Esses jovens que resgataram Belchior

11/05/2017

10mai2017

Hoje esses jovens se sentem órfãos de seu cantador das coisas do porão. Mas trazem tatuado na alma e no corpo o que Belchior lhes ensinou

ESSES JOVENS QUE RESGATARAM BELCHIOR

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Belchior, o bardo bigodudo dos ideais libertários, amado pelos rebeldes românticos de novas e velhas idades, morreu em pleno correr de um golpe em seu país. Não foi um golpe militar, mas um golpe parlamentar, com apoio da grande mídia e dos barões do capital. Isso é muito significativo. Se quando vivo, a poesia de Belchior já habitava as mentes dos que lutam por um Brasil socialmente justo e inclusivo, sua morte nesse momento torna ainda mais forte essa ligação.

Você pode até dizer que eu estou por fora, que estou inventando. Bem, então você não entendeu Belchior. Leia sua poesia e verá que está lá em seus versos, ecoando sempre, um grito de resistência contra a opressão do sistema sobre o indivíduo, que sufoca seus sonhos e robotiza sua existência. É uma poesia de protesto e inconformismo, que nos alerta para a exploração capitalista que gera escravos assalariados e para a hipnose midiática que gera zumbis do consumo. A poesia de Belchior é anárquica, pois em vez do poder, defende a supremacia do amor, do prazer e da paixão. É um grito latino-americano que brota da dor das minorias e dos excluídos, de todos que não comungam com o deus mercado e vomitam a ração diária fornecida pela mídia poderosa. É a rubra poesia dos que sangram mas não se deixam enquadrar.

Mas o novo sempre vem. E foram os jovens da era da internet que redescobriram Belchior, resgatando-o do limbo para o qual a grande mídia quis relegá-lo. Durante esses anos eles sonharam com sua volta e desejaram ardentemente vê-lo num palco a cantar e protestar com eles…

Infelizmente isso não será possível, e hoje esses jovens se sentem órfãos de seu cantador das coisas do porão. Mas trazem tatuado na alma e no corpo o que Belchior lhes ensinou. Por isso, agora exibem seu rosto em camisetas, postam seus versos nas redes e tocam nas rodas as suas belas canções. São os mesmos jovens que não querem mais viver num mundo no qual uma minoria cínica e insensível detém a maioria da riqueza. São os mesmos jovens que hoje lutam por oportunidades iguais para todos. Os mesmos jovens que já entenderam que por enquanto eles venceram e o sinal está fechado, sim, mas na ferida viva de seus corações eles captaram muito bem o que um velho compositor cearense lhes dizia: o novo sempre vem.

Fora Temer! Viva Belchior!

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Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

Desenho da ilustração: José Marconi

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parabelchiorcomamorcapa3d-01Para Belchior com Amor

Neste livro, organizado pelo escritor Ricardo Kelmer e lançado em out2016, o poeta, cantor e compositor cearense Belchior é homenageado por catorze autores conterrâneos, que escreveram contos, crônicas e cartas inspirados em suas músicas, as mesmas que tanto encantaram os mais velhos e continuam a encantar os mais novos. Literatura para celebrar um notável literato. Ele que soube, como poucos, harmonizar música e poesia, e que fez de sua obra e sua vida um intenso canto de amor, liberdade, questionamento e rebeldia. Salve Belchior!

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LEIA TAMBÉM NESTE BLOG

Divina comédia humana (Ou: O amor é uma coisa mais exótica que um conto em terza rima) – Um conto inspirado na canção de Belchior e no poema de Dante Alighieri

O dia em que entendi Belchior – Ele já não tinha metas, estava finalmente livre para deixar a roda-viva que nos entorpece diariamente com a sedução das falsas necessidades

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MAIS SOBRE BELCHIOR

O Belchior que a crítica vulgar não viu (Alberto Sartorelli) – Canções do compositor cearense debateram, desde os anos 1970, a alienação, as relações mercantis e a própria indústria cultural. Mas alguns procuraram enquadrá-lo como apenas um rapaz romântico 

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Laura Canoura – Como nuestros padres
Laura Canoura (2 de janeiro de 1957, Montevidéu) é uma compositora e cantora da música popular uruguaia. Com mais de 25 anos de trajetória artística é uma das principais solistas femininas desse país.

