A garota da lua nova

15/01/2019

15jan2019

A GAROTA DA LUA NOVA

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Quando deu por si, Tamara percebeu-se numa cama, deitada e nua. E tudo era uma escuridão só. As lembranças chegaram lentamente, confusas… o bar lotado, uma garota bonita dançando com ela, o convite para esticar a noite… as duas chegando ao prédio, tudo escuro pela falta de energia, ninguém na portaria… depois a escuridão do apartamento, a ansiedade das mãos e das bocas, a língua sinuosa entre suas pernas…

O súbito contato com um corpo ao lado fez Tamara estremecer, interrompendo suas lembranças. Um corpo de mulher, cabelos longos… Estava quieta. Parecia dormir profundamente. Pensou consigo: Caramba, Tamara, de novo você exagerou nas caipirinhas!

Levantou-se com cuidado, deu a volta na cama e alcançou a janela. Após abri-la, sentiu o vento frio da madrugada arrepiar-lhe a pele. A rua estava escura, pelo jeito a energia ainda não voltara. Procurou pela lua, em vão. Era lua nova. Viu a antena de tevê piscando ao longe e teve uma noção de onde se encontrava, um pouco longe de casa. Pela altura, deduziu que estava no quinto ou sexto andar daquele prédio.

Tamara pressionou o interruptor na parede, só para ter certeza, e a luz não se acendeu. Aproximou-se da mulher que dormia, o corpo nu atravessado na cama. Pelo pouco de luz que vinha da janela pôde ver que era uma garota, um pouco mais nova que ela, uns vinte e poucos. Feições suaves, cabelos negros muito longos, a pele clara. Tão linda e desejável… Não lembrava seu nome, mas tinha a impressão que começava com B. Obrigado por me trazer em tua casa, garota bonita…, falou baixinho, enquanto afagava-lhe o rosto e lembrava outra vez do que fizeram momentos antes naquela cama. Pousou um leve beijo sobre os lábios entreabertos e a garota mexeu-se um pouco, mas continuou dormindo, ressonando suavemente. Procurando por algo para cobri-la, por causa do frio, Tamara percebeu que estavam diretamente sobre o colchão, sem lençol. Melhor fechar a janela.

Após catar suas roupas pelo chão, vestiu-se e calçou os tênis. Tentou ver a hora no celular, mas a bateria havia descarregado. Talvez quatro ou cinco da manhã, calculou, hora de mulheres mal comportadas voltarem para casa, né, Tamara?… Então foi ao banheiro e da bolsa tirou um batom. Tateou até encontrar a pia, e logo acima, o espelho. E nele escreveu, letras vermelhas: “Adorei a noite!” Assinou seu nome e deixou o batom na pia, um presente para a garota bonita que tanto prazer lhe proporcionara.

Era uma quitinete pequena, constatou Tamara enquanto buscava a porta para sair. No caminho, esbarrou numa mesa e quase caiu. Por fim, abriu a porta, conferiu o número 513 com  a ponta dos dedos e desceu as escadas, o máximo de atenção para não cair. Na portaria, iluminada pela luz da lanterna que o porteiro empunhava, perguntou o endereço do prédio e chamou um táxi. Estava cansada, só queria sua cama e dormir.

No dia seguinte, nenhuma mulher desconhecida a adicionou nas redes sociais. Nem no outro dia. E nem depois. Tamara sentiu-se frustrada. No meio da aula, pegava-se lembrando dos detalhes da noite. Em sua cama, naqueles instantes que precedem o adormecer, era a imagem dela que flutuava à sua frente, bela e delicada, chamando-a…

Com uma semana, Tamara não aguentou mais. Precisava rever a garota, saber quem era ela. Desejava novamente seus beijos, o cheiro gostoso de sua pele. Ansiava por saber do que gostava de fazer, além, é claro, de seduzir mulheres bêbadas pelos bares. Então, voltou ao prédio.

É onde ela está. Exatamente agora. Na portaria do prédio onde esteve uma semana antes. São cinco e meia da tarde de uma sexta-feira. Ela repara que o porteiro é o mesmo da outra noite.

– Por favor, avisa no 513 que Tamara está aqui.

