O homem que preferia Satanás

13/02/2017

13fev2017

Uma homenagem a Aloísio Sansão, com quem dividi cachaças, músicas e muitas risadas nas noites decadentes da Praia de Iracema

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O HOMEM QUE PREFERIA SATANÁS

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Peguei a vodca no balcão da Órbita, virei de uma golada e fui para o palco. Era o lançamento de meu livro de contos Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos, maio de 2000. No caminho deixei a máquina com alguém e pedi que tirasse a foto daquele encontro especial. Então subi no palco, agradeci a presença do público e dei um abraço nele, que me dera a honra de se apresentar em meu lançamento, tocando umas músicas ao violão. Clic! A foto eu guardo comigo, um pequeno e singelo tesouro. É a prova de que nossos caminhos se cruzaram nessa vida loca.

Aloísio Sansão, o nome dele. Conhecemo-nos numa daquelas noites dengosas e decadentes da Praia de Iracema, durante um show da banda Matutaia. Eu sabia dele por causa de uma música sua que gerara polêmica com o Pirata Bar sobre direitos autorais. Depois li algo sobre ele numa pequena matéria do caderno cultural do jornal. E agora a Matutaia andava tocando duas músicas dele, Paranormal e Pecado da Vida. Naqueles primeiros dias do novo século a música eletrônica já imperava nas madrugadas de Fortaleza com seu tunts-tunts-tum, nos lembrando que o mundo estava diferente, estava todo modernizado… mas o bom e velho roquenrou seguia vivo. E muito bem representado nas músicas de Sansão.

Rápido como quem trepa em cajueiro para roubar caju para vender lá na feirinha, eu me encantei com Sansão. Descobri nele um cara simples, doce, o sorriso tímido. Ele era muito pobre e morava numa construção abandonada da Praia de Iracema. Trabalhava como pintor de parede, fazendo bicos. Mas seu grande trabalho era sua música, e nisso ele era muito rico. Eu adorava encontrá-lo pelas ruas, ele, seu velho violão e o fiel amigo Fofão, um cão grande e peludo que sempre o acompanhava. Eu sentava com ele na birosca e ouvia as histórias de sua vida incerta, suas aventuras por aí, a mulher que um dia o abandonou para seguir um caminhoneiro… Ele falou da vida e dos assuntos sociais. Reclamou da Amazônia e das igrejas universais. E disse que se Deus era desse jeito, ele preferia Satanás. Eu também, Sansão.

Nossos encontros se davam ali, nas ruas sujas e confusas da Praia de Iracema, entre patricinhas despudoradas e batidas policiais. Ele também percebia que tudo aquilo era um mundo de fantasia e ria de tanta loucura e de quanto tudo aquilo era natural, tão normal, tudo simplesmente genial. Nós dois descendo uma cachacinha, ele tocando suas músicas, todas incríveis, forró, brega, rock e até ópera. Em certos momentos me lembra Raul Seixas, outras vezes Elvis e em outras Odair José. Para no meio, conta como fez a música, ri das lembranças e volta a tocar. Peço mais uma dose para brindamos à sua arte. Depois comemos o velho cai-duro de carne moída e Sansão divide o seu com Fofão.

Relembro agora o quanto me agradeceu por tê-lo convidado para cantar no lançamento de meu livro. E como se desculpou por ter ficado nervoso e não ter cantado as músicas que eu mais gostava. Tá, eu desculpo, mas só se você tomar mais uma comigo. E lá vamos nós para o balcão, ele me contando da morena de sorriso agraciado que de longe viu seu passado e quis logo conquistá-lo. Sansão e suas histórias.

Chamei meu amigo Toinho Martan para conhecê-lo, e ele também se encantou. Nossa banda, a Intocáveis Putz Band, já não existia, e, ansiosos por voltar a compor e agitar, pensamos em ter Sansão como parceiro. Combinei com Sansão de levá-lo ao estúdio, registrar suas músicas maravilhosas. Mas ele nunca compareceu. E não apareceu mais nas noites da Praia de Iracema. Lamentei que não estivesse disposto, eu tinha tantos planos… A verdade, e eu só saberia depois, é que Sansão estava muito doente e passava dias internado. A Matutaia chegou a promover um show para ajudá-lo. Mas já era tarde.

Lamentavelmente parece que sua vasta produção se perdeu para sempre, com exceção de alguns registros, como os feitos pela Matutaia em seu CD Matutaia É Rock. Em certas noites, quando caminho pelas ruas da Praia de Iracema, tenho a sensação que as músicas de Sansão ainda estão por ali, esperando que o dono volte, do mesmo jeito que seu cão Fofão que, durante vários dias após sua morte foi visto circulando a praça, desnorteado e tristonho.

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.com

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rk2000orbitaaloisiosansao-01com Aloísio Sansão (Órbita Bar, Fortaleza, mai2000)

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Matutaia – Paranormal (2000)

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Matutaia – Pecado da Vida (2000)

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LEIA NESTE BLOG

OSonhoDoVerdadeiroEu-01O sonho do verdadeiro eu – Entretanto, algo me dizia que na pauliceia eu poderia viver minha vida mais verdadeira, era só insistir

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A celebração da putchéuris (Intocáveis Putz Band) – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

Pelas coxias de Guaramiranga – Entre uma peça e outra sempre dá tempo de cruzar uns olhares, nativos e forasteiros, e exercitar o roteiro das abordagens

Crimes de paixão – Detetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite

É o amor – E os outros zezés e lucianos por aí?

Mário Gomes, o poeta viralata – Era com suas errâncias quixotescas e os versos obscenos que o povo se encantava, ele lá, de paletó sem gravata, camarada e bonachão

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Bom ver você assim, entusiasmado. Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos que você….

Eu, minha paixão e meus casos

24/01/2017

24jan2017

A poligamia no futebol é algo comum, e até natural, pois vem do sentimento primevo de amor por esse esporte tão fascinante

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EU, MINHA PAIXÃO E MEUS CASOS

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Sabe, eu tenho uma grande paixão. É antiga e está sempre comigo, mesmo na distância, e ela é um sentido em minha vida. Mas como não sou monogâmico, tenho também dois casos, que não chegam a ser paixão, mas faço questão de mantê-los. Além disso, cultivo certas simpatias por aí nesse mundão. Não escondo nada de ninguém e assim vamos vivendo. Não, não são pessoas. Tô falando de futebol.

Ah, a paixão por um clube de futebol… Que coisa louca, isso. Dizem que é o único amor que não se troca por outro de jeito algum, nem sob tortura. Sim, há quem, quando criança, trocou de bandeira e nunca mais voltou, mas criança não conta.

Os monogâmicos futebolísticos não entendem situações como a minha, mas a poligamia no futebol é algo comum, e até natural, pois vem do sentimento primevo de amor por esse esporte tão fascinante. Antes da popularização nacional da televisão, nos anos 1970, a imensa maioria torcia apenas pelo time de sua cidade ou de seu estado, e era feliz ou infeliz na exclusividade dessa paixão. Mas aí vieram as transmissões dos jogos dos grandes clubes do sul-sudeste, e mesmo para quem já tinha sua paixão, ficou difícil ficar alheio àquela sedução toda. Os adultos até que resistiram mais, porém boa parte das crianças e adolescentes, se não foram de todo fisgados pelos clubes mais ricos do país, ao menos assumiram o caso extraconjugal. Hoje, algo parecido ocorre em relação aos grandes clubes europeus.

Eu fui uma dessas crianças. Aos 10 anos, em 1974, me apaixonei perdidamente pelo azul, vermelho e branco do Fortaleza Esporte Clube, e a partir daí o mundo encantado do futebol se abriu para mim, trazendo um novo e gostoso sabor de viver. Nessa época, os campeonatos estaduais tinham mais importância que hoje, e para um menino como eu, que acompanhava pelo rádio em detalhes a todos os campeonatos do país, foi inevitável surgirem simpatias aqui e ali. Com as frequentes transmissões da tevê, gostei do Corinthians-SP e do Fluminense-RJ, e curtia seus títulos e lamentava suas derrotas, mas o envolvimento mantinha-se num nível superficial. Só o Fortaleza é que, de fato, me trazia as vibrantes e fortes emoções, que me fazia chorar de raiva e enlouquecer no indizível prazer de ser campeão.

E assim estamos nós quatro até hoje, na alegria e na tristeza. Não, não há traição, nem rola ciúme, pois todos entendemos que meu coração é do Leão do Pici, e que o maravilhamento transbordante pelo futebol me permite outros bem-quereres. Mas, e quando, num domingo qualquer, preciso optar por um dos outros dois? Aí eu me abstenho, melhor assim.

Você agora pode achar que eu seria mais feliz se ficasse apenas com um deles dois, pois são bem mais ricos e poderosos. Verdade, são mesmo. Mas, caso não tenha percebido, esta crônica é sobre paixão, e não sobre negociações. Sim, sei que na vida também há os amores interesseiros, sei bem. Mas no mundo encantado do futebol a paixão por um clube é paixão pura de coração. Para o resto da vida.

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Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

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Aquelas camisas mp3 – Ouça e baixe a versão áudio da crônica, na interpretação do autor
Site oficial do Fortaleza Esporte Clube
Fortaleza Esporte Clube na Wikipedia

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FEC1974-02O time bicampeão de 1974, que me fez ser tricolor. O artilheiro do campeonato foi Beijoca, com 26 gols.

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O HINO O primeiro hino do Fortaleza foi composto em 1959, por José Jatahy. Em 1967 é composto o hino oficial pelo poeta Jackson de Carvalho, sendo sua gravação em outubro do mesmo ano, tendo como arranjador o maestro Manuel Ferreira e como intérprete o cantor Manoel Paiva. Em entrevista à revista Veja, o cantor e compositor Chico Buarque afirma que considera o hino do Fortaleza o segundo hino mais belo do futebol brasileiro, sendo o primeiro o do seu clube, o Fluminense.

Fortaleza, clube de glória e tradição
Fortaleza, quantas vezes campeão
Fortaleza, querido idolatrado
Estás sempre guardado
Dentro do meu coração.

Altivo, tua vida sempre foi um marco
Tua glória é lutar e vencer também
Salve o Tricolor de Aço
No campo, provaste mesmo que não tens rival
Tua turma valente é sensacional
Salve o Tricolor de aço

Soberbo, tua fibra representa um norte
Combativo, aguerrido, vibrante e forte
Sem demonstrar cansaço
Receba um sincero abraço da torcida tão leal
Meu Tricolor de Aço

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Hino do Fortaleza em nove versões
00m00 – Original 1967
02m40 – Lírica com Ayla Maria e Raimundo Arraes
04m59 – Fagner
08m44 – Reggae com banda Okolofé
12m10 – Voz e violão com Calé Alencar
14m22 – Forró com Neo Pi Neo
16m58 – Rock
20m09 – Oficial regravação 2002
22m35 – Em francês

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Hino oficial do Fortaleza Esporte Clube
Hino oficial (Fagner)
Hino oficial, versão lírica (Ayla Maria e Raimundo Arraes)
Hino oficial, versão forró (Neo Pi Neo)
Hino oficial, versão rock (Voz: Alexandre Carvalho. Instrumentos: André Carvalho)
Hino oficial em francês (Voz: Giselle Café)

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OImprovavel,OImpossivelEOInacreditavel-01aO improvável, o impossível e o inacreditável
Numa hora dessa, como ainda ter forças pra superar um rival que virou o jogo no fim com um jogador a menos, que já conseguiu o impossível?

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Fortaleza campeão cearense 2015

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Gol de Gabriel Pereira
Fortaleza 1×0 Ceará (22.01.17)

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LEIA NESTE BLOG

FutebolArtigoFeminino-01Futebol artigo feminino – Cá pra nós, já reparou como brasileira fica ainda mais linda em dia de jogo da seleção?

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Discutindo a Copa e a relaçãoSe você deseja minimizar os efeitos sobre sua relação, é bom saber algumas coisas sobre essa rival invencível

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01- Que beleza! Sou do tempo de ir ao Pici pra ver os treinos. Raul Meneleu Mascarenhas, Fortaleza-CE – jan2017

02- Fortaleaaaaaaaaaaaaaa. Vilma de Oliveira, Fortaleza-CE – jan2017

03- Lindo gooooool do nosso Leão Ricardo Kelmer, valeu! Eugênio Oliveira, Fortaleza-CE – jan2017

04- Vai safadão!!!!!! Michele SJ, Fortaleza-CE – jan2017

05- Olha a Caboquinha!!! Clícia Karine Marques, Fortaleza-CE – jan2017

06- Parabens pela vitória . Adorei a cronica. Marcia Soares Fernandes, São Paulo-SP – jan2017

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A marmota do ano

26/02/2015

26fev2015

O dia em que Fortaleza aplaudiu um artista que nunca existiu

AMarmotaDoAno-05

A MARMOTA DO ANO

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Oi, recebi teu recado. Tô no orelhão, fala rápido. O quê? Sério? Não, eu não acredito… Quer dizer que atualmente o maior sucesso aí em Fortaleza é um artista japonês que nunca existiu? Não, vocestão de sacanagem comigo. Heim? Os jornais fizeram matéria de capa? O quê?! Entrevistaram o japa?! Não, assim vocês não querem que eu volte…

Yuri Firmeza? É um artista daí de Fortaleza? Não sei, acho que não conheço. Ah, foi ele quem inventou o artista japonês. Tá. E acertou com o Centro Cultural Dragão do Mar uma exposição no Museu de Arte Contemporânea? Como se fosse do japa? Putz… Comué, ele criou um passado pro japa? Criou fotos das obras do cara, inventou uma assessoria de imprensa, enviou informações pros jornais? Deu entrevista por e-mail como sendo o japa? Que louco… Tá, mas o que tinha na exposição? Cópias de mensagens de e-mail? Ah, tá, que Yuri trocou com um filósofo, exatamente sobre a ideia da farsa. Ahahah! Sensacional! Isso sim é que é molecagem contemporânea!

Mas por que ele fez isso? Chamar a atenção sobre o quê? A questão da arte, tá. E denunciar a negligência da imprensa com os artistas locais? Hummm, olhassó… Danado esse Yuri, heim? E o público, o que achou? A maioria se manifestou favorável ao artista moleque? Certo. Os leitores do jornal o quê? Ah, criticaram o pedantismo dos jornalistas. Ok. E os jornalistas? Ahn? Apedrejaram o artista? Comassim? Quer dizer que não reconheceram o próprio erro? O quê? O jornalista afirmou que tudo isso era medíocre e que o objetivo do artista foi arranhar a credibilidade e a boa reputação dos jornalistas? Entendi. Peraí que tá passando um caminhão limpa-fossa.

Pronto, já passou. Heim? O jornalista disse que muitos idiotas vão entender a coisa como um alerta sobre a cobertura jornalística da cultura no Ceará? Vixe, e é pra entender o quê? Ops, volta a fitaí, ele disse “idiotas”? Não, ele não disse isso, não é possível. Bem, então muito prazer, eu sou um dos idiotas. Corajoso o jornalista, né? Chamar o artista de medíocre, vá lá, é a opinião dele, apesar de ter um cheirinho de ressentimento. Mas chamar seus próprios leitores de idiotas? Uau! Afinal, o que tá havendo com a minha querida imprensa alencarina? Devem ter botado alguma coisa na bebida desse povo, não é possível.

Como é mesmo o nome do japa? Souzousareta Geijutsuka? Diabo de nome é esse? Quer dizer o quê em japonês? Artista inventado? Não, tu já tá sacaneando. Mas peraí… Nenhum jornalista se deu ao trabalho de pesquisar se esse Zé Sareta existia mesmo? Não tem internet nas redações do Ceará não? Heim? Os jornalistas disseram que o Dragão do Mar perdeu a credibilidade? Pois pra mim, isso que o Dragão fez foi uma benfeitoria pública. É. Afinal tudo isso serviu pra mostrar que o rei tá pelado e que o pinto do rei é pequeno. Sim, todo mundo sabia. Menos o rei.

O papo tá bom mas os créditos tão acabando, vamo ter que encerrar. Mas antes manda um recado aí pra turma. Diz que eu voto nessa história pro acontecimento jornalístico de 2006. Claro. A marmota do ano. De uma lapada só fez a cidade inteira discutir arte, lógica de mercado, subserviência cultural ao que vem de fora, o papel da imprensa e sua credibilidade, a postura dos jornalistas… Ah, é, e também serviu pra mostrar como são idiotas os tais leitores do jornal. Eu principalmente, que leio todo dia.

Olhassó, esse Yuri devia fazer uma estátua. Dele não, do Zé Sareta. Isso, no Dragão do Mar. O Ceará não é a terra da molecagem? Não foi Fortaleza quem uma vez vaiou o sol na Praça do Ferreira? Então. Uma estátua do japa lendo jornal. Pra gente nunca mais esquecer do dia em que Fortaleza aplaudiu um artista que nunca existiu.
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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica. A imagem que ilustra o texto é uma montagem feita a partir de trabalhos de Yuri Firmeza.

> A crônica A Marmota do Ano foi publicada em minha coluna Kelméricas, no site do jornal O Povo (Fortaleza), dez dias após a abertura da exposição de Yuri Firmeza. O texto a seguir, Quem Aprendeu, Aprendeu, foi publicado em meu site pessoal no mesmo ano, 2006. Minha defesa do artista e do Centro Cultural Dragão do Mar, junto às minhas críticas ao comportamento da imprensa, infelizmente não foram bem recebidas por alguns colegas jornalistas e me renderam antipatias. Fazer o quê?

