Iassim vamos – Alberico Rodrigues

26/09/2009

Ricardo Kelmer 2009

EleLetraCaminha-01Conheci o Espaço Cultural Alberico Rodrigues em jul2009. Fica em Pinheiros, vizinho à praça Benedito Calixto. O espaço é uma concretização dos sonhos e ideais de seu proprietário, o professor Alberico, ou Alberix, como eu gosto de chamá-lo. Após sair do interior da Bahia e rodar mundo estudando e dando aulas de literatura, Alberix entendeu que deveria por sua experiência a serviço da cultura de seu país. Foi com esse nobre ideal que em 1988 ele montou seu espaço, que hoje é referência cultural na capital paulista.

Cheguei por lá atraído pelo canto das sereias, acho que as mesmas que me atraíram quando pequeno e me levaram a ser escritor. Entrei e logo gostei do que vi: uma livraria de livros novos e usados, mais à frente uma loja de CDs e DVDs e aos fundos um café-bar. No primeiro andar um teatro de bolso para 60 pessoas. E uma deliciosa área externa onde se pode sentar à mesa e comer e beber com os amigos e ficar olhando o movimento da praça em frente, honrosamente acompanhado dos bustos de Machado e Camões. Diliça.

Pra minha sorte, Alberix gostou de mim e do meu trabalho. E recebeu de braços abertos as minhas kelmerices. Foi lá, por exemplo, em agosto, que estreamos o Viniciarte, espetáculo que criei sobre Vinicius de Moraes e que foi o primeiro evento realizado pelo meu projeto Letra de Bar. Aliás, o Viniciarte seguirá lá em cartaz uma vez por mês. E foi lá também que, em setembro, lancei meu livro Vocês Terráqueas, que, pra minha honra, Alberix gostou bastante e logo pôs à venda na livraria. Valeu, Alberix. Acho que juntos poderemos fazer muitas coisas boas.AlbericoRodrigues-01b

Sobre o Vocês Terráqueas, ainda farei lançamentos em outros bares, dentro do projeto Letra de Bar. E sobre o Viniciarte, Celia Terpins segue vendendo-o pra empresas, clubes e hotéis. Ela gostou muito do espetáculo e acredita que podemos até viajar com ele por outras cidades. Então, se você curte Vinicius de Moraes, quital levar o espetáculo pra sua cidade, hum? Aproveita que o precinho tá bom.

E sobre o Letra de Bar, em outubro será lançado o primeiro número da revista impressa, que terá edições bimestrais e será distribuída gratuitamente no circuito boêmio-cultural da cidade de São Paulo. O projeto divulgará o que estiver relacionado ao mundo dos livros: novos autores, livrarias, editoras, gráficas, empresas e profissionais da área e também filmes e espetáculos baseados em livros, além de entrevistas.

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Corta pro apê da Paulete. Paulete Hetê. Ela prepara aquele capuccino que só ela sabe fazer enquanto eu, no noutibuk dela, reviso o roteiro do Viniciarte. Em algum lugar toca um blues. Paulete me serve o capuccino e depois vai fazer alongamento na sala. Seu corpo nu se integra à paisagem da pauliceia lá fora na janela. Ou será o contrário?

– Pô, Paulete, assim eu não consigo trabalhar.

– Vinicius conseguia.

– Eu não sou Vinicius.

– Não é mas tá cada vez mais vivendo como ele. Amores, literatura, música, poesia, bares, viagens…

– Pensando bem, é verdade.

– E ainda monta um espetáculo sobre ele.

– O poetinha sempre foi meu guia, você sabe.

– Você também deixará de ser escritor pra ser artista?

– Sempre fui as duas coisas. Não pode?

– Escritor e artista. E agora produtor cultural. E editor de jornal. E palestrante. E professor de roteiro. Que horas você vai escrever livro?PauleteHete-106a

– Posso escrever antes de dormir.

– Você nem dorme mais. Já viu como tá tua cara? Vai assustar as leitorinhas.

– Em breve eu diminuo o ritmo de trabalho e…

– Ahahahah! Comigo ninguém diminui o ritmo, Rica querido. Você entrou na pista, agora tem que correr senão é atropelado.

