A garota da lua nova

15/01/2019

15jan2019

A GAROTA DA LUA NOVA

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Quando deu por si, Tamara percebeu-se numa cama, deitada e nua. E tudo era uma escuridão só. As lembranças chegaram lentamente, confusas… o bar lotado, uma garota bonita dançando com ela, o convite para esticar a noite… as duas chegando ao prédio, tudo escuro pela falta de energia, ninguém na portaria… depois a escuridão do apartamento, a ansiedade das mãos e das bocas, a língua sinuosa entre suas pernas…

O súbito contato com um corpo ao lado fez Tamara estremecer, interrompendo suas lembranças. Um corpo de mulher, cabelos longos… Estava quieta. Parecia dormir profundamente. Pensou consigo: Caramba, Tamara, de novo você exagerou nas caipirinhas!

Levantou-se com cuidado, deu a volta na cama e alcançou a janela. Após abri-la, sentiu o vento frio da madrugada arrepiar-lhe a pele. A rua estava escura, pelo jeito a energia ainda não voltara. Procurou pela lua, em vão. Era lua nova. Viu a antena de tevê piscando ao longe e teve uma noção de onde se encontrava, um pouco longe de casa. Pela altura, deduziu que estava no quinto ou sexto andar daquele prédio.

Tamara pressionou o interruptor na parede, só para ter certeza, e a luz não se acendeu. Aproximou-se da mulher que dormia, o corpo nu atravessado na cama. Pelo pouco de luz que vinha da janela pôde ver que era uma garota, um pouco mais nova que ela, uns vinte e poucos. Feições suaves, cabelos negros muito longos, a pele clara. Tão linda e desejável… Não lembrava seu nome, mas tinha a impressão que começava com B. Obrigado por me trazer em tua casa, garota bonita…, falou baixinho, enquanto afagava-lhe o rosto e lembrava outra vez do que fizeram momentos antes naquela cama. Pousou um leve beijo sobre os lábios entreabertos e a garota mexeu-se um pouco, mas continuou dormindo, ressonando suavemente. Procurando por algo para cobri-la, por causa do frio, Tamara percebeu que estavam diretamente sobre o colchão, sem lençol. Melhor fechar a janela.

Após catar suas roupas pelo chão, vestiu-se e calçou os tênis. Tentou ver a hora no celular, mas a bateria havia descarregado. Talvez quatro ou cinco da manhã, calculou, hora de mulheres mal comportadas voltarem para casa, né, Tamara?… Então foi ao banheiro e da bolsa tirou um batom. Tateou até encontrar a pia, e logo acima, o espelho. E nele escreveu, letras vermelhas: “Adorei a noite!” Assinou seu nome e deixou o batom na pia, um presente para a garota bonita que tanto prazer lhe proporcionara.

Era uma quitinete pequena, constatou Tamara enquanto buscava a porta para sair. No caminho, esbarrou numa mesa e quase caiu. Por fim, abriu a porta, conferiu o número 513 com  a ponta dos dedos e desceu as escadas, o máximo de atenção para não cair. Na portaria, iluminada pela luz da lanterna que o porteiro empunhava, perguntou o endereço do prédio e chamou um táxi. Estava cansada, só queria sua cama e dormir.

No dia seguinte, nenhuma mulher desconhecida a adicionou nas redes sociais. Nem no outro dia. E nem depois. Tamara sentiu-se frustrada. No meio da aula, pegava-se lembrando dos detalhes da noite. Em sua cama, naqueles instantes que precedem o adormecer, era a imagem dela que flutuava à sua frente, bela e delicada, chamando-a…

Com uma semana, Tamara não aguentou mais. Precisava rever a garota, saber quem era ela. Desejava novamente seus beijos, o cheiro gostoso de sua pele. Ansiava por saber do que gostava de fazer, além, é claro, de seduzir mulheres bêbadas pelos bares. Então, voltou ao prédio.

É onde ela está. Exatamente agora. Na portaria do prédio onde esteve uma semana antes. São cinco e meia da tarde de uma sexta-feira. Ela repara que o porteiro é o mesmo da outra noite.

– Por favor, avisa no 513 que Tamara está aqui.

O porteiro, ocupado com uma senhora que reclama de um vazamento, apenas estende a mão e lhe entrega uma chave. Tamara fica olhando para ele, sem entender.

– Pode subir, moça – ele diz, apontando o elevador.

Tamara caminha até o elevador. Será que a garota a viu chegando da janela e avisou ao porteiro? Se foi isso, então já tô apaixonada.., diz para si mesma, sorrindo e ajeitando o cabelo no espelho do elevador.

Ela mete a chave na fechadura, gira e abre a porta. Agora, à luz do dia, percebe que o apartamento é um vão mobiliado apenas com uma mesa pequena, duas cadeiras, uma cama de casal e um guarda-roupa. Na cozinha ao lado, ou no espaço que poderia ser a cozinha, nem geladeira, nem fogão.

– Alôôô… – ela fala, anunciando-se. Mas ninguém responde. Num primeiro momento, pensa que errou de apartamento. Mas não, é esse mesmo, quinto andar, fim do corredor à esquerda. – Cadê você, garota misteriosa? – ela pergunta num tom infantil, talvez a garota esteja fazendo uma brincadeira com ela. E novamente o silêncio é a resposta.

Que estranho, Tamara pensa enquanto observa que no apartamento não há nada pessoal, nenhum objeto, nenhuma foto. No banheiro, nenhuma toalha, nada. No guarda-roupa, apenas cabides pendurados, nenhuma roupa. Na cama, somente o colchão, sem lençol. Como se ninguém vivesse ali. Ela abre a janela e reconhece a paisagem de prédios ao redor, a mesma que observara naquela noite uma semana antes.

Neste momento, escuta algo e sai para ver. No início do corredor, ela vê a porta entreaberta de um apartamento. De lá alguém a observa, o rosto meio escondido pela porta. Parece ser uma garota.

– Por favor, você conhece a moça que mora…

Mas a porta se fecha e ela fica sem resposta. Povo desconfiado…, pensa Tamara. Um minuto depois está novamente no térreo.

– Por favor, como se chama a dona do 513? – pergunta ao porteiro.

– Não é dona, é dono. Seo Laurindo.

– E a garota que mora lá?

– Lá não mora ninguém, moça. Seo Laurindo botou pra alugar faz seis meses.

– Seis meses? O senhor tem certeza?

– Sim. Mas ainda não alugou.

– Mas… não pode ser… – ela murmura, confusa. – Semana passada eu vim aqui. Estava faltando energia, o senhor me viu sair, tá lembrado?

O porteiro olha para ela com atenção.

– Ah, agora reconheci. Pediu um táxi, não foi?

– Sim, e eu cheguei com uma garota. Achei que ela morasse lá no 513.

O homem franze a testa. Agora parece bastante curioso.

– Olhe, moça, aquele apartamento tá vazio faz um ano. Quem morava lá era dona Brenda.

– Brenda? Como ela é?

O porteiro interrompe a conversa para atender o carteiro que chega com correspondências. Tamara aguarda, impaciente, que o homem vá embora.

– Ela é branquinha, cabelo preto grandão, aqui na cintura? – Tamara insiste. – Mais nova que eu?

– Sim, mas…

Ele não continua. Olha para Tamara, observando-a atentamente, como se procurasse entender o que podia haver por trás daquelas perguntas todas.

– Dona Brenda morreu faz um ano.

Tamara acha que ouviu errado. Só pode ter ouvido errado.

– Morreu?

– Acidente de carro.

– Mas…

– Por isso o pai dela alugou o apartamento.

Tamara tenta organizar as ideias, mas nada daquilo faz sentido. O prédio era o mesmo, o apartamento também, o mesmo porteiro, e ele a reconhecera. Não estava ficando louca. Estivera ali na semana anterior, sim. E transara com uma garota, naquela cama de casal, a cama sem lençol…

– Tá tudo bem, moça?

– Ahn… mais ou menos… – ela balbucia enquanto procura o celular na bolsa para chamar um táxi. Mas não encontra. – Esqueci o celular no apartamento. Vou lá pegar, é rapidinho.

Novamente o elevador, subindo até o quinto. Novamente o corredor, o apartamento do fim à esquerda. Mas dessa vez Tamara está com medo. Não sabe se conseguirá ir até lá. Morta? Como assim, morta? E se o porteiro estiver brincando com ela? E se tudo aquilo for uma pegadinha de mau gosto? E se, na verdade, naquela noite chegou ali sozinha, deitou-se na cama e sonhou que havia uma garota com ela? Não, claro que não, como teria conseguido a chave para entrar?

Durante um eterno minuto ela experimenta todas as explicações possíveis, mas nada faz sentido. Tudo que sabe nesse momento é que precisa ir lá e pegar seu celular. Então enche-se de coragem e caminha o mais firme que pode em direção ao 513.

Abre a porta devagar. Aguarda um pouco. O silêncio do apartamento parece envolvê-la num abraço opressor. Lá está ele, o celular, sobre o colchão da cama. Ela caminha até lá, pisando com cuidado, devagar, atenta a tudo. A imagem da garota deitada na cama não lhe sai da mente. Morta? Um ano antes?

Tamara apanha o aparelho. Suas mãos tremem, e o celular escapole, quase cai no chão. Nunca mais entrará naquele prédio outra vez. Nunca mais passará nem em frente. Ela se vira para sair, mas… ao lado, o banheiro, a porta aberta… Ela se sente atraída. Precisa ir lá. Então, entra no banheiro, olha o box, a cortina de plástico transparente. Do outro lado, a pia, o espelho… Ela evita olhar para o espelho. Mas a curiosidade é maior. Ela olha. E o que vê é o seu rosto refletido, o olhar nervoso, mas isso dura apenas um segundo, pois imediatamente percebe… algo escrito na superfície do espelho…

Tamara se aproxima para ler. Entre ela e a imagem refletida de seu rosto, uma frase, em letras vermelhas. Mas não é a frase que escreveu na outra noite. É outra frase: “Também adorei, Tamara. Te espero na lua nova.”

