Romance gratiluz

31/05/2023

30mai2023

Clarinha tinha uma mania. A tudo agradecia com seu doce sorriso seguido daquela palavrinha da moda: Gratidão

Romance gratiluz

ROMANCE GRATILUZ

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Toda linda e fofinha, estilo gratiluz. Assim era Clarinha. Chegada nuns lances namastê, incenso pra limpar as energias, fazia coraçãozinho com as mãos, essas coisas. Mas tudo bem, isso não me incomodava. Desde, é claro, que ela continuasse me acordando com certas carícias gratiluz que só ela sabia fazer.

Porém, Clarinha tinha uma mania. A tudo agradecia com seu doce sorriso seguido daquela palavrinha da moda: Gratidão. Poizé. No bar, pedíamos uma cerveja ao garçom, ele trazia, e ela: Gratidão. Na rua, alguém nos perguntava as horas, eu respondia, a pessoa agradecia, e ela: Gratidão.

Se eu não estivesse apaixonado, talvez me irritasse com tanta gratidão o tempo todo. Mas isso até me divertia. Só que eu não podia perder a piada, né? Então, aproveitei a deixa quando ela pediu guardanapo ao garçom. Aqui está, ele disse. E ela, toda meiga: Gratidão. E eu, todo meigo também: Muito amor envolvido.

Clarinha olhou pra mim, curiosa. Palavrinha da moda combina com expressãozinha da moda, pensei em dizer, mas apenas sorri, me controlando pra não rir. Depois, uma amiga veio à nossa mesa e, após nos despedirmos, falou: Vou indo, gente, tchau. E Clarinha: Gratidão. E eu: Muito amor envolvido, viu?

Clarinha ficou desconfiada, mas nada disse. Bebemos mais um pouco, pagamos a conta e levantamos da mesa. O garçom: Obrigado, voltem sempre. Clarinha: Gratidão. Eu: Muito amor envolvido. Aí, ela não se conteve.

− Que negócio é esse de muito amor envolvido?

− Ué? Você não percebeu?

− Percebi o quê?

− Que tinha muito amor envolvido?

Ela não levou o assunto adiante. Mas senti que não gostara. E o tal gratidão? Prosseguiu falando, e eu emendando com muito amor envolvido, segurando o riso. Parecia que ela se sentia numa disputa, como se fizesse questão de mostrar a força de sua gratidão contra o meu muito amor envolvido. Evidentemente, se fosse, seria a disputa mais idiota do mundo.

E as pessoas? Elas nem sabiam o que responder. O que se fala após alguém dizer gratidão e outro emendar com muito amor envolvido? Caberia, talvez, “A bem-aventurança que habita em mim saúda a bem-aventurança que habita em ti”? Ou, quem sabe, um “Tu te tornas eternamente responsável pela gratidão que me diriges”? Talvez algo mais sucinto: “Regozijemo-nos na chama violeta.” Não sei. As pessoas nunca respondiam nada, no máximo sorriam, sem saber o que dizer. Deviam pensar: Que casal doidim…

Até que, um dia, no shopping, ela perguntou ao segurança onde ficava o banheiro.

− Fim do corredor à esquerda.

− Gratidão.

− Muito amor envolvido, seo guarda.

Clarinha saiu para o banheiro e fiquei esperando. Na volta, não quis segurar minha mão. E mandou essa, com a cara fechada:

− Se você soubesse como é ridículo isso que você diz.

− Também acho.

Silêncio. Caminhamos até o cinema. Entramos na fila.

− Se eu parar de falar gratidão, você para com essa coisa de muito amor envolvido?

− Paro.

Pronto, questão resolvida. Vimos o filme, jantamos e findamos a noite em seu apartamento, sob a luz do abajur lilás. Esquecidos, ufa!, desse negócio de gratidão e amor envolvido.

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Ricardo Kelmer 2021 – blogdokelmer.com

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LEIA NESTE BLOG

Momentos felizes 01

Momentos felizes – Se tem uma coisa que não é nada criteriosa em relação aos atributos dos candidatos, é a felicidade. Qualquer idiota pode ser feliz

Dez segundos para ser feliz – Seus olhos continuam sorrindo mesmo quando ela conta, sem pudor, das imensas bobagens que fez em nome de sua busca por felicidade

Insights e calcinhas – Uma calcinha rasgada pode mudar a vida de uma mulher? Ruth descobriu que sim

Carma de mãe para filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

Cerejas ao meio-dia – Linda e poética, ela dá a volta no carro e todas as buzinas se calam. Claro, um poema de cereja em plena avenida, não é todo dia

A gota dágua – A força da tempestade, o poder do desejo. Ela deveria resistir, mas…

Ventos do óbvio – Ela tinha o controle de sua vida, ela e mais ninguém. Renascer. Renovar-se

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Salve, guerreira Tremembé

23/03/2023

23mar2023

Telma Pacheco Tremembé 1

SALVE, GUERREIRA TREMEMBÉ

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Toquem os maracás: a guerreira está presente
Ei-la, sorridente e obstinada
Lutando e dançando na lagoa encantada
Mulher de doçura brava, jaçanã
Artesã de sonhos que ousam persistir

Toquem os maracás pra ela ouvir
Riso fácil, flecha certeira da alegria
Ela se encontrou na ancestralidade
Misturando em si mato e cidade
E enriquecendo o mundo inteiro
Mora agora na sombra do cajueiro
Bela como sempre foi e como é
É ela, a guerreira Telma Tremembé

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Fiz este poema em homenagem a minha amiga Telma Pacheco Tremembé, que conheci em 2017, em Fortaleza. Ela morreu em 18 de março de 2023. Segue a apresentação que escrevi para seu livro Raízes do Meu Ser, de 2018:
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Conheci Telma em 2017, durante a reorganização do FLLLEC, o Forum de Literatura, Livro, Leitura e Biblioteca do Estado do Ceará. Imediatamente, cativou-me sua simpatia, o sorriso hospitaleiro, o jeito divertido. Telma é daquele tipo de gente que alegra e ilumina nosso dia com sua simples presença.

Com o tempo, passei a admirar sua disposição de lutar por aquilo que ela elegeu como uma espécie de missão: os direitos dos povos indígenas. Uma missão complexa, nós sabemos, mas que ela abraçou com a força e a determinação de seus antepassados Tremembés, que habitavam o Ceará (região de Almofala) quando da chegada dos europeus, no século 16.

Eu falei chegada? Bem, o termo que ficou consagrado foi descobrimento, seguindo a lógica eurocentrista. Porém, para os povos que aqui viviam naqueles dias, o termo mais apropriado é invasão. O Brasil, que ainda não tinha esse nome, foi conquistado pelos portugueses, que exploraram comercialmente as terras com trabalho escravo e submeteram os povos indígenas a um processo de aculturamento, que nunca cessou. Os primeiros habitantes da terra brasilis não viviam em paz entre si 365 dias por ano, é verdade, assim como os povos no restante do mundo, mas a chegada dos europeus atingiu violentamente a todos eles, e foi determinante para a quase extinção dos nossos povos originários.

O livro de Telma nos conta a história dessa conquista pela ótica de seu próprio povo, e nos conta também sobre seu processo de autoaceitação como Tremembé. É uma iniciativa muitíssimo bem-vinda e que merece todo o apoio, pois carecemos de uma literatura indígena que nos permita contar a história do nosso país de um modo mais abrangente, pela voz daqueles que foram perseguidos, escravizados, convertidos à força ao Cristianismo, declarados extintos por decreto e executados dos modos mais cruéis.

Eu falei foram? Infelizmente o tempo correto do verbo é são. Os povos indígenas ainda são massacrados, sofrendo diariamente o preconceito, a violência, a cristianização e o descaso dos governos. Espero que o livro de Telma, para o qual tenho a honra de fazer esta apresentação, contribua para que a cultura indígena, que também nos faz brasileiros, seja mais valorizada, e para que tenhamos em nossas bibliotecas e salas de aula mais e mais livros escritos por índios.

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Ricardo Kelmer 2023 – blogdokelmer.com

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Telma Pacheco livro 01b

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Iracema Guardiã 20220504 3Iracema ao chão – O dia em que tombou o ícone do Ceará 

>mais poemas

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Livrarias nunca deveriam morrer

13/03/2023

13mar2023

Livraria Cultura 1

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LIVRARIAS NUNCA DEVERIAM MORRER
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Ela era bonita e charmosa, e acomodava suas preciosidades em quatro lojas do Conjunto Nacional. Só depois é que mudaria para aquele imenso espaço que fora do Cine Astor. Mas já tinha status de templo cultural da cidade. Falo da Livraria Cultura, em São Paulo. Foi lá, em 1995, que fiz o lançamento de meu livro da fase espiritualista Quem Apagou a Luz? – Certas coisas que você deve saber sobre a morte para não dar vexame do lado de lá, em dobradinha com a amiga Ana Claudia Domene, que lançava seu romance Aaran.

Quase um ano antes, eu deixara Fortaleza e fora tentar a vida no Rio de Janeiro, e agora, veja só, estava assinando dedicatórias em meu livro de estreia. Meu primeiro lançamento em livrarias. Na Livraria Cultura. Uau!

Entre 2006 e 2016, eu morando em São Paulo, sempre arrumava um pretexto para uma passadinha básica na Livraria Cultura… e acabava ficando lá por horas, esquecido do mundo. A primeira coisa que eu fazia era conferir se meus livros não haviam escapado da ordem alfabética nas estantes. E costumava também pegar um livro qualquer para ler, mas ficava atento, olhando de soslaio, para flagrar o mágico momento em que algum leitor seria fisgado por um livro meu – o que nunca aconteceu. Será que outros escritores têm também esse fetiche?

Para mim, a Livraria Cultura começou a morrer em 2007, quando mudou para aquele gigantesco espaço do Conjunto Nacional. Livros se carregam de um canto para outro, sem problema, mas a alma de uma livraria, não.

Sinto pena e tristeza. É doloroso acompanhar sua decadência. Sim, sei das dívidas trabalhistas e das denúncias de abusos sofridos pelos funcionários, e sempre torci por eles. Mesmo assim. Ver uma livraria agonizar dói demais na alma da gente.

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Ricardo Kelmer 2023 – blogdokelmer.com

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Quem Apagou a Luz?
Certas coisas que você deve saber sobre a morte para não dar vexame do lado de lá
(ensaio)

Lançado em 1995, este livro resume, numa linguagem descontraída, as crenças e vivências que norteavam o grupo esotérico do qual o autor participou nos anos 1990, abordando temas como experiências fora do corpo, reencarnação, vida após a morte, extraterrestres e guias espirituais. A partir de 2000, quando o autor assumiu seu ateísmo, este livro deixou de ser publicado, interrompendo uma trajetória de sucesso. Porém, em 2020, para divulgar seu livro Viajando na Maionese Astral – Memórias exóticas de um escritor sem a mínima vocação para salvar o mundo, ele decidiu relançá-lo numa edição especial, junto com o Maionese.

> SAIBA MAIS

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LEIA NESTE BLOG

Lugar de literatura é solta pela cidade – Com esses livretos, consigo que minha arte frequente as mesas dos bares, integrando-se à dinâmica boêmia da cidade e atraindo novos leitores

O dilema do escritor seboso – Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras

O encontrão marcado – Fechei o livro, fui até a janela e olhei pro mundo lá fora. E disse baixinho, com a leveza que só as grandes revelações permitem: tenho que ser escritor

Pesadelos do além – O pior pesadelo para um escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado

Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

Kelmer no Toma Lá Dá Cá – Aqueles aloprados moradores do condomínio Jambalaya descobriram meu livro maldito

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O riacho sobrevivente

01/12/2022

01dez2022

Canalizado e subterrâneo em grande parte de sua extensão, escorrendo no rumo noroeste em galerias sob ruas e prédios, lá vai o danado a seguir seu instinto de sobrevivência

O Riacho Sobrevivente Sergio Helle 01a

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O RIACHO SOBREVIVENTE

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Por trás das dunas da Praia do Futuro o sol se eleva, anunciando um novo dia em Fortaleza. Hora de partir. Deixamos a casa silenciosamente para não acordar meus pais. Comigo vão meus irmãos e primos, todos com cara de sono, mas animados.

