O cilindro da luz azul

17/08/2015

17ago2015

OCilindroDaLuzAzul-01.

.

GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bEm sua luta para sobreviver no cenário apocalíptico de um mundo de opressão e violência, casal descobre estranhos cilindros trazidos pelo mar.

Mistério, ficção científica.

.

(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

.

O CILINDRO DA LUZ AZUL

.
LILA FECHOU A PORTA do apartamento e desceu as escadas o mais silenciosamente possível. Chegou à calçada do prédio, olhou ao redor e certificou-se de que estava só, todos já haviam se recolhido aos seus pequenos apartamentos. A escuridão da rua protegeria seus movimentos e também, assim esperava, suas perigosas intenções.

Caminhou por alguns minutos pelas ruas desertas. Havia muito lixo acumulado nas calçadas e as lâmpadas dos postes estavam quase todas quebradas. Dali podia-se escutar bem próximo os tiros e as bombas, a fronteira do bairro sendo intensamente disputada pelas gangues. No alto de um prédio um enorme cartaz anunciava a novidade em segurança pessoal, um lança-chamas que, instalado no automóvel, protege contra assaltos.

Lila parou numa esquina, agachou-se junto à parede e olhou o relógio. Eram 22 horas.

“Ele tem que aparecer, não pode falhar…”

Quando soou o alarme, vindo de um alto-falante num poste próximo, ela sentiu um calafrio – era agora uma desobediente do toque de recolher. Toque de recolher não, “horário de descanso”, como o Controle preferia. Um desobediente podia ser preso e enquadrado como destoante. E um destoante não escapava para contar a história. Ela não tinha dúvida que era esse o fim que a esperava caso seu plano desse errado. Pois bem, pensou, apertando as mãos com ansiedade, agora era tudo ou nada.

Enquanto aguardava, lembrou de Matias. Naquele momento ele estava deitado no sofá do apartamento esperando por ela e dependia do sucesso da operação para não morrer. Ele estava muito doente. Resistira o quanto pôde mas agora já lhe faltavam as forças. Lila dizia que era apenas uma indisposição passageira, porém ele sabia que ela tentava apenas não assustá-lo. Ambos sabiam que Matias havia contraído a doença típica dos resistentes – mais cedo ou mais tarde todos eles apresentavam os mesmos sinais de tristeza e desânimo. Uma fraqueza geral os impedia até de comer e a grande maioria definhava e morria. Procurar hospitais significava entregar-se, pois o Controle já conhecia a doença. A única saída continuava sendo fugir da cidade.

Não resistir era a preferência da imensa maioria das pessoas. Numa época em que a população estava dominada pelos seus piores instintos, era sempre mais cômodo ir junto. Miséria, violência, epidemias, experimentos atômicos, poluição ambiental, ódios raciais e terrorismo religioso – o mundo sucumbira às suas próprias sombras e eram poucos os que conseguiam manter-se equilibrados no meio de toda a realidade confusa e opressiva.

Lila e Matias sabiam de amigos que conseguiram fugir da cidade. No início ainda receberam algumas mensagens que foram lidas com alegria e esperança. No entanto, isso fora alguns anos antes, quando a perseguição aos destoantes e a vigilância das estradas ainda não eram tão fortes. Agora, escapar era quase impossível.

– Lila, você entende que o que vai fazer é muito arriscado, não é? – dissera Matias antes dela sair à rua aquela noite. – Pode ser o fim.

– Eu sei, meu amor. Mas a única coisa em que ainda podemos acreditar são aqueles sonhos.

– Não sei, sinceramente não sei mais… – respondera ele baixando a cabeça. A doença turvava-lhe o raciocínio e a esperança.

– É nossa única chance, Matias. Se eu não voltar em duas horas, estarei numa delegacia. Ou morta. De qualquer modo não o entregarei, isso eu prometo.

– Você sabe que ninguém resiste aos métodos deles.

Ela apenas o beijou, carinhosamente, e saiu. Fechou a porta devagar e desceu as escadas em silêncio, para que os vizinhos nada percebessem.

.
.

UM DIA OS CILINDROS CHEGARAM. Milhares deles começaram a ser trazidos pelas ondas do mar sem que ninguém soubesse de onde vinham. Simplesmente amanheciam na areia das praias. Eram feitos de vidro transparente, tinham o tamanho de uma garrafa comum de refrigerante e pareciam conter apenas ar. Mas havia uma estranha luminosidade azulada em seu interior, um belo e instigante azul que de longe chamava a atenção.

A imprensa logo noticiou o fato, fazendo com que muitos curiosos corressem às praias. Imediatamente o Controle entrou em ação e seus soldados vigiaram as praias, evitando que outros cilindros chegassem à população. Conseguiram também recuperar muitos dos que haviam sido recolhidos. Mas não todos.

Algum tempo depois começaram os boatos. Eles diziam que destoantes conseguiam escapar utilizando o cilindro. No entanto, ninguém sabia explicar como faziam isso, se é que realmente faziam. O Controle fiscalizou barcos e navios, interrogou e prendeu centenas de pessoas, tudo com absoluto rigor. Entretanto, o mistério envolvendo os cilindros continuava.

Quando souberam o que estava chegando à praia, Lila e Matias lembraram imediatamente dos sonhos. Anos antes, eles sonharam, ambos e na mesma noite, com uma misteriosa luz azul pairando sobre o mar. Comentaram entre si o sonho e falaram sobre a forte aura de esperança que o envolvia. O sonho voltou outras vezes, sempre muito intenso, e eles entenderam que deviam manter a esperança e ficar atentos.

Lila ainda tentou se apoderar de algum dos cilindros, mas o Controle já enviara soldados às praias. Então ela agiu rápido e em poucos dias fez os contatos necessários, sempre com muita discrição. Precisava chegar às pessoas certas, caso contrário seria como pisar numa mina explosiva. Depois de todos os contatos realizados, passaram a aguardar. Tinham apenas que suportar até que chegasse a encomenda. Mas as semanas passavam devagar e o mundo ao redor parecia ele todo uma imensa correnteza sedutora a sussurrar: desistam, é bem melhor se entregar…

.
.

ENTÃO LILA O AVISTOU. O homem vinha pela calçada, protegido pelas sombras, caminhando rápido. Lila sentiu a expectativa quase explodindo seu coração. Olhou mais uma vez para um lado, para outro, para as janelas dos apartamentos. A rua estava deserta e tudo que podia fazer era torcer para que não a vissem.

– Demorei por causa dos Cães, moça. Eles já conseguiram controlar todas as entradas do bairro.

O homem retirou um embrulho do bolso do sobretudo e, com cuidado, passou a ela.

– Aqui está. Não me interessa o que pretende. Mas nunca vi ninguém me dizer a utilidade disso.

Ela guardou com cuidado o embrulho na mochila e entregou-lhe o dinheiro.

– Este mês você é a terceira pessoa que me pede esse troço.

– E as outras duas?

– Ninguém sabe.

O homem virou-se e rapidamente sumiu na escuridão da rua.

Por um instante Lila não teve forças para sair do lugar. Finalmente ali estava o cilindro. Era como se, depois de tantos anos, aqueles sonhos estranhos houvessem de repente se materializado em suas mãos. Teve vontade de chorar. Chorar por todo aquele tempo de resistência, por todos os perigos que passaram e por terem acreditado desde o início na mensagem de esperança dos sonhos. Então respirou profundamente e deu o primeiro passo de volta para casa.

As quadras seguintes pareceram intermináveis. Ela percebeu que algumas pessoas a viam das janelas dos prédios. Sabia que bastava uma delas ligar para um número e rapidamente uma viatura a recolheria como desobediente. E tudo estaria perdido. Sabia também que nem todos concordavam com o sistema de denúncias. Mas os que discordavam não ousavam se pronunciar. Ela e Matias estavam sós, eles e todos os que ainda mantinham um mínimo de lucidez naquele inferno.

– Matias?

Deitado no sofá, Matias abriu os olhos devagar, despertando de um sono profundo.

– Está tudo bem? Estava dormindo?

– Sim – ele respondeu, ainda sonolento. Tentou lembrar o que estava sonhando… parecia ser um sonho interessante… mas não conseguiu. Então sentou-se e calculou mentalmente os movimentos da companheira pela sala. – Que bom que você voltou. Deu tudo certo?

– Espero que sim. Aqui está o cilindro.

Lila tirou o embrulho da mochila e pôs sobre a mesa. Pela janela chegavam distantes sons de tiros e explosões. Os Cães aos poucos expulsavam todas as outras gangues do bairro. Eles logo o conseguiriam, estavam muito melhor armados e tinham o apoio dos Guerreiros de Deus, a gangue do bairro vizinho. Em breve o monopólio das drogas e das armas estaria com eles.

– E você, está bem?

– Só um pouco nervosa… Mas já está passando.

– Certificou-se de que não foi seguida?

– Não fui, fique tranquilo.

Ela sentou-se ao lado dele no sofá e o abraçou. Matias estava sem forças. Uma dieta à base de comidas mais saudáveis o ajudava a preservar o restante de lucidez, mas estava difícil encontrar bons alimentos no bairro.

– Lila, meu amor… – ele disse e seus olhos esbranquiçados estavam úmidos. – Esse tempo todo você cuidando de mim e de você, sozinha… Arriscou-se tantas vezes…

– Ah, Matias, deixe disso – ela o interrompeu, acariciando-lhe o rosto magro e abatido. – Você deve estar com fome. Vou fazer uma sopinha bem gostosa.

Enquanto cozinhava para o companheiro, Lila lembrou do dia em que ele cansara, simplesmente cansara. Naquele dia não adiantaram seus apelos: Matias simplesmente desistiu de nadar contra a corrente e se rendeu. Discutiram e ele terminou indo embora, deixando um bilhete em que lamentava não ser tão forte quanto ela e a incentivando a seguir, sem ele por perto a atrapalhar seus passos, ela era uma mulher forte, conseguiria sobreviver.

Dois anos depois ela conseguiu finalmente encontrá-lo – num hospital psiquiátrico. Matias estava cego e em deplorável estado físico. Não duraria muito tempo naquele lugar, principalmente porque o Controle costumava eliminar doentes como ele. Então, gastando o resto de suas economias, ela subornou algumas autoridades e conseguiu retirá-lo de lá.

Durante meses cuidou dele até que recobrasse um pouco de suas forças e da esperança. Tentou arrumar-lhe trabalho, mas aqueles dois anos haviam deixado em Matias graves sequelas e o máximo que ele conseguiu foram subempregos clandestinos que lhe desgastaram ainda mais a saúde.

Isso acontecera quinze anos antes. Agora a cegueira já não o incomodava tanto, pois ele desenvolvera os outros sentidos e adquirira uma ótima noção do espaço, guiando-se por meio do som, do cheiro e da movimentação do ar. Mas estava cada vez mais fraco e o desânimo havia voltado. Morrer era apenas uma questão de tempo, eles sabiam. A não ser que Lila conseguisse um dos cilindros. Mas o que exatamente podiam os cilindros fazer por ele?

– O homem disse que este é o terceiro cilindro que ele vende este mês – comentou Lila, verificando de um canto da janela a rua lá embaixo. – Há outras pessoas lúcidas nesta cidade. E eu tenho certeza que todas escaparão.

– Agora que temos o cilindro, o que faremos?

– Sinceramente, não sei.

– Isso tem que servir para alguma coisa – ele falou, apalpando e cheirando o cilindro. – Mas não tem nenhuma abertura.

Então aconteceu. Foi tudo muito rápido. De repente, para Matias, foi o barulho de porta sendo arrombada e homens gritando que eles estavam presos, não tentassem nada senão morreriam.

Matias percebeu o rápido deslocamento de ar no ambiente e compreendeu que haviam levado Lila para longe dele. Sentiu o cilindro ser puxado de suas mãos e, ao tentar reagir, um objeto moveu-se rapidamente na direção de sua cabeça. Ele ainda teve reflexo para, num mínimo movimento de pescoço, amortecer o golpe, mas mesmo assim a dor foi enorme e ele caiu, sentindo que estava prestes a desmaiar. Lila gritou e ele percebeu que ela já estava imobilizada. Quis falar para ela não reagir, mas não conseguiu.

Caído ao chão, ficou quieto, sentindo a cabeça sangrar. Tentou reorganizar a apreensão do espaço ao redor. Eram quatro homens. Um deles estava com Lila. Outro na porta da sala. Um terceiro próximo à mesa, e certamente devia estar com o cilindro. E o quarto bem próximo, muito provavelmente o que lhe atingira com uma arma.

– Deus não quer violência, já basta a que existe – disse o que estava perto da mesa. – Então vocês nos dizem para que serve o cilindro e nós deixamos vocês em paz.

– E você, logicamente, acha que nós acreditamos nisso… – respondeu Lila.

– Podemos negociar suas vidas. Na condição de vocês, isso já é muita coisa.

Então o Controle continuava sem saber manipular os cilindros, concluiu Matias, ainda imóvel no chão. Era uma boa notícia. Porém, ele e Lila também não sabiam. Sequer haviam-no aberto.

– Estamos esperando… – falou o da mesa, que parecia ser o chefe.

– Nós não sabemos para que serve – a voz de Lila soou do outro lado e, pelo ritmo e inflexão, Matias sentiu que ela estava bem atenta. Precisava ganhar um pouco mais de tempo, ainda estava grogue.

– Ah, deixe ver se entendi. Compraram um objeto, pagaram muito caro e não sabem para que serve. Isso não me parece lá muito inteligente… Cadela vagabunda!!!

O som forte e abafado de um soco doeu nos ouvidos de Matias. Escutou os gemidos de Lila e o som de seu corpo caindo ao chão. Tentou gritar, mas não teve forças.

– A cadela vagabunda tem cinco segundos para dizer como funciona o cilindro – disse o da mesa. Matias percebeu que o quarto homem se aproximava. Sentiu o cano de uma arma tocando sua cabeça. – Se não quiser, obviamente, que os miolos do ceguinho sujem o chão da sala. Cinco… Quatro…

– Mas eu já disse! – Lila gritou. – Nós não chegamos a usar!

– Três…

– Nós não sabemos, acredite em mim!

– Dois…

– Não faça isso, por favor!

– Um…

– Eu mostro… como funciona – disse Matias. A voz finalmente voltava.

– Ah, o ceguinho fala…

Matias levantou-se com dificuldade. Sentiu-se tonto e segurou-se na mesa para não cair. Perguntou onde estava o cilindro.

– Aqui está. E não tente ser esperto.

Matias recebeu o cilindro com as duas mãos, segurando firme. O homem que guardava a porta da sala continuava lá, no mesmo lugar, calculou ele. O da mesa estava ao seu lado. O terceiro continuava com Lila. O quarto homem se afastara um pouco, mas certamente ainda lhe apontava a arma.

– Estou muito fraco… não sei se vou conseguir abrir – ele disse.

– Além de cego, mentiroso.

– Ele está doente, estúpido! – gritou Lila.

Então Lila estava em pé de novo, Matias calculou rapidamente. Ela estava em pé e percebera que devia falar para que ele determinasse sua exata localização.

– Então abra você, cadela. Sem gracinhas.

Matias sentiu que o quarto homem se aproximava. Percebeu que ele pegaria o cilindro de suas mãos. Nesse exato instante entendeu que não deveria entregá-lo. Foi uma certeza estranha, como se na verdade sempre houvesse sabido disso. Então abriu as mãos e deixou o cilindro cair…

O cilindro, porém, não chegou ao chão: o homem moveu-se rápido e o apanhou no último momento. Entendendo que nada mais restava a fazer, Matias saltou sobre o da mesa, o que parecia ser o chefe. Caiu sobre ele, abraçando-o, e os dois chocaram-se contra a parede. Suas mãos encontraram uma arma na cintura de seu oponente. Mas não conseguiu retirá-la, o outro era forte e ele estava fraco demais. O homem afastou-o de si e em seguida um golpe o atingiu no rosto, fazendo-o cair.

Tentou erguer-se, mas não conseguiu. Sentiu gosto de sangue na boca. Nesse instante percebeu que Lila gritava e tentava alcançá-lo, mas era impedida. No chão, recebeu dois chutes. O primeiro partiu-lhe algumas costelas e o segundo arrancou-lhe vários dentes. Mais gosto de sangue. Muita dor. Mais golpes, na cabeça, no peito, por todo o corpo. E depois nada mais sentiu, nenhuma dor, nada. Apenas adormeceu, lentamente…

.
.

– MATIAS?

Ele escutou a voz, trazida pelas ondas do mar, os sons quebrando em alguma longínqua praia de seu pensamento…

– Está tudo bem?

Ele abriu os olhos. Viu que estava deitado na cama.

– Sim, tudo bem…

– Você estava gemendo. Fiquei preocupada.

Matias sentou-se, esfregando os olhos. Reconheceu o quarto da pousada praiana onde passavam o fim de semana com amigos, o abajur ligado, o som distante do mar… E Lila ao seu lado.

– Tive um sonho… tão estranho…

– Toma, bebe um pouco – ela disse, entregando-lhe um copo dágua.

– Um mundo de autoritarismo e opressão… Era uma vida difícil, perigosa… Eu era cego e você cuidava de mim. E havia uns cilindros esquisitos, com uma luz azul…

– E o que acontecia?

– Fomos capturados, algo assim. E nos mataram.

– Ai, que horrível.

– Acho que nunca tive um sonho tão… tão real.

– Foi só um sonho, meu amor, está tudo bem agora – ela disse, em meio a um bocejo. – Vamos dormir? Amanhã cedo vamos passear de barco com a turma.

Ele não respondeu, ainda lembrando do sonho.

– Amanhã você me conta mais. Estou morrendo de sono.

Lila puxou a coberta, aconchegando-se ao corpo de Matias. Ele esticou o braço, desligando o abajur, e o quarto ficou escuro, iluminado apenas pela luz do luar que chegava pelas frestas da janela. Ele deixou-se envolver pelo calor do corpo da namorada e tentou adormecer. As imagens e a atmosfera do sonho, porém, insistiam em voltar. A sensação de ser um cego, de ser cuidado por Lila, de resistirem juntos, tudo era muito real. E o cilindro com aquela luz misteriosa, aquele azul…

– Lila?

– Hummm…

– Olha pra mim.

Ela abriu os olhos, sonolenta, e seu rosto foi iluminado pelo luar. Ele sorriu, confirmando para si mesmo: a luz do cilindro tinha a mesma cor dos olhos dela.

– O que foi? – ela perguntou, curiosa.

– Obrigado, meu amor.

– Pelo quê?

– Por existir.

Ela riu.

– Se você não me deixar dormir, amanhã eu serei uma morta-viva…

Ela o beijou e juntou seu corpo ao dele, buscando novamente o sono. Ele sorriu, feliz. E assim adormeceu, embalado pela melodia silenciosa que exalava da presença da mulher que tanto amava.