Dentro da pia, ela reconhece, imobilizada de pavor: o batom. O seu batom.

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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Trilha sonora do conto A Garota da Lua Nova

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Este conto foi originalmente escrito para o livro Penas, Fluidos e Bisturis, organizado por Rogério Bessa Gonçalves. A obra contém contos e poemas criados a partir de desenhos de Rogério. Eis o desenho no qual foi inspirado o conto A Garota da Lua Nova:

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DICA DE LIVRO

Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos
Ricardo Kelmer – contos
Fantástico, terror, ficção científica

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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A vertigem

10/02/2015

09fev2015

AVertigem-01

Dizem que seo Pepeu, o louco da cidade, possui dois bichinhos mágicos que localizam coisas perdidas e fazem as pessoas se encontrarem. Mas ele está velho e tem de passar a alguém a missão de cuidar dos bichinhos

Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

Música sugerida para leitura: Sertão Noturno (Cristiano Pinho. Part. vocal: Raimundo Fagner)

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A VERTIGEM

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Os fatos que agora relatarei aconteceram há muito tempo. Mas parece que foi ontem.

Eu estava em Quixadá naquele sábado para resolver umas questões relacionadas a um imóvel de minha família, a casa onde moramos por muitos anos antes de mudarmos para a capital e que desde então estava alugada. Eu havia convencido meus pais a vendê-la e investir o dinheiro em ações na bolsa, obtendo muito mais rendimento. Porém, como a tarde já ia no fim e no domingo outros interessados visitariam a casa, decidi permanecer na cidade e me hospedei num hotelzinho na zona central. Após tomar um banho, aproveitei que o calor estava mais ameno e saí para dar uma caminhada pela redondeza.

Vinte e um anos. Esse era o tempo que eu não ia a Quixadá. Eu nascera e vivera ali até os quinze anos, quando minha família mudou-se para Fortaleza. Meus amigos de infância, o futebol com bola de meia, as quermesses na praça, tudo de repente ficou para trás. Determinado a vencer na cidade grande a qualquer custo, logo ajustei-me às suas leis, concentrando-me nos estudos e no trabalho, economizando dinheiro e deixando diversões e namoradas em terceiro plano. E tratei de convencer a mim mesmo, dia após dia, de que aquela era a minha verdadeira cidade. Em pouco tempo, substituí minha mentalidade interiorana por um comportamento metropolitano e Quixadá foi ficando cada vez mais relegada a um simples nome de cidade natal em meus documentos de identidade.

– Silvio?

Alguém falou meu nome. Era uma senhora. Encostada no portão de uma casa do outro lado da rua, ela acenava sorridente para mim. Atravessei a rua enquanto tentava buscar na memória quem poderia ser.

– Já vi que não lembra de mim.

Eu não lembrava mesmo.

– Fui sua professora de matemática.

Finalmente lembrei. Dona Necy. Estava bem mais velha e bem mais gorda.

– Desculpe, dona Necy. É que faz tanto tempo.

– Tenho memória boa. Você deve estar com… trinta e cinco?

– Trinta e seis.

– Até que não mudou muito. Está de volta à terrinha?

– Não. Só de passagem.

Ela me pegou pelo braço e me convidou para entrar um pouco.

– Acabei de fazer um docinho de caju – ela disse, animada.

Eu queria voltar logo para o hotel, pois levara o notebook e tencionava trabalhar aquela noite nuns relatórios da empresa. Porém, fiquei sem jeito de negar e me deixei conduzir à varanda da casa.

– Sente um pouquinho que eu vou pegar.

Era uma ampla varanda, que ocupava a frente e a lateral da casa. Calculei a área e vi que era maior que o quarto-e-sala onde eu morava. Havia duas cadeiras naquela parte da varanda, ambas de balanço, de ferro revestido com fios de plástico colorido, dessas que não existem mais nas cidades grandes. Sentei numa delas e o movimento de vai e vem da cadeira quase me deu vertigem.

Logo depois, dona Necy chegou e me entregou uma cumbuca cheia de doce. Enquanto eu comia, e o doce era desses com calda vermelha, realmente delicioso, conversamos um pouco. Falei que meus pais estavam bem, que iríamos vender a casa e que eu ainda era solteiro e trabalhava como diretor financeiro de uma empresa. Ela, por sua vez, contou que se aposentara, que seus filhos estavam todos casados e que Quixadá continuava do mesmo jeito que eu a havia deixado, com a diferença de que agora estava ainda mais quente. Falou e em seguida abriu um leque, começando a abanar-se.

– Muito gostoso o doce, dona Necy.

– Quer mais? Vou pegar.

– Não, obrigado – respondi, embora quisesse.

– Então vou pegar uma aguinha pra você.

Ela pegou a cumbuca e entrou, dirigindo-se à cozinha. Pensei na mania que esse povo do interior tem de oferecer comida às visitas. Para eles, você está sempre magro e precisando urgentemente engordar. Nesse momento, dei-me conta da presença de alguém ao meu lado, na porta da sala. Virei-me, achando que veria dona Necy, mas o que vi foi um senhor idoso, alto e magro. Vestia-se todo de branco, calça, paletó, sapatos e um chapéu de feltro, como se fosse sair. Seus olhos eram negros e me olhavam de um jeito estranho…

– Boa tarde – cumprimentei-o.

Ele não respondeu. Permaneceu no mesmo lugar, me olhando daquele jeito estranho, sem expressão. Ou melhor, com uma expressão, sim: de ausência. Mas uma ausência fixada em mim, difícil explicar. Era como se ele não estivesse ali – mas soubesse que eu estava. Senti um desconforto, uma insegurança, como se quem me olhasse pelos olhos daquele velho, de algum modo, soubesse de mim. Soubesse bastante de mim.

Desviei o olhar para o lado da rua. No céu, por trás das casas, o sol se punha entre as nuvens menstruentas, anunciando a noite do sertão.

– Ô, Pepeu, não vai falar com o rapaz, não? – disse dona Necy, chegando da cozinha. – É o Silvio, filho da Dezinha, que você conheceu. Lembra dela, Pepeu?

Ele continuou quieto e calado, encostado na porta. Dona Necy me estendeu o copo dágua e sentou. Bebi com gosto. Quando voltei-me para olhar para seo Pepeu, o lugar estava vazio, ele havia voltado para dentro da casa sem que eu percebesse.

– É primo torto de mamãe – explicou dona Necy, sem se importar com o repentino sumiço do velho. – Tem o juízo meio mole.

– Ah…

– Morava com ela, em Caiçarinha. Quando ela morreu, a gente trouxe ele pra morar com a gente.

– Ele não casou?

– Não. Nem teve filho. Já está com noventa anos, mas ainda tem saúde boa.

– E não causa problemas?

– Pepeu é quieto, faz mal nem a muriçoca. Só tem umas esquisitices, mas a gente já acostumou. A gente se acostuma com tudo, né?

Dona Necy riu. A loucura do agregado da família a divertia.

– Que esquisitices?

– Essas coisas de gente doida. Por exemplo, ele diz que cria uns bichinhos. Mas ninguém nunca viu.

– Devem ser invisíveis – brinquei.

– Ele gostou de você, viu?

– De mim? Me olhando daquele jeito?

– Quando não gosta, nem olha pra pessoa.

Sorri, lisonjeado.

– O doce estava ótimo, dona Necy, obrigado – falei, levantando-me.

– Tem certeza que não quer mais? Doce aqui não falta.

– Tenho que voltar pro hotel.

À noite, telefonei para meus pais e, após falarmos sobre a venda do imóvel, contei para mamãe que havia estado com dona Necy e seo Pepeu. Ela comentou que o conhecia.

– Seo Pepeu é bom de encontrar coisa perdida, sabia? – ela falou.

– Como assim?

– Se você perdeu qualquer coisa, é só falar com ele que rapidinho você encontra.

– Só a senhora mesmo pra acreditar nessas coisas, mãe – respondi, rindo das crendices interioranas dela.

– Ah, eu soube que Milena se separou. Tá solteirinha. Que nem você.

– Que Milena, mãe?

– A que você namorou.

Milena era uma garota de Quixadá que eu havia namorado na adolescência. Eu havia esquecido totalmente dela.

– Obrigado pela dica, mãe, mas prefiro as mulheres da capital.

Após desligar, sentei na cama e liguei o notebook para adiantar as tarefas que me aguardavam no escritório na segunda-feira, que eram muitas. Fiquei apenas na tentativa, pois o sono me chegou tão forte que adormeci no meio do trabalho com o notebook ligado, coisa que nunca havia me acontecido.

AVertigem-01No domingo, mostrei a casa para um casal que estava bastante interessado em comprá-la. Discutimos valores e combinamos que eu voltaria no fim de semana seguinte para concluir o negócio. E retornei ao hotel, satisfeito. Em breve, a casa onde eu vivera minha infância e que significava minha derradeira ligação com a cidade se transformaria num bom dinheiro, que eu esperava multiplicar rapidamente no mercado de ações.

Almocei no hotel e depois subi ao quarto para tomar um banho. Enquanto me vestia, olhando-me no espelho, achei minha imagem um tanto diferente… Recordei ter lido em algum lugar que os espelhos refletem nossa imagem cada um ao seu modo e que, por nos acostumarmos aos nossos reflexos cotidianos, nós nos estranhamos nos outros espelhos.

Pensava nisso quando de repente a lembrança de seo Pepeu tomou minha atenção. E quase pude sentir a mesma sensação de desconforto que me causara sua presença no dia anterior. Seo Pepeu e seu olhar estranho, sem expressão, mas que mexia com algo em mim. Seo Pepeu e seu olhar de quem parecia saber muitas coisas de mim.

