A cidade das almas boas

27/05/2021

27mai2021

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A CIDADE DAS ALMAS BOAS

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Arlindo de dia. Michele de noite. Das dez às quatro na agência da Caixa da avenida Santos Dumont, todo sério, camisa social fechada no punho, gravata, cabelo penteado. Depois das nove da noite numa esquina da rua Clarindo de Queiroz, salto plataforma e uma minissaia de couro sem nada por baixo, para facilitar na hora de mostrar o pauzão enorme aos carros que passam pela esquina diminuindo a velocidade.

Uma noite, passava pouco das nove, quando o fusca parou, e ele, ou melhor, ela foi lá falar com o sujeito. Era um velhinho. Michele sorriu, hummm, velhinho que curte travesti, faltava um desse em sua clientela. Putz, sujeira, era aquele velhinho da agência, setenta e seis anos, que todo mês ia lá receber a aposentadoria com a mulher, seu Claudemiro e dona Núbia, os dois sempre juntinhos de braços dados, gostavam tanto dele que queriam que namorasse a neta, uma tal de Ilana, quem sabe não saía um casamento.

Mas o velhinho felizmente não reconheceu Arlindo naquela esquina penumbrosa. Também pudera, toda montada com aquela roupa, peruca, maquiagem. Michele abriu a porta do carro e o velhinho afastou o pacote de pão para ela sentar. Depois, no motel ali pertinho, ele pediu que ela fosse com jeito, era sua primeira vez. Michele foi com jeito, claro, mas seo Claudemiro, de quatro na cama, com o fundo de garantia para cima, logo largou de besteira e disse que ela podia depositar tudo, tudo que ele tinha direito, e Michele, sempre profissional, seguiu as ordens do cliente. Uma hora depois o velhinho pagou os cem reais, agradeceu e a deixou de volta na esquina, muito distinto ele.

No mês seguinte, quando o casal voltou à agência para receber a aposentadoria, Arlindo não notou nada de diferente no comportamento dele, tudo normal. Ainda bem. Horas depois, à noite, não é que lá estava o velhinho novamente parando o fusca na esquina penumbrosa? Michele sorriu, satisfeita pelo retorno do cliente. Ele afastou o pacote de pão para ela sentar e tomou o rumo do motel, e repetiram a dose.

Um mês depois, na agência, enquanto seo Claudemiro contava o dinheiro sacado, dona Núbia comentou com Arlindo que qualquer dia levaria a Ilana para ele conhecer, que ele ia ver só a belezura de neta que ela tinha, que ele ia se apaixonar, e depois falou que Fortaleza estava cada vez mais violenta, que seu marido, coitado, fora assaltado duas vezes nos dois últimos meses quando voltava da padaria, nas duas vezes lhe levaram cem reais, coitado, não respeitavam mais nem um pobre velho. Arlindo escutava, solícito. E era um dinheiro que fazia muita falta, prosseguiu dona Núbia, pois a aposentadoria era pouca, os remédios caros, o filho era doente e não podia ajudar, ô mundo ingrato, ninguém dá a mão a ninguém. Tenha fé, Arlindo consolou-a, tenha fé que Deus vai prover.

Pois não é que Deus proveu mesmo? Desde então, seo Claudemiro nunca mais foi assaltado na volta da padaria. Coincidentemente, e isso cá para nós, é claro, também nunca mais pagou pelo programa com Michele. É que ela passou a sortear, todo mês, um cliente para ganhar um programa grátis, e o velhinho tem uma sorte danada, ganha todas.

A senhora tem razão, dona Núbia, a cidade está muito violenta. Mas, se procurar, a gente encontra umas almas boas por aí.

(Este conto integra a série Interações da Sacanagem, com contos baseados em termos de busca no Blog do Kelmer. Termos deste conto: travesti michele em fortaleza.)

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Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

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Este conto integra os livros

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. > saiba mais

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Quarentena Erótica
Ricardo Kelmer – contos

Nos contos de Ricardo Kelmer, o erótico pode vir com variados temperos: romantismo, humor, misticismo, bizarro, horror… Às vezes, vem doce e sutil, ou estranho e avassalador, e às vezes brinca com nossas próprias expectativas sobre o que seja erótico. Explorando fetiches, fantasias, delírios e tabus, e até mesmo experiências reais do autor e de seus leitores, as estórias deste livro acabam de chegar até você para apimentar seus dias, e suas noites, de quarentena. > saiba mais

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Bullying de putaria

23/03/2021

23abr2021

As amigas de Milena adoravam sacaneá-la por sua inexperiência sexual. Mas Milena jurou que isso acabaria no Cabaré do Papai

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BULLYING DE PUTARIA

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Milena sofria de bullying de putaria. Não é dos mais divulgados pela mídia, mas é um tipo de bullying terrível, estigmatizante ao extremo e causador de males difíceis de suportar, em especial para os adolescentes. Algumas pessoas superam o problema e seguem com suas vidas, mas outras infelizmente não, e para elas a vida se transforma num inferno diário.

O caso de Milena é exemplar. Mais novinha da turma, dezessete anos, todos os seus namoros haviam sido bem comportadinhos, com exceção do último, que durou apenas um mês mas, em compensação, lhe levou a virgindade, o que serviu para aliviar um pouco a pecha de santinha que ela carregava entre as amigas. Mas só um pouco mesmo, pois em comparação com o que elas faziam por aí, era como se ainda continuasse virgem. As amigas não tinham dó: aproveitavam toda oportunidade para humilhá-la com suas inacreditáveis histórias de putaria, cada uma mais deliciosa que a outra. Milena, arrasada, chorava de inveja na solidão de seu quarto. E, para piorar a depressão, ela era a única que nunca tinha ido ao Cabaré do Papai.

Ah, o Cabaré do Papai… As amigas enchiam a boca para dizer que era a festa mais maravilhosa da cidade, que só acontecia uma vez por ano, que era isso, que era aquilo e aquilo mais. Menor de idade e proibida por lei de frequentar certos lugares, à menina Milena só lhe restava sofrer seu bullying resignada, vendo as fotos e os vídeos das amigas na festa, em seus modelitos provocantes, todas elas sensualizando horrores e vivendo gloriosos momentos de diva. O jeito era esperar a maioridade, fazer o quê?

Por isso, quando foi anunciada a edição seguinte do Cabaré do Papai, Milena não pôde acreditar na odiosa coincidência: seria exatamente no dia anterior ao seu aniversário de dezoito anos. Ah, não, um dia antes? Era muito, muito azar. Teria que esperar pela edição do ano seguinte. Mais um ano inteiro de bullying. Mais doze meses de depressão.

Não, não, que azar que nada, Milena pensou melhor, sorte, isso sim, muita sorte. Iria à festa, iria sim, mas… tchan, tchan, tchan, chegaria à meia-noite, ninguém poderia proibir sua entrada. O Cabaré do Papai seria o carimbo oficial de sua nova vida.

E assim fez. Foi a sua tão sonhada iniciação na festa que as cruéis amigas tanto usavam para sacaneá-la. E foi uma iniciação, digamos, mais que completa. A santinha apareceu lá vestida como uma diabinha sexy, com tridente e chifrinhos vermelhos piscantes, fez um puta sucesso, todos queriam tirar foto com ela, recebeu mil cantadas, dançou com o barman em cima do balcão e, como se não bastasse, ainda ganhou o concurso Musa do Papai. As amigas, boquiabertas, não acreditavam no que viam.

A festa deixou Milena tão inspirada que ela decidiu iniciar-se também, naquela mesma noite, em outro tipo de festinha, já conhecida das amigas: o ménage à trois. E foi assim que a santinha, já não mais tão santinha, terminou a noite no motel com ninguém menos que o supergato cantor da banda e a namorada dele, lindíssima. E no motel, aproveitando o embalo dos seguidos orgasmos, decidiu que já era hora também de iniciar-se no sexo anal, pois, entre as amigas, só ela ainda não havia dado o bendito cu. Então, animada com o coroamento de sua noite de estreia na sagrada putaria, Milena pôs-se de quatro na cama e arrebitou bem a bunda, assessorada pela namorada do cantor supergato, que foi muito solidária e lhe deu todas as dicas para ela aproveitar bem a primeira visita pela porta de trás. Porém, após duas horas de show pesado e mais três horas de motel com um par de mulheres com o diabo nos couros, o coitado do cantor não tinha mais força nem para abrir o tubo de gel, de forma que Milena teve que se virar com a namorada mesmo, que acoplou à cintura um pau de silicone e, com muita competência, finalmente a livrou do triste time das virgens anais, missão cumprida.

Naquela manhã, Milena, agora com dezoito anos, chegou em casa feliz e realizada com sua tripla iniciação: Cabaré, ménage à trois e anal. Sim, anal com pau artificial de mulher, é verdade, mas onde estava escrito que precisava ser pau natural de homem? Sem falar que agora era vip permanente do Cabaré do Papai, não pagaria mais para entrar, que chique, heim, já pensou a cara de inveja das amigas? A ex-santinha Milena nem quis tirar a roupa: dormiu vestida de diabinha mesmo, com um sorriso maroto nos lábios e os chifrinhos vermelhos pendurados na porta do guarda-roupa, ainda lhe piscando os parabéns. Bullying de putaria nunca mais.

(Este conto integra a série Interações da Sacanagem, com contos baseados em termos de busca no Blog do Kelmer. Termos deste conto: iniciação anal em cabaré.)

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Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

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Este conto integra os livros

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. > saiba mais

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Quarentena Erótica
Ricardo Kelmer – contos

Nos contos de Ricardo Kelmer, o erótico pode vir com variados temperos: romantismo, humor, misticismo, bizarro, horror… Às vezes, vem doce e sutil, ou estranho e avassalador, e às vezes brinca com nossas próprias expectativas sobre o que seja erótico. Explorando fetiches, fantasias, delírios e tabus, e até mesmo experiências reais do autor e de seus leitores, as estórias deste livro acabam de chegar até você para apimentar seus dias, e suas noites, de quarentena. > saiba mais

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Amadoras

02/03/2021

02mar2021

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AMADORAS

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Nunca contei isso pra ninguém, Verinha. Só vou te contar porque tu me contou aquela doidice que tu aprontou no casamento da Jardênia, é uma troca justa. Lembra daquele congresso de Psicologia em Natal, dez anos atrás, que tu, vacilona, não foi? Tá, eu sei que o idiota do Heitor não deixou, eu sei. Aliás, a melhor coisa que tu fez foi acabar aquele namoro, já te disse isso? Pois tá dito. Aquele Heitor era um galinha nojento, sabia, deu em cima até de mim. Eu sei, mulher apaixonada fica cega. Pois voltando ao congresso. Foi lá que aconteceu minha história bizarra. Não, eu ainda não tinha casado com o Nelson, mas já tava noiva. Fiquei num quarto com a Irene, lembra, que deu o golpe e casou com aquele deputado escroto, que este ano foi cassado. Ela mesma. Mas como ele foi cassado, é capaz dela agora querer o divórcio.

Deixa eu contar. Ficamos hospedadas num hotel bacana, pertinho da praia. Aquele esquema, a gente dava uma passadinha nas palestras, ia pra praia e depois caía nos agitos da noite com aquele bando de psicólogas taradas, tudo doida pra provar da culinária local. Irene, logicamente, fez a festa. Pra tu ter uma ideia, na sexta à tarde, na praia, ela ficou com um menino que devia ter no máximo quinze anos, sério, de noite agarrou o amigo dele no bar e de madrugada me expulsou do quarto pra dar pro taxista que levava a gente pros lugares. Tudo bem que o taxista era um gato, jeitão de surfista, mas tive que ficar lá embaixo na recepção esperando por duas horas, morrendo de sono. O que a gente não faz pela periquita das amigas, né?

Se eu tava comportada? Tu sabe que só quem fica comportado nesses congressos é o porteiro do hotel, né? E olhe lá. Mas até que eu tava quieta, acho que eu tava era exigente, sei lá. Aí, no sábado, quem eu vejo chegar no hotel, na hora que eu tava terminando o café? Então sinta, viaje, voe nesse toooooommm, foi pra você, meu bem, que compus esse blues de luz neon… Exatamente, a Bluz Neon. Eram eles, chegando do aeroporto. Tu sabe que eu tinha uma tara violenta no Luca, né, ia pros shows só pra ver ele cantando. Pois quando eu vi a banda chegando e soube que eles iam tocar num bar em Natal aquela noite, me deu uma coisa. Sabe quando, de repente, te dá uma intuição bem forte? De quê? Ora, de que naquela noite eu finalmente ia pegar o safado do Luca. Ia ser minha despedida de solteira.

Então, à noite, lá estava eu no Som de Cristal, o bar em que eles iam tocar, eu e meu pretinho básico, as coxas de fora, os peitos saindo, superconfiante na minha intuição. Eu no esplendor dos meus vinte e cinco anos, tudo durinho. Irene não quis ir, saiu com o filho do dono do hotel, um gatão lá que era cheio da grana. Fui sozinha mesmo pro bar, vi o show, que foi ótimo, e dispensei uns vinte chatos, tudo em nome do meu ídolo. No fim, toquei direto pro camarim, mas tinha muita gente, e quando consegui entrar, a banda já tava saindo de volta pro hotel. Ah, minha filha, eu dei uma de tiete descabelada, né, gritei, fiz escândalo. Mas o Luca nem olhou pra mim. Claro que tava bêbado, aliás, ele nunca fez um show sóbrio na vida, né?

Não, desisti não. Peguei rapidinho um táxi, fui pro hotel e esperei no saguão, sentadinha no sofá. Aí percebi que tinha uma moça no sofá da frente, uma morena bonita, da minha idade, e tava vestida ainda mais provocante que eu. Ela olhou pra mim, me analisou descaradamente e perguntou se eu também esperava pelo Luca. Pois é, outra tiete teve a mesma ideia, foi o que eu também imaginei. Na hora, pensei assim, ah, não, competir por homem é baixaria. Aí respondi que tava sim, mas que a gente podia resolver a questão no par ou ímpar. Falei de sacanagem, claro, mas era o que me restava, né, levar a coisa na gozação e sair de cabeça erguida. Aí ela riu e me explicou a situação. O nome dela era Gabriela, mais conhecida por Gabi, era puta e o Luca tinha contratado um programa com ela. Acredita? Sério, Verinha, um gato daquele pagando por mulher, pode? Só que ele tava demorando demais e ela tinha outro programa na sequência, e não podia faltar pois era um cliente supervip e coisa e tal. Tá, e eu com isso?, perguntei, sem entender onde a tal da Gabriela queria chegar. Pois ela disse assim, a gente tem um corpo parecido, o cabelo também, se você topar, você vai no meu lugar, ele não vai perceber, nunca me viu pessoalmente, esses caras de banda de rock são tudo maluquinho, bebem pra caramba, querem mais é fazer festa. Acredita nisso, Verinha? Pois foi. Eu? Fiquei passada, né, amiga? Claro que não topei. Agradeci a honra, levantei e subi pro quarto, deixei ela lá no saguão esperando o cliente.

Só que eu cheguei no quarto e tive uma revelação: putaquipariu, essa menina foi enviada por Deus! Ou pelo Diabo, né? Pra fazer cumprir a intuição que eu havia tido. Tchuuumm, desci correndo. Mas ela não estava mais no saguão. Corri pra frente do hotel e encontrei a menina já dentro de um táxi. Disse a ela que tinha mudado de ideia e que topava a parada. Ela me deu o cartão dela, disse que tinha acertado por quatrocentos reais. Voltei pro saguão, peguei o celular, acessei o site dela e vi as fotos. Eram bonitas, mas em nenhuma ela mostrava o rosto direito. Aí vi a ficha dela, vinte e dois anos, nível universitário, atende em hotel e motel, aceita homem, mulher e casal, e curte anal. Vixe, vou ter que fazer o sacrifício de dar o cu pro Luca, rá, rá, rá. Sim, ela tinha nível universitário, pelo menos na ficha do site. Mas tu sabe que elas põem isso pra valorizar mais o cachê, né? Tu acha que o cara vai pedir pra ela mostrar a carteirinha de estudante?

Logo depois o Luca chegou no saguão. Veio direto falar comigo, você deve ser a Gabi, né, desculpa a demora, o show atrasou. Juro que me deu vontade de dizer: agora só por quinhentos, garotão. Mas dei um sorrisinho meigo e falei que tudo bem. Ele se despediu dos outros caras da banda, que ficaram bebendo no bar do hotel, e subimos pro quarto dele. Nervosa? Eu tava nervosíssima, amiga, sozinha no elevador com meu ídolo e morrendo de medo dele descobrir que eu não era a Gabi. No elevador, meu coração pulava tanto que eu tinha certeza que ia ter um troço. Mas ele não percebeu nada, tava bem bebinho, rindo de tudo. E eu lá, sem saber o que falar. O que uma puta fala subindo no elevador com o cliente? Pelo que saquei da Gabriela, ela até tinha um certo nível, falava bem, então achei melhor ser eu mesma, só que falando menos. Eu era praticamente uma puta muda. E ele lá, você é mais bonita que no site, e eu: obrigado. Esse vestido fica perfeito em você, e eu: obrigado. Você é tímida mesmo ou tá jogando charminho? E eu: ahn, é que eu tenho medo de elevador. Rá, rá, rá. Já viu puta com medo de elevador, Verinha? Essa não sobe nunca na vida.

Entramos no quarto e a grana já tava separadinha, em cima da mesa. Quatrocentos paus, Verinha. Num só programa aquela menina faturava mais que eu o dia inteiro atendendo doido no consultório. Luca deixou a luz do quarto fraquinha, botou um DVD do Eric Clapton, pegou uma garrafa de uísque e serviu pra ele e pra mim. Todo gentil, o safado. Me deu de presente um CD da Bluz Neon e perguntou se Gabriela era meu nome verdadeiro, pra ele poder autografar. Fiquei no maior dilema. E aí, o que eu ia dizer? Na hora me bateu um medo e acabei dizendo que era, sim. Por isso que aquele meu CD tá autografado pra Gabriela, entendeu agora?

Ele perguntou se eu queria tomar banho também e eu disse que não, mas que ele não se preocupasse pois eu tava bem limpinha. Me arrependi na mesma hora, ah, sei lá, acho que uma puta jamais ia dizer isso, né? Mas ele achou engraçado, ainda bem. Eu virei a dose rapidinho, pra relaxar, precisava, né, tava a centímetros de transar com meu ídolo do underground. Ele voltou, todo cheirosinho, tirou a minha roupa e começou a chupar meus peitos. Ah, chupou bem, sim, sem machucar. Depois me deu um banho de língua, olha, fazia tempo que ninguém me dava um banho daquele, viu, foi tão bom que passou o nervosismo e… Quem? Nelson? Que Nelson o quê, minha filha, desde que a gente casou que o Nelson esqueceu que tem língua, ô tristeza. Mas quanto a isso, eu tenho minhas alternativas, ah, claro que eu tenho, e tu conhece quem é a alternativa. Mas isso é outra história, depois eu conto, deixa eu voltar pra Natal. Aí o Luca começou a chupar minha buceta, e eu pensava assim, caramba, ele faz isso com uma puta? Depois me toquei que puta não é necessariamente uma mulher suja, né, aliás, se elas não forem limpas e bem cuidadas, quem vai querer, a concorrência é grande.

Então. Aquele safado me deixou num tesão tão grande que caí de boca no pau dele sem pedir licença nem nada, tchum, exatamente, abocanhei o choquito do Luca. Ah, eu achei bonito, e do tamanho certo pras minhas necessidades. Pois eu tava lá com a boca no material, ao som de Eric Clapton, toda entretida, quando de repente… a porta do quarto abre. E entra um cara. Era o Junior Rível, o guitarrista. Fiquei paralisada, segurando o pau do outro, parecia uma criança flagrada roubando o pirulito. Junior riu, deu boa noite e passou reto pro banheiro. Perguntei baixinho pro Luca se o amigo dele ia demorar e o Luca disse assim: não se preocupe que em quinze minutos você terá os dois só pra você.

Verinha, eu gelei. Exatamente, a Gabriela tinha acertado de dar pros dois, e a filha da mãe não me avisou. Não sei se ela me sacaneou ou se esqueceu, só sei que entrei em pânico total, né? Tu já deu pra dois caras de uma vez, Verinha? Nem eu. Quer dizer, até aquela noite nunca tinha dado. É, o Junior Rível também era um gato, eu sei, mas o foda é que o Luca tinha aquele jeitinho de cafajeste na medida exata que eu gosto, né? Naquela noite eu tava preparada pra ser puta, sim, mas, pô, pra um cara só, e não pra dois. Quase que eu desisto, claro, mas já tinha ido longe demais, concorda? Aí o Luca disse assim: ele é um cara legal, você vai ser muito bem tratada. E me deu um beijo na boca. E eu adorei o beijo.

Pois, minha filha, quando o outro voltou do banho, eu tava lá na cama, de quatro, e o Luca atrás metendo em mim, e eu adorando ele me chamando de Gabi. Ah, claro, já tinha incorporado a putinha, né, tava toda solta, muito mais do que normalmente sou. Junior serviu um uísque pra ele, botou um CD do Artur Menezes e foi se chegando, se chegando… Quando vi, ele tava batendo com o pau no meu rosto, o pauzão duro, parecia de ferro. Surra de pau na cara, é bom demais, né, também gosto muito. Aí a festa começou de verdade, o Luca me pegando por trás e o outro fodendo minha boca, me segurando pelo cabelo, e eu me sentindo a devassa toda poderosa, né? Não sei se eles dois abusaram de mim ou se fui que eu abusei dos dois. Só sei que eles fizeram tudo que queriam, era um tal de abre as pernas, Gabi, de quatro, Gabi, me chupa, Gabi, ai, como você é gostosa, você é maravilhosa, até dupla penetração a gente fez, acredita? Sim, na buceta e no cu. Não, foi minha primeiríssima vez. Ah, eu gostei, sim. A sensação? Ah, a pessoa se sente assim aquele pão do dogão com duas salsichas, sabe? Mas foi meio desajeitado, eles já tavam muito bêbados. Mas, olha, eu gozei suuuupergostoso, e o Luca no meu ouvido, goza, Gabizinha, goza pra eu ver. Tão lindo, adorei. Eles? Gozaram também, e sabe como? Na minha cara, os dois esporrando no meu rosto, eu aperreada pra não desperdiçar nenhuma gota, a própria sedenta do Saara, rá, rá, rá. Te cuida, Sasha Grey,

Depois disso, eles apagaram, e eu me mandei rapidinho pro meu quarto. Dormi superfeliz com a minha despedida de solteira. No outro dia eu e Irene almoçamos, eu de óculos escuros e chapéu, morrendo de medo dos caras me reconhecerem, já pensou? Ainda bem que não vi nenhum deles. Não, claro que não contei nada pra Irene, aquela doida nunca foi de confiança. Durante o voo foi que eu me toquei: caramba, esqueci de pegar a grana. Exatamente, deixei lá no quarto deles, ficou em cima da mesa. Como que eu esqueci? Ora, esquecendo. Se fosse puta de verdade, com certeza tinha botado logo a grana na bolsa. Eles? Ah, sei lá, devem ter pensado que a Gabizinha fez uma cortesia pra eles.

História bizarra, né? Pior que tem mais. Dias depois eu mandei e-mail pra Gabriela, agradeci, falei que tinha gostado, mas que eu tinha esquecido de pegar a grana, que se ela quisesse, podia cobrar deles e ficar com tudo. Ela respondeu que eles tinham ligado pra ela, pedindo o número da conta pra depositar, mas ela disse que não havia sido ela, que ela havia ido embora porque eles tavam demorando pra chegar no hotel. Olha que loucura, Verinha… Os caras devem ter pirado, né? Acho que estão até hoje pensando quem foi aquela doida que apareceu do nada pra dar de graça pra eles.

Espera que tem mais. Não é que a Gabriela tinha mesmo nível universitário? Fazia Sociologia. Sim, Sociologia, minha filha. Pois dia desses vi uma notícia que uma tal Gabriela não sei das quantas, socióloga de Natal, tava lançando um livro, uma dissertação de mestrado, contando sua experiência pessoal como prostituta. Ela mesma, a própria, eu vi a foto dela. Pois é, amiga, é como tu diz, não tem mais espaço nesse mundo pra amadora.

(Este conto integra a série Interações da Sacanagem, com contos baseados em termos de busca no Blog do Kelmer. Termos deste conto: psicólogas, nuas, fotos, amadoras.)

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Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

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Quarentena Erótica
Ricardo Kelmer – contos

Nos contos de Ricardo Kelmer, o erótico pode vir com variados temperos: romantismo, humor, misticismo, bizarro, horror… Às vezes, vem doce e sutil, ou estranho e avassalador, e às vezes brinca com nossas próprias expectativas sobre o que seja erótico. Explorando fetiches, fantasias, delírios e tabus, e até mesmo experiências reais do autor e de seus leitores, as estórias deste livro acabam de chegar até você para apimentar seus dias, e suas noites, de quarentena. > saiba mais

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Protegido: As taras de Lara – Pneu furado (VIP)

14/02/2021

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As taras de Lara – Pneu furado

14/02/2021

14fev2021

Lara só queria provar a si mesma que tinha controle sobre si, mas…

AS TARAS DE LARA – PNEU FURADO

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Naquela manhã, antes de ir para o colégio, a menina Lara olhou-se no espelho do quarto. Conferiu o uniforme e ajeitou o laço no cabelo. Já estava acostumada com sua cara de meninota pré-adolescente, apesar de já ter 16 anos, e até gostava de se ver mais nova do que era. Porém, naquela vez, algo havia mudado. Do outro lado do espelho não era mais a mesma meninota quem a olhava. Ela estava diferente. O quê, exatamente, não sabia. Mas estava.

Na noite anterior, finalmente perdera a virgindade. A bucetal, claro, pois a anal se fora dois anos antes com o namorado da época, com quem transava na sala enquanto os pais, no quarto, ignoravam as safadezas da filha que julgavam tão santinha. Na noite anterior, fora, enfim, desvirginada na frente. Por um… urso. Sim, o Nicolau, seu ursinho de pelúcia, que agora, sentado no canto da cama, olhava para ela como se pensasse: Humana taradinha…

Não era para ter sido assim. Nossa menina bem que tentara do modo convencional, verdade seja dita. Tentara com Jorge, primo da ex-amiga do colégio, e com Berel, o surfista otário, mas não fora feliz. Quis o destino que fosse com Nicolau. Aliás, precisava decidir o que faria com ele, pois manchara o pelo do ursinho com seu sangue. Mesmo após a lavagem, continuava manchado. Jogar no lixo? Não, não podia fazer isso, afinal ele fora seu primeiro homem. Ou homem só prestava para isso mesmo?

No colégio, cruzou com Didica, a ex-amiga, e novamente fez que não viu. Não conseguia perdoá-la pelo que fizera. Veio-lhe a lembrança da noite no Sabrina´s Motel, ela, Didica e o primo Jorge, as duas virgens, prontinhas para serem desvirginadas por ele… Ela despertando no sofá da suíte, bêbada e ainda virgem, enquanto a amiga toda feliz na cama com o primo… Aquilo fora uma traição de alto grau, a amiga a deixara dormindo no sofá para ter Jorge só para si. Imperdoável.

Bem, isso era passado. Agora, Lara era uma ex-virgem completa. Vida nova. O mundo cheio de homens interessantes por aí. Paus de todas as cores e sabores.

Conhecendo-se como conhecia, ela sabia que, mesmo que tentasse se controlar, em poucos dias estaria implorando por sexo, e sempre que ficava nesse estado era capaz de cometer as piores doidices. Sim, masturbar-se com o vibrador que ganhara da amiga Geísa aliviava a tensão, mas não era suficiente: quando o cio chegava, ela virava a Lara Tara, e essa outra Lara nunca a escutava. Só havia uma maneira de manter Lara Tara quieta: transando. Porém, no momento estava sem namorado e não queria voltar a namorar tão cedo.

Lara entrou em sua sala, sentou-se e aguardou que o professor de história começasse a aula. Ele tinha seus 30 anos, e Lara não o achava bonito, mas ultimamente percebia uns certos olhares da parte dele… Ou seria impressão sua?