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 COMENTÁRIOS
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01- Fantástico texto meu Caro Ricardo Kelmer. Antonio Carlos De Freitas, Fortaleza-CE – mai2017

02- Fora Temer e Viva Belchior!!! Paulo Henrique Carvalho, Fortaleza-CE – mai2017

03- No rs … nas paredes do banheiro, nas folhas mortas e verdes que caiem pelo chão , sendo gerson ou não, vida longa … Stefenson Pinheiro, Fortaleza-CE – mai2017

04- Lindo e inspirador texto, Kelmer. Vanessa Capibaribe Monte, Fortaleza-CE – mai2017

05- ADOREI o texto ! FORA TEMER até ele cair FORA. Jôsy Soares, Fortaleza-CE – mai2017

06- Maravilhoso! Sabrina Nádia de Sousa, Fortaleza-CE – mai2017

07- Sensacional!!! Um beijo! Patrícia Ramos, Natal-RN – mai2017

08- Foda, Kelmer! Viva, Belchior! Giba C. Carvalho, Recife-PE – mai2017

09- Hahahahah estragou a memória de Belchior. Nicolle Vila Lobos, Fortaleza-CE – mai2017

RK: Leia Belchior, Nicolle. 🙂 Se você tiver interesse, este texto vai mais fundo nessas questões: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/09/belchior-critica-vulgar.html

10- Eu fiquei calado qdo vi amigos direitistas confessos postando frases e músicas do Belchior. Isso me fez lembrar de uma pesquisa dando conta que esse pessoal tem sérios problemas de cognição. Henrique Baima, Fortaleza-CE – mai2017

11- Ricardo, incrível!!!! Amei muito esse texto. Sensacional! Vannick Belchior, Fortaleza-CE – mai2017

12- Lindooooooooooooooo, lindo meu mais lindo Bel, sempre vai lutar dentro de nós, nos dar folego para gritar!, Beleterno! Bertha Alves, São Paulo-SP – mai2017

13- Que texto, Ricardo Kelmer! Ticiana Studart Albuquerque, Fortaleza-CE – mai2017

14- Lindo texto. Que presente conhecer vocês em meio ao meu maior vazio. Perder esse cara é perder um pedaço de mim, mas eu prometi na beirada daquele caixão que gritaria suas músicas em meus shows até o final da minha vida! Também sou como ele, jovem que desce do norte pra cidade grande! Também sinto essa loucura na ferida viva do meu coração. A verdade dele, desde que o conheci passou ser minha verdade e eu nunca poderei deixar de grita-la.
Eternizei Alucinação na pele ontem e sempre pensei que quando ele visse ele iria rir da minha tatuagem, acabei não fazendo com ele em vida. Uma pena que não deu :/ Meu Belchis! Amor eterno… Luta eterna. Daya Ananias, Rio de Janeiro-RJ – mai2017

15- Fora Temer! Ana Lucia Santos, Recife-PE – mai2017

16- Esse é o verdadeiro Belchior, nosso Bel que tinha a coragem de escrever composições que desafiavam a época, gerações… Belchior da irreverência, autenticidade, escrevia e fala de si em suas letras! O político, o crítico, o homem comum, o amante, poeta, o boêmio, o romântico, solitário, o ser filósofo… Bom você escreve Ricardo Kelmer com e da vida as suas escritas e é por isso que te admiro e sou sua fã! E Fora Temer. Aline Saraiva, Fortaleza-CE – mai2017

 17- Beleza Poeta Ricardo Kelmer… Abração. Marcelo Pinheiro Rocha, Fortaleza-CE – mai2017

18- FORA TEMER, FORA TODOS! VIVA BELCHIOR!!! Rondinelly Mota, Fortaleza-CE – mai2017

19- sempre, sempre, sempre vem… Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – mai2017

