Poesia

Aqui estão reunidos poemas e letras de música. Algumas foram criadas especialmente para trilhas sonoras, como a do romance O Irresistível Charme da Insanidade e a do seriado Sonhos Urbanos.

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luizcarlosruasambulante-01a.
LUIZ CARLOS RUAS, UM HERÓI
Ricardo Kelmer, 2016

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Amou daquela vez como se fosse a última

Defendendo travesti do ódio homofóbico
Dos monstros que matam pela lei do bíceps
Espancaram um senhor em frente às câmeras
E a segurança do metrô em sua ausência cúmplice
Pagou com a própria vida por amar o próximo
E amargou nosso Natal com sua morte pública
Era só um ambulante que enfeiava o trânsito
Hoje é um negro pobre em manchete efêmera
Mas o crime será comemorado em júbilo
Pelos que apoiam medidas profiláticas
Para limpar a cidade desses não fotogênicos
Que envergonham nossos melhores índices
Que lutam por cotas, vejam que ridículo
Que vendem prazer em seu corpo herético
Que estragam o passeio com as suas pústulas
Morreu na contramão de uma cultura bélica

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AVidaEOVidro-01c

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A VIDA E O VIDRO

Ricardo Kelmer, 2016
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Viver é isso
Um voo certeiro de encontro ao destino
Numa inocente tarde de domingo…
De repente um vidro surge à frente
E a vida que era tão transparente
Se escurece e nos impede de seguir
Quem passa, olha nosso corpo e se comove
Tão jovem, morreu de quê?
Mas no café alguém fará um brinde:
Ao anoitecer!
E a imagem que fica em nossa retina
É a de uma bela ave que se aproxima
Convidando a não ser

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DadivosaDancarina-04a

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DADIVOSA DANÇARINA

Ricardo Kelmer, 2016
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À noite, em seu quarto, a menina se despe
E na janela se oferece para a rua
A nua silhueta que a cortina revela
Move-se em sinuosa dança
E a cortina balança ao ritmo dela
De vinho ela se serve
E a taça beija de leve seus lábios
Ela é a ébria rosa que se abre
No jardim dos urbanos fetiches
É a delícia que a noite promete
Aos discretos e insones vícios…
Quando ela termina, a luz se apaga
Vai-se a silhueta semovente
A janela escura não mente: foi-se a menina
Deixando no ar sua lânguida lembrança
E a esperança de que logo retorne
Não se demore, dadivosa dançarina

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SexoTinto-01a

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SEXO TINTO
Ricardo Kelmer, 2016

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Pelos becos dessas noites baldias
É o seu cheiro de urgência que nos guia
Vejam, é ela, a cigana generosa
Em seu vestido de cor de rosa no cio
Palmas para a musa dos inebriados
Que dança para as nossas almas
E nos entorpece com seus rodopios
Dama bendita dos ardentes desejos
Ela negocia beijos e sopra promessas
Rainha das tabernas, ela é de todos
Mas nunca será de um qualquer
Celebremos com ela, pois, a fantasia
E a livre poesia do instinto
Um brinde, amigos, ao sexo tinto
Dessa louca e linda mulher

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DentroDela-02a

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DENTRO DELA
Ricardo Kelmer, 2015
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Estar dentro de uma mulher…
O que pode haver de mais transcendental?

Transpor o portal é sempre sagrado
Toda vez é iniciação
Diante dele eu me submeto, solene
Ateu em devotada reverência
Extasiado entre juramentos de saliva
E sussurros suados de adoração

Lá dentro ela me chama, a obscura noite primordial
Onde céu e terra se unem no profundo das águas
E os ecos ancestrais desse matrimônio
Revivem em mim
Sou cavaleiro consagrado da deusa
Sou menino seduzido pela lua cheia
Sou marujo que vagueia com medo de não voltar

Lá dentro me faço oferenda
E sob o mistério do eterno feminino
Eu fecho os olhos para não cegar
Porque se estou dentro dela
Ela é Inanna, Ísis e Oxum
É Afrodite e Ishtar

Permita-me esta noite ser teu consorte
Sacerdotisa, donzela, guerreira, rainha
Para em ti ser um com o todo numinoso
E provar o gosto da eternidade
Na fúlgida verdade dos nossos gozos

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Andarilho-04a

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ANDARILHO
Ricardo Kelmer, 2015
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Eu sempre fui andarilho
Mas é assim que prefiro
Viver desse vento que eu sou
Tanto tempo que deixei a trilha
Que hoje nem a minha mochila
Sabe mais para onde vou

Todo dia quando acordo
Sopro no ar a minha sorte
E ganho tudo que preciso ter
O que não preciso, que o vento leve
Porque nunca se perde
Quem não tem o que perder

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AmorPlural-01a

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AMOR PLURAL
Ricardo Kelmer, 2014

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E o nosso amor
Que se achava tão singular
Todo dia eu e tu
A noite toda no tu e eu
Um dia amanheceu triangular

E o bem querer se refez
Na geometria do três
Conjugando o verbo conjugal
Na terceira pessoa
Do amor plural

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O VOO ETERNO DO PÁSSARO PSICODÉLICO

Ricardo Kelmer, 2014
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Feito um satélite desorbitado
Nos céus da nova consciência
Lá se vai o pássaro psicodélico
Com seu bêbado voar poético
E sua alva cabeleira

Mas na cantiga certeira da cítara alucinante
A vida é um sonho andante que não segue planos…

Ouçam! Estão ouvindo? Vocês viram?
O pássaro psicodélico passou por perto
Ouçam! Nas asas do transe o som se chama Alberto

E sobre as mentes da plateia consciente
Seu voo sagrado flutua eternamente
E a música estremece de prazer insano
O gozo do voo se chama Alberto Marsicano

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ProsaMeuAmor-04a

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PROSA, MEU AMOR

Ricardo Kelmer, 2013
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Prosa, meu amor
Tua boca me pede bem dengosa
E eu, que só quero um pretexto
Cedo à luxúria do texto
E me deito em prosa pra você

Minha prosa, meu amor
Nasce de entranhas murmurantes
Pulsa na veia da palavra urgente
Em crescentes espasmos de ânsia louca…
Eu fecho os olhos, estremeço
E proso em tua boca

Ah, a prosa toda que jorra
A prosa expulsa que tua boca aprova
A prosa que escorre da boca
A boca que absorve toda prosa

E essa exaustão derramada que vem depois
Esse morno e suave entorpecer
Onde descanso no beijo grato da tua boca
E provo o gosto da minha prosa por você

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UmidaFlorDoLabio-01a
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ÚMIDA FLOR DO LÁBIO

Ricardo Kelmer, 2013
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Úmida flor do lábio, impura e bela
Tão resplandescente na alcova escura
É ela quem guia minha procura
Sou eu quem voo a vida em torno dela

Quero-me no bem me quer de suas pétalas
E na doce vertigem dessa altura
Extasiar meu olhar na formosura
Dos tons rosados de sua aquarela

Sobre ela faço de mim mil beijos
Eu inteiro sou um anseio que cresce
Atraído pelo odor do desejo

Da rosa que me envolve com ardor…
E a vida se bendiz no gozo agreste
Do pouso do pássaro em sua flor

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DonaDeMim-02a
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DONA DE MIM
Ricardo Kelmer, 2013
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Dona de mim já não sou mais
Quando aos teus pés me ajoelho assim
E em teu olho a chama do desejo atiça
A mulher louca e submissa que há em mim

De bom grado já não me pertenço
Docilmente me submeto à vontade tua
Se me queres agora toda nua, eu obedeço
E de quatro te ofereço minha carne crua

Bate, meu senhor, faz-me o rabo em brasa
Marca em mim o juramento da servidão
Ser sempre a escrava grata e obediente
E amar o peso ardente da tua mão

Bate, meu senhor, é minha pele que implora
O estalo do bom chicote nesta noite
Hoje sou eu a mulher mais livre e poderosa
Plena da dor gozosa do teu açoite

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PiorSeriaNaoTeAmar-05a

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PIOR SERIA NÃO TE AMAR

Ricardo Kelmer, 2013
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Pior seria, Luíza
Não ter sofrido
Da saudade que inferniza
Pior ter morrido
Sem nunca em ti amanhecido
Pior seria não te amar, Luíza

Nosso caso de amor e de polícia
Não te amar, Luíza
Noites vis de ciúme e de sevícia
Não te amar, Luíza
A brisa fria no cais da despedida
Nosso futuro que agoniza
No mar vazio do teu olhar…

