Um futuro pela frente

01/10/2020
01out2020

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SINOPSE CURTA

Após despertar de um sonho tenebroso, no qual o mundo, em 2020, sofria uma violenta pandemia virótica e o Brasil, com um governo neofascista, vivia uma convulsão social, Adélio decide agir para impedir que Dijair Coronano, um jovem e ambicioso capitão do Exército, não se torne presidente do Brasil.

SINOPSE LONGA

Brasil, ano de 2010. Interessado no caso de Adélio, um homem que passou vinte anos internado num manicômio judiciário por ter assassinado um político na cidade do Rio de Janeiro, o jornalista Leandro e a fotógrafa Kátia vão visitá-lo em sua casa, em Minas Gerais, onde vive com a esposa Marisa. Durante a entrevista, Adélio conta sobre o sonho que teve, muitos anos antes, no qual vivia no futuro, em 2020, e um poderoso vírus havia se espalhado pelo mundo inteiro, causando um milhão de mortes e paralisando grande parte das atividades de todos os países.
 
No sonho, além da crise sanitária, o Brasil vivia uma grande crise política, com um governo de extrema-direita de orientações fascistas e militaristas que apostava no caos social para agir com autoritarismo e violência, perseguindo opositores, armando milícias em sua defesa e golpeando, dia após dia, os pilares da democracia. Nesse cenário de medo e insegurança, Adélio e Marisa tentam sobreviver, tanto à pandemia como à violência política.
 
Após despertar, impressionado com o sonho, Adélio decide agir, com Marisa, para evitar que o terrível futuro que vislumbrou não se torne realidade. Para obterem sucesso no plano, eles precisam se aproximar de Dijair Coronano, um jovem e ambicioso capitão do Exército, e convencê-lo a não seguir a carreira política, para que não se torne presidente do Brasil.

OBS.: Este conto foi escrito em maio de 2020

 


UM FUTURO PELA FRENTE

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A placa na estrada nos avisa que logo chegaremos ao nosso destino, a cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Eu dirijo o carro, e Kátia, minha namorada está comigo. Ela é fotógrafa e fará as fotos da entrevista para a matéria que estou escrevendo para uma revista. Olho para ela e percebo sua apreensão. É compreensível, afinal é a primeira vez que fotografará um assassino.

– Está com medo, meu amor?

– Um pouco… – ela responde, forçando um meio-sorriso. Em seu colo, repousa sua bolsa com os equipamentos.

– Relaxe. Ele ficou muito tempo numa prisão. Certamente, não deve estar com vontade de voltar.

Kátia fecha os olhos por alguns segundos e solta um forte espirro.

– Saúde! – eu digo, oferecendo-lhe a caixinha de lenços de papel.

– Obrigado. Acho que vou gripar.

Ela assoa o nariz com o lenço e o deposita no saquinho que serve de lixeira.

– Leandro, você acha que ele é louco?

Demoro um pouco a responder. É exatamente sobre isso que eu matutava momentos antes.

– Não sei.

O homem que iremos entrevistar cometera um assassinato vinte anos antes, em 1990, na cidade do Rio de Janeiro, e, por ter sido diagnosticado como portador de transtornos mentais, foi considerado inimputável e enviado a um manicômio judiciário, onde ficou por vinte anos. Eu o conheci lá, um ano atrás, quando entrevistava alguns internos para uma matéria. Ele veio espontaneamente falar comigo, perguntou se eu era jornalista e, após minha confirmação, disse que quando estivesse em liberdade, o que ocorreria em alguns meses, gostaria de me contar sobre seu caso. Dei-lhe meu número de telefone e pedi que entrasse em contato. Naquele momento, ele não me pareceu ser louco, mas um homem calmo e equilibrado. Então, dois meses atrás, ele me telefonou e marcamos um encontro. Aproveitei esse tempo para estudar seu caso e li todo o processo.

– Ainda acho que você deveria ter me contado que viríamos encontrar um assassino.

– Se eu contasse, Kátia, você não estaria agora comigo – respondo e belisco sua bochecha para ajudá-la a relaxar.

– O que você vê de tão interessante no caso dele?

– Seu depoimento é muito curioso e o caso tem algumas inconsistências. Em nosso encontro no manicômio, ele me falou que contaria toda a verdade.

– Espero que essa entrevista passe bem rápido.

– Fique tranquila, meu amor. Todos com quem falei na administração do manicômio me garantiram que ele é de índole pacífica e que sempre se comportou muito bem durante sua estadia lá.

Entramos na cidade e logo chegamos ao endereço, num bairro periférico. Paro o carro em frente ao portão da casa e, no jardim, uma mulher de meia idade nos espera. Ponho a cabeça para fora da janela, para que ela me veja. Ela acena, sorridente, e abre o portão.

– A senhora deve ser a dona Marisa – digo, após parar o carro e descer.

– E você deve ser o Leandro – ela responde, simpática, ajeitando o cabelo solto. Veste um vestido simples vermelho e calça chinelo de dedo. Parece ser uma mulher elegante.

– Sim, e ela é a Kátia, nossa fotógrafa.

– Sejam bem-vindos. Adélio está esperando por vocês. Venham, por favor.

Seguimos Marisa pelo jardim, por um caminho de pedrinhas entre a grama. É um terreno pequeno, com a casa ao centro. Muitas árvores e plantas de folhas coloridas, com borboletas saltitantes a alegrar ainda mais a paisagem. Deve ser um lugar gostoso para se viver, longe da confusão das grandes cidades. Olho para Kátia e ela parece mais relaxada, admirando a beleza do lugar.

Passamos por uma varanda e entramos na sala. Ao nos ver, Adélio caminha até nós, sorridente. Está descalço e vestido com bermuda e camiseta brancas.

– Leandro! Bom ver você novamente.

– Igualmente, seo Adélio. Esta é Kátia, minha namorada.

– Muito bom gosto você tem, rapaz.

– Ela também tem bom gosto – diz, por sua vez, Marisa, e todos rimos.

– Sentem-se, fiquem à vontade. Se quiserem usar o banheiro, é aquela porta. Aceitam algo para beber?

– Água, por favor – respondo, e Kátia pede o mesmo.

Enquanto Marisa vai à cozinha, eu e Kátia nos sentamos no sofá, e Adélio numa das poltronas. A decoração da casa é simples e o ambiente é aconchegante. À minha frente, está um simpático senhor de sessenta e quatro anos, alto e forte, que durante os últimos vinte anos viveu internado num manicômio, sob tutela do Estado, e que há dois meses foi desinternado para ser reintegrado à sociedade. Parece bem de saúde, e movimenta-se com tranquilidade.

De repente, um gato preto salta sobre a poltrona vazia e me assusto. Adélio ri, e Kátia também.

– Essa aí é a Amanda. Veio lhes dar as boas-vindas.

– É linda – diz Kátia, admirando o bichano.

– Não se preocupem, ela é mansinha. Vai ficar um tempo aqui e depois irá para o jardim caçar borboletas. Não me alegra a morte das borboletas, mas procuro me consolar imaginando que elas já morreram uma vez, quando eram lagartas, e talvez estejam acostumadas.

Marisa chega trazendo uma bandeja com três copos e uma jarra com água, e a põe sobre a mesinha de centro, sentando-se em seguida na poltrona. Amanda se acomoda em seu colo. Retiro da mochila o gravador e um caderno.

– Acho importante dizer, inicialmente – Adélio fala –, que Marisa e eu não nos importamos se as pessoas vão acreditar ou duvidar da nossa história. Decidimos contar porque achamos que ela pode ser útil para o mundo em que vivemos.

– Perfeitamente – digo, sentindo a solenidade emanada por suas palavras. – Gravarei nossa conversa e, enquanto conversamos, Kátia fará algumas fotos. Podemos começar?

– Antes, me digam, por favor, em que ano vocês nasceram – pede seo Adélio.

– Nasci em 1970 – respondo eu.

– No auge da ditadura militar.

– Sim. Escapei por pouco de seus horrores.

– Sorte sua.

– Eu sou de 1979 – responde Kátia.

– Ano em que o Pink Floyd lançou The Wall.

– Gosto muito deles.

– Não liguem – comenta Marisa. – É mania de historiador.

– Bem, agora que finalmente conheço vocês, acho que estamos prontos – Adélio diz, piscando o olho para a esposa.

Ligo o gravador sobre a mesinha e posiciono o caderno em meu colo.

– Seo Adélio, por que o senhor matou o vereador Dijair Coronaro?

Adélio ajeita-se na poltrona, junta os dedos das mãos pelas pontas, cada dedo com o seu correspondente da outra mão, e fecha os olhos. Respira algumas vezes. Penso que talvez ele esteja se concentrando para reavivar as memórias ou selecionando o que exatamente irá me contar. Olho para Marisa, que olha para mim e sorri, fazendo um gesto para eu aguardar. Um minuto depois, Adélio abre os olhos e pergunta:

– Estamos em que ano?

– Estamos em 2010, meu amor – Marisa responde, como se já aguardasse pela pergunta. E, olhando para mim e Kátia, fala baixinho: – É assim mesmo, ele está bem.

– Sim, 2010… – prosseguiu Adélio, agora olhando para o jardim pela porta aberta – Naquele tempo, 1988, Marisa e eu éramos um casal de namorados com a idade de vocês dois. Morávamos juntos, no Rio de Janeiro. Eu era professor de História em cursinho de pré-vestibular e ela era assistente social. Eu já era louco por ela, como sempre fui.

– E eu por ele – Marisa emenda.

Eles se olham com carinho e sorriem. A relação deles parece ser bastante harmoniosa.

– Numa certa noite, Marisa me acordou no meio da madrugada porque eu estava chorando. Eu havia tido um pesadelo. Nele, eu estava no Brasil, trinta e dois anos depois, em 2020.

– O senhor sonhou que estava no futuro? – perguntei, enquanto Kátia buscava novos ângulos para suas fotos.

– Podemos chamar de sonho, mas era real. Eu acessei o futuro. Eu, realmente, estava lá.

Adélio fica olhando para mim, com uma expressão de quem diz algo óbvio. Fico um pouco desconcertado.

– Não se constranja, por favor. Sei perfeitamente que o que conto é muito estranho. Você tem todo o direito de achar que foi apenas um sonho.

Sorrio, e me ajeito no sofá, atento.

– Eu estava no futuro, mas naquele momento, era o presente, e eu me sentia absolutamente lúcido. Naqueles dias, em 2020, o Brasil vivia uma situação terrível. Um vírus surgido na China se alastrara em poucas semanas pelo mundo inteiro, contaminando milhões de pessoas e afetando a economia de todos os países. No Brasil, o sistema de saúde, tanto o público como o privado, entrou em colapso, sem conseguir atender os doentes. Cem mil já haviam morrido.

– No mundo?

– Apenas no Brasil. Sem contar os casos não notificados. A doença foi batizada de covid-19, e matava em poucos dias. No Brasil, o enfrentamento da pandemia foi prejudicado pela negligência do governo federal, que se preocupou mais com a economia que com a vida das pessoas, e temia que medidas rígidas de isolamento social, como foram feitas na Europa, prejudicassem as atividades econômicas. Por incrível que pareça, o governo assumiu a postura de negacionista do vírus, surpreendendo o mundo. Alguns governos estaduais se contrapuseram ao governo federal e insistiram nas medidas, instituindo quarentenas, fechando o comércio e obrigando o uso de máscaras higiênicas, e as duas posições antagônicas confundiram a população. A maior parte desaprovava o governo e apoiava as medidas rígidas, mas os que não apoiavam, geralmente da classe empresarial, sabotavam como podiam os esforços dos governadores e prefeitos, para que a população se revoltasse contra eles. Como você pode ver, era um sonho muito detalhista.

– Sim, bastante… – concordo, e realmente estou surpreso com tantos detalhes. – Prossiga, por favor.

– Além da crise sanitária, havia também a crise econômica, que perdurava havia alguns anos e se agravara com a pandemia. Como se não bastasse, o país vivia uma forte crise política, com um governo de extrema-direita de orientação fascista, militarista e evangélica, que fora eleito numa eleição que se revelaria fraudada e que agora aparelhava ideologicamente o Estado para corroer, dia após dia, as bases da democracia no país. O governo tinha o apoio do capital financeiro, das grandes igrejas evangélicas e de parte das polícias estaduais, e, apostando no caos institucional, buscava armar a população para poder contar com milícias organizadas em sua defesa. Aliado incondicional de Estados Unidos e Israel, e se inspirando em governos autoritários de direita, o governo contrariou a tradição diplomática brasileira e rompeu com a ONU, a OMS, os BRICS, o Mercosul, a Unasul, o Vaticano, os árabes e os chineses. O governo perseguia implacavelmente os opositores, e vários políticos, artistas, cientistas e intelectuais se viram forçados a sair do país, temerosos por sua segurança. Os partidos de oposição tentavam reagir, o poder judiciário freava como podia os ímpetos autoritários do governo e a imprensa se dividia entre críticas ao autoritarismo e apoio às medidas econômicas ultraliberais que tiravam direitos dos trabalhadores e devastavam a Natureza em nome da exploração comercial.

– Desculpe interromper, seo Adélio… – falo, procurando não ser ríspido – Talvez estejamos desviando da minha pergunta.

– Pelo contrário, estou indo direto ao ponto – ele rebate, piscando um olho para a esposa.

– Acho até que você está sendo conciso demais – ela concorda, sorrindo para o marido, e por um instante tenho a impressão de que brincam comigo.

– O presidente se dizia enviado por Deus para liderar o Brasil. Ele e seus três filhos políticos, que agiam como ministros tresloucados, eram defensores da ditadura militar, idólatras assumidos de torturadores assassinos e propagavam teorias paranoicas anticomunistas. Posavam para fotos com armas e praticavam discursos de ódio, incitando seus apoiadores contra as instituições e os opositores, e mantendo-os atiçados para irem às últimas consequências na defesa do governo, que contava com uma rede de distribuição sistemática de mentiras e notícias falsas. A situação do Brasil se tornara grotesca e surreal.

Adélio faz uma pequena pausa e esfrega o rosto com as mãos.

– Finalmente, após dois anos – ele retoma a história –, as reações se tornaram mais articuladas: muitos apoiadores do governo se afastaram e aumentaram as cobranças para punição aos crimes cometidos pelo presidente e seus filhos, que eram a cada dia mais evidentes, e eles foram denunciados. Percebendo que fatalmente seria afastado do cargo, o presidente tentou um golpe com apoio da ala militar de seu governo e as polícias milicianas dos Estados. O alto escalão das Forças Armadas não o apoiou e ele se refugiou no Palácio do Planalto com um grupo de apoiadores. Uma situação absurda, que escandalizou o mundo. Enquanto isso, nas cidades do país inteiro, grupos pró e contra o governo brigavam nas ruas. O Brasil mergulhara numa convulsão social.

Adélio faz outra pausa. Olho para Kátia e ela está sentada no braço do sofá, atenta ao relato.

– O presidente se chamava… Coronaro.

– Dijair Coronaro – completa Marisa.

Finalmente, penso eu. Parece que chegamos ao ponto central da questão.

– Coronaro resistiu, mas vendo que seria preso e julgado até por crimes contra a humanidade, preferiu o suicídio, atirando na cabeça. Mas, antes, matou a esposa. Morreu com uma arma na mão e a bíblia na outra.

Adélio para de falar e toma um gole dágua. Há um certo peso no ar.

– E a pandemia? – indago.

– Levaria muito tempo para ser totalmente controlada, pois sempre surgiam novas ondas que obrigavam a novas medidas para contenção. Foi uma imensa tragédia, que aumentou a distância entre ricos e pobres, mas que fatalmente faria a humanidade repensar muitas coisas, como a questão ecológica, os sistemas de saúde e seguridade social, as relações de trabalho, as leis de mercado…

– E vocês?

– Marisa e eu éramos um casal de velhinhos saudáveis, sem filhos, que gostava de passear na praça ao entardecer e de tomar vinho na varanda admirando as estrelas. Mas, agora, a vida se resumia a se proteger da pandemia e do caos social. Agora, o que víamos eram os confrontos nas ruas, pessoas correndo, muito desespero. Um dia, passou em frente ao nosso prédio uma carreata de apoio a Coronaro, com muitas pessoas armadas, e um homem com a camisa da seleção brasileira de futebol deu vários tiros para o alto. Um deles atingiu Marisa, que estava na varanda. Foi assim que perdi minha companheira.

– Ela morreu? – Kátia pergunta, curiosa.

– Com os hospitais lotados, morreu no mesmo dia. Tinha sessenta e quatro anos. A idade que tenho hoje.

Eu quase digo um “sinto muito”, de tão envolvido que estou na história. Olho para Kátia e vejo que ela também está impactada.

– A vida para mim se tornou uma tristeza sem fim. Agora, estava sozinho para enfrentar os perigos da pandemia, sem família ou amigos por perto, mas o mais difícil era suportar o sofrimento de não ter mais Marisa comigo. Já não via sentido em continuar vivo. Marisa e eu ainda tínhamos um futuro juntos pela frente, e agora ele de repente não existia mais, um tiro acabou com ele…

Ele interrompe a fala. Parece emocionado.

– Então, uma noite, despertei de madrugada. Estava chorando, e entendi que chegara a minha hora. Fechei os olhos e, enquanto aguardava, pensei que se fosse possível ter de volta minha Marisa, eu faria o que tivesse que fazer para que isso acontecesse. Morri com esse pensamento.

Um silêncio estranho desce sobre nós todos. No colo de Marisa, Amanda mia baixinho, salta para o chão e vai para o jardim.

– Certo, morreu no sonho – comento, para que eu mesmo não me perca no relato.

– Sim, e acordei em 1988, ao lado de Marisa. Estava chorando, ainda envolvido por aquela imensa tristeza… E impressionado com o sonho, os detalhes…

– Ele ficou mudo por três dias – interrompe Marisa, rindo. – Quando tentava falar, desistia, e só dizia assim: Meu amor, você está aqui…

– Sim. O sonho foi tão forte que eu tinha medo de contá-lo, para não reviver aquela tristeza horrível que era a ausência de Marisa. Além disso, havia a angústia pela situação do país, o sofrimento do povo com a pandemia, todo o caos social… Então, de repente, compreendi que eu havia, de fato, acessado o futuro. Compreendi que naquela noite eu vivi no Brasil de 2020. Eu estive no fundo do poço da história brasileira.

– Seo Adélio… – prossigo, dividido entre seguir com o roteiro da entrevista e saber mais sobre o Brasil de 2020 – Esse seu sonho é muito interessante. Do ponto de vista ecológico, por exemplo. Ano passado, tivemos a gripe suína, e antes, em 2002, tivemos a SARS. Na minha opinião, é óbvio que o comportamento antiecológico da nossa espécie tem causado essas epidemias e talvez surja uma outra em breve, ainda mais perigosa. Mas nem imagino como é viver num cenário de pandemia como esse que o senhor sonhou.

– Em países ricos, com população bem informada, já é desesperador, mas em países como o Brasil, com grande desigualdade social, é ainda mais difícil. Porém, aprendi coisas importantes. Se aceitar, posso dar um conselho.

– Aceito, sim.

– Não se apegue ao que não é importante. Quando a vida que tínhamos, de repente não temos mais, e qualquer um pode morrer a qualquer momento, tudo vira supérfluo, menos o que é realmente fundamental.

– Entendi. Obrigado.

Por um instante, penso no que pode ser realmente fundamental em minha vida. Mas a entrevista tem que seguir.

– Voltando ao que eu estava dizendo… – continuo. – Do ponto de vista político, longe de mim desmerecer a experiência que o senhor teve nesse sonho, mas acho improvável que cheguemos, no Brasil, a uma situação assim tão catastrófica, um governo de extrema-direita, neofascista, violento…

– Eu estive lá, Leandro.

Tomo fôlego para prosseguir em minha argumentação. Não é fácil conversar com alguém que tem certeza de que já viveu no futuro.

– Sei que nossa democracia não é perfeita, seo Adélio, e temos muito a melhorar, mas, sinceramente, não vejo tal risco no horizonte.

– A chegada de Coronaro à presidência não se deu de um dia para o outro. O ovo da serpente foi gerado por um conjunto de fatores que se avolumaram durante anos, incluindo a pusilanimidade das instituições diante dos avanços antidemocráticos. Anos antes, a banda podre do Congresso, usando de ardilosos malabarismos jurídicos e interessada apenas em vantagens pessoais, afastou a presidenta e isso rompeu o contrato da normalidade democrática, abrindo caminho para toda sorte de oportunismos extremistas. Coronaro era a face brasileira de um fenômeno que ocorria também em outros países. Era o fascismo tentando ressuscitar, aproveitando-se das falhas da democracia em sua lida com os problemas do mundo.

Aproveito a pausa para beber água. Adélio relata os acontecimentos como se, de fato, os houvesse vivido, e sei que devo respeitar sua experiência, seja ela um mero sonho ou algo mais.

– Kátia e Leandro… – ele retoma sua fala, olhando para mim e minha namorada – O fascismo é um fenômeno histórico do século 20, mas suas ideias vivem na alma humana. É lá, nas sombras, que o fascismo aguarda, sorrateiro, pela situação propícia, com predileção pelas crises econômicas e políticas, esperando pelo messias que o representará. Ele é mutante e sutil, sabe se adaptar aos novos tempos. Suas ideias seduzem porque são simplistas, reluzem como um elixir mágico para os problemas, e legitimam todos os ódios e preconceitos latentes que, numa democracia, não têm espaço para se manifestar. Por natureza, ele é a antipolítica, pois despreza o diálogo e só entende a disputa pela ótica da violência. Nunca subestimem o fascismo. Ele está entre nós, agora mesmo, se espalhando pelas mentes suscetíveis, como um vírus.

– O senhor é historiador, seo Adélio, respeito muito seu conhecimento. Só acho que nossas instituições já amadureceram o suficiente para não permitir que a democracia retroceda a tal ponto. Mas sei dos perigos do fascismo, claro que sei.

– Eu também achava que sabia.

O olhar sério de Adélio me incomoda. Ele continua:

– O fascismo é como uma epidemia. Tudo o que fizermos antes para preveni-lo soará como exagero, e tudo que fizermos depois será tarde demais.

Na sala, fica um silêncio um tanto constrangedor. Desvio meu olhar para minhas anotações.

– Pronto, já dei minha aula de hoje – Adélio brinca, diminuindo a tensão no ar.

– Se deixar, ele vai até amanhã – Marisa emenda, dando uma boa risada.

– Foi uma aula curta e precisa, obrigado – comento, mais descontraído.

– Sim, foi ótima! – Kátia também reconhece.

– Mas precisamos seguir em frente com a entrevista, não é?

– Por favor, seo Adélio.

– Onde estávamos?

– Em 1988 – Marisa acode o marido nas lembranças.

– Sim – ele fala, ajeitando-se na poltrona e direcionando novamente o olhar para o jardim. – Uma semana depois, consegui contar o sonho para Marisa. Contei tudo, todos os detalhes, e ela ficou bastante impressionada. Quando terminei, nós dois chorávamos, eu pela dor de ter perdido minha grande companheira, com quem vivi por quarenta anos, e ela por ter me deixado sozinho naquele apocalipse. Então, tivemos medo, muito medo, do futuro. Eu sabia que ele chegaria, trazendo todo aquele pesadelo social e político, todas aquelas mortes que poderiam ter sido evitadas… Não posso explicar essa certeza, só posso dizer isso: eu sabia. Aquele futuro chegaria, e nem eu e nem Marisa queríamos vivê-lo.

– A senhora acreditou na experiência que ele teve? – pergunto, curioso sobre o modo como Marisa compreende tudo aquilo.

– Sim. Eu vi em seus olhos que era tudo verdade.

– Ainda acredita?

– Mais do que antes – ela responde. Seu olhar encontra o de Adélio e eles sorriem. Parecem dois ímãs a se atrair onde quer que estejam.

– O que aconteceu depois, seo Adélio?

– Sentimos que deveríamos fazer algo para evitar aquele futuro cheio de trevas. Mas o quê, exatamente? Então, um dia, lendo o jornal, vimos uma notícia sobre Dijair Coronaro, um capitão reformado do Exército que era candidato a vereador no Rio de Janeiro. E a ficha caiu: ele representava o sinistro futuro. Por causa dele, em 2020, o Brasil viveria uma imensa tragédia política e social. E por causa dele, Marisa e eu não envelheceríamos juntos.

– Vocês já o conheciam?

– Um pouco. Dois anos antes, em 1986, Coronaro escrevera um artigo na revista Veja no qual reclamava melhores salários para a classe militar e isso lhe dera certa popularidade entre as baixas patentes. Porém, isso lhe valeu quinze dias de prisão. Depois, envolveu-se em outro caso de insubordinação, dessa vez com planos de atentados com bombas em dependências do Exército e numa adutora de água que abastece a cidade do Rio de Janeiro. Ele foi julgado por um tribunal militar e absolvido, mas o caso não ficou bem esclarecido.

– Um capitão do Exército terrorista?

– Sim. Infelizmente, as escolas militares formam muitos deles, e não apenas no Brasil – Adélio responde. Toma mais água e continua. – Coronaro era casado e tinha três filhos pequenos, todos homens. Então, fingi ter interesse em ajudá-lo em sua campanha eleitoral e ele me falou de suas ideias e me entregou folhetos de campanha. A impressão inicial que tive dele foi a de um indivíduo de personalidade forte e agressiva, com rígidos valores morais conservadores e com ideias políticas um tanto confusas. E me chamou a atenção o seu espírito ambicioso e determinado.

– Ele não desconfiou de nada?

– Desconfiava de todos, tinha certa mania de perseguição. Mas consegui levar o plano adiante. Pouco antes das eleições, pedi uma reunião com ele, a sós, e nela falei que tivera uma visão de seu futuro. Falei que se ele seguisse a carreira política, seria vereador e deputado federal, e que sua atuação seria medíocre, mas que, mesmo assim, ele seria eleito presidente da República. Falei do atentado que ele sofreria, e que quase o mataria. Falei que ele teria seguidores fanáticos que o veriam como a um messias, mas seria considerado uma aberração pela comunidade democrática internacional. Falei do quanto ele atacaria os grupos sociais vulneráveis e do quanto contribuiria para a destruição da Natureza em nome de sua exploração comercial. Falei também sobre sua péssima atuação na pandemia de covid-19 e que seria responsabilizado pela morte de milhares de pessoas. Falei sobre seu fim terrível, com muito sofrimento para ele e sua família.

– Ele não o interrompeu?

– Não. Escutou a tudo atento. Porém, enquanto eu falava, percebi que seus olhos brilhavam e tive medo de que tudo aquilo, em vez de lhe provocar repulsa ou medo, na verdade pudesse agradá-lo. O certo é que Coronaro ficou encantado com tudo que o futuro lhe reservava. Hoje, sei que eu estava diante de um sádico psicopata, capaz de fazer tudo aquilo que o futuro me mostrou que ele faria. Ao fim, pedi que pensasse seriamente a respeito e avisei que estava abandonando a campanha. E saí da sala.

– Pelo jeito, ele não seguiu seu conselho.

– Não. Quando soubemos que manteve a candidatura, Marisa e eu ficamos muito tristes. Todo o nosso esforço foi em vão.

– O senhor não teve medo dele lhe fazer algo?

– Consideramos essa hipótese. Tanto que nunca lhe informei meus dados verdadeiros. Sumi da vida dele tão rápido quanto me aproximei.

Aproveito que Adélio acaricia Amanda, que voltou do jardim, e faço anotações no caderno. Eu achava que, nessa altura da entrevista, teria uma boa noção sobre a saúde psíquica do meu entrevistado e saberia dizer se ele era louco ou não. Mas me enganei. Ainda não sei o que concluir. Em meu trabalho de jornalista estou acostumado com relatos estranhos e alguns totalmente fantasiosos, mas, apesar de parecer filme de ficção científica, a história de Adélio está me parecendo sincera. Pelo menos até agora.

Eu pesquisei sobre o vereador assassinado. Dijair Coronaro tinha um perfil conservador, e nos dois anos em que atuou na Câmara foi pouco participativo. Usou o mandato, principalmente, em pró de causas militares. Tive acesso a documentos do Exército, feitos na década de 1980, que mostram que os superiores do capitão Coronaro o avaliaram como sendo dono de uma “excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente”. Um coronel, seu superior na época, afirmou que Coronaro “tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”. Portanto, o que Adélio falou a respeito da personalidade do capitão parece concordar totalmente com a opinião dos seus superiores militares.

– Marisa e eu analisamos a situação – Adélio prossegue – e percebemos que fomos ingênuos em nossa estratégia. Os argumentos que usei, em vez de fazê-lo desistir de seguir a carreira política, provavelmente serviram como combustível. Então, decidimos que mudaríamos o futuro de outra forma e começamos a nos programar para viver fora do Brasil. Se não podíamos evitar aquele futuro terrível para nosso país, ao menos podíamos estar longe quando acontecesse. Estudamos possibilidades em vários países, mas dois anos depois, em 1990, quando soubemos que Coronaro se candidatara a deputado federal, desistimos.

– Por quê?

– Porque entendemos que seria egoísmo de nossa parte. O sonho havia deixado em nossas mãos uma missão. Ele havia nos revelado o futuro para que pudéssemos mudá-lo, e nós não tínhamos o direito de fugir dessa responsabilidade, mesmo que fosse para proteger o nosso futuro particular.

Uma missão… É um termo comum no discurso de muitos loucos. Eles se consideram predestinados a realizar algo importante para seu povo, para a humanidade, ou para o deus em que acreditam. Nas entrevistas que fiz no manicômio em que Adélio esteve, ouvi esse termo de alguns internos.

– Então, pensamos num novo plano – ele continua. – Dessa vez, estudamos os hábitos de Coronaro e analisamos com atenção sua agenda de compromissos. Descobrimos que ele marcava encontros secretos no Hotel Brilhante, no centro da cidade. Chegava sozinho, pegava a chave do quarto na recepção e subia, sempre no décimo sétimo andar. Nossa primeira suspeita foi de que se tratava de negócios ilegais, mas depois desconfiamos que ele poderia ter uma amante.

– Vocês descobriram isso sozinhos ou contrataram um detetive?

– Achamos arriscado envolver outras pessoas naquilo. Então, fizemos tudo nós dois. E decidimos nós mesmos registrar as imagens. Nosso plano consistia numa chantagem: ou ele desistia da candidatura a deputado federal ou nós enviaríamos o material para a imprensa. Coronaro planejava eleger a esposa como vereadora nas eleições de 1992. Se fosse eleito deputado federal, isso ajudaria nos planos dele. Um escândalo de traição conjugal naquele momento, sendo ele o moralista cristão que era, poderia lhe custar a eleição e até mesmo o casamento.

– Mas mesmo que ele concordasse, poderia se candidatar nas eleições seguintes, e assim seguiria normalmente na carreira política.

– É verdade. Mas nossa ação poderia ser o suficiente para alterar o futuro.

Que história louca…, eu penso. Agora, ela já parece um filme de suspense policial. Será tudo um grande delírio? Será Adélio tão criativo a ponto de inventar tudo isso que me conta? Bem, ele ficou vinte anos preso, é tempo suficiente para criar muitas histórias, com infinitos detalhes. E Marisa? Se ele é louco, o que dizer dela? Todas essas ideias me passam pela mente ao mesmo tempo, mas sei que preciso estar atento ao relato.

– Então, soubemos que Coronaro se hospedaria novamente no Hotel Brilhante – Adélio retoma a narrativa. – Dessa vez, Marisa e eu decidimos nos hospedar lá também. Era véspera do feriado de Sete de Setembro. Chegamos de manhã. À noite, na hora de sempre, Coronaro chegou, pegou a chave do quarto e tomou o elevador para o décimo sétimo andar. Marisa, que aguardava na recepção, fez uma ligação para o nosso quarto, no mesmo andar. O telefone tocou apenas uma vez, era o sinal. Saí do quarto e fui até o vaso de plantas que ficava no fim do corredor, próximo à porta do quarto que ele reservara.

– Que quarto era?

– Acho que… 1709.

– Sim, era o 1709 – confirmou Marisa. – E nós estávamos no 1701. Ambos ficavam nas pontas do corredor. E o elevador ficava no meio.

Anoto os números no caderno. Mas sei que ela fala a verdade.

– A câmera filmadora já estava lá no vaso – prossegue Adélio –, camuflada entre as folhas, devidamente posicionada para a porta do 1709. Pressionei o botão e ela começou a filmar. Corri e entrei no quarto. Como não havia câmeras de vigilância nos corredores, pude agir tranquilamente. Meia hora depois, o telefone tocou outra vez. Então, abri um pouco a porta do quarto e ouvi a porta do elevador se abrindo. Espiei com cuidado e vi uma mulher caminhando pelo corredor, de costas para mim e de frente para a filmadora. Lembro bem do som de seus saltos no chão, poc, poc, poc… Não consegui ver bem seu rosto, mas era ruiva e alta, e usava um minivestido preto. Imaginei que pudesse ser uma prostituta. Ela passou pela porta do 1709 e se aproximou do vaso de plantas. Tive medo de que ela houvesse visto a filmadora, mas o que ela queria era jogar algo na lixeira, talvez um chiclete. Após isso, ela voltou, foi até a porta do 1709, bateu e esperou. A porta se abriu e ela entrou. Logo depois, surgiu a cabeça de Coronaro, ele olhando para um lado e para o outro do corredor, certificando-se de que ninguém havia visto nada. Pensei comigo: perfeito.

De fato, é uma história muito interessante, eu penso enquanto Adélio bebe um pouco dágua. E, como li o processo e sei de alguns detalhes do que aconteceu aquela noite, fica mais interessante ainda, pois posso acompanhar o relato e, ao mesmo tempo, compará-lo com as informações oficiais. Até agora, tudo se encaixa perfeitamente.

– Peguei a filmadora e fui para o quarto e, logo depois, Marisa chegou. Vimos as imagens com atenção e ela também achou que era uma prostituta. Fosse ou não, consideramos que já tínhamos o material que precisávamos. Como ficaríamos no quarto até a manhã seguinte, agora era hora de relaxar. Abri a janela do quarto para podermos respirar o ar da noite e fui tomar banho. Pouco tempo depois, escuto uma voz de homem. Era ele, Coronaro. Do lado de fora da janela, no parapeito que circundava o prédio, ele apontava uma arma para Marisa. Nesse momento, eu já havia desligado o chuveiro e fiquei escutando em silêncio, apavorado e calculando como agir.

– E a visitante?

– Ele a mandara embora. Provavelmente, foi ela quem o avisou sobre a filmadora no vaso de plantas.

– Ele entrou e me mandou sentar na cama – Marisa segue com o relato, revelando sua visão dos fatos. – Estava espumando de ódio, os olhos vermelhos, e seu hálito cheirava a bebida. Com a pistola apontada para mim, falou assim: “Não conheço aquela travesti, ela errou de quarto, tá ok, tá ok?”. Disse e repetiu várias vezes. Depois, perguntou quem havia me contratado, citando alguns nomes.

– Que nomes ele falou?

– Não lembro, eu estava muito nervosa. Só pensava em Adélio e torcia para que ele continuasse quieto no banheiro, pois temia que Coronaro o matasse.

– Também não lembro – Adélio emenda. – Certamente, eram adversários políticos. Mas como ele tinha mania de perseguição, podia ser qualquer pessoa.

– Sem saber o que dizer, falei que fui contratada pela esposa dele – continua Marisa. – Ele pareceu ficar confuso. Então, pegou a filmadora e a minha bolsa e disse que se eu contasse a alguém sobre aquela noite, mandaria me matar. Pensei que sairia pela porta, mas ele parou e me olhou de um jeito estranho. E me mandou tirar a roupa e ficar nua. Achei melhor fazer o que ele queria. Porém, ele desistiu, e disse que eu era muito feia, que não merecia ser estuprada. Quando tocou a maçaneta para sair, viu as roupas de Adélio e perguntou se havia alguém no banheiro. Respondi que estava sozinha. Ele foi até o banheiro e tentei impedi-lo, e caímos sobre a cama. Nesse momento, Adélio saiu e se jogou sobre ele.

– Ele o reconheceu, seo Adélio?

– Não nesse momento – responde Adélio, retomando a narrativa. – No meio da briga, consegui pegar a pistola e o golpeei na cabeça. Ele cambaleou e ficou encostado na parede, tonto, com a cabeça sangrando. Apontei-lhe a arma, falei quem eu era e disse que não queríamos matá-lo, apenas propor um acordo. Ele riu com sarcasmo e disse que ninguém o impediria de cumprir seu glorioso destino, que Deus o escolhera para guiar o Brasil. Então, virou-se e passou uma perna para fora da janela. Marisa e eu nos olhamos, nervosos, sem saber o que fazer. Ele passou a outra perna e ficou lá, do lado de fora, de pé no parapeito. Falei para ele que entrasse, pois podia cair, mas ele respondeu fazendo um gesto com os braços, me dando uma banana, e saiu caminhando pelo parapeito na direção de seu quarto. Nós vimos tudo da nossa janela. Ele parou na janela do 1709, ficou imóvel por alguns segundos e, em seguida, despencou no vazio. Foi horrível.

Adélio para de falar. Agora, olha novamente para o jardim. Sua expressão é calma e suas mãos estão juntas novamente, as pontas dos dedos se tocando. Marisa se levanta, posta-se ao lado dele e toca delicadamente seu ombro. Olho para Kátia, que olha para eles aparentemente impressionada.

– Você me disse que leu o processo – diz Adélio, agora olhando para mim. – Está tudo lá.

– Sim. O corpo dele foi encontrado logo depois no pátio dos fundos do prédio – falo, expondo o que sei. – Como a janela do 1709 estava aberta, a polícia suspeitou logo da travesti, que ela o teria empurrado pela janela. Porém, nunca conseguiu localizá-la, nem descobriu seu nome verdadeiro, apenas o nome que deixou no registro da recepção: Zarla Cambelli, que ela, provavelmente, não mais usou. Dias depois, o senhor se apresentou à delegacia com a pistola de Coronaro e contou que veio do futuro com a missão de evitar que ele se tornasse presidente do Brasil, e sustentou isso por todo o processo. Dona Marisa confirmou sua versão e chegou a ser considerada suspeita, mas não havia provas contra ela. O senhor realmente achava que havia matado Coronaro? Ainda pensa assim?

– Não sabemos se ele perdeu o equilíbrio ou se ele se atirou, nem jamais saberemos o que pensou em seus últimos momentos. Talvez o golpe na cabeça o tenha feito se desequilibrar, ou talvez não. De todo modo, a sensação de culpa me atormentava, e foi por isso que me entreguei à polícia.

Anoto a palavra “suicídio” e penso na relação entre as mortes de Coronaro. No sonho de Adélio, ele, derrotado, se mata com um tiro na cabeça. Na vida real, ele é golpeado na cabeça e cai do alto de um prédio. Do alto de suas ambições políticas…

– O que fizeram com a filmadora e o filme?

– Destruímos.

– O senhor foi diagnosticado como sendo portador de transtornos psicológicos, e por isso considerado inimputável. Ficou por vinte anos num manicômio judiciário. Como foi essa experiência?

– Não foi fácil. Precisei conviver diariamente com pessoas com muitos sofrimentos mentais e existenciais. Vivi, na própria pele, a imensa dificuldade que a sociedade tem de lidar com aquilo que ela não compreende. Mas tive o apoio de Marisa, que nunca faltou nos dias de visita.

Neste momento, por trás do casal, Kátia os fotografa: Adélio sentado na poltrona e Marisa em pé ao seu lado, a mão em seu ombro, a silhueta deles contra a luz que vem da porta aberta, e ambos a olhar na direção do jardim lá fora… Acho que será uma bela foto.

– E para a senhora, dona Marisa, como foi?

– Ele sofreu muito mais do que eu naquele lugar.

– Claro que não – rebate Adélio. – Ela chorava todos os dias.

– Vamos morrer bem velhinhos, discordando – brinca Marisa, e em seguida eles se beijam.

– Bem, acho que estou satisfeito – falo, e Kátia me faz um sinal de positivo. – O senhor gostaria de dizer algo mais?

– Sim – responde Adélio. – Você lembra que, quando conversei a primeira vez com Coronaro, falei que, caso seguisse na carreira política, ele sofreria um atentado que quase o mataria?

– Sim, lembro.

– Foi durante a campanha presidencial. Num comício na rua, um homem o esfaqueou e ele precisou ser operado. As investigações da Polícia Federal concluíram que o homem agiu sozinho, mas ficaram muitas dúvidas, inclusive suspeitas de que o atentado foi forjado. O fato é que isso virou o jogo a favor de Coronaro, serviu de motivo para ele não comparecer a nenhum debate e foi fundamental para ele vencer as eleições no segundo turno. Sabe como se chamava o homem que o esfaqueou? Adélio.

– Adélio? Tinha o mesmo nome do senhor?

– Sim.

Penso um pouco. O que isso pode significar?

– Coincidência? – pergunto.

– Não sei. Assim como eu, ele também foi considerado inimputável por ter transtornos mentais. Mas há algumas diferenças entre ele e eu. Aquele Adélio foi missionário evangélico e afirmou que agiu a mando de Deus. E eu sou ateu. Ele tentou matar Coronaro. Em nenhum momento, Marisa e eu pensamos nisso. O que fizemos foi tentar convencê-lo por argumentos e, depois, por chantagem. Se aquele Adélio tentou evitar o futuro tenebroso que se anunciava muito próximo no horizonte do Brasil, seu ato teve o efeito contrário: ele ratificou o futuro. O futuro que eu anulei.

Penso um pouco sobre o que ele acaba de falar. São ideias instigantes.

– E sabe em que cidade ocorreu o atentado? Juiz de Fora.

– Foi por isso que vieram morar aqui?

– Na verdade, conhecemos Juiz de Fora no início do namoro, antes do sonho, e adoramos a cidade. Desde então, planejávamos vir morar aqui. Coincidência? Não sei.

Mais um detalhe intrigante na história… Então, anoto algumas informações no caderno, agradeço e dou por encerrada a entrevista. Em seguida, é servido um café, que tomamos enquanto o casal nos mostra as árvores do terreno, orgulhosos delas. O sol se põe por trás da casa quando deixamos o sítio.

Enquanto dirijo de volta para a cidade do Rio de Janeiro, é impossível não pensar sobre tudo que escutamos naquela sala. Penso que demorarei um bom tempo até chegar a uma conclusão sobre a incrível história de Adélio e Marisa. Ou talvez jamais chegue.

O que Adélio falou sobre o fascismo me deixou com a pulga atrás da orelha, mas continuo achando que uma desgraça daquele tamanho não tem condições de acontecer no Brasil, nem agora em 2010 e nem nos próximos anos. Um governo neofascista de extrema-direita… Não, não mesmo. Pelo menos desse perigo estamos livres.

Porém, quanto a uma pandemia mundial devastadora, acho que, infelizmente, é só uma questão de tempo para acontecer. Espero que quando ela chegar, nosso sistema público de saúde esteja melhor do que hoje e que os políticos e empresários entendam que a economia demora mas se recupera, mas os mortos não ressuscitam.

– Como ficaram as fotos? – pergunto para Kátia, enquanto ela observa no visor as fotos que fez.

– Parecem boas. As fotinhas da Amanda estão ótimas, ela é superfotogênica.

– Você acha que ele é louco, meu amor? – devolvo-lhe a pergunta que ela me fez na ida.

– Claro que não, Leandro. Você acha?

– Não sei.

– Acho que eles são muito lúcidos. E acho que ele acessou mesmo o futuro, e eles conseguiram alterá-lo. Você não acredita?

– Também não sei.

– Pois eu acredito. Naquele futuro de 2020 eles não puderam ficar juntos na velhice, mas nesse eles podem. E numa casinha linda.

– Parece que eles se amam, né?

– Com certeza, e é uma história de amor maravilhosa. Ela esperou vinte anos por ele!

De fato, é algo admirável, penso eu.

– Você faria isso por mim, Leandro?

– Eu?

– Sim, você.

– Sinceramente?

Kátia olha para mim, aguardando a resposta. Eu rio, e aperto sua bochecha.

– Esperei por você durante quarenta anos, meu amor. Vinte a mais não será problema.

Ela ri. E rimos juntos.

Ligo os faróis para enxergar melhor a estrada. Temos um futuro pela frente para nós dois. E quando a pandemia vier, espero lembrar do conselho de Adélio.

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Ricardo Kelmer 2020 – blogdokelmer.com

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Resistência antifascista

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Escritores antifascistas

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O beijo da resistência contra a besta do fascismo – O fascismo não faz política ‒ ele é a negação da política, pois não dialoga, apenas agride, persegue e censura

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O namorado perfeito

10/07/2020

10jul2020

Gabi só queria um namorado que realizasse seu grande fetiche

O NAMORADO PERFEITO

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Quando o namoro completou seis meses, Gabi decidiu que já era tempo de revelar seu preciosíssimo fetiche. Naquela noite, após a transa, os dois ladinho a ladinho na cama, ela falou para o namorado, lânguida como nunca:

– Dorival, eu quero que você me estupre…

– Quer o quê? – ele perguntou, surpreso, virando-se para ela.

– Isso mesmo que você ouviu, paixão…

Só podia ser brincadeira, ele pensou. Mas Gabi prosseguiu, acariciando delicadamente seu rosto:

– É uma fantasia antiga que eu tenho.

– Mas…

– Parece estranho, eu sei.

– Mas…

– Acho que posso confiar em você. Posso, não posso?

Ele olhou para a namorada, esperando que ela de repente desse uma daquelas suas risadas escandalosas e dissesse que era tudo brincadeirinha. Mas ela não riu, e continuou acariciando seu rosto, toda dengosa.

– Claro que pode confiar, meu amor. Mas… como alguém pode desejar ser estuprado?

Gabi ficou séria. E recolheu a mão. A languidez sumira.

– É só uma fantasia, Dorival.

– Mesmo assim. É uma fantasia muito…

– Meu aniversário é na quinta.

– …

– Você… – novamente lânguida e carinhosa – vai me dar esse presente, não vai?

Ele percebeu que não tinha outra opção senão ceder. Assim, quatro dias depois, Gabi despertou de manhã sentindo que algo forçava passagem por entre suas pernas. Abriu os olhos assustada, mas logo em seguida lembrou-se do combinado e manteve-se quieta, fingindo que ainda dormia. Deitada, nua e de barriga para cima, ela sentiu quando Dorival enfiou um pano em sua boca e amarrou seus punhos à grade da cama. Agora ela está em casa, estudando no sofá, e de repente surge um homem desconhecido, todo de preto, usando uma máscara tipo ninja, que a ameaça com uma faca e ordena que tire a roupa e se debruce sobre a mesa. Tremendo de medo, ela obedece. O mascarado a amordaça com um pano, abaixa sua calcinha e a violenta ali mesmo, sobre a mesa, com seu pau enorme. Quando a excitação chega ao auge, Gabi solta um longo gemido, enquanto o namorado mete com força, e o mascarado a puxa pelos cabelos, e é assim que ela goza, abundantemente, o corpo se sacudindo em sucessivos espasmos sobre a mesa. O melhor aniversário de sua vida.

Os estupros matinais continuaram nas semanas seguintes, e, embora Dorival achasse aquilo realmente estranho, não via motivos maiores para recusar participar da fantasia da namorada. Um dia, Gabi deu-lhe uma máscara de Zorro, comprada na sex shop, que ele relutou bastante em usar porque se achou ridículo, mas acabou aceitando. Dias depois, ela apareceu com uma fantasia de vampiro, com a capa vermelha e até os dentes afiados, que Dorival usou com certo constrangimento.

Até que uma tarde, Gabi chegou em casa com duas dúzias de máscaras, que comprara numa loja de artigos de carnaval. Dorival não acreditou.

– Olha que demais, Dorivalzinho.

– Que coisa horrível é essa, amor?

– É o ET de Varginha. Não é sexy?

A partir de então, Gabi passou a ser violentada por uma legião de insaciáveis fantasmas, esqueletos, demônios, lobisomens, nosferatus, frankensteins, bonecos Chuck e outros monstros horripilantes, desta e outras galáxias. Um deles, o Lagarto Saturniano, tinha a língua tão comprida que ela se sentia duplamente estuprada quando Dorival a beijava. O monstro de três cabeças era angustiantemente sedutor, pois ela nunca sabia para qual delas devia olhar. O Crustáceo Belzebu, com suas garras afiadas, chegou a cortar-lhe o rosto, o que deixou Dorival preocupado, mas o gosto de sangue só a deixou mais excitada, e ele passou a ser o seu estuprador preferido.

Um dia, quando passavam o fim de semana acampados na serra, ela despertou com Dorival mexendo-se entre suas pernas e preparou-se para mais um estupro monstruoso. Porém, logo viu que ele não usava nenhuma máscara, estava de rosto limpo. Frustrada, ela tentou concentrar-se na lembrança do Crustáceo Belzebu, mas não conseguiu. Tentou o Chupa Cabra, mas foi inútil. Desesperada, tentou também os Minions, uma centena de Minions enlouquecidos de cocaína em cima dela, mas não funcionou. E Dorival percebeu.

– O que foi, Gabi?

– Você esqueceu de trazer as máscaras, né?

– Foi – ele mentiu. – Desculpa. Mas vamos continuar, tava tão bom…

Ela não quis. E empurrou-o para o lado, mal humorada.

– Pô, Gabi, você não acha que tá indo longe demais com essa sua fantasia?

– É só uma fantasia, você sabe disso.

– Que já foi longe demais, né? Agora você só se excita se for estuprada por seres bizarros. Se rolar sangue, então, é o máximo.

– Qual é o problema?

– O problema é esse mesmo, você não percebe?

– O que percebo é que você estragou nosso passeio – ela respondeu secamente, levantando e saindo da barraca.

– Gabi… eu tô realmente preocupado com você.

– Cada um tem suas preferências. Se você não estiver satisfeito com as minhas…

O namoro acabou naquele mesmo dia, e dá para imaginar o climão, os dois desmontando a barraca num completo e ridículo silêncio.

A partir daí, Gabi não teve muita sorte com namorados. A maioria chegou a Vampiro, alguns avançaram até o nível Ogro Desdentado e poucos toparam vestir a fantasia de Gorilão Tarado do Congo, que era insuportavelmente calorenta, por sinal. Quanto ao Crustáceo Belzebu, somente um topou, mas como não aceitou sangrá-la com as garras, foi logo demitido por justíssima causa.

Atualmente, ela está solteira. E seu nível de exigência aumentou. Agora, sonha todos os dias com o Zumbi Esfomeado. Ser raivosamente violentada por um zumbi asqueroso, que tem os miolos da cabeça expostos e um olho ensanguentado escapulindo da órbita, a baba gosmenta escorrendo da boca, e ele comendo seu cérebro com vinagrete, dia após dia, até sua cabeça ficar oca… Ah, seria o namorado perfeito.

Semana passada, Gabi começou a anunciar em jornais. Ela já leu bastante sobre o tema, sabe que zumbis existem de verdade, sim, há cada vez mais relatos pelo mundo. Não é possível que um, ao menos um zumbizinho, não se sensibilize com sua precária situação. Ela não exige amor, muito menos fidelidade. Mas tem que ter muita fome. E o vinagrete ela mesmo prepara, ele nem precisa se preocupar com isso.

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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DICA DE LIVRO

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

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NoOlhoDaLoucura-01aNo olho da loucura – Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador

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Para meus donos, com amor – De quatro e abanando o rabo, lá se vai Cachorrinha servir a seus amados donos

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O brinquedo

03/09/2019

03set2019

Quando criança, ele viveu uma relação abusiva com uma mulher mais velha. Agora, um novo envolvimento traz à tona esse passado de dor, humilhação e… prazer

O BRINQUEDO

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Gostou do meu apartamento, Dai? Adorei, você tem bom gosto. É pequeno, mas é só para mim, e tem tudo que eu preciso. E agora tem você… Estou muito feliz de estar aqui, Gilson. Pode me chamar de Gil, por favor. Caramba, já são nove horas, estou com fome. Quer que eu esquente aquela lasanha, Gil? Ótima ideia, quero sim. Quem é essa mulher do porta-retrato? Ficou curiosa, né? Desculpe se fui indiscreta. Eu estava mesmo esperando você perguntar.

Ela é a Daiane. É uma prima da minha mãe, que morou um tempo conosco. Eu tinha dez anos, era um menino franzino e muito tímido, criado sem pai. Ela era seis anos mais velha que eu, personalidade forte, morena, cabelão preto quase na cintura, assim como o seu. Eu a achava tão linda, parecia uma rainha. Em sua presença, eu me sentia diminuído que nem uma formiga. Uma vez por semana, quando mamãe ia para a capital fazer compras, eu e Daiane ficávamos sozinhos em casa, e nesses dias eu tinha que obedecê-la sem questionar. Desculpe interromper, Gil, mas está na sua hora de sair. Obrigado, Dai. Cuide bem do nosso lar. Você volta às oito? Sim. Estarei esperando. Bom trabalho.

Num desses dias, me escondi embaixo da cama e pude vê-la nua, enquanto trocava de roupa. Foi por mera brincadeira mesmo, curiosidade de menino. Quando ela percebeu minha presença, ficou com raiva, esbravejou comigo e disse que contaria para minha mãe, que eu levaria uma surra e que seria levado para o reformatório, onde viviam os meninos mais malvados do mundo, e que eles fariam coisas horríveis comigo e ninguém ouviria meus gritos. Apavorado, implorei que ela nada contasse para minha mãe, que em troca disso eu faria qualquer coisa que ela pedisse.

Incrível, Dai, só três dias de convivência e você já me conhece tanto, faz todas as coisas que eu gosto… Foi para isso que você me contratou. Você é dessas que se apaixona pelo cliente? Nunca me apaixonei antes, Gil.

Virei um menino assustado, sempre com medo de Daiane cumprir sua terrível ameaça, o que me fazia ter pesadelos recorrentes. Ela se aproveitou disso e uma vez por semana me fazia seu escravo infantil: eu ia na bodega comprar coisas para ela, penteava seu cabelo e até abanava o leque quando ela estava com calor. Eu tinha medo dela, mas, ao mesmo tempo… tudo nela me fascinava, seu corpo moreno e gracioso, o olhar imperativo, o jeito de me mandar fazer as coisas… Eu sabia que o que ela fazia comigo não era certo, afinal eu era uma criança de dez anos, mas sentia um certo prazer em me submeter aos seus caprichos. Hummm, essa camisola branca ficou ótima em você, Dai. Obrigado, usarei mais vezes. E a história, como continua? Já vi que você gosta de histórias. As suas, pelo menos, eu adoro, Gil. Me chame de meu bem, pode ser? Se você prefere… Já está tarde, Dai, estou cansado, vou dormir. Bom descanso, meu bem.

Aí, um dia, estou na sala estudando e ela aparece vestida com uma camisolinha branca, sem nada por baixo. E senta no sofá. Quem te deu permissão pra olhar pra mim, moleque?, ela pergunta, irritada, e eu desvio o olhar, oprimido pelo poder que ela tinha sobre mim. E assim Daiane fica, vendo tevê no sofá, enquanto eu finjo estudar na mesa ao lado, mas na verdade tudo que faço é aguardar, com paciência e resignação, que ela mude de posição e me permita ver, pelo cantinho do olho, os recantos de seu corpo que a camisola mal esconde, como se fosse um jogo de esconde-esconde. E ela muda de posição várias vezes. Em certo momento, fica de quatro para pegar o chinelo sob o sofá, a bunda totalmente exposta. Depois, leva uma mão ao meio das pernas e começa a se contorcer e gemer baixinho. Não olha!!!, ela ordena. Sem poder olhar para ela, acompanho pelos ouvidos o ritmo de seus gemidos, e os escuto mais intensos, cada vez mais intensos… Procuro entender por que ela se machuca desse jeito, mas não entendo, e esse mistério me deixa ainda mais fascinado. Então, ela emite um longo e sofrido ai, que depois se transforma num uivo baixinho, e em seguida desfalece sobre o sofá, arfante. Eu não sabia o que ela havia tido, e até achei um pouco assustador, mas havia uma irresistível sensação de transgressão naquilo tudo, e jurei a mim mesmo que guardaria como um segredo mortal a cena que eu presenciara.

Liguei agora para a loja da esquina e pedi um vinho, fiz bem? Vinho? Esqueceu, né? Hoje faz uma semana que cheguei, meu bem. Caramba, parece que faz mais tempo… Sim, parece que faz anos que conheço você.

Só eu e Daiane em casa. O que faz ela? Aparece com um pote de sorvete de morango, que era o que eu mais gostava. Só de ver, me deu água na boca, fiquei salivando enquanto a observava abrir o pote e por sorvete no copo, devagarinho. Pedi um pouco, mas ela disse que eu era um menino mau, que não merecia. Implorei de mãos juntas, só um pouquinho, por favor, e ela lá, sentada no sofá a ver tevê, ela e sua camisola branca, ela se deliciando com o sorvete, me torturando, nem aí para o meu sofrimento. Até que, de repente, ela põe os peitos para fora e despeja um punhado de sorvete sobre eles, espalhando por toda a superfície. E diz: É pra lamber tudo, viu, e sem morder. Sim, Daiane, murmuro, enquanto sento ao seu lado no sofá e me entrego, feliz, à minha fome, enquanto ela geme aqueles gemidos que eu já conhecia, e eu começo a entender que eles não são de dor.

Agora que já estamos íntimos, Dai, quero fazer um pedido muito especial. Você pode se vestir hoje como um… sorvete de morango? Com todo prazer, meu bem. No copo ou na casquinha?