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AMarmotaDoAno-05aQUEM APRENDEU, APRENDEU
Ricardo Kelmer, 2006

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Minha intenção com a crônica A Marmota do Ano não é debochar dos jornais ou dos jornalistas que caíram no conto do japa, até porque no lugar deles, naquele corre-corre das redações que eu conheço bem, cheio de serviço para ontem, eu certamente também cairia. Pretendo, isso sim, chamar a atenção para um fato que é tão absurdo que parece mentira, para que o leitor reflita sobre esse acontecimento riquíssimo de implicações artísticas, jornalísticas e sociais, e tire suas próprias conclusões.

É interessante notar que num primeiro momento, após a descoberta da farsa, o jornal O Povo, em seu editorial, chama o artista de “frustrado”, “recalcado” e “rancoroso” e a sua atitude de “mesquinha” e “irresponsável”. E chama de “deplorável” o comportamento do Centro Dragão do Mar por ser conivente com a proposta do artista. No único momento de mea culpa, o editorial admite que não custava nada checar na internet informações sobre o artista japonês. Mea culpa? Hummm, nem tanto. Na verdade, era só um trampolim estilístico para a frase final que insinua que o Dragão não tem mais credibilidade.

Infelizmente o editorial esqueceu de comentar que um dos objetivos da pegadinha era justamente denunciar a subserviência da mídia ao que vem de fora e seu descaso com os artistas locais. Mas, pensando bem, seria reforçar ainda mais o ridiculamente óbvio: a subserviência está estampada, em manchete, no espaço cedido ao forasteiro famoso… que jamais existiu. E quanto ao descaso, bem, se existia descaso, agora os artistas não têm mais do que reclamar. Ganharam até editorial!

Mas não sejamos injustos. Na última matéria O Povo resume toda a marmota, informando corretamente, deixando o ressentimento de lado e atendo-se aos fatos. E no mesmo dia, no site, disponibiliza o fórum para que seus leitores se manifestem. E eles se manifestam: a imensa maioria aplaude o artista e critica duramente as atitudes do jornal e do jornalista, como se fosse um grito de inconformismo, guardado por muito tempo, contra a postura dos meios de comunicação e o pedantismo de seus profissionais. E, dez dias após o início do caso, o portal Noolhar, que é ligado ao jornal O Povo, publica minha crônica A Marmota do Ano, provando que, assim como o jornal, o site também entende o valor da multiplicidade de opiniões num veículo democrático. Ponto para o jornal e para o portal.

Há uma outra questão envolvida: a coragem do artista. Imagine se algum jornalista, antes de escrever sua matéria, resolve investigar algo sobre Souzousareta. Ou imagine se os planos de Yuri vazam por descuido ou delação de alguns dos envolvidos. A farsa fatalmente seria descoberta, os jornalistas se livrariam do ridículo e automaticamente o repassariam a Yuri Firmeza. O artista seria desmascarado e, certamente, criticado e ridicularizado pela imprensa e até por artistas. Talvez virasse persona non grata das redações (bem, talvez já o seja…). Seu esforço teria sido em vão. O público possivelmente não o apoiaria como agora faz. É, o artista foi muito corajoso. E assumiu um risco enorme, que quase ninguém ousaria assumir. Você assumiria?

Trabalho com comunicação e escrevo para jornais e sites. Como profissional da notícia, o episódio me deixou constrangido. Infelizmente estamos sujeitos a pegadinhas como essa. Mas nesse caso apoio o artista e o Centro Dragão do Mar. Eles foram muito úteis à sociedade e à imprensa. O que Yuri Firmeza fez, admitamos, foi genial e, mesmo constrangendo a nós que fazemos jornalismo, nos ensinou coisas muito importantes. Quem aprendeu, aprendeu.

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AMarmotaDoAno-05aCRONOLOGIA DA MARMOTA

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09.01.06 – Desconstruindo a arte
(jornal O Povo-CE)

Chamada para a exposição de Souzousareta Geijutsuka

10.01.06 – Arte, natureza e tecnologia (jornal Diário do Nordeste-CE)
Entrevista com o artista japonês e imagens de suas obras

11.01.06 – Pegadinha contemporânea de artista cearense (jornal O Povo-CE)
Notícia da farsa. Informação apenas, sem paixões

11.01.06 – Arte e molecagem (jornal O Povo-CE)
O jornalista ataca e desmerece o artista e critica o museu

11.01.06 – Exposição factóide compromete Instituto Dragão do Mar (jornal Diário do Nordeste-CE)
Notícia da farsa. O jornal tenta descredibilizar o Centro Dragão do Mar

12.01.06 – Provocação infeliz (jornal O Povo-CE)
O editorial do jornal O Povo ataca o artista, critica o Dragão do Mar e faz um meia-mea-culpa

12.01.06 – A arte do absurdo (jornal O Povo-CE)
Resumo do fato. O jornal informa sem julgar

12.01.06 – A arte no jornalismo (jornal O Povo-CE)
A editoria do Vida & Arte se manifesta. Nem contra nem a favor

13.01.06 – Fórum do leitor (portal Noolhar-CE)
O site do jornal abre espaço para que os leitores se manifestem, e a grande maioria apoia o artista e critica o jornal. Ponto para o jornal

17.01.06 – A arte inventada (jornal O Estado de São Paulo-SP – site Observatório da Imprensa)
A notícia corre o mundo

20.01.06 – A marmota do ano (portal Noolhar)
O site do jornal O Povo publica a crônica de Ricardo Kelmer (em sua coluna Kelméricas), onde ele critica a posição do jornal e dos jornalistas e apoia o artista e o Dragão do Mar. Ponto para o jornal

23.01.06 – A cilada do artista invasor (jornal O Globo-RJ)
O jornal carioca publica matéria de capa e página inteira. Dá voz ao artista, ao diretor do museu mas não ouve os jornalistas envolvidos

Comentários dos leitores (site pessoal do escritor Ricardo Kelmer)
Leitores comentam. Comentários também de pessoas e instituições envolvidas, como Yuri Firmeza, Centro Dragão do Mar e o jornalista Felipe Araújo, do jornal O Povo

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AMarmotaDoAno-05a

REPRODUÇÃO DAS MATÉRIAS

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CAPÍTULO 1

O jornal anuncia a exposição

O jornal O Povo publica, em seu caderno cultural, uma chamada para a abertura da exposição de Souzousareta Geijutsuka no dia seguinte. Provavelmente, o repórter copiou as informações diretamente do material de divulgação distribuído pelo MAC – Museu de Arte Contemporânea, um recurso muito comum em redações de jornal, preenchendo o resto com algumas considerações próprias. Vale registrar que.
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MIDIAJornalOPovoLogo-01.
Reprodução – Jornal O Povo (CE), Vida & Arte
09.01.06 – Matéria sem assinatura

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DESCONSTRUINDO A ARTE

Imagine uma exposição onde as obras são flores e vegetais carbonizados e que isso representasse o equilíbrio entre a vida e a morte. Ficou difícil? Pode até ser, mas ousado como é o artista plástico japonês Souzousareta Geijutsuka, não se intimida como estranho. Tudo, alías, é bem moderno, ao olhos de sua arte. Usar e abusar da tecnologia e da ciência é sua marca, e transformar o que – nem de longe – parece arte, em arte, se tornou uma característica. Souzousareta chega a Fortaleza hoje, às 22h, para apresentar sua mais recente mostra intitulada Geijitsu Kakuu, que acontece dentro do projeto Artista Invasor, do Museu de Arte Comtemporânea do Ceará.

A exposição de Souzousareta busca a harmonia entre a natureza que nasce e morre, empregando equipamentos tecnológicos, para abordar a discussão em torno da fragilidade da vida e suas conseqüentes contradições. O artista conquistou fama mundo afora, exatamente por elencar assuntos tão distintos, como: arte, ciência e tecnologia em suas exposições. Souzousareta desenvolve pesquisas na Eletrônica e Telecomunicações, isso aliado aos conceitos de tempo real, simultaneidade, supressão de espaço e imaterialidade. O uso de objetos e tecnologias tão ousadas são influências da “desmaterialização” dos anos 60/70. “Esse fenômeno, com abandono do “objeto de arte” por muitos artistas, deu lugar a uma variedade e uma multiplicação de usos mediáticos”, explica.

De acordo com o artista, a arte eletrônica, apesar de não ter o reconhecimento e respeito dos historiadores de arte, é uma questão capital. “Freqüentemente contestada, seu endereçamento, entretanto, insere-se em nosso destino de participantes de uma época da história em que a tecnologia tornou-se parte de todos os atos da nossa vida. Acredito em sua importância humanizadora”. Seja como for, a arte de Souzousareta faz um paralelo entre o novo, o velho e o que está por vir. Ele desconstrói para, mais tarde, reconstruir de acordo com sua interpretação.

SERVIÇO: Artista Invasor – Souzousarta Geijutsuka apresenta a mostra Geijitsu Kakuu, a partir de 10 de janeiro, no Museu de Arte Contemporânea do Ceará, no CDMAC. Visitação de terça-feira a domingo, das 14h às 22h. Ingressos: R$ 2,00 (inteira) e R$ 1,00 (meia). Informações: 3488.8622.

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CAPÍTULO 2
A entrevista – Ô japonezinho pra falar…

O jornal Diário do Nordeste, além de divulgar a exposição, destaca um repórter para entrevistar o artista japonês. Como Souzousareta ainda não está em Fortaleza, a entrevista acontece por e-mail, com tradução de sua assessoria de imprensa (papel exercido no processo pela namorada de Yuri). Nas respostas do artista, podemos perceber várias pistas sobre a farsa. A matéria é ilustrada com imagens de suas obras, na verdade fotos simplórias feitas por Yuri, sendo uma de uma paisagem praiana, editada para parecer arte abstrata, e outra de um gato de rua, como se fosse cena de um videoarte.

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MIDIAJornalDiarioDoNordesteLogo-01.
Reprodução – Jornal Diário do Nordeste (CE), Caderno 3
12.01.06 – Matéria de Dawlton Moura

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SOUZOUSARETA
Arte, natureza e tecnologia

Espaço aberto para a arte eletrônica. O Museu de Arte Contemporânea, do Centro Dragão do Mar, abriga a partir de hoje, dentro do programa “Artista Invasor”, trabalhos do japonês Souzousareta Geijutsuka, reunidos na exposição ´Geijitsu Kakuu´. O olhar de um experimentador de linguagens atuais e novas tecnologias sobre fenômenos da natureza

Esta é a quarta vez em que Souzousareta, considerado um dos nomes mais importantes quanto à interface entre arte contemporânea, ciência e novas tecnologias, participa de eventos no Brasil. O sofisticado equilíbrio entre vida e morte na natureza é o fio temático de sua exposição “Geijitsu Kakuu”, em que flores e vegetais são revisitadas por meio de objetos carbonizados, em um convite a reflexões sensoriais sobre a fragilidade da vida.

Os trabalhos de Souzousareta, que entre outras cidades já expôs em Tóquio, Nova York, Berlim e São Paulo, incluem parcerias com cientistas e engenheiros, em pesquisas sobre eletrônica e telecomunicações. Entre os conceitos contemplados, estão os de operação em tempo real, simultaneidade, supressão do espaço e imaterialidade. A robótica é outra área explorada, em diálogo com esculturas e instalações ambientais. Ele também é responsável pelo desenvolvimento de uma nova técnica fotográfica, batizada “Shiitake”, que busca apreender fenômenos invisíveis ocorridos na atmosfera.

O pintor e escultor francês Marcel Duchamp (1887-1968) é citado por Souzousareta como uma de suas grandes influências, quanto à chamada “arte eletrônica”. Para o artista japonês, a arte eletrônica adquire uma importância fundamental, a partir do momento em que a tecnologia está presente em cada momento de nossas vidas – do mais banal, ao mais grandioso. Apesar disso, Souzousareta considera que as linguagens artísticas eletrônicas ainda são marginalizadas pela concepção mais tradicional de “história da arte”.

Em entrevista via e-mail ao Caderno 3, Souzousareta aborda esses e outros temas, criticando a acomodação do público e dos críticos, falando das influências que vem recebendo em sua descoberta do Brasil e apostando que a intensidade de uma proposta artística sempre será mais importante que os meios empregados para realizá-la. Confira:

Caderno 3 – Esta é a quarta vez que trabalhos seus são expostos em eventos no Brasil. Que importância esse contato com o País tem para o seu trabalho?

INFOGRAVURA DE Souzousareta, para quem “os historiadores da arte são iguais aos públicos: têm dificuldades de reagir ao que não entendem”

INFOGRAVURA DE Souzousareta, para quem “os historiadores da arte são iguais aos públicos: têm dificuldades de reagir ao que não entendem”

Souzousareta GeijutsukaAcabo de chegar ao País. Tenho aprendido muito sobre a cultura brasileiras em livros e vídeos aos quais tenho acesso no Japão. Inclusive, acabo de ler um livro e ver um filme fabulosos feitos no Brasil. “O povo brasileiro”, do (Darcy) Ribeiro, me parece ser esse o nome correto, e “Deus e o diabo na terra do sol”, do já conhecido Glauber Rocha. Até acredito que esses dois trabalhos me influenciaram de alguma maneira na preparação de minha exposição no Brasil. É claro que minha estadia aqui vai intensificar muito a influência dos elementos de brasilidade sobre o meu trabalho. Inclusive essa é uma constante em meu trabalho: a inclusão de elementos locais agenciados aos procedimentos eletrônicos.

Caderno 3 – Que resposta vem obtendo do público e das instituições de arte brasileiras?

SouzousaretaMuito pequena, como deve ser o caso da maioria dos artistas contemporâneos, pelo menos aqueles que ainda resistem a uma total subordinação dos procedimentos e problemas estéticos aos imperativos de cosumo. Não só no Brasil, mas me parece que em vários países desenvolvidos, as atividades da cultura precisam apresentar relevância mercadológica para encontrar linhas abertas de financiamento e incentivo. Acontece o mesmo com o público, sobretudo com a arte eletrônica. Precisamos estar o tempo todo brigando com nossa própria produção para não deixar que os clichês tomem conta de tudo. E é esse o problema, o público, em geral, adora clichês. Espero encontrar coisa diferente no Brasil.

Caderno 3 – Em que estágio o Brasil pode ser situado, dentro do contexto mundial da chamada ´arte tecnológica”?

SouzousaretaO Brasil ocupou um lugar de destaque no cenário artístico mundial durante os anos 60 e 70: Lígia Clark, Hélio Oiticica, Glauber Rocha, de que já falamos, e outros. Mas acho que esse foi um momento de vitalidade estética em quase todo o mundo. Também no Japão tivemos reações importantes aos valores da civilização moderna através da arte. Pnesemos em Nam June Paik, por exemplo. Não sei em que pé estão as artes plásticas brasileiras nesse momento, nem mesmo a arte eletrônica. Temos o privilégio de poder contar, no Japão, com um parque tecnológico bastante desenvolvido e aberto; não sei se esse é o caso do Brasil. A dificuldade de acesso de uma sociedade à tecnologia implicará em dificuldades para o florescimento de uma boa arte tecnológica. Mas o Brasil conta com tantas ferramentas expressivas, que não vai ter problemas.

Caderno 3 – Falando nisso, que definição de ´arte tecnológica” é possível? De que modo esse conceito – que, você cita, vem desde Marcel Duchamp – se aplica aos dias de hoje?

SouzousaretaPode ser definida como arte tecnológica toda operação estética que conta com suportes tecnológicos do tipo computadores, sintetizadores, softwares dos mais variados para produzir campo de percepção e sensação. Nesse sentido, é óbvio que o que interessa não são os suportes materiais, que podem ser extremamente desenvolvidos e potentes, mas os agenciamentos em que entram, que também têm que ser poderosos. O que continua valendo hoje na arte, como há três mil anos atrás, é a intensidade que passa pela obra, e não a obra como representação de alguma coisa.

Caderno 3 – Há ainda uma forte resistência do público a esse tipo de arte, em formas não-convencionais, ou já é mais fácil aproximar a arte eletrônica do público em geral?

SouzousaretaO público sempre resiste ao que não é convencional. Por isso a arte necessita tanto do marketing nos dias de hoje.

Caderno 3 – Você já declarou que os “historiadores de arte” ainda vêem com reservas a arte tecnológica. Há possibilidades de se reverter esse quadro? Em que prazo?

SouzousaretaNormalmente os historiadores da arte, assim como os historiadores da filosofia, são iguais aos públicos: têm dificuldades de reagir ao que não entendem.

Caderno 3 – Que diálogos são possíveis entre a arte eletrônica, que se vale das novas tecnologias, e as formas clássicas/convencionais de arte?

SouzousaretaTodas as conexões são possíveis, desde que o teu “problema próprio” necessite dessa ou daquela operação que pertence a um outro período da história da arte. Por exemplo, num certo momento, o encontro com as tradições milenares do Japão me foi necessário, como forma de explorar determinado problema a respeito do medo existente na cultura japonesa, e incrustado nos hábitos mais elementares. Foi só por isso que cruzei arte eletrônica com cultura milenar. Num outro projeto, essa referência à tradição não seria necessária.