O porteiro, ocupado com uma senhora que reclama de um vazamento, apenas estende a mão e lhe entrega uma chave. Tamara fica olhando para ele, sem entender.

– Pode subir, moça – ele diz, apontando o elevador.

Tamara caminha até o elevador. Será que a garota a viu chegando da janela e avisou ao porteiro? Se foi isso, então já tô apaixonada.., diz para si mesma, sorrindo e ajeitando o cabelo no espelho do elevador.

Ela mete a chave na fechadura, gira e abre a porta. Agora, à luz do dia, percebe que o apartamento é um vão mobiliado apenas com uma mesa pequena, duas cadeiras, uma cama de casal e um guarda-roupa. Na cozinha ao lado, ou no espaço que poderia ser a cozinha, nem geladeira, nem fogão.

– Alôôô… – ela fala, anunciando-se. Mas ninguém responde. Num primeiro momento, pensa que errou de apartamento. Mas não, é esse mesmo, quinto andar, fim do corredor à esquerda. – Cadê você, garota misteriosa? – ela pergunta num tom infantil, talvez a garota esteja fazendo uma brincadeira com ela. E novamente o silêncio é a resposta.

Que estranho, Tamara pensa enquanto observa que no apartamento não há nada pessoal, nenhum objeto, nenhuma foto. No banheiro, nenhuma toalha, nada. No guarda-roupa, apenas cabides pendurados, nenhuma roupa. Na cama, somente o colchão, sem lençol. Como se ninguém vivesse ali. Ela abre a janela e reconhece a paisagem de prédios ao redor, a mesma que observara naquela noite uma semana antes.

Neste momento, escuta algo e sai para ver. No início do corredor, ela vê a porta entreaberta de um apartamento. De lá alguém a observa, o rosto meio escondido pela porta. Parece ser uma garota.

– Por favor, você conhece a moça que mora…

Mas a porta se fecha e ela fica sem resposta. Povo desconfiado…, pensa Tamara. Um minuto depois está novamente no térreo.

– Por favor, como se chama a dona do 513? – pergunta ao porteiro.

– Não é dona, é dono. Seo Laurindo.

– E a garota que mora lá?

– Lá não mora ninguém, moça. Seo Laurindo botou pra alugar faz seis meses.

– Seis meses? O senhor tem certeza?

– Sim. Mas ainda não alugou.

– Mas… não pode ser… – ela murmura, confusa. – Semana passada eu vim aqui. Estava faltando energia, o senhor me viu sair, tá lembrado?

O porteiro olha para ela com atenção.

– Ah, agora reconheci. Pediu um táxi, não foi?

– Sim, e eu cheguei com uma garota. Achei que ela morasse lá no 513.

O homem franze a testa. Agora parece bastante curioso.

– Olhe, moça, aquele apartamento tá vazio faz um ano. Quem morava lá era dona Brenda.

– Brenda? Como ela é?

O porteiro interrompe a conversa para atender o carteiro que chega com correspondências. Tamara aguarda, impaciente, que o homem vá embora.

– Ela é branquinha, cabelo preto grandão, aqui na cintura? – Tamara insiste. – Mais nova que eu?

– Sim, mas…

Ele não continua. Olha para Tamara, observando-a atentamente, como se procurasse entender o que podia haver por trás daquelas perguntas todas.

– Dona Brenda morreu faz um ano.

Tamara acha que ouviu errado. Só pode ter ouvido errado.

– Morreu?

– Acidente de carro.

– Mas…

– Por isso o pai dela alugou o apartamento.

Tamara tenta organizar as ideias, mas nada daquilo faz sentido. O prédio era o mesmo, o apartamento também, o mesmo porteiro, e ele a reconhecera. Não estava ficando louca. Estivera ali na semana anterior, sim. E transara com uma garota, naquela cama de casal, a cama sem lençol…

– Tá tudo bem, moça?

– Ahn… mais ou menos… – ela balbucia enquanto procura o celular na bolsa para chamar um táxi. Mas não encontra. – Esqueci o celular no apartamento. Vou lá pegar, é rapidinho.