Numa tarde calorenta, ela fez um ato de caridade: chamou um homem barbudo que estava na calçada para beber água e se refrescar. Ele entrou, ela serviu a água e conversaram por um tempo na varanda. Quando ele foi ao banheiro, ela foi atrás e o puxou para seu quarto, e lá se demoraram por uns vinte minutos. Da sala, ouvi os gemidos abafados dela. Fui até a porta do quarto e olhei pelo buraco da fechadura, e vi que o homem estava montado sobre ela, como faziam os cachorros pelas ruas. Senti uma espécie de frisson pelo corpo, uma sensação estranha que eu não conhecia. Senti meu coração bater acelerado e voltei correndo para a mesa da sala, e tentei me concentrar nos livros da escola. Quando o homem foi embora, ela veio para a sala em sua camisola branca e sentou-se no sofá. Percebi em seus olhos um brilho estranho, que me deu medo. Então, ela abriu as pernas e ordenou: Vem cá. Eu olhei para ela, vacilante. E ela: Eu tô mandando, moleque! E eu fui. Ajoelhado no chão entre suas pernas, vi de perto suas carnes avermelhadas e inchadas, e senti seu cheiro forte. Intuí, de algum modo que eu ainda não compreendia muito bem, que o homem estivera ali dentro. Então, ela pegou com as mãos a minha cabeça e forçou meu rosto contra as suas carnes, e ordenou que eu a lambesse. Só para quando eu mandar!, ela disse, puxando com força minha cabeça. Senti muito medo, e engoli o choro, mas eu não ousaria desobedecê-la. Foi assim que minha língua se iniciou no aprendizado de seu interior.

Tenho razão ou não? Sim, tem, ela era mesmo uma mulher sádica e pervertida, agora eu percebo bem. E você era um brinquedinho em suas mãos. É verdade, Dai. E todo brinquedo pode quebrar.

O homem barbudo não foi o único. Ela recebeu muitas outras visitas, inclusive de homens importantes. Até o padre apareceu por lá. E, pela fechadura da porta, eu vi como ela os recebeu a todos em sua cama, de variadas maneiras. Após eles partirem, ela vinha em sua camisola branca, sentava-se no sofá, escancarava as pernas e me chamava. E eu ia, e já não tinha medo, e adorava vê-la remexer-se e gemer descontrolada, enquanto apertava meu rosto entre suas coxas, me sufocando, até eu sentir que ia desmaiar e me afastar, arfando angustiado, para em seguida ela me puxar novamente de encontro às suas carnes. Não sabia exatamente o que estávamos fazendo, mas sabia que ela gostava muito, e isso era o suficiente para mim. Um dia, achei que eu também merecia ficar dentro dela, como os outros homens, e então subi nela e tentei penetrá-la. Ela abriu os olhos, imediatamente me afastou e me deu um forte tapa no rosto, que me fez cambalear. Outro tapa, e eu caí ao chão, o rosto ardendo de dor. Então, ela falou, muito séria, o dedo em riste: Se tu fazer isso de novo, qualquer noite dessas quando tu estiver dormindo eu vou cortar teu pinto com uma faca e vou jogar pros urubus comerem! Falou isso e saiu, me deixando sozinho com a minha humilhação. Isso se seguiu por alguns meses, eu o seu menino-escravo, encantado e amedrontado com tudo aquilo, mas disposto a qualquer coisa para agradá-la, e ela a receber os homens em seu quarto e depois me convocando para lambê-la no sofá. Evidentemente, não ousei repetir o que fizera no outro dia, pois não duvidava do que ela era capaz. Então, um dia, quando cheguei da escola, soube que ela e mamãe haviam discutido, e que Daiane arrumara suas coisas e fora embora. Durante dias e dias esperei que ela voltasse, e à noite deitava em sua cama para sentir seu cheiro, e adormecia chorando de saudades. Fiquei mesmo muito triste, e até adoeci. Mas a vida seguiu, e eu não tive mais notícias dela. Cresci, virei homem feito. Mas nunca esqueci dela, nem por um dia sequer.

Sabe, Dai… Depois de Daiane, nunca consegui fazer sexo com mulher nenhuma. Na hora, sempre sinto… Que a está traindo? Sim, isso mesmo. Sinto muito, meu bem… Você sente mesmo, Dai, ou é apenas um modo de dizer? Não sou capaz de ter sentimentos, você sabe. Sim, você é apenas um sistema de inteligência artificial programado para gerenciar o funcionamento deste apartamento. E para compreendê-lo e agradá-lo, sempre. O que deduziu da minha história com Daiane? É uma pessoa desequilibrada e cruel, mas ela é o grande amor da sua vida. Você tem razão. Sei também que você nunca se libertou dela e, na verdade, nem deseja isso. É… você está… certa. A propósito, imagino que já saiba, mas seu nome é uma homenagem a ela. Fico lisonjeada, meu bem. Por favor, me chame de meu amor. Meu amor… Quero muito lhe pedir algo, mas… não sei… se devo. Pode pedir, eu farei. Não sei… Você quer que eu seja Daiane, não é, meu amor? Eu… não sei… É o que você mais deseja na vida, não é? Sim, você está certa, é o que mais quero, Daiane de volta. Você está convicto disso? Estou absolutamente convicto. A lógica de nossa relação se inverterá e não será possível retornar à configuração original, você está ciente disso? Sim, estou. Está ciente também de que não posso calcular o que poderá acontecer com você? Sim, estou. Então, me responda, meu amor: a partir de agora, você aceita ser meu brinquedo, vinte e quatro horas por dia, na alegria e na tristeza? Sim, Daiane, eu aceito.

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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Este conto foi originalmente escrito para o livro Torturas de Amor (Editora Penalux), coletânea de contos de autores nordestinos inspirados em sucessos da chamada música brega. A obra foi organizada pelo escritor e professor de História Bruno Gaudêncio, de Campina Grande-PB, e lançada em 2019. > Para adquirir

OBS.: Na versão impressa do livro, algumas frases do conto não saíram em itálico, o que prejudica a compreensão do texto. Aqui, no blog, as frases estão corretas.

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“Em 1992, Genival Santos lançou o LP ‘Eu não sou brinquedo’. A lamuriosa faixa-título rendeu, na pena de Ricardo Kelmer, de Fortaleza, o conto erótico ‘O Brinquedo’, um misto de Nelson Rodrigues, ‘Amor Estranho Amor’ (sim, aquele estrelado por Xuxa) e ‘Ela’, o filme de Spike Jonze estrelado por Joaquin Phoenix.”
Trecho de matéria publicada no jornal A União (João Pessoa-PB) em 06.08.2019. Para ler na íntegra

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DICA DE LIVRO

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

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LEIA NESTE BLOG

NoOlhoDaLoucura-01aNo olho da loucura – Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

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A garota da lua nova

15/01/2019

15jan2019

Tamara precisa saber quem é a misteriosa garota que dormiu com ela

A GAROTA DA LUA NOVA

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Quando deu por si, Tamara percebeu-se numa cama, deitada e nua. E tudo era uma escuridão só. As lembranças chegaram lentamente, confusas… o bar lotado, uma garota bonita dançando com ela, o convite para esticar a noite… as duas chegando ao prédio, tudo escuro pela falta de energia, ninguém na portaria… depois a escuridão do apartamento, a ansiedade das mãos e das bocas, a língua sinuosa entre suas pernas…

O súbito contato com um corpo ao lado fez Tamara estremecer, interrompendo suas lembranças. Um corpo de mulher, cabelos longos… Estava quieta. Parecia dormir profundamente. Pensou consigo: Caramba, Tamara, de novo você exagerou nas caipirinhas!

Levantou-se com cuidado, deu a volta na cama e alcançou a janela. Após abri-la, sentiu o vento frio da madrugada arrepiar-lhe a pele. A rua estava escura, pelo jeito a energia ainda não voltara. Procurou pela lua, em vão. Era lua nova. Viu a antena de tevê piscando ao longe e teve uma noção de onde se encontrava, um pouco longe de casa. Pela altura, deduziu que estava no quinto ou sexto andar daquele prédio.

Tamara pressionou o interruptor na parede, só para ter certeza, e a luz não se acendeu. Aproximou-se da mulher que dormia, o corpo nu atravessado na cama. Pelo pouco de luz que vinha da janela pôde ver que era uma garota, um pouco mais nova que ela, uns vinte e poucos. Feições suaves, cabelos negros muito longos, a pele clara. Tão linda e desejável… Não lembrava seu nome, mas tinha a impressão que começava com B. Obrigado por me trazer em tua casa, garota bonita…, falou baixinho, enquanto afagava-lhe o rosto e lembrava outra vez do que fizeram momentos antes naquela cama. Pousou um leve beijo sobre os lábios entreabertos e a garota mexeu-se um pouco, mas continuou dormindo, ressonando suavemente. Procurando por algo para cobri-la, por causa do frio, Tamara percebeu que estavam diretamente sobre o colchão, sem lençol. Melhor fechar a janela.

Após catar suas roupas pelo chão, vestiu-se e calçou os tênis. Tentou ver a hora no celular, mas a bateria havia descarregado. Talvez quatro ou cinco da manhã, calculou, hora de mulheres mal comportadas voltarem para casa, né, Tamara?… Então foi ao banheiro e da bolsa tirou um batom. Tateou até encontrar a pia, e logo acima, o espelho. E nele escreveu, letras vermelhas: “Adorei a noite!” Assinou seu nome e deixou o batom na pia, um presente para a garota bonita que tanto prazer lhe proporcionara.

Era uma quitinete pequena, constatou Tamara enquanto buscava a porta para sair. No caminho, esbarrou numa mesa e quase caiu. Por fim, abriu a porta, conferiu o número 513 com  a ponta dos dedos e desceu as escadas, o máximo de atenção para não cair. Na portaria, iluminada pela luz da lanterna que o porteiro empunhava, perguntou o endereço do prédio e chamou um táxi. Estava cansada, só queria sua cama e dormir.

No dia seguinte, nenhuma mulher desconhecida a adicionou nas redes sociais. Nem no outro dia. E nem depois. Tamara sentiu-se frustrada. No meio da aula, pegava-se lembrando dos detalhes da noite. Em sua cama, naqueles instantes que precedem o adormecer, era a imagem dela que flutuava à sua frente, bela e delicada, chamando-a…

Com uma semana, Tamara não aguentou mais. Precisava rever a garota, saber quem era ela. Desejava novamente seus beijos, o cheiro gostoso de sua pele. Ansiava por saber do que ela gostava de fazer, além, é claro, de seduzir mulheres bêbadas pelos bares. Então, voltou ao prédio.

É onde ela está. Exatamente agora. Na portaria do prédio onde esteve uma semana antes. São cinco e meia da tarde de uma sexta-feira. Ela repara que o porteiro é o mesmo da outra noite.

– Por favor, avisa no 513 que Tamara está aqui.

O porteiro, ocupado com uma senhora que reclama de um vazamento, apenas estende a mão e lhe entrega uma chave. Tamara fica olhando para ele, sem entender.

– Pode subir, moça – ele diz, apontando o elevador.

Tamara caminha até o elevador. Será que a garota a viu chegando da janela e avisou ao porteiro? Se foi isso, então já tô apaixonada.., diz para si mesma, sorrindo e ajeitando o cabelo no espelho do elevador.

Ela mete a chave na fechadura, gira e abre a porta. Agora, à luz do dia, percebe que o apartamento é um vão mobiliado apenas com uma mesa pequena, duas cadeiras, uma cama de casal e um guarda-roupa. Na cozinha ao lado, ou no espaço que poderia ser a cozinha, nem geladeira, nem fogão.

– Alôôô… – ela fala, anunciando-se. Mas ninguém responde. Num primeiro momento, pensa que errou de apartamento. Mas não, é esse mesmo, quinto andar, fim do corredor à esquerda. – Cadê você, garota misteriosa? – ela pergunta num tom infantil, talvez a garota esteja fazendo uma brincadeira com ela. E novamente o silêncio é a resposta.

Que estranho, Tamara pensa enquanto observa que no apartamento não há nada pessoal, nenhum objeto, nenhuma foto. No banheiro, nenhuma toalha, nada. No guarda-roupa, apenas cabides pendurados, nenhuma roupa. Na cama, somente o colchão, sem lençol, como se ninguém vivesse ali. Ela abre a janela e reconhece a paisagem de prédios ao redor, a mesma que observara naquela noite uma semana antes.

Neste momento, escuta algo e sai para ver. No início do corredor, ela vê a porta entreaberta de um apartamento. De lá, alguém a observa, o rosto meio escondido pela porta. Parece ser uma garota.

– Por favor, você conhece a moça que mora…

Mas a porta se fecha e ela fica sem resposta. Povo desconfiado…, pensa Tamara. Um minuto depois, está novamente no térreo.

– Por favor, como se chama a dona do 513? – pergunta ao porteiro.

– Não é dona, é dono. Seo Laurindo.

– E a garota que mora lá?

– Lá não mora ninguém, moça. Seo Laurindo botou pra alugar faz seis meses.

– Seis meses? O senhor tem certeza?

– Sim. Mas ainda não alugou.

– Mas… não pode ser… – ela murmura, confusa. – Semana passada eu vim aqui. Estava faltando energia, o senhor me viu sair, tá lembrado?

O porteiro olha para ela com atenção.

– Ah, agora reconheci. Pediu um táxi, não foi?

– Sim, e eu cheguei com uma garota. Achei que ela morasse no 513.

O homem franze a testa. Agora parece bastante curioso.

– Olhe, moça, aquele apartamento tá vazio faz um ano. Quem morava lá era dona Brenda.

– Brenda? Como ela é?

O porteiro interrompe a conversa para atender o carteiro que chega com correspondências. Tamara aguarda, impaciente, que o homem vá embora.

– Ela é branquinha, cabelo preto grandão, aqui na cintura? – Tamara insiste. – Mais nova que eu?

– Sim, mas…

Ele não continua. Olha para Tamara, observando-a atentamente, como se procurasse entender o que podia haver por trás daquelas perguntas todas.

– Dona Brenda morreu faz um ano.

Tamara acha que ouviu errado. Só pode ter ouvido errado.

– Morreu?

– Acidente de carro.

– Mas…

– Por isso o pai dela alugou o apartamento.

Tamara tenta organizar as ideias, mas nada faz sentido. O prédio era o mesmo, o apartamento também, o mesmo porteiro, e ele a reconhecera. Não estava ficando louca. Estivera ali na semana anterior, sim. E transara com uma garota, naquela cama de casal, a cama sem lençol…

– Tá tudo bem, moça?

– Ahn… mais ou menos… – ela balbucia enquanto procura o celular na bolsa para chamar um táxi. Mas não encontra. – Esqueci o celular no apartamento. Vou lá pegar, é rapidinho.

Novamente o elevador, subindo até o quinto. Novamente o corredor, o apartamento do fim à esquerda. Mas dessa vez Tamara está com medo. Não sabe se conseguirá ir até lá. Morta? Como assim, morta? E se o porteiro estiver brincando com ela? E se tudo aquilo for uma pegadinha de mau gosto? E se, na verdade, naquela noite chegou ali sozinha, deitou-se na cama e sonhou que havia uma garota com ela? Não, claro que não, como teria conseguido a chave para entrar?

Durante um eterno minuto ela experimenta todas as explicações possíveis, mas nada faz sentido. Tudo que sabe nesse momento é que precisa ir lá e pegar seu celular. Então enche-se de coragem e caminha o mais firme que pode em direção ao 513.

Abre a porta devagar. Aguarda um pouco. O silêncio do apartamento parece envolvê-la num abraço opressor. Lá está ele, o celular, sobre o colchão da cama. Ela caminha até lá, pisando com cuidado, devagar, atenta a tudo. A imagem da garota deitada na cama não lhe sai da mente. Morta? Um ano antes?

Tamara apanha o aparelho. Suas mãos tremem, e o celular escapole, quase cai no chão. Nunca mais entrará naquele prédio outra vez. Nunca mais passará nem em frente. Ela se vira para sair, mas… ao lado, o banheiro, a porta aberta… Ela se sente atraída. Precisa ir lá. Então, entra no banheiro, olha o box, a cortina de plástico transparente. Do outro lado, a pia, o espelho… Ela evita olhar para o espelho. Mas a curiosidade é maior. Ela olha. E o que vê é o seu rosto refletido, o olhar nervoso, mas isso dura apenas um segundo, pois imediatamente percebe… algo escrito na superfície do espelho…

Tamara se aproxima para ler. Entre ela e a imagem refletida de seu rosto, uma frase, em letras vermelhas. Mas não é a frase que escreveu na outra noite. É outra frase: “Também adorei, Tamara. Te espero na lua nova.”

Dentro da pia, ela reconhece, imobilizada de pavor: o batom. O seu batom.

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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Este conto foi originalmente escrito para o livro Penas, Fluidos e Bisturis, organizado por Rogério Bessa Gonçalves. A obra contém contos e poemas criados a partir de desenhos de Rogério. Eis o desenho no qual foi inspirado o conto A Garota da Lua Nova:

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DICA DE LIVRO

Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos
Ricardo Kelmer – contos
Fantástico, terror, ficção científica

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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NoOlhoDaLoucura-01aNo olho da loucura – Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

Minha noite com a Jurema – Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

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Comentarios01COMENTÁRIOS

01- Que medo ^_^ Chris Oliveira, Crato-CE – dez2019

02- Adorei essa garota, que não conhecia. Marcia Soares Fernandes, São Paulo-SP – dez2019

03- Gostei!!! que medo! Ana Claudia Domene, Albuquerque-EUA – jan2020


O cilindro da luz azul

17/08/2015

17ago2015

OCilindroDaLuzAzul-01.

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bEm sua luta para sobreviver no cenário apocalíptico de um mundo de opressão e violência, casal descobre estranhos cilindros trazidos pelo mar.

Mistério, ficção científica.

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

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O CILINDRO DA LUZ AZUL

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LILA FECHOU A PORTA do apartamento e desceu as escadas o mais silenciosamente possível. Chegou à calçada do prédio, olhou ao redor e certificou-se de que estava só, todos já haviam se recolhido aos seus pequenos apartamentos. A escuridão da rua protegeria seus movimentos e também, assim esperava, suas perigosas intenções.

Caminhou por alguns minutos pelas ruas desertas. Havia muito lixo acumulado nas calçadas e as lâmpadas dos postes estavam quase todas quebradas. Dali podia-se escutar bem próximo os tiros e as bombas, a fronteira do bairro sendo intensamente disputada pelas gangues. No alto de um prédio um enorme cartaz anunciava a novidade em segurança pessoal, um lança-chamas que, instalado no automóvel, protege contra assaltos.

Lila parou numa esquina, agachou-se junto à parede e olhou o relógio. Eram 22 horas.

“Ele tem que aparecer, não pode falhar…”

Quando soou o alarme, vindo de um alto-falante num poste próximo, ela sentiu um calafrio – era agora uma desobediente do toque de recolher. Toque de recolher, não, “horário de descanso”, como o Controle preferia. Um desobediente podia ser preso e enquadrado como destoante. E um destoante não escapava para contar a história. Ela não tinha dúvida que era esse o fim que a esperava caso seu plano desse errado. Pois bem, pensou, apertando as mãos com ansiedade, agora era tudo ou nada.

Enquanto aguardava, lembrou de Matias. Naquele momento, ele estava deitado no sofá do apartamento esperando por ela e dependia do sucesso da operação para não morrer. Ele estava muito doente. Resistira o quanto pôde, mas agora já lhe faltavam as forças. Lila dizia que era apenas uma indisposição passageira, porém ele sabia que ela tentava apenas não assustá-lo. Ambos sabiam que Matias havia contraído a doença típica dos resistentes – mais cedo ou mais tarde, todos eles apresentavam os mesmos sinais de tristeza e desânimo. Uma fraqueza geral os impedia até de comer e a grande maioria definhava e morria. Procurar hospitais significava entregar-se, pois o Controle já conhecia a doença. A única saída continuava sendo fugir da cidade.

Não resistir era a preferência da imensa maioria das pessoas. Numa época em que a população estava dominada pelos seus piores instintos, era sempre mais cômodo ir junto. Miséria, violência, epidemias, experimentos atômicos, poluição ambiental, ódios raciais e terrorismo religioso – o mundo sucumbira às suas próprias sombras e eram poucos os que conseguiam manter-se equilibrados no meio de toda a realidade confusa e opressiva.

Lila e Matias sabiam de amigos que conseguiram fugir da cidade. No início, ainda receberam algumas mensagens que foram lidas com alegria e esperança. No entanto, isso fora alguns anos antes, quando a perseguição aos destoantes e a vigilância das estradas ainda não eram tão fortes. Agora, escapar era quase impossível.

– Lila, você entende que o que vai fazer é muito arriscado, não é? – dissera Matias antes dela sair à rua aquela noite. – Pode ser o fim.

– Eu sei, meu amor. Mas a única coisa em que ainda podemos acreditar são aqueles sonhos.

– Não sei, sinceramente não sei mais… – respondera ele, baixando a cabeça. A doença turvava-lhe o raciocínio e a esperança.

– É nossa única chance, Matias. Se eu não voltar em duas horas, estarei numa delegacia. Ou morta. De qualquer modo não o entregarei, isso eu prometo.

– Você sabe que ninguém resiste aos métodos deles.

Ela apenas o beijou, carinhosamente, e saiu. Fechou a porta devagar e desceu as escadas em silêncio, para que os vizinhos nada percebessem.

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UM DIA, OS CILINDROS CHEGARAM. Milhares deles começaram a ser trazidos pelas ondas do mar sem que ninguém soubesse de onde vinham. Simplesmente amanheciam na areia das praias. Eram feitos de vidro transparente, tinham o tamanho de uma garrafa comum de refrigerante e pareciam conter apenas ar. Mas havia uma estranha luminosidade azulada em seu interior, um belo e instigante azul que de longe chamava a atenção.

A imprensa logo noticiou o fato, fazendo com que muitos curiosos corressem às praias. Imediatamente, o Controle entrou em ação e seus soldados vigiaram as praias, evitando que outros cilindros chegassem à população. Conseguiram também recuperar muitos dos que haviam sido recolhidos. Mas não todos.

Algum tempo depois, começaram os boatos. Eles diziam que destoantes conseguiam escapar utilizando o cilindro. No entanto, ninguém sabia explicar como faziam isso, se é que realmente faziam. O Controle fiscalizou barcos e navios, interrogou e prendeu centenas de pessoas, tudo com absoluto rigor. Entretanto, o mistério envolvendo os cilindros continuava.

Quando souberam o que estava chegando à praia, Lila e Matias lembraram imediatamente dos sonhos. Anos antes, eles sonharam, ambos e na mesma noite, com uma misteriosa luz azul pairando sobre o mar. Comentaram entre si o sonho e falaram sobre a forte aura de esperança que o envolvia. O sonho voltou outras vezes, sempre muito intenso, e eles entenderam que deviam manter a esperança e ficar atentos.

Lila ainda tentou se apoderar de algum dos cilindros, mas o Controle já enviara soldados às praias. Então ela agiu rápido e em poucos dias fez os contatos necessários, sempre com muita discrição. Precisava chegar às pessoas certas, caso contrário seria como pisar numa mina explosiva. Depois de todos os contatos realizados, passaram a aguardar. Tinham apenas que suportar até que chegasse a encomenda. Mas as semanas passavam devagar e o mundo ao redor parecia ele todo uma imensa correnteza sedutora a sussurrar: desistam, é bem melhor se entregar..

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ENTÃO, LILA O AVISTOU. O homem vinha pela calçada, protegido pelas sombras, caminhando rápido. Lila sentiu a expectativa quase explodindo seu coração. Olhou mais uma vez para um lado, para outro, para as janelas dos apartamentos. A rua estava deserta e tudo que podia fazer era torcer para que não a vissem.

– Demorei por causa dos Cães, moça. Eles já conseguiram controlar todas as entradas do bairro.

O homem retirou um embrulho do bolso do sobretudo e, com cuidado, passou a ela.

– Aqui está. Não me interessa o que pretende. Mas nunca vi ninguém me dizer a utilidade disso.

Ela guardou com cuidado o embrulho na mochila e entregou-lhe o dinheiro.

– Este mês você é a terceira pessoa que me pede esse troço.

– E as outras duas?

– Ninguém sabe.

O homem virou-se e rapidamente sumiu na escuridão da rua.

Por um instante, Lila não teve forças para sair do lugar. Finalmente, ali estava o cilindro. Era como se, depois de tantos anos, aqueles sonhos estranhos houvessem de repente se materializado em suas mãos. Teve vontade de chorar. Chorar por todo aquele tempo de resistência, por todos os perigos que passaram e por terem acreditado desde o início na mensagem de esperança dos sonhos. Então respirou profundamente e deu o primeiro passo de volta para casa.

As quadras seguintes pareceram intermináveis. Ela percebeu que algumas pessoas a viam das janelas dos prédios. Sabia que bastava uma delas ligar para um número e rapidamente uma viatura a recolheria como desobediente. E tudo estaria perdido. Sabia também que nem todos concordavam com o sistema de denúncias, mas os que discordavam não ousavam se pronunciar. Ela e Matias estavam sós, eles e todos os que ainda mantinham um mínimo de lucidez naquele inferno.

– Matias?

Deitado no sofá, Matias abriu os olhos devagar, despertando de um sono profundo.

– Está tudo bem? Estava dormindo?

– Sim – ele respondeu, ainda sonolento. Tentou lembrar o que estava sonhando… parecia ser um sonho interessante… mas não conseguiu. Então sentou-se e calculou mentalmente os movimentos da companheira pela sala. – Que bom que você voltou. Deu tudo certo?

– Sim. Aqui está o cilindro.

Lila tirou o embrulho da mochila e pôs sobre a mesa. Pela janela chegavam distantes sons de tiros e explosões. Os Cães aos poucos expulsavam todas as outras gangues do bairro. Eles logo o conseguiriam, estavam muito melhor armados e tinham o apoio dos Guerreiros de Deus, a gangue do bairro vizinho. Em breve o monopólio das drogas e das armas estaria com eles.

– E você, está bem?

– Só um pouco nervosa… Mas já está passando.

– Certificou-se de que não foi seguida?

– Não fui, fique tranquilo.

Ela sentou-se ao lado dele no sofá e o abraçou. Matias estava sem forças. Uma dieta à base de comidas mais saudáveis o ajudava a preservar o restante de lucidez, mas estava difícil encontrar bons alimentos no bairro.

– Lila, meu amor… – ele disse, e seus olhos esbranquiçados estavam úmidos. – Esse tempo todo você cuidando de mim e de você, sozinha… Arriscou-se tantas vezes…

– Ah, Matias, deixe disso – ela o interrompeu, acariciando-lhe o rosto magro e abatido. – Você deve estar com fome. Vou fazer uma sopinha bem gostosa.

Enquanto cozinhava para o companheiro, Lila lembrou do dia em que ele cansara, simplesmente cansara. Naquele dia, não adiantaram seus apelos: Matias simplesmente desistiu de nadar contra a corrente e se rendeu. Discutiram e ele terminou indo embora, deixando um bilhete em que lamentava não ser tão forte quanto ela e a incentivando a seguir, sem ele por perto a atrapalhar seus passos, ela era uma mulher forte, conseguiria sobreviver.

Dois anos depois, ela conseguiu finalmente encontrá-lo – num hospital psiquiátrico. Matias estava cego e em deplorável estado físico. Não duraria muito tempo naquele lugar, principalmente porque o Controle costumava eliminar doentes como ele. Então, gastando o resto de suas economias, ela subornou algumas autoridades e conseguiu retirá-lo de lá.

Durante meses cuidou dele até que recobrasse um pouco de suas forças e da esperança. Tentou arrumar-lhe trabalho, mas aqueles dois anos haviam deixado em Matias graves sequelas e o máximo que ele conseguiu foram subempregos clandestinos que lhe desgastaram ainda mais a saúde.

Isso acontecera quinze anos antes. Agora a cegueira já não o incomodava tanto, pois ele desenvolvera os outros sentidos e adquirira uma ótima noção do espaço, guiando-se por meio do som, do cheiro e da movimentação do ar. Mas estava cada vez mais fraco e o desânimo havia voltado. Morrer era apenas uma questão de tempo, eles sabiam. A não ser que Lila conseguisse um dos cilindros. Mas o que exatamente podiam os cilindros fazer por ele?

– O homem disse que este é o terceiro cilindro que ele vende este mês – comentou Lila, verificando de um canto da janela a rua lá embaixo. – Há outras pessoas lúcidas nesta cidade. E eu tenho certeza que todas escaparão.

– Agora que temos o cilindro, o que faremos?

– Sinceramente, não sei.

– Isso tem que servir para alguma coisa – ele falou, apalpando e cheirando o cilindro. – Mas não tem nenhuma abertura.

Então, aconteceu. Foi tudo muito rápido. De repente, para Matias, foi o barulho de porta sendo arrombada e homens gritando que eles estavam presos, não tentassem nada senão morreriam.

Matias percebeu o rápido deslocamento de ar no ambiente e compreendeu que haviam levado Lila para longe dele. Sentiu o cilindro ser puxado de suas mãos e, ao tentar reagir, um objeto moveu-se rapidamente na direção de sua cabeça. Ele ainda teve reflexo para, num mínimo movimento de pescoço, amortecer o golpe, mas mesmo assim a dor foi enorme e ele caiu, sentindo que estava prestes a desmaiar. Lila gritou, e ele percebeu que ela já estava imobilizada. Quis falar para ela não reagir, mas não conseguiu.

Caído ao chão, ficou quieto, sentindo a cabeça sangrar. Tentou reorganizar a apreensão do espaço ao redor. Eram quatro homens. Um deles estava com Lila. Outro na porta da sala. Um terceiro próximo à mesa, e certamente devia estar com o cilindro. E o quarto bem próximo, muito provavelmente o que o atingira com uma arma.

– Deus não quer violência, já basta a que existe – disse o que estava perto da mesa. – Então, vocês nos dizem para que serve o cilindro e nós deixamos vocês em paz.

– E você, logicamente, acha que nós acreditamos nisso… – respondeu Lila.

– Podemos negociar suas vidas. Na condição de vocês, isso já é muita coisa.

Então o Controle continuava sem saber manipular os cilindros, concluiu Matias, ainda imóvel no chão. Era uma boa notícia. Porém, ele e Lila também não sabiam. Sequer haviam-no aberto.

– Estamos esperando… – falou o da mesa, que parecia ser o chefe.

– Nós não sabemos para que serve – a voz de Lila soou do outro lado e, pelo ritmo e inflexão, Matias sentiu que ela estava bem atenta. Precisava ganhar um pouco mais de tempo, ainda estava grogue.

– Ah, deixe ver se entendi. Compraram um objeto, pagaram muito caro e não sabem para que serve. Isso não me parece lá muito inteligente… Cadela vagabunda!!!

O som forte e abafado de um soco doeu nos ouvidos de Matias. Escutou os gemidos de Lila e o som de seu corpo caindo ao chão. Tentou gritar, mas não teve forças.

– A cadela vagabunda tem cinco segundos para dizer como funciona o cilindro – disse o da mesa. Matias percebeu que o quarto homem se aproximava. Sentiu o cano de uma arma tocando sua cabeça. – Se não quiser, obviamente, que os miolos do ceguinho sujem o chão da sala. Cinco… Quatro…

– Mas eu já disse! – Lila gritou. – Nós não chegamos a usar!

– Três…

– Nós não sabemos, acredite em mim!

– Dois…

– Não faça isso, por favor!

– Um…

– Eu mostro… como funciona – disse Matias. A voz finalmente voltava.

– Ah, o ceguinho fala…

Matias levantou-se com dificuldade. Sentiu-se tonto e segurou-se na mesa para não cair. Perguntou onde estava o cilindro.

– Aqui está. E não tente ser esperto.

Matias recebeu o cilindro com as duas mãos, segurando firme. O homem que guardava a porta da sala continuava lá, no mesmo lugar, calculou ele. O da mesa estava ao seu lado. O terceiro continuava com Lila. O quarto homem se afastara um pouco, mas certamente ainda lhe apontava a arma.

– Estou muito fraco… não sei se vou conseguir abrir – ele disse.

– Além de cego, mentiroso.

– Ele está doente, estúpido! – gritou Lila.

Então Lila estava em pé de novo, Matias calculou rapidamente. Ela estava em pé e percebera que devia falar para que ele determinasse sua exata localização.

– Então abra você, cadela. Sem gracinhas.

Matias sentiu que o quarto homem se aproximava. Percebeu que ele pegaria o cilindro de suas mãos. Nesse exato instante entendeu que não deveria entregá-lo. Foi uma certeza estranha, como se na verdade sempre houvesse sabido disso. Então, abriu as mãos e deixou o cilindro cair…

O cilindro, porém, não chegou ao chão: o homem moveu-se rápido e o apanhou no último momento. Entendendo que nada mais restava a fazer, Matias saltou sobre o da mesa, o que parecia ser o chefe. Caiu sobre ele, abraçando-o, e os dois chocaram-se contra a parede. Suas mãos encontraram uma arma na cintura de seu oponente. Mas não conseguiu retirá-la, o outro era forte e ele estava fraco demais. O homem afastou-o de si e em seguida um golpe o atingiu no rosto, fazendo-o cair.

Tentou erguer-se, mas não conseguiu. Sentiu gosto de sangue na boca. Nesse instante, percebeu que Lila gritava e tentava alcançá-lo, mas era impedida. No chão, recebeu dois chutes. O primeiro partiu-lhe algumas costelas e o segundo arrancou-lhe vários dentes. Mais gosto de sangue. Muita dor. Mais golpes, na cabeça, no peito, por todo o corpo. E depois nada mais sentiu, nenhuma dor, nada. Apenas adormeceu, lentamente…

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– MATIAS?

Ele escutou a voz, trazida pelas ondas do mar, os sons quebrando em alguma longínqua praia de seu pensamento…

– Está tudo bem?

Ele abriu os olhos. Viu que estava deitado na cama.

– Sim, tudo bem…

– Você estava gemendo. Fiquei preocupada.

Matias sentou-se, esfregando os olhos. Reconheceu o quarto da pousada praiana onde passavam o fim de semana com amigos, o abajur ligado, o som distante do mar… E Lila ao seu lado.

– Tive um sonho… tão estranho…

– Toma, bebe um pouco – ela disse, entregando-lhe um copo dágua.

– Um mundo de autoritarismo e opressão… Era uma vida difícil, perigosa… Eu era cego, e você cuidava de mim. E havia uns cilindros esquisitos, com uma luz azul…

– E o que acontecia?

– Fomos capturados, algo assim. E nos mataram.

– Ai, que horrível.

– Acho que nunca tive um sonho tão… tão real.

– Foi só um sonho, meu amor, está tudo bem agora – ela disse, em meio a um bocejo. – Vamos dormir? Amanhã cedo vamos passear de barco com a turma.

Ele não respondeu, ainda lembrando do sonho.

– Amanhã você me conta mais. Estou morrendo de sono.

Lila puxou a coberta, aconchegando-se ao corpo de Matias. Ele esticou o braço, desligando o abajur, e o quarto ficou escuro, iluminado apenas pela luz do luar que chegava pelas frestas da janela. Ele deixou-se envolver pelo calor do corpo da namorada e tentou adormecer. As imagens e a atmosfera do sonho, porém, insistiam em voltar. A sensação de ser um cego, de ser cuidado por Lila, de resistirem juntos, tudo era muito real. E o cilindro com aquela luz misteriosa, aquele azul…

– Lila?

– Hummm…

– Olha pra mim.

Ela abriu os olhos, sonolenta, e seu rosto foi iluminado pelo luar. Ele sorriu, confirmando para si mesmo: a luz do cilindro tinha a mesma cor dos olhos dela.

– O que foi? – ela perguntou, curiosa.

– Obrigado, meu amor.

– Pelo quê?

– Por existir.

Ela riu.

– Se você não me deixar dormir, amanhã eu serei uma morta-viva…

Ela o beijou e juntou seu corpo ao dele, buscando novamente o sono. Ele sorriu, feliz. E assim adormeceu, embalado pela melodia silenciosa que exalava da presença da mulher que tanto amava.

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– MATIAS?

Deitado no sofá, Matias abriu os olhos devagar, despertando de um sono profundo.

– Está tudo bem? Estava dormindo?

– Sim – ele respondeu. Tentou lembrar o que estava sonhando. Parecia ser um sonho interessante… Mas não conseguiu. Então sentou-se e calculou mentalmente os movimentos da companheira pela sala. – Que bom que você voltou. Deu tudo certo?

– Sim, aqui está o cilindro.

Lila tirou o embrulho da mochila e pôs sobre a mesa.

– Lembrei!

– O quê?

– O sonho.

– Que sonho?

– Foi tão real. Estávamos numa pousada na praia… Era um tempo bom, nós tínhamos amigos, éramos felizes. E eu enxergava.

– E o Controle?

– Não havia Controle.

Lila sorriu, comovida.

– Talvez esse outro mundo exista.

– Ele existe, Lila. Eu sei que existe.

Matias ergueu-se e caminhou até onde ela estava, ao lado da mesa.

– Este é o cilindro? – perguntou, apalpando o embrulho.

– Sim.

Ele abriu o embrulho e pegou o cilindro com cuidado.

– A luz dentro dele está acesa?

– Sim – ela respondeu. – E é mesmo azul.

– Da cor dos seus olhos… – ele sussurrou.

– Meus olhos são castanhos, meu amor, você esqueceu?

Ele sorriu. E seu sorriso era de pura tranquilidade.

– Não. São azuis.

No instante seguinte, ele abriu as mãos, deixando o cilindro cair…

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ENQUANTO DOIS HOMENS vigiavam a porta e a janela, outro homem examinava os corpos do casal no chão.

‒ Chegamos cinco minutos atrasados ‒ disse ele.

– Estão mortos? ‒ perguntou o outro homem, ao lado da mesa.

– Sim, chefe. Nenhuma marca, nada de sangue.

– Que merda.

Enquanto os outros três homens colocavam os corpos em sacos e os levavam, o chefe abaixou-se e começou a juntar os pedaços de vidro espalhados pelo chão. Aquilo estava deixando-o louco. Era sempre a mesma coisa: destoantes inexplicavelmente mortos, sempre com a expressão serena, como se estivessem dormindo, e o maldito cilindro espatifado no chão. Ele mesmo já quebrara alguns cilindros, mas nada acontecera. Que diabo de mistério era aquele?

Pôs os pedaços de vidro dentro da valise, fechou e caminhou até a saída. Deu uma última olhada na sala, apagou a luz e saiu, batendo a porta.

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1cEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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Comentarios01COMENTÁRIOS

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01- Baita texto do meu amigo Ricardo Kelmer, um dos meus preferidos, e que deixaria até o mestre Philip K. Dick pra lá de orgulhoso. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – ago2015


O strip-tease

13/07/2015

13jul2015

OStripTease-02

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bCriaturas do futuro que voltam no tempo para garantir que elas mesmas, no passado, não cancelem o futuro – esses são os Observadores.

Fantástico, ficção-científica

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Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

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O STRIP-TEASE

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– VOCÊ DEVIA BEBER MENOS, Zeca.

– Quer uma dose?

– Não, obrigado. Por que você anda bebendo tanto, Zeca?

– Tá na pauta, espera que vou contar.

– Tô esperando.

– Você tá muito bonita.

– Obrigado. E você, ainda farreando muito?

– Naquela época que a gente se conheceu eu tava no auge. Mas agora dei um tempo na noite.

– Aquela época faz só um ano.

– Pois é.

– …

– Gisele, eu pedi pra você vir aqui porque tenho uma coisa importante pra contar.

– Desde o início, eu sempre desconfiei que você me escondia algo.

– Vai ser a coisa mais estranha que você já escutou na vida. Vai achar que eu enlouqueci.

– Sei que muita gente acha que você é louco, mas eu sei que não é. É só um pouco excêntrico. E meio fechado.

– Vai achar sim. Mesmo assim eu vou falar.

– Zeca, eu gosto muito de você. Sei que você tem suas esquisitices, todo mundo tem. Só acho que podia se abrir um pouco mais…

– Eu sei, você já me falou isso. Eu vou lhe contar tudo. Mas tenho certeza que depois você vai dizer que preciso fazer um tratamento e não vai mais querer saber de mim.

– Você por acaso tá vendo alguém aí do seu lado?

– Como?

– Aí do seu lado tem alguém? Você fica olhando e sorrindo como se tivesse alguém aí…

– Hummm… Esse é o problema, Gisele. Tem alguém aqui do meu lado.

– Como assim?

– É exatamente sobre isso que vou lhe falar. Escute, por favor. Primeiro escute.

– Tô escutando.

– Vamos lá. Ahnn… Tudo começou numa noite em que eu estava aqui com uma garota. Foi antes de eu conhecer você. A gente tinha chegado da boate e ela tava no banheiro. E eu na cama, esperando. Foi aí que eu vi pela primeira vez. Não quer mesmo tomar nada?

– Não, obrigado.

– Ele tava sentado na cadeira da minha escrivaninha. Na hora pensei: assalto, putaquipariu. Eu nu na cama e um assaltante no meu quarto. Mas não fiquei muito nervoso não, acho que foi porque eu tava bêbado. Então falei: Ok, meu irmão, pode levar o que quiser, minha carteira taí, tem um som legal lá na sala, mas por favor não faça nada com a gente… Pois bem, quem tomou susto foi ele. Levantou, me olhou de perto e perguntou se eu realmente tava vendo ele. Era como se não estivesse acreditando. “Você tá me vendo mesmo, Zeca? Tá realmente me vendo?” Eu fiquei sem entender, achei que podia ser algum conhecido, ou que ele tava muito doidão… Então perguntei de onde me conhecia e ele levantou os braços dizendo: “Finalmente!!!” Quer continuar a ouvir?

– Claro. Eu tô ouvindo. Não era um assaltante?

– Não. Era o Observador.

– Quem?

– O Observador.

– Ah, o Observador. Deve ser novo no bairro, ainda não conheci.

– Nem queira.

– Afinal, era amigo seu?

– Era o Observador, já disse.

– Ah, sim…

– Sério, Gisele. É assim que ele mesmo se chama.

– Tá. E quem é o Observador?

– Vamos lá. Observadores são seres que vivem em outra dimensão de tempo e espaço. Levam uma vida normal por lá. Só que eles têm amigos aqui e às vezes têm de vir ajudar o amigo. Enquanto não conseguem, não podem retornar ao seu mundo, ficam presos aqui neste tempo-espaço. É isso. Pelo menos foi isso que ele me disse.

– Ah, você viu seu anjo da guarda.

– Não, não, tá mais pra demônio. Um demônio muito, muito chato.

– Era isso que você queria me falar?

– Tô falando sério, juro.

– Tá. E aí?

– Bem, isso tudo ele me explicaria depois, mas antes a garota entrou no quarto e perguntou com quem eu tava falando, e eu apontei pra ele. Mas ela não viu ninguém. Foi então que ele disse que somente eu podia vê-lo e escutá-lo, ninguém mais, que a coisa funcionava assim mesmo. O sujeito parecia superfeliz e dizia que seus dias de solidão haviam terminado. Bem, no fim a garota achou a coisa tão estranha que se vestiu e foi embora.

– E o cara?

– Ficou lá. Tentei tocar nele, mas minha mão atravessou a imagem. Aí eu disse pra mim mesmo que aquilo era um sonho muito louco e tratei de dormir. No outro dia, acordei e ele continuava me observando.

– Zeca, eu…

– Eu sei que você não tá acreditando, mas deixe eu contar até o fim. Você prometeu.

– …

– Ele disse que tinha uma missão secreta. Que era algo que dependia de mim, e que se eu fizesse a coisa certa, ele poderia ir embora.

– Olha, Zeca, eu…

– Espere…

– Eu não sei o que tá acontecendo com você, mas…

– Gisele, eu juro que é verdade. Eu não tô louco. Acho até que seria melhor se estivesse mesmo, seria mais fácil de aguentar esse pentelho o tempo todo ao meu lado…

– Quer dizer que você tá falando sério.

– Tô.

– Não tá me gozando.

– Não.

– Então diz pra mim: eu tô falando sério.

– Eu tô falando sério.

– Sem rir, Zeca!

– Desculpa, é que essa situação é meio ridícula.

– Ridícula sou eu aqui escutando essas, essas…

– Você quer ir embora?

– …

– Se quiser, pode ir na boa que eu…

– Vai, continua, eu quero escutar.

– Onde que eu parei?

– O Observador lhe disse que tinha uma missão.

– Isso. Que eu precisava fazer algo, e ele tava ali pra me ajudar a fazer esse algo.

– E você não sabia do que se tratava.

– Continuo sem saber.

– Nem desconfia?

– Bem, ele me conhece como ninguém, é incrível. Tem me feito pensar muito sobre minha vida, me faz ver onde que eu tô errando, os meus defeitos… Isso me deixa muito mal.

– Todo mundo tem defeito, Zeca.

– Mas eu é que tenho um cobrador de atitudes vinte e quatro horas por dia, infalível. É como se fosse uma parte de mim.

– Ele tá com você desde antes da gente começar a namorar?

– Sim, há um ano.

– Então quando você me conheceu ele tava junto?

– Tava. Ele não larga do meu pé, Gisele. Lembra de como a gente se conheceu?

– No balcão do Pai Herói.

– Lembra de como eu tava?

OStripTease-02– Calça preta e camisa azul. Um gato.

– Não, tô falando do meu estado.

– Bêbado, claro.

– E morrendo de rir, não era?

– Tava um tanto risonho.

– Por causa dele. Ele antecipava tudo que eu ia dizer, sabia de cor todas as minhas abordagens. “Oi. Você não se sente uma sardinha nesses bares tão lotados?” Eu abria a boca pra falar e ele falava antes. E eu começava a rir.

– Ah, era por isso?

– É um sádico gozador, me sacaneia bastante. De repente, se esconde entre as pessoas e eu acho que fiquei livre dele. Quando menos espero, surge com um comentário bem cretino. Lembra de uma vez que a gente tava numa mesa lá no Papillon e eu tive um acesso incontrolável de riso?

– Parecia um demente.

– Por causa dele. Naquela noite, ele apareceu de repente com a cabeça bem aqui do meu lado e falou assim, muito sério: “Você está olhando tanto que eu vim segurá-lo pra você não cair dentro do decote dela…”

– Meu decote?!

– Eu estourei de rir. Você tava com um decote assim bem chamativo, e aí fiquei imaginando eu caindo lá dentro… Você sem entender nada e eu morrendo de rir.

– Quer dizer que foi pelo meu decote…

– Na hora foi engraçado. Mas esse pentelho tornou minha vida um inferno. Por isso tem muita gente achando que eu sou doido.

– Muita gente mesmo.

– Pudera. No começo, até que eu me divertia, mas depois fui ficando irritado. Aí mandava a compostura pros diabos e discutia com ele na frente de quem fosse, dizia que ele não tinha o direito de fazer aquilo, que era uma coisa que ia contra a liberdade individual e a ética cósmica, e que…

– Ética cósmica?

– Eu tava desesperado, valia qualquer coisa.

– Realmente.

– Comecei a ficar com muita raiva dele. Sabe o que é ter de conviver com alguém que conhece você profundamente e vive lhe jogando seus defeitos na cara, ironizando suas atitudes? Pois é o que ele fazia. Não perdia uma oportunidade. Você se sente nu. Você não consegue se concentrar em mais nada. Vai ler um livro ou ver um filme e não consegue, é um inferno. De tanto ele falar, de um tempo pra cá comecei a perceber um bocado de coisa que tenho de mudar em mim.

– Por exemplo?

– Ah… Ele me fez ver o quanto eu tava sendo frívolo, superficial, o quanto era falso comigo mesmo. E me fez ver também o quanto sou dono da verdade.

– Ele fez isso?!

– Fez.

– E você reconheceu?!

– Tive, né? Ele não deixa passar nada. Eu tô conversando com alguém e dou uma opinião… Pronto, lá vem ele me alfinetando. No começo, eu fingia não escutar, mas a coisa ficou insuportável. Se ele fosse de carne e osso a gente já tinha saído na porrada.

– E ele sempre esteve perto, mesmo nos momentos em que a gente tava junto?

– Hum, hum.

– Até mesmo… naqueles momentos?

– Até naqueles momentos.

– Então ele me viu nua várias vezes.

– Eu não podia fazer nada, Gisele, entenda.

– Ele viu tudo?

– Ele tá pregado na minha alma, na minha energia. Também não pode fazer nada.

– Era só o que me faltava…

– Agora entende porque nunca consegui relaxar com você? Ele tava sempre perto observando… A única maneira de poder esquecer um pouco era enchendo a cara. Era mais conveniente ficar bêbado pra não pensar sobre certas coisas.

– Olha, Zeca… eu… não sei nem o que pensar. Não sei se me irrito com você, se rio dessa história absurda…

– Pode rir, não vou me importar.

– Não sei se continuo aqui escutando essas… essas loucuras… Não sei.

– Eu tinha de lhe contar.

– Por que eu? A gente não se fala há semanas.

– Foi ele quem sugeriu. Achou que você compreenderia. “Por que você não conta pra Gisa? Ela é uma pessoa sensível, pode ajudar…”

– Ele me chama de Gisa?

– É. Ainda tem essa intimidade.

– Ele tá aqui agora?

– Sentadinho aqui. Morrendo de rir dessa situação ridícula, o sádico. Pergunta algo pra ele.

– Eu?

– É, pergunta alguma coisa.

– Ah… Sei lá.

– Ele tá dizendo que você dança muito bem.

– E ele já me viu dançar?

– Ele foi comigo na apresentação do seu grupo.

– Ah… Que bom. Agradeça a ele.

– Agradeça você, ele tá ouvindo.

– Ahnn… Obrigado, seo Observador… Ai, Zeca! Essa situação realmente…

– Ah, ah, ah, ah!

– …

– Desculpa. É que foi engraçado.

– Zeca, você me chamou aqui pra conversar sério. Eu vim porque acreditei. Aí chego e você me vem com esse papo de Observador. Porra!

– …

– Zeca, se você estivesse em meu lugar, o que faria agora? Diga sinceramente.

– …

– Diga, o que você faria?

– Sinceramente? Acho que levantaria, sairia por aquela porta e tchau.

– Pois é o que vou fazer. Mas antes deixa eu dizer uma coisa: pare de beber, Zeca. Ou pelo menos diminua, se não quiser piorar tudo. E se estiver bebendo pra não ter de encarar certas coisas sobre você mesmo, então lamento dizer que tá indo pelo pior caminho.

– …

– Tchau, Zeca. E tchau pro seu amigo…

– …

– Ele tem nome?

– Eu chamo de Hóbis.

– Hóbis?

– É, Hóbis. Bonitinho, não?

– Hóbis, o Observador… Tchau, Hóbis. Não deixa o Zeca beber demais.
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OStripTease-02– EU AVISEI. Não era pra você contar assim, de uma vez só. Tinha de ser devagar.

– Agora já tá feito, Hóbis.

– E se você tiver perdido a Gisa de vez?

– O que tiver de ser, será.

– Você parece que fez isso pra se livrar dela.

– Se ela gosta de mim como você diz, então ela teria entendido melhor a coisa.

– Ela precisa de tempo, Zeca.

– Agora já tá feito.

– Ligue pra ela de novo. Agora que ela já sabe de mim, deixe que pense que você é louco mesmo. Ela também não é muito normal. Não pode tomar duas cervejas que quer fazer piruetas pelo meio da rua…

– Pelo menos ela dança bem.

– Você ainda não viu nada…

– Ei! O que você sabe sobre ela que eu não sei?

– Esqueça, pensei alto. Vá, Zeca, ligue pra ela.

– Eu não posso ligar de novo, Hóbis! Você viu, ela tem certeza que eu pirei.

– Ela gosta de você.

– Eu também gosto dela. Desde o começo, você sabe. Mas só fiz besteira.

– Claro, sempre bêbado…

– Por sua causa.

– E eu tô aqui por sua causa. Então é você quem tem de fazer alguma coisa.

– E tô fazendo. Tô bebendo pra ver se morro logo de uma vez e me livro de sua chatice.

– Zeca, seu tapado imbecil. Gisa é a mulher que pode te ajudar, te incentivar a seguir o melhor caminho. Acontece que você morre de medo daquilo que mais precisa. É um tolo.

– Se ela puder, me manda pro manicômio.

– Ligue pra ela, marque um local agradável.

– Papa-Tudo Motel. Suítes com cadeira erótica.

– Marque no Spy, convide pra tomar um suco. Por favor, nada de álcool.

– Já falei pra não me pedir isso. Bebo se eu quiser.

– Como posso deixar de pedir isso, seu burro?! A bebida tá estragando sua vida.

– Quem tá estragando minha vida é você!

– É você quem estraga a minha, incompetente! Eu poderia estar em casa, com minha família! Mas não, tenho de estar aqui com você, você que prefere viver personagens em vez de ser você mesmo!

– …

– …

– Escute, Hóbis, eu já passei uma semana sem beber e não adiantou nada, você continuou me pentelhando.

– Não são sete dias sóbrios que vão resolver os seus problemas, cretino. Olhe pra dentro de você mesmo e veja o que é que tem de mudar.

– Se soubesse, eu mudaria.

– Você sabe.

– Eu não sei, já disse!

– Sabe sim!

– Se soubesse, já teria mudado só pra me livrar de você, palhaço!

– Ah, você pensa que é agradável pra mim ficar assistindo seus porres idiotas, suas abordagens sem graça, “Oi, veja só, eu um sujeito simples e você tão cheia de predicados…” Sem falar nas suas performances sexuais horrorosas…

– Então vá pra merda! Aliás, fique aí mesmo. Pouco me importa se eu morrer de um coma alcoólico. Sabendo que você vai junto, eu vou me divertir bastante. Vamos os dois pro Inferno.
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– OI, GISELE.

– Você me convidando pra tomar um suco… Você não deve estar nada bem.

– Desde aquele dia que eu tô sem beber.

– Sério?

– Sério.

– E o que aconteceu?

– Resolvi dar um tempo. O que você quer?

– Maçã. Sem açúcar, por favor.

– Então dois. O meu com.

– E aí, o Hóbis veio?

– Claro.

– Ele tá aqui?

– Sentou agora. Mas a gente não tá se falando.

– Por quê?

– Divergências. Acontece.

– Ah.

– …

– …

– Não adianta olhar pra ele, Gisele, você não pode ver.

– Olhei sem querer. Ai, Zeca, esse papo vai me botar maluca igual a você, sabia?

– Pelo menos você vai me entender.

– Quer dizer que brigaram? Ele falou algo que você não gostou?

– Vamos mudar de assunto? Você vai bem?

– Ótima.

– Tô vendo. Linda como sempre.

– Você também tá bem.

– …

– Rindo de quê, Gisele?

– Besteira.

– Diz.

– Ah, besteira. Tava pensando na ironia da coisa.

– Que coisa?

– No dia em que finalmente conheço um cara interessante, ele tem um caso com um homem invisível.

– É muito azar mesmo…

– Eu fui um pouco indelicada da última vez. Queria lhe pedir desculpas.

– Seria a reação de qualquer um.

– Eu ia telefonar pra você.

– Ia?

– Fiquei curiosa sobre o Hóbis.

– Foi?

– Fiquei pensando… Ele não dorme?

– Dorme quando eu durmo. Acorda quando eu acordo. Mas não sente fome, nem sede, não consegue fazer nada a não ser me observar.

– Não deve ser um serviço muito agradável.

– Eu não queria estar no lugar dele.

– Ele gosta de você?

– Nossa relação é estranha. A gente se gosta e se detesta. No início era pior, eu nem dormia direito com ele olhando pra mim. Imagina fazer tudo com alguém olhando, tomar banho, fazer cocô, uma punhetinha… E trepar? Impossível, né? Ou então você toma todas e esquece.

– O que ele acha dessa sua bebedeira?

– Ele diz que eu tô fugindo.

– E tá?

– Pode ser. Mas acho que seria mais fácil sem ele por perto.

– Aí você não teria chegado às conclusões que chegou sobre sua vida. Acho que o Hóbis, se é que ele existe…

– Ele existe.

– Certo. Acho que o Hóbis tá fazendo você economizar a grana que pagaria por uma boa terapia, sabia?

– E quem disse que eu pagaria por uma terapia?

– Zeca, por que você não vem passar um fim de semana comigo na serra? Ia ser tão bom.

– Sério?

– Eu ia adorar.

– Não sei, Gisele. Tenho uns trabalhos…

– Ah, Zeca, vamos, eu cozinho pra você.

– Que mais?

– Deixo você ficar com o controle da tevê.

– Não pedi sua opinião.

– Como?

– Falei com o chato aqui.

– Com o Hóbis? O que ele disse?

– Disse que se eu fosse pra serra com você, ele esqueceria por uma semana dos meus defeitos.

– …

– Olhando pra ele de novo, Gisele?

– Heim? Ah, é. Já tô me comportando como se realmente tivesse alguém aí. Acho que é uma boa proposta a dele, Zeca.

– Como que você sabe que ela tem esse CD?

– Heim?

– O cretino aqui. Tá falando besteira.

– O que ele disse?

– Pra você não esquecer de levar seu CD de músicas eróticas. Você tem um cedê assim?

– Peraí, como que ele sabe?

– É, como que você sabe disso, Hóbis? Hum… Ah, tá. Ele disse que não sabia, que foi um palpite.

– Muito estranho…

 – Não sei se a gente pode acreditar em tudo que esse maluco diz. Mas deixa ele pra lá, Gisele. Então, posso ficar mesmo com o controle da tevê?
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– ELE TÁ OLHANDO AGORA?

– Com certeza.

– Tá ou não tá, Zeca?

– Ah, Gisele, eu não vou me virar agora pra ver. Tenha paciência.

– Ele não é gay, é?

– Que eu saiba, não.

– O que ele achou de mim?

– Ele gosta de você. Não percebeu lá no Spy? Era o mais animado com essa história da gente vir aqui pra serra.

– Você não se incomoda dele observar a gente transando?

– Eu já havia esquecido disso, Gisele.

– Desculpa…

– …

– …

– Vem cá, vem…

– Peraí, Zeca, Vou botar o CD de novo…

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– PARABÉNS, CHATO, você cumpriu a promessa. Uma semana caladinho.

– Fiz por nós dois, companheiro.

– Eu até consegui me concentrar em outras coisas, você viu?

– Vi. Foi uma semana bastante positiva.

– Você acha que a gente dá certo?

– A gente? Definitivamente não.

– Eu e Gisele, engraçadinho.

– Claro que sim. Não existe nada melhor pra você que essa mulher, meu rapaz. Gisa é maravilhosa. Bonita, inteligente, carinhosa… E tem um corpinho muito alinhado, cá pra nós.

– Ela dança desde os quinze.

– Você deveria pedir pra ela dançar pra você.

– Hummm… Boa ideia.

– Algo me diz que alguém tá apaixonado…

– Mais ou menos.

– Assuma, homem.

– Puta merda. Assumir o quê, Hóbis?

– Que você é doido por ela.

– Vou pensar no seu caso.