Caderno 3 – Você falou da arte tecnológica como uma possibilidade de humanização, dentro de todo o universo tecnológico-informativo em que estamos cada vez mais imersos. Isso não vai de encontro ao velho receio de um “totalitarismo tecnológico”? De que modo a arte pode contribuir para “humanizar” a tecnologia?

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CENA DE VÍDEO do artista japonês Souzousareta Geijutsuka: “O que continua valendo na arte é a intensidade que passa pela obra”

SouzousaretaSe falei em humanização anteriormente, estava equivocado. O humanismo não tem nenhum problema de conviver com os piores tipos de atrocidades. Não é verdade que os direitos humanos criem algum tipo de constrangimento ao crescimento vertiginoso da pobreza e da angústia em parcelas importantes da população global. Humanismo e capitalismo selvagem fazem parte de uma mesma máquina. É preciso perguntar como a arte tecnológica, mas não só, pode mudar os usos que são feitos.

Caderno 3 – A arte tecnológica não correria também o perigo de se ater a limites do consumo (o mercado de novas tecnologias, produtos eletro-eletrônicos, computadores, sintetizadores, projetores)?

SouzousaretaSem dúvida!

Caderno 3 – Seria possível sintetizar o conceito e o objetivo da exposição “Geijitsu Kakuu”, que será mostrada aqui em Fortaleza? De que modo trabalha o contraste entre vida e morte, natureza e tecnologia?

SouzousaretaEssa exposição tem várias facetas, justamente para poder lidar com vários problemas. Tudo está integrado a um exercício do simulacro, cujo objetivo é retirar os hábitos de seu estado de evidência. Inclusive hábitos estéticos, do tipo “Por que gostamos de arte?”. É preciso ver a exposição. (DM)

SERVIÇO: “Geijitsu Kakuu”, exposição de Souzousareta Geijutsuka. Abertura hoje, no Museu de Arte Contemporânea, do Centro Dragão do Mar. De terça a domingo, das 14h às 22h. Ingressos: R$ 2,00 e R$ 1,00 (meia). Info.: 3488-8622.

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CAPÍTULO 3
O Povo anuncia a farsa

O jornal O Povo noticia a farsa, no mesmo caderno da chamada do dia anterior, num texto meramente informativo, sem considerações, nem paixões. O jornal, porém, refere-se ao trabalho de Yuri usando aspas: “trabalho artístico”. No mesmo dia, publica também contundente artigo do jornalista Felipe Araújo.
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Reprodução – Jornal O Povo (CE), Vida & Arte
11.01.06 – Matéria sem assinatura

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EXPOSIÇÃO
Pegadinha contemporânea de artista cearense

A exposição Geijitsu Kakuu, que conforme matérias divulgadas ontem na imprensa local – inclusive no Vida & Arte, do O POVO – seria aberta no Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Centro Dragão do Mar, não existe. A mostra fictícia, que seria de autoria de um artista plástico japonês, é na verdade uma criação do artista contemporâneo cearense Yuri Firmeza.

Na semana passada, Firmeza – com a conivência do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – divulgou para os jornais locais um press-release contendo informações sobre a suposta mostra e o currículo do artista japonês. Como parte de seu ”trabalho artístico”, Firmeza criou uma assessoria de imprensa também fictícia, que entrou em contato com as redações por telefone para reforçar a divulgação do material. Procurado, também na semana passada, pelo O POVO, em duas ocasiões, o Centro Dragão do Mar confirmou a realização da exposição no MAC.

Ontem, quando a farsa foi revelada para a imprensa, Yuri Firmeza explicou que a intenção da iniciativa foi ”pensar o que move o campo da arte, refletir o museu, a galeria, o jornal como meio de sedução”. Já o diretor do MAC, Ricardo Resende, afirmou não acreditar que o episódio fere a credibilidade do Centro Dragão do Mar. Segundo ele – que confirmou que a direção do Centro tinha ciência da divulgação das falsas informações – é papel do Museu dar condições para a criatividade dos artistas locais.

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CAPÍTULO 4
O jornalista não gostou da brincadeira

O jornalista Felipe Araújo, do jornal O Povo, ataca Yuri Firmeza, desmerece seu trabalho e critica o Centro Dragão do Mar. O artigo diz que são idiotas os leitores que concordam com o artista, em sua crítica à cobertura jornalística da cultura.
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Reprodução – Jornal O Povo (CE), seção Opinião
11.01.06 – Matéria de Felipe Araújo

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ARTIGO
Arte e molecagem

A recente molecagem do artista plástico Yuri Firmeza, que inventou o pseudônimo de Souzousareta Geijutsuka e divulgou para a imprensa local seu (dele, Souzousareta) brilhante currículo de exposições no exterior como forma de conseguir espaço na mídia, revelou alguns traços do espírito da arte contemporânea em Fortaleza. Com algumas caras exceções, uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação; que acham que estão sendo corajosos quando não fazem mais do que espernear e gritar por uma mesadinha ou por uma berlinda oficial. Nelson Rodrigues é que estava certo: os idiotas perderam a modéstia.

Não há nenhuma novidade na invenção de pseudônimos como forma de afirmar determinados discursos artísticos. Yuri, aliás, tem todo o direito do mundo de fazer a brincadeira ou a provocação que quiser. Como ”artista contemporâneo”, sua provável falta de domínio sobre certos procedimentos criativos e o discurso esquálido naturalmente ampliam seu horizonte de atuação estética às raias da falsidade ideológica. O que estranha é o fato de a presidência do Dragão do Mar – principal centro cultural da Cidade – e a direção do Museu de Arte Contemporânea chancelarem uma irresponsabilidade desse tamanho.

A título de ”denúncia” sobre uma suposta negligência da imprensa com a produção local, Yuri tentou arranhar a credibilidade e a boa reputação de alguns profissionais. É fato que, demagogicamente, vai arregimentar a simpatia de uma classe artística boçal que (feitas as devidas exceções) projeta na imprensa a frustração de seu próprio fastio criativo. E é fato também que muitos idiotas vão entender esse gesto como um alerta oportuno sobre a cobertura jornalística da cultura em nosso Estado. A imprensa tem seus problemas e deve permanentemente questionar e ser questionada sobre sua responsabilidade com as artes e a cultura. Mas o que se viu nesse episódio foi apenas a face mais evidente da mediocridade.

O pecado dos jornalistas envolvidos no episódio talvez tenha sido o de acreditar na boa fé e no respeito que sempre pautou a relação entre as redações e o Dragão do Mar. E acreditar na reputação do Dragão como um centro que, através do MAC, quer promover exposições e discussões procedentes sobre a arte contemporânea. Não somente a credibilidade do Centro junto à imprensa, mas a própria credibilidade do Dragão junto à opinião pública estão gravemente arranhadas a partir de agora. Afinal, quem iria a uma exposição de Souzousareta sabendo que se trata de uma exposição de Yuri Firmeza?

FELIPE ARAÚJO é repórter especial do O POVO

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CAPÍTULO 5
O Diário do Nordeste anuncia a farsa

O jornal Diário do Nordeste noticia a farsa. O tom geral da matéria é de contenção, mas o texto tenta descredibilizar o Centro Dragão do Mar já a partir do título, sustenta que o episódio compromete sua credibilidade junto à imprensa e a sociedade e afirma ser bastante obscura a compreensão do trabalho de Yuri Firmeza. Ao contrário do jornal concorrente, o Diário do Nordeste não abordará mais o fato, limitando-se a esta pequena matéria. Agindo assim, o jornal perde ótima oportunidade de explorar um tema tão rico, ainda que tivesse de expor sua constrangedora participação no episódio.
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Reprodução – Jornal Diário do Nordeste (CE)
11.01.06 – Matéria sem assinatura

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GEIJITSU KAKUU
Exposição factóide compromete Instituto Dragão do Mar

Quem compareceu à abertura da exposição “Geijitsu Kakuu”, ontem, no Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar, se surpreendeu. Atribuída ao artista plástico japonês Souzousareta Geijutsuka a exposição não foi apresentada em nenhuma das salas da instituição. Também pudera: numa atitude inusitada, após a divulgação na mídia, a exposição não existia, isto porque seu autor simplesmente não existe.

Portanto, o que poderia ter passado como um atraso ou outra falha no processo de montagem da exposição, acabaria se revelando, na verdade, uma grande farsa engendrada pelo artista plástico Yuri Firmeza, em total concordância com o Museu de Arte Contemporânea e a direção do Centro Dragão do Mar. Assumindo a divulgação do evento, bem como a identidade fictícia do artista e de suas presumíveis obras (sacadas da internet), o artista e a instituição (Museu/Dragão do Mar) acabaram colocando em xeque ou até mesmo comprometendo o vínculo de credibilidade estabelecido junto aos veículos de comunicação e a sociedade cearense.

Na sala prevista para a montagem, o que se via era uma placa descrevendo: “exposição em desmontagem”. Em uma das paredes, um texto assinado pelo Diretor do Museu de Arte Contemporânea, Ricardo Resende, fazia alusão a um projeto artístico conceitual “que foge do puramente contemplativo e exige do público a reflexão sobre o que se vê ou o quê não se vê”. Em outro momento, o texto sugere que estamos diante de um “jovem artista que lida com a ‘ficção’ de se fazer arte na atualidade”, sem fazer qualquer menção a exatamente que arte estaria se referindo.

Na verdade, o texto de Ricardo Resende estará inserido entre uma série de reproduções de e-mails trocados entre o artista plástico e o sociólogo Tiago Themudo, discorrendo sobre os conceitos ocultos por trás da sua empreitada criativa, cuja compreensão o próprio artista deixa bastante obscura. Citando referências teóricas de artistas plásticos como Hans Jacke, Michel Duchamp e Alfredo Jaar, ele considera que sua obra é ele mesmo enquanto artista.

“Meu objetivo não é constranger o público, aliás, o público é uma das peças dessa engrenagem”, provoca. Yuri considera que sua “obra” discute questões como o sistema e a crítica da arte, a mídia e o papel dos espaços criativos.

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CAPÍTULO 6
A voz oficial do O Povo

Em editorial, o jornal O Povo ataca o artista, chamando-o de frustrado, recalcado e rancoroso, e diz ser mesquinho e irresponsável o que ele fez. O texto também critica fortemente o Centro Dragão do Mar, cita um caso parecido envolvendo a revista Veja e (finalmente) joga uma parcela da responsabilidade para os próprios jornalistas.
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Reprodução – Editorial do jornal O Povo (CE)
12.01.06 – Matéria sem assinatura

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EDITORIAL
Provocação infeliz

Estarrecedor é o diretor Ricardo Resende dizer que a direção do Dragão do Mar tinha conhecimento da divulgação das falsas informações e, o que é pior, achar que é papel do Museu dar condições para a criatividade dos artistas locais. Um estranho conceito de criatividade

Os meios jornalísticos e culturais de Fortaleza foram sacudidos ontem por um estranho e constrangedor episódio: a exposição de um artista plástico japonês, cuja abertura fora anunciada pela imprensa para terça-feira, no Museu de Arte Contemporânea, do Centro Dragão do Mar, não se realizou porque o personagem principal, o autor dos trabalhos, simplesmente não existia.

Era fictício, ou virtual, para usar palavra da moda, criado pelo artista plástico Yuri Firmeza, que utilizou um factóide para provocar a imprensa. Uma forma de denunciar a ”negligência dos meios de comunicação locais com a produção artística da terra”. O próprio Dragão do Mar divulgou a mostra.

O caso merece reflexões e, de uma forma infeliz, servirá de advertência para a imprensa para evitar futuras aventuras irresponsáveis e, também, de parâmetro no relacionamento com entidades e produtores culturais.

O sr. Yuri Firmeza extravasou suas frustrações e recalques na mídia. Mas foi longe demais em suas elucubrações. Precisava usar de artifício tão mesquinho e irresponsável para divulgar seu trabalho e seu protesto? Mas ele tem liberdade para exercitar a sua “criatividade”. Não entramos nesse mérito.

Deplorável nisto tudo é o comprometimento do nome de uma instituição do porte do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, através do Museu de Arte Contemporânea. São estranhas as declarações do diretor do MAC, Ricardo Resende, publicadas na edição do O POVO de quarta-feira (Cotidiano, página 5), sobre o caso do artista plástico fictício. Para ele, o lamentável episódio não fere a credibilidade do Centro Dragão do Mar. Mas Resende esquece o seguinte: o caso fere o que um jornal tem de mais precioso: a credibilidade, a confiança dos leitores.

Estarrecedor é o diretor Ricardo Resende dizer que a direção do Dragão do Mar tinha conhecimento da divulgação das falsas informações e, o que é pior, achar que é papel do Museu dar condições para a criatividade dos artistas locais. Um estranho conceito de criatividade.

O próprio site oficial do Centro Dragão do Mar assume a travessura de Firmeza quando diz, ao divulgar o Projeto Artista Invasor, no Chá com Porradas: ”Yuri buscou repensar a arte contemporânea através da interferência na rede que constrói sua credibilidade, formada por museus, curadores, galerias e veículos de comunicação. A concretização dessa idéia se deu através da construção de um artista japonês fictício, Sousouzareta Geijutsuka”.

O Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, inaugurado em abril de 1999, é uma instituição respeitada dentro e fora do Ceará. A participação da entidade em devaneios de um artista rancoroso e irresponsável compromete um nome construído ao longo de quase sete anos de trabalho eficaz.

Embora não sirva de consolo, a imprensa cearense não é pioneira nesse tipo de episódio. Em 1983, a revista Veja, em sua edição de 27 de abril, reproduziu uma brincadeira de revista britânica New Science, feita para o Dia da Mentira, que divulgara estranha descoberta científica, fruto da fusão em laboratório de células vegetais e animais, isto é, de boi com tomate, o ”boimate”.

A tal conquista, feita na universidade alemã de Hamburgo, era atribuída aos biólogos Barry MacDonald e William Wimpey. A matéria da Veja louvava a experiência inédita que “permite sonhar com um tomate do qual já se colhe algo parecido com um filé ao molho de tomate. E se abre uma nova fronteira científica”. A New Science dava pistas: Hamburgo, MacDonald, Wimpey (outro nome de rede de lanchonetes)… Mas a revista brasileira embarcou na história.

É preciso reconhecer que a imprensa cearense também não sai ilesa do caso do japonês fictício. Em plena era da Internet, com sites de busca tão precisos, não custava nada uma checagem em torno do nome divulgado. Apenas a credibilidade no Dragão do Mar não era suficiente. Que sirva de lição.

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CAPÍTULO 7
O Povo resume o fato, atendo-se aos fatos

O jornal O Povo publica um resumo dos fatos, num ótimo texto informativo, sem análises ou julgamentos. Para o leitor, tudo fica mais claro a partir das falas do artista, de seu amigo filósofo e do diretor do museu.
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Reprodução – Jornal O Povo (CE), Vida & Arte
12.01.06 – Matéria sem assinatura

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POLÊMICA
A arte do absurdo

Divulgada pelo Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, a exposição Geijitsu Kakuu e seu autor japonês Souzousareta Geijutsuka, na verdade, não existem. Tudo não passa de um “artista fictício” inventado pelo cearense Yuri Firmeza

Por essa, poucos esperavam. Uma exposição de arte contemporânea anunciada pela imprensa local era peça de ficção e seu autor, inexistente. Afinal de contas, quem iria de prontidão pôr em cheque a existência de um “renomado” artista plástico japonês, que viria ao Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – entidade-referência nas arte no Estado – para montar uma exposição sobre arte e tecnologia? Mas tanto a mostra Geijitsu Kakuu quanto o artista japonês Souzousareta Geijutsuka não passavam de um simulacro que ganhou um breve status de realidade. Após a veiculação de matérias de destaque nos principais jornais da cidade, o segredo é revelado: a tal exposição e o tal artista nada mais eram que invenções do artista plástico cearense (esse sim, real!) Yuri Firmeza.

Yuri não chega a definir o suposto artista japonês como pseudônimo nem como personagem. “Ambos são o meu trabalho, que basicamente procura questionar as regras do jogo que movem o campo da arte contemporânea”, explica. Yuri acrescenta que a tradução de Souzousareta Geijutsuka, do japonês para o português, significa ‘artista inventado’ e o nome da exposição Geijitsu Kakuu traduz-se por ‘arte e ficção’. “Na verdade, não se trata de uma crítica à arte contemporânea em geral, mas sim de revelar nas entrelinhas como se estrutura o sistema que vai desde museus, galerias e bienais até curadores, críticos de arte e imprensa. Esses elementos acabam legitimando a arte de tal forma, que para se criar um artista hoje não se leva mais em conta apenas o estético, mas sobretudo fatores mercadológicos. Boa parte da produção contemporânea se submete a isso”, afirma.

Segundo Yuri, a divulgação da exposição fictícia nos jornais foi uma das peças fundamentais para que seu trabalho desse certo. “Se não tivesse sido publicado no jornal, não conseguiria trazer à tona toda essa discussão. O trabalho corria riscos desde o início, porque era preciso publicar essa exposição como se fosse real na mídia. O jornal acaba sendo um meio de espetacularização da arte”, explica. O artista cearense apóia-se nas teorias do filósofo e sociólogo Pierre Bourdieu para argumentar que o jornalismo tem poder de sedução do público de massa. “Em Livre-Troca, Bourdieu diz que cinco minutos de jornal vale mais do que uma palestra de cinco mil pessoas. Todas as instituições querem visibilidade na mídia. A arte perde a autonomia e se rende ao capital”, afirma.

