Jesus e a pecadora do pé de goiaba

13/12/2018

JESUS E A PECADORA DO PÉ DE GOIABA

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Eis que naquela tarde, a caminho de Cafarnaum, Jesus passou embaixo de um pé de goiaba e viu uma mulher lá em cima.

‒ Ei, mulher, o que tu tá fazendo trepada aí nesse pé de goiaba?

‒ Senhor Jesus!!! Não acredito!

‒ Eu mesmo. Em chaga e osso.

‒ Senhor, o Senhor é tão lindo…

‒ Te orienta, doidinha. É pecado imaginar conjunções carnais com o Filho do Homem.

‒ Eu vim me matar, Senhor.

‒ Nenhum motivo justifica tirar a vida que o bondoso Pai Celestial nos deu. Principalmente trepada num pé de goiaba.

‒ É que eu descobri algo terrível, Senhor. Eu sou a cara da Regina Duarte misturada com a Janaína Paschoal.

‒ Hummm…. De fato, é um bom motivo.

‒ O Senhor é tão lindo…

‒ Como é teu nome, pecadora?

‒ Damares, Senhor.

‒ Eu perguntei o nome, não o apelido.

‒ É Damares mesmo, Senhor.

‒ O caso é grave. Pera que eu vou subir aí.

‒ Não! O Senhor não sabe trepar em pé de goiaba!

‒ Que sabes tu das minhas capacidades trepadeiras, ô atordoada?

‒ Tenho medo do Senhor se machucar, já lhe machucaram tanto na cruz…

‒ Criatura, tu tá duvidando dos meus poderes? Por acaso não lestes na Bíblia que eu amaldiçoei uma figueira e a desgraçada nunca mais deu frutos? Se eu quiser, faço esse pé de goiaba dar açaí com granola.

‒ Açaí, Senhor?

‒ Muito mais lucrativo. Já viu o tanto de loja de açaí que tem por aí? Só perde pra farmácia. Aliás, lá em Fortaleza fizeram uma de três andares, parece uma igreja, é o fim do mundo.

‒ O Senhor vai subir de chinelo?

‒ De chinelo é fácil. Difícil é subir com essa túnica. Se minhas partes ficarem à mostra, tu olha pro outro lado, viu?

‒ Não posso garantir, Senhor…

‒ Pronto, cheguei. Afasta mais pra lá, pecadora.

‒ Senhor, e se o galho não aguentar?

‒ Mizifia vai rebentar a buzunfa no chão.

‒ E o Senhor?

‒ Eu saio voando, besta.

‒ Ó, Senhor, me leva com o Senhor pelos céus…

‒ Tu só pode ter fumado maconha estragada. Bora logo resolver essa parada, antes que algum apóstolo passe e me veja aqui do teu lado, ai, que vergonha.

‒ O Senhor é solteiro?

‒ Isso não vem ao caso. Promete que nunca mais vai tentar se matar?

‒ Prometo, Senhor.

‒ Ótimo. Agora, reze duzentos Pai Nosso.

‒ Misericórdia, Senhor.

‒ E quinhentas Ave Maria.

‒ Mas eu sou evangélica, Senhor.

‒ Então, mil Ave Maria. E só desce quando terminar.

‒ O que o Senhor vai fazer depois daqui, Senhor?

‒ Por acaso é da tua conta? Ah, mais uma coisa. Tu votou em quem?

‒ Bolsonaro, Senhor.

‒ Aumenta pra cinco mil Pai Nosso e dez mil Ave Maria. Pendurada de cabeça pra baixo.

‒ Senhor…

‒ O que é agora?

‒ Posso lhe pedir uma coisa, Senhor?

‒ Pede logo que tem um bicho da goiaba se aproximando e eu tenho pavor dessas coisas gosmentas da criação. Que nem tu.

‒ Senhor, meu sonho é ser ministra.

‒ Oi?

‒ Sim, Senhor. Do Ministério dos Direitos Humanos, da Mulher e da Família.

‒ Tu tá brincando…

‒ Falo sério, Senhor.

‒ Tô passado em Cristo.

‒ O Brasil precisa de mim, Senhor.

‒ Isso é impossível, criatura sem noção. Tu não tem um pingo do perfil necessário para o cargo.