– Assuma logo, homem. Quer enganar quem?

– Hóbis, dá um tempo.

– Hoje, enquanto você falava ao telefone, encheu uma folha inteira com o nome dela, percebeu?

– Tava testando a caneta.

– Ah, sim, claro.

– …

– Então, assume ou não assume?

– Putaquipariu, Hóbis, você é um pentelho!

– Assume ou não assume?

– Já disse que vou pensar no seu caso.

– Pensar pra quê, homem? Tá na cara. Já viu sua cara no espelho? Viu?

– Eu mereço…
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– NÃO QUER QUE EU SIRVA uma tacinha de vinho pra você também?

– Não, obrigado, hoje você vai beber sozinha.

– Só uma tacinha não faz mal, Zeca…

– Depois, depois.

– Então tá bom. Vou servir mais uma pra mim. Escuta, você se importaria se eu conversasse com o Hóbis também?

– Por mim, tudo bem.

– Ótimo. Hóbis, o que você tá achando do meu apartamento?

– Ele respondeu que você tem muito bom gosto.

– Humm, obrigado. E o que ele acha de nós namorarmos sério?

– Nós quem, Gisele?

– Eu e você, né, Zeca? Com o Hóbis é que não é.

– Essa pergunta não tava no roteiro…

– Ah, então tem censura pra falar com ele, é?

– Ok, ok. O que você acha disso, Hóbis?

– Eu acho uma ótima ideia!

– Gisele, não atrapalha! Você quer ou não quer que ele responda?

– Desculpa, não resisti… Vai, pergunta de novo.

– Ele tá rindo de sua imitação dele. Horrível, por sinal.

– Que bom que ele tem senso de humor.

– Até que tem. Quando não tá preocupado em me dar lições de moral.

– Ele já parou de rir?

– Ele disse que se eu não namorar, ele namora.

– Então se decidam. Não tenho a noite toda.

– Acho que você tá um pouquinho alta…

– E você tá vermelho! Falou em namoro, você perde o rebolado… Viu o meu vinho por aí?

– Hóbis tem um recado pra você.

– Oba! Sou toda ouvidos.

– Ele tá dizendo que só tem um jeito dele não olhar pra você enquanto a gente transa.

– E qual é?

– É transarmos eu, você e outra garota. Assim, em respeito a você, ele fica olhando pra ela.

– Você disse isso mesmo, Hóbis?

– Ele acaba de dizer: “Claro, meu docinho de coco…”

– Ah, quer saber? Eu não ligo se ele quiser ficar olhando pra mim… Pode olhar, viu, Hóbis.

– Pois eu ligo.

– Acho que o Hóbis não falou nada disso, seu bobo… Você é quem quer realizar essa sua fantasia da gente transar com outra mulher e fica botando palavra na boca do pobre do Hóbis…

– É sério, ele disse.

– Mentira. Você falou mesmo, Hóbis?

– Falei sim, meu sorvetinho de duas bolas…

– Deixa ele falar, Zeca!

– Tô só repetindo o que ele diz.

– Vamos, Zeca, o que ele disse?

– Ele não vai responder porque tá rolando de rir do seu porre, Gisele.

– Pois agora eu vou mostrar a ele que tenho outras qualidades… Deixa primeiro eu apagar a luz. Onde foi que eu deixei o meu vinho?

– O que é que você vai fazer?

– Uma musiquinha especial pra vocês… Dá licença, deixa eu ligar o abajur. Ah, agora tá perfeito.

– Hóbis tá dizendo que eu também devia tomar algo, que eu tô muito tenso…

– Também acho. Cadê o CD?

– Você tá quase sentada em cima dele.

– Ai! É mesmo! Hummm, deixa eu ver… Acho que é a sete… Exatamente!

– Não acredito. Você vai fazer um strip-tease pra mim?

– Pra vocês dois. Hóbis, pode sentar, viu, fique à vontade.

– Ele já sentou há muito tempo.
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OStripTease-02– ELE TÁ OLHANDO AGORA?

– Tô com preguiça de virar o pescoço.

– Ele gostou do strip?

– Não desgrudou o olho.

– Sério?

– Até se emocionou.

– E você?

– Se eu gostei? Caramba! Não vou esquecer jamais.

– …

– Você é tão linda, Gisa…

– …

– Gisa?

– Hum.

– Ainda tá valendo aquela proposta?

– Qual?

– A do namoro.
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– ZECA…

– Hum…

– Escute, tenho que ir agora, meu ônibus chegou. Quando você acordar, já não estarei mais aqui.

– Humm…

– Um abraço, amigão. Você é um cara legal. Desculpe se fui rude algumas vezes, mas é que estávamos no mesmo barco, entenda. Mas estou orgulhoso de você.

– Hummm…

– Essa mulher lhe quer bem, não a deixe ir embora. Gisa ainda vai lhe dar muitas alegrias, você vai ver, filhos maravilhosos… Agarre sua chance agora, homem. O futuro é só uma questão de escolha. E não é qualquer uma que faz um strip daquele…

– Hummmm…

– Adeus, amigão.
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– BOM DIA, meu filho.

– Bom dia, seo Nestor. Pra casa?

– Pra casa, sim, que você já deve estar com saudade, né? Um ano fora.

– Pois é. O Outro me deu trabalho.

– Imagino. Pensei até que você ia pedir prorrogação. Pegue uma cervejinha pra você aí na geladeira, meu filho.

– Obrigado. Ônibus vazio, seo Nestor.

– Esta semana está assim.

– Não tem mais ninguém pro senhor pegar?

– Tinha a Felícia. Mas ela pediu prorrogação.

– Então ela ainda não conseguiu? Que pena.

– Felícia é aquela arquiteta, você sabe.

– Sei. Veio pra garantir que a Outra dela não abandonasse o curso. Humm, cervejinha boa.

– Pois a Outra abandonou. Foi fazer Direito. Felícia só não matou a Outra porque enfim não pode.

– Dá vontade de matar mesmo.

– Mas Felícia já pediu prorrogação. Disse que não vai desistir enquanto a Outra não voltar pra Arquitetura.

– Prorrogação é faca de dois gumes. Ou a gente consegue na marra ou deixa o Outro louco, e aí não tem mais jeito. Se eu tivesse pedido prorrogação, meu Outro também enlouqueceria e acabaria deixando a Gisa escapar de vez.

– Cá pra nós, filho, acho que não veremos mais nossa amiga Felícia. A coisa pra ela está difícil.

– Isso é muito triste.

– Tenho dó quando a pessoa descobre que seu futuro será anulado. Ultimamente tem aumentado, sabe? Quando as pessoas entram neste ônibus, eu já sei que muitas não vão voltar e sinto pena. Eu não sei como é a experiência de não poder voltar, mas imagino que seja a coisa mais terrível do mundo.

– É. Mas quando a gente recebe o chamado pra vir pro passado, já sabe que sempre tem a chance de não voltar.

– O diabo é que a gente tem sempre a esperança de que o nosso futuro é o que vai vingar, né?

– É. Só de imaginar que aquele cabeça-dura podia deixar a Gisa escapulir, já me dá um frio na barriga…

– Mas me conte, como foi?

– Rapaz teimoso o meu Outro, seo Nestor.

– Ah, mas todos já fomos assim.

– E deu pra tomar todas depois que eu apareci, o senhor precisava ver.

– Se não me engano, você também gostava de um copinho…

– É, gostava.

– Foi a Gisele quem botou você no prumo.

– Verdade. Mas o Outro tava bebendo bem mais que eu.

– E ele vai ficar com ela mesmo?

– Vai. Já tá no papo.

– Então está bom. Mas me diga, como é que foi ver a Gisele mais novinha?

– Ah, seo Nestor, achei que eu ia ter um troço…

– Eheheh, imagino.

– Eu faria qualquer coisa pra garantir nossa hipótese de futuro, o senhor sabe.

– Ora se sei.

– Posso lhe contar um segredinho, seo Nestor?

– Pode, filho.

– Embarquei nessa missão porque se eu não viesse, eu e a Gisa seríamos desativados, nós e os nossos filhos. Mas eu também tava doido pra rever o strip-tease que ela fez pra mim quando a gente começou o namoro… Ah, como eu queria!

– Mas veja só!

– Ah, seo Nestor, o senhor nem imagina… Foi aquele strip que me fez namorar sério com ela.

– E ela fez de novo?

– Fez. Essa noite mesmo. Igualzinho como foi, igualzinho…

– Ah, por isso que você chegou com essa cara… Então, missão encerrada?

– Claro! Depois daquela performance, o Outro casa até amanhã se ela pedir.

– Então está bom.

– O que a gente não faz por uma mulher…

– O que não faz!

– Faz de tudo.

– Ora!

– Até aguentar a si mesmo no passado o cara aguenta.

– Aguenta.

– Até casar a gente casa, seo Nestor.

– É o que eu digo.

– Ora se não casa.

– Ora se.

– Casa mesmo.

– Casa.

– Pois é.

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1cEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais. > Mais

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A vertigem

10/02/2015

09fev2015

AVertigem-01

Dizem que seo Pepeu, o louco da cidade, possui dois bichinhos mágicos que localizam coisas perdidas e fazem as pessoas se encontrarem. Mas ele está velho e tem de passar a alguém a missão de cuidar dos bichinhos

Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

Música sugerida para leitura: Sertão Noturno (Cristiano Pinho. Part. vocal: Raimundo Fagner)

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A VERTIGEM

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Os fatos que agora relatarei aconteceram há muito tempo. Mas parece que foi ontem.

Eu estava em Quixadá naquele sábado para resolver umas questões relacionadas a um imóvel de minha família, a casa onde moramos por muitos anos antes de mudarmos para a capital e que desde então estava alugada. Eu havia convencido meus pais a vendê-la e investir o dinheiro em ações na bolsa, obtendo muito mais rendimento. Porém, como a tarde já ia no fim e no domingo outros interessados visitariam a casa, decidi permanecer na cidade e me hospedei num hotelzinho na zona central. Após tomar um banho, aproveitei que o calor estava mais ameno e saí para dar uma caminhada pela redondeza.

Vinte e um anos. Esse era o tempo que eu não ia a Quixadá. Eu nascera e vivera ali até os quinze anos, quando minha família mudou-se para Fortaleza. Meus amigos de infância, o futebol com bola de meia, as quermesses na praça, tudo de repente ficou para trás. Determinado a vencer na cidade grande a qualquer custo, logo ajustei-me às suas leis, concentrando-me nos estudos e no trabalho, economizando dinheiro e deixando diversões e namoradas em terceiro plano. E tratei de convencer a mim mesmo, dia após dia, de que aquela era a minha verdadeira cidade. Em pouco tempo, substituí minha mentalidade interiorana por um comportamento metropolitano e Quixadá foi ficando cada vez mais relegada a um simples nome de cidade natal em meus documentos de identidade.

– Silvio?

Alguém falou meu nome. Era uma senhora. Encostada no portão de uma casa do outro lado da rua, ela acenava sorridente para mim. Atravessei a rua enquanto tentava buscar na memória quem poderia ser.

– Já vi que não lembra de mim.

Eu não lembrava mesmo.

– Fui sua professora de matemática.

Finalmente lembrei. Dona Necy. Estava bem mais velha e bem mais gorda.

– Desculpe, dona Necy. É que faz tanto tempo.

– Tenho memória boa. Você deve estar com… trinta e cinco?

– Trinta e seis.

– Até que não mudou muito. Está de volta à terrinha?

– Não. Só de passagem.

Ela me pegou pelo braço e me convidou para entrar um pouco.

– Acabei de fazer um docinho de caju – ela disse, animada.

Eu queria voltar logo para o hotel, pois levara o notebook e tencionava trabalhar aquela noite nuns relatórios da empresa. Porém, fiquei sem jeito de negar e me deixei conduzir à varanda da casa.

– Sente um pouquinho que eu vou pegar.

Era uma ampla varanda, que ocupava a frente e a lateral da casa. Calculei a área e vi que era maior que o quarto-e-sala onde eu morava. Havia duas cadeiras naquela parte da varanda, ambas de balanço, de ferro revestido com fios de plástico colorido, dessas que não existem mais nas cidades grandes. Sentei numa delas e o movimento de vai e vem da cadeira quase me deu vertigem.

Logo depois, dona Necy chegou e me entregou uma cumbuca cheia de doce. Enquanto eu comia, e o doce era desses com calda vermelha, realmente delicioso, conversamos um pouco. Falei que meus pais estavam bem, que iríamos vender a casa e que eu ainda era solteiro e trabalhava como diretor financeiro de uma empresa. Ela, por sua vez, contou que se aposentara, que seus filhos estavam todos casados e que Quixadá continuava do mesmo jeito que eu a havia deixado, com a diferença de que agora estava ainda mais quente. Falou e em seguida abriu um leque, começando a abanar-se.

– Muito gostoso o doce, dona Necy.

– Quer mais? Vou pegar.

– Não, obrigado – respondi, embora quisesse.

– Então vou pegar uma aguinha pra você.

Ela pegou a cumbuca e entrou, dirigindo-se à cozinha. Pensei na mania que esse povo do interior tem de oferecer comida às visitas. Para eles, você está sempre magro e precisando urgentemente engordar. Nesse momento, dei-me conta da presença de alguém ao meu lado, na porta da sala. Virei-me, achando que veria dona Necy, mas o que vi foi um senhor idoso, alto e magro. Vestia-se todo de branco, calça, paletó, sapatos e um chapéu de feltro, como se fosse sair. Seus olhos eram negros e me olhavam de um jeito estranho…

– Boa tarde – cumprimentei-o.

Ele não respondeu. Permaneceu no mesmo lugar, me olhando daquele jeito estranho, sem expressão. Ou melhor, com uma expressão, sim: de ausência. Mas uma ausência fixada em mim, difícil explicar. Era como se ele não estivesse ali – mas soubesse que eu estava. Senti um desconforto, uma insegurança, como se quem me olhasse pelos olhos daquele velho, de algum modo, soubesse de mim. Soubesse bastante de mim.

Desviei o olhar para o lado da rua. No céu, por trás das casas, o sol se punha entre as nuvens menstruentas, anunciando a noite do sertão.

– Ô, Pepeu, não vai falar com o rapaz, não? – disse dona Necy, chegando da cozinha. – É o Silvio, filho da Dezinha, que você conheceu. Lembra dela, Pepeu?

Ele continuou quieto e calado, encostado na porta. Dona Necy me estendeu o copo dágua e sentou. Bebi com gosto. Quando voltei-me para olhar para seo Pepeu, o lugar estava vazio, ele havia voltado para dentro da casa sem que eu percebesse.

– É primo torto de mamãe – explicou dona Necy, sem se importar com o repentino sumiço do velho. – Tem o juízo meio mole.

– Ah…

– Morava com ela, em Caiçarinha. Quando ela morreu, a gente trouxe ele pra morar com a gente.

– Ele não casou?

– Não. Nem teve filho. Já está com noventa anos, mas ainda tem saúde boa.

– E não causa problemas?

– Pepeu é quieto, faz mal nem a muriçoca. Só tem umas esquisitices, mas a gente já acostumou. A gente se acostuma com tudo, né?

Dona Necy riu. A loucura do agregado da família a divertia.

– Que esquisitices?

– Essas coisas de gente doida. Por exemplo, ele diz que cria uns bichinhos. Mas ninguém nunca viu.

– Devem ser invisíveis – brinquei.

– Ele gostou de você, viu?

– De mim? Me olhando daquele jeito?

– Quando não gosta, nem olha pra pessoa.

Sorri, lisonjeado.

– O doce estava ótimo, dona Necy, obrigado – falei, levantando-me.

– Tem certeza que não quer mais? Doce aqui não falta.

– Tenho que voltar pro hotel.

À noite, telefonei para meus pais e, após falarmos sobre a venda do imóvel, contei para mamãe que havia estado com dona Necy e seo Pepeu. Ela comentou que o conhecia.

– Seo Pepeu é bom de encontrar coisa perdida, sabia? – ela falou.

– Como assim?

– Se você perdeu qualquer coisa, é só falar com ele que rapidinho você encontra.

– Só a senhora mesmo pra acreditar nessas coisas, mãe – respondi, rindo das crendices interioranas dela.

– Ah, eu soube que Milena se separou. Tá solteirinha. Que nem você.

– Que Milena, mãe?

– A que você namorou.

Milena era uma garota de Quixadá que eu havia namorado na adolescência. Eu havia esquecido totalmente dela.

– Obrigado pela dica, mãe, mas prefiro as mulheres da capital.

Após desligar, sentei na cama e liguei o notebook para adiantar as tarefas que me aguardavam no escritório na segunda-feira, que eram muitas. Fiquei apenas na tentativa, pois o sono me chegou tão forte que adormeci no meio do trabalho com o notebook ligado, coisa que nunca havia me acontecido.

AVertigem-01No domingo, mostrei a casa para um casal que estava bastante interessado em comprá-la. Discutimos valores e combinamos que eu voltaria no fim de semana seguinte para concluir o negócio. E retornei ao hotel, satisfeito. Em breve, a casa onde eu vivera minha infância e que significava minha derradeira ligação com a cidade se transformaria num bom dinheiro, que eu esperava multiplicar rapidamente no mercado de ações.

Almocei no hotel e depois subi ao quarto para tomar um banho. Enquanto me vestia, olhando-me no espelho, achei minha imagem um tanto diferente… Recordei ter lido em algum lugar que os espelhos refletem nossa imagem cada um ao seu modo e que, por nos acostumarmos aos nossos reflexos cotidianos, nós nos estranhamos nos outros espelhos.

Pensava nisso quando de repente a lembrança de seo Pepeu tomou minha atenção. E quase pude sentir a mesma sensação de desconforto que me causara sua presença no dia anterior. Seo Pepeu e seu olhar estranho, sem expressão, mas que mexia com algo em mim. Seo Pepeu e seu olhar de quem parecia saber muitas coisas de mim.

Saí do quarto e fui pagar a conta. Conferi as horas: cinco da tarde. Caminhei até o carro, estacionado em frente ao hotel, e entrei. No entanto, em vez de rumar para a saída da cidade, fui à casa de dona Necy. Parei o carro, saí e bati palmas. Ela logo apareceu, sorridente.

– Vim me despedir.

– Mas ainda está quente pra pegar estrada – ela falou, já me puxando para dentro e fechando o portão. – Entre um pouquinho. Já almoçou?

– Já, obrigado.

– Mas aceita um docinho de caju, não aceita?

– Aceito. E seo Pepeu, está bem? – perguntei. E me senti um tolo por ter querido enganar a mim mesmo sobre o motivo de ter voltado à casa de dona Necy. Evidente que eu não fora me despedir – estava ali para rever seo Pepeu.

– Hoje ele me perguntou: cadê o filho da Dezinha?

– Sério?

– Não disse que ele tinha gostado de você?

Dona Necy entrou e logo retornou trazendo o doce. Como da outra vez, ela sentou em sua cadeira de balanço e, enquanto falava algo sobre a safra de caju, o som de suas palavras se acompanhava do barulhinho quase hipnótico do balançar da cadeira. Foi nesse momento que ele surgiu à porta em seu figurino branco, silencioso e impecável feito um gato.

– Olha quem veio ver você, Pepeu.

– Boa tarde, seo Pepeu. Como vai?

Ele não respondeu. Continuou parado, encostado à porta, o olhar ausente em mim. Dona Necy fez sinal com a mão, para que eu não me importasse, e começou a falar do clima, do custo de vida, da política local. Lembrou do tempo da escola e de como as crianças de hoje preferem o computador às brincadeiras na rua. Foi quando escutei a voz grave ao meu lado:

– Ele quer mais doce.

Seo Pepeu falara!

– Quer mais? – perguntou-me dona Necy, levantando da cadeira. – Me dê que eu vou pegar.

Dona Necy puxou-me a cumbuca das mãos e entrou. E eu olhei para seo Pepeu, ainda surpreso. Ele falara.

Foi esta a primeira vez que escutei sua voz. E ele falou de um modo tão natural, e havia uma tal lucidez das coisas por trás dela… Eu, de fato, havia terminado de comer e realmente queria mais, porém estava com vergonha de pedir. E ele percebera.

– O senhor também gosta de doce de caju? – perguntei, tentando parecer simpático. Ele apenas continuou me olhando, daquele jeito ausente. Senti-me ridículo, tentando me comunicar com um louco, e tive a nítida impressão de que seo Pepeu desdenhava de minha posição de são e normal.

Para meu alívio, dona Necy voltou, trazendo mais doce e me livrando do desconforto de fazer sala para a loucura. Conversamos mais um pouco e, em determinado momento, lembrei do que minha mãe me falara.

– É verdade que ele encontra coisas perdidas?

– Olha aí, Pepeu – ela falou, dirigindo-se a ele. – Silvio quer saber se você encontra as coisas. Encontra?

Seo Pepeu não respondeu. Continuava com seu olhar em mim, insistente e silencioso – e ausente.

– Você não perdeu alguma coisa ultimamente? – dona Necy me perguntou. Sim, eu havia perdido minha caneta predileta, uma de alumínio que tinha meu nome gravado. Perdera-a no dia anterior, logo que chegara a Quixadá.

– Sim, perdi uma caneta.

– Pede pra ele encontrar.

– O senhor pode encontrar minha caneta, seo Pepeu? – perguntei a ele. E flagrei-me desejando muito que a resposta fosse sim.

No silêncio que se seguiu, enquanto nós dois nos olhávamos e eu ansiava por sua resposta positiva, senti uma vertigem… E me veio, nesse exato momento, uma lembrança de minha infância… Lembrei de um poço que havia no quintal da casa do vizinho, um velho poço que fornecia água e do qual as crianças eram proibidas de se aproximar. Um dia, sem suportar mais a curiosidade, fui escondido até o poço e subi na borda. E na água lá embaixo, em vez de minha imagem refletida, vi um monstro horrendo. Com o susto, me desequilibrei e caí para dentro do poço. Felizmente fui rápido e consegui me segurar na borda, ficando pendurado lá enquanto o monstro, do fundo do poço, aguardava que eu despencasse. Com muito esforço, subi a parede e saí. Voltei correndo para casa, apavorado, o coração saindo pela boca. A experiência foi tão traumática que depois desse dia, bastava me aproximar de um poço para sentir uma forte vertigem. Olhar lá dentro, nem pensar.

A lembrança se dissipou e a vertigem foi sumindo aos poucos, o que me aliviou bastante. Agora eu estava novamente na varanda da casa de dona Necy, tendo nos meus olhos o olhar ausente de seo Pepeu. Mexi-me na cadeira para afastar o resto de vertigem que ainda sentia, sem saber bem quanto tempo estivera envolvido pela súbita recordação ou se alguém percebera alguma coisa.

Então seo Pepeu moveu-se, caminhando até dona Necy. Inclinou-se e sussurrou algo em seu ouvido. E voltou ao seu lugar, encostado na porta.

– Pepeu disse que se você trouxer um chocolate pra ele, ele encontra sua caneta.

Dar-lhe um chocolate? Que coisa infantil, pensei, decepcionado. E eu que, por um rápido instante, chegara quase a crer que ele possuía mesmo algum dom mágico, que transitava por outros mundos… Mas agora via que era tudo uma brincadeira entre eles, uma espécie de concessão que dona Necy fazia à estranha lógica da loucura.

Mesmo incomodado por ter feito papel de tolo, resolvi topar a brincadeira. Levantei e fui à mercearia da esquina. E logo voltei com o chocolate, que entreguei a ele. Seo Pepeu, porém, não o recebeu, deixando-me com o braço estendido no ar. Dona Necy riu e pegou o chocolate de minha mão, entregando a ele. Pensei que seo Pepeu fosse comê-lo ali mesmo, mas, em vez disso, guardou-o no bolso de dentro do paletó e tornou a sussurrar ao ouvido de dona Necy.

– Agora você espera que a caneta aparece – ela disse, me piscando um olho, como se estivéssemos brincando com uma criança.

Olhei para seo Pepeu e julguei ver um esboço de sorriso, uma quase imperceptível luzinha de satisfação em seu rosto… que um segundo depois sumiu, sem deixar vestígio. Então nos despedimos e fui embora.

Durante o trajeto de volta a Fortaleza a lembrança de seo Pepeu me fez companhia. Ele realmente me impressionara bastante. E havia provocado em mim algo difícil de precisar, um incômodo misturado com medo e… uma certa euforia. Por quê?

Enquanto eu dirigia, chegaram outras lembranças de minha infância… Lembrei de um tempo em que eu tinha passagem livre para outras realidades, que eu visitava sempre. Um tempo em que eu tinha amigos que os adultos não viam e com eles dividia segredos. Lembrei que eu tinha o poder de ficar invisível e fazia isso sempre que queria roubar doces da confeitaria ou quando queria ficar no quarto de minha prima sem ser notado, enquanto ela deitava em sua cama e se tocava intimamente como se estivesse sozinha. Era um tempo em que os dias eram cheios de aventuras e tudo era mágico e fascinante. Um tempo encantado que simplesmente havia sumido de minha memória, mas que durante aqueles momentos na estrada irrompeu no pensamento, feito bolhas que sobem à superfície da água fervente.

Na entrada da capital, envolto pelas lembranças, não percebi o sinal vermelho e passei direto pelo cruzamento. Freei o carro bruscamente, quase colidindo com um caminhão. Por pouco não causei um terrível acidente. Poderia ter morrido… Parei logo depois, assustado e ao mesmo tempo aliviado pela sorte que tivera. Melhor esquecer o passado, pensei, enquanto engatava a primeira e saía. Melhor voltar à realidade.

Nos dias seguintes, minha mente manteve-se focada nos afazeres do trabalho, que me consumia o dia inteiro e às vezes até a noite, quando levava tarefas para casa. Na quarta-feira, porém, enquanto trabalhava em minha sala na empresa, percebi que a luz do fim de tarde que vinha da janela refletia-se na estante em alguma coisa que eu não conseguia precisar o que era. Intrigado, levantei e fui conferir o que estava brilhando ali. Era uma caneta. Uma caneta de alumínio com meu nome gravado.

Senti um arrepio na espinha. Era a caneta que estava perdida! Mas como ela podia estar ali se eu a perdera em Quixadá? Seria seo Pepeu… responsável por aquilo?

Não, claro que não, imediatamente respondi para mim mesmo. Eu certamente me equivocara. Sem perceber, certamente eu trouxera a caneta comigo de Quixadá e…

E o quê? Eu pusera a caneta na estante e também não lembrava? Isso não. Claro que eu não fizera isso. Então como explicar?

Não encontrei nenhuma explicação. Não havia explicação. Durante três dias eu havia esquecido de seo Pepeu e agora ele subitamente voltava por meio daquele mistério. Seria mesmo possível que ele tivesse algo a ver com aquilo?

Pelo resto do dia a imagem do velho esquisito me perseguiu, aqueles olhos ausentes de expressão, mas que eu sabia me espreitarem atentos. E isso me fazia dividido. Se, por um lado, brisas suaves do outro mundo sopravam por intermédio de seo Pepeu, brisas que me arrepiavam os pelos e me traziam memórias de um tempo de magia e encantamento, por outro lado seus olhos pareciam querer me desmascarar, como se eu fosse culpado de algo…

AVertigem-01No sábado seguinte, voltei a Quixadá. Eu havia combinado com o casal interessado em comprar a casa que nos encontraríamos no domingo, mas minha vontade de rever seo Pepeu era tamanha que não pude esperar mais um dia.

Cheguei no fim da tarde e dona Necy me recebeu com a simpatia de sempre. Contei-lhe que havia encontrado a caneta.

– Que bom – ela respondeu. – Pepeu vai gostar de saber.

– Ele sempre faz… essas coisas?

– Que coisas?

– Encontrar objetos perdidos.

Ela riu.

– Você acredita nessas coisas?

– Eu? Bem… eu…

Parei de falar, encabulado feito um menino flagrado fazendo o que não deve. Simplesmente não consegui responder. Em que eu acreditava? Já não sabia.

– O povo mais jovem não liga pra isso não, sabe? Quem ainda acredita é o povo velho.

Sorri, sem jeito. Ao lado, no vidro da janela, vi minha cara envergonhada. Fiquei pensando: quem eu seria? Do povo jovem ou do povo velho?

– Ele está em casa?

– Pepeu? Não. Foi passear com os bichinhos dele.

– E ele sabe andar sozinho pelas ruas?

– Mas menino, Pepeu é esperto – ela confirmou, orgulhosa. – Só não sai quando os bichinhos dele não querem ir. Aí não tem quem faça Pepeu botar o pé fora de casa. Você não quer sentar um pouco? Tem suco de cajá bem geladinho, vou pegar pra você.

– Obrigado, dona Necy – recusei. – Mas eu preciso falar com seo Pepeu.

– Então vá por ali, ó, que você ainda pega ele.

Corri pela rua até que vi aquela figura magra e alta, metida em seu terno branco, o chapéu branco, ele e seu passo lento, parecendo não ligar nadinha para o mundo em volta. Quem visse não o distinguiria de qualquer desses velhos que seguem para a praça nos fins de tarde.

Diminuí o passo e fui me aproximando dele. O coração batia forte e o suor já me ensopava as costas. Estiquei o braço em sua direção e, antes de tocá-lo, escutei sua voz:

– Encontrou a caneta?

Seo Pepeu continuava caminhando, olhando para frente. Por um momento, achei que ele falara consigo mesmo.

– Sim… Encontrei sim. Vim agradecer.

Então me cheguei ao seu lado e o acompanhei em seu passo lento pela calçada. Perguntei como conseguira que eu encontrasse a caneta, mas ele nada respondeu. Comecei a sentir o peso do ridículo. Puxei mais conversa, mas ele continuou do mesmo jeito, silencioso e o olhar lá na frente ou, sei lá, em lugar nenhum.

Quando chegamos à praça meu entusiasmo inicial já havia se desmilinguido no meio daquele constrangimento, e de novo eu me sentia fazendo papel de tolo, confiando que podia domar a loucura. Foi quando, já sem saber mais o que falar, comentei sobre Milena, minha ex-namorada da adolescência, se ele a conhecia.

Mais uma vez. A sombra de um sorriso a lhe sobrevoar a face, rápida, um quase nada. Mas eu vi, sim. Perguntei novamente, se ele conhecia Milena.

– Quer encontrar a moça, né?

Meu coração deu um pulo. Então, mais para não perder o embalo da conversa do que qualquer outra coisa, respondi rapidamente que sim, e perguntei se ele podia me ajudar.

– Traga um chocolate, traga.

Um chocolate. O que ele queria dizer com isso? Que me faria encontrar a moça da mesma forma como encontrei minha caneta? Não quis arriscar perder a oportunidade e corri até uma banca de revistas, onde comprei uma barrinha de chocolate e levei para ele.

– O senhor gosta muito de chocolate, né, seo Pepeu?

Ele ainda guardava a barrinha no bolso interno do paletó quando olhou para mim e… sorriu! Sorriu de verdade. Bem, foi um sorriso de um segundinho só, camuflado pela boca rígida, mas ele sorriu sim. E falou:

– É pra mim não, é pros bichinhos. Agora pode ir, vá.

– Ir pra onde, seo Pepeu?

– Vá logo.

Ele parecia ter pressa. Mas eu não sabia o que fazer.

– Vá, vá – ele insistiu, me empurrando levemente. Eu olhava para ele e não sabia mesmo o que fazer. Devia voltar a Fortaleza? Encontraria Milena lá?

– Vá logo.

Não pude deixar de obedecer. Atravessei a rua e olhei para ele, que continuava indicando que eu devia prosseguir, vá, vá…

De repente, uma mulher surgiu bem à minha frente, quase esbarrando em mim. Paramos os dois, assustados.

– Não acredito… – ela falou, surpresa. – Silvio?!

– Milena? – balbuciei, ainda mais surpreso que ela.

– Está perdido aqui em Quixadá?

– Eu… ahnn…

Eu todo era uma confusão só. Aquele encontro era obra de seo Pepeu? Não, não era possível, não podia ser. Mas como não seria? Claro que era sim, só podia ser. Tinha que ser. Virei-me rapidamente para a praça, mas seo Pepeu não estava mais lá.

– Eu… vim resolver umas coisas.

Milena havia mudado, não era mais a menina que eu lembrava, obviamente. Mas continuava bonita.

– Que coincidência, Silvio. Eu nunca faço esse caminho. Mas hoje, sei lá por quê, resolvi vir por aqui.

Ficamos olhando um para o outro, no meio das pessoas que passavam, sem saber o que dizer. Ela enfim quebrou o silêncio, perguntando se eu estava sozinho.

– Eu? Sim, estou.

– Quer sair hoje à noite? Tem um barzinho novo que é bem legal.

Após me passar seu número de telefone, deu-me um beijo no rosto e seguiu caminhando. Então atravessei a rua e avistei seo Pepeu caminhando na direção de sua casa. Corri até ele.

– Foi o senhor que fez a gente se encontrar, não foi?

Ele não respondeu. Nem sequer olhou para mim.

– Por favor, seo Pepeu – implorei. – Eu preciso saber.

Nada. Ele continuou em silêncio, caminhando seu passo lento. E eu ali fiquei, parado na calçada, o coração feito uma britadeira, a ponto de ter um troço. No degradê do céu a tarde anunciava seu fim, abrindo caminho para a noite. Uma brisa soprou, eriçando os pelos do meu braço.

Mais tarde, no barzinho, pensei em comentar o ocorrido com Milena. Mas achei melhor não. Como dizer-lhe que em troca de um chocolate, um velho maluco havia mexido com as forças do além para que nos encontrássemos de repente naquela rua? Como explicar o que eu sentia, aquela confusão toda em minha cabeça? Como dizer-lhe que o outro mundo havia voltado, o mundo mágico da minha infância?

Para não ficar pensando o tempo todo nisso, tratei de conversar sobre várias coisas e rimos bastante dos velhos tempos, recordando nosso namoro de adolescentes. Ela me falou de seu casamento fracassado e eu contei sobre minha vida em Fortaleza. Ela me perguntou se eu estava solteiro e eu confirmei. No fim da noite, deixei-a em casa e trocamos um demorado beijo. Um beijo muito gostoso, por sinal, que me fez lembrar de uma antiga e doce sensação, a de ter Milena em meus braços, nós dois no banco do jardim de sua casa, prometendo um para o outro todas as estrelas do céu imenso de Quixadá.

Naquela noite, demorei a dormir. Estava absolutamente dividido. Uma parte de mim queria ardentemente acreditar que seo Pepeu tinha mesmo poderes mágicos, que talvez o mundo não fosse somente aquilo que os olhos veem, que talvez outras coisas existissem além da compreensão comum. Talvez os loucos tivessem respostas. Talvez fosse hora de eu buscá-las de outra forma que não fosse nos números frios dos relatórios financeiros.

Outra parte de mim, porém, balançava a cabeça, desapontada com minha própria tolice. O mundo real não estava ali, naquela cidadezinha do interior, eu sabia disso. Tampouco estava no passado, entre mentiras da imaginação infantil. A realidade ficava na outra ponta da estrada, para onde no dia seguinte eu voltaria.

AVertigem-01Na manhã seguinte, não escutei o despertador, e quando acordei já eram duas da tarde. Estava bem atrasado para o encontro com o casal que queria comprar a casa. Vesti-me às pressas e dirigi até o restaurante onde havíamos combinado o encontro. Felizmente, eles ainda me esperavam. Desculpei-me, almoçamos e pudemos, enfim, acertar os detalhes finais do negócio.

De volta ao hotel, o moço da recepção me informou que alguém me aguardava e apontou para o sofá ao lado. Virei-me, com a certeza que veria Milena. Mas o que vi foi um velho de terno e chapéu brancos.

Fui até lá, e antes que eu dissesse qualquer coisa, ele levantou-se calmamente e saiu do hotel. Segui-o e passamos a caminhar pela rua lado a lado, em silêncio. Ele queria passear comigo, pensei, como dois amigos fazem num fim de tarde. Eu, porém, queria tanto falar do dia anterior, saber dos bichinhos…

Então chegamos à pedra do Cruzeiro, um conjunto rochoso muito visitado por turistas em busca de uma vista panorâmica da cidade. Quando criança, eu adorava subir até o topo, mais de cem metros de altura, e lá me entretinha durante séculos com a paisagem. Seo Pepeu parou, olhou lá para cima, ajeitou o chapéu na cabeça e começou a subir por uma das trilhas. Pensei em protestar, não estava nem um pouco a fim de me cansar, mas não ousei falar nada, apenas segui-o.

Seo Pepeu subiu com espantosa agilidade, sem dar sequer um passo em falso. Eu, ao contrário, escorreguei várias vezes e estive a ponto de desistir. Felizmente, ele parou antes de chegarmos ao topo e pouco depois eu o alcancei, e sentei numa pedra para descansar. E só então foi que percebi a paisagem. Dali, boa parte da cidade se mostrava para nós, e lá longe, por trás dos montes de pedra que a circundavam, o sol poente enchia o céu de tons de vermelho, amarelo e laranja. Eu havia esquecido de como aquela visão era magnífica. Enquanto as nuvens lentamente trocavam de desenhos e o céu mudava de cor, senti-me como se estivesse fora do tempo…

– Você vai ficar com eles depois que eu for, não vai?

A voz de seo Pepeu…

– Com eles quem? – perguntei, meu olhar vagando pelo horizonte.

– Os bichinhos. Olhe, não pode se atrasar não, venha no dia que chamarem.

Os bichinhos, claro. Por um instante, ou teriam sido séculos?, eu havia esquecido deles.

– Que bichinhos são esses, seo Pepeu? ‒ indaguei, olhando para ele. Seo Pepeu, em pé, ao meu lado, também olhava para o horizonte.

– Deram pra eu criar, faz tempo. Um é o bichinho escondedor, gosta de esconder e encontrar as coisas, é danado que só.

– E o outro?

– É o bichinho alcoviteiro. Ele gosta de brincar com as pessoas, faz elas se perderem e se encontrarem. São pequenininhos, mas sobem em tudo que é canto. E gostam muito de chocolate.

Bichinho escondedor e bichinho alcoviteiro. Um que encontrava objetos, outro que fazia pessoas se encontrarem… Aquilo era absolutamente incrível. Continuei como estava, sentado na pedra, o olhar lá longe, além do tempo…

– Foi o bichinho alcoviteiro que fez sua mãe casar com seu pai, sabia?

– Como assim?

– Seu pai era moço festeiro, queria compromisso não. Então o bichinho fez ele encontrar com ela na rua sete dias seguidos em sete lugares diferentes.

Sorri, espantado. Aquilo era uma novidade.

– E quem lhe deu os bichinhos pra criar, seo Pepeu?

– Posso dizer não. Nem você vai poder dizer quem lhe deu. E vão ficar com você até o seu dia, viu? Quando você se for, eles voltam pra dentro da casinha deles e de lá só saem pras mãos do novo dono. E não pode ser mulher.

– Eles não gostam de mulher?

– Mulher ia usar pra fazer mal com a outra. E eles querem só brincar, fazer arte com o povo.

– Outra pessoa pode ver os bichinhos?

– Não. Eles estão sempre escondidos por trás das coisas.

A voz de seo Pepeu chegava lentamente aos meus ouvidos e se misturava à paisagem. De repente, tudo era uma coisa só, o sol se pondo, as pedras, o céu avermelhado e as palavras de seo Pepeu. O tempo passado e o tempo presente finalmente davam-se as mãos. Tudo fazia sentido.

– Tem uma coisa – ele continuou. – Os bichinhos não gostam nem de gato nem de padre.

– Por quê?

– Gato pode ver eles, eles não gostam. E padre deixa eles tristes.

– E eles falam com o senhor?

– Eu sei o que eles pensam. Com o tempo você vai saber também.

– E por que o senhor escolheu logo a mim?

– Eles que escolhem. Quando você chegou, eles me avisaram.

– E se, por acaso, eu não servir pro negócio?

– No dia que eles não tiverem mais dono, tudo vai parar.

– Como assim?

Ele não respondeu.

– Como assim tudo vai parar, seo Pepeu?

Virei-me e vi que ele já descia a pedra, enquanto minha pergunta era levada pelo vento.

Voltamos em total silêncio. Ao fim da descida, seo Pepeu seguiu por uma rua, sem olhar para trás, e eu segui por outra, voltando ao hotel. Sentia-me em paz, como alguém que finalmente encontra algo que havia muito procurava sem saber que procurava.

AVertigem-01Na segunda-feira pela manhã, do escritório, liguei para minha mãe e contei da caneta, do encontro com Milena e do que seo Pepeu falara sobre ela e papai. Ela riu e disse que era verdade, sim, que um dia, quando era solteira, procurou um senhor que vivia no meio do mato. Era um tipo meio ermitão e diziam que possuía poderes mágicos. Ela foi lá e encontrou um velho estranho, mas gentil, e ela lhe pediu que fizesse meu pai se apaixonar por ela. O velho disse que isso não podia fazer, mas que faria algo parecido.

– Pois ele fez – prosseguiu minha mãe, rindo gostosamente. – Fez seu pai se encontrar comigo por vários dias seguidos. Ele ficou tão cismado que não teve como não prestar atenção em mim. Depois que a gente casou, contei pro seu pai, mas você sabe que ele não acredita nessas coisas.

– E a senhora pagou pelo serviço?

– Dei um chocolate, como seo Pepeu havia me pedido. Saiu barato.

E os bichinhos, eu pensava, como seriam? Gordinhos de tanto chocolate? Talvez não, seo Pepeu dissera que eram ágeis. Podia-se andar com eles no bolso? Como era a casinha deles? Eu pensava nos bichinhos e a todo momento me vinham novas utilidades como encontrar documentos perdidos, forçar encontros providenciais, conferir se tal pessoa estava mesmo em tal lugar…

E o medo deles de gatos, que estranho… Então os gatos viam mesmo coisas? E quanto aos padres? Presumi que os bichinhos não gostavam deles pelo fato da Igreja Católica ter um passado reconhecidamente perseguidor para com outras crenças. Quem sabe os bichinhos não guardavam lembranças traumáticas de outros tempos, de cruéis perseguições?

Seo Pepeu dissera que no dia que os bichinhos não tivessem mais dono, tudo ia parar. O que podia significar? Uma profecia sobre o fim do mundo? Ele dissera também que eu ficaria com eles somente depois que ele se fosse. Bem, pela saúde que seo Pepeu tinha, esse dia ainda demoraria, o que era ótimo, pois eu queria aprender tudo sobre o outro mundo.

– Tudo, tudo – falei para mim mesmo. E ri que nem uma criança feliz.

Eu não estava mais dividido. Seo Pepeu era real, os bichinhos eram reais. O mundo mágico estava de volta.

Antes de sair para almoçar, liguei para o casal que compraria a casa. Comuniquei, sem dar muitas explicações, que o negócio estava suspenso e que, se fosse o caso, depois eu entraria em contato com eles. Desliguei o telefone e estiquei as pernas, relaxado e aliviado. De repente, vender aquela casa era algo que não fazia muito sentido. Talvez não fosse má ideia mantê-la alugada. Talvez, quem sabe, um dia eu cansasse da capital e voltaria a morar em Quixadá. Sim, por que não? Esquecer aquele negócio de mercado de ações e levar uma vida mais calma, sem tantas preocupações com lucros. Quem sabe com Milena. Por que não?

Então a secretária me tirou de meus devaneios, avisando que havia uma ligação para mim. Atendi. Era dona Necy. Ligava para avisar que seo Pepeu morrera na noite anterior. Ele estava bem, ela disse, havia feito seu passeio de fim de tarde e jantado normalmente. Morrera dormindo. O enterro seria à tarde.

Demorei alguns minutos até conseguir fazer algo. Seo Pepeu morto… Não parecia real. Não podia ser real, ele ainda tinha tanto a me ensinar…

Cancelei os compromissos da tarde, peguei o carro e mandei-me para Quixadá. Dirigi a toda velocidade, mas quando cheguei ao cemitério, o caixão já havia descido e dois homens o cobriam de terra. Havia pouca gente presente, só dona Necy e alguns familiares. Fiquei arrasado, pois queria ter visto seo Pepeu uma última vez.

– Ele gostava de você – dona Necy me falou, enxugando uma lágrima.

– Eu também.

– Acho que Pepeu pressentiu que ia morrer, pois ontem, antes de dormir, pediu pra lhe entregar uma coisa.

Dona Necy abriu sua bolsa, tirou um pequenino baú de madeira e me entregou.

– Ele guardava isso com muito cuidado, desde quando morava em Caiçarinha.

Segurei o bauzinho com as duas mãos, sentindo seu peso.

– Parece que tem alguma coisa dentro, mas eu não sei o que é. Pepeu me pediu pra eu entregar pra você sem abrir.

– Obrigado.

– Vamos agora lá pra casa tomar um café. Venha com a gente.

– Infelizmente não posso, dona Necy. Tenho que voltar logo pra Fortaleza.

Despedimo-nos e saí. Alguns minutos depois, eu estava na estrada, voltando para a capital. Dirigia tomado por uma mistura de tristeza, excitação e medo, e a todo instante olhava de canto de olho para o bauzinho de madeira no banco do passageiro.

Chegando em casa, pus o bauzinho sobre a cama e sentei ao lado. Minhas mãos tremiam e o coração batia descompassado. Uma gota de suor deslizou por meu rosto. Lá fora a tarde ia embora, e pela janela pude ver o céu começando a escurecer, anunciando a noite da cidade grande, tão diferente da noite do sertão. Dentro daquele pequeno baú estava a prova da existência do outro mundo, o mundo mágico que sempre existira, mas que eu um dia preferi esquecer. Bastava abri-lo e libertar os bichinhos.

Peguei o bauzinho e movi a tampa para cima, bem devagar. De repente, por um instante, surgiu na lembrança aquele terrível poço da minha infância… E imediatamente senti a vertigem me abraçar, novamente ela, a mesma vertigem. Interrompi o movimento, baixei a tampa e respirei profundamente. Está tudo bem, falei para mim mesmo, enquanto esperava a vertigem passar. Alguns minutos depois, quando me preparava para abrir de novo, uma pergunta surgiu em minha mente. E se… nada houvesse lá dentro?

Quando a noite veio, ela e sua escuridão, eu continuava lá, sentado na cama, o bauzinho ao lado. E a pergunta não calava em meu pensamento. E se nada houvesse lá dentro?

A madrugada chegou, ela e seu silêncio, e lá estava eu no mesmo lugar. Aquela pergunta não me deixara dormir. Nem dormi e nem tive coragem de abrir o bauzinho.

Quando amanheceu, guardei-o numa gaveta do armário e fui trabalhar. Esforcei-me como nunca para me concentrar no serviço, mas não consegui. Quando voltei para casa, a primeira coisa que fiz foi tirar o bauzinho da gaveta. Botei-o novamente sobre a cama e jurei para mim mesmo que daquela vez eu o abriria, eu precisava abri-lo e acabar de vez com aquela tortura. Sim, eu precisava fazer isso. Mas… e se nada houvesse lá dentro?

É a pergunta que me faço até hoje, cinquenta anos depois, quando cai a tarde e tiro o bauzinho da mesma gaveta, e sento na mesma cama do mesmo apartamento, tudo o mesmo. E se nada houver lá dentro?

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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Cristiano Pinho – Sertão Noturno
Trilha sonora do conto A Vertigem

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Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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LEIA NESTE BLOG

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Um cara que acabou de acordar – Por isso esse olhar de quem ainda não entendeu,  esse clima de Morfeu, essa preguiça de explicar

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Comentarios01COMENTÁRIOS

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01- Acabei de ler o conto sobre a loucura, do seu Pepeu. Pois saiba que eu segurei o ar por alguns instantes no final, achei muito legal. Vera Sabóia, Fortaleza-CE – jul2005

02 – Que o Seo Pepeu guie seu coração e a vc todo mesmo, ‘treim-rúim’, pelo túnel do irresistível-selvagem-charme da insanidade e lhe mostre a luz no fim! …que tire as tentações do caminho e lhe dê a paz! aaaaaaaaaamééémmmmmmmmm! Patrícia Rochael, Goiânia-GO – mar2007

03- Gostei muito, muito mesmo!!!Adorei! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – fev2015

04- Ricardo Kelmer, esse sempre foi um dos seus contos de que mais gosto. Muito bom mesmo!, Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – fev2015

05- Ricardo Kelmer, perfeito! Ana Velasquez, Altamira-PA – fev2015

06- Este livro é um dos melhores que conheço! Além do “Seo Pepeu”, tem outros contos alucinantes! Grande Ricardo Kelmer!!!- Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – fev2015

07- Eu amo Ricardo Kelmer. No bom sentido, macho réi. Você tem talento e um papo com você nos aproxima do tudo. Do ser inteligente que sabe combinar vida, pessoas, coisas, animais e o mundo de dentro e de fora de tudo. Nonato Albuquerque, Fortaleza-CE – fev2015

08- Esse é o conto preferido do Roman Peter Ciupka Junior, né não? Marcelo Gavini, São Paulo-SP – fev2015

09- Opa ! Fala seu Kelmer ! Lembrei que tinha lido esse conto ( muito bom !)la no seu livro ” Guia de sobre … ” … Acho que eu nunca comentei contigo mas esse conto tem um Q de ” Alem da Imaginaçao” … Luciano Hamada, São Paulo-SP – fev2015

AVertigem-01a


Quando os homens não voltam para casa

18/01/2013

19jan2013

QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1.

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bJavier Viegas é tarólogo e resolve problemas do Além. Dessa vez uma moça deseja reencontrar o namorado que foi atraído por uma bela princesa para dentro de um quadro de parede.

Mistério, sobrenatural.

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

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QUANDO OS HOMENS NÃO VOLTAM PARA CASA

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OI, LU… Por favor, leia a carta com atenção. Você é a única pessoa em quem confio. Saiba que, apesar de tudo, ainda amo você. Beijos. Junior.

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Luciane leu o bilhete intrigada. Já fazia uma semana que não tinha notícia do namorado. No escritório avisaram que ele não ia lá fazia três dias, os porteiros do prédio não sabiam dele e seu telefone não atendia. No início, pensou que Junior se chateara com a discussão que tiveram e resolvera dar um tempo. Mas aquele sumiço não fazia sentido.

Então decidira falar pessoalmente com ele. Entrou no apartamento com a chave extra que possuía. Nada viu de anormal, estava tudo em ordem. Sobre a cama, encontrou o bilhete, e ao lado, o quadro que ele tanto gostava, a princesa sentada num banco à entrada de um bosque, o mesmo quadro que originara a fatídica discussão. Nunca viu nada demais naquele quadro, mas Junior nutria por ele uma tal admiração que ela simplesmente não entendia. Pôs o bilhete de lado e começou a ler a carta.

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A margem de um lago, um pequeno ancoradouro e um bote amarrado. Um caminho que sai do ancoradouro e penetra o bosque, por entre as árvores. Logo à entrada do bosque, um banco de madeira e uma princesa muito bonita, em trajes medievais, olhando triste para a curva do caminho, como se aguardasse alguém que de repente surgirá vindo do bosque…

Encontrei o quadro numa loja de usados e gostei dele de cara. A princesa me passava uma ternura tão grande… E havia a sensação de familiaridade, era como se eu a conhecesse de algum lugar, de algum tempo. Levei o quadro e pus na sala. Você deve lembrar desse dia: eu mostrei, você olhou e riu, e disse que princesas sempre fizeram o meu tipo, e que se acaso eu encontrasse uma pela frente, não pensaria duas vezes e lhe trocaria por ela. Lembra?

Primeiro, pus o quadro no corredor, para olhar sempre que eu passasse. Depois, trouxe para o quarto e deixei ao lado da cama, para que eu adormecesse olhando para ele. Várias vezes tentei lhe dizer do quanto o quadro me fascinava. Mas você apenas zombava dos meus comentários.

Para mim, aquela princesa estava presa no bosque. Ela era triste e passava os dias sozinha, chorando de saudade de seu país. Mas havia um leve brilho de esperança em seus olhos: ela esperava pela chegada de um cavaleiro que a libertaria. Ele viria do bosque e surgiria na curva do caminho. Ele a pegaria pela mão e juntos tomariam o bote que os levaria rumo ao país da princesa. Enquanto isso não acontecia, ela aguardava cantando uma canção melancólica que se espalhava pelo bosque e um dia chegaria aos ouvidos de seu libertador.

À noite, eu acariciava o quadro como se isso pudesse amenizar o sofrimento da princesa. Tirava o vidro, passeava a ponta dos dedos por sobre o papel e quase podia sentir o relevo das árvores, a água do lago, a pele dela, o cabelo…

Então, uma noite tive um sonho. Eu estava no bosque e seguia pelo caminho entre as árvores. Estava à procura da princesa e precisava muito encontrá-la antes que anoitecesse. E só havia um jeito: guiar-me por sua canção. Mas ventava muito e a voz dela se perdia nos ventos. Tentei muitos caminhos, sabia que ela estava perto, podia sentir sua presença… mas não a encontrei. Começou a ficar escuro e eu tive medo de me perder no bosque. Então, lamentando muito não tê-la encontrado, voltei.

Acordei no meio da noite chorando. O sonho ainda estava presente no quarto e eu podia sentir o vento, ainda ouvia os ecos da canção triste. Eu estivera tão perto… Ela estava ali, em algum lugar… e eu não soube encontrá-la. Não fui bom o bastante para ser seu cavaleiro – era isso o que mais me doía.

No outro dia nem fui trabalhar, impressionado com a força do sonho. Contei para você, lembra? Pela primeira vez você escutou com atenção e, então, falou que eu já estava exagerando, e que se continuasse assim, ia ficar doido. Você levantou com o quadro na mão e saiu, dizendo que ele era de mau gosto e que ia jogá-lo no lixo.

Alcancei você na sala. Avancei e puxei o quadro de sua mão, mas ele escapou e caiu. E espatifou-se no chão. Quando vi os pedaços de vidro espalhados, fiquei transtornado, uma dor imensa no coração. Tentei juntar os pedaços e você se abaixou para me ajudar, pedindo desculpas. Mas eu lhe empurrei, com raiva, e disse que dispensava sua ajuda. Você ficou olhando para mim, assustada. Certamente devia achar que eu não estava bem da cabeça ou, então, pela primeira vez teve um vislumbre do quanto aquele quadro era importante para mim. Não sei, afinal não conversamos mais. Você bateu a porta com força e foi embora.

No dia seguinte, inventei uma desculpa e novamente não fui trabalhar, não conseguiria me concentrar. E à noite tive o segundo sonho. Estava de novo no bosque e a cantiga da princesa me chegava por entre os ventos. Ela estava mais perto que na noite anterior… Eu queria prosseguir, mas já estava escuro e eu tinha medo de ficar perdido no bosque para sempre. Dividido nessa dúvida mortal, decidi voltar, uma dor me dilacerando a alma por mais uma vez deixar a princesa sozinha.

Como da outra vez, despertei logo, tão triste que suspirava. Por alguns instantes, o quarto pareceu ser o bosque, tão real que quase toquei as folhas no chão. Rapidamente, tomei o quadro no peito, como se faz com alguém que a gente gosta tanto que tem vontade de trazer para dentro de si. Apertei a princesa contra o peito enquanto fazia força para que o sonho não fugisse. E por alguns instantes deu certo: toquei um galho, segurei-o… Mas logo o bosque sumiu e eu estava de volta ao meu quarto, eu e minha enorme tristeza. Então, falei para a princesa ser forte e aguardar só um pouco mais, eu logo a encontraria. E foi com esse pensamento que adormeci, esperançoso de que o sono me conduzisse de volta ao bosque.

Mas não voltei. Acordei pela manhã decepcionado, sem ânimo nem para comer. Não fui trabalhar. Trabalhar como, sabendo que ela ainda estava lá, sozinha naquele bosque?

Sem conseguir pensar em outra coisa, saí para dar um passeio. Olhando para o lago do parque, escutei a voz da princesa. Estava distante, eu quase não ouvia. Mas ela era sim. Fiquei radiante: aquilo era um sinal. Então, voltei para casa com a certeza de que à noite eu a encontraria.

Já é madrugada e estou com sono. Logo mais estarei com a princesa e a levarei de volta a seu país. Não se preocupe comigo, eu voltarei.

Junior

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Luciane continuou olhando para o papel. Tentava organizar as ideias, mas todo o seu pensamento era um emaranhado de interrogações girando sem parar. Que diabo afinal estava acontecendo?

De fato, no início não ligara. Com o tempo, no entanto, o interesse de Junior pelo quadro lhe botou uma pulga atrás da orelha. Mas nem de longe imaginou que a coisa pudesse chegar a tal ponto. Lembrou que nos últimos tempos ele andava mais quieto e pensativo, questionando coisas e com considerações filosóficas a respeito da vida. Talvez houvesse faltado um pouco mais de tato de sua parte para entender o que se passava. Ele dizia que precisava ficar sozinho mais tempo, e ela considerou que ele não mais a queria. Talvez não fosse nada disso. Talvez ele ainda a amasse mesmo.

Aqueles dias longe dele serviram para rever algumas ideias. Pediria desculpas e tentaria ser mais compreensiva, afinal ela o amava muito e não imaginava a vida sem ele. Claro que ele também tinha seus defeitos, mas primeiro era preciso não perdê-lo, isso agora era o mais importante. Por esse motivo, resolvera procurá-lo.

Mas agora, aquela carta… E se ele estivesse lhe aprontando uma brincadeira?, pensou, subitamente irritada. Sim, Junior bem seria capaz disso. Ela ali preocupada e ele em algum lugar por aí, rindo de sua cara. É, ele estava lhe aprontando alguma. E ela fazendo papel de boba, perdendo tempo com os delírios de um cara metido a cavaleiro garboso e sua princesa casadoira. Conheceu outra mulher e agora inventava aquela palhaçada, era isso. Pois se quisesse, que a procurasse para esclarecer a situação. Tinha mais o que fazer.

E foi embora, batendo a porta.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1ELE, PORÉM, NÃO A PROCUROU. Os dias seguiram e a indefinição a deixava nervosa. Estava com saudades. E muito preocupada. Aquela carta não fazia sentido. E ainda havia a questão do trabalho: ele faltava já fazia uma semana, os colegas também estavam preocupados.