Não, isso não pode estar acontecendo…, nossa menina pensou, desviando o olhar do professor. Não fazia nem 24 horas que fora comida por um urso e já estava pensando em sexo?

Os dias seguintes foram uma rotina de casa e colégio, colégio e casa. Período de provas, precisava se concentrar nos estudos. Para isso, até escondeu Nicolau no guarda-roupa, não queria nenhum urso olhando para ela com cara de pidão. Quinze dias depois, passadas as provas, ela saiu com duas garotas da sala, que conhecera naquele ano. Foram a um shopping, viram um filme, lancharam e falaram mal dos homens. Voltaram para casa com Pedro, o irmão de uma delas, que fora buscá-las. Lara não viu nada demais nele: vinte anos, baixinho, narigudo, feio mesmo. Mas ele viu nela. E enquanto se despediam, Pedro perguntou se ela aceitaria sair com ele no fim de semana seguinte. Lara ia dizer não, mas pensou que poderia ser uma oportunidade de provar a si mesma que tinha controle sobre seus hormônios, e aceitou. Ela entrou no prédio rindo de si mesma e pensando: Lara Tara, você tá precisada, eu sei, mas você não vai dar pra esse feioso…

No fim de semana, foram passear no calçadão da beira-mar. Tomaram caipirosca enquanto viram o cair do sol por trás dos prédios da orla. Lara percebia que Pedro estava interessado, fazia esforço para agradar… mas ele não provocava absolutamente nada nela, mesmo com aquelas três semanas de abstinência. Isso deixou nossa menina aliviada. Ela não era tão ninfomaníaca assim…

No trajeto de volta, Pedro comportou-se como um cavalheiro, não forçou nada. Lara achou bonita sua atitude, mas só isso mesmo. Quando passavam em frente a uma praça, perceberam que o pneu furara e Pedro parou o carro. Enquanto ele se preparava para fazer a troca, Lara sentou-se no banco e reconheceu o lugar, costumava brincar naquela praça até poucos anos atrás, não mudara nada. Tirou o celular da bolsa e conferiu as mensagens no celular. À sua frente, Pedro, agachado, girava a chave em forma de cruz para retirar o pneu furado. Era a primeira vez que ela via um homem trocar o pneu de um carro. Nesse momento, Lara percebeu que ele suava… e o suor escorria por seu rosto…

Sentada no banco, Lara não respondeu à mensagem da amiga. Estava hipnotizada pela visão daquele homem suado, fazendo força, os músculos enrijecidos, o suor escorrendo do rosto… Ela viu a camisa molhada, as mãos sujas, e nesse momento sentiu o alvoroço no meio das pernas, aquele velho comichão tão conhecido. Pensou em perguntar se ele queria ajuda, mas logo desistiu, queria vê-lo naquele trabalho braçal, fazendo força e suando e se sujando ainda mais. Pedro, concentrado, parecia querer terminar logo com aquilo, como se estivesse envergonhado por a noite terminar de maneira tão ridícula. Lara, porém, estava encantada. De repente, o irmão de sua nova amiga já não parecia tão feio. Parecia outro homem…

Quando Pedro recolheu as ferramentas, guardou o pneu e bateu a porta do bagageiro, Lara respirou fundo.

‒ Desculpe pela demora, Lara. Agora podemos ir.

Ela ergueu-se do banco devagar. À sua frente, aquele homem suado e arfante, limpando num pedaço de pano as mãos enegrecidas, pedindo-lhe desculpas… Lara percebeu-se excitadíssima, e soube que não havia mais retorno. Avançou, puxou o pano das mãos de Pedro e o atirou longe.

‒ Fica melhor assim ‒ ela disse, séria.

‒ Mas…

‒ Vamos ‒ ela ordenou, dando a volta no carro. ‒ Do outro lado da praça tem um cantinho seguro.

Pedro hesitou, sem entender o que ela queria dizer e surpreso pela mudança de comportamento na garota que até um minuto antes era a delicadeza em pessoa.

‒ Vai ficar aí parado, Pedro? ‒ ela perguntou, entrando no carro e fechando a porta. E Pedro foi obrigado entrar, ligar o carro e dirigir até o outro lado da praça, onde parou sob as sombras das árvores. Ao seu lado, a ex-doce garotinha já estava quase sem roupa.

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(continua na área vip)
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Ricardo Kelmer 2019 – blogdokelmer.com

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AsTarasDeLaraLogo-01aAs Taras de Lara – capítulos publicados

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Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres
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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – Um casal apaixonado vive seu amor libertino com bom humor e muita safadeza

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O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir
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DICA DE LIVRO

IFTCapa-04aIndecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos eróticos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e salvação por meio da submissão no sexo anal

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01-


Viajando na Maionese Astral cap. 1, 2 e 3

22/12/2020
 

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VIAJANDO NA MAIONESE ASTRAL

Memórias exóticas de um escritor sem a mínima vocação para salvar o mundo

Ricardo Kelmer – Miragem Editorial, 2020 .

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RESUMO
Aos 30 anos, Ricardo Kelmer largou uma banda de rock para liderar um aloprado grupo esotérico que planejava salvar o mundo e lançou-se como escritor com um livro espiritualista de sucesso, hoje renegado. Enquanto relembra as pitorescas histórias desse tempo, ele nos conta curiosidades da carreira literária, reflete sobre sua relação com o feminino, o xamanismo, a filosofia taoísta e a psicologia junguiana, e, com bom humor e ironia, revela intimidades nos departamentos do amor e da amizade, do sexo e da boemia, da prostituição e das drogas ilegais, dos fracassos e das crises existenciais. Como pano de fundo das memórias, vê-se a trajetória de um líder de grupo de jovens católico que se transformou em falso guru da nova era e, por fim, em ateu combatente do fanatismo religioso e militante na luta antifascista.

> Na página do livro: texto de apresentação, comentários de leitores, curiosidades

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cap 1
ESQUELETOS DO PASSADO

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arqueologia da psique

Eu tinha 28 anos, morava nos braços dengosos da minha loirinha desmiolada de sol, também conhecida por Fortaleza, e cursava Letras na Universidade Federal do Ceará (UFC). Trabalhava como atendente numa clínica veterinária e, em paralelo, faturava um extra fazendo produção de eventos e festas temáticas. Era 1992, e o velho sonho de ser escritor profissional, que me possuíra a alma ainda na infância, resistia, sim, mas com tantos afazeres, e precisando atender também às obrigações boêmias, não me sobrava tempo nem disposição para escrever.

Essa situação me angustiava que nem uma gravata apertada, mas, por outro lado, eu sabia que a carreira de escritor é muito incerta e que assumi-la exigiria sacrifícios que eu não estava disposto a pagar. Sim, pode me chamar de covarde, eu era isso mesmo, e essa covardia começava a travar meu processo de autorrealização, que Jung chama de individuação, e que eu ainda não sabia o que era, mas saberia alguns anos depois, quando fosse apresentado à psicologia junguiana.

Resumindo: meu futuro literário cada vez mais se resignava a um triste e desmilinguido cantinho naquela tal prateleira da vida inteira que poderia ter sido e que não foi, como diria Manuel Bandeira, meu poeta preferido.

Então…

(musiquinha de suspense)

Então, tudo começou a mudar no dia em que eu soube de uma palestra sobre sonhos e experiências fora do corpo. Eu não podia imaginar que isso abriria as portas do meu destino.

Antes, porém, de prosseguir, permita-me voltar no tempo. Tentarei localizar, feito arqueólogo da psique, restos fossilizados de minhas experiências com as letras, a religiosidade e o feminino. Isso me ajudará a entender melhor minha própria trajetória, as minhas mortes e a aventura bizarra que estava prestes a acontecer.

magia dos livros

Nascido em 1964, em Fortaleza, capital desse chão mítico que chamamos Ceará, vivi nela toda a infância e a adolescência. Família classe média, e depois média alta. Sou o mais velho dos quatro irmãos, mas tive uma irmã mais velha, Gina, que morreu com dois anos, de hidrocefalia, o que fez com que meu nascimento fosse cercado de muita expectativa. Educação católica, em casa e nos colégios. Moramos no Centro e na Parquelândia, e em 1972 mudamos para o Cocó, o que me possibilitou um fim de infância em contato com a Natureza: dunas, mato, lagoa, praia, bichos soltos pelas ruas e muita cobra passeando faceira dentro de casa. Era um privilégio.

Aos 6 anos, me apaixonei pela professora do colégio Cristo Rei, que apenas sorria da minha paixão envergonhada. Infelizmente, ela não quis nada comigo. Desconfio que foi pela diferença de idade, as pessoas não iriam aceitar – tudo bem, Eliane, eu entendo. Era o arquétipo do feminino já a me seduzir em suas múltiplas e irresistíveis manifestações, eu tão novinho, coitado…

A primeira experiência marcante com livros se deu aos 7 anos, no colégio Santo Inácio. Uma vez por semana, íamos à biblioteca, que funcionava numa pequena sala. Putz, eu adorava! Um dia, no momento de voltar para a sala de aula, me escondi sob a mesa. Meus colegas saíram, a professora apagou a luz, saiu e trancou a porta. Fiquei lá sozinho, envolvido pela penumbra, naquele imenso e solene silêncio… De repente, eu tinha todos os livros do mundo só para mim, que maravilha. Foram apenas alguns minutos, até a professora vir me buscar, mas algo muito sério aconteceu naquela biblioteca. Acho que o universo mágico dos livros se abriu para mim e fui invadido por uma sensação de encantamento. Uma experiência numinosa, foi isso que vivi, hoje sei. Na verdade, acho que nunca mais saí daquela sala. Continuo lá, em estado de maravilhamento, fora do tempo…

Aos 8 anos, contraí uma pneumonia que quase me mandou para a tumba. Sem poder ir ao colégio, passava o tempo entre os livros do Tarzan e os quadrinhos do Príncipe Valente e do Homem Aranha*. Tinha também a turma da Mônica, com aquele personagem que me fascinava, o Louco. Sem falar dos personagens da Disney, claro, ah, o Manual do Escoteiro Mirim… Se existia um paraíso, naqueles dias eu morei nele de pijama. Foi assim, fugindo da morte, que me veio a ideia: quando eu crescesse, escreveria histórias como aquelas para os outros lerem. Promessa é dívida, viu, menino?

Agora, meu primeiro e vergonhoso delito. Ele ocorreu justamente por conta dessa incipiente paixão pelos livros. Quando tinha 9 anos, participei de uma gincana no colégio, na qual os alunos que conseguissem vender certa quantidade de selos ganhavam como recompensa uma coleção de livros com os contos folclóricos dos Irmãos Grimm. Sai oferecendo os selos aos colegas, à família, aos vizinhos, a desconhecidos na rua… Como não consegui vender todos, decidi roubar dinheiro da bolsa da minha mãe, e foi assim que, para minha felicidade, adquiri os livros. Porém, dona Vilminha deu pela falta do dinheiro e tive que confessar meu crime. Como não quis dizer que roubara para comprar livros, criei uma justificativa que julguei mais nobre e aleguei que roubara o dinheiro para dar para a moça que trabalhava em nossa casa. Ela, coitada, ficou muito surpresa e negou tudo, claro, e no fim meus pais felizmente entenderam que ela não tinha culpa, mas agora sabiam que tinham um filho literato e ladrãozinho.

Anos depois, esse episódio ressurgiu em minha lembrança e fui tomado de imensa vergonha, e me assustei com minha atitude. Isso acendeu uma luzinha vermelha em meu processo de autoconhecimento e me serviu de alerta para o quanto eu podia ser egoísta, falso, mesquinho e covarde em nome dos meus objetivos.

religião, morte, versinhos, sacrilégios

Aos 10 anos, como todo bom menino católico, fiz a primeira comunhão e lembro que me senti muito frustrado, inconformado mesmo, porque Jesus não apareceu para mim quando recebi a hóstia, contrariando a expectativa que alimentei por um ano inteiro. Isso me incomodou, mas não tanto quanto um fato ocorrido dias antes, que guardo como o primeiro questionamento filosófico de minha vida*.

Esperávamos a aula começar, quando um padre do colégio distribuiu para os alunos um folheto com a imagem de Jesus e um texto sobre a eucaristia. Enquanto eu lia, um colega ao lado ergueu seu folheto e o rasgou em pedacinhos, dizendo, com raiva, que aquilo tudo era mentira. Fiquei perplexo, sem acreditar. Tentei entender por que ele fazia aquilo, mas logo um pensamento mais profundo e inquietante me tomou: então aquilo era possível? Alguém podia fazer o que meu colega fizera e não ser instantaneamente fulminado por um raio vindo do céu?

Eu sabia que, embora o colégio fosse católico, os alunos não eram obrigados a fazer a primeira comunhão, mas até então eu jamais cogitara, sequer por um segundo, a ideia de que era possível não ter religião ou, pior, não crer na existência de Deus. Pela primeira vez, eu enxergava um pouquinho além da redoma religiosa dentro da qual fora criado.

Relevei a atitude do rebelde colega e perdoei a Jesus por não ter aparecido para mim, até porque eu tinha consciência de que era um menino abençoado, pois já escapara das garras da morte por quatro vezes. Sim, quatro. A pneumonia eu já contei, mas, anos antes, a rede onde eu dormia pegou fogo e assei dentro dela feito churrasquinho até conseguirem me tirar. De outra vez, atravessei a avenida correndo e, bufo!, fui atropelado por um fusca, e a porrada foi tamanha que minha cabeça afundou o capô. Não morri nesse dia por ser cabeça-dura. Depois, me afoguei na piscina do clube e, quando meus pais se deram conta, eu já estava lá no fundo, bem quietinho. Até hoje ponho água para fora.

Versinhos para as professoras no dia do aniversário delas – confesso que eu fazia isso. E elas adoravam. Dona Conceição, por exemplo, achava lindas as redações que eu escrevia, e eu fazia questão de caprichar só para ganhar seu abraço apertado e afundar a cabeça entre seus peitões. Eu começava a descobrir os prazeres da literatura…

Sabe o Peninha, o primo destrambelhado e metido a esperto do Donald, que era repórter do jornal A Patada, do Tio Patinhas, e que nas horas vagas se transformava no intrépido Morcego Vermelho? Era o meu personagem Disney favorito. O Manual do Peninha virou meu livro de cabeceira. Então, negativamente influenciados pelo Peninha, meu primo Jamiro e eu fundamos um jornal. A sede ficava na garagem da casa dele, e tudo que tínhamos era uma centenária máquina de escrever faltando várias teclas, umas folhas de papel já usadas de um lado e papel-carbono. Revelando toda nossa criatividade, batizamos o jornal de… A Patada. Meu primeiro trabalho, ah, foi inesquecível: entrevistar Emerson Fittipaldi, o bicampeão de Fórmula 1. Coisinha simples, para começar. Então, saí pelas ruas do Centro, munido de caneta e bloquinho de papel, a procurar pelo grande piloto, mas ninguém soube me informar onde ele morava, até porque ele nunca morou em Fortaleza. Nosso jornal teve a expressiva quantidade de zero edições. Foi meu primeiro fracasso profissional.

Mas não desisti. Em seguida, criei um jornalzinho caseiro com notícias do cotidiano familiar: a goiabeira deu a primeira goiaba, a cadela rasgou a cueca do papai, meu irmão pegou meus brinquedos sem me pedir permissão… Era uma folha de papel escrita e colorida a mão, fixada à parede da sala. Chamava-se… Fofocal. Para você ver como desde pequeno eu me supero no ridículo. Ninguém gostou do jornal, principalmente meu irmão delatado Marcio, e o Fofocal morreu no lançamento. Meu segundo fracasso profissional. Vai anotando.

colégio militar, orgasmo, o feminino, contos eróticos

Então, aos 10 anos, passei no concurso e virei aluno do Colégio Militar*. Fui para lá porque o ensino era considerado excelente e seria uma boa economia para meus pais, pois era quase gratuito. Além disso, meu pai queria que eu seguisse a carreira militar, cursar a Academia das Agulhas Negras, quem sabe até ser Presidente da República… Bem, concedamos um desconto à megalomania paterna: estávamos em 1975, na ditadura militar, e a carreira de milico representava um futuro financeiramente tranquilo.

No início, ser aluno do Colégio Militar me empolgou, tudo era novidade, e eu andava nas ruas com orgulho do meu uniforme, percebendo os olhares que nos lançavam as meninas do colégio Imaculada Conceição. Eu, que era ótimo aluno de Português e Redação e amava as crônicas da série Para Gostar de Ler, passei a relatar minhas experiências numa série de textos que intitulei Os Melhores Momentos da Minha Vida. Boa parte deles falava das festinhas e da grande emoção de dançar com as meninas. Ainda não eram contos eróticos, mas tenha calma que logo chegaremos lá.

Quer saber como foi meu primeiro beijo de língua? Deu-se por essa época. Foi bom, mas infelizmente ela não mexia a língua. Na verdade, ela não tinha língua, a coitada. Chamava-se Amiguinha*, era uma boneca quase do meu tamanho, da minha irmã mais velha. Eu treinava com Amiguinha para quando fosse beijar as meninas do Imaculada, o que jamais chegou a acontecer, ô iludido.

Minha mãe tinha um Bel Linha, um aparelho vertical de massagens para eliminar celulite. Em pé, a pessoa encaixava a cinta vibracional ao redor da cintura, nas pernas ou na bunda, ligava e ela vibrava, massageando. Um dia, testando o aparelho, me virei de costas para ele, encaixei a cinta abaixo da cintura e liguei. No início, a vibração fez cócegas, mas logo depois a sensação ficou boa, ficou gostosa, ficou muito prazerosa e, ops, o que é isso, tô sentindo uma coisa estranha… aaaaaahhhh… Foi assim, aos 10 anos, o meu primeiro orgasmo, que eu não sabia nem que tinha nome, e descobri que aquilo me deixava meio tonto e feliz, e descobri também que, mesmo querendo mais, tinha que esperar um tempo até poder repetir. Uau, aquilo era melhor que brincar de Forte Apache. Solidário, avisei aos meus irmãos sobre a incrível descoberta, e eles experimentaram, mas não se entusiasmaram. Fiquei viciado no Bel Linha, a tal ponto que dona Vilminha precisou trancar o quarto, caso contrário eu passaria a tarde inteira lá.

No segundo ano ginasial, fiquei conhecido no Colégio Militar: venci o 1° Campeonato de Futebol de Tampinha, promovido pelo grêmio. Fui o campeão, duelando contra os melhores jogadores, inclusive caras mais velhos. Foi o máximo! Das conquistas que tive na vida, foi esta, aos 12 anos, a mais valiosa de todas, pois ela me deu a certeza de que eu era capaz. Se eu não tivesse perdido minha medalha de ouro, ainda hoje andaria com a bichinha pendurada no pescoço.

Nesse mesmo ano, aconteceu meu primeiro namoro. Durou apenas três dias, mas vale como registro, inclusive porque ele trouxe o segundo questionamento filosófico da minha existência. Eu gostava das minhas duas vizinhas, que eram amigas, e ambas me queriam. Fiquei terrivelmente angustiado com a necessidade de escolher apenas uma delas. Por que não as duas, por que tinha de ser assim, por quê? – eu não me conformava. Infelizmente, precisei escolher. Então, com todo o pragmatismo que um adulto de 12 anos pode ter, escolhi a que tinha piscina em casa. Mas a outra não se conformou e, para aumentar minha angústia, insistiu para que eu mudasse minha decisão, o que quase ocorreu. Putz… Foi minha estreia nesse improdutivo embate, que eu travaria pelos trinta anos seguintes, contra a pior das monogamias, a compulsória. Voltarei a este tema depois, prometo.

Um ano mais nova que eu, minha irmã Ana estudava no Imaculada. Então, conheci suas colegas e passei a aguardar ansiosamente pelas tardes em que elas iam estudar lá em casa. Ah, eram dias especialíssimos… Eu ficava estudando em meu quarto, aguardando pelo momento em que elas paravam e iam tomar banho. Era um lindo filme que eu assistia escondido, trepado num banco no corredor lateral da casa, eu lá observando por entre as frestas da janelinha no alto, ladrão de intimidades, fascinado pela transcendental visão das meninas nuas a se ensaboar, meu coração acelerado, a alma em total alumbramento, eu tremendo de assombro e prazer…*

Foi assim, aos 13 anos, inspirado pela poesia do feminino, que o Jeitoso, atuando ao sul do umbigo, se impôs em minha vida e passou a ser cogerente das minhas decisões. O Jeitoso só ganharia esse nome muitos anos depois, e eu nem lembro mais quem o batizou assim, mas o fato é que lá estava eu, adolescente com espinhas na cara, a penetrar de vez a dimensão sexual da existência.

Você lembra dos contos eróticos da revista Ele Ela? Eles me motivaram a escrever meus primeiros contos, expressando as safadices que eu desejava fazer com as mulheres. Durante as aulas, meus textos circulavam discretamente entre os colegas, que liam com a sofreguidão típica dos adolescentes lotados de hormônios. Um dia, o professor de português descobriu, pegou a folha de papel e leu em silêncio, em pé ao meu lado. E eu lá, suando de nervosismo e vergonha. Em certo momento, ele comentou surpreso uma passagem que falava de uma… “abordagem anal”. Putz! Expulsou-me da sala? Não. Devolveu a folha e disse que estava bem escrito, mas que eu devia prestar mais atenção às aulas. Que alívio!

Susto grande, mas segui escrevendo contos eróticos. Um dia, minha mãe descobriu o caderno no qual eu os escrevia e, indignada, deu um sumiço naquela pouca-vergonha. Dona Vilminha deve ter ficado especialmente horrorizada com um conto cujas protagonistas eram as funcionárias da loja dela, ou com um outro no qual me aproveito da embriaguez da minha prima. Entendo perfeitamente sua preocupação, mamis, mas de nada adiantou, eu já era um Marquezinho de Sade.

poeta e místico

Por essa época, comecei a cometer meus poemas, que variavam entre dramas amorosos, erotismo e misticismo, e alguns com uma vaga temática social. E, como achei que podia ser músico, tive aulas de violão. Eu me imaginava tocando canções para as meninas, em noites ao luar, todo galanteador. Cheguei a compor uma música, absolutamente horrorosa, cujo refrão era uma pérola de criatividade (Amor, eu te amo, amor, eu te amo, amor, eu te amo…) e que, naturalmente, se chamava Amor, Eu te Amo. Imagine a cena: eu tomei coragem e finalmente me declarei à garota, e toquei a música para ela, que escutou com atenção e depois chorou, chorou muito… com pena de mim. Não, isso não rolou, mas com certeza é o que teria acontecido. Felizmente, desisti logo do violão. Mas a música não desistiria de mim, como você em breve verá.

Após quatro anos no Colégio Militar, o que antes era empolgante virou insuportável. O ar repressor, aquela ênfase na autoridade e na obediência, o cabelo raspado… Isso tudo entrou em conflito com minhalma de poeta rebelde e meus casos de indisciplina se tornaram frequentes. E, putz, eu queria estudar num colégio que também tivesse alunas! Preocupados, meus pais me puseram em outro colégio. Foi assim que perdemos a chance de ter um general na família.

No novo colégio, o Marista, também católico, havia alunos homens e mulheres. No início, eu ficava nervoso diante delas, a voz desafinava e me atrapalhava todo, era uma lástima. Estava intimidado pela grandeza do feminino. Elas eram tão lindas, tão sensuais, e eu me perdia de admiração de vê-las passar… As curvas de seus corpos, as protuberâncias, o jeitinho de mexer no cabelo, aquela força indefinível que elas exalavam – tudo no universo feminino era belo e me inspirava textos, que, mesmo envergonhado, passei a mostrar para elas. Virei o poeta da turma. E descobria que, se não era o mais bonito, o craque do futebol ou o bom de briga, podia impressionar as garotas com as palavras.

Aos 15 anos, meu primeiro Carnaval, para valer. Uau, foi uma das mais impactantes descobertas de toda a minha vida. Então, era aquilo o Carnaval? Toda aquela alegria, a embriaguez, a licenciosidade – era perfeito! Até hoje, quando ouço Moraes Moreira, me vem a lembrança do cheirinho da loló. Infelizmente, eu era tímido demais, desses que fica a noite inteira tomando coragem para chegar junto da musa e sempre volta para casa arrasado e odiando a si próprio. Bem, ao menos nos poemas eu podia ser um folião safado e feliz.

Em paralelo à literatura, me interessavam também assuntos ligados a psicologia e potencialidades da mente. Li alguns livros, como o Método Silva de Controle Mental, e comecei a perceber a importância de uma rígida disciplina mental para alcançar os objetivos.

E lia também sobre parapsicologia, ocultismo e bruxaria. Nessa época, vi o filme O Exorcista* (do diretor William Friedkin, baseado no romance de William Peter Blatty). Eu sabia que era um filme apavorante, e meus pais me aconselharam a não ver. Mas encarei tudo como um desafio pessoal – se o Diabo existia mesmo, eu queria medir forças com ele. Doces ilusões… É claro que o Diabo existia – mas apenas nas minhas crenças, e ao longo da vida eu teria boas oportunidades de confrontá-lo, sempre que fosse tentado a ser infiel às minhas verdades.

Então, fui ver O Exorcista. Putz… Quase me caguei nas calças de tanto medo. Nessa noite, precisei dormir no quarto dos meus pais, eu, marmanjo de 15 anos, que ridículo. E minha mãe: Eu te disse, eu te disse… Dias depois, queria ver o filme novamente, tão fascinado que fiquei.

E havia os sonhos. Eis um tema que desde cedo me encantou. Onde minha noção do eu ficava quando eu dormia? O que em mim prosseguia funcionando, gerando sonhos? Seria o estado de sono uma espécie de passagem para outras dimensões da realidade? Ah, os sonhos eram mistérios fascinantes, e todas as noites eu adormecia como alguém que caminha, reverente, para a grande verdade… mas no outro dia acorda frustrado por continuar sem conhecê-la.

grupo de jovens, posfácio de espirro

Em 1981, existia um retiro espiritual que era moda entre a turma. Aos 16 anos, participei de um desses, organizado pelos padres da paróquia de São Vicente. O retiro ocorria num sítio na Água Fria e objetivava sensibilizar ao máximo os adolescentes com depoimentos, palestras e vivências. No último dia, à tarde, acontecia o clímax do evento: a equipe “da pesada”, que trabalhava na cozinha e na limpeza, mas permanecia estrategicamente oculta, era apresentada, e eram entregues as cartinhas que os “mensageiros” recolheram com os familiares dos participantes. Enquanto eram entoados cânticos de louvor, a garotada lia as cartinhas e muitos choravam e se arrependiam de seus horrendos pecados. Eu? Bem, eu quase me acabei em lágrimas, sensibilizado pela súbita percepção de que Jesus, o filho de Deus, se sacrificara por mim naquela cruz. Por mim. Como não se sentir desgraçadamente culpado?

Após o retiro, integrei o ENJOP, o Encontro de Jovens da Paróquia da Paz*, um grupo criado para reflexão bíblica e ação na sociedade, dentro do espírito das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e da Teologia da Libertação. Foi aí, aos 16 anos, que eu, adolescente de classe média alta e filhinho de papai, adquiri um início de senso de justiça social. Coordenei esse grupo e também uma das edições do retiro, onde dava palestras sobre Francisco de Assis, e criei um jornalzinho mensal voltado aos jovens da paróquia, do qual eu era o faz-tudo. Chamava-se O Mensageiro e era impresso em mimeógrafo, algo que você, se tem menos de cinquenta, certamente não faz ideia do que seja, e nem vou dizer para você ficar na curiosidade. Foi meu terceiro jornal, e este durou cinco meses.

Eu levava a coisa tão a sério que passei duas viradas de ano em retiro, rezando pela paz no mundo, acredita? Como sabemos, não adiantou nada, a humanidade segue em sua desgraça. E mais: eu cogitava entrar para o seminário e ser padre – juro que é verdade. Quando soube, meu pai aprovou: É uma boa, pois padre não paga aluguel, almoça de graça e não precisa registrar os filhos. Seo Galvonis até tinha razão, mas aí namorei uma colega do grupo, depois outra, e desisti desse negócio de batina. Perdemos a chance de ter um bispo na família.