Tomaremos o rumo da lagoa, onde nasce o riacho Papicu, uma hora de caminhada. Foi lá no riacho onde o disco voador pousou, trazendo os etês que querem destruir a Terra. Não podemos falhar em nossa missão. Todos prontos? Sim! Então, simbora.

Somos a Patota do Mato e gostamos de fazer piquenique nas matas do Cocó e do Papicu. Sempre encontramos muitos animais soltos, jumentos, cabras, vacas e seus bezerrinhos, e também tejos e preás. Ah, e tem muita aventura: já enfrentamos piratas na salina Diogo e monstros horríveis no morro da Cidade 2000, e uma vez o Siri Gigante me afogou no mangue do rio Cocó, mas escapei.

Meia hora de caminhada. Todos bem? Sim! Seguimos pelas trilhas, descansando à sombra das árvores e brincando na areia branquinha. Para recompor as forças, na lancheira a tiracolo tem água e biscoito champagne, e atenção, que soim adora roubar comida. No céu, gaviões passam curiosos a nos observar. Cuidado que esta planta aqui é cansanção. Não mexe nas pedras que pode ter cobra embaixo.

Chegamos à lagoa. Pousada à margem do riacho, vemos a nave dos etês. Aproximamo-nos devagar… Preparem-se, vamos atacar, um, dois, três, meia e já! O combate é intenso, tome isso, e mais isso, e chego a levar um tiro de laser de raspão no braço, mas no fim os etês saem na carreira. Todos vivos? Sim! Então, missão cumprida, podemos voltar. A Terra estava salva.

Fortaleza, 2020. Os bairros Papicu e Cocó ainda existem, mas não são os da minha infância, onde naquelas férias de 1975 vivi emocionantes aventuras no aconchego da Natureza, num tempo sem asfalto nem condomínios de luxo, mas cheio de imaginação e muito carrapicho e bicho de pé.

A lagoa ainda está lá, mesmo com todo o mal que lhe fazem, e também o riacho Papicu, palco da épica batalha contra os etês. Canalizado e subterrâneo em grande parte de sua extensão, escorrendo no rumo noroeste em galerias sob ruas e prédios, lá vai o danado a seguir seu instinto de sobrevivência, cruzando o subsolo da avenida Alberto Sá, resistindo à poluição e à ganância capitalista, reaparecendo ofegante para respirar e sumindo novamente, unindo mais adiante suas águas ao riacho Maceió, na Varjota, e depois, os dois juntos, descendo a céu aberto até a praia do Mucuripe, para, enfim, serem mar.

Em nossa inocência aventureira, botamos para correr os etês. Mas não eram eles os inimigos da Terra. Nunca foram seres cruéis de outras galáxias os que destroem nosso planeta em nome do lucro, desequilibrando a Natureza e fazendo eclodir terríveis pandemias de vírus. Nosso maior inimigo sempre foi outro.

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Ricardo Kelmer 2020 – blogdokelmer.com

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Ilustração: Sergio Helle

Esta crônica foi escrita, originalmente, em 2020, para o livro Fortaleza Ilustrada (Fundação Demócrito Rocha, em parceria com a SecultFor), publicado em 2021 e organizado pelo jornalista e escritor Raymundo Netto. Depois, teve o último parágrafo levemente alterado para integrar a coletânea Pandemônio (Lumiar Editora), organizada pela jornalista Ana Karla Dubiella. Sinto-me muito honrado por minha crônica estar presente em duas obras tão especiais.

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Riacho Papicu mapa 01a

Trajetória do Riacho Papicu, na zona leste de Fortaleza

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Para Belchior com Amor, terceira edição ampliada

24/08/2022

24ago2022

PBCA 20220917 22

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O livro Para Belchior com Amor está de cara nova! Para esta terceira edição, contamos com a parceria da Editora Radiadora, do poeta Alan Mendonça. Assim como nas edições anteriores, são mais mil e quinhentos exemplares do único livro sobre Belchior lançado com ele ainda vivo. Além do novo projeto gráfico, que deixou o livro mais bonito, esta edição foi enriquecida com ilustrações e novos autores, com mais contos, crônicas e cartas inspirados em canções de Belchior. Agora, são 132 páginas, com 24 textos de 23 autores cearenses, e a participação especial da cantora Vannick Belchior, filha caçula do rapaz latino-americano, que escreveu uma bela carta para seu pai.

Os primeiros lançamentos da nova edição aconteceram em jul2022 na região do Cariri, sul do Ceará. Os lançamentos seguintes serão em Fortaleza e outras cidades. O livro físico pode ser adquirido diretamente comigo (rkelmer@gmail.com), pelo site da Editora Radiadora (www.radiadora.com.br) e com os outros autores. O livro eletrônico pode ser adquirido na Amazon (kindle) e em PDF diretamente comigo.

AUTORES E MÚSICAS

Alan Mendonça (Tudo outra vez)
Ana Karla Dubiela (A palo seco)
Carmélia Aragão (Paralelas)
Cleudene Aragão (Coração selvagem)
Ethel de Paula (Conheço o meu lugar)
Gero Camilo (Na hora do almoço)
Jeff Peixoto (Sujeito de sorte)
Izabel Gurgel (Aguapé)
Joan Edesson de Oliveira (Galos, noites e quintais)
José Américo Bezerra Saraiva (Apenas um rapaz latino-americano)
Josely Teixeira Carlos (Monólogo das grandezas do Brasil)
Kelsen Bravos (Comentário a respeito de John)
Léo Mackellene (Até mais ver)
Mariana Marques (Pequeno mapa do tempo)
Nirton Venâncio (Bahiuno)
Raymundo Netto (Fotografia 3×4)
Ricardo Guilherme (Como nossos pais)
Ricardo Kelmer (Divina comédia humana e Ypê)
Roberta Laena (Como o Diabo gosta)
Roberto Maciel (Velha roupa colorida)
Thiago Arrais (Alucinação)
Xico Sá (Todo sujo de batom)
Vannick Belchior (participação especial)

ILUSTRAÇÕES
Carlus Campos, Marcos Oriá e Léo de Oliveira
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PBCA 3a ed CAPA 20a> SEÇÃO DO LIVRO NESTE BLOG 
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A história do livro, os autores, matérias na imprensa, entrevistas, preços…
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.Ricardo Kelmer 2022 – blogdokelmer.com

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PBCA Div Lana 1

Eu não ia fazer a terceira edição do Para Belchior com Amor, pois os custos do livro físico são altos e o retorno é incerto. Mas ela, que adora esse livro, não se conformava. E tanto insistiu que reconsiderei. Obrigado, Gata Mimosa, por acreditar nesse livro e por ter mexido seu caldeirão tão bem mexido. 🙂

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PBCA 3a ed DIV 11

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RK 20220730 PBCA Estrada 1b

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PBCA 3a ed Capa 3D 15 PNG

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ENTREVISTA
Programa Cabeceira, TV Assembleia (Fortaleza), out2022. Apresentadora: Rosanni Guerra

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O mistério da viúva negra

01/07/2022

01jul2022

O mistério da viúva negra 1

O MISTÉRIO DA VIÚVA NEGRA

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Verdadeiro homem de família, fiel à esposa, de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Assim era o Nicolau. Por isso, foi uma grande surpresa quando, em seu enterro, aquela bela mulher apareceu, pele alva e cabelos negros, vestido preto longo e decotado, sombrinha e óculos escuros. Sozinha e um pouco afastada, ela acompanhou a cerimônia, semblante sem expressões, aqui e ali enxugando uma lágrima, enquanto o vento soprava em seu vestido fendido, oferecendo, por um instante, a visão de sua perna esguia.

A viúva Valdete até parou de chorar. Os filhos Fabinho e Joca murmuraram em pensamento: Você, heim, Papai… Parentes e amigos, sem exceção, todos se indagaram, curiosos, sobre quem poderia ser. Em meio aos cochichos, nem o padre Jarbas resistiu a uma olhadela por cima do ombro, antes de postar-se à frente e enaltecer as qualidades do finado. O coveiro Maurição, coitado, errou o passo e quase despencou na sepultura. E, nem bem descido o caixão, tão misteriosamente quanto surgiu, aquela gótica aparição se foi, seu vulto negro sumindo para sempre nos vãos das lápides…

Uma hora depois, já em casa, Virgínia guarda o traje no armário, serve um licor e senta ao sofá. Abre o caderno de capa preta, risca o nome Nicolau e confere os outros nomes agendados. Impossível saber quem seria o próximo. Pela idade, provavelmente Napoleão, mas ele estava bem de saúde. Cliente especial, ela pensa, sorrindo. Contratou seus serviços quinze anos atrás, e ainda lhe conseguiu cinco clientes em sua turma do futebol, todos já idos.

O primeiro deles que se foi, Henrique, propôs pagar o dobro para que ela, além de comparecer ao enterro, derramasse solenemente um vinho sobre seu caixão, mas ela não aceitou, seria obviamente arriscado. Ao segundo, Walber, prometeu usar a peruca ruiva (homens e seus funéreos caprichos…) e, sim, cumpriu a promessa. O terceiro, Sávio, ofertou-lhe a camisa do time de coração para que ela usasse ‒ ela agradeceu, achou linda, mas não poderia usar, pois não combinava com o figurino. O quarto, Ayres, perguntou, assim como quem não quer nada, se ela por acaso fazia algo mais além de semear o caos em enterros, ao que ela, elegantemente, respondeu que isso já era muito. O derradeiro, Demétrio, nada pediu, mas perguntou qual era a garantia do serviço, e ela, sem titubear: A mesma da vida.

Virgínia fecha o caderno, bebe o resto do licor e vai preparar algo para comer. Enterro sempre lhe dá uma fome do outro mundo.

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MAIS MINICONTOS

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Iracema ao chão

30/05/2022

30mai2022

Iracema Guardiã 20220504 3

IRACEMA AO CHÃO

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Iracema ao chão!
Ressoa o mar a triste notícia,
Alertando a taba adormecida.
Cansei, murmura a tombada guardiã,
Enquanto turistas postam fotos, e
Moacir, que jamais leu Alencar,
Anseia por outra índia para pichar

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Ricardo Kelmer 2022 – blogdokelmer.com

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> MAIS POEMAS.

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A resposta antirracista do Fortaleza

09/05/2022

09mai2022

FEC 20220505 River Plate Racismo 2a

A RESPOSTA ANTIRRACISTA DO FORTALEZA

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Os jogadores entram em campo sob aplausos de 50 mil pessoas. Na arquibancada, um mosaico se forma com os dizeres JUNTOS NA LUTA e a imagem do zagueiro Pedro Basílio, ídolo do Fortaleza Esporte Clube nos anos 1970, negro. Em seguida, o mosaico muda e forma a frase STOP RACISM (pare o racismo, em inglês), com a imagem de um punho cerrado, símbolo do movimento antirracismo.

Foi esse o recado que a torcida do Fortaleza, famosa por suas manifestações, mandou para o mundo no jogo contra o River Plate, da Argentina, na Arena Castelão, pela Libertadores (05mai2022). Foi uma resposta ao caso de racismo que os torcedores tricolores sofreram no jogo em Buenos Aires, no qual torcedores do River Plate fizeram gestos de macaco e lhes arremessaram uma banana. Parabéns, tricolores!