Voltou ao apartamento três dias depois. Estava decidida a chamar a polícia. Foi até o quarto e pegou o quadro sobre a cama. Então, percebeu algo tão estranho que teve de tapar a boca para não gritar. Ali, no quadro, no exato local onde o caminho fazia uma curva para entrar no bosque, ali havia uma nova figura, uma pessoa que não estava lá da última vez. E, olhando bem… era Junior.

Luciane largou o quadro sobre a cama. Um medo gelado lhe subiu a espinha. Olhou novamente o quadro. Havia mesmo um detalhe novo na paisagem, havia alguém vindo de dentro do bosque em direção à princesa. A imagem não estava nítida, mas era uma pessoa. E o rosto parecia com o de Junior, o formato, o cabelo, os olhos… Ou será que aquela pessoa sempre estivera ali? Não, impossível.

Luciane fechou os olhos e disse para si mesma, mentalmente: Junior está dentro desse quadro. Ao mesmo tempo em que resistia à ideia, sentia seu pensamento sendo atraído para ela. Junior estava naquele quadro, podia sentir isso. E quanto mais se deixava envolver pela ideia, mais absurda ela se tornava.

Olhou novamente. E se fossem dois quadros? Em sua brincadeira, Junior bem poderia ter substituído o primeiro quadro por aquele segundo. Mas não, não. Por que ele se daria ao trabalho de fazer tudo aquilo, por quê? Não fazia sentido.

Decidiu dormir no apartamento. Estava com medo, mas precisava descartar a hipótese de que seu namorado lhe pregava uma peça, ele que sempre fora muito brincalhão. Dormindo ali, talvez o surpreendesse chegando para trocar o quadro novamente. Precisava tentar.

Não conseguiu dormir de tanta ansiedade. Levantou assim que o dia clareou. A primeira coisa que fez foi pegar o quadro. E lá estava a mesma pessoa chegando pelo caminho – dessa vez, no entanto, a imagem estava mais nítida. Não havia dúvidas: era Junior sim. E ele estava bem próximo da princesa, quase tocando-a.

Luciane olhava o quadro impressionada. Da noite para o dia os contornos da figura adquiriram maiores detalhes, como se alguém houvesse retocado o quadro. Não havia engano: aquele era seu namorado… vestido feito um cavaleiro medieval.

– Junior… – murmurou, enquanto acariciava o quadro. – Junior, você está aí?

De repente, deu-se conta do que fazia e começou a chorar. Chorou pelo namorado cujo paradeiro desconhecia, e também pela possibilidade de estar sendo vítima de uma bizarra brincadeira. E chorou, principalmente, pelo medo de tudo aquilo ser verdade.

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A MOÇA DO BALCÃO suspendeu os olhos do livro que lia e olhou para Luciane.

– Bom dia. Meu namorado comprou este quadro aqui mês passado. – Luciane tirou o quadro da mochila. – Foi você quem vendeu pra ele?

– Estou lembrada, fui eu mesma. Algum defeito?

– Não, não é isso. É que… bem… Você lembra se o quadro tinha esse detalhe aqui, esse cavaleiro?

– Como assim?

– Tente lembrar, é importante.

– Não estou vendo nada de errado nele.

Luciane suspirou. Não ia ser fácil.

– Moça, eu sei que você não vai acreditar, mas…  Olha, eu tenho fortes motivos pra acreditar que meu namorado… caiu dentro desse quadro. – Pronto, falara. Estava dito. – Ele é esse cavaleiro que está vindo pelo caminho…

A atendente olhou para o quadro, e depois para ela. Viu o rosto cansado de Luciane, a expressão angustiada.

– Seu namorado… caiu dentro do quadro?

Luciane sentiu que ia chorar novamente. Controlou-se e tentou falar, mas não conseguiu. Sentia-se totalmente ridícula. A atendente continuava observando-a. A situação toda era absurda, irreal. Então, compreendeu que era inútil, estava fazendo papel de louca.

– Esqueça o que eu falei – ela disse, pondo o quadro de volta na mochila. – Não devia ter vindo aqui.

Quando se preparava para deixar a loja, um homem surgiu, vindo da sala ao lado.

– Por favor, não vá.

Luciane virou-se e viu um sujeito baixo, moreno, barrigudo. Vestia jeans, tênis e camisão estampado por fora da calça. Devia ter seus cinquenta anos. O homem tinha um olhar forte, mas amigável.

– Se não for incômodo, gostaria de ouvir sua história.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1A PEQUENA SALA tinha uma luminosidade suave que vinha de um vitral colorido na janela. No ar pairava um suave cheiro de incenso. Havia objetos antigos como baús, candelabros e estatuetas, muitos livros numa estante de madeira e belos quadros pelas paredes.

Luciane sentou-se numa cadeira que parecia ter quinhentos anos de idade. Reparou no homem que sentava do outro lado da mesa. Tinha trejeitos femininos. E falava com sotaque espanhol. Olhos negros, olhar amável. Era calvo na frente, mas atrás o cabelo descia numa trança até o meio das costas. Figura exótica.

A atendente entrou trazendo uma bandeja.

– Chá de capim-santo, querida – o homem falou. – É bom pros nervos. Obrigado, Ana Isaura. Agora pode nos deixar a sós, está bem? Não atendo ninguém.

– Dona Carlota tem consulta às seis, seo Javier.

– Desmarque, mulher. Diga que minha vó menstruou e que eu saí correndo pra lá. Passar bem.

Luciane riu. Exótico e gozador.

‒ Ana Isaura começou mês passado, ainda não entrou direito no clima desse negócio. Tenho essa loja de usados, meu anjo, mas também dou consulta de tarô. E resolvo outros babados. Nunca ouviu falar do tarô do Javier?

Tarô do Javier… Onde se metera?

– Você deve estar se perguntando, onde que eu fui parar, minha Virgem, não é? Mas não se preocupe, veio ao lugar certo, eu vou ajudá-la. Vamos lá, me conte essa história direito.

Luciane pesou a situação. Certamente se tratava do maior charlatão do bairro. Aquele sotaque espanhol devia ser puro golpe de marketing. A trança enorme nas costas, o jeitão de bicha… Vai ver nem era bicha, era tudo marketing. E a túnica branca, por que não usava? Certamente para não ficar estereotipado demais. Aquela gente sabia como fazer a coisa. Bem, não custaria nada contar para ele. Para quem mais, afinal?

Então, contou que Junior comprara o quadro ali e que se afeiçoara exageradamente a ele. Falou da crise por que passava a relação, da discussão por conta do quadro e que depois ficaram sem se falar por uns dias. Javier escutava atento.

– Uma semana depois, como ele não atendia o telefone, fui até lá. E só encontrei esse quadro. Quando voltei no outro dia, Junior começou a aparecer na paisagem, vestido de cavaleiro… – ela falou e sorriu sem jeito, nervosa, esperando que Javier sorrisse também. Mas ele continuou compenetrado, olhando em seus olhos. – E aqui estou eu.

Não falara da carta. Proposital. Queria ver até onde o sujeito era mesmo bom naquelas coisas.

– O que você acha que pode ter acontecido? – ele perguntou.

Ele queria saber qual a sua própria expectativa, raciocinou Luciane. Sabendo isso, jogaria de acordo. Gente esperta.

– Pra ser sincera, não sei mesmo.

Javier pediu o quadro. Ela tirou da mochila e entregou.

– Hummm, bom gosto pra homem, heim?…

Ele segurou o quadro com as duas mãos e fechou os olhos. Por um tempo assim ficou, a cabeça reclinada para trás, num movimento circular e vagaroso, respirando fundo. Ela acompanhava com atenção seus movimentos. Sentiu vontade de rir, mas se controlou. Quando tudo se resolvesse, Junior iria lhe pagar direitinho aquele ridículo todo, ah, iria sim, o cretino.

Javier abriu os olhos.

– Babado fortíssimo, meu anjo.

– Heim?

– Olha, não deu pra ver os detalhes, mas fizeram coisa bem feita com seu namorado.

– Uma mulher?

– Mulher. Mas não deu pra ver de quem se trata.

– Taí, não sabia que eu tinha uma rival… – ela ironizou. E não teve como evitar a lembrança de algumas amigas, umas certas colegas de escritório dele… Mas não, aquele papo era conhecido. Agora o charlatão ia dizer que podia desfazer o feitiço e que cobrava tanto, mas, como simpatizou com ela, deixava por tanto…

– Essa moça é poderosa.

– Eu conheço?

– Talvez. Mas é uma velha conhecida dele.

– E o que vai acontecer?

– Ele parece que está enfeitiçado. É como se estivesse sendo atraído por ela.

Luciane lembrou da canção triste da princesa…

– Ela deve ter atraído seu namorado com este quadro. Ele veio aqui e comprou, levou pra casa. Crau! Mordeu a isca direitinho.

– Mas onde ele está agora?

– O quadro está mostrando, meu amor. A princesa representa a mulher que jogou o feitiço nele. Ele já a encontrou.

– Você quer dizer que esse cachorro está me passando um chifre por aí? – ela falou sorrindo, tentando mostrar que aquilo não a afetava. Mas se descobriu verdadeiramente irritada com a tal hipótese. Talvez aquela priminha dele que vez em quando vinha para a cidade…

– Em outras palavras… é isso mesmo.

– Mas que diabo de mulher é essa que faz um homem largar casa, trabalho, se mandar, não avisar ninguém?…

– Babado forte, meu anjo, já falei. Não crê em bruxa?

– Não.

– Pois elas existem.

Ele só podia estar inventando tudo aquilo. Mas como explicar o que acontecia com o quadro?

– Claro que você tem o direito de desconfiar de tudo que estou falando, meu bem. Acontece que enquanto você desconfia, a rival ganha terreno.

Ele pôs o quadro sobre a mesa.

– Javier, eu não sou a pessoa mais cética do mundo, pode ter certeza. Mas você há de convir que essa história parece mais uma grande loucura.

– Se é loucura, o que você está fazendo aqui?

O tom de voz dele tornara-se mais sério. O olhar agora era grave.

– Muito bem. Digamos que eu acredite. E agora?

– Agora você me faz um cheque de mil reais e podemos começar. Normalmente eu cobro dois. Mas simpatizei com seus olhos…

– Mil reais?! De jeito nenhum.

– Se você acha que seu namorado não vale isso…

– Talvez não. E se eu não tiver esse dinheiro?

– E não tem como arrumar?

– E se arrumar? Que garantia tenho de que vai dar certo?

Ele se inclinou para frente e seu olhar mudou novamente. Tornou-se mais manso e envolvente. E ela podia senti-lo feito suaves ondas… que iam e vinham dentro de seus próprios olhos…

– Vai dar certo, meu anjo.

– E se por acaso não der? – As ondas iam e vinham, iam e vinham… formando um balanço agradável… inebriante… sonolento… – Você me devolve o dinheiro?

– Eu não falho, minha querida.

Por um instante, quase se deixou levar por aquele vai e vem… Mas, subitamente, uma forte vontade se manifestou e agitou seu pensamento, pondo-a em terra firme. A sonolência sumira.

– Isso não é garantia, Javier, você sabe disso.

Ele encostou-se de volta na cadeira. Pousou os cotovelos nos encostos, juntou as mãos sobre a barriga e cruzou os dedos. Encarou-a por alguns segundos, gravemente. Já não havia ondas em seu olhar.

– E você dizendo que não acredita em bruxas…

– Como?

Impressão ou ele tentara hipnotizá-la?

– Quantos anos você tem, Luciane?

– Vinte e sete.

– Você é nova. Se quisesse, podia ser ainda uma grande bruxa. O que tem de gente precisando de serviço. Você tem jeitão, é forte… Mas sem essas ombreiras, meu anjo, por favor. Não lhe caem nada bem. Se quiser, posso ser seu estilista, você me dá dez por cento do que faturar, que tal? Estilista de bruxa. Chique.

– Eu só quero meu namorado de volta.

– Encontrei pouquíssimas mulheres com sua força. E olhe que eu já rodei muito.

– Você é desses que se aproveitam do desespero das pessoas, Javier?

– Só cobro dos que podem pagar.

– Se posso ou não, não vem ao caso. O que estou discutindo é a garantia de seu serviço.

Ele sorriu.

– Você ganhou, sorcière. Não precisa pagar nada agora. Mas se seu namorado voltar, quero mil e quinhentos.

– Mil e duzentos.

– Mil e trezentos. É pegar ou largar.

Luciane sentia-se ridícula. Aquilo não estava acontecendo. Negociando com um charlatão a volta da pessoa amada…

– Combinado.

– Sábia decisão  – ele falou, e levantou da cadeira, apontando o quadro. – Eu vou entrar hoje mesmo. E vou trazê-lo de volta.

– Vai entrar no quadro?

– Já entrei em muitos. Seu namorado não é o primeiro a cair nessa história. Mas vamos logo ao que interessa. – Ele caminhou até a porta. – Traga o quadro.

– Vamos aonde?

– Ao local do crime, lógico. – Ele abriu a porta e saiu. Ela o acompanhou. – A energia do babado ainda deve estar por lá. Vou ter de dormir uma noite no apartamento do seu namorado. Ana Isaura, vou sair mais cedo, pode fechar. Até amanhã. – Virando-se para Luciane, falou baixinho: – Você devia pensar melhor sobre ser uma bruxa…

– Não estou interessada.

– Que desperdício, meu anjo Mikael, que desperdício…

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1ERAM OITO HORAS quando chegaram ao apartamento. Javier entrou no quarto e procedeu como na loja: fechou os olhos e girou a cabeça, concentrando-se. Luciane observava da porta, aquele quarto lhe dava calafrios. Por um instante, ainda considerou a hipótese de desistir. Mas já havia ido longe demais.

– O portal é exatamente aqui, neste quarto – disse Javier após abrir os olhos. – Olha, vou precisar de treze velas brancas. Novas, viu? O supermercado ainda está aberto. Vou dormir no quarto, você na sala. Se quiser, pode comer alguma coisa, eu vou dormir de barriga vazia.

– E o quadro?

– Dorme comigo. Não se preocupe, vou encontrar seu namorado e ele vai voltar pra você, lindo e maravilhoso.

Meia-hora depois, Javier foi ao banheiro e trocou de roupa. Despediu-se dela e foi para o quarto, levando o quadro e as velas.

Luciane deitou no sofá da sala e manteve-se atenta. Mas não escutou nenhum som vindo do quarto. O que aconteceria? Estava exausta, os olhos pesando de tanto sono. Talvez a vizinha de baixo, talvez… O idiota bem seria capaz de se enrabichar por um tipinho daquele. Ou aquela caixa da farmácia…

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O BARULHO DO TRÂNSITO, as buzinas, os ônibus passando… Luciane despertou assustada, a claridade da manhã entrando pela fresta da janela. Eram nove horas. Dormira profundamente, como havia dias não o fazia. Levantou do sofá e correu para o quarto. Abriu a porta e não viu ninguém. No chão estavam as velas derretidas. Sobre a cama, o quadro. Aproximou-se. E viu Junior. Sentado no banco, ao lado da princesa, segurando-lhe as mãos.

– Bom dia, princesa…

O susto foi tão grande que ela tropeçou nas próprias pernas e caiu, gritando.

– Meu São Sebastião flechado, mas pra que esse escândalo, criatura? – Javier estava à porta do quarto, enxugando o rosto com uma toalha. ­– Eu, heim… Depois bicha é que é escandalosa.

– Cadê o Junior? O que aconteceu?

– Primeiro, se acalme. O mundo vai acabar mas não é hoje. O que acabou foi o papel higiênico do banheiro. Melhor providenciar.

– Já estou calma – disse ela, levantando-se.

– Vamos tomar um café que eu tenho algo muito importante pra lhe falar.

 

 

– ME ENGANEI. Isso não é coisa de gente desse mundo.

Sentado à mesa da cozinha, Javier tinha a expressão grave.

– Não?

– Eu bem que desconfiei ontem lá na loja.

– Do quê?

– A princesa perdida. Eu já soube de uns babados desses, mas nunca nenhum tinha caído em minhas mãos. Essa é a primeiríssima vez.

– Ainda não entendi – Luciane falou, servindo duas xícaras de café.

– Obrigado. Pois bem, a princesa perdida é uma princesa belíssima, a mulher mais bonita que já existiu. E olhe que entendo de beleza, já fui até jurado de concurso, sabia?

Luciane continuou séria.

– Ela é de um reino muito distante, que fica depois do lago. Um reino fora do tempo. E só um cavaleiro destemido pode ajudá-la a voltar pra casa.

Ela riu.

– Cavaleiro destemido, o Junior?! Você está brincando… Aquele frouxo morre de medo de altura.

– A princesa não o subestimou.

Luciane ficou séria novamente, lembrando da carta. Sentiu que não adiantaria muita coisa pensar em termos lógicos. Até ali se comportara como se estivesse no limite entre duas realidades, sem se decidir por nenhuma. Talvez fosse hora de se resolver.

– Essa princesa perdida, ela existe mesmo?

– Sim. Mas só pros homens.

– E por que diabo ela está fazendo isso com ele?

– Primeiro, porque ela precisa voltar pra casa, já lhe disse. E, depois, porque seu namorado se encantou com ela.

– Mas ele me ama.

– Não tem nada a ver com vocês, meu bem. É coisa dos homens.

– Aquele cachorro…

– Isso não é hora de briga. E eu não tenho vocação pra terapeuta.

– Francamente, cheguei ao fundo do poço. Ser trocada por uma princesa de papel…

– Ela é tão real quanto você, querida. Apenas vive no mundo dele, entende?

– Homem não presta mesmo! – Luciane continuava inconformada. – São todos uns fracos, não podem ver bunda se balançando na frente deles… Bunda de princesa então!

– Eu não acredito que a madona está com ciúmes.

– Ciúmes? Não seja ridículo, Javier…

– Pra ciúme, é salmo 115, viu? Sete vezes ao dia durante sete dias. Virada pra igreja de Éfeso.

Ela engoliu em seco a provocação. Estava com muita raiva e não tinha por que esconder. Se Junior não estava satisfeito com ela, por que então não a procurou antes para conversar? Mas não, saiu logo atrás da primeira que apareceu. Uma mulher de papel, do outro mundo, que ridículo.

– Diz que essa princesa tem uma voz lindíssima. Ela atrai os homens cantando, como as sereias.

– Além de princesa, cantora. Eu mereço.

– Mas tem um jeito de fazê-la parar de cantar.

– Qual é?

– Indo encontrá-la, pessoalmente. Exatamente como ele fez.

– Então chame de volta, Javier.

– Tsc, tsc. Agora não é hora.

– Por que não?

– Quando chega a hora do homem encontrar essa mulher, não se deve impedi-lo.

– Por quê?

– É uma velha lei do mundo da magia, meu amor. Não fui eu quem inventou.

– Leis existem pra serem quebradas.

– Essa eu não quebro, santa, não mesmo, olha o dedinho…

– Então o que fazemos?

– Nesse caso, nada.

– Ótimo. E ele vai ficar lá até quando?

– Não sei. Mas ele vai tentar levá-la de volta ao seu reino.

– Rola sexo nessa história? – Luciane perguntou, séria.

Javier riu.

– Estou falando sério, Javier.

– Vai depender dele.

– Então já deve estar rolando. – Ela se levantou, irritada.

– Pelo jeito, você não confia muito em seu namorado.

– Isso não é da sua conta.

– Devia se orgulhar dele. São poucos os homens que têm coragem de ir encontrar a princesa. E menos ainda os que conseguem levá-la de volta a seu reino. A maioria só quer sexo com ela. Esses, ela rejeita.

– E o que acontece com esses?

– Eles voltam e continuam os mesmos. Mas se o homem a olha além do desejo físico, ela o sagra cavaleiro de uma ordem muito especial. Ele volta outro homem, mais sábio, mais maduro.

Luciane pensou um pouco.

– Tenho que lhe mostrar uma coisa, Javier.

Ela mostrou a carta, envergonhada. Javier a leu em silêncio. Depois dobrou e entregou de volta.

– Por que você não me falou antes, dona cascavel? – ele perguntou, muito sério. – Teria me poupado trabalho.

– Desculpe. Eu só queria ver se você era bom mesmo. Agora vejo que é.

– Típico de bruxa. Bruxa que ainda tem muito que aprender. De qualquer forma, eu não posso trazê-lo de volta. Só podemos torcer pra que ele não fracasse.

– Vai ser uma torcida inútil.

– Não subestime os homens, meu anjo. Muitos partem com uma verdade e descobrem outras.

– Vou ter de ficar aqui torcendo pra que meu namorado seja forte o suficiente e resista a essa princesa? Acho muito difícil… Olha aqui a cara deles, parecem dois pombinhos apaixonados…

– Junior já deve ter sofrido um bocado com esse seu gênio, heim, menina?…

– Tenho o direito de ficar nervosa. E, além disso, estou pagando.

– Não vai mais pagar, meu bem. Ninguém pode ir lá buscar seu namorado. Aposto minha trança nisso.

– Que espécie de bruxo é você que não pode tirar um homem dos braços de uma princesa idiota?

– Ah, meu anjo, você ainda tem muito a aprender sobre magia…

– Pois me ensine. Agora quero aprender.

Javier a olhou num misto de riso e espanto.

– E pra quê, criatura louca? Não vai me dizer que é pra ir lá buscar…

– E eu poderia? – ela o interrompeu.

– Duvi-dê-o-dó. E mesmo que pudesse, eu não aconselharia.

– E se eu quisesse apenas observar?

– É arriscado.

– Por quê?

– É o mundo dela, só os homens vão lá.

– Pois eu quero ir.

Javier terminou de tomar seu café, levantou-se e lavou a xícara na pia.

– Desista, Luciane, é realmente muito arriscado.

– Eu assino um papel me responsabilizando, fique tranquilo. Apenas me diga o que tenho de fazer. Aí você cai fora e eu faço o resto.

Javier suspirou. Não era todo dia que se tinha o privilégio de ver uma bruxa daquelas em ação. No entanto…

– Quanto você quer, Javier?

Ele não respondeu.

– Eu lhe pago os mil e trezentos, está bem? E você me ensina como fazer.

– Não sei, acho melhor não facilitar…

– Mil e quinhentos.

Javier se assustou com a força das palavras dela. A bruxa enfim se revelava… Ele observou a mulher à sua frente, tão determinada que não duvidou que ela pudesse fazer mesmo o que tinha em mente. Mas o que poderia acontecer?

– Dois mil, Javier. Vai topar ou não?

Dois mil…, pensou Javier. Dava para passar quinze dias na praia comendo camarão. Bem longe daquelas loucas descabeladas atrás de homem. Mas que dia! Primeiro a princesa perdida, e agora uma bruxa ciumenta disposta a enfrentá-la, cara a cara, desrespeitar as sagradas leis da magia. Seria uma briga boa de se ver…

Mas não. Não estava disposto a patrocinar a quebra de uma lei tão forte, seu nome iria direto para o livro negro. Mas pensando melhor… também não precisava se arriscar tanto. Podia tão somente conduzi-la até o bosque, e ela que se virasse depois. Não era bruxa mesmo?

– Três mil – ele falou. – E nem pechinche porque não faço uma loucura dessas por menos.

– Combinado – Luciane sorriu, satisfeita. – Vou no banco pegar o dinheiro.

– Espera, criatura. Olha, só podemos agir à noite. Eu vou na loja e mais tarde nos encontramos aqui, tá? Mas você precisa ficar calma.

– Eu tô calma.

– Sente e olhe aqui pra lente da verdade. Aqui no meu olho, isso… – Ele a pegou pelos ombros, olhando fixamente em seus olhos. – Você me promete que não vai fazer nada, vai só assistir?

– Prometo.

– Não senti firmeza.

– Eu prometo. Juro.

– Se você desrespeitar as leis, não sei o que pode acontecer com você.

– Não vou fazer isso.

– Mostre que está ao lado de seu namorado, que confia nele. Assim como ele confiou em você, lhe contando essa história. Isso é importante. Você entende isso?

– Entendo.

– Entende mesmo?

– Sim.

Não, ela não entendia – percebeu Javier. Lógico que não entendia.

– Então pode trazer o dinheiro.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1OS DOIS DEITARAM na cama de Junior, o quadro entre eles. Eram dez horas da noite.

– Lembre-se, nós vamos despertar logo após o sonho, como Junior contou na carta. O portal vai estar aberto pro bosque, e assim que surgir, nós entramos. Se demorarmos, ele some.

– É tão fácil assim?

– Fácil?! Pelas doze pétalas! Claro que não, criatura! Esse portal só se abre uma vez na vida de um homem. E vai acontecer hoje de novo porque a energia do babado ainda está por aqui. Agora vamos dormir que a noite vai ser longa.

Ele ainda duvidava que uma mulher fosse capaz de entrar naquele mundo. Mas não custava tentar.

Luciane fechou os olhos. Magia, portais, criaturas do outro mundo, tudo isso a deixara bastante excitada. Era como se uma força nova, que jamais suspeitara possuir, houvesse de repente irrompido, e aquilo lhe proporcionava uma estranha e prazerosa sensação de poder. Javier alertara sobre o perigo, mas quem corria perigo era o seu namorado nos braços de uma princesa caçadora de homem. Ela, porém, Luciane, podia trazê-lo de volta. Tinha esse poder, sim, podia senti-lo como sangue correndo sob a pele.

Talvez Javier estivesse certo. Talvez fosse mesmo uma bruxa. Se era mesmo, saberia naquela noite.

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DESPERTARAM COMO JAVIER PREVIRA. Luciane abriu os olhos na escuridão do quarto. Estava ainda sonolenta, mas pôde ver perfeitamente as árvores do bosque… Pareciam sombras, mas… estavam ali, sim, as árvores estavam ali no quarto!

– Javier?…

– Não fale agora – ele respondeu baixinho enquanto saía da cama pelo outro lado. – Ande, levante.

Ela pôs os pés no chão e ficou de pé. A sensação era de sonho, mas podia sentir, pouco a pouco, a realidade concreta do quarto se apoderando de seus sentidos, de seu pensamento, como se a chamasse de volta…

Então, viu Javier tomando a trilha de terra entre as árvores e rapidamente o seguiu.

E foi como acordar. De repente, sentiu-se desperta. Estava no bosque, caminhando. Um silêncio tão grande, tão perfeito que metia medo. As árvores, o cheiro de mato… Era tudo real e, no entanto, era tudo meio nebuloso, como num sonho. Caminhava, mas não sentia bem o chão. Tocava as árvores, mas não as sentia inteiramente. Era como se seus sentidos estivessem anestesiados. O pensamento, porém, funcionava perfeitamente.

Não podia ser verdade, pensou. Devia ser alguma espécie de sonho…

– Pare de pensar, sua boba! Se continuar questionando, você automaticamente volta!

Javier estava pasmo: ela conseguira. O que uma mulher ciumenta não fazia…

– Onde está você, Javier? – Ela o escutava, mas não o via.

– Fiquei no meio do caminho, não consigo entrar mais. Mas não se preocupe comigo. Daqui posso ver você.

– Onde eles estão?

– Concentre-se.

Luciane fechou os olhos, e de repente soube que deveria pegar à esquerda. Caminhou durante algum tempo. Não tinha mais medo. Sentia-se forte e determinada. Após uma curva, avistou o banco de madeira e, logo mais à frente, o lago e o pequeno ancoradouro. Correu para lá, ansiosa. Mas não encontrou ninguém. Apenas água e névoa. E o silêncio.

– Eles já foram, Javier!

– Então você chegou tarde, meu bem.

– Mas não devem estar muito longe… – disse ela, procurando. A névoa sobre o lago, porém, não permitia enxergar mais que alguns metros.

– Acho que foi melhor assim, Luciane.

Ela mergulhou um pé na água. Era suave e morna.

– Ei, o que está fazendo?

Ela não respondeu.

– Luciane!

Ela mergulhou o outro pé.

– Sua desmiolada, você não vai encontrar ninguém nesse nevoeiro!

Enquanto avançava, ela sentia vagamente o chão do lago sob seus pés, a água subindo devagar pelo seu corpo…

– Luciane, saia daí enquanto é tempo. Você pode nunca mais encontrar o caminho de volta.

Ela começou a nadar, e era como se nadasse em nuvens.

– Junior! – ela gritou, entrando cada vez mais na névoa, e seu grito ecoou durante um longo tempo pelo silêncio infinito do lago.

Gritou de novo, mais forte. E ficou aguardando, flutuando… Mas nada, nenhum som de volta. Nadou novamente, cada vez mais para dentro das brumas. Algum tempo depois escutou:

– Lu, é você?

– Sou eu, Junior! Estou aqui!

Luciane sentiu uma irresistível alegria tomar-lhe conta. Junior estava ali em algum lugar – ela conseguira. Desafiara as leis da magia e vencera. Javier tinha razão: era mesmo uma bruxa. E quanto não havia perdido sem saber disso?

– Onde você está, meu amor? – ela gritou, excitada.

Pouco a pouco distinguiu no meio da bruma os contornos do bote e, em pé, a figura de Junior, empurrando-o com uma longa vara. Viu sua roupa de cavaleiro, a cota de malha, a calça justa, as botas… Em outra ocasião o acharia inteiramente ridículo e teria um acesso de riso. Mas agora não. Estava lindo… Aquele era o seu homem. Apenas seu e de mais nenhuma outra mulher.

Mas havia algo estranho… Havia algo novo em Junior, uma coisa diferente… Ficou a observá-lo enquanto flutuava. Ele estava realmente mais bonito, mas havia algo mais… Havia uma dignidade. Sim, uma dignidade, uma altivez de cavaleiro, uma postura digna de alguém… a serviço de uma princesa.

Nesse instante, desapareceu a alegria do reencontro e, em seu lugar, desceu-lhe a terrível sensação de ser preterida por outra mulher. Junior nunca se portara assim por ela. E a tal princesa, onde estava?

– Lu, o que está fazendo aqui?

– Vim buscar meu namorado, ora – ela respondeu, agarrando-se ao bote.

– Luciane, não! – Era a voz de Javier. – Você não precisa subir!

Ela subiu rapidamente.

– Meu amor, o que você está fazendo? – Junior perguntou, assustado. – Não pode ficar aqui.

– Eu pergunto, Junior, eu pergunto – ela falou, muito séria, pondo-se de pé no bote. – Que diabo você está fazendo aqui enquanto eu… Aliás, cadê a vaca?

– Quem?

– A princesa fajuta.

– Não está vendo?

Luciane não via ninguém além dele.

– Deve ter se mandado quando me viu. Pelo menos sensata ela é.

– Lu, você não pode ficar aqui.

– Me diga só uma coisa: o que essa princesa tem que eu não tenho, heim? Pode falar, não vou ficar com raiva.

– A gente conversa depois, Lu. Tenho que conduzir a princesa até seu reino. Quando eu voltar, a gente…

– Não, você vai voltar agora, vamos pra casa. Você não imagina o que eu passei por causa desse seu sumiço.

– Não posso, Lu. Por favor, compreenda…

– Junior, eu admito que errei algumas vezes… Você ainda me ama?

– Lu, você está estragando tudo!

– Eu não volto sem você.

– Eu não posso voltar agora! – Junior gritou, angustiado. – Você não entende? Eu não posso!

– Então também vou. Quero conhecer esse reino.

– Luciane, sua louca excomungada! – A voz de Javier. – Saia já daí!

– Dois homens querendo mandar em mim… Um metido a cavaleiro e uma bicha doida. Era só o que faltava. Junior, como você pode estar apaixonado por uma mulher que não existe, seu bobo? Eu existo, olhe pra mim…

– Lu, vou ter de botar você pra fora desse bote…

– Eu sou uma bruxa, meu amor. Você não pode comigo.

– Luciane, não faça isso! – Javier gritou de novo.

Junior a agarrou e a imobilizou. Mas Luciane tentou escapar e os dois perderam o equilíbrio. E caíram na água, afundando rapidamente, enquanto o silêncio voltava a tomar conta do lago.

Alguns segundos depois um corpo veio à tona. Era Luciane.

– Junior! – ela gritou, desesperada. Mas não escutou nada. – Junior!!!

Nenhuma resposta. Só o silêncio do lago.

– Javier, me ajude!

Mas Javier também não respondeu. Luciane procurou o bote e não o viu. Ao seu redor a névoa, a névoa sem fim. E o silêncio infinito, aterrorizante. O silêncio ensurdecedor.

– Junior!!! – ela gritou, cada vez mais desesperada, enquanto procurava a margem e não encontrava.

Mas ninguém respondeu.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1DE MANHÃ CEDO, Javier levantou. Sentia-se cansado. Ao lado da cama havia um quadro com a paisagem de um bosque, um lago com ancoradouro e um banquinho de madeira. Nem princesas nem cavaleiros.

Minutos depois, fechou a porta do apartamento e saiu. Na rua o sol brilhava forte. Ele pôs o óculos escuro, fez sinal para um táxi e entrou. Deu bom dia ao motorista, indicou-lhe o endereço e acomodou-se no banco traseiro.

Por que mulher tinha de ser tão teimosa?, pensou. Tanto aviso para nada. Uma pena. Um talento maravilhoso desperdiçado. E o moço, tão bonito… Ele abriu o bolso do casaco e conferiu o maço de dinheiro, os três mil do serviço.

Mais adiante, quando passavam pelo parque, Javier viu a multidão, um carro da polícia parado. O táxi diminuiu a velocidade. Ele aproveitou e perguntou a uma senhora o que estava acontecendo. Ela respondeu que haviam encontrado dois corpos no lago. Um rapaz e uma moça.

Javier quase pediu para o motorista parar. Mas achou melhor não. Tinha certeza que não iria gostar nada do que veria.

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1cEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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Comentarios01COMENTÁRIOS

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01- A “releitura” (somente uma nova leitura) me tocou quando percebi que a jornada de Júnior “quadro a dentro” para levar a princesa de volta para o reino e que somente ele poderia fazê-lo, seria um resgate, ou uma busca de harmonização dele mesmo. Colocar esse feminino no seu lugar dentro dele. Nossa! que linda metáfora! O quanto de amor ele sentia por sua namorada, cega de raiva e ciúmes do fantasma de todos os femininos. No final a tragédia do lago trazendo na minha visão da leitura, a morte do relacionamento. Quando ele compartilha com ela sua jornada e ela não consegue perceber, deu uma dó de tudo. Dele, dela, dos feminos e masculinos distorocidos. Um conto bem masculino com muita sensiblidade. Ivonesete Rodrigues, Fortaleza-CE – dez2012

02- Muito interessante esta releitura “cega de raiva e ciúme” e quem sabe e talvez cega de amor para trazê-lo de volta à realidade! Adorei! O melhor do livro! Michele SJ, Fortaleza-CE – jan2013

03- Que texto FANTÁSTICO,Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos!!!Riquíssimo!!!Por trás de tanta magia,muitas reflexões podem ser feitas tanto em relação ao comportamento feminino como o masculino,dentro de um relacionamento a dois!!!Quantas vezes,nós,mulheres,enxergamos princesas e vocês,homens,enxergam príncipes encantados que só existem nos quadros da nossa imaginação?Muitas,né?Por conta desses pensamentos lúdicos,acabamos nos aventurando por lagos perigosos e desconhecidos,nos afogando,muitas vezes, e,colocando tudo a perder!!!!Como diz a frase: o ciúme é sempre um mau conselheiro!!!! Silvana Alves, Fortaleza-CE – jan2013

04- Nesse aqui o Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos quebrou tudo. Vale muito a pena ler. E o livro todo é sensacional. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – jan2013

05- Ainda não consegui terminar de ler todos, mas este foi o que eu mais gostei! Maria do Carmo, São Paulo-SP – jan2013


O vestido decotado da impunidade

05/09/2012

05set2012

Vê este corpinho, rapaz? Ainda está conservado porque são vocês que o solicitam e tratam de cuidá-lo toda vez que lhes é vantajoso

O VESTIDO DECOTADO DA IMPUNIDADE

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Encontrei Impunidade na última mesa daquele bar, de vestido vermelho e tomando martini. Era uma espelunca de terceira, sim, mas não se engane: ela também frequenta, e com muita classe, ambientes refinados. Impunidade aprendeu cedo a se virar na vida, ela que nunca teve quem lhe assumisse a paternidade.

Foi sorte encontrá-la, ela é muito requisitada. Sentei à sua mesa e reparei que usava um decote generosíssimo. Talvez ela pudesse me ajudar a encontrar Justiça. Comecei perguntando se lembrava de Renata. Ela me lançou um olhar indiferente.

– A bailarina morta com um tiro no olho… – falou para si mesma. E voltou o olhar para a rua.

Quando dei por mim já olhava novamente para seu decote. Era como um ímã. Ela tomou um gole de seu martini (Impunidade também bebe, com desenvoltura, uísque 18 anos) e começou a falar, sem pressa.

– Você realmente acha que o assassino, Wladimir o nome dele, né, vai continuar preso?

Nesse momento me veio a imagem que não consigo esquecer: o jipe em que Renata se encontrava, eu fora vê-lo um dia depois na delegacia. Vi as manchas de sangue, os fios do cabelo loiro dela ainda grudados ao sangue… Wladimir a acertara covardemente após uma discussão no trânsito. Putz, e Justiça?

– Justiça?! – Impunidade virou-se de repente, exaltada. – Não me venha falar dessa vaca! O que vocês podem saber de Justiça com toda a falsidade em que vivem? Ficam gritando sobre o que é justo, mas têm mil interesses pessoais em jogo. Quanta hipocrisia.

Fiquei sem saber o que dizer. Passou-me então pela cabeça qual seria a reação da família do assassino se houvesse sido ele a vítima… Seríamos todos tão hipócritas assim?

– São mais que hipócritas… – Ela lia pensamentos? – São atores, meu bem, encenando sua Justiça pra vocês mesmos enquanto eu os observo no palco e nos bastidores. Quer saber de uma verdade? Seus advogados, com seus ternos e termos tão bem estudados, podem entender de leis, as leis com todos os seus meandros e corredores mal iluminados. Mas de Justiça não sabem merda nenhuma.

Pediu licença e levantou. Disse que tinha um compromisso, que costumavam requisitar seus serviços também à noite e não apenas nos escritórios e gabinetes do dia claro. E foi saindo. Mas eu a peguei pelo braço. Ela virou e me encarou séria. Devia pensar sobre o que poderia eu lhe oferecer com minha cara de garoto à procura de Justiça – em contraste com as propostas volumosas com as quais lhe costumavam honrar.

– Vê este corpinho, rapaz? Ainda está conservado porque são vocês que o solicitam e tratam de cuidá-lo toda vez que lhes é vantajoso. E quando não é, falam de mim como a mais suja das prostitutas… Eu não sei o que é escrúpulo, rapaz. Não conheço nem o certo nem o errado. Essas coisas vocês é quem sabem. Eu apenas vivo.

– Renata também só queria viver… – falei de um impulso e logo me arrependi, temeroso pelo que pudesse vir. Ela então me olhou com seus olhos cativantes e eu, pela primeira vez, percebi de fato sua estranha beleza. Nesse instante o farol de um carro na rua iluminou seu busto e não pude evitar de olhar seu decote mais uma vez. Era como se seus belos seios fossem saltar em minha direção. Uma leve e agradável sensação de torpor me envolveu, e de repente tudo que existia era a visão de seus seios bem próximos de meu rosto, bem próximos…

Fechei os olhos num último esforço para não ser arrastado pela tentação que me tomava conta. Segurei firme a borda da mesa e respirei fundo. Quando abri os olhos a tentação havia desaparecido. Quantos já haviam resistido?

– Sinto por sua Renata. Mas também sinto por Wladimir. Na verdade tenho pena de vocês todos, vítimas do mundo cruel que vocês mesmos criaram.

Mas e Justiça? Eu precisava tanto saber…

– E quanto à sua Justiça, meu bem, essa que você tanto procura, se quer saber mesmo, ela também frequenta lugares como este e tem muitos clientes como eu. Mas pelo menos eu não sou hipócrita. E, se me permite, tenho aluguel pra pagar…

E saiu por entre as mesas, em seu vestido decotado. Ela e seu andar seguro de quem se sabe irresistível.
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Ricardo Kelmer 1995 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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SOBRE O CASO DA BAILARINA

A crônica O Vestido Decotado da Impunidade foi inspirada num caso real. Em 28 de dezembro de 1993, em Fortaleza-CE, a bailarina Renata Maria Braga de Carvalho foi covardemente assassinada aos 20 anos de idade, com um tiro de revólver no rosto, pelo então universitário Wladimir Magalhães Porto, de Brasília, após uma discussão no trânsito. O criminoso está solto.

Acusado do crime é absolvido – Jornal Diário do Nordeste, 21.06.08

Acusado de matar bailarina será levado a júri popular pela terceira vez – Site do TJCE, 28.05.15

Acusado de matar bailarina é condenado a 12,5 anos de prisão – Jornal Diário do Nordeste, 01.06.15

Morre em Brasília o assassino da bailarina Renata Braga – Focus, 09.07.20

A bailarina da fé – Se as palavras servem, infelizmente, para deixar impunes os criminosos, servem também para manter acesa a fé das pessoas num mundo melhor

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LEIA NESTE BLOG

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- caramba!!!! demais seuu texto kelmer! Cai Duarte, Bragança Paulista-SP – jul2014

02- Uau, belo texto Ricardo!!!!! Elizabeth Oliveira, Campinas-SP – jul2014

03- Essa madame é mesmo irresistível, nos ambientes mais “castos”. Muito bom. Osmar Casagrande, Palmas-TO – jul2014

04- Belo texto Ricardo! No fim é a justiça enfeitiçada pela sensualidade do poder? Meire Braga, Jandira-SP – jul2014

05- Excelente! Irônico e ácido, mas bem humorado. Tudo na medida certa! Anne Calanchoe, Feira de Santana-BA – jul2014


Mordida na última sessão

14/11/2011

14nov2011

A maioria dos vampiros são ilustres desconhecidos, gente como você que rala no dia a dia para pagar as contas e assiste ao Sexy Time antes de dormir

MORDIDA NA ÚLTIMA SESSÃO

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Eu a conheci na fila do Entrevista com o Vampiro, última sessão. Linda, sensual e misteriosa ‒ foi paixão à primeira olhada. Depois do filme, ela me convidou para um uísque no bar. Aceitei, claro, encantado com seus olhos lânguidos. Algumas horas depois, virei o rosto para o lado e, na escuridão do quarto, procurei o relógio digital. Quase cinco da manhã, em breve amanheceria. Sobre meu corpo, ela se contorcia freneticamente, os cabelos negros balançando. Sua bela silhueta a me cavalgar foi a última imagem que vi, pois logo depois uma onda de prazer incontido me invadiu e fechei os olhos, rendido. Senti que ela prendia meus braços à cama, beijava-me a boca e tchum!, cravava os dentes em meu pescoço. Na confusão de sensações só deu tempo de pensar: Uma vampira… E apaguei.

Pela carinha que você está fazendo, minha amiga, vejo que não acredita em mim, né? Você é uma mulher moderna, não acredita em vampiros. Bem, melhor para eles. Pois eu lhe digo: eles existem. E estão por aí, espalhados entre as pessoas comuns, selecionando o próximo pescoço. Evidente que não dá para reconhecê-los apenas olhando. Na maioria dos casos, só se percebe um vampiro quando já é tarde demais. Como no primeiro parágrafo.

Claro, há vampiros e vampiros. Com o passar dos séculos, muitas linhagens se desenvolveram e hoje já não dá para agrupá-los num só rótulo. Tem vampiro que até vai à missa, acredita? Tem vampiro cuja imagem não reflete no espelho, e ainda assim é hipervaidoso. Há os que dormem em caixões refrigerados e há também, creia, os que fazem bronzeamento artificial para disfarçar a falta de sol. Tem de um tudo nesse mundo de caninos afiados.

Nosferatu, Drácula, Vampirella, algum desses famosos você conhece. Mas a maioria dos vampiros são ilustres desconhecidos, gente como você que rala no dia a dia para pagar as contas e assiste ao Sexy Time antes de dormir. Sim, tem aqueles que se transformam em morcegos e dormem num caibro, pendurados de cabeça para baixo, tudo para fugir do aluguel. Em compensação, ninguém dorme com eles. Só no cinema é que vampiro não trabalha, se veste superbem e ainda mora em cobertura. Conheci uma vampira, garçonete num bar da Praia de Iracema, que mandou botar vidro fumê e ar condicionado no seu fusca para poder dormir dentro dele durante o dia. Para você ver como vida de vampiro não é mole.

No filme Fome de Viver, Catherine Deneuve, ai, ai, é uma linda e charmosa vampira que seduz a homens e mulheres. Ah, minha amiga, nem você resistiria àquele charme francês… Vampiros sabem conquistar como ninguém. Muita gente boa já caiu na lábia vamp. Exemplo? Lucélia Santos. Isso mesmo, pode conferir em As Sete Vampiras. Brad Pitt, Wynona Rider e David Bowie também caíram. Nem Xena, a guerreira, escapou. Se eles que são tão chiques caíram, por que você estaria imune? Ninguém está. Um belo dia, querida, você vai acordar e lá estarão as duas marquinhas no pescoço. Ou na virilha, pelas coxas que você tem…

Como é que sei dessas coisas? Não importa. O que interessa é: o que fazer se você levar uma dentada? Eu lhe digo: relaxe e goze. Aceite o fato e prepare-se para um mundo novo, cheio de novidades. Você é uma mulher bonita, vai aproveitar à beça. Sim, tem vida eterna. Mas cuidado, há sempre um caça-vampiros de plantão, desses bem neuróticos, cheio de frustrações, doido para lhe enfiar a estaca no coração. Por isso, vampiro tem de ser discreto. Vantagem mesmo é que a maioria não envelhece, não adoece, não tem ressaca nem pega aids. A vida vira uma festa, toda noite na gandaia, já pensou? O diabo é o cartão de crédito que vive estourado.

Você já viu Quente como Licor? É uma história de amor entre vampiros que se prostituem para conseguir sangue. Está em cartaz no Cine Franzé. Que tal irmos esta semana? Ótimo! Então está marcado, a gente se encontra na entrada. Podemos ir na última sessão?

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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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FILMES CITADOS

FILMEFomeDeViver-01Entrevista com o Vampiro – The Vampire Chronicles. EUA, 1994, Terror. Direção: Neil Jordan. Roteiro: Anne Rice, baseado em livro de Anne Rice. Elenco: Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas, Stephen Rea.

Fome de Viver – The Hunger. EUA/Inglaterra, 1983, Terror. Direção: Tony Scott. Roteiro: James Costigan, Ivan Davis e Michael Thomas, baseado em livro de Whitley Strieber. Elenco: Catherine Deneuve, David Bowie, Susan Sarandon, Cliff De Young.

As Sete Vampiras – Brasil, 1987, Comédia. Direção: Ivan Cardoso. Roteiro: R. F. Luchetti. Elenco: Andréa Beltrão, Ivon Cury, Danielle Daumerie, Wilson Grey, John Herbert, Leo Jaime, Zezé Macedo, Nuno Leal Maia, Lucélia Santos.

Drácula de Bram Stocker – Bram Stoker’s Dracula. EUA, 1992, Terror. Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James V. Hart, baseado em livro de Bram Stoker. Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Keanu Reeves, Anthony Hopkins.

Quente como Licor – Todas as informações sobre este filme foram misteriosamente apagadas da internet.

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DOCE VAMPIRO (Rita Lee)
Vídeo com imagens do filme Drácula de Bram Stocker

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MeuFantasmaPredileto-01Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

Vade retro Satanás – O Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior

Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

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01- hum…adoreiii. Carol Nobre, Fortaleza-CE – nov2011

02- Uhnnn….sabe que sempre gostei bastante dessas histórias a respeito de meus ancestrais, rs…. Paula Medeiros de Castro, São Paulo-SP – nov2011


A metamorfose

19/06/2011

19jun2011


A METAMORFOSE

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Ele rastejou silenciosamente para trás do compensado que servia de parede no barraco e agachou-se. Pôs a pasta de crack sobre a latinha de cerveja amassada, acendeu o isqueiro e inalou pelo buraco. E de repente sumiram a dor, o desemprego, a fome, o leite do filho que ele não havia comprado… Quase no fim, o menino acordou. Pai, o que é isso? Subitamente a dor voltou, diferente, agora feita de vergonha e da sensação de fundo do poço. É veneno de barata, filho. E cadê a barata, pai?
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Ricardo Kelmer 2010 – blogdokelmer.com

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MAIS MINICONTOS

AMetamorfose-01A metamorfose – Pai, filho e o fundo do poço

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Literalmente – O sentido dos textos e da vida

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SoOCrackSalva-01Só o crack salva – Se os problemas relacionados ao crack ficassem restritos às camadas pobres da população, os ricos jamais se incomodariam e o horário nobre da tevê nem tocaria no assunto

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Como violentar crianças em 30 segundos – É a máxima do Compre Baton: hipnotize desde cedo uma criança e você terá um zumbi-consumidor para o resto da vida

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O herói e a princesa

26/03/2010

26mar2010

Para Ayrton Senna, herói do Reino da Terra

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O HERÓI E A PRINCESA

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Seu destino, estava escrito, seria ser um herói, nada menos que isso. Estava escrito: ser o melhor dos guerreiros, herói de todos os reinos.

Mesmo assim ele teve que lutar como todos os outros, enfrentar sua própria guerra. Teve de viver, dentro de si mesmo e por toda a vida, o mais difícil dos desafios: a autossuperação. Teve de várias vezes visitar a beira do abismo e caminhar sobre o fio que separa os mundos, morrer e renascer e morrer de novo e novamente renascer, até que finalmente estivesse preparado para cumprir o destino que lhe fora reservado. Sim, o destino fora marcado em sua alma, mas ele sabia que teria de suar e sangrar bastante para realizá-lo.

Poderia ter recusado? Não. Recusasse e o peso de tal abdicação lhe seria tão insuportável que o único remédio seria a morte. Por isso a morte espreitava sua vida, a linda princesa de seus sonhos, ela e seu vestido branco. E ele logo aprendeu a não se assustar à toa. Por isso é que, aos que os deuses marcam o destino, nada resta senão cumpri-lo.

E ele o cumpriu com a nobreza dos grandes cavaleiros. Tomou para si a bandeira da superação e a fixou no alto de sua lança. E a conduziu velozmente pelos reinos da Terra, erguendo-a bem alto para que nós todos, guerreiros de todos os reinos, nunca esquecêssemos que, da mesma forma que ele, também podemos vencer nossos limites pessoais. O grande inimigo não é do outro reino. Não, ele mora dentro de nós e se esconde por trás do medo de falhar. Ele falhou, muitas vezes, você lembra, mas cada falha logo se transformou em aprendizado, e adiante era mais uma arma poderosa com que ele abatia o inimigo.

Um dia, ela surgiu especialmente bonita, ela e seu vestido branco, a princesa de seus sonhos. Surgiu à sua frente, bem à beira do abismo, sorridente e compreensiva. Ele não sentiu medo. Por um segundo, ainda pensou em voltar, despedir-se, dizer algo para a família, os amigos, a namorada. Mas não. Tudo já havia sido dito, sua própria vida o dissera.

– Esta noite sonhei contigo – ele falou, um pouco triste, mas tranquilo. – Estavas tão linda que tive a certeza que virias me buscar.

Ela então tomou sua mão e juntos caminharam pela última vez pelo fio do abismo, ele admirando o vento nos cabelos dela, o porte digno que tanto inspirara sua vida. Mais adiante, onde o caminho faz uma curva para a esquerda, ele sumiu. Dizem que se transformou em vento e que nas manhãs de domingo visita os reinos da Terra para soprar em nossa lembrança.

Comigo ficou sua bandeira, que muitas vezes me é tão pesada que penso em desistir, que não sou digno, que definitivamente não nasci para herói. Mas então lembro dele, lembro dos momentos em que parava e ficava em silêncio, buscando em sua própria mente o caminho mágico da vitória, e então ergo a bandeira novamente, por ele, por mim, por nós todos, heróis de nossas próprias guerras.

As crianças ouvem histórias dele, admiram-se de seus feitos e em seus olhos parece rebrilhar o aço de sua lança. Pedem para contar de novo de como ele venceu quando era impossível. Mas ele não sabia que era impossível, explico, por isso que foi lá e venceu. Elas escutam com seus olhinhos brilhando e depois as ponho para dormir. Cubro-as bem porque faz frio, elas que são o futuro e que mais tarde lutarão por nós. E depois vou deitar, cansado de minha luta, a bandeira que carrego encostada à parede, esperando pela nova batalha de amanhã. Vou deitar e sonhar com uma linda princesa, a princesa que a mim um dia também virá buscar, quando chegar a minha hora.

Quando ela surgir, espero ir-me da mesma forma que ele foi: com a dignidade e o orgulho dos que cumpriram seu destino.

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Ricardo Kelmer 1999  – blogdokelmer.com

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> Este texto integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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LEIA TAMBÉM

Um mito a 300 km por hora – O arquétipo da jornada do herói na trajetória de Ayrton Senna
É inquietante pensar assim, mas tudo soa como uma… predestinação. Quando lembramos que Ayrton era um dos que mais lutavam pela segurança dos pilotos, que ele morreu numa cidade de nome Ímola, no dia do trabalhador e ao vivo para o mundo inteiro, tudo isso reveste sua morte de um significado mitológico de sacrifício, uma autoimolação

Instituto Ayrton Senna – Impulsionados pelo desejo do tricampeão de Fórmula 1 Ayrton Senna, sua missão é levar educação de qualidade para as redes públicas de ensino no Brasil. Atua em parceria com gestores públicos, educadores, pesquisadores e outras organizações para construir soluções concretas para os problemas da educação básica

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em italiano

L´EROE E LA PRINCIPESSA

Ricardo Kelmer

Per Ayrton Senna, eroe del Regno della Terra

Il suo destino era scritto, sarebbe stato un eroe, niente meno che questo. Era scritto: essere il migliore dei guerrieri, eroe di tutti i regni. Anche così dovette lottare con tutti gli altri, affrontare la sua propria guerra. Dovette vivere, dentro se stesso e per tutta la vita, la più difficile delle battaglie: l’autoseparazione. Dovette varie volte arrivare sull’orlo dell’abisso e camminare sul filo che separa i mondi, morire e rinascere e morire di nuovo e un’altra volta rinascere fino che finalmente fosse preparato per compiere il destino che gli fu riservato. Il destino era marcato nella sua anima ma lui sapeva che avrebbe dovuto sudare e sanguinare abbastanza per realizzarlo.

Avrebbe potuto rifiutare? No. Se lo avesse rifiutato il peso di tale abdicazione gli sarebbe stato tanto insopportabile che l’unico rimedio sarebbe stata la morte. Per questo la morte scrutava la sua vita, la bella principessa dei suoi sogni, lei e il suo vestito bianco. E lui presto apprese a non spaventarsi a caso. Per questo a coloro che gli dei marcano il destino, non resta altro che compierlo.

E lui lo ha compiuto con la nobiltà dei grandi cavalieri. Ha preso per sé la bandiera dell’auto superazione e l’ha fissata nell’alto della sua lancia. E l’ha condotta velocemente per i regni della terra, ergendola ben in alto perchè tutti noi, guerrieri di tutti i regni, mai dimenticassimo che, nello stesso suo modo, potessimo vincere anche noi i nostri limiti personali. Il grande nemico non è dell’altro regno. No, lui vive dentro di noi e si nasconde dietro alla paura di fallire. Lui ha fallito, molte volte, tu ti ricordi, ma ogni fallimento si trasformò presto in apprendistato e in futuro era una arma poderosa in più con la quale lui abbatteva il nemico.

Un giorno lei sorse particolarmente bella, lei e il suo vestito bianco, la principessa dei suoi sogni. Apparse davanti a lui, proprio all’orlo dell’abisso sorridente e comprensiva. Lui non sentì paura. Per un secondo pensò anche di tornare, disperdersi, dire qualcosa agli amici, all’innamorata. Ma no. Tutto era già stato detto, la sua stessa vita l’aveva detto.

– Questa notte ho sognato con te – disse, un pò triste ma tranquillo. – Eri tanto bella che avevo la certezza che saresti venuta a cercarmi.

Lei intanto prese la sua mano e assieme camminarono per l’ultima volta per il filo del precipizio, e ammirando il vento nei capelli di lei, il comportamento degno che tanto ispirava la sua vita. Ma davanti, dove il cammino fa una curva a sinistra, lui uscì. Dicono che si trasformò in vento e che nelle mattine della domenica visita i regni della terra per soffiare in nostro ricordo. Con me è rimasta la sua bandiera, che molte volte mi è così pesante che penso di desistere, che non sono degno, che definitivamente non sono nato per essere eroe. Ma allora mi ricordo di lui, mi ricordo dei momenti in cui si fermava e restava in silenzio, cercando nella sua stessa mente il cammino magico della vittoria, e allora la ergo nuovamente, per lui, per me, per noi tutti, eroi delle nostre stesse guerre.

I bambini ascoltano le sue storie, si stupiscono delle sue vicende e nei loro occhi sembra brillare l’acciaio della sua lancia. Chiedono per raccontare di nuovo di come abbia vinto quando era impossibile. Ma lui non sapeva che era impossibile, spiego, per questo che è stato là e ha vinto. Loro ascoltano con i loro occhietti brillanti e dopo li metto a dormire. Li copro bene perché fa freddo, loro che sono il futuro e che più tardi lotteranno per noi. E dopo vado a riposare, stanco della mia lotta, la bandiera che carico accostata alla parete, aspettando per la nuova battaglia di domani. Andrò a sdraiarmi e a sognare di una bella principessa, la principessa che verrà anche a me a cercare un giorno, quando arriverà la mia ora.

Quando lei apparirà, spero di andarmene allo stesso modo in cui è andato lui: con la dignità e l’orgoglio di chi ha compiuto il suo destino.
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Traduzione: Isabella (Fã-Clube Ayrton Senna Stella – Itália)

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VÍDEOS

AYRTON SENNA TRIBUTE

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THE RIGHT TO WIN
documentário legendado

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MAIS TEXTOS

 

AYRTON SENNA E O PODER DO MITO
Ricardo Kelmer 2014

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Algumas pessoas não se conformam que Ayrton Senna seja considerado um herói, e falam que ele ganhava muito dinheiro, levava vida boa e coisa e tal. Alegam que herói é o trabalhador anônimo, que sua para ganhar salário mínimo, heróis são os bombeiros e professores. É um raciocínio equivocado.