– Não quero correr. Quero celebrar.

– Um Vinicius cearense pra eu sustentar. Eu mereço.

– Agora pára de me exibir a bunda que eu tenho que trabalhar, vai.

– Que o poetinha não escute essa heresia.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Iassim vamos – Parada gay

27/06/2009

Ricardo Kelmer 2009

O mundo melhor pelo qual eu e muitos outros lutamos passa necessariamente por esta aceitação: somos diversos

EleLetraCaminha-01Eu já havia perdido a Virada Cultural de 2009 por ainda estar na turnê nordestina. Uma pena. Nem vou listar aqui os shows imperdíveis que perdi pra não chorar, xapralá, bola pra frente. Pela menos a Parada Gay eu não perderia, um bom consolo.

O tuntstuntstum no último volume dos carros de som é insuportável. As calçadas das ruas transversais alagadas de mijo também. Mas é compensador participar desse carnaval de um dia só em que se transformou a Parada Gay, eu realmente me divirto muito em ver os tipos e fazer parte dessa grande festa democrática da sexualidade.

Este ano terminamos a festa no H2Rock, um boteco da Augusta que descobri dia desses, onde sempre rolam bons shows de blues e rock no telão. Tomar uma vendo os Doors, Janis, Led Zeppelin, ô diliça… Coisas daugusta. Eu, Samia, Zé di Bedis, Magnata e Gilbas, entre cervas, domecqs e ósculos desatinados. Tudo muito bom, até o tiragosto de amendoim com alho. Coisas daugusta.

Agora falando sério. Assim como não há mais como deter os movimentos de emancipação feminina e de igualdade racial, o mesmo já acontece com o movimento gay. A sociedade já não pode fazer de conta, como até um tempo atrás, que a homossexualidade não existe. Hoje precisamos todos conviver com isso, gostando ou não. Aliás, a luta dos homossexuais não é apenas a luta de uma minoria – ela deve ser vista como um movimento natural evolutivo da própria humanidade no sentido de se aceitar como sempre foi, sexualmente diversa.

Você tem a sua sexualidade própria, eu tenho a minha, a digníssima senhora sua mãe tem a dela e, se pensarmos bem, em última análise cada pessoa deste mundo vivencia a sexualidade de uma forma única. Entre bilhões de pessoas, talvez não haja duas sexualidades exatamente iguais. Então por que haveríamos de eleger uma mais certa ou errada que a outra?

Quanto mais penso no assunto, mais me convenço de que a velha divisão da sexualidade humana em heterossexual e homossexual é algo absolutamente artificial e sem real fundamento. Tudo bem que de uns tempos pra cá o senso comum abriu uma brechinha na divisão pra incluir a bissexualidade mas, ainda assim, não dá pra explicar a sexualidade humana encaixando-a apenas nesses três compartimentos. Dois gays podem ser sexualmente mais diferentes entre si que um homo e um hetero. Sem falar que a questão na verdade começa muito antes disso: o que exatamente define, e qual a medida, que alguém é homo ou hetero ou bi?

O mundo melhor pelo qual eu e muitos outros lutamos passa necessariamente por esta aceitação: somos diversos. E dentro dessa diversidade somos uma única família e temos todos o mesmo direito fundamental, o direito que é a mãe de todas as liberdades: poder ser quem somos.RKParadaGay200906-504a

Pra terminar, deixo você com a graciosa exuberância de Natasha e Thalyta, uma dupla que, como pode-se constatar, abalou a avenida Paulista. Olhe à vontade pois não tava fácil a concorrência pra fotografar com as meninas.

> RK na Parada Gay. Veja as fotos (exclusivo para Leitor Vip)

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Corta pra cozinha da Paulete. Ela preparando um capuccino. Só de calcinha e uma camiseta preta do Led Zeppelin. Adoro mulher com camiseta do Led. Em algum lugar toca um blues.

– Defendendo os gays assim, vão acabar achando que você agasalha o croquete.

– Claro que agasalho. No seu cruassam.

– Hummm, é assim que eu gosto de te ver, bem animadinho.

– É, tô animado mesmo. Você tá me tratando bem.