‒ Mas, Senhor, para o Senhor, nada é impossível.

‒ Com exceção disso. Faz outro pedido, coisa gosmenta. E não precisa falar Senhor em todas as frases, que mania horrível.

‒ Bem… então…

‒ Não prefere ser motorista do Bolsonaro? Ganha bem mais.

‒ Eu quero arrumar um varão.

‒ Um varão?

‒ Bonito, alto, sensual…

‒ Deixa eu ver…

‒ … que nem o Senhor…

‒ Hummm…

‒ … temente a Deus, fogoso… só pra mim.

‒ Como é mesmo o nome?

‒ O nome do varão?

‒ Não. Do Ministério que tu quer.

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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VEJA O VÍDEO do depoimento da pastora Damares:

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A boa literatura nem sempre está nas livrarias

19/11/2018

A BOA LITERATURA NEM SEMPRE ESTÁ NAS LIVRARIAS

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Ontem, em São Paulo, aconteceu uma coisa tão incrível, que se algum vidente houvesse previsto, eu diria que ele devia mudar de profissão, senão ia morrer de fome.

Foi na entrega do Prêmio Jabuti 2018, a mais importante premiação da literatura brasileira. Concorriam 10 livros em cada uma das 18 categorias. Gente famosa, como Jô Soares, Fernanda Torres e Drauzio Varella, e ilustres desconhecidos. Os primeiros colocados de cada categoria ganham, além da estatueta, R$ 5 mil em dinheiro. Não é muita grana, mas o que vale mesmo é o reconhecimento e as portas que se abrem. No entanto, há o prêmio Livro do Ano, cujo vencedor recebe R$ 100 mil. Aí, sim.

Sabe quem venceu na categoria Poesia? Foi um cearense de Varjota, Mailson Furtado, com o livro “à cidade”, que ele mesmo editou e publicou, pagando a modesta tiragem de trezentos exemplares do próprio bolso. Uma obra independente, sem vínculo com qualquer editora. Mailson concorreu com autores de grandes, médias e pequenas editoras, e até com outro autor cearense, Íris Cavalcante, que concorreu com o livro “Vento do oitavo andar”, publicado pela Premius Editora, mas, provavelmente, custeado também pela própria autora. Dois autores cearenses finalistas do prêmio Jabuti, que pagaram para publicar seus livros. É algo que merece comemoração.

Mas peraí que ainda não terminou. Sabe que livro foi escolhido o Livro do Ano, entre os vencedores das categorias? Adivinha… Exatamente, o livro de Mailson, “à cidade”. Uau, isso é realmente muito incrível! Um jovem autor de 27 anos, desconhecido do grande público, do interior do Ceará, que publicou seu livro fora do circuito comercial das editoras, que recebeu muitos nãos, que não tem seu livro nas estantes das livrarias do país…

O feito de Mailson entra para a história da literatura brasileira. E serve de incentivo aos autores que vivem de receber negativas e de mendigar um espacinho na mídia para divulgar seu trabalho. Neste momento, as editoras que não aceitaram publicar o livro de Mailson devem estar muito surpresas e arrependidas. Que sirva de lição.

Parabéns, Mailson e Íris, estamos orgulhosos de vocês. E parabéns a todos os autores que, mesmo com as zilhões de dificuldades, mesmo convivendo diariamente com o descaso e todos os nãos, persistem no caminho de sua arte. E a você, que me lê agora, fique atento: os melhores livros podem não estar nas livrarias. Às vezes eles nos chegam de surpresa, na rua, nos bares, naquele sebo escondidinho, num estande de feira no mercado…

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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Lugar de literatura é solta pela cidade – Com esses livretos, consigo que minha arte frequente as mesas dos bares, integrando-se à dinâmica boêmia da cidade e atraindo novos leitores

O dilema do escritor seboso – Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras

O encontrão marcado – Fechei o livro, fui até a janela e olhei pro mundo lá fora. E disse baixinho, com a leveza que só as grandes revelações permitem: tenho que ser escritor

Pesadelos do além – O pior pesadelo para um escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado

Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

Kelmer no Toma Lá Dá Cá – Aqueles aloprados moradores do condomínio Jambalaya descobriram meu livro maldito

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O menino que não sabia odiar