Novamente o elevador, subindo até o quinto. Novamente o corredor, o apartamento do fim à esquerda. Mas dessa vez Tamara está com medo. Não sabe se conseguirá ir até lá. Morta? Como assim, morta? E se o porteiro estiver brincando com ela? E se tudo aquilo for uma pegadinha de mau gosto? E se, na verdade, naquela noite chegou ali sozinha, deitou-se na cama e sonhou que havia uma garota com ela? Não, claro que não, como teria conseguido a chave para entrar?

Durante um eterno minuto ela experimenta todas as explicações possíveis, mas nada faz sentido. Tudo que sabe nesse momento é que precisa ir lá e pegar seu celular. Então enche-se de coragem e caminha o mais firme que pode em direção ao 513.

Abre a porta devagar. Aguarda um pouco. O silêncio do apartamento parece envolvê-la num abraço opressor. Lá está ele, o celular, sobre o colchão da cama. Ela caminha até lá, pisando com cuidado, devagar, atenta a tudo. A imagem da garota deitada na cama não lhe sai da mente. Morta? Um ano antes?

Tamara apanha o aparelho. Suas mãos tremem, e o celular escapole, quase cai no chão. Nunca mais entrará naquele prédio outra vez. Nunca mais passará nem em frente. Ela se vira para sair, mas… ao lado, o banheiro, a porta aberta… Ela se sente atraída. Precisa ir lá. Então, entra no banheiro, olha o box, a cortina de plástico transparente. Do outro lado, a pia, o espelho… Ela evita olhar para o espelho. Mas a curiosidade é maior. Ela olha. E o que vê é o seu rosto refletido, o olhar nervoso, mas isso dura apenas um segundo, pois imediatamente percebe… algo escrito na superfície do espelho…

Tamara se aproxima para ler. Entre ela e a imagem refletida de seu rosto, uma frase, em letras vermelhas. Mas não é a frase que escreveu na outra noite. É outra frase: “Também adorei, Tamara. Te espero na lua nova.”

Dentro da pia, ela reconhece, imobilizada de pavor: o batom. O seu batom.

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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Trilha sonora do conto A Garota da Lua Nova

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Este conto foi originalmente escrito para o livro Penas, Fluidos e Bisturis, organizado por Rogério Bessa Gonçalves. A obra contém contos e poemas criados a partir de desenhos de Rogério. Eis o desenho no qual foi inspirado o conto A Garota da Lua Nova:

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DICA DE LIVRO

Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos
Ricardo Kelmer – contos
Fantástico, terror, ficção científica

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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LEIA NESTE BLOG

NoOlhoDaLoucura-01aNo olho da loucura – Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

Minha noite com a Jurema – Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

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Jesus e a pecadora do pé de goiaba

13/12/2018

JESUS E A PECADORA DO PÉ DE GOIABA

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Eis que naquela tarde, a caminho de Cafarnaum, Jesus passou embaixo de um pé de goiaba e viu uma mulher lá em cima.

‒ Ei, mulher, o que tu tá fazendo trepada aí nesse pé de goiaba?

‒ Senhor Jesus!!! Não acredito!

‒ Eu mesmo. Em chaga e osso.

‒ Senhor, o Senhor é tão lindo…

‒ Te orienta, doidinha. É pecado imaginar conjunções carnais com o Filho do Homem.

‒ Eu vim me matar, Senhor.

‒ Nenhum motivo justifica tirar a vida que o bondoso Pai Celestial nos deu. Principalmente trepada num pé de goiaba.

‒ É que eu descobri algo terrível, Senhor. Eu sou a cara da Regina Duarte misturada com a Janaína Paschoal.

‒ Hummm…. De fato, é um bom motivo.

‒ O Senhor é tão lindo…

‒ Como é teu nome, pecadora?

‒ Damares, Senhor.

‒ Eu perguntei o nome, não o apelido.

‒ É Damares mesmo, Senhor.

‒ O caso é grave. Pera que eu vou subir aí.

‒ Não! O Senhor não sabe trepar em pé de goiaba!

‒ Que sabes tu das minhas capacidades trepadeiras, ô atordoada?

‒ Tenho medo do Senhor se machucar, já lhe machucaram tanto na cruz…

‒ Criatura, tu tá duvidando dos meus poderes? Por acaso não lestes na Bíblia que eu amaldiçoei uma figueira e a desgraçada nunca mais deu frutos? Se eu quiser, faço esse pé de goiaba dar açaí com granola.

