Amor de bar

15/01/2020

15jan2020

Uma homenagem aos bares que amamos

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AMOR DE BAR
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Putz… Depois de ler todas essas crônicas, a vontade que me deu foi de ir em cada um dos amados bares que João e Alexandre tão bem homenagearam e tomar uma em cada um deles.

Uma ou duas, né, que às vezes só uma não dá tempo de sentir o ambiente e de se deixar levar por tudo que ele evoca, e olhe que tem bar que evoca até o passado que não se tem. Uma ou duas dúzias, sim, porque tem bar que, já na primeira sentada, ele mexe de um jeito esquisito na peçoa umana bebedora, você já percebeu?, poizé, parece que a pessoa já esteve ali antes, ou dali nunca saiu.

Helano, Tocantins, Disney Lanches… Qual é o segredo dos bares que amamos? Taí uma questão que pode render infinitas saideiras. Tem bar que nos seduz pela cerveja inacreditavelmente sempre gelada, o que não é pouca coisa. Ou por aquela transcendental moela ao molho que nos faz salivar um litro só de passar em frente. Às vezes, o segredo é a distância: dobrou duas esquinas, chegou no bar, e voltou duas esquinas, já tá em casa, o que permite beber o que se gastaria com o uber. Às vezes é o atendimento, aquela presteza infalível, aquela captação silenciosa e imediata dos nossos mais puros desejos, um milagre que se reedita a cada ida ao bar: “Seo Papito, me traga…” “Aquela farofa de ovo com sardinha, tomate e a cebola bem fritinha, é pra já.” “Eita, como é que o senhor sabe?”.

Bares são como amantes possessivos: quando nos damos conta, não conseguimos deixá-los, por pior que seja a relação. Veja a história de Micaela. Ela bebia havia anos no mesmo bar, mas o trocou por outro que abrira no outro lado da rua. Uma noite, bebendo com as amigas em seu novo bar predileto, Micaela olhou para o antigo amor e, percebendo vazias as mesas, foi tomada de um sentimento de culpa avassalador. A partir daí, viu-se obrigada a beber nos dois bares, na mesma noite, num ritual que fazia rir as amigas, que ficavam no segundo bar, aguardando que ela tomasse uma no primeiro, sozinha no balcão, trágica penitente etílica.

O Roque Santeiro, no Mucuripe, era uma bodega que dona Orestina e seo Moacir montaram na parte da frente de sua casa e que abria às cinco da manhã. Durante 20 anos, frequentei o Roque, pra ressuscitar da noitada com um caldo quentinho e depois tomar a saideira, que se replicava em outras saideiras até o meio-dia, ao som de Odair José, Núbia Lafayette e Roberto Carlos. Pois bem. Sempre que eu começava um novo caso, ia com a garota no Roque só pra saber a opinião de dona Orestina. Quando a garota ia ao banheiro, ela vinha e me dava seu veredicto: “Onde foi que tu arrumou essa matraca, ô menina pra falar!”, ou “Coitada, ela acha que te fisgou só por causa daqueles peitões…” Como você pode ver, além de ser a segunda casa, às vezes é no bar que conhecemos nossa segunda mãe.

Longa vida aos bares que amamos!

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Ricardo Kelmer 2019 – blogdokelmer.com

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Esta crônica foi escrita para o posfácio do livro Saideiras (Radiadora, 2020), de Alexandre Greco e João Ernesto, um livro de crônicas afetivas sobre alguns bares de Fortaleza, com edição e prefácio de Alan Mendonça e ilustrações de Jadiel Lima.

O livro é um convite por outros olhares a esses lugares que, quando forjados na arquitetura do encontro, são parte dos quintais dos homens, um bailado de trégua com a vida.
Alexandre e João passeiam pela geografia etílica de Fortaleza com a afetividade própria aos múltiplos, aos corações subversivos dos vagabundos, que perambulam imensamente compromissados com o inútil… e expõem as sutilezas do essencial das horas anteriores à obediência ao sol.

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COMENTÁRIOS
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01- Muito bom, Ricardo Kelmer! Tayane Cristine, Campina Grande-PB – jan2014

02- Realmente um lugar pra ser feliz!!! Lucinha Simões, Fortaleza-CE – ago2014


30 anos de Badauê – Estamos vivos

26/05/2019

26mai2019

Foi tudo lindo, em sua poesia de estrela cadente a colorir o céu da nossa inebriada juventude

30 ANOS DE BADAUÊ – ESTAMOS VIVOS

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Badauê era o nome do bar. Arquitetura rústica de carnaúba e tijolo aparente, varanda em L, teto de palha, e ao redor as árvores e o chão de areia coberto de pedrinhas. Ficava na Praia de Iracema, rua dos Potiguaras, 134. Os sócios éramos eu, Nelsinho Machado e Paulo Marcio, o trio mosqueteiro no frescor dos seus vinte e poucos anos. Era o ano 1988 de uma Fortaleza ainda não tão amedrontada, e existiam nas proximidades Estoril, Cais Bar, La Tratoria, Pirata, Ponte para o Céu, Zanzibar, a Gruta da Praia do seo Zairton e mais um ou outro bar que não lembro agora.

O terreno, do tio do Nelsinho, só tinha árvores e muito mato e lixo. Limpamos tudo e construímos do zero, e em troca da benfeitoria fomos dispensados do aluguel. A cada mês, catávamos nossas singelas economias e subíamos mais um metro de parede, comprávamos uma privada, um fogão usado… Na folga do vigia, nós dormíamos lá, nos revezando. Pra ajudar nas finanças, compramos um refrigerador e no sábado enchíamos de cerveja e chamávamos os amigos pra ir beber lá, sentado no chão mesmo, tocando um blues no violão, rodinha de fumo, essas coisas boas da vida. Com o apurado, mais um metro de parede, um jogo de mesa e cadeiras, o aparelho de som…

Nove meses depois, julho de 1988, a inauguração, com show do Trio Guarani. A partir daí, foram noites e noites de bar lotado, shows inesquecíveis, as amizades brotando no tilintar dos copos, os amores borbulhando no fervor das possibilidades… No show da banda Os Necessários, era tanta gente que vendemos ingresso até pro galho da mangueira. Os garçons, quem eram no início? Eram elas, nossas deslumbrantes namoradas, e as danadas recebiam tanta gorjeta que até nos emprestavam dinheiro. Ao findar das longas noites, subíamos pro mezanino e lá dormíamos, exaustos de felicidade, sem consciência do brilho fugaz daqueles dias eternos.

Como o mezanino também servia pra resolver certas urgências que nos possuíam no meio da madrugada, as nossas e as dos chegados, apelidaram-no Badauê Love. E como a escada ficava encostada à parede externa, todo mundo via quem subia e quem descia de lá, e as almas bondosas até ajudavam as moças a chegar lá em cima, e embaixo o povo moleque aplaudindo o heroico esforço da necessitada. Era uma festa. E tinha a famosa lenda da caixa dágua, que ficava no mezanino: corria o boato de que fazíamos dela piscina, nós todos lá, degustando vinho com Pink Floyd, chafurdando na água com a qual eram lavados os copos. Não nego e nem confirmo. E se me pressionarem, conto os podres de todo mundo, viu?

Se ganhamos dinheiro? Dinheiro era o de menos naquela intensa celebração da vida sem hora pra acabar. Pra você ter uma ideia, várias vezes levamos os últimos clientes resistentes pra tomar café da manhã… onde? No Esplanada, um hotel 5 estrelas da Beira-mar, nós, os milionários moços lindos do Badauê, pagando tudo. Como que junta dinheiro assim?

O bar durou o piscar de olhos de dez meses. Fechamos por imaturidade na condução de nossas discordâncias e porque estava difícil conviver com a vizinhança. Melhor assim. Durasse mais tempo e não viveríamos pra contar a história. Mas foi tudo lindo, em sua poesia de estrela cadente a colorir o céu da nossa inebriada juventude. E agora, em 2018, comemoramos 30 anos de Badauê. Infelizmente, alguns amigos queridos que lá beberam e amaram já se foram. Mas nós sobrevivemos. Brindemos, a eles e a nós!

Você tem fotos, vídeos ou lembranças desse tempo? Divide com a gente, vai. Afinal, se o passado é a areia que já escorreu na ampulheta, é essa mesma areia que hoje faz o chão do que somos e nos dá a certeza de que, sim, nós vivemos, e vivemos deveras, e tudo valeu a pena.

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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Com minha mana Luce, a caixa do Badauê, no Sobrevivi 2018 (Cantinho do Frango, Fortaleza, dez2018). Detalhe: à época, em 1988, ela era menor de idade e aceitou receber o pagamento em cerveja.

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01-


Verdades escabrosas

18/06/2017

18jun2017

Onze histórias da minha vida véa desmantelada. Mas uma delas tem uma mentirinha…

VERDADES ESCABROSAS

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Em cada uma dessas histórias da minha vida véa desmantelada, a primeira parte é verdade, mas em uma delas o fim é mentira. Veja se você consegue descobrir onde está a mentira.

01- Na saída do motel, meu fusca enguiçou e eu pedi pra minha namorada descer e empurrar, afinal o amor é lindo. Ela e o segurança empurraram até o desgraçado pegar no tranco, e deixamos o motel com o fusca véi se peidando todo, um escândalo, parecia um tiroteio. Pense numa cena romântica. E o namoro ainda durou mais um ano.

02- Fui ao supermercado com minha mãe e após eu passar pela fila do caixa, a gerente me flagrou com um pacote de camisinhas que eu pretendia roubar, e me repreendeu na frente de todo mundo. Inclusive da minha mãe, que gentilmente pagou as camisinhas.

03- Pra escrever meus contos safadinhos, recebo ajuda das leitorinhas que me contam suas fantasias eróticas, e pra algumas delas, a grande fantasia é ser puta por uma noite. Algumas até me pediram ajuda pra realizar a fantasia, e eu, alma caridosa que sou, ajudei, sendo o cafetão. Aliás, tem uma que até hoje não pagou minha comissão. Mas num tô cobrando não, viu, gataloca, tá tranquilo.

04- Muito puto com minha vó, que não deixava a mim e meus irmãos sairmos pra brincar na rua, combinei com eles: Bora matar a vovó? Eles concordaram e nos armamos com pedaço de pau, rodo e vassoura. Mas minha vó percebeu a tempo, correu, trancou-se no quarto e ficou gritando: Vão simbora, seus menino malino!!! E nós, uma candura só: Vozinha, vem brincar com a gente, vem…

05- Saindo de uma consulta ao dentista, eu adolescente bobo de 12 anos, um cliente do dentista me ofereceu carona no carro dele e eu aceitei, e no caminho ele puxou do porta-luva um baralho erótico e me entregou, pra eu me entreter. Que cara gentil, né? Logo depois, eu lá viajando nas gatinhas peladas do baralho, o cara começou a me bulinar, descaradamente. Apavorado, abri a porta no meio da avenida, saltei e fui atropelado por uma bicicleta, e o meu estuprador nem me socorreu, otário.

06- Larguei a faculdade, vendi o fusca por uma micharia e fui morar em Manaus, trabalhando como vendedor de água de coco congelada. Uma noite fui conhecer uma sessão de Umbanda manauara e a cabocla Mariana baixou lá, engraçou-se comigo e explicou o babado: se eu noivasse com ela, ficaria rico rapidinho, mas o preço era que eu jamais poderia ter outra mulher além dela, pois ela sempre melaria a história. Topei não. Ser rico desse jeito sai muito caro.

07- A caixa dágua do Badauê, o bar na Praia de Iracema do qual fui sócio entre 1988 e 89, ficava no mezanino, e uma vez eu e meus sócios a usamos pra fazer um, digamos, relaxamento coletivo com as namoradas. Foi ótimo, deu pra relaxar que foi uma beleza. Como os copos do bar eram lavados com a água da caixa, no dia seguinte foram muitos os elogios ao novo sabor da caipirinha.

08- Uma noite, minha mãe me pegou fumando um baseado na rua e fechou a cara pra mim durante dias, sem querer conversa. Disposto a terminar logo com aquela situação chata, expliquei pra ela, pacientemente, que maconha era como álcool, que o importante era a pessoa manter uma relação saudável com a planta, que maconha não era nenhum demônio. Foi pior, muuuuito pior, porque até esse momento ela inocentemente pensava que naquela noite na rua eu estava fumando… cigarro.

09- Um dia, no colégio Santo Inácio, nos preparativos da primeira comunhão, um colega me contou que duas lindas coleguinhas nossas foram flagradas se agarrando sabe onde? Não. Na sacristia. Uaaaau… Fiquei dias e dias fascinado, só imaginando a cena, o que, obviamente, estragou pra sempre minha primeira comunhão e preparou meu passaporte pro Inferno. Pra ser franco, até hoje não esqueço essa história, e só vou morrer em paz depois que eu namorar uma colegial (ok, pode ser apenas fantasiada de colegial) na sacristia, enquanto o padre reza a missa, e nós dois lá mandando ver nos mistérios gozosos.

10- Num show da Intocáveis Putz Band, na Concha Acústica, tocamos Marinara com a revista Playboy num tripé de partitura montado bem na frente do palco, a revista arreganhada no poster central, pra todo mundo ver bem o talento da musa Marinara. Tinha um grupo de punks assistindo, e um deles subiu no palco, puxou a revista e voltou com ela pro grupo, o gaiato. Quando vi nossa Marinara voando de um lado pro outro na plateia, não pensei duas vezes: desci correndo, me meti no meios dos caras e briguei e briguei até pegar de volta a revista, enquanto a banda continuava a tocar. Então voltei vitorioso ao palco e repus a Marinara no tripé. Pra você ver como naquele tempo eu era imortal.

11- Na hora de pagar a conta do motel, percebi que estava sem a carteira. O gerente disse que eu poderia ir buscar desde que deixasse algo como garantia. A menina vai ficar, respondi. Ok, ele disse, mas deixe o estepe também. Pô, Ricardo, eu tô valendo menos que um estepe de fusca, putaquipariu, cara!, protestou a gatinha, que, por sinal, era de menor. O gerente explicou que muitos caras aplicavam aquele golpe e não voltavam, deixavam as meninas lá pra sempre. Felizmente a gatinha acreditou em minha honestidade, ficou lá como garantia e eu saí pra buscar a carteira. E voltei, viu?

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BASTIDORES DAS HISTÓRIAS

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01- Pra quem votou na história do fusca enguiçado no motel, sinto dizer que ela é… totalmente verdadeira. Não marcarei aqui a participante da história pra evitar constrangimentos. E por que eu fui tão vil e cruel, botando a namorada pra empurrar o carro? Por que não foi o contrário? Porque ela não sabia dirigir meu fusca, que era cheio de manhas e segredos. Era um fusca bege, chamado Lombriga, a álcool e com dupla carburação, vivia desregulando, um horror.
Mas ela empurrou muito bem, toda charmosa, viu? Ah, mulher nenhuma empurrava carro como ela… Nosso namoro durou dois anos, e ela é uma pessoa muito especial na minha vida, de quem sempre lembro com carinho.

02- A história 2 é isso mesmo, foi uma cena absolutamente ridícula, pela qual mãe nenhuma merece passar. Quanto a mim, comecei e terminei nesse dia as minhas aventuras como ladrão de camisinha.

03- Pra quem votou na história das leitorinhas com fantasia de ser puta por uma noite, afirmo que ela é… totalmente verdadeira. A leitorinha realmente ficou me devendo uma parte da comissão pelo meu trabalho de conseguir cliente pra ela realizar sua fantasia de ser puta. Aliás, quando ela leu esta postagem, entrou em contato querendo quitar o débito, mas expliquei que eu não tava cobrando, e que inclusive era até interessante essa situação, ela ficar devendo pro cafetão. 🙂

04- A história dos netinhos-monstros que queriam matar a vovó é um clássico de minha querida família Adams. É tudo verdade. O que não contei é que a coitada da minha vó, que se chamava Waltrudes, ficou a tarde inteira trancada no quarto, com medo de sair e ser assassinada a pauladas. À noitinha, meus pais chegaram, ela saiu do quarto e contou o que acontecera. Resultado: levamos uma surra de cinturão do meu pai, daquelas que o rabo fica ardendo por três dias, pra gente aprender a nunca mais querer matar a mãe dele.

05- A mentira está nesta história. Eu aproveitei que o carro parou no sinal vermelho, abri a porta e saí. Mas não fui atropelado por nenhuma bicicleta. Alcancei a calçada e fui para o ponto de ônibus, aliviado por ter escapado do tarado.

06- Susana Mota, minha amiga e leitorinha mimosa de Leiria-Portugal, acertou ao dizer que esta história refere-se ao conto O Presente de Mariana, do meu livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos. Mas a história é toda verdadeira, e o conto é inspirado nela. Aliás, minha amiga Ana Karla Dubiela gosta desse conto. Pra quem quiser ler o conto: aqui.

07- Esta história da caixa dágua do Badauê é totalmente verdadeira. Só não marco os envolvidos aqui pra eles confirmarem porque eles podem se sentir pouco à vontade. Aliás, o Badauê foi um bar de muitas histórias ótimas. Aquele mezanino era uma loucura… A entrada era por uma janelinha no alto, no corredor dos banheiros, na parte lateral do bar. Pra chegar à janelinha, usávamos uma longa escada de madeira, que ficava encostada à parede, ao lado dos banheiros. No meio da noite, as namoradas subiam por ela, e nos esperavam no mezanino pra namorar um pouquinho. Acontece que às vezes elas tinham bebido bastante, e precisavam de ajuda pra subir pela escada, e o povo que tava na fila do banheiro ajudava, incentivando e empurrando as meninas escada acima, solidariedade total. Pense numa cena…

08- A história da maconha é outro clássico. Após descobrir que o filho do qual ela tinha tanto orgulho era doidão, minha mãe ficou meses sem falar comigo. Hoje ela tá mais relaxada quanto a isso. Aliás, do jeito que minha mãe costuma me surpreender, não duvido nada ela qualquer dia desses querer relaxar um pouquinho mais…

09- Pra quem votou na história das colegiais se pegando na sacristia, eu digo que ela é… totalmente verdadeira. Recentemente encontrei uma das garotas no Café Pagliuca e rimos bastante dessa história. Ela ficou surpresa, e disse que não sabia que tinha rolado esse boato. Não a marcarei aqui, mas se ela quiser se manifestar, vou adorar. Ah, e sobre a segunda parte da história, esqueci de dizer que se for o caso, eu mesmo compro a roupitcha de colegial na Via Libido Sex Shop, viu?