Surpreendentemente, por orientação da Conmebol, o mosaico, que ficou ativo durante todo o jogo, não foi mostrado na transmissão da TV. O que isso significa? Que a Conmebol não quer comprar a briga do movimento antirracista. E que as penas que aplica aos clubes por casos de racismo da torcida, e que são penas leves, são mero jogo de cena. É revoltante. Entretanto, a imprensa mundial noticiou e as redes sociais espalharam as belas imagens.

O jogo foi de alto nível técnico e terminou em 1×1, com o goleiro argentino sendo o grande destaque. O Leão cearense jogou melhor, perdeu vários gols e, não fosse um erro da arbitragem no segundo tempo (nessa fase, os jogos, inacreditavelmente, não têm VAR), poderia ter vencido. Porém, o que ficará desse jogo é o recado da torcida e o ensinamento: só venceremos o racismo com políticas públicas corretas, educação antifascista e punições mais firmes.

Não basta não ser racista. É preciso ser antirracista.

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LEIA NESTE BLOG

As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

As duas mortes de Jail Bozonaro (Um futuro pela frente) – Após ter uma visão do futuro, Adélio quer impedir que Jail Bozonaro, um jovem e ambicioso capitão do Exército, não se torne presidente do Brasil

No museu da pandemia – Definitivamente, a humanidade fracassou…, ela pensou, triste

Robinho, Bolsonaro, Deus e a cultura do estupro – Culpado por estupro, Robinho diz que Deus está no comando e que fará um gol para homenagear Jair Bolsonaro

A alma fascista do governo Bolsonaro – Roberto Alvim apenas escancarou a alma fascista do governo Bolsonaro. Mas a alma fascista continua lá

O beijo da resistência contra a besta do fascismo – O fascismo não faz política ‒ ele é a negação da política, pois não dialoga, apenas agride, persegue e censura

Justiça para Moïse – Que a morte do jovem congolês nos ajude a fazer do Brasil um país mais justo

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Reconstruções

08/03/2022

08mar2022

Admitir que não somos invencíveis, infalíveis e imbrocháveis, como sempre nos fizeram crer

Yin Yang Feminino Masculino 4

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RECONSTRUÇÕES

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Repensar os valores machistas sedimentados em nossa cultura e tudo que nos foi ensinado desde pequenos sobre a mulher. Questionar as regras da sociedade, das religiões, da família, dos grupos de amigos. Abdicar dos diversos tipos de privilégios de que dispomos. Admitir que não somos invencíveis, infalíveis e imbrocháveis, como sempre nos fizeram crer. Constatar que o princípio feminino também habita nossa alma.

Sim, toda reconstrução é trabalhosa e requer honestidade consigo mesmo. Mas é o que precisamos fazer, nós machos Homo sapiens. É a nossa tarefa de cada dia, cada dia um pouco. Porque o futuro da humanidade ou será mais feminino, ou não será.

8 de Março – Dia Internacional da Mulher

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Ricardo Kelmer 2022 – blogdokelmer.com

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VIAJANDO NA MAIONESE ASTRAL
Memórias exóticas de um escritor sem a mínima vocação para salvar o mundo
Miragem Editorial, 2020

Enquanto relembra as pitorescas histórias de quando largou uma banda de rock para liderar um aloprado grupo esotérico e lançou-se como escritor com um livro espiritualista de sucesso (Quem Apagou a Luz? – Certas coisas que você deve saber sobre a morte para não dar vexame do lado de lá) que depois renegou, o autor fala, com bom humor, sobre sua suposta vida no século 14, carreira literária, amores, sexo, drogas ilegais, prostituição e crises existenciais, reflete sobre sua relação com o feminino, o xamanismo, a filosofia taoista e a psicologia junguiana e narra sua transformação de líder de jovens católicos em falso guru da nova era e, por fim, em ateu combatente do fanatismo religioso e militante antifascista.

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01- Parabéns pelo texto. Qdo morava em Fortaleza costumava curtir suas participações na Rádio Universitária FM. Gostava muito. Francisco de Paula, Fortaleza-CE – mar2022

02- Salve, salve a Mulher, viva. Fernando Piancó, Fortaleza-CE – mar2022

03- Maravilhoso. Vou copiar. Glauria Lula Dantas, Fortaleza-CE – mar2022

04- Voto com o relator. Ou a revolução será feminista ou não será, e como diz o @Ricardo Kelmer, não me chamem pruma revolução sem vinho. Nicolas Ayres, Fortaleza-CE – mar2022

05- Que lindo, Kelmer. É exatamente isso. O que eu mais admiro nos escritores é que eles conseguem expressar em palavras aquilo que nós só conseguimos sentir. Joyce Lobo, Fortaleza-CE – mar2022

06- Sempre um mestre com as palavras! Feliz dia mulheres! Cícera Vidal, Fortaleza-CE – mar2022

07- Valeu! Obrigada. Bj. Marcia Soares Fernandes, São Paulo-SP – mar2022

08- Viva. Joveline Anjos, Fortaleza-CE – mar2022

09- Mandou bem. Cida Cidoca, Fortaleza-CE – mar2022

10- Credo. Tao feminista ese texto qe parece coisa de pucha saco querendo xavecar no as guerrilheiras. Mauricio Centrone Ferreira, Valparaíso-Chile – mar2022


O terror da lagoa

21/02/2022

21fev2022

O TERROR DA LAGOA

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Quando Lia descobriu as puladas de cerca do Jaime, ferveu de ódio. O grande amor de sua vida, que tanto bem lhe fazia, era o terror da feira da lagoa, pegava até madame, garanhão infalível. Lia nada falou, apenas seguiu as orientações da cartomante: na lua minguante, foi num barco até o meio da lagoa, deu um nó na cueca do Jaime que ela pegara escondido, depois outro nó para garantir, amarrou a uma pedra e jogou-a nas águas escuras. Após isso, o garanhão foi um fiasco total. Virou chacota na boca do mulherio, coitado. Por mais que tentasse, o bilau não subia, fosse com Sheyla, Priscila ou Gracinete. Nem com a Juju do Pastel, pra você ter uma ideia. Com mulher nenhuma. Nem mesmo… com a própria Lia. Desesperada, ela voltou à cartomante, que explicou: criatura, era só um nó!!! Jaime nunca entendeu a razão de sua desgraça, e um dia tentou se matar. Hoje, passados trinta anos, vive de recordar os dias de glória. E Lia? Devastada de remorso, foi-se embora, pra nunca mais voltar. A lagoa? Ainda está lá, com suas águas escuras. Dizem que nas luas minguantes um vulto de mulher pode ser visto a caminhar pelo raso, tristonho, como a procurar por algo…

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Ricardo Kelmer 2021 – blogdokelmer.com

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MAIS MINICONTOS

AMetamorfose-01A metamorfose – Pai, filho e o fundo do poço

Desculpem o atraso – Ela, o feminismo e o BDSM

A última mensagem – Aprendendo sobre amor e perdão

Literalmente – O sentido dos textos e da vida

Prazer proibido – Essas mães e suas filhas…

O terror da lagoa – Lia queria Jaime só para ela

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LEIA TAMBÉM

Amor em fuga – Que mundo idiota. Pra poder viver o amor a gente tem que fugir de casa

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01- Muito bom. Corri pra verificar se era uma indicação de um filme e vi que o conto dá um. Epitácio Macário, Fortaleza-CE – jul2021

02- Excelente. Um dos meus favoritos. Tb gosto muito daquele q vc ainda vai publicar q foi inspirado no Paulo Marcio e nas iguanas gaúchas. Nicolas Ayres, Fortaleza-CE – jul2021

03- 👏👏👏👏👏👏👏👏 Michele Jacinto, Fortaleza-CE – jul2021

04- Hahahahah. Muito bom o conto. Sávio Cunha, Fortaleza-CE – jul2021

05- Jaime, o Zorba do pau mole. Henrique Baima, Fortaleza-CE – jul2021

06- A Lia “lascou ” foi tudo. Roberto Reial, Fortaleza-CE – jul2021

07- Ótimo!!! Olinda Evangelista, Fortaleza-CE – jul2021

08- Teus textos são fantásticos. Maria Ines Ramalho, Fortaleza-CE – jul2021

09- Você é foda chapa…. Show. Daniel Motta, Fortaleza-CE – jul2021

10- Muito bom. Clea Fragoso, Fortaleza-CE – jul2021

11- Excelente os teus textos garoto. Maria Ines Ramalho, Fortaleza-CE – jul2021

12- 1-Moral da estória, a desobediência tem seu preço. 2-A mandinga é como receita de um bolo gostoso, tem que ser exatamente o que se pede. 3-Conselho, obedeça sua mulher, principalmente se ela for ciumenta 😂😂😂😂 4- Alerta, o ser mais perigoso é uma mulher com raiva🤭🤭🤭🏹🏹 Telma Pacheco Tremembé, Iguape-CE – jul2021

13- Muito bom. Manoel André, Crateús-CE – jul2021

14- maravilha, amigo Kelmer. Silas Falcão, Fortaleza-CE – jul2021

15- Ficou bem garantido! Susana X Mota, Leiria-Portugal – jul20211

16- Bom demais. Fátima Abreu, Fortaleza-CE – jul2021

17- Maravilhoso! Nice Arruda, Fortaleza-CE – jul2021


Justiça para Moïse

02/02/2022

02fev2022

Resistência Antifa Moise Kabagambe 1

JUSTIÇA PARA MOÏSE

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Você crê em “livre negociação entre empregado e patrão”, como defende a direita neoliberal? Então, fale isso para a família de Moïse Mugenyi Kabagambe.

Nascido na República Democrática do Congo, Moïse tinha 24 anos e vivia com a família no Rio de Janeiro, para onde vieram fugindo dos conflitos armados em seu país. Ele trabalhava servindo mesas no quiosque Tropicália, na Barra da Tijuca. Em 24jan, foi lá para cobrar seu pagamento, que estava atrasado, e, como resposta, foi morto a pauladas por cinco homens. O quiosque continuou funcionando, com o corpo de Moïse jogado atrás, amarrado.

A família e amigos de Moïse estão, obviamente, arrasados, e clamam por justiça. Chocados e envergonhados, nós também clamamos, nós brasileiros que lutamos contra o neofascismo bolsonarista e sua política de extermínio da população pobre e preta. A propósito, Jair Bolsonaro, como todo ultradireitista, já demonstrou sua xenofobia várias vezes contra imigrantes, chegando a se referir a senegaleses, haitianos, iranianos, bolivianos e sírios como “escória do mundo”.

Se a Polícia trabalhar como deve, não ficarei surpreso se encontrarem nesse crime brutal as digitais das milícias, que controlam atividades comerciais e elegem políticos para defenderem seus interesses. Por falar em político miliciano, já se passaram quatro anos e a pergunta segue sem resposta: quem mandou matar Marielle Franco?

Minha sugestão à Prefeitura: tome o quiosque e doe à comunidade congolesa, para que ele seja um local de homenagem a Moïse e de respeito aos imigrantes africanos.