‒ Açaí, Senhor?

‒ Muito mais lucrativo. Já viu o tanto de loja de açaí que tem por aí? Só perde pra farmácia. Aliás, lá em Fortaleza fizeram uma de três andares, parece uma igreja, é o fim do mundo.

‒ O Senhor vai subir de chinelo?

‒ De chinelo é fácil. Difícil é subir com essa túnica. Se minhas partes ficarem à mostra, tu olha pro outro lado, viu?

‒ Não posso garantir, Senhor…

‒ Pronto, cheguei. Afasta mais pra lá, pecadora.

‒ Senhor, e se o galho não aguentar?

‒ Mizifia vai rebentar a buzunfa no chão.

‒ E o Senhor?

‒ Eu saio voando, besta.

‒ Ó, Senhor, me leva com o Senhor pelos céus…

‒ Tu só pode ter fumado maconha estragada. Bora logo resolver essa parada, antes que algum apóstolo passe e me veja aqui do teu lado, ai, que vergonha.

‒ O Senhor é solteiro?

‒ Isso não vem ao caso. Promete que nunca mais vai tentar se matar?

‒ Prometo, Senhor.

‒ Ótimo. Agora, reze duzentos Pai Nosso.

‒ Misericórdia, Senhor.

‒ E quinhentas Ave Maria.

‒ Mas eu sou evangélica, Senhor.

‒ Então, mil Ave Maria. E só desce quando terminar.

‒ O que o Senhor vai fazer depois daqui, Senhor?

‒ Por acaso é da tua conta? Ah, mais uma coisa. Tu votou em quem?

‒ Bolsonaro, Senhor.

‒ Aumenta pra cinco mil Pai Nosso e dez mil Ave Maria. Pendurada de cabeça pra baixo.

‒ Senhor…

‒ O que é agora?

‒ Posso lhe pedir uma coisa, Senhor?

‒ Pede logo que tem um bicho da goiaba se aproximando e eu tenho pavor dessas coisas gosmentas da criação. Que nem tu.

‒ Senhor, meu sonho é ser ministra.

‒ Oi?

‒ Sim, Senhor. Do Ministério dos Direitos Humanos, da Mulher e da Família.

‒ Tu tá brincando…

‒ Falo sério, Senhor.

‒ Tô passado em Cristo.

‒ O Brasil precisa de mim, Senhor.

‒ Isso é impossível, criatura sem noção. Tu não tem um pingo do perfil necessário para o cargo.

‒ Mas, Senhor, para o Senhor, nada é impossível.

‒ Com exceção disso. Faz outro pedido, coisa gosmenta. E não precisa falar Senhor em todas as frases, que mania horrível.

‒ Bem… então…

‒ Não prefere ser motorista do Bolsonaro? Ganha bem mais.

‒ Eu quero arrumar um varão.

‒ Um varão?

‒ Bonito, alto, sensual…

‒ Deixa eu ver…

‒ … que nem o Senhor…

‒ Hummm…

‒ … temente a Deus, fogoso… só pra mim.

‒ Como é mesmo o nome?

‒ O nome do varão?

‒ Não. Do Ministério que tu quer.

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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VEJA O VÍDEO do depoimento da pastora Damares:

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Segredos de família – O pai descobriu um terrível segredo de seu filho. E agora, o que pode acontecer com sua carreira política?

Entrevistando o candidato – Na entrevista, o candidato deverá responder a perguntas feitas pelo povo. Como se sairá?

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A profecia do Centenário

11/11/2018

11nov2018

A PROFECIA DO CENTENÁRIO

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Outubro de 2016. Na Arena Castelão, 64 mil pessoas presenciam o empate entre Fortaleza e Juventude. Mais uma vez, o tricolor cearense falha nas quartas-de final e não se classifica entre os quatro primeiros. Como nos anos anteriores, de nada adiantou fazer a melhor campanha da competição: o Leão permanecerá pelo oitavo ano no inferno da Série C, um pesadelo inimaginável para sua imensa torcida. No bar Alpendre, em Fortaleza, diante da tevê, eu e meus amigos tricolores choramos o fracasso, devastados.