10- A história do show da Intocáveis Putz Band é totalmente verdadeira. Não sei onde eu tava com a cabeça quando fui brigar com um bando de punk por causa de uma mulher pelada de papel, mas naqueles dias juízo era uma coisa que não fazia parte da minha cabeça. Ainda bem, senão eu não teria essas histórias pra fazer você rir, né? Aliás, a Intocáveis Putz Band renderia um monte de histórias escabrosas. Uma vez cismamos de fazer um show com uma cama no palco, porque tínhamos esse estranho fetiche de fazer um show com todos deitados na cama. Conseguimos uma de madeira, na loja do Ângelo Baiano, e levamos pro local de show sabe como? No buggy do Martan. E era uma cama de casal, pesada pra caramba, com colchão e tudo. O show foi uma loucura, mas infelizmente os cabos dos instrumentos não chegaram até a cama, ô frustração…

11- Tudo é verdade nesta história. Felizmente a gatinha levou a coisa na esportiva. O que não contei é que voltei pro apartamento do meu amigo, onde tinha rolado a festa, procuramos minha carteira por todo lugar e não encontramos. Então voltei ao motel, resignado com o fato de que deixaria o pneu pra pagar a conta. Após parar o fusca na garagem, decidi fazer uma derradeira busca… e encontrei a carteira! Estava no buraco do toca-fita, e eu já havia procurado lá. Final feliz.

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Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Oh Bichiiim carga torta, nãm !!!!! Emelynne Pontes, Fortaleza-CE – abr2017

02- Difícil pra mim todas são Verdade… Flavio Rangel, Fortaleza-CE – abr2017

03- Tá ruim hein. Sei lá acho que é a 12. Silvana Santiago, Fortaleza-CE – abr2017

04- Não contou a de Mundaú. Não contou a do trovão. Não a do doutrinamento da Lilian Ramos. Não contou…, não essa não era para contar mesmo… Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – abr2017

05- Rapaz… Christiane Oliveira, Fortaleza-CE – abr2017

06- Eu sei que a 01 e a 03 são bem verdades, vc já me contou. rsrs. Samara Do Vale, Fortaleza-CE – abr2017

07- A 04 é mentira. Uma avó que cuida de uma cambada de menino maluvido, lá tem medo de cabo de vassoura! A minha até hoje, se deixar, bota os neto tudim para dormir com os couro quente. Amanda Caru, Fortaleza-CE – abr2017

08- Mano réi vindo de vóismicê tem nem uma mentira não ó ! Magna Mastroianni, Londrina-PR – abr2017

09- Vou na 4. Patrícia Ramos, Natal-RN – abr2017

10- A 06 é mentira. É do conto “o presente de Mariana”. Ela não pôde noivar contigo por ordens superiores… Susana X Mota, Leiria-Portugal – abr2017

11- mentirinha da 4..vc não faria essa malvadeza. Shirlene Holanda, São Paulo-SP – abr2017

12- Me acabando de rir sozinha 😂 😂 😂prefiro acreditar q a mentira está no final da 7. Bicho TSN. Mas duvido é nada… acho q tua avó não seria tão medrosa assim. Essa foto está escândalo!!! Kkkk adorei. Zete More, Fortaleza-CE – abr2017

13- Diante desse currículo de um bom menino #sqn …..Acho que a 11 é mentira , a menina deve tá esperando até hoje…..kkkkkk. Pode mandar meu livro. Bjs. Regia Alves, Fortaleza-CE – abr2017

14- A 2,4,6 e 8 sei, tenho certeza que são verdadeiras. As outras, conhecendo bem a peça, sei não, acho ateé que sejam verdadeiras. Pra ser sincera , acho que essa 9, não pode ser verdade.Sei que estudou no Santo Inácio, mas não acredito. Vilma de Oliveira, Braga-Portugal – abr2017

15- História 7. Flavia Albuquerque, Fortaleza-CE – abr2017

16- Todas maravilhosas… kkkkk… me diverti muito… não sei dizer . Vou na 4… Caroline de Alencar, Fortaleza-CE – abr2017

17- Morri! !!! Espero ansiosamente que nenhuma seja mentira. Kkkkk. Cícera Souza Vidal, Fortaleza-CE – abr2017

18- Sensacional. Isabella Cantal, Fortaleza-CE – abr2017

19- Tudo tao verossímil! Gostei demais!! Luis Carlos Trajano, Areia-PB – abr2017

20- mentiras sinceras me interessam… …. .abrssss…… Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – abr2017

21- Só sei q foi assim… kk Pense numa vidinha kelmérica! Márcia Matos, Fortaleza-CE – abr2017

22- Acho que é a 10. Tereza Cristina, Fortaleza-CE – abr2017

23- Cada uma é melhor que a outra. Mas vou apostar em que vc e seus irmãos não pensaram em matar a vovozinha! Afinal, eu sou avó, e sofreria um infarto se meu neto pensasse nisso. 04! Maria Bulcão, Fortaleza-CE – abr2017

24- Todas as histórias são muito boas ó cara! Sei lá onde tá a mentira! Curti as histórias! rsrs. Mas aquela da vó é maldade demais! rs. Francisco Carlos Rodrigues, Fortaleza-CE – abr2017

25- Somente um escritor para narrar assim!! Adorei!! Acho que a mentira é a 4! Isa Magalhães, Fortaleza-CE – abr2017

26- Hahaha….amei e tá difícil saber qual a mentira….vou analisar rs. Marialucia da Silveira, Campinas-SP – abr2017

27- Kkkkkkkkkkkkk rapaz ow putaria ! Mas eu vou chutar! a 10 o final é falso: vc levou uma surra dos punk! Pedro Falcão, Fortaleza-CE – abr2017

28- Acho que a primeira é balela qdo conta q o namoro ainda durou 1 ano kkkk. Kathia Albuquerque, Itapipoca-CE – abr2017

29- Acho que há imperfeições em todas elas. Talvez todas sejam mentirosas. Aliás, verdade escabrosa (o título do post) para mim é mentira. A verdade é linda, maldade o que se faz com ela, hoje em dia. Antonio Martins, Maceió-AL – abr2017

30- A primeira, que namoro seu eh esse que durou mais de ano? Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – abr2017

31- Otimas histórias. Você não ia desperdiçar a oportunidade de contar suas aventuras maravilhosas. Então a unica estória com “e” é a 4. Beatriz Nousiainen, Fortaleza-CE – abr2017

32- História 1. Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – abr2017

33- A cinco? Célia Fgf, Fortaleza-CE – abr2017

34- Kkkkkkk Ricardo Kelmer, morro de rir com tuas besteiras. Fabiana Z Azeredo, Fortaleza-CE – abr2017

35- Acho que a 5. Normalmente as pessoas que são “bulinadas” têm vergonha de contar e tentam esquecer. Mas é verdade que não se trata de uma pessoa banal.. Luciana Loreau, Nantes-França – abr2017

36- História 9. Kalline Alcântara, Fortaleza-CE – abr2017

37- Meu irmão querido te conheço desde 1980…inclusive dirigi o Fusca kkkkkkkkkkkkk. Ainda lembro que amassei o paralamas do Fusca no estacionamento do Center Um. Meu querido Dr Galvão falou: acidentes acontecem. Voce pode pagar parcelado..heheheh e eu paguei. Aprendi com ele! Jacques Josir Ribeiro, Santo André-SP – abr2017

38- Acredito que é verdade Tudo. Angela Belchior, Fortaleza-CE – abr2017

39- Kelmer tem quem te aguente não! Imaginando a surra q os monstrinhos levaram e tua mãe querendo relaxar mais 😱 Kkkkkkkkkkk. Zete More, Fortaleza-CE – abr2017

40- Boas histórias..mas a 4 não me parece coerente! Matar a vozinha? Num pode uma coisa dessas! Carlos Rogerio Vieira, Fortaleza-CE – abr2017

41- São todas tão geniais que tá difícil de adivinhar vou no sexto sentido. A número 5. Gó Strutzel, Fortaleza-CE – abr2017

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Ao meu velho amigo Paulo Marcio

05/04/2017

05abr2017

Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?

AO MEU VELHO AMIGO PAULO MARCIO

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Paulo Marcio, nossa amizade tem 42 anos, olhassó
Amigos sobreviventes assim, coisa rara, né não?
Unidos por um amor de companheiro, sempre
Lembro de tanta coisa agora…
O Rock in Rio de 85, eu na enfermaria, tu rindo da minha lombra
Momentos mágicos no Bigode, Sal Doce, Badauê, Café, Opção
Aquela noite em que fui ao teu apê chorar por uma ingrata
Raparigas fulerages nas Belas da Tarde, nós fomos com orgulho
Cara, fiz até uma música pra tocar no teu enterro, ahahah!
Incrível como continuamos os mesmos merdas de sempre
Ordinários, bebuns, ridículos, tudo que não presta. Que bom!

> Ao meu velhíssimo amigo Paulo Marcio, meu Ratito Sensação, que aniversaria hoje, 05abr.
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Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

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01-


A última canção

20/03/2017

21mar2017

O que mais impulsionava sua voz, a raiva por ela brincar assim com seus sentimentos ou o ódio por pressentir que mais uma vez não conseguiria resistir?

A ÚLTIMA CANÇÃO

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Esta é a última canção
Que eu faço pra você

Ele cantou os primeiros versos da música. A música que até poucas horas antes não existia. Ainda estava surpreso com a forma com que ela saíra: pela manhã, quando acordava, ela lhe veio pronta, do começo ao fim, isso nunca tinha acontecido. Não planejou cantá-la aquela noite, mas o bar estava quase vazio… Se por um lado o fraco movimento significava que em breve seria despedido, e o aluguel da quitinete seguiria atrasado, por outro lado era uma oportunidade de testar uma nova música sem pressão. E, além disso, já passava de meia-noite, era a última música mesmo. Talvez aquele bêbado deitado na calçada gostasse.

Já cansei de viver iludido
Só pensando em você

Foi então que viu… aqueles cabelos loiros… Sergiana. Ele quase engasgou no meio da estrofe. Olhou de novo, não podia ser ela… Mas era. Sentada numa mesa no fundo do bar. Sozinha. Que droga, o que ela fazia ali?, ele pensou, desviando o olhar, subitamente nervoso. Ela fora muito clara quando disse, no último encontro, que o namoro havia terminado, dessa vez definitivamente, e que ela até já estava com outro. E ele, na solidão das noites seguintes, lutou bastante para acreditar que dessa vez a coisa era mesmo para valer, que, ao contrário de todas as outras vezes em que ela o deixava e depois se arrependia e voltava, agora era mesmo o fim, sem apelação. E aquela música surgindo de forma incrível, confirmando que jamais voltaria a fazer canções para aquele amor sem juízo e sem futuro… Mas agora, menos de uma semana depois, ali estava ela, vendo-o cantar, olhando silenciosa para ele.

Se amanhã você me encontrar
De braços dados com outro alguém
Faça de conta que pra você não sou ninguém

Apesar do nervosismo, ele não interrompeu a música. Em vez disso, para não ceder à tentação de olhar para ela, fechou os olhos. E foi assim, de olhos bem fechados, que ele agarrou-se desesperadamente aos versos, a cada um deles, cada mínima palavra, e cantou com vigor, interpretando cada frase com a emoção que ele só agora percebia que os versos continham. O que mais impulsionava sua voz, a raiva por ela brincar assim com seus sentimentos ou o ódio por pressentir que mais uma vez não conseguiria resistir? Após terminar a música, esperou por algum aplauso, que não veio, e então desplugou o violão e desceu do palco, evitando olhar para o fundo do bar. Enquanto guardava o violão na caixa, uma mulher aproximou-se e, sem que esperasse, beijou-o na boca, com tanta vontade que quase o derrubou. Absolutamente surpreso, ele balbuciou qualquer coisa para a mulher desconhecida enquanto tentava localizar Sergiana no bar. Mas ela havia sumido.

Mas você deve sempre lembrar
Que já me fez chorar
E que a chance que você perdeu
Nunca mais vou lhe dar

Ele despertou e viu que ao seu lado, inteiramente nua, dormia a garota do bar. Paulinha… Enquanto admirava as curvas de seu corpo gracioso, lembrou do beijo repentino que ela lhe dera no bar, depois as cervejas que tomaram, ela falando que ele cantava muito bem e que ela o apresentaria a uns amigos que eram donos de bares bem melhores que aquele, depois mais beijos, mais cervejas e, finalmente, os dois ali em sua cama, consumando o imenso desejo despertado… Ele estava encantado com ela, com o modo como tudo acontecera. Sim, ele conhecia aquele sentimento: era paixão. Quando entendeu isso, sentiu-se tomado por uma completa leveza, como se sua alma houvesse se libertado de um peso carregado durante anos e anos. Nesse instante, Paulinha despertou e sorriu docemente para ele, e o abraçou, dizendo que adorara a noite. E contou que pouco antes, quando ele ainda dormia, bateram na porta e ela foi atender, e era uma mulher, uma mulher loira, que queria falar com ele. E você disse o quê para ela?, ele quis saber, alarmado. E ela: Respondi que meu namorado me esperava na cama e fechei a porta, fiz certo? Ele ficou alguns segundos sem saber o que dizer. Então uma sensação de alívio inundou seu espírito e ele sorriu feliz, abrindo os braços, e Paulinha aninhou-se em seu peito.

E as canções tão lindas de amor
Que eu fiz ao luar para você
Confesso, iguais àquelas não mais ouvirá

Um mês depois muitas coisas haviam acontecido. Paulinha, além de linda, bem-humorada e sem frescuras, era um legítimo amuleto, como ele gostava de dizer aos amigos. Sim, pois depois que a conhecera, conseguiu trabalho em bares excelentes e agora estava ganhando bem, as contas finalmente em dia. E quanto a Sergiana, ela agora fazia parte de seu passado, só isso. Uma noite, porém, o passado ressurgiu. Ele bebia com os amigos quando atendeu o celular e, após um instante de silêncio, escutou uma voz conhecida, triste, quase um sussurro: Volta pra mim, por favor… Os amigos o cutucavam, querendo saber quem era. Ele sorriu, tranquilo e vitorioso, e desligou o celular. E respondeu: Ligação errada.

E amanhã sei que esta canção
Você ouvirá no rádio a tocar
Lembrará que seu orgulho maldito
Já me fez chorar por muito lhe amar

Quando, depois de mais uma apresentação de sucesso, o homem lhe estendeu o cartão, dizendo ser de uma gravadora, ele estremeceu. Porque sentiu que finalmente havia chegado o momento com o qual sonhava havia tantos anos. E estava certo. Quatro meses depois seu disco estava gravado e sua música, aquela que compusera de uma vez só para seu antigo amor, tocava todo dia nas rádios. Ele agora era um artista de sucesso. Certo dia, numa entrevista ao vivo na rádio, ele respondia às perguntas de fãs que ligavam para o programa e o apresentador atendeu o ouvinte seguinte: Alô, quem fala? Nesse momento ele ouviu, e todos os ouvintes ouviram, a voz triste de uma mulher, engasgada em choro: Volta pra mim, por favor…

Peço, não chore, mas sinta por dentro a dor do amor
E então você verá o valor que tem o amor
E muito vai chorar ao lembrar o que passou

O sucesso aumentou e ele deixou de tocar em bares, passando a fazer apenas shows bem produzidos, com uma banda formada pelos melhores músicos da cidade. Comprou um carro à vista. Agora tinha até fã-clube. Os convites para shows aumentaram e ele teve de se mudar para São Paulo, levando Paulinha com ele. Tornou-se nacionalmente conhecido. Comprou uma cobertura. Viajou com Paulinha para a Europa, foram escolhidos o casal do ano. Várias vezes a agenda cheia o obrigou a recusar convites de programas de tevê. Que mais poderia desejar da vida? Trabalhava com o que gostava, era um artista consagrado e tinha consigo a mulher mais maravilhosa do mundo, que o amava e que, para sua completa felicidade, estava grávida e em breve lhe daria um filho. Mas o passado voltou mais uma vez numa noite em que, chegando a seu prédio, uma mulher loira o abordou. Era Sergiana. Chorando bastante, o rosto marcado pela angústia, ela disse que estava arrependida, que reconhecia não ter sido a mulher que ele merecia, que ainda o amava muito, muito, e que só precisava de uma, apenas uma chance para mostrar que na verdade a mulher da vida dele era ela, sempre fora ela… Ele engoliu seco. Sentiu as pernas fraquejarem. Nesse momento entendeu que no último ano tudo que fizera foi enganar-se: ele ainda a amava. E agora, olhando para ela assim, chorando, fragilizada, sincera, ele sabia que a amava mais do que alguma vez a havia amado e mais do que poderia amar a qualquer outra mulher. Ela aproximou os lábios dos dele e ele aceitou, fechando os olhos, inteiramente rendido à força do amor que nem o tempo nem outra mulher nem nada no mundo poderia jamais derrotar.

Esta é a última canção que eu faço pra você

Ele tocou o último acorde da música e finalmente abriu os olhos, sentindo-se como se despertasse de um sonho. Demorou alguns segundos até se situar no tempo presente. Viu o bar quase vazio. Viu o bêbado deitado na calçada, aplaudindo. Olhou para o fundo do bar e viu que Sergiana continuava lá na mesa. Mas não olhava mais para ele, e sim para o homem que entrava no bar. O homem passou entre as mesas e, chegando à dela, inclinou-se e a beijou na boca, e ela sorriu feliz. Chocado, desviou o olhar, deixou o palco e caminhou até o balcão, procurando manter-se tranquilo, e lá o gerente disse que não poderia pagá-lo, que acertaria com ele depois. Ele pediu que pagasse ao menos a passagem de ônibus, pois não tinha um centavo. O gerente deu-lhe algumas moedas, e então ele apanhou o violão e saiu. Uma hora depois, do outro lado da rua, enquanto ainda aguardava o ônibus que demorava, ele pôde ver que o bar estava quase fechando, que o gerente esperava apenas sair um último casal que se beijava apaixonadamente numa mesa ao fundo.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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Este conto integra os livros Vocês Terráqueas e Trilha da Vida Loca. A letra usada é da música A Última Canção, de autoria de Carlos Roberto, e foi imortalizada na interpretação de Paulo Sérgio (1944-1980), tornando-se um clássico da dor de cotovelo.

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Trilha da Vida Loca
Ricardo Kelmer, contos

O amor é belo. Mas também é ridículo, risível, trágico… Aqui estão reunidas seis histórias inspiradas em grandes sucessos musicais da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor. Amar é para estômagos fortes.