O fervor religioso duraria dois anos. O filhinho de papai agora cursava Comunicação Social na UFC e descobria os demoníacos prazeres da boemia. Comecei a me sentir oprimido por aquela filosofia controladora feita de culpa e pecado e questionei os dogmas do cristianismo. O ambiente desbundado da faculdade, os barzinhos e o amor pelas artes, em especial a literatura, eclipsaram qualquer sacrifício que Jesus pudesse ter feito por mim, e então larguei o grupo de jovens, deixei de ir às missas e o cristianismo perdeu um adepto.

Segui minha vida, sendo um místico sem religião, mas que gostava de estudá-las e de explorar os mistérios. Frequentei centros espíritas e terreiros de Umbanda. Não acreditava mais no Deus cristão, nem em Céu e Inferno, e no lugar dessas coisas pusera uma energia cósmica impessoal que não julgava a ninguém. Eu rumava para o ateísmo, mas ainda precisava crer em algo do reino do sobrenatural, e não tinha posição definida sobre o pós-morte, espíritos e reencarnação. Eram ideias interessantes, mas carentes de comprovação.

Foi nesse período que senti que precisava me livrar de uma mania adquirida na infância. Quando pequeno, minha avó materna me ensinara uma mandinga: sempre que espirrasse, devia falar “Ave Maria”, para a Virgem me proteger de doenças. Era um posfácio de espirro. Porém, como eu já não era cristão, não mais fazia sentido. O diacho é que, após quinze anos de repetições, eu estava tão condicionado que a mania continuou firme e, comecei a me achar o ex-cristão mais ridículo da galáxia.

Talvez se eu trocasse a fala da mandinga… Então, chamei o poeta Manuel Bandeira para me acudir com seu poema Vou-me embora pra Pasárgada, que era meu lema de vida. Posfácio por posfácio, que fosse um que eu acreditasse, né? E funcionou. Agora, eu espirrava e, em vez de “Ave Maria”, emendava imediatamente com “Vou-me embora pra Pasárgada”. Esse posfácio durou vinte anos, e depois vieram outros, criados de acordo com a fase que eu vivia. Atualmente, é “Vida que frutifica”. Cada doido com sua mania.

faculdade, viagens, excomunhão

Devorador de livros da biblioteca do Centro de Humanidades, um dia, aos 18 anos, descobri O Encontro Marcado*, romance de Fernando Sabino. A leitura foi impactante e me fez ver que eu não tinha opção: ou seria escritor ou morreria frustrado. Embriagado dessa certeza, uni-me ao colega Roberto, datilografamos uns poemas nossos, montamos um livretinho de bolso com oito páginas grampeadas e lhe demos o nome de Tanto Faz como Tanto Fez. Fizemos duzentas cópias e saímos vendendo para os colegas e na rua. Com o arrecadado, enchíamos a lata de cachaça e brindávamos à poesia e à amizade. Embora de um modo bastante simplório e descompromissado, aquilo me pareceu o primeiríssimo passo de uma carreira literária.

Não concluí Comunicação Social, mas fiz amigos na faculdade que seguem comigo até hoje, li toneladas de bons livros, participei da minha primeira campanha política engrossando a massa que gritava Diretas Já e fui apresentado, pelo amigo Alberto, a Ypê, a mais transcendental das canções de Belchior*. Embriaguei-me após as aulas nos botecos da redondeza, conheci a maconha e viajei de semileito para aqueles dionisíacos encontros de estudantes. Num deles, em Campinas, conheci um poeta gaúcho, Edgar*, e nos anos seguintes fomos companheiros de saborosas viagens pelo Brasil, regadas a violão, cachaça, Bandeira, Pessoa e Vinicius, morrendo toda noite de paixão pelas ninfas que cruzavam nossos caminhos. Com Edgar, aprendi: viver não é preciso, flanar é preciso.

Em 1985, aos 20 anos, dei uma de mochileiro e fiz uma viagem de dois meses, passando pelo Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, vendendo artesanato cearense para me sustentar na estrada. Foi meu primeiro movimento significativo de lançar-me nas incertezas do mundo, longe da segurança de casa. A viagem começou com dois dias de ônibus para o Rio para curtir a primeira edição do Rock in Rio*. Sabe o Ozzy Osbourne? Enquanto ele berrava no palco, eu, no meio daquela plateia de cem mil pessoas, fumei um baseado e tive minha primeira lombra torta, tão torta que fui parar na enfermaria tomando glicose na veia. Apaguei na cama e acordei ouvindo Rod Stewart cantando You´re my Heart. Já recuperado, saí correndo, driblei a segurança e voltei para a plateia. Coisas de jovem imortal, você sabe.

Agora, vamos a mais um delito. Eu tinha um caso com uma garçonete (ai, as garçonetes) de um bar na Santos Dumont. Eu ia lá nos fins de noite só para ganhar um agrado dela: sentava na última mesa do mezanino, que era bem escuro, pedia uma cerveja, a garota trazia e, muito dadivosa, aproveitava o ensejo e me servia um prestativo boquete. Pois bem. Um dia, ela me avisou que estava grávida. Grávida de mim. Putz. Eu, que nunca quis ser pai, respirei aliviado ao saber que ela também não queria ser mãe, e decidimos pelo aborto, que foi feito em condições simplórias na residência de uma enfermeira aposentada – era o que podíamos pagar. Foi uma experiência difícil para nós dois, e enquanto acompanhava a recuperação da garota, senti-me diminuído ante sua força e coragem, e percebi que a tal fragilidade das mulheres é uma grande mentira, estrategicamente construída pelo patriarcado. Eu tinha 20 anos e o episódio me fez avançar um pouco mais na percepção do machismo e na histórica questão da opressão da mulher, e, ao mesmo tempo, me causou a excomunhão da Igreja Católica. Sim, de acordo com o código de direito canônico, aborto é um dos casos de excomunhão automática (latae sententiae). Você aí que me lê, talvez você também seja um excomungado e não sabe.

E os meus textos? Começando a rarear. Eu estava inspiradíssimo para viver a poesia da vida, é verdade, mas nem tanto para escrevê-la.

Dos 17 aos 23, trabalhei como contínuo de loja de presentes, escriturário do Bradesco, redator de publicidade, vendedor de malha de Petrópolis, representante comercial de rádio e jornal e, tchan-tchan-tchan-tchan!, fornecedor de lança-perfume para os amigos. É bom registrar, anota aí, que também fornecia para respeitáveis senhoras e senhores da alta sociedade em festas no clube Náutico. Poizé, ganhei uma graninha boa explorando a velha e natural necessidade humana de estados especiais de consciência. Sim, natural, veja o caso das crianças: elas adoram rodar e rodar até cair tontas no chão. E admito que, sim, me aproveitei das donzelas desavisadas, esguichando o cloreto de etila na gola da minha camisa, quer experimentar, cheira aqui, vem logo antes que evapore…

Badauê, Breg Brothers e Belas da Tarde

Minha vida boêmia teve início aos 15 anos, em 1980. Até o início do milênio seguinte fui rato de balcão de duas centenas de bares, entre eles o inesquecível Cais Bar*, na Praia de Iracema, cujo sócio, Ernesto, se tornaria, anos depois, um querido parceiro musical*. Não posso deixar de citar Papito, o homem que mais teve bares no mundo. Num deles, o Outras Palavras, em 1991, eu pregaria no flanelógrafo meu exame negativo de HIV – naqueles dias em que a AIDS nos aterrorizava a todos, foi a melhor maneira que encontrei de fazer autopropaganda.

Porém, eu queria ter o meu próprio bar. Então, em 1988, com os amigos Paulo e Nelsinho, montamos o Badauê*, na Praia de Iracema. Foi um sucesso, graças, principalmente, às nossas namoradas-garçonetes, as estonteantes Silvinha, Roberta e Patrícia, que ganhavam tanta gorjeta que chegavam a nos emprestar dinheiro. No caixa do bar, abusando de seu charme, minha irmã caçula Luce, menor de idade, que aceitou receber o salário em cerveja. E os shows? Putz, cada um mais antológico que o outro. O melhor foi o da banda Os Necessários, do “felomenal” Zé Di Bedis, e o melhor dos piores foi o do grande Toinho Martan, que teve como título esta preciosidade: Eu Não Tô In, Tô Out.

Ai, Badauê… Foi muita birita, muitas noites de libertina alegria que prosseguiam de manhã na barraca Subindo ao Céu e, é claro, muita reclamação da vizinhança. O bar era simples, de estilo rústico e com várias árvores, e no mezanino pusemos colchonetes e redes – era para lá, no meio da madrugada, o bar lotado, que levávamos as amigas que exageravam na birita, para elas dormirem um pouquinho. Poizé, o Badauê tinha essa nobre preocupação social… Aliás, até hoje corre uma lenda que diz que fazíamos altas orgias na caixa dágua, tomando banhos coletivos na mesma água que era usada para lavar os copos. Não nego e nem confirmo, mas deixo aí uma pista para o segredo da receita da nossa supercaipirosca.

Infelizmente, por discordâncias internas, o bar durou apenas nove meses, sim, só isso, fechando em 1989, um fracasso que até hoje lamento. O Badauê brilhou tão intenso e cruzou os céus de nossa juventude tão rapidamente que não temos nenhuma foto desses dias, pode isso, produção?

Enquanto o bar fechava, para compensar a tristeza, surgiam Os The Breg Brothers*, a banda brega satírica que criei com os amigos Jabuti e Cadinho para celebrar a cornagem, e que tinha como vocalistas Dani e Luce, minha maninha, que depois do Badauê se desencaminhara de vez na vida, coitada. Ah, era um velho sonho meu, ter uma banda, compor músicas… Sonho que durou apenas dois shows, que fizemos no Pirata Bar, pois Jabuti foi morar em Teresina e depois esticou para Berlim. Mais um fracasso, para eu deixar de ter ilusões com a vida artística. Não espalha, por favor, mas até hoje me acabo na cachaça a cantar Menina do Lacinho Cor de Rosa.

Em 1990, com a certeza de que ganharia um bom dinheiro, vendi meu fusca, o saudoso Lombriga, e fui com o amigo Dudu morar em Manaus, vender água de coco congelada. Lá estava eu, novamente, a me lançar no mundão incerto, dessa vez me aventurando numa jogada bastante arriscada. Em Manaus, tomei muito guaraná Baré e matei a curiosidade de experimentar cocaína, e logo da pura, e percebi que ela não combinava comigo, pois me deixava muito ansioso. E o negócio da água de coco? Não deu certo. Perdi feio nessa jogada. E nem fui corajoso o suficiente para continuar por lá. Outro fracasso, que me faria, a partir daí, temer as grandes mudanças da vida. Porém, a experiência ao menos renderia, anos depois, um dos meus contos mais conhecidos, O Presente de Mariana*.

E os textos desse período? Quase nada, infelizmente.

Para recomeçar a vida após o fracasso de Manaus, passei a cursar Letras, na UFC, enquanto trabalhava na clínica veterinária de meus pais. Ao mesmo tempo, era produtor de festas temáticas, como A Noite do Rei Lagarto (Como Jim Morrison comemoraria em Fortaleza os 25 anos de sua morte), que fiz em 1991 para o meu ídolo*, e era um dos organizadores de um bloco de pré-carnaval chamado Bonecas da Volta, que depois se chamaria Belas da Tarde*, no qual eu e os amigos, bêbados e vestidos de mulher, desfilávamos pela cidade num trenzinho infantil berrando as músicas da Xuxa. O bando de vândalas invadíamos os hotéis para agarrar os gringos e beber o uísque deles, e ainda pegávamos a lagosta do prato e saíamos comendo. Putz, era muito desmantelo.

Então, estamos agora em 1992. Nove anos antes, eu tivera aquela forte revelação sobre meu destino de escritor, enquanto lia O Encontro Marcado, mas passado todo esse tempo, eu continuava acovardado no mesmo lugar, dividido entre mil afazeres e escrevendo pouquíssimo, o que me deixava cada dia mais frustrado. Eu tenho 28 anos e estou indo para a palestra que mudará para sempre minha vida.

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cap 2
O DESTINO BATE À PORTA

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batismo na conscienciologia

A palestra era do IIPC (Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia), que tinha sede no Rio de Janeiro e do qual eu jamais ouvira falar. Soube dela por Eduarda, uma garota que era cliente da clínica veterinária de meus pais, que trabalhava com turismo e com quem eu já trocara umas ideias sobre literatura, música e misticismo.

A projeciologia é um ramo da conscienciologia, que trata de temas como evolução da alma (que o IIPC chama de consciência), experiências fora do corpo (projeções da consciência), energias psíquicas, vida após a morte, reencarnação, espíritos e guias espirituais. As ideias se pareciam com o espiritismo, mas a abordagem se pretendia mais científica e usava terminologia própria, mais técnica e menos moralizante. O IIPC não trabalhava com a hipótese de Deus, mas admitia a existência de seres superevoluídos, já libertos da série de encarnações no plano físico. No geral, a ênfase era no aprimoramento da lucidez do indivíduo, na vida física e nos períodos entre vidas, com o objetivo de se tornar um ser superevoluído.

Eu nunca vira um espírito na vida. Curtia e lia bastante sobre o sobrenatural e praticava exercícios para desenvolver o poder da mente, mas experiências mesmo, nada. Porém, eu tinha uns sonhos… Neles, eu voava livremente pelo céu em passeios bastante agradáveis. Eram sonhos nítidos e detalhistas, e às vezes começavam no minucioso ato de erguer-se, devagar, descolando os pés do chão e subindo às alturas. Num deles, ajudei minha amiga Daniela a voar também, e voamos juntos sobre a cidade, nos deliciando com a paisagem. De manhã, após acordar, eu lembrava deles e era tomado por uma sensação tão boa que por três dias eu me sentia diferente, num raro estado de paz e harmonia com a vida, imperturbável. Esses sonhos se repetiram entre os 21 e 26 anos, mas infelizmente haviam cessado.

Foi justamente por causa deles que fui à palestra do IIPC: esses sonhos talvez fossem experiências extracorpóreas ou, como alguns preferem, viagens astrais. Eu estava muito curioso. E, principalmente, queria-os de volta.

Gostei bastante da palestra, e fiquei empolgadíssimo com a possibilidade de voltar a ter meus sonhos de voo e, uau, até de controlá-los. Com essa motivação, logo depois fiz o curso básico e passei a integrar o grupo do IIPC em Fortaleza, que se reunia semanalmente numa salinha alugada na Aldeota. Eduarda, que me falara da palestra e também fora assistir, também passou a integrar o grupo.

o grupo do IIPC

Agora, aos 28 anos, eu era, pelo menos para o IIPC, um ser que dera o passo inicial em seu processo de despertar. Nas reuniões, estudávamos os livros do instituto e praticávamos os exercícios, que visavam, principalmente, o domínio das bioenergias, a expansão da percepção consciente, a recordação de outras vidas, o contato com seres espirituais e extraterrestres e o controle das experiências fora do corpo. De tudo isso, as viagens astrais e as vidas passadas eram o que mais me interessavam, e, além do mais, elas certamente me dariam material para escrever muitas histórias.

Na organização do grupo estava ele, meu amigo Zé Di Bedis, o felomenal. Por ser de família ligada ao espiritismo kardecista, desde pequeno ele tinha familiaridade com aqueles temas e já tivera algumas experiências que o levaram a conhecer a sede do IIPC e fazer cursos lá, quando morou na capital fluminense em 1991. Ele planejava ser pesquisador do instituto e hospedava em sua casa os professores que vinham para ministrar os cursos. Di Bedis (vamos chamá-lo assim para simplificar, já que seu nome é citado mais de 150 vezes neste livro) era um músico de jazz conhecido, mas seu interesse se voltara aos assuntos do instituto, tanto que vendera sua mais cara guitarra para pagar os cursos e comprar os livros necessários. Na última vez que eu o vira, no bloco Belas da Tarde, meses antes, nós dois estávamos bêbados e vestidos de mulher, ele arrasando de Xuxa do Capeta e eu abalando de Colegial que Levou Pau. Meu amigo tinha um jeito meninão, sempre fora muito popular e era um cara superdivertido, humorista nato. Por tudo isso, fiquei surpreso de reencontrá-lo no IIPC, todo sério e formal.

Frequentando o grupo, fiquei particularmente amigo de duas garotas: Eduarda, que eu já conhecia, embora pouco, e Tata, uma paulista fonoaudióloga que se mudara recentemente para Fortaleza. Assim como Di Bedis, elas eram um pouco mais novas que eu. Não me interessei particularmente por nenhuma, mas elas me impressionavam por terem experiências lúcidas fora do corpo, o que eu e Di Bedis queríamos muito ter.

Explicando. Segundo o IIPC, existe a dimensão física e existem também dimensões espirituais, ou extrafísicas, nas quais a alma pode se manifestar por meio de corpos mais sutis que o corpo físico. Nessa lógica, todos têm experiências espirituais quando dormem, mas a grande maioria não lembra ou lembra delas como sonhos vagos, enquanto uma minoria vive as experiências com lucidez e autocontrole, sabendo que estão fora do corpo, e lembram depois que acordam. Essa lucidez extracorpórea lhes permite realizar serviços assistenciais, como auxiliar almas recém-desencarnadas a partir de vez ou convencer outras a parar de encher o saco dos vivos e ir se tratar nos hospitais espirituais.

Uau, isso era demais! Eu queria muito ter essas experiências lúcidas. Poderia até ajudar os outros, sim, que eu sou um hominídeo egoísta mas não tanto, porém não dispensaria um turismo pelas ilhas caribenhas. Ou, quem sabe, assistir a minha vizinha se masturbando…

– Isso não pode! – trataram logo de me explicar.

– Oxe! Por quê?

– Por causa da cosmoética.

Explicando. Cosmoética é a ética cósmica, um conjunto de princípios morais que devem guiar os estudiosos da conscienciologia. Pois justamente por causa da tal da cosmoética eu não poderia jamais ver a vizinha em seus momentos íntimos.

Ah, que injusto… Era como dar pirulito para criança e dizer que só pode olhar. No meu caso, era pior, nem olhar eu podia. Obviamente, senti-me frustrado. Mas, peraí… E se a vizinha tivesse a fantasia de ser observada?

– Se ela também quiser ser observada?

– Isso. Muita mulher gosta de se exibir.

– Bem…

Naquele momento, senti, esperançoso, que talvez houvesse provocado uma pequena fissura nas leis da cosmoética.

– Afinal, Ricardo, você está no IIPC pra evoluir ou pra fazer sacanagem no astral?

Foi meu primeiro dilema no estudo da conscienciologia. Porém, apesar da chata da cosmoética, fiquei feliz de saber que o tema sexo não era contaminado com noções moralistas, como no espiritismo, mas encarado como um processo natural de troca de energias, que devia ser feito com ética, sim, mas principalmente com lucidez, pois do outro lado podia estar… um vampiro energético, por exemplo*.

Vampiro energético? Uau. Aquilo começava a ficar realmente interessante… Era como ser personagem de um filme de aventura sobrenatural.

Explicando. Na conscienciologia, assim como no espiritismo, os espíritos são seres momentaneamente desencarnados, que vivem na dimensão espiritual, e as afinidades energéticas definem o tipo de companhias espirituais que você tem. Resumindo: há os espíritos amparadores, que são mais evoluídos e nos ajudam a fazer o bem, e os espíritos assediadores, que são menos evoluídos e nos prejudicam. Nas reuniões, um dos exercícios visava aprender a sentir as energias dos espíritos, para saber quem exatamente nos acompanhava. Para isso, sentávamos um de frente para o outro e nos dávamos as mãos. Eu, porém, mesmo me esforçando, não sentia nada. Tata, porém, sempre que sentia minhas energias, não conseguia disfarçar seu incômodo.

– O que você sentiu, Tata?

– Não sei bem… – ela tergiversava, cordial demais para dizer que eu estava espiritualmente mal-acompanhado. – Vamos pedir pra Eduarda sentir também.

Trocamos de lugar. Eduarda e eu nos demos as mãos.

– E aí? – perguntei.

– Acho que senti… Jim Morrison – respondeu Eduarda.

– Sério? Que demais! Come on, baby, light my fire…

Adorei saber disso. Assim como Eduarda, eu era fã do poeta-cantor dos Doors. Aliás, na festa A Noite do Rei Lagarto, que eu fizera um ano antes, o felomenal Di Bedis abalou fantasiado de Pamela, a namorada de Jim. Ao saber quem era Jim Morrison, Tata fez cara de reprovação: Eca…

Que garota chatinha…, pensei. Aquilo era preconceito com poeta doidão, bêbado e mulherengo. Ou, seja, comigo.

tentando sair

Em termos de capacidades sensitivas, Eduarda era tida como a mais dotada. Ela dizia ter uma amparadora muito evoluída, sempre a lhe ensinar. A cada semana, minha nova amiga relatava suas experiências lúcidas, nas quais encontrava todo tipo de gente desencarnada, voava até Paris, duelava contra assediadores… Eu escutava atento, sem saber se podia realmente considerar tudo que ela dizia. Bem, em breve eu também teria, assim esperava, as minhas próprias experiências.

Um dia, Eduarda contou que me encontrara algumas vezes na dimensão espiritual, e que eu, infelizmente, nunca estava lúcido. Putz, fiquei inconformado. Tudo que eu precisava, nessas ocasiões, era perceber que aquele sonho era real, e então, plim!, eu passaria imediatamente para o modo lúcido e teria controle total sobre a experiência. E no dia seguinte talvez lembrasse de tudo.

– E como sou no mundo espiritual, Eduarda? – eu, evidentemente, queria saber.

– Do mesmo jeito. Só não sabe que aquilo é real.

– Então, devo falar umas boas merdas, né?

– Um pouco mais que aqui.

Um pouco mais significava muita, muita merda. Isso era mais um motivo para eu conseguir dominar logo as técnicas. E, assim, mandei ver nos exercícios. Não comia nada antes de dormir e dormia de barriga para cima, para facilitar a saída do corpo astral. Fazia exercícios de visualização com uma vela acesa no quarto escuro e praticava a circulação de energias pelo corpo. Deitava a cada noite animado com a expectativa de ter minha primeiríssima experiência lúcida.

E acordava de manhã frustrado. Tudo bem, esta noite tentarei outra vez, pensamento positivo, vamos lá. Esperanças renovadas, seguia tentando. E acordando frustrado.

Durante o ano de 1992, li os livros recomendados, conversei muito com o pessoal do grupo e pratiquei várias modalidades de exercícios. Cheguei ao sacrilégio de diminuir a boemia, porque dormir bêbado prejudicava a qualidade das experiências e impedia a recordação. Perdi festas imperdíveis porque a energia do lugar não seria boa. Sem falar que eu era o único cara que tinha uma seção secreta na agenda de telefones intitulada VE, ou Vampiras Energéticas – com essas, era mais prudente evitar o primeiro beijo.

Apesar do esforço, infelizmente, não tive nenhuma experienciazinha lúcida. Nem tive de volta meus queridos sonhos de voo. Nem qualquer contato com algum ser não físico, ou sequer uma vaga lembrancinha de uma vidinha passada, embora o IIPC considerasse isso menos importante que o domínio das bioenergias. Tata, Eduarda e Di Bedis insistiam para eu continuar, vamos lá, mais cedo ou mais tarde você vai conseguir, não pode desistir…

Mas eu já tinha enchido o saco.

coisas loucas

Um dia, seis meses depois, estou em casa tentando finalizar um conto erótico quando Di Bedis me liga para contar que ele e as garotas estavam se encontrando para praticar exercícios com Cris, uma amiga da Tata, publicitária paulistana, que passava temporada na cidade e que, dias antes, eu conhecera em rápido encontro.

– Cara, você tem que participar também – ele me convidou, empolgado. – Estão acontecendo umas coisas loucas!

– Que coisas loucas?

– Ah, não vai dar pra explicar por telefone. Aparece lá no apê da Tata.

– Di Bedis, eu deixei o IIPC ano passado.

– Nada a ver com aquele grupo, é uma coisa só nossa.

Eu adorava meu amigo, mas quanto às garotas…

Nos meus últimos dias no grupo do IIPC, eu as considerava esquisotéricas demais para o meu gosto. Tata até que era divertida, mesmo quando tentava ser séria. Ela me parecia uma evangélica caretinha, e me achava um porraloca, com meu estilo artístico-boêmio, minha filosofia hedonista de vida e minha brilhante carreira literária que jamais começava. Bem, ela tinha razão. Quanto a Eduarda, ela estava longe de parecer uma crente careta. Vestia roupas escuras, curtia ocultismo e posava de sensitiva misteriosa, como se soubesse de coisas importantes que ninguém mais sabia, o que inevitavelmente lhe conferia um ar superior, acentuado pelo fato de ser gorda. E Cris, que eu vira apenas uma vez, me parecera ser meio desregulada. Vai ver que, como eu, também fora atropelada e batera a cabeça, ou tomava remédio controlado, pois num momento era muito risonha e delicada, e no momento seguinte parecia a diretora do internato, sisuda e professoral.

Eu gostava das garotas, mas, como diz a piada, para mim elas eram as três irmãs Gracinha: a Sem Graça, a Desgraça e a Nem de Graça. Não necessariamente nessa ordem.

– Então, aparece lá. Oito horas – insistiu Di Bedis.

Eu estava razoavelmente bem comigo mesmo. Voltara a escrever, ufa!, e, mesmo com todos os outros afazeres, planejava finalmente publicar um livro de contos, com a ajuda do amigo Balu, que me permitia usar seu computador. Fazia algumas festas de sucesso com minha amiga Andrea e me divertia bastante com as mulheres, sem maiores compromissos sentimentais. Talvez não fosse bom voltar a me envolver com aquelas garotas estranhas e suas esquisoterices delirantes.

Olhando pelo ângulo de hoje, talvez eu já pressentisse o que poderia vir, e por isso fiquei temeroso. Mesmo assim, aceitei ir reencontrá-los. E, além disso, meu interesse pelo sobrenatural continuava, e em mim ainda resistia a esperança de voltar a ter meus deliciosos sonhos de voo.

Semana seguinte, lá estava eu num bar, a poucos minutos de ir para o motel com uma moreninha mui mimosa, quando de repente… lembrei do convite do Di Bedis. Putz, eu esquecera totalmente. Fiquei na dúvida se devia ir ou não, afinal já era meia-noite… Porém, senti um impulso estranho, algo intuitivo, e, mesmo bastante atrasado e sob protestos do Jeitoso, decidi ir encontrá-los. A moreninha não entendeu nada.

Cheguei ao apê da Tata e quem abriu a porta foi Cris, que me recebeu com um sorriso enigmático:

– Você, heim? Sempre me fazendo esperar.

Como assim?, tive vontade de perguntar, mas Tata me puxou para dentro. A sala estava na penumbra, e vi Di Bedis e Eduarda deitados no chão a meditar ou coisa parecida. Velas acesas, um cheiro danado de incenso e Enya tocando baixinho. Uau… Parecia que eu caíra bem no meio de um ritual medieval de bruxaria. Desculpei-me pelo atraso e perguntei o que acontecia.

– Temos algo importante pra te contar – Tata respondeu com certa gravidade.

Eu não estava gostando nadinha do que via e comecei a me arrepender de ter ido ali. Se eu corresse, talvez ainda pegasse a moreninha mimosa no bar. A curiosidade, porém, foi maior, e me acomodei no sofá. Sentia-me um tanto desconfortável, mas algo indefinível naquela situação me excitava. Os outros levantaram do chão e sentaram também. Foi então que comecei a escutar uma história bem louca.

voltando para Aaran

Nervosa e escolhendo bem as palavras, Tata contou que nos últimos dias eles viveram ali intensas experiências: recebiam visitas de espíritos, lâmpadas estouravam sem explicação, gosmas escorriam das paredes… Umas das experiências foi uma recordação conjunta: Tata, Eduarda e Cris tiveram clarividências que lhes mostraram a vida que viveram, as três juntas, no século 14, na Dinamarca. Com mais dezenas de pessoas, inclusive Di Bedis, elas integravam uma comunidade esotérica na floresta chamada Aaran, que lidava com as mesmas questões do IIPC, mas de um modo diverso.