Foi nesse instante, no auge da angústia, buscando qualquer coisa que pudesse nos aliviar um pouco, que falei, forçando alguma solenidade na voz fraquejante: Amigos tricolores, vou lançar uma profecia! Falei e esperei que alguém olhasse para mim, mas ninguém olhou. Um mexia no celular, outro tomava um gole de cerveja, outro tinha o olhar perdido para além dos carros que passavam na rua. Prossegui: Daqui a dois anos, no ano do Centenário… estaremos festejando o acesso à Série A.

Falei e novamente esperei. Um amigo esboçou um sorrisinho. Outro ergueu de leve a sobrancelha, mas só isso mesmo.

Profecia superotimista. Para cumpri-la, o Fortaleza teria que no ano seguinte se classificar para a Série B, e no ano seguinte precisaria subir para a Série A, um feito raro na história do campeonato brasileiro. Bem, agora a profecia estava criada, feita da mais pura esperança em dias melhores. E fiz questão de repeti-la, propondo um brinde. Um amigo ergueu seu copo e brindou, sem ânimo. Bem, se naquele momento difícil eles não tinham forças sequer para se permitirem um pouco de confiança, eu, que criara a profecia, tinha a obrigação moral de nela crer, afinal, só é profecia se acreditam nela.

Outubro de 2017. O Fortaleza finalmente consegue escapar do pesadelo, e é vice-campeão da Série C, com um time limitado, mas muito aguerrido, como manda a tradição de suas camisas.

Novembro de 2018. A diretoria apostou todas as fichas na força simbólica dos 100 anos, investiu alto com o técnico Rogério Ceni, reestruturou vários setores do clube e foi montado um ótimo time. E o resultado é que hoje, 3 de novembro, o Fortaleza, com a vitória por 2×1 sobre o Atlético Goianiense, em Goiânia, faltando ainda quatro rodadas para o fim do campeonato, acaba de garantir o acesso à Série A de 2019. Profecia cumprida! E pode até ser campeão brasileiro, detalhe importante que a previsão não contemplou. Falha do profeta.

Série A 2019, dá licença. O Leão está chegando outra vez.

PS: Fábio, Valdo, Henrique, Drawlio, Américo e Marcinha eram os amigos tricolores presentes no nascimento da profecia.

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A mística daquelas camisas – Eu, ainda menino, sem entender bem o que acontecia, já estava preso, para a vida inteira, à tal mística daquelas camisas

O improvável, o impossível e o inacreditável – Numa hora dessa, como ainda ter forças pra superar um rival que virou o jogo no fim com um jogador a menos, que já conseguiu o impossível?

FutebolArtigoFeminino-01

Futebol artigo feminino – Cá pra nós, já reparou como brasileira fica ainda mais linda em dia de jogo da seleção?

O menino e o feminino misterioso – Esse instante numinoso em que o Feminino Sagrado mostrou-se pra mim, sob a meia-luz de seu imenso mistério

Religião no esporte é gol contra – Se nada for feito, a religião invadirá os campos e quadras e o esporte virará uma cruzada entre os jogadores e seus deuses

Discutindo a Copa e a relação – Se você deseja minimizar os efeitos sobre sua relação, é bom saber algumas coisas sobre essa rival invencível

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O tempo do horror

29/10/2018

O TEMPO DO HORROR

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Vestidos de patriotismo
Seguindo seu deus vingativo
Eles rastejam dos escuros porões
Onde escondiam os ódios e preconceitos
E nos atacam 
Por pensarmos diferente

Atiçados pelo odor de morte
Que a boca de seu messias exala
Eles hasteiam suásticas
E armam as crianças
E nos torturam, e nos executam
Em nome da família brasileira

Eu queria que fosse um pesadelo
Mas é real…

Ouçam as salvas de canhões:
O horror é um tempo que se anuncia
Sem flores nem poesia
Banhado em nosso sangue
No horizonte do Brasil

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Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

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O menino que não sabia odiar – Ele fez um gesto com a mão, imitando um revólver, e disse: Faz de conta que tu é o PT, tia, e eu vou te matar

Eu, a democracia e o ódio dos meus pais –  Infelizmente, meus pais foram também seduzidos pelas ideias nazifascistas e propagam esse perigoso discurso feito de ódio, moralismo e paranoias