20- Sensacional! Maria Augusta Funicelli, Taubaté-SP – mai2017

21- Maravilhoso. Cícera Souza Vidal, Fortaleza-CE – mai2017

22- Eu quero que este canto torto feito faca corte a carne de vocês sempre sempre sempre. Angela Belchior, Fortaleza-CE – mai2017

23- Parabéns pelo belíssimo texto!!! Realmente as músicas de Belchior são lindas e tocam na alma. Ele deixará saudades, mas estará eternizado em nossos corações!! Denizia Caetano, Rio de Janeiro-RJ – mai2017

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O dia em que entendi Belchior

30/04/2017

30abr2017

Ele já não tinha metas, estava finalmente livre para deixar a roda-viva que nos entorpece diariamente com a sedução das falsas necessidades

O DIA EM QUE ENTENDI BELCHIOR

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Um dia, pelos idos de 1984, meu velho amigo Alberto Perdigão me apresentou certa música de Belchior. Eu tinha vinte anos e já amava o bardo bigodudo, e subia o som no último volume quando o rádio tocava Coração Selvagem. Mas a música que Alberto me mostrou era outra, chamava-se Ypê, do disco Objeto Direto, de 1980. Lembro que ela me soou estranhamente bela, e em suas palavras parecia reluzir algo precioso, mas que eu sentia ser incapaz de alcançar.

Trinta e dois anos depois, em 2016, enquanto fazia pesquisas para o livro Para Belchior com Amor, topei com Ypê novamente, dessa vez na internet. Não a reconheci pelo título. Pus para tocar no You Tube e… imediatamente lembrei daquele dia. E para lá fui transportado. De repente eu era outra vez aquele eu, o garoto bobo e deslumbrado com a vida que se abre em horizontes caleidoscópicos de infinitas possibilidades. O rio da vida não volta, é verdade, mas o continuum de suas águas é um mantra que tem o poder de nos levar para tempos que jamais se foram.

Como traduzir a íntima e poderosa revelação que Ypê agora me trazia? De repente eu era o mesmo garoto de trinta anos antes, porque na verdade nunca deixei de sê-lo, mas ao mesmo tempo era outro porque agora eu simplesmente… me dava conta disso. Eu envelheci, mas continuo naquele dia, ouvindo meu amigo a cantarolar Ypê, a minha ignorância juvenil fascinada com as reluzentes novidades da vida. Reescutar esta música me pôs novamente frente à enigmática dançarina de pedra e me trouxe dias de metafísico assombro, em que o que fui e o que serei se harmonizaram no único tempo possível, o eu sou.

Após dias mergulhado em Ypê, voltei à tona e contemplei a obra de Belchior com um novo olhar. E sua trajetória floriu de um diferente significado. Sabe, eu entendi Belchior. Entendi como se entende algo ridiculamente óbvio. Sim, são bem visíveis a beleza e a sabedoria contidas em suas canções, mas, putz, ninguém cria algo como Ypê sem antes alcançar a verdade que habita, discreta, o fundo escuro do rio. Ninguém escreve um poema como esse, tão filosoficamente profundo e exato, tão misteriosamente simples, sem ter chegado à harmonia fundamental, aquela que transcende o tempo e os opostos, e nos faz ser um com o eus que somos e tudo que há. Belchior tinha apenas 34 anos, tão moço… Mas ali o poeta já havia cruzado o portal. E somente agora, tanto tempo depois, eu o entendia.

Feito o bodisatva da filosofia oriental, o poeta iluminou-se e ficou mais um tempo entre nós. E depois? Talvez Belchior tenha percebido que nada mais de relevante tinha para falar. Sua arte já o havia dito, e continua a dizer. Ele já não tinha metas, estava finalmente livre para deixar a roda-viva que nos entorpece diariamente com a sedução das falsas necessidades. E então o poeta se foi.

Para onde? Foi-se. Por aí. Algum tempo-lugar onde agora ele será o que sempre foi: um lindo ipê que apenasmente flora, apenso ao pé da serra.