– Lembramos de mais uma pessoa que viveu com a gente em Aaran – Tata prosseguiu. – Você.

– Eu?!

Surpreso, olhei para Di Bedis. O que ele poderia me dizer sobre aquilo?

– Não lembrei de nada, cara – ele explicou, um pouco nervoso. – Mas escuta aí o que ela tem pra dizer.

Tata explicou que o que estava acontecendo era algo incrível, pois após seis séculos nós todos havíamos nos reencontrado em Fortaleza, e que isso não era algo à toa, que certamente havia um importante propósito por trás de tudo e precisávamos descobrir qual era.

– Se vocês que lembraram não sabem, imagine eu –brinquei, tentando diminuir meu incômodo.

– Mas podemos descobrir… e descobrir muito mais… – disse Eduarda, em seu estilão misterioso.

– O que queremos saber – interrompeu Cris, num tom meio autoritário – é se você quer descobrir, conosco, o motivo de termos nos reencontrado agora, seiscentos anos depois. Ou se prefere ficar fora dessa história.

– Pra ser sincero, eu adoraria lembrar dessa tal vida – respondi. – Se é que ela realmente existiu.

– Podemos começar agora – disse Cris.

– Sério? Como?

Cris olhou para Tata, que imediatamente balançou a cabeça em negação.

– Não vou fazer isso, Cris.

– Acho que você deveria, sim.

– Você não perde a mania de mandar, né?

– E você continua a mesma menina teimosa.

Percebi um certo clima de desentendimento entre elas.

– Tudo bem, vou fazer – disse Tata. – Mas é por ele, não por você.

Tata saiu em direção ao quarto, enquanto Eduarda acendia novamente as velas.

– O que ela vai fazer? – perguntei.

– Tata era uma das dançarinas de Aaran – explicou Cris, ajudando Di Bedis a afastar a mesa e abrir um espaço no meio da sala. – E você a viu dançar muitas vezes.

a dançarina de Aaran

Sentado no sofá, os outros sentados no chão ao redor, esperei que Tata voltasse do quarto, eu ainda dividido entre ficar e sair correndo dali. Ela voltou logo, usando um vestido simples, acima dos joelhos, e descalça. Achei que botariam alguma música para tocar, mas isso não aconteceu.

No centro da sala, iluminada pela fraca luz das velas, Tata postou-se em pé, fechou os olhos e respirou profundamente algumas vezes. Então, com movimentos suaves e ondulados, começou a dançar, enquanto murmurava sons que, apesar de meu esforço, eu quase não escutava.

Achei a dança muito estranha, talvez pela ausência de música, ou então porque era estranha mesmo. Permaneci atento para poder detectar qualquer detalhe que me fizesse lembrar de qualquer coisa que pudesse ser, mas não lembrei de nada. Absolutamente nada naquela performance me pareceu familiar. Está bem, serei bem franco: achei a dança horrível. Senti-me um jurado de programa de calouros, aguardando o fim da apresentação do candidato para lhe ofertar o troféu Vergonha Alheia do Astral.

A dança durou uns cinco minutos, e durante todo o tempo Tata parecia estar bem concentrada, como num transe. No fim, jogou-se ao chão e lá ficou, deitada meio de lado, silenciosa e arfante, o vestido um pouco erguido e a calcinha aparecendo, o que me deixou constrangido. Será que as dançarinas de Aaran usavam calcinha?

Quando entendi que havia terminado, senti-me frustrado. O que de tão especial havia naquela dança? O que podia haver ali para ser lembrado? Logo depois, Tata sentou-se no chão e ajeitou o cabelo despenteado. Olhou para todos e sorriu, meio sem jeito.

– E então? – ela me perguntou, ainda se recuperando do esforço. – O que achou?

– Eu? Ahn… Achei… esquisito.

Todos riram, e isso me fez relaxar um pouco.

– Não lhe veio nada? Alguma sensação, lembrança…

– Ahn… Não.

Pela expressão que os quatro fizeram, senti que eu os decepcionara. Um anticlímax.

– Essa dança era feita num importante ritual da escola – explicou Cris. – Sem a música fica estranho mesmo. Mas acredite, você gostava.

– Bem mais do que pode imaginar… – completou Eduarda, insinuando algo que não compreendi.

– Eu e você éramos muito unidos em Aaran, Ricardo – Tata falou. – Quando percebemos que você não viria, fiz um ritual com velas e usei a energia de nossa relação em Aaran pra te puxar pra cá. Antes das velas apagarem, você chegaria, e você chegou. Não foi muito ético, admito, mas era fundamental que você viesse. Você não fica chateado, né?

E ainda mais aquilo…

– Claro que não. Até porque não foi você quem me puxou. Eu vim porque quis.

Na verdade, eu não entendia por que tinha ido. Pela lógica, não teria jamais abandonado a moreninha no bar.

À porta do elevador, Tata, com sua cordialidade de sempre, agradeceu por eu ter ido e perguntou, quase rindo:

– Você acha que somos um bando de loucas, né?

– Bem…

– Ele acha, sim – falou Eduarda, pondo a cabeça no vão da porta. Falou e sumiu, deixando no corredor o eco de sua risada, que achei meio assustadora.

– Não ligue pras nossas briguinhas. Às vezes, é como se ainda estivéssemos em Aaran…

Quando o elevador fechava a porta, ainda pude escutar a voz da Cris:

– Ele não vai voltar. Conheço meu irmão.

tragédia no trânsito

E, de fato, não voltei. A tal história de vida passada na Dinamarca até que era instigante, mas havia em tudo aquilo uma quase histeria que me incomodava. Ou talvez eu estivesse sendo covarde, como ocorre quando intuímos a chegada do que realmente precisamos em nossas vidas, mas temos medo, inventamos desculpas e fugimos.

De todo modo, os encontros foram suspensos, pois Tata e Cris decidiram viajar. Deu a doida nas doidas e por quatro meses caminharam pelas praias do Ceará, apenas com suas mochilas, acampando, curtindo a Natureza e fazendo amizade com os pescadores e suas famílias, o que me fez mudar meu olhar sobre minhas amigas esquisotéricas. Garotas que faziam aquilo não podiam ser garotas comuns. Doidas, talvez, mas bobas, não. Logo depois, Tata e Cris voltaram a morar em São Paulo e não nos vimos mais.

Naqueles dias de 1993, eu namorava uma bela bailarina* de 20 anos que morava no Rio de Janeiro e passava férias e feriados em Fortaleza. Renata e eu sustentávamos nosso romance interestadual entre cartas, telefonemas e viagens, o que nos exigia certo malabarismo de agenda e finanças. Entre idas e vindas, brigas e recomeços, nossa história durou um ano, intensa e poética. Mas infelizmente trágica, pois Renata morreria no fim do ano em Fortaleza, vitimada por um tiro disparado na direção do carro no qual estava com amigos, após uma discussão de trânsito. Foi uma tragédia que me atingiu fortemente, ainda mais porque na noite fatídica ela me chamara para sair e eu recusei, por estar cansado, uma tragédia que ainda hoje me revolta, pois o assassino segue solto.

Então, fiz o que muitos fazem nessas ocasiões sem perceber: reprimi a tristeza para evitar sofrer e bloqueei as lembranças do que vivemos. E, se eu já tinha medo de me entregar em meus relacionamentos, o medo cresceu e passei a me resguardar ainda mais. Atitudes ingênuas e medrosas, sim. Típicas do belo covarde que eu estava me tornando, eu que me gabava de ser aventureiro da vida, mas que não ousava vivê-la por inteiro.

Intocáveis Putz Band

Se minha vida não estava economizando em intensidade, o ano de 1994 pegaria ainda mais pesado. Agora, eu tinha uma nova banda, a Intocáveis Putz Band*, criada por meu amigo Toinho Martan. Inspirados pelo pop-rock da Blitz e pelo funk-inferninho de Fausto Fawcett, tínhamos vocalistas hipnotizantes e nossos shows transbordavam de irreverência e performances imprevisíveis. Tocávamos músicas nossas e também sucessos consagrados, e a preferência era pelo rock funkeado, mas tocávamos também blues e umas pitadas de disco, forró raiz e bregão de cabaré, e o fio condutor dessa salada musical era o bom humor e a sacanagem. Eu e meus amigos Martan, Karine, Emílio, Flavio e Nonô queríamos apenas nos divertir, e quem quisesse também, era só chegar junto, e muitos chegaram, entre músicos, cantoras, produtores e admiradores.

A Intocáveis Putz Band me enchia os dias com ensaios e shows, tietes generosas e toda aquela grande festa libertina de sexo, drogas e roquenrou. Se eu já tinha dificuldades com a monogamia forçada, tanto a sexual como a afetiva, elas aumentaram. Você sabe, numa banda de sucesso o feio vira engraçadinho e o engraçadinho vira lindo – então eu tratava de aproveitar minha fase de falso lindo, mantendo-me solteiro e me apaixonando duas vezes por semana, o que exigia bastante do Jeitoso. Eu era um sátiro e Fortaleza era um bosque cheinho de ninfas a me atrair com suas minissaias e seus sorrisinhos de falso pudor. E para sair à noite, o sátiro pegava emprestado o carro da clínica veterinária. Na maioria das vezes, era assim: a ninfa descia do prédio toda bonita e perfumada e, quando percebia que iria sair numa ambulância de cachorro, desistia. Mas algumas achavam a coisa, digamos, meio exótica… Tem gosto para tudo.

E assim eu ia, prosseguindo aos trancos e barrancos com o curso de Letras, o trabalho na veterinária e a produção de eventos e festas temáticas, e escrevendo cada vez menos. O dia tinha 36 horas, e a noite tinha o dobro. Que coisa… Como eu podia ter tanta energia e fazer tanta coisa? E olhe que eu nem cheirava cocaína nem bebia energético, era só álcool mesmo, e vez em quando um baseadim. Na verdade, meu verdadeiro combustível era a poesia da vida, principalmente a que vinha da mulher. Eu nada entendia sobre psicologia dos arquétipos, o que só ocorreria após me iniciar nas ideias de Jung*, mas já sabia do grande poder e fascínio que o feminino exercia sobre mim.

A Intocáveis se tornava rapidamente conhecida em Fortaleza. Líderes da banda, Martan e eu realizávamos um velho sonho, compondo juntos e nos divertindo bastante. Como eu não era cantor e nem tocava nada, me dedicava à produção e minha participação nos shows se dava nos vocais de apoio e protagonizando números performáticos, como os dois manifestos. Um deles era o Manifesto das Bem-Aventuranças, em que eu encarnava o profeta da sagrada putaria: metido num manto escuro com capuz, feito monge medieval, homenageava os excluídos do Sermão da Montanha, com destaque para artistas, putas e travestis. O outro era o Manifesto Neomaxista Liberal, em que eu gritava em tom panfletário, com humor sacana, os direitos do homem pós-moderno, e esse se tornou o ponto alto do show, sempre com intensa participação da plateia, homens apoiando e mulheres a vaiar. Era uma grande gozação com o machismo e o feminismo, em que exigíamos, entre outras coisas, o direito de ter um diário, de espelho no banheiro masculino, de uma delegacia do homem, de ver os gols da rodada no motel, de dormir dentro e de brochar sem ter que dar explicação. Festa é o que nos resta – esta era a minha filosofia.

conflito interno

Nove meses de banda, cada vez mais shows na agenda, o cachê aumentando, convites para outras cidades, eu surfando nas ondas do sucesso – a vida era um caleidoscópio a girar cada vez mais rápido. O Brasil vivia o início do Plano Real, que finalmente nos traria redução da inflação e estabilização econômica, e levaria Fernando Henrique Cardoso ao seu primeiro mandato como presidente. Tempos de esperança. Mas, e a literatura?

Antes da Intocáveis, eu começara a publicar crônicas em jornais e preparava meu livro de estreia, de contos – que felizmente não cheguei a publicar, senão seria mais um filho renegado, de tão ruim que era. Porém, com a banda, parara de escrever, o que voltou a me angustiar, ainda mais que antes. Algo em mim sabia que eu não seguia o caminho essencial da minha vida e que jamais me realizaria de verdade se não me tornasse escritor profissional, e que aquilo que eu vivia, embora também fosse verdadeiro, não era prioridade. Se eu queria uma carreira literária, teria que me dedicar muito mais e abdicar da banda, pois seria impossível conciliar as duas coisas. Mas não tinha forças para fazer isso.

Sim, era o clássico conflito interno, no qual eu evitava pensar. E era exatamente por isso que o conflito crescia perigosamente na escuridão do inconsciente. Aos 29 anos, eu sentia cada vez mais fortes os cutucões do deus Saturno, senhor do tempo e da razão, chamando-me para a responsabilidade de assumir meu caminho verdadeiro.

Um dia, alguém da família me falou que acordara na madrugada anterior e me ouviu a trabalhar, tec-tec-tec, em minha máquina de escrever. Porém, eu não dormira em casa naquela noite. Depois, outros familiares contaram que também me ouviram trabalhar de madrugada, e, novamente, aconteceu em noites em que eu dormira fora. Que estranho… Depois, minha tia, que se hospedava lá por uns dias, também ouviu o tec-tec-tec da máquina numa madrugada em que eu não estava em casa, e meus pais lhe explicaram que aquilo era comum, não se assustasse. Como somente eu possuía a chave do quarto e ele ficava trancado quando eu saía, cogitou-se que seria o espírito de algum escritor, apesar dele nunca deixar algo escrito. E eu? Restava-me rir da coisa toda, e até torcia para o tal fantasma surgir para mim. Mas, por enquanto, chega. Prometo que volto ao assunto mais adiante.

Então, Eduarda me avisou que Tata, que agora morava no Rio de Janeiro, estava na cidade, e fui reencontrá-las, matar a saudade das minhas alopradas amigas esquisotéricas. Falei-lhes da banda e contei das participações especiais que Di Bedis fazia nos shows, fantasiado de Chapolim Colorado, e do quanto eu estava me divertindo.

– Você está bem, Ricardo? – Tata perguntou.

Pergunta estranha. Repentina e estranha.

– Eu tô ótimo – respondi, como alguém que diz uma grande obviedade.

– Tem certeza?

– Sim, certeza. Bem… na verdade…

Não precisei falar muito sobre meu momento – de alguma maneira, Tata e Eduarda pareciam saber. Contei que desde aquela noite no apê, um ano antes, eu esquecera dos assuntos do além e nem tinha mais tempo para aquilo. Para minha surpresa, elas revelaram que semanas antes estiveram numa das apresentações da banda.

– Que pena, não vi vocês. A casa estava lotada.

– Viu, sim – Tata refutou. – Você até me mandou um beijo lá do palco, não lembra? Um beijo pra minha amiga de outras vidas…

– Sério? Putz, não lembro. Eu estava bem alucinado. – E era verdade. Naquela noite, agarrei até minha irmã caçula, tascando-lhe um beijão na boca.

– Era aniversário do Jim Morrison, e acho que ele baixou em você. Dessa parte, eu gostei – comentou Eduarda, rindo, e ri com ela.

Entretanto, elas contaram que, apesar da alegria reinante no show, sentiram energias perigosas ao meu redor.

– Você precisa despertar de vez, Ricardo. Antes que seja tarde.

Não me senti à vontade com aquele assunto. Sempre que eu as encontrava, ficava dividido entre sensações confusas. Mas talvez estivessem certas. Às vezes, eu tinha mesmo a impressão de estar sonhando, de que tudo que vivia era de uma realidade onde eu não devia estar. Mas, ao mesmo tempo, a Intocáveis era a realização de um velho sonho, e eu não podia largá-lo, ainda que isso sufocasse meus planos de ser escritor.

Nesse dia, elas demonstraram entender o meu conflito. E me informaram que no fim de semana aconteceria em Fortaleza um estágio avançado do curso do IIPC.

– Tem show neste fim de semana, Ricardo?

– Não. Nem ensaio. Mas não me interessa, obrigado.

– Waldo vai estar presente. Se você fizer o curso, podemos tentar que ele converse pessoalmente com você. Quem sabe ele te ajuda a ter experiências lúcidas, ou te dê esse impulso que falta pra você despertar.

Impulso que falta… Sim, fazia algum sentido. Talvez fosse isso que eu precisava, um empurrão.

Waldo era o fundador e presidente do IIPC. Tinha sessenta e poucos anos, morava no Rio e às vezes viajava para participar daqueles cursos avançados. Senti voltar um pouco da esperança. Talvez Waldo pudesse me ajudar ao menos a ter de volta meus saudosos sonhos de voo. Senão ele, quem mais poderia? Além disso, seria uma boa oportunidade de conhecer pessoalmente aquele que para muitos era um grande guru.

– Ok, Tata – respondi, confirmando presença no curso. – Mas sei que muita gente sempre quer falar com Waldo, e ele não tem tempo de atender todo mundo.

– Deixe isso para os nossos amparadores – ela respondeu, risonha. Mas percebi que falava sério.

com Waldo

Fiz o curso, que aconteceu num hotel, e que não me empolgou, o que me deixou arrependido de ter gastado meu pouco dinheiro naquilo. Porém, Tata me avisou que o plano dera certo e que meu encontro com Waldo estava marcado para o dia seguinte, no hotel. Fiquei surpreso. Caramba, esses amparadores eram competentes…

Na hora marcada, lá estava eu, aguardando. E Waldo chegou. Ele não passava despercebido. Vestia sempre branco, cobria a careca com um chapéu branco e mantinha uma comprida e imponente barba branca. Mineiro de nascimento e médico de formação, ele fora na juventude amigo próximo e parceiro do espírita Chico Xavier, com quem escreveu livros psicografados e ajudou a popularizar a doutrina kardecista nas décadas de 1950 e 60. Após se afastar do espiritismo, Waldo continuou suas pesquisas na área da mediunidade, escreveu livros e em 1988 fundou o IIPC. Lá, ele era não apenas o presidente, mas uma espécie de mentor de reconhecidas capacidades paranormais, uma alma evoluída a quem seus discípulos não ousavam questionar. Ele morreria em 2015, aos 83 anos.

O presidente Waldo me recebeu no salão dos cursos e, apesar de cansado, foi atencioso. Constatei logo que estava diante de um indivíduo perspicaz e de mente muito ágil. Fiz-lhe um breve resumo do meu momento e contei dos meus esforços, dos exercícios feitos, dos livros que lera… Ele escutou e depois esfregou as mãos e segurou minha cabeça com as pontas dos dedos. Fechei os olhos e pude sentir o calor de suas mãos. Segundos depois, ele as retirou e falou:

– Continue tentando.

Putz… Eu esperava qualquer coisa, menos um “continue tentando”.

– Só isso? – perguntei, sem disfarçar a frustração.

Ele me olhou firme nos olhos. Senti dificuldade de sustentar o olhar, aguardando o que ele diria. E o que ele falou, num tom tranquilo, foi:

– Você se acha muito esperto, não é?

Fiquei surpreso com aquela pergunta, que na verdade era uma afirmação.

– Um pouco – respondi, sem saber o que dizer.

Ele, porém, estava certo. Waldo me desmascarava, olhando em meus olhos. Ali, subitamente confrontado com a verdade sobre mim mesmo, não tive condições de assimilá-la, o que só aconteceria anos depois. Ele deu um tapinha em meu ombro e levantou-se. E nosso encontro de cinco minutos terminou.

Voltei para casa numa tristeza resignada. Continuar tentando? Não, na verdade seria começar tudo de novo. E eu não estava nem um pouco disposto a começar de novo. Contei para Tata e Eduarda o que ocorrera e agradeci pelo que fizeram. E fui cuidar da vida. No plano físico.

as gatinhas do Di Bedis

E a vida no plano físico seguiu ainda mais caleidoscópica. A Intocáveis estava a cada dia mais conhecida na cidade, a postura tornava-se mais profissional e, com menos de um ano de existência, a banda alcançava um estágio que a grande maioria demora mais tempo para alcançar.

E havia também a Caboca (Confraria Cearense de Apoio às Boas Causas), uma espécie de maçonaria da putaria que eu criara com uns amigos desocupados, que duraria uma década e, além das festas, tinha como principal missão eleger as 10 Mais do ano, aquelas dez mulheres que mais se destacaram, segundo os nossos critérios, claro. Como as eleitas ganhavam ótimos prêmios, como ingressos de cinema e crédito em lojas, restaurantes e pousadas, toda mulher sonhava ser uma garota Caboca, o que exigia de nós, diretores, muita disposição para nos mantermos atualizados.

Certa noite, bebendo num bar, recebo um bilhete de uma linda candidata a 10 Mais. No papel, na tinta azul da caneta, ela generosamente elencava sete qualidades referentes a minha pessoa. Li e guardei no bolso da calça. Horas depois, em casa, despertei na madrugada, um tanto angustiado. Acendi a luz do abajur, peguei o bilhete e reli minhas sete qualidades: tolo, burro, imaturo, covarde, ridículo, medroso e altamente superficial. Só verdades.

Mas o caleidoscópio girava, e não havia tempo para reflexões profundas. E, assim, o conflito interno se intensificava. De um lado, o sonho distante de uma carreira literária, e do outro, o sonho de ter uma banda, que já era real. A única forma de não pensar no conflito era ocupar as 36 horas do dia trabalhando e estudando e as 72 horas da noite me anestesiando com mais shows, birita e casos descompromissados. Passei a descuidar da saúde, como se a vida já não valesse muito, e incidentes e acidentes tornaram-se frequentes. Eu vivia intensamente o teatro colorido da alegria para não lembrar que, na penumbra dos bastidores, não tinha forças para reagir.

Então, o portal se abriu…

Numa tarde, fim de dezembro de 1994, Di Bedis me ligou, convidando para sair com duas garotas que ele conhecera.

– Duas gatinhas, cara. Fortíssimas candidatas a 10 Mais. E estão a fim de sexo selvagem!

Grande Di Bedis, cumprindo honrosamente seu papel de descobridor de talentos da Caboca.

– Oba! É pra quando?

– Pra hoje. Passo aí às cinco pra te pegar.

– Vamos beber o quê?

– Compramos no caminho.

Um pente no cabelo, duas xiringadas de desodorante no sovaco e seis camisinhas no bolso depois, estou pronto. Saio para a rua e quando abro o portão… quem vejo no carro com meu amigo? Elas, as mirabolantes esquisotéricas, Tata e Eduarda.

– Entra aí, bora dar um passeio – Di Bedis falou, rindo da minha cara de idiota, que, na verdade, sempre foi a minha verdadeira cara.

Fiquei imóvel, sem conseguir processar aquela informação. Eu podia sentir meus neurônios explodindo pela absoluta divergência entre o que eu esperava e o que de fato acontecia.

– Ah, não… vocês de novo…

– Nós não vamos te largar, Ricardo! – respondeu Tata, passando para o banco de trás.

Senti-me o maior dos estúpidos por ter caído na pegadinha. Logo eu, que me achava tão esperto… E com aquelas duas eu sabia que tudo que jamais rolaria era sexo selvagem.

Ali, parado na calçada, tive uma forte sensação de algo importante e decisivo… Acho que foi aí, pela primeira vez, que tive o entendimento intuitivo da existência dos portais conscienciais. Eu estava diante de um deles. Sua mente sabe, seu corpo também sabe, o ser acusa por inteiro, como um alarme. Imediatamente, você sabe que toda a sua vida futura depende da decisão que tomará nesse momento. Você sente medo. Se decidir cruzar o portal, não poderá mais retornar. Se recusar, ele se fechará para sempre e você jamais saberá o que o aguardava do outro lado.

Tentei ganhar tempo para avaliar racionalmente as minhas opções. A situação, porém, não podia ser resolvida pelo intelecto – era algo que dizia respeito somente à intuição. Então, entrei no carro, resignado. Eu, um carneirinho rumo ao abatedouro.

revelações nas dunas

Di Bedis dirigiu para as dunas do lado leste, rumando para o município praiano de Aquiraz. Eu, que sempre tive no intestino o fiel termômetro de meu estado emocional, estava quase pedindo para parar o carro em algum lugar para poder ir ao banheiro. Nervoso, perguntei o que tinham para me dizer, mas Tata respondeu que só contariam quando chegássemos. Todos eles riam, se divertindo com meu ridículo suplício, mas havia uma tensão no ar. Meia hora depois, estávamos no alto de uma duna, sob o céu do entardecer.

– Nós já vimos óvnis aqui, sabia? – comentou Eduarda, admirando o céu enquanto sentávamos na areia.

– Sério?

– Quem sabe eles aparecem hoje. Em sua homenagem.

Eduarda sorriu e piscou um olho para a amiga. Tata sorriu também, mas logo ficou séria novamente.

– Não foi muito legal te enganar, Ricardo, eu sei, mas não havia outra maneira de te fazer vir aqui – Tata se desculpou, meio sorrindo, meio grave.

– Naquela noite, vocês me atraíram pro apartamento com rituais mágicos. Agora, apelaram pros meus instintos sexuais. É claro que não perdoo – brinquei. Ou não. Talvez tenha sido sincero. – Mas vamos em frente.

– Eu e Eduarda estamos morando no Rio. Decidimos vir a Fortaleza porque temos coisas urgentes pra revelar a vocês. Já falamos com Di Bedis ontem. Agora, é sua vez.

Silêncio.

– Ricardo, sua vida nesse momento corre perigo.

Engoli em seco. Aquelas palavras soaram duras para mim. Certamente porque era verdade.

– Vamos te explicar. Só pedimos que escute tudo, tá?

Olhei para eles. Di Bedis estava sério. Eduarda sorria naquele seu jeitão misterioso. E Tata me olhava de uma maneira calma e amistosa. Havia uma certa solenidade no ar. Sacudi a cabeça, entregue.

– Bem, eu já tô aqui, né? Pode começar.

Tata explicou que ela e Eduarda mantinham contato frequente com seus amparadores, e que eles as ajudavam a entender o que acontecia comigo.

– E você também tem um amparador.

– Sério? – perguntei, curioso a respeito do espírito que escolhera um cara como eu para guiar. – É o Jim Morrison?

– É uma mulher. Chama-se Paola. Bonita, de muita classe. Tem certeza que você nunca viu ou sonhou com ela?

– Com certeza eu lembraria.

Tata sorriu, sempre cordial, mas retomou a seriedade e prosseguiu. Disse que elas descobriram que nós todos, Cris incluída, éramos um grupo de almas que evoluía junto pelas sucessivas encarnações, um grupo cármico, e que nos reencontráramos porque tínhamos missão importantíssima a cumprir: ajudar a humanidade a passar para o novo nível de sua evolução espiritual. E para isso teríamos que nos integrar mais ao IIPC, que era a continuação moderna de Aaran.

Tata explicou que a humanidade vivia um momento evolutivo crucial, pois a Terra precisava passar para outro nível energético e somente os mais evoluídos seguiriam vivendo aqui, e o restante sofreria um processo de transmigração, com suas almas enviadas para um planeta mais atrasado. Isso era necessário, senão a parte menos evoluída destruiria o mundo com sua ganância capitalista, as ideologias fascistas, o fanatismo religioso e a negligência ecológica. Seres espirituais superevoluídos monitoravam os acontecimentos com discrição. Os terráqueos que ficassem formariam a nova humanidade, mais harmoniosa e mais justa, sem guerras nem religiões, e o nosso grupo tinha papel fundamental no processo, pois, com nossas capacidades paranormais, a experiência em Aaran e os amparadores, podíamos ajudar o instituto a atuar melhor.

– E nós temos um líder – Tata falou.

– Quem? – perguntei, achando aquele papo muitíssimo louco. Mas estava curioso.

Ela não respondeu. Olhei para os outros. Di Bedis estava de cabeça baixa, como se não se sentisse à vontade com aquele assunto. Eduarda estava séria. Tensão no ar.

– Você – respondeu Tata, num meio-sorriso nervoso.

– Eu?! Tá de sacanagem.