.
.

– MATIAS?

Deitado no sofá, Matias abriu os olhos devagar, despertando de um sono profundo.

– Está tudo bem? Estava dormindo?

– Sim – ele respondeu, ainda sonolento. Tentou lembrar o que estava sonhando… parecia ser um sonho interessante… mas não conseguiu. Então sentou-se e calculou mentalmente os movimentos da companheira pela sala. – Que bom que você voltou. Deu tudo certo?

– Espero que sim. Aqui está o cilindro.

Lila tirou o embrulho da mochila e pôs sobre a mesa.

– Lembrei!

– O quê?

– O sonho.

– Que sonho?

– Foi tão real. Estávamos numa pousada na praia… Era um tempo bom, nós tínhamos amigos, éramos felizes. E eu enxergava.

– E o Controle?

– Não havia Controle.

Lila sorriu, comovida.

– Talvez esse outro mundo exista.

– Ele existe, Lila. Eu sei que existe.

Matias ergueu-se e caminhou até onde ela estava, ao lado da mesa.

– Este é o cilindro? – perguntou, apalpando o embrulho.

– Sim.

Ele abriu o embrulho e pegou o cilindro com cuidado.

– A luz dentro dele está acesa?

– Sim – ela respondeu. – E é mesmo azul.

– Da cor dos seus olhos… – ele sussurrou.

– Meus olhos são castanhos, meu amor, você esqueceu?

Ele sorriu. E seu sorriso era de pura tranquilidade.

– Não. São azuis.

No instante seguinte ele abriu as mãos, deixando o cilindro cair…

.
.

ENQUANTO DOIS HOMENS vigiavam a porta e a janela, outro homem examinava os corpos do casal no chão.

‒ Chegamos cinco minutos atrasados ‒ disse ele.

– Estão mortos? ‒ perguntou o outro homem, ao lado da mesa.

– Sim, chefe. Nenhuma marca, nada de sangue.

– Que merda.

Enquanto os outros três homens colocavam os corpos em sacos e os levavam, o chefe abaixou-se e começou a juntar os pedaços de vidro espalhados pelo chão. Aquilo estava deixando-o louco. Era sempre a mesma coisa: destoantes inexplicavelmente mortos, sempre com a expressão serena, como se estivessem dormindo, e o maldito cilindro espatifado no chão. Ele mesmo já quebrara alguns cilindros, mas nada acontecera. Que diabo de mistério era aquele?

Pôs os pedaços de vidro dentro da valise, fechou e caminhou até a saída. Deu uma última olhada na sala, apagou a luz e saiu, batendo a porta.

.

Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

.

GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1cEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

.

01- Baita texto do meu amigo Ricardo Kelmer, um dos meus preferidos, e que deixaria até o mestre Philip K. Dick pra lá de orgulhoso. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – ago2015


O strip-tease

13/07/2015

13jul2015

OStripTease-02

.

GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bCriaturas do futuro que voltam no tempo para garantir que elas mesmas, no passado, não cancelem o futuro – esses são os Observadores.

Fantástico, ficção-científica

.

Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

.

O STRIP-TEASE

.
– VOCÊ DEVIA BEBER menos, Zeca.

– Quer uma dose?

– Não, obrigado. Por que você anda bebendo tanto, Zeca?

– Tá na pauta, espera que vou contar.

– Tô esperando.

– Você tá muito bonita.

– Obrigado. E você, ainda farreando muito?

– Naquela época que a gente se conheceu eu estava no auge. Mas agora dei um tempo na noite.

– Aquela época faz só um ano.

– Pois é.

– …

– Gisele, eu pedi pra você vir aqui porque tenho uma coisa importante pra contar.

– Desde o início eu sempre desconfiei que você me escondia algo.

– Vai ser a coisa mais estranha que você já escutou na vida. Vai achar que eu enlouqueci.

– Sei que muita gente acha que você é louco, mas eu sei que não é. É só um pouco excêntrico. E meio fechado.

– Vai achar sim. Mesmo assim eu vou falar.

– Zeca, eu gosto muito de você. Sei que você tem suas esquisitices, todo mundo tem. Só acho que podia se abrir um pouco mais…

– Eu sei, você já me falou isso. Eu vou lhe contar tudo. Mas tenho certeza que depois você vai dizer que preciso fazer um tratamento e não vai mais querer saber de mim.

– Você por acaso tá vendo alguém aí do seu lado?

– Como?

– Aí do seu lado tem alguém? Você fica olhando e sorrindo como se tivesse alguém aí…

– Hummm… Esse é o problema, Gisele. Tem alguém aqui do meu lado.

– Como assim?

– É exatamente sobre isso que vou lhe falar. Escute, por favor. Primeiro escute.

– Tô escutando.

– Vamos lá. Ahnn… Tudo começou numa noite em que eu estava aqui com uma garota. Foi antes de eu conhecer você. A gente tinha chegado da boate e ela tava no banheiro. E eu na cama, esperando. Foi aí que eu vi pela primeira vez. Não quer mesmo tomar nada?

– Não, obrigado.

– Ele tava sentado na cadeira da minha escrivaninha. Na hora pensei: assalto, putaquipariu. Eu nu na cama e um assaltante no meu quarto. Mas não fiquei muito nervoso não, acho que foi porque tava bêbado. Então falei: Ok, meu irmão, pode levar o que quiser, minha carteira taí, tem um som legal lá na sala, mas por favor não faça nada com a gente… Pois bem, quem tomou susto foi ele. Levantou, me olhou de perto e perguntou se eu realmente tava vendo ele. Era como se não estivesse acreditando. “Você tá me vendo mesmo, Zeca? Tá realmente me vendo?” Eu fiquei sem entender, achei que podia ser algum conhecido, ou que ele tava muito doidão… Então perguntei de onde me conhecia e ele levantou os braços dizendo: “Finalmente!!!” Quer continuar a ouvir?

– Claro. Eu tô ouvindo. Não era um assaltante?

– Não. Era o Observador.

– Quem?

– O Observador.

– Ah, o Observador. Deve ser novo no bairro, ainda não conheci.

– Nem queira.

– Afinal, era amigo seu?

– Era o Observador, já disse.

– Ah, sim…

– Sério, Gisele. É assim que ele mesmo se chama.

– Tá. E quem é o Observador?

– Vamos lá. Observadores são seres que vivem em outra dimensão de tempo e espaço. Levam uma vida normal por lá. Só que eles têm amigos aqui e às vezes têm de vir ajudar o amigo. Enquanto não conseguem, não podem retornar ao seu mundo, ficam presos aqui neste tempo-espaço. É isso. Pelo menos foi isso que ele me disse.

– Ah, você viu seu anjo da guarda.

– Não, não, tá mais pra demônio. Um demônio muito, muito chato.

– Era isso que você queria me falar?

– Tô falando sério, juro.

– Tá. E aí?

– Bem, isso tudo ele me explicaria depois, mas antes a garota entrou no quarto e perguntou com quem eu tava falando e eu apontei pra ele. Mas ela não viu ninguém. Foi então que ele disse que somente eu podia vê-lo e escutá-lo, ninguém mais, que a coisa funcionava assim mesmo. O sujeito parecia superfeliz e dizia que seus dias de solidão haviam terminado. Bem, no fim a garota achou a coisa tão estranha que se vestiu e foi embora.

– E o cara?

– Ficou lá. Tentei tocar nele, mas minha mão atravessou a imagem. Aí eu disse pra mim mesmo que aquilo era um sonho muito louco e tratei de dormir. No outro dia acordei e ele continuava me observando.

– Zeca, eu…

– Eu sei que você não tá acreditando, mas deixe eu contar até o fim. Você prometeu.

– …

– Ele disse que tinha uma missão secreta. Que era algo que dependia de mim, e que se eu fizesse a coisa certa, ele poderia ir embora.

– Olha, Zeca, eu…

– Espere…

– Eu não sei o que tá acontecendo com você, mas…

– Gisele, eu juro que é verdade. Eu não tô louco. Acho até que seria melhor se estivesse mesmo, seria mais fácil de aguentar esse pentelho o tempo todo ao meu lado…

– Quer dizer que você tá falando sério.

– Tô.

– Não tá me gozando.

– Não.

– Então diz pra mim: eu tô falando sério.

– Eu tô falando sério.

– Sem rir, Zeca!

– Desculpa, é que essa situação é meio ridícula.

– Ridícula sou eu aqui escutando essas, essas…

– Você quer ir embora?

– …

– Se quiser, pode ir na boa que eu…

– Vai, continua, eu quero escutar.

– Onde que eu parei?

– O Observador lhe disse que tinha uma missão.

– Isso. Que eu precisava fazer algo e ele tava ali pra me ajudar a fazer esse algo.

– E você não sabia do que se tratava.

– Continuo sem saber.

– Nem desconfia?

– Bem, ele me conhece como ninguém, é incrível. Tem me feito pensar muito sobre minha vida, me faz ver onde que eu tô errando, os meus defeitos… Isso me deixa muito mal.

– Todo mundo tem defeito, Zeca.

– Mas eu é que tenho um cobrador de atitudes vinte e quatro horas por dia, infalível. É como se fosse uma parte de mim.

– Ele tá com você desde antes da gente começar a namorar?

– Sim, há um ano.

– Então quando você me conheceu ele tava junto?

– Tava. Ele não larga do meu pé, Gisele. Lembra de como a gente se conheceu?

– No balcão do Pai Herói.

– Lembra de como eu tava?

OStripTease-02– Calça preta e camisa azul. Um gato.

– Não, tô falando do meu estado.

– Bêbado, claro.

– E morrendo de rir, não era?

– Tava um tanto risonho.

– Por causa dele. Ele antecipava tudo que eu ia dizer, sabia de cor todas as minhas abordagens. “Oi. Você não se sente uma sardinha nesses bares tão lotados?” Eu abria a boca pra falar e ele falava antes. E eu começava a rir.

– Ah, era por isso?

– É um sádico gozador, me sacaneia bastante. De repente se esconde entre as pessoas e eu acho que fiquei livre dele. Quando menos espero, surge com um comentário bem cretino. Lembra de uma vez que a gente tava numa mesa lá no Papillon e eu tive um acesso incontrolável de riso?

– Parecia um demente.

– Por causa dele. Naquela noite ele apareceu de repente com a cabeça bem aqui do meu lado e falou assim, bem sério: “Você está olhando tanto que eu vim segurá-lo pra você não cair dentro do decote dela…”

– Meu decote?!

– Eu estourei de rir. Você tava com um decote assim bem chamativo e aí fiquei imaginando eu caindo lá dentro… Você sem entender nada e eu morrendo de rir.

– Quer dizer que foi pelo meu decote…

– Na hora foi engraçado. Mas esse pentelho tornou minha vida um inferno. Por isso tem muita gente achando que eu sou doido.

– Muita gente mesmo.

– Pudera. No começo até que eu me divertia, mas depois fui ficando irritado. Aí mandava a compostura pros diabos e discutia com ele na frente de quem fosse, dizia que ele não tinha o direito de fazer aquilo, que era uma coisa que ia contra a liberdade individual e a ética cósmica, e que…

– Ética cósmica?

– Eu tava desesperado, valia qualquer coisa.

– Realmente.

– Comecei a ficar com muita raiva dele. Sabe o que é ter de conviver com alguém que conhece você profundamente e vive lhe jogando seus defeitos na cara, ironizando suas atitudes? Pois é o que ele fazia. Não perdia uma oportunidade. Você se sente nu. Você não consegue se concentrar em mais nada. Vai ler um livro ou ver um filme e não consegue, é um inferno. De tanto ele falar, de um tempo pra cá comecei a perceber um bocado de coisa que tenho de mudar em mim.

– Por exemplo?

– Ah… Ele me fez ver o quanto eu tava sendo frívolo, superficial, o quanto era falso comigo mesmo. E me fez ver também o quanto sou dono da verdade.

– Ele fez isso?!

– Fez.

– E você reconheceu?!

– Tive, né? Ele não deixa passar nada. Eu tô conversando com alguém e dou uma opinião… Pronto, lá vem ele me alfinetando. No começo eu fingia não escutar, mas a coisa ficou insuportável. Se ele fosse de carne e osso a gente já tinha saído na porrada.

– E ele sempre esteve perto, mesmo nos momentos em que a gente tava junto?

– Hum, hum.

– Até mesmo… naqueles momentos?

– Até naqueles momentos.

– Então ele me viu nua várias vezes.

– Eu não podia fazer nada, Gisele, entenda.

– Ele viu tudo?

– Ele tá pregado na minha alma, na minha energia. Também não pode fazer nada.

– Era só o que me faltava…

– Agora entende porque nunca consegui relaxar com você? Ele tava sempre perto observando… A única maneira de poder esquecer um pouco era enchendo a cara. Era mais conveniente ficar bêbado pra não pensar sobre certas coisas.

– Olha, Zeca… eu… não sei nem o que pensar. Não sei se me irrito com você, se rio dessa história absurda…

– Pode rir, não vou me importar.

– Não sei se continuo aqui escutando essas… essas loucuras… Não sei.

– Eu tinha de lhe contar.

– Por que eu? A gente não se fala há semanas.

– Foi ele quem sugeriu. Achou que você compreenderia. “Por que você não conta pra Gisa? Ela é uma pessoa sensível, pode ajudar…”

– Ele me chama de Gisa?

– É. Ainda tem essa intimidade.

– Ele tá aqui agora?

– Sentadinho aqui. Morrendo de rir dessa situação ridícula, o sádico. Pergunta algo pra ele.

– Eu?

– É, pergunta alguma coisa.

– Ahn… Sei lá.

– Ele tá dizendo que você dança muito bem.

– E ele já me viu dançar?

– Ele foi comigo na apresentação do seu grupo.

– Ah… Que bom. Agradeça a ele.

– Agradeça você, ele tá ouvindo.

– Ahn… Obrigado, seo Observador… Ai, Zeca! Essa situação realmente…

– Ah, ah, ah, ah!

– …

– Desculpa. É que foi engraçado.

– Zeca, você me chamou aqui pra conversar sério. Eu vim porque acreditei. Aí chego e você me vem com esse papo de Observador. Porra!

– …

– Zeca, se você estivesse em meu lugar, o que faria agora? Diga sinceramente.

– …

– Diga, o que você faria?

– Sinceramente? Acho que levantaria, sairia por aquela porta e tchau.

– Pois é o que vou fazer. Mas antes deixa eu dizer uma coisa: pare de beber, Zeca. Ou pelo menos diminua, se não quiser piorar tudo. E se estiver bebendo pra não ter de encarar certas coisas sobre você mesmo, então lamento dizer que tá indo pelo pior caminho.

– …

– Tchau, Zeca. E tchau pro seu amigo…

– …

– Ele tem nome?

– Eu chamo de Hóbis.

– Hóbis?

– É, Hóbis. Bonitinho, não?

– Hóbis, o Observador… Tchau, Hóbis. Não deixa o Zeca beber demais.

.
.

OStripTease-02– EU AVISEI. Não era pra você contar assim, de uma vez só. Tinha de ser devagar.

– Agora já tá feito, Hóbis.

– E se você tiver perdido a Gisa de vez?

– O que tiver de ser, será.

– Você parece que fez isso pra se livrar dela.

– Se ela gosta de mim como você diz, então ela teria entendido melhor a coisa.

– Ela precisa de tempo, Zeca.

– Agora já tá feito.

– Ligue pra ela de novo. Agora que ela já sabe de mim, deixe que pense que você é louco mesmo. Ela também não é muito normal. Não pode tomar duas cervejas que quer fazer piruetas pelo meio da rua…

– Pelo menos ela dança bem.

– Você ainda não viu nada…

– Ei! O que você sabe sobre ela que eu não sei?

– Esqueça, pensei alto. Vá, Zeca, ligue pra ela.

– Eu não posso ligar de novo, Hóbis! Você viu, ela tem certeza que eu pirei.

– Ela gosta de você.

– Eu também gosto dela. Desde o começo, você sabe. Mas só fiz besteira.

– Claro, sempre bêbado…

– Por sua causa.

– E eu tô aqui por sua causa. Então é você quem tem de fazer alguma coisa.

– E tô fazendo. Tô bebendo pra ver se morro logo de uma vez e me livro de sua chatice.

– Zeca, seu tapado imbecil. Gisa é a mulher que pode te ajudar, te incentivar a seguir o melhor caminho. Acontece que você morre de medo daquilo que mais precisa. É um tolo.

– Se ela puder, me manda pro manicômio.

– Ligue pra ela, marque um local agradável.

– Papa-Tudo Motel. Suítes com cadeira erótica.

– Marque no Spy, convide pra tomar um suco. Por favor, nada de álcool.

– Já falei pra não me pedir isso. Bebo se eu quiser.

– Como posso deixar de pedir isso, seu burro?! A bebida tá estragando sua vida.

– Quem tá estragando minha vida é você!

– É você quem estraga a minha, incompetente! Eu poderia estar em casa, com minha família! Mas não, tenho de estar aqui com você, você que prefere viver personagens em vez de ser você mesmo!

– …

– …

– Escute, Hóbis, eu já passei uma semana sem beber e não adiantou nada, você continuou me pentelhando.

– Não são sete dias sóbrios que vão resolver os seus problemas, cretino. Olhe pra dentro de você mesmo e veja o que é que tem de mudar.

– Se soubesse, eu mudaria.

– Você sabe.

– Eu não sei, já disse!

– Sabe sim!

– Se soubesse, já teria mudado só pra me livrar de você, palhaço!

– Ah, você pensa que é agradável pra mim ficar assistindo seus porres idiotas, suas abordagens sem graça, “Oi, veja só, eu um sujeito simples e você tão cheia de predicados…” Sem falar nas suas performances sexuais horrorosas…

– Então vá pra merda! Aliás, fique aí mesmo. Pouco me importa se eu morrer de um coma alcoólico. Sabendo que você vai junto, eu vou me divertir bastante. Vamos os dois pro Inferno.

.
.

– OI, GISELE.

– Você me convidando pra tomar um suco… Você não deve estar nada bem.

– Desde aquele dia que eu tô sem beber.

– Sério?

– Sério.

– E o que aconteceu?

– Resolvi dar um tempo. O que você quer?

– Maçã. Sem açúcar, por favor.

– Então dois. O meu com.

– E aí, o Hóbis veio?

– Claro.

– Ele tá aqui?

– Sentou agora. Mas a gente não tá se falando.

– Por quê?

– Divergências. Acontece.

– Ah.

– …

– …

– Não adianta olhar pra ele, Gisele, você não pode ver.

– Olhei sem querer. Ai, Zeca, esse papo vai me botar maluca igual a você, sabia?

– Pelo menos você vai me entender.

– Quer dizer que brigaram? Ele falou algo que você não gostou?

– Vamos mudar de assunto? Você vai bem?

– Ótima.

– Tô vendo. Linda como sempre.