Saí do quarto e fui pagar a conta. Conferi as horas: cinco da tarde. Caminhei até o carro, estacionado em frente ao hotel, e entrei. No entanto, em vez de rumar para a saída da cidade, fui à casa de dona Necy. Parei o carro, saí e bati palmas. Ela logo apareceu, sorridente.

– Vim me despedir.

– Mas ainda está quente pra pegar estrada – ela falou, já me puxando para dentro e fechando o portão. – Entre um pouquinho. Já almoçou?

– Já, obrigado.

– Mas aceita um docinho de caju, não aceita?

– Aceito. E seo Pepeu, está bem? – perguntei. E me senti um tolo por ter querido enganar a mim mesmo sobre o motivo de ter voltado à casa de dona Necy. Evidente que eu não fora me despedir – estava ali para rever seo Pepeu.

– Hoje ele me perguntou: cadê o filho da Dezinha?

– Sério?

– Não disse que ele tinha gostado de você?

Dona Necy entrou e logo retornou trazendo o doce. Como da outra vez, ela sentou em sua cadeira de balanço e, enquanto falava algo sobre a safra de caju, o som de suas palavras se acompanhava do barulhinho quase hipnótico do balançar da cadeira. Foi nesse momento que ele surgiu à porta em seu figurino branco, silencioso e impecável feito um gato.

– Olha quem veio ver você, Pepeu.

– Boa tarde, seo Pepeu. Como vai?

Ele não respondeu. Continuou parado, encostado à porta, o olhar ausente em mim. Dona Necy fez sinal com a mão, para que eu não me importasse, e começou a falar do clima, do custo de vida, da política local. Lembrou do tempo da escola e de como as crianças de hoje preferem o computador às brincadeiras na rua. Foi quando escutei a voz grave ao meu lado:

– Ele quer mais doce.

Seo Pepeu falara!

– Quer mais? – perguntou-me dona Necy, levantando da cadeira. – Me dê que eu vou pegar.

Dona Necy puxou-me a cumbuca das mãos e entrou. E eu olhei para seo Pepeu, ainda surpreso. Ele falara.

Foi esta a primeira vez que escutei sua voz. E ele falou de um modo tão natural, e havia uma tal lucidez das coisas por trás dela… Eu, de fato, havia terminado de comer e realmente queria mais, porém estava com vergonha de pedir. E ele percebera.

– O senhor também gosta de doce de caju? – perguntei, tentando parecer simpático. Ele apenas continuou me olhando, daquele jeito ausente. Senti-me ridículo, tentando me comunicar com um louco, e tive a nítida impressão de que seo Pepeu desdenhava de minha posição de são e normal.

Para meu alívio, dona Necy voltou, trazendo mais doce e me livrando do desconforto de fazer sala para a loucura. Conversamos mais um pouco e, em determinado momento, lembrei do que minha mãe me falara.

– É verdade que ele encontra coisas perdidas?

– Olha aí, Pepeu – ela falou, dirigindo-se a ele. – Silvio quer saber se você encontra as coisas. Encontra?

Seo Pepeu não respondeu. Continuava com seu olhar em mim, insistente e silencioso – e ausente.

– Você não perdeu alguma coisa ultimamente? – dona Necy me perguntou. Sim, eu havia perdido minha caneta predileta, uma de alumínio que tinha meu nome gravado. Perdera-a no dia anterior, logo que chegara a Quixadá.

– Sim, perdi uma caneta.

– Pede pra ele encontrar.

– O senhor pode encontrar minha caneta, seo Pepeu? – perguntei a ele. E flagrei-me desejando muito que a resposta fosse sim.

No silêncio que se seguiu, enquanto nós dois nos olhávamos e eu ansiava por sua resposta positiva, senti uma vertigem… E me veio, nesse exato momento, uma lembrança de minha infância… Lembrei de um poço que havia no quintal da casa do vizinho, um velho poço que fornecia água e do qual as crianças eram proibidas de se aproximar. Um dia, sem suportar mais a curiosidade, fui escondido até o poço e subi na borda. E na água lá embaixo, em vez de minha imagem refletida, vi um monstro horrendo. Com o susto, me desequilibrei e caí para dentro do poço. Felizmente fui rápido e consegui me segurar na borda, ficando pendurado lá enquanto o monstro, do fundo do poço, aguardava que eu despencasse. Com muito esforço, subi a parede e saí. Voltei correndo para casa, apavorado, o coração saindo pela boca. A experiência foi tão traumática que depois desse dia, bastava me aproximar de um poço para sentir uma forte vertigem. Olhar lá dentro, nem pensar.

A lembrança se dissipou e a vertigem foi sumindo aos poucos, o que me aliviou bastante. Agora eu estava novamente na varanda da casa de dona Necy, tendo nos meus olhos o olhar ausente de seo Pepeu. Mexi-me na cadeira para afastar o resto de vertigem que ainda sentia, sem saber bem quanto tempo estivera envolvido pela súbita recordação ou se alguém percebera alguma coisa.

Então seo Pepeu moveu-se, caminhando até dona Necy. Inclinou-se e sussurrou algo em seu ouvido. E voltou ao seu lugar, encostado na porta.

– Pepeu disse que se você trouxer um chocolate pra ele, ele encontra sua caneta.

Dar-lhe um chocolate? Que coisa infantil, pensei, decepcionado. E eu que, por um rápido instante, chegara quase a crer que ele possuía mesmo algum dom mágico, que transitava por outros mundos… Mas agora via que era tudo uma brincadeira entre eles, uma espécie de concessão que dona Necy fazia à estranha lógica da loucura.

Mesmo incomodado por ter feito papel de tolo, resolvi topar a brincadeira. Levantei e fui à mercearia da esquina. E logo voltei com o chocolate, que entreguei a ele. Seo Pepeu, porém, não o recebeu, deixando-me com o braço estendido no ar. Dona Necy riu e pegou o chocolate de minha mão, entregando a ele. Pensei que seo Pepeu fosse comê-lo ali mesmo, mas, em vez disso, guardou-o no bolso de dentro do paletó e tornou a sussurrar ao ouvido de dona Necy.

– Agora você espera que a caneta aparece – ela disse, me piscando um olho, como se estivéssemos brincando com uma criança.

Olhei para seo Pepeu e julguei ver um esboço de sorriso, uma quase imperceptível luzinha de satisfação em seu rosto… que um segundo depois sumiu, sem deixar vestígio. Então nos despedimos e fui embora.

Durante o trajeto de volta a Fortaleza a lembrança de seo Pepeu me fez companhia. Ele realmente me impressionara bastante. E havia provocado em mim algo difícil de precisar, um incômodo misturado com medo e… uma certa euforia. Por quê?

Enquanto eu dirigia, chegaram outras lembranças de minha infância… Lembrei de um tempo em que eu tinha passagem livre para outras realidades, que eu visitava sempre. Um tempo em que eu tinha amigos que os adultos não viam e com eles dividia segredos. Lembrei que eu tinha o poder de ficar invisível e fazia isso sempre que queria roubar doces da confeitaria ou quando queria ficar no quarto de minha prima sem ser notado, enquanto ela deitava em sua cama e se tocava intimamente como se estivesse sozinha. Era um tempo em que os dias eram cheios de aventuras e tudo era mágico e fascinante. Um tempo encantado que simplesmente havia sumido de minha memória, mas que durante aqueles momentos na estrada irrompeu no pensamento, feito bolhas que sobem à superfície da água fervente.

Na entrada da capital, envolto pelas lembranças, não percebi o sinal vermelho e passei direto pelo cruzamento. Freei o carro bruscamente, quase colidindo com um caminhão. Por pouco não causei um terrível acidente. Poderia ter morrido… Parei logo depois, assustado e ao mesmo tempo aliviado pela sorte que tivera. Melhor esquecer o passado, pensei, enquanto engatava a primeira e saía. Melhor voltar à realidade.

Nos dias seguintes, minha mente manteve-se focada nos afazeres do trabalho, que me consumia o dia inteiro e às vezes até a noite, quando levava tarefas para casa. Na quarta-feira, porém, enquanto trabalhava em minha sala na empresa, percebi que a luz do fim de tarde que vinha da janela refletia-se na estante em alguma coisa que eu não conseguia precisar o que era. Intrigado, levantei e fui conferir o que estava brilhando ali. Era uma caneta. Uma caneta de alumínio com meu nome gravado.

Senti um arrepio na espinha. Era a caneta que estava perdida! Mas como ela podia estar ali se eu a perdera em Quixadá? Seria seo Pepeu… responsável por aquilo?

Não, claro que não, imediatamente respondi para mim mesmo. Eu certamente me equivocara. Sem perceber, certamente eu trouxera a caneta comigo de Quixadá e…

E o quê? Eu pusera a caneta na estante e também não lembrava? Isso não. Claro que eu não fizera isso. Então como explicar?

Não encontrei nenhuma explicação. Não havia explicação. Durante três dias eu havia esquecido de seo Pepeu e agora ele subitamente voltava por meio daquele mistério. Seria mesmo possível que ele tivesse algo a ver com aquilo?

Pelo resto do dia a imagem do velho esquisito me perseguiu, aqueles olhos ausentes de expressão, mas que eu sabia me espreitarem atentos. E isso me fazia dividido. Se, por um lado, brisas suaves do outro mundo sopravam por intermédio de seo Pepeu, brisas que me arrepiavam os pelos e me traziam memórias de um tempo de magia e encantamento, por outro lado seus olhos pareciam querer me desmascarar, como se eu fosse culpado de algo…

AVertigem-01No sábado seguinte, voltei a Quixadá. Eu havia combinado com o casal interessado em comprar a casa que nos encontraríamos no domingo, mas minha vontade de rever seo Pepeu era tamanha que não pude esperar mais um dia.

Cheguei no fim da tarde e dona Necy me recebeu com a simpatia de sempre. Contei-lhe que havia encontrado a caneta.