– Você é o nosso líder, Ricardo – ela confirmou, olhando firme em meus olhos.

saltando

Evidentemente, aquilo era um absurdo total. As meninas fumaram maconha estragada, só podia ser. Eu, o maior pinguço do pedaço, líder de um quinteto esotérico que iria salvar o mundo? Mas como, se eu não tinha qualquer capacidade paranormal, não via espírito, não lembrava de vida passada, nada? Elas eram as fodonas naqueles assuntos, não eu. E foi justamente isso que em seguida argumentei. Tata riu.

– Isso foi uma grande surpresa pra nós também. Mas os amparadores nos garantiram. E disseram também que você tá influenciado por assediadores, e por isso tá destruindo sua vida. E, caso não siga sua proéxis, em breve poderá acontecer… ahn… algo muito sério com você.

Explicando. Proéxis (pronuncia-se proécsis) é a programação existencial do indivíduo, elaborada por ele e seus amparadores no plano espiritual, antes de reencarnar. No popular: a missão de vida.

– Algo muito sério tipo o quê? – indaguei.

– Doenças, acidentes – respondeu Tata.

Bem, isso não é novidade, pensei.

– Ou algo pior… – falou Eduarda, muito séria.

Senti um calafrio. Aquilo tudo era muito louco, mas… pensando bem, fazia certo sentido. Em alguma parte profunda de mim, aquelas palavras se abraçavam com meu velho anseio de viver os mistérios e a sincera esperança de que tudo aquilo realmente existisse. E era um abraço numinoso, que tinha a força das coisas antigas e sagradas. Caramba, o que poderia ser mais emocionante que atuar numa missão pelo futuro da humanidade?

E quanto a ser líder? Bem, não me era uma função estranha, pois sempre tivera tendência a liderar grupos. E quanto a estar afastado da minha proéxis, não foi nenhuma surpresa escutar isso: eu sabia que não estava em meu melhor caminho. A diferença é que agora tudo parecia tão óbvio…

– Pense bem, Ricardo – prosseguiu Tata. – Talvez seja um modo de realizar seu sonho de ser escritor. Não é o que mais deseja? Você vai poder escrever sobre esses temas e publicar pelo instituto.

Ser um escritor profissional… Meus olhos devem ter brilhado nesse momento.

– Eu e Eduarda voltaremos pro Rio, queremos ser pesquisadoras do instituto.

– E Cris?

– Ficará em São Paulo, mas manteremos contato e nos encontraremos. Pense bem, por favor. Com você e Di Bedis, estaremos os cinco juntos outra vez, e seremos mais capazes.

– Como já havia dito antes, eu vou – Di Bedis falou.

– Não sei… – murmurei, procurando organizar as ideias. – Como vou largar tudo assim, de uma hora pra outra?

Ninguém respondeu à minha pergunta. Mas, no íntimo, eu sabia a resposta.

Eu tinha um destino, vislumbrado ainda criança, quando me recuperava da pneumonia, e o voto fora renovado aos 18 anos, após ler O Encontro Marcado. Nos últimos anos, porém, esse destino a cada dia fugia um pouco mais e eu não tinha forças para segui-lo. E isso estava me matando. Naquele dia, meu destino de repente ressurgiu. Acho que este trecho ficaria mais belo se eu dissesse que pensei em grupo cármico, causas humanitárias, salvar o mundo… Mas, não. O que reluzia à minha frente era a minha carreira literária. Eu pensei em mim.

Já é noite no alto das dunas. O portal ainda está aberto, eu posso senti-lo, até mesmo com o corpo, como se sente um abismo logo à frente. E sinto também que logo se fechará. Sabe aquela cena clássica de 2001, Uma Odisseia no Espaço, em que o hominídeo primitivo descobre a utilidade de um osso como ferramenta? Milhões de anos depois, ali nas dunas, eu sou um hominídeo moderno, menos peludo mas igualmente espantado diante da própria epifania, e a ferramenta que me levará ao meu futuro é a minha compreensão do fato. Serei, mais uma vez, covarde?

Não, não serei.

Então, respiro fundo e salto.

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cap 3
DO OUTRO LADO DO PORTAL

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o livro de Aaran

Dias após o encontro nas dunas, Tata me passou uma cópia do livro sobre nossa suposta vida no século 14, contada em forma de romance, que ela escrevera e planejava publicar com ajuda do IIPC. Tata achava que a leitura do livro poderia ajudar a me trazer as lembranças.

Li Aaran numa noite, e gostei. Tata não era das letras mas conseguira criar uma trama envolvente, e os conflitos entre os personagens me soavam autênticos. Baseado nas lembranças de Tata, Cris e Eduarda, o livro narra o cotidiano de Aaran, a escola esotérica onde mestres e discípulos viviam em comunidade numa floresta da Dinamarca, lidando com domínio de energias psíquicas e experiências fora do corpo. No clima de terror causado pela Inquisição Católica, que ganhava a Europa, Aaran era um espaço de resistência, onde conhecimentos esotéricos deveriam ser preservados. A maior dificuldade, porém, estava na própria comunidade: os conflitos internos terminariam por levá-la a fechar as portas, fazendo com que todos os seus integrantes partissem, seguindo seus caminhos individuais. Um fim melancólico.

A protagonista era a própria Tata, que na história era Orian, uma garota que se envolvia mais do que devia com a realidade espiritual, o que a prejudicava em seu dia a dia. Em Aaran, uma vez por mês, todos participavam do importante ritual da Lua Negra, no qual Orian era a dançarina principal. Uau… Quem diria que aquela garota desajeitada pudesse ter sido uma chacrete mística do século 14…

Meu personagem chamava-se Aidon. Era irmão de Taena (Cris), uma respeitada mestra, e na juventude foram amantes. Em Aaran, o sexo não era envolto em noções de pecado, como no cristianismo, mas constituía-se em prática importante para a saúde física e psíquica, e o sexo entre irmãos era permitido. Eles eram filhos do líder espiritual da escola, mas Aidon abdicara do futuro que o aguardava, ser um mestre e substituir seu pai, e vivia viajando pelo mundo, voltando com livros e novidades de outras culturas.

Livros?, pensei. Putz, não evoluí nada nesses séculos todos…

Taena ainda era apaixonada pelo irmão e não o perdoava por ele ter renunciado ao seu cargo como líder da comunidade. E tinha ciúmes de seus envolvimentos com suas discípulas, principalmente Orian.

Alira (Eduarda) era a cozinheira da escola, que conhecia os segredos das ervas, uma personagem ambígua, com quem alguns não simpatizavam. E havia também Andrija, uma outra dançarina. Ai, Andrija… Ela era bonita, meio maluquete e safadinha, ou seja, era o suprassumo da tentação escandinava. Pois bem, adivinha quem era Andrija, adivinha. Você não vai adivinhar. Era o Di Bedis. Uau! Sim, meu amigo fora uma mulher em Aaran, e isso viraria motivo de eternas piadas no grupo. Eu não deixava barato.

– Pô, Di Bedis, tu era dançarina de Aaran. Hoje, não consegue nem acompanhar um cabo de vassoura na dança…

– Elas que lembraram, cara – ele respondia, pouco à vontade com o assunto. – Eu não lembrei nada disso.

A piada maior, no entanto, era com o fato de que a maluquete Andrija e o viajante Aidon… os dois… hummm… Adivinha. Isso mesmo, eles tinham um rolo. Eu e Di Bedis fôramos amantes numa vida passada, eu, homem, e ele, mulher.

– Caramba, Di Bedis. Tu piorou muito, viu?

– Vai te lascar.

– Lembra daquela noite em que nós demos uma escapulida no meio da Lua Negra, fomos pro mato e…

– Não, lembro não. Nem quero lembrar.

Façamos as contas. Minha irmã Taena fora minha amante, eu tinha um rolo com sua discípula Orian e ainda chafurdava nos lençóis da taradinha da Andrija, ai, Andrija, que também tinha um rolo com Orian. Isso significa que, tirando Eduarda, em Aaran eu fui para a cama, e também para a sombra dos carvalhos, com todo aquele meu grupo de amigos. Bem, na verdade, para baixar minha bola, isso não significa muito, pois em Aaran o sexo era disciplina obrigatória no aprendizado espiritual.

Durante a leitura do livro, tive sensações curiosas e senti certa familiaridade com tudo aquilo. A história me fez, subitamente, ser mais simpático com a teoria reencarnacionista. De fato, identifiquei-me com Aidon, o viajante estudioso das culturas, e senti que, se existia reencarnação, eu poderia mesmo ter sido ele. No fim, fechei o livro e, enquanto aguardava chegar o sono, experimentei uma nova felicidade, feita da intuição de que encontrara um caminho, muito inusitado, sim, mas um bom caminho para seguir.

óvnis em Guajiru

Guajiru é uma cidadezinha no litoral oeste cearense, que Tata e Eduarda conheciam. No primeiro fim de semana do ano novo, nós quatro fomos para lá. Segundo elas, era um lugar especial, com alta concentração energética, uma espécie de chacra geográfico do planeta, e que naqueles locais os etês costumavam fazer contato. Elas diziam que entre os moradores corriam relatos de avistamentos de óvnis e que lá havia um garotinho especialíssimo, que era um dos etês do bem que estavam encarnando na Terra com a missão de auxiliar os humanos na mudança de nível evolutivo. Elas pressentiam que lá os etês fariam contato com nosso grupo.

Nos dias que antecederam a viagem, fiquei ansioso, e até tive um pesadelo, no qual uma nave pousava em Guajiru, próximo de nós, e um etê saía dela:

– Olá, terráqueos. Levem-me ao seu líder.

– O líder é ele! – Meus amigos apontaram para mim.

– Cês tão de sacanagem… – E os etês começavam a rir.

Poizé. Para mim, ser o líder daquele grupo continuava sendo algo difícil de aceitar, mas eu já admitia para mim mesmo que aquele era o meu grupo, e que, se preciso fosse, iria com eles até mesmo para outro planeta, ainda que tivesse de suportar zombaria de etê.

Em Guajiru, conheci o tal garotinho e… putz, não é que ele tinha mesmo jeito de etê! Chamava-se Isaac, tinha uns olhos estranhos, grandes e meio puxados, um jeito calado e desconfiado… Segundo Tata e Eduarda, ele não sabia que era um etê, mas lembraria quando crescesse. Pelo bem da humanidade, aquele garotinho deveria ser preservado, pois os mega-assediadores certamente já sabiam dele e tudo fariam para eliminá-lo. Babado forte. Mas eu tinha dúvidas.

– Como vocês sabem que esse curumim é um etê?

– Os amparadores nos disseram, Líder. Você não viu o jeito estranho dele?

– Vi. Mas acho que o coitado tá assustado com vocês, isso sim.

O assunto era muito sério para as meninas, mas eu não resistia a umas piadas. Queria que tudo aquilo fosse verdade, porém não conseguia crer do mesmo jeito que elas e Di Bedis. Mas vamos aos óvnis que é o que interessa.

Ao anoitecer, deixamos a pousada e verificamos o céu: poucas estrelas, ótimo. Subimos o morro mais alto e nos posicionamos virados para o mar, sentados na areia. Soprava um ventinho frio. Havia um clima de reverência no ar. A qualquer instante, algo incrível aconteceria.

Estávamos em silêncio, concentrados, quando, de repente, plic, plic, plic… O que é isso? Plic, plic, plic… Gotas. Gotas dágua. Cabruuum!, começou a trovejar. E ventar forte. E chover muito. Em um minuto, desabou uma chuva tão pesada que não tivemos outra opção senão levantar, descer o morro numa correria louca e voltar para a pousada, onde chegamos ensopados e cheios de areia, botando os bofes para fora. Disco voador que é bom, nada. Dia seguinte, pagamos a conta e voltamos para Fortaleza, absolutamente frustrados.

Dias depois, as meninas me mostraram uma notícia no jornal: outro caso de avistamento de óvnis ocorrera em Guajiru, três dias depois daquele fim de semana.

– As naves ficaram presas no trânsito – brinquei.

– Ou nossa energia não estava boa, e eles preferiram não aparecer – sugeriu Tata. – Precisamos nos harmonizar.

desarmonias

Sábias palavras. De fato, não éramos o melhor exemplo de harmonia. Discutíamos por mil motivos e havia conflitos de egos. E eu era um líder absolutamente incapacitado. Além de não me convencer da existência daquelas coisas, eu, ingênuo, não percebia as sutilezas das nossas relações pessoais, o que as garotas viam bem e, por isso, manipulavam as situações. E ainda havia o fato de Eduarda e Di Bedis acharem que eu e Tata formávamos uma dupla evolutiva (pessoas que evoluem juntos no amor romântico em suas proéxis combinadas) e por esse motivo deveríamos namorar, o que nos constrangia, pois não tínhamos interesse. E se éramos mesmo uma dupla evolutiva, então eu estava novamente me afastando de minha proéxis, que merda.

Quanto a Eduarda, ela frequentemente era acusada de usar seus poderes sensitivos para brincar com todos nós, e era óbvio que gostava de ser temida. Se estava tranquila, era doce e companheira, mas o comportamento ambíguo nos causava desconfianças. Di Bedis, por sua vez, não tinha problemas com as garotas, mas, embora não expressasse, e isso eu só saberia depois, não aceitava bem o fato do líder ser eu e não ele, que era ligado ao IIPC havia mais tempo e estudara os livros do instituto.

Quanto a Cris, como voltara a morar em São Paulo, sua participação se dava a distância, sem tanto envolvimento. Ainda assim, entre ela e Tata ressurgiam questões pendentes de Aaran, como se aquela vida ainda prosseguisse no presente: você não me obedeceu naquele piquenique na floresta, você não devia ter dançado nua para Aidon, você usou sem avisar o meu vestido comprado no Reino da Suécia, e ainda devolveu fedido…

despedida

Não foi difícil anunciar à família a decisão de ir embora, tomada naquele entardecer nas dunas, afinal eles sabiam de meus interesses e dos planos de ser escritor profissional. Expliquei aos meus pais que, juntando minhas economias com o seguro-desemprego e economizando bastante, eu me sustentaria por uns seis meses. E depois?, eles perguntaram. Depois a situação melhora, respondi, otimista.

Foi fácil largar a faculdade de Letras e o emprego na clínica. Deixar Fortaleza, minha loirinha desmiolada de sol, era uma ideia incômoda, mas suportável. Aos amigos em geral, Di Bedis e eu preferimos não dar detalhes sobre nossa decisão. À minha irmã Ana, preocupada com a violência no Rio, expliquei que nossos amparadores desviariam de nós as balas perdidas. Putz… Ainda hoje demoro a crer que dei esta resposta esdrúxula, mas você há de concordar que ela foi muito apropriada a um salvador do mundo.

Porém, largar a banda doeu muito. Assim como ocorreu com o Badauê, era um sonho que a vida arrancava de mim quando ele estava no auge. Martan sentiu-se abandonado, e eu tentei animá-lo, dizendo que ele saberia conduzir a banda, mas sabia que realmente estava abandonando meu grande amigo e parceiro. Sim, sei que a vida às vezes nos exige escolhas muito difíceis e que fiz o que precisava fazer, eu sei. Mas mesmo hoje, depois de tanto tempo, essa decisão ainda me dói.

o segurança alado da Tata

Janeiro de 1995. Três semanas após o encontro nas dunas de Aquiraz, Tata e eu pegamos o busão para o Rio de Janeiro. Em minha mala, algumas roupas, livros e, é claro, a camisa do meu Fortaleza Esporte Clube*.

Nas consultas oraculares que fizéramos ao I Ching, que era um constante companheiro de Tata e Eduarda, as mensagens eram positivas, mas alertavam para as dificuldades que enfrentaríamos. Se eu soubesse o tamanho delas, provavelmente teria desistido… Não conhecer o futuro tem suas vantagens.

Fortaleza-Rio de Janeiro, dois dias e duas noites de viagem por aquelas estradas esburacadas. E o ônibus cheio de crianças, com sua natural disposição a infernizar qualquer viagem… Percebendo minha tensão, Tata tentou me tranquilizar, revelando um segredo:

– Tenho um segurança espiritual, de outro planeta, que encontro em sonhos muito nítidos. Ele se chama Urke. Tem asas grandes, é forte, muito bonito…

– Hummm… Já entendi. Vocês têm um caso.

– Deixe de ser bobo.

Resumindo: na viagem, teríamos a proteção do Urke, que seria uma espécie de copiloto invisível, atento às curvas perigosas, aos buracos e aos bois na estrada, enfrentando vento, sol e chuva por dois dias seguidos, coitado. Eu, que seguia me esforçando honestamente para crer naquelas coisas, achei surreal, mas torci que Tata estivesse certa.

O fato é que, contrariando as possibilidades, a viagem foi uma das mais tranquilas que já fiz. E as crianças, uau, parecia que todas eram mudas, tamanho o silêncio. Urke deve ter tirado umas penas de suas asas e enchido a boca dos pimpolhos. Muito sábio o boy magia da Tata.

na estrada do meu destino

Naqueles dois dias de estrada, Tata e eu nos tornamos mais amigos. Éramos dois jovens sonhadores, que se moviam mais por intuições que pela razão, sem muito pé no chão, e ela possuía uma tal confiança na vida que eu ainda não tinha. Conversamos muito sobre seu livro, e tínhamos esperanças de que o IIPC aceitaria publicá-lo, o que poderia nos ajudar financeiramente. Lá, ela deixara uma cópia para as pessoas lerem, principalmente Waldo. Quanto a mim, eu queria escrever sobre aquelas coisas todas e sabia que precisaria primeiro frequentar mais o instituto e aprender mais. Porém, o dinheiro que tínhamos era pouco e, se quiséssemos nos manter no Rio, cidade com custo de vida mais alto que Fortaleza, algo teria que acontecer, e rápido.

– Não se preocupe, querido Líder – Tata dizia, sempre otimista. – Vai dar tudo certo.

– Se ao menos eu tivesse umas experiências lúcidas…

Tata sorria, entendendo minha posição. Eu começava a gostar mais dela e já não a achava tão esquisotérica delirante como antes, mesmo ela tendo um caso com seu segurança alado. E agora Tata tinha o status de velha amiga de outras vidas, ainda que eu não lembrasse, e isso contava muito.

Pela janela, as paisagens que passavam eram partes de mim que ficavam definitivamente para trás. Cinco anos antes, a fracassada experiência de Manaus me enchera de medo das grandes mudanças, e agora lá estava eu a enfrentar meus medos íntimos e a me lançar novamente nas estradas incertas do mundo, sem ter a mínima ideia do que me aguardava. Sim, eu sabia que se tudo desse errado, teria sempre a opção de voltar para a segurança de Fortaleza, mas a sensação que prevalecia era de que a vida começava naquele momento, e, apesar do medo, eu me sentia aliviado por ter aceitado o desafio.

Eu tinha 31 anos e trocava uma banda de rock que queria apenas diversão por um grupo esotérico que pretendia salvar o mundo. Bem, salvar o mundo era importante, mas, em meu sagrado egocentrismo, a prioridade era tornar-me escritor profissional.

Então, fechei os olhos e prometi a mim mesmo que a partir daí eu só trabalharia com o que gostava e que dedicaria todo o meu esforço para cumprir meu destino de escritor, custasse o que custasse. Eu não seria mais covarde. Promete, Ricardo? Prometo.

Ingenuidade? Romantismo? Na verdade, eu era o Louco, das cartas do tarô. Mas ainda não sabia.

trupe riponga da nova era

Tata, Cris, Di Bedis, Eduarda e eu éramos as atuais encarnações de Aidon, Orian, Taena, Andrija, ai, Andrija, e Alira – nesta crença baseava-se a união de nosso grupo. E entendíamos também que, se no século 14, Aaran era uma escola esotérica iniciática, agora, fim do século 20, o IIPC era sua versão modernizada, reencarnada no Brasil. Nosso plano, então, consistia em nos integrarmos a ele e ajudá-lo a guiar a humanidade em seu delicado momento evolutivo.

Nos meses anteriores, Tata e Eduarda, trabalhando como voluntárias na sede do Rio, no início da rua Santo Amaro, na Glória, observaram de perto o dia a dia do instituto e perceberam que em alguns aspectos ele poderia melhorar bastante. Um dia, porém, após saberem que vários computadores da sede foram roubados, deram-se conta de que algo muito sério acontecia… Como isso era possível, já que o IIPC tinha poderosos amparadores a protegê-lo? Elas passaram a desconfiar que o instituto estava sendo vítima de ataques de assediadores igualmente poderosos. Isso era muitíssimo sério. Assim como ocorreu com Aaran, o IIPC poderia enveredar por um rumo muito perigoso. Era preciso agir, e logo.

Nosso grupo era conhecido pelos professores e alunos que formavam o IIPC, pois, além do trabalho voluntário das garotas, havia alguns anos que fazíamos os cursos e Di Bedis ajudara a implantar a filial de Fortaleza. Eles nos viam com curiosidade, pois sabiam de nossa vida comum na Dinamarca, e lembranças de vidas passadas eram mais valorizadas quando coletivas. Porém, desconfiavam do nosso jeito de lidar com tudo aquilo, pois, diferente da abordagem fria e racional que o instituto ensinava, nós conferíamos um tom místico às nossas vivências, éramos emotivos, gostávamos de arte, valorizávamos a música nos exercícios, usávamos incenso e consultávamos oráculos, como o tarô e o I Ching. Para o IIPC, essas coisas eram muletas evolutivas, que podiam ser úteis por um tempo, mas deveriam ser logo descartadas.

Sejamos francos: com nosso jeitão largado e aloprado, estávamos mais para uma trupe de artistas ripongas da nova era que para pesquisadores sérios do IIPC. Se quiséssemos realmente fazer carreira lá, teríamos que rezar pela sua cartilha: mais intelecto e frieza técnica, e nada de arte, emoções e obscurantismos místicos. E, por favor, que nos vestíssemos melhor, uns modelitos mais sóbrios. É, não ia ser fácil.

Sim, éramos um grupo, com um pato desengonçado no papel de líder. Faltavam-me as capacidades sensitivas das garotas e os conhecimentos técnicos do Di Bedis, e eram muitas as dúvidas sobre o que vivíamos. Não passava um dia sem que me questionasse: eu realmente acredito ou, na verdade, quero que essas coisas sejam reais, mas não consigo crer? Apesar das dúvidas, eu me mantinha otimista e esperava que com o tempo eu desenvolveria as tais capacidades, e isso enfim traria a convicção que faltava.

com Beavis e Butt-Head

Chegando no Rio de Janeiro, Tata e eu ficaríamos, inicialmente, no apê do Alan, um amigo que mudara recentemente para o Rio, onde fazia mestrado em informática, e que também fizera cursos do IIPC em Fortaleza. Di Bedis já estava no Rio, hospedado com amigos, e Eduarda chegaria em alguns dias. Após ela chegar, procuraríamos um apartamento para morarmos todos juntos.

Porém, no dia seguinte à nossa chegada, Eduarda nos avisou que precisaria atrasar sua ida para o Rio em um mês, e isso nos obrigou a fazer a primeira mudança de planos em nossa missão de salvar o mundo. Decidimos que o melhor era Tata e eu ficarmos o primeiro mês em São Paulo, e lá eu a ajudaria a revisar seu Aaran, pois no apartamento havia um computador. Naqueles dias, ter um computador em casa era quase um luxo, e os celulares ainda engatinhavam, assim como a internet comercial. Di Bedis não gostou da ideia de nos afastarmos dele, mas teve que se conformar. Pobre Andrija.

O apê em São Paulo ficava no Paraíso, e nele Tata morara com os irmãos Alexandre e André antes de se mudar para Fortaleza, em 1992, e os pais moravam numa fazenda no Mato Grosso do Sul. Tata achou melhor eu dormir com ela em seu quarto, devidamente instalado num colchonete, e tratamos de harmonizar nossos horários de dormir e acordar para que o trabalho rendesse bem.

Alexandre e André eram dois caras tranquilos e divertidos, cultos, torcedores do Corinthians, clube do qual gosto muito, e me receberam bem. Mas… o que pensavam de mim e daquela situação?

Os manos não se ligavam muito em assuntos esotéricos, mas se divertiam com nossas histórias mirabolantes. No início, fiquei envergonhado, afinal não é todo dia que você tem que explicar para dois desconhecidos que você vai morar na casa deles porque você e a irmã deles integram um grupo que vai salvar a Terra e que você é o líder desse grupo… mas que você não está comendo a irmã de ninguém, de jeito nenhum.

Eu nunca passara por algo parecido. Mas os caras eram desencanados e logo relaxei, e pouco depois já dividia umas cervas com eles, rindo com os episódios de seus ídolos na MTV, Beavis e Butt-Head. Além disso, eles tinham amigos mais perturbados do juízo que nós. O fato é que, juntando as doidices de todos, formamos um pequeno e divertido hospício naquele apê do Paraíso.

muriçocas e periguetes

Durante quarenta dias, Tata e eu trabalharíamos juntos diariamente no Aaran, para a história ficar bem compreensível e com bom ritmo. Tata construíra seu romance sobre as lembranças que dizia ter, mas precisou preencher alguns trechos com fatos e diálogos inventados para poder montar a narrativa. Enquanto ela tendia para o tom didático e moralizante, eu puxava para o humor e, se possível, um temperinho de sacanagem…

– Pô, Tata, duas cenas pra explicar que Aidon transava com Orian e também com Andrija?

– Ué? E como seria?

– Elas chamam Aidon pra uma energização a três. Assim, você só precisa de uma cena…

– Ai, Líder, se eu deixar, você transforma meu romance numa suruba só.

– Boa ideia. Criaremos um novo gênero: pornô astral.

Dos amigos que leram o livro, todos comentavam que gostaram. Alguns gostavam até demais, a ponto de achar que também viveram em Aaran, o que nos deixava intrigados. Será que toda a comunidade de Aaran tivera o azar de reencarnar no Brasil? Ou aquilo era apenas efeito de uma boa história?

Eu gostava dos personagens, mas achava que Tata podia aperfeiçoá-los. Andrija, a favorita do meu harém, era uma maluquete declarada, com um pezinho gracioso no sapatinho da futilidade, e uma discípula sempre disposta a aprender um pouquinho mais em nossas aulas a três. Que adorável, não? Andrija não precisava mudar nada, estava perfeita, ai, Andrija. Porém, Orian carecia de uns ajustes, sim.

– Essa Orian é uma grande sonsa. A mim, não engana.

– Por quê, Líder?

– Pra começar, ela dança na Lua Negra vestida com uns paninhos transparentes. E falta às aulas pra ficar no nheco-nheco com um espírito gostosão, que, ainda por cima, numa vida anterior foi general romano.

– O que é que tem?

– Você quer que ela pegue fama de periguete do astral?

Tata analisou minha denúncia e achou melhor redefinir a personagem. Mas não muito. Orian continuou uma sonsa.

– E esse Muriçoca aí?

– Muriçoca, não, Muri. Respeite meu mestre.

Muri era um dos mestres fodões de Aaran. Mais velho, super-hipersábio e sempre tranquilo.

– Não posso chamar seu mestre de Muriçoca?

– Você tá com ciúme porque a Orian adora o Muri.

– Claro que não. Tô justamente defendendo o Muriçoca, pois você está sendo sádica com ele. O coitado precisa de oito capítulos e novecentos conselhos transcendentais pra molhar o biscoito com a Orian. Isso é tortura.

Tata analisou minha denúncia de sadismo feminino e concordou em diminuir a trabalheira do Muri. Ufa! O sindicato dos sábios de Aaran me deve essa.

anotando sonhos

Um caderno grosso de espiral, tendo na capa dura plastificada a imagem dos relógios derretidos de Salvador Dali. Na primeira página, a dedicatória que incluía uma fala do índio yaqui Don Juan, dos livros de Castaneda: Para mim, só existe percorrer os caminhos que tenham coração. No mundo do sonhar ou no mundo dos homens. Por qualquer caminho que tenha um coração. Por ali viajo e o único desafio que vale a pena é percorrê-lo em toda sua extensão. E por ali viajo, olhando, olhando… arquejante. D. Juan

E, finalizando: Bons sonhos, muchacho. 1 beijo, Tata

 Foi um presente que ela me deu, para eu anotar meus sonhos. Que mimoso! Tata já me falara sobre a técnica de anotação de sonhos, indicada por psicólogos junguianos, da qual ela fizera uso quando de seu tempo de terapia, anos antes, e fora muito útil.