– Meu batráquio desengonçado merece. Gostou do boteco da Augusta?

– Tirando a fumaceira de cigarro, adorei.

– Fica frio, sete de agosto acaba teu martírio.

– Nunca mais tontura e olhos irritados. Nunca mais roupas e cabelo fedidos. Ufaaaa…

– Primeiro o barzinho da Cardeal. Agora um boteco na Augusta. Pra quem tava órfão de bar e agora já tem dois…

– Obrigado, Paulete. Mas quero mais. Bares legais pra botar no circuito do Letra de Bar, você me arruma?

– Tá na lista de prioridades. Junto com a namorada linda e indecente pra ver contigo os gols da rodada embaixo do edredon.

– Ver e comentar, não esquece.

– Ela ainda tem que comentar? Se você pelo menos fosse bonito, teria moral pra tanta exigência…

– Falar nisso, te contei que me cadastrei no Par Perfeito?

– Sério? Ah, vocês românticos…

– Achei que você aprovaria.

– Eu? Esquece. Pro seu caso, é melhor um bar perfeito.

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> RK na Parada Gay – Veja as fotos (exclusivo pra Leitor Vip)

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> Religião certa e sexualidade errada – Com exceção daquelas mais ligadas à Natureza, as religiões atuais foram criadas por homens e refletem a mentalidade patriarcal dominadora

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CABARÉ SOÇAITE
Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade

Confira as próximas edições

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Iassim vamos – Bar de Ontem

22/06/2009

Ricardo Kelmer 2009

Um barzinho legal em Pinheiros. E Paulete de calcinha e camiseta

EleLetraCaminha-01Conheci o Bar de Ontem através de Marcello e Diego, que me convidaram pra ir ao Sarau de Ontem, que ambos estavam começando a produzir e que rolaria quinzenalmente aos domingos lá, nesse tal de Bar de Ontem.

Ops, um sarau. Eu gosto de sarau, principalmente quando não é formal e careta. Aquela coisa de literatura misturada com música, teatro, dança, todos participando, aquele clima de suruba artística, acho muito gostoso. Falando nisso, nessa última temporada em Fortaleza criei o Bordel Poesia, um sarau mensal cujos temas são paixão e erotismo. Minha amiga Paola Benevides ficou como produtora do evento, junto com a Linda Mascarenhas. Vida longa ao Bordel Poesia.

Poisbem, o Sarau de Ontem. Fui e gostei. Funciona no mezanino do Bar de Ontem, que fica ali em Pinheiros, na Cardeal Arcoverde, entre Fradique e Mourato. Quem foi comigo foi o Moacir Bedê, mais conhecido no submundo do crime desorganizado como Zé di Bedis, junto com Sofia Binoche, Gabriel Barruan e Magnata. Foi divertido, conhecemos gente bacana e eu desenterrei uns poemas do Bandeira do fundo empoeirado do meu passado recitador. E o Zé di Bedis, quando perdeu a vergonha, interpretou Listen, a obra-prima do seu cancioneiro sem-noção. Ninguém entendeu nada, é claro, mas riram bastante.

E eu, depois que me animei, puxei da mochila o Vocês Terráqueas e li Queremos mulher carnuda. Como sempre, aplausos e calorosas manifestações de apoio à Samuca (Sociedade Amparadora da Mulher Carnuda). E no fim li Loiras ou morenas, com acompanhamento musical do Marcello. Acho que gostaram pois acabei vendendo dois livros, ô maravirilha.

Lu e Gilson são os donos do bar, casal ótimo, simples e a fim de fazer do lugar um reduto artístico, com o apoio dos filhos Ciça e Edu. Que bom. Gostei deles, do ambiente descontraído da casa e dos preços que se não empolgam, também não assustam – tanto que voltei lá na semana seguinte, depois voltei no sarau, depois outra vez… Ufa, eu realmente tava carecendo de ser adotado por um bar aqui na Pauliceia. E tem mais, acabamos fechando uma parceria: o Bar de Ontem é o primeiro a integrar o circuito do Letra de Bar (letradebar.wordpress.com), meu projeto literário que estreia em agosto. E em breve farei uma noite de autógrafos lá, você já tá convidado.