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Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

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YPÊ
Belchior

Contemplo o rio que corre parado
E a dançarina de pedra que evolui
Completamente, sem metas, sentado
Não tenho sido, eu sou, não serei, nem fui
A mente quer ser, mas querendo, erra (a gente quer ter, mas querendo, era)
Pois só sem desejos é que se vive o agora
Vede: o pé do ypê apenasmente flora
Revolucionariamente apenso ao pé da serra

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Belchior – Ypê
gravação original, álbum Objeto Direto (1980)

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parabelchiorcomamorcapa3d-01Para Belchior com Amor

Neste livro, organizado pelo escritor Ricardo Kelmer, o poeta, cantor e compositor cearense Belchior é homenageado por catorze autores conterrâneos, que escreveram contos, crônicas e cartas inspirados em suas músicas, as mesmas que tanto encantaram os mais velhos e continuam a encantar os mais novos. Literatura para celebrar um notável literato. Ele que soube, como poucos, harmonizar música e poesia, e que fez de sua obra e sua vida um intenso canto de amor, liberdade, questionamento e rebeldia. Salve Belchior!

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FALARAM DE BELCHIOR

Jovens da era digital reabilitaram Belchior da pecha de chato – Artigo de Edmundo Leite, 03.05.17

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É a Tao coisa – Uma maneira intuitiva de compreender a realidade através da harmonia com o Tao

Rumo à estação simplicidade – Jurei me manter sempre no caminho, sem pesos nem apegos excessivos, pronto para pegar a estrada no momento em que a vida assim quisesse

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OUTROS LIVROS

ICI2011Capa-01fRomance – Contos – Crônicas – Ensaio – Poemas

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VENDAS

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Divina comédia humana

09/01/2017

09jan2017

Um conto inspirado na música de Belchior e no poema de Dante Alighieri

divinacomediahumana-01a

DIVINA COMÉDIA HUMANA
Ou: O amor é uma coisa mais exótica que um conto em terza rima

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A sombria floresta de Beatriz anunciou-se naquela tarde de sábado, num ponto de ônibus do centro, após ela sair do culto na igreja. Anunciou-se nos olhos do atraente moço de porte atlético que lhe pediu informação. Com simpatia, ela lhe explicou que ônibus deveria tomar, e era o mesmo que ela tomaria, ora veja. E juntos sentaram, ele com sua mochila vermelha, ela com a bíblia ao colo, quase a mão dele em sua mão. Chamava-se Antonio, e Beatriz soube que estudava filosofia, mas gostava mesmo era de ser goleiro, e nos fins de semana jogava por times de bairro, e ela achou isso tão lindo… Ele desceu primeiro, mas antes do ônibus os separar, correu até embaixo da janela e a convidou, Vai me ver jogar amanhã, e ela seguiu o resto do percurso a conversar manhosa com as estrelas, enquanto em seu peito borbulhava a nascente do rio a que chamam os poetas perdição.

Eu te amo, eu te amo, ela disse e repetiu ao ouvido dele, sussurrando baixinho. Lá fora, a última estrela se despedia e o amanhecer clareava aos poucos a suíte do Dante motel. Eu te quero tanto, meu goleirão, ela murmurou, lembrando que horas antes o admirava embaixo das traves, e reparou que, dormindo, ele parecia um anjinho. Beatriz beijou-o nos olhos e agradeceu ao seu deus pela dádiva daquele amor imenso, que surgira num bobo encontro casual, e agora, um ano depois, a instalara definitivamente no céu. Então Antonio se aconchegou e Beatriz sentiu a urgência de seu desejo, e ela nem sabia mais quantas vezes nas últimas horas haviam se amado. Ele a beijou com ardência, depois a virou de costas para ele e aguardou que ela se preparasse, e ela, percebendo vazio o tubo de lubrificante, não teve dúvidas: Ah, vai sem gel.