No entanto, para questionar tal visibilidade, era preciso fazer uso da mesma. Yuri chegou até a criar uma assessoria de imprensa – independente do Centro Dragão do Mar – com o intuito de tornar crível a divulgação da exposição aos meios de comunicação. Primeiro, escreveu um atraente press-release sobre a suposta exposição e o currículo do tal artista japonês, reafirmando sua importância no “panorama das relações entre arte, ciência e tecnologia”. Em anexo, foram enviadas algumas fotografias, que nada mais eram que imagens caseiras feitas por Yuri, manipuladas no photoshop. Depois, usando o codinome de uma assessora fictícia batizada de “Ana Monteja”, o próprio Yuri mandou o material à imprensa por e-mail. Já a assessoria do Centro Dragão do Mar divulgou o evento como se fosse uma exposição normal, sem qualquer conhecimento prévio de que tal exposição não existia. Yuri acrescenta que seu trabalho de “conotação política” não tem a intenção de denegrir qualquer jornal ou museu específicos, mas defende que “nenhuma instituição pode interferir na liberdade de criação do artista”.

Questionado sobre a possibilidade do episódio da “falsa exposição” afetar a credibilidade do Museu de Arte Contemporânea e do Centro Dragão do Mar enquanto instituições perante à imprensa e ao público, o diretor do MAC, Ricardo Resende, afirma que o museu tinha pleno conhecimento da iniciativa de Yuri, convidado para participar da quarta edição do projeto Artista Invasor, que já expôs obras de Jared Domício, Marta Neves e Solon Ribeiro. “Quando convidamos o Yuri para ser o artista invasor no período de janeiro a março, ele veio com essa proposta bastante provocadora do artista ficcional. Obviamente não sabíamos quais seriam as conseqüências e ainda estamos refletindo sobre isso. O trabalho de Yuri é conceitual e faz com que a gente repense a maneira como entendemos arte e como as informações são construídas. Não podemos reprimir essas experimentações”, explica. Até o fechamento desta edição, a reportagem do O POVO tentou contactar o presidente do Centro Dragão do Mar, Augusto César Costa, mas a assessoria da instituição afirmou que ele não concederia qualquer entrevista à imprensa e que só se pronunciaria sobre o assunto, durante o “Chá com Porradas”, bate-papo marcado para a noite de ontem com Yuri Firmeza e Ricardo Resende, no MAC. Yuri afirmou estar disposto inclusive a conversar abertamente com jornalistas sobre o episódio. “Dessa vez, será verdade”, brincou o artista.

Segundo a jornalista Adísia Sá, houve erro tanto por parte do Centro Dragão do Mar, que perpertuou a brincadeira, quanto dos próprios jornalistas, que acreditaram na fonte sem apurar sua veracidade. “O Dragão compactuou com a farsa, para fazer charme. Quem se desgasta é a fonte. Vai demorar muito para o Dragão restaurar sua credibilidade. Por outro lado, não há fonte absolutamente veraz. A informação deve ser buscada e investigada pelos jornalistas”, explica Adísia. Já Resende reafirma que a credibilidade do MAC não será afetada. “Yuri nos colocou nesse caldeirão. Nós assumimos esse risco, mas não vejo como seríamos desacreditados por causa do trabalho de um artista, que na verdade está provocando um simulacro. Se a exposição tivesse sido divulgada como sendo de Yuri Firmeza, talvez o artista não tivesse tido a repercussão que está tendo agora”, comenta. Resende diz que a direção do museu sentiu-se inclusive estimulada a criar em breve um curso de crítica de arte, para o segundo semestre de 2006. Segundo o diretor do MAC, a iniciativa polêmica de Yuri não é única no cenário da arte contemporânea. Ele lembra o trabalho do alemão Hans Haacke, que faz críticas severas à maneira como o Estado americano financia a cultura. Quando se fala de ludibriar a mídia com farsas bem elaboradas, os exemplos no campo da arte em geral são muitos: desde a transmissão radiofônica de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, pelo cineasta Orson Welles como se fosse uma verídica invasão de alienígenas na Terra; até a criação do heterônimo Julinho da Adelaide, por Chico Buarque, em plena ditadura militar dos anos 70.

Para Yuri, poucos são os artistas contemporâneos que têm a coragem de fugir dos clichês. “A arte contemporânea corre sérios riscos de não exercitar mais sua criatividade. Ao ficar subordinada ao mercado, tudo se torna mais fácil, mas muitos trabalhos não tem força para causar frisson no público. A arte precisa revelar suas forças e potências estéticas. É claro que existe uma produção contemporânea que vai na contramão, mas muitos trabalhos que vejo não dizem nada para mim. Então, das duas uma: ou o problema está na obra ou está no público”, questiona. De acordo com Yuri, a arte contemporânea precisa estimular as sensações e fazer com que o público tenha uma percepção diferente do comum. “A arte deve transvalorizar o que está imposto como moda ou padrão, estimulando o pensamento como vagões desordenados. O meu trabalho não deixa o público indiferente”, argumenta.

Enquanto O POVO divulgou a abertura da exposição Geijitsu Kakuu em uma breve coordenada – que, por ironia do destino, foi intitulada de “desconstruindo a arte” – na capa da edição de terça-feira do caderno Vida & Arte, o Diário do Nordeste dedicou duas páginas com direito à entrevista por e-mail com o suposto artista japonês Souzousareta. Na entrevista ao Caderno 3, Yuri “na pele” de Souzousareta já vinha dando pistas das discussões que pretendia levantadar com seu feito. “Não só no Brasil, mas me parece que em vários países desenvolvidos, as atividades da cultura precisam apresentar relevância mercadológica para encontrar linhas abertas de financiamento e incentivo. Precisamos estar o tempo todo brigando com nossa própria produção para não deixar que os clichês tomem conta de tudo. E é esse o problema, o público, em geral, adora clichês. Espero encontrar coisa diferente no Brasil”, afirmou na entrevista. Segundo Yuri, o trabalho do artista existe no momento em que tal arte é definida como tal.

Farpas ao vento, nada do que foi divulgado como obra do artista japonês está exposto no Museu de Arte Contemporânea. O espaço abriga a singela reprodução da troca de e-mails que Yuri teve com o doutor em Filosofia, Tiago Themudo, durante todo o processo de construção da idéia. “Foram cerca de 30 e-mails trocados com o Tiago, pensando todas as questões da arte contemporânea que já citei”. Segundo Tiago Themudo, o trabalho de Yuri Firmeza chama a atenção para a indistinção entre os produtos da arte e o campo do entretenimento. “O lucro e a boa campanha de marketing acabam se sobrepondo aos critérios estéticos. Além disso, todos os dias os jornais publicam mentiras. Seria até um contrasenso exigir do artista a verdade”, argumenta. Tiago entende como “ressentimento editorial dos jornais” toda a repercussão depreciativa feita por alguns veículos de comunicação que chegaram a desclassificar Yuri e seu trabalho, além de pôr em cheque a credibilidade do Museu de Arte Contemporânea e do Dragão do Mar. “Espero que isso não se torne um mal-estar moral dentro das redações de jornal, mas uma oportunidade para fortalecer as discussões”.

Com a polêmica rolando solta no ar, Yuri ainda confirmou que novas surpresas ainda estão por vir. “Vou realizar performances que não tem data, horário nem local prévio, durante os próximos dois meses”, acrescenta o artista que, desde 2001, acumula no currículo performances polêmicas, como andar nu em locais públicos. Para quem duvida das proezas de Yuri, não custa nada conferir o site (http://yurifirmeza.multiply.com) ou o blog (www.yurifirmeza.zip.net) do artista.

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CAPÍTULO 8
A editoria do caderno Vida & Arte se manifesta

A editora Regina Ribeiro, do caderno Vida & Arte, comenta o episódio, faz considerações e sugere questões sobre a arte e o jornalismo. Não chega a apoiar o artista, mas reconhece a eficiência de sua estratégia.

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Reprodução – Jornal O Povo (CE), Vida & Arte
12.01.06 – Matéria de Regina Ribeiro

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PONTO DE VISTA
A arte no jornalismo

Regina Ribeiro
da Redação

A modernidade esgarçou ao infinito a possibilidade da arte nos moldes aristotélicos. Além do mais a chamada pós-modernidade, com todos os hibridismos e conexões entre o possível e o inverossímil, transforma tudo em arte. Que pode ser nada. No entanto a raiz do que se pode chamar de criação artística ganha força quando se observa pelo menos um dos argumentos do filósofo grego: a “idéia” que pode ser expressa em ação é um dos componentes vitais da arte. Existe algo mais cabível na arte contemporânea, mesmo a que nega toda e qualquer explicação?

Deixa pra lá essa pendenga, porque o que importa mesmo é o esse novo artista, o japonês Souzousareta Geijitsuka, que “desembarcou” na cidade trazendo na bagagem a vontade de pôr sobre a mesa alguns incômodos que cercam o mundo da arte e os suportes que ela utiliza para se estabelecer.

A começar pelo imbróglio em torno do real. Souzousareta aprendeu que o artista não tem nenhum compromisso com a verdade. Isso é coisa da História, a começar por Homero. O que a arte deve ter é verossimilhança. Precisa convencer. E ele não perdeu isso de vista quando contratou “assessores de imprensa” – a incômoda muleta do jornalismo pós-moderno – para construir a imagem de um artista múltiplo e pesquisador – quase horaciano – da virtualidade e da eletrônica. E acertou de novo. Deu entrevista por internet para uma imprensa ávida pela apresentação do novo, do estrangeiro e do discurso rebelde-planetário recheado de clichês.

Tanto no Japão, quanto no resto do mundo contemporâneo a exposição artística se viabiliza ou é referendada a partir da mediação dos espaços midiáticos. E isso não acontece só com a arte, que tem em si, a função de ser apreciada desde as imagens pictóricas das cavernas, passando pelos poetas que contavam a aventura de homens e deuses na disputa eterna pelos feitos heróicos. A política há muito tempo é subserviente às câmeras e jornalistas. O terrorismo, idem.

E aqui sim, chegamos ao ponto crítico em torno de Souzousareta, o artista japonês considerado pela imprensa local “um dos nomes mais importantes quanto à interface ente arte contemporânea, ciência e novas tecnologias”, que já “expôs em vários países” e chega ao Brasil pela “quarta vez”. Que fala de Glauber Rocha, Darcy Ribeiro e Hélio Oiticica com aquela proficiência dos verbetes de almanaque. Aquele que está em busca da “harmonia entre a natureza que nasce e morre empregando equipamentos tecnológicos”.

A questão é que Souzousareta só existe a partir da informação publicada. É uma invenção. Uma fábula.(Portanto, arte.) Não se materializa em torno de uma alma pensante, mas existe como discurso. É real enquanto informação.

Mesmo diante da possibilidade da infinitude da interpretação de uma obra de arte que se propõe “aberta” e que trafega no espaço singular do imprevisível e das descobertas, o jornalismo é convidado a participar, quando ele é suporte dessa arte. Pronto. O bosque está pronto para ser explorado.

E aqui estão alguns vales e muitos atalhos. Os recursos e sistemas da produção da notícia deixam o jornalismo vulnerável a que tipos de armadilhas ?Criamos ou fazemos parte de um exército de crédulos seguindo discursos pré-fabricados com interesses anteriores definidos sem nenhuma reflexão? Por que nos dobramos tão facilmente ao que é estrangeiro? Por que referendemos com tantos adjetivos (bons e maus) o que não conhecemos? Será que são todas essas questões que arrastam o jornalismo para o mero entretenimento? (Pelo menos lá não há motivos para indignações).

E a verdade – motivo da revolta em torno do japonês e a forma como ele se fez criar a partir da mídia local- se apequena diante do volume de outras “criações” políticas, bélicas, científicas que o jornalismo contemporâneo tem ajudado a tornar reais. Sem dúvida, Souzousareta existe.

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CAPÍTULO 9
A notícia da marmota cruza a cancela

Uma semana após a descoberta da farsa, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo e reproduzido no site Observatório da Imprensa, o jornalista e biografista Lira Neto resume o episódio, sem analisá-lo.
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Reprodução – Jornal O Estado de S. Paulo (SP) e site Observatório da Imprensa
17.01.06 – Matéria de Lira Neto

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Arte inventada
Lira Neto

Um artista ‘genial’. E ele nem existia

Seria um acontecimento. O japonês Souzousareta Geijutsuka, anunciado pela imprensa cearense como um dos principais nomes da arte contemporânea universal, era ansiosamente esperado semana passada em Fortaleza, para abrir a exposição Geijitsu Kakuu. Convidado especial da curadoria do Museu de Arte Contemporânea do Ceará, Geijutsuka mostraria ao público cearense por que seu trabalho é aclamado em todo o planeta como uma obra revolucionária que, segundo o material de divulgação de sua eficiente assessoria de imprensa, incorpora ‘novos conceitos à arte’, como os de ‘operação em tempo real, simultaneidade, supressão do espaço e imaterialidade’. Os jornais locais deram amplos espaços para a divulgação da exposição. Um deles chegou a publicar, no dia marcado para a abertura do evento, uma entrevista de página inteira com Geijutsuka. Tudo perfeito, não fosse um detalhe: Souzousareta Geijutsuka não existe.

A idéia de inventar o tal japonês que – segundo informava um jornal de Fortaleza – ‘conquistou fama mundo afora por unir arte, ciência e tecnologia’ partiu de um jovem artista de 23 anos, Yuri Firmeza, paulistano radicado na capital cearense desde a infância. ‘A intenção foi mostrar como a arte hoje em dia encontra-se subordinada a exigências e manipulações mercadológicas e a modelos construídos e legitimados pela mídia, pelas galerias e pelos museus’, explica Firmeza. Para tornar sua história mais verossímil, ele conseguiu convencer especialistas a escreverem textos críticos sobre a obra do fictício Geijutsuka, incluindo aí o próprio diretor técnico do Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC), Ricardo Resende, 43 anos, ex-curador do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). ‘Vivemos uma era em que muitas outras forças, além daquelas que o artista naturalmente dispõe para criar, regem o sistema da arte’, já denunciava também Resende, de forma velada, no texto de apresentação da ‘exposição’.

Tudo foi planejado nos mínimos detalhes. A namorada de Yuri Firmeza se fez passar por assessora de imprensa e abasteceu os jornais locais com imagens de algumas das ‘obras’ de Geijutsuka. Entre elas, uma série de fotos prosaicas de um gato, que foram publicadas na imprensa local como sendo cenas de um ‘videoarte’ do ‘genial japonês’. ‘Era apenas um gatinho que vi na rua, num bairro aqui em Fortaleza, e fotografei com minha máquina digital doméstica’, revela Firmeza. Uma fotografia de uma ensolarada praia cearense, distorcida em um editor de imagens para parecer uma figura abstrata, foi estampada também pela imprensa local como um ‘infográfico’ de Geijutsuka. Na legenda da ilustração, uma frase pinçada da longa ‘entrevista’ que ele havia concedido, por e-mail, ao jornal: ‘Os historiadores da arte são iguais ao público: têm dificuldades de reagir ao que não entendem’.

Yuri deixou algumas pistas propositais, que não foram decodificadas pelos jornalistas. Em japonês, Souzousareta Geijutsuka significa exatamente ‘artista inventado’. E o nome da exposição, Geijitsu Kakuu, pode ser traduzido como ‘arte e ficção’. No material de divulgação repassado à imprensa, dizia-se ainda que o suposto artista havia criado a fotografia ‘Shiitake’, nome do cogumelo que pode ser encontrado em qualquer restaurante japonês, mas que foi definida por sua ‘assessoria de imprensa’ como uma ‘técnica que permite a captação dos fenômenos invisíveis ocorridos na atmosfera’.

No dia da abertura da anunciada exposição, em vez das obras revolucionárias de Souzousareta Geijutsuka, o público deparou-se apenas com uma série de e-mails pregados na parede da sala reservada ao evento pelo museu. Nas mensagens, Yuri Firmeza e um amigo trocavam idéias sobre arte contemporânea e discutiam animadamente a obra de autores como Gilles Deleuze, Antonin Artaud e Pierre Bordieu. Dessa troca de e-mails é que surgira a idéia de criar um artista imaginário. ‘O que me interessa é interrogar sobre a qualidade do que compõe todo esse sistema de legitimação estética: críticos, jornais, artistas, curadores, galerias, museus e o próprio público’, escreveu Firmeza em uma dos e-mails ao amigo. ‘Não sei como será a receptividade em relação ao Geijutsuka, mas acredito que suscitará saudáveis desconfortos’, previa.

Dito e feito. Revelado o simulacro, a reação da imprensa cearense foi violenta. Yuri Firmeza foi chamado de ‘moleque’ pelos jornais e foi alvo de editoriais indignados. Sobraram farpas também para a direção do MAC por ter ‘compactuado com a farsa’. ‘Em vez de irritar-se, a imprensa está perdendo uma ótima oportunidade para refletir sobre as provocações que Yuri Firmeza fez a todos nós’, avalia o diretor técnico do museu. ‘Não se tratou de uma ferroada à mídia local, o mesmo poderia ter ocorrido em qualquer lugar do país. No Brasil, somos deslumbrados pelo que vem de fora e pelo que nos é apresentado como algo novo e revolucionário, é nisso que todo esse episódio nos obriga igualmente a refletir’, analisa Resende.