Corta pra cozinha da Paulete. Ela fazendo um capuccino. Só de calcinha e camiseta (comprada na feirinha da Benedito Calixto). Como que ela sabe que eu adoro mulher de calcinha e camiseta? E, putz, como ela descobriu que adoro as frequentadoras da Benedito Calixto?

– Um barzinho legal e um sarau pro meu escritor ler seus textos maluquinhos. Gostou do presente?

– Você é demais.

– E, de quebra, duas novas leitoras.

– Assim eu me apaixono.

– Foi o que a cigana disse.

Visto um agasalho, hoje tá frio. Em algum lugar toca um blues. Engraçado, nunca sei de onde vem mas sempre toca um blues.

– Treze graus, Paulete, e você de calcinha. Comé que pode?

– É o teu tesão que me veste assim, ainda não sacou? Quando ele acabar, você me verá diferente.

– Meu tesão por você não vai acabar.

– Mas vai se transformar, como tudo, seu moço. Você, por exemplo, não é mais aquele que me apareceu três anos atrás, tão perdido, coitado, fugindo de um Rio de Janeiro que não te curtiu.

– Você também não me deu bola.

– Claro. Vocês artistas e escritores precisam primeiro provar que me merecem. Por que eu te trataria diferente dos tantos outros que me procuram? Só porque você é um pobre coitado ingênuo e romântico?

– Eu?

– E que nessa altura do campeonato, o mundo se acabando, ainda insiste em ver tudo pelo olho da poesia.

– Eu??

– Mas eu gosto. Sem isso você não me veria assim, de calcinha e camiseta, toda poética nesse frio.

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Iassim vamos – Paulete, ai, Paulete

10/06/2009

Ricardo Kelmer 2009

Em três anos de São Paulo, somente agora começo a me sentir fazendo parte da cidade.

EleLetraCaminha-01Um mês. Um mês que voltei a São Paulo após a temporada nordestina de 9 meses. Os primeiros dias não foram fáceis, eu era o Homem Sem: sem quarto pra dormir, sem computador, sem internet e sem poder ligar no celular pois deu um problema com minha conta da Claro. Um mês sem poder trabalhar normalmente, me virando em lan houses e me irritando com os orelhões quebrados.

Agora as coisas estão se ajeitando. Comprei um noutibuk Acer e instalei um 3G da Oi, resolvi o problema do celular e tô no quarto que aluguei no bairro do Sumaré, a 10 minutos de caminhada do metrô. Morando aqui, finalmente tô pertinho das livrarias, cinemas, teatros e bares, como eu queria estar.

Putz, em três anos de São Paulo, somente agora começo a me sentir fazendo parte da cidade. Tomara que ela também queira fazer parte de mim. Será que quer?

Corta pra cozinha de um pequeno apartamento. Pela área de serviço ouve-se o som do trânsito lá fora. Paulete prepara um capuccino – só de calcinha. RK, sentado à mesa, em sua tradicional estampa matinal (despenteado e horrendo), aguarda a resposta, será que quer? Em algum lugar toca um blues.

– Claro que quero, seu bobo. Quero fazer parte de você e de todo escritor maluco que vem pra mim.

– E nessa cabecinha liberal aí não rola nem um ciuminho de Fortaleza?

– Não como ela tem de mim.

– Você realmente não se incomoda de me dividir com outras?

– Eu não. Você sempre volta pras minhas esquinas.

– Convencida.

– Na verdade tô é curiosa pra saber o que a loirinha desmiolada de sol tanto vê em você.

– Deve ser o meu jeitinho de dizer eu te amo…

– Que lindo!

– … enquanto tô dentro do rabo dela.

– Seu pornográfico. Também quero.

– Se der tempo…

– Como assim?

– A grana que tenho só dá pra três meses.

– Faz três anos que tua grana só dá pra três meses.

– É verdade…

– Vou te contar um segredo. Ontem eu fui na cigana. E ela me disse que você vai se apaixonar por mim.

– Sério? E o que você fará pra isso acontecer?ElaCidade-01a

– Vou te dar a vida que você pediu: literatura, música, cinema, teatro, bares aconchegantes…

– Demorou, né?