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TVL201704CCBNB-414b

A ÚLTIMA CANÇÃO (teatro)

Este conto foi adaptado e encenado pelos atores Patrícia Crespí e Maurício Rodrigues no CCBNB – Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza-CE, em abr2017

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PAULO SÉRGIO CANTA “A ÚLTIMA CANÇÃO”

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A ÚLTIMA ENTREVISTA DE PAULO SÉRGIO, 11.07.80
(18 dias antes de sua morte)

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PauloSergio-01aSOBRE PAULO SÉRGIO

Paulo Sérgio de Macedo, mais conhecido como Paulo Sérgio (Alegre, 10 de março de 1944 – São Paulo, 29 de julho de 1980), foi um cantor e compositor brasileiro. Teve uma morte prematura, aos 36 anos, em decorrência de um derrame cerebral. É lembrado como um dos maiores nomes da música romântica nacional. Iniciou sua carreira em 1968, no Rio de Janeiro, lançando um compacto com o sucesso A Última Canção. O disco obteve sucesso imediato e vendeu 60 mil cópias em apenas três semanas, transformando seu intérprete num fenômeno de vendas. A despeito da curta carreira, Paulo Sérgio lançou treze discos e algumas coletâneas, obtendo uma vendagem superior a 10 milhões de cópias em apenas 13 anos de carreira. (Na Wikipedia)

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PaixaoDeUmHomem-01aPaixão de um homem (Trilha da Vida Loca) – Amigo, por favor leve esta carta e entregue àquela ingrata, e diga como estou

Vou tirar você desse lugar (Trilha da Vida Loca) – De repente a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser apenas detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

Por que brigamos (Trilha da Vida Loca) – Ou continuava tentando salvar o casamento, e todo o seu esforço não seria nenhuma garantia de sucesso, ou então salvava a si mesmo – se é que existia salvação para ela

Lama (Trilha da Vida Loca) – E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central

Odair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

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TrilhaDaVidaLoca201302Cartaz-2aTrilha da Vida loca – o show

Música e literatura em histórias de amor inspiradas em clássicos da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor… Ricardo Kelmer e Felipe Breier interpretam contos kelméricos e músicas de Odair José, Diana, Paulo Sergio, Waldick Soriano e Núbia Lafayette. Sugere-se que todos paguem o couvert antes de cortar os pulsos.

Texto e direção: Ricardo Kelmer. Duração: 2h (ou versão de 1h30)
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TRILHA DA VIDA LOCA
Contos e canções do amor doído

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01- Amei, como sempre! Valeria Borges, Campinas-SP – mar2017

02- Gosto demais! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – mar2017

03- Maravilhoso. Viajei na estoria. Bjo. Cícera Souza Vidal, Fortaleza-CE – mar2017

04- Muito bom. Jonas Rocha Neto, Palmas-TO – mar2017

 

 


A chinesinha caçadora de Pokémons

22/08/2016

22ago2016

Essa nova mania mundial, que leva chinesinhas desesperadas a abordar escritores solitários pelas esquinas

AChinesinhaCacadoraDePokemons-01

A CHINESINHA CAÇADORA DE POKÉMONS

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Duas da madrugada na Vila Madalena. Chego no carrinho do chinês, peço um yakissoba médio e sento no banquinho de plástico. Tem uns bons meses que não eu vou ali matar a larica de fim de noite. O carrinho fica numa esquina movimentada, e quem prepara a iguaria é um chinês de óculos, sempre compenetrado. Ele não é de muito papo, mas gostei dele de primeira. Uma noite, me disse seu nome (eu entendi Uantunkom, ou algo próximo disso) e contou, em seu esforçado português, que veio há alguns anos ao Brasil com a mulher e as duas filhas pequenas, e que sente saudade de sua terra.

Enquanto degusto meu yakissoba, servido naquelas embalagens de isopor para sanduíches, observo os agitos da rua, pessoas e carros brigando por espaço, o entra e sai dos bares. Como sempre, compõem a paisagem centenas de adolescentes embriagados e barulhentos, e me lembro que Uantunkom não nutre muita simpatia por eles. Ele também não é exatamente fã das meninas brasileiras, que lhe parecem independentes e eróticas demais, e não quer que suas filhas sejam como elas.

De repente, a filhinha mais nova dele se aproxima. Deve ter nove ou dez anos. E me pergunta: Seu celular caça Pokémons? Pergunta em bom português, olhando para mim com seus olhinhos de chinesinha linda, e surpreendo-me de vê-la tão crescida. Sorrio para ela, enternecido, respondo que não e pergunto se o celular dela não caça. Não, ele é ruim, você deixa eu caçar no seu, é só baixar o aplicativo, se quiser eu baixo pra você, qual é o seu celular, ele tem gúgol plêi?

Nesse momento, percebo estar diante de uma determinadíssima caçadora de Pokémons, essa nova mania mundial, que passará em mais alguns dias, claro, mas que atualmente leva chinesinhas desesperadas a abordar escritores solitários pelas esquinas, contrariando as ordens do pai de não perturbar os clientes. Passo meu celular para ela, e rio comigo mesmo, me divertindo com a ideia de fazer parte desse decisivo momento evolutivo da espécie humana, nossa transição para a fase Homo pokemonus.

Antes que eu finalize meu rango, a chinesinha já acessou a loja e baixou o aplicativo, numa destreza que eu jamais terei na vida. Porém, nem começa a jogar, pois seu pai a chama, acho que ele não estava gostando muito daquela história. A pequena caçadora recolhe-se a um canto e fica lá, quietinha, ela e seu celular ruim. Pago o yakissoba, agradeço a Uantunkom e vou embora. Antes, faço questão de me despedir da chinesinha, tchau, sucesso nas caçadas, viu? Ela nem me olha: faz que sim com a cabeça e continua lá, imersa em seu mundinho eletrônico particular, enquanto três meninas chegam para comer, elas e seus microvestidinhos que mais revelam que escondem.

Volto para casa caminhando sem pressa, curtindo o friozinho da madrugada e lembrando de Uantunkom e de sua luta diária para proteger as filhas dos terríveis males da cultura brasileira. Talvez ele tenha êxito na construção de sua grande muralha, afinal os chineses são conhecidos por sua férrea disciplina. Mas contra a invasão Pokémon, ah, isso ninguém pode.

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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MeuFuturoDePopistarCristao-02bMeu futuro de popistar cristão – Meus shows seriam superanimados, sempre acompanhados de meu time de ruivinhas cristãs de minissaia, as Noviças Viçosas

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01- mais um texto que julga a roupa da mulher. Nina Ka, São Paulo-SP – ago2016

RK: Obrigado por comentar, Nina Ka. Em nenhum momento o texto emite qualquer julgamento sobre a roupa das mulheres. Ele apenas reproduz a impressão que um imigrante chinês tem da cultura brasileira e do jeito de vestir das meninas que frequentam as baladinhas da Vila Madalena. Talvez você não conheça meu trabalho e minhas ideias pessoais sobre machismo, sexualidade e liberdade feminina. Se tiver interesse, em meu blog há vários textos sobre essas questões.

02- Olha… li o texto… e vi um comentario q pareceu-me mais uma parte discritiva da cena… nao vi um julgamento aí! Patrícia Hakkak, São Paulo-SP – ago2016

03- adorei muito mais o texto, leve, descontraído sobre temas tão presentes no nosso cotidiano. O novo e o antigo, um explodindo de fome do mundo, de novidade e o outro com medo deste mesmo mundo, achando que pode conter o ritmo da vida. Uma mecânica tão antiga. Como dizia Belchior “o novo sempre vem”. Linda crônica, leva a diversas reflexões. Michele SJ, Fortaleza-CE – ago2016

04- Eu amo o Yakissoba desse tiu (eu chamo ele assim) …conheci a filha mais velha dele quando era do tamanho da mais nova. Outro dia fui comer lá e ela me abordou toda falante, perguntando se eu tb era de aquário…hahaha. Achei mto legal encontrar um texto falando sobre ele! NyNa Zêni, São Paulo-SP – ago2016

05- Parabéns pela crônica, Ricardo Kelmer! Texto leve, gostoso de ler até o fim, trazendo a emoção da cena para os leitores atentos e sensíveis (adorei o homo pokemonus rsss!). Mônica Mello, Rio de Janeiro-RJ – ago2016

06- Maravilha de texto, Kelmer. Só agora li. Brennand De Sousa Bandeira, Fortaleza-CE – ago2016

07- Essa evolução para pokemonus está te caindo bem! Alexandre Domene Ortiz, Fortaleza-CE – ago2016

08- ” …microvestidinhos que mais revelam do que escondem…” achei uma lisonjeira safadeza do autor. Aí se todos fossem safadinhos iguais a vc!!!! Bjs. Michele SJ, Fortaleza-CE – ago2016

09- Muito bom !!!! Mario Rolim, Rio de Janeiro-RJ – ago2016

10- RicKelmer, você é um ponto!!!! Gíria portuguesa. … Cara, seu texto é inspirador. Ozi Garofalo, São Paulo-SP – ago2016

11- lembro bem da gente nesse chinês! Super-bom! Renata Regina, São Paulo-SP – ago2016

12- Muito bom. Liz Rabello, São Paulo-SP – ago2016

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Sexo tinto

08/08/2016

08ago2016

Palmas para a musa dos inebriados, que dança para as nossas almas e nos entorpece com seus rodopios

SexoTinto-01

SEXO TINTO

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Pelos becos dessas noites baldias
É o seu cheiro de urgência que nos guia
Vejam, é ela, a cigana generosa
Em seu vestido de cor de rosa no cio
Palmas para a musa dos inebriados
Que dança para as nossas almas
E nos entorpece com seus rodopios
Dama bendita dos ardentes desejos
Ela negocia beijos e sopra promessas
Rainha das tabernas, ela é de todos
Mas nunca será de um qualquer
Celebremos com ela, pois, a fantasia
E a livre poesia do instinto
Um brinde, amigos, ao sexo tinto
Dessa louca e linda mulher

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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> Este poema integra o livro Versos Safadinhos para Noites Românticas ou Vice-versa

> Mais poemas

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MAIS SOBRE O FEMININO SELVAGEM

InspiracionEssaVadia-02Inspiración, essa vadia – E não adianta argumentar, seu signo é a urgência. Desejo não é coisa que se adie, ela sempre diz

A mulher selvagem – Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

Medo de mulher – A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido

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DICAS DE LIVROS

vtcapa21x308-01Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino
Ricardo Kelmer – contos e crônicas

Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido… Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.

Mulheres que correm com os lobos – Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés –  Editora Rocco, 1994)

A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

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Bar do Araújo é a salvação

25/05/2015

25mai2015

Espremido entre duas igrejas evangélicas, o Bar do Araújo é a última resistência dos ateus. E do bom humor

BarDoAraujoEASalvacao-04a

BAR DO ARAÚJO É A SALVAÇÃO

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É na pequena cidade de Jaguaribana, no Sertão Central do Ceará, que está localizado o Bar do Araújo. Espremidinho entre duas igrejas evangélicas, o bar lota quase todos os dias, graças à sua fiel clientela, feita de ateus, agnósticos, livres pensadores e até de religiosos moderados, que se divertem com o inusitado da situação. De passagem pela região, estiquei até a cidade, disposto a ver de perto aquele trio improvável. Mas não dei sorte no horário. Era meio-dia, e tanto as igrejas quanto o bar estavam fechados. Felizmente, consegui falar com os proprietários e alguns frequentadores do bar.

No início, o bar, que existe há sete anos, tinha pouco movimento, mas após a chegada das duas igrejas (no mesmo ano) ele foi fervorosamente adotado pelos ateus e livres-pensadores da cidade, que fizeram do local uma espécie de centro de resistência ateísta na região. A partir daí, o bar converteu-se ao bom humor e a sátira religiosa virou sua marca registrada, o que irritou bastante as igrejas. Entretanto, por contraditório que pareça, os frequentadores não querem que as igrejas saiam. “Os crentes querem expulsar o bar de qualquer jeito, pois pra eles ateu é seguidor do Diabo, mas nós queremos que eles fiquem. Isso aqui é uma bela mensagem de luta contra o fanatismo religioso, que não aceita nada que pense diferente deles”, diz Marcos, um ateu que já foi evangélico da igreja Deus, Eva e Adão no Paraíso. Sua namorada, Carol, uma ex-católica que hoje se define como espiritualista eclética, conta: “Primeiro, achei muito debochadas as piadas que o pessoal do bar faz com religião, mas depois achei muito pior a falta de humor dos meus irmãos de fé, e aí deixei de crer em religião”.

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Jaguaribana-CE

“Se Cristo morreu entre dois ladrões, este bar tá no lugar certo”, defende Rogério, seguidor do Pastafarianismo, que começou a frequentar o bar no dia em que soube que o pastor da Universal foi flagrado subornando um fiscal da prefeitura. Outra frequentadora assídua é Tomásia, que é agnóstica e filha de evangélicos. Ela conta que os pais e a irmã frequentam a Deus É Amor e que uma vez chegaram no culto e, ao saberem que o dízimo mínimo havia aumentado, foram ao bar lhe pedir dinheiro emprestado. A seguir, faz gozação com uma questão interessante: “Minha irmã diz que eu vou pro Inferno, e ela vai pro Céu porque paga o dízimo da igreja. Mas se ajudei a pagar, também posso ir, né?” Sua amiga Íris, que na adolescência frequentou a Congregação Cristã dos Fiéis Vencedores Salvos da Macumba, mas que hoje se diz neopagã, brinca com ela: “Deusa te livre! Se você chegar no Céu dos crentes, vão te barrar só pelo bafo de pinga.”

E o Araújo? Ele é uma entidade que nunca aparece. Na verdade, o bar já se chamava assim quando três irmãs o compraram e mantiveram o nome. Elas são três Marias: Auxiliadora, Madalena e Aparecida, filhas de pais muito católicos, já falecidos. Auxiliadora, a mais velha e ateia, explica que o bar recebe igualmente a todos, sem distinção de crença ou não crença, e que é amiga de vários fieis das igrejas vizinhas, mas faz uma ressalva: “Menos de uns fanáticos aí, que oram todo dia pra Deus mandar um raio bem em cima do bar. Quando eu pergunto se o raio não vai atingir também as igrejas, eles dizem que vai atingir a outra, não a deles.” Madalena é a filha do meio, batizada em homenagem à apedrejada personagem bíblica, mas é umbandista, e é mais conhecida pelo apelido, Madá das Pedras, por ser ela quem prepara a tradicional Sopa de Pedra, servida às terças. E Cida, a caçula, que já frequentou todas as igrejas evangélicas da cidade e não esquentou o banco em nenhuma, diz que adora trabalhar no bar porque os ateus e ateias aceitam sem problemas sua bissexualidade e sua alma livre. Indagada sobre suas crenças, ela responde: “Eu sei que Deus existe, mas Ele detesta religião e fica puto com essas louvações todas. Deus já passou dessa fase.”

As três Marias

As três Marias

O bar é simples e sem sofisticações, mas suas donas primam pelo tratamento criativo e bem-humorado dado aos frequentadores. A casa abre e fecha sempre ao som de trombetas e, obviamente, funciona também em dia santo. Toda noite, antes de fechar, rola uma rodada de Expulsadeira do Éden, cachaça artesanal da região. Após um ano, o cliente ganha a carteirinha de Testemunha de Araújo, que dá direito a pendurar a conta, ou melhor, crucificar a conta, pois ela é literalmente pregada num madeiro em X que fica atrás do balcão. Assim como seus vizinhos, no Bar do Araújo também existe o dízimo, com a diferença que quem cobra é o próprio cliente: toda dose dá direito a uma choradinha dizimal. Quanto aos banheiros, eles não são divididos por gênero masculino ou feminino, mas pela fé de cada um. Na porta de um, “Fé demais”, e na do outro, “Fé de menos”. O segundo é mais usado.

Antes, o bar sofria bastante com os cultos das igrejas, pois a zoadeira espantava os clientes, principalmente em dia de exorcismo. Como o poder público era indiferente à poluição sonora divina, o bar resolveu a questão fazendo shows com a banda de rock Lucy Feryna exatamente na hora dos cultos. A gritaria dos vizinhos combinou tão bem com o som pesado da banda que caravanas de roqueiros chegavam na cidade só para ver os shows. Incomodados, e cientes de que contribuíam para o sucesso da banda, os pastores instalaram isolamento acústico nas igrejas, o que fez os shows perderem a graça. Mas o episódio fez surgir um novo gênero musical, o demogospel metal, e inspirou o surgimento de várias bandas, como a Danação Eterna e a Hordas do Louvor, que se especializaram em fazer shows ao lado de igrejas evangélicas, aproveitando o coro dos cultos.

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Testemunha de Araújo faz manifestação em defesa do bar

Dos três estabelecimentos, apenas o bar paga impostos, pois igrejas são isentas por lei. Alegando desrespeito religioso, ambas as igrejas já tentaram fechar o bar várias vezes, sem êxito. Já tentaram também alugar o espaço, mas estão condenadas à convivência já que o dono do imóvel, que preferiu não ter o nome divulgado, pretende manter os aluguéis do jeito que está. Apesar de serem ambas evangélicas, as igrejas possuem diferenças entre si e são comuns desavenças entre seus fieis. Numa delas, um ano atrás, evangélicos dos dois lados discutiram e atiraram, uns contra os outros, dezenas de garrafas de água milagrosa do rio Jordão. “Foi um pandemônio, era vidro pra todo lado. E os nossos clientes, coitados, no meio do fogo, tiveram que se proteger embaixo das mesas”, conta Auxiliadora, relembrando o caso. Felizmente, ninguém se feriu seriamente, e depois desse dia os pastores passaram a vender a água milagrosa em garrafa de plástico. Desde então não houve mais grandes confusões. “Até agora, este é o único milagre comprovado da água milagrosa”, conclui Madá, a das pedras.

A seguir, uma amostra do cardápio, da programação e das promoções do Bar do Araújo.

CARDÁPIO:

Xis-Gospel (com e sem queijo) – Linguiça do Pastor – Pastel Convertido – Dogão de Salomão (duas salsichas) – Encosto de Moela – Amarradinho de Frango – Exuspetinho (com farofa e vinagrete) – Torresminho de Ateu – Chucrute na Santa – Pecadinho de Fígado – Línguas de Fogo ao Molho Madeira – Encruzilhada de Bode – Fornicadinho de Azeitona e Queijo – Benzidão de Porco na Chapa – Sarapatel da Arrependida – Condenada na Grelha (galinha assada) – Pimenta Braba do Anticristo – Heresia de Peixe com Fritas – Pomba com Ovos Dentro – Rabada da Crente – Arrebatada com Macaxeira – Vodu de Camarão no Palito – Ungido de Vatapá – Buchada Poderosa do Juízo Final – Blasfemo Cozido (tem espinha, cuidado) – Galeto Crucificado com Farofa – Patê de Ateu – Ressuscita Jesus (caldo de mocotó com tripa de surucucu) – Capetinha de Frutas – Vinho de Jurubeba Filhas de Ló – Ponche de Pilatos – Pinga Milagrosa do Rio Jordão – Mexidão do Moisés (com ketchup do Mar Vermelho) – Admoestada com Pepino e Cenoura – Possuída ao Molho Cabidela

PROGRAMAÇÃO:

Segunda do Arrependimento: quanto mais pecado, mais desconto
Terça da Salvação: sopão grátis para expulsos da igreja
Quartafobia: teatro com o grupo Os Ex-ex-gays
Quinta do Descarrego: a quinta cerveja é por conta do Cão
Sexta: show com as bandas Dizimados no Apocalipse e Jericos de Jericó
Sábado: Jesus não paga (mas tem que apresentar documento com foto)
Domingo: show de humor com a dupla Paifilho e Espírito Santo

BarDoAraujoEASalvacao-03PROMOÇÃO: ESTE COPO NÃO TE PERTENCE
Quem bebe no gargalo tem desconto (economia de água na lavagem dos copos)

AVISO SOB O RELÓGIO NA PAREDE:
Que oração? Hora que passa.