O protesto da babá negra – Talvez ela saiba que quando um governo tem como objetivo a equidade social e a redistribuição da riqueza do país, automaticamente atrai o ódio das elites econômicas, que lutarão para manter seus privilégios

Sobre lutas, sonhos e a grande farsa – Para quem ainda não percebeu, é isso mesmo o que todos somos, meros atores no grande teatro da existência

Golpe de mestre à brasileira – O processo seria custoso e traumático, e provocaria séria desestabilização na democracia, mas melhor isso que suportar mais um governo de esquerda no Brasil

O socialista crucificado – Se esses cristãos vivessem naquela época, teriam batido panela contra o bandido Jesus e aplaudido sua crucificação

A foto repugnante e o sonho que não pode ser preso – A foto que resume a baixeza moral dos fascistas que querem a morte de Lula


O menino que não sabia odiar

22/10/2018

O MENINO QUE NÃO SABIA ODIAR

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A irmã preparando um café na cozinha e a tia brincando com o sobrinho na sala. O menino, oito anos, entregou-lhe um boneco e pediu para ela segurá-lo sobre a mesa. Ele fez um gesto com a mão, imitando um revólver, e disse: Faz de conta que tu é o PT, tia, e eu vou te matar. Ela ficou impressionada e perguntou por que ele queria matar o Partido dos Trabalhadores. Porque ele é mau, o sobrinho respondeu, roubou nosso dinheiro. Enquanto a tia procurava algo para dizer, o menino encheu o boneco de tiros, Morre, PT, morre, pou, pou, pou!

Quem te disse isso?, a tia quis saber. Respondeu o menino: Foi minha avó. E tome mais tiros no boneco. A tia, então, afastou o boneco e disse, sorrindo, que gostava do PT. O menino parou de brincar e olhou sério para ela: Não adianta defender o PT pra mim, tia, eu odeio ele, odeio!

O menino parecia desafiar a tia, os olhos franzidos, os punhos fechados, a respiração intensa, quase bufando. A tia apenas observava, calma, mas preocupada com a reação raivosa do sobrinho, que recolheu o boneco, decretou que a brincadeira estava encerrada e deixou-a sozinha na sala.

Não é normal uma criança sentir ódio dessa maneira, ainda mais sendo ódio político, ela falou depois para a irmã, enquanto tomavam café. A irmã concordava, admitindo ter falhado por omissão. Acho que você deve conversar com a mamãe, e com ele também.

Foi o que a irmã fez. A partir daí, a avó parou de falar sobre política com o neto, e a mãe teve uma paciente conversa com ele. Resultado: o menino deixou de odiar o PT. E, após as orações antes de dormir, incluiu um “ele não, amém”.

Três dias depois, como a mãe estava ocupada, ele foi ao quarto da avó, para rezar com ela. Os dois sentados na cama, Ave Maria, Pai Nosso, e no fim o menino, mãozinhas juntas, perguntou, com toda a sua inocência, se podia terminar com “ele não”. A avó quase cai da cama do susto que levou. Era só o que faltava, a filha ensinando ao seu neto, seu neto, aquelas frases idiotas que os malditos comunistas gritavam nas ruas contra seu candidato, uma pessoa do bem, honesta, que iria acabar com a violência no país, um grande defensor da família brasileira. O neto esperando pela resposta.

Pode, respondeu a avó, mas eu não vou dizer amém. O menino arregalou os olhos, surpreso. Por quê, vó? Porque não digo. Mas, vó, se a gente não diz amém… Olha, interrompeu a avó, é melhor você ir rezar com sua mãe, vá.

O menino obedeceu e deixou o quarto, entristecido. Nessa noite, a avó não dormiu bem. Nem a mãe. E nem o menino. Aliás, o menino deixou também de fazer o tal gesto de revólver com a mão, que ele aprendera vendo na tevê o candidato da avó. É porque é muito feio uma criança fazer isso, ele explicou para a tia, quando ela retornou lá dias depois. Agora, eu faço assim, ó, e fez, com as mãos juntas, um coração. Depois, concluiu: Acho que eu não sei odiar, tia.