– Que bom – ela respondeu. – Pepeu vai gostar de saber.

– Ele sempre faz… essas coisas?

– Que coisas?

– Encontrar objetos perdidos.

Ela riu.

– Você acredita nessas coisas?

– Eu? Bem… eu…

Parei de falar, encabulado feito um menino flagrado fazendo o que não deve. Simplesmente não consegui responder. Em que eu acreditava? Já não sabia.

– O povo mais jovem não liga pra isso não, sabe? Quem ainda acredita é o povo velho.

Sorri, sem jeito. Ao lado, no vidro da janela, vi minha cara envergonhada. Fiquei pensando: quem eu seria? Do povo jovem ou do povo velho?

– Ele está em casa?

– Pepeu? Não. Foi passear com os bichinhos dele.

– E ele sabe andar sozinho pelas ruas?

– Mas menino, Pepeu é esperto – ela confirmou, orgulhosa. – Só não sai quando os bichinhos dele não querem ir. Aí não tem quem faça Pepeu botar o pé fora de casa. Você não quer sentar um pouco? Tem suco de cajá bem geladinho, vou pegar pra você.

– Obrigado, dona Necy – recusei. – Mas eu preciso falar com seo Pepeu.

– Então vá por ali, ó, que você ainda pega ele.

Corri pela rua até que vi aquela figura magra e alta, metida em seu terno branco, o chapéu branco, ele e seu passo lento, parecendo não ligar nadinha para o mundo em volta. Quem visse não o distinguiria de qualquer desses velhos que seguem para a praça nos fins de tarde.

Diminuí o passo e fui me aproximando dele. O coração batia forte e o suor já me ensopava as costas. Estiquei o braço em sua direção e, antes de tocá-lo, escutei sua voz:

– Encontrou a caneta?

Seo Pepeu continuava caminhando, olhando para frente. Por um momento, achei que ele falara consigo mesmo.

– Sim… Encontrei sim. Vim agradecer.

Então me cheguei ao seu lado e o acompanhei em seu passo lento pela calçada. Perguntei como conseguira que eu encontrasse a caneta, mas ele nada respondeu. Comecei a sentir o peso do ridículo. Puxei mais conversa, mas ele continuou do mesmo jeito, silencioso e o olhar lá na frente ou, sei lá, em lugar nenhum.

Quando chegamos à praça meu entusiasmo inicial já havia se desmilinguido no meio daquele constrangimento, e de novo eu me sentia fazendo papel de tolo, confiando que podia domar a loucura. Foi quando, já sem saber mais o que falar, comentei sobre Milena, minha ex-namorada da adolescência, se ele a conhecia.

Mais uma vez. A sombra de um sorriso a lhe sobrevoar a face, rápida, um quase nada. Mas eu vi, sim. Perguntei novamente, se ele conhecia Milena.

– Quer encontrar a moça, né?

Meu coração deu um pulo. Então, mais para não perder o embalo da conversa do que qualquer outra coisa, respondi rapidamente que sim, e perguntei se ele podia me ajudar.

– Traga um chocolate, traga.

Um chocolate. O que ele queria dizer com isso? Que me faria encontrar a moça da mesma forma como encontrei minha caneta? Não quis arriscar perder a oportunidade e corri até uma banca de revistas, onde comprei uma barrinha de chocolate e levei para ele.

– O senhor gosta muito de chocolate, né, seo Pepeu?

Ele ainda guardava a barrinha no bolso interno do paletó quando olhou para mim e… sorriu! Sorriu de verdade. Bem, foi um sorriso de um segundinho só, camuflado pela boca rígida, mas ele sorriu sim. E falou:

– É pra mim não, é pros bichinhos. Agora pode ir, vá.

– Ir pra onde, seo Pepeu?

– Vá logo.

Ele parecia ter pressa. Mas eu não sabia o que fazer.

– Vá, vá – ele insistiu, me empurrando levemente. Eu olhava para ele e não sabia mesmo o que fazer. Devia voltar a Fortaleza? Encontraria Milena lá?

– Vá logo.

Não pude deixar de obedecer. Atravessei a rua e olhei para ele, que continuava indicando que eu devia prosseguir, vá, vá…

De repente, uma mulher surgiu bem à minha frente, quase esbarrando em mim. Paramos os dois, assustados.

– Não acredito… – ela falou, surpresa. – Silvio?!

– Milena? – balbuciei, ainda mais surpreso que ela.

– Está perdido aqui em Quixadá?

– Eu… ahnn…

Eu todo era uma confusão só. Aquele encontro era obra de seo Pepeu? Não, não era possível, não podia ser. Mas como não seria? Claro que era sim, só podia ser. Tinha que ser. Virei-me rapidamente para a praça, mas seo Pepeu não estava mais lá.

– Eu… vim resolver umas coisas.

Milena havia mudado, não era mais a menina que eu lembrava, obviamente. Mas continuava bonita.

– Que coincidência, Silvio. Eu nunca faço esse caminho. Mas hoje, sei lá por quê, resolvi vir por aqui.

Ficamos olhando um para o outro, no meio das pessoas que passavam, sem saber o que dizer. Ela enfim quebrou o silêncio, perguntando se eu estava sozinho.

– Eu? Sim, estou.

– Quer sair hoje à noite? Tem um barzinho novo que é bem legal.

Após me passar seu número de telefone, deu-me um beijo no rosto e seguiu caminhando. Então atravessei a rua e avistei seo Pepeu caminhando na direção de sua casa. Corri até ele.

– Foi o senhor que fez a gente se encontrar, não foi?

Ele não respondeu. Nem sequer olhou para mim.

– Por favor, seo Pepeu – implorei. – Eu preciso saber.

Nada. Ele continuou em silêncio, caminhando seu passo lento. E eu ali fiquei, parado na calçada, o coração feito uma britadeira, a ponto de ter um troço. No degradê do céu a tarde anunciava seu fim, abrindo caminho para a noite. Uma brisa soprou, eriçando os pelos do meu braço.

Mais tarde, no barzinho, pensei em comentar o ocorrido com Milena. Mas achei melhor não. Como dizer-lhe que em troca de um chocolate, um velho maluco havia mexido com as forças do além para que nos encontrássemos de repente naquela rua? Como explicar o que eu sentia, aquela confusão toda em minha cabeça? Como dizer-lhe que o outro mundo havia voltado, o mundo mágico da minha infância?

Para não ficar pensando o tempo todo nisso, tratei de conversar sobre várias coisas e rimos bastante dos velhos tempos, recordando nosso namoro de adolescentes. Ela me falou de seu casamento fracassado e eu contei sobre minha vida em Fortaleza. Ela me perguntou se eu estava solteiro e eu confirmei. No fim da noite, deixei-a em casa e trocamos um demorado beijo. Um beijo muito gostoso, por sinal, que me fez lembrar de uma antiga e doce sensação, a de ter Milena em meus braços, nós dois no banco do jardim de sua casa, prometendo um para o outro todas as estrelas do céu imenso de Quixadá.

Naquela noite, demorei a dormir. Estava absolutamente dividido. Uma parte de mim queria ardentemente acreditar que seo Pepeu tinha mesmo poderes mágicos, que talvez o mundo não fosse somente aquilo que os olhos veem, que talvez outras coisas existissem além da compreensão comum. Talvez os loucos tivessem respostas. Talvez fosse hora de eu buscá-las de outra forma que não fosse nos números frios dos relatórios financeiros.

Outra parte de mim, porém, balançava a cabeça, desapontada com minha própria tolice. O mundo real não estava ali, naquela cidadezinha do interior, eu sabia disso. Tampouco estava no passado, entre mentiras da imaginação infantil. A realidade ficava na outra ponta da estrada, para onde no dia seguinte eu voltaria.

AVertigem-01Na manhã seguinte, não escutei o despertador, e quando acordei já eram duas da tarde. Estava bem atrasado para o encontro com o casal que queria comprar a casa. Vesti-me às pressas e dirigi até o restaurante onde havíamos combinado o encontro. Felizmente, eles ainda me esperavam. Desculpei-me, almoçamos e pudemos, enfim, acertar os detalhes finais do negócio.

De volta ao hotel, o moço da recepção me informou que alguém me aguardava e apontou para o sofá ao lado. Virei-me, com a certeza que veria Milena. Mas o que vi foi um velho de terno e chapéu brancos.

Fui até lá, e antes que eu dissesse qualquer coisa, ele levantou-se calmamente e saiu do hotel. Segui-o e passamos a caminhar pela rua lado a lado, em silêncio. Ele queria passear comigo, pensei, como dois amigos fazem num fim de tarde. Eu, porém, queria tanto falar do dia anterior, saber dos bichinhos…

Então chegamos à pedra do Cruzeiro, um conjunto rochoso muito visitado por turistas em busca de uma vista panorâmica da cidade. Quando criança, eu adorava subir até o topo, mais de cem metros de altura, e lá me entretinha durante séculos com a paisagem. Seo Pepeu parou, olhou lá para cima, ajeitou o chapéu na cabeça e começou a subir por uma das trilhas. Pensei em protestar, não estava nem um pouco a fim de me cansar, mas não ousei falar nada, apenas segui-o.

Seo Pepeu subiu com espantosa agilidade, sem dar sequer um passo em falso. Eu, ao contrário, escorreguei várias vezes e estive a ponto de desistir. Felizmente, ele parou antes de chegarmos ao topo e pouco depois eu o alcancei, e sentei numa pedra para descansar. E só então foi que percebi a paisagem. Dali, boa parte da cidade se mostrava para nós, e lá longe, por trás dos montes de pedra que a circundavam, o sol poente enchia o céu de tons de vermelho, amarelo e laranja. Eu havia esquecido de como aquela visão era magnífica. Enquanto as nuvens lentamente trocavam de desenhos e o céu mudava de cor, senti-me como se estivesse fora do tempo…

– Você vai ficar com eles depois que eu for, não vai?