Ainda assim, Luíza
Pior seria não te amar

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O SONHO DA MENINA
Ricardo Kelmer, 2013
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No mundo que ela em sonho cria
O real se fantasia na quimera
Quem dera também fosse de dia
Tudo o que ela à noite era

Princesas em reinos encantados
Amor dedilhado em liras ao luar
Ela dança em seu vestido escarlate
E a brisa acaricia o seu sonhar

Sonha, minha menina adormecida
Que o dia logo vai te despertar
E os sonhos que hoje cultivas
Serão estrelas na vida a te guiar

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OGozoDaLingua-1b
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O GOZO DA LÍNGUA

Ricardo Kelmer, 2012
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Pela maciez sonora dos fonemas
De formas acetinadas
Que a língua deslize

As arestas silábicas
Que a pronúncia obstaculizam
A língua sensibilize

E no subentende-se das reticências
Onde a linguagem se insinua
Que a língua dance nua

E mexa-se, revire-se, contorça-se
Lambendo-se ao prazer do ritmo
E no sabor do som deleitoso
Salive de gozo em êxtase linguístico

Ao silenciar dos versos que findam
Que descanse a língua de sua lida
E, enfim, adormeça, desmaiada e lânguida
Desmilinguida

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Cidadivosa-01a
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CIDADIVOSA

Ricardo Kelmer, 2012
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Não me buscou na rodoviária
Não me apresentou à família
Mas me engravidou de sonhos
E promete casar quando eu melhorar de vida

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RKWB20110421-02h
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VANESSA VAMO NESSA

Ricardo Kelmer, 2011
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Vanessa, vamo nessa
Vamo logo que hoje é festa
Vamo junto que a vida quer bailar
Nós três no embalo desse amor
Vanessa, por favor
Não demore, meu bem
Vem logo, vem
Te esperamos na estação
Trio do blues libertino
Trilhos azuis sem destino
Desatinos da paixão
Vanessa, vamo nessa
Apressa, coração

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NausDeMim-02a
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NAUS DE MIM

2010, música de Ricardo Kelmer e Heraldo Goez
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Farol do meu porto eu sou
É que eu sou muitos demais
Naus a singrar pelo caos de mim
Buscando meus eus por onde eu vou
No vão de mim que a noite traz
E o eu que fica aqui no vazio do cais
Acena aos eus que no vento vão
Boa sorte, se percam não
Me achem a mim
E voltem em paz

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GostosaDemais-02a.
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GOSTOSA DEMAIS

2007, música de Ricardo Kelmer e Teófilo Lima
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Tudo em ti é risco
Vinho tinto, vício
Perigo, desejo voraz
Eu me arrisco
Não me responsabilizo
Eu corro, eu morro
Em teus contornos fatais

Estrada sinuosa
Curva perigosa
Gostosa demais

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NEM PERCEBEU
Ricardo Kelmer, 2006

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Um acorde pra combinar
Com o tom macio do teu olhar
Na harmonia do teu jeito
Captei o som perfeito
No teu andar, na tua cor
Inspiração pra te compor

Sente meu beijo sustenido
Melodia pro teu ouvido
Um amor em sol maior
Escuta só
Duas estrofes e um refrão
É só
É só pra ti essa canção

Musiquei essa paixão
E rimei com o beijo teu
Mas você nem percebeu
Nem percebeu…

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ABSURDO
Ricardo Kelmer, 2006
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Não sei se a vida é curta ou longa demais
Se o tempo é curvo e o espaço se retrai
Não sei qual o sentido de viver
Nem sei por que tenho medo de morrer
Não sei de onde vim, pra onde vou
Mas sei que essas coisas que eu penso
Somem no mistério imenso desse amor

Não sei de nada
Mas sei que tudo
É um absurdo sem você

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ContatoImediato-04a

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CONTATO IMEDIATO

2006, música de Ricardo Kelmer e Ana Alcântara
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Ela me deixou com essa dor
Na alma um gosto de fel
E essa saudade alucinada sem fim
Não coube mais em mim
E se projetou no céu

Olha o meu recado lá no alto
Um sinal desesperado pra ela ver
Vão dizer que não é real
Mas não faz mal
Ela vai entender

Voa, minha dor
Feito um disco voador
Faz um contato imediato
Com o meu amor

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TEU OLHAR
Ricardo Kelmer, 2006
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Nesse mar de tantos olhos
Meu olhar pescou o teu
Dois peixinhos lindos
Vindo para os meus
De que rio eles vêm?
Sonham comigo também?

Mas o trem parou
A porta se abriu
E você sumiu
Na correnteza da estação

Por isso eu ando
Procurando em todo mar
A onda que vai trazer
De volta o teu olhar

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SEM SABER
Ricardo Kelmer, 2006
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Então de repente acabou
O que era pra sempre nunca foi
E como seria não vou saber jamais
Eu sinto muito, eu sinto tanto
A falta que você me faz

Então eu sigo por aí sem saber de mim
Levando comigo a dor de não te ter
Em minha alma a saudade abissal
E em minha boca o sal do teu prazer

E eu sigo, eu sigo sem saber
Se eu vim comigo
Ou se fiquei com você

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ONDAS DO PRAZER
Ricardo Kelmer, 2006
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A nuvem carregada do desejo
Trovejou em nosso céu
E as línguas se molharam
E os corpos se afogaram
Tormenta urgente
Mares quentes de nós dois

A chuva beija a janela
Lavando o suor da hora
Trilha sonora de um momento
E a gente esquece o tempo
Na preguiça do depois
No ócio dos olhares
Calmos mares de nós dois

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BEIJO VENENO
Ricardo Kelmer, 2006
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No ardor do beijo urgente
A língua dança sinuosa
Serpente de saliva
Cego voo no céu da boca

A ânsia louca, o tudo agora
A picada do desejo
Agudo, quente, vermelho
O veneno não demora

A tua boca na minha
Doce morte que inebria
Sagrado amor ateu

E eu não tenho pressa de morrer
E eu não sei mais o que é viver
Longe do beijo teu

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EuQueroAsDuas-01a.
EU QUERO AS DUAS
Ricardo Kelmer, 2006
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Eu quero as duas
A que é doce e a que arranha
Uma me mata de manhã
E a outra é toda manha
Uma me afaga

E a outra me assanha

Eu quero as duas
A louca e a delicada
Uma soluça em meu peito
A outra dança nua na sacada
A menininha sem jeito
E a mulher desatinada

Eu não sei qual é a melhor
Então eu quero as duas
Mas quero as duas numa só

> Reproduziram por aí: luxuriapura.com.br

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ElaNoEspelho-09c

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ELA NO ESPELHO

Ricardo Kelmer, 2006
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No espelho ela se olha
De um outro tempo ela se vê
E no reflexo a que se olha
Não é quem pensa ser

Ela vê que ainda é
Aquela que um dia não se foi
Uma não se reconhece
A outra espera no depois

Elas se olham e se escondem
E se perguntam outra vez
Mas o espelho não responde
Ao olhar dos seus porquês

Quem é a aquela que se olha?
Quem olha a outra e não se vê?
E o seu olhar só lhe devolve
O mistério de crescer

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NA BOSSA DELA

2006, música de Ricardo Kelmer e Ana Alcântara
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Na solidão da praia
A tarde finda em meu olhar
Ao longe ela se anuncia
Na bossa lenta da poesia
No balanço desse mar

Olha a bossa dela
E o sol se põe só por causa dela
E o mar espuma a poesia dela
E a areia beija cada passo dela
E a brisa sussurra no ouvido dela
Que tudo, tudo louva a bossa dela

> ouça e baixe a música em mp3

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LUAR
2005, música de Ricardo Kelmer e Ana Alcântara
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Entra e fica a noite aqui
Senta, é cedo pra partir
Tenta não pensar
Que a dor vai passar

Se a vida te magoou
E ainda não cicatrizou
Eu cuido de você
Eu vou te proteger

Vem cá
Deita comigo e vem sonhar
Em meu colo tem luar
Pra te embalar
Luar pra te ninar
Luar pra eu te amar

> ouça e baixe a música em mp3 (Registro caseiro. Int. Ana Alcântara)

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AlmaSelvagem-1b

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ALMA SELVAGEM

Ricardo Kelmer, 2005
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Ela tem a alma selvagem
E o vento sopra liberdade
Na mecha do cabelo
Brinca de beijo, pede afago
Mas cuidado
Ela gosta de arranhar