‘Bastaria fazer uma rápida pesquisa no Google para que os jornalistas descobrissem que não havia, na internet, nenhuma menção ao tal Geijutsuka, apresentado como um artista famoso, com exposições consagradoras em Tóquio, Nova York, São Paulo e Berlim’, diz Yuri Firmeza. ‘Mas eu não quis provocar apenas a imprensa, isso seria reduzir o alcance da denúncia; a provocação foi extensiva a todo o circuito das artes em geral’, insiste ele, que mantém uma página pessoal na internet (http://yurifirmeza.multiply.com/) onde registra suas principais performances – ou suas ‘orgias multipoéticas’, como prefere definir. Não se estranhe nada do que for visto ali. Afinal, na pele de Souzousareta Geijutsuka, na ‘entrevista’ à imprensa de Fortaleza, ele já advertira: ‘Tudo está integrado a um exercício do simulacro, cujo objetivo é retirar os hábitos de seu estado de evidência’. Seja lá o que isso possa vir a significar.”

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CAPÍTULO 10
O Globo publica com destaque

Em matéria destacada em seu caderno cultural, o jornal O Globo dá voz ao diretor do museu e ao artista, mas infelizmente não ouve nenhum dos jornalistas envolvidos na farsa, deixando de informar melhor aos seus leitores. A matéria revela que os jornais de Fortaleza não deram importância às edições anteriores do Artista Invasor, nas quais participaram artistas locais, e nenhum japonês.
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Reprodução – Jornal O Globo (RJ), Cultura
23.01.06 – Matéria sem assinatura

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A CILADA DO ARTISTA INVASOR
Artista cearense engana imprensa inventando um colega japonês

A informação chegou aos cadernos de cultura do Ceará e foi ali reproduzida. Um célebre e renomado artista japonês, Souzousareta Geijutsuka, viria ao país pela quarta vez para abrir, no dia 10 deste mês, sua exposição “Geijitsu kakuu”, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Fortaleza. No dia seguinte à divulgação do evento pela imprensa local, veio a revelação: Souzousareta não existia. Era tudo uma invenção de um artista de 23 anos, Yuri Firmeza, que quis criar um trabalho justamente sobre os critérios para o reconhecimento da arte nos dias de hoje. Depois de pregada a peça, a imprensa cearense passou a discutir o assunto de forma apaixonada na semana passada, uns com louvores à idéia de Firmeza, outros — sobretudo os que caíram na cilada — atacando ferozmente o que seria uma molecagem de menino. Além da atitude do artista, foi criticada a participação do MAC, reconhecida instituição de arte contemporânea, por ter colaborado com a farsa.

— Quis questionar o papel do museu, da formação de artes visuais e da imprensa. O artista que criei é a própria obra, e o suporte do trabalho foi o jornal — diz Firmeza, recentemente selecionado para o projeto Rumos, do Itaú Cultural, que trará jovens talentos para uma exposição no Paço Imperial este ano. — Achava que os jornalistas teriam mais humor. Faltou reconhecer que eles têm esse interesse pelo que é de fora, querem ser seduzidos pelos mesmos artifícios com que seduzem o público. Eles provaram ainda mais o quanto são reacionários. Levaram para o lado pessoal, o ego foi ferido.

Não havia registro do artista na internet

Mas o humor ficou mesmo por conta da releitura dos textos publicados. Segundo o jornal local “O Povo”, o trabalho do artista era reconhecido no mundo todo e tinha como foco “a harmonia entre a natureza que nasce e morre, empregando equipamentos tecnológicos, para abordar a discussão em torno da fragilidade da vida e suas conseqüentes contradições”. Informações retiradas da assessoria de imprensa do artista, feita pela namorada de Firmeza.

Além de um texto exaltando a arte eletrônica de Souzousareta, a competente assessora enviou registros do trabalho: uma foto de um gato, que seria um trecho de um vídeo, e uma imagem, distorcida em photoshop, da Praia Porto das Dunas. Se passaram ao largo do fato de não haver qualquer registro do japonês na internet ou em textos impressos, é normal que ninguém tenha percebido as pistas deixada por Firmeza no próprio nome que deu ao artista, que em português significa “artista inventado”, e à exposição, “arte e ficção”. Diretor do MAC há 11 meses, Ricardo Resende não interferiu nessa divulgação, mas admite que passou por uma saia justa:

— Um jornalista do “Diário do Nordeste” me ligou para saber da mostra porque não estava encontrando informações. Fui pego de surpresa. Disse que pediria para o artista entrar em contato com ele.

Foi o que o artista fez. No papel de Souzousareta, respondeu a uma entrevista por e-mail, que foi publicada em página inteira. Foi uma repercussão da qual museu e artista não tinham idéia quando Firmeza propôs o artista inventado ao ser convidado para o projeto Artista Invasor.

— Procuro dar a máxima liberdade para o artista criar. Convidei o Yuri pensando em suas performances, que já achei que seriam bastante ousadas (ele faz muitas das performances nu). Mas ele foi mais ousado ainda e me testou, para ver até onde eu iria. Eu fui adiante, porque tive o apoio da presidência do museu. Sabíamos que poderia haver um conflito, mas a imprensa podia não ter publicado uma linha sobre o assunto — avalia o diretor do MAC de Fortaleza.

Para Resende, a divulgação só prova o preconceito da imprensa com os artistas cearenses, já que nas outras edições do Artista Invasor não houve qualquer reportagem:

— Há um certo deslumbramento com o que vem de fora no Brasil todo, não só no Ceará. A mídia insistiu em publicar a matéria, mesmo com dificuldades de achar informações. Foi uma ingenuidade, ou mesmo uma falta de conhecimento de arte contemporânea. Depois houve uma tentativa de jogar o erro para o outro, enquanto o grande erro foi da própria mídia.

Firmeza, apesar de enfatizar que o problema é da imprensa em geral, faz críticas à falta de especialização no estado.

— Acho que a imprensa de São Paulo e do Rio também poderia ter caído nessa. Mas o Ceará é uma província. Aqui os jornalistas não têm fundamentação teórica sobre arte, é uma verborragia — diz ele, citando o artigo “Arte e molecagem” do jornalista Felipe Araújo, de “O Povo”, que afirma que a arte contemporânea é, “com raras exceções, uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação.” — Todo o preconceito está ali.

Para diretor, museu cumpriu seu papel

No museu, o visitante poderá ver a troca de e-mails entre Firmeza e um amigo sociólogo, com conversas sobre Bourdieu, Nietzsche e Deleuze, inspiradoras da idéia de se criar um artista inventado. Aos poucos, o local receberá ainda as fotos do suposto japonês, divulgadas para a imprensa, reportagens sobre o caso e performances e registros em vídeo de Yuri — que não sabe como a exposição teria sido montada se nada houvesse sido publicado nos jornais:

— Foi um risco que corri desde o início. Mas de qualquer modo estaria lá a troca de e-mails. As performances aconteceriam e também voltariam ao museu como registros. Só sei que se o Yuri tivesse enviado o material, nada teria sido publicado na imprensa.

Para Resende, o museu saiu fortalecido no meio artístico porque mostrou que funciona para ousar:

— Nossa credibilidade não está ferida. Acho que as pessoas se perguntam que mídia é esta, que informações estão lendo. O museu só está cumprindo seu papel de ser o espaço do artista. O trabalho deu muito certo porque chegou ao editorial do jornal e a outras áreas em que a arte contemporânea nunca é tratada. Ele foi realmente um invasor.

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ESCREVERAM SOBRE O CASO

O que a imprensa cearense publicou, antes e depois – Seleção de artigos e editoriais

Shiitake – Geijutsuka, o “desmaterializador” – Coluna da Mônica Bergamo, Folha de São Paulo, 21.01.2006

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YuriFirmeza2006-01Yuri Firmeza (2006)
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YuriFirmeza2006-04Yuri Firmeza (2006)
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YuriFirmeza2013Yuri Firmeza (2013)

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- ADOREI… ABRAÇOS. José Alberto Simonetti, Fortaleza-CE – jan2006

02- Gostei!!!!!!!!! Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – jan2006

03- Olá grande e insano Ricardo … Há exatamente um ano atrás estava trabalhando na Produção do Festival Vida e Arte, quando as obras contemporãneas do Yuri causaram certa divergência quanto ao conceito  do evento que queria algo mais moderno. Resultado O Grande Yuri e suas idéias ficaram de fora do FESTIVAL, mas em menos de uno depois ele ressurge das cinzas, assim como fênix,ou melhor, ele não eles…rsrsrs…ele e seu Japa alencarino, e dão um show ( literalmente falando) !!! E eu perdi a chande cumprimentá-lo, pois estava no ponto de parada do coletivo ( Campus do pici-Unifor)…vulgo buzão, ao lado desta fera chamada Yuri, não sei se um só ou dois agora…e fiquei mumificado…não conseguia falar!!! mas o seu feito é maior que qualquer palavra. Seu artigo está show….aliás você é show!!! Um abraço e apareça aqui em Fortalville! É isso aí…Ana carolina e seu Jorge cantam: “Há quem acredite em milagres”. Fabiano Brilhante, Fortaleza-CE – jan2006

04- Aí, perfeito. Abraços. Júlio Cesar Montenegro, Fortaleza-CE – jan2006

05- Grande Kelmer, Que bom nos encontrarmos em mais uma presepada !!! Fico feliz que você tenha tido a compreensão da nossa séria brincadeira. Vamos promover alguns debates emum seminário sobre comunicação e cultura em março.Retomaremos este e outros assuntos.No mais obrigado pelos tão bem vindos apoios nestashoras de muitas incompreensões. Forte abraço. Luis Carlos Sabadia, Diretor de Ação Cultural, Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Fortaleza-CE – jan2006

06- Ducarái!! Adorei! Valdo Siqueira, Fortaleza-CE – jan2006

07- Fascinante! Eu não estava sabendo… Também, eu vivo em outro mundo. Que cara genial. Claudio Roberto Azevedo, Fortaleza-CE – jan2006

08- Muito boa Ricardo. Du cacete!!!. Rodrigo Grunewald, Campina Grande-PB – jan2006

09- Valeu! Inclusive, acabo de repassar tua marmota prum grupo de discussão sobre música do qual participo, cheio de gente boa — alguns de Fortaleza –, que saberá apreciar a ironia. Alexandre Feitosa, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

10- Pois num eh… Foi uma comédia mesmo! rsrs Uma comédia providencial, diga-se de passagem.. Jéssica Giambarba, Fortaleza-CE – jan2006

11- Boa, Ricardo, boa mesmo! Abraço. Felipe Costa, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

12- Ô, Ricardo Por essas e outras marmotas é que acredito que será 2006, realmente, um ano bom. E, aproveitando o contexto da confusão, me deu uma vontade muito grande de comer sushi… Raimundo Netto, Fortaleza-CE – jan2006

13- Ótima essa história, em? E esse Yuri é meu primo. Na verdade, filha da prima legítima da mamãe. Olha só o nome do japa, Sousa … e eu, Liliana de Sousa Costa. Tudo em família. Beijo grande em você. Liliana Costa, Lisboa-Portugal – jan2006

14- Uau! Demais. Giovanna Bressan, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

15- Hehehehe… Muito bom o artigo, camarada Kelmer! Temos que botar isso para frente. Esta história de estátua seria uma ótima! No Dragão seria perfeito, mas em qualquer outro lugar tá de bom tamanho. Um grande abraço. Nelson Eulálio, Fortaleza-CE – jan2006

16- Caraca, embora a idéia não seja muito original o que é triste é que jornalista sempre cai. Frô, São Paulo-SP – jan2006

17- Caro Ricardo, E veja só, que o jornal de maior circulação do Ceará abriu foto de três colunas na capa da edição de hoje para dar um artista plástico que faz greve de fome no calçadão da Beira Mar. Mais cearense e mais real impossível. Abraço, querido. Do amigo, cheio de novidades pra contar e morrendo de vontade de dar boas gargalhadas da vida e dos vivos. Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – jan2006

18- Ricardo, você provou que é um artista “antenado” ( no sentido poundiano), que está enxergando bem mais longe que os mais comuns dos mortais. Sua análise está perfeita e topa comprar uma briga com a mediocridade ainda reinante. Você pôs o dedo na ferida. Faltou apenas aprofundar um pouco derme a dentro. Eu acho que você conseguiu até ir longe demais. No mais, achei bom ler um resumo de tua gloriosa biografia e descobri que temos mais coisas em comum do que eu imaginava: primeiro, você fala de uma “santa pneumonia”. Eu falo de uma “santa hepatite” que tive aos 17 anos e que me fez passar uns trinta dias de cama e lendo livros que foram decisivos na minha formação cultural. Segundo, você morou em Manaus, São Paulo e Rio de Janeiro. Eu também. Nosso placar, está 2 a 2. Fico contente em saber que o amigo continua lúcido, produzindo e deleitando os leitores com um papo inteligente e divertido. Um abraço do Francis Vale, Fortaleza-CE – jan2006

19- Bravo! Bravíssimo! grande abraço desse idiota que concorda em gênero, número e grau com vossa opinião. Fernando Costa, Fortaleza-CE – jan2006

20- eu adorei isso… hehehehe abração, cara! Adriano de Lavôr, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

21- É impressionante como o povo marmotoso se atrai! Pode até vir japonês, coreano o que for, mas a vaga de marmotoso-mór da terrinha aqui já tá preenchida:P Rafaela Almeida, Fortaleza-CE – jan2006

22- Muito bom, Kelmer! Li essa historia pelo Lira e depois diretamente nos jornais cabeca-chata e bolei de ri aqui. Abracos. Antonio Marinho, Fortaleza-CE – jan2006

23- Caro RK, valeu a crônica – “A marmota do ano”. Pensando bem, o Yuri Firmeza ninjou nos brios das torres gêmeas de nossa provinciana imprensa. E ambas caíram do salto. E você, como um bom e genuíno observador de uma virtual Praça do Ferreira, é que faz a verdadeira imprensa da contemporaneidade – a crônica -, não perdeu a brecha dessa saia-justa. Valeu e, pensando um pouco mais, aproveitano a foto, etc. vejo que o Yuri Firmeza é a cara do Bin Laden… Esteticamente falando, enfim,  ficou no ar a pólvora de uma molecagem que, no seu desconcerto, é nosso maior instrumento de exercício dionisíaco do Belo. Fica o abraço do Leite Jr., Fortaleza-CE – jan2006

24- Sobremaneira, os debates que decorreram do acontecido deixaram enfim espaço na imprensa jornalistica escrita para se falar de pensamento e que pensar faz parte da vida. Mesmo em tempos de sofisticadas tecnologias não se pode abrir mão do pensamento no sentido stricto e que a universidade, os intelectuais e as vanguardas têm ainda um papel na nossa sociedade. Sobretudo, valeu para furar as páginas já escritas dos jornais dos dias que virão. Terão ou tiveram obrigatóriamente que escrever ‘outra’ história. Foi muito inteligente. É importante também ressaltar que os museus (Dragão e de Arte do Ceará) fizeram um papel responsável. A função dessas instituições não deve ser a da perpetuação e reprodução das leis que compoem um campo de poder e sim o de se aliar as linhas de força que tentam resistir e provocar a reconfiguração deste campo. Foi muito profissional e responsável conceitualmente a acolhida que deram para Yuri. Agora é ler, ouvir, escrever, conversar. Viver. Um abraço. Rosângela Matos, Fortaleza-CE – jan2006

25- Me fez lembrar o “Porco” do Leiner, enviado ao Salão de artes plásticas de Brasília. Diuk Mourão, Brasília-DF – jan2006

26- Caro Ricardo, Como sempre acompanho com sincera admiração sua coluna, não me contive diante de seu texto sobre a marmota do Dragão e decidi escrever-lhe só para deixar claro alguns pontos. Primeiro, reafirmo o que escrevi no meu artigo (“Arte e molecagem”) sem tirar uma vírgula. Segundo, não me cabia pedir desculpas para ninguém já que não fui eu que escrevi as “barrigadas”. Essa é uma iniciativa que caberia, se eles assim entenderem, às editorias e aos jornais envolvidos no caso.  Minha colher nesse debate foi apenas o artigo. Mas é aquele negócio: uma coisa é uma coisa e um pneu é um pneu. Embora discorde de tudo que você escreveu (mas tenho que reconhecer que seu estilo continua muito afiado…), reconheço, ops… perdão, acaba de passar um limpa-fossa por aqui também…, peraí… Pronto. Devo dizer que adorei a expressão sobre a nudez do rei e o tamanho do pinto real. Mas me admira o fato de você, passado na casca do alho, ter achado que descobriram que o rei só ficou nu agora. Lagartão, muita gente já tinha visto o pau do rei há algum tempo por aqui. Não foi a intrujice do doidinho e do Dragão que nos fez ter esse “privilégio”. Vamos bater na imprensa (às vezes, é um troço saudável inclusive para os jornalistas, em especial para os sadomasoquistas), mas vamos aprender a socar primeiro e, se possível, de maneira leal. Dar uma “cabeçada” (eita!) por trás (EITA!) pode, às vezes, doer nos próprios cornos. Acho que é isso. Vou indo que o disco do Frankito Lopez, o índio apaixonado, terminou de tocar e tenho que procurar o CD do Carlos Santos. Sincero abraço e saudações alvinegras, Felipe Araújo, Fortaleza-CE – jan2006