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Ricardo Kelmer 2022 – blogdokelmer.com

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– desenho: Nando Motta

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As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

As duas mortes de Jail Bozonaro (Um futuro pela frente) – Após ter uma visão do futuro, Adélio quer impedir que Jail Bozonaro, um jovem e ambicioso capitão do Exército, não se torne presidente do Brasil

No museu da pandemia – Definitivamente, a humanidade fracassou…, ela pensou, triste

Robinho, Bolsonaro, Deus e a cultura do estupro – Culpado por estupro, Robinho diz que Deus está no comando e que fará um gol para homenagear Jair Bolsonaro

A alma fascista do governo Bolsonaro – Roberto Alvim apenas escancarou a alma fascista do governo Bolsonaro. Mas a alma fascista continua lá

O beijo da resistência contra a besta do fascismo – O fascismo não faz política ‒ ele é a negação da política, pois não dialoga, apenas agride, persegue e censura

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01- 😢😢😢 Márcia Morozoff, Luziânia-GO – fev2022

02- Inaceitável!. Abigail Estradeira Do Alabama, Alvorada-RS – fev2022

03- reflexo das escolhas de pessoas que escolheram temer, bolsonaro e outros como seus representantes. Triste! Inconsebível. Roberto Paiva, Fortaleza-CE – fev2022

04- Que tristeza, que vergonha! Celia Sporrer, Fortaleza-CE – fev2022 

05- Negociação entre patrão e empregado é o mesmo que querer processar um juíz: o resultado é óbvio. Quanto ao assassinato do Mose, não sejamos inocentes,o tipo de rito da morte deixa bem claro as coisas em que ele estava envolvido, não precisa ser muito esperto pra notar isso. Não tem nada a ver com xenofobia e nem em cobrança de salário, não nos façamos de otários. Paulo Osni Silverio, Suzano-SP – fev2022

……. 06- “Presbiteriano, mas acima de tudo, pronto para servir à Deus e ao próximo.” Copiei isso de seu perfil no Facebook, Paulo Osni, para que todos possam saber que tipo de cristão você é. Quanto ao seu comentário, ele é tão vil que não merece resposta. RK

07- Excelente sugestão menino Kelmer. Fernando Câmara, Fortaleza-CE – fev2022 

08- A guerra civil brasileira é naturalizada, o estado mata, os patrões matam… Joel Moraes da Silva, Santos-SP – fev2022

09- 

10- 

 


Obituário de um verme

26/01/2022

26jan2022

Resistência Antifascista Olavo de Carvalho 1

OBITUÁRIO DE UM VERME

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Foi-se o guru do bolsonarismo. O nojento profeta do movimento antivacina. O religioso grosseiro, o fascista charlatão. O direitista arruaceiro, amante das armas e inimigo da democracia. O cristão que exaltava seu deus e que espalhava o ódio e incentivava a violência. Aquele que zombava dos mortos pela Covid-19. Morreu infectado por aquilo que negava. Morreu sem pagar o que devia. Morreu descartado, sem mais serventia, pelo genocida que ajudou a eleger. Morreu rastejando na lama podre na qual construiu sua reputação.

Olavo de Carvalho deixa órfãos seus acéfalos seguidores. Deixa enlutados jornalistas e entrevistadores que veem brilho na torpeza e na mentira. Deixa seu fétido exemplo de vileza, que, infelizmente, seguirá alimentando o fascismo destes tenebrosos dias.

O terraplanista será enterrado na Terra redonda. E nós seguimos na luta.

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Ricardo Kelmer 2022 – blogdokelmer.com

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> charge: Lafa

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As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

As duas mortes de Jail Bozonaro (Um futuro pela frente) – Após ter uma visão do futuro, Adélio quer impedir que Jail Bozonaro, um jovem e ambicioso capitão do Exército, não se torne presidente do Brasil

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01- Brilhante, brilhante! Jayme Akstein, Sidney-Austrália – jan2022

02- Texto completo. O ar se torna mais respirável sem ele. Karla Selene, Montes Claros-MG – jan2022

03- Aquele que foi um idiota para os filósofos e um filósofo para os idiotas. Xico Aragão, Fortaleza-CE – jan2022

04- #EX_CE_LEN_TE! Jose Antonio Nascimento, Fortaleza-CE – jan2022

05- Kkkk. Morreu feliz sentindose un héroe . zumbando dos que ficam. Triste realidade. Mauricio Centrone Ferreira, Chile – jan2022

06- Esse cara escreve maravilhas. Gisela Symanski, Porto Alegre-RS – jan2022

07- Seguimos na luta. @brigite_guardou, Fortaleza-CE – jan2022

08- Cova rasa, por favor…senão vai cair no espaço sideral e empestar o cosmos. Marcus Lima, Fortaleza-CE – jan2022

09- Gone too late! Jards Nobre, Fortaleza-CE – jan2022

10- Nesse momento Caetano Veloso é o único bom brasileiro a lamentar a morte do Olavo de Carvalho 😂. Claudio Oliveira, Fortaleza-CE – jan2022

11- A Terra ficou mais quente porque a porta do Inferno foi aberta para recebê-lo. Marcos Saudade, Fortaleza-CE – jan2022

12- Que ninguem esqueça de quem é quem no antes, durante e depois da era das trevas “verde amarelo”. Ivonesete Rodrigues, Fortaleza-CE – jan2022

13- Excelente texto. Concordo plenamente. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – jan2022

14- O Bial é mais idiota. José Anderson Freire Sandes, Juazeiro do Norte-CE – jan2022

15- Maravilha de texto! Francisco Tabosa, Fortaleza-CE – jan2022

16- Vc foi perfeito no seu texto, brilhante mesmo. Olivia Brasil, Fortaleza-CE – jan2022

17- Belo texto, meu caro. Romeu Duarte, Fortaleza-CE – jan2022

18- Complemetando: Vai agora tentar tornar plano o planeta Plutão. Fátima Landim, Fortaleza-CE – jan2022

 


Namoro

07/01/2022

07jan2022

Namoro 10

NAMORO

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Hoje, 7 de janeiro, é o seu dia. Parabéns a você, que namora, nesse jeitinho seu de namorar, com o que nós escrevemos. Feliz Dia do Leitor. 🙂

No namoro
Do olho com a palavra
Faz-se coito
O literato sentido

Quem lê
Bebe o doce prazer do texto
Que escorre do gozo
De ser bem lido

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Ricardo Kelmer 2012 – blogdokelmer.com

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OGozoDaLingua-1

O gozo da língua – Pela maciez sonora dos fonemas / De formas acetinadas / Que a língua deslize

Livros e odaliscas – Meia-noite. Volto do banho. Elas estão todas deitadas em minha cama, lânguidas odaliscas a me aguardar

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01- A leitorinha agradece! Gratidão também pela escrita que nos encantam e faz viajar. Renata Kelly, Fortaleza-CE – jan2022
 


Ano novo no país de Bolsonaro

02/01/2022

02jan2022

Ano novo no país de Bolsonaro 1

ANO NOVO NO PAÍS DE BOLSONARO

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Para quem tem fome
hoje é somente mais um dia
pior que o outro

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Ricardo Kelmer 2021 – blogdokelmer.com

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01- Imagem de doer a alma. Francisco Mota, Fortaleza-CE – jan2022

02- Verdade. Maria Ines Ramalho, Fortaleza-CE – jan2022

03- Revolta, e o Agro pop bombando. E a violência aumentando, como consequência. Tatiana Santos Moreira, Fortaleza-CE – jan2022

04- Infelizmente, é verdade! Leonor Oliveira Moreira, Fortaleza-CE – jan2022

05- Exatamente. Csta Lyju, Melbourne-Nova Zelândia – jan2022

 


Siga a estrela

24/12/2021

24dez2021

Natal PT Estrela 2

SIGA A ESTRELA

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A esperança é uma estrela
Reluzindo sonhos no céu escuro
Sim, roubaram nosso futuro
Mas se acreditarmos, ela nos guiará
Rumo ao país que queremos

Às vezes cansamos da luta
Tem dias que tememos perdê-la
Mas se seguirmos juntos, creia
A união firmes nos manterá
E mais forte brilhará nossa estrela

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Ricardo Kelmer 2021 – blogdokelmer.com

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As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

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Robinho, Bolsonaro, Deus e a cultura do estupro – Culpado por estupro, Robinho diz que Deus está no comando e que fará um gol para homenagear Jair Bolsonaro.

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01- FELIZ NATAL ! Grande esperança para 2022. LULA é a ESPERANÇA. ! Leonor Oliveira Moreira, Fortaleza-CE – dez2021

02- Verdade. Sandro Marcelino, Campina Grande-PB – dez2021

03- Feliz Natal! E 13! Celia Sporrer, Fortaleza-CE – dez2021

04- Hauhauahau 👏👏👏👏👏👏 Laura Maia Santos, Fortaleza-CE – dez2021

05- 👏👏👏👏👏👏👏⭐️ Sônia Castro, Fortaleza-CE – dez2021

06- 👏👏👏👏😍😍 Renata Lotfi, Fortaleza-CE – dez2021

07- Hasta la victoria!!! Edvaldo Junior, Fortaleza-CE – dez2021

08- Verdade, essa estrela maldita está bem retratada em apocalipse. 8.11.Tornou-se amargo um terço das águas, e muitos morreram pela ação das águas que se tornaram amargas. O nome da estrela era Absinto; e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas. Leôncio Carvalho, Manaus-AM – dez2021

09- “E eis que após a hora décima-terceira desceu dos céus um raio e fulminou aos ímpios que da estrela sagrada escarneceram, e de todo lado vieram homes e mulheres a celebrar com cânticos e vinho em abundância”. Malaquias, 13, 20-22. RK – dez2021 
 


O segredo de Fátima – Traída por Deus, no amor vingada

16/12/2021

16dez2021

O segredo de Fátima 02

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O Segredo de Fátima CAPA 1a> À venda na Amazon (kindle) ou direto com o autor (PDF). Entre em contato: rkelmer@gmail.com

Nessa história de fé, amor e traição, com toques de erotismo e suspense, Fátima é uma famosa cantora cristã, com milhões de discos vendidos e agenda repleta de apresentações. Seu empresário, Miltinho, rege sua carreira com dedicação e respeito. Porém, há segredos delicados nessa relação, e um acontecimento inesperado faz surgir novos e estranhos segredos.

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O SEGREDO DE FÁTIMA
Traída por Deus, no amor vingada

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Igreja da Pomba Sagrada do Paraíso. Ou Pomba Sagrada, como era mais conhecida. Funcionava no térreo de um prédio de salas comerciais. Foi lá onde Miltinho conheceu Fátima, ela na desabrochada flor de seus dezoito anos, ele nove anos mais velho. Ela no palco, linda e angelical, encantando a todos à frente do grupo musical da igreja. Foi paixão ao primeiríssimo olhar.

Na verdade, foi mais que isso. Naquele dia, enquanto Fátima cantava no momento do ofertório, Miltinho sentiu-se tomado por um sentimento avassalador, e ele compreendeu que aquilo era amor, o amor mais puro e sincero que um filho de Deus poderia ter. Enquanto regozijava-se, inundado de amor, ele viu um raio de luz fosforescente entrar pelo teto e iluminar a garota, e soube, por uma voz que ecoava dentro dele, que ela seria uma grande estrela da música, para a glória do Senhor. Tomado de êxtase, teve outra revelação divina, que o fez tremer por dentro: aquela mulher seria sua.

Quando terminou o culto, ele, ainda atordoado, saiu apressado em direção ao ponto de ônibus, nem se despediu dos irmãos e irmãs da igreja. No caminho para casa, repetiu cem vezes em pensamento a verdade que lhe fora revelada: Uma grande estrela… minha mulher…

Como, ainda na adolescência, fizera voto de castidade, Miltinho não tinha experiência com mulheres, era tímido. Simplesmente não sabia agir diante delas. Como se comportar com aquela que seria sua futura mulher?

Dias depois, na saída do culto, foi ela mesma quem deu uma mãozinha ao destino.

‒ Oi! Você é o Miltinho, né?

Ao vê-la caminhando bem ao seu lado, quase tocando-o, ele tentou responder, mas a voz não saiu.

‒ Prazer, Fátima.

Ele conseguiu apenas sorrir.

‒ Você é mudo?

‒ Na-não… ‒ ele conseguiu responder, gaguejando.

‒ É gago?