Para Jung, os sonhos são a contraparte da vida em relação à parte em que estamos acordados, e expressam o estado psíquico por imagens e narrativas simbólicas, cujos significados nem sempre são fixos, mas podem variar de acordo com as vivências do sonhador. Os sonhos são, assim, mensagens reais do inconsciente para a consciência, e saber interpretá-los ajuda o sonhador em seu processo de autoconhecimento e autorrealização, que Jung chama de individuação (e pelo qual todos passam, mesmo sem consciência dele) e Joseph Campbell chama de jornada do herói. Ainda que pareçam sem sentido para o sonhador, o registro dos sonhos pode dar ao psicólogo um utilíssimo material para que ele possa fornecer a melhor ajuda.

Em nossa disciplinada rotina de trabalho, Tata e eu nos deitávamos à mesma hora, com o despertador programado para tocar no meio da madruga. Fazíamos isso para conversar sobre o que estávamos a sonhar, a lembrança fresquinha, e após eu registrar no caderno, voltávamos a dormir. Mais de uma vez constatamos que sonhávamos a mesma coisa, o que podia indicar que estávamos juntos na dimensão espiritual, embora sem lucidez. E outras vezes, nos empolgávamos tanto no papo que perdíamos totalmente o sono.

dupla evolutiva

Nesse período, fui apresentado por Tata a três coisas que a partir de então norteariam minha vida: Jung, a filosofia taoista e o xamanismo, e aproveitei para ler uns livros que ela guardava no apê.

Na psicologia analítica de Jung, assimilei bem a ideia do Si-Mesmo (Self) como centro ordenador da psique total (consciência + inconsciente), algo como o eu maior, e também do ego, o eu menor, como centro da parte consciente. É no Si-Mesmo que se guardam as potencialidades do ser, feito um código que necessita ser ativado pela consciência. O processo de individuação é, portanto, a efetivação do eu potencial em toda sua totalidade, capacitando o indivíduo a viver, finalmente, suas verdades mais íntimas e a se harmonizar consigo mesmo, com as outras pessoas e com toda a realidade.

Na milenar filosofia taoista*, me identifiquei muito com as ideias de unicidade cósmica, de yin e yang e de nos harmonizarmos com a realidade por meio da superação dos opostos, do crescimento cíclico e do equilíbrio dinâmico.

No xamanismo*, comecei pelos livros de Carlos Castaneda, que Tata amava desde a adolescência. Li os dois primeiros, mas como eles não me empolgaram tanto como Jung e o taoismo, preferi prosseguir a leitura em outro momento. Havia tantos livros para ler, tantas ideias a conhecer…

Uma noite, saímos para um bar próximo e tomamos uns chopes, e rimos muito da insistência de Eduarda e Di Bedis sobre sermos uma dupla evolutiva. Eu brinquei, lembrando que minha última namorada fora bailarina, e, assim, faria sentido que minha namorada seguinte fosse a dançarina principal de Aaran, né?

Na volta para casa, caminhando pela avenida Paulista, Tata de repente parou. Achei que ela esquecera algo no bar, mas não era isso. Ela falou:

– Ricardo, me dá um beijo.

– Como assim? – perguntei, surpreso.

– Anda, me dá um beijo.

– Aqui? Agora?

– Vamos descobrir logo se somos ou não uma dupla evolutiva. Não aguento mais essa cobrança.

Foi assim que, seiscentos anos depois, a dançarina Orian e o viajante Aidon voltaram a usar lábios e línguas para trocar energias. Num estranho país dos trópicos chamado Brasil. Em plena Paulista, iluminados pelas luzes dos automóveis.

No fim, eles se afastaram e se olharam desconfiados:

– É, Líder, não tem jeito.

– Não somos dupla evolutiva, Tata.

– Pelo menos, tentamos.

E saíram caminhando abraçados, rindo das vidas.

os cearenses dominarão o mundo

– Vocês me abandonaram! Isso é sacanagem! Cadê a cosmoética?

O protesto era do pobre do Di Bedis, que todo dia telefonava do Rio, enfrentando os orelhões quebrados da Telerj, para reclamar que eu e Tata estávamos demorando demais para voltar. O jeito foi chamá-lo para passar uns dias em São Paulo. No dia seguinte, ele chegou e, assim como fizera comigo, Tata o instalou em seu quarto, que virou de vez um acampamento. Seiscentos anos depois, Aidon, Orian e Andrija dormiam juntos novamente, agora no Paraíso… Era muita emoção para mim.

Alexandre e André gostaram também do Di Bedis, até porque é mesmo difícil não gostar de seu jeitão Di Bedis de ser. Porém, quando Cris nos visitava, nossos papos esquisotéricos rapidamente afugentavam os irmãos da Tata, o que provava que eles eram muito mais ajuizados que nós.

Nessa época, Salviano, amigo meu e do Di Bedis, ator comediante, estava em cartaz em São Paulo com um espetáculo de humor. Que boa coincidência! Fomos ver o espetáculo e adoramos, e Tata o convidou para ir nos visitar.

– Melhor você não fazer isso – Di Bedis a alertou.

– Por quê?

– É, Tata, não faça isso.

– Gente… Mas por quê?

Tarde demais. Salviano já aceitara o convite.

Para quem não sabe, melhor explicar. Um cearense sozinho longe do Ceará geralmente fica quieto e acabrunhado, que nem caramujo. Mas se dois cearenses se encontram aí pelo meio do mundo, tudo vira piada e a festa só termina na segunda-feira. Porém… se eles encontram um terceiro cearense, você pode ter certeza que toda a fulerage, alopração e baixaria do universo estarão concentradas nesse encontro. Pois bem, Tata acabava de evocar, para dentro do apê de sua família, o melhor do pior da espécie humana.

Sabe aquela velha profecia que diz que um dia os cearenses dominarão o mundo? Alguns afirmam que eles já dominam, mas fazem todos rirem deles para ninguém desconfiar de nada. Pois bem. Quando Salviano foi nos visitar, Tata e seus irmãos tiveram uma pequena mostra de como será o mundo quando os cearenses tomarem o poder. Por uma tarde inteira, os três riram das nossas piadas e de todas as marmotas e barbaridades que falamos, e riram até passar mal e nos pedir, por favor, para parar.

– É melhor vocês não tomarem o poder – comentou Tata, o estômago doendo. – Vão matar todo mundo de rir.

Melhor morrer de rir que morrer na guerra. Né não?

tropeçando em espíritos

As semanas em São Paulo foram de muito trabalho, mas foram divertidas e até inspiradoras. Um dia, enquanto via, com Tata e Cris, o filme Highlander, com o ator Christopher Lambert, eu tive uma ideia para um livro. Seria um romance, que falaria de busca pessoal e trataria daqueles assuntos com que lidávamos, numa linguagem descontraída e sem caretices. Então, fiz um esboço da história, sem certeza de que poderia mesmo virar livro. Sim, viraria, e se chamaria O Irresistível Charme da Insanidade, mas, naquele momento, a única certeza que eu tinha era de que precisava urgentemente de um computador para mim.

Outra coisa boa que aconteceu foi conhecermos Wagner. Ele era conhecido no meio esotérico por dominar bem suas experiências fora do corpo, e havia sido parceiro do Waldo antes de se desentenderem anos antes. Em São Paulo, montara seu próprio instituto num espaço na Vila Mariana, o Reviver, onde fazia palestras e cursos. Para Wagner, que se dizia espiritualista sem religião, essas coisas sobrenaturais eram tão rotineiras como escovar os dentes: ontem, me encontrei com uma entidade hindu e ela me passou este texto, aí Ramatis veio me contar uma piada, e quando saí do banheiro, tropecei num espírito… As experiências que ele relatava me pareciam exageradas, mas gostei de seu jeito bem-humorado, muito diferente da sisudez dos professores do IIPC.

Vimos duas palestras de Wagner, depois conversamos com ele e Tata entregou-lhe uma cópia de seu livro. Os amparadores haviam dito que ela deveria fazer isso. Ela ainda não sabia o motivo, mas logo descobriria.

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Ricardo Kelmer 2020 – blogdokelmer.com

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Viajando na Maionese Astral

 

Capítulos 1 – 2 – 3
4 – 5 – 6

7 – 8 – 9
10 – 11 -12.

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Quarentena Erótica, o livro

08/05/2020

08mai2020

QUARENTENA ERÓTICA, O LIVRO

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Para falar do meu novo livro, tenho antes que falar do Indecências para o Fim de Tarde. Ele é comercializado na Amazon apenas na versão impressa, pois a versão eletrônica, que tentei publicar lá quando do lançamento, em 2015, foi censurada por infligir as regras de publicação. Até hoje não sei o motivo específico da censura. A explicação mais razoável que encontrei é que talvez um ou outro conto aborde temas que contrariam as regras morais para publicação da empresa. O fato é que nunca me conformei com isso.

Então, vem a pandemia de covid-19. E eu tenho uma ideia…

Peguei o Indecências, excluí dois contos e acrescentei outros cinco, e publiquei na Amazon com o título Quarentena Erótica. E a obra foi aceita. Ufa. Isso mostra que, provavelmente, o motivo da censura estava nos contos que excluí, que continham personagens menores de idade em situações sexuais. Entretanto, o livro impresso não foi censurado – como explicar isso? Bem, talvez a Amazon possua funcionários humanos que atuam como analistas de conteúdo, e eles, obviamente, não têm como ler e avaliar todos os livros impressos que são vendidos na plataforma, mas talvez a Amazon utilize algum programa de análise de conteúdo para avaliar as obras eletrônicas. Mas, realmente, não sei.

Como não pretendo publicar o Quarentena Erótica em versão impressa, a obra estará disponível apenas em formato eletrônico, à venda na Amazon ou direto com o autor, em PDF personalizado.

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rk – blogdokelmer.com

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Quarentena Erótica
Contos desavergonhados para dias de isolamento

Ricardo Kelmer – contos eróticos – Miragem Editorial, 2020
formato: eletrônico
Imagem da capa: Casal na Janela, de Georg Friedrich Kersting (1817)

RESUMO

Nos contos de Ricardo Kelmer, o erótico pode vir com variados temperos: romantismo, humor, misticismo, bizarro, horror… Às vezes, vem doce e sutil, ou estranho e avassalador, e às vezes brinca com nossas próprias expectativas sobre o que seja erótico. Explorando fetiches, fantasias, delírios e tabus, e até mesmo experiências reais do autor e de seus leitores, as estórias deste livro acabam de chegar até você para apimentar seus dias, e suas noites, de quarentena.

> para comprar direto com o autor

> para comprar na Na Amazon

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DICA DE LIVRO

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. > saiba mais

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Faxina Summer Show

18/04/2020

18abr2020

FAXINA SUMMER SHOW

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Minha namorada Patrícia me deu um ultimato: Pedrão, ou tu arruma alguém pra faxinar este apartamento ou eu deixo de vir aqui. Então falei com dona Luzia, a senhora da cantina lá da empresa onde eu trabalho, e ela me indicou a sobrinha dela. Falou que a menina faxinava bem e era de confiança, e levava o próprio almoço. Por mim, deixando o apartamento limpo pra Patrícia parar de reclamar, era o que bastava. A moça veio, Meire o nome dela, eu expliquei o que precisava fazer, combinamos que ela viria toda quinta-feira, deixei o pagamento sobre a mesa da cozinha e saí pra trabalhar. Não sei se era porque estava apressado pra sair, mas admito que não vi nada de especial na menina. Morena, baixinha, aquela timidez típica das meninas do interior. Não vi mesmo nada demais na Meire. Porém…

Semana passada, na quinta-feira, saí de casa cedo como sempre, mas precisei voltar depois do almoço pra pegar um livro que eu tinha esquecido. Nem lembrava que era o dia da faxina. Abri a porta do apartamento e, tchum, fui atingido por uma poética visão: Meire dançava na sala, em frente à estante, de olhos fechados, vestida com seu uniforme, vestidinho preto com avental branco e tênis azulzinho claro. Percebi que, na verdade, ela estava dublando Donna Summer, o espanador em sua mão fazendo as vezes de microfone. E a música que tocava era Could It Be Magic.

Ela não percebeu minha chegada e continuou seu número solitário, dublando e se contorcendo sensualmente em movimentos lentos e sinuosos. Fiquei ali na porta, olhando fascinado, subitamente admirado de sua beleza. E aquelas pernocas, uau, o que era aquilo? E aquela bundinha balançando no ritmo erótico da música, caramba… Não, definitivamente eu não havia olhado direito pra menina no primeiro dia. A dança foi ficando mais sensual e ela ergueu a barra do vestido até o meio da bunda… Caramba, ela estava sem calcinha! Ou não? Não, devia ser impressão minha. Talvez fosse uma dessas calcinhas minúsculas, enfiadíssima na bunda. Senti meu pau se alvoroçando, o coração batendo forte, a garganta seca… Então a música chegou ao fim e ela abriu os olhos, saindo de seu transe. E percebeu minha presença.

– Aaaaiii! – Meire exclamou, tomando um baita susto. – Que vergonha, seo Pedro…

– Sem problema – respondi, entrando e fechando a porta. Começou a tocar Love to Love You Baby. – Você gosta de Donna Summer?

– Conhecia não. Semana passada eu botei pra tocar enquanto faxinava e adorei.

Veja você. A menina escolhera Donna Summer pra ser a trilha sonora da faxina, que meigo. O mundo ainda tinha salvação.

– O senhor também gosta dessa cantora?

– Quem gosta mesmo é a Patrícia. O cedê é dela.

– Patrícia é a namorada do senhor?

– É.

– Eu vi uma foto de vocês. Ela é muito linda.

Fiquei sem saber o que dizer.

‒ Parece uma atriz de cinema. Ela deve ser uma mulher maravilhosa, né?

– Ahn… É, é sim.

– Olha, não arranhei o cedê não, viu, tomei muito cuidado.

– Pode ouvir sempre que quiser.

– Também gostei desta que tá tocando.

‒ Esta é Love to Love You Baby.

‒ Sei inglês não. Quer dizer o quê?

‒ Eu amo amar você.

Ela sorriu e ficou me olhando de um jeito assim meio… malicioso. Ou a malícia estava em minha mente? Tive a impressão que a menina, na verdade, entendeu que eu havia dito que eu, Pedrão, amava amar ela, Meire.

– Eu amo amar você é o nome da música – expliquei, me achando meio idiota.

– Eu queria saber inglês pra cantar essas músicas.

Quase que falei que eu poderia ensinar, e de graça. Mas me contive a tempo, pressentindo que eu estava à beira de ser possuído pelo espírito do velhaco tarado seboso, que costuma me atacar em certas ocasiões delicadas.

– O senhor dá licença. Vou continuar o serviço.

– Claro. Vim só pegar uma coisa que eu esqueci.

E fui pro quarto. Peguei o livro e voltei à sala. Agora a menina estava limpando o vidro da janela, de pé sobre um banquinho. Quase dava pra ver a calcinha. E, caramba, aquelas pernocas…

– Tchau, Meire.

Ela virou-se e sorriu. Sorriu novamente daquele jeitinho malicioso. Ou eu é que já estava imaginando coisas?

– Tchau, seo Pedro.

– Pode me chamar de Pedro mesmo.

– Ah, não sei se consigo, o senhor é meu patrão.

– Consegue. É só dizer… Pedro.

Ela sorriu, envergonhada. Como ficam lindas quando estão com vergonha as faxineiras que vêm do interior…

– Só vou embora depois que você me chamar de Pedro ‒ falou o velhaco tarado seboso. Não deu pra contê-lo.

Ela desviou o olhar, sorrindo encabulada. Como ficam lindas as faxineiras que ficam encabuladas de dizer o nome do patrão…

– Tchau, Pedro.

Ai, ai. Meu nome nunca ficou tão bonito na boca de uma mulher. Até porque Patrícia me chama de Pedrão, é bom que se diga.

– Tchau, Meire.

Saí, fechei a porta e entrei no elevador. Acho que estava em estado de choque, nem lembro como cheguei no escritório. Desde então não consigo tirar essa menina da cabeça. Será que ela estava me dando bola, será? Ou aquele era apenas seu jeitinho espontâneo de menina ingênua do interior, e o meu velhaco interior é que estava me pregando peças? Só havia um modo de saber.

Pois bem, cá estou, uma semana depois. Manhã de quinta-feira, eu aqui sentado no sofá, de bermuda e camiseta, o jornal ao lado. É a edição de domingo, mas isso não tem importância. E já avisei lá na empresa que hoje só vou à tarde. Desligo o celular, é melhor. Olho o relógio, oito horas. Calma, Pedrão, ela deve estar chegando.

Então, ouço a porta da área de serviço abrindo, e depois fechando. Ufa, ela chegou. Agora deve estar indo pro banheiro de serviço. Deve estar agora trocando de roupa. Pego o jornal e busco qualquer notícia pra ler. Putaquipariu, dá pra ouvir meu coração batendo. Mais um pouco… só mais um pouco… mais um pouquinho… e ei-la, ei-la na porta da cozinha, sorrindo pra mim.

– Bom dia, seo Pedro.

– Bom dia, Meire.

– O senhor não vai trabalhar hoje?

– Vou só à tarde.

Como fica mimosa nesse uniforme de faxineira…

– Se o senhor quiser, começo a limpar pelo quarto do senhor.

– Não se preocupe, não vai me atrapalhar.

– Tá bom. Mas se atrapalhar, o senhor diz, tá?

– Digo.

Ela começa a passar o pano na estante. E eu no sofá, com meu jornal de domingo. Reparo que em determinados movimentos o vestidinho preto sobe um pouco e quase dá pra ver a calcinha. Que cor será? Terá florzinhas, coraçõezinhos, moranguinhos? De repente ela se vira, e eu, flagrado em minhas admirações, volto o olhar pro jornal.

– Tô atrapalhando o senhor, né, seo Pedro?

– Não, não. E pode me chamar de Pedro mesmo.

Ela sorri sem jeito e volta ao serviço. E eu volto a admirar seu corpo, seus movimentos tão graciosos. Aquelas pernocas lindas, aquela cinturinha de pilão… Quando ela se agacha pra ajeitar as almofadas no chão, tomo um susto. Nada de florzinhas, coraçõezinhos ou moranguinhos: ela tá sem calcinha. Não. Não acredito no que vejo, ou no que não vejo, e olho novamente. Mas ela já se ergueu e agora eu tô na dúvida. Será que ela realmente tá sem calcinha? Não, não é possível, isso é a minha imaginação sórdida, por que a menina viria trabalhar sem calcinha? Bem, talvez ela seja muito pobre, coitada, tá sem dinheiro pra comprar calcinha.

Então ela sem querer derruba uma revista e se agacha novamente pra apanhar. Putaquipariu! Ela tá mesmo sem calcinha! Dessa vez eu vi claramente. Tá sem nada por baixo do vestido, nadinha. Caramba… Uma faxineira que vai trabalhar sem calcinha, pode uma coisa dessa? Decido agir. Preciso agir. Não posso fazer outra coisa senão agir.

– Meire?

– Sim, seo Pedro.

– Você não esqueceu de vestir algo?

Ela para, pensa um pouco, leva a mão até o meio das coxas… Então sorri, encabulada.

– É que eu acho mais confortável assim, sabe? Mas se o senhor quiser, eu visto a calcinha…

– Por mim, pode ficar assim mesmo.

– Não carece mesmo não? O senhor tem certeza?

– Tenho.

Não carece… Você não acha lindo esse jeitinho interiorano dela de falar? Devia ser preservado em museu.

Meire segue limpando a estante, sem calcinha, porque é mais confortável, e eu fingindo que leio as últimas do esporte. Uma mulher sem calcinha já é um presente pros olhos do cidadão trabalhador, né? Agora, a sua faxineira sem calcinha, e a faxineira sendo como a Meire, ah, isso é um convite irrecusável à luxúria e ao desatino.

Nesse momento percebo… que ela… dá umas olhadinhas pra mim. Bem rápidas, assim de cantinho de olho, sabe? Entre um e outro de seus afazeres, nossos olhares se cruzam e ela desvia o seu, encabuladinha. Depois ela olha de novo e fala, achando graça:

– O jornal tá de ponta-cabeça.

Caramba. Não é que tá mesmo? Ponho o jornal na posição correta, rindo da minha idiotice. E volto a ler, ou a fingir que leio, enquanto ela vai à área de serviço. O cara falta ao trabalho pra ficar em casa lendo o jornal de ponta-cabeça. O que ela deve estar pensando de mim?

Meire volta com balde e escova. E começa a esfregar o carpete. Adivinha em que posição… De quatro. De quatro e de costas pra mim. Ah, não, isso já é abuso. Posso ver perfeitamente a buceta. Buceta raspadinha, parece um hambúrguer na vertical, hummm… Caramba, que menina safada.

Resolvo partir pro tudo ou nada e, tchum, ponho o Bambam pra fora da bermuda. Bambam é o nome do meu pau, foi Patrícia quem deu esse nome a ele, em homenagem ao personagem dos Flintstones. O danado tá duro que nem granito, e fico mexendo nele até que Meire percebe. Ela toma um susto e fica toda encabulada. Ou tá apenas fingindo? Não, agora já não dá pra acreditar que seja tão ingênua, é impossível. Ela volta a esfregar o carpete, mas em seguida vira o rosto e olha novamente pro meu pau. Parece um pouco assustada, talvez tenha percebido que a brincadeira foi longe demais. Ou é tudo fingimento?

– Quer pegar, Meire?

Ainda olhando pro meu pau, ela faz que não com a cabeça.

– Só pegar.

Ela hesita.

– Só pegar?

– Isso, só uma pegadinha.

Tá indecisa, conheço bem uma mulher indecisa.

– Vem…

Vem é a palavrinha mágica quando a mulher tá indecisa. O tom da voz depende da mulher, podendo ser num tom de ordem, pedido ou súplica. Pra Meire achei melhor pedir. Vem… E funciona: ela larga a escova e vem em minha direção, engatinhando devagar, que nem uma gatinha que tá supercuriosa a respeito daquela estranha salsicha pulsante à sua frente. Ela se aproxima, para entre minhas pernas e senta sobre os calcanhares, as mãos pousadinhas sobre as coxas. Solto meu pau e ele fica lá, ereto que nem um mastro sem bandeira. Meire olha pra ele e agora já não parece assustada. Ela observa meu pau com atenção, quietinha, mordendo os lábios.

– É bonito.

‒ Você acha?

‒ Mais bonito que o do meu noivo.

Ela tem um noivo, pode uma coisa dessa? Dona Luzia já havia me dito. Vinte anos e já quer casar, essa juventude tá perdida. Ela estica o braço e toca meu pau com a ponta dos dedos, como se ele fosse um bicho selvagem que a qualquer instante fosse atacá-la. Como não atacou, ela toca novamente, mais confiante, e dessa vez segura-o entre os dedos, sentindo-o latejar.

– Quer dar um beijinho nele?

Ela faz que não com a cabeça, meu pau ainda está em sua mão, pulsando.

– Só um beijinho.

Ela hesita outra vez. Conheço uma mulher quando hesita.

– Ele tá pedindo, ó.

Ele tá pedindo, ó. É uma frase mágica. Difícil uma mulher resistir a um pau pedinte.

– Tá, só um beijo – ela finalmente consente. Então chega seu rosto mais perto e beija rapidamente a cabeça do meu pau. Uau, ele tá tão duro que tenho certeza que no próximo segundo vai explodir, vai ser pedaço de pau pra todo lado. Faço um esforço danado pra não agarrar sua cabeça com as duas mãos e forçá-la contra ele, mas sou um patrão educado, não faria isso.

– Não quer dar uma chupadinha?

– O senhor deixa?

Ora, ora, mas isso é pergunta que se faça?, eu quase falo. Mas prefiro ser distinto:

– Claro, Meire, fique à vontade, ele é todo seu.

E fecho os olhos, e me ajeito no sofá, à espera de me sentir engolido pela boquinha da minha doce faxineira. Mas a boquinha não vem. Abro os olhos e a menina continua lá, acariciando meu pau e olhando pra ele.

– Eu tô assim com o senhor mas o senhor sabe que eu sou moça direita, né?

– Sim, claro, eu… humm… eu sei, claro… hummhmm… admiro muito isso em você…

Eu sentado no sofá, ela ajoelhada entre minhas pernas, meu pau entre mim e ela, sua mão subindo e descendo em meu pau. E sua boca a um palmo dele, a meio palmo, se aproximando, se aproximando…

– O senhor pediu pra eu chamar o senhor só de Pedro, mas eu não posso não – ela diz, parando a boca a um centímetro do meu pau, pro meu desespero.

– É? Por quê? ‒ pergunto, mantendo a compostura.

– Acho certo não, sabe? O senhor é meu patrão, eu sou sua faxineira. Não é bom confundir as coisas.

Ora veja. Eu realmente não esperava por essa argumentação. Mas é claro que, nessa altura do campeonato, eu é que não vou discutir com uma linda faxineira que está punhetando meu pau com sua mãozinha tão macia, a boca quase nele…

– Você tem… humm… toda razão, Meire…

– O senhor sabia que eu sou virgem?

Virgem? Caramba. É sério?

– Sabia, seo Pedro?

Não. Não sabia. Como iria saber?

– Hummm…

– Pois eu sou.

O que devo dizer? Parabéns? Lamento muito?

– Sou virgenzinha. Mas só na frente.

Ora veja.

– Posso pedir uma coisa pro senhor?

Não. Não posso acreditar que ela vai pedir pra eu botar só no cuzinho dela, não, isso só acontece nos contos eróticos.

– Pode, peça…

– O senhor bota…

– Boto, boto, claro. Quer agora?

– … aquele cedê?

Heim?

– Que cedê?

– Da Donna Summer.

– Ah, sim.

Caramba, a menina ficou realmente obcecada pela Donna Summer.

– Pode botar você mesma, fique à vontade.

Ela larga meu pau, levanta, vai até a estante e bota o cedê pra tocar. Segunda faixa, Could It Be Magic. Acho que demorou dois séculos pra voltar.

– O senhor não vai contar pra minha tia que a gente tá fazendo isso, né? – ela pergunta, ajoelhando-se novamente entre minhas pernas e prosseguindo nos carinhos.

– Claro que não, Meirinha… hummm…

– Se ela descobre, ela me manda de volta pro interior.

– Hummhhhhmmm…

– O senhor jura?

– Hummmhhmhmhmhm… Heim?

Já não sei mais sobre o que ela tá falando.

– Jura, vai.

– Quem, eu?

– Sim, jura.

– Juro – respondo, sem ter a mínima ideia por que diabo eu tô jurando.

– Então beija.

– Ahn?

– Beija.

Beijar? Beijar o quê?

– Vai, beija.

Sem ousar questionar o fetiche da menina, inclino a cabeça pra frente, mas, apesar de meu esforço, meu rosto não chega nem perto do meu pau.

– Não, não. Beija os dedos. Assim, ó, fazendo a cruz. Pra jurar bem jurado.

Cá pra nós. Você já teria perdido a paciência e mandado um chupa logo essa caceta, Meire, não teria, diga a verdade. Mas eu me controlo e beijo os dedos em cruz, e olhe que eu sou ateu. Tudo por um boquete.

Meire finalmente começa a me chupar, ufa, enquanto Donna Summer canta só pra nós. Sinto o calor aconchegante de sua boca… Não é que minha faxineira sabe fazer direitinho? Pode ser virgem na frente, mas aquela boca é profissional, ah, é sim, conheço uma quando vejo. Estico as pernas e me acomodo melhor no sofá. De fato, ela chupa superbem, sabe envolver meu pau com jeito, e a sensação é boa demais, ótima demais…

– Patrãozinho tem um pau tão gostoso – ela fala, interrompendo o boquete.

Tomara que ela não me peça aumento agora, pois não tô em condição de negar.