22/10/2018

O MENINO QUE NÃO SABIA ODIAR

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A irmã preparando um café na cozinha e a tia brincando com o sobrinho na sala. O menino, oito anos, entregou-lhe um boneco e pediu para ela segurá-lo sobre a mesa. Ele fez um gesto com a mão, imitando um revólver, e disse: Faz de conta que tu é o PT, tia, e eu vou te matar. Ela ficou impressionada e perguntou por que ele queria matar o Partido dos Trabalhadores. Porque ele é mau, o sobrinho respondeu, roubou nosso dinheiro. Enquanto a tia procurava algo para dizer, o menino encheu o boneco de tiros, Morre, PT, morre, pou, pou, pou!

Quem te disse isso?, a tia quis saber. Respondeu o menino: Foi minha avó. E tome mais tiros no boneco. A tia, então, afastou o boneco e disse, sorrindo, que gostava do PT. O menino parou de brincar e olhou sério para ela: Não adianta defender o PT pra mim, tia, eu odeio ele, odeio!

O menino parecia desafiar a tia, os olhos franzidos, os punhos fechados, a respiração intensa, quase bufando. A tia apenas observava, calma, mas preocupada com a reação raivosa do sobrinho, que recolheu o boneco, decretou que a brincadeira estava encerrada e deixou-a sozinha na sala.

Não é normal uma criança sentir ódio dessa maneira, ainda mais sendo ódio político, ela falou depois para a irmã, enquanto tomavam café. A irmã concordava, admitindo ter falhado por omissão. Acho que você deve conversar com a mamãe, e com ele também.

Foi o que a irmã fez. A partir daí, a avó parou de falar sobre política com o neto, e a mãe teve uma paciente conversa com ele. Resultado: o menino deixou de odiar o PT. E, após as orações antes de dormir, incluiu um “ele não, amém”.

Três dias depois, como a mãe estava ocupada, ele foi ao quarto da avó, para rezar com ela. Os dois sentados na cama, Ave Maria, Pai Nosso, e no fim o menino, mãozinhas juntas, perguntou, com toda a sua inocência, se podia terminar com “ele não”. A avó quase cai da cama do susto que levou. Era só o que faltava, a filha ensinando ao seu neto, seu neto, aquelas frases idiotas que os malditos comunistas gritavam nas ruas contra seu candidato, uma pessoa do bem, honesta, que iria acabar com a violência no país, um grande defensor da família brasileira. O neto esperando pela resposta.

Pode, respondeu a avó, mas eu não vou dizer amém. O menino arregalou os olhos, surpreso. Por quê, vó? Porque não digo. Mas, vó, se a gente não diz amém… Olha, interrompeu a avó, é melhor você ir rezar com sua mãe, vá.

O menino obedeceu e deixou o quarto, entristecido. Nessa noite, a avó não dormiu bem. Nem a mãe. E nem o menino. Aliás, o menino deixou também de fazer o tal gesto de revólver com a mão, que ele aprendera vendo na tevê o candidato da avó. É porque é muito feio uma criança fazer isso, ele explicou para a tia, quando ela retornou lá dias depois. Agora, eu faço assim, ó, e fez, com as mãos juntas, um coração. Depois, concluiu: Acho que eu não sei odiar, tia.

A tia o abraçou, comovida. Também acho muito feio aquele gesto, ela falou, disfarçando uma lágrima que escapulia do olho. Pela janela da sala, viu que começava a anoitecer. Um arrepio lhe sacudiu o corpo, e ela sentiu medo. Quanto tempo duraria aquela noite?

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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OProtestoDaBabaNegra-02a

O protesto da babá negra – Talvez ela saiba que quando um governo tem como objetivo a equidade social e a redistribuição da riqueza do país, automaticamente atrai o ódio das elites econômicas, que lutarão para manter seus privilégios

Sobre lutas, sonhos e a grande farsa – Para quem ainda não percebeu, é isso mesmo o que todos somos, meros atores no grande teatro da existência

Golpe de mestre à brasileira – O processo seria custoso e traumático, e provocaria séria desestabilização na democracia, mas melhor isso que suportar mais um governo de esquerda no Brasil

O socialista crucificado – Se esses cristãos vivessem naquela época, teriam batido panela contra o bandido Jesus e aplaudido sua crucificação