Um dia Antonio sumiu, simplesmente sumiu, sem deixar um mísero bilhete, sem que houvesse discussão ou algo que pudesse deixá-lo bravo. Só pode ser uma brincadeira, ele sempre gostou de me pregar peças…, Beatriz disse para si mesma, sem encontrar explicação convincente. Mas as semanas se passaram e ele não voltou, e da vida fez-se o limbo, a angustiante espera da definição que não vinha, a existência uma peça suspensa em pleno ato. O que fazer com o amor que tanto dá sentido ao tempo, e depois, de uma hora para outra, parece que disso se arrepende? Era o que pensava quando, pesquisando os sites de futebol de bairro, soube que Antonio jogaria naquele tarde em outra cidade ‒ e para lá Beatriz se mandou. Torceu por ele o jogo inteiro, no alambrado encostadinha, engasgada num choro que ela segurou firme… até vê-lo tomar um gol no fim da partida, e foi exatamente aí que ela entendeu que estava tudo acabado, que a eternidade daquele amor se desmanchara no ar, feito uma estrela cadente.

Na floresta escura dos meses seguintes, sonhava à noite com Antonio, ele jogando e ela torcendo, mas ele sempre olhava para ela no momento errado e, angustiado, tomava o gol. Solidão e desamparo foram suas companhias inseparáveis, e nem as orações na igreja trouxeram luz aos subterrâneos do seu desgraçado ser. Então, na agência lotérica em que trabalhava, no nono subsolo do shopping, ah, e como combinavam com sua alma os subsolos, um dia o sol voltou. Uma antiga amiga de colégio, Carla o nome dela, após receber o troco da mega-sena, a reconheceu: Beatriz, é você? Daí, foi o chope após o expediente, as boas lembranças colegiais revividas com alegria, mais dois chopes, tantas coisas para contar, outro chope ‒ era a velha amizade que retornava. Um mês depois, quando Carla precisou dormir em seu apartamento, e a amizade já cedia espaço aos carinhos e estes à sedução, elas consumaram na cama, abençoadas pela noite estrelada, aquilo que em seus corpos ansiava por acontecer.

Ironias do destino: amigas de colégio, anos sem se ver, e agora lá estão elas tornadas outra vez adolescentes, peles coladas noite e dia, ternamente apaixonadas. Beatriz frita os bolinhos prediletos de Carla, que desenha corações coloridos no caderno de Beatriz, que, da janela do quarto, suspira feliz para as estrelas, recuperada de seu passado sofredor. Porém, naquela noite na igreja, o pastor bradou enfático: A mulher nasceu para o homem, e aquela que desobedece às leis divinas sucumbirá na condenação, para sempre amaldiçoada!!! Ela voltou para casa e buscou dormir, mas as leis divinas não permitiram, e foi assim que abandonou a igreja, trocando-a por outra que a aceitava, a ela e seu pecaminoso amor. E tudo se resolveu, mas só até o dia em que o fantasma do passado ressurgiu na tela do celular: era Antonio, que dizia ter errado, implorava por perdão e pedia encarecidamente um encontro. Assustada, Beatriz desligou, mas ele insistiu e ela teve de explicar que seu amor agora era de outra pessoa, e que ele a esquecesse, por favor.

Bastou aquele telefonema para castigar as certezas de Beatriz, substituindo a paz celestial que Carla trouxera aos seus dias por aquele pesadelo dos demônios. O amor que, ao custo de um mar de lágrimas ferventes, jurava haver esquecido, voltava para lembrá-la daquilo que tão bem ela sabia. Sim, apesar de tudo ainda amava Antonio, sim, e agora a profundidade desse amor vinha assombrá-la num íntimo e cruel confronto. Na semana seguinte, após acordar de uma noite em que não brilharam estrelas em seu céu, Beatriz foi até a cozinha, onde Carla preparava o café, respirou fundo e lhe pediu imensas desculpas por tê-la envolvido nos descaminhos de sua alma tresloucada, sua pobre alma que no amor parecia sofrer de disritmia. A cena é tão melancólica: Carla escutando a tudo em silêncio, e ao fim pegando suas coisas e indo embora, deixando no ar a pesada sombra das palavras que no peito preferiu calar. Na cozinha fica Beatriz, encostada à parede, massacrada pela tristeza de saber que fizera o que devia ser feito, enquanto na mesa o café esfria.