A voz de seo Pepeu…

– Com eles quem? – perguntei, meu olhar vagando pelo horizonte.

– Os bichinhos. Olhe, não pode se atrasar não, venha no dia que chamarem.

Os bichinhos, claro. Por um instante, ou teriam sido séculos?, eu havia esquecido deles.

– Que bichinhos são esses, seo Pepeu? ‒ indaguei, olhando para ele. Seo Pepeu, em pé, ao meu lado, também olhava para o horizonte.

– Deram pra eu criar, faz tempo. Um é o bichinho escondedor, gosta de esconder e encontrar as coisas, é danado que só.

– E o outro?

– É o bichinho alcoviteiro. Ele gosta de brincar com as pessoas, faz elas se perderem e se encontrarem. São pequenininhos, mas sobem em tudo que é canto. E gostam muito de chocolate.

Bichinho escondedor e bichinho alcoviteiro. Um que encontrava objetos, outro que fazia pessoas se encontrarem… Aquilo era absolutamente incrível. Continuei como estava, sentado na pedra, o olhar lá longe, além do tempo…

– Foi o bichinho alcoviteiro que fez sua mãe casar com seu pai, sabia?

– Como assim?

– Seu pai era moço festeiro, queria compromisso não. Então o bichinho fez ele encontrar com ela na rua sete dias seguidos em sete lugares diferentes.

Sorri, espantado. Aquilo era uma novidade.

– E quem lhe deu os bichinhos pra criar, seo Pepeu?

– Posso dizer não. Nem você vai poder dizer quem lhe deu. E vão ficar com você até o seu dia, viu? Quando você se for, eles voltam pra dentro da casinha deles e de lá só saem pras mãos do novo dono. E não pode ser mulher.

– Eles não gostam de mulher?

– Mulher ia usar pra fazer mal com a outra. E eles querem só brincar, fazer arte com o povo.

– Outra pessoa pode ver os bichinhos?

– Não. Eles estão sempre escondidos por trás das coisas.

A voz de seo Pepeu chegava lentamente aos meus ouvidos e se misturava à paisagem. De repente, tudo era uma coisa só, o sol se pondo, as pedras, o céu avermelhado e as palavras de seo Pepeu. O tempo passado e o tempo presente finalmente davam-se as mãos. Tudo fazia sentido.

– Tem uma coisa – ele continuou. – Os bichinhos não gostam nem de gato nem de padre.

– Por quê?

– Gato pode ver eles, eles não gostam. E padre deixa eles tristes.

– E eles falam com o senhor?

– Eu sei o que eles pensam. Com o tempo você vai saber também.

– E por que o senhor escolheu logo a mim?

– Eles que escolhem. Quando você chegou, eles me avisaram.

– E se, por acaso, eu não servir pro negócio?

– No dia que eles não tiverem mais dono, tudo vai parar.

– Como assim?

Ele não respondeu.

– Como assim tudo vai parar, seo Pepeu?

Virei-me e vi que ele já descia a pedra, enquanto minha pergunta era levada pelo vento.

Voltamos em total silêncio. Ao fim da descida, seo Pepeu seguiu por uma rua, sem olhar para trás, e eu segui por outra, voltando ao hotel. Sentia-me em paz, como alguém que finalmente encontra algo que havia muito procurava sem saber que procurava.

AVertigem-01Na segunda-feira pela manhã, do escritório, liguei para minha mãe e contei da caneta, do encontro com Milena e do que seo Pepeu falara sobre ela e papai. Ela riu e disse que era verdade, sim, que um dia, quando era solteira, procurou um senhor que vivia no meio do mato. Era um tipo meio ermitão e diziam que possuía poderes mágicos. Ela foi lá e encontrou um velho estranho, mas gentil, e ela lhe pediu que fizesse meu pai se apaixonar por ela. O velho disse que isso não podia fazer, mas que faria algo parecido.

– Pois ele fez – prosseguiu minha mãe, rindo gostosamente. – Fez seu pai se encontrar comigo por vários dias seguidos. Ele ficou tão cismado que não teve como não prestar atenção em mim. Depois que a gente casou, contei pro seu pai, mas você sabe que ele não acredita nessas coisas.

– E a senhora pagou pelo serviço?

– Dei um chocolate, como seo Pepeu havia me pedido. Saiu barato.

E os bichinhos, eu pensava, como seriam? Gordinhos de tanto chocolate? Talvez não, seo Pepeu dissera que eram ágeis. Podia-se andar com eles no bolso? Como era a casinha deles? Eu pensava nos bichinhos e a todo momento me vinham novas utilidades como encontrar documentos perdidos, forçar encontros providenciais, conferir se tal pessoa estava mesmo em tal lugar…

E o medo deles de gatos, que estranho… Então os gatos viam mesmo coisas? E quanto aos padres? Presumi que os bichinhos não gostavam deles pelo fato da Igreja Católica ter um passado reconhecidamente perseguidor para com outras crenças. Quem sabe os bichinhos não guardavam lembranças traumáticas de outros tempos, de cruéis perseguições?

Seo Pepeu dissera que no dia que os bichinhos não tivessem mais dono, tudo ia parar. O que podia significar? Uma profecia sobre o fim do mundo? Ele dissera também que eu ficaria com eles somente depois que ele se fosse. Bem, pela saúde que seo Pepeu tinha, esse dia ainda demoraria, o que era ótimo, pois eu queria aprender tudo sobre o outro mundo.

– Tudo, tudo – falei para mim mesmo. E ri que nem uma criança feliz.

Eu não estava mais dividido. Seo Pepeu era real, os bichinhos eram reais. O mundo mágico estava de volta.

Antes de sair para almoçar, liguei para o casal que compraria a casa. Comuniquei, sem dar muitas explicações, que o negócio estava suspenso e que, se fosse o caso, depois eu entraria em contato com eles. Desliguei o telefone e estiquei as pernas, relaxado e aliviado. De repente, vender aquela casa era algo que não fazia muito sentido. Talvez não fosse má ideia mantê-la alugada. Talvez, quem sabe, um dia eu cansasse da capital e voltaria a morar em Quixadá. Sim, por que não? Esquecer aquele negócio de mercado de ações e levar uma vida mais calma, sem tantas preocupações com lucros. Quem sabe com Milena. Por que não?

Então a secretária me tirou de meus devaneios, avisando que havia uma ligação para mim. Atendi. Era dona Necy. Ligava para avisar que seo Pepeu morrera na noite anterior. Ele estava bem, ela disse, havia feito seu passeio de fim de tarde e jantado normalmente. Morrera dormindo. O enterro seria à tarde.

Demorei alguns minutos até conseguir fazer algo. Seo Pepeu morto… Não parecia real. Não podia ser real, ele ainda tinha tanto a me ensinar…

Cancelei os compromissos da tarde, peguei o carro e mandei-me para Quixadá. Dirigi a toda velocidade, mas quando cheguei ao cemitério, o caixão já havia descido e dois homens o cobriam de terra. Havia pouca gente presente, só dona Necy e alguns familiares. Fiquei arrasado, pois queria ter visto seo Pepeu uma última vez.

– Ele gostava de você – dona Necy me falou, enxugando uma lágrima.

– Eu também.

– Acho que Pepeu pressentiu que ia morrer, pois ontem, antes de dormir, pediu pra lhe entregar uma coisa.

Dona Necy abriu sua bolsa, tirou um pequenino baú de madeira e me entregou.

– Ele guardava isso com muito cuidado, desde quando morava em Caiçarinha.

Segurei o bauzinho com as duas mãos, sentindo seu peso.

– Parece que tem alguma coisa dentro, mas eu não sei o que é. Pepeu me pediu pra eu entregar pra você sem abrir.

– Obrigado.

– Vamos agora lá pra casa tomar um café. Venha com a gente.

– Infelizmente não posso, dona Necy. Tenho que voltar logo pra Fortaleza.

Despedimo-nos e saí. Alguns minutos depois, eu estava na estrada, voltando para a capital. Dirigia tomado por uma mistura de tristeza, excitação e medo, e a todo instante olhava de canto de olho para o bauzinho de madeira no banco do passageiro.

Chegando em casa, pus o bauzinho sobre a cama e sentei ao lado. Minhas mãos tremiam e o coração batia descompassado. Uma gota de suor deslizou por meu rosto. Lá fora a tarde ia embora, e pela janela pude ver o céu começando a escurecer, anunciando a noite da cidade grande, tão diferente da noite do sertão. Dentro daquele pequeno baú estava a prova da existência do outro mundo, o mundo mágico que sempre existira, mas que eu um dia preferi esquecer. Bastava abri-lo e libertar os bichinhos.

Peguei o bauzinho e movi a tampa para cima, bem devagar. De repente, por um instante, surgiu na lembrança aquele terrível poço da minha infância… E imediatamente senti a vertigem me abraçar, novamente ela, a mesma vertigem. Interrompi o movimento, baixei a tampa e respirei profundamente. Está tudo bem, falei para mim mesmo, enquanto esperava a vertigem passar. Alguns minutos depois, quando me preparava para abrir de novo, uma pergunta surgiu em minha mente. E se… nada houvesse lá dentro?

Quando a noite veio, ela e sua escuridão, eu continuava lá, sentado na cama, o bauzinho ao lado. E a pergunta não calava em meu pensamento. E se nada houvesse lá dentro?

A madrugada chegou, ela e seu silêncio, e lá estava eu no mesmo lugar. Aquela pergunta não me deixara dormir. Nem dormi e nem tive coragem de abrir o bauzinho.

Quando amanheceu, guardei-o numa gaveta do armário e fui trabalhar. Esforcei-me como nunca para me concentrar no serviço, mas não consegui. Quando voltei para casa, a primeira coisa que fiz foi tirar o bauzinho da gaveta. Botei-o novamente sobre a cama e jurei para mim mesmo que daquela vez eu o abriria, eu precisava abri-lo e acabar de vez com aquela tortura. Sim, eu precisava fazer isso. Mas… e se nada houvesse lá dentro?