Ela segue seu destino
No fluxo feminino
Deita com a lua nova
E o seu corpo se renova
À noite chora por amor
Sonhos que ainda não realizou

Ela celebra a vida em rituais
Bendiz os ciclos naturais
Ela sabe, o ser não cabe na definição
Abraça o mundo com carinho
Mas só vai pelo caminho
Onde tem um coração

Alma selvagem, liberdade de ser
Alma selvagem, coragem de viver

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CADERNO B
Ricardo Kelmer, 2005
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Saiu hoje no jornal
O amor da sua vida sou eu
Eu e você, afinal
É a manchete no jornal

Vou comprar mil exemplares
E espalhar pelos ares
Todo mundo então vai ver
O casal do ano, eu e você
Acenando pra plateia
Nossa gloriosa pré-estreia
Acontecimento sensacional
O comentário é geral
Fofoca internacional…
Pena que você não lê jornal

Só você que não quer ver
Nosso amor no caderno B

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MAIS EU
Ricardo Kelmer, 2005
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Hoje eu sou de bem comigo
Foi-se o medo do perigo
Ficou a vida em gratidão
Do outro lado do portal
O que era morte
Não passa de transformação

Os infernos que vivi
Tantas vezes eu morri
E mais vezes renasci
Dos demônios de outrora
Herdei a força que agora
Me faz prosseguir

Amanheceu
E o meu melhor sobreviveu
Agora eu sou mais eu

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CabareSocaiteTelaoRKFomeDeTi-20

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FOME DE TI
Ricardo Kelmer, 2005

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Teus olhos são duas amoras
Que namoram os meus
E os seios, fartos cachos
Acho que anseio colher
Ah, eu sou todo saliva
Nascida da fome de te ter

E o desejo escorre pela boca
A polpa do lábio carmim
E a língua, cereja que surge
E se insurge e se lambe assim

Homem não chora
Mas quem não chora não come
Vem que esse desejo tem nome
É fome de ti

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ALMA UNA

2005, música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
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Celebrar o milagre de ser
O assombro de viver
Na doce magia da noite
Minha alma é noiva desse ritual

O fogo me aquece num abraço amigo
As fagulhas são reflexos do infinito
Eu danço o mistério da Lua
Linda, nua e natural

Eu faço amor com a Terra
Sou a amante eterna
Do fogo, da água e do ar

Sou irmã de tudo que vive
Ninfa que brinca com a vida
Alma una com tudo que há

Salamandras brincam na fogueira…
Guerreiras aladas trazem oferendas…
Se aproximam os animais de poder…
Planta-mestra, eu quero aprender…
Guardiães, abençoem meu caminho…
Tambores do xamã, toquem pra mim…
Grande Mãe, estou aqui…

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HELLO KITTY
2005, música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
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Meu bem, vou te contar
Essa vida é um shopping
Meu passeio preferido
É ser vitrine pro olhar
Sou oferta cintilante
Impossível recusar
Sou joia cara
Aquela estrela rara
Que periga te cegar

Eu assumo, sou de consumo
Mas só vai me ganhar
Quem souber me conquistar

Meu celular tá tocando
Meu ibope tá subindo
Minha vida é uma festa
E eu não vou te convidar
Mas hoje tô boazinha
E uma chance vou te dar
Então entra na fila e espera
Que eu ainda vou me arrumar

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VIDA E ARTE
Ricardo Kelmer, 2005
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É a tirania do asfalto
Mãos ao alto, sonhador
O concreto está armado
Meus sonhos morrem no calor
E a poesia sente dor
A poesia sente dor

É o roteiro delinquente
Morrer de repente sem porquê
Tanta arte por fazer
Meu aplauso eu não ganhei
Meu amor eu não gozei
Eu não gozei

Toda arte quer sonhar
Seu gozo de viver
Arte, sonho, vida e prazer

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A TERRA É TEU PAÍS
Ricardo Kelmer, 2005
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E lá vou eu pela vida afora
Na alegria do agora
E lá vou eu dançar ciranda
Vida linda, vida encanta
Indo e vindo e rindo de mim
A vida toda viver assim
Indo e vindo e rindo de mim
A vida toda viver assim

E quem quiser vir comigo
Me dá a mão, não há perigo
Deixa em casa o passaporte
Cruza a fronteira da tua sorte
E abraça o mundo bem feliz
Que o mundo é tua família
E a Terra o teu país
O mundo é tua família
E a Terra o teu país

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SEGREDO PRA MIM
2005, música de Ricardo Kelmer e Ana Alcântara
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Essa noite eu não vou dormir
Quero ver o amanhecer
Esse dia novo que virá
E que vai me revelar
O que eu quero saber
Na realidade quem sou eu
Quem na verdade eu sempre fui

É na escuridão que nasce a luz
Que ilumina a alma sem fim
Colorindo essa paisagem
Que me dava medo
Não quero mais ser segredo pra mim

> ouça e baixe a música

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RelexaEGoza-01

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RELAXA E GOZA
2005, música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
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A vida pede passagem
A viagem vai começar
Aperta o sonho contra o peito
Que não tem mais jeito de voltar
Vai, vai em frente
De repente vem a grande chance
O lance é não desperdiçar
Confia e persevera
Que a vida não espera
Quem só quer desesperar

Vai, vai, no fim dá certo
Se não deu, então não é o fim
Vai na boa, vai por mim
Se errou, se perdeu, tá difícil
São os ossos do ofício
Viver nem sempre é cor-de-rosa
Mas a vida é gostosa e tá a fim

Vai, relaxa e goza
Relaxa e goza, vai por mim

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SÓ POR HOJE EU SOU FELIZ
Ricardo Kelmer, 2005
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Amanheceu
Um raio de sol me desperta
Pela fresta da verdade
Que um dia em mim se perdeu
A vida se vive agora
E minha hora quem faz sou eu

A vida já corre pela veia
Obrigado, dispenso anestesia
O mundo é perigoso, eu já sabia
Mas o desafio faz crescer
Eu sinto, eu sigo
Respiro e vivo de viver

E o amanhecer me diz
Pra sempre é muito longe
Só por hoje eu sou feliz

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SONHOS URBANOS
2005, Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
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O sonho nasce na esquina
Sob a sina do sobreviver
O nome do sonho é desafio
Ele tem frio e quer comer

O sonho cresce no concreto
É discreto e ninguém vê
O nome do sonho é paciência
É ardência, é tesão, é viver

Sonhos urbanos
Escreve-se com dor neon
Leva cano mas não perde o tom
Sonhos urbanos
Suba no palco e diga sim
Mas não baixe o pano antes do fim

O sonho vive no futuro
No escuro do que vai haver
Ele só quer seu direito
Só um jeito de acontecer

O sonho morre de madrugada
Na estrada que não pôde ser
Mas de manhã acorda com fome
Porque seu nome é renascer

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A SAÍDA DA MATRIX
2005, música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
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Tem algo errado
Tem algo muito errado aqui
Eu tento ficar ligado
Mas tem dia que eu me sinto
Que nem zumbi

Eu acordo pra trabalhar
Eu trabalho pra dormir
Tem dia que eu não queria acordar
Tem dia que não devia existir

Alguém aí fora me explique
Como é que sai desse lugar
Eu quero a saída da Matrix
Eu não quero mais jogar

Se essa corrida não tem regra
Pra que tanta pressa de chegar?
É descabido, é desconexo
Eu tô perdido, eu tô perplexo
Eu só queria a chave desse sonho
Mas eu não sei onde ela está

> ouça e baixe a música

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UmCaraQueAcabouDeAcordar-02a

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UM CARA QUE ACABOU DE ACORDAR

2005, música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
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Você quer saber quem eu sou
Pois bem, vou te falar
Eu sou apenas um cara
Que acabou de acordar

Por isso esse olhar
De quem ainda não entendeu
Esse clima de Morfeu
Essa preguiça de explicar
Por isso o gesto lento
Captar a poesia do momento
Antes dela sumir no ar
Eu sou apenas um cara
Que acabou de acordar

Você vai logo notar
O cabelo assanhado
O quarto bagunçado
Qualquer roupa pra usar
Vai perceber rapidinho
Que eu me perco no caminho
Que eu estranho esse lugar
Eu sou apenas um cara
Que acabou de acordar