Nossa história bem que podia terminar aqui, com a mocinha, enfim purgada de seus pecados, vivendo com seu amado na bem-aventurança seculum seculorum ‒ mas, ai, ai, é justamente quando julgamos ter a gerência da vida que a própria vida trata de tudo bagunçar. Acertada outra vez com seu adorado goleiro, embalada novamente pela melodia das estrelas, Beatriz, surpresa, vê-se saudosa de tudo que tinha com Carla, e experimenta em si a estranha contradição de saber-se amada e amando, mas… incompleta. Antonio a abraça, compreensivo, e diz que em nenhum momento lhe exigiu exclusividade, e que se ela ainda ama a ex-namorada, ele perfeitamente entenderá. Mas se você me ama, como pode aceitar que eu ame também a outro alguém, perdeu o senso, foi?, ela pergunta, confusa, e ele explica o que aprendeu nos dias em que duelava no inferno contra sua própria possessividade: que só há salvação no amor que liberta. Naquela mesma noite, na igreja, ao ouvir o pastor pregar a fidelidade e a monogamia, Beatriz nem esperou pelo fim do sermão: ergueu-se decidida, pegou de volta o dízimo que deixara na caixinha, saiu e foi até a casa de Carla, e contou-lhe, emocionada, que havia finalmente se libertado e encontrado a iluminação de sua vida inteira. Bem, a história ainda deu umas boas voltas, é vero, mas para encurtar: Carla resistiu, resistiu, mas um dia também encontrou a luz, aleluia!, e semana passada, inclusive, aceitou ir com Beatriz ver Antonio jogar ‒ mas deu-se o direito de não aplaudir suas defesas, porque afinal ela ainda não está tão iluminada, tem que dar um tempo, ?

E assim vão os três, novos atores para essa velha comédia de sucesso chamada amor, onde ouvir as augustas estrelas não garante absolutamente nada, e, como bem nos ensina a terza rima, tudo é eterno enquanto não vem a palavra derradeira.

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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SOBRE O CONTO – Foi com este conto que participei do livro Para Belchior com Amor (Miragem Editorial, 2016). A música que o inspirou, do mesmo nome, foi, por sua vez, inspirada no poema Divina Comédia, de Dante Alighieri, que Belchior pretende, ou pretendia, traduzir para o português numa versão mais popular. Para criar meu conto, baseei-me na estrutura temática do poema (Inferno, Purgatório e Céu) e escrevi uma história que fala da salvação-condenação pelo amor, e suas complexidades e contradições. E como o magistral poema de Dante, que é um dos maiores clássicos da literatura ocidental, foi escrito em terza rima, esse entrelaçado e dinâmico sistema rimático criado por ele, impus-me o desafio de fazer o mesmo em meu conto, compondo as rimas com a última palavra de cada um dos períodos gramaticais dos parágrafos. Ignoro se antes alguém já havia feito terza rima com prosa. Não foi fácil, mas gostei da experiência.

SOBRE A IMAGEM – A imagem que ilustra esta postagem é uma reprodução parcial do quadro Os Fantasmas de Paolo e Francesca Aparecem para Dante e Virgílio, de Ary Scheffer (1835). No poema Divina Comédia (Inferno, Canto V) Dante e Virgílio encontram num dos círculos do Inferno o casal  Paolo e Francesca, condenados por seu amor adúltero. Francesca de Rimini e Paolo Malatesta viveram na Itália no sec. 13 e foram assassinados por Gianciotto Malatesta, marido de Francesca e irmão de Paolo, por eles terem se apaixonado um pelo outro.

O ANALISTA – Putz, há tanto o que dizer sobre a letra de Divina Comédia Humana… As referências ao poema de Dante Alighieri são várias, mas há mais coisas. O analista, por exemplo. Ele insiste em desqualificar as relações que não se enquadram nas sagradas regras do amor romântico tradicional. Para ele, a sensualidade e a paixão são negativas. O analista quer nos convencer de que o amor é uma coisa mais profunda que encontros casuais e transas sensuais, e que se não entendermos isso, viveremos insatisfeitos.