AVISO NO CARDÁPIO:
Aqui todos falamos em línguas (enroladas)

INVOCAÇÃO ETÍLICO-DEMONÍACA
(para ler refletido no espelho, à meia-noite)
SÁRBARREF, MIUR ASIOC, OSOHNIT
ZAPAR ORP AGNIP E AÇOM ARP AGNIP

BEBEU DEMAIS E NÃO PODE DIRIGIR?
Disque Arrebatação. Somente mototáxis credenciados.

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RESSUSCITA ARAÚJO
Em frente ao bar e desesperado, Testemunha de Araújo pede milagre

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Ricardo Kelmer 2015 – blogdokelmer.com

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ESTA POSTAGEM INTEGRA A SÉRIE REAL PARALELO
Onde ficção e realidade se encontram no infinito
Mais postagens:

AsCiclistasOrgasticasDaColombia-01As ciclistas orgásticas da Colômbia – Ciclistas adotam uniforme polêmico e usam a energia de seus orgasmos para vencer corridas

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FALARAM DO BAR DO ARAÚJO PELAÍ

Blog da Socaba (Sagrada Ordem dos Cavaleiros do Bar) – SOCABA Adota a Campanha: Resiste Bar do Araújo
Blog do Tiago Cabral – A verdadeira história do “Bar do Araujo”
Site Paulopes – Foto do Bar do Araújo se torna viral a favor da resistência laica


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LEIA NESTE BLOG

MeuFuturoDePopistarCristao-02bMeu futuro de popistar cristão – Meus shows seriam superanimados, sempre acompanhados de meu time de ruivinhas cristãs de minissaia, as Noviças Viçosas

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O armário dos ateus – Os dados da ONU e a pesquisa de Phil Zuckerman desmentem uma velha crença dos religiosos e teístas, a de que uma sociedade sem Deus fatalmente descambará para a criminalidade e infelicidade geral

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- kkkk. e depois, o exorcismo é no banheiro!!! Fernando Vasqs, São Paulo-SP – mai2015

02- cada um com sua lombra. Eduardo Freire, Fortaleza-CE – mai2015

03- KKKKKKKKKK. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – mai2015

04- Show de bola ! Carlos Almir, Fortaleza-CE – mai2015

05- Cerveja, deve se quente. HumbertoGirao Filho Girao, Fortaleza-CE – mai2015

06- esse exuspetinho me deu água na boca rsrsrsrsrsrsrsrsrs. Amaury Candido Bezerra, Fortaleza-CE – mai2015

07- Lembra me o livro “As Pelejas de Ojuara” do escritor Ney Leandro de Castro, avô da minha querida amiga Giselle Leandro Fleury! Ojuara (Araujo ao contrário)! O homem que desafiou o Diabo! Cauê Procópio, São Paulo-SP – mai2015

08- Boa Cp! Literalmente!!!!! Giselle Leandro Fleury, Rio de Janeiro-RJ – mai2015

09- Fabiano Souza, olha o cardápio do Herói Araujo rsrsrsrsrsrsrs. Fexx Efexx, São Paulo-SP – mai2015

10- Olha o cardápio e a programação, Ivo Pinto. Oriana Menescal, Fortaleza-CE – mai2015

11- O melhor é seguir o caminho do meio! Alexandre Domene Ortiz, Fortaleza-CE – mai2015

12- Kelmer o texto completo do blog tá sensacional, parabéns… eu já tinha visto a foto, mas com essa crônica acompanhando ficou incrível kkkkk. Christiane Ramos, Fortaleza-CE – mai2015

13- Seo Kelmer, isso é genial. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – mai2015

14- ótimo. Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – mai2015

15- tem que dar muita força pro Araujo. pq igreja da muito mais dinheiro do que um bar. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – mai2015

16- Ricardo Kelmer, meu poeta, achei q era so foto, nao tinha lido o texto. q phueda, crônica-reportagem de primeira. genial, amigo. bjo. Xico Sá, São Paulo-SP – mai2015

17- Procurando socios para montar uma igreja Ja tem o nome “Santa Sacolinha”.. kkkk. Marie Anne Bauer, Fortaleza-CE – mai2015

18- E esse cardápio do inferno tá de comer rezando. Paula Brito, Fortaleza-CE – fev2019

19- Sai um sarrabufado dizimal e uma cerva divinal? Parabéns Kelmer! Excelente o livro inteiro! Obrigado! Guga Cazagrande, Fortaleza-CE – fev2019

20- Bem sortido! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – fev2019

21- Ponche pilatos. Rhany Costa, Manaus-AM – fev2019

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Por que brigamos

27/06/2014

27jun2014

Ou continuava tentando salvar o casamento, e todo o seu esforço não seria nenhuma garantia de sucesso, ou então salvava a si mesmo – se é que existia salvação para ela

PorQueBrigamos-06

POR QUE BRIGAMOS

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Quanto mais
eu penso em lhe deixar
Mais eu sinto que não posso
Pois eu me prendi à sua vida
Muito mais do que devia

A enfermeira termina de fazer o curativo e diz que ela pode descer da maca. Nádia desce e se olha ao espelho, vendo o lado do rosto inchado, o olho vermelho. A assistente social insiste: ela não pode deixar de fazer a denúncia. Nádia suspira… Lá fora na rua, em algum rádio, toca uma música… Ela reconhece, é um antigo sucesso da Diana. Então as imagens da noite anterior voltam, e outra vez vem a vontade de chorar. Mas dessa vez se controla e se deixa conduzir pela mulher. Na delegacia, em seu depoimento, ela afirma que… que… Nádia para e começa a chorar, interrompendo o que dizia. A assistente a conforta e a incentiva a prosseguir, diz que ela precisa ser forte, que seu exemplo pode ajudar outras mulheres. Nádia enxuga as lágrimas, levanta-se e diz calmamente que havia mentido, que na verdade ele não a agrediu, ela é que se machucou sozinha, sim, foi isso, foi só isso que aconteceu. E sai correndo da sala.

Quando à noite, de regresso
Você briga por qualquer motivo
Confesso que tenho vontade
De ir pra bem longe
Pra nunca mais lhe ver

No dia seguinte, enquanto aguarda o táxi na calçada, ela olha para o prédio. Entre as várias janelas, localiza a sala do seu apartamento. Vem-lhe a lembrança de uma noite, uma linda noite, ela e Afonso, os dois comemorando a passagem do ano juntinhos, vendo os fogos daquela janela, brindando com champanhe e beijos apaixonados… Mas o táxi chega e a doce lembrança se dissipa como a fumaça dos fogos. Meia hora depois está na rodoviária, esperando o momento de entrar no ônibus, o coração apertadinho… Tantas e tantas vezes tomou aquela mesma decisão e nunca teve coragem de ir até o fim. Mas agora é diferente. Haviam chegado ao limite máximo, ela não suportava mais. Precisava decidir: ou continuava tentando salvar o casamento, e todo o seu esforço não seria nenhuma garantia de sucesso, ou então salvava a si mesmo – se é que existia salvação para ela. Então um homem passou. Ela viu suas sandálias. E lembrou que as de Afonso estavam gastas, que ela prometera lhe dar um novo par de presente… Ela olha a hora no relógio, corre até a loja no primeiro andar e compra um par de sandálias, de couro preto, como ele gosta. E despacha na agência do correio ao lado, encomenda sem remetente. Depois corre para o ônibus, quase não chega a tempo, entra e senta em sua poltrona, suada e ofegante. Mas na saída da cidade o ônibus para. E ela desce. Mais uma vez não teve coragem.

Ó, meu amado
Por que brigamos?
Não posso mais viver assim sempre chorando
A minha paz estou perdendo
A nossa vida deve ser de alegria
Pois eu lhe amo tanto

Ela não lembra bem o início da discussão. Como sempre ocorre nessas horas, o motivo se perde em meio a tantas mágoas e de repente nem sabem exatamente por que estão brigando. O fato é que voltavam de um aniversário, tarde da noite. Ele estava com ciúmes por causa de uma bobagem qualquer e então a xingou, dizendo que jamais teria filhos com ela porque não queria dar-lhes o desprazer de terem uma mãe vagabunda. Ela fechou os olhos, tentando engolir a raiva. Mas não conseguiu: pegou a chave do carro, que ficava no mesmo chaveiro da chave do apartamento, e atirou longe, por cima do muro de um terreno baldio. Enquanto ele bufava de ódio, ela falou calmamente que iria provar que ele tinha toda razão no que dissera sobre ela, e saiu, pisando firme. Voltou somente no dia seguinte, à tarde. Tirou sua chave da bolsa e quando tentou abrir a porta, não conseguiu. Quando ele chegou, à noite, encontrou-a sentada no chão, do lado de fora, chorando. Ela disse que ele não deveria ter trocado a fechadura, e ele respondeu que ela não deveria ter jogado fora a chave dele. Minutos depois, no carpete da sala, em meio às almofadas e os muitos beijos de desculpas, treparam loucamente, com força e desespero, como havia muito tempo não o faziam.

Já não consigo esquecer as tolices
Que você diz nessas horas
Já tentei, mas não posso

Mais tarde, abraçados na cama, ele quase dormindo, ela toma coragem e toca no assunto da última briga, quer saber se ele não ficou preocupado quando ela saiu no meio da noite, dizendo que iria provar que ele estava certo ao dizer que ela era uma vagabunda. Ele diz, muito calmo e seguro: Claro que não, você é fraca demais pra isso. Ela não acredita no que ouve e espera que ele diga que está brincando, que na verdade ficou preocupado, sim. Mas ele já está dormindo. Ela levanta da cama e vai para a sala, sentando no sofá, e dessa vez tem certeza que seus pensamentos a enlouquecerão. Em sua mente, a voz dele ainda ecoa, repetindo feito um eco sem fim: fraca demais pra isso… fraca demais pra isso… E ao fundo, uma outra voz, a do desconhecido no motel, na madrugada anterior, no momento em que ele a penetrava deitado por baixo dela: Goza, putinha, goza…

Tenho a impressão que do amor
Que um dia existiu entre nós
Hoje só resta uma chama apagando

Olhando o álbum de fotos, ela ri do tempo de namoro, ela orgulhosa dele na festa de formatura e ele sem jeito ao lado de seu pai. Ela fecha o álbum e olha para o bolo sobre a mesa, a vela já quase no fim. Sete anos atrás, naquele mesmo dia, começavam a namorar, para um ano depois, exatamente um ano porque ele fez questão de que fosse no mesmo dia, casavam-se. Sete anos… Então um vento entra pela janela e apaga a vela. Ela olha o relógio: meia-noite. Ele esquecera. Mais uma vez. Não viria mais. Então pega o telefone e chama um táxi. Meia hora depois o motorista para em frente a um motel. Ela paga e desce. Um segurança do motel ainda tenta impedi-la, mas ela corre e entra na garagem de uma das suítes. Na confusão de gritos e xingamentos que se segue, o segurança a muito custo consegue, junto com Afonso, separar as duas mulheres que se batem. Uma delas vai embora, não sem antes quebrar com o tamanco os vidros do carro dele. E quanto à outra, Afonso a toma carinhosamente nos braços, beija-a longamente e a leva para dentro do quarto, enquanto ela balbucia, no meio do choro intenso, que ele não a deixe, por favor, por favor…

O medo de ficar só me apavora
E eu me desespero
Só me resta pedir a sua ajuda
Pedir que você não me deixe, meu amor
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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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A letra usada neste conto é da música Por Que Brigamos, versão de Rossini Pinto da música de Neil Diamond (I am, I said), um dos maiores sucessos de Diana. Este conto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino e o livreto Trilha da Vida Loca – Contos do amor doído

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Trilha da Vida Loca
Ricardo Kelmer, contos

O amor é belo. Mas também é ridículo, risível, trágico… Aqui estão reunidas seis histórias inspiradas em grandes sucessos musicais da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor. Amar é para estômagos fortes.

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Diana canta “Por que brigamos”

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Diana-03OUTROS SUCESSOS DE DIANA

Ainda queima a esperança

Canção dos namorados (Le vals de las mariposas)

Foi tudo culpa do amor

Tudo que eu tenho (Everything i own)

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LEIA NESTE BLOG

VouTirarVoceDesseLugar-03Vou tirar você desse lugar (Trilha da Vida Loca) – Josélia é uma das putas mais requisitadas do Leila´s. E Dario se apaixonou por ela

Lama (Trilha da Vida Loca) – No passado, eles se amaram perdidamente, e foram ao fundo do poço. Hoje, o ódio é tudo que os une

Odair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

Paixão de um homem (Trilha da Vida Loca) – Solano é meu melhor amigo, e tudo que não desejo é que ele sofra por uma vagabunda que não merece uma gota das lágrimas que ele tanto chora

A última canção (Trilha da Vida Loca) – O que mais impulsionava sua voz, a raiva por ela brincar assim com seus sentimentos ou o ódio por pressentir que mais uma vez não conseguiria resistir? 

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TRILHA DA VIDA LOCA – O SHOW

TrilhaDaVidaLocaDiv-01Mesclando música e literatura, este show reúne clássicos da dor de cotovelo da MPB e histórias de amor inspiradas em sucessos de Odair José, Waldick Soriano, Diana, Reginaldo Rossi e Fernando Mendes, num formato divertido e interativo. As canções são executadas por Ricardo Kelmer e Felipe Breier (voz e violão) e também em trechos de suas gravações originais, com participação da plateia. Paixões de cabaré, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor… Favor pagar o couvert antes de cortar os pulsos.

Texto e direção: Ricardo Kelmer. Com Ricardo Kelmer e Felipe Breier
Duração: 2h (ou versão de 1h30)
> Saiba mais, veja vídeos do show

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TRILHA DA VIDA LOCA
Contos e canções do amor doído

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Quantas Nádias estão por aí, tentando salvar o que não tem conserto… Ana Velasquez, Altamira-PA – mar2015

02- Adorei! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – mar2015

03- Profundo Ricardo Kelmer. Bjs. Caroline Correia Maia, Fortaleza-CE – mar2015

04- Como vejo este tipo de relacionamento… Verdadeiros choques constantes de personalidade, até que um dia o amor some e fica a dúvida: um dia esteve ali? Ana Velasquez, Altamira-PA – mar2015

05- Muito bom. Pedro Luiz Oliveira, Fortaleza-CE – mar2015

06- Um misto de beleza e miséria. Miséria é viver assim, mendigando o carinho do outro, uma busca constante por algo que não existe de verdade e que faz a pessoa se perder de si mesma e viver o outro. Todo amor tem sim as suas brigas e conflitos, afinal cada um pensa da sua maneira. Mas viver assim é viver perdido. A gente tem raiva pela a personagem, mas quem de nós não já viveu esse sofrimento?! Na verdade, nem sabemos direito o que é amar. 07- Ah, adoro a música, apesar da sofrência em alto grau. rsrsrsrs Uma versão mais dramática pra vcs curtirem. https://www.youtube.com/watch?v=Nr5xeHMIGDQ. Renata Kelly, Fortaleza-CE – mar2015

08- Adoro essa música, Ricardo Kelmer!! Eu e a Monica Carvalhedo cantamos muuuuito no Karaokê!!!! rsrs bjs.. Lana Arrais, Fortaleza-CE – mar2015

09- Vocês não vão querer saber mais que o poetinha querido Vinicius de Moraes ou vão? Ele fala de catedra, pois teve 9 casamentos reais e nem sei quantos amores alem desses. Então vai ai um pedaço da música onde ele diz: Quem nunca curtiu uma paixão / Nunca vai ter nada, não / Não há mal pior / Do que a descrença / Mesmo o amor que não compensa / É melhor que a solidão / Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair / Pra que somar se a gente pode dividir? / Eu francamente já não quero nem saber / De quem não vai porque tem medo de sofrer / Ai de quem não rasga o coração / Esse não vai ter perdão

10- Eu concordo com o poetinha. Estou vivendo isso agora e entendo perfeitamente a personagem. Não é massoquismo não apenas acontece Renata, ninguem esta livre. Que bom que não esteja. Ricardo Kelmer você é simplesmente demais!!! Você consegue retratar todo o sofrimento humano nos seus pormenores e seus recantos mais escondidos da alma. Amei isso que escreveu. Presentão pra todos que sofrem ( vivem ) os males ( aventura ) do amor paixão ou seja la que nome tenha. Valeu!! Adorei o conto e muito obrigada. Beijão. Ana Andréa Gadelha Danzicourt, Tubarão-SC – mar2015

11- Existem relacionamentos que não sabemos o motivo pelo o qual continuamos, mas o fato é que essa chama que queima, a dor, o medo de perder o outro, só sabe dessa fúria quem já passou por isso, tudo certinho, em comum acordo, sempre, na verdade é um saco!! complicado de entender, mas paixão não se entende mesmo….. Kelmer vc é sempre fantástico!!! beijos no coração. Regia Alves, Fortaleza-CE – mar2015

12- Aff, detesto qdo Ricardo Kelmer, fica retratando minha vida. SQN! rsrsrsrs. Muito bom, sempre! Marina Oliveira, Fortaleza-CE – mar2015

PorQueBrigamos-06a


O voo eterno do pássaro psicodélico

09/03/2014

09mar2014

OVooEternoDoPassaroPsicodelico-01a.

O vídeo abaixo é o registro da homenagem que fizemos a Alberto Marsicano. Aconteceu durante o show da banda Cabruêra, no 23° Encontro da Nova Consciência (Campina Grande-PB). Participam também os músicos Waldemar Falcão, Baixinho do Pandeiro e Vitor Harres, e o vídeo foi gravado por Antonio Carlos Harres, o Bola. O poema que interpreto foi parido no camarim, momentos antes de subir ao palco.

Alberto Marsicano nasceu em São Paulo, 31.01.1952, e morreu em 18.08.2013, em São Paulo. Era músico, tradutor, escritor, filósofo e professor. Foi um dos introdutores do Sitar indiano no Brasil, instrumento que requer muitos anos de estudo e dedicação. Era presença constante no Encontro da Nova Consciência.
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O VOO ETERNO DO PÁSSARO PSICODÉLICO
Ricardo Kelmer 2014
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Feito um satélite desorbitado
Nos céus da nova consciência
Lá se vai o pássaro psicodélico
Com seu bêbado voar poético
E sua alva cabeleira

Mas na cantiga certeira da cítara alucinante
A vida é um sonho andante que não segue planos…

Ouçam! Estão ouvindo? Vocês viram?
O pássaro psicodélico passou por perto
Ouçam! Nas asas do transe o som se chama Alberto

E sobre as mentes da plateia consciente
Seu voo sagrado flutua eternamente
E a música estremece de prazer insano
O gozo do voo se chama Alberto Marsicano

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Ricardo Kelmer 2014 – blogdokelmer.com

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VÍDEO (4:44)

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LEIA MAIS

enc2007albertomarsicano001Viajando com Marsicano – Um pouco da vida e da arte de Alberto Marsicano

Para baixar o disco Sitar Hendrix (zip, 68 mb), indicado ao Grammy 2009

Os ensaboados da Nova Consciência Desde seu início, o encontro prioriza o diálogo e a troca sadia de experiências, buscando o fio de unidade que permeia todas as coisas

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01- poxa que massa, dia desse foi o aniversario dele, ele chegou a me dar o cd cabruera que ele tocou, justa homenagem! Felipe Maia, São Paulo-SP – mar2014

02- Muito foda! Lembrei da primeira apresentação dele que eu vi na nova consciência. Sempre foi uma figura ímpar do evento. Encantador! Tayane Cristine, Campina Grande-PB – ago2014

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Manifesto das bem-aventuranças

12/11/2013

12nov2013

ManifestoDasBemAventurancas-06 .