É a pergunta que me faço até hoje, cinquenta anos depois, quando cai a tarde e tiro o bauzinho da mesma gaveta, e sento na mesma cama do mesmo apartamento, tudo o mesmo. E se nada houver lá dentro?

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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Cristiano Pinho – Sertão Noturno
Trilha sonora do conto A Vertigem

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Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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NoOlhoDaLoucura-01aNo olho da loucura – Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

A pergunta – Um dia, porém, alguém desconfia. E entende que os que olham para fora, sonham, e os que olham para dentro, despertam. E aí a pergunta é inevitável

Minha noite com a Jurema – Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

Um cara que acabou de acordar – Por isso esse olhar de quem ainda não entendeu,  esse clima de Morfeu, essa preguiça de explicar

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01- Acabei de ler o conto sobre a loucura, do seu Pepeu. Pois saiba que eu segurei o ar por alguns instantes no final, achei muito legal. Vera Sabóia, Fortaleza-CE – jul2005

02 – Que o Seo Pepeu guie seu coração e a vc todo mesmo, ‘treim-rúim’, pelo túnel do irresistível-selvagem-charme da insanidade e lhe mostre a luz no fim! …que tire as tentações do caminho e lhe dê a paz! aaaaaaaaaamééémmmmmmmmm! Patrícia Rochael, Goiânia-GO – mar2007

03- Gostei muito, muito mesmo!!!Adorei! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – fev2015

04- Ricardo Kelmer, esse sempre foi um dos seus contos de que mais gosto. Muito bom mesmo!, Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – fev2015

05- Ricardo Kelmer, perfeito! Ana Velasquez, Altamira-PA – fev2015

06- Este livro é um dos melhores que conheço! Além do “Seo Pepeu”, tem outros contos alucinantes! Grande Ricardo Kelmer!!!- Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – fev2015

07- Eu amo Ricardo Kelmer. No bom sentido, macho réi. Você tem talento e um papo com você nos aproxima do tudo. Do ser inteligente que sabe combinar vida, pessoas, coisas, animais e o mundo de dentro e de fora de tudo. Nonato Albuquerque, Fortaleza-CE – fev2015

08- Esse é o conto preferido do Roman Peter Ciupka Junior, né não? Marcelo Gavini, São Paulo-SP – fev2015

09- Opa ! Fala seu Kelmer ! Lembrei que tinha lido esse conto ( muito bom !)la no seu livro ” Guia de sobre … ” … Acho que eu nunca comentei contigo mas esse conto tem um Q de ” Alem da Imaginaçao” … Luciano Hamada, São Paulo-SP – fev2015

AVertigem-01a


No olho da loucura

28/01/2015

28jan2015

Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador

NoOlhoDaLoucura-01

NO OLHO DA LOUCURA

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Ah, a loucura… Que diabos tem essa senhora que tanto nos incomoda e seduz? Por que estamos sempre a espiar, feito menino curioso, o brilho estranho de seus olhos, e ao mesmo tempo dele só queremos fugir, para bem longe?

Ela está lá, vejam, está lá e nos ameaça com sua irresponsabilidade consentida. Está lá, no canto da sala, no canto do olho, inflando dentro de si mesma para explodir a qualquer momento sobre nossa mal disfarçada indiferença. Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador que essa zombaria.

Por que temos medo? Por que a insegurança? Será que é porque quem nos olha, lá de dentro daquele olho, não é como nós? Sentimos segurança quando nos vemos em outros e nos sabemos muitos, mas na loucura não nos enxergamos. Nosso olhar bate e volta, sem encontrar reciprocidade, sem ter quem lhe dê a mão e o conduza pelo universo estranho. Nosso olhar bate e volta, sem notícias confiáveis do mundo de lá.

Ou será o contrário? Nós nos vemos, sim, e é isso que mete medo! Nós nos vemos, e vemos exatamente o que nunca se mostra de nós mesmos. Pressentimos aquilo que se esconde por trás de nossas verdades tão bem construídas e avalizadas. Ali, no olho da loucura, brilha, distante e entre névoas, o reflexo de um pressentimento que nos incomoda e nos faz despertar à noite subitamente amedrontados, na vertigem de uma queda…

No olho da loucura, por trás dele, nos espreita essa vertigem, nascida do medo de olhar dentro de nós mesmos – e não gostar do que descobrir. Por isso, fugimos de seu olhar. E é exatamente por isso que dele não adianta fugir.

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Ricardo Kelmer 2012 – blogdokelmer.com

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AVertigem-01A vertigem – Dizem que seo Pepeu, o louco da cidade, possui dois bichinhos mágicos que localizam coisas perdidas e fazem as pessoas se encontrarem. Mas ele está velho e tem de passar a alguém a missão de cuidar dos bichinhos

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NoOlhoDaLoucura-01a

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Mário Gomes, o poeta viralata

06/01/2015

06jan2015

Era com suas errâncias quixotescas e os versos obscenos que o povo se encantava, ele lá, de paletó sem gravata, camarada e bonachão

MarioGomesOPoetaViraLata-02

MÁRIO GOMES, O POETA VIRALATA

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Era um burburinho que rodava dentro da cabeça dele, sem parar. Uma noite, rodou, rodou e pariu um poema. E ele riu da própria marmota. Descobriu-se poeta.

Rapaz, trabalhar com redemoinho no juízo não dá. Veio-lhe aí a revelação, aquilo que todo cão viralata sabe: se é pelas ruas que a vida livre escorre em poesia, bebamos de sua sagrada putaria. Então batizou-se boêmio e vagabundo.

Rebelando-se contra tudo que não rima com liberdade, um dia ele fugiu do manicômio. Lá no alto, a lua se apaixonou, a andarilha do céu, e jurou protegê-lo em suas perambulanças e traquinagens. Assim, sempre sem dinheiro mas abençoado, fez-se aventureiro: em São Paulo foi preso, mas escapuliu, por se fingir cineasta para as mulheres, em Minas se atrasou e não embarcou no ônibus que viraria na estrada, e lá nos cafundós da Bahia escapou de morrer no veneno de um vatapá na encruzilhada.

Ah, ele sumia por meses, mas Fortaleza sempre o recebia de volta. Todo lascado de surras e prisões, mas uma ruma de história mirabolante para contar. À tarde, na Praça do Ferreira, o vento malandro a brincar de subir a saia das moças, era com suas errâncias quixotescas e os versos obscenos que o povo se encantava, ele lá, de paletó sem gravata, camarada e bonachão. Fiel se manteve ao ofício de sua nobre vagabundagem, vivendo sem amanhãs, e sempre o acudia um troco para a janta e o cigarro. De tanto encarnar o surreal da vida, ainda vivo virou lenda. Assim foi que um dia, ele contando orgulhoso da aposentadoria por invalidez mental, que os amigos entenderam: cidade bendita a que provê seus poetas mais puros.

Nos seus livros publicados, a arte intuitiva brincava longe dos parâmetros, feito criança travessa que, sem atinar, aponta o absurdo da existência. Era por isso que ele podia colher uvas no pé de cana até chegar o homem das laranjas. Por isso, ele, só ele, foi comido vivo em banquete por Odete, Judite e Maria Helena. Por isso que em seu braço a formiga bebia água e de sua merda uma tarde voaram borboletas. Porque só o poeta que reflete a lucidez primitiva do desconexo sabe que na vitrine a manequim tem fome.

Tua amada, cadê?, as estrelas lhe indagam na solidão das madrugadas. Ela não veio, responde magoado, e vira a cachaça. Agora, debilitado e maltrapilho, defende-se como pode de velhas assombrações, os eletrochoques, aquela virgem ingrata que lhe negou um nheco-nheco, a surra da multidão em Salvador por lhe confundirem com um bandido… Agora, veja só, lhe proíbem de recitar seus versos onde antes era aplaudido, como se atrevem? E esses moleques idiotas, que lhe acordam com pedradas, acham que é mendigo, não sabem que saiu no jornal, que o mulherio gama só de olhar? A mãe, tadinha, morrera, ela que cuidava de lhe dar os remédios que sossegavam os burburinhos, e que agora já não parem poemas. Dizem que virou espectro vagante, que é melhor ir para a casa de repouso, que morreu mês passado, ah, não entendem porra nenhuma. Aquele bar ali, outro dia lhe negaram um resto de pão que sobrou na mesa, vão tomar no cu. Felizmente, as ruas sabem quem ele é. E pode lavar a calça no banheiro do teatro. E embaixo da passarela ainda lhe deixam dormir. E descansar a carcaça. E sonhar seu sonho louco de liberdade radical…

Ele se foi numa tarde sem vento, com os fogos do ano-novo a ignorar sua partida. Como não tinha documento, não podiam liberar o corpo para o velório na biblioteca. Mas ele é o poeta Mário Gomes, os amigos tiveram de explicar. Era a sua credencial, de mais não carecia para adentrar a posteridade. Lá no alto, a lua grávida dele não quis falar. Por detrás do Universo, Jesus tomou uma com Satanás. E mais além, na Praça do Ferreira, um viralata rodou, rodou e mijou um minuto de silêncio.

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Ricardo Kelmer 2015 – blogdokelmer.com

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À memória de Mário Ferreira Gomes (Fortaleza, 23.07.1947 – Fortaleza, 31.12.2014)

Foto preto e branco da montagem: Érika Fonseca. Obrigado a todos que conheceram o poeta e registraram sua vida por meio de relatos, fotos e vídeos. Obrigado a Érika Menezes, por me comunicar da morte de Mário.