Não consigo me acostumar
Pra onde vai toda essa gente?
E essa pressa mais demente?
Não, obrigado, eu vou mais devagar
A claridade fere a retina
O ouvido dói com as buzinas
Me coço todo na sujeira desse ar
Nessa loucura quase esqueço de lembrar
Que eu sou apenas um cara
Que acabou de acordar

> ouça e baixe a música (int.: Flávio Rangel, gravação provisória)
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ESTAÇÕES
2005, música de Ricardo Kelmer e Téofilo Lima
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São tantas estações
No roteiro da viagem
Sigo calmo pela margem
Deslumbrado e amistoso
Misterioso é tudo que vive
Sempre fui meio detetive
Mas viver não tem explicação

São tantas estações
Que eu esqueço onde desci
Lembra que eu te ofereci a minha solidão?
Você disse: não, muito obrigada
Você quer a segurança da calçada
E eu venero a contramão

São tantas estações
Eu ouço sinos nas esquinas
Eu sorrio para as meninas
Em seus decotes-perdição
Eu erro a mão e me perco à meia-luz
Eu sou o trem que me conduz
À minha própria salvação

> ouça e baixe a música (int.: Téofilo Lima)   

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NÃO FAZ SENTIDO
2005, música de Ricardo Kelmer e Ana Alcântara
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Você pergunta como eu estou
Se eu preciso de alguma coisa
Em quê que você pode me ajudar
E eu digo que comigo vai tudo bem
Segue o trem da minha vida
Obrigado, não precisa se preocupar

Não, não faz sentido
A tua boca assim pertinho de mim
E não poder beijar

É tão estranho ver você assim
Dizendo coisas que eu não quero
Que eu não posso, eu não consigo acreditar
Não tem lógica ouvir a tua voz
Dizendo agora a gente é amigo
Não vem com essa de pode se abrir comigo
De pode me ligar

> ouça e baixe a música (Registro caseiro. Int.: Ana Alcântara)

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SONHO AZUL
Ricardo Kelmer, 2005
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Amanheceu, meu amor
Você dorme em seu sonho azul
Tão linda assim
Só para mim

Mas talvez, meu amor
Esse sonho seja o meu
Que eu sou feliz assim
Com você

Tantas noites eu contei
Os meus sonhos para a lua
Você aqui tão bela e nua
Será que eu posso acreditar?

Amanhecer em você
Um sonho azul que continua
Minha boca juntinho à sua
O gosto bom da gente se acordar

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PraVoceMeVer-01a

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PRA VOCÊ ME VER

2005, música de Ricardo Kelmer e Ana Alcântara
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Esse meu jeitinho fotogênico
E esse teu olhar tão fotográfico
A me envolver e me desnudar
Eu faço pose pro teu desejo
Só pra te ver perder o foco
A meia-luz do meu corpo
Vai te ofuscar
Sem filtro e sem retoque
Eu vou me revelar

Pra você me ver e se deliciar
Pra você me ver e se viciar
Vai ver, vai ver se há
Uma assim que nem eu

Jeitosa assim, tão dada assim
Abusada assim, todinha assim
Não há

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BOTEI VOCÊ NA MOLDURA
Ricardo Kelmer, 2004
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Botei você na moldura da recordação
Pra lembrar das paisagens da paixão

Nosso amor foi um sol de verão
No meio dos dias frios
Espantando os calafrios
Me enchendo de calor
O que era cinza se coloriu de toda cor
E o tempo parou pra ver
A vida pintando o nosso amor

Mas nessa vida são tantas estações
E o verão apaixonado se foi
Levando as paisagens bonitas
Com que ele me aqueceu
Por que fingir que não aconteceu?
Vou guardar com carinho a pintura
Do amor que a gente viveu

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VENTO VIAJAR
Ricardo Kelmer, 2004
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Eu olho o mapa desse mundo
Eu molho o dedo no vento
Essas cidades que me chamam
Essa estrada onde vai dar?
O amanhecer vem sempre me lembrar
Que é hora de partir
Você ao meu lado a dormir…

Meu bem, eu tenho fome de horizontes
Você não pode saciar
A vida é um vento que sussurra
O tempo agora de embarcar
Já está claro lá fora
Qualquer dia, qualquer hora
A gente vai se encontrar

Tchau, baby, tchau
Eu vou nessa
Seguir sem pressa
No vento viajar

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ILHA DO BRÁS
2004, música de Ricardo Kelmer e Toinho Martan
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Pegando a balsa pra Ilha do Brás
Levando a vida por onde ela vai
Botei corda nova no meu violão
Pra quando a saudade doer o coração
Levo comigo minha loira vaidosa
Que faz bem direito o que a outra não faz
Deixo pra trás o tempo difícil
Pegando a balsa pra Ilha do Brás
Levo no bolso um, dois, três vícios

Lá vou eu todo cheio de graça
Pegando a balsa pra Ilha do Brás
Agradecendo ao que o tempo me fez
Rindo de tudo que a vida me traz
Um, dois, três vícios, na Ilha do Brás
Minha loira vaidosa, na Ilha do Brás
Cheio de graça, na Ilha do Brás
Levando a vida, na Ilha do Brás

> ouça e baixe a música (Registro caseiro. Int.: Toinho Martan)

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O SEGREDO DA VIAGEM
Ricardo Kelmer, 2004
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O vento no cabelo
A poeira da estrada
Pernoitar nessa pousada
Amanhã cedo prosseguir
A vida é uma carona incerta
Mas sempre me leva
Aonde eu preciso ir

Depois daquele horizonte
Tem uma aventura pra viver
O segredo da viagem
É curtir a paisagem
Viajar no entardecer
Receber o destino com um abraço
Baseado no que pode acontecer

Não sei
Aonde a estrada vai me levar
Eu só sei que é o meu lugar

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VOCÊ SE FOI
Ricardo Kelmer, 2004
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Você se foi
E eu não sei pra qual cidade
No aeroporto ninguém sabe
No cais do porto ninguém viu
E a gente nem se despediu…
A gente nem se despediu…

Você se foi
Eu ainda tento entender
E aconteceu, perdi você
Anoiteceu, você partiu
E a gente nem se despediu…
A gente nem se despediu…

Pra qual cidade eu não sei
Ninguém sabe, ninguém viu
Ainda tento entender
A gente nem se despediu…

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VIVER A VIDA
Ricardo Kelmer, 2004
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Quando a minha hora chegar
Quero a festa no auge
Quero um beijo em cada face
Te convidar pra dançar
Quero o som bem alto
Copo cheio, seios fartos
Que a vida é curta pra desesperar
Por favor, uma dose pra viagem
Amor, paixão ou amizade
A vida é pra comemorar

Viver a vida
Que a vida quer viver
E viverá

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RECOMEÇAR
2004, música de Ricardo Kelmer e Ana Alcântara
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Olha pra mim
Eu vim aqui tão desarmada
Meu orgulho deixei em casa
Tudo que eu trago é a minha dor
E esta canção que eu fiz pra você ver
Que eu vim de cara lavada
Não quero briga, tô tão cansada
Deixa que fale por mim
A dor sem fim desta canção
Me perdoa, foi sem querer
O mal que eu fiz a você

Eu tive tudo mas não soube ser feliz
Eu nunca quis te magoar
Olha as lágrimas da nossa história
Borrando as notas desta canção
Aperta a minha mão
Vem, vem me abraçar
Me beija e me diz, por favor
Vem me beijar e me diz
Que a nossa história vai recomeçar

> ouça e baixe a música (Registro caseiro. Int: Ana Alcântara)

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QUANDO VAI PARAR?
Ricardo Kelmer, 2004
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Quando vai parar?
Toda essa loucura, quando vai parar?
O desrespeito pela vida, quando vai parar?
Essa estúpida ganância, quando vai parar?
Quando vai parar?