– Você também tá bem.

– …

– Rindo de quê, Gisele?

– Besteira.

– Diz.

– Ah, besteira. Tava pensando na ironia da coisa.

– Que coisa?

– No dia em que finalmente conheço um cara interessante, ele tem um caso com um homem invisível.

– É muito azar mesmo…

– Eu fui um pouco indelicada da última vez. Queria lhe pedir desculpas.

– Seria a reação de qualquer um.

– Eu ia telefonar pra você.

– Ia?

– Fiquei curiosa sobre o Hóbis.

– Foi?

– Fiquei pensando… Ele não dorme?

– Dorme quando eu durmo. Acorda quando eu acordo. Mas não sente fome, nem sede, não consegue fazer nada a não ser me observar.

– Não deve ser um serviço muito agradável.

– Eu não queria estar no lugar dele.

– Ele gosta de você?

– Nossa relação é estranha. A gente se gosta e se detesta. No início era pior, eu nem dormia direito com ele olhando pra mim. Imagina fazer tudo com alguém olhando, tomar banho, fazer cocô, uma punhetinha… E trepar? Impossível, né? Ou então você toma todas e esquece.

– O que ele acha dessa sua bebedeira?

– Ele diz que eu tô fugindo.

– E tá?

– Pode ser. Mas acho que seria mais fácil sem ele por perto.

– Aí você não teria chegado às conclusões que chegou sobre sua vida. Acho que o Hóbis, se é que ele existe…

– Ele existe.

– Certo. Acho que o Hóbis tá fazendo você economizar a grana que pagaria por uma boa terapia, sabia?

– E quem disse que eu pagaria por uma terapia?

– Zeca, por que você não vem passar um fim de semana comigo na serra? Ia ser tão bom.

– Sério?

– Eu ia adorar.

– Não sei, Gisele. Tenho uns trabalhos…

– Ah, Zeca, vamos, eu cozinho pra você.

– Que mais?

– Deixo você ficar com o controle da tevê.

– Não pedi sua opinião.

– Como?

– Falei com o chato aqui.

– Com o Hóbis? O que ele disse?

– Disse que se eu fosse pra serra com você, ele esqueceria por uma semana dos meus defeitos.

– …

– Olhando pra ele de novo, Gisele?

– Heim? Ah, é. Já tô me comportando como se realmente tivesse alguém aí. Acho que é uma boa proposta a dele, Zeca.

– Como que você sabe que ela tem esse CD?

– Heim?

– O cretino aqui. Tá falando besteira.

– O que ele disse?

– Pra você não esquecer de levar seu CD de músicas eróticas. Você tem um cedê assim?

– Peraí, como que ele sabe?

– É, como que você sabe disso, Hóbis? Hum… Ah, tá. Ele disse que não sabia, que foi um palpite.

– Muito estranho…

– Não sei se a gente pode acreditar em tudo que esse maluco diz. Mas deixa ele pra lá, Gisele. Então, posso ficar mesmo com o controle da tevê?

.
.

OStripTease-02– ELE TÁ OLHANDO AGORA?

– Com certeza.

– Tá ou não tá, Zeca?

– Ah, Gisele, eu não vou me virar agora pra ver. Tenha paciência.

– Ele não é gay, é?

– Que eu saiba, não.

– O que ele achou de mim?

– Ele gosta de você. Não percebeu lá no Spy? Era o mais animado com essa história da gente vir aqui pra serra.

– Você não se incomoda dele observar a gente transando?

– Eu já havia esquecido disso, Gisele.

– Desculpa…

– …

– …

– Vem cá, vem…

– Peraí, Zeca, Vou botar o CD de novo…

.
.

– PARABÉNS, CHATO, você cumpriu a promessa. Uma semana caladinho.

– Fiz por nós dois, companheiro.

– Eu até consegui me concentrar em outras coisas, você viu?

– Vi. Foi uma semana bastante positiva.

– Você acha que a gente dá certo?

– A gente? Definitivamente não.

– Eu e Gisele, engraçadinho.

– Claro que sim. Não existe nada melhor pra você que essa mulher, meu rapaz. Gisa é maravilhosa. Bonita, inteligente, carinhosa… E tem um corpinho muito alinhado, cá pra nós.

– Ela dança desde os quinze.

– Você deveria pedir pra ela dançar pra você.

– Hummm… Boa ideia.

– Algo me diz que alguém tá apaixonado…

– Mais ou menos.

– Assuma, homem.

– Puta merda. Assumir o quê, Hóbis?

– Que você é doido por ela.

– Vou pensar no seu caso.

– Assuma logo, homem. Quer enganar quem?

– Hóbis, dá um tempo.

– Hoje, enquanto você falava ao telefone, encheu uma folha inteira com o nome dela, percebeu?

– Tava testando a caneta.

– Ah, sim, claro.

– …

– Então, assume ou não assume?

– Putaquipariu, Hóbis, você é um pentelho!

– Assume ou não assume?

– Já disse que vou pensar no seu caso.

– Pensar pra quê, homem? Tá na cara. Já viu sua cara no espelho? Viu?

– Eu mereço…

.
.

– NÃO QUER QUE EU SIRVA uma tacinha de vinho pra você também?

– Não, obrigado, hoje você vai beber sozinha.

– Só uma tacinha não faz mal, Zeca…

– Depois, depois.

– Então tá bom. Vou servir mais uma pra mim. Escuta, você se importaria se eu conversasse com o Hóbis também?

– Ahn… Acho que não.

– Ótimo. Hóbis, o que você tá achando do meu apartamento?

– Ele respondeu que você tem muito bom gosto.

– Humm, obrigado. E o que ele acha de nós namorarmos sério?

– Nós quem, Gisele?

– Eu e você, né, Zeca? Com o Hóbis é que não é.

– Essa pergunta não tava no roteiro…

– Ah, então tem censura pra falar com ele, é?

– Ok, ok. O que você acha disso, Hóbis?

– Eu acho uma ótima ideia!

– Gisele, não atrapalha! Você quer ou não quer que ele responda?

– Desculpa, não resisti… Vai, pergunta de novo.

– Ele tá rindo de sua imitação dele. Horrível, por sinal.

– Que bom que ele tem senso de humor.

– Até que tem. Quando não tá preocupado em me dar lições de moral.

– Ele já parou de rir?

– Ele disse que se eu não namorar, ele namora.

– Então se decidam. Não tenho a noite toda.

– Acho que você tá um pouquinho alta…

– E você tá vermelho! Falou em namoro, você perde o rebolado… Viu o meu vinho por aí?

– Hóbis tem um recado pra você.

– Oba! Sou toda ouvidos.

– Ele tá dizendo que só tem um jeito dele não olhar pra você enquanto a gente transa.

– E qual é?

– É transarmos eu, você e outra garota. Assim, em respeito a você, ele fica olhando pra ela.

– Você disse isso mesmo, Hóbis?

– Ele acaba de dizer: “Claro, meu docinho de coco…”

– Ah, quer saber? Eu não ligo se ele quiser ficar olhando pra mim… Pode olhar, viu, Hóbis.

– Pois eu ligo.

– Acho que o Hóbis não falou nada disso, seu bobo… Você é quem quer realizar essa sua fantasia da gente transar com outra mulher e fica botando palavra na boca do pobre do Hóbis…

– É sério, ele disse.

– Mentira. Você falou mesmo, Hóbis?

– Falei sim, meu sorvetinho de duas bolas…

– Deixa ele falar, Zeca!

– Tô só repetindo o que ele diz.

– Vamos, Zeca, o que ele disse?

– Ele não vai responder porque tá rolando de rir do seu porre, Gisele.

– Pois agora eu vou mostrar a ele que tenho outras qualidades… Deixa primeiro eu apagar a luz. Onde foi que eu deixei o meu vinho?

– O que é que você vai fazer?

– Uma musiquinha especial pra vocês… Dá licença, deixa eu ligar o abajur. Ah, agora tá perfeito.

– Hóbis tá dizendo que eu também devia tomar algo, que eu tô muito tenso…

– Também acho. Cadê o CD?

– Você tá quase sentada em cima dele.

– Ai! É mesmo! Hummm, deixa eu ver… Acho que é a sete… Exatamente!

– Não acredito. Você vai fazer um strip-tease pra mim?

– Pra vocês dois. Hóbis, pode sentar, viu, fique à vontade.

– Ele já sentou há muito tempo.

.
.

OStripTease-02– ELE TÁ OLHANDO AGORA?

– Tô com preguiça de virar o pescoço.

– Ele gostou do strip?

– Não desgrudou o olho.

– Sério?

– Até se emocionou.

– E você?

– Se eu gostei? Caramba! Não vou esquecer jamais.

– …

– Você é tão linda, Gisa…

– …

– Gisa?

– Hum.

– Ainda tá valendo aquela proposta?

– Qual?

– A do namoro.

.
.

– ZECA…

– Hum…

– Escute, tenho que ir agora, meu ônibus chegou. Quando você acordar, já não estarei mais aqui.

– Humm…

– Um abraço, amigão. Você é um cara legal. Desculpe se fui rude algumas vezes, mas é que estávamos no mesmo barco, entenda. Mas estou orgulhoso de você.

– Hummm…

– Essa mulher lhe quer bem, não a deixe ir embora. Gisa ainda vai lhe dar muitas alegrias, você vai ver, filhos maravilhosos… Agarre sua chance agora, homem. O futuro é só uma questão de escolha. E não é qualquer uma que faz um strip daquele…

– Hummmm…

– Adeus, amigão.

.
.

– BOM DIA, meu filho.

– Bom dia, seo Nestor. Pra casa?

– Pra casa, sim, que você já deve estar com saudade, né? Um ano fora.

– Pois é. O Outro me deu trabalho.

– Imagino. Pensei até que você ia pedir prorrogação. Pegue uma cervejinha pra você aí na geladeira, meu filho.

– Obrigado. Ônibus vazio, seo Nestor.

– Esta semana está assim.

– Não tem mais ninguém pro senhor pegar?

– Tinha a Felícia. Mas ela pediu prorrogação.

– Então ela ainda não conseguiu? Que pena.

– Felícia é aquela arquiteta, você sabe.

– Sei. Veio pra garantir que a Outra dela não abandonasse o curso. Humm, cervejinha boa.

– Pois a Outra abandonou. Foi fazer Direito. Felícia só não matou a Outra porque enfim não pode.

– Dá vontade de matar mesmo.

– Mas Felícia já pediu prorrogação. Disse que não vai desistir enquanto a Outra não voltar pra Arquitetura.

– Prorrogação é faca de dois gumes. Ou a gente consegue de vez ou deixa o Outro louco, e aí não tem mais jeito. Se eu tivesse pedido prorrogação, meu Outro também enlouqueceria e acabaria deixando a Gisa escapar de vez.

– Cá pra nós, filho, acho que não veremos mais nossa amiga Felícia. A coisa pra ela está difícil.

– Isso é muito triste.

– Tenho dó quando a pessoa descobre que seu futuro será anulado. Ultimamente tem aumentado, sabe? Quando as pessoas entram neste ônibus, eu já sei que muitas não vão voltar e sinto pena. Eu não sei como é a experiência de não poder voltar, mas imagino que seja a coisa mais terrível do mundo.

– É. Mas quando a gente recebe o chamado pra vir pro passado, já sabe que sempre tem a chance de não voltar.

– O diabo é que a gente tem sempre a esperança de que o nosso futuro é o que vai vingar, né?

– É. Só de imaginar que aquele cabeça-dura podia deixar a Gisa escapulir, já me dá um frio na barriga…

– Mas me conte, como foi?

– Rapaz teimoso o meu Outro, seo Nestor.

– Ah, mas todos já fomos assim.

– E deu pra tomar todas depois que eu apareci, o senhor precisava ver.

– Se não me engano, você também gostava de um copinho…

– É, gostava.

– Foi a Gisele quem botou você no prumo.

– Verdade. Mas o Outro tava bebendo bem mais que eu.

– E ele vai ficar com ela mesmo?

– Vai. Já tá no papo.

– Então está bom. Mas me diga, como é que foi ver a Gisele mais novinha?

– Ah, seo Nestor, achei que eu ia ter um troço…

– Eheheh, imagino.

– Eu faria qualquer coisa pra garantir nossa hipótese de futuro, o senhor sabe.

– Ora se sei.

– Posso lhe contar um segredinho, seo Nestor?

– Pode, filho.

– Embarquei nessa missão porque se eu não viesse, eu e a Gisa seríamos desativados, nós e os nossos filhos. Mas eu também tava doido pra rever o strip-tease que ela fez pra mim quando a gente começou o namoro… Ah, como eu queria!

– Mas veja só!

– Ah, seo Nestor, o senhor nem imagina… Foi aquele strip que me fez namorar sério com ela.

– E ela fez de novo?

– Fez. Essa noite mesmo. Igualzinho como foi, igualzinho…

– Ah, por isso que você chegou com essa cara… Então, missão encerrada?

– Claro! Depois daquela performance, o Outro casa até amanhã se ela pedir.

– Então está bom.

– O que a gente não faz por uma mulher…

– O que não faz!

– Faz de tudo.

– Ora!

– Até aguentar a si mesmo no passado o cara aguenta.

– Aguenta.

– Até casar a gente casa, seo Nestor.

– É o que eu digo.

– Ora se não casa.

– Ora se.

– Casa mesmo.

– Casa.

– Pois é.

.

Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

.

.

GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1cEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais. > Mais

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

.


A vertigem

10/02/2015

09fev2015

AVertigem-01

Dizem que seo Pepeu, o louco da cidade, possui dois bichinhos mágicos que localizam coisas perdidas e fazem as pessoas se encontrarem. Mas ele está velho e tem de passar a alguém a missão de cuidar dos bichinhos

Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

Música sugerida para leitura: Destino (Cristiano Pinho. Part. vocal: Kátia Freitas)

.

.

.

.

A VERTIGEM

.
OS FATOS QUE AGORA relatarei aconteceram há muito tempo. Mas parece que foi ontem.

Eu estava em Quixadá naquele sábado para resolver umas questões relacionadas a um imóvel de minha família, a casa onde moramos por muitos anos antes de mudarmos para a capital e que desde então estava alugada. Eu havia convencido meus pais a vendê-la e investir o dinheiro em ações na bolsa, obtendo muito mais rendimento. Porém, como a tarde já ia no fim e no domingo outros interessados visitariam a casa, decidi permanecer na cidade e me hospedei num hotelzinho na zona central. Após tomar um banho, aproveitei que o calor estava mais ameno e saí para dar uma caminhada pela redondeza.

Vinte e um anos. Esse era o tempo que eu não ia a Quixadá. Eu nascera e vivera ali até os quinze anos, quando minha família mudou-se para Fortaleza. Meus amigos de infância, o futebol com bola de meia, as quermesses na praça, tudo de repente ficou para trás. Determinado a vencer na cidade grande a qualquer custo, logo ajustei-me às suas leis, concentrando-me nos estudos e no trabalho, economizando dinheiro e deixando diversões e namoradas em terceiro plano. E tratei de convencer a mim mesmo, dia após dia, de que aquela era a minha verdadeira cidade. Em pouco tempo substituí minha mentalidade interiorana por um comportamento metropolitano e Quixadá foi ficando cada vez mais relegada a um simples nome de cidade natal em meus documentos de identidade.

– Silvio?

Alguém falou meu nome. Era uma senhora. Encostada no portão de uma casa do outro lado da rua, ela acenava sorridente para mim. Atravessei a rua enquanto tentava buscar na memória quem poderia ser.

– Já vi que não lembra de mim.

Eu não lembrava mesmo.

– Fui sua professora de matemática.

Finalmente lembrei. Dona Necy. Estava bem mais velha e bem mais gorda.

– Desculpe, dona Necy. É que faz tanto tempo.

– Tenho memória boa. Você deve estar com… trinta e cinco?

– Trinta e seis.

– Até que não mudou muito. Está de volta à terrinha?

– Não. Só de passagem.

Ela me pegou pelo braço e me convidou para entrar um pouco.

– Acabei de fazer um docinho de caju – ela disse, animada.

Eu queria voltar logo para o hotel, pois levara o notebook e tencionava trabalhar aquela noite nuns relatórios da empresa. Porém, fiquei sem jeito de negar e me deixei conduzir à varanda da casa.

– Sente um pouquinho que eu vou pegar.

Era uma ampla varanda, que ocupava a frente e a lateral da casa. Calculei a área e vi que era maior que o quarto-e-sala onde eu morava. Havia duas cadeiras naquela parte da varanda, ambas de balanço, de ferro revestido com fios de plástico colorido, dessas que não existem mais nas cidades grandes. Sentei numa delas e o movimento de vai e vem da cadeira quase me deu vertigem.

Logo depois dona Necy chegou e me entregou uma cumbuca cheia de doce. Enquanto eu comia, e o doce era desses com calda vermelha, realmente delicioso, conversamos um pouco. Falei que meus pais estavam bem, que iríamos vender a casa e que eu ainda era solteiro e trabalhava como diretor financeiro de uma empresa. Ela, por sua vez, contou que se aposentara, que seus filhos estavam todos casados e que Quixadá continuava do mesmo jeito que eu a havia deixado, com a diferença de que agora estava ainda mais quente. Falou e em seguida abriu um leque, começando a abanar-se.

– Muito gostoso o doce, dona Necy.

– Quer mais? Vou pegar.

– Não, obrigado – respondi, embora quisesse.

– Então vou pegar uma aguinha pra você.

Ela pegou a cumbuca e entrou, dirigindo-se à cozinha. Pensei na mania que esse povo do interior tem de oferecer comida às visitas. Para eles você está sempre magro e precisando urgentemente engordar. Nesse momento dei-me conta da presença de alguém ao meu lado, na porta da sala. Virei-me, achando que veria dona Necy, mas o que vi foi um senhor idoso, alto e magro. Vestia-se todo de branco, calça, paletó, sapatos e um chapéu de feltro, como se fosse sair. Seus olhos eram negros e me olhavam de um jeito estranho…

– Boa tarde – cumprimentei-o.

Ele não respondeu. Permaneceu no mesmo lugar, me olhando daquele jeito estranho, sem expressão. Ou melhor, com uma expressão, sim: de ausência. Mas uma ausência fixada em mim, difícil explicar. Era como se ele não estivesse ali – mas soubesse que eu estava. Senti um desconforto, uma insegurança, como se quem me olhasse pelos olhos daquele velho, de algum modo, soubesse de mim. Soubesse bastante de mim.

Desviei o olhar para o lado da rua. No céu, por trás das casas, o sol se punha entre as nuvens menstruentas, anunciando a noite do sertão.

– Ô, Pepeu, não vai falar com o rapaz, não? – disse dona Necy, chegando da cozinha. – Ele é filho da Dezinha, que você conheceu, lembra dela, Pepeu?