‒ Também-bém não…

Ela riu, achando graça do jeito dele. Muito simpática, perguntou se era verdade que trabalhava num estúdio de gravação. Miltinho confirmou, balançando a cabeça e sentindo uma gota de suor escorrendo pelo pescoço. Ela explicou: tinha o sonho de ser cantora profissional e queria gravar um disco, mas não tinha dinheiro. Ele, procurando controlar o nervosismo, perguntou se ela já havia falado com o pastor Genilson, talvez ele pudesse ajudar.

‒ O pastor disse que a igreja não tem dinheiro, mas vai orar por mim.

Após pensar um pouco, Miltinho falou que veria o que podia conseguir para ela.

Uma semana depois, a boa notícia para Fátima: Miltinho lhe informou que a dona do estúdio, uma mulher generosa e temente ao Senhor, concordara em não cobrar nada, desde que a produção se mantivesse numa faixa de preço razoável, e nem era necessário divulgar a marca do estúdio. Fátima ficou radiante de felicidade e o abraçou agradecida. Nessa noite, Miltinho não conseguiu dormir, ainda envolvido pelo abraço daquela que estava predestinada pelos céus a ser sua mulher.

Nas semanas seguintes, encontraram-se quase diariamente no estúdio para gravar as músicas, e nos intervalos tomaram café juntos. Ela lhe contou que era órfã e que morava com uma tia que não gostava dela, e que o que mais queria na vida era ser cantora profissional e espalhar a palavra de Deus pelo mundo. Contou também de seu voto de castidade, e nesse momento Miltinho teve ainda mais certeza de que estava diante de sua futura mulher, e que os dois findariam juntos seus votos de castidade, para a glória do Senhor.

O disco ficou pronto e o lançamento foi na Pomba Sagrada, e nesse dia Fátima deu-lhe um beijo no rosto. Em casa, em sua cama, Miltinho repassou a cena pela centésima vez, e a sensação dos lábios de Fátima tocando sua pele era como um fogo a lhe queimar por dentro, provocando-lhe desejos inconfessos que o impediam de dormir.

Fátima vendeu, ela mesma, seu disco para os fiéis da igreja e também nas praças e pontos de ônibus, e até apresentou-se em alguns programas de rádio e na tevê. Admirado com sua determinação, Miltinho torcia fervorosamente pelo sucesso da amada e até conseguiu vender alguns discos para os amigos.

Um dia, porém, Fátima descobriu a verdade e telefonou para ele.

‒ Você mentiu pra mim.

Do outro lado da ligação, Miltinho nada respondeu.

‒ Eu já sei, Miltinho.

‒ Sabe… o quê?

‒ Que o estúdio não patrocinou meu disco.

‒ Ahn… bem…

‒ Não minta, por favor.

‒ Na verdade… o estúdio fez um preço razoável pra mim… e o meu serviço não cobrei.

‒ Então… você pagou tudo?

‒ Bem… Não.

‒ Não minta, Miltinho, é pecado.

‒ Eu… ainda estou pagando.

‒ Por que fez isso?

‒ Desculpa… eu…

‒ Eu sei que você não ganha tanto assim.

‒ É que eu… tive uma revelação.

‒ Que revelação?

Miltinho respirou fundo. Já não podia mais esconder a verdade de sua amada.

‒ Fátima, você será uma grande estrela da música, para a glória do Senhor.

‒ Eu? Você está falando sério?

‒ Sim, pelo sangue derramado de Cristo.

Fátima estava pasma. Não sabia o que falar.

‒ Alguém precisava… apostar em você. Foi por isso que fiz o que fiz.

Não era uma mentira, era apenas uma meia-verdade, ou melhor, um terço da verdade. Os outros dois terços é que ele a amava e que ela seria sua mulher, estava escrito.

Fátima agradeceu por sua generosidade, e disse que o reembolsaria com o dinheiro dos próximos cachês e da venda do disco. Ele, porém, propôs que ela pagasse de outra forma.

‒ Como assim? ‒ ela perguntou, desconfiada.

Ele respirou antes de falar.

‒ Me deixe ser seu empresário.

‒ Você?

‒ Olha… eu… lá, no estúdio, converso muito com empresários de artistas ‒ ele prosseguiu, e agora não tinha outro caminho senão seguir ir em frente. ‒ Sei que posso conduzir bem sua carreira. Eu tenho todos os seus programas gravados, sabia?

‒ Sério?

‒ Sim. Sei o que você pode melhorar. Voz, postura, figurino, marketing…

Aquilo era interessante, pensou Fátima. E ele parecia sincero.

‒ O Senhor sabe que eu sou seu admirador número um. Desde o primeiro dia em que vi você cantando na igreja.

Fátima falou que pensaria no assunto. Nessa noite, Miltinho novamente não conseguiu dormir, o coração ribombando no peito.

O segredo de Fátima 02

A agonia durou apenas até o dia seguinte: para a imensa alegria de Miltinho, Fátima aceitou a proposta. E ela logo veria que fizera a escolha acertada. Dedicando-se totalmente a ela quando não estava no estúdio, Miltinho ajudou-a, entre outras coisas, a organizar a agenda de compromissos e as redes sociais, e ele mesmo vendia o disco nas apresentações que ela fazia. E foi dele a ideia de mudar seu nome artístico: agora, ela era Anja Fátima. Sua determinação em fazer-se cumprir o grandioso destino de sua amada só não era maior que a própria determinação dela de realizar seu sonho dourado.

Um ano depois, veio o segundo disco e as vendas aumentaram, e Anja Fátima começou a ficar conhecida não apenas na cidade, mas no país inteiro. A Pomba Sagrada ficou pequena para a multidão que comparecia só para ver a linda cantora da voz angelical. Logo, a agenda estava bastante movimentada e o cachê subindo mês a mês, e Miltinho precisou deixar o estúdio para dedicar-se integralmente à carreira de sua amada. Depois, veio o contrato com uma grande gravadora, o terceiro disco, mais shows, entrevistas, capas de revistas, o quarto disco…

Estamos agora na varanda de um belo apartamento. É a cobertura que Fátima comprou, com vista para o mar. Passaram-se cinco anos desde aquele dia na igreja em que ela o abordara. Fátima ofereceu um jantar para os amigos mais íntimos e, após todos irem embora, sobraram ela e Miltinho. Ele não bebia, mas ela insistiu, é só hoje, e é só uma tacinha… Então, na varanda, olhando a cidade dali do vigésimo andar, eles brindaram ao sucesso, ao novo apartamento e ao programa de tevê que ela apresentava, que estreara dias antes. Aos 23 anos, Anja Fátima era uma estrela.

Então, levado pelo vinho, Miltinho finalmente decidiu abrir seu coração para Fátima. Falou que a amava, amava em silêncio, mas muito, profundamente, como jamais amara ou amaria outra mulher na vida, e que naqueles cinco anos não deixou de desejá-la nem por um dia sequer, nem por um milésimo de segundo.

‒ Nem quando eu namorava o Cléber?

Cléber era o baixista da banda.

‒ Não.

‒ Nem quando eu namorei o Luizão?

Luizão era o baterista.

‒ Não. E nem quando você namorou o pastor Genilson.

Fátima estava impressionada. É verdade que foram namoros curtos, que sempre acabavam quando ela revelava que casaria virgem para a glória do Senhor, mas, mesmo assim, aquela declaração de amor merecia seu respeito.

‒ Agora, você sabe da verdade ‒ Miltinho prosseguiu. ‒ Se quiser me despedir, eu entenderei perfeitamente.

Ela olhou para ele emocionada. Sempre vira Miltinho como um grande amigo, um empresário amigo, e sempre entendera as suas atenções e cuidados para com ela como profissionalismo de sua parte, nada além disso. Mas, agora, sabedora de seus sentimentos, já não podia vê-lo com os mesmos olhos de antes. Agora, de repente, via-o como um homem muito especial.

‒ Miltinho, eu realmente nunca pensei que você sentisse isso por mim.

‒ Disfarcei bem, não?

‒ Muito bem.

‒ E então, estou despedido?

‒ Não sou louca de largar o melhor empresário do mundo.

Fátima tomou a taça de sua mão e a pôs sobre a mesa. E o abraçou.

‒ Esse amor bonito, que agora sinto bater em seu peito, é uma divina dádiva para mim ‒ ela prosseguiu, abraçada a ele. ‒ E eu prometo que saberei retribuí-lo com a minha melhor amizade e todo o meu respeito, para a glória do Senhor.

E assim ficaram, abraçados, até ela se afastar.

‒ Agora, um brinde a nós dois.

Miltinho olhou para a mulher à sua frente a lhe estender a taça. O vermelho vivo do vinho era a cor do seu desejo, que naquele momento fazia volume sob a calça. Ah, como desejava aquela mulher… Tantas e tantas noites acordado na madrugada, revirando-se na cama, lutando contra os pensamentos pecaminosos que o invadiam… Uma vez, num momento de fraqueza, quase quebrou seu voto de castidade com Lurdinha, uma irmã da igreja, e doía lembrar que chegaram a ficar nus na cama… Felizmente, no último instante, veio-lhe socorrer a certeza de que a mulher a quem entregaria a sua primeira vez não era Lurdinha, era outra, e ele venceu a tentação, para a glória do Senhor.

Agora, sua amada estava ali, dizendo que gostava dele apenas como amigo e parceiro profissional, sem nem imaginar o que ele passou naqueles cinco anos, o quanto lutou contra seus próprios desejos…

Agora, Fátima sabia de seu amor por ela. E se soubesse que estava destinada a ser sua mulher? Talvez isso facilitasse as coisas…

‒ A nós dois ‒ ele enfim falou, estendendo sua taça. E o tilintar dos vidros selou a continuação do compromisso iniciado cinco anos antes. Aquilo que só Miltinho sabia seguiria com ele, apenas com ele.

*     *     *

A vida, entretanto, reservava uma grande surpresa. E ela começou com sensações de fraqueza, câimbras e espasmos. Durante um ano inteiro, Fátima consultou vários médicos, até descobrir que era vítima de uma doença degenerativa rara, que não prejudicaria suas capacidades mentais, mas afetaria seus músculos e dificultaria cada vez mais os movimentos. Havia opções de tratamento, mas a cura era incerta.

O diagnóstico deixou Fátima muito abalada, e Miltinho mais ainda, embora tenha conseguido se controlar. Ele sabia que agora ela necessitaria dele mais que nunca. Então, mesmo com a resistência de Fátima, que não aceitava deixar de trabalhar, ele cancelou todos os compromissos profissionais, inclusive a gravação do quinto disco, para que se dedicassem totalmente à recuperação de sua saúde. Nas redes sociais, Anja Fátima anunciou ao seu querido público que interromperia por um tempo a carreira para fazer um retiro espiritual.

Dois anos após os primeiros sintomas aparecerem, de tentarem variados tipos de tratamento e verem que a doença evoluía ainda mais rapidamente, eles compreenderam que não havia mais o que pudesse ser feito. Então, decidiram mudar de ares e compraram uma casa na serra onde morariam juntos e ele poderia cuidar dela longe da imprensa bisbilhoteira e dos falsos amigos.

Fátima já estava com os movimentos do corpo bastante reduzidos e se cansava facilmente. Para Miltinho, assistir diariamente e de pertinho à decadência física da mulher que tanto amava era a maior das torturas, e à noite, após ela adormecer, ele ia para a varanda e permitia-se chorar, e rezava por horas, agarrado ao último fiozinho de esperança.

Um dia, ela o chamou ao quarto, onde, deitada na cama, via o vídeo do último show que fizera antes de interromper a carreira, um ano antes.

‒ Anja Fátima… É um bonito nome, não é, Miltinho?

– Sim, é lindo. Combina com você.

– Pena que não passa de uma ilusão.

Miltinho procurou algo para dizer, mas ela prosseguiu:

– Por que ele me deixou viver essa ilusão? ‒ ela perguntou, olhando a tela da tevê.

‒ Você sabe que não foi uma ilusão.