27- Intervenção interessante. Um ensaio razoável de crítica, mas eu diria que de efeito bumerangue. Teria sido melhor se o autor não tivesse caído na tentação de dar explicações para o feito. Deixasse o pau troar, as carapuças serem vestidas e a obra falar por si. Mesmo assim,  acho que a participação do MAC compromete os objetivos inicias da crítica ou, melhor, traz o outro lado da mesma moeda. Ao tentar a crítica aos ‘ fatores mercadológicos ‘ que afetam a produção artística revelou o fator-estado que aprisiona a arte e seus produtores ( locais? e não-locais? ). Teria sido perfeito se o tento tivesse sido realizado sem a conivência do papai-estado , numa espécie de ensaio anti-sistêmico. Ai, sim, poderíamos começar a pensar a tal liberdade de cria –ação . Por enquanto, acho que o bom castigo para todos os envolvidos, inclusive nós ‘ idiotas’ leitores, é pensar mais e melhor sobre a questão. Lilia Costa, Fortaleza-CE – jan2006

28- Oi Ricardo Kelmer. Valeu pela força em relação ao japonês. Mesmo que a imprensa local não esteja reconhecendo (pelo menos não publicamente) a sua vulnerabilidade, a falta de compromisso, o descaso com os artistas locais… acho que o trabalho funcionou, justamente por estar conseguindo um espaço de discussão enorme aqui na net. Isso é maravilhoso!!!  Muito legal o seu texto Ricardo, incisivo e com humor. Humor que faltou por parte da imprensa local. Vi o fórum do jornal, legal ver o pessoal dando uma força, tenho recebido muitos e-mails de pessoas que não conheço, a maioria dando força e tal…  O artigo do Felipe foi péssimo, demonstrou o preconceito dele com a arte e artistas locais… que bom que o pessoal também entendeu dessa forma e começam a se manifestar…Você falou de um japonês no Orkut, eu conhecia a comunidade… o japonês realmente não sou eu, e concordo com você, o japa usou palavras agressivas demias… que eu realmente não usaria e não usei em momento algum… Parabéns novamente pelo seu texto!!! Obrigado pela força, massa!!! Abraços. Yuri Firmeza, Fortaleza – jan2006

29- ADOREI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! beijos da fã Armôndega Porvilho. Monica Buonfiglio, Campinas-SP – jan2006

30- É isso aí velho, a melhor resenha do fato é mesmo sua, com todas as letras e calafrios – e ainda um caminhão limpa-fossa passando ao fundo… Tem até cenário a marmota!  Parabéns! Max Krichanã, Fortaleza-CE – jan2006

31- Camarada Kelmer, Gostaria de lhe parabenizar pela crônica: “A MARMOTA DO ANO”. Parabenizar não só pelo texto em si, que diga-se de passagem: tá excelente, mas principalmente pela coragem de publicá-lo na imprensa cearense através do veículo que mais atacou Yuri Firmeza e toda a categoria artística cearense, o Museu de Arte Contemporânea – MAC – na pessoa de seu diretor Ricardo Resende (que tem tido uma gestão atípica, coisa que tem projetado o MAC em nível nacional e de forma positiva) e, por tabela o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, além de nós meros mortais consumidores dos produtos dos Deuses (ou pelo menos agem como se assim o fossem) da impressa cearense – os coronéis da mídia local. Como escrevi no fórum do “O Povo” sinto-me vingado! Isso antes de ler sua crônica. Depois, estou dando gargalhadas até agora da cara dos pseudo-jornalistas locais (sim, pois ainda acredito que existam jornalistas sérios, pena que são raros) quando viram sua iniciativa. Markus Markans, Fortaleza-CE – jan2006

32- Adorei do texto!! PERFEITO!!! Pra você ver a quantas anda a imprensa cearense… eu acho bem feito. Então a estratégia de guerra é desqualificar uma pessoa que põe em xeque as sagradas empresas jornalísticas? Até parece que elas são infalíveis… Muito bom mesmo o que o Iuri Firmeza fez. Esse jornalecos cearenses que se acham portadores da verdade mereciam mesmo uma lição. E não só os cearenses, bem sabemos. A imprensa nacional, mundial, inter-galática (sic! hehe) é pedante! “Sim, nós somos um veículo de denúncia em prol da comunidade”… Pois tá. Me engana se te faz feliz. Falo dos jornais do Ceará porque sei que não têm comprometimento com outra coisa que não seja o lucro. Já trabalhei em um deles, sei o que se passa lá dentro. Os “jornalistas” são na maioria estagiários, que se prejudicam na academia pra fazer trabalho grande. É assim que eles qualificam um profissional? Provavelmente, as fontes não foram checadas “direito” porque o cara responsável por isso tinha aula… Talvez se investissem e respeitassem mais o profissional a coisa fosse diferente…Não sei. Aliás, quem sou eu pra dizer alguma coisa que não seja carregada de juizo de valor? Enfim, o que o tal Firmeza fez não foi novo, mas na minha opinião foi justo. Patrícia, Fortaleza-CE – jan2006

33- Adorei o texto, o pior que isso acontece mesmo (risos). Um grande beijo. Mariucha Madureira, Brasília-DF – jan2006

34- Sobremaneira, os debates que decorreram do acontecido deixaram enfim espaço na imprensa jornalistica escrita para se falar de pensamento e que pensar faz parte da vida. Mesmo em tempos de sofisticadas tecnologias não se pode abrir mão do pensamento no sentido stricto e que a universidade, os intelectuais e as vanguardas têm ainda um papel na nossa sociedade. Sobretudo, valeu para furar as páginas já escritas dos jornais dos dias que virão. Terão ou tiveram obrigatóriamente que escrever ‘outra’ história. Foi muito inteligente. É importante também ressaltar que os museus (Dragão e de Arte do Ceará) fizeram um papel responsável. A função dessas instituições não deve ser a da perpetuação e reprodução das leis que compoem um campo de poder e sim o de se aliar as linhas de força que tentam resistir e provocar a reconfiguração deste campo. Foi muito profissional e responsável conceitualmente a acolhida que deram para Yuri. Agora é ler, ouvir, escrever, conversar. Viver. Um abraço. Rosângela Matos, Aracaju-SE – jan2006

35- Prezado Ricardo, Considero um  exagero esse massacre da imprensa cearense no episódio do artista japonês inexistente. Só quem não tem intimidade com pesquisas no Google é que pode acreditar que “bastava uma googlada” para descobrir a inexistência do artista. Como se fosse fácil !!! Criou-se esse mito de que o Google acha tudo. Nada mais enganoso. Não só o Google não acha tudo, como existe uma enorme fatia do planeta onde ele não penetra, pelo menos com pesquisas feitas usando o alfabeto latino. O fato de não se achar referências ao nome do artista não quer dizer que ele não exista! Será isto tão difícil de entender? Ainda mais se tratando de artista “japonês”. As buscas no Google usando o romaji (=japonês escrito com alfabeto latino) são totalmente inconclusivas, porque 99.99% do que está escrito em japonês não é transcrito para esta escrita fonética (que se usa mais para comunicar com ocidentais). Para uma busca precisa seria necessário digitar nos caracteres japoneses (ideogramas) e naturalmente entender o conteúdo. Uma pessoa pode ser uma celebridade local no Japão e não existir uma única menção acessível via romaji. Fica a questão: para ser jornalista é preciso falar e escrever em japonês? E se o “artista” fosse russo, coreano, tailandês, vietnamita ou grego? Cada uma dessas línguas tem o seu próprio alfabeto e portanto são mundos fechados para o Google digitado em alfabeto romano. Tem que saber a língua e digitar no seu alfabeto… E, como sabemos, são muito poucos os grupos de comunicação no Brasil que tem bala na agulha para manter uma rede de correspondentes internacionais. Acredito que muitos jornalistas tenham feito a pesquisa no Google, afinal isso é hábito na profissão. Mas na falta de confirmação, preferiram dar o benefício da dúvida e publicar a nota, afinal a fonte construiu uma relação de confiança ao longo de anos e centenas de releases verdadeiros. Não havia razão para duvidar. Abraços. Alan Romero, Lisboa-Portugal – jan2006

36- Oi, Kelmer, como está? Achei super bacana seu artigo sobre o Zé Sareta; comungo com sua idéia de erguer uma estátua dele. Um abraço! Jorge Ritchie, Fortaleza-CE – jan2006

AMarmotaDoAno-05a


Mário Gomes, o poeta viralata

06/01/2015

06jan2015

Era com suas errâncias quixotescas e os versos obscenos que o povo se encantava, ele lá, de paletó sem gravata, camarada e bonachão

MarioGomesOPoetaViraLata-02

MÁRIO GOMES, O POETA VIRALATA

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Era um burburinho que rodava dentro da cabeça dele, sem parar. Uma noite rodou, rodou e pariu um poema. E ele riu da própria marmota. Descobriu-se poeta.

Rapaz, trabalhar com redemoinho no juízo não dá. Veio-lhe aí a revelação, aquilo que todo cão viralata sabe: se é pelas ruas que a vida livre escorre em poesia, bebamos de sua sagrada putaria. Então batizou-se boêmio e vagabundo.

Rebelando-se contra tudo que não rima com liberdade, um dia ele fugiu do manicômio. Lá no alto, a lua se apaixonou, a andarilha do céu, e jurou protegê-lo em suas perambulanças e traquinagens. Assim, sempre sem dinheiro mas abençoado, fez-se aventureiro: em São Paulo foi preso, mas escapuliu, por se fingir cineasta para as mulheres, em Minas se atrasou e não embarcou no ônibus que viraria na estrada, e lá nos cafundós da Bahia escapou de morrer no veneno de um vatapá na encruzilhada.

Ah, ele sumia por meses, mas Fortaleza sempre o recebia de volta. Todo lascado de surras e prisões, mas uma ruma de história mirabolante para contar. À tarde, na Praça do Ferreira, o vento malandro a brincar de subir a saia das moças, era com suas errâncias quixotescas e os versos obscenos que o povo se encantava, ele lá, de paletó sem gravata, camarada e bonachão. Fiel se manteve ao ofício de sua nobre vagabundagem, vivendo sem amanhãs, e sempre o acudia um troco para a janta e o cigarro. De tanto encarnar o surreal da vida, ainda vivo virou lenda. Assim foi que um dia, ele contando orgulhoso da aposentadoria por invalidez mental, que os amigos entenderam: cidade bendita a que provê seus poetas mais puros.

Nos seus livros publicados, a arte intuitiva brincava sem parâmetros, feito criança travessa que, sem atinar, aponta o absurdo da existência. Era por isso que ele podia colher uvas no pé de cana até chegar o homem das laranjas. Por isso ele, só ele, foi comido vivo em banquete por Odete, Judite e Maria Helena. Por isso que em seu braço a formiga bebia água e de sua merda uma tarde voaram borboletas. Porque só o poeta que reflete a lucidez primitiva do desconexo sabe que na vitrine a manequim tem fome.

Tua amada, cadê?, são as estrelas a lhe indagar na solidão das madrugadas. Ela não veio, responde magoado, e vira a cachaça. Agora, debilitado e maltrapilho, defende-se como pode de velhas assombrações, os eletrochoques, aquela virgem ingrata que lhe negou um nheconheco, a surra da multidão em Salvador por lhe confundirem com um bandido… Agora, veja só, lhe proíbem de recitar seus poemas onde antes era aplaudido, como se atrevem? E esses moleques idiotas, que lhe acordam com pedradas, acham que é mendigo, não sabem que saiu no jornal, que o mulherio gama só de olhar? A mãe, tadinha, morrera, ela que cuidava de lhe dar os remédios que sossegavam os burburinhos, e que agora já não parem poemas. Dizem que virou espectro vagante, que é melhor ir para a casa de repouso, que morreu mês passado, ah, não entendem porra nenhuma. Aquele bar ali, outro dia lhe negaram um resto de pão que sobrou na mesa, vão tomar no cu. Felizmente as ruas sabem quem ele é. E pode lavar a calça no banheiro do teatro. E embaixo da passarela ainda lhe deixam dormir. E descansar a carcaça. E sonhar seu sonho louco de liberdade radical…

Ele se foi numa tarde sem vento, com os fogos do ano novo a ignorar sua partida. Como não tinha documento, não podiam liberar o corpo para o velório na biblioteca. Mas ele é o poeta Mário Gomes, os amigos tiveram de explicar. Era a sua credencial, de mais não carecia para adentrar a posteridade. Lá no alto, a lua grávida dele não quis falar. Por detrás do Universo, Jesus tomou uma com Satanás. E mais além, na Praça do Ferreira, um viralata rodou, rodou e mijou um minuto de silêncio.
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Ricardo Kelmer 2015 – blogdokelmer.com

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À memória de Mário Ferreira Gomes (Fortaleza, 23.07.1947 – Fortaleza, 31.12.2014)

Foto preto e branco da montagem: Érika Fonseca. Obrigado a todos que conheceram o poeta e registraram sua vida por meio de relatos, fotos e vídeos. Obrigado a Érika Menezes, por me comunicar da morte de Mário.

REPRODUZIRAM ESTA CRÔNICA:

Blog do Eliomar – Blog do jornalista Eliomar de Lima, jan2015
Roberto Maciel – Blog do jornalista Roberto Maciel, jan2015
Jornal O Estado – Caderno Arte & Diversão, jan2015

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MÁRIO GOMES EM IMAGENS

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MarioGomesPoeta-15Mário recita seus poemas (por volta de 2000)

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MarioGomesPoeta,VilmaMatos2002-01Mário Gomes entrevistado na praça por Vilma Matos (2002)

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MarioGomesPoeta-18O poeta em seu nobre ofício na Praça do Ferreira

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MarioGomesPoeta-06O poeta na praça, já bem debilitado

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MarioGomesPoeta-07Com o livro de Márcio Catunda, Mário Gomes, poeta, santo e maldito

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MarioGomesPoeta-01Foto de Mika Holanda, vencedora de concurso da revista National Geographic, feita em set2014, cem dias antes de sua morte

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MarioGomesMuralNoVelorio-01Mural com fotos de Mário em seu velório

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MarioGomesPoeta-14Os muros da cidade celebram Mário Gomes (Praia de Iracema)

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MarioGomesPoetaLivros-01Ensaio biográfico de Márcio Catunda e cordel sobre Mário Gomes, de Rouxinol do Rinaré

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CRÔNICA

AoMestreVagabundoComCarinho-01a.

AO MESTRE VAGABUNDO, COM CARINHO
Ricardo Kelmer, 2015
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No fim dos anos 1980, em Fortaleza, corriam histórias divertidas sobre um tal Mário Gomes e sua poesia mirabolante. Elas provavelmente me alcançaram na faculdade ou em alguma mesa de bar. Eu não sabia se eram reais e nem se Mário existia de fato ou era um personagem da imaginação popular. Ou seja, ele para mim era uma lenda, como certamente o era para muitas pessoas.

Provavelmente cheguei a vê-lo em algum evento cultural ou em algum bar, mas não lembro. Tirando o tempo em que trabalhei como contínuo, em 1982-84, e ia quase todo dia ao centro, nunca fui muito assíduo da Praça do Ferreira, mas talvez o tenha visto lá alguma vez. Será que ele chegou a ir ao Badauê, um bar que eu tinha na Praia de Iracema em 1988-89?

Deixei Fortaleza em 2004. Anos depois, numa visita à cidade, surpreendi-me de saber que era ele aquela figura comovente que passeava no Dragão do Mar, bêbado e maltrapilho, discursando sozinho, e nos anos seguintes voltei a vê-lo por lá, deslizando solitário pelas noites. Em 2013-14, acompanhei à distância a piora de seu estado, mas sabia que pouco podia ser feito, por sua recusa em deixar as ruas e tratar da saúde.

Naquela tarde de 31 de dezembro, eu estava em casa, em São Paulo, quando fui avisado de sua morte por uma amiga. Eu sabia que dias antes ele fora encontrado desmaiado no Dragão, e que enfim o convenceram a ir para o hospital. Senti uma súbita tristeza e chorei. Tomei uma dose de uísque e homenageei o poeta, gargarejando um verso seu: Como era gostoso esse Mário Gomes. E fui buscar na internet o poema inteiro, para recitar. Putz… Bastaram poucos minutos de pesquisa para descobrir o imensamente quanto eu não sabia quem era Mário Gomes. Fiquei envergonhado da minha ignorância e ali mesmo comecei a catar tudo sobre ele, biografias, entrevistas, relatos de quem o via nas ruas, vídeos… Quanto mais descobria, mais me fascinavam sua história e sua arte. Perdi o ânimo para a festa do réveillon, a vontade era de estar em Fortaleza e ajudar nas preparações para o velório.