Ele continuou quieto e calado, encostado na porta. Dona Necy me estendeu o copo dágua e sentou. Bebi com gosto. Quando voltei-me para olhar para seo Pepeu, o lugar estava vazio, ele havia voltado para dentro da casa sem que eu percebesse.

– É primo torto de mamãe – explicou dona Necy, sem se importar com o repentino sumiço do velho. – Tem o juízo meio mole.

– Ah…

– Morava com ela, em Caiçarinha. Quando ela morreu, a gente trouxe ele pra morar com a gente.

– Ele não casou?

– Não. Nem teve filho. Já está com noventa anos, mas ainda tem saúde boa.

– E não causa problemas?

– Pepeu é quieto, faz mal nem a muriçoca. Só tem umas esquisitices, mas a gente já acostumou. A gente se acostuma com tudo, né?

Dona Necy riu. A loucura do agregado da família a divertia.

– Que esquisitices?

– Essas coisas de gente doida. Por exemplo, ele diz que cria uns bichinhos. Mas ninguém nunca viu.

– Devem ser invisíveis – brinquei.

– Ele gostou de você, viu?

– De mim? Me olhando daquele jeito?

– Quando não gosta, nem olha pra pessoa.

Sorri, lisonjeado.

– O doce estava ótimo, dona Necy, obrigado – falei, levantando-me.

– Tem certeza que não quer mais? Doce aqui não falta.

– Tenho que voltar pro hotel.

À noite telefonei para meus pais e, após falarmos sobre a venda do imóvel, contei para mamãe que havia estado com dona Necy e seo Pepeu. Ela comentou que o conhecia.

– Seo Pepeu é bom de encontrar coisa perdida, sabia? – ela falou.

– Como assim?

– Se você perdeu qualquer coisa, é só falar com ele que rapidinho você encontra.

– Só a senhora mesmo pra acreditar nessas coisas, mãe – respondi, rindo das crendices interioranas dela.

– Ah, eu soube que Milena se separou. Tá solteirinha. Que nem você.

– Que Milena, mãe?

– A que você namorou.

Milena era uma garota de Quixadá que eu havia namorado na adolescência. Eu havia esquecido totalmente dela.

– Obrigado pela dica, mãe, mas prefiro as mulheres da capital.

Após desligar, sentei na cama e liguei o notebook para adiantar as tarefas que me aguardavam no escritório na segunda-feira, que eram muitas. Fiquei apenas na tentativa, pois o sono me chegou tão forte que adormeci no meio do trabalho com o notebook ligado, coisa que nunca havia me acontecido.

AVertigem-01No domingo mostrei a casa para um casal que estava bastante interessado em comprá-la. Discutimos valores e combinamos que eu voltaria no fim de semana seguinte para concluir o negócio. E retornei ao hotel, satisfeito. Em breve a casa onde eu vivera minha infância e que significava minha derradeira ligação com a cidade se transformaria num bom dinheiro, que eu esperava multiplicar rapidamente no mercado de ações.

Almocei no hotel e depois subi ao quarto para tomar um banho. Enquanto me vestia, olhando-me no espelho, achei minha imagem um tanto diferente… Recordei ter lido em algum lugar que os espelhos refletem nossa imagem cada um ao seu modo e que, por nos acostumarmos aos nossos reflexos cotidianos, nós nos estranhamos nos outros espelhos.

Pensava nisso quando de repente a lembrança de seo Pepeu tomou minha atenção. E quase pude sentir a mesma sensação de desconforto que me causara sua presença no dia anterior. Seo Pepeu e seu olhar estranho, sem expressão, mas que mexia com algo em mim. Seo Pepeu e seu olhar de quem parecia saber muitas coisas de mim.

Saí do quarto e fui pagar a conta. Conferi as horas: cinco da tarde. Caminhei até o carro, estacionado em frente ao hotel, e entrei. No entanto, em vez de rumar para a saída da cidade, fui à casa de dona Necy. Parei o carro, saí e bati palmas. Ela logo apareceu, sorridente.

– Vim me despedir.

– Mas ainda está quente pra pegar estrada – ela falou, já me puxando para dentro e fechando o portão. – Entre um pouquinho. Já almoçou?

– Já, obrigado.

– Mas aceita um docinho de caju, não aceita?

– Aceito. E seo Pepeu, está bem? – perguntei. E me senti um tolo por ter querido enganar a mim mesmo sobre o motivo de ter voltado à casa de dona Necy. Evidente que eu não fora me despedir – estava ali para rever seo Pepeu.

– Hoje ele me perguntou: cadê o filho da Dezinha?

– Sério?

– Não disse que ele tinha gostado de você?

Dona Necy entrou e logo retornou trazendo o doce. Como da outra vez, ela sentou em sua cadeira de balanço e, enquanto falava algo sobre a safra de caju, o som de suas palavras se acompanhava do barulhinho quase hipnótico do balançar da cadeira. Foi nesse momento que ele surgiu à porta em seu figurino branco, silencioso e impecável feito um gato.

– Olha quem veio ver você, Pepeu.

– Boa tarde, seo Pepeu. Como vai?

Ele não respondeu. Continuou parado, encostado à porta, o olhar ausente em mim. Dona Necy fez sinal com a mão, para que eu não me importasse, e começou a falar do clima, do custo de vida, da política local. Lembrou do tempo da escola e de como as crianças de hoje preferem o computador às brincadeiras na rua. Foi quando escutei a voz grave ao meu lado:

– Ele quer mais doce.

Seo Pepeu falara!

– Quer mais? – perguntou-me dona Necy, levantando da cadeira. – Me dê que eu vou pegar.

Dona Necy puxou-me a cumbuca das mãos e entrou. E eu olhei para seo Pepeu, ainda surpreso. Ele falara.

Foi esta a primeira vez que escutei sua voz. E ele falou de um modo tão natural, e havia uma tal lucidez das coisas por trás dela… Eu, de fato, havia terminado de comer e realmente queria mais, porém estava com vergonha de pedir. E ele percebera.

– O senhor também gosta de doce de caju? – perguntei, tentando parecer simpático. Ele apenas continuou me olhando, daquele jeito ausente. Senti-me ridículo, tentando me comunicar com um louco, e tive a nítida impressão de que seo Pepeu desdenhava de minha posição de são e normal.

Para meu alívio, dona Necy voltou, trazendo mais doce e me livrando do desconforto de fazer sala para a loucura. Conversamos mais um pouco e, em determinado momento, lembrei do que minha mãe me falara.

– É verdade que ele encontra coisas perdidas?

– Olha aí, Pepeu – ela falou, dirigindo-se a ele. – Silvio quer saber se você encontra as coisas. Encontra?

Seo Pepeu não respondeu. Continuava com seu olhar em mim, insistente e silencioso – e ausente.

– Você não perdeu alguma coisa ultimamente? – dona Necy me perguntou. Sim, eu havia perdido minha caneta predileta, uma de alumínio que tinha meu nome gravado. Perdera-a no dia anterior, logo que chegara a Quixadá.

– Sim, perdi uma caneta.

– Pede pra ele encontrar.

– O senhor pode encontrar minha caneta, seo Pepeu? – perguntei a ele. E flagrei-me desejando muito que a resposta fosse sim.

No silêncio que se seguiu, enquanto nós dois nos olhávamos e eu ansiava por sua resposta positiva, senti uma vertigem… E me veio, nesse exato momento, uma lembrança de minha infância… Lembrei de um poço que havia no quintal da casa do vizinho, um velho poço que fornecia água e do qual as crianças eram proibidas de se aproximar. Um dia, sem suportar mais a curiosidade, fui escondido até o poço e subi na borda. E na água lá embaixo, em vez de minha imagem refletida, vi um monstro horrendo. Com o susto, me desequilibrei e caí para dentro do poço. Felizmente fui rápido e consegui me segurar na borda, ficando pendurado lá enquanto o monstro, do fundo do poço, aguardava que eu despencasse. Com muito esforço, subi a parede e saí. Voltei correndo para casa, apavorado, o coração saindo pela boca. A experiência foi tão traumática que depois desse dia, bastava me aproximar de um poço para sentir uma forte vertigem. Olhar lá dentro, nem pensar.

A lembrança se dissipou e a vertigem foi sumindo aos poucos, o que me aliviou bastante. Agora eu estava novamente na varanda da casa de dona Necy, tendo nos meus olhos o olhar ausente de seo Pepeu. Mexi-me na cadeira para afastar o resto de vertigem que ainda sentia, sem saber bem quanto tempo estivera envolvido pela súbita recordação ou se alguém percebera alguma coisa.

Então seo Pepeu moveu-se, caminhando até dona Necy. Inclinou-se e sussurrou algo em seu ouvido. E voltou ao seu lugar, encostado na porta.

– Pepeu disse que se você trouxer um chocolate pra ele, ele encontra sua caneta.

Dar-lhe um chocolate? Que coisa infantil, pensei, decepcionado. E eu que, por um rápido instante, chegara quase a crer que ele possuía mesmo algum dom mágico, que transitava por outros mundos… Mas agora via que era tudo uma brincadeira entre eles, uma espécie de concessão que dona Necy fazia à estranha lógica da loucura.

Mesmo incomodado por ter feito papel de tolo, resolvi topar a brincadeira. Levantei e fui à mercearia da esquina. E logo voltei com o chocolate, que entreguei a ele. Seo Pepeu, porém, não o recebeu, deixando-me com o braço estendido no ar. Dona Necy riu e pegou o chocolate de minha mão, entregando a ele. Pensei que seo Pepeu fosse comê-lo ali mesmo, mas, em vez disso, guardou-o no bolso de dentro do paletó e tornou a sussurrar ao ouvido de dona Necy.

– Agora você espera que a caneta aparece – ela disse, me piscando um olho, como se estivéssemos brincando com uma criança.

Olhei para seo Pepeu e julguei ver um esboço de sorriso, uma quase imperceptível luzinha de satisfação em seu rosto… que um segundo depois sumiu, sem deixar vestígio. Então nos despedimos e fui embora.

Durante o trajeto de volta a Fortaleza a lembrança de seo Pepeu me fez companhia. Ele realmente me impressionara bastante. E havia provocado em mim algo difícil de precisar, um incômodo misturado com medo e… uma certa euforia. Por quê?

Enquanto eu dirigia, chegaram outras lembranças de minha infância… Lembrei de um tempo em que eu tinha passagem livre para outras realidades, que eu visitava sempre. Um tempo em que eu tinha amigos que os adultos não viam e com eles dividia segredos. Lembrei que eu tinha o poder de ficar invisível e fazia isso sempre que queria roubar doces da confeitaria ou quando queria ficar no quarto de minha prima sem ser notado, enquanto ela deitava em sua cama e se tocava intimamente como se estivesse sozinha. Era um tempo em que os dias eram cheios de aventuras e tudo era mágico e fascinante. Um tempo encantado que simplesmente havia sumido de minha memória e que durante aqueles momentos na estrada irrompeu no pensamento, feito bolhas que sobem à superfície da água fervente.

Na entrada da capital, envolto pelas lembranças, não percebi o sinal vermelho e passei direto pelo cruzamento. Freei o carro bruscamente, quase colidindo com um caminhão. Por pouco não causei um terrível acidente. Poderia ter morrido… Parei logo depois, assustado e ao mesmo tempo aliviado pela sorte que tivera. Melhor esquecer o passado, pensei, enquanto engatava a primeira e saía. Melhor voltar à realidade.

Nos dias seguintes minha mente manteve-se focada nos afazeres do trabalho, que me consumia o dia inteiro e às vezes até a noite, quando levava tarefas para casa. Na quarta-feira, porém, enquanto trabalhava em minha sala na empresa, percebi que a luz do fim de tarde que vinha da janela refletia-se na estante em alguma coisa que eu não conseguia precisar o que era. Intrigado, levantei e fui conferir o que estava brilhando ali. Era uma caneta. Uma caneta de alumínio com meu nome gravado.

Senti um arrepio na espinha. Era a caneta que estava perdida! Mas como ela podia estar ali se eu a perdera em Quixadá? Seria seo Pepeu… responsável por aquilo?

Não, claro que não, imediatamente respondi para mim mesmo. Eu certamente me equivocara. Sem perceber, certamente eu trouxera a caneta comigo de Quixadá e…

E o quê? Eu pusera a caneta na estante e também não lembrava? Isso não. Claro que eu não fizera isso. Então como explicar?

Não encontrei nenhuma explicação. Não havia explicação. Durante três dias eu havia esquecido de seo Pepeu e agora ele subitamente voltava por meio daquele mistério. Seria mesmo possível que ele tivesse algo a ver com aquilo?

Pelo resto do dia a imagem do velho esquisito me perseguiu, aqueles olhos ausentes de expressão, mas que eu sabia me espreitarem atentos. E isso me fazia dividido. Se por um lado brisas suaves do outro mundo sopravam por intermédio de seo Pepeu, brisas que me arrepiavam os pelos e me traziam memórias de um tempo de magia e encantamento, por outro lado seus olhos pareciam querer me desmascarar, como se eu fosse culpado de algo…

AVertigem-01No sábado seguinte voltei a Quixadá. Eu havia combinado com o casal interessado em comprar a casa que nos encontraríamos no domingo, mas minha vontade de rever seo Pepeu era tamanha que não pude esperar mais um dia.

Cheguei no fim da tarde e dona Necy me recebeu com a simpatia de sempre. Contei-lhe que havia encontrado a caneta.

– Que bom – ela respondeu. – Pepeu vai gostar de saber.

– Ele sempre faz… essas coisas?

– Que coisas?

– Encontrar objetos perdidos.

Ela riu.

– Você acredita nessas coisas?

– Eu? Bem… eu…

Parei de falar, encabulado feito um menino flagrado fazendo o que não deve. Simplesmente não consegui responder. Em que eu acreditava? Já não sabia.

– O povo mais jovem não liga pra isso não, sabe? Quem ainda acredita é o povo velho.

Sorri, sem jeito. Ao lado, no vidro da janela, vi minha cara envergonhada. Fiquei pensando: quem eu seria? Do povo jovem ou do povo velho?

– Ele está em casa?

– Pepeu? Não. Foi passear com os bichinhos dele.

– E ele sabe andar sozinho pelas ruas?

– Mas menino, Pepeu é esperto – ela confirmou, orgulhosa. – Só não sai quando os bichinhos dele não querem ir. Aí não tem quem faça Pepeu botar o pé fora de casa. Você não quer sentar um pouco? Tem suco de cajá bem geladinho, vou pegar pra você.

– Obrigado, dona Necy – recusei. – Mas eu preciso falar com seo Pepeu.

– Então vá por ali, ó, que você ainda pega ele.

Corri pela rua até que vi aquela figura magra e alta, metida em seu terno branco, o chapéu branco, ele e seu passo lento, parecendo não ligar nadinha para o mundo em volta. Quem visse não o distinguiria de qualquer desses velhos que seguem para a praça nos fins de tarde.

Diminuí o passo e fui me aproximando dele. O coração batia forte e o suor já me ensopava as costas. Estiquei o braço em sua direção e, antes de tocá-lo, escutei sua voz:

– Encontrou a caneta?

Seo Pepeu continuava caminhando, olhando para frente. Por um momento achei que ele falara consigo mesmo.

– Sim… Encontrei sim. Vim agradecer.

Então me cheguei ao seu lado e o acompanhei em seu passo lento pela calçada. Perguntei como conseguira que eu encontrasse a caneta, mas ele nada respondeu. Comecei a sentir o peso do ridículo. Puxei mais conversa, mas ele continuou do mesmo jeito, silencioso e o olhar lá na frente ou, sei lá, em lugar nenhum.

Quando chegamos à praça meu entusiasmo inicial já havia se desmilinguido no meio daquele constrangimento, e de novo eu me sentia fazendo papel de tolo, confiando que podia domar a loucura. Foi quando, já sem saber mais o que falar, comentei sobre Milena, minha ex-namorada da adolescência, se ele a conhecia.

Mais uma vez. A sombra de um sorriso a lhe sobrevoar a face, rápida, um quase nada. Mas eu vi, sim. Perguntei novamente, se ele conhecia Milena.

– Quer encontrar a moça, né?

Meu coração deu um pulo. Então, mais para não perder o embalo da conversa do que qualquer outra coisa, respondi rapidamente que sim e perguntei se ele podia me ajudar.

– Traga um chocolate, traga.

Um chocolate. O que ele queria dizer com isso? Que me faria encontrar a moça da mesma forma como encontrei minha caneta? Não quis arriscar perder a oportunidade e corri até uma banca de revistas, onde comprei uma barrinha de chocolate e levei para ele.

– O senhor gosta muito de chocolate, né, seo Pepeu?

Ele ainda guardava a barrinha no bolso interno do paletó quando olhou para mim e… sorriu! Sorriu de verdade. Bem, foi um sorriso de um segundinho só, camuflado pela boca rígida, mas ele sorriu sim. E falou:

– É pra mim não, é pros bichinhos. Agora pode ir, vá.

– Ir pra onde, seo Pepeu?

– Vá logo.

Ele parecia ter pressa. Mas eu não sabia o que fazer.

– Vá, vá – ele insistiu, me empurrando levemente. Eu olhava para ele e não sabia mesmo o que fazer. Devia voltar a Fortaleza? Encontraria Milena lá?

– Vá logo.

Não pude deixar de obedecer. Atravessei a rua e olhei para ele, que continuava indicando que eu devia prosseguir, vá, vá…

De repente uma mulher surgiu bem à minha frente, quase esbarrando em mim. Paramos os dois, assustados.

– Não acredito… – ela falou, surpresa. – Silvio?!

– Milena? – balbuciei, ainda mais surpreso que ela.

– Está perdido aqui em Quixadá?

– Eu… ahnn…

Eu todo era uma confusão só. Aquele encontro era obra de seo Pepeu? Não, não era possível, não podia ser. Mas como não seria? Claro que era sim, só podia ser. Tinha que ser. Virei-me rapidamente para a praça, mas seo Pepeu não estava mais lá.

– Eu… vim resolver umas coisas.

Milena havia mudado, não era mais a menina que eu lembrava, obviamente. Mas continuava bonita.

– Que coincidência, Silvio. Eu nunca faço esse caminho. Mas hoje, sei lá por quê, resolvi vir por aqui.

Ficamos olhando um para o outro, no meio das pessoas que passavam, sem saber o que dizer. Ela enfim quebrou o silêncio, perguntando se eu estava sozinho.

– Eu? Ahn, sim, estou.

– Quer sair hoje à noite? Tem um barzinho novo que é bem legal.

Após me passar seu número de telefone, deu-me um beijo no rosto e seguiu caminhando. Então atravessei a rua e avistei seo Pepeu caminhando na direção de sua casa. Corri até ele.

– Foi o senhor que fez a gente se encontrar, não foi?

Ele não respondeu. Nem sequer olhou para mim.

– Por favor, seo Pepeu – implorei. – Eu preciso saber.