Se o analista está certo ou não, é algo a se discutir. Belchior, porém, rejeita ser conduzido por essa lógica racional que enquadra o amor. Ele prefere viver intensamente o que sente no momento, com ardência e paixão, com os céus e infernos inerentes, mesmo que seja breve, mesmo que não seja amor, ou mesmo que seja outro tipo de amor, pois sabe que tudo é transitório, inclusive o sagrado amor romântico tão defendido pelo analista. Belchior diz não às convenções dos sentimentos, ignora as racionalidades analíticas e dessacraliza o amor, e canta sua liberdade de amar ao seu modo profano.

Pensei em escrever para o livro Para Belchior com Amor uma análise dessa letra, mas meu lado ficcionista falou mais alto e achei mais interessante contar uma história, até porque eu queria também homenagear o poema de Dante. Mas que essa letra dá um bom estudo, ah, isso dá.

DIVINA COMÉDIA HUMANA (Belchior)

Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando você entrou em mim como o sol no quintal
Aí um analista amigo meu
Disse que desse jeito não vou ser feliz direito
Porque o amor é uma coisa mais profunda
Que um encontro casual
Aí um analista amigo meu
Disse que desse jeito não vou viver satisfeito
Porque o amor é uma coisa mais profunda
Que uma transa sensual

Deixando a profundidade de lado
Eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia
Fazendo tudo, e de novo dizendo sim à paixão
Morando na filosofia
Eu quero gozar no seu céu
Pode ser no seu inferno
Viver a divina comédia humana onde nada é eterno

Ora, direis, ouvir estrelas, certo perdeste o senso
E eu vos direi, no entanto:
Enquanto houver espaço, corpo, tempo
E algum modo de dizer não
Eu canto

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DICAS

stelle.com.br – Site criado por Helder da Rocha com material sobre a Divina Comédia, inclusive o texto original e uma versão em prosa, em português, do poema.

Divina Comédia na Wikipedia

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Divina Comédia Humana
gravação original, álbum Todos os Sentidos (1978)

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parabelchiorcomamorcapa3d-01Para Belchior com Amor

Neste livro, organizado pelo escritor Ricardo Kelmer e lançado em out2016, o poeta, cantor e compositor cearense Belchior é homenageado por catorze autores conterrâneos, que escreveram contos, crônicas e cartas inspirados em suas músicas, as mesmas que tanto encantaram os mais velhos e continuam a encantar os mais novos. Literatura para celebrar um notável literato. Ele que soube, como poucos, harmonizar música e poesia, e que fez de sua obra e sua vida um intenso canto de amor, liberdade, questionamento e rebeldia. Salve Belchior!

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MAIS SOBRE BELCHIOR

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Esses jovens que resgataram Belchior (crônica) – É um grito latino-americano que brota da dor das minorias e dos excluídos, de todos que não comungam com o deus mercado e vomitam a ração diária fornecida pela mídia poderosa

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OUTROS LIVROS

ICI2011Capa-01fRomance – Contos – Crônicas – Ensaio – Poemas

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Livrarias, Amazon ou direto com o autor (depósito bancário ou Pag Seguro: cartão e boleto). Impresso e eletrônico.

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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 COMENTÁRIOS
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01- Excelente! Revejo-me nessa Beatriz, nesse duelo entre a consciência moral cultivada e o chamado do outro lado do espelho, de dentro de si mesma, a ânsia de libertação, mas não o poder fazer. Precisou que Antônio a libertasse…. Ah, safado, e esqueceste-te de mandar o meu livro pelo Felipe! Susana X Mota, Leiria-Portugal – jan2017

02- Conto e livro sensacionais!!!! Caroline de Paula, Garanhuns-PE – jan2017

03- Brilhante, Ricardo Kelmer! Giba C. Carvalho, Recife-PE – jan2017

04- ele estava traduzindo.em 99 encontrei o Belchior no lançamento do CD auto Retrato e perguntei sobre a tradução ele respondeu.Por enquanto estou no inferno!..rsrs. F Moreno Set, São Paulo-SP – jan2017