E você, quando vai compreender?
O que você faz à Terra está fazendo a você
Tudo que você planta um dia irá colher
Irá colher…

Quando é que você vai enxergar
Da sua casa você tem que cuidar
Se o teto cai ninguém vai escapar
Escapar…

Por que você demora tanto pra se tocar
Dela você nasceu e pra ela vai voltar
A mãe que dá a vida também pode tirar
Pode tirar…

Por que você destrói assim
O lugar sagrado de onde vem?
Por que maltrata assim
A sua doce mãe, a minha mãe também?…

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NÃO ME PEÇA PRA TE AMAR
2004, música de Ricardo Kelmer e Alvin
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Amar é um perigo
É um perigo, eu sei
Intrépido destino
Um dia chega a nossa vez
A gente pode ser feliz
E eu fico sempre por um triz
Só não me peça, babe
Não me peça pra te amar

Amar é um perigo
Só eu sei o que eu passei
Nesse abismo deu vertigem
A angústia não se desfez
Não quero a dor de mais um bis
Depois só resta a cicatriz
Só não me peça, babe
Não me peça pra te amar

Amar é um perigo
Eu quase enlouqueci
Degustando tuas curvas
Em aventuras de folhetim
As feridas ficam submersas
Mas ardem forte até o fim
Só não me peça, babe
Não me peça pra te amar

> ouça e baixe a música (do disco da banda De Blues em Quando)

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SABADABADU
2004, música de Ricardo Kelmer e Toinho Martan
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Pense num sábado animado
Dez mulher pra cada um
Pedi uma dose de cachaça
E um tira-gosto de atum

Instalado, destilado no balcão
A loirinha riu pra mim
A amiga dela é uma gata
E o mulherio tá tudo a fim

Dez pra cada um
Sabadabadu

Ei, morena, que horas são?
É hora de criança ir dormir
Tentei a garçonete mas ela disse
Deviam te proibir de vir aqui

Seis pra cada um
Sabadabadu

Ofereci uma dose pra de vermelho
Mas a ingrata me dispensou
E a outra me deu uma rabissaca
Ô babaca, tu sobrou

Três pra cada um
Sabadabadu

Mais uma dose, eu não desisto
Quem sabe aquela bebinha acolá
Time’s over, babe, ela foi embora
Noves fora, eu vou apelar

Só tem tu, vai tu
Sabadabadu

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UMA DOSE AGORA
2004, música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
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No balcão há um lugar
Pra quem não sabe aonde ir
Festa é o que nos resta
E eu tô com pressa

Babe, uma dose agora
Preciso beber pra me dirigir

A gente se conhece de algum bar?
O teu nome eu esqueci
Eu pago alguém pra me alugar
Vou me perder se te seguir

Babe, uma dose agora
Preciso beber pra me dirigir

Eu abro os olhos, cadê você?
Amanheceu, nem percebi
Quanto custa, por favor
Quanto custa fugir daqui?

Babe, uma dose agora
Preciso beber pra me dirigir

Meu bem, fecha a conta, por favor
Desconta a minha dor também
E não conta pra ninguém

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FLOR PÚRPURA

2003, música de Ricardo Kelmer e Joaquim Ernesto
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Se eu te fiz sofrer no passado
Se eu te fiz chorar, perdoa, amor
Hoje sei como dói o amor negado
E desesperado te peço por favor

Se soubesses a dor que sinto
Te ver com alguém que não sou eu
Eu finjo, eu dissimulo, eu minto
O peito a arder pelo beijo teu

Volta pro cantinho que é nosso
Concede a chance que não te dei
Genuflexado nos grãos desse remorso
Eu choro o dia em que te desprezei

Eu falo mas não queres nem saber
Eu choro mas tu não escutas não
Quero apenas que venhas me ver
Quem pede não sou eu, é a compaixão

Uma vez só, por favor, é a última
Prometo não te pedir mais não
Vem e não esqueças da flor púrpura
Para enfeitares meu caixão

> ouça e baixe a música (int: Edmar Gonçalves)

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ESSE BOLERO
Ricardo Kelmer, 2003
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Que bom que eu te encontrei, amor
Já não acreditava em ser feliz
Tantas vezes rimei vida com dor
Por amor eu vivo por um triz

Vem nesse bolero te perder comigo
Nossas pernas num abraço passional
Dentro do peito dança o perigo
No compasso do amor irracional

Vem, nesse bolero vou estar contigo
Nossa vida enganchou nessa canção
Vem, quero te dar meu abrigo
O amor é um risco no disco do coração

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MEIO A MEIO
2003, música de Ricardo Kelmer e Chico Pio
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Não, meia-verdade eu não quero
Meio sem graça o lero-lero
Meia-entrada pro amor
É meio que filme de horror
O amor que eu quero é meio a meio
É meia-taça pro teu seio
É meia-nove ao meio-dia
É meia-noite e não sacia
É sete e meia da matina
Só de meia minha menina
É mandar e-mail de paixão
À meia-luz da solidão
Sem meio-tom pra te cantar
Sem meio-termo pra te amar
Só quero um meio de dizer
Que eu sou meio sem você

> ouça e baixe a música (int: Chico Pio)

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HORTELÃ
2003, música de Ricardo Kelmer e Joaquim Ernesto
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No frescor daquelas manhãs
Teu lábio doce me acordava
Primeira brisa matinal
O beijo pousado leve
De saliva amor se escreve
Sonho molhado tão real

Paixão verde a vicejar
Na flor do teu cabelo
Tua boca folgazã
No vestido de algodão
Tua presença era um sussurro
De hortelã

Tua alma de trança
Teu riso brejeiro
Amor com cheiro-do-pará
E a brisa doce do teu hálito
Tinha por hábito me acordar

> ouça e baixe a música (int: Lúcio Ricardo)

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NÃO DIGA NADA

2003, música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
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Não diga nada
Não crie frases pra esse amor
Não dramatize, por favor
Pro amor tanto faz

Não diga nada
Me beije enquanto é tempo, amor
A vida se vive num momento
Que não volta jamais

O amor tem fragrância alcoviteira
É flor bonita que se cheira
Mas é perfume fugaz

É flor que nasce de um afã
Mas morre um dia de manhã
Sem manchete nos jornais

> ouça e baixe a música (int: Ana Alcântara)

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REMANSO
Ricardo Kelmer, 2003
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Deixa que suma no teu colo
Toda a dor do meu cansaço
Se aninhando sonolento
Na maciez do teu abraço

E ficar assim sossegando
Meu coração carente
Feito gato se roçando
Nas pernas da gente

Deixa que minha alma inteira
Adormeça em teu regaço
Esquecendo de si mesma
Feito a tarde no mormaço

E abandonar nesse remanso
O meu corpo dormente
Feito gato manso
No teu colo quente

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CONJECTURAS
Ricardo Kelmer, 2003
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O que acontece
Alguém sabe me dizer
Com o amor
Que não chegou a acontecer?

Será que o amor se guarda por aí
A se divertir
Com os danos e enganos
Que eu faço sem pensar?
Ou será que morre de vez
Nos ventos do que nunca será?

Ah, esse gosto esquisito
Do amor que podia ter sido
Mas que não foi
E se foi pra nunca mais
O amor que não pôde crescer
Mas sempre brinca de ser
Quando eu olho pra trás

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MUNDO QUE EU QUERO
Ricardo Kelmer, 2002
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Eu quero um mundo de esperança
Ser criança pra brincar
Não ter medo de crescer
E ser livre pra sonhar

Eu quero um mundo de justiça
Sem preguiça de lutar
Saúde, escola e segurança
Comer bem e trabalhar

Eu quero um mundo sem fronteira
Desse planeta sou cidadão
Pois a Terra é meu país
E todo mundo é meu irmão

Eu quero um mundo de beleza
A Natureza preservar
Defender tudo que vive
E a Mãe Terra respeitar

Eu quero um mundo de alegria
Quero ser livre sempre e mais
Quero que todos se aceitem
No meu mundo eu quero paz

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BLUES DE LUZ NEON

2001, música de Ricardo Kelmer e Joaquim Ernesto
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Quando esse blues
Tocar no sonho do seu coração
Devagar você vai despertar
Na madrugada
Bem de mansinho, assim
Vai lembrar de mim
Abra a janela do quarto
Lá fora no meio da rua brilha um letreiro
O luminoso do nosso amor é vermelho
Então sinta, viaje
Voe nesse tom
Foi pra você, meu bem, que eu compus
Esse blues de luz neon

> ouça e baixe a música (int: Lúcio Ricardo)

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QUANTO VOCÊ PAGA
2001, música de Ricardo Kelmer e Toinho Martan
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Você me olha desse jeito
Pensa que eu não sei
Que você quer me comprar
Mas eu não estou à venda, meu bem
O que está à venda é o seu sonho de ter
O que você pode pagar

Quanto você paga, meu amor
Pra eu nunca dizer não?
Quanto você paga pra eu roubar
Seu coração?
Quanto você paga pra eu dizer
Coisas que sua mulher não diz?
Quanto você paga
Pra eu te fazer feliz?