Descobri um grandioso personagem, a perfeita encarnação do arquétipo do louco malandro, presente em tantas culturas do mundo. Ao ser avesso a regras e limites e recusar-se a trabalhar, Mário personificou o vagabundo que todos, no fundo, temos vontade de ser. Flanar livre por aí pelas ruas, fazendo poesia e vivendo incríveis aventuras, aceitando o que lhe dessem como ajuda e sem importunar ninguém, era essa a sua bela filosofia. Desconfio que um dia sua vida virará filme, uma comédia dramática burlesca, e estreará no Cine São Luís, na Praça do Ferreira. Nada mais justo.

Durante sete dias me alimentei de Mário, quase não saí de casa, e ao fim vomitei a crônica Mário Gomes, o Poeta Viralata. Era o mínimo que eu tinha a fazer por sua memória, mas sei que meu texto não apagará minha sensação de débito com o poeta, por conhecê-lo somente após já ter ido embora. Quanto aos seus problemas mentais, talvez eles não lhe permitissem ter a exata consciência de sua condição, dos riscos de viver assim, da morte iminente na próxima esquina. Ou o contrário, talvez Mário soubesse mais que todos, quem pode ter certeza? Quem pode julgá-lo? E quem está livre de morrer na próxima esquina?

Não tenho a mesma coragem que Mário, mas busco todos os dias priorizar a minha liberdade e viver para a minha arte. Não durmo nas ruas, mas conheço a grande incerteza do tempo para quem decidiu ser escritor na vida. Mário Gomes se foi, e seu exemplo agora me fortalece em minha própria loucura. Obrigado, mestre vagabundo.

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MarioGomesPoeta2014-01a.

ANDARILHO
Ricardo Kelmer, 2015

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Eu sempre fui andarilho
Mas é assim que prefiro
Viver desse vento que eu sou
Tanto tempo que deixei a trilha
Que hoje nem a minha mochila
Sabe mais para onde vou

Todo dia quando acordo
Sopro no ar a minha sorte
E ganho tudo que preciso ter
O que não preciso, que o vento leve
Porque nunca se perde
Quem não tem o que perder

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O poema Andarilho integra a trilogia que fiz em homenagem a Mário Gomes, com as crônicas Mário Gomes, o poeta viralata e Ao mestre vagabundo, com carinho. O poema foi inspirado numa fala de Mário, durante a gravação de uma matéria da TV O Povo, de Fortaleza, sobre o Centro Cultural Dragão do Mar, em 2009. Tomei a liberdade de transcrever a fala em formato de poema e dei-lhe o título de Mora. Fiz isso para destacar o quanto Mário Gomes vivia a poesia, naturalmente, em sua vida cotidiana, mesmo tendo, nos últimos anos, deixado de escrever e publicar. Quando comparo os dois poemas, o dele se revela tão autêntico e o meu me soa tão artificial… Talvez por que Mário era poesia em estado bruto.

MORA
Mário Gomes

Eu sempre fui andarilho
Eu sempre andei do jeito que eu sou
Eu nunca mudei minha personalidade
Esse negócio de dizer que eu moro na rua é papo furado

Se por acaso eu tô por aí, com muito sono, embriagado
O que é que tem eu dormir?
Eu moro na rua? Por quê?
Eu moro na rua onde?
A gente mora dentro de si, rapaz
A gente mora dentro da cuba da gente
Eu moro em qualquer canto onde eu chegar
O que é morar?
Agora eu que te pergunto: o que quer dizer morar?

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MarioGomesPoeta-05aFoto de Raymundo Netto

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POEMAS DE MÁRIO GOMES
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SOU UM CACHORRO VIRA-LATA

Sou um cachorro vira-lata
Não tenho residência fixa
Não tenho responsabilidades
Não tenho dono.
Mas, também, não me falta sexo
Porque conheço lindas cadelas
De tipos diversos.

Onde chego procuro alimentos
Fumo na hora em que me é propício
Um cigarrinho com filtro ou sem.

Sou um cachorro fiel e valente
(Só na aparência)
Pois, sou um cachorro vira-lata.

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ANTROPOFAGISMO

Eu, sem ser antropófago,
já saboreei muita gente por aí.
Minhas preferências são os esbeltos
violônicos corpos femininos: a mulher.
Ah! Se a humanidade fosse toda antropófoga
como eu teria o prazer de ser devorado
em um banquete ou bacanal de lindas garotas
sexys, histéricas, eróticas
e eu, em cima de uma mesa qualquer totalmente nu.
Assado ou cozido.
Recheado de cebolas, tomates e farofas.
Enquanto Odete espetava um dos meus esverdeados olhos
que outrora foram profanos,
Judite arrancava minha língua e mastigava furiosamente.
Depois Maria Helena
pegava uma faquinha de mesa e cortava
delicadamente meu pênis ereto e dizia entre-dentes:
– Como é gostoso esse Mário Gomes.

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UMA VIOLENTA ORGIA UNIVERSAL

Olhei o sol.
Me irreitei
E larguei a mão na cara dele.
No qual ele ficou
Desacordado por 12 horas ininterruptas.
Dei um ponta-pé nos ovos da terra.
Afastei São Jorge
E mantive relações sexuais com a lua.
Pisoteei o cadáver de satanás
Numa esquina encontrei-me com Deus
E saímos abraçados: rindo e cantando…. Chovia

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METAMORFOSE

Ontem,
Ao meio-dia,
Comi um prato de lagartas
Passei a tarde defecando borboletas.

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AÇÃO GIGANTESCA

Beijei a boca da noite
E engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.
Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.
A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
Pensando que era a hora do Juízo Final.
Apertei, com as mãos, a terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade,
Voaram para o Além.
Os animais caíram do abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
E fui descansar na primeira nuvem
Que passava naquele dia
Em que o sol me olhava assustadoramente.
Fui dormir o sono da eternidade.
E me acordei mil anos depois,
Por detrás do Universo.

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A LOUCA E O MANEQUIM

A menina louca, maltrapilha e suja,
Parou em frente à vitrine da Casa Parente,
E estática olhava para um manequim feminino.
Olhou… olhou… pensou… pensou…
Dado momento perguntou:
“ta com fome, égua?”
Esta pergunta causou-me
Certa impressão, o poeta,
Que também já conversou com os manequins.
Eu dissera: “se fosse realmente mulher
Como és de gesso,
Te daria um prato de comida.”
Será que essa louca é
A personificação da poesia?

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QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer
Irão distribuir minhas camisas,
Minhas calças, minhas meias, meus sapatos.
As cuecas jogarão fora.
Ninguém usa cueca de defunto.
Irão vasculhar minha gaveta.
Vão encontrar muita poesia,
Documentos e documentários.
Só sei dizer
Que foi gostoso viver.
Sentir o amor e proteção de minha mãe.
De conhecer meus irmãos, meus amigos.
De ver de perto as mulheres.
Só posso deixar escrito:
“obrigado vida”.

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LIVROS PUBLICADOS

Lamentos do Ego (1981)
Aprendizes da Morte (1982, com Márcio Catunda e Cristiane Marinho)
Emoção Poética (1983)
Resquícios de uma Paisagem da Vida (1988)
Devaneios das Lamentações (1991, com Márcio Catunda)
Terno de Poesia (1997, com Alcides Pinto)
Uma Violenta Orgia Universal (1999, antologia poética)

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MarioGomesPoeta2010-01Mário Gomes na Casa Juvenal Galeno (Semana da Poesia, 2010)

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SAIBA MAIS

Mário Gomes Poeta – Blog em homenagem ao poeta, com poemas, depoimentos, vídeos e reprodução do livro Mário Gomes, poeta, santo e maldito, de Marcio Catunda

Entrevista com Mário Gomes – Vilma Matos entrevista o poeta para a publicação Cá Estamos Nós (2002)

Tributo ao Mário Gomes: Comendo lagartas e defecando Borboletas – Crônica de Raymundo Netto (2009)

A vida dentro dos sapatos – Artigo da jornalista Ethel de Paula, que tem Mário Gomes como tema de sua dissertação de mestrado (2014)

Procura-se Mário Gomes – Crônica de Raymundo Netto, escrita na noite da morte do poeta

Ricardo Guilherme fala de Mário Gomes – Belo e digno texto escrito pelo ator e amigo do poeta (2015)

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MarioGomesPoeta,AuribertoCavalcante-01Mário Gomes na praça, com o amigo Auriberto Cavalcante (2013)

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VÍDEOS

Poeta de rua – Programa Viva Fortaleza, da TV O Povo, entrevista Mário Gomes (2009)

Mário Gomes, o poeta da Praça do Ferreira – Bela homenagem ao poeta, com depoimentos. Direção de Zebaptista (2014)

Que Mário – Vídeo da Cia Pã de Teatro, com imagens de Mário Gomes na Praça do Ferreira

Repórter encontra Mário Gomes de madrugada – Matéria do programa sensacionalista Cidade 190 (2013)

Mário na Praça do Ferreira – Admirador encontra Mário Gomes e compra um cordel sobre sua vida (2013)

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LEIA NESTE BLOG

OSonhoDoVerdadeiroEu-01O sonho do verdadeiro eu – Entretanto, algo me dizia que na pauliceia eu poderia viver minha vida mais verdadeira, era só insistir

O mundo real da arte – O momento em que a magia do teatro se revela paradoxalmente em toda sua plenitude, expondo tanto sua maquiagem quanto seu avesso

O último blues de Lily – A lua nascendo no mar e os blues na voz de uma Lily que se rebola e se rebela e não ouve ninguém chamar

A celebração da putchéuris (Intocáveis Putz Band) – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

Pelas coxias de Guaramiranga – Entre uma peça e outra sempre dá tempo de cruzar uns olhares, nativos e forasteiros, e exercitar o roteiro das abordagens

Crimes de paixão – Detetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite

É o amor – E os outros zezés e lucianos por aí?

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Que triste. Ana Andréa Gadelha Danzicourt, Tubarão-SC – jan2015

02- Linda homenagem meu querido Ricardo Kelmer. Juliana Melo, Fortaleza-CE – jan2015

03- Muito legal…a eloquência da loucura… Adil Chaves, Fortaleza-CE – jan2015

04- Erika Menezes Obrigada, Ricardo Kelmer, por ter deixado eu ler seu texto. Bj.

05- Vou levar..Gracias.. Claudia Bahia, Fortaleza-CE – jan2015

06- Kelmer, você fala a língua dos homens. Parabéns! André Marinho, Fortaleza-CE – jan2015

07- Que texto massa Ricardo!! Cristiane Bastos, Fortaleza-CE – jan2015

08- Fizeste uma homenagem linda, me emocionei. Ana Andréa Gadelha Danzicourt, Tubarão-SC – jan2015

09- Genial! Thayssa Gabriela, Fortaleza-CE – jan2015

10- Só mesmo poetas pra entender e falar sobre poetas. Parabéns pelo texto Ricardo Kelmer, posso compartilhar? Márcia Rodrigues, Fortaleza-CE – jan2015

11- Excelente texto ,Ricardo. Fraterno abraço. Dunga Odakam, Fortaleza-CE – jan2015

12- Seus textos agarram a gente pelos olhos e nos puxa pela sonoridade das palavras bem ditas! Tenho gostado. Bjs. Ana Maria Costa Lima, Fortaleza-CE – jan2015

13- Nesse pré carnaval eu quero musicar um samba em homenagem ao bêbado e o vagabundo. Quem se habilita em escrever uma letra? O título já foi dado pelo Ricardo. André Marinho, Fortaleza-CE – jan2015

14- Perfeito. Willa Lima, Fortaleza-CE – jan2015

15- ei, tio! tá foda, a crônica! me arrepiei todo como o final. e a impressão que dá é que a crônica nasce Ricardo Kelmer e vai morrendo Mario Gomes. parabéns!! Levy Mota, Fortaleza-CE – jan2015

16- Oi Ricardo. Adorei a crônica. Eu o vi, várias vezes, pelo centro. Nem desconfiava que era o Poeta Mario Gomes até que soube de sua morte pelo jornal e a foto que ilustrava. O mundo ficou um pouco menos louco e, consequentemente, mais chato. Abraços. Fabiano Brilhante, Fortaleza-CE – jan2015

17- tá é lindo, esse texto/essa homenagem. Shirlene Holanda, São Paulo-SP – jan2015

18- É de arrepiar!! Linda homenagem… Izadora Castelo, Fortaleza-CE – jan2015

19- Acho que vou trocar essa dissertação pelos textos do Kelmer e do Ricardo Guilherme – e não quero troco rsrs Ai, ai, como é gostoso mesmo esse Mário Gomes devorando a gente ao avesso!!! rs. Ethel de Paula, Fortaleza-CE – jan2015

20- Lindíssimo!!!!! Emocionante!!!!! Envolvente!!!!! Zeina Costa, Vitória-ES – jan2015

21- O encontro dos poetas …… João Moreira, Fortaleza-CE – jan2015

22- Sempre que ia ao Dragão o observava e respeitava seu espaço…interessante era que ele não pedia nada. Ando por lá desde que foi inaugurado, mas de 2006 pra cá foi que soube que ele era poeta, desde então sempre que o via ia logo dizendo: ” óh ú poeta!” Nem sempre ele falava, mas sempre ele sorria… Tiago Bandeira, Fortaleza-CE – jan2015

23- Ei, eu tinha lido no Eliomar. 🙂 Me deu saudades! beijo. Verônica Guedes, Fortaleza-CE – jan2015

24- Cara, q texto lindo! Bela forma de homenagear o poeta. Que a sua poesia seja eterna! Mariela Mei, Campinas-SP – jan2015

25- massa kelmer! bela homenagem ao mais rico dos poetas de fustaleza! um dia chegamos lá… Marcos Maia, São Paulo-SP – jan2015

26- Que lindo Ricardo! Grande homenagem a um grande poeta. Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – jan2015

27- Lindo coMtexto! Sugiro que juntem todas as homenagens feitas à ele em versos, poemas e divagações e organizem em um livro. .. será delicioso bebê-las e devorá-las. Gratidão! Abçs. Maria Castro, Fortaleza-CE – jan2015

28- Muito bem elaborado. Parabéns, Ricardo! Rejane Porto Cult, Fortaleza-CE – jan2015

29- Muito bom! Alexandre Domene Ortiz, Fortaleza-CE – jan2015

30- chorei. parabens pelo texto. de uma delicadeza incrivel. Dimitri Bitu de Araújo, Fortaleza-CE – jan2015

31- Sempre com sensibilidade pra escrever sobre outras sensibilidades Ricardo Kelmer. Belissimo texto. Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – jan2015

32- Mt bom! Belíssimo e emocionante texto! A morte do poeta me comoveu bastante. Eu que também escrevo meus versos, de tão comovido escrevi também um poema em homenagem ao grande Mario Gomes. João Batista Júnior, Fortaleza-CE – jan2015

33- Adorei! Regina Zamora, São Paulo-SP – jan2015

34- Parabéns, Ricardo, bela homenagem! Antonio Martins, Maceió-AL – jan2015

35- Nobre homenagem Ricardo Kelmer! Parabéns pelo texto. Gizelle Gi, Fortaleza-CE – jan2015

36- legal, kelmer… um brinde ao poeta!…. abração! Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – jan2015

37- Boa. Olhai Christiane Glasner. Ruth Hernández Boscán, no se si comprenderas, pero dos de tus pasiones en una persona: poesia y psique. Jose Paulo Araujo, Caracas-Venezuela – jan2015

38- Quando as latas tinham poesia. Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – jan2015

39- Fantástica homenagem do meu amigo Ricardo Kelmer ao poeta Mário Gomes, que todos víamos pelo Dragão do Mar, embarcado em sua loucura, sempre elegantemente maltrapilho, chamava a atenção. Fica a letra, rastro no mundo e na história da cidade. Ronald de Paula, Fortaleza-CE – jan2015

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MarioGomesOPoetaViraLata-03a

 


Bom ver você assim, entusiasmado. Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos que você….

A mística daquelas camisas

14/06/2014

14jun2014

Eu, ainda menino, sem entender bem o que acontecia, já estava preso, para a vida inteira, à tal mística daquelas camisas

AMisticaDaquelasCamisas-01

A MÍSTICA DAQUELAS CAMISAS

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Eu era um menino de nove anos quando a magia daquelas camisas invadiu minha vida. Os radialistas falavam sobre a tal mística das camisas do Fortaleza Esporte Clube, mas eu ainda não podia entender o que era. No entanto, o azul-vermelho-e-branco já seduzia meus olhos de criança, e me fascinavam as histórias sobre as vitórias impossíveis. Corria o campeonato de 1974 e o aguerrido Leão do Pici mais uma vez realizava o improvável: vencia três vezes seguidas seu grande rival local e conquistava o bicampeonato estadual.

Pronto, eu estava fisgado, já não havia como voltar. Quando eu via o time entrando em campo, meu coração de criança batia tão forte, minha alma era tomada por um frisson tão grande… Naqueles momentos eu pressentia que algo muito importante estava acontecendo em minha vida. Hoje eu sei: através do Tricolor de Aço, a maravilhosa paixão pelo futebol entrava definitivamente em minha vida e eu, ainda menino, sem entender bem o que acontecia, já estava preso, para a vida inteira, à tal mística daquelas camisas.