Nada. Ele continuou em silêncio, caminhando seu passo lento. E eu ali fiquei, parado na calçada, o coração feito uma britadeira, a ponto de ter um troço. No degradê do céu a tarde anunciava seu fim, abrindo caminho para a noite. Uma brisa soprou, eriçando os pelos do meu braço.

Mais tarde, no barzinho, pensei em comentar o ocorrido com Milena. Mas achei melhor não. Como dizer-lhe que em troca de um chocolate, um velho maluco havia mexido com as forças do além para que nos encontrássemos de repente naquela rua? Como explicar o que eu sentia, aquela confusão toda em minha cabeça? Como dizer-lhe que o outro mundo havia voltado, o mundo mágico da minha infância?

Para não ficar pensando o tempo todo nisso, tratei de conversar sobre várias coisas e rimos bastante dos velhos tempos, recordando nosso namoro de adolescentes. Ela me falou de seu casamento fracassado e eu contei sobre minha vida em Fortaleza. Ela me perguntou se eu estava solteiro e eu confirmei. No fim da noite deixei-a em casa e trocamos um demorado beijo. Um beijo muito gostoso, por sinal, que me fez lembrar de uma antiga e doce sensação, a de ter Milena em meus braços, nós dois no banco do jardim de sua casa, prometendo um para o outro todas as estrelas do céu imenso de Quixadá.

Naquela noite demorei a dormir. Estava absolutamente dividido. Uma parte de mim queria ardentemente acreditar que seo Pepeu tinha mesmo poderes mágicos, que talvez o mundo não fosse somente aquilo que os olhos veem, que talvez outras coisas existissem além da compreensão comum. Talvez os loucos tivessem respostas. Talvez fosse hora de eu buscá-las de outra forma que não fosse nos números frios dos relatórios financeiros.

Outra parte de mim, porém, balançava a cabeça, desapontada com minha própria tolice. O mundo real não estava ali, naquela cidadezinha do interior, eu sabia disso. Tampouco estava no passado, entre mentiras da imaginação infantil. A realidade ficava na outra ponta da estrada, para onde no dia seguinte eu voltaria.

AVertigem-01Na manhã seguinte não escutei o despertador e, quando acordei, já eram duas da tarde. Estava bem atrasado para o encontro com o casal que queria comprar a casa. Vesti-me às pressas e dirigi até o restaurante onde havíamos combinado o encontro. Felizmente eles ainda me esperavam. Desculpei-me, almoçamos e pudemos, enfim, acertar os detalhes finais do negócio.

De volta ao hotel, o moço da recepção me informou que alguém me aguardava e apontou para o sofá ao lado. Virei-me, com a certeza que veria Milena. Mas o que vi foi um velho de terno e chapéu brancos.

Fui até lá e, antes que eu dissesse qualquer coisa, ele levantou-se calmamente e saiu do hotel. Segui-o e passamos a caminhar pela rua lado a lado, em silêncio. Ele queria passear comigo, pensei, como dois amigos fazem num fim de tarde. Eu, porém, queria tanto falar do dia anterior, saber dos bichinhos…

Então chegamos à pedra do Cruzeiro, um conjunto rochoso muito visitado por turistas em busca de uma vista panorâmica da cidade. Quando criança, eu adorava subir até o topo, mais de cem metros de altura, e lá me entretinha durante séculos com a paisagem. Seo Pepeu parou, olhou lá para cima, ajeitou o chapéu na cabeça e começou a subir por uma das trilhas. Pensei em protestar, não estava nem um pouco a fim de me cansar, mas não ousei falar nada, apenas segui-o.

Seo Pepeu subiu com espantosa agilidade, sem dar sequer um passo em falso. Eu, ao contrário, escorreguei várias vezes e estive a ponto de desistir. Felizmente ele parou antes de chegarmos ao topo e pouco depois eu o alcancei, e sentei numa pedra para descansar. E só então foi que percebi a paisagem. Dali boa parte da cidade se mostrava para nós e, lá longe, por trás dos montes de pedra que a circundavam, o sol poente enchia o céu de tons de vermelho, amarelo e laranja. Eu havia esquecido de como aquela visão era magnífica. Enquanto as nuvens lentamente trocavam de desenhos e o céu mudava de cor, senti-me como se estivesse fora do tempo…

– Você vai ficar com eles depois que eu for, não vai?

A voz de seo Pepeu…

– Com eles quem? – perguntei, meu olhar vagando pelo horizonte.

– Os bichinhos. Olhe, não pode se atrasar não, venha no dia que chamarem.

Os bichinhos, claro. Por um instante, ou teriam sido séculos?, eu havia esquecido deles.

– Que bichinhos são esses, seo Pepeu? ‒ indaguei, olhando para ele. Seo Pepeu, em pé, ao meu lado, também olhava para o horizonte.

– Deram pra eu criar, faz tempo. Um é o bichinho escondedor, gosta de esconder e encontrar as coisas, é danado que só.

– E o outro?

– É o bichinho alcoviteiro. Ele gosta de brincar com as pessoas, faz elas se perderem e se encontrarem. São pequenininhos mas sobem em tudo que é canto. E gostam muito de chocolate.

Bichinho escondedor e bichinho alcoviteiro. Um que encontrava objetos, outro que fazia pessoas se encontrarem… Aquilo era absolutamente incrível. Continuei como estava, sentado na pedra, o olhar lá longe, além do tempo…

– Foi o bichinho alcoviteiro que fez sua mãe casar com seu pai, sabia?

– Como assim?

– Seu pai era moço festeiro, queria compromisso não. Então o bichinho fez ele encontrar com ela na rua sete dias seguidos em sete lugares diferentes.

Sorri, espantado. Aquilo era uma novidade.

– E quem lhe deu os bichinhos pra criar, seo Pepeu?

– Posso dizer não. Nem você vai poder dizer quem lhe deu. E vão ficar com você até o seu dia, viu? Quando você se for, eles voltam pra dentro da casinha deles e de lá só saem pras mãos do novo dono. E não pode ser mulher.

– Eles não gostam de mulher?

– Mulher ia usar pra fazer mal com a outra. E eles querem só brincar, fazer arte com o povo.

– Outra pessoa pode ver os bichinhos?

– Não. Eles estão sempre escondidos por trás das coisas.

A voz de seo Pepeu chegava lentamente aos meus ouvidos e se misturava à paisagem. De repente tudo era uma coisa só, o sol se pondo, as pedras, o céu avermelhado e as palavras de seo Pepeu. O tempo passado e o tempo presente finalmente davam-se as mãos. Tudo fazia sentido.

– Tem uma coisa – ele continuou. – Os bichinhos não gostam nem de gato nem de padre.

– Por quê?

– Gato pode ver eles, eles não gostam. E padre deixa eles tristes.

– E eles falam com o senhor?

– Eu sei o que eles pensam. Com o tempo você vai saber também.

– E por que o senhor escolheu logo a mim?

– Eles que escolhem. Quando você chegou, eles me avisaram.

– E se, por acaso, eu não servir pro negócio?

– No dia que eles não tiverem mais dono, tudo vai parar.

– Como assim?

Ele não respondeu.

– Como assim tudo vai parar, seo Pepeu?

Virei-me e vi que ele já descia a pedra, enquanto minha pergunta era levada pelo vento.

Voltamos em total silêncio. Ao fim da descida seo Pepeu seguiu por uma rua, sem olhar para trás, e eu segui por outra, voltando ao hotel. Sentia-me em paz, como alguém que finalmente encontra algo que havia muito procurava sem saber que procurava.

AVertigem-01Na segunda-feira pela manhã, do escritório, liguei para minha mãe e contei da caneta, do encontro com Milena e do que seo Pepeu falara sobre ela e papai. Ela riu e disse que era verdade, sim, que um dia, quando era solteira, procurou um senhor que vivia no meio do mato. Era um tipo meio ermitão e diziam que possuía poderes mágicos. Ela foi lá e encontrou um velho estranho, mas gentil, e ela lhe pediu que fizesse meu pai se apaixonar por ela. O velho disse que isso não podia fazer, mas que faria algo parecido.

– Pois ele fez – prosseguiu minha mãe, rindo gostosamente. – Fez seu pai se encontrar comigo por vários dias seguidos. Ele ficou tão cismado que não teve como não prestar atenção em mim. Depois que a gente casou, contei pro seu pai, mas você sabe que ele não acredita nessas coisas.

– E a senhora pagou pelo serviço?

– Dei um chocolate, como seo Pepeu havia me pedido. Saiu barato.

E os bichinhos, eu pensava, como seriam? Gordinhos de tanto chocolate? Talvez não, seo Pepeu dissera que eram ágeis. Podia-se andar com eles no bolso? Como era a casinha deles? Eu pensava nos bichinhos e a todo momento me vinham novas utilidades como encontrar documentos perdidos, forçar encontros providenciais, conferir se tal pessoa estava mesmo em tal lugar…

E o medo deles de gatos, que estranho… Então os gatos viam mesmo coisas? E quanto aos padres? Presumi que os bichinhos não gostavam deles pelo fato da Igreja Católica ter um passado reconhecidamente perseguidor para com outras crenças. Quem sabe os bichinhos não guardavam lembranças traumáticas de outros tempos, de cruéis perseguições?

Seo Pepeu dissera que no dia que os bichinhos não tivessem mais dono, tudo ia parar. O que podia significar? Uma profecia sobre o fim do mundo? Ele dissera também que eu ficaria com eles somente depois que ele se fosse. Bem, pela saúde que seo Pepeu tinha, esse dia ainda demoraria, o que era ótimo, pois eu queria aprender tudo sobre o outro mundo.

– Tudo, tudo – falei para mim mesmo. E ri que nem uma criança feliz.

Eu não estava mais dividido. Seo Pepeu era real, os bichinhos eram reais. O mundo mágico estava de volta.

Antes de sair para almoçar, liguei para o casal que compraria a casa. Comuniquei, sem dar muitas explicações, que o negócio estava suspenso e que, se fosse o caso, depois eu entraria em contato com eles. Desliguei o telefone e estiquei as pernas, relaxado e aliviado. De repente, vender aquela casa era algo que não fazia muito sentido. Talvez não fosse má ideia mantê-la alugada. Talvez, quem sabe, um dia eu cansasse da capital e voltaria a morar em Quixadá. Sim, por que não? Esquecer aquele negócio de mercado de ações e levar uma vida mais calma, sem tantas preocupações com lucros. Quem sabe com Milena. Por que não?

Então a secretária me tirou de meus devaneios, avisando que havia uma ligação para mim. Atendi. Era dona Necy. Ligava para avisar que seo Pepeu morrera na noite anterior. Ele estava bem, ela disse, havia feito seu passeio de fim de tarde e jantado normalmente. Morrera dormindo. O enterro seria à tarde.

Demorei alguns minutos até conseguir fazer algo. Seo Pepeu morto… Não parecia real. Não podia ser real, ele ainda tinha tanto a me ensinar…

Cancelei os compromissos da tarde, peguei o carro e mandei-me para Quixadá. Dirigi a toda velocidade, mas quando cheguei ao cemitério, o caixão já havia descido e dois homens o cobriam de terra. Havia pouca gente presente, só dona Necy e alguns familiares. Fiquei arrasado, pois queria ter visto seo Pepeu uma última vez.

– Ele gostava de você – dona Necy me falou, enxugando uma lágrima.

– Eu também.

– Acho que Pepeu pressentiu que ia morrer, pois ontem, antes de dormir, pediu pra lhe entregar uma coisa.

Dona Necy abriu sua bolsa, tirou um pequenino baú de madeira e me entregou.

– Ele guardava isso com muito cuidado, desde quando morava em Caiçarinha.

Segurei o bauzinho com as duas mãos, sentindo seu peso.

– Parece que tem alguma coisa dentro, mas eu não sei o que é. Pepeu me pediu pra eu entregar pra você sem abrir.

– Obrigado.

– Vamos agora lá pra casa tomar um café. Venha com a gente.

– Infelizmente não posso, dona Necy. Tenho que voltar logo pra Fortaleza.

Despedimo-nos e saí. Alguns minutos depois eu estava na estrada, voltando para a capital. Dirigia tomado por uma mistura de tristeza, excitação e medo, e a todo instante olhava de canto de olho para o bauzinho de madeira no banco do passageiro.

Chegando em casa, pus o bauzinho sobre a cama e sentei ao lado. Minhas mãos tremiam e o coração batia descompassado. Uma gota de suor deslizou por meu rosto. Lá fora a tarde ia embora e, pela janela, pude ver o céu começando a escurecer, anunciando a noite da cidade grande, tão diferente da noite do sertão. Dentro daquele pequeno baú estava a prova da existência do outro mundo, o mundo mágico que sempre existira, mas que eu um dia preferi esquecer. Bastava abri-lo e libertar os bichinhos.

Peguei o bauzinho e movi a tampa para cima, bem devagar. De repente, por um instante, surgiu na lembrança aquele terrível poço da minha infância… E imediatamente senti a vertigem me abraçar, novamente ela, a mesma vertigem. Interrompi o movimento, baixei a tampa e respirei profundamente. Está tudo bem, falei para mim mesmo, enquanto esperava a vertigem passar. Alguns minutos depois, quando me preparava para abrir de novo, uma pergunta surgiu em minha mente. E se… nada houvesse lá dentro?

Quando a noite veio, ela e sua escuridão, eu continuava lá, sentado na cama, o bauzinho ao lado. E a pergunta não calava em meu pensamento. E se nada houvesse lá dentro?

A madrugada chegou, ela e seu silêncio, e lá estava eu no mesmo lugar. Aquela pergunta não me deixara dormir. Nem dormi e nem tive coragem de abrir o bauzinho.

Quando amanheceu, guardei-o numa gaveta do armário e fui trabalhar. Esforcei-me como nunca para me concentrar no serviço, mas não consegui. Quando voltei para casa, a primeira coisa que fiz foi tirar o bauzinho da gaveta. Botei-o novamente sobre a cama e jurei para mim mesmo que daquela vez eu o abriria, eu precisava abri-lo e acabar de vez com aquela tortura. Sim, eu precisava fazer isso. Mas… e se nada houvesse lá dentro?

É a pergunta que me faço até hoje, cinquenta anos depois, quando cai a tarde e tiro o bauzinho da mesma gaveta, e sento na mesma cama do mesmo apartamento, tudo o mesmo. E se nada houver lá dentro?
.

Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

.

.

Cristiano Pinho – Destino

.

.

Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

.

LEIA NESTE BLOG

NoOlhoDaLoucura-01aNo olho da loucura – Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

A pergunta – Um dia, porém, alguém desconfia. E entende que os que olham para fora, sonham, e os que olham para dentro, despertam. E aí a pergunta é inevitável

Minha noite com a Jurema – Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

Um cara que acabou de acordar – Por isso esse olhar de quem ainda não entendeu,  esse clima de Morfeu, essa preguiça de explicar

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

.
01- Acabei de ler o conto sobre a loucura, do seu Pepeu. Pois saiba que eu segurei o ar por alguns instantes no final, achei muito legal. Vera Sabóia, Fortaleza-CE – jul2005

02 – Que o Seo Pepeu guie seu coração e a vc todo mesmo, ‘treim-rúim’, pelo túnel do irresistível-selvagem-charme da insanidade e lhe mostre a luz no fim! …que tire as tentações do caminho e lhe dê a paz! aaaaaaaaaamééémmmmmmmmm! Patrícia Rochael, Goiânia-GO – mar2007

03- Gostei muito, muito mesmo!!!Adorei! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – fev2015

04- Ricardo Kelmer, esse sempre foi um dos seus contos de que mais gosto. Muito bom mesmo!, Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – fev2015

05- Ricardo Kelmer, perfeito! Ana Velasquez, Altamira-PA – fev2015

06- Este livro é um dos melhores que conheço! Além do “Seo Pepeu”, tem outros contos alucinantes! Grande Ricardo Kelmer!!!- Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – fev2015

07- Eu amo Ricardo Kelmer. No bom sentido, macho réi. Você tem talento e um papo com você nos aproxima do tudo. Do ser inteligente que sabe combinar vida, pessoas, coisas, animais e o mundo de dentro e de fora de tudo. Nonato Albuquerque, Fortaleza-CE – fev2015

08- Esse é o conto preferido do Roman Peter Ciupka Junior, né não? Marcelo Gavini, São Paulo-SP – fev2015

09- Opa ! Fala seu Kelmer ! Lembrei que tinha lido esse conto ( muito bom !)la no seu livro ” Guia de sobre … ” … Acho que eu nunca comentei contigo mas esse conto tem um Q de ” Alem da Imaginaçao” … Luciano Hamada, São Paulo-SP – fev2015

AVertigem-01a


Quando os homens não voltam para casa

18/01/2013

19jan2013

QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1.

.

GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bJavier Viegas é tarólogo e resolve problemas do Além. Dessa vez uma moça deseja reencontrar o namorado que foi atraído por uma bela princesa para dentro de um quadro de parede.

Mistério, sobrenatural.

.

(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

.

QUANDO OS HOMENS NÃO VOLTAM PARA CASA

.
OI, LU… 
Por favor, leia a carta com atenção. Você é a única pessoa em quem confio. Saiba que, apesar de tudo, ainda amo você. Beijos. Junior.

.
Luciane leu o bilhete intrigada. Já fazia uma semana que não tinha notícia do namorado. No escritório avisaram que ele não ia lá fazia três dias, os porteiros do prédio não sabiam dele e seu telefone não atendia. No início pensou que Junior se chateara com a discussão que tiveram e resolvera dar um tempo. Mas aquele sumiço não fazia sentido.

Então decidira falar pessoalmente com ele. Entrou no apartamento com a chave extra que possuía. Nada viu de anormal, estava tudo em ordem. Sobre a cama encontrou o bilhete e, ao lado, o quadro que ele tanto gostava, a princesa sentada num banco à entrada de um bosque, o mesmo quadro que originara a fatídica discussão. Nunca viu nada demais naquele quadro, mas Junior nutria por ele uma tal admiração que ela simplesmente não entendia. Pôs o bilhete de lado e começou a ler a carta.

.

A margem de um lago, um pequeno ancoradouro e um bote amarrado. Um caminho que sai do ancoradouro e penetra o bosque, por entre as árvores. Logo à entrada do bosque um banco de madeira e uma princesa muito bonita, em trajes medievais, olhando triste para a curva do caminho, como se aguardasse alguém que de repente surgirá vindo do bosque…

Encontrei o quadro numa loja de usados e gostei dele de cara. A princesa me passava uma ternura tão grande… E havia a sensação de familiaridade, era como se eu a conhecesse de algum lugar, de algum tempo. Levei o quadro e pus na sala. Você deve lembrar desse dia: eu mostrei, você olhou e riu, e disse que princesas sempre fizeram o meu tipo e que se acaso eu encontrasse uma pela frente, não pensaria duas vezes e lhe trocaria por ela. Lembra?