A foto repugnante e o sonho que não pode ser preso – A foto que resume a baixeza moral dos fascistas que querem a morte de Lula

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Eu, a democracia e o ódio dos meus pais

09/10/2018

09out2018

Infelizmente, meus pais foram também seduzidos pelas ideias nazifascistas e propagam esse perigoso discurso feito de ódio, moralismo e paranoias

Eu, a democracia e o odio dos meus pais 01

EU, A DEMOCRACIA E O ÓDIO DOS MEUS PAIS

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Não costumo expor minha vida pessoal dessa forma, mas é que preciso desabafar, e escritor desabafa escrevendo… Alguns amigos e leitores já devem ter percebido algo inusitado em minhas postagens sobre as eleições: minha mãe fazendo campanha em favor de… Jair Bolsonaro.

Poizé. Infelizmente, meus pais foram também seduzidos pelas ideias nazifascistas e propagam esse perigoso discurso feito de ódio, preconceito, moralismo, mentiras e paranoias como o tal kit gay, ditadura comunista etc.. É uma situação bizarra, que jamais pensei em viver. Como não posso romper com eles, tento levar a coisa com equilíbrio. Mas é triste ver meus próprios pais a apoiar um candidato que, junto a seu vice, já declararam apoio à ditadura e homenageiam torturadores assassinos.

Lembrei agora de uma situação… Foi no fim dos anos 1970, quando ainda vivíamos sob a sangrenta ditadura militar. Eu adolescente, e meu pai me ajudando numa tarefa do colégio. Era uma redação sobre o Brasil e, nela, incluímos sutis críticas ao governo. Quando terminamos, ele parou, preocupado, e me disse: “Não fale pra ninguém que fui eu quem lhe ajudou a escrever isso, senão posso ser preso”. Claro que não falei, pois tínhamos familiares que foram presos e torturados por fazerem oposição ao regime. Hoje, quarenta anos depois, talvez meu pai tenha esquecido desse seu belo gesto de coragem e resistência. Eu, não. Nunca esqueci. Porque foi um gesto que moldou minha personalidade.

Tenho minhas críticas ao PT, mas votarei em Fernando Haddad. Se ele vencer, meus pais felizmente estarão em segurança, pois ainda haverá democracia e eleições e eles serão livres para fazerem oposição. Porém, se o candidato deles for eleito, os opositores, principalmente jornalistas, artistas e escritores, como eu, correremos sérios riscos. E para isso, nem é preciso haver ditadura declarada – basta que seus apoiadores sigam fazendo o que já fazem agora, ameaçando, agredindo e matando aos que pensam diferente e aos grupos sociais vulneráveis.

Talvez o ódio que meus pais têm a Lula e ao PT, fruto de anos e anos de jornais nacionais, seja tão forte quanto o amor que sentem por mim. Talvez estejam cegos de ódio, como tantos. Neste momento, escrevo com os olhos marejados de tristeza e decepção ao lembrar que por causa deles cresci acreditando mais nos livros que nas armas… Mas devo dizer que meu amor por eles continua. Sim. O amor tem dessas coisas, né? Às vezes, mesmo quando o outro prioriza o ódio, ainda assim continuamos a amar. Na verdade, eu nunca soube explicar o amor, e agora muito menos.

Mãe, nas minhas postagens você tem o direito de odiar ou apoiar a quem você quiser, fique à vontade. Nas suas, eu prefiro nada comentar. No mais, seguirei fazendo o que meu pai me ensinou, apesar dele parecer ter esquecido, que é defender a democracia, mesmo que ela tenha falhas, e também a liberdade de expressão, sempre, todos os dias, mesmo que isso agora tenha se voltado perigosamente contra mim. Que ironia… Mas é isso. O amor pela democracia e pela liberdade tem dessas coisas.

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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ESCLARECIMENTO

A crônica já estava escrita fazia uns dias, e eu refleti bastante se devia ou não publicar. O apoio de minha mãe ao candidato nazifascista já era conhecido de meus amigos e leitores, pois ela usava minhas postagens para expressá-lo publicamente. Tomei a decisão ao saber dos recentes casos em que pessoas foram agredidas e assassinadas por apoiadores de Jair Bolsonaro, pelo simples fato de pensarem diferente.