– É mais gostoso que sorvete…

Obrigado, Meire, obrigado, mas eu sinceramente prefiro que você chupe em vez de falar. Vai, volta a chupar, por favor…

– Eu sempre acordo meu noivo assim. Adoro quando sai o leitinho, parece mágica, né?

Ai, ai, ai… Tô começando a desconfiar que essa menina tem um parafuso frouxo.

– O nome do pau dele é Caveirão.

Não, eu não ouvi o que acabo de ouvir.

‒ Acho muito feio, mas ele diz que é esse nome mesmo e não vai mudar.

Puta merda. Agora eu tenho certeza que essa menina é doida.

‒ O do senhor tem nome?

– Heim?

– Posso chamar ele de Pedrito?

Pedrito? Claro que não. Onde já se viu um pau chamado Pedrito? Seria a desmoralização total. Aliás, onde já se viu um pau ter dois nomes? Patrícia chamando ele de Bambam, Meire chamando de Pedrito, isso não ia dar certo, o coitado pode ter uma crise de identidade. Mas acontece que não tô em condições de negar mais nada…

– Pode, minha linda, pode.

Pode mas chupa, vai, faz favor.

– Pedrito, você é muito fofo, viu?

Ele já sabe disso, Meire. Agora me chupaaaaaa!!!

Pro meu imensurável alívio, ela finalmente esquece aquela história de batismo de pau e recomeça a chupar. E Donna Summer geme junto comigo.

‒ Hummhhmm…

– Quero ver a mágica do leitinho… – ela diz, entre o vai e vem de sua boca.

Aviso que vou gozar, vou gozar, vou gozar… E meu gozo explode dentro de sua boca, com a força de um milhão de megatons de tesão acumulado, e ela engole tudo, lambendo e saboreando com muito gosto. Coitada, deve estar com fome, acho que nem tomou café da manhã.

– Leitinho bom…

Ela bebe minhas últimas gotas enquanto eu curto essa sensação de abandono de si mesmo a que chamamos orgasmo. E, no meu caso, me abandonei de um jeito que fiquei largado lá no sofá, imprestável pro resto da vida.

– Gostou, patrãozinho?

– Mmmmhhhhmmmnnn… – é só o que consigo dizer, ou mugir, pra combinar com a ordenha que sofri.

– Fiz do jeito que o senhor gosta?

– Mmmmhhmm, humm…

– Então dá licença que eu vou voltar pro serviço, viu?

Ela levanta, desliga o som, pega o balde e a escova e vai pra cozinha. No silêncio da sala, semimorto no sofá, eu me pergunto que faxineira é essa, sem acreditar no que acaba de acontecer.

Mas logo ela volta.

‒ Esse vestido ficou um pouquinho apertado aqui em cima. Vou ter que fazer um ajuste.

– Mhhmmnn…

Ela senta ao meu lado e me abraça carinhosa.

– Tão lindo o meu amor fica depois de um boquetinho…

Não é mais Meire. É Patrícia. Ela me beija no rosto, na boca, me afaga os cabelos.

– Gostou da minha faxineira?

‒ Adorei….

‒ Mesmo?

‒ Claro. Só achei demais aquele marketing descarado de elogiar a namorada do patrão.

‒ Não resisti…

‒ Ela vai ficar chamando o Bambam de Pedrito mesmo?

‒ Vai. Bambam é só pra mim.

‒ Acho que ela tem um parafuso frouxo, fica falando do pau do noivo…

‒ Ah, Pedrão, quando você criou a fantasia da Testemunha de Jeová em crise existencial, eu não me meti em nada.

‒ Tá bom, tá bom.

Patrícia me agarra e nos beijamos novamente. Meire tem toda razão: é mesmo uma mulher maravilhosa, e tem um beijo inacreditavelmente delicioso. E eu sou um cara de muita sorte.

‒ É só uma sugestão. Na segunda parte, ela põe pra tocar o Racional do Tim Maia, que tal?

‒ A Meire gosta de Donna Summer e ponto final. E agora vamos que a gente marcou oito horas no bar – ela diz, findando o beijo e levantando do sofá.

– Só mais um minutinho – respondo, me espreguiçando.

– Pingou um pouco no chão, depois passa um pano.

Lá fora, a noite do sábado acaricia meus pensamentos. Fecho os olhos, e na trilha sonora pós-gozo da minha mente, Donna Summer volta a gemer um de seus sucessos.

‒ Ouviu, Pedrão?

– Sim, senhora.


Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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Este conto integra os livros

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. > saiba mais

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Quarentena Erótica
Ricardo Kelmer – contos

Nos contos de Ricardo Kelmer, o erótico pode vir com variados temperos: romantismo, humor, misticismo, bizarro, horror… Às vezes, vem doce e sutil, ou estranho e avassalador, e às vezes brinca com nossas próprias expectativas sobre o que seja erótico. Explorando fetiches, fantasias, delírios e tabus, e até mesmo experiências reais do autor e de seus leitores, as estórias deste livro acabam de chegar até você para apimentar seus dias, e suas noites, de quarentena. > saiba mais

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Comentarios01COMENTÁRIOS

01- Fenomenal como sempre. Wise Tafari, Beira-Moçambique – jan2021

02- qto é a diária? Nicolas Ayres, Fortaleza-CE – jan2021


Amor de bar

15/01/2020

15jan2020

Uma homenagem aos bares que amamos

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AMOR DE BAR
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Putz… Depois de ler todas essas crônicas, a vontade que me deu foi de ir em cada um dos amados bares que João e Alexandre tão bem homenagearam e tomar uma em cada um deles.

Uma ou duas, né, que às vezes só uma não dá tempo de sentir o ambiente e de se deixar levar por tudo que ele evoca, e olhe que tem bar que evoca até o passado que não se tem. Uma ou duas dúzias, sim, porque tem bar que, já na primeira sentada, ele mexe de um jeito esquisito na peçoa umana bebedora, você já percebeu?, poizé, parece que a pessoa já esteve ali antes, ou dali nunca saiu.

Helano, Tocantins, Disney Lanches… Qual é o segredo dos bares que amamos? Taí uma questão que pode render infinitas saideiras. Tem bar que nos seduz pela cerveja inacreditavelmente sempre gelada, o que não é pouca coisa. Ou por aquela transcendental moela ao molho que nos faz salivar um litro só de passar em frente. Às vezes, o segredo é a distância: dobrou duas esquinas, chegou no bar, e voltou duas esquinas, já tá em casa, o que permite beber o que se gastaria com o uber. Às vezes é o atendimento, aquela presteza infalível, aquela captação silenciosa e imediata dos nossos mais puros desejos, um milagre que se reedita a cada ida ao bar: “Seo Papito, me traga…” “Aquela farofa de ovo com sardinha, tomate e a cebola bem fritinha, é pra já.” “Eita, como é que o senhor sabe?”.

Bares são como amantes possessivos: quando nos damos conta, não conseguimos deixá-los, por pior que seja a relação. Veja a história de Micaela. Ela bebia havia anos no mesmo bar, mas o trocou por outro que abrira no outro lado da rua. Uma noite, bebendo com as amigas em seu novo bar predileto, Micaela olhou para o antigo amor e, percebendo vazias as mesas, foi tomada de um sentimento de culpa avassalador. A partir daí, viu-se obrigada a beber nos dois bares, na mesma noite, num ritual que fazia rir as amigas, que ficavam no segundo bar, aguardando que ela tomasse uma no primeiro, sozinha no balcão, trágica penitente etílica.

O Roque Santeiro, no Mucuripe, era uma bodega que dona Orestina e seo Moacir montaram na parte da frente de sua casa e que abria às cinco da manhã. Durante 20 anos, frequentei o Roque, pra ressuscitar da noitada com um caldo quentinho e depois tomar a saideira, que se replicava em outras saideiras até o meio-dia, ao som de Odair José, Núbia Lafayette e Roberto Carlos. Pois bem. Sempre que eu começava um novo caso, ia com a garota no Roque só pra saber a opinião de dona Orestina. Quando a garota ia ao banheiro, ela vinha e me dava seu veredicto: “Onde foi que tu arrumou essa matraca, ô menina pra falar!”, ou “Coitada, ela acha que te fisgou só por causa daqueles peitões…” Como você pode ver, além de ser a segunda casa, às vezes é no bar que conhecemos nossa segunda mãe.

Longa vida aos bares que amamos!

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Ricardo Kelmer 2019 – blogdokelmer.com

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Esta crônica foi escrita para o posfácio do livro Saideiras (Radiadora, 2020), de Alexandre Greco e João Ernesto, um livro de crônicas afetivas sobre alguns bares de Fortaleza, com edição e prefácio de Alan Mendonça e ilustrações de Jadiel Lima.

O livro é um convite por outros olhares a esses lugares que, quando forjados na arquitetura do encontro, são parte dos quintais dos homens, um bailado de trégua com a vida.
Alexandre e João passeiam pela geografia etílica de Fortaleza com a afetividade própria aos múltiplos, aos corações subversivos dos vagabundos, que perambulam imensamente compromissados com o inútil… e expõem as sutilezas do essencial das horas anteriores à obediência ao sol.

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Roque Santeiro, o meu bar do coração – Em Fortaleza tem um bar / Que é boteco companheiro / Não tem nada similar / Já pesquisei o mundo inteiro / Por isso escrevo essa carta / Pra matar a saudade ingrata / Do meu bom Roque Santeiro

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Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

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COMENTÁRIOS
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01- Muito bom, Ricardo Kelmer! Tayane Cristine, Campina Grande-PB – jan2014

02- Realmente um lugar pra ser feliz!!! Lucinha Simões, Fortaleza-CE – ago2014


Os fascistas cristãos atacam novamente

27/12/2019

27dez2019

Ser sagrado não pode ser critério para definir os limites da liberdade de expressão, pois tudo que existe é sagrado para alguém


OS FASCISTAS CRISTÃOS ATACAM NOVAMENTE

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O atentado terrorista à sede da produtora Porta dos Fundos, no Rio de Janeiro, não pode ficar impune, caso contrário, servirá de incentivo para ações fascistas-cristãs ainda mais violentas.

Numa democracia, a arte é inteiramente livre para reinterpretar, criticar e debochar de qualquer coisa, inclusive do que é sagrado para alguém. Ser sagrado não pode ser critério para definir os limites da liberdade de expressão, pois tudo que existe é sagrado para alguém. Para a religião rastafari, a maconha é divina. Não podemos fazer humor com a maconha? Para a cientologia, que tem seu status de religião confirmado em vários países, extraterrestres são um assunto muito sério. Não podemos zombar de extraterrestres?

Para os artistas, sua arte é sagrada, mas eles sabem que qualquer um tem o direito de criticar e zombar da sua arte.

Religiosos têm todo o direito de não gostar que debochem de suas crenças. E qualquer um tem todo o direito de debochar delas.

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Ricardo Kelmer 2019 – blogdokelmer.com

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A PRIMEIRA TENTAÇÃO DE CRISTO

Este ano, o especial de Natal do Porta dos Fundos se chama A Primeira Tentação de Cristo, e foi lançado na Netflix. Nele, Jesus (Gregório Duvivier) é surpreendido com uma festa de aniversário de 30 anos. Na ocasião, Maria (Evelyn Castro) e José (Rafael Portugal), os pais do aniversariante, fazem uma revelação bombástica: ele foi adotado e seu verdadeiro pai é Deus (Antonio Tabet). Outra das surpresas é que Jesus poderia estar em um relacionamento com outro homem.

O episódio gerou indignação entre cristãos e conservadores, que mobilizaram um abaixo-assinado contra a Netflix. Gregório Duvivier ironizou o abaixo-assinado. “Sim, vi que são 300 mil pessoas. Acho que fizemos algo errado, porque é muito pouca gente. Da próxima vez, acho que vale pegar mais pesado. O Porta tem quase 20 milhões de inscritos. 300 mil é um fiasco. Mas de qualquer jeito, vale pra medir a audiência. Pelo menos 300 mil pessoas viram. É mais que a base de apoio do Bolsonaro”.

Palavra do Senhor: Imperdível!

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INRITADO
Neste vídeo, o Porta dos Fundos responde aos protestos dos cristãos por seu especial de Natal de 2019

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Polícia investiga grupo autodenominado integralista por ataque ao Porta dos Fundos – O Povo, dez2019

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O beijo da resistência contra a besta do fascismo – O fascismo não faz política ‒ ele é a negação da política, pois não dialoga, apenas agride, persegue e censura

Jesus e a pecadora do pé de goiaba – Eis que naquela tarde, a caminho de Cafarnaum, Jesus passou embaixo de um pé de goiaba e viu uma mulher lá em cima

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Comentarios01COMENTÁRIOS

01- Ricardo, meu caro, você como sempre perfeito em suas colocações. Te admiro muito. Continuaremos sendo resistência! #MaisAmorMenosÓdio #LulaLivre #MariellePresente Fabiano Brilhante, Fortaleza-CE – set2019

02- Decidi publicar no meu blog: https://gentedemidia.blogspot.com/2019/09/artigo-o-beijo-da-resistencia-contra.html. Nonato Albuquerque, Fortaleza-CE – set2019

03- “Ame e deixe os outros amarem ‒ este é meu recado para os fascistas que aguentaram ler até aqui. Mas sei que eles não concordarão. Porque é o ódio ao diferente o sentido de suas vidas” …. …. ….. é isso aí. vale pra Witzel, Bolsonaro, Doria e Crivella… Temos que chamar esses monstros que estão no poder pelo primeiro nome deles: FASCISTAS! Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – set2019

04- Pra quem tem curiosidade de ler a graphic novel ,com a patética ideia de falar mal sem ler .Eu li.Baixei gratuitamente aqui as nove edições da HQ,que foram colocadas posteriormente num só exemplar.Baixei um leitor de quadrinhos e li no celular: https://bancadoporcoaranha.blogspot.com/2019/06/vingadores-cruzada-das-criancas-2010.html  Luis Carlos Trajano, Areia-PB – set2019
 
 
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Períneos ensolarados

06/12/2019

06dez2019

Com vocês, a nova sensação da temporada: o banho de sol no períneo

PERÍNEOS ENSOLARADOS

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Várias celebridades da internet já aderiram à nova sensação da temporada: o banho de sol no períneo. Segundo os adeptos, a técnica promete regulação dos hormônios, aumento da criatividade e fortalecimento da energia sexual, e bastam apenas 5 minutos por dia.

O DJ espanhol Arregh Añado afirma que, além de todos os benefícios, a prática ajuda a diminuir o buraco na camada de ozônio. A digital influencer holandesa Dihku Prussol pratica há vários anos e, desde então, tem conseguido orgasmos tão intensos que uma vez eletrocutou seu parceiro, quase levando-a à morte.

Não vejo a hora de experimentar aqui na sacada do meu apartamento. E depois, se alguém quiser curtir a eletrocutação transcendental, as inscrições estão abertas.

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Ricardo Kelmer 2019 – blogdokelmer.com

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O raio cósmico ultravioleta – Então naqueles dias o raio cósmico ultravioleta desceu sobre a Terra para tornar realidade os desejos

Shopping das vidas passadas – Quer dizer que mil anos depois eis-me aqui fazendo a mesma coisa que eu fazia naquelas noites frias das estepes russas, conjeturando sobre o tempo?

Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

Pesadelos do além – O pior pesadelo prum escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado.

O médium, o marido, o morto e a amante – Acho que Deus deveria controlar melhor as fronteiras do Além. Tá muito esculhambado

As ciclistas orgásticas da Colômbia – Ciclistas adotam uniforme polêmico e usam a energia de seus orgasmos para vencer corridas

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Comentarios01 COMENTÁRIOS

 

01- 😂😂😂😂😂 @rliagou, dez2019

02- Kkkkkkkk @eumariblue, dez2019

03- 🤣🤣 @glauciacosta1, dez2019

04- Kkkkkk @rosaprimogadelha, dez2019

05- 😂😂😂 @casadamorgana, dez2019

06- 🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣😂😂😂😂😂 @herminia_lima_, dez2019

07- Kkkkkkkk vou fazer na praia dos crush. @andressagadelha, dez2019

08- ricardo-kelmer, te admiro muito! Kkkkkkk. @angelamgadelha, dez2019

09- 😂😂😂😂😂😂 @loredanna123, dez2019

10- 😮😂😂😂 @gledsonshiva, dez2019

11- 😅😅😅😅😅 @soraya.freire.948, dez2019

12- 😂😂😂😂😂 @jess_giambarba, dez2019

13- Faz na P.I. ou P. F.🌊😅 Márcia Matos, dez2019

14- a expressão “aquele lugar, onde o sol não bate” acabou de cair por terra. Gabriel Portela, dez2019

15- Rapaa, não sabia desse negócio…tou perdendo tempo. Shirlene Holanda, dez2019

16- Fiofó tá valendo também? Brennand De Sousa Bandeira, dez2019

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Protegido: A primeira namorada (vip)

22/11/2019

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Lucyanna, a mulher dupla

17/10/2019

17out2019

A incrível história da mulher dividida em duas

LUCYANNA, A MULHER DUPLA

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Anna e Lucy DeCinque são australianas, têm 34 anos e em 2016 venceram um concurso no Japão que as elegeu as gêmeas mais idênticas do mundo. As maninhas levam suas semelhanças muito a sério, tanto que só se vestem igual, penteado igual, voz igual, os peitões iguais (quatro mamões sempre querendo saltar na nossa cara), comem a mesmíssima comida sempre, adoecem igual, e já gastaram muita grana em cirurgias para ficarem ainda mais iguais. São obcecadas em serem a mesma pessoa, tanto que dividem o celular e as contas nas redes sociais, e ganham dinheiro com isso.

Quando adolescentes, Anna e Lucy tinham uma beleza natural. Hoje, após tantos procedimentos estéticos, elas ficaram com aparência de bonecas, uma coisa exótica, meio bizarra. E quando conversam com outras pessoas, uma completa a fala da outra e falam igual ao mesmo tempo. Poderiam logo adotar o mesmo nome, né? Como vocês se chamam? E as duas, em uníssono: Lucyanna!

As clonadinhas têm um namorado. O mesmo namorado para ambas, claro. É o Ben Byrne, com quem pretendem se casar. E, adivinha, planejam engravidar dele ao mesmo tempo, para que seus corpos não fiquem diferentes. Como os três tomam banho juntos e dormem na mesma cama, imagino que não será muito difícil. A mãe delas (os quatro moram juntos, ainda tem isso!) aprova a ideia, doidinha para ser vovó. Dizem que a vantagem de casar com gêmeas é ter apenas uma sogra. A desvantagem é que a pensão a pagar será dupla.

Hummm… Como Ben faz para distingui-las? E o nheco-nheco, será que fazem os três juntos? Talvez a coisa seja na base do hoje eu me sirvo primeiro, maninha, e depois tu vai, mas não come tudo, por favor… E nesses momentos, será que elas fazem tudo igualzinho, tudo mesmo? Duvido, bebê. Não existem dois soquetes iguais no mundo. Acho que é aí que Ben enfim consegue descobrir quem é uma e quem é a outra.

Fico me imaginando no lugar do Ben. Saberia eu amar uma pessoa que tem duas cabeças, quatro olhos, quatro peitões e vinte dedos nas mãos? Acho que sim, tenho amor para dar e vender, principalmente vender. Mas discutir com uma mulher que tem duas bocas… Sei não.

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Ricardo Kelmer 2019 – blogdokelmer.com

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Menu de homem – Na onda da mulher-melancia, mulher-jaca, mulher-filé e outras classificações femininas hortifrutigranjeiras, nada mais justo que nós, homens do sexo masculino, sermos também classificados

As vantagens de ter um amante – O marido cuida da parte financeira, paga as contas dos filhos, da esposa e da casa. O outro cuida de você

A garçonete rolante – E como ela já tem nome de vodca, uau, nosso Stone deve ficar confuso sem saber se come ou se bebe a moça

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01- Adorei 😂😂😂🙃🙃🙃🙃vc se superou Ricardo Kelmer👯👯👯 Patricia Cacau, Fortaleza-CE – out2019

02- Ben que tem. Ernesto Enrique Hernández, Rio de Janeiro-RJ – out2019

03- Cadè essas bichinhas ??? Andre Soares Pontes, Fortaleza-CE – out2019

04- Kkkkk a mãe tá passadaaaaa. Fabiana Z Azeredo, Fortaleza-CE – out2019

05- Ah, ah, ah, ah! Lorena Horta, Rio de Janeiro-RJ – out2019

06- Eu quero ver agora 2 gêmeos: homens..hummm E aí? Lucivanea De Souza Borges, Fortaleza-CE – out2019

07- Adorei!!!! Vc é demais!!!😂😂 Renata Menezes Lotfi, Fortaleza-CE – out2019

08- Muita boa imaginação, parabéns. Wise Tafari, Beira-Moçambique – out2019

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Paris, sua ingrata

04/10/2019

04out2019

Você vive a declarar seu amor pela bela Paris, eu sei, você fala francês, tem apartamento na Avenue Foch, come no restaurante do chef Guy Savoy…

PARIS, SUA INGRATA

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Fernando Henrique, tenho uma notícia difícil pra lhe dar. Melhor sentar.

Seguinte. Lula agora é Cidadão Honorário de Paris. Sim, aquele metalúrgico retirante do interior de Pernambuco que virou Presidente da República. Sim, ele está preso, eu sei, mas agora é cidadão de honra parisiense. Assim como Nelson Mandela, exatamente. Quer um copo dágua?

A homenagem, concedida pela Prefeitura de Paris, foi em razão do compromisso de Lula com os direitos humanos e a redução das desigualdades sociais e econômicas no Brasil. Não fique assim, Fernando… Sim, eu sei que ele é o brasileiro que mais possui títulos honoris causa dados por universidades do exterior. Sim, claro, elas estão todas equivocadas. Calma, beba devagar.

Tem mais. O texto da homenagem cita a perseguição política que ele está sofrendo, que o faz ser vítima de um processo judicial injusto. E diz que por causa dele, os defensores da democracia estão sendo perseguidos. Não, você não está sendo perseguido, fique tranquilo.

Sim, compreendendo. Você vive a declarar seu amor pela bela Paris. Pois é, você fala francês, tem apartamento na Avenue Foch, come no restaurante do chef Guy Savoy, eu sei. Você nasceu no Brasil por engano, todos sabem.

Tem certeza que quer ficar só? Tá bom. Mas se precisar de algo, é só chamar, viu? Tchau.

Gente, por precaução, melhor vocês ficarem aqui perto da porta. E lembrem-se: nada de música francesa hoje. Deve ser muito ruim amar sem ser correspondido…

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Ricardo Kelmer 2019 – blogdokelmer.com

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Sugestão de música para este momento difícil
Joe Dassin – Et si tu n’existais pas

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A dor de um gigante – Lula poderia ter fugido do país e, no exílio, prosseguir sua luta, mas deixou-se ser preso, porque acredita em justiça

Segredos de famíliaO pai descobriu um terrível segredo de seu filho. E agora, o que pode acontecer com sua carreira política?

Entrevistando o candidatoNa entrevista, o candidato deverá responder a perguntas feitas pelo povo. Como se sairá?

Golpe de mestre à brasileira – O processo seria custoso e traumático, e provocaria séria desestabilização na democracia, mas melhor isso que suportar mais um governo de esquerda no Brasil

A foto repugnante e o sonho que não pode ser preso – A foto que resume a baixeza moral dos fascistas que querem a morte de Lula

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COMENTÁRIOS

Comentarios01

01- 👏👏👏👏👏 Célia Terpins, São Paulo-SP – out2019

02- Merci!!!!!!! Kkkkkkk. Ethel de Paula, Fortaleza-CE – out2019

03- Isso aí é mesmo que dar um chute nos zovo de um coxinha. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – out2019

04- Au royaume des aveugles, le borgne est rói #lulalivre. Daniela Costa Gonçalves, Brasília-DF – out2019

05- Merecidamente. Um Estadista. Ermúsio Ferreira Soares, Fortaleza-CE – out2019

06- 👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏 Marialucia da Silveira, Campinas-SP – out2019

07- Como sempre um ótimo texto. Fath Fernandes, Brasília-DF – out2019

08- A charge do FHC tá hilária! “Et moi? Et moi??” 🤣🤣🤣. Rebecca Fontes, Fortaleza-CE – out2019

09- 👋👋👋👋👋👋 Dangelo Feitosa, Fortaleza-CE – out2019

10- Você é sensacional! Rossany Mouji, Campo Grande-MS – out2019

11- Rico, que maldade! O Fernando Henrique sempre foi amiguinho do PT (e vice-versa), mesmo tendo sido atacado ferozmente pelo partido diversas vezes – especialmente depois do Lula tomar posse. Quando, aliás, o PT ajudou a enterrar as investigações sobre o caso Banestado. Lembra não? Outro dos muito passos do tango dos amantes nem tão discretos foi quando o o ególatra sociólogo (que não chega a rivalizar com Lula no quesito, sejamos justos) ajudou o presidiário (ops, preso político, sorry) a se livrar do mensalão. Entre outros minuetos. C’est tour farinhá du même sac, mon ami. Je t’embrasse. Marta Crisóstomo Rosário, Brasília-DF – out2019

12- Valeu, Ricardo Kelmer. Brennand De Sousa Bandeira, Fortaleza-CE – out2019

13- muito, muito, muito, muito bom!!!!!! Doug de Paula, Fortaleza-CE – out2019

14- Matou a pau! Tu é meu fã! Roberto Maciel, Fortaleza-CE – out2019

15- Et moi? Monsieur dansé! 🤣 Christianne Silton, Fortaleza-CE – out2019

16- Maravilhoso,Kelmer!!!👏🏾👏🏾👏🏾🇫🇷🇧🇷🇻🇳 Giordani Carvalho, Fortaleza-CE – out2019

17- Boa! André de Sena, Recife-PE – out2019

18- Que puta texto, Kelmer! Parabéns! Laisa Kaos, São Paulo-SP – out2019

19- kkkkkk. Ricardo Guilherme, Fortaleza-CE – out2019

20- kkkkkk. CHUPA NAZISTA DA HAVAN! Giovanni Marsallis, Fortaleza-CE – out2019

21- Cadê os bolsominions? Infartaram? Márcio Fernandes Martins, Fortaleza-CE – out2019

22- Tantos toscos com inveja e ódio agora. Marcelo Vieira Luz, Fortaleza-CE – out2019

23- 🤣🤣 Socorrinha Oliveira, Acopiara-CE – out2019

24- Lula, um homem do mundo. Bira Dantas, Campinas-SP – out2019

25- Merci. Daniel Motta, Fortaleza-CE – out2019

26- Esta gente da direitaburra está desqualificando Paris. Logo eles que sonham em serem europeus. Afff… Que cansaço. Ana Magalhães, Vila Nova de Gaia-Portugal – out2019

………. 27- Sim. Eu tenho dito que o PIB francês terá um pequeno declínio, sem os clientes da Havan na torre eiffel… Jorge A. C. Santana, Salvador-BA – out2019

28- “Moi” seu cu! Hélio Speziali Aroeira, Belo Horizonte-MG – out2019

29- A inveja é uma merda. Veronica Guedes, Fortaleza-CE – out2019

30- 🤣🤣🤣🤣 Renata Menezes Lotfi, Fortaleza-CE – out2019

31- Paris é uma festa. Lúcia Menezes, Rio de Janeiro-RJ – out2019

32- A inveja não permite que governem o País… estão a se morderem de raiva e de o que fazer para eliminar de vez…esse CIDADÃO PARISIENSE…sem que ele tenha se ajoelhado sos pés de quem quer que seja! Tomaram papudos?.Arrasa PRESIDENTE LULA…QUE ELES SE MATAM! Irene Oliveira da Silva, São Paulo-SP – out2019

33- LULA LIVRE ! Leonor Oliveira Moreira, Fortaleza-CE – out2019

34- Fantástico! 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼😉 Chris Costa Lima, Fortaleza-CE – out2019

35- Contam que FHC ao receber a notícia quedou-se em posição fetal e chorou 😂 Mauro Gouvêa, Alfenas-MG – out2019

………. 36- não duvido nem um tiquinho… 😂 Chris Costa Lima, Fortaleza-CE – out2019

37- Muuuito bom seu texto! Humor fino e estilo primoroso! Marcia Santos, out2019

38- Ricardo Kelmer, vc é simplesmente genial. Kkkkk. Leiam! Fabíola Líper, Fortaleza-CE – out2019

39- Kkkkkk. Dami Cruz, Fortaleza-CE – out2019

40- Roteiro de filme!! O título já tem!! 😂😂😂 Amei!! Lucia Arnaud, Fortaleza-CE – out2019

41- Simplesmente fantástico o seu texto, Ricardo Kelmer! Silêda Franklin, Fortaleza-CE – out2019

42- 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼 Idalina Cavalcante, Fortaleza-CE – out2019

43- Parabéns! Quase um episódio de seriado… Maria Emília Lino, Paraty-RJ – out2019

44- Perfeitoooooo. Andreia Pilloneto, Farroupilha-RS – out2019

45- Ricardo Kelmer é gênio. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – out2019

46- Perfeitoooooo. Andreia Pillonetto, Farroupilha-RS – out2019

 


Mega Sena dominada

19/09/2019

19set2019

Nem o mais criativo dos roteiristas do folhetim Brasil imaginaria isso


MEGA SENA DOMINADA

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A situação tá difícil: ameaça fascista crescendo, democracia ameaçada, natureza queimando… Mas aqui e ali temos que relaxar e contar umas piadas, senão é pior. E a melhor piada de todas aconteceu esta semana. A Mega Sena acumulada de R$ 120 milhões saiu para um bolão feito por quem? Por 49 funcionários do PT na Câmara dos Deputados, em Brasília, que costumavam jogar havia anos e que dessa vez apostaram cada um, em média, R$ 10. Cada aposta receberá aproximadamente R$ 2,4 milhões.