Primeiro pus o quadro no corredor, para olhar sempre que eu passasse. Depois trouxe para o quarto e deixei ao lado da cama, para que eu adormecesse olhando para ele. Várias vezes tentei lhe dizer do quanto o quadro me fascinava. Mas você apenas zombava dos meus comentários.

Para mim, aquela princesa estava presa no bosque. Ela era triste e passava os dias sozinha, chorando de saudade de seu país. Mas havia um leve brilho de esperança em seus olhos: ela esperava pela chegada de um cavaleiro que a libertaria. Ele viria do bosque e surgiria na curva do caminho. Ele a pegaria pela mão e juntos tomariam o bote que os levaria rumo ao país da princesa. Enquanto isso não acontecia, ela aguardava cantando uma canção melancólica que se espalhava pelo bosque e um dia chegaria aos ouvidos de seu libertador.

À noite eu acariciava o quadro como se isso pudesse amenizar o sofrimento da princesa. Tirava o vidro, passeava a ponta dos dedos por sobre o papel e quase podia sentir o relevo das árvores, a água do lago, a pele dela, o cabelo…

Então uma noite tive um sonho. Eu estava no bosque e seguia pelo caminho entre as árvores. Estava à procura da princesa e precisava muito encontrá-la antes que anoitecesse. E só havia um jeito: guiar-me por sua canção. Mas ventava muito e a voz dela se perdia nos ventos. Tentei muitos caminhos, sabia que ela estava perto, podia sentir sua presença… mas não a encontrei. Começou a ficar escuro e eu tive medo de me perder no bosque. Então, lamentando muito não tê-la encontrado, voltei.

Acordei no meio da noite chorando. O sonho ainda estava presente no quarto e eu podia sentir o vento, ainda ouvia os ecos da canção triste. Eu estivera tão perto… Ela estava ali, em algum lugar… e eu não soube encontrá-la. Não fui bom o bastante para ser seu cavaleiro – era isso o que mais me doía.

No outro dia nem fui trabalhar, impressionado com a força do sonho. Contei para você, lembra? Pela primeira vez você escutou com atenção e, então, falou que eu já estava exagerando e que se continuasse assim, ia ficar doido. Você levantou com o quadro na mão e saiu, dizendo que ele era de mau gosto e que ia jogá-lo no lixo.

Alcancei você na sala. Avancei e puxei o quadro de sua mão, mas ele escapou e caiu. E espatifou-se no chão. Quando vi os pedaços de vidro espalhados, fiquei transtornado, uma dor imensa no coração. Tentei juntar os pedaços e você se abaixou para me ajudar, pedindo desculpas. Mas eu lhe empurrei, com raiva, e disse que dispensava sua ajuda. Você ficou olhando para mim, assustada. Certamente devia achar que eu não estava bem da cabeça ou então pela primeira vez teve um vislumbre do quanto aquele quadro era importante para mim. Não sei, afinal não conversamos mais. Você bateu a porta com força e foi embora.

No dia seguinte inventei uma desculpa e novamente não fui trabalhar, não conseguiria me concentrar. E à noite tive o segundo sonho. Estava de novo no bosque e a cantiga da princesa me chegava entre os ventos. Ela estava mais perto que na noite anterior… Eu queria prosseguir, mas já estava escuro e eu tinha medo de ficar perdido no bosque para sempre. Dividido nessa dúvida mortal, decidi voltar, uma dor me dilacerando a alma por mais uma vez deixar a princesa sozinha.

Como da outra vez, despertei logo, tão triste que suspirava. Por alguns instantes o quarto pareceu ser o bosque, tão real que quase toquei as folhas no chão. Rapidamente tomei o quadro no peito, como se faz com alguém que a gente gosta tanto que tem vontade de trazer para dentro de si. Apertei a princesa contra o peito enquanto fazia força para que o sonho não fugisse. E por alguns instantes deu certo: toquei um galho, segurei-o… Mas logo o bosque sumiu e eu estava de volta ao meu quarto, eu e minha enorme tristeza. Então falei para a princesa ser forte e aguardar só um pouco mais, eu logo a encontraria. E foi com esse pensamento que adormeci, esperançoso de que o sono me conduzisse de volta ao bosque.

Mas não voltei. Acordei pela manhã decepcionado, sem ânimo nem para comer. Não fui trabalhar. Trabalhar como, sabendo que ela ainda estava lá, sozinha naquele bosque?

Sem conseguir pensar em outra coisa, saí para dar um passeio. Olhando para o lago do parque, escutei a voz da princesa. Estava distante, eu quase não ouvia. Mas ela era sim. Fiquei radiante: aquilo era um sinal. Então voltei para casa com a certeza de que à noite eu a encontraria.

Já é madrugada e estou com sono. Logo mais estarei com a princesa e a levarei de volta a seu país. Não se preocupe comigo, eu voltarei.

Junior

.
Luciane continuou olhando para o papel. Tentava organizar as ideias, mas todo o seu pensamento era um emaranhado de interrogações girando sem parar. Que diabo afinal estava acontecendo?

De fato, no início não ligara. Com o tempo, no entanto, o interesse de Junior pelo quadro lhe botou uma pulga atrás da orelha. Mas nem de longe imaginou que a coisa pudesse chegar a tal ponto. Lembrou que nos últimos tempos ele andava mais quieto e pensativo, questionando coisas e vindo com considerações filosóficas a respeito da vida. Talvez houvesse faltado um pouco mais de tato de sua parte para entender o que se passava. Ele dizia que precisava ficar sozinho mais tempo e ela considerou que ele não mais a queria. Talvez não fosse nada disso. Talvez ele ainda a amasse mesmo.

Aqueles dias longe dele serviram para rever algumas ideias. Pediria desculpas e tentaria ser mais compreensiva, afinal ela o amava muito e não imaginava a vida sem ele. Claro que ele também tinha seus defeitos, mas primeiro era preciso não perdê-lo, isso agora era o mais importante. Por esse motivo resolvera procurá-lo.

Mas agora, aquela carta… E se ele estivesse lhe aprontando uma brincadeira?, pensou, subitamente irritada. Sim, Junior bem seria capaz disso. Ela ali preocupada e ele em algum lugar por aí, rindo de sua cara. É, ele estava lhe aprontando alguma. E ela fazendo papel de boba, perdendo tempo com os delírios de um cara metido a cavaleiro garboso e sua princesa casadoira. Conheceu outra mulher e agora inventava aquela palhaçada, era isso. Pois se quisesse, que a procurasse para esclarecer a situação. Tinha mais o que fazer.

E foi embora, batendo a porta.

.
.

QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1ELE, PORÉM, NÃO A PROCUROU. Os dias seguiram e a indefinição a deixava nervosa. Estava com saudades. E muito preocupada. Aquela carta não fazia sentido. E ainda havia a questão do trabalho: ele faltava já fazia uma semana, os colegas também estavam preocupados.

Voltou ao apartamento três dias depois. Estava decidida a chamar a polícia. Foi até o quarto e pegou o quadro sobre a cama. Então percebeu algo tão estranho que teve de tapar a boca para não gritar. Ali, no quadro, no exato local onde o caminho fazia uma curva para entrar no bosque, ali havia uma nova figura, uma pessoa que não estava lá da última vez. E, olhando bem… era Junior.

Luciane largou o quadro sobre a cama. Um medo gelado lhe subiu a espinha. Olhou novamente o quadro. Havia mesmo um detalhe novo na paisagem, havia alguém vindo de dentro do bosque em direção à princesa. A imagem não estava nítida, mas era uma pessoa. E o rosto parecia com o de Junior, o formato, o cabelo, os olhos… Ou será que aquela pessoa sempre estivera ali? Não, impossível.

Luciane fechou os olhos e disse para si mesma, mentalmente: Junior está dentro desse quadro. Ao mesmo tempo em que resistia à ideia, sentia seu pensamento sendo atraído para ela. Junior estava naquele quadro, podia sentir isso. E quanto mais se deixava envolver pela ideia, mais absurda ela se tornava.

Olhou novamente. E se fossem dois quadros? Em sua brincadeira, Junior bem poderia ter substituído o primeiro quadro por aquele segundo. Mas não, não. Por que ele se daria ao trabalho de fazer tudo aquilo, por quê? Não fazia sentido.

Decidiu dormir no apartamento. Estava com medo, mas precisava descartar a hipótese de que seu namorado lhe pregava uma peça, ele sempre fora muito brincalhão. Dormindo ali, talvez o surpreendesse chegando para trocar o quadro novamente. Precisava tentar.

Não conseguiu dormir de tanta ansiedade. Levantou assim que o dia clareou. A primeira coisa que fez foi pegar o quadro. E lá estava a mesma pessoa chegando pelo caminho – dessa vez, no entanto, a imagem estava mais nítida. Não havia dúvidas: era Junior sim. E ele estava bem próximo da princesa, quase tocando-a.

Luciane olhava o quadro impressionada. Da noite para o dia os contornos da figura adquiriram maiores detalhes, como se alguém houvesse retocado o quadro. Não havia engano: aquele era seu namorado… vestido feito um cavaleiro medieval.

– Junior… – murmurou, enquanto acariciava o quadro. – Junior, você está aí?

De repente deu-se conta do que fazia e começou a chorar. Chorou pelo namorado cujo paradeiro desconhecia e também pela possibilidade de estar sendo vítima de uma bizarra brincadeira. E chorou, principalmente, pelo medo de tudo aquilo ser verdade.

.
.

A MOÇA DO BALCÃO suspendeu os olhos do livro que lia e olhou para Luciane.

– Bom dia. Meu namorado comprou este quadro aqui mês passado. – Luciane tirou o quadro da mochila. – Foi você quem vendeu pra ele?

– Estou lembrada, fui eu mesma. Algum defeito?

– Não, não é isso. É que… bem… Você lembra se o quadro tinha esse detalhe aqui, esse cavaleiro?

– Como assim?

– Tente lembrar, é importante.

– Não estou vendo nada de errado nele.

Luciane suspirou. Não ia ser fácil.

– Moça, eu sei que você não vai acreditar, mas… Olha, eu tenho fortes motivos pra acreditar que meu namorado… caiu dentro desse quadro. – Pronto, falara. Estava dito. – Ele é esse cavaleiro que está vindo pelo caminho…

A atendente olhou para o quadro e depois para ela. Viu o rosto cansado de Luciane, a expressão angustiada.

– Seu namorado… caiu dentro do quadro?

Luciane sentiu que ia chorar novamente. Controlou-se e tentou falar, mas não conseguiu. Sentia-se totalmente ridícula. A atendente continuava observando-a. A situação toda era absurda, irreal. Então compreendeu que era inútil, estava fazendo papel de louca.

– Esqueça o que eu falei – ela disse, pondo o quadro de volta na mochila. – Não devia ter vindo aqui.

Quando se preparava para deixar a loja, um homem surgiu, vindo da sala ao lado.

– Por favor, não vá.

Luciane virou-se e viu um sujeito baixo, moreno, barrigudo. Vestia jeans, tênis e camisão estampado por fora da calça. Devia ter seus cinquenta anos. O homem tinha um olhar forte, mas amigável.

– Se não for incômodo, gostaria de ouvir sua história.

.
.

QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1A PEQUENA SALA tinha uma luminosidade suave que vinha de um vitral colorido na janela. No ar pairava um suave cheiro de incenso. Havia objetos antigos como baús, candelabros e estatuetas, muitos livros numa estante de madeira e belos quadros pelas paredes.

A PEQUENA SALA tinha uma luminosidade suave que vinha de um vitral colorido na janela. No ar pairava um suave cheiro de incenso. Havia objetos antigos como baús, candelabros e estatuetas, muitos livros numa estante de madeira e belos quadros pelas paredes.

Luciane sentou-se numa cadeira que parecia ter quinhentos anos de idade. Reparou no homem que sentava do outro lado da mesa. Tinha trejeitos femininos. E falava com sotaque espanhol. Olhos negros, olhar amável. Era calvo na frente, mas atrás o cabelo descia numa trança até o meio das costas. Figura exótica.

A atendente entrou trazendo uma bandeja.

– Chá de capim-santo, querida – o homem falou. – É bom pros nervos. Obrigado, Ana Isaura. Agora pode nos deixar a sós, está bem? Não atendo ninguém.

– Dona Carlota tem consulta às seis, seo Javier.

– Desmarque, mulher. Diga que minha vó menstruou e que eu saí correndo pra lá. Passar bem.

Luciane riu. Exótico e gozador.

‒ Ana Isaura começou mês passado, ainda não entrou direito no clima desse negócio. Tenho essa loja de usados, meu anjo, mas também dou consulta de tarô. E resolvo outros babados. Nunca ouviu falar do tarô do Javier?

Tarô do Javier… Onde se metera?

– Você deve estar se perguntando: onde que eu fui parar, minha Virgem, não é? Mas não se preocupe, veio ao lugar certo: eu vou ajudá-la. Vamos lá, me conte essa história direito.

Luciane pesou a situação. Certamente se tratava do maior charlatão do bairro. Aquele sotaque espanhol devia ser puro golpe de marketing. A trança enorme nas costas, o jeitão de bicha… Vai ver nem era bicha, era tudo marketing. E a túnica branca, por que não usava? Certamente para não ficar estereotipado demais. Aquela gente sabia como fazer a coisa. Não custaria nada contar para ele. Para quem mais afinal?

Então contou que Junior comprara o quadro ali e que se afeiçoara exageradamente a ele. Falou da crise por que passava a relação, da discussão por conta do quadro e que depois ficaram sem se falar por uns dias. Javier escutava atento.

– Uma semana depois, como ele não atendia o telefone, fui até lá. E só encontrei esse quadro. Quando voltei no outro dia, Junior começou a aparecer na paisagem, vestido de cavaleiro… – ela falou e sorriu sem jeito, nervosa, esperando que Javier sorrisse também. Mas ele continuou compenetrado, olhando em seus olhos. – E aqui estou eu.

Não falara da carta. Proposital. Queria ver até onde o sujeito era mesmo bom naquelas coisas.

– O que você acha que pode ter acontecido? – ele perguntou.

Ele queria saber qual a sua própria expectativa, raciocinou Luciane. Sabendo isso, jogaria de acordo. Gente esperta.

– Pra ser sincera, não sei mesmo.

Javier pediu o quadro. Ela tirou da mochila e entregou.

– Hummm, bom gosto pra homem, heim?…

Ele segurou o quadro com as duas mãos e fechou os olhos. Por um tempo assim ficou, a cabeça reclinada para trás, num movimento circular e vagaroso, respirando fundo. Ela acompanhava com atenção seus movimentos. Sentiu vontade de rir, mas se controlou. Quando tudo se resolvesse Junior iria lhe pagar direitinho aquele ridículo todo, ah, iria sim, o cretino.

Javier abriu os olhos.

– Babado fortíssimo, meu anjo.

– Heim?

– Olha, não deu pra ver os detalhes, mas fizeram coisa bem feita com seu namorado.

– Uma mulher?

– Mulher. Mas não deu pra ver de quem se trata.

– Taí, não sabia que eu tinha uma rival… – ela ironizou. E não teve como evitar a lembrança de algumas amigas, umas certas colegas de escritório dele… Mas não, aquele papo era conhecido. Agora o charlatão ia dizer que podia desfazer o feitiço e que cobrava tanto, mas, como simpatizou com ela, deixava por tanto…

– Essa moça é poderosa.

– Eu conheço?

– Talvez. Mas é uma velha conhecida dele.

– E o que vai acontecer?

– Ele parece que está enfeitiçado. É como se estivesse sendo atraído por ela.

Luciane lembrou da canção triste da princesa…

– Ela deve ter atraído seu namorado com este quadro. Ele veio aqui e comprou, levou pra casa. Crau! Mordeu a isca direitinho.

– Mas onde ele está agora?

– O quadro está mostrando, meu amor. A princesa representa a mulher que jogou o feitiço nele. Ele já a encontrou.

– Você quer dizer que esse cachorro está me passando um chifre por aí? – ela falou sorrindo, tentando mostrar que aquilo não a afetava. Mas se descobriu verdadeiramente irritada com a tal hipótese. Talvez aquela priminha dele que vez em quando vinha para a cidade…

– Em outras palavras… é isso mesmo.

– Mas que diabo de mulher é essa que faz um homem largar casa, trabalho, se mandar, não avisar ninguém?…

– Babado forte, meu anjo, já falei. Não crê em bruxa?

– Não.

– Pois elas existem.

Ele só podia estar inventando tudo aquilo. Mas como explicar o que acontecia com o quadro?

– Claro que você tem o direito de desconfiar de tudo que estou falando, meu bem. Acontece que enquanto você desconfia, a rival ganha terreno.

Ele pôs o quadro sobre a mesa.

– Javier, eu não sou a pessoa mais cética do mundo, pode ter certeza. Mas você há de convir que essa história parece mais uma grande loucura.

– Se é loucura, o que você está fazendo aqui?

O tom de voz dele tornara-se mais sério. O olhar agora era grave.

– Muito bem. Digamos que eu acredite. E agora?

– Agora você me faz um cheque de mil reais e podemos começar. Normalmente eu cobro dois. Mas simpatizei com seus olhos…

– Mil reais?! De jeito nenhum.

– Se você acha que seu namorado não vale isso…

– Talvez não. E se eu não tiver esse dinheiro?

– E não tem como arrumar?

– E se arrumar? Que garantia tenho de que vai dar certo?

Ele se inclinou para frente e seu olhar mudou novamente. Tornou-se mais manso e envolvente. E ela podia senti-lo feito suaves ondas… que iam e vinham dentro de seus próprios olhos.

– Vai dar certo, meu anjo.

– E se por acaso não der? – As ondas iam e vinham, iam e vinham… formando um balanço agradável… inebriante… sonolento… – Você me devolve o dinheiro?

– Eu não falho, minha querida.

Por um instante quase se deixou levar por aquele vai e vem… Mas subitamente uma forte vontade se manifestou e agitou seu pensamento, pondo-a em terra firme. A sonolência sumira.

– Isso não é garantia, Javier, você sabe disso.

Ele encostou-se de volta na cadeira. Pousou os cotovelos nos encostos, juntou as mãos sobre a barriga e cruzou os dedos. Encarou-a por alguns segundos, gravemente. Já não havia ondas em seu olhar.

– E você dizendo que não acredita em bruxas…

– Como?

Impressão ou ele tentara hipnotizá-la?

– Quantos anos você tem, Luciane?

– Vinte e sete.

– Você é nova. Se quisesse, podia ser ainda uma grande bruxa. O que tem de gente precisando de serviço. Você tem jeitão, é forte… Mas sem essas ombreiras, meu anjo, por favor. Não lhe caem nada bem. Se quiser, posso ser seu estilista, você me dá dez por cento, que tal? Estilista de bruxa. Chique.

