O dia em que entendi Belchior

30abr2017

Ele já não tinha metas, estava finalmente livre para deixar a roda-viva que nos entorpece diariamente com a sedução das falsas necessidades

O DIA EM QUE ENTENDI BELCHIOR

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Um dia, pelos idos de 1984, meu velho amigo Alberto Perdigão me apresentou certa música de Belchior. Eu tinha vinte anos e já amava o bardo bigodudo, e subia o som no último volume quando o rádio tocava Coração Selvagem. Mas a música que Alberto me mostrou era outra, chamava-se Ypê, do disco Objeto Direto, de 1980. Lembro que ela me soou estranhamente bela, e em suas palavras parecia reluzir algo precioso, mas que eu sentia ser incapaz de alcançar.

Trinta e dois anos depois, em 2016, enquanto fazia pesquisas para o livro Para Belchior com Amor, topei com Ypê novamente, dessa vez na internet. Não a reconheci pelo título. Pus para tocar no You Tube e… imediatamente lembrei daquele dia. E para lá fui transportado. De repente eu era outra vez aquele eu, o garoto bobo e deslumbrado com a vida que se abre em horizontes caleidoscópicos de infinitas possibilidades. O rio da vida não volta, é verdade, mas o continuum de suas águas é um mantra que tem o poder de nos levar para tempos que jamais se foram.

Como traduzir a íntima e poderosa revelação que Ypê agora me trazia? De repente eu era o mesmo garoto de trinta anos antes, porque na verdade nunca deixei de sê-lo, mas ao mesmo tempo era outro porque agora eu simplesmente… me dava conta disso. Eu envelheci, mas continuo naquele dia, ouvindo meu amigo a cantarolar Ypê, a minha ignorância juvenil fascinada com as reluzentes novidades da vida. Reescutar esta música me pôs novamente frente à enigmática dançarina de pedra e me trouxe dias de metafísico assombro, em que o que fui e o que serei se harmonizaram no único tempo possível, o eu sou.

Após dias mergulhado em Ypê, voltei à tona e contemplei a obra de Belchior com um novo olhar. E sua trajetória floriu de um diferente significado. Sabe, eu entendi Belchior. Entendi como se entende algo ridiculamente óbvio. Sim, são bem visíveis a beleza e a sabedoria contidas em suas canções, mas, putz, ninguém cria algo como Ypê sem antes alcançar a verdade que habita, discreta, o fundo escuro do rio. Ninguém escreve um poema como esse, tão filosoficamente profundo e exato, tão misteriosamente simples, sem ter chegado à harmonia fundamental, aquela que transcende o tempo e os opostos, e nos faz ser um com o eus que somos e tudo que há. Belchior tinha apenas 34 anos, tão moço… Mas ali o poeta já havia cruzado o portal. E somente agora, tanto tempo depois, eu o entendia.

Feito o bodisatva da filosofia oriental, o poeta iluminou-se e ficou mais um tempo entre nós. E depois? Talvez Belchior tenha percebido que nada mais de relevante tinha para falar. Sua arte já o havia dito, e continua a dizer. Ele já não tinha metas, estava finalmente livre para deixar a roda-viva que nos entorpece diariamente com a sedução das falsas necessidades. E então o poeta se foi.

Para onde? Foi-se. Por aí. Algum tempo-lugar onde agora ele será o que sempre foi: um lindo ipê que apenasmente flora, apenso ao pé da serra.

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Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

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YPÊ
Belchior

Contemplo o rio que corre parado
E a dançarina de pedra que evolui
Completamente, sem metas, sentado
Não tenho sido, eu sou, não serei, nem fui
A mente quer ser, mas querendo, erra (a gente quer ter, mas querendo, era)
Pois só sem desejos é que se vive o agora
Vede: o pé do ypê apenasmente flora
Revolucionariamente apenso ao pé da serra

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Belchior – Ypê
gravação original, álbum Objeto Direto (1980)

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parabelchiorcomamorcapa3d-01Para Belchior com Amor

Neste livro, organizado pelo escritor Ricardo Kelmer, o poeta, cantor e compositor cearense Belchior é homenageado por catorze autores conterrâneos, que escreveram contos, crônicas e cartas inspirados em suas músicas, as mesmas que tanto encantaram os mais velhos e continuam a encantar os mais novos. Literatura para celebrar um notável literato. Ele que soube, como poucos, harmonizar música e poesia, e que fez de sua obra e sua vida um intenso canto de amor, liberdade, questionamento e rebeldia. Salve Belchior!

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2 Responses to O dia em que entendi Belchior

  1. Regina Lúcia Gomes de Sales disse:

    Parabenizo-te pelo amor envolvido em casa palavra dedicado a esse cantor e poeta que aprendi a amar desde 1977,estou radiante por ter alguém que expressa todo meu sentimento .Obrigada por você existir e gostar de Belchior.Bjs e sucessos.Regina Lucia

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  2. Aline Santos disse:

    E eu, nascida em 1988, estou aqui chorando com essa maravilha. A lembrança é de uma melodia e uma letra lindas mas “triste”, para o coração daquela criança nos idos anos 90. Muito obrigada pela redescoberta! :’-)

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