‒ Você sabe que foi, sim. Anja Fátima confiou nele, seguiu o caminho que ele indicou, um caminho de sonho, de felicidade… Pra quê? Pra, de repente, acordar nesse pesadelo real.

Miltinho entendia a revolta que ela sentia, e todos os dias rezava para que o Senhor a perdoasse por aquelas blasfêmias que ela dera para dizer.

‒ Mas eu gosto de rever as imagens dessa ilusão ‒ ela falou, e lhe apontou o controle remoto. ‒ Põe de novo, por favor.

Ele pegou o controle e pôs o vídeo no início. Mas ela já havia adormecido. Então, ajeitou sua cabeça no travesseiro e saiu para a varanda, onde as estrelas do céu o aguardavam para iluminar seu pranto.

Na semana seguinte, era aniversário dela, e ele pensou em comprar um bolo, e também trocar a cortina do quarto por uma mais alegre, mas Fátima o proibiu de falar ou fazer qualquer coisa que a fizesse lembrar da data. E ele obedeceu, agindo como se fosse um dia qualquer. E à noite, na varanda, chorou como jamais chorara em toda a sua vida.

No último dia do ano, após ajudá-la a tomar banho, vestiu-a e a pôs na cama. Cobriu-a com um lençol e ajustou a temperatura do ar-condicionado.

‒ Miltinho, vem cá.

Ele se aproximou e sentou ao seu lado.

O segredo de Fátima 02

‒ Você tem sido maravilhoso comigo, e eu tive muita sorte de ter você em minha vida. Quero te agradecer por tudo, mais uma vez. Obrigado.

‒ Não tem o que agradecer. Fiz tudo por amor.

‒ Espero que faça bom uso dessa casa, ela é ótima. E de todo o resto que vai herdar. Ainda tem um bom dinheiro na conta.

‒ Não vamos falar disso, por favor. Amanhã é ano novo e…

‒ Eu sei ‒ ela o interrompeu. ‒ E tenho um pedido especial pra fazer.

‒ Posso saber qual é?

‒ Deve, pois é pra você mesmo.

‒ Qual é?

‒ Eu não quero morrer virgem.

Miltinho achou que não escutara direito.

‒ Não entendi.

‒ Entendeu, sim. É o meu último desejo. Não seja cruel de negar.

Ele simplesmente não soube o que dizer.

‒ Ouviu, Miltinho? Sua amada não quer morrer virgem.

‒ Está na hora do lanche, vou pegar ‒ ele falou, levantando-se.

‒ Foda-se o lanche. Senta e me escuta.

‒ Fátima, você…

‒ Senta!

Ele suspirou e obedeceu.

‒ Tudo que eu quero é isso, não morrer virgem. E só você pode me ajudar. Entendeu?

Miltinho fechou os olhos, sentindo o coração disparar no peito.

– Você seria tão desumano a ponto de negar o último desejo de uma moribunda? Você quer ir pro Inferno?

Ele suspirou. Ele conhecia bem aquela determinação.

‒ Fátima, você está muito fraca, não percebe?

‒ Isso não vai me exigir muita força.

‒ Mas…

‒ Ficarei quietinha, é só abrir as pernas.

Ele virou o rosto, sem acreditar naquele diálogo.

‒ Miltinho, eu não quero e não vou virgem pro Céu. Pro Inferno, que seja. Não vou. Entendeu?

‒ Não fale assim, por favor…

‒ Então diga que vai me ajudar. E que vai guardar nosso segredo.

‒ Não posso… É pecado.

‒ Pecado foi eu ter economizado a buceta por todos esses anos pra glória do Senhor, isso sim. E o cu também. Porque você sabe que lá na igreja tinha muita irmã que era virgem só na frente, né? Faziam voto de castidade pela metade. Pois sim, agora que eu vou morrer, de que adiantou tanto sacrifício, heim?

Ele levantou e caminhou até o outro lado do quarto. A vontade do Senhor, afinal, se cumpria. Não exatamente da forma que ele imaginava, mas quem pode adivinhar os desígnios divinos?

‒ Tudo bem. Amanhã mesmo vou naquela igreja, eu conheço o pastor de lá.

‒ Fazer o quê?

‒ Vamos nos casar, ora. Pra que se cumpra a vontade do Senhor.

‒ Bem, isso era outra coisa que eu tinha pra dizer.

‒ Como assim?

‒ Não quero que seja com você.

Ele ficou olhando para ela, sem acreditar no que ouvira. Ela estava brincando, só podia estar.

‒ Estou falando sério. Quero que seja com outro homem.

‒ Mas… como assim?

‒ Outro homem. Você, não.

‒ Mas… por que não eu?

‒ Bem, não há outro modo de dizer isso. Eu quero que seja com um homem… do pau grande.

Ele sentiu-se desmoronar.

‒ Desculpa trazer a sua intimidade para essa conversa, mas foi o jeito. Eu sei do que estou falando. Lembra da Lurdinha, da igreja? Ela me contou.

Miltinho não sentia o chão. Precisou puxar a cadeira e sentar.

‒ Pague o que for necessário, entendido?

Miltinho já não escutava. Aquilo era um pesadelo.

‒ Você vai fazer isso por mim, não vai?

*     *     *

Miltinho foi ao balcão da cozinha, serviu uma dose de uísque e entregou o copo ao homem que o aguardava na sala, sentado no sofá. E sentou de frente para ele.

‒ Não vai me acompanhar? ‒ o homem perguntou.

‒ Eu não bebo.

Precisara ir a um prostíbulo na cidade vizinha para pedir informações às mulheres que lá trabalhavam. Indicaram aquele homem. Devia ter a sua idade, boa aparência, parecia ser confiável.

‒ Não sei se entendi bem a proposta. Você quer que…

‒ É exatamente o que falei ‒ Miltinho o interrompeu, um tanto impaciente. ‒ Quero que você seja o primeiro homem da minha mulher. Você só tem que ser cuidadoso com ela. E não estranhe se ela não se mexer muito, ela tem um problema muscular, mas está perfeitamente ciente da situação.

‒ Isso não vai me trazer complicação depois, né?

‒ Nenhuma, eu garanto. Aqui está o pagamento ‒ Miltinho entregou ao homem um envelope. ‒ E nessa sacola tem preservativo e lubrificante.

O homem abriu o envelope e conferiu. Ainda não acreditava que estava sendo pago para fazer aquilo. Bem, o que importava é que era tudo de comum acordo. E dentro daquele envelope tinha mais dinheiro do que o que ganhava no mês inteiro como garçom da pizzaria.

‒ Ela está aguardando ‒ disse Miltinho, levantando-se. ‒ É a terceira porta à esquerda. Não precisa bater.

Os trinta minutos seguintes demoraram mais que a eternidade inteira para Miltinho. Ele preferiu esperar no jardim, regando as plantas e tentando se entreter com as borboletas para não pensar no ciúme que naquele momento o corroía por dentro feito a lava ardente do Inferno.

Quando o homem surgiu na varanda, ele se dirigiu ao portão da casa e o abriu. O homem desceu o batente, caminhou até o portão e parou.

‒ Fique tranquilo, não foi minha primeira vez com uma virgem.

Miltinho fechou o portão e entrou na casa. Suas pernas levavam todo o peso do mundo.

Na penumbra do quarto, Fátima o aguardava na cama. Ela tinha os olhos fechados e respirava calmamente. Ele ligou o abajur e viu uma mancha escura no lençol.

‒ Não precisa me levar pro banheiro agora ‒ ela disse, sem abrir os olhos. Em seus lábios Miltinho percebeu um sorriso. ‒ Quero ficar assim mais um pouco. Por favor.

‒ Você está bem?

‒ Então era isso…

‒ Isso o quê?

O sorriso em seus lábios abriu-se como uma flor.

‒ O que eu estava perdendo.

*     *     *

O segredo de Fátima 02

‒ Aceita um uísque?

‒ Não, obrigado.

Miltinho sentou-se em frente ao homem, que o olhava curioso.

‒ Como já expliquei, quero que você transe com a minha mulher. Você tem apenas que ser cuidadoso. Se ela não se mexer muito, não estranhe, ela tem um problema muscular. Mas está perfeitamente ciente do nosso acordo.

‒ Entendido.

‒ Aqui está seu pagamento. Na sacola tem preservativo e lubrificante. É a terceira porta à esquerda. Ela o aguarda.

No jardim, regando as plantas, Miltinho suspirou. Ainda não acreditava que aquilo tudo estava realmente acontecendo. Seis meses antes, realizara o desejo de Fátima, do jeito que ela lhe pedira. Felizmente, tudo correu bem. Aliás, bem demais, pois Fátima melhorou, ficando mais disposta. Até voltou a sorrir. Ele, obviamente, ficou aliviado, e pensou que talvez aquilo não fosse, afinal, um pecado tão grande. O problema é que, três dias depois, ela disse que queria mais.

E assim foi que ele teve de especializar-se naquele novo ramo de atividade: selecionar homens do pau grande para satisfazer o desejo da mulher amada. Como ela mudara muito fisicamente após a doença, não havia risco de a reconhecerem. E quanto ao ciúme, acostumou-se com ele, fazer o quê?

Enquanto eram dois por semana, até que era tranquilo, mas logo depois eram três, depois quatro, e por fim, Fátima precisava de visitas diárias, pela manhã e à tarde, o que o obrigou a manter uma agenda muito bem organizada para revezar os visitantes ao longo do mês e não agendar por engano dois para o mesmo horário, embora desconfiasse que Fátima iria gostar disso.

Não era o pior trabalho do mundo. Os visitantes eram muito respeitadores e mantinham total discrição, até porque não é todo dia que se podia conseguir uma boa grana tão fácil. Alguns indicavam amigos e parentes para o serviço, o que Miltinho apreciava, pois lhe poupava trabalho.

– Sim, aceito indicações – ele respondia, pegando o caderno para anotar. – Só precisa ter o negócio grande.

*     *     *

Naquele domingo, Miltinho regava as plantas no jardim enquanto pensava no tempo. Um ano. Até o médico com quem conversou outro dia ficou surpreso. Um ano era uma sobrevida excepcionalmente longa para um paciente no estado em que Fátima se encontrava. Um caso raríssimo. Se eu fosse religioso, diria que é um verdadeiro milagre, dissera o médico. E ao ser perguntado se estava experimentando algum novo tipo de tratamento, Miltinho respondeu que não, que tinha certeza de que aquilo era um milagre, um lindo milagre para a glória do Senhor.

O que importava é que sua amada estava feliz, e isso lhe bastava. Mesmo muito magra, quase um graveto, precisando de ajuda para as mínimas tarefas e já sem conseguir falar, comunicando-se por sinais, Fátima estava feliz, e vê-la sorrir todos os dias era, para Miltinho, o sinal de que ele fizera o que devia fazer. Realizara o último desejo de sua amada. Bem, na verdade os últimos desejos. Para ser preciso, 576 desejos até aquele exato momento, o que significava que o saldo da conta estava pela metade do que era um ano antes.

Pensava nisso quando o homem surgiu à porta da varanda. Era a décima-quinta vez dele.

‒ Acho bom você ir ver sua mulher ‒ ele falou, sério.

Miltinho fechou o portão e foi para dentro da casa. Entrou no quarto devagar, como sempre fazia para não acordar Fátima. Ela estava deitada, os braços estendidos ao longo do corpo. E sorria. Ele já conhecia seu sorriso de felicidade, mas aquele era diferente. Era o sorriso da mais pura paz.

Ajeitou seu corpo magro em seus braços e foi com ela para o banheiro. Limpou-a bem, enxugou e a levou de volta para a cama, deitando-a com cuidado e acomodando a cabeça sobre o travesseiro. Observou aquele fiapo de corpo nu por algum tempo, enquanto uma lágrima escorria por seu rosto. Depois, estendeu a mão e fechou os olhos que ainda o olhavam sorridentes. E se despiu, sem qualquer pressa, posicionando-se a seguir sobre o corpo imóvel, com muito cuidado.