MANIFESTO DAS BEM-AVENTURANÇAS
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Are you a lucky little lady in the city of light?
Or just another lost angel?…
City of night.
(The Doors)
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Bem-aventurada a noite
e todos os seus embalos e alcovas
Todos os bares
sobretudo os malditos e mais ainda os de balcão
As danceterias esfumaçadas
de disputadíssimo metro quadrado
onde brilham DJs de gosto discutível
e os dançarinos de ocasião
Os neons coloridos dos cruzamentos cosmopolitas
Os motéis e suas filas de espera
constrangedoras e nem sempre contidas
Os cabarés de periferia
com suas adoráveis máquinas de música
e a luz lilás do ambiente, tão indefectível
As esquinas lascivamente habitadas de pernas à mostra
e olhares convidativos
Os inferninhos regados a uísque e cocaína
dos ricos apartamentos da orla costeira
E os incansáveis concursos gay
que sobrevivem quase clandestinos e sem glamour
para os sonhos de cinderela de tantas bonecas borralheiras

Bem-aventurado o bolero
ritmo sagrado de todas as penumbras
e das melhores dores-de-cotovelo
Bem-aventurados os que uma vez na vida
sucumbiram a uma paixão sem zelo e sem par
rodopiando lentamente de rosto colado
e a voz rouca de Elis contando falseado
de um bandeide no calcanhar…

Bem-aventuradas todas as festas
mesmo as de 15 anos e outras mais comedidas
porque festa é o que nos resta
Infinitamente mais bem-aventuradas porém
aquelas festas louquíssimas
onde exigem fantasia
os convidados são selecionados
a bebida não falta
o som não deixa ninguém parado
a fila para o banheiro é uma das atrações
há um segundo andar na casa
fertilizando travessas imaginações
o vizinho apareceu para reclamar e acabou ficando
tá todo mundo superafins
(solteiros, solteiríssimos, casados e os nem tão casados assim)
estão presentes pelo menos uma dúzia de vivas lendas
do primeiro escalão de sua agenda
e no outro dia você acorda atordoado num quarto que não é o seu
não lembra que horas saiu da festa e muito menos
o que naquela cama aconteceu…
mas toda apreensão se evapora
quando surge
à porta do quarto
insinuante e bem-humorado
aquele anjo maravilhoso do seu sonho
lhe dando bom-dia
e empunhando uma cerveja estupidamente bem-vinda
porque hoje é sábado afinal
e você não tem compromisso
e além disso seu anjo maravilhoso continua bem disposto
e maravilhosamente irreal

Bem-aventurados os garçons e garçonetes
em seu glorioso e incompreendido ofício
Os cantores e músicos da noite
que nunca perderão a velha esperança de ver a vida
lhes reconhecer os méritos finalmente
méritos diariamente abafados pelas conversas nas mesas
e pelo barulho da churrasqueira bem ao lado
ou ainda pelos aplausos longos e entusiasmados
a músicas que nunca são as suas…
Os esforçados transformistas de boate de terceira
As dançarinas de strip-tease
e os atores e atrizes de sexo explícito
já cansados de explicar
que é um trabalho como outro qualquer
As lindas e promissoras modelos
de rosto e corpo cultivados
que os emprestam a ricos executivos
por um jantar naquele restaurante badaladíssimo
e depois um bom vinho num 5 estrelas reservado
E as menininhas que encurtam ao máximo suas saias
e sua adolescência
para os caprichos fartos de estrangeiros deslumbrados

Bem-aventuradas todas as prostitutas
sobretudo as pobres
saco de pancada das sociedades hipócritas de todos os tempos
Bem-aventuradas por todos os séculos e séculos
elas que são do mundo lixo, vício e benefício
elas que (ao lado dos palhaços) terão sempre
o mais puro dos ofícios
Bem-aventurados os garotos e garotas de programa
versões mais destiladas da eterna profissão
termos mais requintados pra mesmíssima coisa
curso inevitável da democratização sexual
Bem-aventurada a não mais exclusividade do aluguel do prazer
aos prostíbulos e praças mal afamadas
que bom vê-lo com outras roupas!
que bom sabê-lo em outras camadas!
Bem-aventurado, por extensão, o telefone
que os solicita e as solicita com discrição

Bem-aventurados mais ainda os travestis
Bombástica personificação do inconformismo à ditadura genética!
Exótica e sensual indignação da alma ao legado do corpo imposto!
Seres tão cruéis à nossa vã necessidade de tudo explicar
Eles que são elas
e que desafiam e abordam insolentes nas esquinas
o pudor do mundo
e envergonham a sagrada decência da família
e instigam curiosidade e luxúria
com seus corpos inadmissivelmente belos
tão androginamente profanos
Eles que são elas
anjos noturnos do apocalipse sexual urbano
prisma expiatório de sentimentos vários
o mais puro amor
o ódio mais sanguinário
Eles que são elas
própria contradição do sexo
e sua mais alta idolatria
Buscada redenção do pecado original: Adão e Eva num só
Para lembrar que um sempre se descobrirá no outro
que é o que sabemos quando amamos
Para lembrar que do homem nasceu a mulher
e se um está no outro
é porque ambos estão em você
mesmo se não quiser

Bem-aventurados enfim
todos vós que atentais contra a moral e os bons costumes
Vós que dais de comer à obscenidade e à alegria
Vós que instigais a carícia e a polícia
e que emprestais ao profano vossa poesia
Vós que sacudis a pasmaceira dos tempos
e assaltais a mesmice
e violentais a pudicícia
e fazeis sangrar a pestilenta carne da demagogia
Deus vos proteja
e vos guarde (sempre à noite) um lugar
e um altar
em sua incompreensível sabedoria

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Ricardo Kelmer 1993 – blogdokelmer.com

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RKIntocaveisPutzBand1994-01SOBRE ESTE POEMA – Nos shows da Intocáveis Putz Band (Fortaleza-CE), em 1994, quando eu ainda integrava a banda, usávamos este poema num dos números, vestidos como monges medievais. Enquanto a banda fazia um instrumental psicodélico e de intensidade crescente, eu recitava trechos do poema, pregando para a plateia, num clima denso e sombrio. Era o momento sacro-profano do show. As reações do público eram curiosas: algumas pessoas se assustavam, outras se identificavam bastante e havia até quem chorasse emocionado. O Manifesto das Bem-Aventuranças não foi gravado no único disco que a banda lançou, em 1999.

> A celebração da putchéuris – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

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Por trás do sexo anal (1) – Se esotérico significa a parte mais oculta de uma tradição ou ensinamento, aquilo que somente iniciados alcançam após muito estudo e dedicação, então o sexo anal é o lado esotérico do sexo

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01- Uma hora de palmas e em pé ainda não seria o bastante…..simplesmente genial. Fabiano Brilhante, Fortaleza-CE – nov2013

02- Quanta blasfêmia… Sei que você é um poeta, e que vê beleza e arte na vida boêmica, mas não use o nome de Deus em vão, para que não te sobrevenha nenhuma maldicão “Não vos enganeis, de Deus não se zomba, pois tudo o que o homem semear, isto também ceifará”. (Gálatas 6:7). Clara Haugland, Fortaleza-CE – nov2013

03- sae satanas……. evem pra igrja punk do f.d.s…. capeta…… Bispo Xines, São Paulo-SP – nov2013

04- Clara, não discuta.O Kelmer só deseja provocar, chamar a atenção… É nisso que se transformou o ato de pensar, isso não nos deve surpreender. Somente sendo idiota se faz uma provocação como essa. Deus já disse que o Reino dos Céus é para todos, todos aqueles que o quiserem, e só quererão os que se arrependerem, os que estão cansados, dispostos à buscar sabedoria. Kelmer está por aí fazendo literatura sem fazer literatura, pensando sem pensar muito bem ou muito demoradamente. O que sei é que um testemunho como este em nada altera, em nada influência… Chega! Já demos audiência demais. Max Honorato, Nilópolis-RJ – nov2013

05- que as diferenças sejam respeitadas e a diversidade de pensamentos livre!!! evoé. Marina Caires, São Paulo-SP – nov2013.

.ManifestoDasBemAventurancas-06a


Cais e amores

22/04/2013

22abr2013

Sabia que foi também por causa de uma ventania medonha que hoje vim parar aqui nos Inhamuns, atrás de meu coração machucado que uma enfermeira levou em sua maleta?

CaisEAmores-1

CAIS E AMORES

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Meu querido Cais,

Fiquei sabendo que você está de endereço novo. Trocou as águas poluídas da Praia de Iracema pela água fria da zona leste. Estou curioso para conhecer seu novo lar e brindar à mudança. Este fim de semana não vai dar porque tive de vir aqui em Crateús resolver uns probleminhas. Coisas do coração, sabe como é, esses desmantelos sentimentais que entortam a vida da gente. Mas não vamos falar disso. Logo estarei de volta a Fortaleza e aguarde que qualquer hora dou as caras por aí.

Cais Bar. Sim, sei que vai ser estranho sentar em suas novas mesas, olhar ao redor e não ver o mar. Mas quem aprendeu com o mantra das ondas de Iracema, sabe que é preciso sempre navegar e seguir os sonhos. E você navegou. Subiu a âncora, abriu as velas e permitiu que os ventos do destino soprassem seu sonho para outras águas.

O sonho… Ah, o que não se faz por um sonho, né? Pelo amor também: você chora, enche a cara, toma lexotan para dormir e entra no cheque especial do desespero. Deixa até crescer aquela barbicha horrorosa só porque ela gosta. Pelo amor, não duvide, você até larga o trabalho ao meio-dia e pega um ônibus pinga-pinga para Crateús, sem ter nem onde ficar, sete horas de estrada e mormaço só para pedir a ela mais uma chance, o olho cheio dágua, volta, por favor…

Hummm… Desculpe. Esse assunto de novo. Juro que não falo mais nisso. Pois bem. Cais Bar… É claro que as velhas lembranças não vão morrer. Jamais esquecerei aquela tarde de sábado em que eu, Nilo e Augusto Cesar fomos ao Cais, nem inaugurado ainda, nem mesa havia, e Ernesto nos serviu uma cerveja, transbordante de otimismo. Eu era apenas um ingênuo garoto de 20 anos, deslumbrado com as promessas da boemia, mas senti a solenidade do momento e, em contribuição, recitei Receita de Mulher, de Vinicius, com Nilo no violão e o mar na percussão. Como esquecer daqueles carros estacionados na areia, onde muitas vezes fui dormir para recuperar as forças e depois voltar à mesa dos amigos? E as famosas pedras? Quanta gente boa não se apaixonou ali, sob o incentivo dos gaiatos, já vai pras pedras, né?

Mas no balanço da vida, e do amor, tudo pode mudar. Por isso é preciso estar atento à vontade dos ventos e fazer a coisa certa. Quando os ventos sopraram outros visitantes para a Praia de Iracema, levando outros interesses e afugentando o público habitual, você resistiu, tentou manter-se firme no sonho. Quando o descaso do poder público pairou sobre aquele pé de castanhola feito a sombra do fim dos tempos, você ainda esperneou e comprou a briga. Mas o bom navegador sabe a hora de virar a vela.

Os ventos… Ai, ai. Eu não queria, mas vou escorregar para aquele assunto de novo. Sabia que foi também por causa de uma ventania medonha que hoje vim parar aqui nos Inhamuns, atrás de meu coração machucado que uma enfermeira levou em sua maleta? Pois foi. Ô desgraceira. Mas viver, e amar, é assim mesmo: tem hora que é preciso confiar na sabedoria natural dos ventos, e deixar-se levar, humilde, o coração apertado, rumo ao que nos chama, mesmo sem saber aonde vai dar. Mesmo sem saber se vai ser feliz ou se vai pegar o ônibus de volta a Fortaleza, triste e sozinho, olhando pela janela a árida paisagem da alma.

Velas ao vento, Cais Bar! Cumpramos com altivez nosso destino de navegar. Que venham novamente, nos ares dos novos tempos, as mesas cheias de amigos, velhas e novas caras, entardeceres e amanheceres ao violão, poemas de batom no guardanapo, caipirinha com açúcar e paixão. E, para não perder o hábito, quero pedir ao Beruaite uma música, pode ser? É Malacaxeta 2, aquele blues acústico do Pepeu, “você produz toda a luz que eu preciso, que eu gosto de ter…” É uma música muito especial para mim. Sei que é difícil, mas quem sabe os ventos deste sábado tragam esse blues até aqui no sertão e façam a moça sorrir e voltar para mim.

Pois é. Eu sei que no amor, assim como na vida, às vezes a gente insiste em não querer mudar. Mas aí bate a ventania da necessidade e não tem outro jeito: lá se vai a gente, para a Água Fria, para Crateús, para o raio que o parta, lutar pela vida e pelos sonhos. E pelo amor também, esse vento inexplicável que nos leva de cais em cais, esse vento que nos faz viajantes da estrada mais bela e insana que há.

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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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Inculta e bela, dengosa e cruel – Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

Maior que meu horizonte (por Wanessa) – E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

Essa loirinha desmiolada de sol – Duvido que ela tenha uma marquinha de biquíni assim – a loirinha insiste, com a graciosidade tristonha das cidades que sabem que seus argumentos são ótimos mas que não vão adiantar

> Postagens nos temas “biográfico”

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01- Não tenha dúvida, Ricardo, ela não te merecia. O amor inclui perdoar os defeitos de quem a gente ama. Palavra de quem já ficou mtos anos num relacionamento só, e vc sabe. Bjooosss. Christina, Rio de Janeiro-RJ – mai2006 



I Ching das patricinhas

10/08/2012

10ago2012

O oráculo tem validade num caso desse? Ou eu estava sendo extremista?

I CHING DAS PATRICINHAS

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A noite seguia animada e eu tomava minha vodca, espremido entre as pessoas no balcão do bar. Bem ao lado, duas animadas garotas, estilo patricinha, comentavam sobre um rapaz na mesa próxima. Uma delas estava interessada nele e não sabia se devia ir ou não até sua mesa. Foi quando escutei algo extraordinário: Já sei, vou consultar o I Ching!

Tomei um susto. Olhei discretamente e percebi que ela digitava seu celular. I Ching pelo celular… Eu não acreditei. Mas era verdade. As patricinhas esotéricas estavam ali ao lado lendo na telinha o resultado enquanto riam e comentavam. Como a música estava alta, não pude saber qual hexagrama saiu. Mas fiquei encucado. O I Ching parecia não combinar com a situação, aquele clima de brincadeira e futilidade. Soava como algo sagrado sendo profanado. Uma garota consultando o I Ching no bar para decidir se devia ou não ir à mesa do rapaz… O oráculo tem validade num caso desse? Ou eu estava sendo extremista?

É sabido que a cultura esotérica tornou-se massificada e isso desvirtuou muita coisa. Veja o caso dos oráculos, como o Tarô e o I Ching. Eles são excelentes instrumentos de autoinvestigação psicológica e podem ser úteis na resolução de problemas, mas muitos os utilizam sem seriedade alguma e sem noção do que verdadeiramente representam, pois para que o processo seja eficaz, o consulente necessita parar, silenciar e esvaziar sua mente.

No caso do I Ching, o uso ritualístico das varetas requer seus vinte ou trinta minutos, e durante o ritual a mente se aquieta, se recolhe e se afasta do barulho exterior. Essa interrupção do diálogo interno proporciona um estado mental propício para que o consulente possa captar a essência da mensagem que virá. No entanto, a mentalidade apressada do Ocidente não gostou de ter que perder tanto tempo e trocou as quarenta e nove varetas pelas três moedas, e assim gasta apenas um minuto. Pela internet, com apenas um clique consulta-se o I Ching e num mísero segundo obtém-se a resposta. Agora vem o I Ching pelo celular: você consulta na fila do maquedônaldis e no intervalo da novela. Será que é válido? Ou estarei agindo como um purista dos oráculos, antiquado e intransigente?

Sim, é válido ‒ mas apenas para quem está preparado para receber a revelação. Porque tudo pode ser um oráculo, até mesmo a numeração de uma cédula ou o som das folhas ao vento. Tudo que existe pode conter as respostas que buscamos. No entanto, se alguém busca o oráculo com pressa ou intenções frívolas, ele responderá com uma repreensão ou então ironizará o consulente com uma resposta estapafúrdia, como faria qualquer mestre. As respostas sempre virão, sim, mas o consulente precisa estar apto a captar sua essência.

No filme Matrix, Neo consulta o Oráculo e entende que ele não é o Predestinado quando, na verdade, o Oráculo diz apenas que ele ainda está aguardando por algo para ser o que de fato já é. A resposta dos oráculos são claras ou obscuras dependendo de quem pergunta porque, na verdade, é o próprio consulente, em seu nível de sabedoria maior, quem responde para si mesmo, sendo o oráculo um mero instrumento para o processo.

Quanto à patricinha e seu dilema, espero que tenha se saído bem. Mas, cá para nós, se nossa amiga depende do I Ching para arrumar namorado, talvez seja mais produtivo encurtar a saia, apelar para o silicone ou participar do Namoro na TV.

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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

> I Ching na Wikipedia

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Livro: Matrix e o Despertar do Herói – A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas

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Galinha ao molho conjugal

03/05/2012

03mai2012

Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?

GALINHA AO MOLHO CONJUGAL

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O ano era 1988 e o bar era o Badauê, na Praia de Iracema. Lá estou eu e meus sócios, Paulo Marcio e Nelsinho, dividindo o lucro da noite e brindando ao estrondoso sucesso de nosso negócio.  E rindo à toa, pois realizávamos o velho sonho de ter o próprio bar. O dinheiro era bem vindo, claro, afinal aqueles papeizinhos retangulares facilitavam muita coisa, porém bom mesmo era um tipo de dividendo mais curvilíneo que o Badauê nos proporcionava: mulheres. Muitas, de toda cor e sabor, jeito e qualidade. Mulheres anônimas, famosas, loucas, deliciosas… Não tínhamos dúvida: o Paraíso ficava ali na rua Potiguaras.

Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento? É claro que, legítimos representantes da mais fina galinhagem, entusiasmados em nossos vinte e poucos anos, cada um votou em si. E agora? Resolvemos assim a questão: os dois que casassem primeiro dariam, cada um, um Jack Daniel’s para o vencedor, um justo troféu para o último resistente dos três mosqueteiros, derradeiro baluarte do sagrado cocoricó.