REPRODUZIRAM ESTA CRÔNICA:

Blog do Eliomar – Blog do jornalista Eliomar de Lima, jan2015

Roberto Maciel – Blog do jornalista Roberto Maciel, jan2015

Jornal O Estado – Caderno Arte & Diversão, jan2015

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MÁRIO GOMES EM IMAGENS

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MarioGomesPoeta-15Mário recita seus poemas (por volta de 2000)

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MarioGomesPoeta,VilmaMatos2002-01Mário Gomes entrevistado na praça por Vilma Matos (2002)

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MarioGomesPoeta-18O poeta em seu nobre ofício na Praça do Ferreira

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MarioGomesPoeta-06O poeta na praça, já bem debilitado

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MarioGomesPoeta-07Com o livro de Márcio Catunda, Mário Gomes, poeta, santo e maldito

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MarioGomesPoeta-01Foto de Mika Holanda, vencedora de concurso da revista National Geographic, feita em set2014, cem dias antes de sua morte

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MarioGomesMuralNoVelorio-01Mural com fotos de Mário em seu velório

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MarioGomesPoeta-14Os muros da cidade celebram Mário Gomes (Praia de Iracema)

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MarioGomesPoetaLivros-01Ensaio biográfico de Márcio Catunda e cordel sobre Mário Gomes, de Rouxinol do Rinaré

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CRÔNICA

AoMestreVagabundoComCarinho-01a.

AO MESTRE VAGABUNDO, COM CARINHO
Ricardo Kelmer, 2015

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No fim dos anos 1980, em Fortaleza, corriam histórias divertidas sobre um tal Mário Gomes e sua poesia mirabolante. Elas provavelmente me alcançaram na faculdade ou em alguma mesa de bar. Eu não sabia se eram reais e nem se Mário existia de fato ou era um personagem da imaginação popular. Ou seja, ele para mim era uma lenda, como certamente o era para muitas pessoas.

Provavelmente, cheguei a vê-lo em algum evento cultural ou em algum bar, mas não lembro. Tirando o tempo em que trabalhei como contínuo, em 1982-84, e ia quase todo dia ao centro, nunca fui muito assíduo da Praça do Ferreira, mas talvez o tenha visto lá alguma vez. Será que ele chegou a ir ao Badauê, um bar que eu tinha na Praia de Iracema em 1988-89?

Deixei Fortaleza em 2004. Anos depois, numa visita à cidade, surpreendi-me de saber que era ele aquela figura comovente que passeava no Dragão do Mar, bêbado e maltrapilho, discursando sozinho, e nos anos seguintes voltei a vê-lo por lá, deslizando solitário pelas noites. Em 2013-14, acompanhei à distância a piora de seu estado, mas sabia que pouco podia ser feito, por sua recusa em deixar as ruas e tratar da saúde.

Naquela tarde de 31 de dezembro, eu estava em casa, em São Paulo, quando fui avisado de sua morte por uma amiga. Eu sabia que dias antes ele fora encontrado desmaiado no Dragão, e que enfim o convenceram a ir para o hospital. Senti uma súbita tristeza e chorei. Tomei uma dose de uísque e homenageei o poeta, gargarejando um verso seu: Como era gostoso esse Mário Gomes. E fui buscar na internet o poema inteiro, para recitar. Putz… Bastaram poucos minutos de pesquisa para descobrir o imensamente quanto eu não sabia quem era Mário Gomes. Fiquei envergonhado da minha ignorância e ali mesmo comecei a catar tudo sobre ele, biografias, entrevistas, relatos de quem o via nas ruas, vídeos… Quanto mais descobria, mais me fascinavam sua história e sua arte. Perdi o ânimo para a festa do réveillon, a vontade era de estar em Fortaleza e ajudar nas preparações para o velório.

Descobri um grandioso personagem, a perfeita encarnação do arquétipo do louco malandro, presente em tantas culturas do mundo. Ao ser avesso a regras e limites e recusar-se a trabalhar, Mário personificou o vagabundo que todos, no fundo, temos vontade de ser. Flanar livre por aí pelas ruas, fazendo poesia e vivendo incríveis aventuras, aceitando o que lhe dessem como ajuda e sem importunar ninguém, era essa a sua bela filosofia. Desconfio que um dia sua vida virará filme, uma comédia dramática burlesca, e estreará no Cine São Luís, na Praça do Ferreira. Nada mais justo.

Durante sete dias, me alimentei de Mário, quase não saí de casa, e, ao fim, vomitei a crônica Mário Gomes, o Poeta Viralata. Era o mínimo que eu tinha a fazer por sua memória, mas sei que meu texto não apagará minha sensação de débito com o poeta, por conhecê-lo somente após já ter ido embora. Quanto aos seus problemas mentais, talvez eles não lhe permitissem ter a exata consciência de sua condição, dos riscos de viver assim, da morte iminente na próxima esquina. Ou o contrário, talvez Mário soubesse mais que todos, quem pode ter certeza? Quem pode julgá-lo? E quem está livre de morrer na próxima esquina?

Não tenho a mesma coragem que Mário, mas busco todos os dias priorizar a minha liberdade e viver para a minha arte. Não durmo nas ruas, mas conheço a grande incerteza do tempo para quem decidiu ser escritor na vida. Mário Gomes se foi, e seu exemplo agora me fortalece em minha própria loucura. Obrigado, mestre vagabundo.

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MarioGomesPoeta2014-01a.

ANDARILHO
Ricardo Kelmer, 2015

Eu sempre fui andarilho
Mas é assim que prefiro
Viver desse vento que eu sou
Tanto tempo que deixei a trilha
Que hoje nem a minha mochila
Sabe mais para onde vou

Todo dia quando acordo
Sopro no ar a minha sorte
E ganho tudo que preciso ter
O que não preciso, que o vento leve
Porque nunca se perde
Quem não tem o que perder

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O poema Andarilho integra a trilogia que fiz em homenagem a Mário Gomes, com as crônicas Mário Gomes, o poeta viralata e Ao mestre vagabundo, com carinho. O poema foi inspirado numa fala de Mário, durante a gravação de a matéria Poeta de Rua, da TV O Povo, de Fortaleza, em 2009. Tomei a liberdade de transcrever a fala em formato de poema e dei-lhe o título de Mora. Fiz isso para destacar o quanto Mário Gomes vivia a poesia, naturalmente, em sua vida cotidiana, mesmo tendo, nos últimos anos, deixado de escrever e publicar. Quando comparo os dois poemas, o dele se revela tão autêntico e o meu me soa tão artificial… Talvez por que Mário era poesia em estado bruto.

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MORA
Mário Gomes

Eu sempre fui andarilho
Eu sempre andei do jeito que eu sou
Eu nunca mudei minha personalidade
Esse negócio de dizer que eu moro na rua é papo furado
Se por acaso eu tô por aí, com muito sono, embriagado
O que é que tem eu dormir?
Eu moro na rua por quê?
Eu moro na rua onde?
A gente mora dentro de si, rapaz
A gente mora dentro da cuba da gente
Eu moro em qualquer canto onde eu chegar
O que é morar?
Agora eu que te pergunto: o que quer dizer morar?
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VEJA O VÍDEO

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MarioGomesPoeta-05aFoto de Raymundo Netto

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POEMAS DE MÁRIO GOMES

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SOU UM CACHORRO VIRA-LATA

Sou um cachorro vira-lata
Não tenho residência fixa
Não tenho responsabilidades
Não tenho dono.
Mas, também, não me falta sexo
Porque conheço lindas cadelas
De tipos diversos.
Onde chego procuro alimentos
Fumo na hora em que me é propício
Um cigarrinho com filtro ou sem.
Sou um cachorro fiel e valente
(Só na aparência)
Pois, sou um cachorro vira-lata.

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ANTROPOFAGISMO

Eu, sem ser antropófago,
já saboreei muita gente por aí.
Minhas preferências são os esbeltos
violônicos corpos femininos: a mulher.
Ah! Se a humanidade fosse toda antropófoga
como eu teria o prazer de ser devorado
em um banquete ou bacanal de lindas garotas
sexys, histéricas, eróticas
e eu, em cima de uma mesa qualquer totalmente nu.
Assado ou cozido.
Recheado de cebolas, tomates e farofas.
Enquanto Odete espetava um dos meus esverdeados olhos
que outrora foram profanos,
Judite arrancava minha língua e mastigava furiosamente.
Depois Maria Helena
pegava uma faquinha de mesa e cortava
delicadamente meu pênis ereto e dizia entre-dentes:
– Como é gostoso esse Mário Gomes.

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UMA VIOLENTA ORGIA UNIVERSAL

Olhei o sol.
Me irritei
E larguei a mão na cara dele.
No qual ele ficou
Desacordado por 12 horas ininterruptas.
Dei um ponta-pé nos ovos da terra.
Afastei São Jorge
E mantive relações sexuais com a lua.
Pisoteei o cadáver de satanás
Numa esquina encontrei-me com Deus
E saímos abraçados: rindo e cantando…. Chovia

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METAMORFOSE

Ontem,
Ao meio-dia,
Comi um prato de lagartas
Passei a tarde defecando borboletas.

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AÇÃO GIGANTESCA

Beijei a boca da noite
E engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.
Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.
A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
Pensando que era a hora do Juízo Final.
Apertei, com as mãos, a terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade,
Voaram para o Além.
Os animais caíram do abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
E fui descansar na primeira nuvem
Que passava naquele dia
Em que o sol me olhava assustadoramente.
Fui dormir o sono da eternidade.
E me acordei mil anos depois,
Por detrás do Universo.

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A LOUCA E O MANEQUIM

A menina louca, maltrapilha e suja,
Parou em frente à vitrine da Casa Parente,
E estática olhava para um manequim feminino.
Olhou… olhou… pensou… pensou…
Dado momento perguntou:
“ta com fome, égua?”
Esta pergunta causou-me
Certa impressão, o poeta,
Que também já conversou com os manequins.
Eu dissera: “se fosse realmente mulher
Como és de gesso,
Te daria um prato de comida.”
Será que essa louca é
A personificação da poesia?