O domingo anoitecia quando Miltinho afastou as pernas de sua amada e fez cumprir-se a vontade divina.

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Ricardo Kelmer 2020 – blogdokelmer.com

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ILUSTRAÇÃO: Omnia Vanitas (“Tudo é vaidade”), 1848, de William Dyce (1806 – 1864)

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DICA DE LIVRO

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. > saiba mais

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Quarentena Erótica
Ricardo Kelmer – contos

Nos contos de Ricardo Kelmer, o erótico pode vir com variados temperos: romantismo, humor, misticismo, bizarro, horror… Às vezes, vem doce e sutil, ou estranho e avassalador, e às vezes brinca com nossas próprias expectativas sobre o que seja erótico. Explorando fetiches, fantasias, delírios e tabus, e até mesmo experiências reais do autor e de seus leitores, as estórias deste livro acabam de chegar até você para apimentar seus dias, e suas noites, de quarentena. > saiba mais

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Comentarios01COMENTÁRIOS

01- Muito bom! Clea Fragoso, Fortaleza-CE – dez20221

02- Dale, Kilmito, bacana o conto, a gente fica na expectativa de como vai finalizar, me lembrou algo de Ondas do destino, do Lars von Trier, mas claro q noutra pegada autoral, abç. André de Sena, Recife-PE – dez2021

03- Do caralho, o texto! Roberto Maciel, Fortaleza-CE – dez20221


Uma tarde na Pensão das Crônicas Dadivosas

01/12/2021

01dez2021

A casa recebe a todos os amantes da crônica, homens e mulheres, mas lá não posso ir, pois sendo eu o pai, as meninas não se sentiriam à vontade com minha presença

Uma tarde na pensao 1

UMA TARDE NA PENSÃO DAS CRÔNICAS DADIVOSAS

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Para onde vão as crônicas que começo a escrever e jamais termino? Vão para o Limbo das Crônicas, coitadas, e lá ficam a viver sua triste vida de quase ser, eternamente à espera de serem retomadas e concluídas. Melhor seria ir logo para o Lixão das Crônicas, o destino das que são definitivamente descartadas. Sim, pois no Lixão elas ao menos sabem que não estão mais em meus planos, e isso lhes deixa livres para fazer o que quiserem, tocar a vida, talvez recomeçar como um conto…

Recentemente descobri, veja você, que minhas crônicas que adoram se exibir vão para a… Pensão das Crônicas Dadivosas. É um palacete meio decadente, na saída da cidade. Dona Jovelina, minha professora do primário, a quem eu gostava de presentear com bobos poemas, é a senhoria da pensão, e lá ela recebe as crônicas recém-chegadas do interior. Do meu interior, claro. Algumas são virgens, nunca foram publicadas, mas há também as semivirgens, que se deram à vista apenas na intimidade do meu blog. A casa recebe a todos os amantes da crônica, homens e mulheres, mas lá não posso ir, pois sendo eu o pai, as meninas não se sentiriam à vontade com minha presença. Que pena.

Imagina se eu não iria… Claro que sim. Investi-me, pois, da melhor cara de pau e numa tarde dessas fui lá. Mas me disfarcei bem, pus cavanhaque postiço, chapéu, óculos escuros. Chegando à porta, me deu um nervoso e pensei em desistir, mas de uma janela no primeiro andar, duas moçoilas sorridentes acenaram para que eu subisse. E não resisti.

Simpática, dona Jovelina me recebeu e guardou meu casaco. Apresentou-me ao Belchior, um gato preto que veio me conhecer, e explicou que os clientes só pagam se sobem com as moças para os quartos. Ela serviu um Jack Daniel´s e me conduziu ao salão, onde me instalou numa confortável poltrona. Cumprimentei aos outros clientes que lá estavam e aguardei, bebericando uísque e ouvindo o pianista tocar uns blues.

Com o coração batendo forte eu as vi descendo a escada para nos receber, uma dúzia delas. Que notável visão! Eram as minhas meninas, tão mimosas… Logo, o salão estava tomado por conversas misturadas, risos à solta e copos tilintando em brindes ao som do blues. Era um tanto estranho ver minhas filhotas assim, tão oferecidas, insinuando-se generosas para desconhecidos, mas me senti orgulhoso delas. Em meu blog, elas podiam ser lidas por todos, sim, mas somente ali, de fato, elas eram inteiramente livres para praticar a arte da sedução para a qual deveras nasceram.

Identifiquei a todas facilmente, umas mais sérias, outras divertidas, algumas de trejeitos exagerados, outras mais tímidas… Aos meus olhos, eram todas igualmente encantadoras. Recebi convites para subir, mas recusei a todos, delicadamente, até que no salão restamos somente eu, o Belchior a lamber a patinha sobre o piano e o pianista tocando Divina Comédia Humana em sua homenagem. Não gostou de nenhuma das meninas, cara?, ele me perguntou, e eu não soube o que responder. Na verdade, esse senhor é apaixonado por todas elas, falou dona Jovelina, entrando no recinto. Enquanto sorria cúmplice e me entregava mais um uísque, emendou: Estou errada? Sorri de volta, concordando, e ela me fez sinal para segui-la. Enquanto subíamos as escadas, e Belchior a nos seguir os passos, sussurrou-me que as meninas não desconfiaram, mas ela sabia quem eu era e estava honrada por minha presença em sua casa. Agradeci, encabulado por ter sido descoberto.

Lá nos quartos, o que elas fazem?, perguntei. Ora, respondeu, elas se deixam ler, quantas vezes o cliente ou a cliente quiser. E contou que naquela manhã chegara uma nova inquilina, que eu deveria vê-la. Então levou-me ao quarto do fim do corredor e abriu a porta lentamente. Na penumbra, vi uma jovem deitada na cama a dormir. Não reconhece?, chegue mais pertinho… Aproximei-me da cama. Dona Jovelina puxou o lençol e o corpo da menina surgiu, nu e encolhido, a pele branquinha, o cabelo negro em mimosos caracóis a emoldurar-lhe o rosto suave. Era linda… Ressonava como o som da brisa nas folhas da mangueira, e o perfume que exalava tinha o doce frescor das novidades. Sim, eu a conhecia, surgira na semana anterior, e desde então rondava insistente meus pensares. A senhoria explicou que ela era ainda uma promessa, mas que esperava para breve a sua gloriosa estreia na casa. Contamos com você, beibe, ela disse, beliscando minha bochecha. Miaaaau, disse Belchior, reforçando o compromisso, enquanto saltava e se aninhava ao lado da menina adormecida. Prometi que faria o possível para não decepcioná-los.

Assim sendo, aos amigos e amigas amantes da crônica comunico em primeiríssima mão que tem novidade na Pensão. Apareçam qualquer dia para conhecê-la. O uísque é por minha conta.

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Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro Pensão das Crônicas Dadivosas

Nesta seleção de textos, escritos entre 2007 e 2017, Ricardo Kelmer exercita seu ofício de cronista das coisas do mundo, ora com seu humor debochado, ora com sobriedade e apreensão, para comentar arte, literatura, comportamento, sexo, política, religião, ateísmo, futebol, gatos e, como não poderia deixar de ser, o feminino, essa grande paixão do autor, presente em boa parte desta obra. SAIBA MAIS

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CASA DE ENY

Eny Cezarino Bordel 01

Eny Cezarino (1916-1987) – Biografia de Eny Cezarino

Bordel da Eny Cezarino – Livro narra a trajetória da cafetina Eny Cezarino e seu famoso bordel (Folha de São Paulo)

O pecado morava na “Casa de Eny” – Matéria do O Estado de São Paulo

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Diga a senha

03/11/2021

03nov2021

Muitas vezes na vida não percebi que a senha é mais simples, bem mais simples

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DIGA A SENHA

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Paternidade. Acho bonito. Mas ela sempre soou como uma camisa de força para os meus anseios de voar no imprevisível dos ventos aí pelo meio do mundo. É, não tive filhos… Mas, como Manuel, o Bandeira, trago dentro do peito meu filho que não nasceu.

Felizmente, a vida me deu seis sobrinhos. Quando era pequeno, o mais velho, Levy, que já passou dos 30, começou a me chamar de Dedéi e o apelido familiar ficou. Para os amigos, sou Ricardo, Rica, Kelmer, Kelmito, Kelmérico, Mizifio… Para os sobrinhos, Tio Dedéi, o fulerage.

É assim que também me chama o Caio, que eu chamo de Caiote. Ele tem 9 anos, morou por 4 anos em Portugal com a mãe e recentemente retornou ao Brasil. Quando brincamos de luta, ele é o SuperCaiote. E quando veste sua camisa do Fortaleza, se transforma no SuperCaiote Tricolor, para imenso orgulho do tio. Em breve, iremos juntos ao estádio. Duro vai ser convencê-lo a não levar o tablet.

Um dia, quando ainda era bem filhote, ele passava pela sala e o irmão Levy barrou-lhe a passagem com a perna, e lhe falou, todo sério: “Diga a senha”. Sem entender que nova brincadeira era aquela, Caiote respondeu o que lhe pareceu óbvio, em sua sábia inocência: “A senha”. Levy caiu na gargalhada e liberou a passagem. Quando ele me contou, ri muito também, e achei aquilo de uma simplicidade e profundidade geniais, e desde então adoro barrar a passagem do Caiote e lhe pedir que diga a senha. Ele diz “A senha”, eu libero a passagem, ele passa e pode o mundo enfim seguir seu rumo, liberto do súbito atravanco que um tio e seu sobrinho amado, que não têm nada melhor para fazer, lhe causaram.

Corta para mim, eu aqui costurando esta croniqueta e matutando… Muitas vezes na vida não percebi que a senha é mais simples, bem mais simples. Que a resposta certa era tão óbvia que não me dei conta, e fiquei preso a questões e subquestões que são lindamente filosóficas, mas não têm o poder de subir a cancela e me deixar passar. Infelizmente, devo ter perdido muito tempo e energia, e estragado relacionamentos, e desperdiçado oportunidades, complicando a obviedade das coisas. Putz…

Caiote, você vai crescer, em breve será adulto, e eu estarei velho. Provavelmente, morrerei primeiro, de curva no caminho ou de punhal de amor traído, não sei. Mas até lá, você aguente, pois continuarei sendo o Tio Dedéi fulerage a lhe barrar a passagem e pedir a senha. Só para ver você respondendo outra vez de novo “A senha”. Só para eu nunca mais esquecer daquilo que um dia você, sem querer, me lembrou, e que o corre-corre da vida sempre quer me fazer esquecer. Que a simplicidade é a última das estações.

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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Momentos felizes 01

Momentos felizes – Se tem uma coisa que não é nada criteriosa em relação aos atributos dos candidatos, é a felicidade. Qualquer idiota pode ser feliz

Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

Maluquice beleza – Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra

Dez segundos para ser feliz – Seus olhos continuam sorrindo mesmo quando ela conta, sem pudor, das imensas bobagens que fez em nome de sua busca por felicidade

Carma de mãe para filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

Insights e calcinhas – Uma calcinha rasgada pode mudar a vida de uma mulher? Ruth descobriu que sim

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Bilaus saidinhos

25/10/2021

25out2021

Acontece todo dia: o cidadão se descuida e, pronto, lá está o danado se enxerindo pelas brechas, observando o movimento do mundo

BILAUS SAIDINHOS

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Tem muito bilau saidinho nesse mundo. Aposto como você já viu pelo menos um, não viu? Pode falar, tenha vergonha não. Acontece todo dia: o cidadão se descuida e, pronto, lá está o danado se enxerindo pelas brechas, observando o movimento do mundo. Tadinhos, eles também têm direito a dar uma escapulida, saber das novidades, né, trabalham tanto… Bem, há os que já se aposentaram, é verdade, mas esses também merecem, como os idosos que ao fim da tarde sentam-se à varanda para pegar uma fresca e espiar o povo que passa.