Se o nazifascismo vencer, eu correrei sérios riscos por conta de meu trabalho de escritor e comunicador. Então, prefiro denunciar agora o perigo que aguardar quieto a minha hora de sofrer represálias, mesmo que precise expor um conflito familiar, como fiz.

Como reagiu minha família? Dividiu-se entre críticas e elogios, era o esperado. Acho que vocês conseguem imaginar a situação delicada, mas fiz o que precisava fazer. Publiquei um texto que é, ao mesmo tempo, um desabafo, um alerta e uma declaração de amor pública, aos meus pais e à democracia.

Neste momento, me sinto aliviado por ter dividido minha angústia com tantas pessoas, e vejo que falei por muita gente que vive situação semelhante. Talvez unindo nossas angústias, possamos nos fortalecer.

Obrigado a todos, inclusive aos que discordam de mim. Seguimos firmes na luta contra o nazifascismo. (RK)

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Pensão das Crônicas Dadivosas – Lançamento

27/09/2018

PENSÃO DAS CRÔNICAS DADIVOSAS – LANÇAMENTO

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Comunico aos amigos e leitores que sou novamente papai: nasceu meu livro Pensão das Crônicas Dadivosas (Editora Escrituras), uma seleção de crônicas escritas entre 2007 e 2017, com ilustrações de vários desenhistas. Tô muito feliz!

Os lançamentos acontecerão em Fortaleza (out/nov) e São Paulo (nov/dez), e em breve divulgarei datas e lugares, e outras cidades. Mas se você quiser, já pode adquirir o seu agora e receber pelo correio.

PREÇOS (frete incluído)
1 livro: R$ 35
2 livros: R$ 60

PAGAMENTO: Pag Seguro (cartão e boleto) ou transferência bancária (Bradesco, Banco do Brasil ou Itaú).

OBRIGADO aos desenhistas Ana Costalima, Denis Akel, Elinaudo Barbosa, Glauco Sobreira, Mychel Távora, Raisa Christina e Raymundo Netto (Fortaleza-CE), Beatris Rocha, Fernando Vasqs e Rogério Bessa (São Paulo-SP). Obrigado, Wanessa Bento amada, pela revisão textual.



> MAIS SOBRE O LIVRO

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Entrevistando o candidato

02/09/2018

02set2018

Na entrevista, o candidato deverá responder a perguntas feitas pelo povo. Como se sairá?

ENTREVISTANDO O CANDIDATO

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Sentado em frente ao apresentador de tevê, o candidato aguarda o início do programa de entrevista. Alguém no estúdio informa: “Entramos ao vivo em 5, 4, 3, 2, 1…” Toca a musiquinha do programa. O candidato olha para a câmera, sorri e faz um gesto com a mão imitando uma pistola. O apresentador começa:

‒ Candidato, primeiramente, quero agradecer, em nome da emissora, pelo senhor ter aceitado nosso convite para esta entrevista.

‒ Eu que agradeço.

‒ Neste primeiro bloco, o desafio consiste em testar o poder de síntese do candidato. O senhor deve responder a cada pergunta o mais resumidamente possível. São perguntas do povo, enviadas por pessoas simples.

‒ Estou pronto, pode mandar a primeira.

‒ Candidato, o senhor gosta de verdura?

‒ Muito. Inclusive, se eu for eleito, criança vai ser obrigada a comer verdura no café, no almoço e no jantar. Não comeu, vai pro pau-de-arara, talkei?

‒ Candidato, em caminho de rato, tatu caminha dentro?

‒ Ahn… Olha, sobre isso, quero avisar que vou legalizar o porte de arma, sim, e vai ser permitido caçar não só tatu, mas principalmente veado. Se um veado for visto andando solto aí pela rua, poderá ser abatido a tiro por qualquer cidadão de bem, talkei?

‒ Se o senhor for direto por essa rua, vai dar onde?

‒ Ahnn… veja bem… O problema do trânsito é culpa desse pessoal comunista que só sabe dirigir na faixa da esquerda. No meu governo todo mundo vai ter que dirigir pela direita, entendeu?

‒ Dizem que o senhor conta muitas piadas para os amigos. O senhor não tem medo de ficar queimado na rodinha?

‒ Medo de quê?

‒ De ficar queimado na rodinha.

Candidato pensa.