– Eu só quero meu namorado de volta.

– Encontrei pouquíssimas mulheres com sua força. E olhe que eu já rodei muito.

– Você é desses que se aproveitam do desespero das pessoas, Javier?

– Só cobro dos que podem pagar.

– Se posso ou não, não vem ao caso. O que estou discutindo é a garantia de seu serviço.

Ele sorriu.

– Você ganhou, sorcière. Não precisa pagar nada agora. Mas se seu namorado voltar, quero mil e quinhentos.

– Mil e duzentos.

– Mil e trezentos. É pegar ou largar.

Luciane sentia-se ridícula. Aquilo não estava acontecendo. Negociando com um charlatão a volta da pessoa amada…

– Combinado.

– Sábia decisão. – ele falou e levantou da cadeira, apontando o quadro. – Eu vou entrar hoje mesmo. E vou trazê-lo de volta.

– Vai entrar no quadro?

– Já entrei em muitos. Seu namorado não é o primeiro a cair nessa história. Mas vamos logo ao que interessa. – Ele caminhou até a porta. – Traga o quadro.

– Vamos aonde?

– Ao local do crime, lógico. – Ele abriu a porta e saiu. Ela o acompanhou. – A energia do babado ainda deve estar por lá. Vou ter de dormir uma noite no apartamento do seu namorado. Ana Isaura, vou sair mais cedo, pode fechar. Até amanhã – E virando-se para Luciane, falou baixinho: – Você devia pensar melhor sobre ser uma bruxa…

– Não estou interessada.

– Que desperdício, meu anjo Mikael, que desperdício…

.
.

QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1ERAM OITO HORAS quando chegaram ao apartamento. Javier entrou no quarto e procedeu como na loja: fechou os olhos e girou a cabeça, concentrando-se. Luciane observava da porta, aquele quarto lhe dava calafrios. Por um instante ainda considerou a hipótese de desistir. Mas já havia ido longe demais.

– O portal é exatamente aqui, neste quarto – disse Javier depois de abrir os olhos. – Olha, vou precisar de treze velas brancas. Novas, viu? O supermercado ainda está aberto. Vou dormir no quarto, você na sala. Se quiser, pode comer alguma coisa, eu vou dormir de barriga vazia.

– E o quadro?

– Dorme comigo. Não se preocupe, vou encontrar seu namorado e ele vai voltar pra você, lindo e maravilhoso.

Meia-hora depois Javier foi ao banheiro e trocou de roupa. Despediu-se dela e foi para o quarto, levando o quadro e as velas.

Luciane deitou no sofá da sala e manteve-se atenta. Mas não escutou nenhum som vindo do quarto. O que aconteceria? Estava exausta, os olhos pesando de tanto sono. Talvez a vizinha de baixo, talvez… O idiota bem seria capaz de se enrabichar por um tipinho daquele. Ou aquela caixa da farmácia…

.
.

O BARULHO DO TRÂNSITO, as buzinas, os ônibus passando… Luciane despertou assustada, a claridade da manhã entrando pela fresta da janela. Eram nove horas. Dormira profundamente, como havia dias não o fazia. Levantou do sofá e correu para o quarto. Abriu a porta e não viu ninguém. No chão estavam as velas derretidas. Sobre a cama, o quadro. Aproximou-se. E viu Junior. Sentado no banco, ao lado da princesa, segurando-lhe as mãos.

– Bom dia, princesa…

O susto foi tão grande que ela tropeçou nas próprias pernas e caiu, gritando.

– Meu São Sebastião flechado, mas pra que esse escândalo, criatura? – Javier estava à porta do quarto, enxugando o rosto com uma toalha. ­– Eu, heim… Depois bicha é que é escandalosa.

– Cadê o Junior? O que aconteceu?

– Primeiro se acalme. O mundo vai acabar mas não é hoje. O que acabou foi o papel higiênico do banheiro. Melhor providenciar.

– Já estou calma – disse ela, levantando-se.

– Vamos tomar um café que eu tenho algo muito importante pra lhe falar.

.
.

– ME ENGANEI. Isso não é coisa de gente desse mundo.

Sentado à mesa da cozinha, Javier tinha a expressão grave.

– Não?

– Eu bem que desconfiei ontem lá na loja.

– Do quê?

– A princesa perdida. Eu já soube de uns babados desses, mas nunca nenhum tinha caído em minhas mãos. Essa é a primeiríssima vez.

– Ainda não entendi – Luciane falou, servindo duas xícaras de café.

– Obrigado. Pois bem, a princesa perdida é uma princesa belíssima, a mulher mais bonita que já existiu. E olhe que entendo de beleza, já fui até jurado de concurso, sabia?

Luciane não respondeu.

– Ela é de um reino muito distante, que fica depois do lago. Um reino fora do tempo. E só um cavaleiro destemido pode ajudá-la a voltar pra casa.

Ela riu.

– Cavaleiro destemido, o Junior?! Você está brincando… Aquele frouxo morre de medo de altura.

– A princesa não o subestimou.

Luciane ficou séria novamente, lembrando da carta. Sentiu que não adiantaria muita coisa pensar em termos lógicos. Até ali se comportara como se estivesse no limite entre duas realidades, sem se decidir por nenhuma. Talvez fosse hora de se resolver.

– Essa princesa perdida, ela existe mesmo?

– Sim. Mas só pros homens.

– E por que diabo ela está fazendo isso com ele?

– Primeiro porque ela precisa voltar pra casa, já lhe disse. E depois porque seu namorado se encantou com ela.

– Mas ele me ama.

– Não tem nada a ver com vocês, meu bem. É coisa dos homens.

– Aquele cachorro…

– Isso não é hora de briga. E eu não tenho vocação pra terapeuta.

– Francamente, cheguei ao fundo do poço: ser trocada por uma princesa de papel…

– Ela é tão real quanto você, querida. Apenas vive no mundo dele, entende?

– Homem não presta mesmo! – Luciane continuava inconformada. – São todos uns fracos, não podem ver bunda se balançando na frente deles… Bunda de princesa então!

– Eu não acredito que a madona está com ciúmes.

– Ciúmes? Não seja ridículo, Javier…

– Pra ciúme é salmo 115, viu? Sete vezes ao dia durante sete dias. Virada pra igreja de Éfeso.

Ela engoliu em seco a provocação. Estava com muita raiva e não tinha por que esconder. Se Junior não estava satisfeito com ela, por que então não a procurou antes para conversar? Mas não, saiu logo atrás da primeira que apareceu. Uma mulher de papel, do outro mundo, que ridículo.

– Diz que essa princesa tem uma voz lindíssima. Ela atrai os homens cantando, como as sereias.

– Além de princesa, cantora. Eu mereço.

– Mas tem um jeito de fazê-la parar de cantar.

– Qual é?

– Indo encontrá-la, pessoalmente. Exatamente como ele fez.

– Então chame de volta, Javier.

– Tsc, tsc. Agora não é hora.

– Por que não?

– Quando chega a hora do homem encontrar essa mulher, não se deve impedi-lo.

– Por quê?

– É uma velha lei do mundo da magia, meu amor. Não fui eu quem inventou.

– Leis existem pra serem quebradas.

– Essa eu não quebro, santa, não mesmo, olha o dedinho…

– Então o que fazemos?

– Nesse caso, nada.

– Ótimo. E ele vai ficar lá até quando?

– Não sei. Mas ele vai tentar levá-la de volta ao seu reino.

– Rola sexo nessa história? – Luciane perguntou, séria.

Javier riu.

– Estou falando sério, Javier.

– Vai depender dele.

– Então já deve estar rolando. – Ela se levantou, irritada.

– Pelo jeito você não confia muito em seu namorado.

– Isso não é da sua conta.

– Devia se orgulhar dele. São poucos os homens que têm coragem de ir encontrar a princesa. E menos ainda os que conseguem levá-la de volta a seu reino. A maioria só quer sexo com ela. Esses ela rejeita.

– E o que acontece com esses?

– Eles voltam e continuam os mesmos. Mas se o homem a olha além do desejo físico, ela o sagra cavaleiro de uma ordem muito especial. Ele volta outro homem, mais sábio, mais maduro.

Luciane pensou um pouco.

– Tenho que lhe mostrar uma coisa, Javier.

Ela mostrou a carta, envergonhada. Javier a leu em silêncio. Depois dobrou e entregou de volta.

– Por que você não me falou antes, dona cascavel? – ele perguntou, muito sério. – Teria me poupado trabalho.

– Desculpe. Eu só queria ver se você era bom mesmo. Agora vejo que é.

– Típico de bruxa. Bruxa que ainda tem muito que aprender… De qualquer forma, eu não posso trazê-lo de volta. Só podemos torcer pra que ele não fracasse.

– Vai ser uma torcida inútil.

– Não subestime os homens, meu anjo. Muitos partem com uma verdade e descobrem outras.

– Quer dizer que vou ter de ficar aqui torcendo pra que meu namorado seja forte o suficiente e resista a essa princesa? Acho muito difícil… Olha aqui a cara deles, parecem dois pombinhos apaixonados…

– Junior já deve ter sofrido um bocado com esse seu gênio, heim, menina?…

– Tenho o direito de ficar nervosa. E, além disso, estou lhe pagando.

– Não vai mais pagar, meu bem. Ninguém pode ir lá buscar seu namorado. Aposto minha trança nisso.

– Que espécie de bruxo é você que não pode tirar um homem dos braços de uma princesa idiota?

– Ah, meu anjo, você ainda tem muito a aprender sobre magia…

– Pois me ensine. Agora quero aprender.

Javier a olhou num misto de riso e espanto.

– E pra quê, criatura louca? Não vai me dizer que é pra ir lá buscar…

– E eu poderia? – ela o interrompeu.

– Duvi-dê-o-dó. E mesmo que pudesse, eu não aconselharia.

– E se eu quisesse apenas observar?

– É arriscado.

– Por quê?

– É o mundo dela, só os homens vão lá.

– Pois eu quero ir.

Javier terminou de tomar seu café, levantou-se e lavou a xícara na pia.

– Desista, Luciane, é realmente muito arriscado.

– Eu assino um papel me responsabilizando, fique tranquilo. Apenas me diga o que tenho de fazer. Aí você cai fora e eu faço o resto.

Javier suspirou. Não era todo dia que se tinha o privilégio de ver uma bruxa daquelas em ação. No entanto…

– Quanto você quer, Javier?

Ele não respondeu.

– Eu lhe pago os mil e trezentos, está bem? E você me ensina como fazer.

– Não sei, acho melhor não facilitar…

– Mil e quinhentos.

Javier se assustou com a força das palavras dela. A bruxa enfim se revelava… Ele observou a mulher à sua frente, tão determinada que não duvidou que ela pudesse fazer mesmo o que tinha em mente. Mas o que poderia acontecer?

– Dois mil, Javier. Vai topar ou não?

Dois mil…, pensou Javier. Dava para passar quinze dias na praia comendo camarão. Bem longe daquelas loucas descabeladas atrás de homem. Mas que dia! Primeiro a princesa perdida e agora uma bruxa ciumenta disposta a enfrentá-la, cara a cara, desrespeitar as sagradas leis da magia. Seria uma briga boa de se ver…

Mas não. Não estava disposto a patrocinar a quebra de uma lei tão forte, seu nome iria direto para o livro negro. Mas pensando melhor… também não precisava se arriscar tanto. Podia tão-somente conduzi-la até o bosque e ela que se virasse depois. Não era bruxa mesmo?

– Três mil – ele falou. – E nem pechinche porque não faço uma loucura dessas por menos.

– Combinado – Luciane sorriu, satisfeita. – Vou no banco pegar o dinheiro.

– Espera, criatura. Olha, só podemos agir à noite. Eu vou na loja e mais tarde nos encontramos aqui, tá? Mas você precisa ficar calma.

– Eu tô calma.

– Sente e olhe aqui pra lente da verdade. Aqui no meu olho, isso… – Ele a pegou pelos ombros, olhando fixamente em seus olhos. – Você me promete que não vai fazer nada, vai só assistir?

– Prometo.

– Não senti firmeza.

– Eu prometo. Juro.

– Se você desrespeitar as leis, não sei o que pode acontecer com você.

– Não vou fazer isso.

– Mostre que está ao lado de seu namorado, que confia nele. Assim como ele confiou em você, lhe contando essa história. Isso é importante. Você entende isso?

– Entendo.

– Entende mesmo?

– Sim.

Não, ela não entendia – percebeu Javier. Lógico que não entendia.

– Então pode trazer o dinheiro.

.
.

QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1OS DOIS DEITARAM na cama de Junior, o quadro entre eles. Eram dez horas da noite.

– Lembre-se, nós vamos despertar logo após o sonho, como Junior contou na carta. O portal vai estar aberto pro bosque, e assim que surgir, nós entramos. Se demorarmos, ele some.

– É tão fácil assim?

– Fácil?! Pelas doze pétalas! Claro que não, criatura! Esse portal só se abre uma vez na vida de um homem. E vai acontecer hoje de novo porque a energia do babado ainda está por aqui. Agora vamos dormir que a noite vai ser longa.

Ele ainda duvidava que uma mulher fosse capaz de entrar naquele mundo. Mas não custava tentar.

Luciane fechou os olhos. Magia, portais, criaturas do outro mundo, tudo isso a deixara bastante excitada. Era como se uma força nova, que jamais suspeitara possuir, houvesse de repente irrompido, e aquilo lhe proporcionava uma estranha e prazerosa sensação de poder. Javier alertara sobre o perigo, mas quem corria perigo era o seu namorado nos braços de uma princesa caçadora de homem. Ela, porém, Luciane, podia trazê-lo de volta. Tinha esse poder, sim, podia senti-lo como sangue correndo sob a pele.

Talvez Javier estivesse certo. Talvez fosse mesmo uma bruxa. Se era mesmo, saberia naquela noite.

.
.

DESPERTARAM COMO JAVIER PREVIRA. Luciane abriu os olhos na escuridão do quarto. Estava ainda sonolenta, mas pôde ver perfeitamente as árvores do bosque… Pareciam sombras, mas… estavam ali, sim, as árvores estavam ali no quarto!

– Javier?…

– Não fale agora – ele respondeu baixinho enquanto saía da cama pelo outro lado. – Ande, levante.

Ela pôs os pés no chão e ficou de pé. A sensação era de sonho, mas podia sentir, pouco a pouco, a realidade concreta do quarto se apoderando de seus sentidos, de seu pensamento, como se a chamasse de volta…

Então viu Javier tomando a trilha de terra entre as árvores e rapidamente o seguiu.

E foi como acordar. De repente sentiu-se desperta. Estava no bosque, caminhando. Um silêncio tão grande, tão perfeito que metia medo. As árvores, o cheiro de mato… Era tudo real e, no entanto, era tudo meio nebuloso, como num sonho. Caminhava mas não sentia bem o chão. Tocava as árvores mas não as sentia inteiramente. Era como se seus sentidos estivessem anestesiados. O pensamento, porém, funcionava perfeitamente.

Não podia ser verdade, pensou. Devia ser alguma espécie de sonho…

– Pare de pensar, sua boba! Se continuar questionando, você volta!

Javier estava pasmo: ela conseguira. O que uma mulher ciumenta não fazia…

– Onde está você, Javier? – Ela o escutava, mas não o via.

– Fiquei no meio do caminho, não consigo entrar mais. Mas não se preocupe comigo. Daqui posso ver você.

– Onde eles estão?

– Concentre-se.

Luciane fechou os olhos e de repente soube que deveria pegar à esquerda. Caminhou durante algum tempo. Não tinha mais medo. Sentia-se forte e determinada. Após uma curva avistou o banco de madeira e, logo mais à frente, o lago e o pequeno ancoradouro. Correu para lá, ansiosa. Mas não encontrou ninguém. Apenas água e névoa. E o silêncio.

– Eles já foram, Javier!

– Então você chegou tarde, meu bem.

– Mas não devem estar muito longe… – disse ela, procurando. A névoa sobre o lago, porém, não permitia enxergar mais que alguns metros.

– Acho que foi melhor assim, Luciane.

Ela mergulhou um pé na água. Era suave e morna.

– Ei, o que está fazendo?

Ela não respondeu.

– Luciane!

Ela mergulhou o outro pé.

– Sua desmiolada, você não vai encontrar ninguém nesse nevoeiro!

Enquanto avançava, ela sentia vagamente o chão do lago sob seus pés, a água subindo devagar pelo seu corpo…

– Luciane, saia daí enquanto é tempo. Você pode nunca mais encontrar o caminho de volta.

Ela começou a nadar e era como se nadasse em nuvens.

– Junior! – ela gritou, entrando cada vez mais na névoa, e seu grito ecoou durante um longo tempo pelo silêncio infinito do lago.

Gritou de novo, mais forte. E ficou aguardando, flutuando… Mas nada, nenhum som de volta. Nadou novamente, cada vez mais para dentro das brumas. Algum tempo depois escutou:

– Lu, é você?

– Sou eu, Junior! Estou aqui!

Luciane sentiu uma irresistível alegria tomar-lhe conta. Junior estava ali em algum lugar – ela conseguira. Desafiara as leis da magia e vencera. Javier tinha razão: era mesmo uma bruxa. E quanto não havia perdido sem saber disso?

– Onde você está, meu amor? – ela gritou, excitada.

Pouco a pouco distinguiu no meio da bruma os contornos do bote e, em pé, a figura de Junior, empurrando-o com uma longa vara. Viu sua roupa de cavaleiro, a cota de malha, a calça justa, as botas… Em outra ocasião o acharia inteiramente ridículo e teria um acesso de riso. Mas agora não. Estava lindo… Aquele era o seu homem. Apenas seu e de mais nenhuma outra mulher.

Mas havia algo estranho… Havia algo novo em Junior, uma coisa diferente… Ficou a observá-lo enquanto flutuava. Ele estava realmente mais bonito, mas havia algo mais… Havia uma dignidade. Sim, uma dignidade, uma altivez de cavaleiro, uma postura digna de alguém… a serviço de uma princesa.

Nesse instante desapareceu a alegria do reencontro e, em seu lugar, desceu-lhe a terrível sensação de ser preterida por outra mulher. Junior nunca se portara assim por ela. E a tal princesa, onde estava?

– Lu, o que está fazendo aqui?

– Vim buscar meu namorado, ora – ela respondeu, agarrando-se ao bote.

– Luciane, não! – Era a voz de Javier. – Você não precisa subir!

Ela subiu rapidamente.

– Meu amor, o que você está fazendo? – Junior perguntou, assustado. – Não pode ficar aqui.

– Eu pergunto, Junior, eu pergunto – ela falou, muito séria, pondo-se de pé no bote. – Que diabo você está fazendo aqui enquanto eu… Aliás, cadê a vaca?

– Quem?

– A princesa fajuta.

– Não está vendo?

Luciane não via ninguém além dele.