– Vou te arrumar uma boa editora e muita palestra pra você fazer.

– Jura?

– E uma namorada linda e indecente, que vai adorar ver os gols da rodada contigo embaixo do edredom.

– Ai, Paulete, assim eu me apaixono…

– Com açúcar ou adoçante?

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Essa loirinha desmiolada de sol

10/11/2008

10nov2008

Duvido que ela tenha uma marquinha de biquíni assim – a loirinha insiste, com a graciosidade tristonha das cidades que sabem que seus argumentos são ótimos mas que não vão adiantar

ESSA LOIRINHA DESMIOLADA DE SOL

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Os leitores que ultimamente receberam livros meus pelo correio certamente perceberam que o endereço do remetente não é de São Paulo, mas de Fortaleza. Explico: tô passando uma temporada no Ceará e desde setembro despacho daqui meus livros vendidos pela internet. Vim finalizar em Fortaleza o novo livro, Vocês Terráqueas, e a nova edição de bolso dos demais, aproveitando a parceria que tenho com a Expressão Gráfica e com a Garin, e vim também pra participar da Bienal Internacional do Livro (12 a 21nov) e fazer umas palestras.

A ideia era retornar pra São Paulo até dezembro, mas como tô precisando de uma graninha urgente pra pagar os custos do novo livro e também pra comprar um notebook, decidi voltar a produzir festas temáticas, algo com que trabalhei por vários anos. Então adiei o retorno, possivelmente pra depois do Carnaval. Produzir uma festa não me dá tanto prazer quanto publicar um livro, mas dá menos trabalho. E sempre dá um dinheirinho muito bem-vindo que ajuda a bancar o RK escritor.

Fortaleza é assim, pro RK escritor ela não tem amplos horizontes a oferecer, mas pro RK festeiro ela escancara as pernas. Essa loirinha desmiolada de sol… Fortaleza será sempre assim, inculta, dengosa e bela. Sempre que venho, ela me vem com agradinhos, diz que eu deveria ficar, que mereço vida melhor do que a que levo sozinho em São Paulo, alugando quartinhos minúsculos, sem os amigos que tenho aqui, os dengos e as facilidades…

Ela diz isso mas tá cansada de saber que nosso amor é um amor impossível. E sabe muito bem que agora sou um cara compromissado com São Paulo, a quem ela desdenhosamente chama de Paulete Periguete. Ciúmes, claro, tem cidade que é muito ciumenta. E Paulete não tem nada de oportunista, pelo contrário. Ela pode até não ser tão calorosa quanto Fortaleza, mas é bem curvilínea e, aiai, são as curvas de seus horizontes que mais seduzem o RK escritor.

– Mas duvido que ela seja mais ecônomica que eu – Fortaleza começa a ladainha, enquanto brinca de sereia na areia da praia pros meus olhos. Cidade adora se comparar com a outra, ô mania horrível. De fato, Fortaleza não é dispendiosa como São Paulo. Mas finjo que não escuto a provocação e continuo olhando o mar, gosto de ver as ondas indo e vindo, é um dos meus mantras visuais favoritos.

– Duvido que ela tenha uma marquinha de biquíni assim – a loirinha insiste, com a graciosidade tristonha das cidades que sabem que seus argumentos são ótimos mas que não vão adiantar.

– Duvido que ela faça gostoso como eu faço, duvideodó… – ela sussurra, sua voz sapeca sibilando em meu ouvido junto com o vento de outubro. E dessa vez eu concordo, claro, imagina se vou discordar. Não, loirinha, ninguém faz o que você faz, principalmente depois da terceira vodca.

Fortaleza é assim, a derradeira brisa de verão, um gosto de beijo roubado na fila do embarque, a felicidade com visto vencido.
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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.com

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Maior que meu horizonte (por Wanessa, inspirado na crônica Inculta e bela, dengosa e cruel) – E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

Confissões de uma leitorinha nua (por Leitorinha) – Fiquei tão à vontade pra ler a página dele na net que agora o fazia completamente nua

São Paulo, sua loca – Quinze dias contigo e essa tua loucura cosmopolita que eu adoro

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