eu a amo… Então fechei os olhos e saudei Nick Beal, o agente do Inferno que chegava pra me levar à ilha das almas perdidas…

Mas Beal não veio. Preferiu curtir Ozzy Osbourne berrando lá no palco. Salvo pelo Ozzy, que ironia. Abri os olhos e percebi que estava vivo. E Paulo ao lado, vigiando minha morte. Dois perdidos numa noite suja. Das profundezas de minhalma uma voz ordenou que eu levantasse e fosse pra enfermaria. Meu amigo desaprovou: Tá louco, vão descobrir que você fumou, vão te prender! Amizade em conflito. Concordei e disse que então iria comprar algo pra comer. Saí… mas desviei pra enfermaria. Estava realmente decidido em minha tragédia de homem ridículo. Não me pergunte como, mas cheguei lá. Aí olhei a fila e desanimei: duzentas pessoas aguardavam atendimento.

Mas os lobos não choram. Furei a fila e balbuciei ao atendente: Eu tô morrendo… Acho que ele concordou, pois ato contínuo me botou pra dentro. Fui levado a uma saleta toda branca onde uma fria médica nazista me atendeu. Quis saber nome, endereço, idade, o tamanho do bagulho, ia anotando tudo. Era o terror kafkiano, eu morrendo e tendo que passar pela burocracia de um inquérito absurdo. Ah, mas aquela médica partidária do Grande Irmão não me pegaria tão fácil. Então menti em todas as respostas, eh, eh, eh. Depois estiquei o braço e puff!, injeção de glicose na veia. Deitei na maca e apaguei.

Súbito percebi uns acordes… eram familiares… vinham de muito longe… até que os reconheci. Rod Stewart! Começando a cantar You´re in My Heart, uau! Despertei de um salto. Sentia-me bem, inteiramente revigorado. Quanto tempo se passara? A médica nazista não estava mais na sala. Na maca ao lado um rapaz se contorcia numa viagem pior que a minha, eu podia escutar os gritos do seu silêncio. Era preciso fugir daquele terrível asilo. A música estava acabando, o destino batia à minha porta e não havia muito tempo.

Boto meus oclinhos. A porta da saleta está aberta. Meto a cabeça no corredor e de lá avisto a saída do asilo. Brad Davis escapando daquela penitenciária turca. Deixo meu dublê de corpo lá na maca e saio em disparada pelo corredor, empurrando os enfermeiros. Corra, Lola, corra! Ah, não, me empolguei, desculpe, Lola é mais recente. Na saída salto a corda e, nas asas da liberdade, me infiltro na multidão. Estou salvo. Já não precisam me mandar flores. Posiciono-me num lugar razoável e enfim concretizo meu sonho de ver o velho Rod. Missão cumprida.

Depois desse sufoco até o compadre 007 diria nunca mais outra vez. Mas Sua Majestade entenda: tenho apenas vinte anos e todo o pique do mundo. E sou eterno. Assim como os diamantes.

Súbito percebi uns acordes… eram familiares… vinham de muito longe… até que os reconheci. Rod Stewart! Começando a cantar  Despertei de um salto. Sentia-me bem, inteiramente revigorado. Quanto tempo se passara? A médica nazista não estava mais na sala. Na maca ao lado um rapaz se contorcia numa viagem pior que a minha, eu podia escutar os gritos do seu silêncio. Era preciso fugir daquele terrível asilo. A música estava acabando, o destino batia à minha porta e não havia muito tempo.
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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica está cheinha de referências a filmes de 1985 e de anos anteriores. Quais você encontrou?

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Rod Stewart canta You’re in My Heart
no Rock in Rio de 1985
+ clipe do festival

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Ser mulher não é pra qualquer umÉ dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Cada história, hein, seo Kelmer. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – set2011

02- É uma figura!! Carmem Mouzo, Rio de Janeiro-RJ – set2011

03- Peguei todas as referências cinéfilas dos anos 80, nesse Expresso da Meia-Noite no Rock-n-Rio entre dois Daunbailó! Divertido… Téo Lorent, São Paulo-SP – set2011

RK: Expresso da Meia-Noite (dir: Alan Parker, 1978). Ponto para Téo Lorent! Mas Daunbailó (Jim Jarmusch) eu não citei não, até porque não havia visto. 🙂

04- Não ligue para o seu passado, vai que ele atende!!! Nonato Freire, Salvador-BA – set2011

05- Adorei, ri de montão por aqui, vc a cada dia me surpreende mais. Bjokinhas. Mariucha Madureira, Brasília-DF – set2011

06- Ricardo, Valeu pela cronica meu velho ! Adorei … nesta época de Rock in Rio vale demais relembrar aonde e como cada um de nós estava no priemrio. Eu, por exemplo, estava em Quixeramobim assistindo tudo pela TV com uma sensaçao muito estranha de estar no lugar errado na hora certa ! um abraço forte. Tibico Brasil, Fortaleza-CE – set2011

07- muito boa, kelmer! adorei essa. lembrei quando fui ao meu primeiro hollywood rock ver bob dylan… e quando tomei todas na abertura do roger waters… quase perdi essa apresentação por causa de uma garrafa de roseira, uma pinga feita pela minha família lá no sul de MG… adorei a crônica! abç. Rodrigo Oliveira, Fortaleza-CE – set2011