‒ Olha… Eu só tenho medo é de mulher feia. Aliás, mulher feia é a desgraça da humanidade, não serve pra nada. Nem pra ser estuprada, talkei?

‒ O senhor concorda com a seguinte afirmação: Se é para falar besteira, é minhoca lá?

‒ Sim… claro. Mas não nos calaremos diante da pedofilia nos museus. Chega dessa pouca vergonha. Liberdade artística é o caralho. Aliás, vou mandar fechar os museus e transformar tudo em igreja. Deus, pátria e família!

‒ O senhor prefere café de máquina ou o senhor acha que no coador é mais forte?

‒ Café de máquina. Inclusive, no meu governo vou transformar esses quilombos em lavoura de café. Esses afrodescendentes aí, tudo gordo, bando de macumbeiro, só fumando maconha… Essa moleza vai acabar, pode escrever.

‒ Se o senhor fosse caminhoneiro e precisasse transportar madeira para as cidades de Tupi e Juá, o senhor levaria madeira até em Tupi ou levaria até em Juá?

‒ Bem… eu… Vem cá, essas perguntas foram enviadas por quem?

‒ Por várias pessoas.

‒ Hum. Olha, caminhoneiro macho pega qualquer serviço. E tem mais. No meu governo, mulher que ganhar mais que homem vai ter que pagar imposto maior, pra compensar que engravida.

‒ Se o senhor fosse feirante e vendesse abacaxi, por quanto sairia a sua rodela?

‒ Minha o quê?

‒ Sua rodela.

Silêncio. Candidato desconfiado.

‒ No meu governo… eu… Mas que pergunta é essa?

‒ O senhor tem o direito de não responder.

‒ Eu não vou responder a essa pergunta.

‒ Ok, prosseguindo. Se o senhor e eu fôssemos caçar no mato, e o senhor pegasse um avestruz e eu um tucano, o senhor se importaria de ir na frente com o avestruz e eu com o tucano atrás?

Silêncio. Candidato muito desconfiado.

‒ O senhor quer que repita?

‒ Não precisa. Próxima pergunta.

‒ O senhor tinha uma galinha que se chamava Xu. Quando ela ficava grávida, o senhor acha que Xu paria um ovo ou Xu paria um pinto?

Silêncio. Candidato vermelho de raiva.

‒ Tempo esgotado, candidato. Vamos à próxima pergunta.

‒ Não vamos porra nenhuma! Que merda de entrevista é essa?

‒ Como falei, são perguntas enviadas por pessoas de…

‒ Vai tomar no cu, ô pederasta safado! Por isso que eu digo que o erro da ditadura foi torturar e não matar! Acabou a entrevista.

Candidato levanta da cadeira, arranca o microfone da roupa e sai, espumando de ódio.

‒ Candidato, me desculpe se eu lhe machuquei por dentro… É que eu sou muito cabeça dura.

‒ Sua sorte é que eu não estou armado agora! Bando de comunista desgraçado!

‒ Já que o senhor vai mesmo embora, mando um abraço para o senhor e para quem for da sua família todinha.

Candidato sai do estúdio, mas seus berros são ouvidos.

‒ Fascista é a puta que te pariu! Desaparecidos do Araguaia é o caralho, quem procura osso é cachorro!! Direitos humanos pra humanos direitos!!! Eu sou capitão do Exército, minha missão é matar!!!! Pinochet devia ter matado mais gente!!!!!

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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FALARAM POR AÍ

Gente de Mídia – Blog do jornalista Nonato Albuquerque

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MAIS HUMOR

Segredos de famíliaO pai descobriu um terrível segredo de seu filho. E agora, o que pode acontecer com sua carreira política?