05- Nao obstante, é meu conto predileto do livro! Ricardo, essa música, em especial, me marcou muito! E você a eternizou em forma literária de uma maneira magnífica. Como não admirar e ser grata? E desde a primeira vez que li, senti que era algo fundamentado e trabalhado. Esse post só só confirmou isso. Vc e Belchior: dois literatos admiráveis! Melissa Fernandes, Alfenas-MG – jan2017

06- li de novo. curti de novo. ❤ a vida traz destas bagunças malukas no meio de tantos presentes e tantas surras! né? é nosso brinde! kkkk bjs querido, volte logo pra fusta! (as cadeiras do serpentina não estão mais nem rosnando, o q dirá latindo!). Clarisse Ilgenfritz, Fortaleza-CE – jan2017

07- Caríssimo RK, fico muito feliz com o sucesso da iniciativa do livro e eventos em homenagem a Belchior. Alto nível e merecida recepção. A versão do dantesco monumento literário é realmente um desafio, mas a arte é uma experiência em diálogo no tempo e no espaço. Redobrados parabéns! Abraço do Leite Jr., Fortaleza-CE – fev2017


Lançamento: Para Belchior com Amor

14/10/2016

14out2016

Um livro para celebrar a arte do genial bardo bigodudo

parabelchiorcomamordiv-15b

LANÇAMENTO: PARA BELCHIOR COM AMOR

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A arte de Belchior sempre me fascinou, desde a adolescência. Lembro que eu escutava Coração Selvagem nas rádios, por volta de 1979-80, e achava que aquela canção falava de mim. Hoje eu tenho certeza. Eu tinha apenas 15 anos, mas o blues de Belchior já reverberava em minha alma. Este livro, Para Belchior com Amor, é minha homenagem a ele, o genial bardo bigodudo de Sobral, que tanto enriqueceu minha vida com sua música e sua poesia, e que em 26.10.16 completará 70 anos.

Tive a ideia do livro em junho de 2016. Convidei treze autores e pedi que cada um escolhesse uma música de Belchior e, inspirado nela, escrevesse um conto, uma crônica ou uma carta. Todos os autores são cearenses, a maioria residente em Fortaleza, mas há os que moram em Sobral, São Paulo e Rio de Janeiro. Nossos textos exploram o universo da obra e da vida do ilustre conterrâneo, que marcou a música brasileira com seu talento e originalidade e também com sua surpreendente decisão de afastar-se da vida artística.

Estão presentes temas como o amor, a paixão, o sexo, a arte, a liberdade, a política, a solidão e a violência das cidades, a opressão do sistema sobre o indivíduo e o sentido da existência. Alguns textos mesclam fatos biográficos de Belchior com a vida dos próprios autores, enquanto outros exercitam possibilidades ficcionais com personagens inspirados em suas canções ou tendo o próprio homenageado como protagonista, levando o leitor a uma interessante imersão literária na vida e na obra do artista.

A música que inspirou meu texto foi Divina Comédia Humana. Criei um conto que fala da salvação pelo amor, mas o amor que liberta e não o amor pela posse do outro. Baseei-me na estrutura temática do poema Divina Comédia (Inferno, Purgatório e Céu), de Dante Alighieri, que também inspirou a canção de Belchior. Como o magistral poema de Dante foi escrito em terza rima, eu fiz o mesmo com meu conto, rimando os períodos no mesmo sistema entrelaçado e dinâmico criado por Dante. Será que alguém já havia feito isso com prosa? Não sei. Foi um grande desafio, mas gostei.

Para lançar o livro, criei o projeto Belchior Sete Zero, e chamei meus amigos Marta Pinheiro e Rogers Tabosa para tocar comigo a produção dos eventos. O projeto une literatura, música e teatro para celebrar a arte de Belchior, e acontecerá a partir de out2016 em Fortaleza e outras cidades. A agenda de eventos está na página oficial do projeto, no Facebook.

parabelchiorcomamorcapa3d-01SAIBA MAIS

Livro Para Belchior com Amor

Projeto Belchior Sete Zero

 

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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