Pausa para reflexão sociológica. A galinhagem é um fenômeno que geralmente se manifesta cedo na vida do homem quando, na volta do recreio, ele descobre escrito em seu caderno que fulana é galinha, sendo fulana a sua digníssima irmã. Nesse momento crucial da vida o peso da verdade desce sem dó sobre os ombros do homem. Não porque a irmã seja realmente galinha, vai ver até é mesmo, mas porque agora ele sabe que existe a galinhagem. É um instante decisivo que norteará o comportamento masculino. Há os que assumem o papel de guardião das virtudes morais da irmã, coitados, mas há quem parta empolgado para saber o que diabo tem de tão bom nesse negócio que a irmã dele pelo jeito já descobriu. Fim da pausa para reflexão.

Eu, particularmente, descobri a galinhagem na pré-adolescência, estudante do Colégio Militar. Um colega apostou um sabacu como eu não tinha coragem de segui-lo numa aventura com as alunas do colégio Imaculada Conceição, ninfas que povoavam nossas púberes fantasias. Eu apostei, claro, e lá fui eu. Os colegas mais velhos compraram um saquinho de milho na bodega e rumaram para o Imaculada. Algumas salas de aula ficavam abaixo do nível da rua, de modo que suas janelinhas gradeadas surgiam aos passantes à altura da canela. Pois os malvados enchemos a mão de milho e passamos jogando os caroços pelas janelas enquanto emitíamos aquele som de quem alimenta galinha no terreiro: “Ti-tiii-tiiiiiii…” Depois saímos na disparada, excitados e felizes. E meu colega levou um tremendo sabacu, claro, aposta é aposta.

Foi a primeira e última vez que joguei milho para galinhas desse tipo ‒ achei muito perigoso. Mais tarde, já crescidinho, entendi que a verdadeira galinhagem não era nada daquela molecagem de estudante, mas sim um modo eficiente de experimentar todos os docinhos da festa. E há aqueles que se especializam e se tornam galinhas profissionais. A esses não basta provar de todos os quitutes: é preciso ser discreto, paciente, estratégico e, principalmente, ficar até o fim da festa… para deixar a garçonete em casa.

Depois daquela primeira experiência com as imaculadas, a galinhagem ainda me proporcionaria boas festas por muitos anos, disso jamais poderei me queixar. Mas docinho engorda, sabe como é, e com o tempo não se tem mais estômago para tanto excesso. Sem falar que garçonete larga o serviço muito tarde e foi-se a época em que dava para dormir até meio-dia.

Por essas e outras é que este ano meu amigo Paulo Marcio jogou a toalha e… casou. Incrível mas verdadeiro. E no fim do ano será a vez do Nelsinho. A cultura galinácea perde dois estupendos profissionais. Em compensação, suas belas mulheres ganham invejáveis maridos.

E eu? Bem, eu ganhei a aposta, catorze anos depois. Sempre fui bom jogador, pergunte lá no pôquer. Quanto ao Jack Daniel’s, espero que eles honrem a palavra pois é meu uísque preferido. E aproveito para avisar aos amigos que em breve será minha vez. Isso mesmo, já faz um tempo que ando pensando em jogar a toalha. Poderia ter sido um pouco antes, é verdade, mas sabe como é: aposta é aposta

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Ricardo Kelmer 2002 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

Sobrevivi 2018 Badaue cartaz 22

30 anos de Badauê – Estamos vivos – Badauê era o nome do bar. Arquitetura rústica de carnaúba e tijolo aparente, varanda em L, teto de palha, e ao redor as árvores e o chão de areia coberto de pedrinhas. Ficava na Praia de Iracema, rua dos Potiguaras, 134. Os sócios éramos eu, Nelsinho Machado e Paulo Marcio, o trio mosqueteiro no frescor dos seus vinte e poucos anos. Era o ano 1988 de uma Fortaleza ainda não tão amedrontada, e existiam nas proximidades Estoril, Cais Bar, La Tratoria, Pirata, Ponte para o Céu, Zanzibar, a Gruta da Praia do seo Zairton e mais um ou outro bar que não lembro agora.
(leia na íntegra)

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O dia em que morri no Rock in Rio – O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

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Comentarios01 COMENTÁRIOS

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01- Uhuu!!! Como se alguem tivesse tido alguma duvida! Bons tempos andar “encangada! c os três. Todos com cabelo!!!! Andrea Reis, Fortaleza-CE – mai2012

02- Kelmo ganhou !!!! E o bar … BADAUÊ … dispensa comentários … Saudades !!! Isabela Cantal, Fortaleza-CE – mai2012

03- vamos reativar o badauê. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – mai2012

04- Tudo certo!mas sem banho na caixa D`água OK Ricardinho! Germana Mourão, Fortaleza-CE – mai2012

05- meu Deus….. Tete Vieira, Fortaleza-CE – mai2012

06- Não tenho nada, não sei de nada, não me lembro de nada…….só ficava trabalhando no caixa a noite toda!! Como vocês tinham coragem?!! Luce Galvão, Fortaleza-CE – mai2012

07- nossa quantas saudades dessa época!!! Karla Zeidan, Fortaleza-CE – mai2012

08- Badauê ??!!! Onde era mesmo ? Crisostomo Frota, Fortaleza-CE – mai2012

09- que pena que não sou dessa época… esse rapaz do lado direito era conhecido como ‘a máquina’? Ihvna Chacon, Fortaleza-CE – mai2012

 

10- Só bons meninos… Representantes do Movimento Uga! Sandra Freire, Fortaleza-CE – mai2012

11- eu ainda sou frango nessa galinhagem. Israel Salsicha Campos Souza, Fortaleza-CE – mai2012

12- Muito, muito bom o texto. Paolo Rogers Tabosa, Fortaleza-CE – mai2012

13- Querido Ricardo Kelmer, Por que não reabrir o Badauê??? A vida te deu muitas novas experiências que irão contribuir para teu sucesso. Como dizem : o universo está conspirando a teu favor! A Orla de Iracema já está sendo revitalizada, o Aquário já está vindo por aí. A Lupus Beer da Rossicléia é um sucesso, tá sempre lotada de turista de toda parte, foi ela mesma quem disse num programa do Falcão ( um tal de Programa Leruaite). Revitalizar a praia de Iracema é discurso de palanque de todos os candidatos à prefeitura. Sem contar com o vazio que ficou com a morte do dono do Pirata. Tá faltando um novo pirata ou “novo pirado” na praia de Iracema!!! Engravide-se desta idéia.Pense, planeje, rumine…. Mas volta, fazendo favor!!!Volta para a alegria das mulheres ex-frequentadoras da Praia de Iracema!! O que tem de mulher solteira em Fortaleza sem saber para onde ir no fim de semana, dá na canela!! O mulheril agradece!!! bjosss, suas fãs. Mimi desesperada, Fortaleza-CE – mai2012


Nosso Bar – Existe birita após a morte

09/02/2012

29fev2012

Quando você chega na colônia extrafísica Nosso Bar, a primeira coisa que recebe é uma camiseta da sua birita predileta

NOSSO BAR – EXISTE BIRITA APÓS A MORTE

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Após ver o filme Nosso Lar, fiquei imaginando… E se eu fosse parar num lugar daquele? Já pensou, eu vestido com aqueles modelitos esvoaçantes, sem poder usar minha surrada camiseta Cabaré Soçaite, eu levitando em passeios matinais à beira do lago enquanto toca música celestial… Já imaginou? Também não consegui imaginar. Então bolei um filme pós-morte alternativo. Com vocês: Nosso Bar.

Para começar, quando você chega na colônia extrafísica Nosso Bar, a primeira coisa que recebe é uma camiseta da sua birita predileta. Eu, por exemplo, vou ganhar aquela preta clássica do Jack Daniel´s. E a segunda coisa que você recebe é um fígado novinho em folha, sem prazo de validade.

Bar no Nosso Bar é que nem hospital: não fecha nunca. Nem em dia de finados. E ninguém precisa se preocupar com a conta: basta assinar e pronto. E quem paga? O Mistério. Como assim, o Mistério? Ah, isso eu não sei explicar, sempre foi assim, o Mistério paga tudo. Inclusive o engov.

Aqui os bares fecham cedo para não dar problema com a vizinhança, né? Lá não tem isso, pois a vizinhança é toda de bares, boates e inferninhos. Música ao vivo? Infelizmente, não tem – mas tem música ao morto de primeira qualidade. Você gosta de barzinho de rock? Tem mil para você escolher. Bar de blues? Tem a perder de vista. Bar de sertanejo? Desculpa, isso não tem, é melhor você procurar em outro Além. Tá, tudo bem, podemos incluir um bar de sertanejo. Mas com isolamento acústico cem por cento.

O atendimento é coisa do outro mundo: garçonetes lindas e atenciosas, sempre simpáticas. Admiravelmente generosas. E eternamente solteiras. Como, garçons sarados? Não, assim você quer acabar com meu filme. Tá, tudo bem, vamos incluir garçom sarado também. Putz, o Nosso Bar já foi melhor…

Só maiores de idade podem ir a essa colônia. É lei. Por isso, relaxe, meu amigo, pois você nunca será enganado por aquela linda ninfetinha safada que jurou para você que tinha dezoito anos. E as crianças que nascem lá, por acaso elas não crescem e viram ninfetas tentadoras? Arrá! Lá não nasce ninguém, o sexo não é procriativo. Por isso é que você, querida leitorinha, nunca engravidará, e você, estimado leitor, jamais será denunciado como pai do bebê de nenhuma linda ninfetinha safada. É o lado bom da lei.

Dirigir bêbado? Isso é coisa da Terra. No Nosso Bar basta você pensar “quero ir pro Chope Astral” que no segundo seguinte você já tá lá, no melhor lugar do balcão. Brigas? Lá não tem, pois quem briga perde o crédito com o Mistério e ainda tem que pagar tudo o que bebeu. E quando reencarnar, nascerá com total intolerância ao álcool. Ou seja, é desgraça muita. E como lá todos estão de passagem, ninguém tem que procurar apartamento para alugar: seu quarto tá reservado num hotel bacaninha, perto dos agitos. Por conta do Mistério, claro.

E o enredo do filme? Tenho uma sugestão. O Bar Nosso Que Está No Céu realizará uma superfesta que contará com canjas especiais de Janis Joplin, Jim Morrison, Cazuza, Cássia Eller, Jimi Hendrix, Raul Seixas, Tim Maia, Amy Winehouse e Intocáveis Putz Band. A notícia da festa chega ao mundo dos vivos e milhões de pessoas decidem que vão morrer para não perder a festa. E agora? Agora em breve num bar, ops, num cinema perto de você.

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Ricardo Kelmer 2011 – blogdokelmer.com

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Aviso prévio de traição – A partir de hoje poderei te trocar por outra a qualquer momento. Basta que ela sorria pra mim e que me faça agradinhos. E me dê o que você nunca quis me dar

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A VERDADE SOBRE O ESPIRITISMO
Documentário sobre as origens do espiritismo e seu desenvolvimento no Brasil. Assista e tire suas próprias conclusões.

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COMENTÁRIOS
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01- Tsc, tsc, tsc, acho que você anda bebendo demais! Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – fev2012

02- eu acho que é de menos… 😛 Susana X Mota, Leiria-Portugal – fev2012

03- E ai cabra, eu adorei a estoria, mas nao estou com pressa de ir a esse bar, e tambem quando chegar a minha hora, havera uma bela camiseta da Brahma, a numero 1, tambem no Astral. Ja estou plasmando desde ja para ir direto e vou aproveitar e ja irei conhecer o bar. Obrigado pela ideia, aproveito o ensejo par desejar a vc e seus familiares, um FELIZ NATAL e um PROSPERO ANO NOVO, com bastante !!!!!!! PAZ & LUZ !!!!!!!, Durva 65 duartinense e palmeirense. Viva o Chelsea. Durval Brasil, São Paulo-Sp – dez2012

04- O povo do Inferno de Dante era muiiiiiiiito mais borogodozento do que o povo do Paraíso dele, entonces, o povo do “Nosso Bar” é da mesma linhagem do povo do Inferno Dantesco. Beeeeijo. Pat Maria, Salvador-BA – dez2012

05- Ola Ricardo!!!! Meu marido adorou……… Bjs Luck, Campos do Jordão-SP – dez2012

06- Caro Ricardo, sua crônica é muito engraçada. Juraci, Campos do Jordão-SP – dez2012

07- Sou daqui de Corumbá e assisti a sua apresentação do Viniciarte ano passado.Foi um show e tanto.Li o trecho da paródia de Nosso Lar e não pude deixar de rir…você se supera a cada estação,menino.Vejo em você um quixote que combate aqueles que impedem o riso,hegelmente falando é claro…rs.Estranho,né?Eu,uma voz que sai assim do nada e vem te adjetivando.Não,eu sempre leio os seus posts,embora não trilhe as mesmas veredas,mas gosto sinceramente de sua forma de escrever. Fateha Liza, Corumbá-MS – dez2012

08- kkkkkkkk Adorei!!!!! Repassei geral….sucesso. Paula Medeiros de Castro, São Paulo-SP – dez2012

09- Eis que eu acordo, depois de um cochilo, rs, e, sem sono, resolvo olhar meus email… Então, me deparo com o “nosso bar”, kkkkkk. Adoooooreeeeiiii!!! 🙂 Quer dizer que o mistério paga tudo? Nossa… Gostei demais disso! 😉 Obrigada pelo texto! Deu mais sorriso pra minha noite! Beijo! Dalu Menezes, Fortaleza-CE – dez2012

10- Muito bom! Camilla Avella, São Paulo-SP – dez2012

11- Muito engraçado, parabéns!! André de Sena, Recife-PE – dez2012

12- VALEU RICARDO ! ADOREI O NOSSO BAR. MUITO BOM TEXTO, COMO SEMPRE. UM ABRAÇO FORTE. Tibico Brasil, Fortaleza-CE – dez2012

13- o Nosso Bar também existe. Vai depender do seu magnetismo pessoal. Nixxon Alves e Silva, Rio de Janeiro-RJ – dez2012

14- Adorei! Preciso deste livro! Sou espírita e realmente a visão do filme é um tanto cômica… Patrícia Gonçalves, Duque de Caxias-RJ – fev2019

15- Já tô é lá ia ser bem mais feliz que nesse mundo miserável. Cristiane Ribeiro, Fortaleza-CE – fev2019

16- Adorei! Yalis Cardoso, Fortaleza-CE – fev2019

17- Esse Nosso Bar com garçons sarados é mesmo coisa do outro mundo! Cátia Silva, Fortaleza-CE – fev2019

18- Já tenho um lugar pra ir. Íris Medeiros, Campina Grande-PB – fev2019

19- Essa foi boa… rsrs. Jaionara Leite, Manaus-AM – fev2019

20- Eita piula! É pra lá que gostaria de ir. Karina Mozart, Fortaleza-CE – fev2019

21- Rsrs amei!!!! Mas acho que briguei no Nosso Bar e o Mistério…. Michele Jacinto, Fortaleza-CE – fev2019

22- Adorei! “Bar sertanejo com isolamento acústico cem por cento.” Kkkkkkkkkk. Clea Fragoso, Fortaleza-CE – fev2019

 


O brega não tem cura

26/11/2011

26nov2011

Porque o senhor sabe, né, doutor, o brega sempre puxa uma dose, que puxa outra, que puxa a lembrança daquela ingrata, que puxa outra dose…

O BREGA NÃO TEM CURA

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Pois é, doutor… essa coisa do brega. Sei explicar não. Sou chegado sim, assumo. Já tentei largar várias vezes e nada. Até na igreja fui. O pastor disse que tinha um demônio dentro de mim, se eu fosse lá no culto ele tirava. Mas não fui com a cara daquele pastor não. Foi aí que me falaram desse negócio de terapia. Tem cura pro brega, doutor?

Se lembro de algo na infância? Deixa eu ver… Lá em casa tinha uma empregada. Marluce o nome dela. Eu na sala fazendo o dever de casa e lá na cozinha a Marluce ligava o radinho e mandava ver no brega. E tome Waldick Soriano, Lindomar Castilho, Bartô Galeno, Núbia Lafayette, Roberto Muller, Diana, a tarde inteira. Eu estudando OSPB e pensando na menina da cadeira de rodas, tudo eu daria pra ver novamente feliz…

Depois eu cresci e a coisa piorou. Porque o senhor sabe, né, o brega sempre puxa uma dose, que puxa outra, que puxa a lembrança daquela ingrata, que puxa outra dose… Quando a gente vê, está lá no Roque Santeiro se esgulepando na cachaça, sábado seis da manhã, virado da noite, escutando os Pholhas e ligando praquela ex que casou, botando o celular pra ela ouvir She Made me Cry, ô desgraceira. Tem cura pra isso, doutor?

Pois foi exatamente por conta desses desmantelos que larguei o brega. Larguei. Dei meus discos tudinho, deixei de cantar Secretária da Beira do Cais debaixo do chuveiro, não quis mais saber. E nunca mais dei trabalho pros garçons, deitando no chão dos bares, como na música do Reginaldo Rossi. Arreneguei aquela vida pregressa, virei outro homem, me regenerei.

Mas semana passada, doutor… tive uma recaída. Foi terrível. Genival Santos no BNB Clube. Com Fernando Mendes e Raimundo Soldado, olha a tentação. E sabe quem mais? Ele, o homem da pílula: Odair José. Me deu logo uma coceira no juízo. Quando vi, já estava lá dentro tomando montilla, todo empolgado. Tinha muita gente sim, aquele cheiro de Contouré no meio do mundo. Moça velha? Vixe, tinha de puxar de rodo. “Não tem jeito que dê jeito, pra você viver comigo…” É, Raimundo Soldado. Trinta anos de peleja e o homem ainda tá com essa patente, ô injustiça.

E o Fernando Mendes? “Numa tarde tão linda de sol, ela me apareceu…” Esta o senhor conhece, né? Marluce caía no chão por esta música. Cadeira de Rodas? Cantou também, claro. Nessa hora me deu até saudade de estudar OSPB, pro senhor ver o que o brega não faz… E a cabeleira do Fernando, rapaz! Essas técnicas modernas de alongamento são uma coisa…

E o Genival, homem de Deus! “Sendo assim, vou acabar ficando louco…” Clássica, né? “Meu coração está em greve…” Ai, meu Jesus Cristino! “Se errar uma vez dou castigo pra não se acostumar, se errar outra vez mando embora pra saber me respeitar…” Isso é que é bonito, doutor, melhor mandar embora que dar um tiro na desgraçada, né?

E o Odair… Ah, doutor, o homem tem aquela cara de bandido de velho-oeste, mas é um cavalheiro, sempre distinto, gestos elegantes, precisa ver. Eu era um olho no palco e outro no chão pra não escorregar nas latas de cerveja. Da próxima vez eu mesmo pago um servente pra limpar aquela sujeira. Mas o Odair bem ali na frente compensava tudo. Pare de Tomar a Pílula, Cadê Você?, A Noite Mais Linda do Mundo… Cantou tudo. Qual? Eu, Você e a Praça? Cantou sim. O senhor parece que é chegado também, né? Vou Tirar Você desse Lugar… Também cantou, claro.

