Os discretos sócios do narcotráfico

15dez2008

Quem ganha e quem perde com a proibição das drogas?

DrogasCorrupcao-01

OS DISCRETOS SÓCIOS DO NARCOTRÁFICO

(2a parte da trilogia Rio Droga de Janeiro)

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Todo mundo está careca de saber que há policiais que são pagos pelos próprios bandidos, ganhando muito mais que seu baixo salário na corporação. O narcotráfico paga, e muito bem, a advogados, juízes, políticos, religiosos, empresários e, não duvide, até a governantes que fazem acordos com as quadrilhas. Todos são elos na longa rede do narcotráfico e todos lucram com a ilegalidade da droga. São sócios discretos da bandidagem, e para eles o caos social é financeiramente vantajoso, nada de mudanças, por favor.

É tanta a dinheirama envolvida que as ideologias, o bom senso e a consciência ficam em segundo plano. Que se foda o mundo! ‒ pensa o sujeito ao fazer as contas de quanto lucrará dando uma mãozinha, só uma mãozinha, ao tráfico. Vai todo mundo para o inferno mesmo, o que é que eu vou ficar fazendo sozinho no céu?… Pois é. Todo mundo comprado. Parece aqueles filmes onde o mocinho descobre horrorizado que todos ao redor são cruéis alienígenas disfarçados e que não há saída.

O negócio da droga ilegal é o maior do planeta, movimentando imensas fortunas. As quadrilhas internacionais mexem também com pirataria de CDs e DVDs, cigarros, armas, tráfico de órgãos, imigrantes ilegais… Elas movimentam mais dinheiro que um país inteiro. E os governos? Ah, sim, os governos. Bem, eles declararam guerra às drogas, claro. Que nome pomposo! Dá quase para ouvir as cornetas e os tambores. Quase posso ver os cidadãos marchando com seus estandartes, todos gritando, rumo ao campo de batalha…

Mas, peraí. Quem vão combater? Os bandidos? Ou os usuários? Já sabemos que não adianta desmantelar as quadrilhas ou matar seu líder, pois para cada um que sai de cena, há dez querendo entrar. Também não dá para prender todo mundo que fuma um baseado. Então talvez seja mesmo um combate à própria droga. Mas qual droga? E como se combate a droga? Fuzilando pés de maconha? Erradicando folhas de coca da face do planeta? E como lutar contra as drogas sintéticas, miniaturizadas em pílulas que qualquer bunda-suja fabrica no quartinho do fundo da casa e transporta no bolso da bermuda?

E o cigarro? E o álcool? São drogas também, e comprovadamente mais nocivas que um baseado. Ok, ok, não vamos falar disso agora senão a discussão vai se ramificar mais que o próprio tráfico. A questão primordial, então, não é como combater as drogas. A questão é: será mesmo possível combater algo que a própria sociedade deseja?

A guerra às drogas já nasceu perdida. Não sejamos hipócritas: o mundo quer e sempre quis as drogas. As sociedades sempre conviveram com as drogas, lícitas ou não, porque precisam delas. Então: se há demanda, sempre haverá oferta. Chegamos agora a um nível mais profundo da questão: não estamos perdendo tempo, dinheiro e vidas tentando exterminar algo que nós mesmos não queremos que morra?

Não é um mundo sem drogas o que as pessoas desejam, até porque na prática seria impossível. E seria injusto, pois há os que fazem uso de drogas, legais ou ilegais, dentro de limites saudáveis, sem prejudicar a si ou a outros. O que as pessoas verdadeiramente desejam é um mundo sem violência, isso sim. Mas as drogas geram violência, há quem diga. Não, o buraco é mais embaixo. Culpar as drogas pela violência é um julgamento injusto, fruto da histeria coletiva causada pela tal guerra às drogas. Isso é lógica reducionista. É caça às bruxas. O que de fato gera violência não é a droga em si, mas a sua proibição, que automaticamente a liga à criminalidade.

Veja o caso da cerveja e do cigarro: causam mais mortes que as drogas ilícitas. Ninguém, porém, os relaciona à criminalidade, pois são drogas abençoadas pela lei. No entanto, se fossem proibidas, haveria igualmente em torno delas redes de tráfico, corrupção, violência e crimes. Cientes disso e de que as pessoas consumirão álcool e cigarro sendo ou não proibidos (veja o caso da fracassada Lei Seca americana dos anos 1930), o que fariam os governos? Assumiriam a responsabilidade, fiscalizando produção e venda e cobrando impostos para serem aplicados no controle da qualidade, em pesquisas e campanhas educacionais, e para obter estatísticas e tratar dos males causados pelo mau uso. Melhor ter o controle de algo tão perigoso que deixá-lo nas mãos de bandidos.

A guerra às drogas é de uma ingenuidade risível. Os sócios do narcotráfico sabem disso. Gasta-se uma fortuna diária para manter a droga proibida e, no entanto, ela esta aí para quem quiser e na hora que quiser, e diariamente somos violentados pelos que têm a droga e realmente mandam no pedaço. A guerra às drogas jamais funcionará, simplesmente porque mira o alvo errado. O grande inimigo não é a droga: é a criminalização de seu uso.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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.Foto: Psicotropicus

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Textos da trilogia Rio Droga de Janeiro

Quem tem a droga tem o poder
Os discretos sócios do narcotráfico
Guerras às drogas não, antiproibicionismo sim

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JeffersonPeres-01As drogas chegam ao senado

Nesses dias de avacalhação geral da classe política, é muito bom ver que há sensatez e honestidade lá no Congresso. O senador Jefferson Peres (PDT-AM), falecido em 2008, foi mais um dos que se convenceram que a legalização das drogas é a única saída para o problema da violência e da corrupção gerado pelo narcotráfico no mundo inteiro. Sua fala revela lucidez, equilíbrio e visão ampla dos problemas brasileiros e mundiais. E revela também muita franqueza e coragem de dizer aquilo que muitos concordam, mas têm medo de dizer. Parabéns, senador!

> Entrevista
> Vídeo de discurso no Senado

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baseadonissocapaa6aBaseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha
Ricardo Kelmer

Os pais que decidem fumar um com o filho, ETs preocupados com a maconha terráquea, a loja que vende as mais loucas ideias… RK reuniu em dez contos alguns dos aspectos mais engraçados e pitorescos do universo dos usuários de maconha, a planta mais polêmica do planeta. Inclui glossário de termos e expressões canábicos. O Ministério da Saúde adverte: o consumo exagerado deste livro após o almoço dá um bode desgraçado.

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- haverá uma tregua na base do acordo no periodo COPA-OLIMPIADAS pra gringo ver…porem contudo todavia, o fantastico programa dominical insiste em mostrar que é tudo de verdade o circo no RJ.. abestados os que assistem a essa palhaçpada… Angélica Santos, Osasco-SP – nov2011

02- Os zilhões que são gastos na guerra contra as drogas resolveriam o problema da miséria no mundo. É tudo uma questão de foco ou, no caso, de falta de foco. Antonio Martins, Maceió-AL – nov2011

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