Uau! Nem o mais criativo dos roteiristas do folhetim Brasil imaginaria isso. Parabéns aos recepcionistas, copeiras e motoristas que agora terão que aguentar as sinceras demonstrações de amizade de familiares e amigos que não veem há duzentos anos. Mas isso é o de menos. Que bom que dona Sorte resolveu socializar o prêmio. Brindemos!

De imediato, os antipetistas surtaram, inconformados. Tanto partido no Brasil e a Mega Sena sai logo pro PT? Lula está por trás disso! Na Caixa só tem comunista bolivariano! CPI da Mega Sena já!!!

Bem, não duvido que, depois dessa, o Bozo demita o presidente da Caixa e exija que a partir de agora seja previamente informado dos resultados dos sorteios. Aliás, estão dizendo por aí que Aécio já pediu recontagem. E que Ciro reclamou que teria ganhado se o PT tivesse desistido de apostar, mas isso eu já acho que é maldade do povo.

A quem interessar saber, o PT continua defendendo a taxação das grandes fortunas e uma reforma tributária progressiva. Acho muito justo. Lembrando aos que se acham ricos: grande fortuna é muito mais que ter apartamento próprio ou carro do ano, viu?

Uma curiosidade. Como alguns funcionários, que sempre participavam do bolão, dessa vez não participaram, os ganhadores decidiram dividir o prêmio com eles. Que ótimo. Eis um belo exemplo de solidariedade socialista.

E os bolsominions e antipetistas que, revoltados, não jogarão mais na Mega Sena? Coitados. Mas é um direito deles. Assim sendo, comunico oficialmente aos membros da URSAL que a Mega Sena tá dominada. A partir de agora, só ursalista vai ganhar.

Mizifias e mizifios queridos, bora fazer logo nosso bolão da URSAL. Quem quer participar?

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Ricardo Kelmer 2019 – blogdokelmer.com

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01- Com a extensa folha criminal do PT , tudo e possivel. A imaginacao voa.kkkkkkkkkk. Claudio Salazar, Fortaleza-CE – set2019

02- KKKK a melhor!! Um Salve aos Petistas Sortudos, mlhor tomar cuidado com o Recalque dos Bolsominions! vide Acima kkkk. Ligia Regina Lima, Guarulhos-SP – set2019

03- Amei. Luiza Perdigão, Fortaleza-CE – set2019

04- Chorei de rir. Humberto Nogueira, Russas-CE – set2019

05- Muitas estrelas! #LulaLivre. Vania Gondim, Fortaleza-CE – set2019

06- Rindo muito! Valeu, Kelmer! Estava c saudades das suas crônicas, o compartilhamento de ontem deu resultado!🤣🤣🤣🤣😘 Joyce Néia, São Paulo-SP – set2019

07- A sorte está com o PT ❤. Cássia Lopes, Fortaleza-CE – set2019

08- Uhuuuuuu, Ricardo Kelmer, dorei mizifi, bó ficar ricxs também! 😍😘. Claudia Baima, Fortaleza-CE – set2019

09- Vai dureza aguentar o mi mi mi dos bolsominiuns kkkkkkkkk. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – set2019

10- Milagres acontecem. O prêmio ficará melhor nas mãos de 49 progressistas. Tenho certeza que esse dinheiro vai circular e movimentar a economia. Parabéns!! Fath Fernandes, Brasília-DF – set2019

11- Antes de tudo leiam! Patrícia Hakkak, São Paulo-SP – set2019

12- A Mega é petista!!! Eu adooooorooo!!! Simone Santos, Campinas-SP – set2019

13- Ahahah excelente! 😂 que dirá o Ciro? Susana X Mota, Leiria-Portugal – set2019

14- Bom demais! Celia Sporrer, Fortaleza-CE – set2019

15- hahahahaha adoooooro ❤️ Clarisse Ilgenfritz, Fortaleza-CE – set2019

16- ADOREEEEIIIIII!!! Lana Arrais, Fortaleza-CE – set2019

17- Bora pro bolão URSAL. Daniela Costa Gonçalves, Brasília-DF – set2019

18- rsrsrsrs…. tome! Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – set2019

19- Ai, delícia!!!!!!!!!!!! Fabio Andrade, Fortaleza-CE – set2019

20- Deu certim! Julio César Montenegro, Fortaleza-CE – set2019

21- Kkkk. Maria Geny Brino Mattu, Piracicaba-SP – set2019

22- Hehehhehehehehehehehehe. Carol San, Fortaleza-CE – set2019

23- Momentinho de humor…😂😂😂😂 Ana Lucia Moreira, Fortaleza-CE – set2019

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30 anos de Badauê – Estamos vivos

26/05/2019

26mai2019

Foi tudo lindo, em sua poesia de estrela cadente a colorir o céu da nossa inebriada juventude

30 ANOS DE BADAUÊ – ESTAMOS VIVOS

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Badauê era o nome do bar. Arquitetura rústica de carnaúba e tijolo aparente, varanda em L, teto de palha, e ao redor as árvores e o chão de areia coberto de pedrinhas. Ficava na Praia de Iracema, rua dos Potiguaras, 134. Os sócios éramos eu, Nelsinho Machado e Paulo Marcio, o trio mosqueteiro no frescor dos seus vinte e poucos anos. Era o ano 1988 de uma Fortaleza ainda não tão amedrontada, e existiam nas proximidades Estoril, Cais Bar, La Tratoria, Pirata, Ponte para o Céu, Zanzibar, a Gruta da Praia do seo Zairton e mais um ou outro bar que não lembro agora.

O terreno, do tio do Nelsinho, só tinha árvores e muito mato e lixo. Limpamos tudo e construímos do zero, e em troca da benfeitoria fomos dispensados do aluguel. A cada mês, catávamos nossas singelas economias e subíamos mais um metro de parede, comprávamos uma privada, um fogão usado… Na folga do vigia, nós dormíamos lá, nos revezando. Pra ajudar nas finanças, compramos um refrigerador e no sábado enchíamos de cerveja e chamávamos os amigos pra ir beber lá, sentado no chão mesmo, tocando um blues no violão, rodinha de fumo, essas coisas boas da vida. Com o apurado, mais um metro de parede, um jogo de mesa e cadeiras, o aparelho de som…

Nove meses depois, julho de 1988, a inauguração, com show do Trio Guarani. A partir daí, foram noites e noites de bar lotado, shows inesquecíveis, as amizades brotando no tilintar dos copos, os amores borbulhando no fervor das possibilidades… No show da banda Os Necessários, era tanta gente que vendemos ingresso até pro galho da mangueira. Os garçons, quem eram no início? Eram elas, nossas deslumbrantes namoradas, e as danadas recebiam tanta gorjeta que até nos emprestavam dinheiro. Ao findar das longas noites, subíamos pro mezanino e lá dormíamos, exaustos de felicidade, sem consciência do brilho fugaz daqueles dias eternos.

Como o mezanino também servia pra resolver certas urgências que nos possuíam no meio da madrugada, as nossas e as dos chegados, apelidaram-no Badauê Love. E como a escada ficava encostada à parede externa, todo mundo via quem subia e quem descia de lá, e as almas bondosas até ajudavam as moças a chegar lá em cima, e embaixo o povo moleque aplaudindo o heroico esforço da necessitada. Era uma festa. E tinha a famosa lenda da caixa dágua, que ficava no mezanino: corria o boato de que fazíamos dela piscina, nós todos lá, degustando vinho com Pink Floyd, chafurdando na água com a qual eram lavados os copos. Não nego e nem confirmo. E se me pressionarem, conto os podres de todo mundo, viu?

Se ganhamos dinheiro? Dinheiro era o de menos naquela intensa celebração da vida sem hora pra acabar. Pra você ter uma ideia, várias vezes levamos os últimos clientes resistentes pra tomar café da manhã… onde? No Esplanada, um hotel 5 estrelas da Beira-mar, nós, os milionários moços lindos do Badauê, pagando tudo. Como que junta dinheiro assim?

O bar durou o piscar de olhos de dez meses. Fechamos por imaturidade na condução de nossas discordâncias e porque estava difícil conviver com a vizinhança. Melhor assim. Durasse mais tempo e não viveríamos pra contar a história. Mas foi tudo lindo, em sua poesia de estrela cadente a colorir o céu da nossa inebriada juventude. E agora, em 2018, comemoramos 30 anos de Badauê. Infelizmente, alguns amigos queridos que lá beberam e amaram já se foram. Mas nós sobrevivemos. Brindemos, a eles e a nós!

Você tem fotos, vídeos ou lembranças desse tempo? Divide com a gente, vai. Afinal, se o passado é a areia que já escorreu na ampulheta, é essa mesma areia que hoje faz o chão do que somos e nos dá a certeza de que, sim, nós vivemos, e vivemos deveras, e tudo valeu a pena.

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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Com minha mana Luce, a caixa do Badauê, no Sobrevivi 2018 (Cantinho do Frango, Fortaleza, dez2018). Detalhe: à época, em 1988, ela era menor de idade e aceitou receber o pagamento em cerveja.

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MAIS SOBRE O BADAUÊ

Galinha ao molho conjugal – Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?

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Ser mulher não é pra qualquer um – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

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O dia em que morri no Rock in Rio – O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

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A vingança malígrina de Deus

20/05/2019

20mai2019

Ninguém demite Deus e sai impune…

A VINGANÇA MALÍGRINA DE DEUS

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Enxotado de Nova York, que não quis recebê-lo, Jair Bolsonaro convidou-se a si próprio para ir a Dallas, louco para receber o prêmio Peçoa do Ano. Lá, constrangeu o ex-presidente George W. Bush, que não sabia do encontro e aceitou recebê-lo para não deixar aquela tosca criatura esperando na chuva. Durante seu discurso, o bozo foi falar novaiorquinos e falou… noviorquines. Gente, é muita vergonha para uma peçoa só.

No fim do discurso, mais uma vez lambendo o saco do Tio Sam, decidiu alterar o slogan de seu governo. E saiu-se com esta pérola do lambessaquismo mundial:

‒ Meu muito obrigado a todos. Brasil e Estados Unidos acima de tudo! Brasil e Est… Brasil acima de todos!

Gente, ele tirou Deus de seu slogan… Deus foi demitido! Logo ele, que, segundo o próprio bozo, o escolheu para governar o país. Logo ele, que sacrificou seu filho amado, deixando-o sozinho com uma louca num pé de goiaba. Agora, porém, a lógica mudou. Agora é Brasil acima de todos, mas acima disso estão Brasil e Estados Unidos, sem Deus. Entendeu, né?

Aguarde, bozo do cão. A vingança divina será malígrina. Um dia, você acordará e estará amarrado à cama, de rabiola para cima, cercado por um bando de noviorquines, todos alucinados a bater com suas lanças no chão e gritando: “Talkei! Talkei! Talkei!”. E a cena será transmitida ao vivo pelo Twitter.

Ninguém demite Deus e sai impune… Principalmente, trocando-o pelos Estados Unidos.

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Ricardo Kelmer 2019 – blogdokelmer.com

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VEJA PARA CRER:

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> mais sobre política

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Comentarios01COMENTÁRIOS

01- Que assim seja. Marcos Saudade, Fortaleza-CE – mai2019

02- Presidente IMBECIL COMPLETO. Vai ser idiota assim no inferno. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – mai2019

03- sensacional mizifiiiii kkkkkk adoro essa sua verve debochada. amei o malígrina kkkkk. Clarisse Ilgenfritz, Fortaleza-CE – mai2019

04- Q Alá o oussa deste destino p eça peçoa nô (IN)grata!🙌😂 Márcia Matos, Fortaleza-CE – mai2019

05- Com a aprovação da reforma da previdência , o próximo passo é meter a mão na na Caixa e Bb! Aí com tudo privatizado não resta dúvidas que eles vão meter a mão na sua poupança de aposentadoria! Esse é o plano ! Não deixaremos isso acontecer ! Ayala Alexandrino, Fortaleza-CE – mai2019

06- Oh! Comédia! Seria cômico se não fosse trágico! Lílian Martins, Fortaleza-CE – mai2019

07- Que seja um tiro de canhão nos peitos …e vade retro. A peçonha do ânus. Neri dos Santos, Fortaleza-CE – mai2019

08- Quero ver o Cacique Raoni Metuketire metendo o pau e falando talkey. André Marinho, Fortaleza-CE – mai2019

09- Adorei o “tosca criatura”. 😂😂😂😂😂😘 Marcia Soares Fernandes, São Paulo-SP – mai2019

10- Sempre a fazer figuraa tristes como se diz em Portugal. Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – mai2019

11- Vergonha mundial. Sandra Ferrari Rachid, Americana-SP – mai2019

12- Eu ri agora. Fabiane Pessoa S. Schmitt, Fortaleza-CE – mai2019

> Postagem no Facebook

 


O Brazil da nova era

21/03/2019

21mar2019

Orange Business, Comando Ustra, Brazil com Z… É a nova era chegando

O BRAZIL DA NOVA ERA

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Tô aqui só esperando o momento em que o nosso presidente trumpista anunciará as novidades…

Será pelo Twitter, claro. Ele estará acompanhado de seu filho Carluxo, e atrás deste, hummm, o primo. A primeira novidade é que ele mudou seu nome. Agora, se chama Jair Bolso Shower. Depois, anunciará, solene, que a partir de hoje o Brasil é o 51º estado dos United Sates of America, e a grafia correta é Brazil, com Z. E que o inglês passa ser our official language. E que, já que o ensino será by internet, as escolas serão transformadas em stores do McDonald Trump, uma espécie de igreja de conveniência, comandada pelo filho Dudu, onde os brasileiros poderão se rebatizar como brazilians e mostrar aos filhos os instrumentos diabólicos que os governos petistas usavam, como o kit gay e a mamadeira de piroca.

Será o início de uma new age, cheia de esplendor. Nós, os brazilians, continuaremos sem poder viajar aos Estados Unidos, mas os nossos que conseguirem chegar à fronteira e saltar the wall poderão ganhar a vida limpando latrinas, um trabalho nobre e dignificante, mas que os gringos não fazem porque precisam se abaixar demais, não é recommended para eles.

Os massacres nas escolas do Brazil terão que ser, obrigatoriamente, transmitidos ao vivo pelas tevês, Oh, my God, more shots, did you hear it??!! E suspiraremos quando a câmera der um close no sniper posicionado no alto do prédio vizinho, Humm, he seems very nice… Porém, ao ser anunciado o número de mortes, ficaremos bem irritados, pois nossos massacres nunca são tão eficientes como os deles, shit!

A profissão de laranja será regulamentada e terá como patrono o Queiroz. Já posso ver as pessoas cheias de orgulho dizerem que trabalham no ramo de Orange Business… E as milícias serão uma força militar especial, chamadas Comando Ustra e coordenadas pelo Flávio, e subordinadas à SWAT. Para rebater as acusações de que o Comando Ustra está exterminando negros, pobres, índios, homossexuais, professores, artistas, escritores e jornalistas, o governo presenteará a esse strange people com viagens de turismo para outros países (menos os Estados Unidos). Não é lindo, isso? Só não podem voltar, of course.

Para finalizar o pacote, Jair Bolso Shower anunciará que, em vez do futebol, o nosso national sport será agora a caça à lula, e que três vezes por dia os brazilians deverão se ajoelhar voltados para Washington e repetir o mantra “Odeio lula, odeio lula, odeio lula”. Haverá ainda uma última medida: a prohibition do nome Marielle. Sim. Quem tiver esse nome de péssimo gosto terá de comparecer a uma McDonald Trump para trocar. E quem ousar desobedecer será conduzido pelo Comando Ustra a um agradável passeio pelos porões do Vivendas da Barra, sem data para voltar.

Come on, let´s celebrate good times. Brazil-zil-zil!!!

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Ricardo Kelmer 2019 – blogdokelmer.com

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SÓ RINDO…

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A peleja da arte contra o absurdo do real

11/03/2019

10mar2019

A sátira de Zé de Abreu e a paródia de Edu Krieger na luta contra o absurdo de termos um Presidente como Jair Bolsonaro

A PELEJA DA ARTE CONTRA O ABSURDO DO REAL

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Quando a vida é uma grande tragédia, a arte pode ser a perfeita saída. E quando a realidade é uma vergonhosa tragédia política, é a arte que tem o poder de denunciar, causar reflexão, debochar e fazer rir, tudo ao mesmo tempo.

Um bom exemplo é a paródia musical do compositor e cantor Edu Krieger. Criada a partir do clássico Teresinha, de Chico Buarque, Três Filhinhos fala deles, os filhos mimadinhos de Jair Bolsonaro. E ficou tão tristemente bonito… A interpretação de Edu confere o tom exato de drama e tragédia, mas deixa espaço para o riso. Um riso nervoso, claro, nascido da constatação de que a música apenas retrata a grotesca realidade que vivemos, com um mentecapto fascista na Presidência da República e seus mafiosos filhinhos como seus aloprados escudeiros.

O outro exemplo é Zé de Abreu. Rebatendo o apoio de Bolsonaro a Juan Guaidó, que numa praça de Caracas se autoproclamou Presidente da Venezuela, o famoso ator proclamou-se Presidente do Brasil para fazer oposição ao bozo. Usando o slogan “Brasil ao lado de todos, nem acima, nem abaixo”, Zé de Abreu, grande artista que é, tem consciência do poder da sátira e, com maestria, fez uso dela para denunciar o absurdo que é termos um demente como Bolsonaro na Presidência, um indivíduo grosseiro, mentiroso contumaz, descontrolado, adorador de torturadores e absolutamente desqualificado para tão importante função.

Com o lema “Nossa bandeira jamais será laranja”, o ato institucional abreulino provocou os adversários a tal ponto que o próprio bozo desceu das tamancas para bater boca com ele no Twitter, ameaçando processá-lo. A resposta veio rápida e certeira: “Ameaça de processo? Também vou te processar por postar pornografia, idolatrar pedófilo, assassinos e torturadores. Eu enfrentei a ditadura de generais, tenente de merda. Só virou capitão quando foi expulso do exército”. Bufo!

Zé de Abreu, que estava de férias na Grécia, foi recebido com festa por uma multidão no aeroporto do Galeão. Ele surgiu no saguão a empunhar uma placa de rua com o nome de Marielle Franco, assassinada um ano atrás, num crime cujas pistas apontam para as milícias cariocas, ligadas à famiglia Bolsonaro. Será por isso que o crime prossegue sem solução? Não sei, mas sei que a autoproclamação trouxe o elemento catártico do humor para este delicado momento de resistência democrática. Contra o absurdo, só mesmo um absurdo ainda maior.

E o absurdo só aumenta… Sabe quem foi escalado para defender o bozo do autoproclamado Presidente? Ele, o paladino da moralidade, aquele que inventou o “sexo anal técnico” (para dizer que em seus filmes foi enrabado de mentirinha), ele, o inacreditável… Alexandre Frota. Isso mesmo. O ex-ator pornô afirmou que vai processar Zé de Abreu por diversos crimes. Mas não precisou quais seriam.

A autoproclamação de Zé de Abreu tem uma dimensão tão profunda que até mesmo parte da esquerda não entendeu a ironia e criticou o ator por, supostamente, desviar o foco do ativismo. Que bobagem… A arte faz parte da política, e o humor é invencível. Juntos, humor e arte podem o que não podem tanques e canhões. A propósito, da França já chegou apoio. Admirador da cultura brasileira, o ator, cantor e jornalista Fréderic Pagès publicou uma foto com a faixa presidencial francesa para internacionalizar a sátira feita por Zé de Abreu. Allez, Pagès!

Tô só aqui esperando para ver de onde virá o próximo presidente autoproclamado. Bem poderia ser o Sacha Baron Cohen, o premiado ator britânico que atuou nos filmes Borat e O Ditador. Neste, ele encarna o Almirante General Aladeen, um ditador de um país fictício que arrisca sua vida para garantir que a democracia nunca chegará ao país que oprime com tanto amor. Mijair, aí está um bom filme para você ver, em vez de ficar postando pornografia no Twitter para a criançada. Talkei?

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Ricardo Kelmer 2019 – blogdokelmer.com

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Clipe de “Três filhinhos”, paródia de Edu Krieger

Edu Krieger na Wikipedia

Zé de Abreu na Wikipedia

A autoproclamação do ator francês Frederic Pagès

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COMENTÁRIOS

Comentarios01

01- A que ponto chegamos! Vania Gondim, Fortaleza-CE – mar2019

02- O Sacha poderia assumir a presidência da Inglaterra. Brennand De Sousa Bandeira, Fortaleza-CE – mar2019

03- adooorei o texto!! Shirlene Holanda,

04- Pois eu adorei a ironia e o absurdo. Meu Presidente Zé 😍 E o seu texto, perfeito. Érika Menezes, Fortaleza-CE – mar2019

05- Sempre perfeito, ele é muito bom no que faz , adoro . Regia Alves, Fortaleza-CE – mar2019

06- Zé de Abreu é o nosso presidente! Lílian Martins, Fortaleza-CE – mar2019

07- Estamos em plena LETARGIA. Márcia Matos, Fortaleza-CE – mar2019

08- Que belíssimo texto! Bruna Queiroz, Fortaleza-CE – mar2019

09- Excelente texto. Vou espaiá. Eveline Gadelha,

10- tenho esse filme do Borat…escárnio corajoso. Lembro em Paris q estava em plena divulgacao c posters gigantes nas estações d metrô! Márcia Matos, Fortaleza-CE – mar2019

11- Ô texto bom de se ler!!!! Karla Karenina, Fortaleza-CE – mar2019

12- Que texto! Terezinha Lima, Fortaleza-CE – mar2019


Jesus e a pecadora do pé de goiaba

13/12/2018

12dez2018

da série bíblica Encontros Silvestres e Sagrados


JESUS E A PECADORA DO PÉ DE GOIABA

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Eis que naquela tarde, a caminho de Cafarnaum, Jesus passou embaixo de um pé de goiaba e viu uma mulher lá em cima.

‒ Ei, mulher, o que tu tá fazendo trepada aí nesse pé de goiaba?

‒ Senhor Jesus!!! Não acredito!

‒ Eu mesmo. Em chaga e osso.

‒ Senhor, o Senhor é tão lindo…

‒ Te orienta, doidinha. É pecado imaginar conjunções carnais com o Filho do Homem.

‒ Eu vim me matar, Senhor.

‒ Nenhum motivo justifica tirar a vida que o bondoso Pai Celestial nos deu. Principalmente trepada num pé de goiaba.

‒ É que eu descobri algo terrível, Senhor. Eu sou a cara da Regina Duarte misturada com a Janaína Paschoal.

‒ Hummm…. De fato, é um bom motivo.

‒ O Senhor é tão lindo…

‒ Como é teu nome, pecadora?

‒ Damares, Senhor.

‒ Eu perguntei o nome, não o apelido.

‒ É Damares mesmo, Senhor.

‒ O caso é grave. Pera que eu vou subir aí.

‒ Não! O Senhor não sabe trepar em pé de goiaba!

‒ Que sabes tu das minhas capacidades trepadeiras, ô atordoada?

‒ Tenho medo do Senhor se machucar, já lhe machucaram tanto na cruz…

‒ Criatura, tu tá duvidando dos meus poderes? Por acaso não lestes na Bíblia que eu amaldiçoei uma figueira e a desgraçada nunca mais deu frutos? Se eu quiser, faço esse pé de goiaba dar açaí com granola.

‒ Açaí, Senhor?

‒ Muito mais lucrativo. Já viu o tanto de loja de açaí que tem por aí? Só perde pra farmácia. Aliás, lá em Fortaleza fizeram uma de três andares, parece uma igreja, é o fim do mundo.

‒ O Senhor vai subir de chinelo?

‒ De chinelo é fácil. Difícil é subir com essa túnica. Se minhas partes ficarem à mostra, tu olha pro outro lado, viu?

‒ Não posso garantir, Senhor…

‒ Pronto, cheguei. Afasta mais pra lá, pecadora.

‒ Senhor, e se o galho não aguentar?

‒ Mizifia vai rebentar a buzanfa no chão.

‒ E o Senhor?

‒ Eu saio voando, besta.

‒ Ó, Senhor, me leva com o Senhor pelos céus…

‒ Tu só pode ter fumado maconha estragada. Bora logo resolver essa parada, antes que algum apóstolo passe e me veja aqui do teu lado, ai, que vergonha.

‒ O Senhor é solteiro?

‒ Isso não vem ao caso. Promete que nunca mais vai tentar se matar?

‒ Prometo, Senhor.

‒ Ótimo. Agora, reze duzentos Pai Nosso.

‒ Misericórdia, Senhor.

‒ E quinhentas Ave Maria.

‒ Mas eu sou evangélica, Senhor.

‒ Então, mil Ave Maria. E só desce quando terminar.

‒ O que o Senhor vai fazer depois daqui, Senhor?

‒ Por acaso é da tua conta? Ah, mais uma coisa. Tu votou em quem?

‒ Bolsonaro, Senhor.

‒ Aumenta pra cinco mil Pai Nosso e dez mil Ave Maria. Pendurada de cabeça pra baixo.

‒ Senhor…

‒ O que é agora?

‒ Posso lhe pedir uma coisa, Senhor?

‒ Pede logo que tem um bicho da goiaba se aproximando e eu tenho pavor dessas coisas gosmentas da criação. Que nem tu.

‒ Senhor, meu sonho é ser ministra.

‒ Oi?

‒ Sim, Senhor. Do Ministério dos Direitos Humanos.

‒ Tu tá brincando…

‒ Falo sério, Senhor.

‒ Tô passado em Cristo.

‒ O Brasil precisa de mim, Senhor.

‒ Isso é impossível, criatura sem noção. Tu não tem um pingo do perfil necessário para o cargo.

‒ Mas, Senhor, para o Senhor, nada é impossível.

‒ Com exceção disso. Faz outro pedido, coisa gosmenta. E não precisa falar Senhor em todas as frases, que mania horrível.

‒ Bem… então…

‒ Não prefere ser motorista do Bolsonaro? Ganha bem mais.

‒ Eu quero arrumar um varão.

‒ Um varão?

‒ Bonito, alto, sensual…

‒ Deixa eu ver…

‒ … que nem o Senhor…

‒ Hummm…

‒ … temente a Deus, fogoso… só pra mim.

‒ Como é mesmo o nome?

‒ O nome do varão?

‒ Não. Do Ministério que tu quer.

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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VEJA O VÍDEO do depoimento da pastora Damares:

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