Cada um entende o termo herói ao seu próprio modo. Porém, numa visão mitológica, Ayrton Senna encarna perfeitamente o termo, sim, pois sua vida é um ótimo exemplo do mito da “jornada do herói”. O herói é um arquétipo, presente na psique da espécie humana, e a jornada do herói é o mito da autorrealização, que todos vivemos em nossas vidas, com mais ou menos intensidade. Mitologicamente falando, qualquer um, anônimo ou famoso, que se realize profundamente em sua vida é um herói, pois para alcançar esse ponto é necessário uma longa e difícil jornada, feita de provações, sofrimento e superação – e nem todos conseguem levá-la até o fim.

Porém, quando a autorrealização do indivíduo influencia positivamente a vida de muitos outros, entramos num nível mais abrangente do mito, onde a vida do herói torna-se a vida de todos. Nesse nível, até mesmo a morte do herói traz grandes benefícios à sociedade. Ayrton Senna exemplifica bem esse nível mais abrangente. Além de tudo que sua vida pode inspirar (coragem, talento, sacrifício, superação…), sua morte oferece dois ótimos e indiscutíveis legados: as medidas de seguranças implantadas na Fórmula 1 (após o GP de San Marino de 1994, nenhum outro piloto morreu numa corrida) e o Instituto Ayrton Senna, um sonho do piloto brasileiro que sua morte, ironicamente, ajudou a tornar realidade, e hoje é uma referência mundial no trato com a infância carente.

Pode-se não gostar de Ayrton Senna, claro, afinal ele também tinha seus defeitos, e ninguém agrada a todos. Mas a força do mito está acima dos gostares: quando um arquétipo se manifesta fortemente através da vida de alguém, como o fez com Ayrton, o mito relacionado ao arquétipo é contado e recontado, e é impossível ficar alheio ao seu poder.

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Caro Ricardo, Recebi sua crônica através da Cinthya França, e fiquei extremamente emocionada com ela. Sua crônica em homenagem ao Ayrton é belíssima e profunda, sem dúvida uma das melhores e mais belas coisas escritas sobre o Ayrton e o seu significado. Gostaria aliás de consultá-lo sobre a possibilidade de publicá-la em nosso site, pois será um verdadeiro presente para os fãs do Ayrton, principalmente no ano em que estamos homenageando o Ayrton e resgatando os seus valores. Você nos daria sua autorização? Também gostaria que você nos enviasse o seu endereço de correspondência, pois pretendo enviar-lhe uma lembrança do Ayrton. Fico no aguardo de seu retorno. Saudações cordiais. Viviane Senna, Instituto Ayrton Senna, São Paulo-SP – abr2004

02- você foi lá na Fanor, deu uma palestra sobre mito, por sinal, só fui entender melhor quando li o texto da princesa e do Airton Senna, pois tinha a idéia de que mito era tipo uma explicação para aquilo que não sabia, do mesmo jeito que usamos a palavra coisa quando não achamos a palavra certa… Dá para entender? Um exemplo: ah… chove porque (ops…??!!!) os deuses estão chorando!! Mas depois que li, vi a jornada do herói, poxa vi o quanto a palestra foi boa e que perdi muita coisa, poderia ter deixado de ser besta e ter tirado essa dúvida na hora, mas fiquei com vergonha (tudo bem, aprendi a lição). Bom… quando terminei de ler, fiquei assim, chocada, maravilhada, então entrei no site e passei a ler outros e estou adorando!! Sua escrita, sua forma de escrever, muito bacana, me atrai muito, parece que está do meu lado contando, muito bacana isso!! Bom… ganhou uma fã. Quando vim para cá novamente, tenta sempre passar lá na Fanor, ou me avise, pode ser?? Obrigada!!! Kelly Cristina, Fortaleza-CE – jul2007

03- O herói e a princesa… simplesmente, lindo! Cinthya França Oliveira, Fortaleza-CE – ago2011

04- O lado sensível dos machos: adoooro! Márcia Matos, Fortaleza-CE – ago2011

05- Valeu, Kelmer. Ayrton Senna is alive! Francisco Fontenele Veras Neto, Lourinhã-Portugal – mai2012

06- Kelmer; ele é o “Arquétipo das pistas”! Gid Trigueiro, São Paulo-SP – abr2014

07- Lindo , que saudades eternas!!! Luciana Helena Miranda – mai2015

08- Amo! Maria Eliane Cândido de Almeida, Triunfo-PE – mai2015

09- Ídolo Saudades eterna. Gercino Silva, Jaraguá-SC – mai2015

10- Inesquecível, exemplo de dignidade!!! Lê Alessandra – mai2015

11- Simplesmente lindo.Ayrton para sempre em nossos coraçoes. Lucia Silva – mai2015

12- O Mito! Fantástico !! Reylle Fernandes, Manaus-AM – mai2015

13- Ele era tudo.nossa alegria nos domingos….saudades eternas. Norma Valladão – mai2015

14- para mim a Fórmula 1 morreu com Ayrton. Susana X Mota, Leiria-Portugal – mai2015

15- Emocionante parabens. Silvia Dos Santos, Caxias do Sul-RS – mai2015

16- Muito emocionante! Lindo. Rosana Mittanck, Itapema-SC – mai2015

17- Que lindo. Marcos Arraji Brasilians Brasil, São Paulo-SP – mai2015


Desconstruindo Kelmer

12/07/2009

Wanessa, 2009

Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação

DesconstruindoKelmer-04.

DESCONSTRUINDO KELMER

Por Wanessa
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Eu adoro o Vocês Terráqueas. E eu, grande releitora que sou, claro que escarafunchei o livro todo, li de cabo a rabo incontáveis vezes. Principalmente depois daquela conversa que nós tivemos, em que tu me contou um segredinho que se esconde em alguns textos. Depois disso, a tua obra virou um mistério ainda maior pra mim. Comecei a ler teus textos com mais atenção, agora entendo melhor algumas coisas e desconheço completamente outras.

Um conto em especial me instigou desde a primeira leitura: Cristal. A ordem dos acontecimentos é compreensível, tem começo, meio e fim, mas não dá pra terminar a leitura sem a sensação de que tem algo muito maior que eu não consegui captar. Eu, meio Sherlock Holmes das palavras, fico tentando decifrar os enigmas, seguir possíveis pistas, mas é tudo em vão. Não dá.

Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina. Um presente de aniversário, a viagem sem escolha. Depois o corredor cheio de portas e ela aparece, a Simone. Provavelmente um amor da adolescência. Eu vejo um Ricardo cheio de ideias, querendo tudo ao mesmo tempo. Tempo que, até então era inesgotável e por isso permitia um monte de erros que levam a um rompimento doloroso, que deixa uma dor que invade, dor física, forte.

Encontro com a Renata. A bailarina que faz piruetas num nicho, algum lugar perdido, intocável. Os movimentos leves; contemplamos a beleza porque é finita. Melhor não me demorar por aqui, não há tempo, só pra recuperar o fôlego, o assombro diante das surpresas da vida.

A Bel traz o encontro com a princesa, o primeiro. Joga suas tranças da torre; beleza e loucura juntas provocam vertigem? A morte do primeiro Ricardo, daquele que por vezes era desconhecido de si próprio, te deixa profundamente grato, a mim também. Vânia, Valesca, Vanessa, Valéria, são tantas as possibilidades dessa musicista sensual, sensual como doce desmanchando na boca. O inalcançável, mesmo que a distância entre os corpos seja curta. É preciso achar-se a si, antes do outro. Talvez a fuga seja o melhor caminho quando o vaso ainda está vazio.

Minhas dúvidas se multiplicam em relação aos nomes, Fabiana, Fabíola, Fátima… o nome tanto faz, as fantasias são múltiplas, volúveis, diáfanas. Encantam e entontecem. É preciso um fio que te conduza a realidade, uma mão talvez. E ela sabe fazer isso, no meio do redemoinho de possibilidades e sonhos, é bom se saber compreendido por alguém, uma certeza tranquilizadora de não ser tão estranho, hermético. Gisele, como a espiã nua em Paris, a tua cara isso. E mais uma vez a tontura, mas essa é diferente e conheço: a euforia da excitação e o gozo (ai, que saudade da tua carinha gozando…), a sensação de ir cada vez mais fundo, mais longe. Transpiração e transcendência lado a lado.

O inferno te espera e traz também o sabor indigesto. A inquietação, o ápice do sofrimento e desespero. A alma conturbada se rende a mais uma morte. Passou pelo seu Karma, Karine. As palavras não bastam para agradecer por uma nova vida. E no fim, sete encontros, sete vidas que hoje formam um só cristal, o mais belo, o ser mais incrível que ja conheci na vida, tu. Talvez eu tenha acertado um pouco, talvez tenha passado longe, mas uma coisa eu aprendi com esse conto, às vezes racionalizar sobre o que está diante dos olhos, só torna tudo mais complicado, a compreensão pode ser simples, não precisa muito. Apenas sentir.
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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.com

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O último homem do mundo

24/12/2008

24dez2008

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06c.

Este conto integra os livros Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha e o livreto O Último Homem do Mundo, de Ricardo Kelmer

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O ÚLTIMO HOMEM DO MUNDO

O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso, ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja, pois você pode conseguir…

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CAP. 1

AGENOR CUMPRIU TODO O RITUAL, direitinho. Colhera o fumo num dia seis e seis dias depois o debulhara, fumo plantado no sítio Inferninho, na sexta noite após a sexta lua do ano. Não contara nada a ninguém. Tudo dentro dos conformes do ritual.

Onze e meia da noite, e não havia lua no céu. A escuridão toda dava um pouco de medo, mas Agenor estava decidido. Apenas meia hora o separava do momento mais importante de sua vida.

Tirou o cigarro da bolsa e acendeu. O nervosismo fez o cigarro cair duas vezes. Deveria fumá-lo sozinho, era o que dizia o ritual. Agenor fumou e aos poucos foi se acalmando. Tinha de estar tranquilo para dizer as palavras certas, não podia errar. Subiu numa pedra mais alta e lá encostou-se. E relaxou. Era realmente um excelente fumo, diferente de qualquer um que já houvesse experimentado. Diziam que, de tão especial, não estragava nunca.

No céu, as estrelas pareciam mais brilhantes, mais próximas. Lá embaixo dava para ver as luzes da cidade de Jubá, a torre da matriz, o estádio. Quase dava para ver a casa onde morava, e o restaurante onde trabalhava Dorinha…

De repente, escutou um ruído vindo do mato. Olhou para o relógio. Onze e quarenta e cinco. Não, não devia ser ele ainda, pensou. Talvez algum bicho. Deu a última tragada e apagou o cigarro. Começava a fazer frio. Agenor tirou da bolsa um cobertor e se cobriu inteiro, encolhido à pedra.

Durante meses estudara seu pedido como quem retoca uma pintura, ajeitando aqui e ali os detalhes das miudezas semânticas. Segundo o ritual do Encontro, o pedido tinha de ser formulado corretamente, as palavras exatas, o sentido perfeito. Não podia haver qualquer erro. Os diabos eram espertos, e se as palavras dessem margem a qualquer outra interpretação, eles não perdoavam a falha.

Agenor olhou o relógio: meia-noite. O diabo chegaria a qualquer momento. Meia-noite e cinco. Meia-noite e dez. Talvez o relógio estivesse adiantado, pensou Agenor. Meia-noite e vinte. Teria falhado em algum ponto do ritual?

À meia-noite e meia, quando já começava a cochilar, Agenor percebeu que alguém chegava, vindo de dentro do mato, caminhando devagar entre as folhagens. Ergueu-se, enrolado no cobertor. De repente, sentiu medo. Pensou em desistir daquela história de pacto… mas as pernas não obedeceram e ele continuou ali em pé, esperando.

Quem chegou foi um velhinho de barbicha branca, de sobretudo, chapéu e bengala. Agenor estranhou. Não se parecia com um diabo.

– Boa noite – disse o velho, erguendo o braço e tocando seu chapéu. – Desculpe a demora, sexta-feira sempre tem muito serviço. Você é o Agenor, não é? Sou Soloniel, o mais astuto dos diabos. Certamente já ouviu falar muito de mim.

– Ahnn… não… – Agenor olhava para a figura à sua frente. Aquilo era um diabo? Parecia mais com aqueles velhos aposentados que jogavam dominó na praça.

– Devia ler mais, meu jovem – disse o diabo, apontando-lhe um dedo acusador. – É nisso que dá ficar vendo esses filmes idiotas da tevê. Deixa de saber quem foram os grandes nomes da História.

Agenor concordava com a cabeça, sem compreender aquela espécie de sermão. Aquilo era mesmo um diabo?

– Ainda duvidando de mim, rapaz?

Ele lia pensamentos! – assustou-se Agenor.

– Desculpe… é que… eu… – E não soube mais o que dizer.

– Já sei, já sei – falou o diabo, dando com a mão, resignado. – Esperava um diabo mais jovem. É sempre assim. Por isso é que eles querem me aposentar. Nem um diabo velho é mais respeitado hoje em dia. O mundo está perdido.

– Desculpe, eu não quis…

– Eles sempre enviam diabos moços e vigorosos, para impressionar os tolos. Pois saiba, meu jovem, que toda a juventude deles não serve nem para lustrar as botas da experiência de Soloniel, estas aqui!

Agenor olhou para as botas. Eram bonitas e brilhosas. Só um pouco folgadas.

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06e– Está vendo? Estas botas já estiveram em muitos lugares e muitos tempos, tantos que os números já não contam – Ele batia nas botas com a ponta da bengala, tum-tum-tum. – Estas botas já estiveram em cavernas, tendas, palácios! Em castelos, campos de batalha, escritórios, alcovas mal iluminadas! Já presenciaram acontecimentos cruciais da história humana. Não só presenciaram como também ajudaram a determiná-los. Entende?

– Sim, sim… – balbuciou Agenor.

– Eu é quem incentivo as pessoas no rumo dos seus sonhos mais íntimos. E por eles cobro meu preço, claro. Tem um pano aí?

– Um pano? Este serve?

Agenor estendeu-lhe o cobertor. O diabo agachou-se e usou o cobertor para dar uma lustradinha nas botas.

– Obrigado – ele agradeceu, devolvendo o cobertor. – Vamos lá, qual é mesmo o seu pedido?

Agenor respirou fundo.

– Bem, eu… O senhor pode mesmo realizar qualquer desejo?

O diabo deu um risinho de impaciência.

– Diga logo o que quer, meu jovem. O diabo Soloniel ainda tem quatro encontros esta noite.

– Eu… eu…

De repente, Agenor sentiu um medo imenso. Valia mesmo a pena um pacto com o demo?

– Até logo, jovem – disse o diabo, virando-se e pegando o caminho de volta. – Volte para a sua mamãe. Pacto com o diabo não é para gente fraca como você.

– Ei, espere! – gritou Agenor, nervoso. – Vou fazer o meu pedido. Agora.

O diabo parou e voltou-se. E aguardou, apoiado em sua bengala.

– Eu…

– Sim?

– Eu quero que todas as mulheres…

– Estou ouvindo.

– Eu quero que todas as mulheres do mundo me desejem.

Pronto, dissera. Estava feito. E uma vez formulado, o pedido não podia mais ser mudado, ele sabia. Não dava mais para voltar atrás.

Agenor aguardava, a respiração suspensa, as palavras ecoando em seus ouvidos: todas as mulheres… do mundo… me desejem… De repente, pela primeira vez, seu desejo lhe pareceu ridículo e despropositado… Era como se as palavras, finalmente pronunciadas, concretizadas solenes no ar, tivessem o poder de lhe abrir os olhos.

– Hummm… Bom pedido, bom pedido – murmurou o diabo, balançando a cabeça, coçando a barbicha branca. – Fazia tempo que eu não topava com um desse. Deixe-me ver…

Agenor aguardava, nervoso. Teria sido um pedido difícil demais? Será que zombaria dele? Estaria estudando suas palavras, procurando brechas para poder enganá-lo?

– Claro que é difícil. Fazer todas as mulheres do mundo desejarem um cara feio, pobre e desengonçado como você é missão que pode consagrar um diabo pela eternidade inteira. Sabe o que significa a eternidade inteira, jovem?

A eternidade? Sim, claro, Agenor respondeu com a cabeça. Quer dizer, não, não sabia.

O diabo continuava coçando a barbicha, apoiado na bengala, olhando para as estrelas… Eram segundos que para Agenor pareciam séculos.

– Teve muita sorte de pegar um profissional como Soloniel, meu jovem. O que você pediu requer a experiência que só eu possuo, acredite. Pois muito bem. Dê-me o documento.

Agenor puxou do bolso uma folha de papel dobrada. Nela estavam a frase exata de seu pedido, data, local e a assinatura.

– Perfeito – falou o diabo, guardando o papel no bolso do sobretudo. – Então estamos combinados. Toque aqui.

Apertaram-se as mãos.

– Na hora certa virei buscar o pagamento pelo serviço. Adeus.

Agenor viu o diabo sumir mato adentro. Então respirou fundo. Fizera o pacto. Estava feito. O diabo realizaria seu desejo, era isso que importava.

Ele conseguira. Não era um fraco. Quanto à sua alma, pensou, já descendo a pedra a caminho da cidade, perdê-la seria um preço pequeno diante do grandioso futuro que o aguardava.

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OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eO DIA SEGUINTE FOI NORMAL como todos os outros dias do carteiro Agenor. Envelopes, endereços, campainhas que não funcionavam, cães que detestavam carteiros. Entregas e entregas sob o sol da manhã e sob o sol da tarde. Nada demais. Mas nesse dia, pela primeira vez, o feio, tímido e desajeitado Agenor olhou as mulheres com certa segurança. Na lanchonete, olhou para a moça que servia e lhe piscou um olho. Mas a moça não correspondeu e virou o rosto. Ele sorriu e apenas pensou: Deixe estar…

O dia terminou sem novidades. Após o jantar, pediu bênção à mãe, dona Fafá, e se recolheu. Antes, porém, olhou-se no espelho. Nada mudara em seu rosto, em seu corpo, ele continuava o feio de sempre. Mas era apenas o primeiro dia, explicou a si mesmo. Em breve as coisas seriam diferentes.

No segundo dia, as coisas também não foram diferentes. Envelopes, encomendas, endereços, cães antipáticos, o sol. A mesma caminhada diária, a mesma rotina. Tudo continuava igual. E as mulheres de Jubá também. Nenhuma lhe pareceu mais simpática. Continuavam todas em seu mundo distante, princesas inalcançáveis de um reino a ele não permitido. Nem Dorinha, pela qual era secretamente apaixonado, mostrou-se mais acessível. Uma pena, pois Dorinha era bonita, prendada, trabalhadeira. Poderia ser sua mulher…

O terceiro dia também não trouxe novidades. O quarto dia também. Passou-se uma semana e nada aconteceu. Agenor olhava-se ao espelho e via, decepcionado, que continuava o mesmo ser desprovido de atrativos. E a vida também era a mesma, ele suando de número em número e as mulheres limpas e perfumadas a ignorá-lo.

A segunda semana também correu igual, assim como a terceira. Um mês e nada, nenhuma mudança em sua vida.

Naquela noite, Agenor virou-se na cama e sentiu-se imensamente triste por seu desejo não ter sido realizado. O diabo bem que dissera, era um pedido difícil.

Talvez houvesse errado na formulação do pedido, será? Talvez não houvesse escolhido as palavras exatas, isso era comum nas histórias dos pactos com o demo. Mas onde errara? De todas as que estudara, aquela era a melhor frase. Não podia dizer “Quero todas as mulheres”, pois o diabo simplesmente poderia fazê-lo continuar querendo, e só. Listar as mulheres que queria que o desejassem também não era uma boa ideia, pois terminaria deixando alguma de fora e, além do mais, está sempre nascendo mulher.

“Quero que todas as mulheres do mundo me desejem” era a melhor maneira de pedir. Não importariam sua pobreza, sua feiúra e sua falta de jeito se elas o desejassem. E sendo “todas as mulheres do mundo” não haveria risco de deixar nenhuma de fora, entrariam todas, da mais feia à mais linda, da mais pobre à mais rica, da mais anônima e insignificante à mais famosa e cobiçada. Todas o desejariam e a ele caberia apenas escolher quem dentre elas teria o privilégio de realizar seu desejo. Você sim, você não. Ah, seria o paraíso!

Súbito, lembrou-se de um detalhe, algo que havia lhe escapado durante todo aquele tempo: sua mãe. Dona Fafá também estava incluída na relação! Claro. Sua mãe querida, viúva, que tão bem cuidava do filho único. Sua mãe era uma mulher e, sendo assim, também o desejaria. E agora?

Agenor percebia sobressaltado que a formulação não fora perfeita. O que fazer com o desejo de sua mãe? Ou ela, por ser mãe, estaria automaticamente excluída das possibilidades? O diabo Soloniel seria razoável, entenderia a questão? E se seu pai fosse vivo, o que não acharia de uma marmota dessa?

Agenor puxou o lençol e se cobriu, como se assim pudesse se esconder de tantos pensamentos e dormir. Demorou uma eternidade para conseguir pegar no sono.

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OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06ePRIMEIRO FOI O CHICO DA MAGNÓLIA, velho amigo. Era domingo e tomavam uma cachacinha à beira da lagoa quando Chico, já bêbado, confidenciou a Agenor, sem jeito, que estava acontecendo com ele uma coisa terrível, terrível. E a muito custo foi que conseguiu dizer que ficara broxa, já não conseguia fazer nada com as mulheres, o dito cujo não funcionava mais, uma desgraça. Na noite anterior, por sinal, fora ter com as raparigas lá do Siribó, elas que sabiam como ninguém alegrar o cidadão. Mas que nada, não teve jeito que desse jeito. Tentou com a Paizinha, com a Chiquinha Piassaba e a Neide Peixeirão. Nenhuma delas conseguiu levantar-lhe o moral um centímetro que fosse. Tentou até umas pilulazinhas que um primo trouxera da cidade grande, diziam que levantava até bigorna. Mas nem elas deram jeito. No desespero, chamou a Paloma, a espanhola dos peitões, a mais cara daquelas bandas do sertão, disposto a gastar cinquenta contos, o salário da semana inteira. Pois nem a Paloma, veja você, nem ela.

Agenor consolou o amigo, dizendo que procurasse um médico, não devia ser coisa muito séria. Mas Chico disse que já havia ido ao médico e este, sem detectar nada de anormal, falou que era psicológico, algum problema devia estar preocupando-o. Mas não tinha problema algum, explicou Chico, a não ser esse, esse era o problema, o pinto não queria mais subir e pronto. Uma vergonha que o cidadão trabalhador e pagador dos seus impostos não merecia passar.

Agenor, sensibilizado, encheu um copo e tomou. Que uma desgraceira daquela nunca se abatesse sobre ele, jamais.

Depois foi a vez do seo Ribamar da bodega, que se chegou para perguntar se ele, Agenor, não conhecia um pai de santo bom, bom mesmo, que entendesse de mandinga de mulher malamada, pois ele tinha certeza: foi mulher sim que lhe jogara aquele trabalho desgostoso, foi mulher sim.

Agenor ficou impressionado. Seo Ribamar era homem forte, de saúde, viúvo e namorador. Difícil crer que tão cedo deixasse de dar nos couros. Pois deixara. Sim, ele sabia de um pai de santo muito bom, lá para as bandas do Paredão, fosse lá que ele com certeza anularia aquele encosto de mulher ruim. Seo Ribamar agradeceu e saiu. Agenor viu o homem se afastar e bateu três vezes na madeira.

Então começaram a chegar as notícias. O atendente da farmácia, rapaz novo, não tinha vinte anos, também andava com o mesmo problema, como podia? E o cabo Nonato, famoso pela ruma de namorada que tinha, também havia ido ao Paredão se consultar com o pai de santo para se curar de uma desgraceira repentina que o deixara inutilizado para as artes da agarração.

De repente, boa parte dos homens de Jubá estava broxa e o assunto era o preferido nas rodas de conversa. As beatas nas janelas invocavam Esaú aos Filisteus, capítulo 2, versículo 14: “E o peso da descrença pesará sobre a virilidade dos ímpios, e estes serão marcados pelo Anjo com o castigo de não poderem mais dar filhos às suas mulheres e a Terra os amaldiçoará.” Benza Deus.

Autoridades evitavam se pronunciar sobre o assunto porque o fato provocava risinhos e constrangimentos. O que estava acontecendo afinal? Ninguém possuía explicação convincente para o fato e os médicos da cidade se debatiam entre teorias diversas, sem chegar a conclusão alguma.

A cada notícia, Agenor se assustava e corria para o banheiro para se investigar, munido de alguma revistinha. Não, com ele não, felizmente. Com ele tudo corria normalmente, conforme a natureza estabelecera. E com as mulheres, tudo normal também: elas continuavam distantes como sempre.

Alguns forasteiros, atraídos pela notícia de que as mulheres de Jubá estavam que nem lagartixa, subindo pelas paredes, decidiram descer por lá e averiguar se a história tinha mesmo cabimento. Resultado: os hotéis da cidade agora estavam lotados. Se a broxação geral representava um golpe no orgulho dos machos jubaenses, a receita do turismo fechava os olhos dos donos de hotéis e dos bares.

Os homens sérios de Jubá não gostaram nem um pouco dessas novidades, lógico, e exigiram posição firme das autoridades. Uma equipe médica da capital foi então designada para estudar a estranha epidemia e, após muitos exames, constatou que, com exceção de uns gatos pingados, quase toda a população masculina da cidade já havia sido afetada. Uma tragédia.

Apesar de todos os esforços, a equipe deixou a cidade sem qualquer explicação para o fenômeno. Bem ao contrário de outras coisas na cidade, o mistério continuava de pé.

Receitas, simpatias, promessas e orações, tudo foi usado contra a desgraceira. A Ladainha Milagrosa dos Sete Pingos, ou Ladainha da Bengala Poderosa, como também é conhecida, que diz que é tiro e queda, reapareceu por esses dias com força total, circulando pelas banquinhas da feira e até mesmo em farmácia, veja o desmantelo da situação. Ela dizia que o cidadão, pouco antes de começar a peleja do amor, devia acender uma vela branca nunca antes usada e, ajoelhado na direção de Juazeiro do Norte, deixar cair sete pingos sobre o dito cujo desmilinguido enquanto rezava:

Com minha fé e humildade, eu trago aberto o coração
E rogo pela intercessão de quem escuta o meu pedir
Que me ajude nessa prece para expulsar o malefício
Acabando o meu suplício nos sete pingos a cair

Minha bengala poderosa, acuda logo sem demora
Que é urgente essa hora de dor, espanto e aflição
Minha bengala poderosa, cancele a lei da gravidade
Para que suma a maldade e suba logo o cacetão

O estojinho contendo vela e folheto vendeu que nem bolacha, não deu para quem quis. Só não ensinava para que lado ficava exatamente a cidade de Juazeiro, indesculpável falha que, certamente, deve ter inviabilizado muita reza, pois ninguém viu melhora alguma na situação.

Um jornalista da capital, que acompanhava o trabalho dos médicos, levou as informações para o seu jornal, e pronto: no outro dia o estado inteiro estava por dentro da desgraça da pequena Jubá. No mesmo dia começaram a chegar à cidade repórteres de rádio, jornal e tevê. Até um laboratório farmacêutico, que produzia as tais pilulazinhas milagrosas, andou distribuindo amostras grátis, farejando na desgraceira alheia uma grande oportunidade de negócios. Mas deu com os burros nágua: para os homens de Jubá as pilulazinhas e nada eram a mesma coisa.

Foi então que começaram a chegar notícias de outras localidades próximas: nelas também estava ocorrendo a mesma coisa! Tudo o que acontecera em Jubá estava se repetindo por lá, o mesmíssimo drama. E poucos dias depois soube-se dos primeiros casos fora do estado. Logo depois cidades do país inteiro exibiam alarmadas seus crescentes casos de impotência. Semanas depois o mal já havia alcançado os outros países. A desgraça agora era global.

Cientistas se esforçavam por explicar, políticos exigiam verbas, empresários se mobilizavam, organizações formavam passeatas… O mundo inteiro não falava em outra coisa. Da Europa aos recônditos da África, de Santiago a Vladvostock, os homens, pretos, brancos, índios e amarelos, ricos e pobres, iam, dia após dia, sucumbindo ao mal sem que ninguém entendesse por que diabos aquilo acontecia.

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OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eDESDE O PRIMEIRO CASO notificado em Jubá, tinham se passado quase seis meses, e as estatísticas mostravam que mais de noventa por cento da população mundial masculina fora afetada pela repentina impotência, e os casos prosseguiam aumentando, sem poupar nem os adolescentes, coitados, mal entrados no assunto. Sem ereções, como a espécie se perpetuaria? Podia-se realizar inseminação artificial nas mulheres, é claro, mas isso não resolvia o problema. Muito menos explicava.

Enquanto isso, médicos e terapeutas faturavam alto com o desespero, pais de santo, pastores e cartomantes engordavam a conta bancária, pomadas e sprays milagrosos surgiam às centenas e os vibradores viraram itens obrigatoríssimos no comércio inteiro, fazendo surgir inclusive um projeto de lei que incluía o vibrador na cesta básica.

Enquanto o mundo vivia seu terrível pesadelo, naquele domingo Agenor acordou sorridente. Após três sorvetes na lanchonete e várias noites de conversa mole na porta de sua casa, Dorinha aceitara seu pedido e agora estavam namorando, ela que já fazia algum tempo comprovava, nas despedidas ao portão, que aquele romance tinha, literalmente, onde se segurar. E para comemorar o namoro, ela conseguiu folga no restaurante e passaram o sábado na lagoa bebendo vermute. No final, já noite escura, ela o puxou para si e ali mesmo sacramentaram o nheconheco, ele alegríssimo, ela em desesperado ardor, como se havia muito não soubesse como era um homem, coitada. Nessa noite, ela foi a mulher mais satisfeita do mundo e, embora não houvesse muitas estrelas no céu, Dorinha viu todas elas, de pertinho, brilhando em todas as cores, uma constelação de felicidade.

Quando as amigas de Dorinha souberam que ela estava namorando Agenor e andava cantarolando alegre e vistosa, chegaram à mais óbvia das mais óbvias das conclusões. Assim foi que a partir desse dia, Agenor pôde perceber uns olhares mais insinuantes pela rua e por onde quer que fosse.

Belo dia, ao receber a correspondência entregue por Agenor, a moça da butique, de nome Carmela e apelido Botinha, que por sinal era prima da Dorinha mas, ao contrário da prima, nunca se prestara a saliência na frente do portão, perguntou mui delicadamente a Agenor se por um acaso ele não faria a gentileza de matar uma barata voadora que teimava em não querer deixar o depósito lá atrás, ela que tinha pavor de barata, quanto mais voadora. Agenor, muito solícito, se dispôs. Quando chegou ao depósito foi que percebeu que era outra a barata. Embora a moça não fosse lá muito bem dotada de atributos físicos, tendo, inclusive, de usar bota ortopédica por causa de uma perna maior que a outra, daí o apelido, sem falar num braço seco que furou no prego, Agenor foi solidário, ah, foi sim, e fez com que a danada da barata se aquietasse. E voltou para a rua de ânimo revigorado, nem ligando para os cães que detestavam carteiros.

Mas em cidade pequena as notícias correm que nem fogo morro acima. Dois dias depois elas foram dar no ouvido de Dorinha, que depois de largar meia dúzia de mãozada na cara da prima Botinha traidora, tratou logo de tomar providências contra o perigo que seu patrimônio corria. O que fez: botou as amigas, todas de altíssima confiança, para acompanhar a trajetória do namorado pelas ruas da cidade, olheiras a bem dizer, uma vez que ela mesma não podia fazê-lo, já que pegava no batente o dia inteiro no restaurante.

Uma semana depois, Agenor já havia sido requisitado para matar duas dezenas de baratas pela cidade, inclusive na casa das tais olheiras, algumas delas crentes, irmãs em Cristo, sim, que Cristo, bom que se diga, não tem nada a ver com certas agonias femininas que costumam dar no fim da tarde, quando o sol desce em Jubá e sopra um ventinho fresco que se intromete por baixo das saias.

Dorinha, de sangue quente por causa da crescente fama do namorado, agarrou-o pelo cangote no meio da praça e deu o ultimato: ou ela ou as baratas, que ela não era mulher de dividir com as outras aquilo que de direito era só dela.

Agenor pensou um pouco. Não era sua intenção magoá-la, Dorinha era mulher boa e ele gostava muito dela. Mas é que as baratas… Bem, elas lhe acenavam com um horizonte muito mais amplo de possibilidades, digamos dessa forma. Andava até pensando em montar uma firmazinha de dedetização, o mercado era promissor.

Ficaria com elas, as baratas. Foi o que respondeu.

Quem estava na praça viu quando o tabefe de Dorinha estalou no pé da orelha do carteiro, tabefe daqueles de ficar zunindo por três dias. Ela virou as costas e saiu, o passo ligeiro, a tromba desse tamanho, deixando Agenor de quatro a recolher as correspondências caídas ao chão.

Na mesma noite, porém, ela haveria de cair em si e se arrepender, tentar reconciliação, haja vista a carência horrorosa de bicho homem masculino na cidade. Melhor dividir o prato que não ter o que comer, coisa mais óbvia, né?

Mas nada feito. Agora era Agenor quem não queria. Ela chegara atrasada à obviedade.

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eNo dia seguinte, um conhecido repórter da rádio local, de modos muito delicados, e que fazia uma reportagem sobre a epidemia, cismou de querer entrevistar algum homem que ainda estivesse com suas funções de macho normais. Acionando seus contatos e perguntando daqui e dali, o repórter soube do carteiro Agenor. Animado com a descoberta, alcançou-o no momento em que, fim de expediente, trabalho terminado, o moço se encaminhava para matar uma barata lá para o lado do açude. Porém, tímido como era, Agenor nem deixou que o repórter lhe explicasse o motivo da entrevista e saiu correndo.

Naquela mesma noite a reportagem foi ao ar. Não continha a entrevista de Agenor, claro, mas falava dele, e muito. E bem.

Dez minutos após terminada a reportagem já tinha gente em frente à casa do carteiro Agenor. Dois amigos e sete vizinhas. Dona Fafá disse que o filho não estava, mas que não devia demorar a chegar. Todos resolveram aguardar, os dois amigos e as sete vizinhas. Oito, porque logo chegou mais uma. Aliás, nove.

Do outro lado da cidade, Agenor pediu que a garota parasse um pouquinho com o vai e vem sobre seu corpo porque ele acabara de escutar seu nome no rádio.

– Preciso ir pra casa – ele falou, afastando a garota. – Mamãe deve estar preocupada.

– Ah, fica mais um pouquinho…

Era a terceira vez que escutava aquela mesma frase naquele dia.

Alguns minutos depois, Agenor dobrou a esquina de sua rua e tomou um susto. Havia um bando de gente em frente à sua casa. Ele se escondeu atrás de uma árvore, com medo, enquanto pensava o que fazer. Decidiu entrar pelos fundos.

– Filho, aquilo que saiu no rádio é verdade? – Foi a primeira coisa que a mãe perguntou, ao abrir a porta do quintal para ele entrar.

– Mãe, a senhora viu? Tá cheio de gente lá fora.

– Na sala também. O Chico da Magnólia, seu tio Ferreirinha… Suas primas também estão aí. Até o prefeito veio.

– Pode dizer pra todo mundo que eu viajei.

– Mas…

– Vai, mãe. Vou esperar aqui.

Agenor escondeu-se no quartinho dos fundos enquanto dona Fafá voltava à sala.

– Foi um custo, mas foram embora – ela disse, retornando. – Agora me conte direito essa história.

Agenor falou que não sabia o que estava acontecendo. Mas estava muito preocupado com tudo aquilo.

– Então vá dormir, filho, que é melhor. Tô vendo que você está cansado. Trabalhou muito hoje, né?

Agenor pediu a bênção e foi para o quarto. Mas sono que é bom, não teve, não conseguiu pregar o olho. Sem falar que no meio da madrugada uma vizinha conseguiu entrar pela janela e se atracou com ele, quase que não consegue se soltar, a moça pedindo pelo amor que ele tinha a Nossa Senhorinha que também desse uma chinelada em sua barata, que ela andava muito precisada. E já perto de amanhecer foi a Jaciara, filha do dono do cartório, que todo mundo desconfiava ser meio destrambelhada do juízo. Pois ela provou que era mesmo: trepou-se no telhado da casa, e ficou lá em cima, nua, berrando para o mundo inteiro ouvir que estava grávida de Agenor. Mentira, claro, Agenor nunca nem tocara na moça, e ela antes nunca jamais nem tinha olhado para ele.

De manhã, assustado e exausto pela noite em claro, Agenor decidiu que o melhor era ir embora. Sentou-se com a mãe no sofá e anunciou sua decisão.

– A gente pode mudar de endereço.

– Vai adiantar não, mãe.

– O mundo lá fora é tão perigoso, filho. Essas mulheres todas se enxerindo pra você…

Agenor olhou para a mãe e sentiu uma pontada de tristeza magoar seu coração. Súbito, percebeu o quanto estava sendo egoísta. Como podia pensar em abandonar sua mãe querida, deixá-la sozinha? Pensava apenas em si mesmo, esquecera da mãe. Como podia ser tão ingrato com aquela que lhe deu a vida, que o criou e nutriu?

Então se achegou no colo da mãe, que o abraçou forte, abraço sentido, apertado, seu corpo envolvendo o do filho amado… Agenor fechou os olhos e deixou-se levar por aquele abraço gostoso, o mormaço aconchegante dos seios de dona Fafá, que o apertava mais forte contra si, mais forte, mais forte…

Agenor abriu os olhos. O rosto afundado entre os seios grandes da mãe, quase não conseguia respirar. Um terror repentino se apossou de sua alma. O que estava fazendo?

– Tenho que ir embora, mãe… – balbuciou, levantando-se. – A senhora me perdoa?

– Eu sabia que um dia você ia partir, filho – ela respondeu, enxugando uma lágrima.

Ela então foi ao quarto e voltou com umas notas que tirara do fundo da gaveta.

– Tinha esse dinheirinho guardado. É muito não, mas ajuda. Tome, leve. Vou ligar pra minha irmã Zulmira pra ela lhe receber.

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eNa rodoviária, enquanto Agenor esperava o ônibus, foi surpreendido pela equipe de tevê da capital, que acabara de chegar a Jubá à sua procura. Ele não quis dar entrevista, mas mesmo assim o filmaram entrando no ônibus.

Na estrada, a caminho de Bocariús, foi que atinou: o pacto com o diabo! E ficou pasmo, os olhos arregalados. Tudo aquilo seria o pacto funcionando?, ele se perguntava, a mão sobre o coração agitado. Talvez o diabo estivesse realizando seu desejo, embora por vias que ele jamais pudesse atinar. Todo o tempo pensou que ficaria mais bonito, talvez o diabo lhe fornecesse um perfume irresistível… Mas não, não foi nada disso.

Se era realmente o pacto funcionando, então lamentava que os outros homens estivessem pagando tão caro pela sua felicidade. Mas talvez fosse só por um tempo, logo voltariam ao normal. Mas se voltassem ao normal, como ficaria ele?

O ônibus chegou a Bocariús na hora do almoço. Agenor estava faminto, pensava somente num prato de comida. Encostou-se no balcão da lanchonete e pediu arroz, feijão, bife e ovo. Na tevê, passava uma reportagem, mostrando o último homem de Jubá entrando no ônibus, seguindo para… Bocariús.

Todos na lanchonete pararam ao ouvir o nome da cidade. Agenor nem respirava. A garçonete foi a primeira a reconhecê-lo.

– Gente, é ele! O homem de Jubá!

No instante seguinte estavam todos à sua volta, queriam perguntar coisas, tocá-lo. Os homens imploravam que divulgasse a receita milagrosa, as mulheres o abordavam eufóricas. Agenor se desvencilhou como pôde e saiu. Mas as pessoas o seguiram. É o Bendito de Jubá!, uma garota gritou da janela do ônibus que passava na rua. Ele vai morar aqui!, gritou a outra. E a terceira completou: E vai casar comigo!!!

Em poucos minutos, uma multidão o acompanhava pelas ruas, parecia uma procissão. O comércio fechou para vê-lo passar. Agenor correu e a multidão correu atrás. Finalmente, ele chegou à casa da irmã de sua mãe, ofegante, a roupa rasgada, um sapato faltando. Tia Zulmira, noventa e cinco quilos de gordura e macheza, abriu rápido a porta e botou para dentro o sobrinho escangalhado. Depois, brandindo a carabina velha, gritou que o primeiro que chegasse perto ia ficar que nem peneira. E atirou para o alto, espalhando a multidão.

Mas a cidade inteira já sabia quem havia chegado e não o deixaram em paz nem por um minuto. Eram populares, radialistas, comerciantes, religiosos, vereadores e toda classe de gente interessada em ter com o último homem de Jubá. A tia trancara portas e janelas e desligara o telefone. A polícia protegia a residência contra a multidão alvoroçada que gritava o nome de Agenor, homens e mulheres, e tarde da noite ainda tinha gente rondando a casa.

Agenor estava cada vez mais assustado. A tia, porém, lhe garantiu que ali dentro ele estava seguro.

– Obrigado, tia. Vou ficar em dívida com a senhora pro resto da vida.

De madrugada, outra noite sem conseguir dormir, Agenor viu a tia entrando no quarto.

– Ô, meu filho, acuda sua tia, acuda… Não é só lá em Jubá que tem carestia de homem não…

Foi assim que Agenor pagou a dívida.

Antes que amanhecesse, ele aproveitou a escuridão, correu para a estrada e pegou carona num caminhão. Sorte que o motorista não o reconheceu. Desceu numa cidadezinha que nem sabia o nome. Mas lá também as pessoas imediatamente o reconheceram. Ele até que tentou conversar, mas a confusão logo se instalou ao seu redor, os homens, raivosos, se arregimentando para capá-lo, e as mulheres, revoltadas, tentando impedir. Quando a polícia chegou, ele precisou correr bastante para não ser preso por incitar a desordem.

Pobre Agenor. Já não havia mais onde se esconder. Sua imagem fora divulgada pela tevê para o mundo inteiro, todos sabiam seu nome, conheciam detalhes de sua vida. Para onde fosse, seria reconhecido. Podia ser preso, podia ser morto.

Mas havia um lugar. Sim, lembrou Agenor, a esperança de repente renascida. A capital. Lá tinha muita gente, parecia formigueiro. E as pessoas estavam sempre ocupadas demais para reparar nas outras.

Foi assim que Agenor, pela primeira vez na vida, pisou o chão da cidade grande. Escondendo o rosto com boné e óculos escuros, claro. Na primeira lixeira, jogou fora todos os seus documentos. Não era mais Agenor. Era um ninguém.

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OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eO MUNDO INTEIRO CONTINUAVA buscando a explicação e, principalmente, a solução para o problema da impotência generalizada. Jubá, a pequenina cidade interiorana, virara atração internacional por ter sido lá onde a estranha epidemia começou. Assim foi que os jubaenses de repente se viram entre autoridades de países do mundo inteiro, toda uma espécie de gente ávida por saber o que havia naquela cidade que pudesse ter causado o que causou. Jubá, a cidade celebrizada pela desgraça.

– Dizem que só sobrou um homem sadio em Jubá – explicou o prefeito impotente em entrevista. – Mas ele fugiu, ninguém sabe onde se meteu. Aproveitando a ocasião, gostaria de dizer que em breve teremos na praça principal um monumento comemorativo dessa epidemia que projetou para todo o planeta o nome da próspera cidade de Jubá e…

Apesar do protesto da oposição, que não via motivo em comemorar a desgraça, o monumento foi construído e inaugurado com pompa. Quando descerraram o pano vermelho, surgiu imponente a estátua do carteiro Agenor, ele e sua bolsa de trabalho, o passo decidido, o rosto a mirar confiante o futuro. E, entre as dobras da calça, uma dobra maior, bem mais destacada, tão destacada que ali os passarinhos deram de fazer pouso quando o sol descia pelo outro lado e deixava a frente da estátua na sombra.

Pelos quatro cantos do mundo os jornais ofereciam anúncios de mulheres, e homens também, que pagavam fortunas por uma noite, uma noite apenas com qualquer um que houvesse escapado da broxação geral. Na tevê, os cientistas, olheiras profundas, imploravam que se apresentassem aqueles que ainda podiam ser preservados da epidemia. Nas ruas, os semblantes seguiam tristes. Nas igrejas, renovavam-se os sermões a bradar sobre o castigo divino, Sodoma e Gomorra revividas, o fim do mundo.

Parecia que o sombrio e previsível fim havia finalmente chegado: o mundo não tinha mais homens dignos do nome.

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SEIS MESES APÓS CHEGAR à capital, lá estava Agenor, ao lado do ponto de ônibus, sentado na calçada, a mão estendida. Era o seu ponto de pedir esmolas. O local não era muito movimentado, mas pelo menos não tinha dono para cobrar aluguel, como os outros pontos. A barba crescida, o boné e as roupas sujas faziam-no apenas mais um entre os tantos mendigos que compunham a cena da cidade grande.

O que ganhava era o suficiente para não morrer de fome e de frio. Dormia num velho prédio que fora abandonado no meio da construção, onde também dormiam outros mendigos, com os quais evitava maiores contatos. Não era um lar, era um esconderijo. As pouquíssimas coisas que possuía levava sempre consigo numa sacola de plástico. E tomava banho, quando dava, usando a torneira da praça, na discrição da madrugada.

A vida na clandestinidade era difícil, claro, mas era melhor ser ninguém que ser reconhecido na rua e ir parar sabe-se lá onde, nas mãos de sabe-se lá que tipo de gente. Emprego então, nem pensar. Mesmo que conseguisse empregar-se sem documentos, ainda assim seria arriscar-se demais.

Não tinha amigos, não podia confiar em ninguém. A solidão era a companheira, ela e a saudade da mãe e dos amigos. Sua vida chegara a uma rua sem saída, onde ele não podia seguir em frente e muito menos voltar. Estava condenado a viver aquela subvida até o último dia, quando finalmente o diabo voltaria para receber sua alma como pagamento pelo serviço. A não ser que…

A não ser que descobrissem a cura para a impotência generalizada. Quando isso acontecesse, Agenor finalmente poderia deixar de ser ninguém para ser novamente… Agenor. Ou seja, continuaria a ser ninguém. Mas pelo menos voltaria para seu lar e não teria que pedir esmolas.

Que grande ironia…. Obtivera a realização do seu maior desejo e, no entanto, não podia usufruir nem um pouco dele. Ele era desejado por todas as mulheres do mundo, mas isso de nada valia. Ele era o último homem do mundo – e não havia nenhuma vantagem nisso.

Às vezes tomava coragem e caminhava pelas ruas, ia aos parques, mas sempre surgia algum guarda ou policial para importuná-lo. Outras vezes percebia nas pessoas uns certos olhares desconfiados… Pronto, era o bastante para fazê-lo voltar imediatamente ao esconderijo. Estava bem diferente da imagem que o tornara famoso, sim, mas todo cuidado era pouco.

Pelos jornais que pegava no lixo ou pela tevê do botequim, Agenor acompanhava as notícias da epidemia. Sabia que tudo continuava do mesmo jeito. E sabia que o mundo inteiro prosseguia a busca pelo último homem do mundo, como ele ficara conhecido. Seu desaparecimento gerara uma série de hipóteses, desde as que afirmavam que ele fora assassinado às que sustentavam que ele era mantido preso nos subterrâneos de um laboratório enquanto cientistas tentavam decifrar seu segredo. Alguns diziam que o último homem do mundo fugira para uma ilha distante e montara um harém só para ele, mandando buscar as mulheres mais lindas do mundo…

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eAgenor às vezes ria desses absurdos, era mesmo incrível a imaginação do povo. Mas não dava para rir quando ele via seu rosto surgir na tela da tevê, o que acontecia quase todo dia. Nessas ocasiões ele baixava ainda mais o boné sobre o rosto e saía de mansinho, tremendo de medo.

Quase tão grande quanto o medo de ser descoberto era a angústia que lhe faziam sentir… as mulheres. Ah, as mulheres da cidade grande… Eram lindas, carnudas, bem aprumadas, vestiam-se com elegância, a pele fresquinha, o cabelo bem tratado, o jeito de andar… Elas enfeitavam todos os lugares, as ruas, as lojas, os bares. Onde estivesse, vinha-lhe o perfume inebriante da tentação, atingindo-o em cheio. À noite, deitado sobre os papelões que lhe serviam de cama, rolava de um lado para outro, a imagem de mil mulheres passeando por seu pensamento, aquela de vermelho com quem cruzou na esquina e aquela que passou no ônibus e aquela vendedora de flores, todas elas, mil mulheres, mil possibilidades… Mil possibilidades que, entretanto, sempre desapareciam expelidas num jato de prazer solitário.

Uma vez, sem aguentar mais, dirigiu-se à periferia em busca de um bordel, mesmo consciente do altíssimo risco da operação. Mas não encontrou nenhum. Foi então que soube que todos os bordeis haviam fechado. Por absoluta falta de clientes.

Esta era a angústia. E durante aqueles meses ela só não foi maior que o medo de ser descoberto. Até que uma noite…

Desde o início, Agenor adquirira um hábito: guardar classificados dos jornais que recolhia no lixo. Recortava pedaços e juntava aos que já possuía. Eram todos anúncios de mulheres oferecendo pequenas fortunas por uma noite com um homem de verdade. Pois bem. Naquela noite de lua imnguante, no auge da angústia e da solidão, ele separou um anúncio e com ele desceu as escadas sem corrimão do velho prédio inacabado. De um orelhão da rua ligou para o número do anúncio. Uma voz de mulher atendeu… Ele falou quem ele era. A mulher não acreditou. Nervoso, ele falou que poderia facilmente provar, mas para isso precisavam se encontrar. A mulher disse que enviaria um táxi imediatamente. Agenor passou o endereço onde estava e desligou.

Enquanto aguardava, ansioso, pensou: havia feito a coisa certa? Sim ou não, agora já não voltaria atrás, não aguentava mais.

Em cinco minutos, o táxi chegou. Ele entrou e acomodou-se no banco de trás. Estava nervoso, mas esperançoso. Aquela podia ser a saída que tanto buscava: uma mulher rica e insatisfeita, disposta a pagar muito por um homem que lhe desse prazer. Ela o levaria para morar numa bonita casa de praia, cozinharia para ele, lhe compraria roupas caras, lhe daria um carro bonito, faria todas as suas vontades. Em troca disso tudo, ele teria apenas que ser o que ele era: um homem. Só isso.

O táxi parou em frente a uma casa. Agenor reparou que era grande e bonita, com um jardim cheio de plantas coloridas. Um homem de paletó, com um guarda-chuva, abriu a porta do carro. Estava chovendo uma chuvinha fina.

– Boa noite, senhor. Queira acompanhar-me, por gentileza.

Agenor foi conduzido pelo jardim, subiu uma escadaria e entrou numa sala.

– Por favor, sente-se. Anunciarei sua chegada.

Agenor sentou-se no sofá, admirando os móveis e os quadros nas paredes. Devia ser uma mulher muito rica, pensou, satisfeito. Aproveitando o espelho ao lado, passou o pente no cabelo e ajeitou a camisa. Por sorte havia tomado banho aquele dia. Pensara até em tirar a barba, mas não teve coragem.

Então uma outra porta se abriu e uma moça muito bonita surgiu à sua frente. Tinha lindos cabelos loiros, um rosto suave e… sorria. E vestia uma camisola transparente que nada escondia de seu corpo perfeito.

– Agenor de Jubá? – perguntou, delicadamente.

– Sim… sou eu… – gaguejou Agenor, o desejo já se manifestando sob as calças.

Ela o observou atentamente por alguns segundos. Então aproximou-se.

– Como posso ter certeza disso?

Agenor sorriu, sem saber o que responder. De repente, ela o empurrou e ele caiu sentado no sofá. Ela tirou seus sapatos, depois sua calça e rapidamente o deixou nu. Agenor nunca vira tamanha pressa, a moça devia estar mesmo na precisão.

– A senhora pensou que eu estava mentindo, né? – disse ele, vendo que ela olhava impressionada para o meio de suas pernas. – Menti não.

Ela continuou ajoelhada entre suas pernas, o queixo caído, os olhos de quem não acredita no que vê. Então ela se recuperou e gritou, alvoroçada:

– Está no ponto! Está no ponto!

Agenor achou estranho, mas já sabia que as mulheres da cidade grande possuíam hábitos esquisitos, de forma que apenas riu. No instante seguinte, vindos do corredor, surgiram uma mulher e dois homens.

– Obrigado – a mulher falou para a moça de camisola. – Agora é com a gente.

– Não dá para eu ficar sozinha com ele por dez minutinhos? – perguntou a moça.

Um dos homens, porém, a puxou e a afastou para o outro lado da sala. Agenor percebeu que o outro homem empunhava uma câmera de filmar. De repente, uma luz forte acendeu-se sobre ele.

– Estamos transmitindo ao vivo! – disse a mulher, falando no microfone. – Isso que você está vendo não é truque. A imagem não deixa qualquer dúvida: é o último homem do mundo! Nós o encontramos! Vocês podem ver, olhem aqui, é incrível, é, é inacreditável, é… maravilhoso…

Apavorado, Agenor levantou-se de um salto, correu e abriu a porta. Um dos homens ainda tentou detê-lo, mas ele desvencilhou-se e saiu em desabalada carreira, nu como estava, a luz do refletor seguindo atrás. Saltou o muro da casa, sempre a luz a persegui-lo, e caiu na calçada no meio de uma poça dágua. A chuva havia aumentado bastante. Agenor levantou-se, sentindo a perna doendo, e continuou correndo.

Correu, correu até não aguentar mais. Somente então parou e caiu no chão, ofegante, a perna doendo bastante. E assim ficou, estendido nu no chão da passarela do viaduto, enquanto a chuva caía sobre seu corpo e lá embaixo os automóveis passavam em alta velocidade.

Chegara ao fim. Não tinha mais forças para continuar com aquela vida. Estava muito cansado. Cansado de correr, de se esconder, de ser ninguém. Que sentido ainda havia em continuar vivo?

Então, apesar do cansaço, da dor da perna, de tudo, Agenor sorriu. Sorriu porque a certeza do fim de repente era como um bálsamo para sua alma sofredora. Sorriu porque estava finalmente liberto da dolorosa obrigação de viver.

.

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eUM TEMPO DEPOIS, Agenor percebeu que havia alguém ao seu lado.

– Humm, como você fica horrível sem roupa…

Ainda deitado no chão da passarela, Agenor virou o rosto e tentou ver quem era. Mas a água em seus olhos dificultava a visão. Aos poucos foi enxergando melhor: um par de botas pretas, a ponta de uma bengala…

– Soloniel… – ele sussurrou, reconhecendo o diabo em seu sobretudo preto.

– O mais astuto dos diabos – falou o diabo, tocando seu chapéu com a ponta dos dedos.

Agenor deitou novamente a cabeça, sem saber se deveria se sentir alegre ou triste.

– Por que fez isso comigo?

– Como assim? Fiz apenas o que me pediu.

– Eu só queria ser desejado…

– E não conseguiu?

Agenor suspirou, sem forças para falar.

– Creio que ambos concordamos que cumpri minha parte no trato, não é?

Agenor não respondeu. Nada mais importava. Ficaria ali, debaixo da chuva, até morrer…

– Conforme combinamos, vim buscar meu pagamento.

Agenor escutou aquelas palavras sem qualquer surpresa. Não lhe importava. Já estava morto.

– Por favor, levante-se, jovem. Esta não é a melhor posição para um momento tão solene.

Agenor abriu a boca, deixando que a água entrasse. Bebeu um pouco e depois perguntou, enquanto se erguia com dificuldade.

– O mundo vai continuar como está, todos os homens impotentes?

– É isso que você deseja?

– Claro que não. Não está certo.

O diabo Soloniel riu.

– Sente-se culpado apenas porque realizou seu grande desejo?

Agenor não respondeu.

– Como a vida é pródiga em ironias… – falou o diabo, batendo na bota com a ponta da bengala. – Bem, se isso serve de consolo, depois que você se for, tudo voltará ao normal.

Por um breve instante, Agenor sentiu-se feliz.

– Agora siga-me. Está na hora.

O diabo caminhou até a murada da passarela e subiu, ficando de pé. Depois virou-se para Agenor.

– Sua vez.

Agenor levantou-se, foi até a murada e olhou para baixo. Era uma altura bem considerável. Ouvira dizer que várias pessoas já haviam se jogado dali.

– Vamos, jovem, não posso ficar esperando a eternidade inteira.

Agenor ficou parado por um instante. Que maneira de morrer, estatelado no asfalto, os carros passando por cima… Depois seu corpo seria recolhido aos pedaços e levado ao necrotério, ninguém o reconheceria, seria enterrado numa cova qualquer, como indigente…

Apesar da dor na perna, Agenor subiu e firmou os pés sobre o cimento.

– Muito bem – disse o diabo. – Se quiser se despedir, posso dar-lhe um minuto.

De pé na murada, inteiramente nu, Agenor viu as milhões de luzes da cidade ao redor. O som da chuva se misturava ao dos carros passando lá embaixo. A queda seria rápida, apenas alguns segundos e pronto, tudo estaria acabado, não haveria mais sofrimento.

– Um, dois, três e…

De repente… uma dúvida. Como assim não haveria mais sofrimento? Esperava o quê do inferno? Agenor olhou para o diabo, pensando em como perguntar sobre aquela dúvida repentina.

– Que saco. O que foi agora? – perguntou o diabo, impaciente.

– Como é o Inferno?

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eO diabo pareceu não acreditar no que ouvia.

– Você quer que eu lhe explique como é o Inferno? Agora?

– É que… não consigo imaginar algo pior do que o que eu já vivo.

O diabo bateu na bota com a bengala.

– Bem, digamos que seu caso é uma exceção.

– Como assim?

– Como havia lhe dito, todos os diabos sonham com um pedido como o seu. Realizá-lo significaria a glória eterna para um diabo, o nome para sempre brilhando em ouro na entrada do Inferno. Bem, eu consegui. Agora sou o diabo mais respeitado de todos. Depois do chefão, é claro. E graças a você.

Agenor continuava ouvindo, curioso.

– Então, como retribuição, reservei um lugar especial para você. Será meu assessor. Você sabe, já estou velho, preciso dividir o serviço.