Aliás, esta música só me lembra a Mardônia, lá do Crateús. Menina boa, educada, tinha ginásio. Muito mimosa. Mas o pai bulinava ela, o senhor sabe, e a mãe vivia por aí embriagada, nem ligava pra menina. Não deu outra: ela fugiu de casa, se mandou pro rumo de cá. Menor de idade. Acabou lá no Farol, no Hamburg Bar, o senhor chegou a frequentar? Não? Pois não sabe o que perdeu. Foi lá que eu conheci ela. Novinha, bonitinha, cheirosa que era uma beleza. Botei uma ficha na máquina e a gente dançou juntinho Eu Hoje Quebro esta Mesa, do Carlos André. Me apaixonei, né? Como é que não se apaixona? Vixe, deixei muito dinheiro naquele cabaré, o senhor nem imagina. Até chamei ela pra morar comigo, mas ela não quis não. Até emprego de balconista na Lobrás eu arrumei pra ela. Quem disse que quis? Quis nada. Preferiu se juntar com um fulerage lá, mais liso que eu. Depois sumiu. Nunca mais que vi.

Pois sabe quem eu encontrei lá no show? Justamente: a Mardônia. Dez anos depois. De shortinho jeans e batinha frente-única, pense… Um pouco mais gordinha, mas ainda bem aprumada. Ah, eu não me aguentei. Fui lá, paguei-lhe um saco de jujuba e comecei a cantar Não se Vá pra ela. Ahn? Acabou o tempo? Puxa, passou rápido. Mas diga ao menos se tem cura pro brega, doutor, diga, eu preciso saber. Tem não, né? Tem nada. Eu sabia.
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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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– Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos
Esta crônica integra o livreto e o show Trilha da Vida Loca

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Na Wikipedia

Genival SantosFernando Mendes
Raimundo SoldadoOdair José

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VÍDEO
O Brega Não Tem Cura (conto c/ sonoplastia)
Boteco Vintage, Fortaleza-CE, 03.04.14

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TrilhaDaVidaLocaShowDiv-02aTRILHA DA VIDA LOCA O SHOW
Contos e canções para celebrar o amor doído

Mesclando música e literatura, este show reúne clássicos da dor de cotovelo da MPB e histórias de amor inspiradas em sucessos de Odair José, Waldick Soriano, Diana, Reginaldo Rossi e Fernando Mendes, num formato divertido e interativo. As canções são executadas por Ricardo Kelmer e Felipe Breier (voz e violão) e também em trechos de suas gravações originais, com participação da plateia. Paixões de cabaré, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor… Favor pagar o couvert antes de cortar os pulsos. SAIBA MAIS

Texto e direção: Ricardo Kelmer. Com Ricardo Kelmer e Felipe Breier
Duração: 2h (ou versão de 1h30)

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Ser mulher não é pra qualquer um – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

A pouca vergonha do escritor peladão – Foi minha vizinha louca de Botafogo, a Brigite, quem me deu a ideia: Por que você não faz um ensaio fotográfico peladão pra comemorar seus 40 anos?

O dia em que morri no Rock in Rio – O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

A sociedade feladaputa de Geraldo Luz – Crítica social, literatura, filosofia, anarquismo, sacrilégios explícitos e sodomismos irreparáveis

Odair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

Maluquice beleza – Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Adorei! Kelmer, voce é o cara! bjs de fã. Sandra Ribella, Limeira-SP – nov2011

02- quero me curar não, ó doutor… Flávia Castelo Batista Magalhães, Fortaleza-CE – nov2011

03- eu sou brega!!!!!!!!! Magna Mastroianni, São Paulo-SP – nov2011

04- Eu escuto brega desde que me entendo por gente !!!! Adoro. Monalisa Serafim, Fortaleza-CE – nov2011

05- Maravilha Kelme!!! Só tu pra escreve dessa forma! Adoro! Lendo a crônica, parecia que tu tava falando o repertório de ontem do Roque Santeiro, inclusive, vamos em você na hora da “cadeira de rodas”… Vania Vieira, Fortaleza-CE – nov2011

06- E se tivesse eu ficava doente pra sempre. Eduardo Lima, Fortaleza-CE – nov2011

07- Adorei! Bjs. Carmem Távora, Brasília-DF – nov2011

08- Kkkkkkkk comédia viu!!!! Brega nem com reza braba passa!!! Del Montenegro, Fortaleza-CE – abr2014

09- o “brega não tem cura” foi ótimo!!! PARABÉNS, pelo trabalho!!! Paula M Castro, São Paulo-SP – mar2015


Pelas coxias de Guaramiranga

26/09/2011

26set2011

Entre uma peça e outra sempre dá tempo de cruzar uns olhares, nativos e forasteiros, e exercitar o roteiro das abordagens

PELAS COXIAS DE GUARAMIRANGA

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Desde pequeno, confesso, que me sacodem uns arroubos de artista. Quando criança, queria ser ator. Sabe aquela boneca Amiguinha, tamanho G? Minha irmã tinha uma que era do meu tamanho e eu treinava beijo com a boneca, escondido. Treinando beijo pra ser ator da novela Locomotivas. Um dia, minha irmã nos flagrou e findou aí meu intensivo oscular. Fiz-me ator? Não pude, Amiguinha. Sou escritor menor, perdoai.

Tudo isso pra dizer que estou em Guaramiranga, 7ª edição do Festival Nordestino de Teatro. É ator pra todo lado, de puxar de rodo. Ar puro, verde exuberante, friozinho gostoso, uma semana longe da poluição política de Fortaleza… Maravilha de cenário. Imagine uma grande quermesse, gente na rua, nos bares, pousadas, violão aqui, roda de flautas ali, cerveja acolá… Sabe cidadezinha do interior, né? Tem a rua principal, a pracinha, a matriz pra um lado, a zona pro outro e acabou. E todo mundo se conhece.

Entre uma peça e outra sempre dá tempo de cruzar uns olhares, nativos e forasteiros, e exercitar o roteiro das abordagens assobiando Luiz Gonzaga, a todo mundo eu dou psiu, perguntando por meu bem… Paralela à pontuação oficial das peças, corre outra pontuação, onde ficar com alguém local, por exemplo, vale 50 pontos mais que com alguém de Fortaleza. Mais um motivo pra ir ali na mesa da morena. E depois das peças, tem os shows musicais, a feirinha alternativa, uma batucada na Ilha de Caras (só dá artista…), Pink Floyd no som do treiler. De dia, visitar o Pico Alto, um banho na cachoeira, a sinuca do hotel. Guaramiranga é uma festa que dura nove dias. Uma grande celebração da arte. Da vida, por que não dizer?

Dito assim, parece que a coisa toda é mero pretexto pra festa. Não é. A proposta é séria e a organização se supera pra fazer do evento uma referência nacional. Aqui respira-se, bebe-se e vomita-se teatro. Além das peças, há debates, exposições e oficinas. O povo da cidade e arredores vê espetáculos que de outra forma não veria, e a preços populares. E aproveita pra travar contato com esse povo diferente das cidades grandes, o figurino esquisito, a performance assim meio assim. Dona Leninha do treiler de sanduíche é quem me confidencia, rindo: O cara chega, pede uma cerveja, todo homem, e uma hora depois parece uma moça…, mas a gente já acostumou, sete anos, né?

Quatro da madruga. Forro o estômago com um sandubão. Não tem gosto de nada, mas é ótimo. Vejo lá em cima, no meio do nevoeiro, a torre da igreja do mosteiro, pairando iluminada no meio da serração. Que nem uma visagem. Aliás, o mosteiro é uma atração à parte. O que atrapalha são aqueles degraus todos pra subir. São tantos que quando a gente chega lá, a língua já tá toda de fora, pronta pra receber a hóstia da absolvição.

E as lindas pinturas das paredes do mosteiro, quem as teria feito? Bisbilhotei e descobri a história de Marcio. Chegou adolescente, vindo de Limoeiro, fazer o noviciado. O frei diretor concluiu que ele, com aquela delicadeza toda… bem, concluiu que ele não tinha vocação pra frade capuchinho. Então foi pra Fortaleza, viajou, conheceu o mundo. Muitos anos depois, voltou a Guaramiranga. Aí Marcio já havia virado Marcia, de alma e corpo também – cirurgia muito bem feita, atesta quem viu. Uma mulher culta, viajada, fluente em vários idiomas. Um tanto excêntrica e transbordante de dons artísticos. Foi ela quem fez as pinturas do mosteiro, inclusive o teto da capela. Também cantou e atuou como a beata Mocinha no filme Milagre em Juazeiro, e ainda contribuiu pros textos em latim. Marcia faleceu recentemente, ainda nova, purpurina que o vento soprou pelo maciço afora. Mas deixou sua bela marca.

O festival está no fim, logo descerão as cortinas. O clima já é de saudade. Eu boto o blusão, dou um gole na vodca e encaro o frio de 16 graus. Moletons e cachecóis caminhando pela rua, de um lado pro outro. Na esquina, um carro com o porta-mala aberto mandando um pagode nas alturas. Irgh, nem aqui esses poluidores sonoros nos dão sossego. Jogo uma praga no desgraçado e sigo, mãos no bolso, assobiando Luiz Gonzaga. Ainda dá tempo ver uma peça. Ou, quem sabe, pontuar um pouco mais, ando precisando. Não virei ator, Amiguinha. Requer mais que saber beijar. Mas sou chegado numas coxias…

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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.com

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- É sempre um prazer ler Ricardo Kelmer! Adorei a referência à boneca Amiguinha 🙂 Bjs. Alzira Aymoré, Fortaleza-CE – ago2011

02- É… Ricardo Kelmer…! Muita coisa mudou em Guaramiranga, a Ilha de Caras não existe mais, por exemplo! Mas muita coisa boa permanece, como o próprio FNT! São 18 anos de Festival, com muita gente boa das artes cênicas do Nordeste e de outras regiões se encontrando, fazendo, discutindo e trocando conhecimentos de TEATRO! É de um riqueza sem tamanho…! E esse ano é tudo de graça, mas ruas, praças… Essa edição vai ser histórica! Sonia Lage, Fortaleza-CE – ago2011


Roque Santeiro, o meu bar do coração

07/11/2010

07nov2010

Uma homenagem ao bar Roque Santeiro

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ROQUE SANTEIRO, O MEU BAR DO CORAÇÃO
Ricardo Kelmer 2005
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Em Fortaleza tem um bar
Que é boteco companheiro
Não tem nada similar
Já pesquisei o mundo inteiro
Por isso escrevo essa carta
Pra matar a saudade ingrata
Do meu bom Roque Santeiro

O Roque abre ao raiar do dia
Pense num boteco ideal
O cidadão chega se avicia
Pois não acha outro igual
A primeira vez vai curioso
Ouviu falar do bar famoso
Que é notícia de jornal

O Roque é patrimônio da cidade
Do Mucuripe é pura tradição
Acolhe gente de toda idade
Serve bem o liso e o barão
Vá de carro, a pé ou de charrete
Pare no quatro meia quatro sete
Da avenida Abolição

Quem atende é seo Moacir
Com alegria e sem estorvo
Traz logo o que você pedir
Sua presteza eu sempre louvo
Lá vem ele com a cerveja
Olha a panelada na bandeja
No capricho o pão com ovo

Se o freguês é bem tratado
A freguesa não pode reclamar
Na mesa ganha o melhor lado
O copo melhor que tem no bar
Moça bela que chega com sorriso
Ganha versinho de improviso
Seo Moacir é poeta popular

O cuscuz com boi ralado
Não pode faltar em sua mesa
O caldo de carne é um pecado
Levanta defunto com certeza
Cura até chiado no peito
Pela revista Veja foi eleito
O mais melhor de Fortaleza

A trilha sonora é o brega
Só os clássicos, sim senhor
Odair e Núbia Lafayette
Genival, Diana e Bartô
Pra curtir dor de cotovelo
Pra se acabar no desmantelo
E lembrar de um velho amor

No sucesso dessa casa
Brilha a alma feminina
Tem jeito sério de invocada
Mas o sorriso é de menina
A cozinha vai comandando
E os namoros combinando
Ela é a dona Orestina

Por favor sirva uma aqui
Enquanto que o sol não sai
Me apaixonei por aquela ali
Mas que pena, ela já vai
Agora eu não tenho escolha
Bote logo o CD dos Pholhas
Toque She Made Me Cry

Bem distante e com saudade
Lembro de tudo com emoção
A caninha, o brega, a amizade
O amor escorado no balcão
Muito momento verdadeiro
Vivi no Roque Santeiro
O meu bar do coração
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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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FLAGRANTES DO ROQUE
ou: Não aguenta, então não vem brincar

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RK201403RoqueS,VaninhaV,MarjorieRamos-01Guardiães do balcão do Roque. Só passa aqui se me der um beijo

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RoqueSanteiroOrestinaMoacir-01Dona Orestina fisgando o melhor partido do Mucuripe. Atenção para a gola discreta do paletó

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RoqueSCarlao,Paulinha01Dona Orestina dando conta das novidades. Nesse dia ela avisou que não aguentava mais essa vida e que ia morar na Paraíba. E que o Moacir é só bebendo…

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RoqueSanteiro-01Seis da manhã, o Serviluz passando, a pinga descendo, os namoro começando, os namoro acabando, e esse povo num trabalha não?

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???????Equipe de atendentes altamente qualificados para oferecer ao visitante uma experiência única, regada ao melhor bafo de pinga do Mucuripe

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Momento exato em que dona Orestina é presa pelo fiscal do MNBC (Movimento Nacional pelos Bons Costumes). Acusações: corrupção de maiores abandonados e alcovitagem de donzelas recém-separadas

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RoqueSanteiro-03Cinco horas da manhã e essa gente bronzeada e alegre contribuindo pro crescimento do PIB da zona leste

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RK201404RoqueS,Orestina-01Dona Orestina e o troféu Caboca 1999, prêmio pela contribuição cultural à cidade de Fortaleza. Mais que merecido!

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O SOM DO ROQUE SANTEIRO

01. Alípio Martins – Lá vai ele
02. Bartô Galeno – O grande amor da minha vida
03. Cesar Sampaio – Secretária da beira do cais
04. Diana – Por que brigamos (I am… i said)
05. Genival Santos – Eu lhe peguei no flagra
06. Jane & Herondi – Não se vá
07. Kátia – Lembranças
08. Luiz Carlos Magno – Ave Maria pro nosso amor
09. Odair José – Vou tirar você desse lugar
10. Pholhas – She made me cry
11. Raimundo Soldado – Abraçando você
12. Reginaldo Rossi – Garçom
13. Roberto Muller – Mulher de cabaré
14. Waldick Soriano – Tortura de amor
15. Wando – Moça

Roberto Carlos

As flores do jardim de nossa casa (69) – 120… 150… 200 km por hora (70) – Amada amante (71) – A distância (72) – À janela (72) – Atitudes (73) – Palavras (73) – Proposta (73) – Jogo de damas (74) – O show já terminou (75)Os seus botões (76) – Cavalgada (77) – Falando sério (77) – Pra ser só minha mulher (77)

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TRILHA DA VIDA LOCA
Contos e canções do amor doído

Meu grande sonho: fazer este show em frente ao Roque

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A celebração da putchéuris – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

A volta da Intocáveis – Oh não! – Um show com os restos mortais da Intocáveis Putz Band

A sociedade feladaputa de Geraldo Luz – Suas músicas são baladas de melodias simplórias, conduzidas por uma inacreditável verborragia que mistura crítica social, literatura, filosofia, anarquismo, sacrilégios explícitos e sodomismos irreparáveis

Ser mulher não é pra qualquer um  – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

O dia em que morri no Rock in Rio – O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

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COMENTÁRIOS
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01- Muito bom, Ricardo Kelmer! Tayane Cristine, Campina Grande-PB – jan2014

02- Realmente um lugar pra ser feliz!!! Lucinha Simões, Fortaleza-CE – ago2014


Minha vida com Jim Morrison

25/07/2010

25jul2010

Acordar e pegar logo uma cerveja, pois o futuro é incerto e o fim estará sempre por perto

MINHA VIDA COM JIM MORRISON

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Em julho de 1991 arrendei uma danceteria e fiz uma homenagem a Jim Morrison: A Noite do Rei Lagarto (ou Como Jim Morrison comemoraria em Fortaleza os 20 anos de sua morte). Assim mesmo, com toda a incoerência semântica, afinal Jim também não era lá de muitas coerências. Casa lotada, clima anos 60, modelitos paz e amor, sósias da Pamela Courson, cinco da manhã e Light my Fire tocando pela décima vez… Ai, ai, eu não imaginava tanta festa para um defunto. Não sei se ele gostou. Mas eu sim, e enchi o bolso.

Jim Morrison e sua urgência desatinada de viver foram meu guru por essa época. Álcool, música e literatura, sexo e poesia. Acordar e pegar logo uma cerveja, pois o futuro é incerto e o fim estará sempre por perto. A ordem era experimentar-se pelo caminho dos excessos.

Sexta-feira, onze da noite. Meus 25 anos tinham um rito sagrado de iniciação noturna. Um bom banho acompanhado de uma dose de vodca pura, um poema vagabundo na velha Remington, mais uma vodca, L.A. Woman no volume máximo, mais uma dose e pronto, eu podia sair para a noite dengosa da cidade, atrás de lucky little ladies ou lost angels para acender meu fogo. Ai, ai. Não sei como o próprio Jim não surgiu noite dessas na rua a me pedir carona para o Badauê.

Depois dediquei-lhe um livro de contos que não publiquei, fiz outra festa para ele e, como performer da Intocáveis Putz Band, recitava o Manifesto das Bem-Aventuranças, onde distribuía bênçãos a putas, travestis, músicos, garçonetes e outros personagens da noite, declaradamente inspirado em Jim. Uma porra-louquice urbano-apocalíptica, dark e herética – demais para a cabeça de Fortaleza, tão sol e forró, a bichinha.

Se um dia Jim chutou o rock’n’roll e foi refugiar-se em Paris, eu um dia enchi o saco de tudo e vim atrás de mim aqui na cidade do Rio de Janeiro. Dei de presente o pôster da festa e não trouxe meus discos dos Doors. Até agora ainda não morri na banheira. Mas já não tenho mais intestino para velhos excessos.

Confesso que se qualquer noite dessas Jim aparecer pedindo carona para o Hipódromo Bar, ele, uma garrafa de Jack Daniel’s e três amigas barulhentas, eu… bem, eu lhe explicaria honestamente que foi bom enquanto durou, sabe como é, ando meio recolhido…

Ok, Jim, você venceu. Mas deixa eu dar uma olhada nas amigas. Você sabe, não dá para confiar muito em gosto de bêbado.