A tia o abraçou, comovida. Também acho muito feio aquele gesto, ela falou, disfarçando uma lágrima que escapulia do olho. Pela janela da sala, viu que começava a anoitecer. Um arrepio lhe sacudiu o corpo, e ela sentiu medo. Quanto tempo duraria aquela noite?

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OProtestoDaBabaNegra-02a

O protesto da babá negra – Talvez ela saiba que quando um governo tem como objetivo a equidade social e a redistribuição da riqueza do país, automaticamente atrai o ódio das elites econômicas, que lutarão para manter seus privilégios

Sobre lutas, sonhos e a grande farsa – Para quem ainda não percebeu, é isso mesmo o que todos somos, meros atores no grande teatro da existência

Golpe de mestre à brasileira – O processo seria custoso e traumático, e provocaria séria desestabilização na democracia, mas melhor isso que suportar mais um governo de esquerda no Brasil

O socialista crucificado – Se esses cristãos vivessem naquela época, teriam batido panela contra o bandido Jesus e aplaudido sua crucificação

A foto repugnante e o sonho que não pode ser preso – A foto que resume a baixeza moral dos fascistas que querem a morte de Lula

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Eu, a democracia e o ódio dos meus pais

09/10/2018

09out2018

Infelizmente, meus pais foram também seduzidos pelas ideias nazifascistas e propagam esse perigoso discurso feito de ódio, moralismo e paranoias

Eu, a democracia e o odio dos meus pais 01

EU, A DEMOCRACIA E O ÓDIO DOS MEUS PAIS

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Não costumo expor minha vida pessoal dessa forma, mas é que preciso desabafar, e escritor desabafa escrevendo… Alguns amigos e leitores já devem ter percebido algo inusitado em minhas postagens sobre as eleições: minha mãe fazendo campanha em favor de… Jair Bolsonaro.

Poizé. Infelizmente, meus pais foram também seduzidos pelas ideias nazifascistas e propagam esse perigoso discurso feito de ódio, preconceito, moralismo, mentiras e paranoias como o tal kit gay, ditadura comunista etc.. É uma situação bizarra, que jamais pensei em viver. Como não posso romper com eles, tento levar a coisa com equilíbrio. Mas é triste ver meus próprios pais a apoiar um candidato que, junto a seu vice, já declararam apoio à ditadura e homenageiam torturadores assassinos.

Lembrei agora de uma situação… Foi no fim dos anos 1970, quando ainda vivíamos sob a sangrenta ditadura militar. Eu adolescente, e meu pai me ajudando numa tarefa do colégio. Era uma redação sobre o Brasil e, nela, incluímos sutis críticas ao governo. Quando terminamos, ele parou, preocupado, e me disse: “Não fale pra ninguém que fui eu quem lhe ajudou a escrever isso, senão posso ser preso”. Claro que não falei, pois tínhamos familiares que foram presos e torturados por fazerem oposição ao regime. Hoje, quarenta anos depois, talvez meu pai tenha esquecido desse seu belo gesto de coragem e resistência. Eu, não. Nunca esqueci. Porque foi um gesto que moldou minha personalidade.

Tenho minhas críticas ao PT, mas votarei em Fernando Haddad. Se ele vencer, meus pais felizmente estarão em segurança, pois ainda haverá democracia e eleições e eles serão livres para fazerem oposição. Porém, se o candidato deles for eleito, os opositores, principalmente jornalistas, artistas e escritores, como eu, correremos sérios riscos. E para isso, nem é preciso haver ditadura declarada – basta que seus apoiadores sigam fazendo o que já fazem agora, ameaçando, agredindo e matando aos que pensam diferente e aos grupos sociais vulneráveis.

Talvez o ódio que meus pais têm a Lula e ao PT, fruto de anos e anos de jornais nacionais, seja tão forte quanto o amor que sentem por mim. Talvez estejam cegos de ódio, como tantos. Neste momento, escrevo com os olhos marejados de tristeza e decepção ao lembrar que por causa deles cresci acreditando mais nos livros que nas armas… Mas devo dizer que meu amor por eles continua. Sim. O amor tem dessas coisas, né? Às vezes, mesmo quando o outro prioriza o ódio, ainda assim continuamos a amar. Na verdade, eu nunca soube explicar o amor, e agora muito menos.