Por isso, mizifia, da próxima vez que você flagrar um desses bilaus saidinhos, cumprimente, diga um oi. É um gesto distinto.

Sugestões para puxar um papo:

“Oooiii! Como você se chama? Quantos anos você tem?”

Ou: “Ei, sabe a senha do wifi?”

Ou então: “Você vem sempre aqui? Parece de fora.”

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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LEIA NESTE BLOG

O verme incansável e os grilos zumbis – O nematomorfo fará de um tudo para alcançar seu objetivo

Águas entre nós – O rio Minho é a fronteira entre o português e o galego

Namoro ao entardecer – Elas trocam juras roçando-se com seus galhos e soltando as folhas como doces beijinhos largados

A primeira namorada – Minha primeira namorada foi uma boneca chamada Amiguinha

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O GPS de Ariadne

22/09/2021

23set2021

o-gps-de-ariadne-02

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O GPS DE ARIADNE

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Ariadne leu, num livro de contos, uma história sobre uma mulher que era praticante de fisting. Taradinha como é, ela logicamente ficou muito curiosa. Desde então, passou a me pedir sempre pra enfiar a mão em sua buceta, e logo essa prática estava devidamente incluída em nossas transas. Com o tempo, eu conseguia meter a mão até o punho, deixando de fora só o relógio, e minha amante ficava excitadíssima, e adorava se masturbar com a minha mão toda dentro dela. Ah, eu achava incrível aquela sensação de ter a mão inteira dentro de uma mulher.

Passamos umas semanas sem nos vermos. Quando nos reencontramos, ela me disse no ouvido: Amor, enlargueci minha buceta, quer conferir? Claro que eu quis. Em seu apartamento, deitada na cama, as pernas abertas, ela pediu que eu lhe enfiasse uma laranja. Obedeci. E a laranja entrou toda em sua buceta, uau… Depois, tirei a laranja e ela me entregou uma manga. Tem certeza?, perguntei, temeroso, era uma manga enorme. Ela tinha. Eu obedeci. E a danada da manga entrou toda, sumindo lá dentro. Caramba. Como estava madura e suculenta, fiz um furo na ponta e chupei a manga assim mesmo, como se chupasse suco de manga diretamente da buceta de Ariadne. Olha, foi algo indescritível. Nessa noite, minha amante foi uma mangueira deveras generosa. Felizmente, ela não pretendia experimentar com um abacaxi.

Ariadne continuou praticando, e um dia me pediu pra enfiar as duas mãos. Não acreditei que seria possível, mas topei a parada, aquilo tudo me excitava muito também. E nessa noite vi, com meus próprios olhos, as minhas mãos, as duas juntas, palma com palma, sumirem inteiras dentro dela. E ela ainda pediu pra eu fechá-las. E eu obedeci. Quer ver como foi, quer? Tô falando com você, você mesmo, que agora me lê. Quer ver como foi? Junte as palmas de suas mãos, como se rezasse. Juntou? Agora, una os antebraços. Uniu? Agora feche as mãos, mas não com os dedos entrelaçados, feche as duas separadamente. Pois bem, era isso que estava no interior da buceta de Ariadne, duas mãos fechadas pra seu imenso prazer, e pro meu total encantamento. Incrível, não? Mas o próximo nível seria ainda mais incrível: ela um dia exigiu que eu lhe enfiasse o pé, eu que calço 43. Animado, cortei as unhas, lavei bem lavadinho e, ploft, enfiei o pé na jaca de Ariadne, e ainda mexi os dedos, pra total delírio dela, e meu também.

Achei que ela havia atingido seu limite no fisting, porém uma noite… Eu estava chupando sua buceta e ela, com as duas mãos, me puxava a cabeça ao seu encontro. Minha língua foi entrando, entrando, e meu nariz foi entrando, meu queixo, meu rosto, e de repente lá estava meu rosto inteiro dentro de Ariadne, e ela forçando minha cabeça pra dentro, forçando, até que quando restavam apenas as orelhas de fora, ela perguntou se eu topava entrar de vez. Fiz sinal de positivo com o polegar e… pufff, minha cabeça entrou, entrou inteiramente em sua buceta, até o pescoço. Uau. Aquilo era absolutamente incrível. Nesse momento, porém, me assustei, e comecei a sentir uma espécie de vertigem. Tentei puxar a cabeça, mas não consegui, as mãos de Ariadne não permitiam, e enquanto eu sentia faltarem as forças, percebi que ela estremecia, estremecia cada vez mais, até que ela se sacudiu que nem uma máquina de lavar descontrolada, e eu apaguei.

Quando despertei, estava tudo escuro e silencioso à minha volta. Onde diabos eu estava? Tenho pavor de escuridão, e aquele era o lugar mais escuro do mundo. E também era quente e úmido. Pus-me de pé, mas o chão era mole e irregular, e perdi o equilíbrio, caindo de joelhos. Procurei no bolso o meu celular, pra iluminar aquele lugar estranho, mas eu estava nu. O lugar tinha um cheiro familiar… Era o cheiro da buceta de Ariadne. Eu estava dentro da buceta da minha amante?! Caramba… Então, lembrei de nossa transa, minha cabeça entrando… Eu havia caído dentro dela, que loucura… Comecei a gritar, Ariadne!, Ariadne!, mas apenas o eco me respondeu. Me veio a lembrança de Jonas dentro da baleia… Será que ela sabia que eu estava lá dentro?

Tentando controlar o pavor, comecei a caminhar, precisava logo encontrar a saída. Mas, e se eu tomasse a direção errada? E se desse de cara com um óvulo tarado querendo ser fecundado? Será que ele me confundiria com um espermatozoide? Tentei lembrar das aulas de biologia, a anatomia feminina. Mas não lembrei de nada, a não ser da minha irritação por ter que decorar onde ficavam as tubas uterinas se aquilo era uma informação que eu jamais, em toda a minha vida, precisaria usar ‒ a não ser, é claro, se eu um dia caísse dentro da buceta de uma mulher. Tubas uterinas, eu não quero ir pra esse lado aí não!, gritei, e o eco apenas gozou da minha cara: pra esse lado aí não, lado aí não, aí não…

Parei de caminhar e tentei me acalmar, precisava me concentrar. Se eu alcançasse o estômago, poderia escalar o esôfago e sair na garganta, e Ariadne me vomitaria. Mas acho que a buceta da mulher não se comunica com o estômago, é mais provável que se ligue ao coração. Mas o que eu faria no coração de Ariadne, ela nunca me quis lá. Melhor pensar um pouco mais. Talvez ela logo sentisse vontade de mijar, ou menstruasse, e aí eu aproveitaria a corrente e sairia daquele labirinto. Seria perfeito… se eu não morresse afogado. Melhor não arriscar.

o-gps-de-ariadne-02Caramba, ali estava eu, sozinho e perdido numa caverna escura, sem ideia de como sair. Lembrei de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra… Lembrei de Jung e seu inconsciente coletivo… E se todas as bucetas fossem interligadas? Tipo assim: na verdade, uma buceta é apenas a porta de entrada de um complexo e misterioso sistema subterrâneo de túneis e galerias, o que permite que você entre em uma buceta e saia em outra. Hummm, não seria de todo ruim, mas melhor também não arriscar, vai que eu entro numa buceta qualquer por aí e saio justo na de minha mãe, já pensou, nascer de novo a essa altura do campeonato?

Enquanto analisava as possibilidades, tudo em volta se mexeu e caí novamente. Tentei me levantar, mas tudo se mexia, que negócio era aquilo, um terremoto vaginal? Então, de repente, póim, fui atingido na cabeça por um… por uma… que diabo afinal me atingira? Fiquei quieto na escuridão, esperando, e a coisa me atingiu novamente, póim. E de novo, e mais uma vez, póim, póim, e cada golpe me empurrava mais longe… Putz, aquilo era um pau! Alguém estava comendo a Ariadne. Póim, póim, póim. E comendo com vontade. Quem seria? Lembrei do Janjão. Caramba, Ariadne, qualquer um, menos o Janjão, por favor. Mas bem podia ser o Janjão, sim, Ariadne sempre teve queda por esses tipos xexelentos. Morrer dentro de uma buceta não seria um triste fim, mas esmagado logo pelo pau do Janjão?

Não, uma mulher não seria tão tarada a ponto de dar pra um cara com outro dentro dela. Ou seria? Bem, talvez Ariadne quisesse justamente me socar bem pro fundo dela, de onde eu jamais pudesse sair. Seria Ariadne, na verdade, uma devoradora de homens, que havia treinado alargamento bucetal como parte de seu maquiavélico plano de prender seus amantes dentro dela? Mas pra quê? Talvez pra nos exibir em despedidas de solteiras, sim, era bem possível, ouvi falar que rola de tudo nessas festinhas. E como ela nos alimentaria? Jogando quentinhas lá dentro? A minha sem farofa, por favor. Pelo menos nos daria de vez em quando umas cervejas? Abriria uma brecha aos domingos pra gente poder ver o futebol?

Só me restava uma opção: me agarrar ao pau do Janjão, se é que era o pau dele, e aguentar firme até a hora do desgraçado resolver sair, e torcer pra sair logo, se bem que pelo que eu conhecia da Ariadne, ela não deixava ninguém sair antes de pelo menos umas quatro horas. Apavorado com a possibilidade de ter me tornado vítima de uma cruel buceta engolidora de homens, e não aguentando mais aquela cobra caolha me encher de porrada, póim, póim, póim, me agarrei nela com todas as minhas forças, segurei o ar e me deixei levar…

Quando abri os olhos, estava na cama, ao lado de Ariadne.

‒ Tá tudo bem, gato?

‒ Cadê o Janjão? ‒ perguntei, procurando embaixo da cama.

‒ Sei lá, por quê?

Aos poucos, me acalmei, estávamos no quarto dela, e não havia ninguém além de nós dois.

‒ Você foi muito fundo. Tive que te puxar com meu vibrador.

Ah, foi com o vibrador, ufa. Caramba, que aventura louca…

‒ Você gostou do meu interior?

‒ Foi um tanto assustador. Mas… até que foi emocionante.

‒ Eu adorei. Vamos fazer de novo na sexta?

‒ Tá, pode ser. Mas vou entrar com um GPS.

‒ Pra quê?

‒ Pra não me perder, ora.

‒ Alôôôu… Lá dentro não tem sinal, gato.

‒ Sério? Por quê?

‒ Pergunte pra Natureza.

‒ Ah, não. Sem GPS eu não entro.

‒ Homem é muito medroso mesmo.

‒ Vocês é que são grandes demais.

(Este conto integra a série Interações da Sacanagem, com contos baseados em termos de busca no Blog do Kelmer. Divirto-me bastante vendo os termos que as pessoas usam nos mecanismos de busca e que as fazem chegar em meu blog. Termos deste conto: contos enlargueci minha buceta enorme.)

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Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

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Este conto integra os livros

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. > saiba mais

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Quarentena Erótica
Ricardo Kelmer – contos

Nos contos de Ricardo Kelmer, o erótico pode vir com variados temperos: romantismo, humor, misticismo, bizarro, horror… Às vezes, vem doce e sutil, ou estranho e avassalador, e às vezes brinca com nossas próprias expectativas sobre o que seja erótico. Explorando fetiches, fantasias, delírios e tabus, e até mesmo experiências reais do autor e de seus leitores, as estórias deste livro acabam de chegar até você para apimentar seus dias, e suas noites, de quarentena. > saiba mais

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