08- hehehe, jóia! Giovanni Iemini, Brasília-DF – set2011

09- ‎”O dia em que morri no Rock in Rio” me deu espasmos de risos. Só tu mesmo, visse. Excelente! Rafaela Silva, Campina Grande-PB – set2011

10- Adorei! Ana Maria van Erven de Figueiredo, São Paulo-SP – set2011

11- Ótimo, Rico. Marta Crisóstomo Rosário, Brasília-DF – set2011

12- Se eu não tivesse nascido em meados dos anos 80, certamente teria pulado “o muro” com vocês “dois, perdidos numa noite suja”, e seria mais uma dando uma de “james bond”, nessa “ilha das almas perdidas” que descreveu… De fato, Kelmer, estaria também “marcada para morrer”. mas “os diamantes são eternos”, et voilà, aqui estamos nós! prontos para qualquer Rock in Rio que porventura possa acontecer… vou indo sr. dos labirintos descritivos, não fique triste. afinal, “lobos não choram”. Érika Zaituni, Fortaleza-CE – out2011


Meu fantasma predileto

01/08/2010

01ago2010

Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

MeuFantasmaPredileto-02

MEU FANTASMA PREDILETO

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Alguém aí pode me dizer onde estão os fantasmas? Onde foram parar as almas penadas que rondavam os cemitérios em noite de lua? E aqueles bichos horrendos que vinham do canto escuro aterrorizar as crianças desobedientes, onde se meteram? De repente não existem mais. Parece que não há mais lugar para eles nesse mundo de assaltantes, sequestradores, assassinos e ladrões de órgãos. Em vez de alma penada, gangues que roubam tênis de crianças e terroristas religiosos que explodem prédios e espalham gases letais em nome de seu deus.

Nas cidadezinhas do interior talvez ainda seja possível encontrar algum fantasminha, resistindo bravamente à invasão dos novos terrores coletivos. Os fantasmas certamente se sentem constrangidos em viver num mundo onde ETs sanguinários estão infiltrados entre nós. Como rivalizar com um bicho gosmento que desce de poderosas naves e implanta chips na cabeça das pessoas para monitorar a raça humana? Isso sim é maldade. Assustar pessoas no silêncio das madrugadas é besteira.

Lá em casa morava um fantasma. Não tenho foto dele, mas pergunte para qualquer um lá de casa e terá a confirmação. Ele se manifestava em meu quarto e já havia naturalmente se incorporado ao folclore da família. Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos.

Todos da casa já haviam escutado o som de minha velha Remington, tec-tec-tec no meio da madrugada. No outro dia, ao saberem que eu sequer dormira em casa, constatavam: foi o fantasma novamente. E assim ele (ou ela, vai saber) passou a fazer parte da família. E quando algum hóspede desavisado comentava que ouvira o som de uma máquina de escrever de madrugada, minha mãe então contava do fantasma, de um jeito natural e até com certo orgulho, como uma avó fala das traquinices do neto. Todos tinham certo medo, é claro, e jamais entravam sozinhos em meu quarto à noite. Mas durante anos, ao almoço, a família reunida naqueles sagrados desentendimentos, o fantasma foi garantia de humor e descontração.

Eu, particularmente, adorava a ideia desse insólito companheiro de quarto e não sentia medo. Muitas vezes pedi-lhe encarecidamente que aparecesse, mas nunca vi nem escutei nada. Um belo dia sumiu. Simplesmente sumiu, ninguém mais escutou o tec-tec-tec de suas visitas. Várias versões surgiram: ele cansou de tentar fazer-me um escritor de sucesso, ela não aturava as minhas namoradas, e por aí vai…

Minha versão, durante algum tempo, era que meu fantasma de estimação foi embora porque não gostou quando troquei minha máquina de escrever por um computador. Deduzi que a tecnologia o havia expulsado definitivamente deste mundo cada vez mais cheio de teclas e senhas digitais. Mas depois entendi que isso seria subestimar a classe dos fantasmas. E assim voltei à estaca zero e o mistério do sumiço do fantasma prossegue até hoje.

Talvez os fantasmas estejam tão confusos quanto nós, tentando entender o que foi feito daquele mundo em que eles brincavam de nos assustar e nós adorávamos sentir medo. Hoje nosso medo não tem graça nenhuma.
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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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01- Achei muitissimo bem escrito, tao engracado e tao triste ao mesmo tempo, e verdadeiro. SIMPLESMENTE O-TI-MO! Ana Claudia Domene, San Diego-EUA – jun2006

02- adorei a historia de seu fantasma predileto. Monica Campos, Fortaleza-CE – jan2016

03- Gostei. Bons tempos em que os sustos eram de mentirinha. Teo Ponciano, São Paulo-SP jan2016

04- Alguém sabe dizer onde se meteram os fantasmas? Teo Ponciano, São Paulo-SP – jan2016

05- Relembrei meus tempos de infância no interior onde cresci. As pessoas de fato se empolgavam ao contar os “causos”q envolviam fantasmas. Alguns lugares as pessoas evitavam de passar a noite. O Ribeirão era assombrado e isto alimentava a fantasia daquele povo simples e feliz. Saudade dos nossos fantasmas q nunca fizeram mal a ninguém. Carolina De Figueiredo, Içara-SC – mai2016


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