> ouça e baixe a música (Registro caseiro. Int: Toinho Martan)

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VIAGEM ASTRAL
2001, música de Ricardo Kelmer e Neo Pi Neo
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Banho de mar nu lá em Canoa
Ficar só à toa em Bodocongó
Compor sem dó em Sete Lagoas
Com uma preta da boa em Cabrobró

Trepar num coqueiro em Itapoã
Saudar Iansã em Corumbá
Transar ao luar de Iporã
Café da manhã em Maricá

Criciúma, Ponta Grossa, Passo Fundo, Paraí
Guarabira, Paquetá no Piauí
Piracicaba, Colatina, Ipatinga, Macaé
Arapiraca, Chapadinha e Canindé
Araraquara, Xique-xique, Ubatuba, Aracaju
Xapuí, Medina, Botucatu
Arapiraca, Alegrete, Timbaúba, Iguatu
Gurupi, Araguaína e Jaru

Respire a brisa desse mar
Sinta o chão desse sertão
Aproveite a paisagem
E boa viagem, meu irmão

Dormir de rede em Jequié
Um cafuné em Piripiri
Fazer xixi em Guaxupé
E o bicho-de-pé lá em Jeri

Quero um afago em Santarém
Fazer neném lá em Tibau
Um bacanal em Itanhaém
E ter um harém em Cacoal

> ouça e baixe a música (do disco de Neo Pi Neo)

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DE VOLTA PRA CASA
2000, música de Ricardo Kelmer e Joaquim Ernesto
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Você me pergunta
Qual o melhor jeito de viajar
Aprenda com o rio
Que desce suave
Porque sabe do mar

Tudo que você precisa
É a coragem de partir
E não pergunte que direção seguir
Você está na estrada
Você já está

Reconheça as velhas paisagens da infância
Respire o cheiro familiar dessa tarde
Pra quem parte não há nada a temer
Não há nada
Viver é uma longa viagem
Mas que louca viagem
A mais bela viagem
A eterna viagem de volta pra casa

> ouça e baixe a música (int: Ciribah Soares)

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TREM DOS SONHOS
2000, música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
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Ela levantou cedo e se mandou
Foi atrás de um sonho maior
Deixou um beijo de saudade
E essa cidade ao meu redor
Esses prédios que abafam
Todo sonho de crescer
E ela se foi no trem do amanhecer

Porque os sonhos, meu amor
São um trem que não virá
Se a gente ficar esperando acontecer

A cidade se acende
Em luzes de neon lilás
Manchetes sedutoras, paraísos irreais
No fim de tarde o horizonte
Traz notícias de você
E os meus sonhos morrem de fome
Sem a cidade perceber

Porque os sonhos, meu amor
São um trem que não virá
Se a gente ficar esperando acontecer

> ouça e baixe a música (Registro caseiro. Int: Ana Alcântara)

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PoemasDeSaliva-01a

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POEMAS DE SALIVA
1999, música de Ricardo Kelmer e Teófilo
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Deslizo poemas de saliva
No rascunho da tua pele
Sílabas molhadas
Rimas sensoriais

O sentido mais profundo do meu verso
Fala a língua dos teus gestos
Em convulsões gramaticais

Poemas depravados na tua pele de pecado
Poemas de navalha no teu corpo sem perdão
A figura de linguagem do desejo
Fala a língua do meu beijo
Sem tradução

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NAS CURVAS DO TEU LITORAL
1999, música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
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Pela cidade nua
Lua e despudor no ar
Tonight assim à toa
Numa boa noir

A noite te veste de sorrisos
E teu hálito é a brisa a me guiar
Toda a festa das esquinas
São vitrines de retina
Promessas de amar
Alugue um prazer com vista pro mar

Teus olhos se acendem nas ruas
É o frisson de bar em bar
É preciso ser feliz, é urgente
Um romance caliente
Antes do dia nos lembrar
Que o sonho não resiste à luz solar

Multa por excesso de prazer
Banho à noite no mar não faz mal
Te encontrar por aí à toa
Te mostrar que a vida é boa
E morrer de gozo natural
Nas curvas do teu litoral

> ouça e baixe a música (Registro caseiro. Int.: Ana Alcântara)

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LICOR
Ricardo Kelmer, 1999
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Teu corpo é um bombom
Em minha boca
Um gosto bom
Que brinca em minha língua
Um licor que escorre sensual

Não há nada igual
Minha língua do teu corpo inquilina
Teu licor que minha boca indisciplina
Nada igual
Teu corpo liso, abismo sem aviso
Nada igual
Teu louco riso, teu pouco juízo
Final

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DESPREZÍVEL
1998, música de Ricardo Kelmer e Toinho Martan
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Desprezível eu sou
Desprezível
Rastejando de desejo
No quarto de despejo desse amor
Desprezível

Quantas vezes te procurei
Nas madrugadas da cidade
Ai que louca que eu sou
Ai que pouca vergonha
A insônia desse amor

Manda em mim que eu obedeço
Diz que eu não presto
Diz que eu sou desprezível
Me deixa aqui na mesa
Vai que eu pago a despesa
Desse amor

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demais-01a

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DEMAIS

Ricardo Kelmer, 1997
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E nós que acordamos tarde
E rimos das manchetes matinais
O mundo é tão sério
O mundo lá fora tanto faz
E nós que nos gozamos demais

E nós que não sabemos
O preço das salas comerciais
Mas alugamos nossos corpos
Para o amor que a tarde traz
E nós que nos lucramos demais

E nós que gargalhamos
Dessas pessoas tão normais
E corremos nus pelos telhados
Das crises internacionais
E nós que nos amamos demais

> postagem no blog

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DECIFRA-ME
Ricardo Kelmer, 1997
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Tem noite em que eu sou tão santa…
Mulher tem de saber o seu lugar
Eu olho para ti e é obscena
A cena do meu corpo em teu olhar
Eu viro o rosto pra não corar…

Tem noite em que eu sou tão cara
Mulher tem de saber o seu lugar
No olhar que ela inflama
Na cama de alguém sem se dar
Tenho um aluguel para pagar…

Esse é o jogo do amor
Esse é o seu desafio
Te seduz o meu pudor
Te ameaça o meu cio

Sim, eu me dou pra você
Como eu sempre quis me dar
Se você me decifrar
Só se você me decifrar

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PUTZ DANCE
Ricardo Kelmer, 1997
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Putz dance… Putz dance…
Putz dance… Putz dance!

Detonando a putz dance que há em você
Um putz som pra liberar seu potencial
Seu corpo quer dançar, seu corpo quer viver
Se abandone ao prazer que é natural

Putz dance com você no seu suor
Nessa simbiose sensual
Um putz som pra vibrar dentro de você
Permita essa turnê sensorial

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VINGATIVA
Ricardo Kelmer, 1997
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Ah, você não sabe do que eu sou capaz
Eu viro louca possessiva
Descabelada, vingativa
Eu faço um inferno da sua vida
E conto pra sua mulher
O que é que você faz
Você não me conhece, rapaz

Eu escandalizo o público
Eu publico suas cartas ridículas
Eu compro soda cáustica
E deixo sua carreira por um fio
Depois sorrio e durmo em paz

Ferina e mordaz
Eu arroto imprudência
Eu esqueço a decência
Ah, a vingança é uma ciência
Que em mim atingiu seu apogeu
Você já perdeu o seu cartaz

Não me subestime, rapaz
Você não sabe do que eu sou capaz

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DESATINOS
1996, música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
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Tantos bares em teu desejo
Tantos beijos em teu se dar
Eu te procuro e não me vejo
À luz neon do teu olhar

Mas hoje meu hálito é cor de vinho
E me alinho às deusas do que vier
Um decote ousado, um ar mordido
Você não conhece uma mulher

Me leva contigo ao mundo teu
Ensina os desatinos do mundo teu
Quero me deitar com quem te ama
Na cama de quem me abençoar

Divide comigo a minha loucura
De te amar assim sem me atinar
A insanidade é uma criança
Sozinha, querendo brincar

> ouça e baixe a música. (Registro caseiro. Int: Ana Alcântara)

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MARILAC’S LETTER
Ricardo Kelmer, 1996
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Escrevo estas mal traçadas linhas
Antes de sair pro calçadão
De dia ralo na sapataria
De noite bato ponto na Barão

A cidade grande é um barato
Tem gato dando sopa de montão
Arrumei um namorado marinheiro
Se Deus quiser chegará a capitão

Sabe o caixa lá do Banco do Brasil?
Me chamou pra ver o Almodovar
Se o bofe não se decidir eu viro louca
Ah, eu caio de boca sem pensar

Comprei um modelito à prestação
Vou de odalisca no carnaval
Vou abalar Paris em chamas
Escandalizar o bacanal…

Me conte as fofocas da terrinha
A Beth ainda quer ser irapuete?
E o Belo Biu… já assumiu?
E a Carol, acabou lá no farol?