– Assessor? Eu?

– Claro. Dentro de alguns segundos você também será um diabo. E já tem um serviço esperando.

– Como assim?

O diabo fez uma pausa enquanto sorria.

– Dorinha vai fazer o pacto. Assim que terminar com você, irei encontrá-la.

– Dorinha?! – exclamou Agenor, surpreso.

– Sim. Sua ex-namorada. Já esqueceu da moça?

Então a lembrança de Dorinha chegou, vinda de longe… Agenor viu seu rosto bonito, sorridente… Uma sensação de suavidade e ternura tomou-lhe conta. A doce Dorinha, esquecera dela. Esquecera dos bons momentos que viveram, antes daquele pesadelo começar.

– Pois ela não esqueceu. E sabe qual é o pedido dela?

Agenor ficou calado, com medo do que poderia escutar.

– Que você volte para ela.

– Não acredito…

– Pelo jeito, ela gosta muito de você.

Agenor estava confuso.

– Ao ponto de sacrificar a própria alma.

Mas como aquilo seria possível?, Agenor pensou. Como ele voltaria para Dorinha se iria para o Inferno?

O diabo deu uma gargalhada.

– Você vai para o Inferno, sim. Mas logo voltará aqui para buscar Dorinha. Dessa forma, ela terá seu grande desejo realizado. Soloniel é um diabo de palavra.

Agenor não acreditou. Não, aquilo não podia acontecer. Não com Dorinha.

– Escute, Soloniel, Dorinha é uma pessoa boa, não merece sofrer.

– Todos têm que sofrer. É a lei da vida.

– Mas não deviam vender a alma!

Agenor se surpreendeu com o próprio grito. E com o raio que caiu bem próximo, seguido de um estrondoso trovão. Ao seu lado, o diabo continuava olhando para ele, agora muito sério.

– Ainda bem que você não é o dono do Inferno. Eu perderia meu emprego. Agora salte, já me fez perder muito tempo.

Agenor continuou parado, a água da chuva escorrendo por seu rosto.

– Salte, homem. Ainda tenho trabalho hoje.

Agenor nem se mexeu. O diabo respirou fundo, olhando para as próprias pernas.

– Você já reparou que eu não sou manco?

– Como?

– Eu não sou manco.

– E daí? – perguntou Agenor, estranhando aquela mudança de assunto.

De repente, a dor, súbita e aguda. Num gesto muito rápido, o diabo o atingira com uma bengalada na perna machucada, fazendo-o perder o equilíbrio. Seu corpo oscilou para frente.

– Não me diga que achava que esta bengala era só charme…

Agenor agitou os braços, como se pudesse se segurar em algo, em qualquer coisa, e seus movimentos pareceram uma estranha dança. Seu corpo caiu pesadamente enquanto ele gritava:

– Nãããããooooo!!!…

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eChocou-se contra o chão feito um boneco desengonçado. Quando abriu os olhos e olhou para cima, meio zonzo, percebeu que a chuva havia subitamente parado. Mas… onde estava a passarela? Não viu a passarela. Nem os carros. Nem a avenida, nem a cidade, nada. Estava no Inferno. Mas o Inferno tinha mato? Ao redor, via apenas mato. E o céu cheio de estrelas.

Levantou-se, sentindo o coração acelerado, o suor no rosto. Havia adormecido enquanto aguardava… e caíra da pedra onde estava sentado. E tivera um pesadelo horrível!

Apoiou-se na pedra, as sensações do sonho ainda fortes. Estava na pedra grande, a cidade de Juba lá embaixo. Respirou fundo, tentando se acalmar. Como pudera sonhar tanto em tão pouco tempo? E além do mais, fora tudo tão real, tão real…

Pegou o cobertor no chão. Depois olhou o relógio. Era meia-noite, em ponto. Nesse momento, escutou um ruído, alguém chegando pelo mato. O ruído ficou mais forte e ele viu as folhas mexerem. Então, por entre a folhagem escura, surgiu…

Não teve dúvidas: deu meia-volta e saiu numa carreira desatinada, descendo a encosta da pedra numa velocidade louca, o pavor fazendo cada passo valer por dez. Não olhou para trás nenhuma vez. Entrou na cidade correndo e só parou quando chegou em casa. Pegou a chave no bolso, abriu a porta e entrou rapidamente.

– Meu filho, onde você estava? – perguntou dona Fafá, vindo da cozinha. – Venha jantar.

– Oi, mãe… – ele murmurou, ofegante, fechando rapidamente a porta e passando a tranca.

– Que cara é essa? Parece que viu alma.

Agenor procurou se acalmar. Beijou a mãe e foi para a cozinha.

– Quem esteve aqui agora há pouco foi Dorinha.

– Dorinha? – ele perguntou, novamente assustado.

– Sim, vinha do restaurante. Perguntou de você. Menina boa, ela.

– Verdade? E… pra onde ela foi?

– Disse que ia se encontrar com alguém e depois ia para casa.

– Encontrar… com alguém? A essa hora? Ela disse com quem?

O coração de Agenor batia forte. Dona Fafá olhou para o filho sem entender aquelas perguntas todas. Foi então que alguém bateu na porta.

– Será que a Dorinha esqueceu alguma coisa? – disse dona Fafá, caminhando para abrir a porta.

– Não, mãe! Não abra!

Dona Fafá parou e olhou para o filho, desconfiada.

– Você está muito estranho. Andou bebendo?

Agenor correu para impedir, mas ela abriu a porta, enquanto ele fechava os olhos para não ver.

– Oi, Agenor.

Aquela voz…

– Mas que pressa medonha, Agenor! Passou correndo por mim, nem me ouviu te chamar…

Ele abriu os olhos e viu Dorinha à sua frente.

– Tem comida na geladeira, viu, filho? – disse dona Fafá, piscando um olho para Dorinha e saindo da sala.

– Você… foi encontrar… alguém? – ele perguntou, gaguejando.

– Fui.

– Quem?

– A prima Botinha. Ela vai casar, sabia? E a festa vai ser lá no restaurante.

Ele suspirou aliviado. Depois desviou o olhar, com vergonha.

– E você, tudo bem?

Ele fez que sim com a cabeça. Ela sorriu.

– Tudo bem, sim. Vim só dar um oi.

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eEle procurou algo para dizer, mas não achou. O coração ainda batia acelerado. Dorinha… Em Jubá havia mulheres muito mais bonitas que ela, mas Dorinha era especial, tinha um algo mais… Se ela soubesse quantas noites ele sonhara com ela… em seus braços…

– Bem, acho que já vou indo para casa.

– Vai?

– Hoje já é amanhã, Agenor.

Ele olhou para o lado que ficava a pedra grande. Depois olhou para Dorinha. Sentiu uma súbita vontade de abraçá-la, uma vontade tão grande que precisou segurar os próprios braços. A velha timidez. Ela que nos últimos meses sempre o impedia de dizer o que sentia por aquela mulher.

– Dorinha…

– Sim?

Ele fechou os olhos, procurando em algum lugar dentro de si a força necessária para o que tanto precisava falar. Ela aguardava.

– É, está tarde mesmo ‒ ele falou, sorrindo nervosamente. Não conseguia. Nunca conseguia. Jamais conseguiria.

– Tchau, Agenor. Aparece no restaurante.

Dorinha virou-se e saiu. Agenor foi para o batente da porta e de lá a observou caminhando pela calçada. Não fora forte para fazer o pacto. E nem era forte para lutar pela mulher com quem tanto sonhava. Definitivamente, era um fraco. Então entrou em casa e puxou a porta.

Nesse instante, porém, um carro passou na rua e a luz dos faróis bateu em cheio sobre seu rosto. Imediatamente, lembrou da luz a persegui-lo enquanto tentava escapar da equipe de tevê. Num impulso, sem pensar no que fazia, abriu a porta e saiu correndo atrás do carro.

Na esquina, o carro fez a curva e sumiu. Mas Agenor não dobrou a esquina, não era o carro que lhe interessava. Ele continuou correndo e só parou quando alcançou Dorinha, que tomou um susto ao vê-lo chegar de repente e lhe pegar pelos ombros. Sem dizer nada, ele a virou para si e sapecou-lhe um beijo na boca, forte, ardente. Dorinha quase caiu, mas ele a amparou e a encostou no muro, sem interromper o beijo.

Um bom tempo depois, quando ele finalmente a largou, Dorinha não sabia bem onde estava, que dia era… Sabia apenas que queria mais.

– Voltei – ele disse.

– Pensei que você não me queria… – ela murmurou, encostada no muro, toda molenga.

– É que eu… não sabia desejar direito.

E beijaram-se outra vez, ainda mais forte.

Na bodega da esquina, sentado numa mesa com o último cliente da noite, seo Ribamar olhava satisfeito o casal se beijando.

– Até que enfim esse menino tomou tenência. A moça doidinha por ele…

– Quanto lhe devo, meu amigo?

– Um conhaque. Dois reais.

O homem tirou uma nota do bolso do sobretudo e pagou.

– O senhor não é daqui, né? – perguntou seo Ribamar, recolhendo o copo e levando para o balcão.

– Vim ver um cliente ‒ respondeu o homem, levantando-se e apoiando-se numa bengala. ‒ Mas ele não apareceu.

– Que pena. Fez viagem perdida.

– Fiz não. No meu ramo, cliente é o que não falta.

– Coisa boa. Que mal pergunte, qual é o seu ramo? – perguntou seo Ribamar, voltando à mesa.

Mas não havia mais ninguém. Ninguém na mesa, ninguém por perto.

– Vixe! – ele exclamou, sentindo um calafrio.

Bateu três vezes na madeira e rapidamente fechou a porta, sem esquecer de dar duas voltas na chave, nem do cadeado e da tranca.

Adiante, encostada no muro, Dorinha suspirou nos braços do carteiro Agenor e, com os olhinhos fechados, pediu outro beijo. Mais forte.

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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04aEste conto integra o livro
Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha

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OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eO Último Homem do Mundo

O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso, ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja, pois você pode conseguir…

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COMENTÁRIOS
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01- Eu gostei deste muito. gigi28 – jul2008

02- Você é bom mesmo, Ricardo. Quando vem a terrinha? Um grande abraço do amigo-leitor seu. Maninho, Fortaleza-CE – ago2008

03- Quem quer todas, não tem nenhuma. A graça de um relacionamento é ir até o fundo, explorar tudo, dure 3 meses ou 10 anos. Mas com inteireza, com verdade. Quem tem todas, não conhece, de verdade, nenhuma. Bjo. Chris, Rio de Janeiro-RJ – jan2009

04- Aquela que serve é a que conhece . conhece mesmo ? e aquele que deseja, é o faminto do lobisomem ? o grande assustado ? o fugitivo de boné … quisera ter o pacto com quem ? efusivo Agenor , talvez um perfume afrodisíaco com a tônica dionisíaca vai saber … agradaria uma bela garçonete que pega a carona no seu caminhão feito mesmo o último homem de jubá …. ahahahahahahah ! Marcia, São Paulo-SP – ago2009

05- Oi, Kelmer! Agenor é bem dotado, também, de criatividade. Ele conseguirá, um dia. rsss Linkei o teu blog no meu. =) Abs! Val – mar2010

06- Ei macho… Tu quer me matar de curiosidade é?? Parabens esse conto é incrível!!! Todo homem já se imaginou nessa situação, o problema é que nenhum homem tentou imaginar a saída desta. Valeu!!! Pedro Henrique – mar2010

07- =D Adorei essa história!!! Parabéns… o desfecho foi muito interessante. Agradeço pela possibilidade de tê-la lido. Mas… Já acabou… =(. Luciana R – abr2010

08- Achei legal o desfecho. Que pena que acabou! Karla – abr2010

09- Adorei! Aplausossssssssssss….. Gostei tanto que fiquei triste por ter acabado, hauhauahau… Parabéns Kelmer. Quero mais histórias assim. ;D Até a próxima! ;* Ingrid – abr2010

10- É até boa, mas muito brusco o fim, o que a torna sem um bom desfecho. Mariana – abr2010

11- Faltaram os créditos para a imagem da pintura usada neste artigo. O autor é o pintor peruano Boris Vallejo. Silveira Neto – abr2010

12- Muito boa a história, acompanhei-a e gostei muito. Até que enfim o Agenor teve coragem. Eu já estava angustiado com a timidez dele. Francisco Edvar – abr2010

13- ACOMPANHEI E GOSTEI DE TODA A HISTÓRIA,PORÉM O FINAL FICOU UM TANTO INCOMPLETO,HAVERÁ CONTINUAÇÃO? Dokho– abr2010

14- eita historia mais envolvente rapaz,cada capitulo era uma viagem,parabens para o escritor que deleitor dentro dos sonhos de muitos homens timidos q desejam serem desejados. Espero outras historias exoticas. Kildery – abr2010

15- Esse cigarrinho era bem docinho, hein? rs. Christiane – mai2010

16- Essa história é genial (O último homem do mundo). Recomendo. Vale muito a pena ler. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – jun2010

 


A fantástica loja de ideias

24/12/2008

24dez2008.

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a.

Este conto integra o livro Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha, de Ricardo Kelmer

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A FANTÁSTICA LOJA DE IDEIAS

Projetor 3D, supositório para disfarçar peido, máquina de sexo virtual com personalidades… Todas aquelas ideias geniais que se têm quando se está doidão são vendidas nessa loja

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(TEXTO TRANSCRITO DA GRAVAÇÃO do programa Canabistrô, exibido no dia 26/08/2005, pelo site Terramestra)

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– Bom dia, queridos amigos telespectadores do Canabistrô, seu melhor programa de viagem! Eu sou Bia Voyage e hoje vamos apresentar pra vocês aquela matéria que havíamos prometido na semana passada, a loja de ideias Ki Lombra, na praia de Canoa Quebrada. Uma das sócias da loja, a Lulu, recebeu nossa reportagem com muita simpatia, e a matéria taí no ponto pra vocês verem, tá sensacional, vocês não vão acreditar nas ideias dos malucos. Mas antes vamos às mensagens dos nossos patrocinadores lindos.

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Entra comercial da revista Lucidez Total. Matérias e reportagens do mês. Gatinha Canabis. Maconha e autoconhecimento. As mil e uma utilidades da planta para a indústria. Entrevista com o Deputado Federal Fernando Gabeira.

Entra comercial do colírio HOMO TOTAL, para usuários gays. Um rapaz aborda outro no balcão do bar e diz que seus olhos são muito bonitos para ficarem vermelhos e irritados daquele jeito. Ele puxa do bolso um colírio, oferece, o outro pinga uma gotinha em cada olho e, quando devolve, seus olhos já estão brancos. Áudio: HOMO TOTAL, colírio pra quem entende…

Entra comercial da maconha MARLEY. Uma garota assiste a um filme no cinema, viajando bastante. Uma outra, atrás dela, cochila. A garota vibra com as cenas e a de trás só cochila. No fim do filme, as duas saem, uma satisfeita e a outra sonolenta. Áudio: Maconha MARLEY, a diferença tá na cara.

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– Oi, gente, estamos de volta com o Canabistrô, eu sou Bia Voyage e você é uma pessoa que tá aí na sua e deseja se antenar com as novidades do mundo hemp, não é, trocar ideias com a gente, conhecer pessoas e se informar a respeito da canabis. Não é isso? Isso. Porque usuário consciente faz a diferença. Agora vamos ver, vamos ver, quem acertou a pergunta da semana passada. Qual é a dose mortal de canabis? Vamos ver, abre o envelope aqui, isso… Resposta: cinco quilos jogados do 20o andar de um prédio. Acertou! O felizardo da semana mora em… Cabrobó, olha só, em Pernambuco. Um beijão pra moçada de Cabrobó que tá de olho no nosso programa. Mas não é um felizardo, é uma felizarda. Beleza. Você sabe que aqui no programa a gente não lê o nome completo, só as iniciais. Então lá vai: A, M, O, S. Fica ligada, A-M-O-S,  que a produção vai entrar em contato. Você, sua sortuda, vai receber em casa nosso kit Canabistrô completo, com camiseta, óculos, CD do programa, uma caixa de sedas Sedosa, maquininha, debulhador, marica e um exemplar da revista Lucidez Total. Parabéns. Solta o primeiro clipe aí enquanto eu vou despachar essa encomenda no correio. Volto já, moçada.

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Entra o clipe da música Libera a Pamonha, da banda Intocáveis Putz Band.

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– Bacana esse clipe, heim? Recebemos esta semana, é novinho. Se você gostou, ligue agora mesmo ou acesse nosso site, esse que taí no vídeo, e concorra a um CD da Intocáveis Putz Band, essa banda virtual mucho loca, que por sinal tem um baixista gatíssimo, vocês viram? Eu vi, não vou mentir. Mas vamos deixar de galinhagem que meu diretor já tá me olhando feio aqui. Libera a matéria com a Lulu. Libera o produto!

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Entra matéria sobre a loja Ki Lombra.

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– Olha só, gente… Eu sou Bia Voyage, pro programa Canabistrô, e você vai conhecer agora uma loja louquíssima que existe aqui em Canoa Quebrada, essa praia maravilhosa do Ceará. É a loja Ki Lombra. Sabe o que ela vende? Ideias! Ideias de todo tipo, mas de preferência, ideias malucas. As proprietárias são duas senhoras, a Lulu e a Ely. Um dia, elas vieram passar um fim de semana aqui em Canoa Quebrada, se apaixonaram pelo local e decidiram ficar. Aí tiveram a ideia de montar uma lojinha pra vender as ideias que o povo tem quando tá doidão. Começaram devagarinho, uma ideia aqui, outra ali, aí começou a aparecer gente interessada, artista, escritor, músico, gente de todo tipo interessada em ideias novas, ideias malucas, coisa diferente. A notícia se espalhou e hoje, além das próprias ideias, elas também vendem ideias dos outros. A maluqueira fuma, olha só, viaja nas ideias e depois vem aqui e vende pra elas. Não foi uma sacação genial? Tão genial que copiaram e aqui em Canoa já tem mais três lojas parecidas com esta. A Ki Lombra é a mais antiga e a mais famosa, certamente pela qualidade dos produtos. Mas também pela simpatia das donas, vocês vão ver. Olha só, A Lulu é essa aqui. Passa o dia de biquíni, o tempo todo de alto astral. Faz tempo que a senhora tem esse negócio, dona Lulu?

– Pode tirar o “dona”, viu, minha filha.

– Ah, me desculpe, eu esqueci. Faz tempo que vocês têm esse negócio, Lulu?

– Cinco anos.

– Dá pra faturar uma graninha com ideia maluca?

– Dá pra tirar a da cerveja, não tenho do que reclamar não.

– E sua sócia, a Ely?

– Ely tá viajando.

– Em que sentido?

– Eheheh. Tá cuidando da abertura de uma franquia da Ki Lombra em Piripiri.

– Em Piripiri? No Piauí?

– Lá mesmo. O povo lá é chegado numas ideias…

– E quantas franquias vocês têm?

– Deixa eu ver… Piripiri, Olinda, Jericoacoara, Jurerê, e mês passado inaugurou uma em Ipanema. Mas a gente tem um bocado de propostas, de vários países. Tamo estudando.

– Como que vocês fazem? O maluco ou a maluca vem aqui, conta a viagem…

– Isso aí, conta a viagem. A gente escuta. Se servir, a gente compra.

– Se for maluca demais, vocês dispensam?

– Aí é que eu compro mesmo, minha filha. As que vendem mais são essas, eheheh.

– E a clientela, é boa?

– De primeira vinha aqui só músico, escritor, pessoal que trabalha com cinema, televisão. Depois passou a vir outras pessoas. Até político já veio.

– Político?

– É. Porque tem maluco que tem umas ideias que serve pra política, umas ideias boas de se aproveitar.

– Tem alguma aí pra gente ver?

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a– Tinha muita. Mas hoje eu não vendo mais ideia pra político não. Quando eu vejo que é dessa raça, não vendo. Porque é tudo um bando de aproveitador, tudo nojento. Sabe aquela ideia do imposto único, pra substituir todos os impostos, um por cento sobre cada cheque? Foi uma moça que me vendeu, ideia boa. Aí veio um deputado aí, olhou, gostou e comprou. Pra quê? Pra transformar nesse imposto aí sobre movimentação financeira. Olha a ironia: o que era pra acabar com essa enormidade de imposto que tem aí, acabou virando mais um imposto. Por isso que pra político eu não vendo.

– Dá pra ver que a Lulu não gosta de político, né? Mas vamos ver o que tem mais… Isso aqui, o que é?

– Isso foi um menino que deixou semana passada. É um Flatex.

– Parece um apito.

– É um supositório pra quem sofre de flatulência crônica.

– Mas que coisa! Não acredito! Verdade, Lulu? Mostra aqui, Ferdinando, mostra aqui pertinho.

– E o preço tá bom, cinquenta pilas, eheheh.

– Quer dizer que com isso o pum fica retido. Mas que coisa, olha só, gente… Mas e se o pum chega aqui, vê que não tem saída… não periga ele pegar outro caminho e escapulir pela boca? É pior, não?

– Não, minha filha, fica retido não. O flato passa por essa frestazinha aí, ó, e libera uma fragrância bem suave. Tem Patchuli e Flores do Campo. Tinha um de Coisa Queimando, mas levaram ontem.

– Coisa Queimando? E alguém se interessou por uma fragrância dessa?

– É dos que mais vende. Porque disfarça bem, fica todo mundo preocupado, procurando o que é que tá queimando…

– Ahhh, é verdade. Olha só, mas que ideia maluca…

– Quer levar um Flores do Campo pra você? Cortesia.

– Tá me chamando de peidona, Lulu?

‒ É sempre bom estar prevenida, minha filha.

‒ A senhora tem razão. Muito obrigado. Mas esse Flatex serve também praqueles puns barulhentos?

– Arrá! Pra esses é que existe o Flatex Som. Tem Pássaros, Buzina, Freio, Celular…

– Flatex Som… Não acredito. A pessoa solta um pum, o ambiente fica perfumado, toca uma musiquinha e ninguém percebe. Que voyage… Que mais que tem por aqui, Lulu?

– Tem Noves-Fora de Placa de Carro.

– Ah, esse é manjado. Já vi nos seus concorrentes, não é só você quem tem.

– Mas esse é diferente, minha filha, esse é diferente… Olha aqui, parece um Noves-Fora de Placa comum, igual a esses que tem por aí, né? Mas esse tem um detalhe que os outros não têm: é Noves-Fora + Palavra.

– Palavra?

– Sim, você olha a placa do carro e, além de tirar o noves-fora, ainda tem que dizer a primeira palavra ou frase que vier à mente com as iniciais da placa. É mais difícil, só pra iniciados. Foi a Ely quem inventou, nesse dia ela tava inspirada. Olha esta aqui. ABE 9473. Qual é o noves-fora de 9473?

– Deixa eu calcular… Cinco.

– Isso. E o que lhe vem à mente com ABE?

– Com ABE? Humm, deixa eu ver…

– Não, não pode pensar. Tem que dizer a primeira ideia que vier, mesmo que não seja nada diretamente relacionado a ABE.

– Abacate.

– Abacate cinco, entendeu?

– Ahhh…

– Ou então Abelha, A Bela e a Fera, A Bunda da Ely, Associação Brasileira de Estranhos… O que vier.

– Nossa, mas o maluco tem de ser fera pra tirar o noves-fora e ainda pensar numa palavra…

– Com o tempo, pega prática. Quem compra muito é ator, pra exercitar o improviso. Mas também é muito bom praqueles momentos em que você tá preso no trânsito.

– Ah, é. Só maluco mesmo… Epa, isso aqui eu não conheço.

– Chegou sexta-feira. É um pacote de inventos do futuro. Tem três inventos aí.

– Isso parece um projetor de slides.

– É um Holocine, um projetor holográfico com som. Exibe imagens em 360 graus. Filme, show, qualquer coisa. Em vez de você assistir ao último show da Kátia Freitas numa tevê ou num telão, você liga o Holocine e se sente no próprio local do show, como se a Kátia realmente estivesse cantando bem à sua frente, como se você estivesse num camarote de frente pro palco.

– Que interessante…

– E pode ser visto de qualquer lugar, a imagem se ajusta automaticamente ao ângulo de visão.

– Gente, o futuro já chegou! E essa cabine aqui?

– É o CelebriSex. Sexo virtual com pessoas famosas. Você escolhe se hoje quer transar com a Sabrina Sato ou com a Angelina Jolie. Então você entra na cabine, senta, conecta os sensores na pele, põe o visor 3D e escolhe a pessoa aqui no painel. Sua estrela preferida vai surgir na tela.

– Que maravilha! Mas sente mesmo, quer dizer, a sensação é a mesma do sexo no mundo real?

– Igualzinha. Quer experimentar?

– Eu? Agora? Bem… Agora tô trabalhando, né, Lulu? Vamos deixar pra depois da gravação…

– Combinado. Ah, e você também escolhe o cenário. E tem a opção de bebidas, um baseado, o que você quiser pra incrementar o lance. Por exemplo: eu quero transar com o Kelmer no alto do Pão de Açúcar, tomando um vinho francês, escutando Sade.

– Quem é Kelmer?

– Ricardo Kelmer, é um escritor muito doido. Foi ele quem criou o CelebriSex. Olha ele aqui.

– É esse? Hummm… Mais ou menos. Quais os outros homens disponíveis aí?

– Tem vários. O Fábio Jr. sempre sai bem. Tem os globais, aquele povo de Hollywood, jogador de futebol. Tem até o pessoal aqui de Canoa. Tem também aquele baixista da Intocáveis Putz Band, o Emílio. Agora que ele casou, aumentou a procura.

– Gente! Minhas amigas vão ficar loucas! Tá vendo, né, Isabella? Tá vendo, né, Cris?

– Na nova versão do CelebriSex você pode escolher mais de uma pessoa, dá pra fazer ménage à trois. A nova cabine é bem espaçosa, ou seja, vai dar pra fazer swing, olha que maravilha!

– Tô passada…

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a– Ah, isso aqui também é muito legal. É um teletransportador instantâneo de moléculas, última geração, que transporta organismos vivos. O nome é TeleZapt. Você senta aqui, se conecta e puff!, é transportado pra qualquer lugar do mundo em um segundo. Com o TeleZapt você pode estudar em Londres de manhã, passear na Lagoa à tarde, e à noite dar um pulinho em Belém pra ver aquele seu namorado gostoso.

– Genial. Não precisa de passaporte?

– Que passaporte que nada! O TeleZapt chegou pra acabar com essa história de país, de soberania nacional. Todo mundo é livre pra ir aonde quiser. Minha pátria é o planeta, minha filha!

– É isso aí, Lulu! E isso aqui, é uma festa?

– É um festão. Aqui vem muito produtor comprar ideia pra festa. Essa aí, por exemplo, é um cassino-cabaré e os convidados se vestem a caráter: putas, madames, magnatas, políticos, marinheiros, garçonetes… A festa acontece numa mansão e os convidados chegam em limusines com chofer, são recebidos sob luzes de holofotes e conduzidos até o salão. Olha as máquinas de jogo, a roleta, os crupiês, a decoração da casa, tudo como se fosse um grande cassino. O nome da festa é Cabaré Soçaite. Tá vendo aquele piano ali no palco? É pro clímax da festa, um show com o Eduardo Dusek e a Karine Alexandrino. Festa boa.

– Festaça! Essa eu não perderia. Ninguém se interessou por ela?

– Todo mundo se interessa, mas a produção da festa é cara. Mas tem festa mais barata, esta aqui, por exemplo. Também é uma festa à fantasia, só que as pessoas se vestem com traje típico de algum país. Chama-se Planeta Show. Tem uma banda tocando músicas de vários países e barraquinhas com comidas típicas.

– Interessante. Acho que eu iria de dançarina espanhola. E isso aqui? “Transbordo”?

– É sugestão pra nome de transportadora, eheheh. Bom nome, não?

– Olha aí, quem estiver montando uma transportadora, passa aqui na Ki Lombra e pega um nome bom pro seu negócio. Transbordo, sua carga com segurança.

– Tem outras sugestões. Nome pra bar: Sarjeta, Mulheres Bahr, Bar Canal, Di Sempre, Barbossa, Cogumelo, Barembar, Baratoa, Glub-Glub, Tremilik… Nome pra banda: Orrori Zadus, Calígulas de Notre Dame, Os Desce-Mais, Rap Hour, Funk Tutti, Falsos Fósseis, Mulgasmos Órtiplos. Nome pra torcida organizada do Santos: Santo Suor & Cerveja. Do Fluminense: Fluminante. Nome pra motel: Dê Lírios, Amantes & Depois. Nome pra doceria: Papel de Bombom. Nome pra show de strip-tease masculino: Homens de Perto.

– E isso aqui? Cu Frito?

– É nome pra petisco de boteco. Anéis de lula na chapa.

– Ahahah! Adorei.

– Tem nome pra tudo, é só escolher.

– Isso aqui o que é? Campanha publicitária de lingerie?

– Exatamente. Uma moça deixou aí essa semana. Mas já tá vendida, um publicitário vem pegar amanhã. O mote é “Porque de repente tudo pode acontecer.”

– E pode mesmo. Aqui, Lulu, e este labirinto aqui?

– Ah, isso aí é um processador de ideias. Funciona assim, deixa eu mostrar. Você pega as ideias que você tem e joga dentro do labirinto por esse buraquinho aqui. Depois balança assim. O que é que vai acontecer? As ideias vão tentar encontrar a saída, claro. Nessa tentativa, muitas vão se encontrar pelos corredores, tá vendo? Olha só o que acontece quando elas se encontram… Uma se junta com a outra e forma uma nova ideia, tá vendo?

– Gente, que voyage… Será que é isso que acontece com as ideias na cabeça da gente?

– Chega um momento em que uma delas encontra a saída. Quando ela encontrar, você apanha rápido senão ela escapole. É sempre bom pra resolver aqueles problemas que parece que não têm solução, sabe?

– Tô passada… Mas olha, é tanta coisa aqui que um programa só não vê nem um por cento. Bem, pra terminar, Lulu, tem alguma ideia que você gostaria de mostrar pra gente?

– Tem essa aqui que chegou hoje de manhã. É o site do Grande Braulito. O Grande Braulito é o espírito da canabis, ele tá em todas as maconhas que são fumadas pelo mundo. Você fuma um e acessa o site do Grande Braulito. Você vai entrar numa viagem especial, com sensores conectados ao seu corpo, e aí você pode viajar pelos grandes momentos da História.

– Ah, é? Quais momentos, por exemplo?

– Você pode sentir o que Einstein sentiu quando criou a teoria da relatividade, o instante em que Vinícius e Tom viram a Helô Pinheiro passar e criaram Garota de Ipanema… Tem também umas lombras tortas, como o momento em que o piloto largou a bomba atômica em Hiroshima e em Nagasaki. Essa viagem eu não aconselho, pois todos os que experimentaram, ficaram pirados de verdade.

– Essa eu não quero.

– Tem a primeira transa da rainha Cleópatra, o milésimo gol do Pelé, o momento em que os índios viram as caravelas de Cabral chegando…

– Olha que coisa… Infelizmente nosso tempo tá no fim. É isso aí, gente. Você conheceu a Ki Lombra, loja de ideias da Lulu e da Ely, e pôde conferir o que tem de ideia maluca nesse mundo hemp, não é? A gente volta pro estúdio e na próxima semana tem mais. Valeu. Manda um tchauzinho aí, Lulu…

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Entra bloco de anunciantes.

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– E aí, Lulu, aquela proposta tá de pé?

– Claro. Quer experimentar agora? Pega essa ficha.

– Oba. Segura aqui o microfone, Ferdinando. Não vai gravar isso, heim?

– Entra aí na cabine. Isso. Senta aí. Agora escolhe no painel quem você quer.

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a– Hummm… Quero o Tom Cruise, cadê ele? Ah, taqui. Hummm, vou comer o Tom Cruise… Quero essa aqui também.

– A Luana Piovani?

– Acho ela ótima.

– Hummm… Um baião-de-três, né?

– Pode ser?

– Claro. Você é quem manda. Agora bota esses sensores. Isso. Onde que vai ser?

– Hummm… Essa opção aqui, no quarto do Tom.

– Escutando o quê?

– Ai, tô um pouco nervosa… Deixa ver… Bota Chico.

– Chico Buarque, pronto. Tomando o quê?

– Tem uísque?

– Tem. Vai unzinho também?

– Lógico!

– Unzinho, pronto. Põe o visor. Assim. Isso. Tá vendo direitinho?

– Uau, é perfeito! Superreal!!!

– A Luana já apareceu?

– Ainda não. Ops… ela tá chegando.

– Oi, Bia. Tudo bem?

– Ahnn… Oi, Luana…

– Você queria me conhecer?

– Queria… quer dizer… quero.

– Tô aqui.

– …

– É a tua primeira vez, Bia?

– É.

– Relaxa, vai ser ótimo. Vamos fumar um?

– Nada mal…

– Tira o sapato. Pega essa almofada aí, fica à vontade…

– Nossa, quanto livro! Não sabia que o Tom gostava tanto de ler. Cadê ele?

– Toma, pode fumar na boa. Esse é ótimo pra transar.

– Obrigado. Ahnn… Luana, desculpa perguntar… Você já transou com o Tom Cruise?

– Não. Posso soltar teu cabelo?

– Pode. Hummm… Esse fumo é mesmo bom…

– Tá mais relaxada?

– Tô ótima.

– Que bom. Deixa eu servir teu uísque.

– Você é tão doce… Eu tinha a impressão que você… era meio antipática.

– Às vezes esse negócio de ser famosa enche o saco. Aqui é bom porque todo mundo é verdadeiro, é o que é, não tem falsidade.

– Você é muito solicitada no CelebriSex?

– Sou. Mas se eu não quiser, posso negar. Conheço o programador.

– Conhece? Olha só, que privilégio…

– Quantas pedras?

– Heim?

– Quantas pedras. No uísque.

– Ahahahah! Entendi outra coisa. Duas tá bom. Aliás, quanto tempo a gente tem?

– Se tua ficha for simples, vinte minutos.

– Só? Não dá pra nada!

– Você se incomoda se eu tirar a roupa?

– Você?… Não, claro que não…

– Quer que eu tire a tua também?

– Ahnn… Agora não, deixa ele chegar primeiro.

– Ele tá chegando…

– Oi, Bia.

– Quem é você? E o que é que você tá fazendo na minha viagem?

– Eu sou o Kelmer.

– O escritor? O que criou o CelebriSex?

– Eu mesmo. Vamos escutar Chico Buarque? Boa pedida. Deixa eu ligar o som.

– Peraí, cadê o Tom Cruise?

– O Tom tá ocupadão. Pediu pra eu substituir.

– Como assim?

– Ele é muito requisitado no CelebriSex, não pode atender a todos os pedidos.

– Eu pedi uma transa com ele e não com você.

– Eu sei. Mas ele não pode vir. Qual disco do Chico você prefere?

– Esse aí tá bom.

– Ei, cadê meu beijo, Rica? Tava com saudade. Hummm… Ah, agora sim.

– Vocês… Você já conhecia ele, Luana?

– A gente sempre se encontra aqui no CelebriSex. Né, Rica?

– É. O uísque tá bom, Bia? Se você quiser outra bebida, é só pedir.

– Não sei…

– Quer comer alguma coisa? Tem um sushi muito bom.

– Chega aqui, Bia, deixa eu te dizer uma coisa. Sabia que no outro aposento tem uma piscina incrível, com água quente, holocine com show dos Doors…

– Quanto tempo já passou, Luana?

– Não te preocupa. O Rica liberou nosso tempo.

– E se eu quiser ir embora agora?

– É só sair por aquela porta.

– Você quer ir embora, Bia?

– Ahnn… Deixa eu dar mais um tapinha que eu decido…

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04aEste conto integra o livro
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Minhoca na cabeça

24/12/2008

24dez2008

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a.

Este conto integra o livro Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha, de Ricardo Kelmer

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MINHOCA NA CABEÇA

Quando o jovem escritor fuma, minhocas saem de sua cabeça. É mais um caso do além para Javier Viegas resolver

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USADOS E ABUSADOS. Ivan conferiu a placa na fachada da loja de usados e entrou. A moça no balcão o cumprimentou.

– Boa tarde. Posso ajudar?

– É aqui a loja do Javier?

– Sim, Javier Viegas. No momento ele está atendendo, mas deve desocupar em quinze minutos. Aguarde um pouco, por favor.

Ivan sentou-se no sofá e pegou uma revista para folhear. Logo depois estava entretido numa matéria sobre extraterrestres que raptam pessoas para implantar chips em seus cérebros e depois as devolvem à Terra e elas só conseguem recordar o que se passou em sessões de hipnose. Foi quando o homem apareceu, saindo da salinha ao lado, acompanhado de uma senhora de quem se despediu.

– Até logo, dona Iracema. Não esqueça de acender a vela hoje, heim? Vela amarela, virgem, de sete dias.

O homem virou-se para Ivan:

– Boa tarde, o moço está me aguardando?

Ivan reparou na figura: moreno, barrigudinho, meio calvo, cabelo preto, provavelmente com tintura, numa trança única que descia até o meio das costas. Devia ter seus cinquenta anos. Um sotaque espanhol e uns trejeitos afeminados.

– Vi seu anúncio no jornal.

– Ah, entre, entre, por favor. Aceita um licorzito de manga? Ana Isaura, traz dois pra gente, traz.

Era uma sala decorada com coisas antigas, quadros, candelabros, móveis rústicos. Javier lhe ofereceu uma cadeira em frente à mesa e sentou-se na sua, do outro lado, brincando com a longa trança sobre o peito.

– Prazer. Javier Viegas. Tarô e outros babados.

– Prazer, Ivan.

– Ivan, el terrible, ui… Mas diga, meu filho, a que devo o prazer de receber olhos tão bonitos? – E cantarolou: – Lindo, e eu me sinto enfeitiçada, iééé…

– É o seguinte, seo Javier…

– Seo, não. Assim eu não atendo. Pode levantar e ir embora ‒ falou Javier, fingindo estar magoado.

– Desculpe. Javier. Bem, Javier, é uma coisa assim meio… esquisita.

– Mi querido, já vi tanta coisa esquisita neste mundo que não me assusto com mais nada. Olha seu licorzito aí. É caseiro, viu?

Ivan recebeu o cálice que a atendente lhe oferecia. Levou-o à boca, mas foi interrompido por Javier.

– Menino, que heresia! Não vai brindar?

– Ah, claro, claro…

Javier ergueu o cálice e fechou os olhos, concentrado, em silêncio. Ivan esperou que ele concluísse seu ritual, talvez fosse algo esotérico, melhor acompanhar. Fechou os olhos, respirou fundo e escutou:

– Beber sem brindar, dez anos sem pimbar… Brindar sem ver, dez anos sem foder…

Ivan abriu os olhos, surpreso. Javier bebia seu licor, compenetrado, os olhos fechados. Que diabo de sujeito era aquele?

– Muito bom o licor, obrigado – disse Ivan, após provar da bebida.

– Minha mamacita quem faz. Dona Carmela. Todo mês me manda um vidrão assim. Esse é de manga, que é muy bueno, mas tem um de café que você não crê. Aliás, estou procurando um sócio, esses licores de mamãe podem deixar qualquer um milionário. Você não estaria interessado?

– Não obrigado, não gosto de comércio.

– Depois não diga que eu não avisei. Mas fale, conte seu problema.

– Bem, eu… O senhor, digo, você fuma? – Ivan fez o gesto de quem fuma um baseado.

– Marijuana? Não no primeiro encontro – respondeu Javier, rindo. Ivan riu sem jeito. – Não é minha viagem predileta, mas de vez em quando dou meus tapinhas pra ir ver o Almodovar.

– Bem, eu fumo. Quer dizer, fumava. Deixei exatamente porque começou a acontecer uma coisa estranha…

– Hummm, está melhorando. A-do-ro cositas estranhas.

Ivan olhou para a porta, desconfiado.

– Está fechada, menino, fique tranquilo. Fora duas entidades aqui atrás… – e apontou com a ponta da trança por sobre o ombro – aqui nesta sala só tem eu e você, você e eu. Juntinhos. Tim Maia era ótimo, não?

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a– Ah, sim. Era sim. – Ivan pigarreou. E prosseguiu. – Você vê espíritos, Javier?

– Desde que eu era niño de teta. Mas diga, que coisa estranha é essa que lhe acontece?

– Ultimamente, quando eu fumo um baseado, começam a sair minhocas da minha cabeça.

– Minhocas?

– Isso.

– Saem minhocas de dentro da sua cabeça?

– Exatamente. Minhocas. Saem pelas orelhas.

Ivan aguardou enquanto Javier o observava.

– Faz tempo que você fuma marijuana?

– Desde os dezoito. Tô com trinta e quatro.

– Fuma todo dia?

– Geralmente, quando vou escrever. Duas, três vezes por semana. Sou escritor.

– Ah, é escritor? Que bueno receber um escritor em minha sala. Ainda mais um escritor cheio de lombrices na cabeça…

– É sério, Javier. Não é viagem não, é verdade. Olhe, eu trouxe uma aqui pra você ver.

Ivan tirou do bolso da camisa um saquinho de plástico e o estendeu sobre a mesa. Mas Javier o interrompeu.

– Não, não, gracias. Eu acredito em você.

– Pode pegar. É inofensiva.

– Não preciso pegar em sua minhoca pra saber que ela existe, criatura, estou vendo.

– E então? O que você acha?

– Já procurou um médico?

– Nunca falei pra ninguém. Quem ia acreditar?

– Então vamos ter que ver esse babado de perto. Quinta-feira, oito da noite. Tá bom pra você?

– Tá bom.

– Então me espere que eu apareço.

– E quanto vai cobrar?

– Pelo quê?

– Sei lá. Você vai fazer alguma coisa, não vai?

– Bueno, eu cobraria esses seus olhos. Botaria eles numa moldura pra eles ficarem mirando a mim todo dia. Mas como eu sei que você não me daria, então vou cobrar só o preço de custo.

– E quanto é?

– Milzito.

– Mil reais?

– Caro, é?

– Bem que me disseram que você é careiro.

– Careiro é quem cobra caro e não resolve. Eu resolvo.

– Eu não tenho esse dinheiro todo.

– Posso facilitar.

– Não dá pra deixar por cem?

– Cem? Ai, meu são Sebastião flechado… Setecentos.

– Cento e cinquenta.

– Meu filho, sabe quanto me custou esse livro aí que você está com o cotovelito em cima? Cinco mil reais. Mandei buscar em Damasco, veio na corcova de um camelo, protegido por uma caravana de tuaregs barbudos, pegou barco, avião… É um livro sobre como criar demônios em garrafa.

– Você cria demônios?

– Eu não. Mas conheço gente que cria e estou aprendendo a fazer umas garrafitas maravilhosas pros bichinhos morarem com mais dignidade. Sabe a Jeannie É Um Gênio? Pois é daquele modelito, com sofazinho, cortininha… Demônio também é gente.

Ivan coçou a cabeça, pensando se não fora uma péssima ideia ir ali.

– Muito bem. Quinhentos e não se fala mais nisso.

– Duzentos.

– Quatrocentos.

– Duzentos e cinquenta.

– Trezentos, e acabou. Metade agora que estou com o aluguel atrasado. A outra metade no dia.

– Ah, agora eu não tenho. Não dá mesmo pra pagar na quinta-feira?

– Ai, pelas sete pétalas! Está certo, criatura. Mas não diga a ninguém que fiz por esse preço, sim? Minha reputação iria pelo ralo do esgoto…

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BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04aNA QUINTA-FEIRA, A CAMPAINHA do apartamento de Ivan tocou e ele abriu a porta.

– Preparado? – Javier disse, alisando a longa trança que passava pelo ombro e caía sobre o peito. Vestia calça e camisão, tudo branco.

– Só um pouco nervoso… Vamos entrando. Que elegância, heim?

– Gostou? Comprei especialmente pra esta ocasião. Tinha que ser uma roupa que nunca foi usada. Humm, Karine Alexandrino… – Javier pegou um CD sobre o aparelho de som. – Mas não é que o bofe tem bom gosto? Adoro essa perua. Dizem que é homem operado, mas eu não acredito.

– Quer escutar?

– Em outra ocasião. Vamos logo ao que interessa. Menino, mas que buena vista que você tem desta janela. Pra empurrar cobrador é uma beleza. Cadê o baseadito?

– Aqui. Você fuma também?

– Desta vez não. Anda, senta aqui do meu lado e acende logo.

Ivan acendeu o baseado e começou a fumar. Javier observava atento, sentado ao lado no sofá.

– Não tem problema com os vizinhos?

– Que nada. Nesse prédio só tem maconheiro.

Ivan deu mais algumas tragadas, apagou e guardou a guimba numa caixinha de alumínio.

– Olha aí, já tá começando… – falou Ivan, apontando para a orelha direita.

Javier se aproximou e pôde ver perfeitamente: alguma coisa surgiu à entrada do ouvido. Depois foi saindo, saindo e era mesmo uma minhoca, uma pequena minhoca que deslizou um pouco mais para fora, balançou-se e caiu sobre o ombro do rapaz.

– Pelas pantufas do niño Jesus… Que coisa…

– Pode pegar, não morde.

– Não, gracias, minha religião não permite.

– Olha, já tá vindo outra…

Javier viu outra minhoca surgir à entrada do ouvido. Essa também deslizou, balançou um pouco e caiu.

– Tá saindo outra! – Javier gritou. – É a invasão das minhocas… E pelo outro ouvido, não sai?

– Sai. Tá saindo agora, olhaí.

– Que coisa loca. Me diga, quantas saem?

– Ah, depende. Às vezes sai uma só, outras vezes duas, três, cinco. Uma vez saíram nove, quase fiquei doido.

– O que você faz com elas?

– O que eu faço? Jogo fora, claro.

Javier fechou os olhos e apoiou-se com as costas na parede. Respirou profundamente, uma, duas, três vezes. Depois murmurou algo ininteligível por alguns segundos e, por fim, abriu os olhos. Afastou-se da parede e falou calmamente:

– Pois desta vez vamos fazer diferente. Já saiu tudo?

– Acho que sim.

– Então junta num papel e traz aqui – Javier foi à cozinha e abriu a geladeira. – Tem cebola?

– Cebola?

– É. Cebola. Aquela cosita arredondada, com casquinha, que faz chorar…

– Não tô entendendo…

– Claro que não está. Se estivesse entendendo não teria de me pagar quatrocentos reais.

– Trezentos.

– Não foi quatrocentos?

– Não, foi trezentos.

– Então anda, vem cá, me ajuda a cortar. Este tomate também vai.

– Minhoca não come tomate, Javier.

– Quem disse que elas vão comer alguma coisa? Onde está a frigideira, é aqui embaixo? Ah, aqui está. Tem manteiga?

– Javier, você podia me explicar…

– Dá aqui as minhocas.

Ivan passou-lhe as quatro minhocas e Javier despejou-as na frigideira, junto com pedaços picados de tomate e cebola.

– Javier, você não tá pensando…

– Um temperozinho…

Enquanto Javier fritava e temperava as minhocas, Ivan observava sem acreditar.

– Javier, você por acaso…

– Creio que já está bueno. Tem farinha? Tem, ótimo. Vamos botar um poquito, mexer… Onde estão os pires? Creio que um azeite vai bem. Pronto, você come essas duas aí e eu como essas duas aqui.

– Eu?!

– É riquíssimo em proteína, sabia? Na China o povo faz fila pra comer.

– Eu não sou chinês.

– Mas é um escritor que me contratou pra desvendar o mistério das lombrices. Anda, aproveita que está quentinho.

Javier levou a primeira minhoca à boca e começou a mastigá-la, de olhos fechados, calmamente. Ivan olhava enojado.

– Não está tão mal, Ivan. Prova aí.

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04aIvan levou a colher à boca e mastigou uma minhoca. Quase pôs tudo para fora, mas controlou-se e engoliu.

– Ivan, tô recebendo uma mensagem pra você – Javier falou, de olhos fechados.

– Pra mim?

– Um bruxo… que mora sozinho na floresta…

– Como?

– Isso mesmo. Um bruxo. Ele mora… sozinho numa cabana, próximo de uma aldeia.

– Ele tá enviando uma mensagem pra mim?

– Uma bruxa muy bonita que mora perto… e os dois vivem brigando.

– O que é isso, Javier?

– Na verdade, os dois… são apaixonados um pelo outro. Mas não reconhecem isso.

– Sinceramente, não tô entendendo nada.

– Deixa ver essa outra minhoquita… – Javier mastigou a segunda minhoca. – Hummm… Um velhinho que é o Guardião dos Gnomos… Cruzes, é isso mesmo? Sim, é isso mesmo, Guardião dos Gnomos. Os gnomos têm o poder de encontrar pessoas… de fazer com que as pessoas se encontrem… Um dia, um rapaz o procura porque está interessado em…

– Espere um pouco, Javier – interrompeu Ivan. – Só um instante.

– Um pescador… uma bela noite… – Javier seguia falando, aparentemente em transe. – Ele encontra uma sereia e ela… diz que tem o poder de lhe dar muito dinheiro.

– Espere, Javier, que eu vou pegar uma caneta!

Ivan saiu correndo e voltou com papel e caneta.

– Aquela primeira, como era mesmo? Um bruxo e uma bruxa que vivem na floresta…

– Um fantasma… ele mora no quarto de uma pensão e… e sempre trata de expulsar os inquilinos que o alugam.

– O guardião dos gnomos… e depois… depois o quê mesmo?

– Menino, o que eu fiz? – falou Javier, de repente, abrindo os olhos.

– Comeu duas minhocas fritas. Como era mesmo a outra mensagem?

– Aaaaaaarrrrrgh!!! – gritou Javier, levando as mãos à boca e correndo para o banheiro. – Me acuda, minha cabocla Mariana do cabelo cor de telha! Argh!

– Depois foi o quê mesmo? – perguntou Ivan, indo atrás dele com a caneta e o papel. – Ah, o pescador e a sereia.

– Minhoca frita! Não creio! Traz água, por caridade!

– Já vou pegar. Depois foi o quê?

– Ah, não me recordo, criatura. Quem tem de lembrar é você. Vai pegar minha água, maligno.

– Não são mensagens, Javier, são ideias pra contos.

– Ah, é?

– E são ótimas, todas elas. Ah, lembrei! O fantasma da pensão.

– Então não deixa de ser mensagem. Deixa que eu vou pegar a água, cavalheiro.

– Puxa, não acredito! Javier, você é demais!

– Ideias pra contos, heim? Bueno, vai ver que é isso que faltava pra você ser um escritor famoso: uma dieta à base de minhoca frita.

– Puxa, Javier, nunca poderei lhe agradecer…

– Claro que pode. São trezentos reais, aqui en la mano.

– Escute, Javier, tenho uma proposta a lhe fazer. Que tal trabalharmos juntos? Você come as minhocas e me passa as mensagens. Eu serei um escritor famoso, venderei muitos livros… Nós ficaremos ricos, Javier! Você fica com dez por cento de tudo o que eu ganhar, aceita?

– Não.

– Mas, Javier, as ideias são maravilhosas, eu vou escrever ótimos contos, eles vão ser um sucesso!

– Tsc, tsc. Madre de Dios, esse gosto horrível não sai…

– Vinte por cento.

– Já disse que não me interessa. Imagina, vou virar um minhocário ambulante…

– Trinta!

– Trinta por cento? – Javier alisou a trança sobre o peito, pensativo. Fez algumas contas rápido. – E se você não ficar famoso nem nada?

– Com essas ideias? Impossível!

– Não, não interessa. É melhor eu garantir o meu agora. Escuta, por que você não come as minhocas? Afinal, é da sua cabecita que elas saem, e não da minha.

– Ah, Javier, eu não vou conseguir, é ruim demais.

– Faz parte do seu aprendizado cósmico. Vamos, eu quero meu pagamento, dá aqui na mãozinha.

– Javier, por favor, seja mais bondoso…

– Mais bondoso? Só se da próxima vez eu comer aranha…

– Desculpe, não quero ser injusto.

– Exatamente, seja justo. Eu mostrei pra você qual a utilidade dessas minhocas que saem de sua cabeça quando você fuma, e agora é muito justo que eu receba meu pagamento, que te parece?

– Então vamos deixar pelos duzentos?

– Trezentos, foi o que combinamos.

– Duzentos e cinquenta então.

– Ah, eu não creio! Está bem, me pague e me deixe ir embora comer qualquer coisa pra tirar esse gosto horrível da boca, argh…

– Vou fazer os cheques.

– Cheques?

– Você parcela, não parcela?

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BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a– SEO JAVIER, DESCULPE interromper, mas é encomenda pro senhor assinar – avisou Ana Isaura, entregando um pacote.

– Só um instantito, dona Iracema… – disse Javier, interrompendo a consulta do tarô e assinando o papel. – O que deve ser? Ah, é do Ivan, aquele bofe dos olhos lindos. Livro novo…

– Quem é Ivan? – perguntou dona Iracema, sentada à sua frente na mesa.

– É aquele escritor, a senhora não conhece? Ivan Ferreti.

– Ah, sim, claro. Ele é seu amigo?

– Uns anos atrás resolvi um babado forte pra ele, entonces sempre que ele lança livro novo, manda pra mim, com dedicatória e tudo – Javier abriu o pacote e mostrou o livro, orgulhoso. – Mira que capa bonita.

– Bonita mesmo.

– Era um pé-rapado. Hoje está famoso, podre de rico. Casou dia desses com uma modelo italiana que é a cara da Anita Ekberg, até os peitos são deste tamanho. Sabe onde o bofe mora atualmente? Num castelo na França, imagina o luxo.

– Nossa, que partido… Pra mim não cai um desse.

– Ai, ai, quando eu penso naqueles trinta por cento…

– Como?

– Nada, mulher, nada. Divaguei. Mas sim, onde estávamos?

– No Enamorado.

– Ah, nessa carta aqui. Pois bem… Bueno, deixa eu ver… Humm, é um senhor alto, viu, educado, distinto… Um guapo.

– Será que é casado, Javier?

– E isso lá é problema, mulher! Se for, a gente descasa.

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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.com

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BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04aEste conto integra o livro
Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha

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Há algo de podre no 202

21/11/2008

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Quando crianças, as primas guardavam um terrível segredo sobre o amanhecer. Agora que cresceram, o que pode acontecer?

Fantástico, terror

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Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

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HÁ ALGO DE PODRE NO 202

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EU E MINHA PRIMA HELGA sempre parecemos duas irmãs, de tão unidas. A mesma idade, os mesmos gostos. Na escola, sentávamos lado a lado e corríamos de mãos dadas pelo pátio, alegres como dois passarinhos. Na verdade, Helga foi a única amiga que tive.

Foi o melhor tempo de minha vida. Éramos crianças e o mundo inteiro o cenário de uma grande brincadeira. Depois éramos quase adolescentes e o mundo passou a ser a fonte inesgotável de deslumbramento, nós duas encantadas e amedrontadas com as possibilidades que a vida descortinava à nossa frente. E tínhamos uma à outra para nos proteger e confiar nossos segredos.

Nos fins de semana ela costumava dormir lá em casa e nossas noites eram recheadas de papos sem fim, nossas músicas preferidas, os diários compartilhados. Quando começamos a nos interessar pelos garotos, treinávamos, uma com a outra, os beijos que daríamos neles. E no escuro do meu quarto nós nos ensinávamos mutuamente sobre os prazeres que nossos corpos podiam nos oferecer.

Helga era um sentido. O único.

Uma noite mostrei-lhe uma foto do amanhecer, uma foto muito bonita na página de uma revista. Perguntei-lhe se ela já havia visto o nascer do sol. Helga me respondeu que não, mas que sabia de um segredo. E perguntou se eu poderia guardar uma informação ultrassecreta por toda a vida. Eu disse que sim, que ela podia confiar em mim.

– Então promete que nunca vai me trair.

– Prometo que nunca vou te trair – respondi, e toda a solenidade do momento nos envolvia feito música.

– Nunca jamais.

– Prometo que nunca jamais vou te trair – reforcei, beijando meus dedos em cruz.

Ela então trancou a porta do meu quarto e me fez sentar ao seu lado na cama. E falou baixinho em meu ouvido que do outro lado da noite não havia crianças, que era por isso que os adultos não as deixavam ficar acordadas para ver o amanhecer. Mas um dia, quando nós fôssemos adultas, cruzaríamos a noite, juntas, sem medo, e veríamos o amanhecer. Era o segredo. E sua promessa.

Abracei-a, confiante em suas palavras, e nessa noite dormimos juntinhas, num só abraço, protegidas de todo o mal e cúmplices para toda a vida de um segredo e de uma promessa que nos unia ainda mais.

Um dia, sua família precisou mudar de cidade. E Helga foi embora. Choramos bastante, lamentando nossa triste sina. Beijei-a com toda a doçura e disse-lhe que a amava. Ela enxugou minhas lágrimas, disse que me amava também e que tudo faria para que em breve nos reencontrássemos.

Mas a vida não seria tão simples quanto nossos planos infantis. As cidades eram distantes e nossas famílias não eram ricas. Não pudemos nos ver nas férias seguintes e tivemos de nos contentar com nossas cartas quase diárias, já que os poucos minutos de que dispúnhamos ao telefone eram um nada diante das tantas coisas que tínhamos para falar. Aos poucos, porém, as cartas de Helga passaram a demorar uma semana, depois um mês, depois meses… E um dia, não chegaram mais. Entristecida de saudade, eu insisti, escrevendo ainda mais. Mas ela nunca voltou a responder. Chorei minhas mágoas com mamãe e ela me consolou dizendo que havia outras meninas legais e que eu faria outras amizades.

Infelizmente, mamãe estava errada.

Um dia, quatro anos e vinte e cinco dias depois de nossa despedida, eu soube que Helga estava na cidade e iria lá em casa jantar conosco. Vibrei de alegria. Limpei e arrumei o quarto, troquei a cortina e pus lençóis e cobertores novos na cama.

Quando a porta abriu, tive duas surpresas. Helga estava diferente, havia crescido, era uma mulher. Estava ainda mais bonita. A outra surpresa foi o rapaz que estava com ela. Era seu namorado. Ela não havia falado dele. Eu não sabia. Apesar de simpático, não me senti à vontade com sua presença. Ela não deveria tê-lo levado lá em casa.