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Ricardo Kelmer 1996 – blogdokelmer.com

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Este texto integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos
Fotos da ilustração: Ricardo Batista (Cadinho)

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IntocaveisPutzBand1994-201aA celebração da putchéuris – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro

Ser mulher não é pra qualquer um – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

O dia em que Jim Morrison voltou do túmulo (em breve)

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Clipe: LA Woman (7:51)

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01- kkkkkkkkkkk, Kelmer Querido, Saudades dos seus contos e inspirações nostalgicas, é sempre bom lembrar!!!! e Viva o Lagarto Rei!!!! Abraço Querido lunático!!!! Lua Ahau Cândido, Fortaleza-CE – dez2013

02- E tu está no Rio? Fábio Campos Morais, Fortaleza-CE – dez2013

03- Muito bom, mano! Carlos Carlos, São Paulo-SP – dez2013

04- essa festa foi sensacional, eu fui de pamela morrison. fiz tanta putaria que quase fui expulso. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – dez2013

05- Fala kelmer !!! outro dia eu vi um doc. sobre o the doors muito legal!!! Ouvir the doors na estrada e fantastico ! Luciano Hamada, São Paulo-SP – dez2013

06- Olha só que coisa..estava ouvindo hoje ainda,e m deparo com esse post..com sempre maravilhoso!Boa noite meu amigo! http://www.youtube.com/watch?v=AMCl9eOBlsY. Thais Guida, Rio das Ostras-RJ – dez2013

07- As portas de uma lembrança boa!! Hyara Ougez, São Paulo-SP – dez2013

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Lama

21/01/2010

21jan2010

O que é mais forte, o amor ou o ódio? Ou será o ódio dos ex-amantes o último recurso do amor?

LAMA

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Se quiser fumar, eu fumo

Se quiser beber, eu bebo
Não interessa a ninguém

Oito horas da noite. Lena põe o CD no aparelho de som e sobe o volume até o máximo. A música que toca, estridente, é um velho samba-canção de fossa, cantado por Núbia Lafayette. Na calçada, as pessoas passam curiosas, olhando para dentro do bar. Mas Lena não as vê. Encostada à porta do bar, acende um cigarro, dá uma longa tragada e solta a fumaça para cima. Do outro lado da rua está a igreja, ela pode ver o movimento lá dentro, os pastores no palco, os fiéis sentados nos bancos a aguardar o início do culto. Na entrada, uma moça e um rapaz convidam os transeuntes a entrar e aceitar o Senhor Jesus. Lena sorri de vê-los constrangidos pela música que ecoa de seu bar. Então, ele surge, bem à entrada da igreja, de paletó, a bíblia na mão. O rapaz aponta para o outro lado da rua e ele se vira para olhar. É nesse momento que seus olhares se cruzam. E é como se dez anos não houvessem se passado. Os olhares se mantêm fixos um no outro, intercalados pelos carros que passam pela rua. Lena se delicia ao constatar a imensa surpresa nos olhos dele. Pega o copo na mesa e toma um gole de campari. Quando olha novamente, ele já voltou para o interior da igreja.

Se o meu passado foi lama
Hoje quem me difama
Viveu na lama também

Olhai, irmãos, olhai em vossa volta e vereis a Babilônia a seduzir com seu hálito de bebida e suas promessas de luxúria!!! A voz dele, amplificada, extrapola os limites da igreja, atravessa a rua e parece duelar com a música do bar. Lena, imperturbável, toma mais um gole de seu campari. O garçom se aproxima e comenta algo sobre o volume alto da música, mas ela não responde, permanece na mesma posição, o olhar distante. Olhai, irmãs, e vereis as mensageiras de Satanás na porta dos bares e dos prostíbulos, essas almas perdidas cuja especialidade é levar os homens com elas para o Inferno!!!

Comendo da minha comida
Bebendo a mesma bebida
Respirando o mesmo ar

Ele era um garoto quando ela o conheceu… e se perdeu de paixão. Foi uma paixão instantânea, mútua e avassaladora. Semanas depois, seu marido descobriu, expulsou-a de casa e ela alugou para eles um pequeno quarto no centro, cuja cama passou a ser o templo sagrado de seus desejos insaciáveis. E, uma vez juntos, perderam-se ainda mais. Para sustentar os vícios, que não eram poucos, enganaram, roubaram e assaltaram, afundando-se cada vez mais nesse amor bandido. Foi por amor que várias vezes ela foi buscá-lo no hospital, tantas brigas que ele arrumava pelas ruas. Foi por amor que várias vezes, louca de ciúmes, ela bateu nas mulheres que ele insistia em cortejar descaradamente em sua presença. E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central.

E hoje, por ciúme ou por despeito
Acha-se com o direito
De querer me humilhar

Foram oito anos de praça. Oito anos suportando o bafo de cachaça dos operários e o suor fedido dos mendigos. Oito anos vendendo por meia hora aquilo que deveria ser apenas dele durante toda a vida. No fim da noite, ela levava o arrecadado para ele, que aguardava no bar, bebendo e jogando com os amigos. Uma noite, porém, não o encontrou lá. Procurou-o pelas ruas, mas nelas ele também não estava. Quando chegou em casa, já de manhã, encontrou-o em sua cama, com outra mulher. Ela não lembra exatamente do que fez, mas nos autos do processo consta que os policiais, alertados pelos vizinhos, a encontraram sentada no chão, ainda segurando a faca, tranquila e cantarolando um triste samba-canção. E, ao seu lado, os dois corpos ensanguentados.

Quem és tu? Quem foste tu?
Não és nada
Se na vida fui errada
Tu foste errado também

Doze anos depois, foi libertada. Deixou o presídio e foi diretamente ao prédio onde antigamente morava com ele. Depois de muito perguntar foi que soube onde poderia encontrá-lo. Surpresa com o que ouviu, rumou para lá. Era uma modesta igreja evangélica que funcionava no salão do segundo andar de um prédio velho. Ela chegou, sentou-se no último banco para que ele não a reconhecesse e o escutou pregar. Ele falava de amor, fraternidade e perdão. Era um sermão bonito, que tocava o coração. Mas o de Lena não tocou. Antes do fim, ela levantou-se, interrompendo o culto, e dedo em riste na cara dele, gritou tudo que se acumulara em seu coração naqueles doze anos. Doze anos em que ele jamais fora visitá-la. Sequer lhe mandara um lençol limpo. Um mísero bilhete, nem isso. Ele não conseguiu dizer nada, assustado e constrangido por ver exposto, diante dos fiéis, todo o seu passado sombrio. Quando ela fez uma pausa, ele aproveitou e anunciou, solene e em voz alta, para todos ouvirem, que aquela pobre mulher estava possuída por Satanás. Imediatamente, os seguranças avançaram e a seguraram, enquanto o outro pastor assumia o ritual de exorcismo. Ela protestou. Mas foi inútil. Gritou e se debateu. Mas foi tudo inútil. Minutos depois, vencida pelo cansaço, pelo desânimo e pela decepção, deixou-se cair no chão, chorando todas as lágrimas que em doze anos não chorara, enquanto os fiéis, braços erguidos ao céu, louvavam a glória do Senhor Jesus.

Não compreendeste o sacrifício
Sorriste do meu suplício
Me trocando por alguém

Foram várias noites em claro, lutando contra sua própria alma dilacerada e dividida. Uma parte ainda o amava, muito, profundamente, mas a outra parte não conseguia perdoá-lo. Durante quarenta dias e quarenta noites, amor e ódio fizeram de sua alma campo de horrenda batalha, sequiosos por conquistá-la. Até que um dia ela, enfim, adormeceu sorrindo. E dormiu o sono justo dos que finalmente compreendem aquele que talvez seja o maior dos mistérios do amor: que ele perdoa até mesmo o que não tem como ser perdoado. No outro dia, ela foi ao culto, disposta a contar-lhe a boa nova que soprava alegre em seu espírito feito uma brisa de verão. Mas quando chegou à porta do salão foi barrada pela esposa dele, que disse, numa frase curta e cheia de desprezo, que ali ela jamais seria bem-vinda. Enquanto Lena tentava assimilar a surpresa, alguns fiéis chegaram e a enxotaram, levando-a para fora e arrastando-a até o beco ao lado. Foi lá que a apedrejaram. Jogada ao chão, quase desfalecida, o sangue a cobrir-lhe a vista, ela ainda o viu se aproximar, largar um punhado de areia sobre seu corpo e dizer: Pra mim, você já morreu.

Se eu errei, se pequei
Pouco importa

A voz do garçom chega novamente, se misturando às dolorosas lembranças. Enquanto ele comenta algo sobre um caixão e clientes indo embora, dez anos se passam rapidamente em sua mente, dez anos em que ela apenas trabalhou e trabalhou e trabalhou, inteiramente obcecada. E o resultado está aí, na forma desse pequeno bar, que ela inaugura exatamente hoje. Nesse instante, um casal entra. Eles observam o interior do recinto, dão meia-volta e saem, assustados. O garçom, perdendo a paciência, diz que ali ele não trabalha e vai embora. Lena dá outra tragada no cigarro e entra. Caminha até o centro do bar, entre as mesas, e toca o caixão. É um caixão branco de madeira brilhosa, suspenso sobre o pedestal de ferro, como se fosse a decoração principal do bar. Grudada pelo lado de dentro do vidro, por onde se veria o rosto do defunto, o que se vê é uma foto desbotada, onde, sentado numa mesa de bar, um homem jovem sorri.

Se aos teus olhos estou morta
Pra mim morreste também
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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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Este conto integra a série Trilha da Vida Loca. A letra usada é da música Lama, de Aylce Chaves e Paulo Marques, que Núbia Lafayette interpretou de forma magistral.

Este e outros textos integram o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino e o livreto Trilha da Vida Loca – Contos do amor doído

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Trilha da Vida Loca
Ricardo Kelmer – contos

O amor é belo. Mas também é ridículo, risível, trágico… Aqui estão reunidas seis histórias inspiradas em grandes sucessos musicais da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor. Amar é para estômagos fortes.

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NÚBIA LAFAYETTE CANTA “LAMA”

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MAIS

Núbia Lafayette canta Lama em programa de TV, 1993 (vídeo)
Núbia Lafayette canta Devolvi, 1994 (vídeo)
Notícia da morte de Núbia Lafayette, 18.06.07

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LEIA NESTE BLOG

PaixaoDeUmHomem-01aPaixão de um homem (Trilha da Vida Loca) – Amigo, por favor leve esta carta e entregue àquela ingrata, e diga como estou

Vou tirar você desse lugar (Trilha da Vida Loca) – De repente, a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser apenas detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

Por que brigamos (Trilha da Vida Loca) – Ou continuava tentando salvar o casamento, e todo o seu esforço não seria nenhuma garantia de sucesso, ou então salvava a si mesmo – se é que existia salvação para ela

Odair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

A última canção – O que mais impulsionava sua voz, a raiva por ela brincar assim com seus sentimentos ou o ódio por pressentir que mais uma vez não conseguiria resistir?

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TrilhaDaVidaLoca201302Cartaz-2aTrilha da Vida loca – o show

Música e literatura em histórias de amor inspiradas em clássicos da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor… Ricardo Kelmer e Felipe Breier interpretam contos kelméricos e músicas de Odair José, Diana, Paulo Sergio, Waldick Soriano e Núbia Lafayette. Sugere-se que todos paguem o couvert antes de cortar os pulsos

Texto e direção: Ricardo Kelmer. Duração: 2h (ou versão de 1h30)
> Saiba mais

TRILHA DA VIDA LOCA
Contos e canções do amor doído

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Gostei pra caramba.Li com a música tocando ao fundo, e texto e música se integram naturalmente.O clima é esse.Mais uma vez, vc foi perfeito! Beijos. Mônica Burkle Ward, Recife-PE – abr2007

02- Oba!!!! Adorei Lama e a trilha sonora. Na verdade todos teus textos são hilários…vou começar a esboçar alguns… Beijinhos. Liliana Ostrovski, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

03- Muito boa mesmo essa história… VALE UM CURTA… Já pensou? E qto ao Campari, foi boa pedida!! José Lins Jr., Juazeiro do Norte-CE – abr2007

04- olá..ricardo adorei..ler ….o que vc me mandou… Maria Aparecida Brígido, São Paulo-SP – abr2007

05- Adorei essa modalidade de literatura on line, com trilha sonora…. É muito bom vc ter uma musica dando o clima da estória…. Ciça Castello, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

06- Oi Kelmer, Já estava com saudade. Bom demais. Adorei! Beijos. Virgínia Lígia de Freitas, Fortaleza-CE – abr2007

07- O CONTO DA VIDA LOUCA ESTÁ TUDIBOM. PARABENS!!!!!BJU Christina Alecrim, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

08- Oi Ricardo, Divertidissima sua “trilha da vida loca”, eu ja tinha lido o texto na sua coluna no Povo e fiquei pensando como seria o tal bolero, ai surpresa, a noite chega seu email com a trilha sonora! Haja drama, hein? Parabens! Ah, e quando vai ter apideiti no site? Beijinho de saturday morning. Ana Wauneka, San Diego-EUA – abr2007

09- Dear Ricardo, Adorei a interpretacao da trilha da musica Lama. Voce e’ demais. Adoro de verdade o que voce escreve. E quando e’ que vens me visitar aqui na California? Tem coisas unicas por aqui pra voce observar e depois quem sabe escrever sobre elas. Beijinhos. Raquel F. Araujo, Los Angeles-EUA – abr2007

10- Nossa! Porque depois de tanto sofrimento ela ainda tem que continuar a destruir a própria vida e o seu ganha pão por causa de um sacana?Eu fique muito deprimida com o final deste conto.Ela deveria ter realmente ter aceitado esta dura lição da vida,agradecido por tudo o que aprendeu e por ter sobrevivido e dali prá frente tocar a vida dela com mais humildade e amor no coração. Bia Leite, São Paulo-SP – abr2007

11- Parabéns pelo belo texto, Ricardo! Interessante a maneira pela qual vc abordou as ironias e as desventuras que cercam o universo do desejo e das paixões. Kátia Albuquerque, João Pessoa-PB – abr2007

12- Cara! Parabéns!!! Gosto muito de ler seus textos! Me envie sempre que puder!!! Forte abraço de um fã! Thiago Jede, Três de Maio-RS – abr2007

13- Caramba, que final, rapaz!!!!! GENIAL! Parabéns, mais uma vez! Humberto Batista, Fortaleza-CE – abr2007

14- Minha nossa… sempre, sempre você. Ao terminar de ler estava exausta. Amores… sempre eles… Fabiana Polotto, São José do Rio Preto-SP – abr2007

15- Bem, sobre o texto, adorei, mesmo, assim como a trilha, só vc mesmo, sempre criativo! Parabéns! Jayme Akstein, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

16- Tu tá cada vez melhor, macho véio. José Everton de Castro Jr., Fortaleza-CE – abr2007

17- Campari. :^) Como adivinhou minha bebida preferida??? Bjus… Rildete Ribeiro, Aracaju-SE – abr2007

18- Achei lindo,extremamente sensível, mas muito triste…. Isso tudo daria um belo filme! Tu poderias me mandar a música? Beijinhos. Vanessa Santini Vebber, Caxias do Sul-RS – abr2007

19- Loner, meu breg brother!!! Tá EXCELENTE! Só lembrei dos velhos tempos de Roque Santeiro. Sensacional!!! Valeu! Beijos. Malena, Brasília-DF – abr2007

20- Recebo sempre seus emails e já que, além de nordestino você passou dois meses pelo nordeste. Grava essa: NÃO EXISTE PAREA PRA VOCÊ.Risos.Um abraço. Francisca Fernandes, Fortaleza-CE – abr2007

21- Ô, Kelmer, esse negócio aí da Lena num é amor nao, Cara, é doença… Abraço lusitano e fraterno. Flamarion Pelúcio, Fortaleza-CE – mai2007

22- Adorei a TRILHA DA VIDA LOCA: LAMA. É uma série, não? Muito bem escrito, personagens fortes e sua linguagem está melhor a cada dia. Gostei muitíssimo! Que bom! Cara, mande ver !!! Admiro-o muito nesta empreitada que já é jornada de tantos anos e gosto muito de você, pessoa massa! Abração. Érico Baymma, Fortaleza-CE – mai2007

23- Caro Ricardo Lafayet, O texto é péssimo!!! Não prende a atenção do leitor.Tema banal no cotidiano.Não há humor, poesia, … Prenda o leitor meu caro!!! Na minha opinião, o que faço com imparcialidade, vc alterna bons e maus textos. Quando gosto de um, sei q o seguinte será ruim!!!!! Eduardo Macedo, Recife-PE – mai2007

24- Tá com a gôta!!!!!!!!!!!!!!!!! Show! Nazaré Franca, Fortaleza-CE – mai2007

25- perfeito!como sempre brilhante!te admiro muito!bjs. Beth Alencar, Fortaleza-CE – mai2007

26- Oi, Ricardo! Caramba, vç tem a extrema facilidade de fazer o leitor ler, visualizar e sentir ao mesmo tempo. As emoções de ambos foram introjetadas de tal forma que senti como se estivesse vivendo aquilo.E é que li sem ouvir a música, imagine o apelo q se torna então.Brilhante, sou kelmerfã de carteirinha! Beijos. Lia Aderaldo, Fortaleza-CE – mai2007

27- Eita!!! “Pega fogooooooooooooo o cabaré!!!!” Da até pra dançar um bolerão, hahahahaha!!! Pensa numa “Boate Azul”!!! Adorei o texto!!!! Só trocaria o campari por uma vodka!!! huahuahuahua!!!!! Bjssssssssss. Lua Morena, Luziânia-GO – mai2007

28- Ricardo , que massa a história. Curti. Irei a Sampa semana que vem . Se rolar podemos trocar uma idéia!! abços. Petrus, Fortaleza-CE – mai2007

29- DOREEEEEEEEEEEEI !!! Beijo grande. Ilana Nahm, Rio de Janeiro-RJ – mai2007

30- Lama é o máximo ,dá um filme fantástico , e Odair José me fez viajar nas lembranças , nos finais de noites ,lá na abolição……….no dia que só chegamos em casa a noite depois de um tour enormeeeeeeeeeeee nos bares e restaurantes da cidade , depois de um luau ,com a irmã da Cris , lembra? bom demais…………..tudo que lí me transportou total para lembranças maravilhosas…. é meu amigo , voce está ótimo , muito + sensivel ,calmo ,muito + tudo de bom em um homem……………. Cristina Cabral, Fortaleza-CE – out2007

31- Adoooooooro essa música num mix com Preconceito. Divinas!! Tenho o CD Imitação da Vida (Bethânia) com as duas. Carmem Mouzo, Rio de Janeiro-RJ – fev2011

32- Muiiitttoooo booommmmm!!! Luce Galvão, Fortaleza-CE – fev2011

33- Gostei da ousadia do texto, sou evangélica e tenho horror dessa história de colocar a culpa de tudo em Satanás. Ora e o livre arbítrio? Nota 10 pra o texto “LAMA”. Marilde Jorge, Fortaleza-CE – fev2011

34- Obrigada!! Eh essa mesma! Fala na alma. Aiai..rs Pouco importa…para mim morreste tambem!!! Kkkkkk ohh drama! Cibele Cortez, Fortaleza-CE – nov2012

35- bom demaaaaaaaaaaaaaaissss!!!!! Ana Erika Oliveira Galvao, Fortaleza-CE – nov2013

36- Tu é um show completo. Eugenia Nogueira, Fortaleza-CE – nov2013

37- puuuutzzzz…. ela era bonita, heiiim. Tetê Macambira, Fortaleza-CE – ago2014

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