O romantismo charmoso do uniforme, a torcida reconhecidamente mais vibrante e criativa, a garra histórica do time… Tudo me fascinava e eu não disfarçava o imenso orgulho que sentia. Torcer por um clube de futebol é levar sempre na alma o frescor da esperança, e no coração a chama de uma paixão imortal. Nesses longos anos de futebol, vivi todos os clichês dessa paixão: pulei de alegria, vibrei com cada gol, engoli o grito na garganta, ergui a bandeira para que todo o estádio visse, fui a carreatas, xinguei o centroavante, quebrei o radinho, chorei de tristeza e de felicidade…

Hoje, após tantos anos e emoções tantas, meu coração ainda se aperta quando vejo aquelas camisas entrarem em campo. Eu cresci, conheci outros lugares, vivi muita coisa. Aprendi o jogo duro da vida, treinei meu coração para suportar emoções e até esconder sentimentos. E sei que os tempos são outros, o futebol mudou e parece não mais haver espaço para certos romantismos… Mas não tem jeito. Posso até ficar algum tempo afastado ‒ porém, quando os primeiros jogadores surgem na saída do túnel a velha magia retorna com toda a força, invade minha alma e é como se fosse a primeira vez: a pele se arrepia… os olhos marejam… e em meu peito volta a bater o coração daquele menino que olhava para tudo encantado. O mesmo coração tricolor que bate no peito de tantos meninos e meninas que hoje, encantados, são também seduzidos por ela, a mística daquelas camisas.
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Ricardo Kelmer 1999 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

> Aquelas camisas mp3 – Ouça e baixe a versão áudio da crônica, na interpretação do autor
> Site oficial do Fortaleza Esporte Clube
> Fortaleza Esporte Clube na Wikipedia

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FEC1974-02O time bicampeão de 1974, que me fez ser tricolor. O artilheiro do campeonato foi Beijoca, com 26 gols.

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O HINO O primeiro hino do Fortaleza foi composto em 1959, por José Jatahy. Em 1967 é composto o hino oficial pelo poeta Jackson de Carvalho, sendo sua gravação em outubro do mesmo ano, tendo como arranjador o maestro Manuel Ferreira e como intérprete o cantor Manoel Paiva. Em entrevista à revista Veja, o cantor e compositor Chico Buarque afirma que considera o hino do Fortaleza o segundo hino mais belo do futebol brasileiro, sendo o primeiro o do seu clube, o Fluminense.

Fortaleza, clube de glória e tradição
Fortaleza, quantas vezes campeão
Fortaleza, querido idolatrado
Estás sempre guardado
Dentro do meu coração.

Altivo, tua vida sempre foi um marco
Tua glória é lutar e vencer também
Salve o Tricolor de Aço
No campo, provaste mesmo que não tens rival
Tua turma valente é sensacional
Salve o Tricolor de aço

Soberbo, tua fibra representa um norte
Combativo, aguerrido, vibrante e forte
Sem demonstrar cansaço
Receba um sincero abraço da torcida tão leal
Meu Tricolor de Aço

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> Hino oficial do Fortaleza Esporte Clube
> Hino oficial (Fagner)
> Hino oficial, versão lírica (Ayla Maria e Raimundo Arraes)
> Hino oficial, versão forró (Neo Pi Neo)
> Hino oficial, versão rock (Voz: Alexandre Carvalho. Instrumentos: André Carvalho)
> Hino oficial em francês (Voz: Giselle Café)

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OImprovavel,OImpossivelEOInacreditavel-01aO improvável, o impossível e o inacreditável
Numa hora dessa, como ainda ter forças pra superar um rival que virou o jogo no fim com um jogador a menos, que já conseguiu o impossível? (Leia a crônica e veja o vídeo)

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Loucos de Futebol
documentário de Halder Gomes

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LEIA NESTE BLOG

FutebolArtigoFeminino-01Futebol artigo feminino – Cá pra nós, já reparou como brasileira fica ainda mais linda em dia de jogo da seleção?

O menino e o feminino misterioso – Esse instante numinoso em que o Feminino Sagrado mostrou-se pra mim, sob a meia-luz de seu imenso mistério

Religião no esporte é gol contra – Se nada for feito, a religião invadirá os campos e quadras e o esporte virará uma cruzada entre os jogadores e seus deuses

Discutindo a Copa e a relaçãoSe você deseja minimizar os efeitos sobre sua relação, é bom saber algumas coisas sobre essa rival invencível

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elalivro10Seja Leitor Vip e ganhe:

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AMisticaDaquelasCamisas-01a


Blues de luz neon (novo clipe)

15/01/2014

15jan2014

A música Blues de Luz Neon ganhou novo clipe

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A música Blues de Luz Neon, que integra a trilha sonora do romance O Irresistível Charme da Insanidade, ganhou um novo clipe. A música é de autoria minha e de meu parceirim Joaquim Ernesto, e a interpretação é de Lucio Ricardo, um dos melhores cantores que conheço. A letra foi criada em 2001, e a melodia em 2004, assim como a gravação. A edição do vídeo, bem caseiro por sinal, é deste autor que vos fala. Quem sabe um dia farão um clipe que preste.

No romance, um trecho da letra aparece no capítulo 7, quando Luca está numa puta fossa por causa de Isadora, que o abandonou. Ele chega em casa bêbado, deita no sofá com o violão, serve uma dose de uísque e dedilha uns acordes da música. A versão em inglês desse romance, com tradução de Téo Lorent, será publicada em 2014.
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BLUES DE LUZ NEON
(Ricardo Kelmer e Joaquim Ernesto)

Quando esse blues
Tocar no sonho do seu coração
Devagar você vai despertar
Na madrugada
Bem de mansinho, assim
Vai lembrar de mim
Abra a janela do quarto
Lá fora no meio da rua brilha um letreiro
O luminoso do nosso amor é vermelho
Então sinta, viaje
Voe nesse tom
Foi pra você, meu bem, que eu compus
Esse blues de luz neon
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Ricardo Kelmer 2014 – blogdokelmer.com

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> Para ouvir e baixar em mp3

> A história da música Blues de Luz Neon

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ICI2011Capa-01dO Irresistível Charme da Insanidade
Ricardo Kelmer, Editora Arte Paubrasil, 2011

Um músico obcecado pelo controle da vida. Uma viajante taoísta em busca da reencarnação de seu mestre-amante do século 16. O amor que desafia a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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> Mais músicas kelméricas

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01- Adoro esta música! Lígia Eloy, Lisboa-Portugal – fev2011

02- virei sua leitorinha e sua ouvintezinha rsrsrs. Renata Regina, São Paulo-SP – fev2011

03- A musica é tão gostosa e tão fascinante quanto o livro. Parabéns Kelmer por tanta criatividade! Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – fev2011

04- Blues de Luz Neon é bárbaro, muy sensual. A tua fêmea de dentro não é moleza não – uma demônia linda, ninfeta, erótica, sexy, sedutora e muuuuy perigosa. Com este tipo de demônia quem é que pode? Até o diabo enlouquece. 😉 Patrícia Lobo, Salvador-BA – fev2011


Cabaré Soçaite Fortaleza out2013 – Fotos e vídeo

28/10/2013

28out2013

CabareSocaite201310-570X.
A 14a edição do Cabaré Soçaite em Fortaleza aconteceu em 05.10.13, na Órbita, na Praia de Iracema. Agora eu tenho um sócio, meu sobrinho Levy Mota (ator e fotógrafo), que antes trabalhou na festa como filmador e assistente de produção. Como a festa cresceu e exige bastante dedicação, e eu tenho a carreira literária e os shows para cuidar, eu precisaria mesmo ter um sócio, caso contrário não ia dar conta de tudo.

A festa foi ótima e a quantidade de pessoas visualmente produzidas foi recorde. Como os prêmios do concurso Musa e Muso do Cabaré estão cada vez melhores, as mulheres e os homens capricharam ainda mais nos figurinos, o que fez a festa ficar mais bonita.

O DJ dessa vez foram dois: Cé da Silva (Cesinha) e Erick Amorim, que estrearam no Cabaré, misturando muito bem suas sugestões musicais à trilha oficial. O VJ Marcio Maahs comandou o telão e as luzes. A banda foi a Diamante Cor de Rosa, fazendo um show ainda melhor que o de 2011. O grupo U´Pabo! participou novamente com dois números coreografados, muito sensuais. Fadinha, sempre malvada, deu seu show à parte, com dois números – e o chicotinho, é claro. Os vencedores do concurso Musa e Muso do Cabaré ganharam um fim de semana na Praia das Fontes, em Beberibe-CE (Hotel das Falésias), crédito na Clínica Estética Corpo em Evidência e nos bares parceiros, Passe Livre Órbita com validade de 30 dias e ingressos para a próxima edição.

As pessoas que foram com visual sensual ou fantasia  de qualquer tema tiveram desconto no ingresso. No estúdio, Rildson Valmont fotografou para o concurso Foto Curtição (as fotos mais curtidas ganharam prêmios como viagem para Jericoacoara (Pousada Casa do Ângelo), ensaio fotográfico com Rildson Valmont, vale-compra na Sex Shop Seducción Art, livro O Irresistível Charme da Insanidade, Passe Livre Órbita com validade de 30 dias e ingressos para a próxima edição.

Tivemos também a lojinha da festa (valeu, Raissa Castro), com acessórios e camisetas. Chiquinho Jr fotografou a festa e Victor Augusto filmou. Levy Mota (fotos) e eu (filmagem) contribuímos. Obrigado a todos!

A próxima edição em Fortaleza deverá ser em mar2014, novamente na Órbita. E a 3a edição paulistana ainda não tem data pra acontecer. Se você deseja sugerir um local, entre em contato.

> Fotos e vídeos de outras edições da festa

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PARCEIROS DESTA EDIÇÃO:

Pousada Casa do Ângelo (Jericoacoara-CE)
Hotel das Falésias (Praia das Fontes-CE)
Bar Butiquim (Fortaleza-CE)

Bar do Papai (Fortaleza-CE)
Sex Shop Seducción Art (Fortaleza-CE)
Clínica Estética Corpo em Evidência (Fortaleza-CE)

Facebook-01FACEBOOK – Página oficial
– Arte erótica, sorteio de livros, DVDs e ingressos

TWITTER:  @cabaresocaite

MAIS FOTOS E VÍDEOS E A HISTÓRIA DA FESTA

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VÍDEO OFICIAL

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FOTOS OFICIAIS
Francisco Junior. Clique pra ampliar.

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CabareSocaite201310-154X
O Mestre de Cerimônias Korsário Kelmer e sua irresistível
assistente de Palco, Fadinha

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CabareSocaite201310-255XBanda Diamante Cor de Rosa de volta ao Cabaré Soçaite com seu contagioso mix de pop, rock, brega e clássicos infantis.

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CabareSocaite201310-256XClaudine Albuquerque, pro deleite de nossos ouvidos e olhos.

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CabareSocaite201310-152X
Trio Caçapa Certa. Como prestar atenção nas bolas?

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CabareSocaite201310-119X
Estúdio da festa, uma atração de pernas à parte.

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CabareSocaite201310-111XTrio Encarnado. Apoio: Pernil Sadia.

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CabareSocaite201310-186X
Enquanto isso, ela estremece a passarela do balcão…

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CabareSocaite201310-341X
Palco liberado pra você brilhar. Quarteto As Deslumbrosas.

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CabareSocaite201310-320X
Palco liberado pra você brilhar. Mas não precisava tanto…

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CabareSocaite201310-339X
Palco liberado pra você brilhar. E a plateia babar.

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CabareSocaite201310-333XOlhares admirados, dinheiro na meia… Seja você a diva da noite.

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CabareSocaite201310-343XPalco liberado pra você viver sua fantasia de pobre star.

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CabareSocaite201310-122X
Cuidado Chapeuzinho, esse lobo é um chicoteador de mocinhas…

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CabareSocaite201310-113XAs divas do estúdio, aiai…

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CabareSocaite201310-101X
O irresistível charme das porteiras do Cabaré.

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CabareSocaite201310-102XCorsário Kelmer e os DJs Cé da Silva e Erick Amorim

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CabareSocaite201310-577X
Concurso Musa do Cabaré. Uma delas ganhará um fim de semana no Hotel das Falésias (Praia das Fontes-CE), entre outros prêmios.

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CabareSocaite201310-550X
Concurso Musa do Cabaré. As mulheres mais desejadas da festa.

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CabareSocaite201310-575X
Concurso Musa do Cabaré. A dança da campeã, We are the champions, my friend…

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CabareSocaite201310-580X
Júri dos concursos Musa e Muso do Cabaré. Missão difícil.

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CabareSocaite201310-611X
Concurso Muso do Cabaré. Um deles ganhará um fim de semana no Hotel das Falésias (Praia das Fontes-CE), entre outros prêmios.

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CabareSocaite201310-609X
Concurso Muso do Cabaré. Os finalistas na hora da decisão.

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CabareSocaite201310-629X
Concurso Muso do Cabaré. O Muso feliz da vida.



CabareSocaite201310-420XGrupo U´Pabo! homenageando o filme Burlesque.

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CabareSocaite201310-720X
Fadinha e sua doce mania de maltratar os casais.

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.MAIS FOTOS

      
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CONCURSO FOTO CURTIÇÃO
Fotos oficiais no estúdio da festa: Rildson Valmont
Prêmios para as fotos mais curtidas na página oficial no Facebook: Fim de semana em Jericoacoara (Pousada Casa do Ângelo) + crédito na Clínica Estética Corpo em Evidência + livro O Irresistível Charme da Insanidade + crédito nos bares parceiros + Passe Livre Órbita (com acomp, validade 30 dias) + ingressos para a próxima edição + vale-compra na Sex Shop Seducción Art

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TELÃO LITERÁRIO
O telão da festa exibe trechos de filmes, vídeos das edições anteriores e também poemas sobre erotismo e paixão.

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CabareSocaiteTelaoDanielPerroniRattoBar-01

BAR
Daniel Perroni Ratto

Quero a gota do teu suor
Sua saliva
Quero o que há de melhor
Sua malícia!

Ela quer a mão no corpo
o beijo quente
o estado lascivo
que embriaga o ego.

Sua pele doce
Queima como uma bala!
Faz estrago
no meu coração.

Me diga então
o que fazer
pra sair desse chão!

Um bar, o barulho fechado
aquele encontro desencontrado
me deixou sem ação.

A intenção que ela veste
sedenta de sabores
Senta, despe e mete!

> mais sobre o autor:
https://www.facebook.com/danielratto

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OGozoDaLingua-1b.

O GOZO DA LÍNGUA
Ricardo Kelmer

Pela maciez sonora dos fonemas
De formas acetinadas
Que a língua deslize

As arestas silábicas
Que a pronúncia obstaculizam
A língua sensibilize

E no subentende-se das reticências
Onde a linguagem se insinua
Que a língua dance nua

E mexa-se, revire-se, contorça-se
Lambendo-se ao prazer do ritmo
E no sabor do som deleitoso
Salive de gozo em êxtase linguístico

Ao silenciar dos versos que findam
Que descanse a língua de sua lida
E, enfim, adormeça, desmaiada e lânguida
Desmilinguida

> sobre Ricardo Kelmer

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MAIS FOTOS E VÍDEOS E A HISTÓRIA DA FESTA

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SEXUALIDADE FEMININA NESTE BLOG

O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou

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A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…

O mistério da cearense pornô da California – Uma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e, entre uma e outra orgia, luta pela liberação feminina

Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino – Livro de contos e crônicas sobre a mulher

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi– A mais bela e safada história de amor jamais contada

As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz

Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

O último homem do mundoO sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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DICA DE LIVRO

IFTCapa-04aIndecências para o fim de tarde
Ricardo Kelmer , contos eróticos – Arte Paubrasil

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

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 COMENTÁRIOS
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 01- Claudine Albuquerque usando corset de aço da Metal Fatality. Alinne Madelon, Fortaleza-CE – out2013

02- Só vim me manifestar agora, maaaas… Só pra dizer que, pela quarta vez, adorei a festa, me diverti muuuito, dancei pacas, sensualizei horrooooores com o boy -haha- reencontrei pessoas que adoro, enfim! Ricardo Kelmer, cada vez a festa fica melhor! P.s.: – tem como não amar a Diamante, hein?- Kaliza Holanda, Fortaleza-CE – out2013

03- parabéns ao fotógrafo!!! Bruna Braun, Fortaleza-CE – out2013

04- Festa deliciosaaaaaaaaaaaaaa!!!! Parabéns a toda produção mais uma vez… Perfeitooooo!! Agora um pouco de Sensualidade… hehehehhee SQN! Tiago Coelho, Fortaleza-CE – out2013

05- Ricardo Kelmer, mais uma vez obrigada pela a linda festa! Estive lá sim, apesar de não ter falado com vc, pois vc estava bem ocupado. Passamos pouco tempo lá, mais valeu muito, sabe como é né, o clima esquentou, fomos fazer festa em outro lugar. kkkkkk Afinal, vamos pro Cabaré para ativar as nossas fantasias! rsrsrsrs Bjos e até a próxima edição! Renata Kelly, Fortaleza-CE – out2013

06- Iradíssimaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa – QUERO MAIS!!! Séforah Sucesso Norões, Fortaleza-CE – out2013

07- Adorei o Premio da melhor fantasia e a festa tbm foi maravilhosa, O vídeo e as fotos saíram tudo lindo… Andreza Rodrigues, Fortaleza-CE – abr2014

 


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