Um beijo pra você e toda a gente
Smack!
Carinhosamente
Marilac

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JARDIM DAS ILUSÕES

1996, música de Ricardo Kelmer e Teófilo Lima
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Levei o teu campari emprestado
Devolvo depois com correção
Que pena, não deu certo, valeu
Beberei à nossa separação

O amor que tu me deste era de vidro
E isso que fizeste… um papelão
Trocaste nosso jardim de ternura
Pela aventura insana da paixão

Não te incomodes de regar nossa camélia
Ela definhou de aflição
As hortênsias murcharam na janela
E o amor-perfeito já não crê em ilusão

> ouça e baixe a música (int: Teófilo Lima)

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MARIA DA GRAÇA
Ricardo Kelmer, 1996
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Maria da Graça eu
Meu senhor
Bendita nos teus braços
Bendito, o fruto dessa paixão
Seduz

Maria da Graça eu
Meu senhor
Pecadora desse amor
Agora é a hora da minha sorte
Meu bem

Maria da Graça eu
Cheia de graça eu
Agraciada eu
Acariciada eu
Viciada eu
Abraça eu
Meu senhor
Meu bem

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EuSoQueriaQueVoceSoubesse-06c

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EU SÓ QUERIA QUE VOCÊ SOUBESSE

1995, música de Ricardo Kelmer e Humberto Pinho
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Eu só queria que você soubesse
Que as minhas noites são tão vazias
E o meu coração é tão velho sem você…
Eu sirvo mais uma dose enfim
Eu olho a cidade
Da janela só a cidade sabe de mim

Eu ouço música na madrugada
Eu tinha tanta música pra fazer
Sirvo uma dose, me visto pra sair
Eu tinha tanto pra dizer…
Onde está a seção de acompanhantes?
Quanto vale um corpo sem o seu?

Eu só queria que você soubesse
Que eu durmo muito tarde
E até a cidade tem sensibilidade
E que comprei aquele vinho da promoção…
Eu só queria que você soubesse
Que você não tem coração

> ouça e baixe a música (int: Humberto Pinho)

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BUNDAS (Quod abundat non nocet)
1994, música de Ricardo Kelmer e Toinho Martan
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Tem umas que são deslumbradas
Tem outras que são discretinhas
Tem umas que são recatadas
Tem outras que são avançadinhas

Tem umas que são escandalosas
Tem outras que são infantis
Tem umas que são inibidas
E outras incisivas, só ardis

São bundas! Bundas!
Quod abundat non nocet!
Quod abundat non nocet!
E o que faz bem todo mundo quer!

Dois montinhos arredondados em sinuosa simetria
E a relva aloirada – microscópica poesia
Concebidos no pecado dos meus sonhos sem pudor
Amaciados pela mão do meu desejo sem senhor
E o meu beijo extasiado salivando de emoção
Pelo sulco-longitude dos montes da perdição!

Inacessíveis, ilusórias, irreais!
Calientes, rebolantes, tropicais!
Agressivas, assassinas, imorais!
Pecaminosas, tentadoras, infernais!

Universo em movimento, centro de gravidade
Sentido da existência, salvação da humanidade
Complexo vitamínico, exagerada caloria
Hóstia consagrada no altar da fantasia

Pão pra quem tem fome, opção pela riqueza
Se infelizmente inacessível: crueldade da beleza
Protuberância estonteante, hipérbole molecular
Her swing is so cool a caminho do mar…

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ManifestoDasBemAventurancas-05a
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MANIFESTO DAS BEM-AVENTURANÇAS
Ricardo Kelmer, 1993
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Are you a lucky little lady in the city of light?
Or just another lost angel?…
City of night.
(The Doors)

Bem-aventurada a noite
e todos os seus embalos e alcovas
Todos os bares
sobretudo os malditos e mais ainda os de balcão
As danceterias esfumaçadas
de disputadíssimo metro quadrado
onde brilham DJs de gosto discutível
e os dançarinos de ocasião
Os neons coloridos dos cruzamentos cosmopolitas
Os motéis e suas filas de espera
constrangedoras e nem sempre contidas
Os cabarés de periferia
com suas adoráveis máquinas de música
e a luz lilás do ambiente, tão indefectível
As esquinas lascivamente habitadas de pernas à mostra
e olhares convidativos
Os inferninhos regados a uísque e cocaína
dos ricos apartamentos da orla costeira
E os incansáveis concursos gay
que sobrevivem quase clandestinos e sem glamour
pros sonhos de cinderela de tantas bonecas borralheiras

Bem-aventurado o bolero
ritmo sagrado de todas as penumbras
e das melhores dores-de-cotovelo
Bem-aventurados os que uma vez na vida
sucumbiram a uma paixão sem zelo e sem par
rodopiando lentamente de rosto colado
e a voz rouca de Elis contando falseado
de um bandeide no calcanhar…

Bem-aventuradas todas as festas
mesmo as de 15 anos e outras mais comedidas
porque festa é o que nos resta
Infinitamente mais bem-aventuradas porém
aquelas festas louquíssimas
onde exigem fantasia
os convidados são selecionados
a bebida não falta
o som não deixa ninguém parado
a fila pro banheiro é uma das atrações
há um segundo andar na casa
fertilizando travessas imaginações
o vizinho apareceu pra reclamar e acabou ficando
tá todo mundo superafins
(solteiros, solteiríssimos, casados e os nem tão casados assim)
estão presentes pelo menos uma dúzia de vivas lendas
do primeiro escalão de sua agenda
e no outro dia você acorda atordoado num quarto que não é o seu
não lembra que horas saiu da festa e muito menos
o que naquela cama aconteceu…
mas toda apreensão se evapora
quando surge
à porta do quarto
insinuante e bem-humorado
aquele anjo maravilhoso do seu sonho
lhe dando bom-dia
e empunhando uma cerveja estupidamente bem-vinda
porque hoje é sábado afinal
e você não tem compromisso
e além disso seu anjo maravilhoso continua bem disposto
e maravilhosamente irreal

Bem-aventurados os garçons e garçonetes
em seu glorioso e incompreendido ofício
Os cantores e músicos da noite
que nunca perderão a velha esperança de ver a vida
lhes reconhecer os méritos finalmente
méritos diariamente abafados pelas conversas nas mesas
e pelo barulho da churrasqueira bem ao lado
ou ainda pelos aplausos longos e entusiasmados
a músicas que nunca são as suas…
Os esforçados transformistas de boate de terceira
As dançarinas de strip-tease
e os atores e atrizes de sexo explícito
já cansados de explicar
que é um trabalho como outro qualquer
As lindas e promissoras modelos
de rosto e corpo cultivados
que os emprestam a ricos executivos
por um jantar naquele restaurante badaladíssimo
e depois um bom vinho num 5 estrelas reservado
E as menininhas que encurtam ao máximo suas saias
e sua adolescência
pros caprichos fartos de estrangeiros deslumbrados

Bem-aventuradas todas as prostitutas
sobretudo as pobres
saco de pancada das sociedades hipócritas de todos os tempos
Bem-aventuradas por todos os séculos e séculos
elas que são do mundo lixo, vício e benefício
elas que (ao lado dos palhaços) terão sempre
o mais puro dos ofícios
Bem-aventurados os garotos e garotas de programa
versões mais destiladas da eterna profissão
termos mais requintados pra mesmíssima coisa
curso inevitável da democratização sexual
Bem-aventurada a não mais exclusividade do aluguel do prazer
aos prostíbulos e praças mal afamadas
que bom vê-lo com outras roupas!
que bom sabê-lo em outras camadas!
Bem-aventurado, por extensão, o telefone
que os solicita e as solicita com discrição