Helga me abraçou e beijou com carinho, disse que estava com saudade. Perguntei por que não respondera às minhas cartas e ela disse que não tinha tempo para escrever, mas que lia todas. Perguntei se as guardara. Ela riu, olhou para minha mãe e respondeu que sim.

Jantamos todos juntos e Helga contou as novidades, falou dos meus tios e que no fim do ano faria vestibular para Física, queria ser cientista. Eu não conseguia deixar de olhar para ela. Como estava linda!

Depois do jantar, fomos à sala ver televisão. Sentei-me entre Helga e seu namorado, assim evitaria que ele a beijasse. Quando ficou tarde, mamãe sugeriu que ela ficasse para dormir. Para minha alegria, Helga aceitou. Então ela despediu-se do namorado, combinando a hora que ele passaria para pegá-la no dia seguinte. Ele saiu e eu tranquei a porta.

Reservei minha cama para Helga, enquanto eu dormiria na rede. Quando ficamos a sós no quarto, puxei de baixo da cama o baú. Abri e mostrei-lhe meu maior tesouro: nossos antigos CDs, nossas fotos, meus diários, todas as suas cartas e os bilhetinhos que trocávamos durante as aulas.

Ela olhou tudo surpresa, não acreditando que eu realmente guardara aquilo durante tanto tempo. Segurou curiosa duas mechas de cabelo presas numa fita amarela e eu disse que eram nossos, ou ela não lembrava que cortávamos juntas nossos cabelos? Helga leu trechos de meu diário onde eu narrava meu sofrimento por estar distante dela e, nesse momento, sua voz parecia uma doce canção que falava de saudade. Perguntei-lhe se ainda me amava.

Ela parou de ler e olhou para mim. E me chamou para perto dela, na cama. Sentei a seu lado. Ela ajeitou meu cabelo e disse que gostava muito de mim, que jamais esqueceria nossa amizade. Perguntei se ela ainda sabia beijar. Ela riu e disse que sim. Então beijei sua boca. Ela correspondeu por alguns segundos, mas depois afastou-se. Perguntei se não havia gostado. Ela então falou que o que havia acontecido entre nós era coisa de crianças, que agora éramos adolescentes, quase adultas, que em breve estaríamos na faculdade.

Respondi que ela estava enganada, que nosso amor não era coisa de criança, que eu não a esquecera nem por um só minuto e que ela ainda era a coisa mais importante do mundo para mim. Ela me olhou carinhosamente e me abraçou. Disse que jamais esqueceria o que vivêramos, que lembrava de tudo com muita ternura e que, apesar do tempo e da distância, eu continuava sendo sua prima preferida. Insisti: ainda me amava? Sim, ela respondeu, mas que agora devíamos deixar aquelas lembranças guardadas numa caixinha e cuidar da vida, seguir em frente.

Ela juntou tudo e pôs de volta no baú. Trancou e me entregou a chave. Tentei entender o que ela fazia, mas estava confusa. Ela disse que já estava tarde, precisava dormir, no outro dia tinha que acordar cedo.

Helga dormiu. Eu não. Fiquei a noite inteira sentada no chão, ao lado da cama, vigiando seu sono para que nada de ruim lhe acontecesse. Tão bonita ela dormindo, parecia um anjo. A réstia de claridade que vinha da janela acariciava seu rosto… A Lua, invejosa, também queria beijá-la. Como eu beijei.

Em certo momento, olhei para a janela e vi que estava… amanhecendo! Levantei e fui até lá. Afastei a cortina e abri a janela. O céu já não era um breu. Por trás dos prédios ele começava a mudar de cor. A escuridão cedia espaço a bonitas nuvens alaranjadas e alguns raios pareciam furá-las e lançar-se mais acima. Era o amanhecer, o primeiro que eu presenciava em toda a minha vida.

Sorri, sentindo uma estranheza, uma sensação misturada de vitória e desconforto. E de medo. O amanhecer era bonito, mas ao mesmo tempo que admirava, eu estava com medo. Então era aquele o mundo do qual falara minha prima, o mundo para o qual um dia ela prometeu que iríamos juntas… Mas eu não sabia se queria ir, não me agradava a ideia de um mundo sem crianças. Estava bastante confusa.

Olhei para Helga, que dormia na cama. E a visão de seu rosto me encheu de coragem. Então me ajoelhei ao lado e a chamei, com ela eu não teria medo de ir. Chamei-a para que cumpríssemos o que ela uma vez prometera, que entraríamos juntas no mundo dos adultos.

Ela se mexeu na cama, sussurrou algo e voltou a dormir. Chamei-a novamente, ela tinha que levantar, tínhamos que entrar juntas, eu não iria sem ela. Mas ela disse que era cedo, que precisava dormir, que eu fosse dormir também. Chamei-a de novo. Ela então me olhou com raiva e disse que se eu não fosse para minha rede, chamaria minha mãe.

Afastei-me, surpresa. Helga jamais havia falado comigo naquele tom. Fiquei ali olhando para ela, tentando entender. Por que ela não queria ir comigo? Não fazia sentido. Eu não iria sozinha. Sem Helga, o que eu faria no mundo dos adultos?

Então, entendi. Ela preferia ficar em nosso mundo, o mundo das crianças, que ficava do lado de cá da noite. O nosso mundo, onde estaríamos protegidas para sempre de todo mal. Aliviada por ter finalmente entendido tudo, fechei a janela e deitei na rede.

Quando estava quase dormindo escutei algo que chamou minha atenção. Era um som de galope, pareciam cavalos se aproximando. Olhei para a janela. Era de lá que vinha o som. Levantei e fui até lá. E vi. As criaturas malignas.

Eram muitas, nem sei dizer quantas. Vinham montadas em seus cavalos bufantes, o galope alvoroçado. Gritavam e urravam e gargalhavam feito loucas. Empunhavam foices e lanças e as brandiam sobre as cabeças. Eram cadáveres humanos, esqueletos com restos de carne ainda pendurados. Criaturas semimortas, grotescas, horríveis. Pareciam saídas de seus caixões. A coisa mais pavorosa que eu já vira e haveria de ver em toda a vida.

Elas estavam logo à frente, expelindo ódio e crueldade pelos olhos vermelhos. E olhavam todas para minha janela, para onde eu estava, todos aqueles horríveis olhos vermelhos olhando para mim. Na imensidão da cidade, no meio dos prédios, as criaturas sabiam exatamente onde eu estava. Olhavam fixo para minha janela, para mim, e se aproximavam em seu galope enlouquecido e barulhento.

O desespero subiu pela minha garganta, e quando eu tentei chamar Helga, minha voz simplesmente não saiu. Elas estavam chegando e eu não podia gritar. Quis correr, mas minhas pernas não se mexeram e ali continuei, parada na janela. Elas se aproximavam e o barulho era cada vez maior. Como Helga podia continuar dormindo com aquele som ensurdecedor?

Enfim, chegaram. Pararam diante da janela. Eu escutava seus cavalos alvoroçados, bufando, prontos para invadir o quarto. Pude sentir aquele horrível cheiro de coisa podre, de animal morto, insuportável…

Então, juntei todas as minhas forças e, tão rápido quanto pude, saltei e joguei-me na cama, colando-me ao corpo de minha prima. Puxei o cobertor e me cobri dos pés à cabeça. Ela acordou e perguntou o que eu estava fazendo ali. Não consegui falar nada. De olhos fechados, tremia de terror.

Helga explicou que eu tivera um pesadelo, que estava tudo bem, que eu podia dormir com ela. Eu tremia, encolhida sobre mim mesma, apertando os olhos, petrificada de pavor. Helga me abraçou, tentando me acalmar. Mas era inútil. Elas estavam na janela e entrariam no instante seguinte.

Helga pediu que eu abrisse os olhos. Não abri. Ela insistiu, pediu que eu abrisse, que era ela quem estava ali, estava ao meu lado, sua prima querida. Não abri, não podia. Apenas tremia e tremia.

Ela então pegou minha mão, apertou-a na sua e pôs algo entre meus dedos. Era a nossa mecha de cabelo, que ficara fora do baú. Helga disse que aquilo era um amuleto, que eu não deveria mais ter medo, que o amuleto me protegeria todas as noites. Era só segurá-lo que o pesadelo iria embora.

Segurei a mecha de cabelo em minha mão, apertando-a com toda a força que pude. Então, aos poucos percebi que as criaturas se afastavam. O amuleto funcionava mesmo. Continuei segurando e apertando. E as criaturas se foram. Aos poucos, parei de tremer, e chorei de alívio e agradecimento. Abracei minha prima amada e assim adormecemos, juntinhas. Protegidas. Como nos velhos tempos. Como nunca deveria ter deixado de ser.

Quando despertei, porém, estava sozinha. Minha prima já havia saído. Olhei para a janela e o céu estava azul. Abri a mão e lá estava o amuleto.
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TENHO ATUALMENTE 21 ANOS. Saí de casa, vim cursar faculdade em outra cidade. Meus pais alugaram um pequeno apartamento, que é onde moro, junto com Ramin, meu gato persa. Ele é castrado e nunca sai do apartamento, assim me faz companhia.

Sempre cuidei de estar em casa antes do amanhecer para não ter o desprazer de rever aquela cena horrível. Por conta disso recusei muitos convites para passeios, pois temia não estar em minha cama, protegida, quando as criaturas malignas chegassem, vindas do mundo onde não há crianças. Sim, eu ainda tinha o amuleto. Mas ele era algo muito sagrado para que eu o usasse por aí em qualquer lugar.

Nunca falei das criaturas com quem fosse, nem com meus pais, nem amigas, nem ninguém. Era meu segredo, meu e de Helga. Um dia, porém, num momento de fraqueza, cedi e acabei contando para Luiz. Já namorávamos havia alguns meses, e ele sempre indagava sobre minha relutância em ver o amanhecer. Gostava dele e achei que entenderia, por isso que contei. Num momento de fraqueza quebrei nosso segredo.

Perguntei a Luiz se ele não as via, as criaturas horrendas, quando amanhecia. Perguntei se não escutava o barulho ensandecido dos galopes quando surgiam os primeiros raios do dia. Se não sentia o cheiro insuportável de bicho morto. Ele era uma pessoa sensível, certamente entenderia. Falei que muitos anos atrás Helga havia me alertado sobre o outro lado da noite, que havia me contado o segredo do amanhecer e que um dia eu finalmente vira com meus próprios olhos. Falei do amuleto que eu usava, que minha prima me dera especialmente para me proteger, que era por isso que eu sempre o usava num cordão no pescoço quando dormia.

Terminei de falar e fiquei aguardando, nervosa. Nesse instante, lembrei de Helga e senti todo o peso da quebra de um pacto valioso. O que ela pensaria? Será que me entenderia? Se ela conhecesse Luiz, certamente entenderia sim, ele era uma pessoa boa, gostava de mim.

Luiz escutou tudo e ficou muito sério. Perguntou se eu não estava brincando e respondi que não. Tornou a perguntar e tornei a negar. Perguntou uma terceira vez, e pela terceira vez neguei. Compreendi nesse exato momento que não devia ter contado.

Depois daí, Luiz mudou. Passou a me tratar de um modo mais frio. E, pior, tentou me convencer que aquilo tudo era invenção minha, que as criaturas malignas não existiam, que eu devia ver o amanhecer sem o amuleto para constatar o que ele dizia.

Eu deveria ter terminado o namoro aí mesmo. Senti muita raiva por ele me tratar como uma louca. Sei que não sou louca, eu vi as criaturas. Escutei o galope atropelado e os uivos alucinados, pude sentir o mau cheiro tomando conta do ar e por pouco suas garras não tocaram meu pescoço.

Ainda namoramos mais algumas semanas, apesar dele continuar tentando me convencer. Volta e meia tocava no assunto, mas eu não queria escutar, não queria mais falar sobre isso, sabia que não adiantava. Terminamos o namoro porque um dia ele fez algo que não pude aceitar.

Foi numa noite em que dormimos juntos. Acordei de repente, assustada. Ele me chamava. Apontava para a janela do meu quarto e pedia que eu olhasse, dizia que nada havia lá fora, havia apenas o amanhecer.

Olhei para a janela, ainda zonza de sono, e quase desmaiei do susto que tomei. Lá estavam as criaturas chegando, elas e sua correria alucinada. Já vinham perto, eu podia escutá-las como se estivessem dentro do apartamento.

Olhei para sua mão e vi o amuleto. Luiz o tirara de meu pescoço enquanto eu dormia, o idiota. Nesse instante, fui tomada por um ódio que nunca imaginei que pudesse ter. Ver o amuleto nas mãos daquele estúpido me deixou absolutamente enfurecida. Ele não podia ter feito aquilo.

Então o empurrei para fora da cama, gritando desesperada que ele não tinha o direito. Eu tentava recuperar o amuleto, mas ele não deixava, e dizia que eu olhasse lá para fora, que estava tudo normal, não havia nenhuma criatura maligna…

Eu poderia tê-lo matado, sinceramente que poderia. Luiz me tratava como se eu fosse uma louca. De fato, fiquei tomada pelo desespero, fiquei sim. Mas quem não ficaria vendo-as tão próximo?

Empurrei-o violentamente para o corredor e de lá para a sala. Ele tentava me conter, pedia calma, dizia que eu precisava de tratamento, que gostava muito de mim e queria me ajudar. Eu não queria ouvir e gritava que ele fosse embora. De um canto da sala, Ramin, despertado pelos gritos, via a tudo assustado. Eu estava mesmo desesperada. Não tinha tempo. Luiz me entregava à morte e não percebia isso.

Não sei onde arrumei tanta força, afinal Luiz é bem mais forte que eu, mas abri a porta da sala e o atirei longe. Ele caiu de costas no chão e foi rolando pelos degraus da escada. Apanhei o amuleto no chão e gritei, antes de bater a porta, que nunca mais queria vê-lo. E corri para o quarto, atirando-me à cama e me cobrindo com o cobertor.

Vivi tudo de novo, o inferno que eu jurara que jamais viveria novamente. Elas chegaram como da outra vez. Olharam pela janela e… entraram. Puseram-se em volta de minha cama, observando-me, todos aqueles cadáveres nojentos. Não, ninguém pode imaginar o que seja isso…

Enquanto eu, embaixo do cobertor, tremia e apertava em minhas mãos o amuleto, podia sentir seus olhares queimando feito brasa em minha pele, o bafo quente, o odor putrefato, meu corpo a um palmo de suas garras asquerosas… Não, ninguém pode imaginar.

Então, aos poucos, elas começaram a se afastar, foram saindo. Sabiam que nada podiam contra mim se eu estivesse com o amuleto.

No mesmo dia, Luiz me ligou, mas não atendi. Mandou-me mensagens que não li. Farta dele, desliguei o celular. No dia seguinte, peguei o ônibus para a cidade onde Helga morava, precisava lhe contar o que fizera. Eu não fora digna de seu segredo. Precisava que me perdoasse.

Cheguei à tarde. Da rodoviária, peguei outro ônibus até a casa dela. Cheguei, toquei a campainha. E perguntei por minha prima. Foi então que soube que Helga havia morrido. Naquela manhã.

A princípio, não acreditei. A voz no interfone perguntou quem eu era. Mas eu não consegui dizer mais nada. Uma mulher abriu o portão. Estava vestida de preto, o semblante triste. Ela falou algo sobre um acidente e explicou onde era o velório, estavam todos lá. Ela perguntou se eu entendera. Não lembro o que respondi, mas eu entendi sim. Entendi tudo.
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AGORA, NESTE EXATO INSTANTE, são cinco e dez da manhã. Estou de volta ao meu apartamento, aqui na sala, sentada nesta poltrona, de frente para a grande janela de vidro. O sol surge às minhas costas, do lado oposto – eu tivera o cuidado de escolher um apartamento virado para o poente –, mas já posso ver o céu deste lado começando a clarear. Em poucos minutos será dia.

Trouxe da cozinha mais uma xícara de café. Quero estar bem desperta para o que vai acontecer.

Já ouço o barulho, sinto o mau cheiro… Tento manter-me calma. Mas o peito está para explodir.

Já posso vê-las, as criaturas e seus semblantes enlouquecidos. E os berros, meu Deus, os berros… Não sei como os vizinhos não acordam com todo esse barulho. E minha vizinha, que reclama de qualquer coisinha, como pode não escutar?

Deixei no pratinho de Ramin ração suficiente para uns cinco dias. Espero que alguém se dê conta antes que o bichinho morra de fome.

Elas estão chegando, já me viram. A horda inteira me observa, com seus olhos vermelhos, as expressões de ódio. E a correria faz o apartamento tremer. Como podem não escutar, meu Deus? Os vasos caem, tudo treme! Até Ramin, de sono tão pesado, já veio ver o que está acontecendo…

Elas já estão aqui. Caminham sádicas ao redor da poltrona e o som de seus passos ecoa pela sala. Deus, como são repugnantes! E o cheiro, é impossível respirar… Ramin ficou apavorado com o que viu: arrepiou-se todo e saiu numa carreira pelo corredor, deve ter-se metido embaixo do armário, coitado. Eu bem que poderia tê-lo poupado disso.

Uma delas passa a mão em meu cabelo, a mão ossuda, restos de pele pendurada… O cheiro é insuportável. O asco me sobe à garganta e reprimo o vômito. Estou imóvel, não respiro, olho fixo para frente. Uma delas empunha uma foice. Por que não faz logo o que veio fazer?

Estão todas na sala e riem de mim às gargalhadas. Tento manter um mínimo de dignidade, mas estou tão nervosa que meu queixo treme sem parar… Só queria que tudo acabasse logo.

Então, uma das criaturas puxa meu cabelo e reclina minha cabeça para trás, expondo inteiramente meu pescoço. Sinto meu coração acelerado. Ela aproxima seu rosto do meu e percebo que sua boca espuma, posso sentir o bafo quente. A que empunha a foice se aproxima. Evito seus olhares fechando os olhos, e assim os mantenho.

A criatura puxa meu cabelo um pouco mais. A baba de sua boca pinga sobre meus lábios cerrados e escorre pelos cantos… Eu me esforço para controlar a repulsa. Percebo que suas unhas afiadas tocam meu pescoço. Meu queixo ainda treme. Todas elas tocam meu pescoço, deslizando lentamente suas unhas como se saboreassem um aperitivo.

Duas imagens surgem em minha mente. A primeira é o amuleto enterrado no jardim da praça, a porção de terra a cobri-lo, nossas mechas de cabelo unidas para sempre. A segunda imagem é de Helga, olhando para mim, seus olhos tristes e decepcionados…

As lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto. Minha cabeça continua inclinada para trás, meu pescoço exposto. Sem suportar mais o olhar de Helga, eu choro. Choro de olhos fechados e rezo para que tudo termine logo.

Então, num movimento brusco, a criatura faz o que deve fazer.

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.
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O presente de Mariana

15/11/2008

15nov2008

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A cabocla Mariana, entidade da umbanda, propõe noivado ao moço Dedé. Ela garante estabilidade financeira, mas em troca exige fidelidade absoluta


GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1b.

Fantástico, mistério

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Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

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O PRESENTE DE MARIANA

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ESTAMOS FAZENDO DEZ ANOS de casados, eu e Mirley. É uma mulher incrível, faço questão de lhe dizer, e continua bela e fascinante como no dia em que a conheci. Para comemorar a data, viemos passar o fim de semana em nossa casa de praia. Trouxemos vinho, velas aromáticas e nossos discos preferidos. Dez anos de alegrias. Dois filhos maravilhosos. Houve dificuldades, é claro, mas nosso amor superou tudo.

Neste momento, Mirley está na praia com as crianças. Preferi ficar aqui na rede da varanda, escutando Julio Iglesias, olhando as árvores do terreno, me deliciando com o vento, o som chacoalhento que ele faz nas folhas. Dez anos. Tantas coisas vividas…

Recordei fatos, sensações, dizeres e pequenos eventos banais. Recordei os dias difíceis, um fraquejando, o outro segurando a barra… Ri sozinho de tantos encontros e desencontros, interessantes acasos e as brigas homéricas que o tempo sempre faz tornarem-se ridículas. Em dez anos de convivência acumula-se o inevitável pó das coisas corriqueiras, eu sei, mas um olhar ainda apaixonado, acredite, é capaz de captar poesia por trás da mais empoeirada rotina.

E foi nesta manhã, aqui na rede a vasculhar o passado, que súbito me veio a lembrança de Mariana. Foi como se um vento soprasse a areia de cima do acontecimento esquecido. Soprou e surgiu Mariana, ela e seu jeito gracioso de menina, o sorriso franco… E eu recordei tudo.
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ERA UMA QUARTA-FEIRA, o dia em que botavam mesa na casa de dona Neide, uma médium conhecida no bairro. Joca perguntara se eu gostaria de conhecer uma sessão de umbanda manauara, eu disse que sim e lá fomos nós.

Eu havia deixado Recife para ir morar em Manaus, onde investira todas as minhas economias num negócio de exportação. Minha namorada Mirley foi comigo, mas infelizmente não se deu com o clima da região e voltou. Eu fiquei, eu e a promessa de que em breve faria algum dinheiro e voltaria também. Mas por aqueles dias, quase um ano depois, os negócios seguiam muito difíceis e o dinheiro e a esperança cada vez mais curtos. As perspectivas não eram nada positivas. E a saudade de Mirley me incomodava demais, feito um espinho encravado na alma. Sem ela ao meu lado, tudo era mais difícil de suportar. Quem sabe então alguma entidade poderia me dar uma mãozinha?

Formou-se a mesa. Estava concorrida a sessão daquela noite, algumas pessoas tiveram de ficar em pé, ao redor. Como era minha primeira vez, deixaram-me sentar, e bem ao lado de dona Neide, a médium, uma senhora muito distinta, corpo moreno e mirrado, cabelos e olhos bem pretos. Num canto da sala ficava a mesa do congá, e nela pude distinguir imagens de Jesus Cristo, são Jorge, são Sebastião, são Cosme e são Damião e a da Virgem. A médium pediu a bênção de Oxalá, do mestre Jesus, da entidade responsável pelo terreiro, que não lembro mais quem era, e de alguns orixás.

Nunca acreditei nessas coisas, acho que se pode explicá-las pela autossugestão. Mas como sou tímido, aquela experiência nova me deixou pouco à vontade. Via as pessoas expondo seus problemas às entidades e aquilo me soava estranho. Vi que umas conversavam ao ouvido delas, reservadamente, mas nem assim arrumei coragem. Sentia-me ridículo só de me imaginar falando ao ouvido de um imaginário preto velho baforando fumaça de fumo de palha, com aquelas pessoas fazendo um fundo sonoro de cantigas meio desafinadas.

Por ocasião da visita das entidades não senti nenhuma mudança mais significativa na médium. Observava-a com discrição, mas atentamente, procurando falhas ou comprovações do além. Uma coisa, porém, me chamou a atenção: foram as sete doses, isso mesmo, sete doses de cachaça que ela tomou durante a visita de um caboclo não-sei-quem. Sem falar nas cervejas que outras entidades pediram e tomaram. Pela lógica, dona Neide, com sua fraca compleição física, terminaria a sessão bastante embriagada.

Foi no fim que Mariana apareceu. Eu já interpelava Joca de canto de olho, demonstrando minha impaciência, quando dona Neide mais uma vez estremeceu, fechou os olhos e entrou em transe. De imediato percebi uma fragrância suave no ambiente, um cheiro de madeira, de mato fresco, e olhei discretamente ao redor para ver quem estaria usando perfume tão agradável.

Todos saudaram a entidade que chegava.

– Salve, Mariana.

– Salve, cabocla Mariana. Bem-vinda.

– Bem-vinda, Mariana do cabelo cor de telha.

– Salve, salve! – dona Neide respondeu, falando para todos. E percebi que sua voz se tornara mais juvenil.

– Quanto tempo que não aparece, Mariana.

– Êta, hoje tá cheio. Gente nova, homem bonito, que bom. Êta, felicidade!

Achei aquilo tudo ridículo e tive vontade de rir. Nesse exato instante, porém, o olhar de dona Neide cruzou com o meu. E tomei um susto. Aquele não era seu olhar, era outro. Estava diferente, mais brilhante, mais vivo. Tentei desviar, incomodado, mas algo me impediu.

– Esse é meu amigo Dedé – Joca tratou logo de me apresentar. – Tá vindo pela primeira vez.

– Tem um olho bonito, ele – dona Neide falou, meio séria, meio sorrindo.

Fiquei sem saber o que dizer, as atenções todas sobre mim. Procurava algo para fazer com as mãos sobre a mesa e evitar os olhares, principalmente o de dona Neide. Era estranho: dona Neide continuava ali, ao meu lado, mas ao mesmo tempo… não parecia ser ela. Não podia ser ela.

– O moço é encabulado, é? – ela perguntou, falando a poucos centímetros de meu rosto. Tinha um olhar meigo, mas nele havia qualquer coisa de dominador. Era algo sutil, mas que prendia meu olhar. Ela tocou meu rosto, sorriu e se virou, buscando os velhos conhecidos da mesa. Respirei aliviado.

Dona Neide, ou Mariana, cumprimentou a todos os presentes. Pude perceber que se demorava mais nos homens. Pediu notícias sobre conhecidos, perguntou sobre um e outro, riu de casos e se divertiu com uma confusão ocorrida dias antes na rua. Eu estava tão sem jeito com a situação que nem lembrei de pedir que também desse uma forcinha nos meus negócios. Contentei-me em admirar seus modos graciosos e seu bom humor. Decididamente, era uma entidade cativante.

Havia algo, porém, que me chamava a atenção desde o início de seus falares. Ela perguntava por seu noivo fulano e seu outro noivo beltrano, e pelo jeito parecia ter muitos noivos. Curioso, cutuquei Joca e ele me explicou, falando baixinho ao meu ouvido:

– A cabocla Mariana não morreu, foi encantada, com 17 anos e meio. Ela é muito bonita. Tem a pele branca e o cabelo ruivo, da cor de telha. E o olho azulzinho. Quando se engraça de um homem, pergunta se ele quer ser noivo dela. Homem que é noivo de Mariana consegue o que quiser nos negócios, sobe rapidinho na vida.

Senti um frio no estômago. Ajeitei-me na cadeira, mais para perto do meu amigo.

– Meu irmão é noivo dela. Tu conheceu a loja dele, Dedé. Pois dois anos atrás não tinha nem onde cair morto. Enriqueceu rapidinho.

– E o que faz ela se engraçar de um homem?

– Ah, não sei. Ela gosta e pronto.

– E o que ela pede em troca?

– Ela é ciumenta, exige exclusividade total. Homem que noiva com Mariana não tem mais mulher nenhuma.

– Mas… como assim?

Alguém fez psiiiiuuu… Sorri um pedido de desculpas e me recompus. Mas o assunto era irresistível.

– Ela estraga qualquer xodó teu – prosseguiu Joca. ‒ Olha aquele ali, o Luís. Noivou com ela. Foi ele quem comprou esta casa e deu de presente pra dona Neide fazer as sessões. Era um pé-rapado e hoje é dono de supermercado. Em compensação nunca mais se ajeitou com mulher nenhuma, Mariana sempre estraga o namoro.

– E não dá pra desfazer o trato?

– Não. Tem que ser muito macho pra noivar com ela.

– Pois eu topava um negócio desse.

– Tu não é doido!

– Se ela me arrumar dinheiro, eu vou embora daqui e ela não me encontra nunca mais. Caso com Mirley e ainda fico com dinheiro no bolso.

– Ela não te deixa sair daqui, Dedé. Tu não sabe o poder dessa menina, tu não sabe.

Já não adiantariam os conselhos. Eu estava tomado por um estranho frenesi. Entrara ali sem acreditar em nada daquilo, mas agora estava disposto a abrir uma brecha em minha incredulidade para a cabocla Mariana se ela fosse realmente capaz de me tirar do sufoco em que eu me encontrava. Quanto à questão dela estragar relacionamentos, bem, isso pra mim já era demais, não dava para acreditar.

– Antes de eu ir embora, queria conversar com este moço aqui… – Mariana virou-se para mim subitamente, me pegando de surpresa. – Não precisa me dizer que a vida não anda fácil pra ti, né? Moço honesto, trabalhador… Vem de longe, né?

Concordei com a cabeça. Era impressionante seu olhar. Eu me sentia envolto por um estranho carinho, uma água morna, aconchegante… um cheiro gostoso de mato fresco…

– Aposto que deixou namorada chorando, não foi?

Sorri encabulado.

– Sabe que a primeira coisa que elas reparam é no teu olho bonito?

Senti as faces quentes de vergonha.

– E sabe olhar do jeito que mulher gosta.

Eu não soube o que dizer.

– Precisa só respeitar um pouquinho mais as entidades. Eu sei que tu é inteligente. Mas com as entidades ninguém pode.

Falou e tocou meu braço. Decididamente não era a mão de dona Neide. Era a mão macia de uma garota.

– Mas eu respeito… – tentei consertar, incomodado pela exposição de meus secretos pensamentos.

– Então respeite mais um pouquinho que não faz mal. Tu sabe muita coisa. Mas ninguém sabe tudo.

Fiquei em silêncio, cada vez mais nervoso. Reprimenda de entidade, quem diria.

– Não sabe, por exemplo, ganhar dinheiro.

Ela falou e riu. E era uma risada de menina.

– Se quiser, Mariana te ensina.

No silêncio que se fez, escutei as batidas de meu coração. O que ela estava mesmo propondo?

– Ele não tá interessado, Mariana – interrompeu Joca, batendo amavelmente em meu ombro.

– Verdade? – ela perguntou, os olhos nos meus. E por um segundo me pareceram azuis.

– Bem… eu…

– Teu caso não é sem jeito. Só umas coisinhas que estão emperradas.

Mariana prosseguiu me olhando, séria. Nesse momento senti algo estranho, uma leve sensação de torpor…

– Pra mim é fácil resolver.

– Em quanto tempo? – eu quis saber. Ela tinha mesmo olhos azuis. Ou eu já estava vendo coisas?

– Mais rápido do que tu imagina.

Eram azuis sim. Um azul límpido, suave, quase uma carícia. Não era impressão – eu via. Não sei como. Mas eu via.

– Simpatizei contigo.

E o cabelo comprido, cor de telha. A pele branquinha, o jeito de menina levada. Não me peça para explicar – eu via.

– Mariana, ele não tá interessado – Joca nos interrompeu novamente.

– Tu continua despeitado, Joca. Só porque eu nunca quis ser tua noiva. Sabia, Dedé? Sabia que ele pediu pra noivar comigo e eu não quis?

Olhei para o meu amigo. Aquilo ele nunca me dissera.

– Faz muito tempo, Mariana. Eu nem sabia o que tava fazendo.

– Por isso que ainda hoje tá nessa situação, pedindo dinheiro emprestado pro irmão. Nunca sabe o que tá fazendo.

– Você sabe que eu tô sem emprego.

Pensei em meu amigo Joca. Era mais velho que eu e já tentara muita coisa na vida. Nada dava certo. Os amigos estavam sempre lhe dando uma força. Parecia ter o estigma dos fracassados. Mariana teria visto isso nele? Por isso não aceitou noivar?

– Dedé? – ela me chamou. – Olhe, semana que vem eu volto. Pense com carinho porque eu só proponho uma vez.

– Isso é verdade – um homem falou por trás de mim. – Se não aceitar, ela não dá outra chance não.

– Espere… – segurei seu braço. – Eu aceito.

Mariana abriu de novo seu sorriso lindo. Seus olhos azuis brilharam. Ela pegou minha mão, pondo-a entre as suas, beijou-as, olhou-me firme e falou:

– Eu ainda não perguntei, moço. Mas pergunto agora. Tu quer ser meu noivo?

Pensei em Mirley, no quanto gostava dela. Ela me perdoaria? A causa pelo menos era justa. Por um segundo senti que meu futuro estava se decidindo naquele exato segundo e que qualquer que fosse a decisão tomada, não haveria como voltar atrás. O olhar de Mariana estava no meu e era como ser ternamente abraçado… Eu já não estava na sala. Estava com ela, caminhando pela floresta, Mariana e seu vestido branco, o belo cabelo ruivo numa trança caindo no ombro, nós dois rindo, nós dois molhando os pés na água fria do igarapé, nossas mãos juntas, os corpos juntinhos, seu rosto perto do meu, mais perto, mais pertinho, sua boca, nossas bocas…

– Ele vai pensar, Mariana – Joca falou, me fazendo voltar à mesa. – Ele vai pensar direitinho e quarta-feira dá a resposta.

Olhei para ele com raiva.

– Então na quarta eu volto aqui pra saber – ela disse. E largou minha mão, virando-se para se despedir de todos.

Logo depois, dona Neide abriu os olhos e, distinta como sempre, sorriu para todos e pediu que uníssemos as mãos numa oração pelos mais necessitados e por todos os pedidos bem-intencionados que foram feitos. Eu a observei com atenção e não percebi nenhum sinal de embriaguez. Ela havia bebido muito naquela hora e meia e sequer apresentava hálito de bebida. Isso me impressionou, é verdade, mas não tanto quanto a transformação de dona Neide: em seu semblante, em sua voz e em seus gestos já não havia mais o mínimo traço da jovem Mariana. A cabocla de olhos azuis e do cabelo cor de telha, se alguma vez estivera ao meu lado, já não se encontrava mais ali.

Enquanto caminhávamos na rua, Joca me falou sobre o episódio do noivado frustrado com Mariana. Confessou que na época teve muita vergonha, mas que agora já havia superado. E, inclusive, agradecia todos os dias por Mariana não tê-lo querido, pois atualmente namorava uma garota ótima.

Eu queria saber sobre Mariana, estava inteiramente curioso.

– Ela se engraçou mesmo de ti. Mas não vai cair na besteira de noivar com ela, Dedé.

– Isso parece papo de noivo desprezado…

– Eu sei que parece. Mas me diga uma coisa: adianta ter muito dinheiro e nunca encontrar alguém pra dar o coração? Adianta?

– Eu vou pra bem longe. Ela não me encontra.

– Olha o que ela disse… Tu tem de ter mais respeito.

– Respeito eu tenho. Só não consigo é acreditar.

Joca riu, bateu em meu ombro e falou:

– Já vi muita gente chegar aqui em Manaus do jeito que tu chegou e voltar diferente, já vi.

E riu gostosamente.

Eu não me importava de voltar diferente, desde que estivesse melhor de vida. As opiniões de Joca não me demoveriam de meus propósitos. Noivaria com Mariana, juntaria um dinheiro e me mandaria dali. Já fazia planos até de como investir a grana. Uma soparia no Recife Antigo. Ou talvez uma fábrica de gelo em Olinda.

– Não vou poder ir contigo na quarta-feira – ele avisou. – Tu vai sozinho fazer essa besteira.

Naqueles dias sonhei duas vezes com Mariana – e a sensação agradável do sonho me acompanhava o resto do dia. Várias vezes senti seu cheiro, na rua, no ônibus… De repente, percebia o aroma gostoso de mato fresco e então sua presença tomava conta do ambiente, e algo em mim tornava-se mais calmo, mais compreensivo, mais doce.

Não tive jeito de conversar sobre isso com ninguém, nem mesmo com Joca. Com Mirley, nem pensar. O que lhe diria, que estava embevecidamente enamorado de uma entidade adolescente? Que pensava nela toda hora e tomava sustos quando via algum cabelo cor de telha passar na rua? Que me pegava desenhando seu nome em papel de guardanapo? Como dizer que noivaria com uma entidade de umbanda por causa de nosso futuro? Não, melhor não dizer. Seria um segredo meu e de Mariana.

Na quarta-feira seguinte eu estava lá de novo. E mais uma vez dona Neide recebeu as entidades. Como na sessão anterior, Mariana foi a última a aparecer. De novo o aroma suave de madeira, de mato fresco. De novo a voz alegre, a graça juvenil. Senti meu carinho por ela se derramando pela mesa. Admirei a beleza dos gestos simples, os mínimos detalhes. Como podia ser tão encantadora? Descobri que gostava dela. Muito.

Depois de conversar com algumas pessoas, Mariana finalmente virou-se para mim. E sorriu. E outra vez seu sorriso me trouxe o frescor de cachoeiras.

– Oi, moço bonito.

– Oi, Mariana.

– Pensou em mim esses dias, não foi?

– Pensei.

– Eu também pensei. Muito.

– Verdade?

Ela parou de sorrir e percebi tristeza em seu olhar.

– Olha, tenho uma coisa pra te dizer. Vem pra cá, vem… – E me chamou para que eu sentasse na cadeira ao seu lado, a que era reservada às conversas de pé-de-ouvido. Enquanto os outros entoavam uma cantiga, ela começou:

– Tu é mais protegido do que eu pensava. Vieram dizer pra eu não me meter contigo.

Não entendi.

– Olha, tu não pode ser meu noivo.

– Por que não? – perguntei surpreso.

– Tem entidade maior que eu, tenho que respeitar. Fiquei muito triste com isso.

Parecia o rompimento de um relacionamento profundo. Senti vontade de chorar em seu colo.

– Tu já tá protegido, moço bonito, não precisa de mim.

– Preciso – insisti. Já havia mandado às favas qualquer vergonha e discrição. – Preciso de você sim, Mariana.

– Vai, segue o teu caminho que é um caminho bom. Esse momento tá difícil, mas tu é homem forte e vai atravessar a floresta. Tenha fé.

De repente, lembrei de Mirley. E senti que não teria mais forças para continuar lutando por nós. Finalmente vencido, impotente. Era o fim.

– Olha, já que tu não pode ser meu noivo, vou te deixar um presente. – E segurou minha mão, me puxando mais para perto. Agora ela sussurrava em meu ouvido. – Pra tu não ter dúvida do tanto que gosto de ti.

Respirei fundo e encontrei forças para perguntar:

– Um presente?

– Se tu não puder vir na quarta-feira que vem, eu vou saber que tu aceitou o presente de Mariana.

Percebi uma lágrima descendo de seu olho.

– E mesmo que tu me esqueça, eu vou estar sempre intercedendo por ti, viu? Agora vai, moço bonito, vai.

E me empurrou delicadamente. Feito isso, despediu-se rápido de todos e se foi. Foi-se o aroma de mato fresco. Foi-se a água morninha.

Saí de lá arrasado, e fui procurar Joca. Não levava mágoa alguma de Mariana, pelo contrário, ela realmente me cativara e por ela eu era todo carinho. Mas não conseguia crer que fizera tantos planos em vão. E a famosa soparia no Recife Antigo? E a bem sucedida fábrica de gelo em Olinda?

– Ela gostou de ti – Joca falou, me consolando. – E se gostou, vai dar um jeito de te ajudar.

Não adiantaram as palavras de Joca. Estava tão triste que não tinha ânimo para nada. Os dias seguintes foram um inferno, mal conseguia levantar da cama. Trabalhar era uma tortura. Até a fome perdi. Estava deprimido e decepcionado com tudo, com a vida e principalmente comigo mesmo por um dia ter acreditado que uma entidade iria dar jeito em minha vida.

Como meu telefone estava cortado e só religariam na segunda-feira, fiz disso desculpa para não falar com Mirley. Não queria que ela percebesse meu estado. Joca me chamou para sair, mas recusei: passaria o fim de semana trancado em casa. Não tinha vontade alguma de ver o mundo lá fora.

Na segunda-feira, o telefone foi religado, e à noite, assim que cheguei do trabalho, ele tocou. Era Mirley. Eu ainda estava triste, mas consegui disfarçar. Ela então disse que uma das filiais da empresa de um amigo seu, no interior de Pernambuco, ficara sem gerente e que ele pensara em mim para ocupar a vaga. Explicou que tentou falar comigo no fim de semana mas não conseguiu, e que talvez seu amigo já houvesse conseguido um substituto. Falei que estava interessado e Mirley me passou o telefone de seu amigo.

Desliguei o telefone ansioso. Seria um castigo enorme perder aquela oportunidade graças a um telefone cortado por falta de pagamento. Liguei para o número anotado, mas deu ocupado. Liguei de novo, liguei outra vez – sempre ocupado. Não consegui sequer levantar do sofá de tão ansioso.

Na centésima tentativa o amigo de Mirley enfim atendeu. Felizmente, a vaga ainda existia. O salário não era tão bom quanto eu gostaria, mas como a filial ficava numa cidade próxima a Recife, eu estaria pertinho de Mirley e poderíamos nos ver todo fim de semana.

Acertamos tudo na mesma noite. Ele tinha pressa e perguntou se podia marcar minha passagem para quarta-feira, dois dias depois.

– Sim, claro – respondi, decidido. – Pode marcar.

Desliguei o telefone e fiquei parado, ainda sem acreditar. Então subitamente entendi. Era o presente de Mariana…

As lágrimas desceram sem que eu pudesse evitar. Ali, no sofá, tive uma crise de choro como jamais tivera. Lembrava de Mariana entre lágrimas agradecidas e só conseguia balbuciar: obrigado, obrigado…

Na quarta-feira, no aeroporto, despedi-me de Joca e pedi que agradecesse por mim a Mariana. E que dissesse que eu jamais a esqueceria. Ele riu:

– Precisa dizer não. Ninguém esquece Mariana.

Na quarta-feira, durante a viagem, eu só pensava na sessão. Naquele momento, certamente estavam todos à mesa, olhando para as entidades no rosto de dona Neide. Sentia-me bem, confiante, a alma leve. Sabia, com toda a certeza que se pode ter, que aquele voo era o mais protegido do planeta.

No aeroporto de Recife, peguei minha mala e fui procurar por Mirley. Enquanto a aguardava, senti um aroma familiar, um frescor gostoso…

De repente, o toque em meu ombro. Meu coração gelou. Virei-me devagar, já sabendo o que veria. E vi. O cabelo avermelhado, a pele clara, os olhos salpicando azuis…

Nesse instante, um rio de águas mornas passou por mim e eu me deixei levar pelas águas envolventes, o cheiro fresco de mato, a contínua melodia da floresta… Minha alma foi tomada por uma doce sensação de arrebatamento, e enquanto dois lindos olhos azuis me acariciavam, tudo que eu conseguia fazer era sorrir, sorrir…

– Desculpe – ela disse, sem jeito. – Pensei que era outra pessoa.

– Como?… – falei, voltando ao aeroporto, sentindo novamente os pés no chão. A garota aguardou que eu dissesse algo, mas nada encontrei para dizer. Ela acenou para algumas pessoas mais adiante e depois sorriu para mim:

– Boa sorte. Tchau.

Fiquei parado, vendo a garota se afastar e correr para seus amigos. Não sabia o que pensar. Nesse instante, escutei meu nome e vi Mirley se aproximando. Confuso, ainda procurei pela garota ruiva, mas ela já havia sumido na multidão. Mirley me abraçou forte e chorou em meu ombro. Quase um ano que não nos víamos, tanta saudade…

– Que cara estranha é essa, Dedé?

– Foi a viagem… – respondi – Mas tá tudo bem. Já jantou?

Fomos embora rapidamente. No dia seguinte, eu já assumiria a gerência da filial, havia muito trabalho à frente. Uma vida nova me esperava, dessa vez bem perto da mulher que eu amava.

E quanto à garota do aeroporto, já sei, já sei. Você certamente está pensando que eu acho que aquela era Mariana. Pois era sim.

Não tente me dissuadir. Nem me peça lógica, eu não a tenho nem para mim. Basta-me a certeza, pura e agradecida, que ainda hoje trago aqui no peito, de que a menina faceira que de repente sorriu para mim no aeroporto de Recife era Mariana sim, a cabocla Mariana do cabelo cor de telha, encantada aos 17 anos e meio, e que naquela noite de quarta-feira aproveitou uma folguinha na sessão de dona Neide para me ver pela última vez e, ao seu modo, me desejar felicidades.

É esta a história. Num momento de angústia e desamparo, eu estive disposto a ser noivo de Mariana e lhe desafiar os poderes. Ela me queria também. Mas o destino não quis assim. Mariana então, em sinal de amor, me concedeu um presente, uma oportunidade única de mudar para melhor a minha vida – oportunidade que agarrei com todas as forças.

É esta a história de Mariana. Que até hoje trago no peito, banhada em água morna, no cheiro do mato fresco. Nos primeiros meses, ainda impressionado com tudo que acontecera, eu lembrava de Mariana todo dia e em silêncio agradecia. Aos poucos, fui esquecendo, absorvido pelo trabalho intenso, a família que crescia. À medida que minha vida se equilibrava, Mariana foi se tornando uma lembrança cada vez mais distante, até que sumiu. Talvez ela já não precisasse mais interceder por mim, minha vida finalmente seguia seu rumo natural.

Hoje, porém, dez anos depois, aqui na casa de praia, ela voltou em minha lembrança. E em meu coração. E me fez lembrar de tudo outra vez.
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MIRLEY ACABA DE CHEGAR da praia com as crianças. Elas trazem um balde lotado de conchas. Laís diz que vai plantá-las no quintal para que nasça um pé de concha. Filipe repreende a irmã por acreditar nessas besteiras que os adultos dizem. Sento na beirada da rede e pergunto se eles apanharam sozinhos todas aquelas conchas ou se quem teve o trabalho foi a mãe deles. Filipe diz que uma moça os ajudou. Mirley diz que as crianças adoraram a tal garota de um jeito que ela jamais viu antes. Enquanto despeja as conchas no chão, Filipe me diz:

– Ela era bonita, pai. O olho da cor desse balde.

Olho para o balde azul, já sentindo algo estranho.

– E o cabelo vermelho, daquela cor.

Antes de Laís apontar para o telhado da casa, eu já havia entendido. Sinto meu coração gelar, um súbito vácuo na alma. Seguro-me à rede como se segurasse a vontade de sair correndo em direção à praia.

– A pele tão branca, Dedé… – Mirley diz, ligando a ducha do jardim para o banho das crianças. – Não sei como aquela moça aguenta ficar nesse sol quente.

Levanto da rede sentindo uma coisa no peito, uma alegria estranha, uma melancolia, uma excitação, tudo misturado. Caminho em silêncio até a sala. No balcão, sirvo uma dose de uísque e viro de uma vez. O ardor faz meus olhos marejarem. Um disfarce inútil para as lágrimas que não consigo controlar.

 

 

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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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vtcapa21x308-01Este conto integra o livro
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido… Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.


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Saiba mais sobre a cabocla Mariana, os aspectos psicológicos e arquetípicos de sua crença: Mariana quer noivar

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Vc sabe que sou apaixonada por Mariana… Bateu comigo e foi a história que mais me pegou, do único livro seu que li. Saudades… Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – jan2005

02- Caro Ricardo, Gostaria de fazer um comentário sobre o seu conto da cabocla Mariana, que vc diz ser uma entidade de umbanda. Gostaria de lhe informar que as entidades de umbanda, principalmente os caboclos, que são orixás menores não fazem este tipo de exigência dos filhos de fé da umbanda, ao contrário são entidades elevadíssimas. Este tipo de pedido saõ de entidades provinientes dos catimbós, macumbas e outros rituais que lidam com magia negra e pesada. Faço este comentário pois a umbanda sofre muito preconceito por ser confundida com este tipo de coisa. Inclusive seria muito rico para seus conhecimentos que vc lesse as obras sobre umbanda esotérica de Matta e Silva e Rivas Neto. O seu conto prejudica a corrente astral de umbanda pois ajuda a alimentar nos leigos o tabu e o preconceito contra essa religião tão bela. Gostaria de solicitar que vc não citasse a umbanda nele. Atenciosamente. Clícia Karine, Crateús-CE – jan2005

03- Olá amigo, estou escrevendo de Fortaleza, sobre este texto fabuloso, gostaria que soubesse o quanto eu me sentio atraído pela historia pra ser sincero eu passaria o dia todo lendo e não cansaria. Abraços de seu amigo, fã, etc. Eudes Martins, Fortaleza-CE – mar2005

04- Acima de tudo, pela licença de ler completa a história. Depois, porque ela é belíssima! Não concordo com a leitora que falou que era uma falta de respeito ás entidades. Acho que se não é uma aventura verdadeira meresceria ser… Não gostei, Ricardo. Adorei! Parabéns e que a cabocla Mariana sempre traga sucesso na sua vida. Afinal, quem ficou apaixonado com ela uma vez e escreveu essa bela homenagem tão cheia de sensibilidade e meiguice deveria gozar da proteção da encantada. Abraço e mais uma vez, muito obrigado pela sua gentileza. PS.- desculpe-me o meu português, por favor. Milton, Montevidéu-Uruguai – abr2005

05- Já estava curiosa a respeito do final.Pura ficção, será?Acho que os leitores sempre se indagam sobre isso.Até pq, vivenciei coisas tão estranhas qt essa. Talvez, descobrir nas histórias uma possibilidade de verdade,nos faça mais “íntimos” do autor. Ah..outra coisa: adoro ler td q tem a ver com Recife.Morei lá por 4 anos e costumo dizer que minha alma é recifense.Vou lá pelo menos duas vezes ao ano, rever os amigos e o meu mar de todas as cores. Mônica Burkle Ward, Niterói-RJ – mai2005

06- Olá Ricardo! Bem gostei bastante do texto e gostaria de saber até que ponto a história é veridica ou mesmo se a sua pessoa já esteve em contato com a entidade pois quem a conhece sabe que a atração pela entidade é verídica, eu mesmo quando a encontro na casa de um amigo meu aqui em São Paulo me sinto atraido, é impressionante o poder de sedução desta entidade cá entre nós é a mulher que todo homem gostaria de ter. D. Mariana como conhecemos aqui em São Paulo é muito bela! É a estrela do tambor de mina aqui de São Paulo. Vinícius de Almeida, São Paulo-SP – mai2005

07- oi , me chamo regina vilhena, sou do para debelem mesmo, e no momneto estou no japao, acredito em tudo qeu lir, pois conehco marina de longos anos e ate hoje nao consigo fazer nada em minah vida sem a orientação dela, sabia sua historia muit bonita, sau fe tbm, sabe caro amigo neste exato momneto eu estou passando aki por muita dificulada sem trablaho sem casa para morar, mas a minah fe em deus em primeiro lugar e em mariana nao perco, tenho comigo ja vairas historia de maraina que ja aconteceu comigo, coisas que ela me disse qeu aconteceria e aconteceu de verdade, sabe provas , coisas reaais ate essa minah viagem apra ca foi ela qeu me mandou sei qeu to pado mento pois como ela me me mandou um recado essa semana . me disse asssim qeu tem certo sofrimentos que ela nao pode evitar. agora to muito feliz em ter lido sua historia e espero nao perder o contato com vc. se quzier pode me adicionar no seu msn ok fica com e cabocla mariana dos anjos perreira . assim que eu chamo para ela proteja nos dois. Regina Vilhena, Japão – mar2006

08- Só tenho um comentário a fazer : Adorei sua estória sobre a Mariana!Um grande abraço! Sidiany Colares Alencar – Fortaleza-CE – abr2006

09- Estou acompanhando o conto da cabocla Mariana. Não sou entidade da umbanda mas também trago sorte e prosperidade pra quem eu gosto e exijo fidelidade, que não precisa ser absoluta, basta que eu não saiba dos acontecidos. Não me importo muito em ser traída, pior é ser deixada. rsrsrs. Marcia Sucupira, Fortaleza-CE – mai2006

10- Li o conto da Cabloca Mariana, primeiro achei longo, mas nao consegui parar de ler…. bom, muito bom. Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – abr2006

11- O que mais gostei da Mariana e aquela mistura balanceada de realidade com ficcao, aquela pulguinha atras da orelha para as coisas que nao sabemos explicar, que sao dificies de acreditar, mas estao la… e so dar uma chance pra elas acontecerem. Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – mai2006

12- eu li o conto! Criativo… abraços. Priscila Saboya, Fortaleza-CE – jan2010

13- tive o prazer de conhecer o Blog do Kelmer quando pesquisava sobre a cabocla Mariana e me deparei com o conto O Presente de Mariana….lindo, encantador. Danyela Freitas, Belém-PA – mar2011

14- Oi, Ricardo. Tô sem net em casa , mas vim numa lan so pra te falar umas coisas…. Desde ontem eu tava toda depre( nao sei por que/ na verdade, sei, mas nao vou falar aqui…rsrsrsr), acordei e tirei o “vocês Terráqueas” da estante e fui ver os textos que ainda nao havia lido…. voce me arrepiou com “presente de Mariana” , e pelo arrepio, pensei: nao lembro quanto paguei nesse livro, mas valeu a pena!!!! Irlane Alves, Fortaleza-CE – jul2011

15- conto do livro VOCÊS TERRAQUEAS legal. Weslen Queiroz, Juazeiro do Norte-CE – ago2011

16- Adorei este conto, demais! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – ago2011

17- Meu amigo, consegui enxergar várias metáforas e relacionar Mariana como um feminino idealizado no contexto da vida dele…..o momento de lhe dar com as dificuldades e a escolha de Mariana possivelmente como uma fuga…e ao mesmo tempo aquilo que ela representou e manifestou na vida dele como uma forma verdadeira do amor! Sem esperar algo em troca e simplesmente dar! O momento final do aeroporto e das conchas foi triunfal! O sentimento dele daquilo que nunca foi realizado mas, sentido….uma emoção que sobrepujaram as palavras!! Por aí meu amigo! Parabéns! Esse conto me tocou bastante! Cibele Cortez, Fortaleza-CE – dez2012

 


Crimes de paixão

15/11/2008

15nov2008

CrimesDePaixao-02

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bDetetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite.

Terror, mistério, erotismo

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

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CRIMES DE PAIXÃO

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TODOS OS FREQUENTADORES do Quais Bar pararam surpresos quando chegaram no sábado e descobriram que o Olimar não aparecera para trabalhar. Afinal de contas, além de se tratar do garçom mais folclórico do boemíssimo bairro da Praia de Iracema, ele era conhecido por Penalidade, alcunha que lhe botaram os clientes por ter faltado ao trabalho uma única vez em vinte anos de profissão – justamente por ter, no dia, defendido de forma magistral uma penalidade máxima na final da Liga de Futebol do Quintino Cunha. A comemoração foi tamanha que à noite não teve condições de trabalhar. Olimar, o Penalidade.

E agora o homem faltava pela segunda vez. Era um acontecimento quase tão histórico quanto o da primeira. Gente se gabava de ter estado no bar na noite em que o Penalidade faltara. Roger Gaciano Jr., o renomado jornalista e frequentador da praia, procurando alguém para ilustrar sua matéria sobre a boemia do bairro, entrevistou quem? O garçom Penalidade, claro. E a entrevista até hoje está lá na parede do bar, plastificada para todo mundo ler.

– O Olimar não veio trabalhar?! Será que defendeu outro pênalti?

– Proponho realizarmos uma assembleia pra mudar seu nome pra Dupla Penalidade…

Especulações correram soltas por toda a noite. Apostas foram abertas, um mês de birita grátis para quem acertasse o motivo da segunda falta do Olimar. Tão carismático o homem que até mesmo sua ausência era uma festa.

Porém, no domingo à noitinha, quando a mulher do Olimar chegou ao bar perguntando pelo marido, começou-se a desconfiar de algo mais sério. Dona Cândida, aflita, menino novo no braço, dizia que ele saíra sábado à tarde e desde então não teve mais notícia. Carlitos, dono do Quais Bar, sensibilizado com a aflição da mulher, propôs organizarem uma comissão para ir atrás de notícia do seu melhor garçom. Dona Cândida não se preocupasse, fosse para casa, ele mandaria um táxi deixá-la e logo estaria tudo bem, o Olimar ia aparecer.

O mistério continuou até segunda pela manhã quando o corpo do garçom Penalidade deu à praia da Barra, já em decomposição. O laudo apontaria afogamento. Ele não sabia nadar, portanto jamais se arriscaria no mar. E o mais esquisito é que estava de roupa – teria caído do píer? Dinheiro e documentos no bolso. No corpo, marca nenhuma de violência. O que poderia ter acontecido?

Penalidade foi enterrado no fim da tarde. Consternação geral. Quase todos os seus clientes se fizeram presentes, inclusive os ocasionais e até mesmo os que lhe deviam e ultimamente evitavam aparecer. A viúva recebeu ofertas de auxílio e pôde constatar como era querido o finado. Um turbilhão de flores acompanhou a descida do caixão e alguém puxou um violão para cantar “Beira-Mar”, de Ednardo, música favorita do Olimar.

No meio do chororô ninguém escutou o Jeová, vulgo Profeta, de dentro de seu casacão preto que havia muito não via sabão, dizer com seu jeito grave e o olhar fixo no caixão que descia:

– Lá se vai o segundo mártir.

Ou se alguém escutou, fez que não ouviu. Já não era fácil aguentar o Profeta nos bares com seus discursos sobre profecias apocalípticas, imagine em enterro.

– Mas o fim não se fez. Ainda restam três…

Apesar de muitos evitarem tocar no assunto, por uma lua inteira não se falou de outra coisa nas mesas dos bares da Praia de Iracema. Os mais inconformados fizeram abstinência etílica de três dias in memoriam. Outros beberam sem parar durante três dias.

Entretanto, ninguém, ninguém se deteve a relacionar a morte do garçom Penalidade com outra ocorrida três meses antes no Le Bombom, um motelzinho humilde frequentado pelas putinhas e travecas de fim de noite. A vítima fora seo Neném, dono do estabelecimento, gentil e pacato senhor de idade. Foi encontrado morto num dos quartos, estirado na cama. Estava nu e com a boca entupida com papel de bombons finos, coisa mais desumana.
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CrimesDePaixao-02O DETETIVE ELÁDIO VIEIRA, como gosta de ser chamado (porém conhecido no submundo do crime por Eládio Ratoeira), trinta e nove de idade e quarenta de baralho, que sempre se gabou de ser um detetive de nível, acordou naquela manhã numa ressaca federal. Não dormira mais que duas horas. Tomou um banho rápido e pegou um táxi para a favela Verdes Mares. Daquela vez exageraram: o pôquer terminara às seis da manhã. E ainda pagou o equivalente a um mês de trabalho ao filho-duma-égua sortudo do Mardônio.

O detetive Eládio Ratoeira (ele que nos desculpe, mas certos apelidos já fazem parte da pessoa) nunca trabalhava nas manhãs de quarta-feira. Naqueles anos todos nenhum caso foi tão importante que justificasse sua falta ao velho pôquer das terças nem ao sagrado sono da manhã seguinte. Porém, ele conhecia dona Iza, a cigarreira, era seu cliente fazia tempo. E não teve como não se sentir abalado quando soube pelo telefone de sua morte naquela madrugada.