Mãe, nas minhas postagens você tem o direito de odiar ou apoiar a quem você quiser, fique à vontade. Nas suas, eu prefiro nada comentar. No mais, seguirei fazendo o que meu pai me ensinou, apesar dele parecer ter esquecido, que é defender a democracia, mesmo que ela tenha falhas, e também a liberdade de expressão, sempre, todos os dias, mesmo que isso agora tenha se voltado perigosamente contra mim. Que ironia… Mas é isso. O amor pela democracia e pela liberdade tem dessas coisas.

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ESCLARECIMENTO

A crônica já estava escrita fazia uns dias, e eu refleti bastante se devia ou não publicar. O apoio de minha mãe ao candidato nazifascista já era conhecido de meus amigos e leitores, pois ela usava minhas postagens para expressá-lo publicamente. Tomei a decisão ao saber dos recentes casos em que pessoas foram agredidas e assassinadas por apoiadores de Jair Bolsonaro, pelo simples fato de pensarem diferente.

Se o nazifascismo vencer, eu correrei sérios riscos por conta de meu trabalho de escritor e comunicador. Então, prefiro denunciar agora o perigo que aguardar quieto a minha hora de sofrer represálias, mesmo que precise expor um conflito familiar, como fiz.

Como reagiu minha família? Dividiu-se entre críticas e elogios, era o esperado. Acho que vocês conseguem imaginar a situação delicada, mas fiz o que precisava fazer. Publiquei um texto que é, ao mesmo tempo, um desabafo, um alerta e uma declaração de amor pública, aos meus pais e à democracia.

Neste momento, me sinto aliviado por ter dividido minha angústia com tantas pessoas, e vejo que falei por muita gente que vive situação semelhante. Talvez unindo nossas angústias, possamos nos fortalecer.

Obrigado a todos, inclusive aos que discordam de mim. Seguimos firmes na luta contra o nazifascismo. (RK)

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LEIA NESTE BLOG

OProtestoDaBabaNegra-02aO protesto da babá negra – Talvez ela saiba que quando um governo tem como objetivo a equidade social e a redistribuição da riqueza do país, automaticamente atrai o ódio das elites econômicas, que lutarão para manter seus privilégios

Sobre lutas, sonhos e a grande farsa – Para quem ainda não percebeu, é isso mesmo o que todos somos, meros atores no grande teatro da existência

Golpe de mestre à brasileira – O processo seria custoso e traumático, e provocaria séria desestabilização na democracia, mas melhor isso que suportar mais um governo de esquerda no Brasil

O socialista crucificado – Se esses cristãos vivessem naquela época, teriam batido panela contra o bandido Jesus e aplaudido sua crucificação

A foto repugnante e o sonho que não pode ser preso – A foto que resume a baixeza moral dos fascistas que querem a morte de Lula

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Pensão das Crônicas Dadivosas – Lançamento

27/09/2018

PENSÃO DAS CRÔNICAS DADIVOSAS – LANÇAMENTO

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Comunico aos amigos e leitores que sou novamente papai: nasceu meu livro Pensão das Crônicas Dadivosas (Editora Escrituras), uma seleção de crônicas escritas entre 2007 e 2017, com ilustrações de vários desenhistas. Tô muito feliz!

Os lançamentos acontecerão em Fortaleza (out/nov) e São Paulo (nov/dez), e em breve divulgarei datas e lugares, e outras cidades. Mas se você quiser, já pode adquirir o seu agora e receber pelo correio.

PREÇOS (frete incluído)
1 livro: R$ 35
2 livros: R$ 60

PAGAMENTO: Pag Seguro (cartão e boleto) ou transferência bancária (Bradesco, Banco do Brasil ou Itaú).

OBRIGADO aos desenhistas Ana Costalima, Denis Akel, Elinaudo Barbosa, Glauco Sobreira, Mychel Távora, Raisa Christina e Raymundo Netto (Fortaleza-CE), Beatris Rocha, Fernando Vasqs e Rogério Bessa (São Paulo-SP). Obrigado, Wanessa Bento amada, pela revisão textual.



> MAIS SOBRE O LIVRO

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