Bem-aventuradas mais ainda as travestis
Bombástica personificação do inconformismo à ditadura genética!
Exótica e sensual indignação da alma ao legado do corpo imposto!
Seres tão cruéis à nossa vã necessidade de tudo explicar
Eles que são elas
e que desafiam e abordam insolentes nas esquinas
o pudor do mundo
e envergonham a sagrada decência da família
e instigam curiosidade e luxúria
com seus corpos inadmissivelmente belos
tão androginamente profanos
Eles que são elas
anjos noturnos do apocalipse sexual urbano
prisma expiatório de sentimentos vários
o mais puro amor
o ódio mais sanguinário
Eles que são elas
própria contradição do sexo
e sua mais alta idolatria
Buscada redenção do pecado original: Adão e Eva num só
Pra lembrar que um sempre se descobrirá no outro
que é o que sabemos quando amamos
Pra lembrar que do homem nasceu a mulher
e se um está no outro
é porque ambos estão em você
mesmo se não quiser

Bem-aventurados enfim
todos vós que atentais contra a moral e os bons costumes
Vós que dais de comer à obscenidade e à alegria
Vós que instigais a carícia e a polícia
e que emprestais ao profano vossa poesia
Vós que sacudis a pasmaceira dos tempos
e assaltais a mesmice
e violentais a pudicícia
e fazeis sangrar a pestilenta carne da demagogia
Deus vos proteja
e vos guarde (sempre à noite) um lugar
e um altar
em sua incompreensível sabedoria

> postagem no blog

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PARTICULARMENTE EU PREFIRO QUIABO CRU
1991, música de Ricardo Kelmer e Toinho Martan
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Há quem não goste de criança
Há quem adore ensinar
Há quem os olhos não levante
E há quem garanta só olhar

Há quem procure o ponto G
Há quem pule na hora H
Há quem não goste se doer
Mas há quem vá se viciar

(refrão)
Você quer quiabo cozido
Ou quer quiabo cru?
Questão de gosto, meu
Eu por exemplo como cru
E todo mundo come o seu

Há quem abafe o prazer
Há quem se permita um palavrão
Há quem exija o tal do amor
E há quem se negue à precisão

Há quem não esqueça o vinho branco
Há quem vá de leite condensado
Há quem seja atento sempre e tanto
Mas há quem fale o nome errado

(refrão)

Há quem não tenha tanta gula
Há quem engula só de ver
Há quem não perca uma parada
E quem nem saiba o que fazer

Há quem não dispense um inferninho
Há quem só seja fiel à-trois
Há quem não goste de tal gosto
E há quem ande louco pra gostar

(refrão)

Cada um tem sua tara
Não me venha dizer que não
Assuma a sua e meta a cara
Pois quem não tem, tem precisão

Alimente-a com carinho
Não deixe nada lhe faltar
Vergonha aqui é proibido
Mais esquisito é não gozar

Particularmente eu prefiro quiabo cru…

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CANÇÃO PARA EVA
Ricardo Kelmer, 1990
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Eva não é uma, ela varia
Vem e vai e me atordoa
Eva não é ponto, é vírgula
Que se vinga do meu verso e voa

Evasiva, me evita
Evapora, me enrola
É vento que se leva
É vaga tão à toa
Eva daninha
Eva da boa

Ela é vil, é vilã
Mas me enleva de manhã
Ela é vil, é vilã
Mas sem ela a vida é vã

.

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VIVERES
Ricardo Kelmer, 1990
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Ainda dói em mim o fogo que não se doma
Ah, o sacrilégio de saber
Que conhecimento é poder

Ainda arde em mim o vinho das tabernas
Um tablado andaluz
O corpo que entorpece e seduz

Ainda me ilumina a lua dessa busca
O êxtase dos místicos ao chão
O sentido do Universo em minha mão

Ah, eu vim dos tempos, pra longe eu vou
E as vidas que já fui, eu sei, eu sou
Tudo que já fui não sei dizer
É pasmo, é ardor, é viver

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INSANA PAIXÃO
Ricardo Kelmer, 1989
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O azul dos olhos a marejar
O som de um blues
Meu cruzeiro do sul
Teu azul-íris do mar

Tão azul a luz dança no ar
Blues serpentina
Mas tão fugaz é a retina
Teu azul que eu quis sonhar

Por onde você se engana
Tão distantemente minha?
Onde dança tua luz cigana?
Teus olhos quem cegarão?
Desejo é o germe que emana
De toda insana paixão

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TANGO DO PADEIRO
Johnson, Lonner e Gil, 1989
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Tudo era tão bonito
Quando eu te conheci
Você ficava deslumbrada
Com os presentes que eu lhe dava
As luzes do Iguatemi

Te dei calça Fiorucci
E um apartamento duplex
Da DeMillus dei de presente
Uma camisola transparente
Você ficou tão sexy

Você dizia que eu era um pão
Que eu era o fermento da sua vida
Mas me trocou pelo padeiro
E hoje o meu dinheiro
Não vale um semolina

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MENINA DO LACINHO COR-DE-ROSA
Johnson, Lonner e Gil, 1989
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Quando entrei no cabaré
Todo mundo se divertia
Nessa noite que rolava
Todo mundo aproveitava
A festa acontecia

Numa mesa mais escura
Vi uma cena comovente
Uma menina ainda nova
Com um lacinho cor-de-rosa
Me sorria tristemente

Menina do lacinho cor-de-rosa
Teu lugar não é aqui
Levanta que eu te levo embora
Vem que eu te faço ser feliz

Fui sentar na sua mesa
E ela logo me falou
Estranho pode parecer
Mas não procuro o prazer
O que eu quero é o amor

E me disse com a voz meiga
Num beicinho de chorar
Ainda não sou bem crescida
Mas já sei que nesta vida
O importante é amar

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SWEET ROSE LACE GIRL (Menina do lacinho cor-de-rosa)
Johnson, Lonner e Gil – versão em inglês: Lonner, 1989
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The night in this randevouz
Is plasure, is celebration
The party is going on
Everybody is having fun
The life here is satisfaction

But in that dark table
I see a beautiful teen
She uses a rose lace
I look at her candy face
And she smiles sadly to me

Oh, sweet rose lace girl
This place is not for you, now i see
So stand up, baby
Come to be happy with me

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SAMBA DO BOMBRIL
1989, música de Johnson e Lonner
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Passei-lhe a mão no bombril
Ela sorriu e disse:
Quem entrou não saiu
Saudade aqui ainda existe

Pois muito embora o lá de fora fosse agora muito mais aqui
Eu fui com jeito no seu peito… Que defeito não saber agir!
No desespero, meio cabreiro, dei-lhe um cheiro no meio do capim
Sem sacanagem, essa viagem na paisagem só te fez fugir

Passei-lhe a mão no bombril…

Um bem querer tem seu porquê, tem tudo a ver, meu coração me diz
Mas ficar na mão nessa paixão, diz a razão, não dá pra ser feliz
Injuriado, malogrado, todo errado, sem saber mais de mim
Nesse dilema veio um tema sem poema e eu fiz uma samba assim

Passei-lhe a mão no bombril…

Bombril é palha de aço
Pra usar nesse despacho
Que eu fiz pra você…
Bombril é palha de aço
E eu não sou nenhum capacho
Pra você desmerecer…

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Gostei da letra: MARIA DA GRAÇA. Ela, toda! Na verdade, achei a essência da letra parecida com a de “Fanatismo”, da Florbela Espanca. A mesma intensidade relacionada à figura do ser amado. Dalu Menezes, Fortaleza-CE – jan2013

02- Pelo menos pra mim o que me arrasta e me prende às tuas letras é sentir pureza e verdade em cada uma delas. Quando usa o humor, o erotismo, o questionamento e colocações sobre o mundo comportamentos, enfim, foi isso que me fez virar sua Fã. Valeu RK. Ivonesete Rodrigues, Fortaleza-CE – fev2013

03- * Massa! Tuppan Poeta, Recife-PE – abr2013

04- Ricardo Kelmer, em Alma Una percebo um chamado, um ‘grito silencioso’ entre todos os reinos desse Planeta em unidade com o Universo Natural. Místico e com doses de sensualidade artística num entrelace entre os quatro elementos essenciais que detém a nossa sobrevivência enquanto terráqueas ( e também, … os). Considerei intrigante e enigmático. Uma junção ocular com os olhos da Vida UNA. Inté! Oceeee é poeta dos bons, também. Parabéns. Sensibilidade a flor da alma. Amanda Pontes, Florianópolis-SC – mar2014

3 Responses to Poesia

  1. […] produtor cultural,  Kelmer também é escritor, letrista e poeta. Tem vários livros lançados. O mais recente é Indecências para o Fim de Tarde, de contos […]

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  2. tudo aqui é mara… maravilhosamente sedutor. levando poema para meu canto.

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