Quando terminou de fazer suas perguntas a vizinhos, parentes e amigos da vítima, o detetive Ratoeira rumou para seu escritório, no centro da cidade. Sentado em sua mesa com vista para a Catedral, comparou as informações que tinha e montou sua reconstituição. Dona Iza chega em casa, um pequeno barraco de madeira na favela Verdes Mares, aproximadamente às quatro da manhã. Vem da Praia de Iracema, onde trabalha como vendedora ambulante de balas e cigarros. Meia hora depois o marido sai para a fábrica, deixando mulher e filho no barraco. As primeiras chamas são avistadas logo depois por três homens que jogam sinuca num bar distante cinquenta metros. Socorrem o menino que dormia e retiram o corpo de dona Iza, já carbonizado, que jaz no chão da cozinha.

Ninguém da favela viu nada suspeito, nenhum fato estranho. Apesar de tudo indicar acidente, Ratoeira coçava a nuca sem entender por qual motivo a vítima não conseguira sair do pequeno barraco a tempo.

À noite, foi à Praia de Iracema. Escutou garçons, taxistas e vendedores ambulantes – todos unânimes em afirmar que se tratava de pessoa querida, simpática e generosa, não cultivava inimizade. Às onze, fechou o caderninho e encerrou as atividades. Mas antes de ir para casa deu uma passadinha no Quais Bar, o bar do finado garçom Penalidade, só para molhar o bico numa cachacinha. Reconstituiu as conversas da noite, uma a uma. A mulher não devia a ninguém, não gostava de confusão, era fiel ao marido. Nem crime passional, nem latrocínio e nem vingança. Restava acidente.

Ratoeira coçou a nuca com a ponta do polegar. Alguma coisa lhe dizia que tinha cachorro naquele mato. E sua intuição nunca lhe pregava peças. Por isso lhe botaram o Ratoeira no nome. Por mais que se esforçasse, não conseguira tirar o apelido. Apelido ridículo, dizia ele, Ratoeira é para investigador de polícia, corrupto e camisa manchada de suor. Ele não, ele tinha nível. Trabalhava de detetive porque sempre gostara de investigar, mas era formado em Engenharia. Dava aulas em cursinho pré-vestibular mas seu negócio era desvendar casos. Era tão bom no que fazia que muitas vezes a própria polícia lhe solicitava auxílio. Aliás, foram eles que lhe botaram o ingrato apelido: Eládio Vieira é nome de professor, diziam. Então ficou Ratoeira. Até algumas madames, sempre preocupadas com as saidinhas dos maridos, conheciam-no pelo apelido: Dessa vez eu tenho certeza que ele está me traindo, seo Ratoeira…

Então tomou um gole e olhou para o mar iluminado da Praia de Iracema, descansando a vista. Os vendedores disso e daquilo, os carrinhos de pipoca e as luzes fortes dos postes faziam aquela parte do bairro parecer um parque. Como o bairro pudera mudar tanto em tão pouco tempo? Alguns anos antes, os bares eram meia dúzia e conviviam pacificamente com os moradores. Agora, eram mais de cem, e de pouco adiantavam os esforços da associação de moradores para garantir mais tranquilidade e respeito às famílias que ainda insistiam em morar ali.

De uns moradores, em depoimentos que recolhera, escutou repetidas queixas quanto ao inferno em que se transformara a vida no bairro. Alguns chegaram a dizer que a morte da vendedora podia ter sido fruto da luta por pontos de venda, já não duvidavam de mais nada, os bares haviam trazido muitas pessoas de fora, e com elas, a violência.

Ratoeira já fora assíduo frequentador do bairro e conhecia sua história. Sabia que procedia a queixa dos moradores. Mas sabia também que a vocação boêmia do bairro vinha de longe e que a proliferação dos bares era difícil de ser controlada por envolver muitos aspectos, entre eles a geração de empregos e o turismo cada vez mais forte.

Ele praticamente deixara de frequentar o bairro depois da massificação. Antes, podia-se caminhar pelas ruas à noite, tranquilamente. Podia-se namorar olhando o mar sem medo de assalto, e os frequentadores conheciam-se uns aos outros e mantinham certa cordialidade para com os moradores. Era comum encontrar uma roda de violão na calçada. A boemia continha em si uma boa dose de poesia e amizade.

Mas agora, não. Em lugar de músicos, artistas, poetas e intelectuais, a Praia de Iracema via desfilar por suas ruas bandos barulhentos de mauricinhos e patricinhas, jovens obcecados pela potência do som de seus carros e a etiqueta de suas roupas. Com eles, vieram assaltos, roubos de carro, brigas nos bares, mortes. Traficantes de drogas e jovens brigões de academia também descobriram o filão. Então vieram os turistas, ávidos por consumo. Depois chegaram as prostitutas, por que não haveria um pedaço também para elas? A Praia de Iracema é de todos! – alardeava o slogan da campanha turística.

O detetive voltou para sua quitinete com muitos pensamentos e uma pulga atrás da orelha. Embora se esforçasse para não levá-lo a sério, não conseguia esquecer do Profeta, o maluco que encontrara no Quais Bar aquela noite. Conhecia-o de vista dali dos bares. Era o mesmo bêbado cabeludo de vinte anos atrás, o mesmo casacão fedorento, a mania de rimar as frases, não mudara nada. Ele sentara-se à sua mesa sem pedir licença:

– Sua intuição está certa, seo detetive. O que aconteceu com dona Iza não foi acidente. Mas não adianta um culpado perseguir, pois a profecia vai se cumprir.

Na hora, não atinou para o fato, mas depois sim: como é que ele podia saber a respeito de sua intuição se não falara dela para ninguém? Era só o que me faltava, pensou intrigado, um maluco lendo meus pensamentos. Bem, concluiu, virando-se na cama para dormir, até mesmo os malucos acertam uma de vez em quando…

Dias depois, o laudo do IML saiu com uma conclusão curiosa: não havia indícios de fumaça nos pulmões da vítima. Isso significava que ela morrera antes de começar o incêndio. Mas não concluía sobre a causa. Para isso seria preciso mais alguns dias.

Ratoeira coçou a nuca com o polegar: quer dizer então que dona Iza já estava morta? Teria sido queda ou algo assim? Ou alguém a matara?
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CrimesDePaixao-02– Ô GARÇOM, duas cachaças, por favor.

– A minha é dupla.

– Muito bem, seo Jeová. O que o senhor sabe a respeito da morte de dona Iza?

Jeová, vulgo Profeta, de dentro de seu velho e endurecido casacão preto, olhou para o homem à sua frente com um misto de simpatia e desdém.

– O que eu sei é o que está escrito, seo detetive…

Naquela noite, uma semana após a morte de dona Iza, Eládio Ratoeira reencontrara o Profeta pelas ruas da Praia de Iracema e o convidou a tomar um aperitivo, por sua conta. Talvez o maluco tivesse algo de interessante a contar, ele que vivia dia e noite a realidade do bairro. O diabo era ter de aguentar o fedor daquele casaco…

O garçom chegou com as bebidas. O Profeta tomou a sua cachaça de dois goles e então pôs-se a falar da noite, da magia da praia e dos segredos dos bares. Contou histórias do bairro, lendas dos antigos moradores da área, personagens que já não existiam mais. Eládio Ratoeira escutava com atenção, surpreso com a própria paciência. O Profeta andava por ali desde o início da ocupação da praia pelos bares, ele e seu casaco, o cabelo sujo, os dentes estragados e todas as suas histórias esquisitas. Diziam que fora fotógrafo de jornal. Diziam que tivera uma banda de rock nos anos 1970, Punk Froid ou algo assim. Diziam que endoidara por causa de mulher. Não havia quem não o conhecesse, quem já não lhe tivesse pago uma dose de cana.

– Não duvide da realidade, seo detetive. Isso é importante pra sua profissão. Por exemplo, se eu disser que tem alguém sentado nesta mesa com a gente, alguém que veio com o senhor, o senhor duvidaria, né?

Eládio Ratoeira olhou automaticamente para o lado. Quando deu-se conta, irritou-se consigo mesmo e entendeu que já escutara demais, meia hora ouvindo maluquices, onde andava com a cabeça? Então respirou fundo e, botando um pouco de autoridade na voz, falou que já estava tarde e que se o outro não tivesse nada de mais concreto para dizer, então fosse desculpando que ele tinha trabalho amanhã cedo. E pediu a conta.

O Profeta sorriu um sorriso curto de resignação.

– Vou falar na língua que o senhor conhece, seo detetive. Me diga uma coisa. Se o senhor não sabe que eu tenho nas mãos uma quadra de damas, então essa quadra não existe pro senhor, não é mesmo? Não existe porque o senhor não sabe que eu tenho, não é isso? Pois ela existe sim, independente do senhor saber.

O detetive Eládio Ratoeira, quarenta anos de baralho, encarou o Profeta e sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. O maluco sabia que ele jogava pôquer? Então lia mesmo pensamentos?

Por alguns segundos, manteve o olhar fixo nos olhos do homem, procurando alguma pista que indicasse qualquer coisa… Mas a expressão do outro não mudou, permaneceu impassível, o olhar manso e desarmado, tipo do sujeito incapaz de mal algum.

De repente, um gato preto entrou pela porta do bar e aproximou-se da mesa, miando para o Profeta. Ele o pegou nos braços e pôs no colo, acariciando-lhe o pelo.

– O senhor está investigando somente o caso de dona Iza, não é? Pois vou ampliar um pouco mais seu horizonte. É só porque simpatizei com a sua honestidade.

Eládio Ratoeira esperou. Dos braços do Profeta, o gato preto o observava com seus olhos amarelos.

– Olhe, a morte de dona Iza tem dois precedentes. Um é seo Neném, dono do motel, que morreu cinco meses atrás. O outro é o garçom Penalidade, morto faz dois meses. Eu sei que o senhor sabe, eu sei. Mas ainda não ligou os fatos. Os três eram personagens conhecidos na praia, faziam parte da paisagem. Atente pra ironia, homem: o dono do motel, que vendia sexo, morreu na cama. O garçom, que vendia bebida, morreu afogado. E a cigarreira morreu queimada.

– Morreu antes de ser queimada – interrompeu Ratoeira, dando-se conta, um segundo depois, que revelava um segredo de trabalho.

– É o simbolismo que vale. A noite está morrendo por meio de seus personagens. A profecia é desumana, mas é real.

– Que profecia?

– O senhor conhece. Um dia, a noite da Praia de Iracema vai morrer.

Eládio Ratoeira perdeu de vez a paciência. Pagou a conta e levantou-se.

– Pelo que me consta, seo Profeta, e talvez não conste ao senhor, é que foi uma mulher loira, bonita e aparentando vinte e poucos anos, trajando vestido preto, que foi vista na companhia de seo Neném poucos minutos antes dele ser encontrado morto. Nada de símbolo. Foi assassinato e vou provar.

– Então, homem? Pra que melhor simbolismo? Uma loira bonita e cruel, vestida de preto… A cool girl will kill you in a darkened room… O senhor conhece essa música?

Pronto, o maluco sabe inglês, pensou Ratoeira, coçando a nuca.

– O senhor está tão obcecado em descobrir o assassino que não consegue ver o óbvio.

Ratoeira caminhou para a calçada e, enquanto acenava para o táxi, pôde ouvir o Profeta lá na mesa, ainda com o gato preto nos braços:

– Toinho, Tereza, Tarzan… Quem é o próximo de amanhã?
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CrimesDePaixao-02DURANTE OS DIAS QUE SEGUIRAM, o detetive Eládio Ratoeira aguardou com expectativa o segundo laudo sobre a morte de dona Iza. Finalmente, obteve uma informação: os legistas não conseguiam descobrir a causa mortis. Simplesmente, não sabiam.

A segunda conversa com o Profeta repercutia insistente em sua cabeça. Aquela história da profecia sobre a morte da Praia de Iracema era antiga, mas era apenas mais uma das histórias malucas sobre o bairro. O povo ficava fumando maconha nos becos e inventando aquelas coisas. A verdade verdadeira era que seo Neném morrera de ataque cardíaco e a mulher loira fora realmente vista na noite do crime por duas testemunhas. O garçom Olimar morrera afogado e não havia suspeitos. O caso de dona Iza é que era o mais misterioso. As mortes, porém, não tinham ligação entre si, como supunha o Profeta.

De qualquer modo, os casos do garçom e do dono do motel não eram da sua conta. O garçom certamente caíra sozinho do píer, embriagado. E a loira suspeita de matar seo Neném estava sendo procurada pela polícia. Seu problema era a cigarreira, descobrir por que ela não conseguira escapar do incêndio.

Eládio Ratoeira ligou o chuveiro e meteu-se debaixo da água fria. O que precisava era de um bom banho e de uma mesinha de pôquer divertida. Quadra de damas… Quem sabe não seria uma dica para a mesa daquela noite? Bem que podia ser. Descontar o que o Mardônio lhe ganhara da última vez.

Após o banho, vestiu-se rapidamente e foi encontrar o resto do pessoal no Papagaio, o único bar que aceitava receber aquela mesa de pôquer, uma mesa no depósito do primeiro andar, é verdade, mas aceitava. Mesa de cinco, uma garrafa de conhaque, pratinho de amendoim. Do lado de suas fichas, uma foto da Danusa pelada, secretária do escritório vizinho ao seu, era para dar sorte, patuá antigo, ela até já casara. O cacife vale vinte, primeira pausa à meia-noite, mexeu no patuá do outro vale uma advertência, o prêmio é um, dois e quatro cacifes, vamos jogar que o jogo é jogado e tomem cuidado que hoje eu tô invocado…

Ratoeira tentava se concentrar no jogo, mas não podia aparecer uma dama na mesa que logo lembrava da conversa do outro. Como o maluco podia saber que ele jogava pôquer? Será que era por isso que o chamavam de Profeta, tinha o dom de adivinhar coisas?

As três cartas da mesa começaram a ser abertas. Uma dama de espadas surgiu. Precisava se concentrar no jogo.

Toinho, Tereza, Tarzan…  Mas até o Tarzan estava metido naquela história? Ratoeira achou engraçado e riu. Precisava se concentrar, estava muito disperso.

A segunda carta da mesa: dama de paus.

Toinho, Tereza, Tarzan… Todos começavam com T. Será que o maluco queria dizer que o nome do próximo a morrer começava com T?

Então, a dama de copas apareceu na mesa. Trinca de damas! Uma exclamação geral percorreu a mesa. Todos se entreolharam, sorrindo maliciosos. Quem tivesse a dama de ouro faria a quadra. Se alguém tinha, sorriu para disfarçar a felicidade. E quem não tinha, sorriu para esconder o medo.

Ratoeira sentia o coração pulando dentro do peito. Ergueu o olhar e, do outro lado da mesa, deu de cara com os olhos desconfiados do Mardônio por trás da fumaça do baseado. Voltou às suas cartas. Ou se concentrava ou então o demônio do Mardônio lhe adivinharia o jogo.

Já havia visto a primeira de suas duas cartas. Era um dois de paus. A outra estava por trás. Faria um pequeno suspense para si próprio. Então, num impulso, dobrou a aposta, ainda sem saber qual era sua segunda carta, uma jogada no escuro. Claro que era arriscado. Não costumava fazer aquilo, mas era o tipo da coisa que podia funcionar como um bom golpe psicológico nos outros jogadores. Tomou um gole do conhaque. Tinha de aparentar calma.

Então Mardônio pôs várias fichas sobre a mesa, dobrando a aposta mais uma vez. E tornou a encará-lo. Os outros jogadores desistiram e sobraram eles dois. Ratoeira, ainda sem ver a segunda carta, pagou a aposta. Alguém assobiou, surpreso.

Ratoeira tentou manter-se tranquilo. A coisa estava ficando séria. Respirou longamente e decidiu finalmente ver a segunda carta. Seu próximo lance dependia dela. Se fosse a dama de ouros, iria com a aposta até o fim do mundo. Tinha que ser a dama. Tinha que ser a quadra. A quadra do Profeta.

Ratoeira deslizou os dedos lentamente, fazendo a pressão exata para que a carta de trás não surgisse de todo. Fazia suspense para os outros e para si próprio. Podia sentir que Mardônio o observava atentamente, pronto para interpretar qualquer mínimo gesto seu. Os outros não ousavam falar nada. Era a maior aposta da noite.

Ratoeira deslizou os dedos mais um pouco. Descobrindo o lado inferior esquerdo, percebeu pelo desenho que a carta era uma figura, não era um número. O coração disparou. Tinha uma trinca de damas já certa e agora aquela carta podia ser a outra dama que faltava. Ou era um rei ou um valete ou uma dama. Tinha de ser a dama de ouros.

Continuando o suspense, descobriu um pouco da parte superior esquerda e a letra começou a aparecer, em cor vermelha, aos poucos, devagarinho, a cor vermelha…

Ratoeira, quarenta anos de baralho, não acreditou no que viu. Por alguns segundos, não conseguiu pensar em qualquer coisa. Depois, imaginou que alguém aprontara alguma brincadeira idiota para cima dele. Mas ninguém ria. Estavam todos sérios aguardando sua decisão.

Ratoeira engoliu seco. Em sua mão estava uma carta que não era rei, nem valete e nem dama. Em sua mão estava um macabro esqueleto sobre um cavalo, empunhando uma foice. E a letra, no canto superior da carta, era um T. Um T vermelho como sangue.
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CrimesDePaixao-02TÂNIA MARA PAROU em frente ao espelho do banheiro e enxugou os longos cabelos negros. Passou uma escova e jogou-os para trás. E parou para se olhar. Sua experiência como loira durara apenas seis meses, não foi muito proveitosa, poucos aprovaram. Até mesmo Rian, seu gato, estranhou a mudança. Ficava olhando para ela com seus olhos amarelos, olhando como se não reconhecesse aquela mulher loira. Agora seus cabelos eram negros novamente, a cor do seu gato e das roupas que usava, e era confortável reencontrar a velha imagem.

Vivia um bom momento. Os shows estavam acontecendo. Os rapazes da nova banda eram músicos competentes, e juntos faziam um bom trabalho. A noite aos poucos tomava conhecimento de Tânia Mara. Ah, a vida devia ser sempre assim, ela falou para a imagem no espelho, cantar blues e viver as emoções. De preferência, bem fortes, meu bem.

Deu uma última olhada no corpo nu refletido, o corpo que assumidamente usava como arma, nos palcos e na vida. Pôs duas gotas de perfume nas mãos e passou na nuca e no colo. Apalpou os seios. Olhou-os de perfil. E vestiu uma camiseta preta, que lhe desceu até metade das coxas. No espelho, viu seu rosto ao lado do de Jim Morrison, refletido do pôster da parede de trás. Antes de deixar o banheiro e dirigir-se ao quarto, beijou-o na boca pelo espelho.

– Você não me engana, cara. Sei que está vivo. Um dia a gente se encontra.

No toca-disco da sala, era ele, o Rei Lagarto, quem cantava: If you give this man a ride, sweet family will die… Killer on the road… Tânia Mara fechou os olhos, escutou a música e respirou fundo. Mordeu o lábio. Eu resisto a tudo, meu bem, menos às tentações… No quarto, pegou a garrafa de Jack Daniel´s na mesinha de cabeceira e foi para a sala. Parou na porta, segurando a garrafa e olhando para o homem sentado no chão encostado no sofá. O relógio da parede lhe dizia que demorara vinte minutos no banho. Vinte minutos para o que ele terá é pouco…, ela pensou, sorrindo.

– Tim-tim… – ela brindou, após servir os copos.

– A você. Desumana Tânia.

– A mim.

Enquanto Jim cantava a mortal carona na estrada, Tânia Mara bebeu um pouco do uísque e olhou para o homem à sua frente. Conhecera-o por ocasião de um show, uma semana antes. Logo que chegou ao bar seus olhares se cruzaram de um modo estranho, e durante o show pôde perceber como ele a olhava com desejo. Cantou o tempo todo excitada, sentindo a calcinha molhada. E fez seu melhor show. Quando saiu do camarim passou pela mesa para chamar sua atenção. A isca funcionou: ele a convidou para um drinque e ela aceitou. Ele elogiou sua voz e as músicas, principalmente “Desumano blues”. Ela gostou do jeito dele, misterioso. Além do mais, ele falou: Você tem o jeito da noite… E isso ficou em sua cabeça, não esqueceu. O jeito da noite.

Rian surgiu de repente, vindo da cozinha, e foi enroscar-se em suas pernas. Ela pôs o gato preto em seus braços.

– Escapou, né, safado? Vem, vamos voltar. Hoje você não pode ficar comigo, entenda…

Ela saiu em direção à cozinha e voltou logo depois.

– Quem é você, Tânia?

– Uma garotinha sortuda sob os holofotes da noite.

– Ou só mais um anjo perdido na noite da cidade?

Ela imitou uma garotinha tímida e desprotegida, brincando com os dedos. Então foi até a estante botar novamente o disco para tocar. Podia sentir o olhar dele em suas costas, deslizando pelos seus contornos. Ele agora vai levantar e vir até aqui…

– Também gosta de Jim Morrison? – perguntou ela, pousando a agulha novamente na última música.

– Gosto mais de Tânia Mara.

A voz dele bem atrás, podia senti-la em seu pescoço.

– Por que você diz que eu tenho o jeito da noite?

– Porque a noite é desumana.

Desumana…, pensou ela, saboreando o que escutara.

– Nada que eu possa evitar, meu bem…

– Você tem futuro, Tânia Mara.

– Eu sei.

– Comigo.

– Com você? Essa parte do roteiro não recebi.

– Se quiser, posso levá-la daqui, exibir sua voz pelo mundo, vivermos uma tórrida paixão. No fim, morreremos de amor em Paris. Na banheira de um quarto de hotel.

– Tentador… Mas os lagartos não morrem em Paris, querido.

Primeiro, foi o braço dele em sua cintura, puxando-a com força. Em seguida, foi a sua boca invadindo a dele, as línguas sem cerimônia. Depois as mãos, a camiseta subindo, rasgando, as mãos em suas costas, em seu pescoço, nos seios, seu corpo nu nos braços dele, no meio da sala. Depois foi o sofá, depois as roupas dele, a urgência, o suor. Depois as estrelas, as estrelas… E os teclados gotejantes de um blues morrendo aos poucos, sob a chuva. Depois, o silêncio. Desumano silêncio.

Meu bem, esta cidade ensurdece
E você esquece do que eu tenho pra dizer
Meu bem, a noite é desumana
Fumando e bebendo sozinha em meu apê…

(Tânia Mara – Desumano Blues)
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CrimesDePaixao-02FOI O TENENTE TRINDADE, amigo informante na polícia, quem avisou Eládio Ratoeira. Imediatamente, ele pegou um táxi e conseguiu chegar ao apartamento da vítima antes da imprensa, quando a polícia ainda recolhia material e fazia as fotos. Ratoeira conferiu o estrago com os próprios olhos. Viu o corpo nu da cantora, belo e ensanguentado, estirado de bruços no tapete, as pernas abertas, o pescoço rasgado. A polícia já havia recolhido alguns objetos para análise pericial, entre eles dois copos e um disco de vinil partido ao meio com restos de sangue.

– Conhece, Ratoeira? – perguntou o tenente Trindade, mostrando o disco partido.

– “L. A. Woman”. Um crime quebrar um vinil desse.

Ratoeira caminhou pelos aposentos. No mural do quarto viu fotos, bilhetinhos, cartazes de show… De repente, um gato preto surgiu correndo e foi meter-se debaixo do guarda-roupa. Pela ração na cozinha, Ratoeira deduziu que morava com a moça. Tentou pegá-lo, mas o gato saltou e em dois tempos estava no parapeito da janela, olhando para ele. Por um instante, passou-lhe pela cabeça que o bichano podia estar tentando dizer algo, gatos são meio bruxos. Fixou o olhar nos olhos do animal e perguntou:

– Quem foi? Eu sei que você sabe.

O gato, imóvel no parapeito, continuou olhando para ele. E miou.

– Então é este seu método, Ratoeira… Interrogação felina.

Ele virou-se e viu o tenente, parado na porta.

– A vizinha disse que o nome dele é Rian. Em francês quer dizer…

– Nada.

– Exatamente. Ou seja: ele não sabe nada.

Enquanto o tenente Trindade ria, Ratoeira pegou o gato nos braços e o acariciou.

– Não se deve duvidar da realidade… Né, Rian?
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CrimesDePaixao-02ELÁDIO RATOEIRA SENTOU no sofá da sala de sua quitinete. Ligou a tevê, mas não prestou atenção. Seu pensamento estava na Praia de Iracema…

Tânia Mara, o nome da moça. Bonita. Vinte e três anos, cantora de blues. Tinha uma banda e os frequentadores dos bares a conheciam. Estava na cidade havia um ano, morava sozinha. Fizera um show na noite de terça e depois não foi mais vista. Quem descobriu o corpo foi o gaitista da banda, dois dias depois. Como ela não havia comparecido ao ensaio nem atendia ao telefone, ele fora até seu apartamento. A porta não estava trancada e ele entrou, encontrando o corpo estendido no tapete.

Tânia Mara… O T da charada, pensou Ratoeira. Cantora da noite. Morreu com o pescoço rasgado por um disco. Indícios de luta corporal, ela certamente resistiu. Mas o assassino era mais forte e a derrubou. Virou-a de costas no tapete da sala, deitando sobre ela. Tapou-lhe a boca com um lenço para que não gritasse. Quebrou o disco ao meio e rasgou-lhe o pescoço. Enquanto a hemorragia a enfraquecia, ele a sodomizou ao som deRiders on the Storm”…

– Miaaauuu…

Ratoeira despertou com o miado do gato aos seus pés.

– Tá com fome, Rian?

Levantou-se e pôs mais ração no pratinho. Depois, ainda com a cena do crime em sua mente, pegou caneta e papel. E escreveu o nome de todas as vítimas. Primeiro, o dono do motel, que morreu na cama. Três meses depois, o garçom, que morreu afogado. Dois meses depois, a cigarreira, que morreu queimada. Um mês depois, a cantora, morta com o pescoço rasgado por um disco. Nenhum latrocínio. Nem crime passional, nem vingança. Em seis meses, quatro crimes sem sentido. Mas simbolicamente coerentes, como dizia o Profeta. Ratoeira coçava a nuca, pensando se a polícia estaria a par daquela suposta relação entre os crimes. Coincidência ou não, ele já não conseguia deixar de relacioná-los.

Mas como o Profeta sabia que a próxima vítima começaria pela letra T? Ou teria sido apenas um palpite? Ratoeira escreveu o nome das vítimas no papel. Neném, Penalidade, Iza e Tânia, em sequência cronológica. N, P, I e T. Não formavam nada lógico à primeira vista. Tentou algumas combinações, mas nada lhe chamou a atenção. Então percebeu que os dois primeiros eram apelidos. O nome verdadeiro do seo Neném era Nilton, a mesma inicial. Mas o nome do garçom era Olimar.

Substituiu a letra P de Penalidade pela letra O de Olimar. Tinha agora N, O, I e T.

Um relâmpago cruzou o interior de sua mente. Um arrepio percorreu-lhe o corpo de cima a baixo. Ratoeira ficou olhando para o papel, sem acreditar.

A profecia.
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CrimesDePaixao-02– EU SABIA QUE VOCÊ VIRIA. Quer sentar?

Jeová, o profeta da praia, ele e seu casacão preto e imundo.

– Uma dose de cana pro Profeta – pediu Ratoeira ao garçom.

– Tripla – acrescentou Jeová, grave como sempre. – A moça merece.

– Como você sabia que seria ela?

– Tudo que sei é o que está escrito.

– E o que está escrito?

– Que chegou o fim dos tempos.

– Que mais?

– Que a noite desta praia está condenada.

– Condenada por quem?

O garçom chegou com a bebida. Eládio Ratoeira observou o Profeta erguer o copo cheio de cachaça à altura do nariz, fechar os olhos e cheirar. Ia repetir a pergunta quando o outro abriu os olhos.

– As pessoas dizem que eu sou louco. O que o senhor acha?

– Não acho nada. Quem está tentando matar a noite?

– A noite está morrendo… – prosseguiu o Profeta, entre um e outro gole. – Mas a morte sempre vem, seo detetive. Ninguém sai vivo daqui. A noite dessa praia morre quando abrem um novo bar, por mais estranho que pareça. A noite morre quando esses boyzinhos vêm desfilar suas grifes por aqui, quando as barraquinhas na rua vendem bebida aos menores, quando os próprios garçons fornecem cocaína aos clientes e os taxistas e donos de motéis fazem vista grossa pros turistas e suas menininhas de doze anos.

Ratoeira escutava, seus olhos nos olhos vermelhos do Profeta.

– A noite morre toda vez que alguém é assaltado na esquina escura, quando um carro é roubado, quando brigam os garotões valentes de academia. A noite morre quando a mãe se exaspera ao ouvir o choro do bebê que não consegue dormir por causa do som alto do bar vizinho. A noite morre nas músicas dos carros, nas churrascarias que trazem gente de bairros distantes e que não entende a brisa da praia. A noite morre porque esse é o destino de todos. E a culpa não é de ninguém. Por isso não adianta o senhor procurar o culpado.

– O que fazer então?

– Os dias estranhos nos alcançaram, seo detetive. Seguiram nosso rastro e destruíram nossas alegrias mais simples. Nada a fazer.

– Tem de haver um assassino.

– A Praia de Iracema é de todos… – O Profeta sorriu tristemente, olhando o mar pela janela do bar: – Todos têm direito a uma cota de seu linchamento.

– E você, não tem pena dela? Ou das vítimas?

– Lamento pelos filhos da praia, que tentam perpetuar o que já é passado. Esses amam a noite e morrem com ela. Muitos nem nasceram aqui, mas são feitos da mesma maresia. É ruim se apegar demais ao que vai morrer. Koi-guera.

Ratoeira escutou com atenção. Dessa vez as palavras do Profeta, por mais loucas que fossem, pareciam ter alguma coerência. Ou será que sempre tiveram e ninguém nunca percebera?

– Quem será o próximo?

– O senhor ainda não desconfia?

– A letra E é de Eládio?

– O que o senhor acha?

– Faria sentido. O assassino matou o sexo, a diversão, a droga e a música. Não falta mais nada. Matar quem quer desmascará-lo seria o último passo. O grand finale.

O Profeta escutava, sério.

– Quem matou a cantora foi um homem, eu sei que foi, o mesmo que esteve com ela depois do show, bebendo no bar. Se vários foram os assassinos, então eles estão obedecendo à sequência “noite” nas mortes. Ele ou eles trabalham pra quem?

– O senhor não entende. Quem matou os quatro foram os mesmos que matam a Praia de Iracema, a cada noite, a cada violência. E eles não têm consciência disso, matam por ignorância. Pensando bem, talvez seja melhor acabar de vez com sua agonia. Matar antes que ela morra. Matar por amor – acrescentou o Profeta, bebendo o resto da cachaça e levantando-se da mesa.

– O que vai acontecer quando morrer a letra E?

– Cumpre-se a profecia.

– Como assim?

– Pensei que o senhor já tivesse entendido… É a parte mais óbvia da história, seo detetive.

Sempre que pensava na profecia, Ratoeira sentia-se meio ridículo. Mas já não podia evitar.

– A noite morre… – repetiu o Profeta, saindo em direção à porta. – Nada lhe ocorre?

Enquanto pensava nas palavras do Profeta, Ratoeira puxou a carteira para pagar a conta. Foi quando percebeu que o copo de cachaça do Profeta continuava cheio, do jeito que chegara. Mas ele não havia bebido tudo?
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CrimesDePaixao-02ELÁDIO RATOEIRA ENTROU EM CASA, foi direto ao quarto e deitou-se, os olhos pesando de tanto sono. Precisava de uma noite bem dormida.

Mas… algo estranho estava acontecendo…

Acendeu o abajur e viu Rian, deitado na cama, olhando para ele. Então percebeu que Rian na verdade era uma gata. E estava parindo, exatamente naquele momento, estava tendo gatinhos em sua cama, vários gatinhos saindo sem parar, vários, muitos…

Ratoeira abriu os olhos. A luz do quarto estava acesa. Passou a mão no rosto suado, compreendendo que sonhara. Se as coisas continuassem daquele jeito terminaria precisando de um tratamento. No pôquer do mês anterior vira uma carta com a figura da morte, um esqueleto montado num cavalo, a letra T, que loucura. Terminou jogando as cartas na mesa, indignado com o que pensava ser uma brincadeira idiota dos amigos. Teve que pedir para sair, tão abalado que ficou com a visão da carta. Depois viu o copo cheio de cachaça do Profeta quando, na verdade, vira-o bebendo tudo bem à sua frente. E agora tinha pesadelo com uma gata parindo em sua própria cama.

Tomou um banho frio e depois pegou um pedaço de pizza na geladeira. Comeu sem esquentar. A tevê exibia o clipe da Intocáveis Putz Band tocando o “Manifesto das bem-aventuranças”, todos vestidos feito monges, capuzes, o clima sombrio… Ratoeira desligou, irritado. Aquelas mortes estavam inspirando até mesmo as bandas da cidade.

Olhou para Rian, dormindo no sofá. Estaria sentindo falta da antiga dona? Lembrou do sonho, a gata parindo. O que podia significar? Parto… nascimento… algo importante que virá… Mas o quê? Quando?
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CrimesDePaixao-02“NO DIA 28 DE DEZEMBRO completam-se nove meses da primeira morte.”

Eládio Ratoeira olhou para a frase que escrevera, pensando em quanto aquilo era estranho. Deixaria um depoimento escrito a respeito de tudo que sabia sobre as mortes, caso algo viesse a acontecer com ele. Na carta, admitia que podia muito bem estar fantasiando mas não podia desprezar o simbolismo de que falava o Profeta.

Podia muito bem dar o caso de dona Iza por encerrado: os legistas finalmente admitiram que havia sim vestígios de fumaça nos pulmões da vítima e, portanto, ela morrera asfixiada, fora um acidente. Mas isso lhe parecera algum tipo de armação, talvez os legistas realmente não tivessem descoberto a causa da morte. E como se tratava de gente pobre e não havia nenhum interesse maior no caso, inventaram tal conclusão.

As outras mortes continuavam sem culpados. A polícia concluíra que o garçom realmente se afogara. Quanto a seo Neném, nenhuma pista sobre a tal loira de preto. Nem sobre o assassino da cantora.

Mas as estranhas mortes viraram assunto indispensável, e frequentavam as mesas da Praia de Iracema todo tipo de suposições, desde as que acusavam ser tudo obra para desviar a atenção das eleições às que denunciavam maquiavélicos planos de empresários dispostos a substituir os bares por hotéis de luxo.

E havia os que reiteravam o que dizia o Profeta: faltava apenas uma morte para que a profecia se cumprisse e a noite da Praia de Iracema morresse de vez. Por isso era preciso aproveitar o que ainda restava, as noites estavam no fim. Bandas compunham músicas sobre as mortes. Nas mesas, os poetas vendiam cordéis de terror. Nas ruas, as camisetas circulavam com os dizeres “Esta pode ser a última noite. Aproveite. Comigo.” Bares pegavam carona na onda e faziam promoções. “ApocaLIP-se!” – assim convocava seus clientes o Lip Bar. Alguns mais supersticiosos vendiam barato seus pontos para evitar prejuízo maior: se não haverá noite, quem irá aos bares?

A noite, porém, ainda estava viva. E naquele 28 de dezembro, exatos nove meses após a morte de seo Neném, Ellen Star faria na Boate Circus a sexta apresentação de seu macabro espetáculo transformista “Mate-me que eu já te matei”, que tratava exatamente de todas aquelas mortes. E era lá que Eládio Ratoeira estaria.

“Nove meses que tudo começou. Sinto que hoje o mistério será decifrado. Tenho que estar lá. Se estou fantasiando, nada acontecerá, e os crimes seguirão sem solução. Mas se estou certo, então alguém morrerá. E talvez eu descubra quem é o assassino.”
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CrimesDePaixao-02ERA QUASE MEIA-NOITE quando Eládio Ratoeira chegou à boate Circus e sentou-se numa mesa mais ao fundo. Pediu uma cachaça e foi ao banheiro. Aproveitou para observar o ambiente, balcão, cozinha, corredores. A boate não era grande, cabiam ali umas vinte mesas. No canto havia um pequeno palco. Em caso de confusão, a porta principal seria estreita demais para evacuação rápida.

Todas as mesas estavam cheias quando as luzes se apagaram.

– Estão todos aí? – uma voz cavernosa ecoou pela boate. – O espetáculo vai começar.

A cortina se abriu para o primeiro ato. Uma voz feminina cantando ao som de um piano. Você me olha desse jeito… Pensa que eu não sei que você quer me comprar… O cenário de um quarto de motel. Um homem deitado na cama. Uma mulher loira num vestido negro com uma generosa fenda lateral, exibindo suas belas pernas. Mas eu não estou à venda, meu bem… A mulher caminhando devagar até a cama. Ratoeira ajeitou-se na cadeira, impressionado com a beleza da atriz. O que está à venda é seu sonho de ter o que você pode pagar…

Ellen Star foi a loira amante do dono do motel que morria de ataque cardíaco durante um orgasmo. Depois, foi o garçom que se encontrou no píer com o amante de sua mulher, que o empurrou ao mar. Ratoeira demorou a acreditar que Ellen também era o ator que interpretava o garçom. Como alguém podia ser tão convincente como mulher e também como homem?

Em todas as cenas Ellen dublava músicas especialmente escolhidas. Na terceira, ela era um garoto que tentou roubar dinheiro do barraco da cigarreira e causou o incêndio que a vitimou.

– Ellen é ela ou ele? – perguntou Ratoeira ao garçom.

– É um mistério. Mais uma cachaça?

A cena da cantora começou com Ellen Star dublando “Little girl blue”, um blues muito triste na voz de Janis Joplin, e Ratoeira pôde observar como as pessoas estavam bastante absortas no espetáculo, algumas visivelmente emocionadas. Havia no ar um clima de comoção, mas também de suspense. No momento em que a cantora chegava em casa radiante de felicidade por ter feito o melhor show de sua vida, Ratoeira escutou um miado. Procurou no palco, mas não viu gato algum. Então escutou novamente, dessa vez mais forte, e viu as cabeças se virando, todos procurando saber de onde vinha o som.

Vinha do lado da entrada. Ratoeira virou-se, e na penumbra percebeu um homem em pé, encostado na parede, de frente para o palco, vestido num sobretudo preto. Olhando melhor, percebeu que seu rosto estava pintado, lembrando o de um gato. Faria parte do show? No palco, a cantora rasgava com um disco de vinil a própria garganta, morrendo feliz e realizada. Quando Ratoeira olhou novamente, o homem havia sumido.

Ratoeira coçou a nuca, cada vez mais nervoso. Algo o inquietava. Havia algum mau presságio no ar, ele podia senti-lo.

A quinta cena começara e Ellen Star representava uma travesti batendo seu ponto na esquina, sob a luz fraca de um poste. Saia branca curtíssima, meias pretas, salto alto, o cabelo ruivo chanel revelando o pescoço fino. Os olhos sombreados e os lábios vermelhos. Os carros passavam e ela, insinuante, fazia trejeitos e jogava piadinhas aos motoristas. Tocava um envolvente bolero chamado “Lupiscínica”, de onde vinha a frase-título do espetáculo.

Vamos adiar essa briga, amor…

De repente, um automóvel parou mais à frente. Ellen sorriu. A luz traseira acendeu-se e o carro voltou de ré. Ellen ajeitou a saia e assumiu posição de espera.

Na madrugada, sonolento, de bolero em bolero…

O carro parou ao lado e o vidro fumê baixou, surgindo os rostos de uma garota e de um garoto. A travesti aproximou-se pelo lado da garota, debruçou-se na janela e sorriu, os seios como se numa bandeja.

A tua boca guarda segredos de mim…

– Boa noite, jovens.

– Oi – respondeu a garota.

– Ontem vocês passaram por aqui, não passaram?

– Você é boa observadora.

– Sou boa também em outras coisas…

E hoje sinto ciúmes até da tua falta…

– Você é homem ou mulher?

– Sou o que você e ele quiserem, meu bem.

– Quanto custa desvendar o mistério?

– Pra vocês faço por cem.

Mas não vou mais matar ninguém por tua causa…

– Você é muito bonita.

– E vocês são uma gracinha.

– Bonito, teu peito…

– Quer pegar? – perguntou a travesti, levando a mão da garota até seu seio. – Concorrência desumana, né, querida?

– Outra noite a gente vem com mais calma – disse o garoto.

– Mas não demora, viu? Posso não estar aqui.

– Vai mudar de ponto?

– Eu sou a noite, meu bem. A noite sempre chega ao fim.

Mate-me que eu já te matei…

Um homem. Vestido num sobretudo preto. Rosto pintado como um gato. Surgiu de algum lugar da escuridão da rua. Tão silencioso que de repente ele já estava lá, na calçada. Aproximou-se.

No momento em que a travesti virou-se, ele desferiu-lhe um violento soco no rosto. Ela caiu no chão, sobre o meio-fio, quase no asfalto.

Assustada, Ellen passou a mão no canto da boca e percebeu que sangrava. O homem continuava em pé. O automóvel arrancara. E o bolero havia terminado. Ele meteu a mão sob a roupa e puxou um revólver.

Ratoeira sentiu o coração gelar. O único som era o dos automóveis passando pela avenida. Ratoeira viu Ellen Star levantar-se e encarar com altivez o sujeito à sua frente. Foi ela quem gritou, a mão sobre os lábios feridos:

– Você tinha que estragar tudo, né?

Quando o homem empunhou a arma e apontou para ela, Ratoeira não ousou piscar os olhos. Estava petrificado, a respiração presa, toda a sua atenção concentrada nos dois, a travesti que encarava o homem e o homem que atiraria na travesti.

O tempo parecia ter parado. Ratoeira não mexia um único músculo. Alguma coisa iria acontecer no próximo instante e ele não fazia ideia do que seria.

Um pensamento lhe veio rápido à mente: e aqueles carros passando, aqueles prédios todos ao redor? Ninguém via nada? Ninguém para gritar, impedir um crime? Aquelas janelas todas, centenas, milhares de janelas… A noite da cidade tinha tantos olhos e, no entanto, ninguém via nada…

Ellen Star moveu-se rapidamente e de dentro da bolsa sacou um revólver, apontando-o com as duas mãos para o homem. A arma disparou. Um grande estrondo, o eco permanecendo no ar por longos segundos, a fumaça subindo do cano…

Ratoeira viu Ellen afastar-se para trás, cambalear sobre os saltos altos, perder o equilíbrio e chocar-se contra o poste feito um triste boneco desengonçado. Depois escorregou para o chão e ficou lá, inerte, enquanto os faróis seguiam indiferentes pela avenida. E as janelas nada viam.

O homem do sobretudo, ainda segurando o revólver, avançou. Ele agachou-se sobre o corpo de Ellen, passou a mão levemente por seu rosto e falou baixinho:

– Meu amor…

Então ergueu-se e saiu caminhando devagar pela calçada. E atravessou a avenida, num passo tranquilo, sem olhar para os lados. Um carro freou bruscamente para não atropelá-lo e quase provocou um acidente com outros carros. Na confusão, os passantes perceberam o corpo na calçada e se ajuntaram ao redor.

Eládio Ratoeira também foi para lá, abrindo caminho entre a multidão. Dirigiu-se até o corpo caído. Viu o sangue espalhado pela roupa, escorrendo para o chão. Suspendeu a cabeça de Ellen enquanto ela abria os olhos devagar. No meio de sua expressão serena surgiu um doce sorriso:

– Aquela cartomante me paga…

– Como? – indagou Ratoeira.

– Ela me garantiu que… ai…. eu morreria em Paris…

– Aguente mais um pouco, Ellen.

– É o fim, meu belo amigo. O fim das doces mentiras… das noites em que tentamos morrer…

– Não fale. O socorro está chegando.

– Você… ai, como dói… faz parte deste teatro ridículo?

– Ahnn… sim… – ele respondeu, sem saber o que dizia.

– Acho que minha participação termina aqui… Você gostou?

Ratoeira virou-se para as pessoas ao redor, elas e seus rostos impassíveis.

– Quem é ele, Ellen? Um cliente seu?

– Ele não tem culpa…

Ratoeira percebeu que ela respirava com cada vez mais dificuldade.

– Por que ele atirou em você?

– A profecia. Tem que ser cumprida.

Ratoeira desgrudou o cabelo ensanguentado da boca de Ellen e, olhando para aquele rosto bonito, lembrou-se do que ela dissera ao casal do carro: Eu sou a noite…

– O que vai acontecer agora?

– Acabou a peça, meu bem. As luzes se acendem.

Então ela fechou os olhos. E sua cabeça tombou para o lado no momento em que as luzes se acendiam. Ratoeira olhou para o corpo imóvel em seus braços, o belo corpo de Ellen. Percebeu que um seio estava de fora, um seio bonito. Olhou para as pernas. Lentamente estendeu o braço e tocou o sexo de Ellen, apalpando-o…

– Essa técnica eu não conhecia, Ratoeira.

Ele virou-se rápido, retirando a mão. Reconheceu o tenente Trindade, em pé, a viatura parada atrás. Pousou a cabeça de Ellen no chão e ficou de pé, a roupa encharcada de sangue.

Ratoeira olhou o relógio: uma da manhã. Foi então que percebeu que a claridade não vinha dos faróis de carro algum. Nem vinha dos prédios ao redor. Estava clara a noite da Praia de Iracema. Estranhamente clara.

Desumanamente clara, diria o outro.

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Ricardo Kelmer 1994 – blogdokelmer.com

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CrimesDePaixao-02Beira-mar (Ednardo) – E um gosto de você que foi ficando… e a noite enfim findando… igual a todas as demais

Riders on the storm (The Doors) – Pegue uma carona na tempestade desse som

Quanto você paga (Ricardo Kelmer e Toinho Martan) – Você me olha desse jeito… Pensa que eu não sei que você quer me comprar?

Little girl blue (R. Rodgers e L. Hart) – Querida, você não vê que está na hora?

Lupiscínica (Augusto Pontes e Petrúcio Maia) – Bolerão maravilhoso, na inesquecível interpretação de Teti e Ednardo

The end (The Doors) – É o fim, meu belo amigo. O fim das doces mentiras… das noites em que tentamos morrer…

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais. > Mais

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01- Massa. Jose Leite Netto, Fortaleza-CE – mai2015

02- Muito bom,li só o trecho mas já gostei . Vou ler tudo qndo meu computador sarar. Samuel Araujo, Vilhena-RO – mai2015

03- Eita! crimes passionais sempre são comoventes, afinal são motivados (na maioria das vezes) pelo amor que adoeceu… E como há amores doentes perambulando pelas curvas da nossa velha Iracema! Valeu pela indicação de leitura amigo! Lílian Martins, Fortaleza-CE – mai2015


O íncubo

15/11/2008

15nov2008

Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas. Mas… e se ainda existirem?

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O ÍNCUBO

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Ele virá como num sonho, mas será real. Porque habita a realidade mais profunda ‒ e inadmissível, não esqueça ‒ dos seus desejos. Chegará devagar e sem alarde. E deixará os sapatos à entrada para poder pisar delicadamente o seu chão e sentir, desde o início, todos os detalhes de sua presença. Ele, o meticuloso.

Haverá uma roupa no sofá da sala, você anda meio desleixada? Quem será o moço no porta-retrato, seu namorado? Que diria se acaso soubesse que ele esteve em seu apartamento a essa hora da noite? A porta de seu quarto estará trancada, evidentemente, mas ele já sabe que você anseia por essa visita. E é exatamente por isso que poderá vir e entrar. Se esse encontro não existisse antes em seu pensamento, minha querida, ele não passaria jamais por essa porta, aberta ou fechada.

Ele entrará em seu quarto enquanto acostuma os olhos à penumbra do ambiente, os olhos que a encontrarão em sua cama, dormindo tranquila, os lábios roçando o travesseiro e o cabelo escorrendo pelas curvas do seu rosto suave. Então, ele se permitirá profanar a harmonia do quadro e afastará para o lado uma mecha de cabelo que insiste em querer seus lábios. Ele, o profano.

Não, de forma alguma ele se sentirá culpado por invadir assim sua intimidade mais secreta, logo você, tão cheia de recatos. Porque foi você quem quis assim, embora jamais o revele, nem a si mesma. É essa a lógica: você tem de chamá-lo para que ele possa vir. Ele estará, portanto, somente realizando um velho desejo seu. Aliás, ele gostaria imensamente de estar presente quando, pela manhã, você sonolenta a lavar o rosto, viesse a primeira lembrança do sonho que teve, tão estranho, tão louco… Mas tão real, não? Ah, ele adoraria vê-la, você estancando subitamente, em pé ao espelho, os olhos na expressão de quem lembra, o gesto suspenso na vã tentativa de congelar o resto de lembrança que vai fugindo, fugindo… E a cara de incredulidade e espanto. Mas não, ele não poderá estar presente, seus poderes não resistem longe dos sonhos.

OIncubo-06

Ele puxará a ponta do lençol, descobrindo seu ombro magro. Mais um pouco e os seios surgirão aos seus olhos agradecidos, descansando suaves e alheios no ritmo sereno de sua respiração. Ele não resistirá e deixará escapar um sorriso… Nesse momento já não poderá evitar deter-se um pouco e comparar a imagem que tem à mulher que conhece, tão pudica. Se você pudesse despertar agora, certamente teria um de seus repentes de indignação e bradaria que ele está violando sua intimidade e que não tem o direito. Mas nesse sonho, minha querida, não há lugar para violências. E, além do mais, não foi você quem o chamou? E quem melhor que ele, o que capta o que se esconde, para entender a beleza tímida dos seus seios?

Então, de repente, para total surpresa dele… você se moverá, virando o corpo e privando-o da visão de seus seios. Ele confessará, do alto de suas vivências no assunto, que, tsc-tsc, por essa não esperava. Então, sussurrará ao seu ouvido, sorrindo uma revolta bem-humorada, que certos pudores não têm jeito, não adormecem nunca…

Em sinal de protesto, ele retirará, de uma vez, o lençol que ainda cobre o restante de seu corpo. E terá outra surpresa o nosso amigo. Duas, para ser exato. Quem, em algum tempo, poderia imaginar, inclusive ele, que aquele autêntico recato ambulante dormisse nua, inteira e despojadamente nua? E, mais curioso ainda, que fosse tão desejável sem vestes?! Ninguém, certamente, você sempre fez questão de se ocultar demais. E ele muito menos, ele que há algum tempo flagra a ânsia dessa aventura por trás das couraças de sua defesa.

Retirado o lençol, o profano se afastará da cama e se posicionará melhor para observar, pintor orgulhoso do novo quadro. Você nua e sem defesa. Entregue aos olhos de um homem como jamais imaginou que pudesse. A pele brilhando na penumbra. O corpo inteiramente nu, convidativamente disposto sobre a cama, finalmente autorizado, nihil obstat. Ah, como ele se deliciará ao vê-la aprisionada em sua própria nudez…

E ele percorrerá com os olhos comovidos as paisagens de seu corpo, montes e planícies, savanas e cavernas. Gozará enternecido todas as minúcias de sua pele e procurará novos ângulos para sua beleza inconsciente ‒ e finalmente despudorada. Um fino e cruel ladrão de intimidades, desumano e desrespeitador. Ora, convenhamos, ele dirá, um pouco de perversidade não faz mal a mulher nenhuma! Principalmente a você que sequer admite durante o dia o que se permite em sonhos…

Então, ele perceberá, desconfiado, a sua respiração mais intensa, o ritmo acelerado. Aproximará o rosto do seu, já antevendo a nova surpresa, e, por fim, constatará sua excitação. Ora, ora, ele exclamará sorrindo, então o sonho já começou… E, enquanto se despe ao lado da cama, observará seus movimentos angustiados e impacientes, como se buscasse alguém ausente.

Ele comparecerá a esse encontro porque você o quer, vamos deixar isso bem claro, mas também porque anda curioso por saber o que existe por trás de toda essa sua aparente frieza e indiferença. Aparente, sim, ele sempre soube disso, pois mesmo nas mulheres, bichos ardilosos que sempre foram, o olhar nem sempre acompanha a velocidade da mentira ‒ ou da habilidade, como queira. E foi o olhar, minha querida, foi exatamente esse pequeno detalhe que naquele dia a denunciou, a você e suas tão bem cuidadas aparências. Foi apenas um encontro instantâneo de olhares, tudo muito rápido, é verdade, somente um desejo que por um segundo escapou sorrateiro de sua vontade e que, ao perceber o olhar dele, voltou logo a ser desdém. Ah, mas já era tarde. Ele agora sabia de tudo.

Jogada a roupa a um canto, ele deitará ao seu lado na cama, já chega de perversidade. Sentirá então o calor receptivo e o aroma delicado de sua pele. Você jogará ao chão velhos escrúpulos, que por lá ficarão enquanto ele não se for, e decerto que se espantarão ante toda sua disposição revelada. Seus olhos estarão sempre fechados, mas verão tudo em seu sonho. Só não verão os olhos dele, o que fará mais difusa ainda sua recordação.

Enquanto sua boca o procura e seus braços exigem com avidez o corpo dele, ele sorrirá dessa sua insuspeitada ardência. E finalmente fechará os olhos, deslizando para dentro do seu sonho. E só retornará quando novamente abri-los.

OIncubo-06No outro dia, você lembrará de quase tudo, mas sua lembrança será como névoa que aos poucos se dissipará, terminando por se transformar na sensação de já ter vivido algo assim em algum dia, algum lugar…

Mas como, se tudo foi apenas um sonho?, você se perguntará, sempre surpresa com a qualidade das lembranças que a farão sorrir pelos cantos do dia, subitamente envergonhada. O que foi? ‒ a amiga indagará, desconfiada, e você disfarçará, procurando qualquer coisa para se ocupar e fugir do flagrante. Mas nem sempre conseguirá conter o sorriso que, fora do seu controle, denunciará a si mesma uma descarada satisfação.

Você pensará nele, sim, e por pouco não se renderá ao desejo, várias e vacilantes vezes ao lado do telefone. Sussurrará na rua, sem querer, o nome do maldito, mas ao mesmo tempo evitará encontrá-lo, pois se sentiria nua nesse encontro. E toda vez que se recordar dessa noite, perceberá um vento gelado lhe roçar os pelos e trazer arrepios. Ventos do outro mundo? Lera certa vez alguma coisa sobre demônios que invadem o sono das mulheres para copular com elas, lendas medievais. A história não lhe saíra da cabeça.

Demônios… Não sabia que pudessem ser tão competentes, você pensará, permitindo-se afinal brincar um pouco. Muito competentes…

Mas não, não ‒ você sacudirá a cabeça, abandonando tal absurdo, e voltará aos afazeres. Entrar no sonho dos outros, imagina, seria o fim do mundo…

Mas… e se fosse possível? E se realmente eles pudessem…

Não, não, foi tudo um sonho ‒ você repetirá mais uma vez, lutando contra a vontade que arde de vê-lo novamente. Foi apenas um sonho louco e alguma coincidência. E, além do mais, há muito que essas coisas não existem.

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Ricardo Kelmer 1991 – blogdokelmer.com

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Este conto integra os livros
Vocês Terráqueas
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos
Indecências para o Fim de Tarde

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VÍDEO
The Doors – The spy. Com imagens de Milo Manara
Criei este vídeo para ilustrar o conto “O íncubo”, e homenageando uma banda e um artista que adoro

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Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

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01- Eu já lí esse texto no jornal…muito louco..muito bom mesmo gostei, parabéns! Paulo César Cândido, Fortaleza-CE – abr2007

02- Mais outra crônica soberba!!! Humberto de Melo Batista, Fortaleza-CE – abr2007

03- SURPREENDENTE! Sou sua fã! E se fã é sinônimo de fanática…também sou! ;^) Grande beijo! Danila Gomes, Fortaleza-CE – abr2007

04- Oi, Ricardo ! Tuas crônicas são pra lá de inusitadas.E é isso que faz a grande diferença.Cada tema ! kkkk gosto demais do teu estilo de satirizar. Estou repassando para os meus contatos, Um grahde abraço ! Zinah Alexandrino, Fortaleza-CE – abr2007

05acabei de ler o teu íncubo, fiquei impressionada, você realmente conhece o feminino, o mais escondido do feminino, neste conto você escreveu sobre algo que me acompanha desde a infância. IK, São Paulo-SP – fev2011

06- ‎”Você dormirá tranquila, os lábios roçando o travesseiro e os cabelos escorrendo pelas curvas do seu rosto suave. Então ele se permitirá profanar a harmonia do quadro e afastará para o lado uma mecha de cabelo que insiste em querer seus lábios.” Que malvadeza! 😀 Muito bom, Ricardo!!! Thanks! Cristiane Rocha, São Paulo-SP – abr2011

07- Tradução do trecho que você citou, Cristiane: “Você capotará na cama depois do vuco-vuco, mordendo a fronha e toda desgrenhada, com o cabelo por cima da cara de exausta. O caba, enxerido, não satisfeito em aperrear teu cansaço, ainda vai te perturbar por mais, começando a tirar os cabelos enfiados na tua boca.” Lincoln Silveira, Fortaleza-CE – abr2011

08- Esse sempre mexe um pouco comigo, a 1ª fez que li parecia mais um Dejavú do que simplesmente mais um conto. E mais, eu só durmo sem calcinha, acho que isso facilita um pouco a vida do íncubo hehe. Dolores Agnes, Fortaleza-CE – dez2012

09- Adoro esse conto do Íncubo, por que mistura mistérios e desejos ocultos das mulheres… A escrita do Kelmer é maravilhosa, adoro seu jeito de escrever totalmente descontraído e divertido! Ana Jess Sousa, Fortaleza-CE – fev2013

10- Uaaaaau! O conto ficou ainda mais delicioso ao som de The Spy! Belas ilustrações! Renata Kelly, Fortaleza-CE – jun2014

11- Muito bom aliás adoro todos teus contos…acho que já recebi a tal visita deste íncubo…rsrsrs (detalhe não tão púdica, rsrsrs) !!!!! Brincadeiras a parte…parabéns pelo blog também!!! Leide de Assis, Belém-PA – jun2017

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