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QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer
Irão distribuir minhas camisas,
Minhas calças, minhas meias, meus sapatos.
As cuecas jogarão fora.
Ninguém usa cueca de defunto.
Irão vasculhar minha gaveta.
Vão encontrar muita poesia,
Documentos e documentários.
Só sei dizer
Que foi gostoso viver.
Sentir o amor e proteção de minha mãe.
De conhecer meus irmãos, meus amigos.
De ver de perto as mulheres.
Só posso deixar escrito:
“obrigado vida”.

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LIVROS PUBLICADOS

Lamentos do Ego (1981)

Aprendizes da Morte (1982, com Márcio Catunda e Cristiane Marinho)

Emoção Poética (1983)

Resquícios de uma Paisagem da Vida (1988)

Devaneios das Lamentações (1991, com Márcio Catunda)

Terno de Poesia (1997, com Alcides Pinto)

Uma Violenta Orgia Universal (1999, antologia poética)

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MarioGomesPoeta2010-01Mário Gomes na Casa Juvenal Galeno (Semana da Poesia, 2010)

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SAIBA MAIS

Mário Gomes Poeta – Blog em homenagem ao poeta, com poemas, depoimentos, vídeos e reprodução do livro Mário Gomes, poeta, santo e maldito, de Marcio Catunda

Entrevista com Mário Gomes – Vilma Matos entrevista o poeta para a publicação Cá Estamos Nós (2002)

Tributo ao Mário Gomes: Comendo lagartas e defecando Borboletas – Crônica de Raymundo Netto (2009)

A vida dentro dos sapatos – Artigo da jornalista Ethel de Paula, que tem Mário Gomes como tema de sua dissertação de mestrado (2014)

Procura-se Mário Gomes – Crônica de Raymundo Netto, escrita na noite da morte do poeta

Ricardo Guilherme fala de Mário Gomes – Belo e digno texto escrito pelo ator e amigo do poeta (2015)

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MarioGomesPoeta,AuribertoCavalcante-01Mário Gomes na praça, com o amigo Auriberto Cavalcante (2013)

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VÍDEOS

Poeta de rua – Programa Viva Fortaleza, da TV O Povo, entrevista Mário Gomes (2009)

Mário Gomes, o poeta da Praça do Ferreira – Bela homenagem ao poeta, com depoimentos. Direção de Zebaptista (2014)

Que Mário – Vídeo da Cia Pã de Teatro, com imagens de Mário Gomes na Praça do Ferreira

Repórter encontra Mário Gomes de madrugada – Matéria do programa sensacionalista Cidade 190 (2013)

Mário na Praça do Ferreira – Admirador encontra Mário Gomes e compra um cordel sobre sua vida (2013)

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LEIA NESTE BLOG


OSonhoDoVerdadeiroEu-01O sonho do verdadeiro eu – Entretanto, algo me dizia que na pauliceia eu poderia viver minha vida mais verdadeira, era só insistir

O mundo real da arte – O momento em que a magia do teatro se revela paradoxalmente em toda sua plenitude, expondo tanto sua maquiagem quanto seu avesso

O último blues de Lily – A lua nascendo no mar e os blues na voz de uma Lily que se rebola e se rebela e não ouve ninguém chamar

A celebração da putchéuris (Intocáveis Putz Band) – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

Pelas coxias de Guaramiranga – Entre uma peça e outra sempre dá tempo de cruzar uns olhares, nativos e forasteiros, e exercitar o roteiro das abordagens

Crimes de paixão – Detetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite

É o amor – E os outros zezés e lucianos por aí?

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Comentarios01COMENTÁRIOS


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01- Que triste. Ana Andréa Gadelha Danzicourt, Tubarão-SC – jan2015

02- Linda homenagem meu querido Ricardo Kelmer. Juliana Melo, Fortaleza-CE – jan2015

03- Muito legal…a eloquência da loucura… Adil Chaves, Fortaleza-CE – jan2015

04- Erika Menezes Obrigada, Ricardo Kelmer, por ter deixado eu ler seu texto. Bj.

05- Vou levar..Gracias.. Claudia Bahia, Fortaleza-CE – jan2015

06- Kelmer, você fala a língua dos homens. Parabéns! André Marinho, Fortaleza-CE – jan2015

07- Que texto massa Ricardo!! Cristiane Bastos, Fortaleza-CE – jan2015

08- Fizeste uma homenagem linda, me emocionei. Ana Andréa Gadelha Danzicourt, Tubarão-SC – jan2015

09- Genial! Thayssa Gabriela, Fortaleza-CE – jan2015

10- Só mesmo poetas pra entender e falar sobre poetas. Parabéns pelo texto Ricardo Kelmer, posso compartilhar? Márcia Rodrigues, Fortaleza-CE – jan2015

11- Excelente texto ,Ricardo. Fraterno abraço. Dunga Odakam, Fortaleza-CE – jan2015

12- Seus textos agarram a gente pelos olhos e nos puxa pela sonoridade das palavras bem ditas! Tenho gostado. Bjs. Ana Maria Costa Lima, Fortaleza-CE – jan2015

13- Nesse pré carnaval eu quero musicar um samba em homenagem ao bêbado e o vagabundo. Quem se habilita em escrever uma letra? O título já foi dado pelo Ricardo. André Marinho, Fortaleza-CE – jan2015

14- Perfeito. Willa Lima, Fortaleza-CE – jan2015

15- ei, tio! tá foda, a crônica! me arrepiei todo como o final. e a impressão que dá é que a crônica nasce Ricardo Kelmer e vai morrendo Mario Gomes. parabéns!! Levy Mota, Fortaleza-CE – jan2015

16- Oi Ricardo. Adorei a crônica. Eu o vi, várias vezes, pelo centro. Nem desconfiava que era o Poeta Mario Gomes até que soube de sua morte pelo jornal e a foto que ilustrava. O mundo ficou um pouco menos louco e, consequentemente, mais chato. Abraços. Fabiano Brilhante, Fortaleza-CE – jan2015

17- tá é lindo, esse texto/essa homenagem. Shirlene Holanda, São Paulo-SP – jan2015

18- É de arrepiar!! Linda homenagem… Izadora Castelo, Fortaleza-CE – jan2015

19- Acho que vou trocar essa dissertação pelos textos do Kelmer e do Ricardo Guilherme – e não quero troco rsrs Ai, ai, como é gostoso mesmo esse Mário Gomes devorando a gente ao avesso!!! rs. Ethel de Paula, Fortaleza-CE – jan2015

20- Lindíssimo!!!!! Emocionante!!!!! Envolvente!!!!! Zeina Costa, Vitória-ES – jan2015

21- O encontro dos poetas …… João Moreira, Fortaleza-CE – jan2015

22- Sempre que ia ao Dragão o observava e respeitava seu espaço…interessante era que ele não pedia nada. Ando por lá desde que foi inaugurado, mas de 2006 pra cá foi que soube que ele era poeta, desde então sempre que o via ia logo dizendo: ” óh ú poeta!” Nem sempre ele falava, mas sempre ele sorria… Tiago Bandeira, Fortaleza-CE – jan2015

23- Ei, eu tinha lido no Eliomar. 🙂 Me deu saudades! beijo. Verônica Guedes, Fortaleza-CE – jan2015

24- Cara, q texto lindo! Bela forma de homenagear o poeta. Que a sua poesia seja eterna! Mariela Mei, Campinas-SP – jan2015

25- massa kelmer! bela homenagem ao mais rico dos poetas de fustaleza! um dia chegamos lá… Marcos Maia, São Paulo-SP – jan2015

26- Que lindo Ricardo! Grande homenagem a um grande poeta. Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – jan2015

27- Lindo coMtexto! Sugiro que juntem todas as homenagens feitas à ele em versos, poemas e divagações e organizem em um livro. .. será delicioso bebê-las e devorá-las. Gratidão! Abçs. Maria Castro, Fortaleza-CE – jan2015

28- Muito bem elaborado. Parabéns, Ricardo! Rejane Porto Cult, Fortaleza-CE – jan2015

29- Muito bom! Alexandre Domene Ortiz, Fortaleza-CE – jan2015

30- chorei. parabens pelo texto. de uma delicadeza incrivel. Dimitri Bitu de Araújo, Fortaleza-CE – jan2015

31- Sempre com sensibilidade pra escrever sobre outras sensibilidades Ricardo Kelmer. Belissimo texto. Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – jan2015

32- Mt bom! Belíssimo e emocionante texto! A morte do poeta me comoveu bastante. Eu que também escrevo meus versos, de tão comovido escrevi também um poema em homenagem ao grande Mario Gomes. João Batista Júnior, Fortaleza-CE – jan2015

33- Adorei! Regina Zamora, São Paulo-SP – jan2015

34- Parabéns, Ricardo, bela homenagem! Antonio Martins, Maceió-AL – jan2015

35- Nobre homenagem Ricardo Kelmer! Parabéns pelo texto. Gizelle Gi, Fortaleza-CE – jan2015

36- legal, kelmer… um brinde ao poeta!…. abração! Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – jan2015

37- Boa. Olhai Christiane Glasner. Ruth Hernández Boscán, no se si comprenderas, pero dos de tus pasiones en una persona: poesia y psique. Jose Paulo Araujo, Caracas-Venezuela – jan2015

38- Quando as latas tinham poesia. Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – jan2015

39- Fantástica homenagem do meu amigo Ricardo Kelmer ao poeta Mário Gomes, que todos víamos pelo Dragão do Mar, embarcado em sua loucura, sempre elegantemente maltrapilho, chamava a atenção. Fica a letra, rastro no mundo e na história da cidade. Ronald de Paula, Fortaleza-CE – jan2015

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MarioGomesOPoetaViraLata-03a

 

Bom ver você assim, entusiasmado. Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos que você….


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