Ser mulher não é para qualquer um – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão, as Belas, abalando nos modelitos, no outro, as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

Aviso prévio de traição – A partir de hoje poderei te trocar por outra a qualquer momento. Basta que ela sorria pra mim e que me faça agradinhos. E me dê o que você nunca quis me dar

Bar do Araújo é a salvação – Espremido entre duas igrejas evangélicas, o Bar do Araújo é a última resistência dos ateus. E do bom humor

Suvinando priquita – Pois você acredita que tem mulher que suvina priquita? Parece mentira, mas é verdade

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 01- Parabens, Kelmer. Muito bem construída a crônica. Triste é a realidade a que faz referência. Compartilharei o texto. Abraços. Janailson Macêdo, Capina Grande-PB – set2018

02- Genial. Fabio Fernandes Cruz, set2018

03- Excelente!!!!! Yalis Cardoso, Fortaleza-CE – set2018

04- Inteligente e divertido como sempre! Saudade do amigo! Abraço. Cesar Venezianni, São Paulo-SP – set2018

05- Olá xuxu tudo bem? Saudade de tu. Que será desse nosso Brasil hein… Beijos. Sandra Xavier, São Paulo-SP – set2018

06- Grande RK! Essa é a entrevista que eu queria ver. Perguntas certas para esse inominável de direita. Bom demais! Obrigado pelo envio e uma abraço do
Leite. José Leite Jr., Fortaleza-CE – set2018

07- https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10209830090429000&id=1834717399. Caetano Barros Filho, set2018

08- Muito bom! Fernando Vasqs, São Paulo-SP – set2018

09- Adorei, Kelmer!!! Muito bom! Fernanda Nascimento, Fortaleza-CE – set2018

10- Sensacional, o texto é claro. Sandra Duarte, Fortaleza-CE – set2018

11- Kkkkk…..consegui até ouvir a voz deste louco e ver as expressões …kkkkkk. Alessandra Schiarantolla, set2018

12- “ Muito bem bolado “!! Luce Galvão, Fortaleza-CE – set2018

13- ótimo, kelmer… abrssss. Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – set2018

14- hahahahaha. Mônica Paiva Barbosa, set2018

15- Kkkkkkk muito bom. Rogerio Brito Correia, set2018

16- 😆 🤣 😂 👏 adorooooo. Luana Braga, Fortaleza-CE – set2018

17- 😂 😂 😂 😂 😂… Paola Braul Décaillet, Canoa Quebrada-CE – set2018

18- Muito bom. Faltou só a pergunta “candidato, o sr. gosta de correr ou só caminha?” Pedro Henrique Vieira Costa, Fortaleza-CE – set2018

19- Kkkkkkkkk rindo até as eleições. Pq no dia só vai dar vontade é de chorar. Às vezes parece que eatamos numa parada surreal. O q mais me assusta nem é o tal do Bolso mas a qtdade de pessoas que pensam como ele… Aline Cerqueira, set2018

20- to amando essa nova série! Clarisse Ilgenfritz, Fortaleza-CE – set2018

21- Kkkkkk. Iracema Manoel Fonseca, Fortaleza-CE – set2018

22- Esquerdista vagabundo ! Marta Anita, Belo Horizonte-MG – set2018

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Mulher, seja feita a vossa vontade

21/08/2018

21ago2018

Criminalizar o aborto é usar as leis de forma covarde para oprimir e controlar a mulher. Isso é machismo

MULHER, SEJA FEITA A VOSSA VONTADE

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Se os homens pudessem engravidar, e eu engravidasse, a última coisa que eu desejaria é que o Estado ou a religião ou a família ou os amigos, ou qualquer outra coisa, decidisse por mim se eu deveria ou não prosseguir com a gravidez. O corpo é meu? Então, obviamente, a decisão é minha. Esta lógica está acima de qualquer outro tipo de entendimento da questão, seja ela moral, filosófica, social ou religiosa.

Criminalizar o aborto é usar as leis de forma covarde para oprimir e controlar a mulher. Isso é machismo. E cria um grande mercado clandestino, onde quem tem dinheiro aborta de forma segura, e quem não tem, aborta em condições perigosíssimas, e morre. Isso é cruel demais para com as mulheres pobres.

Não interessa o que diz sua religião. De quem é o corpo, é seu? Não? Então, você não apita nada.

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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Com que propriedade um homem pode falar sobre o universo feminino? Neste livro RK ousou fazer isso, reunindo 36 contos e crônicas escritos entre 1989 e 2007, selecionados em suas colunas de sites e jornais, além dos textos inéditos. Com humor e erotismo, eles celebram a Mulher em suas diversas e irresistíveis encarnações. Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido. Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.

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DICA DE LIVROS

Mulheres que correm com os lobos – Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés –  Editora Rocco, 1994)

A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

O Feminino e o Sagrado – Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – Elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

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