– Deve ter se mandado quando me viu. Pelo menos sensata ela é.

– Lu, você não pode ficar aqui.

– Me diga só uma coisa: o que essa princesa tem que eu não tenho, heim? Pode falar, não vou ficar com raiva.

– A gente conversa depois, Lu. Tenho que conduzir a princesa até seu reino. Quando eu voltar a gente…

– Não, você vai voltar agora, vamos pra casa. Você não imagina o que eu passei por causa desse seu sumiço.

– Não posso, Lu. Por favor, compreenda…

– Junior, eu admito que errei algumas vezes… Você ainda me ama?

– Lu, você está estragando tudo!

– Eu não volto sem você.

– Eu não posso voltar agora! – Junior gritou, angustiado. – Você não entende? Eu não posso!

– Então também vou. Quero conhecer esse reino.

– Luciane, sua louca excomungada! – A voz de Javier. – Saia já daí!

– Dois homens querendo mandar em mim… Um metido a cavaleiro e uma bicha doida. Era só o que faltava. Junior, como você pode estar apaixonado por uma mulher que não existe, seu bobo? Eu existo, olhe pra mim…

– Lu, vou ter de botar você pra fora desse bote…

– Eu sou uma bruxa, meu amor. Você não pode comigo.

– Luciane, não faça isso! – Javier gritou de novo.

Junior a agarrou e a imobilizou. Mas Luciane tentou escapar e os dois perderam o equilíbrio. E caíram na água, afundando rapidamente, enquanto o silêncio voltava a tomar conta do lago.

Alguns segundos depois um corpo veio à tona. Era Luciane.

– Junior! – ela gritou, desesperada. Mas não escutou nada. – Junior!!!

Nenhuma resposta. Só o silêncio do lago.

– Javier, me ajude!

Mas Javier também não respondeu. Luciane procurou o bote e não o viu. Ao seu redor a névoa, a névoa sem fim. E o silêncio infinito, aterrorizante. O silêncio ensurdecedor.

– Junior!!! – ela gritou, cada vez mais desesperada, enquanto procurava a margem e não encontrava.

Mas ninguém respondeu.

.
.

QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1DE MANHÃ CEDO Javier levantou. Sentia-se cansado. Ao lado da cama havia um quadro com a paisagem de um bosque, um lago com ancoradouro e um banquinho de madeira. Nem princesas nem cavaleiros.

Minutos depois fechou a porta do apartamento e saiu. Na rua o sol brilhava forte. Ele pôs o óculos escuro, fez sinal para um táxi e entrou. Deu bom dia ao motorista, indicou-lhe o endereço e acomodou-se no banco traseiro.

Por que mulher tinha de ser tão teimosa?, pensou. Tanto aviso para nada. Uma pena. Um talento maravilhoso desperdiçado. E o moço, tão bonito… Abriu o bolso do casaco e conferiu o maço de dinheiro, os três mil do serviço.

Mais adiante, quando passavam pelo parque, Javier viu a multidão, um carro da polícia parado. O táxi diminuiu a velocidade. Ele aproveitou e perguntou a uma senhora o que estava acontecendo. Ela respondeu que haviam encontrado dois corpos no lago. Um rapaz e uma moça.

Javier quase pediu para o motorista parar. Mas achou melhor não. Tinha certeza que não iria gostar nada do que veria.

.

Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

.

GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1cEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

.
01- A “releitura” (somente uma nova leitura) me tocou quando percebi que a jornada de Júnior “quadro a dentro” para levar a princesa de volta para o reino e que somente ele poderia fazê-lo, seria um resgate, ou uma busca de harmonização dele mesmo. Colocar esse feminino no seu lugar dentro dele. Nossa! que linda metáfora! O quanto de amor ele sentia por sua namorada, cega de raiva e ciúmes do fantasma de todos os femininos. No final a tragédia do lago trazendo na minha visão da leitura, a morte do relacionamento. Quando ele compartilha com ela sua jornada e ela não consegue perceber, deu uma dó de tudo. Dele, dela, dos feminos e masculinos distorocidos. Um conto bem masculino com muita sensiblidade. Ivonesete Rodrigues, Fortaleza-CE – dez2012

02- Muito interessante esta releitura “cega de raiva e ciúme” e quem sabe e talvez cega de amor para trazê-lo de volta à realidade! Adorei! O melhor do livro! Michele SJ, Fortaleza-CE – jan2013

03- Que texto FANTÁSTICO,Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos!!!Riquíssimo!!!Por trás de tanta magia,muitas reflexões podem ser feitas tanto em relação ao comportamento feminino como o masculino,dentro de um relacionamento a dois!!!Quantas vezes,nós,mulheres,enxergamos princesas e vocês,homens,enxergam príncipes encantados que só existem nos quadros da nossa imaginação?Muitas,né?Por conta desses pensamentos lúdicos,acabamos nos aventurando por lagos perigosos e desconhecidos,nos afogando,muitas vezes, e,colocando tudo a perder!!!!Como diz a frase: o ciúme é sempre um mau conselheiro!!!! Silvana Alves, Fortaleza-CE – jan2013

04- Nesse aqui o Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos quebrou tudo. Vale muito a pena ler. E o livro todo é sensacional. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – jan2013

05- Ainda não consegui terminar de ler todos, mas este foi o que eu mais gostei! Maria do Carmo, São Paulo-SP – jan2013


O vestido decotado da impunidade

05/09/2012

05set2012

Vê este corpinho, rapaz? Ainda está conservado porque são vocês que o solicitam e tratam de cuidá-lo toda vez que lhes é vantajoso

O VESTIDO DECOTADO DA IMPUNIDADE

.
Encontrei Impunidade na última mesa daquele bar, de vestido vermelho e tomando martini. Era uma espelunca de terceira, sim, mas não se engane: ela também frequenta, e com muita classe, ambientes refinados. Impunidade aprendeu cedo a se virar na vida, ela que nunca teve quem lhe assumisse a paternidade.

Foi sorte encontrá-la, ela é muito requisitada. Sentei à sua mesa e reparei que usava um decote generosíssimo. Talvez ela pudesse me ajudar a encontrar Justiça. Comecei perguntando se lembrava de Renata. Ela me lançou um olhar indiferente.

– A bailarina morta com um tiro no olho… – falou para si mesma. E voltou o olhar para a rua.

Quando dei por mim já olhava novamente para seu decote. Era como um ímã. Ela tomou um gole de seu martini (Impunidade também bebe, com desenvoltura, uísque 18 anos) e começou a falar, sem pressa.

– Você realmente acha que o assassino, Wladimir o nome dele, né, vai continuar preso?

Nesse momento me veio a imagem que não consigo esquecer: o jipe em que Renata se encontrava, eu fora vê-lo um dia depois na delegacia. Vi as manchas de sangue, os fios do cabelo loiro dela ainda grudados ao sangue… Wladimir a acertara covardemente após uma discussão no trânsito. Putz, e Justiça?

– Justiça?! – Impunidade virou-se de repente, exaltada. – Não me venha falar dessa vaca! O que vocês podem saber de Justiça com toda a falsidade em que vivem? Ficam gritando sobre o que é justo, mas têm mil interesses pessoais em jogo. Quanta hipocrisia.

Fiquei sem saber o que dizer. Passou-me então pela cabeça qual seria a reação da família do assassino se houvesse sido ele a vítima… Seríamos todos tão hipócritas assim?

– São mais que hipócritas… – Ela lia pensamentos? – São atores, meu bem, encenando sua Justiça pra vocês mesmos enquanto eu os observo no palco e nos bastidores. Quer saber de uma verdade? Seus advogados, com seus ternos e termos tão bem estudados, podem entender de leis, as leis com todos os seus meandros e corredores mal iluminados. Mas de Justiça não sabem merda nenhuma.

Pediu licença e levantou. Disse que tinha um compromisso, que costumavam requisitar seus serviços também à noite e não apenas nos escritórios e gabinetes do dia claro. E foi saindo. Mas eu a peguei pelo braço. Ela virou e me encarou séria. Devia pensar sobre o que poderia eu lhe oferecer com minha cara de garoto à procura de Justiça – em contraste com as propostas volumosas com as quais lhe costumavam honrar.

– Vê este corpinho, rapaz? Ainda está conservado porque são vocês que o solicitam e tratam de cuidá-lo toda vez que lhes é vantajoso. E quando não é, falam de mim como a mais suja das prostitutas… Eu não sei o que é escrúpulo, rapaz. Não conheço nem o certo nem o errado. Essas coisas vocês é quem sabem. Eu apenas vivo.

– Renata também só queria viver… – falei de um impulso e logo me arrependi, temeroso pelo que pudesse vir. Ela então me olhou com seus olhos cativantes e eu, pela primeira vez, percebi de fato sua estranha beleza. Nesse instante o farol de um carro na rua iluminou seu busto e não pude evitar de olhar seu decote mais uma vez. Era como se seus belos seios fossem saltar em minha direção. Uma leve e agradável sensação de torpor me envolveu, e de repente tudo que existia era a visão de seus seios bem próximos de meu rosto, bem próximos…

Fechei os olhos num último esforço para não ser arrastado pela tentação que me tomava conta. Segurei firme a borda da mesa e respirei fundo. Quando abri os olhos a tentação havia desaparecido. Quantos já haviam resistido?

– Sinto por sua Renata. Mas também sinto por Wladimir. Na verdade tenho pena de vocês todos, vítimas do mundo cruel que vocês mesmos criaram.

Mas e Justiça? Eu precisava tanto saber…

– E quanto à sua Justiça, meu bem, essa que você tanto procura, se quer saber mesmo, ela também frequenta lugares como este e tem muitos clientes como eu. Mas pelo menos eu não sou hipócrita. E, se me permite, tenho aluguel pra pagar…

E saiu por entre as mesas, em seu vestido decotado. Ela e seu andar seguro de quem se sabe irresistível.
.

Ricardo Kelmer 1995 – blogdokelmer.com

.

> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

.

SOBRE O CASO DA BAILARINA

A crônica O Vestido Decotado da Impunidade foi inspirada num caso real. Em 28 de dezembro de 1993, em Fortaleza-CE, a bailarina Renata Maria Braga de Carvalho foi covardemente assassinada aos 20 anos de idade, com um tiro de revólver no rosto, pelo então universitário Wladimir Magalhães Porto, de Brasília, após uma discussão no trânsito. O criminoso está solto.

Acusado do crime é absolvido – Jornal Diário do Nordeste, 21.06.08

Acusado de matar bailarina será levado a júri popular pela terceira vez – Site do TJCE, 28.05.15

Acusado de matar bailarina é condenado a 12,5 anos de prisão – Jornal Diário do Nordeste, 01.06.15

A bailarina da fé – Se as palavras servem, infelizmente, para deixar impunes os criminosos, servem também para manter acesa a fé das pessoas num mundo melhor

.

LEIA NESTE BLOG

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

.

.

elalivro10Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01 COMENTÁRIOS
.

01- caramba!!!! demais seuu texto kelmer! Cai Duarte, Bragança Paulista-SP – jul2014

02- Uau, belo texto Ricardo!!!!! Elizabeth Oliveira, Campinas-SP – jul2014

03- Essa madame é mesmo irresistível, nos ambientes mais “castos”. Muito bom. Osmar Casagrande, Palmas-TO – jul2014

04- Belo texto Ricardo! No fim é a justiça enfeitiçada pela sensualidade do poder? Meire Braga, Jandira-SP – jul2014

05- Excelente! Irônico e ácido, mas bem humorado. Tudo na medida certa! Anne Calanchoe, Feira de Santana-BA – jul2014


Mordida na última sessão

14/11/2011

14nov2011

A maioria dos vampiros são ilustres desconhecidos, gente como você que rala no dia a dia para pagar as contas e assiste ao Sexy Time antes de dormir

MORDIDA NA ÚLTIMA SESSÃO

.
Eu a conheci na fila do Entrevista com o Vampiro, última sessão. Linda, sensual e misteriosa ‒ foi paixão à primeira olhada. Depois do filme ela me convidou para um uísque no bar. Aceitei, claro, encantado com seus olhos lânguidos. Algumas horas depois virei o rosto para o lado e, na escuridão do quarto, procurei o relógio digital. Quase cinco da manhã, em breve amanheceria. Sobre meu corpo ela se contorcia freneticamente, os cabelos negros balançando. Sua bela silhueta a me cavalgar foi a última imagem que vi, pois logo depois uma onda de prazer incontido me invadiu e fechei os olhos, rendido. Senti que ela prendia meus braços à cama, beijava-me a boca e tchum!, cravava os dentes em meu pescoço. Na confusão de sensações só deu tempo de pensar: Uma vampira… E apaguei.

Pela carinha que você está fazendo, minha amiga, vejo que não acredita em mim, né? Você é uma mulher moderna, não acredita em vampiros. Bem, melhor para eles. Pois eu lhe digo: eles existem. E estão por aí, espalhados entre as pessoas comuns, selecionando o próximo pescoço. Evidente que não dá para reconhecê-los apenas olhando. Na maioria dos casos, só se percebe um vampiro quando já é tarde demais. Como no primeiro parágrafo.

Claro, há vampiros e vampiros. Com o passar dos séculos muitas linhagens se desenvolveram e hoje já não dá para agrupá-los num só rótulo. Tem vampiro que até vai à missa, acredita? Tem vampiro cuja imagem não reflete no espelho, e ainda assim são hipervaidosos. Há os que dormem em caixões refrigerados e há também, creia, os que fazem bronzeamento artificial para disfarçar a falta de sol. Tem de um tudo nesse mundo de caninos afiados.

Nosferatu, Drácula, Vampirella, algum desses famosos você conhece. Mas a maioria dos vampiros são ilustres desconhecidos, gente como você que rala no dia a dia para pagar as contas e assiste ao Sexy Time antes de dormir. Sim, tem aqueles que se transformam em morcegos e dormem num caibro, pendurados de cabeça para baixo, tudo para fugir do aluguel. Em compensação ninguém dorme com eles. Só no cinema é que vampiro não trabalha, se veste superbem e ainda mora em cobertura. Conheci uma vampira, garçonete num bar da Praia de Iracema, que mandou botar vidro fumê e ar condicionado no seu fusca para poder dormir dentro dele durante o dia. Para você ver como vida de vampiro não é mole.

No filme Fome de Viver Catherine Deneuve, ai, ai, é uma linda e charmosa vampira que seduz homens e mulheres. Ah, minha amiga, nem você resistiria àquele charme francês… Vampiros sabem conquistar como ninguém. Muita gente boa já caiu na lábia vamp. Exemplo? Lucélia Santos. Isso mesmo, pode conferir em As Sete Vampiras. Brad Pitt, Wynona Rider e David Bowie também caíram. Nem Xena, a guerreira, escapou. Se eles que são tão chiques caíram, por que você estaria imune? Ninguém está. Um belo dia, querida, você vai acordar e lá estarão as duas marquinhas no pescoço. Ou na virilha, pelas coxas que você tem…

Como é que sei dessas coisas? Não importa. O que interessa é: o que fazer se você levar uma dentada? Eu lhe digo: relaxe e goze. Aceite o fato e prepare-se para um mundo novo, cheio de novidades. Você é uma mulher bonita, vai aproveitar à beça. Sim, tem vida eterna. Mas cuidado, há sempre um caça-vampiros de plantão, desses bem neuróticos, cheio de frustrações, doido para lhe enfiar a estaca no coração. Por isso vampiro tem de ser discreto. Vantagem mesmo é que a maioria não envelhece, não adoece, não tem ressaca nem pega aids. A vida vira uma festa, toda noite na gandaia, já pensou? O diabo é o cartão de crédito que vive estourado.

Você já viu Quente como Licor? É uma história de amor entre vampiros que se prostituem para conseguir sangue. Está em cartaz no Cine Franzé. Que tal irmos esta semana? Ótimo! Então está marcado, a gente se encontra na entrada. Podemos ir na última sessão?
.

Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

.

.

FILMES CITADOS

FILMEFomeDeViver-01Entrevista com o Vampiro – The Vampire Chronicles. EUA, 1994, Terror. Direção: Neil Jordan. Roteiro: Anne Rice, baseado em livro de Anne Rice. Elenco: Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas, Stephen Rea.

Fome de Viver – The Hunger. EUA/Inglaterra, 1983, Terror. Direção: Tony Scott. Roteiro: James Costigan, Ivan Davis e Michael Thomas, baseado em livro de Whitley Strieber. Elenco: Catherine Deneuve, David Bowie, Susan Sarandon, Cliff De Young.

As Sete Vampiras – Brasil, 1987, Comédia. Direção: Ivan Cardoso. Roteiro: R. F. Luchetti. Elenco: Andréa Beltrão, Ivon Cury, Danielle Daumerie, Wilson Grey, John Herbert, Leo Jaime, Zezé Macedo, Nuno Leal Maia, Lucélia Santos.

Drácula de Bram Stocker – Bram Stoker’s Dracula. EUA, 1992, Terror. Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James V. Hart, baseado em livro de Bram Stoker. Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Keanu Reeves, Anthony Hopkins.

Quente como Licor – Todas as informações sobre este filme foram misteriosamente apagadas da internet.

.

.

DOCE VAMPIRO (Rita Lee)
Vídeo com imagens do filme Drácula de Bram Stocker

.

.

LEIA TAMBÉM

MeuFantasmaPredileto-01Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

Vade retro Satanás – O Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior

Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- hum…adoreiii. Carol Nobre, Fortaleza-CE – nov2011

02- Uhnnn….sabe que sempre gostei bastante dessas histórias a respeito de meus ancestrais, rs…. Paula Medeiros de Castro, São Paulo-SP – nov2011


A metamorfose

19/06/2011

19jun2011


A METAMORFOSE

.
Ele rastejou silenciosamente para trás do compensado que servia de parede no barraco e agachou-se. Pôs a pasta de crack sobre a latinha de cerveja amassada, acendeu o isqueiro e inalou pelo buraco. E de repente sumiram a dor, o desemprego, a fome, o leite do filho que ele não havia comprado… Quase no fim, o menino acordou. Pai, o que é isso? Subitamente a dor voltou, diferente, agora feita de vergonha e da sensação de fundo do poço. É veneno de barata, filho. E cadê a barata, pai?
.

Ricardo Kelmer 2010 – blogdokelmer.com

.

.

LEIA NESTE BLOG

SoOCrackSalva-01Só o crack salva – Se os problemas relacionados ao crack ficassem restritos às camadas pobres da população, os ricos jamais se incomodariam e o horário nobre da tevê nem tocaria no assunto

O sonho que morreu na praia – O mar, que não liga para nacionalidades, aceitou receber o menino sonhador

Como violentar crianças em 30 segundos – É a máxima do Compre Baton: hipnotize desde cedo uma criança e você terá um zumbi-consumidor para o resto da vida

> Mais minicontos

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.


%d blogueiros gostam disto: