Para Belchior com Amor, terceira edição ampliada

24/08/2022

24ago2022

PBCA 20220917 22

.

O livro Para Belchior com Amor está de cara nova! Para esta terceira edição, contamos com a parceria da Editora Radiadora, do poeta Alan Mendonça. Assim como nas edições anteriores, são mais mil e quinhentos exemplares do único livro sobre Belchior lançado com ele ainda vivo. Além do novo projeto gráfico, que deixou o livro mais bonito, esta edição foi enriquecida com ilustrações e novos autores, com mais contos, crônicas e cartas inspirados em canções de Belchior. Agora, são 132 páginas, com 24 textos de 23 autores cearenses, e a participação especial da cantora Vannick Belchior, filha caçula do rapaz latino-americano, que escreveu uma bela carta para seu pai.

Os primeiros lançamentos da nova edição aconteceram em jul2022 na região do Cariri, sul do Ceará. Os lançamentos seguintes serão em Fortaleza e outras cidades. O livro físico pode ser adquirido diretamente comigo (rkelmer@gmail.com), pelo site da Editora Radiadora (www.radiadora.com.br) e com os outros autores. O livro eletrônico pode ser adquirido na Amazon (kindle) e em PDF diretamente comigo.

AUTORES E MÚSICAS

Alan Mendonça (Tudo outra vez)
Ana Karla Dubiela (A palo seco)
Carmélia Aragão (Paralelas)
Cleudene Aragão (Coração selvagem)
Ethel de Paula (Conheço o meu lugar)
Gero Camilo (Na hora do almoço)
Jeff Peixoto (Sujeito de sorte)
Izabel Gurgel (Aguapé)
Joan Edesson de Oliveira (Galos, noites e quintais)
José Américo Bezerra Saraiva (Apenas um rapaz latino-americano)
Josely Teixeira Carlos (Monólogo das grandezas do Brasil)
Kelsen Bravos (Comentário a respeito de John)
Léo Mackellene (Até mais ver)
Mariana Marques (Pequeno mapa do tempo)
Nirton Venâncio (Bahiuno)
Raymundo Netto (Fotografia 3×4)
Ricardo Guilherme (Como nossos pais)
Ricardo Kelmer (Divina comédia humana e Ypê)
Roberta Laena (Como o Diabo gosta)
Roberto Maciel (Velha roupa colorida)
Thiago Arrais (Alucinação)
Xico Sá (Todo sujo de batom)
Vannick Belchior (participação especial)

ILUSTRAÇÕES
Carlus Campos, Marcos Oriá e Léo de Oliveira
.
.
PBCA 3a ed CAPA 20a> SEÇÃO DO LIVRO NESTE BLOG 
.
.
A história do livro, os autores, matérias na imprensa, entrevistas, preços…
.
.
.
.
.
.
.
.
.Ricardo Kelmer 2022 – blogdokelmer.com

.

.

PBCA Div Lana 1

Eu não ia fazer a terceira edição do Para Belchior com Amor, pois os custos do livro físico são altos e o retorno é incerto. Mas ela, que adora esse livro, não se conformava. E tanto insistiu que reconsiderei. Obrigado, Gata Mimosa, por acreditar nesse livro e por ter mexido seu caldeirão tão bem mexido. 🙂

.

PBCA 3a ed DIV 11

.

RK 20220730 PBCA Estrada 1b

.

PBCA 3a ed Capa 3D 15 PNG

.

.

ENTREVISTA
Programa Cabeceira, TV Assembleia (Fortaleza), out2022. Apresentadora: Rosanni Guerra

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

01- 


O mistério da viúva negra

01/07/2022

01jul2022

O mistério da viúva negra 1

O MISTÉRIO DA VIÚVA NEGRA

.
Verdadeiro homem de família, fiel à esposa, de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Assim era o Nicolau. Por isso, foi uma grande surpresa quando, em seu enterro, aquela bela mulher apareceu, pele alva e cabelos negros, vestido preto longo e decotado, sombrinha e óculos escuros. Sozinha e um pouco afastada, ela acompanhou a cerimônia, semblante sem expressões, aqui e ali enxugando uma lágrima, enquanto o vento soprava em seu vestido fendido, oferecendo, por um instante, a visão de sua perna esguia.

A viúva Valdete até parou de chorar. Os filhos Fabinho e Joca murmuraram em pensamento: Você, heim, Papai… Parentes e amigos, sem exceção, todos se indagaram, curiosos, sobre quem poderia ser. Em meio aos cochichos, nem o padre Jarbas resistiu a uma olhadela por cima do ombro, antes de postar-se à frente e enaltecer as qualidades do finado. O coveiro Maurição, coitado, errou o passo e quase despencou na sepultura. E, nem bem descido o caixão, tão misteriosamente quanto surgiu, aquela gótica aparição se foi, seu vulto negro sumindo para sempre nos vãos das lápides…

Uma hora depois, já em casa, Virgínia guarda o traje no armário, serve um licor e senta ao sofá. Abre o caderno de capa preta, risca o nome Nicolau e confere os outros nomes agendados. Impossível saber quem seria o próximo. Pela idade, provavelmente Napoleão, mas ele estava bem de saúde. Cliente especial, ela pensa, sorrindo. Contratou seus serviços quinze anos atrás, e ainda lhe conseguiu cinco clientes em sua turma do futebol, todos já idos.

O primeiro deles que se foi, Henrique, propôs pagar o dobro para que ela, além de comparecer ao enterro, derramasse solenemente um vinho sobre seu caixão, mas ela não aceitou, seria obviamente arriscado. Ao segundo, Walber, prometeu usar a peruca ruiva (homens e seus funéreos caprichos…) e, sim, cumpriu a promessa. O terceiro, Sávio, ofertou-lhe a camisa do time de coração para que ela usasse ‒ ela agradeceu, achou linda, mas não poderia usar, pois não combinava com o figurino. O quarto, Ayres, perguntou, assim como quem não quer nada, se ela por acaso fazia algo mais além de semear o caos em enterros, ao que ela, elegantemente, respondeu que isso já era muito. O derradeiro, Demétrio, nada pediu, mas perguntou qual era a garantia do serviço, e ela, sem titubear: A mesma da vida.

Virgínia fecha o caderno, bebe o resto do licor e vai preparar algo para comer. Enterro sempre lhe dá uma fome do outro mundo.

.
Ricardo Kelmer 2021 – blogdokelmer.com

.

.

MAIS MINICONTOS

AMetamorfose-01A metamorfose – Pai, filho e o fundo do poço

Desculpem o atraso – Ela, o feminismo e o BDSM

A última mensagem – Aprendendo sobre amor e perdão

Literalmente – O sentido dos textos e da vida

Prazer proibido – Essas mães e suas filhas…

O terror da lagoa – Lia queria Jaime só para ela

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

01- 


Iracema ao chão

30/05/2022

30mai2022

Iracema Guardiã 20220504 3

IRACEMA AO CHÃO

.
Iracema ao chão!
Ressoa o mar a triste notícia,
Alertando a taba adormecida.
Cansei, murmura a tombada guardiã,
Enquanto turistas postam fotos, e
Moacir, que jamais leu Alencar,
Anseia por outra índia para pichar

.
Ricardo Kelmer 2022 – blogdokelmer.com

.

.

> MAIS POEMAS.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

01-


A resposta antirracista do Fortaleza

09/05/2022

09mai2022

FEC 20220505 River Plate Racismo 2a

A RESPOSTA ANTIRRACISTA DO FORTALEZA

.
Os jogadores entram em campo sob aplausos de 50 mil pessoas. Na arquibancada, um mosaico se forma com os dizeres JUNTOS NA LUTA e a imagem do zagueiro Pedro Basílio, ídolo do Fortaleza Esporte Clube nos anos 1970, negro. Em seguida, o mosaico muda e forma a frase STOP RACISM (pare o racismo, em inglês), com a imagem de um punho cerrado, símbolo do movimento antirracismo.

Foi esse o recado que a torcida do Fortaleza, famosa por suas manifestações, mandou para o mundo no jogo contra o River Plate, da Argentina, na Arena Castelão, pela Libertadores (05mai2022). Foi uma resposta ao caso de racismo que os torcedores tricolores sofreram no jogo em Buenos Aires, no qual torcedores do River Plate fizeram gestos de macaco e lhes arremessaram uma banana. Parabéns, tricolores!

Surpreendentemente, por orientação da Conmebol, o mosaico, que ficou ativo durante todo o jogo, não foi mostrado na transmissão da TV. O que isso significa? Que a Conmebol não quer comprar a briga do movimento antirracista. E que as penas que aplica aos clubes por casos de racismo da torcida, e que são penas leves, são mero jogo de cena. É revoltante. Entretanto, a imprensa mundial noticiou e as redes sociais espalharam as belas imagens.

O jogo foi de alto nível técnico e terminou em 1×1, com o goleiro argentino sendo o grande destaque. O Leão cearense jogou melhor, perdeu vários gols e, não fosse um erro da arbitragem no segundo tempo (nessa fase, os jogos, inacreditavelmente, não têm VAR), poderia ter vencido. Porém, o que ficará desse jogo é o recado da torcida e o ensinamento: só venceremos o racismo com políticas públicas corretas, educação antifascista e punições mais firmes.

Não basta não ser racista. É preciso ser antirracista.

.
Ricardo Kelmer 2022 – blogdokelmer.com

.

.

LEIA NESTE BLOG

As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

As duas mortes de Jail Bozonaro (Um futuro pela frente) – Após ter uma visão do futuro, Adélio quer impedir que Jail Bozonaro, um jovem e ambicioso capitão do Exército, não se torne presidente do Brasil

No museu da pandemia – Definitivamente, a humanidade fracassou…, ela pensou, triste

Robinho, Bolsonaro, Deus e a cultura do estupro – Culpado por estupro, Robinho diz que Deus está no comando e que fará um gol para homenagear Jair Bolsonaro

A alma fascista do governo Bolsonaro – Roberto Alvim apenas escancarou a alma fascista do governo Bolsonaro. Mas a alma fascista continua lá

O beijo da resistência contra a besta do fascismo – O fascismo não faz política ‒ ele é a negação da política, pois não dialoga, apenas agride, persegue e censura

Justiça para Moïse – Que a morte do jovem congolês nos ajude a fazer do Brasil um país mais justo

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer
(saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01-

 


Reconstruções

08/03/2022

08mar2022

Admitir que não somos invencíveis, infalíveis e imbrocháveis, como sempre nos fizeram crer

Yin Yang Feminino Masculino 4

.
RECONSTRUÇÕES

.
Repensar os valores machistas sedimentados em nossa cultura e tudo que nos foi ensinado desde pequenos sobre a mulher. Questionar as regras da sociedade, das religiões, da família, dos grupos de amigos. Abdicar dos diversos tipos de privilégios de que dispomos. Admitir que não somos invencíveis, infalíveis e imbrocháveis, como sempre nos fizeram crer. Constatar que o princípio feminino também habita nossa alma.

Sim, toda reconstrução é trabalhosa e requer honestidade consigo mesmo. Mas é o que precisamos fazer, nós machos Homo sapiens. É a nossa tarefa de cada dia, cada dia um pouco. Porque o futuro da humanidade ou será mais feminino, ou não será.

8 de Março – Dia Internacional da Mulher

.
Ricardo Kelmer 2022 – blogdokelmer.com

.

..

VIAJANDO NA MAIONESE ASTRAL
Memórias exóticas de um escritor sem a mínima vocação para salvar o mundo
Miragem Editorial, 2020

Enquanto relembra as pitorescas histórias de quando largou uma banda de rock para liderar um aloprado grupo esotérico e lançou-se como escritor com um livro espiritualista de sucesso (Quem Apagou a Luz? – Certas coisas que você deve saber sobre a morte para não dar vexame do lado de lá) que depois renegou, o autor fala, com bom humor, sobre sua suposta vida no século 14, carreira literária, amores, sexo, drogas ilegais, prostituição e crises existenciais, reflete sobre sua relação com o feminino, o xamanismo, a filosofia taoista e a psicologia junguiana e narra sua transformação de líder de jovens católicos em falso guru da nova era e, por fim, em ateu combatente do fanatismo religioso e militante antifascista.

> SAIBA MAIS – LEIA COMENTÁRIOS

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- Parabéns pelo texto. Qdo morava em Fortaleza costumava curtir suas participações na Rádio Universitária FM. Gostava muito. Francisco de Paula, Fortaleza-CE – mar2022

02- Salve, salve a Mulher, viva. Fernando Piancó, Fortaleza-CE – mar2022

03- Maravilhoso. Vou copiar. Glauria Lula Dantas, Fortaleza-CE – mar2022

04- Voto com o relator. Ou a revolução será feminista ou não será, e como diz o @Ricardo Kelmer, não me chamem pruma revolução sem vinho. Nicolas Ayres, Fortaleza-CE – mar2022

05- Que lindo, Kelmer. É exatamente isso. O que eu mais admiro nos escritores é que eles conseguem expressar em palavras aquilo que nós só conseguimos sentir. Joyce Lobo, Fortaleza-CE – mar2022

06- Sempre um mestre com as palavras! Feliz dia mulheres! Cícera Vidal, Fortaleza-CE – mar2022

07- Valeu! Obrigada. Bj. Marcia Soares Fernandes, São Paulo-SP – mar2022

08- Viva. Joveline Anjos, Fortaleza-CE – mar2022

09- Mandou bem. Cida Cidoca, Fortaleza-CE – mar2022

10- Credo. Tao feminista ese texto qe parece coisa de pucha saco querendo xavecar no as guerrilheiras. Mauricio Centrone Ferreira, Valparaíso-Chile – mar2022


O terror da lagoa

21/02/2022

21fev2022

O TERROR DA LAGOA

.
Quando Lia descobriu as puladas de cerca do Jaime, ferveu de ódio. O grande amor de sua vida, que tanto bem lhe fazia, era o terror da feira da lagoa, pegava até madame, garanhão infalível. Lia nada falou, apenas seguiu as orientações da cartomante: na lua minguante, foi num barco até o meio da lagoa, deu um nó na cueca do Jaime que ela pegara escondido, depois outro nó para garantir, amarrou a uma pedra e jogou-a nas águas escuras. Após isso, o garanhão foi um fiasco total. Virou chacota na boca do mulherio, coitado. Por mais que tentasse, o bilau não subia, fosse com Sheyla, Priscila ou Gracinete. Nem com a Juju do Pastel, pra você ter uma ideia. Com mulher nenhuma. Nem mesmo… com a própria Lia. Desesperada, ela voltou à cartomante, que explicou: criatura, era só um nó!!! Jaime nunca entendeu a razão de sua desgraça, e um dia tentou se matar. Hoje, passados trinta anos, vive de recordar os dias de glória. E Lia? Devastada de remorso, foi-se embora, pra nunca mais voltar. A lagoa? Ainda está lá, com suas águas escuras. Dizem que nas luas minguantes um vulto de mulher pode ser visto a caminhar pelo raso, tristonho, como a procurar por algo…

.
Ricardo Kelmer 2021 – blogdokelmer.com

.

.

MAIS MINICONTOS

AMetamorfose-01A metamorfose – Pai, filho e o fundo do poço

Desculpem o atraso – Ela, o feminismo e o BDSM

A última mensagem – Aprendendo sobre amor e perdão

Literalmente – O sentido dos textos e da vida

Prazer proibido – Essas mães e suas filhas…

O terror da lagoa – Lia queria Jaime só para ela

.

LEIA TAMBÉM

Amor em fuga – Que mundo idiota. Pra poder viver o amor a gente tem que fugir de casa

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

01- Muito bom. Corri pra verificar se era uma indicação de um filme e vi que o conto dá um. Epitácio Macário, Fortaleza-CE – jul2021

02- Excelente. Um dos meus favoritos. Tb gosto muito daquele q vc ainda vai publicar q foi inspirado no Paulo Marcio e nas iguanas gaúchas. Nicolas Ayres, Fortaleza-CE – jul2021

03- 👏👏👏👏👏👏👏👏 Michele Jacinto, Fortaleza-CE – jul2021

04- Hahahahah. Muito bom o conto. Sávio Cunha, Fortaleza-CE – jul2021

05- Jaime, o Zorba do pau mole. Henrique Baima, Fortaleza-CE – jul2021

06- A Lia “lascou ” foi tudo. Roberto Reial, Fortaleza-CE – jul2021

07- Ótimo!!! Olinda Evangelista, Fortaleza-CE – jul2021

08- Teus textos são fantásticos. Maria Ines Ramalho, Fortaleza-CE – jul2021

09- Você é foda chapa…. Show. Daniel Motta, Fortaleza-CE – jul2021

10- Muito bom. Clea Fragoso, Fortaleza-CE – jul2021

11- Excelente os teus textos garoto. Maria Ines Ramalho, Fortaleza-CE – jul2021

12- 1-Moral da estória, a desobediência tem seu preço. 2-A mandinga é como receita de um bolo gostoso, tem que ser exatamente o que se pede. 3-Conselho, obedeça sua mulher, principalmente se ela for ciumenta 😂😂😂😂 4- Alerta, o ser mais perigoso é uma mulher com raiva🤭🤭🤭🏹🏹 Telma Pacheco Tremembé, Iguape-CE – jul2021

13- Muito bom. Manoel André, Crateús-CE – jul2021

14- maravilha, amigo Kelmer. Silas Falcão, Fortaleza-CE – jul2021

15- Ficou bem garantido! Susana X Mota, Leiria-Portugal – jul20211

16- Bom demais. Fátima Abreu, Fortaleza-CE – jul2021

17- Maravilhoso! Nice Arruda, Fortaleza-CE – jul2021


Justiça para Moïse

02/02/2022

02fev2022

Resistência Antifa Moise Kabagambe 1

JUSTIÇA PARA MOÏSE

.
Você crê em “livre negociação entre empregado e patrão”, como defende a direita neoliberal? Então, fale isso para a família de Moïse Mugenyi Kabagambe.

Nascido na República Democrática do Congo, Moïse tinha 24 anos e vivia com a família no Rio de Janeiro, para onde vieram fugindo dos conflitos armados em seu país. Ele trabalhava servindo mesas no quiosque Tropicália, na Barra da Tijuca. Em 24jan, foi lá para cobrar seu pagamento, que estava atrasado, e, como resposta, foi morto a pauladas por cinco homens. O quiosque continuou funcionando, com o corpo de Moïse jogado atrás, amarrado.

A família e amigos de Moïse estão, obviamente, arrasados, e clamam por justiça. Chocados e envergonhados, nós também clamamos, nós brasileiros que lutamos contra o neofascismo bolsonarista e sua política de extermínio da população pobre e preta. A propósito, Jair Bolsonaro, como todo ultradireitista, já demonstrou sua xenofobia várias vezes contra imigrantes, chegando a se referir a senegaleses, haitianos, iranianos, bolivianos e sírios como “escória do mundo”.

Se a Polícia trabalhar como deve, não ficarei surpreso se encontrarem nesse crime brutal as digitais das milícias, que controlam atividades comerciais e elegem políticos para defenderem seus interesses. Por falar em político miliciano, já se passaram quatro anos e a pergunta segue sem resposta: quem mandou matar Marielle Franco?

Minha sugestão à Prefeitura: tome o quiosque e doe à comunidade congolesa, para que ele seja um local de homenagem a Moïse e de respeito aos imigrantes africanos.

.
Ricardo Kelmer 2022 – blogdokelmer.com

.

– desenho: Nando Motta

.

LEIA NESTE BLOG

As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

As duas mortes de Jail Bozonaro (Um futuro pela frente) – Após ter uma visão do futuro, Adélio quer impedir que Jail Bozonaro, um jovem e ambicioso capitão do Exército, não se torne presidente do Brasil

No museu da pandemia – Definitivamente, a humanidade fracassou…, ela pensou, triste

Robinho, Bolsonaro, Deus e a cultura do estupro – Culpado por estupro, Robinho diz que Deus está no comando e que fará um gol para homenagear Jair Bolsonaro

A alma fascista do governo Bolsonaro – Roberto Alvim apenas escancarou a alma fascista do governo Bolsonaro. Mas a alma fascista continua lá

O beijo da resistência contra a besta do fascismo – O fascismo não faz política ‒ ele é a negação da política, pois não dialoga, apenas agride, persegue e censura

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer
(saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- 😢😢😢 Márcia Morozoff, Luziânia-GO – fev2022

02- Inaceitável!. Abigail Estradeira Do Alabama, Alvorada-RS – fev2022

03- reflexo das escolhas de pessoas que escolheram temer, bolsonaro e outros como seus representantes. Triste! Inconsebível. Roberto Paiva, Fortaleza-CE – fev2022

04- Que tristeza, que vergonha! Celia Sporrer, Fortaleza-CE – fev2022 

05- Negociação entre patrão e empregado é o mesmo que querer processar um juíz: o resultado é óbvio. Quanto ao assassinato do Mose, não sejamos inocentes,o tipo de rito da morte deixa bem claro as coisas em que ele estava envolvido, não precisa ser muito esperto pra notar isso. Não tem nada a ver com xenofobia e nem em cobrança de salário, não nos façamos de otários. Paulo Osni Silverio, Suzano-SP – fev2022

……. 06- “Presbiteriano, mas acima de tudo, pronto para servir à Deus e ao próximo.” Copiei isso de seu perfil no Facebook, Paulo Osni, para que todos possam saber que tipo de cristão você é. Quanto ao seu comentário, ele é tão vil que não merece resposta. RK

07- Excelente sugestão menino Kelmer. Fernando Câmara, Fortaleza-CE – fev2022 

08- A guerra civil brasileira é naturalizada, o estado mata, os patrões matam… Joel Moraes da Silva, Santos-SP – fev2022

09- 

10- 

 


Obituário de um verme

26/01/2022

26jan2022

Resistência Antifascista Olavo de Carvalho 1

OBITUÁRIO DE UM VERME

.
Foi-se o guru do bolsonarismo. O nojento profeta do movimento antivacina. O religioso grosseiro, o fascista charlatão. O direitista arruaceiro, amante das armas e inimigo da democracia. O cristão que exaltava seu deus e que espalhava o ódio e incentivava a violência. Aquele que zombava dos mortos pela Covid-19. Morreu infectado por aquilo que negava. Morreu sem pagar o que devia. Morreu descartado, sem mais serventia, pelo genocida que ajudou a eleger. Morreu rastejando na lama podre na qual construiu sua reputação.

Olavo de Carvalho deixa órfãos seus acéfalos seguidores. Deixa enlutados jornalistas e entrevistadores que veem brilho na torpeza e na mentira. Deixa seu fétido exemplo de vileza, que, infelizmente, seguirá alimentando o fascismo destes tenebrosos dias.

O terraplanista será enterrado na Terra redonda. E nós seguimos na luta.

.
Ricardo Kelmer 2022 – blogdokelmer.com

.

> charge: Lafa

.

LEIA NESTE BLOG

As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

As duas mortes de Jail Bozonaro (Um futuro pela frente) – Após ter uma visão do futuro, Adélio quer impedir que Jail Bozonaro, um jovem e ambicioso capitão do Exército, não se torne presidente do Brasil

No museu da pandemia – Definitivamente, a humanidade fracassou…, ela pensou, triste

Robinho, Bolsonaro, Deus e a cultura do estupro – Culpado por estupro, Robinho diz que Deus está no comando e que fará um gol para homenagear Jair Bolsonaro

A alma fascista do governo Bolsonaro – Roberto Alvim apenas escancarou a alma fascista do governo Bolsonaro. Mas a alma fascista continua lá

O beijo da resistência contra a besta do fascismo – O fascismo não faz política ‒ ele é a negação da política, pois não dialoga, apenas agride, persegue e censura

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer
(saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- Brilhante, brilhante! Jayme Akstein, Sidney-Austrália – jan2022

02- Texto completo. O ar se torna mais respirável sem ele. Karla Selene, Montes Claros-MG – jan2022

03- Aquele que foi um idiota para os filósofos e um filósofo para os idiotas. Xico Aragão, Fortaleza-CE – jan2022

04- #EX_CE_LEN_TE! Jose Antonio Nascimento, Fortaleza-CE – jan2022

05- Kkkk. Morreu feliz sentindose un héroe . zumbando dos que ficam. Triste realidade. Mauricio Centrone Ferreira, Chile – jan2022

06- Esse cara escreve maravilhas. Gisela Symanski, Porto Alegre-RS – jan2022

07- Seguimos na luta. @brigite_guardou, Fortaleza-CE – jan2022

08- Cova rasa, por favor…senão vai cair no espaço sideral e empestar o cosmos. Marcus Lima, Fortaleza-CE – jan2022

09- Gone too late! Jards Nobre, Fortaleza-CE – jan2022

10- Nesse momento Caetano Veloso é o único bom brasileiro a lamentar a morte do Olavo de Carvalho 😂. Claudio Oliveira, Fortaleza-CE – jan2022

11- A Terra ficou mais quente porque a porta do Inferno foi aberta para recebê-lo. Marcos Saudade, Fortaleza-CE – jan2022

12- Que ninguem esqueça de quem é quem no antes, durante e depois da era das trevas “verde amarelo”. Ivonesete Rodrigues, Fortaleza-CE – jan2022

13- Excelente texto. Concordo plenamente. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – jan2022

14- O Bial é mais idiota. José Anderson Freire Sandes, Juazeiro do Norte-CE – jan2022

15- Maravilha de texto! Francisco Tabosa, Fortaleza-CE – jan2022

16- Vc foi perfeito no seu texto, brilhante mesmo. Olivia Brasil, Fortaleza-CE – jan2022

17- Belo texto, meu caro. Romeu Duarte, Fortaleza-CE – jan2022

18- Complemetando: Vai agora tentar tornar plano o planeta Plutão. Fátima Landim, Fortaleza-CE – jan2022

 


Namoro

07/01/2022

07jan2022

Namoro 10

NAMORO

.
Hoje, 7 de janeiro, é o seu dia. Parabéns a você, que namora, nesse jeitinho seu de namorar, com o que nós escrevemos. Feliz Dia do Leitor. 🙂

No namoro
Do olho com a palavra
Faz-se coito
O literato sentido

Quem lê
Bebe o doce prazer do texto
Que escorre do gozo
De ser bem lido

.
Ricardo Kelmer 2012 – blogdokelmer.com

.

.

> MAIS POEMAS

.

LEIA NESTE BLOG

OGozoDaLingua-1

O gozo da língua – Pela maciez sonora dos fonemas / De formas acetinadas / Que a língua deslize

Livros e odaliscas – Meia-noite. Volto do banho. Elas estão todas deitadas em minha cama, lânguidas odaliscas a me aguardar

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer
(saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- A leitorinha agradece! Gratidão também pela escrita que nos encantam e faz viajar. Renata Kelly, Fortaleza-CE – jan2022
 


Ano novo no país de Bolsonaro

02/01/2022

02jan2022

Ano novo no país de Bolsonaro 1

ANO NOVO NO PAÍS DE BOLSONARO

.
Para quem tem fome
hoje é somente mais um dia
pior que o outro

.
Ricardo Kelmer 2021 – blogdokelmer.com

.

.

> MAIS POEMAS

.

LEIA NESTE BLOG

As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

As duas mortes de Jail Bozonaro (Um futuro pela frente) – Após ter uma visão do futuro, Adélio quer impedir que Jail Bozonaro, um jovem e ambicioso capitão do Exército, não se torne presidente do Brasil

No museu da pandemia – Definitivamente, a humanidade fracassou…, ela pensou, triste

Robinho, Bolsonaro, Deus e a cultura do estupro – Culpado por estupro, Robinho diz que Deus está no comando e que fará um gol para homenagear Jair Bolsonaro.

A alma fascista do governo Bolsonaro – Roberto Alvim apenas escancarou a alma fascista do governo Bolsonaro. Mas a alma fascista continua lá

O beijo da resistência contra a besta do fascismo – O fascismo não faz política ‒ ele é a negação da política, pois não dialoga, apenas agride, persegue e censura

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer
(saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- Imagem de doer a alma. Francisco Mota, Fortaleza-CE – jan2022

02- Verdade. Maria Ines Ramalho, Fortaleza-CE – jan2022

03- Revolta, e o Agro pop bombando. E a violência aumentando, como consequência. Tatiana Santos Moreira, Fortaleza-CE – jan2022

04- Infelizmente, é verdade! Leonor Oliveira Moreira, Fortaleza-CE – jan2022

05- Exatamente. Csta Lyju, Melbourne-Nova Zelândia – jan2022

 


Siga a estrela

24/12/2021

24dez2021

Natal PT Estrela 2

SIGA A ESTRELA

.
A esperança é uma estrela
Reluzindo sonhos no céu escuro
Sim, roubaram nosso futuro
Mas se acreditarmos, ela nos guiará
Rumo ao país que queremos

Às vezes cansamos da luta
Tem dias que tememos perdê-la
Mas se seguirmos juntos, creia
A união firmes nos manterá
E mais forte brilhará nossa estrela

.
Ricardo Kelmer 2021 – blogdokelmer.com

.

.

> MAIS POEMAS

.

LEIA NESTE BLOG

As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

As duas mortes de Jail Bozonaro (Um futuro pela frente) Após ter uma visão do futuro, Adélio quer impedir que Dijair Coronaro, um jovem e ambicioso capitão do Exército, não se torne presidente do Brasil

No museu da pandemia – Definitivamente, a humanidade fracassou…, ela pensou, triste

Robinho, Bolsonaro, Deus e a cultura do estupro – Culpado por estupro, Robinho diz que Deus está no comando e que fará um gol para homenagear Jair Bolsonaro.

A alma fascista do governo Bolsonaro – Roberto Alvim apenas escancarou a alma fascista do governo Bolsonaro. Mas a alma fascista continua lá

O beijo da resistência contra a besta do fascismo – O fascismo não faz política ‒ ele é a negação da política, pois não dialoga, apenas agride, persegue e censura

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer
(saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- FELIZ NATAL ! Grande esperança para 2022. LULA é a ESPERANÇA. ! Leonor Oliveira Moreira, Fortaleza-CE – dez2021

02- Verdade. Sandro Marcelino, Campina Grande-PB – dez2021

03- Feliz Natal! E 13! Celia Sporrer, Fortaleza-CE – dez2021

04- Hauhauahau 👏👏👏👏👏👏 Laura Maia Santos, Fortaleza-CE – dez2021

05- 👏👏👏👏👏👏👏⭐️ Sônia Castro, Fortaleza-CE – dez2021

06- 👏👏👏👏😍😍 Renata Lotfi, Fortaleza-CE – dez2021

07- Hasta la victoria!!! Edvaldo Junior, Fortaleza-CE – dez2021

08- Verdade, essa estrela maldita está bem retratada em apocalipse. 8.11.Tornou-se amargo um terço das águas, e muitos morreram pela ação das águas que se tornaram amargas. O nome da estrela era Absinto; e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas. Leôncio Carvalho, Manaus-AM – dez2021

09- “E eis que após a hora décima-terceira desceu dos céus um raio e fulminou aos ímpios que da estrela sagrada escarneceram, e de todo lado vieram homes e mulheres a celebrar com cânticos e vinho em abundância”. Malaquias, 13, 20-22. RK – dez2021 
 


O segredo de Fátima – Traída por Deus, no amor vingada

16/12/2021

16dez2021

O segredo de Fátima 02

.

O Segredo de Fátima CAPA 1a> À venda na Amazon (kindle) ou direto com o autor (PDF). Entre em contato: rkelmer@gmail.com

Nessa história de fé, amor e traição, com toques de erotismo e suspense, Fátima é uma famosa cantora cristã, com milhões de discos vendidos e agenda repleta de apresentações. Seu empresário, Miltinho, rege sua carreira com dedicação e respeito. Porém, há segredos delicados nessa relação, e um acontecimento inesperado faz surgir novos e estranhos segredos.

..

O SEGREDO DE FÁTIMA
Traída por Deus, no amor vingada

.
Igreja da Pomba Sagrada do Paraíso. Ou Pomba Sagrada, como era mais conhecida. Funcionava no térreo de um prédio de salas comerciais. Foi lá onde Miltinho conheceu Fátima, ela na desabrochada flor de seus dezoito anos, ele nove anos mais velho. Ela no palco, linda e angelical, encantando a todos à frente do grupo musical da igreja. Foi paixão ao primeiríssimo olhar.

Na verdade, foi mais que isso. Naquele dia, enquanto Fátima cantava no momento do ofertório, Miltinho sentiu-se tomado por um sentimento avassalador, e ele compreendeu que aquilo era amor, o amor mais puro e sincero que um filho de Deus poderia ter. Enquanto regozijava-se, inundado de amor, ele viu um raio de luz fosforescente entrar pelo teto e iluminar a garota, e soube, por uma voz que ecoava dentro dele, que ela seria uma grande estrela da música, para a glória do Senhor. Tomado de êxtase, teve outra revelação divina, que o fez tremer por dentro: aquela mulher seria sua.

Quando terminou o culto, ele, ainda atordoado, saiu apressado em direção ao ponto de ônibus, nem se despediu dos irmãos e irmãs da igreja. No caminho para casa, repetiu cem vezes em pensamento a verdade que lhe fora revelada: Uma grande estrela… minha mulher…

Como, ainda na adolescência, fizera voto de castidade, Miltinho não tinha experiência com mulheres, era tímido. Simplesmente não sabia agir diante delas. Como se comportar com aquela que seria sua futura mulher?

Dias depois, na saída do culto, foi ela mesma quem deu uma mãozinha ao destino.

‒ Oi! Você é o Miltinho, né?

Ao vê-la caminhando bem ao seu lado, quase tocando-o, ele tentou responder, mas a voz não saiu.

‒ Prazer, Fátima.

Ele conseguiu apenas sorrir.

‒ Você é mudo?

‒ Na-não… ‒ ele conseguiu responder, gaguejando.

‒ É gago?

‒ Também-bém não…

Ela riu, achando graça do jeito dele. Muito simpática, perguntou se era verdade que trabalhava num estúdio de gravação. Miltinho confirmou, balançando a cabeça e sentindo uma gota de suor escorrendo pelo pescoço. Ela explicou: tinha o sonho de ser cantora profissional e queria gravar um disco, mas não tinha dinheiro. Ele, procurando controlar o nervosismo, perguntou se ela já havia falado com o pastor Genilson, talvez ele pudesse ajudar.

‒ O pastor disse que a igreja não tem dinheiro, mas vai orar por mim.

Após pensar um pouco, Miltinho falou que veria o que podia conseguir para ela.

Uma semana depois, a boa notícia para Fátima: Miltinho lhe informou que a dona do estúdio, uma mulher generosa e temente ao Senhor, concordara em não cobrar nada, desde que a produção se mantivesse numa faixa de preço razoável, e nem era necessário divulgar a marca do estúdio. Fátima ficou radiante de felicidade e o abraçou agradecida. Nessa noite, Miltinho não conseguiu dormir, ainda envolvido pelo abraço daquela que estava predestinada pelos céus a ser sua mulher.

Nas semanas seguintes, encontraram-se quase diariamente no estúdio para gravar as músicas, e nos intervalos tomaram café juntos. Ela lhe contou que era órfã e que morava com uma tia que não gostava dela, e que o que mais queria na vida era ser cantora profissional e espalhar a palavra de Deus pelo mundo. Contou também de seu voto de castidade, e nesse momento Miltinho teve ainda mais certeza de que estava diante de sua futura mulher, e que os dois findariam juntos seus votos de castidade, para a glória do Senhor.

O disco ficou pronto e o lançamento foi na Pomba Sagrada, e nesse dia Fátima deu-lhe um beijo no rosto. Em casa, em sua cama, Miltinho repassou a cena pela centésima vez, e a sensação dos lábios de Fátima tocando sua pele era como um fogo a lhe queimar por dentro, provocando-lhe desejos inconfessos que o impediam de dormir.

Fátima vendeu, ela mesma, seu disco para os fiéis da igreja e também nas praças e pontos de ônibus, e até apresentou-se em alguns programas de rádio e na tevê. Admirado com sua determinação, Miltinho torcia fervorosamente pelo sucesso da amada e até conseguiu vender alguns discos para os amigos.

Um dia, porém, Fátima descobriu a verdade e telefonou para ele.

‒ Você mentiu pra mim.

Do outro lado da ligação, Miltinho nada respondeu.

‒ Eu já sei, Miltinho.

‒ Sabe… o quê?

‒ Que o estúdio não patrocinou meu disco.

‒ Ahn… bem…

‒ Não minta, por favor.

‒ Na verdade… o estúdio fez um preço razoável pra mim… e o meu serviço não cobrei.

‒ Então… você pagou tudo?

‒ Bem… Não.

‒ Não minta, Miltinho, é pecado.

‒ Eu… ainda estou pagando.

‒ Por que fez isso?

‒ Desculpa… eu…

‒ Eu sei que você não ganha tanto assim.

‒ É que eu… tive uma revelação.

‒ Que revelação?

Miltinho respirou fundo. Já não podia mais esconder a verdade de sua amada.

‒ Fátima, você será uma grande estrela da música, para a glória do Senhor.

‒ Eu? Você está falando sério?

‒ Sim, pelo sangue derramado de Cristo.

Fátima estava pasma. Não sabia o que falar.

‒ Alguém precisava… apostar em você. Foi por isso que fiz o que fiz.

Não era uma mentira, era apenas uma meia-verdade, ou melhor, um terço da verdade. Os outros dois terços é que ele a amava e que ela seria sua mulher, estava escrito.

Fátima agradeceu por sua generosidade, e disse que o reembolsaria com o dinheiro dos próximos cachês e da venda do disco. Ele, porém, propôs que ela pagasse de outra forma.

‒ Como assim? ‒ ela perguntou, desconfiada.

Ele respirou antes de falar.

‒ Me deixe ser seu empresário.

‒ Você?

‒ Olha… eu… lá, no estúdio, converso muito com empresários de artistas ‒ ele prosseguiu, e agora não tinha outro caminho senão seguir ir em frente. ‒ Sei que posso conduzir bem sua carreira. Eu tenho todos os seus programas gravados, sabia?

‒ Sério?

‒ Sim. Sei o que você pode melhorar. Voz, postura, figurino, marketing…

Aquilo era interessante, pensou Fátima. E ele parecia sincero.

‒ O Senhor sabe que eu sou seu admirador número um. Desde o primeiro dia em que vi você cantando na igreja.

Fátima falou que pensaria no assunto. Nessa noite, Miltinho novamente não conseguiu dormir, o coração ribombando no peito.

O segredo de Fátima 02

A agonia durou apenas até o dia seguinte: para a imensa alegria de Miltinho, Fátima aceitou a proposta. E ela logo veria que fizera a escolha acertada. Dedicando-se totalmente a ela quando não estava no estúdio, Miltinho ajudou-a, entre outras coisas, a organizar a agenda de compromissos e as redes sociais, e ele mesmo vendia o disco nas apresentações que ela fazia. E foi dele a ideia de mudar seu nome artístico: agora, ela era Anja Fátima. Sua determinação em fazer-se cumprir o grandioso destino de sua amada só não era maior que a própria determinação dela de realizar seu sonho dourado.

Um ano depois, veio o segundo disco e as vendas aumentaram, e Anja Fátima começou a ficar conhecida não apenas na cidade, mas no país inteiro. A Pomba Sagrada ficou pequena para a multidão que comparecia só para ver a linda cantora da voz angelical. Logo, a agenda estava bastante movimentada e o cachê subindo mês a mês, e Miltinho precisou deixar o estúdio para dedicar-se integralmente à carreira de sua amada. Depois, veio o contrato com uma grande gravadora, o terceiro disco, mais shows, entrevistas, capas de revistas, o quarto disco…

Estamos agora na varanda de um belo apartamento. É a cobertura que Fátima comprou, com vista para o mar. Passaram-se cinco anos desde aquele dia na igreja em que ela o abordara. Fátima ofereceu um jantar para os amigos mais íntimos e, após todos irem embora, sobraram ela e Miltinho. Ele não bebia, mas ela insistiu, é só hoje, e é só uma tacinha… Então, na varanda, olhando a cidade dali do vigésimo andar, eles brindaram ao sucesso, ao novo apartamento e ao programa de tevê que ela apresentava, que estreara dias antes. Aos 23 anos, Anja Fátima era uma estrela.

Então, levado pelo vinho, Miltinho finalmente decidiu abrir seu coração para Fátima. Falou que a amava, amava em silêncio, mas muito, profundamente, como jamais amara ou amaria outra mulher na vida, e que naqueles cinco anos não deixou de desejá-la nem por um dia sequer, nem por um milésimo de segundo.

‒ Nem quando eu namorava o Cléber?

Cléber era o baixista da banda.

‒ Não.

‒ Nem quando eu namorei o Luizão?

Luizão era o baterista.

‒ Não. E nem quando você namorou o pastor Genilson.

Fátima estava impressionada. É verdade que foram namoros curtos, que sempre acabavam quando ela revelava que casaria virgem para a glória do Senhor, mas, mesmo assim, aquela declaração de amor merecia seu respeito.

‒ Agora, você sabe da verdade ‒ Miltinho prosseguiu. ‒ Se quiser me despedir, eu entenderei perfeitamente.

Ela olhou para ele emocionada. Sempre vira Miltinho como um grande amigo, um empresário amigo, e sempre entendera as suas atenções e cuidados para com ela como profissionalismo de sua parte, nada além disso. Mas, agora, sabedora de seus sentimentos, já não podia vê-lo com os mesmos olhos de antes. Agora, de repente, via-o como um homem muito especial.

‒ Miltinho, eu realmente nunca pensei que você sentisse isso por mim.

‒ Disfarcei bem, não?

‒ Muito bem.

‒ E então, estou despedido?

‒ Não sou louca de largar o melhor empresário do mundo.

Fátima tomou a taça de sua mão e a pôs sobre a mesa. E o abraçou.

‒ Esse amor bonito, que agora sinto bater em seu peito, é uma divina dádiva para mim ‒ ela prosseguiu, abraçada a ele. ‒ E eu prometo que saberei retribuí-lo com a minha melhor amizade e todo o meu respeito, para a glória do Senhor.

E assim ficaram, abraçados, até ela se afastar.

‒ Agora, um brinde a nós dois.

Miltinho olhou para a mulher à sua frente a lhe estender a taça. O vermelho vivo do vinho era a cor do seu desejo, que naquele momento fazia volume sob a calça. Ah, como desejava aquela mulher… Tantas e tantas noites acordado na madrugada, revirando-se na cama, lutando contra os pensamentos pecaminosos que o invadiam… Uma vez, num momento de fraqueza, quase quebrou seu voto de castidade com Lurdinha, uma irmã da igreja, e doía lembrar que chegaram a ficar nus na cama… Felizmente, no último instante, veio-lhe socorrer a certeza de que a mulher a quem entregaria a sua primeira vez não era Lurdinha, era outra, e ele venceu a tentação, para a glória do Senhor.

Agora, sua amada estava ali, dizendo que gostava dele apenas como amigo e parceiro profissional, sem nem imaginar o que ele passou naqueles cinco anos, o quanto lutou contra seus próprios desejos…

Agora, Fátima sabia de seu amor por ela. E se soubesse que estava destinada a ser sua mulher? Talvez isso facilitasse as coisas…

‒ A nós dois ‒ ele enfim falou, estendendo sua taça. E o tilintar dos vidros selou a continuação do compromisso iniciado cinco anos antes. Aquilo que só Miltinho sabia seguiria com ele, apenas com ele.

*     *     *

A vida, entretanto, reservava uma grande surpresa. E ela começou com sensações de fraqueza, câimbras e espasmos. Durante um ano inteiro, Fátima consultou vários médicos, até descobrir que era vítima de uma doença degenerativa rara, que não prejudicaria suas capacidades mentais, mas afetaria seus músculos e dificultaria cada vez mais os movimentos. Havia opções de tratamento, mas a cura era incerta.

O diagnóstico deixou Fátima muito abalada, e Miltinho mais ainda, embora tenha conseguido se controlar. Ele sabia que agora ela necessitaria dele mais que nunca. Então, mesmo com a resistência de Fátima, que não aceitava deixar de trabalhar, ele cancelou todos os compromissos profissionais, inclusive a gravação do quinto disco, para que se dedicassem totalmente à recuperação de sua saúde. Nas redes sociais, Anja Fátima anunciou ao seu querido público que interromperia por um tempo a carreira para fazer um retiro espiritual.

Dois anos após os primeiros sintomas aparecerem, de tentarem variados tipos de tratamento e verem que a doença evoluía ainda mais rapidamente, eles compreenderam que não havia mais o que pudesse ser feito. Então, decidiram mudar de ares e compraram uma casa na serra onde morariam juntos e ele poderia cuidar dela longe da imprensa bisbilhoteira e dos falsos amigos.

Fátima já estava com os movimentos do corpo bastante reduzidos e se cansava facilmente. Para Miltinho, assistir diariamente e de pertinho à decadência física da mulher que tanto amava era a maior das torturas, e à noite, após ela adormecer, ele ia para a varanda e permitia-se chorar, e rezava por horas, agarrado ao último fiozinho de esperança.

Um dia, ela o chamou ao quarto, onde, deitada na cama, via o vídeo do último show que fizera antes de interromper a carreira, um ano antes.

‒ Anja Fátima… É um bonito nome, não é, Miltinho?

– Sim, é lindo. Combina com você.

– Pena que não passa de uma ilusão.

Miltinho procurou algo para dizer, mas ela prosseguiu:

– Por que ele me deixou viver essa ilusão? ‒ ela perguntou, olhando a tela da tevê.

‒ Você sabe que não foi uma ilusão.

‒ Você sabe que foi, sim. Anja Fátima confiou nele, seguiu o caminho que ele indicou, um caminho de sonho, de felicidade… Pra quê? Pra, de repente, acordar nesse pesadelo real.

Miltinho entendia a revolta que ela sentia, e todos os dias rezava para que o Senhor a perdoasse por aquelas blasfêmias que ela dera para dizer.

‒ Mas eu gosto de rever as imagens dessa ilusão ‒ ela falou, e lhe apontou o controle remoto. ‒ Põe de novo, por favor.

Ele pegou o controle e pôs o vídeo no início. Mas ela já havia adormecido. Então, ajeitou sua cabeça no travesseiro e saiu para a varanda, onde as estrelas do céu o aguardavam para iluminar seu pranto.

Na semana seguinte, era aniversário dela, e ele pensou em comprar um bolo, e também trocar a cortina do quarto por uma mais alegre, mas Fátima o proibiu de falar ou fazer qualquer coisa que a fizesse lembrar da data. E ele obedeceu, agindo como se fosse um dia qualquer. E à noite, na varanda, chorou como jamais chorara em toda a sua vida.

No último dia do ano, após ajudá-la a tomar banho, vestiu-a e a pôs na cama. Cobriu-a com um lençol e ajustou a temperatura do ar-condicionado.

‒ Miltinho, vem cá.

Ele se aproximou e sentou ao seu lado.

O segredo de Fátima 02

‒ Você tem sido maravilhoso comigo, e eu tive muita sorte de ter você em minha vida. Quero te agradecer por tudo, mais uma vez. Obrigado.

‒ Não tem o que agradecer. Fiz tudo por amor.

‒ Espero que faça bom uso dessa casa, ela é ótima. E de todo o resto que vai herdar. Ainda tem um bom dinheiro na conta.

‒ Não vamos falar disso, por favor. Amanhã é ano novo e…

‒ Eu sei ‒ ela o interrompeu. ‒ E tenho um pedido especial pra fazer.

‒ Posso saber qual é?

‒ Deve, pois é pra você mesmo.

‒ Qual é?

‒ Eu não quero morrer virgem.

Miltinho achou que não escutara direito.

‒ Não entendi.

‒ Entendeu, sim. É o meu último desejo. Não seja cruel de negar.

Ele simplesmente não soube o que dizer.

‒ Ouviu, Miltinho? Sua amada não quer morrer virgem.

‒ Está na hora do lanche, vou pegar ‒ ele falou, levantando-se.

‒ Foda-se o lanche. Senta e me escuta.

‒ Fátima, você…

‒ Senta!

Ele suspirou e obedeceu.

‒ Tudo que eu quero é isso, não morrer virgem. E só você pode me ajudar. Entendeu?

Miltinho fechou os olhos, sentindo o coração disparar no peito.

– Você seria tão desumano a ponto de negar o último desejo de uma moribunda? Você quer ir pro Inferno?

Ele suspirou. Ele conhecia bem aquela determinação.

‒ Fátima, você está muito fraca, não percebe?

‒ Isso não vai me exigir muita força.

‒ Mas…

‒ Ficarei quietinha, é só abrir as pernas.

Ele virou o rosto, sem acreditar naquele diálogo.

‒ Miltinho, eu não quero e não vou virgem pro Céu. Pro Inferno, que seja. Não vou. Entendeu?

‒ Não fale assim, por favor…

‒ Então diga que vai me ajudar. E que vai guardar nosso segredo.

‒ Não posso… É pecado.

‒ Pecado foi eu ter economizado a buceta por todos esses anos pra glória do Senhor, isso sim. E o cu também. Porque você sabe que lá na igreja tinha muita irmã que era virgem só na frente, né? Faziam voto de castidade pela metade. Pois sim, agora que eu vou morrer, de que adiantou tanto sacrifício, heim?

Ele levantou e caminhou até o outro lado do quarto. A vontade do Senhor, afinal, se cumpria. Não exatamente da forma que ele imaginava, mas quem pode adivinhar os desígnios divinos?

‒ Tudo bem. Amanhã mesmo vou naquela igreja, eu conheço o pastor de lá.

‒ Fazer o quê?

‒ Vamos nos casar, ora. Pra que se cumpra a vontade do Senhor.

‒ Bem, isso era outra coisa que eu tinha pra dizer.

‒ Como assim?

‒ Não quero que seja com você.

Ele ficou olhando para ela, sem acreditar no que ouvira. Ela estava brincando, só podia estar.

‒ Estou falando sério. Quero que seja com outro homem.

‒ Mas… como assim?

‒ Outro homem. Você, não.

‒ Mas… por que não eu?

‒ Bem, não há outro modo de dizer isso. Eu quero que seja com um homem… do pau grande.

Ele sentiu-se desmoronar.

‒ Desculpa trazer a sua intimidade para essa conversa, mas foi o jeito. Eu sei do que estou falando. Lembra da Lurdinha, da igreja? Ela me contou.

Miltinho não sentia o chão. Precisou puxar a cadeira e sentar.

‒ Pague o que for necessário, entendido?

Miltinho já não escutava. Aquilo era um pesadelo.

‒ Você vai fazer isso por mim, não vai?

*     *     *

Miltinho foi ao balcão da cozinha, serviu uma dose de uísque e entregou o copo ao homem que o aguardava na sala, sentado no sofá. E sentou de frente para ele.

‒ Não vai me acompanhar? ‒ o homem perguntou.

‒ Eu não bebo.

Precisara ir a um prostíbulo na cidade vizinha para pedir informações às mulheres que lá trabalhavam. Indicaram aquele homem. Devia ter a sua idade, boa aparência, parecia ser confiável.

‒ Não sei se entendi bem a proposta. Você quer que…

‒ É exatamente o que falei ‒ Miltinho o interrompeu, um tanto impaciente. ‒ Quero que você seja o primeiro homem da minha mulher. Você só tem que ser cuidadoso com ela. E não estranhe se ela não se mexer muito, ela tem um problema muscular, mas está perfeitamente ciente da situação.

‒ Isso não vai me trazer complicação depois, né?

‒ Nenhuma, eu garanto. Aqui está o pagamento ‒ Miltinho entregou ao homem um envelope. ‒ E nessa sacola tem preservativo e lubrificante.

O homem abriu o envelope e conferiu. Ainda não acreditava que estava sendo pago para fazer aquilo. Bem, o que importava é que era tudo de comum acordo. E dentro daquele envelope tinha mais dinheiro do que o que ganhava no mês inteiro como garçom da pizzaria.

‒ Ela está aguardando ‒ disse Miltinho, levantando-se. ‒ É a terceira porta à esquerda. Não precisa bater.

Os trinta minutos seguintes demoraram mais que a eternidade inteira para Miltinho. Ele preferiu esperar no jardim, regando as plantas e tentando se entreter com as borboletas para não pensar no ciúme que naquele momento o corroía por dentro feito a lava ardente do Inferno.

Quando o homem surgiu na varanda, ele se dirigiu ao portão da casa e o abriu. O homem desceu o batente, caminhou até o portão e parou.

‒ Fique tranquilo, não foi minha primeira vez com uma virgem.

Miltinho fechou o portão e entrou na casa. Suas pernas levavam todo o peso do mundo.

Na penumbra do quarto, Fátima o aguardava na cama. Ela tinha os olhos fechados e respirava calmamente. Ele ligou o abajur e viu uma mancha escura no lençol.

‒ Não precisa me levar pro banheiro agora ‒ ela disse, sem abrir os olhos. Em seus lábios Miltinho percebeu um sorriso. ‒ Quero ficar assim mais um pouco. Por favor.

‒ Você está bem?

‒ Então era isso…

‒ Isso o quê?

O sorriso em seus lábios abriu-se como uma flor.

‒ O que eu estava perdendo.

*     *     *

O segredo de Fátima 02

‒ Aceita um uísque?

‒ Não, obrigado.

Miltinho sentou-se em frente ao homem, que o olhava curioso.

‒ Como já expliquei, quero que você transe com a minha mulher. Você tem apenas que ser cuidadoso. Se ela não se mexer muito, não estranhe, ela tem um problema muscular. Mas está perfeitamente ciente do nosso acordo.

‒ Entendido.

‒ Aqui está seu pagamento. Na sacola tem preservativo e lubrificante. É a terceira porta à esquerda. Ela o aguarda.

No jardim, regando as plantas, Miltinho suspirou. Ainda não acreditava que aquilo tudo estava realmente acontecendo. Seis meses antes, realizara o desejo de Fátima, do jeito que ela lhe pedira. Felizmente, tudo correu bem. Aliás, bem demais, pois Fátima melhorou, ficando mais disposta. Até voltou a sorrir. Ele, obviamente, ficou aliviado, e pensou que talvez aquilo não fosse, afinal, um pecado tão grande. O problema é que, três dias depois, ela disse que queria mais.

E assim foi que ele teve de especializar-se naquele novo ramo de atividade: selecionar homens do pau grande para satisfazer o desejo da mulher amada. Como ela mudara muito fisicamente após a doença, não havia risco de a reconhecerem. E quanto ao ciúme, acostumou-se com ele, fazer o quê?

Enquanto eram dois por semana, até que era tranquilo, mas logo depois eram três, depois quatro, e por fim, Fátima precisava de visitas diárias, pela manhã e à tarde, o que o obrigou a manter uma agenda muito bem organizada para revezar os visitantes ao longo do mês e não agendar por engano dois para o mesmo horário, embora desconfiasse que Fátima iria gostar disso.

Não era o pior trabalho do mundo. Os visitantes eram muito respeitadores e mantinham total discrição, até porque não é todo dia que se podia conseguir uma boa grana tão fácil. Alguns indicavam amigos e parentes para o serviço, o que Miltinho apreciava, pois lhe poupava trabalho.

– Sim, aceito indicações – ele respondia, pegando o caderno para anotar. – Só precisa ter o negócio grande.

*     *     *

Naquele domingo, Miltinho regava as plantas no jardim enquanto pensava no tempo. Um ano. Até o médico com quem conversou outro dia ficou surpreso. Um ano era uma sobrevida excepcionalmente longa para um paciente no estado em que Fátima se encontrava. Um caso raríssimo. Se eu fosse religioso, diria que é um verdadeiro milagre, dissera o médico. E ao ser perguntado se estava experimentando algum novo tipo de tratamento, Miltinho respondeu que não, que tinha certeza de que aquilo era um milagre, um lindo milagre para a glória do Senhor.

O que importava é que sua amada estava feliz, e isso lhe bastava. Mesmo muito magra, quase um graveto, precisando de ajuda para as mínimas tarefas e já sem conseguir falar, comunicando-se por sinais, Fátima estava feliz, e vê-la sorrir todos os dias era, para Miltinho, o sinal de que ele fizera o que devia fazer. Realizara o último desejo de sua amada. Bem, na verdade os últimos desejos. Para ser preciso, 576 desejos até aquele exato momento, o que significava que o saldo da conta estava pela metade do que era um ano antes.

Pensava nisso quando o homem surgiu à porta da varanda. Era a décima-quinta vez dele.

‒ Acho bom você ir ver sua mulher ‒ ele falou, sério.

Miltinho fechou o portão e foi para dentro da casa. Entrou no quarto devagar, como sempre fazia para não acordar Fátima. Ela estava deitada, os braços estendidos ao longo do corpo. E sorria. Ele já conhecia seu sorriso de felicidade, mas aquele era diferente. Era o sorriso da mais pura paz.

Ajeitou seu corpo magro em seus braços e foi com ela para o banheiro. Limpou-a bem, enxugou e a levou de volta para a cama, deitando-a com cuidado e acomodando a cabeça sobre o travesseiro. Observou aquele fiapo de corpo nu por algum tempo, enquanto uma lágrima escorria por seu rosto. Depois, estendeu a mão e fechou os olhos que ainda o olhavam sorridentes. E se despiu, sem qualquer pressa, posicionando-se a seguir sobre o corpo imóvel, com muito cuidado.

O domingo anoitecia quando Miltinho afastou as pernas de sua amada e fez cumprir-se a vontade divina.

.
Ricardo Kelmer 2020 – blogdokelmer.com

.

ILUSTRAÇÃO: Omnia Vanitas (“Tudo é vaidade”), 1848, de William Dyce (1806 – 1864)

.

.

DICA DE LIVRO

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. > saiba mais

.

Quarentena Erótica
Ricardo Kelmer – contos

Nos contos de Ricardo Kelmer, o erótico pode vir com variados temperos: romantismo, humor, misticismo, bizarro, horror… Às vezes, vem doce e sutil, ou estranho e avassalador, e às vezes brinca com nossas próprias expectativas sobre o que seja erótico. Explorando fetiches, fantasias, delírios e tabus, e até mesmo experiências reais do autor e de seus leitores, as estórias deste livro acabam de chegar até você para apimentar seus dias, e suas noites, de quarentena. > saiba mais

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

01- Muito bom! Clea Fragoso, Fortaleza-CE – dez20221

02- Dale, Kilmito, bacana o conto, a gente fica na expectativa de como vai finalizar, me lembrou algo de Ondas do destino, do Lars von Trier, mas claro q noutra pegada autoral, abç. André de Sena, Recife-PE – dez2021

03- Do caralho, o texto! Roberto Maciel, Fortaleza-CE – dez20221


Uma tarde na Pensão das Crônicas Dadivosas

01/12/2021

01dez2021

A casa recebe a todos os amantes da crônica, homens e mulheres, mas lá não posso ir, pois sendo eu o pai, as meninas não se sentiriam à vontade com minha presença

Uma tarde na pensao 1

UMA TARDE NA PENSÃO DAS CRÔNICAS DADIVOSAS

.
Para onde vão as crônicas que começo a escrever e jamais termino? Vão para o Limbo das Crônicas, coitadas, e lá ficam a viver sua triste vida de quase ser, eternamente à espera de serem retomadas e concluídas. Melhor seria ir logo para o Lixão das Crônicas, o destino das que são definitivamente descartadas. Sim, pois no Lixão elas ao menos sabem que não estão mais em meus planos, e isso lhes deixa livres para fazer o que quiserem, tocar a vida, talvez recomeçar como um conto…

Recentemente descobri, veja você, que minhas crônicas que adoram se exibir vão para a… Pensão das Crônicas Dadivosas. É um palacete meio decadente, na saída da cidade. Dona Jovelina, minha professora do primário, a quem eu gostava de presentear com bobos poemas, é a senhoria da pensão, e lá ela recebe as crônicas recém-chegadas do interior. Do meu interior, claro. Algumas são virgens, nunca foram publicadas, mas há também as semivirgens, que se deram à vista apenas na intimidade do meu blog. A casa recebe a todos os amantes da crônica, homens e mulheres, mas lá não posso ir, pois sendo eu o pai, as meninas não se sentiriam à vontade com minha presença. Que pena.

Imagina se eu não iria… Claro que sim. Investi-me, pois, da melhor cara de pau e numa tarde dessas fui lá. Mas me disfarcei bem, pus cavanhaque postiço, chapéu, óculos escuros. Chegando à porta, me deu um nervoso e pensei em desistir, mas de uma janela no primeiro andar, duas moçoilas sorridentes acenaram para que eu subisse. E não resisti.

Simpática, dona Jovelina me recebeu e guardou meu casaco. Apresentou-me ao Belchior, um gato preto que veio me conhecer, e explicou que os clientes só pagam se sobem com as moças para os quartos. Ela serviu um Jack Daniel´s e me conduziu ao salão, onde me instalou numa confortável poltrona. Cumprimentei aos outros clientes que lá estavam e aguardei, bebericando uísque e ouvindo o pianista tocar uns blues.

Com o coração batendo forte eu as vi descendo a escada para nos receber, uma dúzia delas. Que notável visão! Eram as minhas meninas, tão mimosas… Logo, o salão estava tomado por conversas misturadas, risos à solta e copos tilintando em brindes ao som do blues. Era um tanto estranho ver minhas filhotas assim, tão oferecidas, insinuando-se generosas para desconhecidos, mas me senti orgulhoso delas. Em meu blog, elas podiam ser lidas por todos, sim, mas somente ali, de fato, elas eram inteiramente livres para praticar a arte da sedução para a qual deveras nasceram.

Identifiquei a todas facilmente, umas mais sérias, outras divertidas, algumas de trejeitos exagerados, outras mais tímidas… Aos meus olhos, eram todas igualmente encantadoras. Recebi convites para subir, mas recusei a todos, delicadamente, até que no salão restamos somente eu, o Belchior a lamber a patinha sobre o piano e o pianista tocando Divina Comédia Humana em sua homenagem. Não gostou de nenhuma das meninas, cara?, ele me perguntou, e eu não soube o que responder. Na verdade, esse senhor é apaixonado por todas elas, falou dona Jovelina, entrando no recinto. Enquanto sorria cúmplice e me entregava mais um uísque, emendou: Estou errada? Sorri de volta, concordando, e ela me fez sinal para segui-la. Enquanto subíamos as escadas, e Belchior a nos seguir os passos, sussurrou-me que as meninas não desconfiaram, mas ela sabia quem eu era e estava honrada por minha presença em sua casa. Agradeci, encabulado por ter sido descoberto.

Lá nos quartos, o que elas fazem?, perguntei. Ora, respondeu, elas se deixam ler, quantas vezes o cliente ou a cliente quiser. E contou que naquela manhã chegara uma nova inquilina, que eu deveria vê-la. Então levou-me ao quarto do fim do corredor e abriu a porta lentamente. Na penumbra, vi uma jovem deitada na cama a dormir. Não reconhece?, chegue mais pertinho… Aproximei-me da cama. Dona Jovelina puxou o lençol e o corpo da menina surgiu, nu e encolhido, a pele branquinha, o cabelo negro em mimosos caracóis a emoldurar-lhe o rosto suave. Era linda… Ressonava como o som da brisa nas folhas da mangueira, e o perfume que exalava tinha o doce frescor das novidades. Sim, eu a conhecia, surgira na semana anterior, e desde então rondava insistente meus pensares. A senhoria explicou que ela era ainda uma promessa, mas que esperava para breve a sua gloriosa estreia na casa. Contamos com você, beibe, ela disse, beliscando minha bochecha. Miaaaau, disse Belchior, reforçando o compromisso, enquanto saltava e se aninhava ao lado da menina adormecida. Prometi que faria o possível para não decepcioná-los.

Assim sendo, aos amigos e amigas amantes da crônica comunico em primeiríssima mão que tem novidade na Pensão. Apareçam qualquer dia para conhecê-la. O uísque é por minha conta.

.
Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

.

.

Esta crônica integra o livro Pensão das Crônicas Dadivosas

Nesta seleção de textos, escritos entre 2007 e 2017, Ricardo Kelmer exercita seu ofício de cronista das coisas do mundo, ora com seu humor debochado, ora com sobriedade e apreensão, para comentar arte, literatura, comportamento, sexo, política, religião, ateísmo, futebol, gatos e, como não poderia deixar de ser, o feminino, essa grande paixão do autor, presente em boa parte desta obra. SAIBA MAIS

.

.

CASA DE ENY

Eny Cezarino Bordel 01

Eny Cezarino (1916-1987) – Biografia de Eny Cezarino

Bordel da Eny Cezarino – Livro narra a trajetória da cafetina Eny Cezarino e seu famoso bordel (Folha de São Paulo)

O pecado morava na “Casa de Eny” – Matéria do O Estado de São Paulo

.

LEIA NESTE BLOG

InspiracionEssaVadia-02Inspiração, essa vadia– E não adianta argumentar, seu signo é a urgência. Desejo não é coisa que se adie, ela sempre diz

Livros e odaliscas – Meia-noite. Volto do banho. Elas estão todas deitadas em minha cama, lânguidas odaliscas a me aguardar

O menino e o feminino misterioso – Esse instante numinoso em que o Feminino Sagrado mostrou-se pra mim, sob a meia-luz de seu imenso mistério

Divina comédia humana – Um conto inspirado na música de Belchior e no poema de Dante Alighieri

Tábata, a mulher barata – Não fazia parte dos meus planos ter uma secretária ninfômana, alcoólatra e escandalosa, mas fazemos uma boa dupla no mundo das investigações sexuais

O segredo da princesa prometida – Ele é um cantor famoso, e ela é uma garota num vestido preto que quer realizar seu sonho secreto

.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

 


Diga a senha

03/11/2021

03nov2021

Muitas vezes na vida não percebi que a senha é mais simples, bem mais simples

Diga a senha 01a

DIGA A SENHA

.
Paternidade. Acho bonito. Mas ela sempre soou como uma camisa de força para os meus anseios de voar no imprevisível dos ventos aí pelo meio do mundo. É, não tive filhos… Mas, como Manuel, o Bandeira, trago dentro do peito meu filho que não nasceu.

Felizmente, a vida me deu seis sobrinhos. Quando era pequeno, o mais velho, Levy, que já passou dos 30, começou a me chamar de Dedéi e o apelido familiar ficou. Para os amigos, sou Ricardo, Rica, Kelmer, Kelmito, Kelmérico, Mizifio… Para os sobrinhos, Tio Dedéi, o fulerage.

É assim que também me chama o Caio, que eu chamo de Caiote. Ele tem 9 anos, morou por 4 anos em Portugal com a mãe e recentemente retornou ao Brasil. Quando brincamos de luta, ele é o SuperCaiote. E quando veste sua camisa do Fortaleza, se transforma no SuperCaiote Tricolor, para imenso orgulho do tio. Em breve, iremos juntos ao estádio. Duro vai ser convencê-lo a não levar o tablet.

Um dia, quando ainda era bem filhote, ele passava pela sala e o irmão Levy barrou-lhe a passagem com a perna, e lhe falou, todo sério: “Diga a senha”. Sem entender que nova brincadeira era aquela, Caiote respondeu o que lhe pareceu óbvio, em sua sábia inocência: “A senha”. Levy caiu na gargalhada e liberou a passagem. Quando ele me contou, ri muito também, e achei aquilo de uma simplicidade e profundidade geniais, e desde então adoro barrar a passagem do Caiote e lhe pedir que diga a senha. Ele diz “A senha”, eu libero a passagem, ele passa e pode o mundo enfim seguir seu rumo, liberto do súbito atravanco que um tio e seu sobrinho amado, que não têm nada melhor para fazer, lhe causaram.

Corta para mim, eu aqui costurando esta croniqueta e matutando… Muitas vezes na vida não percebi que a senha é mais simples, bem mais simples. Que a resposta certa era tão óbvia que não me dei conta, e fiquei preso a questões e subquestões que são lindamente filosóficas, mas não têm o poder de subir a cancela e me deixar passar. Infelizmente, devo ter perdido muito tempo e energia, e estragado relacionamentos, e desperdiçado oportunidades, complicando a obviedade das coisas. Putz…

Caiote, você vai crescer, em breve será adulto, e eu estarei velho. Provavelmente, morrerei primeiro, de curva no caminho ou de punhal de amor traído, não sei. Mas até lá, você aguente, pois continuarei sendo o Tio Dedéi fulerage a lhe barrar a passagem e pedir a senha. Só para ver você respondendo outra vez de novo “A senha”. Só para eu nunca mais esquecer daquilo que um dia você, sem querer, me lembrou, e que o corre-corre da vida sempre quer me fazer esquecer. Que a simplicidade é a última das estações.

.
Ricardo Kelmer 2018 – blogdokelmer.com

.

.

LEIA NESTE BLOG

Momentos felizes 01

Momentos felizes – Se tem uma coisa que não é nada criteriosa em relação aos atributos dos candidatos, é a felicidade. Qualquer idiota pode ser feliz

Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

Maluquice beleza – Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra

Dez segundos para ser feliz – Seus olhos continuam sorrindo mesmo quando ela conta, sem pudor, das imensas bobagens que fez em nome de sua busca por felicidade

Carma de mãe para filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

Insights e calcinhas – Uma calcinha rasgada pode mudar a vida de uma mulher? Ruth descobriu que sim

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer
(saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01-
 


Bilaus saidinhos

25/10/2021

25out2021

Acontece todo dia: o cidadão se descuida e, pronto, lá está o danado se enxerindo pelas brechas, observando o movimento do mundo

BILAUS SAIDINHOS

.
Tem muito bilau saidinho nesse mundo. Aposto como você já viu pelo menos um, não viu? Pode falar, tenha vergonha não. Acontece todo dia: o cidadão se descuida e, pronto, lá está o danado se enxerindo pelas brechas, observando o movimento do mundo. Tadinhos, eles também têm direito a dar uma escapulida, saber das novidades, né, trabalham tanto… Bem, há os que já se aposentaram, é verdade, mas esses também merecem, como os idosos que ao fim da tarde sentam-se à varanda para pegar uma fresca e espiar o povo que passa.

Por isso, mizifia, da próxima vez que você flagrar um desses bilaus saidinhos, cumprimente, diga um oi. É um gesto distinto.

Sugestões para puxar um papo:

“Oooiii! Como você se chama? Quantos anos você tem?”

Ou: “Ei, sabe a senha do wifi?”

Ou então: “Você vem sempre aqui? Parece de fora.”

.
Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

.

.

LEIA NESTE BLOG

O verme incansável e os grilos zumbis – O nematomorfo fará de um tudo para alcançar seu objetivo

Águas entre nós – O rio Minho é a fronteira entre o português e o galego

Namoro ao entardecer – Elas trocam juras roçando-se com seus galhos e soltando as folhas como doces beijinhos largados

A primeira namorada – Minha primeira namorada foi uma boneca chamada Amiguinha

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

.
01- 


O GPS de Ariadne

22/09/2021

23set2021

o-gps-de-ariadne-02

.
O GPS DE ARIADNE

.
Ariadne leu, num livro de contos, uma história sobre uma mulher que era praticante de fisting. Taradinha como é, ela logicamente ficou muito curiosa. Desde então, passou a me pedir sempre pra enfiar a mão em sua buceta, e logo essa prática estava devidamente incluída em nossas transas. Com o tempo, eu conseguia meter a mão até o punho, deixando de fora só o relógio, e minha amante ficava excitadíssima, e adorava se masturbar com a minha mão toda dentro dela. Ah, eu achava incrível aquela sensação de ter a mão inteira dentro de uma mulher.

Passamos umas semanas sem nos vermos. Quando nos reencontramos, ela me disse no ouvido: Amor, enlargueci minha buceta, quer conferir? Claro que eu quis. Em seu apartamento, deitada na cama, as pernas abertas, ela pediu que eu lhe enfiasse uma laranja. Obedeci. E a laranja entrou toda em sua buceta, uau… Depois, tirei a laranja e ela me entregou uma manga. Tem certeza?, perguntei, temeroso, era uma manga enorme. Ela tinha. Eu obedeci. E a danada da manga entrou toda, sumindo lá dentro. Caramba. Como estava madura e suculenta, fiz um furo na ponta e chupei a manga assim mesmo, como se chupasse suco de manga diretamente da buceta de Ariadne. Olha, foi algo indescritível. Nessa noite, minha amante foi uma mangueira deveras generosa. Felizmente, ela não pretendia experimentar com um abacaxi.

Ariadne continuou praticando, e um dia me pediu pra enfiar as duas mãos. Não acreditei que seria possível, mas topei a parada, aquilo tudo me excitava muito também. E nessa noite vi, com meus próprios olhos, as minhas mãos, as duas juntas, palma com palma, sumirem inteiras dentro dela. E ela ainda pediu pra eu fechá-las. E eu obedeci. Quer ver como foi, quer? Tô falando com você, você mesmo, que agora me lê. Quer ver como foi? Junte as palmas de suas mãos, como se rezasse. Juntou? Agora, una os antebraços. Uniu? Agora feche as mãos, mas não com os dedos entrelaçados, feche as duas separadamente. Pois bem, era isso que estava no interior da buceta de Ariadne, duas mãos fechadas pra seu imenso prazer, e pro meu total encantamento. Incrível, não? Mas o próximo nível seria ainda mais incrível: ela um dia exigiu que eu lhe enfiasse o pé, eu que calço 43. Animado, cortei as unhas, lavei bem lavadinho e, ploft, enfiei o pé na jaca de Ariadne, e ainda mexi os dedos, pra total delírio dela, e meu também.

Achei que ela havia atingido seu limite no fisting, porém uma noite… Eu estava chupando sua buceta e ela, com as duas mãos, me puxava a cabeça ao seu encontro. Minha língua foi entrando, entrando, e meu nariz foi entrando, meu queixo, meu rosto, e de repente lá estava meu rosto inteiro dentro de Ariadne, e ela forçando minha cabeça pra dentro, forçando, até que quando restavam apenas as orelhas de fora, ela perguntou se eu topava entrar de vez. Fiz sinal de positivo com o polegar e… pufff, minha cabeça entrou, entrou inteiramente em sua buceta, até o pescoço. Uau. Aquilo era absolutamente incrível. Nesse momento, porém, me assustei, e comecei a sentir uma espécie de vertigem. Tentei puxar a cabeça, mas não consegui, as mãos de Ariadne não permitiam, e enquanto eu sentia faltarem as forças, percebi que ela estremecia, estremecia cada vez mais, até que ela se sacudiu que nem uma máquina de lavar descontrolada, e eu apaguei.

Quando despertei, estava tudo escuro e silencioso à minha volta. Onde diabos eu estava? Tenho pavor de escuridão, e aquele era o lugar mais escuro do mundo. E também era quente e úmido. Pus-me de pé, mas o chão era mole e irregular, e perdi o equilíbrio, caindo de joelhos. Procurei no bolso o meu celular, pra iluminar aquele lugar estranho, mas eu estava nu. O lugar tinha um cheiro familiar… Era o cheiro da buceta de Ariadne. Eu estava dentro da buceta da minha amante?! Caramba… Então, lembrei de nossa transa, minha cabeça entrando… Eu havia caído dentro dela, que loucura… Comecei a gritar, Ariadne!, Ariadne!, mas apenas o eco me respondeu. Me veio a lembrança de Jonas dentro da baleia… Será que ela sabia que eu estava lá dentro?

Tentando controlar o pavor, comecei a caminhar, precisava logo encontrar a saída. Mas, e se eu tomasse a direção errada? E se desse de cara com um óvulo tarado querendo ser fecundado? Será que ele me confundiria com um espermatozoide? Tentei lembrar das aulas de biologia, a anatomia feminina. Mas não lembrei de nada, a não ser da minha irritação por ter que decorar onde ficavam as tubas uterinas se aquilo era uma informação que eu jamais, em toda a minha vida, precisaria usar ‒ a não ser, é claro, se eu um dia caísse dentro da buceta de uma mulher. Tubas uterinas, eu não quero ir pra esse lado aí não!, gritei, e o eco apenas gozou da minha cara: pra esse lado aí não, lado aí não, aí não…

Parei de caminhar e tentei me acalmar, precisava me concentrar. Se eu alcançasse o estômago, poderia escalar o esôfago e sair na garganta, e Ariadne me vomitaria. Mas acho que a buceta da mulher não se comunica com o estômago, é mais provável que se ligue ao coração. Mas o que eu faria no coração de Ariadne, ela nunca me quis lá. Melhor pensar um pouco mais. Talvez ela logo sentisse vontade de mijar, ou menstruasse, e aí eu aproveitaria a corrente e sairia daquele labirinto. Seria perfeito… se eu não morresse afogado. Melhor não arriscar.

o-gps-de-ariadne-02Caramba, ali estava eu, sozinho e perdido numa caverna escura, sem ideia de como sair. Lembrei de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra… Lembrei de Jung e seu inconsciente coletivo… E se todas as bucetas fossem interligadas? Tipo assim: na verdade, uma buceta é apenas a porta de entrada de um complexo e misterioso sistema subterrâneo de túneis e galerias, o que permite que você entre em uma buceta e saia em outra. Hummm, não seria de todo ruim, mas melhor também não arriscar, vai que eu entro numa buceta qualquer por aí e saio justo na de minha mãe, já pensou, nascer de novo a essa altura do campeonato?

Enquanto analisava as possibilidades, tudo em volta se mexeu e caí novamente. Tentei me levantar, mas tudo se mexia, que negócio era aquilo, um terremoto vaginal? Então, de repente, póim, fui atingido na cabeça por um… por uma… que diabo afinal me atingira? Fiquei quieto na escuridão, esperando, e a coisa me atingiu novamente, póim. E de novo, e mais uma vez, póim, póim, e cada golpe me empurrava mais longe… Putz, aquilo era um pau! Alguém estava comendo a Ariadne. Póim, póim, póim. E comendo com vontade. Quem seria? Lembrei do Janjão. Caramba, Ariadne, qualquer um, menos o Janjão, por favor. Mas bem podia ser o Janjão, sim, Ariadne sempre teve queda por esses tipos xexelentos. Morrer dentro de uma buceta não seria um triste fim, mas esmagado logo pelo pau do Janjão?

Não, uma mulher não seria tão tarada a ponto de dar pra um cara com outro dentro dela. Ou seria? Bem, talvez Ariadne quisesse justamente me socar bem pro fundo dela, de onde eu jamais pudesse sair. Seria Ariadne, na verdade, uma devoradora de homens, que havia treinado alargamento bucetal como parte de seu maquiavélico plano de prender seus amantes dentro dela? Mas pra quê? Talvez pra nos exibir em despedidas de solteiras, sim, era bem possível, ouvi falar que rola de tudo nessas festinhas. E como ela nos alimentaria? Jogando quentinhas lá dentro? A minha sem farofa, por favor. Pelo menos nos daria de vez em quando umas cervejas? Abriria uma brecha aos domingos pra gente poder ver o futebol?

Só me restava uma opção: me agarrar ao pau do Janjão, se é que era o pau dele, e aguentar firme até a hora do desgraçado resolver sair, e torcer pra sair logo, se bem que pelo que eu conhecia da Ariadne, ela não deixava ninguém sair antes de pelo menos umas quatro horas. Apavorado com a possibilidade de ter me tornado vítima de uma cruel buceta engolidora de homens, e não aguentando mais aquela cobra caolha me encher de porrada, póim, póim, póim, me agarrei nela com todas as minhas forças, segurei o ar e me deixei levar…

Quando abri os olhos, estava na cama, ao lado de Ariadne.

‒ Tá tudo bem, gato?

‒ Cadê o Janjão? ‒ perguntei, procurando embaixo da cama.

‒ Sei lá, por quê?

Aos poucos, me acalmei, estávamos no quarto dela, e não havia ninguém além de nós dois.

‒ Você foi muito fundo. Tive que te puxar com meu vibrador.

Ah, foi com o vibrador, ufa. Caramba, que aventura louca…

‒ Você gostou do meu interior?

‒ Foi um tanto assustador. Mas… até que foi emocionante.

‒ Eu adorei. Vamos fazer de novo na sexta?

‒ Tá, pode ser. Mas vou entrar com um GPS.

‒ Pra quê?

‒ Pra não me perder, ora.

‒ Alôôôu… Lá dentro não tem sinal, gato.

‒ Sério? Por quê?

‒ Pergunte pra Natureza.

‒ Ah, não. Sem GPS eu não entro.

‒ Homem é muito medroso mesmo.

‒ Vocês é que são grandes demais.

(Este conto integra a série Interações da Sacanagem, com contos baseados em termos de busca no Blog do Kelmer. Divirto-me bastante vendo os termos que as pessoas usam nos mecanismos de busca e que as fazem chegar em meu blog. Termos deste conto: contos enlargueci minha buceta enorme.)

.
Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

.

.

Este conto integra os livros

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. > saiba mais

.

Quarentena Erótica
Ricardo Kelmer – contos

Nos contos de Ricardo Kelmer, o erótico pode vir com variados temperos: romantismo, humor, misticismo, bizarro, horror… Às vezes, vem doce e sutil, ou estranho e avassalador, e às vezes brinca com nossas próprias expectativas sobre o que seja erótico. Explorando fetiches, fantasias, delírios e tabus, e até mesmo experiências reais do autor e de seus leitores, as estórias deste livro acabam de chegar até você para apimentar seus dias, e suas noites, de quarentena. > saiba mais

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

01-


As duas mortes de Jail Bozonaro

09/09/2021

09set2021

Após ter uma visão do futuro, no qual o mundo, em 2022, sofria com uma devastadora pandemia virótica e o Brasil, sob um governo neofascista, padecia numa violenta convulsão social, Adélio decide agir para impedir que Jail Bozonaro, um militar reformado com ambições políticas, torne-se presidente do Brasil

As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

AS DUAS MORTES DE JAIL BOZONARO

.
A placa na estrada nos avisa que logo chegaremos ao nosso destino, a cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Eu dirijo o carro, e Kátia, minha namorada está comigo. Ela é fotógrafa e fará as fotos da entrevista para a matéria que estou escrevendo para uma revista. Olho para ela e percebo sua apreensão. É compreensível, afinal é a primeira vez que fotografará um assassino.

– Está com medo, meu amor?

– Um pouco… – ela responde, forçando um meio-sorriso. Em seu colo, repousa sua bolsa com os equipamentos.

– Relaxe. Ele ficou muito tempo numa prisão. Certamente, não deve estar com vontade de voltar.

Kátia fecha os olhos por alguns segundos e solta um forte espirro.

– Saúde! – eu digo, oferecendo-lhe a caixinha de lenços de papel.

– Obrigado. Acho que vou gripar.

Ela assoa o nariz com o lenço e o deposita no saquinho que serve de lixeira.

– Leandro, você acha que ele é louco?

Demoro um pouco a responder. É exatamente sobre isso que eu matutava momentos antes.

– Não sei.

O homem que iremos entrevistar cometera um assassinato vinte anos antes, em 1990, na cidade do Rio de Janeiro, e, por ter sido diagnosticado como portador de transtornos mentais, foi considerado inimputável e enviado a um manicômio judiciário, onde ficou por vinte anos. Eu o conheci lá, um ano atrás, quando entrevistava alguns internos para uma matéria. Ele veio espontaneamente falar comigo, perguntou se eu era jornalista e, após minha confirmação, disse que quando estivesse em liberdade, o que ocorreria em alguns meses, gostaria de me contar sobre seu caso. Dei-lhe meu número de telefone e pedi que entrasse em contato. Naquele momento, ele não me pareceu ser louco, mas um homem calmo e equilibrado. Então, dois meses atrás, ele me telefonou e marcamos um encontro. Aproveitei esse tempo para estudar seu caso e li todo o processo.

– Ainda acho que você deveria ter me contado que viríamos encontrar um assassino.

– Se eu contasse, Kátia, você não estaria agora comigo – respondo e belisco sua bochecha para ajudá-la a relaxar.

– O que você vê de tão interessante no caso dele?

– Seu depoimento é muito curioso e o caso tem algumas inconsistências. Em nosso encontro no manicômio, ele me falou que contaria toda a verdade.

– Espero que essa entrevista passe bem rápido.

– Fique tranquila, meu amor. Todos com quem falei na administração do manicômio me garantiram que ele é de índole pacífica e que sempre se comportou muito bem durante sua estadia lá.

Entramos na cidade e logo chegamos ao endereço, num bairro periférico. Paro o carro em frente ao portão da casa e, no jardim, uma mulher de meia idade nos espera. Ponho a cabeça para fora da janela, para que ela me veja. Ela acena, sorridente, e abre o portão.

– A senhora deve ser a dona Marisa – digo, após parar o carro e descer.

– E você deve ser o Leandro – ela responde, simpática, ajeitando o cabelo solto. Veste um vestido simples vermelho e calça chinelo de dedo. Parece ser uma mulher elegante.

– Sim, e ela é a Kátia, nossa fotógrafa.

– Sejam bem-vindos. Adélio está esperando por vocês. Venham, por favor.

Seguimos Marisa pelo jardim, por um caminho de pedrinhas entre a grama. É um terreno pequeno, com a casa ao centro. Muitas árvores e plantas de folhas coloridas, com borboletas saltitantes a alegrar ainda mais a paisagem. Deve ser um lugar gostoso para se viver, longe da confusão das grandes cidades. Olho para Kátia e ela parece mais relaxada, admirando a beleza do lugar.

Passamos por uma varanda e entramos na sala. Ao nos ver, Adélio caminha até nós, sorridente. Está descalço e vestido com bermuda e camiseta brancas.

– Leandro! Bom ver você novamente.

– Igualmente, seo Adélio. Esta é Kátia, minha namorada.

– Muito bom gosto você tem, rapaz.

– Ela também tem bom gosto – diz, por sua vez, Marisa, e todos rimos.

– Sentem-se, fiquem à vontade. Se quiserem usar o banheiro, é aquela porta. Aceitam algo para beber?

– Água, por favor – respondo, e Kátia pede o mesmo.

Enquanto Marisa vai à cozinha, eu e Kátia nos sentamos no sofá, e Adélio numa das poltronas. A decoração da casa é simples e o ambiente é aconchegante. À minha frente, está um simpático senhor de sessenta e quatro anos, alto e forte, que durante os últimos vinte anos viveu internado num manicômio, sob tutela do Estado, e que há dois meses foi desinternado para ser reintegrado à sociedade. Parece bem de saúde, e movimenta-se com tranquilidade.

De repente, um gato preto salta sobre a poltrona vazia e me assusto. Adélio ri, e Kátia também.

– Essa aí é a Amanda. Veio lhes dar as boas-vindas.

– É linda – diz Kátia, admirando o bichano.

– Não se preocupem, ela é mansinha. Vai ficar um tempo aqui e depois irá para o jardim caçar borboletas. Não me alegra a morte das borboletas, mas procuro me consolar imaginando que elas já morreram uma vez, quando eram lagartas, e talvez estejam acostumadas.

Marisa chega trazendo uma bandeja com três copos e uma jarra com água, e a põe sobre a mesinha de centro, sentando-se em seguida na poltrona. Amanda se acomoda em seu colo. Retiro da mochila o gravador e um caderno.

– Acho importante dizer, inicialmente – Adélio fala –, que Marisa e eu não nos importamos se as pessoas vão acreditar ou duvidar da nossa história. Decidimos contar porque achamos que ela pode ser útil para o mundo em que vivemos.

– Perfeitamente – digo, sentindo a solenidade emanada por suas palavras. – Gravarei nossa conversa e, enquanto conversamos, Kátia fará algumas fotos. Podemos começar?

– Antes, me digam, por favor, em que ano vocês nasceram – pede seo Adélio.

– Nasci em 1970 – respondo eu.

– No auge da ditadura militar.

– Sim. Escapei por pouco de seus horrores.

– Sorte sua.

– Eu sou de 1979 – responde Kátia.

– Ano em que o Pink Floyd lançou The Wall.

– Gosto muito deles.

– Não liguem – comenta Marisa. – É mania de historiador.

– Bem, agora que finalmente conheço vocês, acho que estamos prontos – Adélio diz, piscando o olho para a esposa.

Ligo o gravador sobre a mesinha e posiciono o caderno em meu colo.

– Seo Adélio, por que o senhor matou o vereador Jail Bozonaro?

Adélio ajeita-se na poltrona, junta os dedos das mãos pelas pontas, cada dedo com o seu correspondente da outra mão, e fecha os olhos. Respira algumas vezes. Penso que talvez ele esteja se concentrando para reavivar as memórias ou selecionando o que exatamente irá me contar. Olho para Marisa, que olha para mim e sorri, fazendo um gesto para eu aguardar. Um minuto depois, Adélio abre os olhos e pergunta:

– Estamos em que ano?

– Estamos em 2010, meu amor – Marisa responde, como se já aguardasse pela pergunta. E, olhando para mim e Kátia, fala baixinho: – É assim mesmo, ele está bem.

– Sim, 2010… – prosseguiu Adélio, agora olhando para o jardim pela porta aberta – Naquele tempo, 1988, Marisa e eu éramos um casal de namorados com a idade de vocês dois. Morávamos juntos, no Rio de Janeiro. Eu era professor de História em cursinho de pré-vestibular e ela era assistente social. Eu já era louco por ela, como sempre fui.

– E eu por ele – Marisa emenda.

Eles se olham com carinho e sorriem. A relação deles parece ser bastante harmoniosa.

– Numa certa noite, Marisa me acordou no meio da madrugada porque eu estava chorando. Eu havia tido um pesadelo. Nele, eu estava no Brasil, trinta e quatro anos depois, em 2022.

– O senhor sonhou que estava no futuro? – perguntei, enquanto Kátia buscava novos ângulos para suas fotos.

– Podemos chamar de sonho, mas era real. Eu acessei o futuro. Eu, realmente, estava lá.

Adélio fica olhando para mim, com uma expressão de quem diz algo óbvio. Fico um pouco desconcertado.

– Não se constranja, por favor. Sei perfeitamente que o que conto é muito estranho. Você tem todo o direito de achar que foi apenas um sonho.

Sorrio, e me ajeito no sofá, atento.

– Eu estava no futuro, mas naquele momento, era o presente, e eu me sentia absolutamente lúcido. Naqueles dias, em 2022, o Brasil vivia uma situação terrível. Um vírus surgido na China se alastrara em poucas semanas pelo mundo inteiro, contaminando milhões de pessoas e afetando a economia de todos os países. No Brasil, o sistema de saúde, tanto o público como o privado, entrou em colapso, sem conseguir atender os doentes. Um milhão já haviam morrido.

– No mundo?

As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

– Apenas no Brasil. A doença foi batizada de covid-19, e matava em poucos dias. No Brasil, o enfrentamento da pandemia foi prejudicado pela negligência do governo federal, que se preocupou mais com a economia que com a vida das pessoas, e temia que medidas rígidas de isolamento social, como foram feitas na Europa, prejudicassem as atividades econômicas. Por incrível que pareça, o governo assumiu a postura de negacionista do vírus, surpreendendo o mundo. Alguns governos estaduais se contrapuseram ao governo federal e insistiram nas medidas, instituindo quarentenas, fechando o comércio e obrigando o uso de máscaras higiênicas, e as duas posições antagônicas confundiram a população. A maior parte desaprovava o governo e apoiava as medidas rígidas, mas os que não apoiavam, geralmente da classe empresarial, sabotavam como podiam os esforços dos governadores e prefeitos, para que a população se revoltasse contra eles. Como você pode ver, era um sonho muito detalhista.

– Sim, bastante… – concordo, e realmente estou surpreso com tantos detalhes. – Prossiga, por favor.

– Além da crise sanitária, havia também a crise econômica, que perdurava havia alguns anos e se agravara com a pandemia. Como se não bastasse, o país vivia uma forte crise política, com um governo de extrema-direita de orientação fascista, militarista e evangélica, que fora eleito numa eleição que se revelaria fraudada e que agora aparelhava ideologicamente o Estado para corroer, dia após dia, as bases da democracia no país. O governo tinha o apoio do capital financeiro, das grandes igrejas evangélicas e de parte das polícias estaduais, e, apostando no caos institucional, buscava armar a população para poder contar com milícias organizadas em sua defesa. Aliado incondicional de Estados Unidos e Israel, e se inspirando em governos autoritários de direita, o governo contrariou a tradição diplomática brasileira e rompeu com a ONU, a OMS, os BRICS, o Mercosul, a Unasul, o Vaticano, os árabes e os chineses. O governo perseguia implacavelmente os opositores, e vários políticos, artistas, cientistas e intelectuais se viram forçados a sair do país, temerosos por sua segurança. Os partidos de oposição tentavam reagir, o poder judiciário freava como podia os ímpetos autoritários do governo e a imprensa se dividia entre críticas ao autoritarismo e apoio às medidas econômicas ultraliberais que tiravam direitos dos trabalhadores e devastavam a Natureza em nome da exploração comercial.

– Desculpe interromper, seo Adélio… – falo, procurando não ser ríspido – Talvez estejamos desviando da minha pergunta.

– Pelo contrário, estou indo direto ao ponto – ele rebate, piscando um olho para a esposa.

– Acho até que você está sendo conciso demais – ela concorda, sorrindo para o marido, e por um instante tenho a impressão de que brincam comigo.

– O presidente, um ex-militar que quase fora expulso do Exército, se dizia enviado por Deus para liderar o Brasil. Ele e seus três filhos políticos, que agiam como ministros tresloucados, eram defensores da ditadura militar, idólatras assumidos de torturadores assassinos e propagavam teorias paranoicas anticomunistas. Posavam para fotos com armas e praticavam discursos de ódio, incitando seus apoiadores contra as instituições e os opositores, e mantendo-os atiçados para irem às últimas consequências na defesa do governo, que contava com uma rede de distribuição sistemática de mentiras e notícias falsas. A situação do Brasil se tornara grotesca e surreal.

Adélio faz uma pequena pausa e esfrega o rosto com as mãos.

– Finalmente – ele retoma a história –, as reações se tornaram mais articuladas: muitos apoiadores do governo se afastaram e aumentaram as cobranças para punição aos crimes cometidos pelo presidente e seus filhos, que eram a cada dia mais evidentes, e eles foram denunciados. Com o cerco se fechando, o presidente tentou um golpe com apoio da ala militar de seu governo e as polícias milicianas dos Estados. O alto escalão das Forças Armadas não o apoiou e ele se refugiou no Palácio do Planalto com um grupo de apoiadores. Uma situação absurda, que escandalizou o mundo. Enquanto isso, nas cidades do país inteiro, grupos pró e contra o governo brigavam nas ruas. O Brasil mergulhara numa convulsão social.

Adélio faz outra pausa. Olho para Kátia e ela está sentada no braço do sofá, atenta ao relato.

– O presidente se chamava… Bozonaro.

– Jail Bozonaro – completa Marisa.

Finalmente, penso eu. Parece que chegamos ao ponto central da questão.

– Bozonaro resistiu, mas vendo que seria preso e julgado até por crimes contra a humanidade, preferiu o suicídio, atirando na cabeça. Mas, antes, matou a esposa. Morreu com uma arma na mão e a bíblia na outra.

Adélio para de falar e toma um gole dágua. Há um certo peso no ar.

– E a pandemia? – indago.

– Levaria muito tempo para ser totalmente controlada, pois sempre surgiam novas ondas que obrigavam a novas medidas para contenção. Foi uma imensa tragédia, que aumentou a distância entre ricos e pobres, mas que fatalmente faria a humanidade repensar muitas coisas, como a questão ecológica, os sistemas de saúde e seguridade social, as relações de trabalho, as leis de mercado…

– E vocês?

– Marisa e eu éramos um casal de velhinhos saudáveis, sem filhos, que gostava de passear na praça ao entardecer e de tomar vinho na varanda admirando as estrelas. Mas, agora, a vida se resumia a se proteger da pandemia e do caos social. Agora, o que víamos eram os confrontos nas ruas, muito desespero. Um dia, passou em frente ao nosso prédio uma carreata de apoio a Bozonaro, com muitas pessoas armadas, e um homem com a camisa da seleção brasileira de futebol deu vários tiros para o alto. Um deles atingiu Marisa, que estava na varanda. Foi assim que perdi minha companheira.

– Ela morreu? – Kátia pergunta, curiosa.

– Com os hospitais lotados, morreu no mesmo dia. Tinha sessenta e quatro anos. A idade que tenho hoje.

Eu quase digo um “sinto muito”, de tão envolvido que estou na história. Olho para Kátia e vejo que ela também está impactada.

– A vida para mim se tornou uma tristeza sem fim. Agora, estava sozinho para enfrentar os perigos da pandemia, sem família ou amigos por perto, mas o mais difícil era suportar o sofrimento de não ter mais Marisa comigo. Já não via sentido em continuar vivo. Marisa e eu ainda tínhamos um futuro juntos pela frente, e agora ele de repente não existia mais, um tiro acabou com ele…

Ele interrompe a fala. Parece emocionado.

– Então, uma noite, despertei de madrugada. Estava chorando, e entendi que chegara a minha hora. Fechei os olhos e, enquanto aguardava, pensei que se fosse possível ter de volta minha Marisa, eu faria o que tivesse que fazer para que isso acontecesse. Morri com esse pensamento.

Um silêncio estranho desce sobre nós todos. No colo de Marisa, Amanda mia baixinho, salta para o chão e vai para o jardim.

– Certo, morreu no sonho – comento, para que eu mesmo não me perca no relato.

– Sim, e acordei em 1988, ao lado de Marisa. Estava chorando, ainda envolvido por aquela imensa tristeza… E impressionado com o sonho, os detalhes…

– Ele ficou mudo por três dias – interrompe Marisa, rindo. – Quando tentava falar, desistia, e só dizia assim: Meu amor, você está aqui…

– Sim. O sonho foi tão forte que eu tinha medo de contá-lo, para não reviver aquela tristeza horrível que era a ausência de Marisa. Além disso, havia a angústia pela situação do país, o sofrimento do povo com a pandemia, todo o caos social… Então, de repente, compreendi que eu havia, de fato, acessado o futuro. Compreendi que naquela noite eu vivi no Brasil de 2022. Eu estive no fundo do poço da história brasileira.

– Seo Adélio… – prossigo, dividido entre seguir com o roteiro da entrevista e saber mais sobre o Brasil de 2022 – Esse seu sonho é muito interessante. Do ponto de vista ecológico, por exemplo. Ano passado, tivemos a gripe suína, e antes, em 2002, tivemos a SARS. Na minha opinião, é óbvio que o comportamento antiecológico da nossa espécie tem causado essas epidemias e talvez surja uma outra em breve, ainda mais perigosa. Mas nem imagino como é viver num cenário de pandemia como esse que o senhor sonhou.

– Em países ricos, com população bem informada, já é desesperador, mas em países como o Brasil, com grande desigualdade social, é ainda mais difícil. Porém, aprendi coisas importantes. Se aceitar, posso dar um conselho.

– Aceito, sim.

– Não se apegue ao que não é importante. Quando a vida que tínhamos, de repente não temos mais, e qualquer um pode morrer a qualquer momento, tudo vira supérfluo, menos o que é realmente fundamental.

– Entendi. Obrigado.

Por um instante, penso no que pode ser realmente fundamental em minha vida. Mas a entrevista tem que seguir.

– Voltando ao que eu estava dizendo… – continuo. – Do ponto de vista político, longe de mim desmerecer a experiência que o senhor teve nesse sonho, mas acho improvável que cheguemos, no Brasil, a uma situação assim tão catastrófica, um governo de extrema-direita, neofascista, violento…

– Eu estive lá, Leandro.

Tomo fôlego para prosseguir em minha argumentação. Não é fácil conversar com alguém que tem certeza de que já viveu no futuro.

– Sei que nossa democracia não é perfeita, seo Adélio, e temos muito a melhorar, mas, sinceramente, não vejo tal risco no horizonte.

– A chegada de Bozonaro à presidência não se deu de um dia para o outro. O ovo da serpente foi gerado por um conjunto de fatores que se avolumaram durante anos, incluindo a pusilanimidade das instituições diante dos avanços antidemocráticos. Anos antes, a banda podre do Congresso, usando de ardilosos malabarismos jurídicos e interessada apenas em vantagens pessoais, afastou a presidenta e isso rompeu o contrato da normalidade democrática, abrindo caminho para toda sorte de oportunismos extremistas. Bozonaro era a face brasileira de um fenômeno que ocorria também em outros países. Era o fascismo tentando ressuscitar, aproveitando-se das falhas da democracia em sua lida com os problemas do mundo.

Aproveito a pausa para beber água. Adélio relata os acontecimentos como se, de fato, os houvesse vivido, e sei que devo respeitar sua experiência, seja ela um mero sonho ou algo mais.

– Kátia e Leandro… – ele retoma sua fala, olhando para mim e minha namorada – O fascismo é um fenômeno histórico do século 20, mas suas ideias vivem na alma humana. É lá, nas sombras, que o fascismo aguarda, sorrateiro, pela situação propícia, com predileção pelas crises econômicas e políticas, esperando pelo messias que o representará. Ele é mutante e sutil, sabe se adaptar aos novos tempos. Suas ideias seduzem porque são simplistas, reluzem como um elixir mágico para os problemas, e legitimam todos os ódios e preconceitos latentes que, numa democracia, não têm espaço para se manifestar. Por natureza, ele é a antipolítica, pois despreza o diálogo e só entende a disputa pela ótica da violência. Nunca subestimem o fascismo. Ele está entre nós, agora mesmo, se espalhando pelas mentes suscetíveis, como um vírus.

– O senhor é historiador, seo Adélio, respeito muito seu conhecimento. Só acho que nossas instituições já amadureceram o suficiente para não permitir que a democracia retroceda a tal ponto. Mas sei dos perigos do fascismo, claro que sei.

– Eu também achava que sabia.

O olhar sério de Adélio me incomoda. Ele continua:

– O fascismo é como uma epidemia. Tudo o que fizermos antes para preveni-lo soará como exagero, e tudo que fizermos depois será tarde demais.

Na sala, fica um silêncio um tanto constrangedor. Desvio meu olhar para minhas anotações.

– Pronto, já dei minha aula de hoje – Adélio brinca, diminuindo a tensão no ar.

– Se deixar, ele vai até amanhã – Marisa emenda, dando uma boa risada.

– Foi uma aula curta e precisa, obrigado – comento, mais descontraído.

– Sim, foi ótima! – Kátia também reconhece.

– Mas precisamos seguir em frente com a entrevista, não é?

– Por favor, seo Adélio.

– Onde estávamos?

– Em 1988 – Marisa acode o marido nas lembranças.

– Sim – ele fala, ajeitando-se na poltrona e direcionando novamente o olhar para o jardim. – Uma semana depois, consegui contar o sonho para Marisa. Contei tudo, todos os detalhes, e ela ficou bastante impressionada. Quando terminei, nós dois chorávamos, eu pela dor de ter perdido minha grande companheira, com quem vivi por quarenta anos, e ela por ter me deixado sozinho naquele apocalipse. Então, tivemos medo, muito medo, do futuro. Eu sabia que ele chegaria, trazendo todo aquele pesadelo social e político, todas aquelas mortes que poderiam ter sido evitadas… Não posso explicar essa certeza, só posso dizer isso: eu sabia. Aquele futuro chegaria, e nem eu e nem Marisa queríamos vivê-lo.

As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4a

– A senhora acreditou na experiência que ele teve? – pergunto, curioso sobre o modo como Marisa compreende tudo aquilo.

– Sim. Eu vi em seus olhos que era tudo verdade.

– Ainda acredita?

– Mais do que antes – ela responde. Seu olhar encontra o de Adélio e eles sorriem. Parecem dois ímãs a se atrair onde quer que estejam.

– O que aconteceu depois, seo Adélio?

– Sentimos que deveríamos fazer algo para evitar aquele futuro cheio de trevas. Mas o quê, exatamente? Então, um dia, lendo o jornal, vimos uma notícia sobre Jail Bozonaro, um capitão reformado do Exército que era candidato a vereador no Rio de Janeiro. E a ficha caiu: ele representava o sinistro futuro. Por causa dele, duas décadas depois, o Brasil viveria uma imensa tragédia política e social. E por causa dele, Marisa e eu não envelheceríamos juntos.

– Vocês já o conheciam?

– Um pouco. Dois anos antes, em 1986, Bozonaro escrevera um artigo na revista Veja no qual reclamava melhores salários para a classe militar e isso lhe dera certa popularidade entre as baixas patentes. Porém, isso lhe valeu quinze dias de prisão. Depois, envolveu-se em outro caso de insubordinação, dessa vez com planos de atentados com bombas em dependências do Exército e numa adutora de água que abastece a cidade do Rio de Janeiro. Ele foi julgado por um tribunal militar e absolvido, mas o caso não ficou bem esclarecido. Após isso, foi para a reserva com a patente de capitão.

– Um capitão do Exército terrorista?

– Sim. Infelizmente, as escolas militares formam muitos deles, e não apenas no Brasil – Adélio responde. Toma mais água e continua. – Bozonaro era casado e tinha três filhos pequenos, todos homens. Então, fingi ter interesse em ajudá-lo em sua campanha eleitoral e ele me falou de suas ideias e me entregou folhetos de campanha. A impressão inicial que tive dele foi a de um indivíduo de personalidade forte e agressiva, com rígidos valores morais conservadores e com ideias políticas um tanto confusas. E me chamou a atenção o seu espírito ambicioso e determinado.

– Ele não desconfiou de nada?

– Desconfiava de todos, tinha certa mania de perseguição. Mas consegui levar o plano adiante. Pouco antes das eleições, pedi uma reunião com ele, a sós, e nela falei que tivera uma visão de seu futuro. Falei que se ele seguisse a carreira política, seria vereador e deputado federal, e que sua atuação seria medíocre, mas que, mesmo assim, ele seria eleito presidente da República. Falei do atentado que ele sofreria, e que quase o mataria. Falei que ele teria seguidores fanáticos que o veriam como a um messias, mas seria considerado uma aberração pela comunidade democrática internacional. Falei do quanto ele atacaria os grupos sociais vulneráveis e do quanto contribuiria para a destruição da Natureza em nome de sua exploração comercial. Falei também sobre sua péssima atuação na pandemia de covid-19 e que seria responsabilizado pela morte de milhares de pessoas. Falei sobre seu fim terrível, com muito sofrimento para ele e sua família.

– Ele não o interrompeu?

– Não. Escutou a tudo atento. Porém, enquanto eu falava, percebi que seus olhos brilhavam e tive medo de que tudo aquilo, em vez de lhe provocar repulsa ou medo, na verdade pudesse agradá-lo. O certo é que Bozonaro ficou encantado com tudo que o futuro lhe reservava. Hoje, sei que eu estava diante de um sádico psicopata, capaz de fazer tudo aquilo que o futuro me mostrou que ele faria. Ao fim, pedi que pensasse seriamente a respeito e avisei que estava abandonando a campanha. E saí da sala.

– Pelo jeito, ele não seguiu seu conselho.

– Não. Quando soubemos que manteve a candidatura, Marisa e eu ficamos muito tristes. Todo o nosso esforço foi em vão.

– O senhor não teve medo dele lhe fazer algo?

– Consideramos essa hipótese. Tanto que nunca lhe informei meus dados verdadeiros. Sumi da vida dele tão rápido quanto me aproximei.

Aproveito que Adélio acaricia Amanda, que voltou do jardim, e faço anotações no caderno. Eu achava que, nessa altura da entrevista, teria uma boa noção sobre a saúde psíquica do meu entrevistado e saberia dizer se ele era louco ou não. Mas me enganei. Ainda não sei o que concluir. Em meu trabalho de jornalista estou acostumado com relatos estranhos e alguns totalmente fantasiosos, mas, apesar de parecer filme de ficção científica, a história de Adélio está me parecendo sincera. Pelo menos até agora.

Eu pesquisei sobre o vereador assassinado. Jail Bozonaro tinha um perfil conservador, e nos dois anos em que atuou na Câmara foi pouco participativo. Usou o mandato, principalmente, em pró de causas militares. Tive acesso a documentos do Exército, feitos na década de 1980, que mostram que os superiores do então tenente Bozonaro o avaliaram como sendo dono de uma “excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente”. Um coronel, seu superior na época, afirmou que Bozonaro “tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”. Portanto, o que Adélio falou a respeito da personalidade do capitão parece concordar totalmente com a opinião dos seus superiores militares.

– Marisa e eu analisamos a situação – Adélio prossegue – e percebemos que fomos ingênuos em nossa estratégia. Os argumentos que usei, em vez de fazê-lo desistir de seguir a carreira política, provavelmente serviram como combustível. Então, decidimos que mudaríamos o futuro de outra forma e começamos a nos programar para viver fora do Brasil. Se não podíamos evitar aquele futuro terrível para nosso país, ao menos podíamos estar longe quando acontecesse. Estudamos possibilidades em vários países, mas dois anos depois, em 1990, quando soubemos que Bozonaro se candidatara a deputado federal, desistimos.

– Por quê?

– Porque entendemos que seria egoísmo de nossa parte. O sonho havia deixado em nossas mãos uma missão. Ele havia nos revelado o futuro para que pudéssemos mudá-lo, e nós não tínhamos o direito de fugir dessa responsabilidade, mesmo que fosse para proteger o nosso futuro particular.

Uma missão… É um termo comum no discurso de muitos loucos. Eles se consideram predestinados a realizar algo importante para seu povo, para a humanidade, ou para o deus em que acreditam. Nas entrevistas que fiz no manicômio em que Adélio esteve, ouvi esse termo de alguns internos.

– Então, pensamos num novo plano – ele continua. – Dessa vez, estudamos os hábitos de Bozonaro e analisamos com atenção sua agenda de compromissos. Descobrimos que ele marcava encontros secretos no Hotel Brilhante, no centro da cidade. Chegava sozinho, pegava a chave do quarto na recepção e subia, sempre no décimo sétimo andar. Nossa primeira suspeita foi de que se tratava de negócios ilegais, mas depois desconfiamos que ele poderia ter uma amante.

– Vocês descobriram isso sozinhos ou contrataram um detetive?

– Achamos arriscado envolver outras pessoas naquilo. Então, fizemos tudo nós dois. E decidimos nós mesmos registrar as imagens. Nosso plano consistia numa chantagem: ou ele desistia da candidatura a deputado federal ou nós enviaríamos o material para a imprensa. Bozonaro planejava eleger a esposa como vereadora nas eleições de 1992. Se fosse eleito deputado federal, isso ajudaria nos planos dele. Um escândalo de traição conjugal naquele momento, sendo ele o moralista cristão que era, poderia lhe custar a eleição e até mesmo o casamento.

– Mas mesmo que ele concordasse, poderia se candidatar nas eleições seguintes, e assim seguiria normalmente na carreira política.

– É verdade. Mas nossa ação poderia ser o suficiente para alterar o futuro.

Que história louca…, eu penso. Agora, ela já parece um filme de suspense policial. Será tudo um grande delírio? Será Adélio tão criativo a ponto de inventar tudo isso que me conta? Bem, ele ficou vinte anos preso, é tempo suficiente para criar muitas histórias, com infinitos detalhes. E Marisa? Se ele é louco, o que dizer dela? Todas essas ideias me passam pela mente ao mesmo tempo, mas sei que preciso estar atento ao relato.

– Então, soubemos que Bozonaro se hospedaria novamente no Hotel Brilhante – Adélio retoma a narrativa. – Dessa vez, Marisa e eu decidimos nos hospedar lá também. Era véspera do feriado de Sete de Setembro. Chegamos de manhã. À noite, na hora de sempre, Bozonaro chegou, pegou a chave do quarto e tomou o elevador para o décimo sétimo andar. Marisa, que aguardava na recepção, fez uma ligação para o nosso quarto, no mesmo andar. O telefone tocou apenas uma vez, era o sinal. Saí do quarto e fui até o vaso de plantas que ficava no fim do corredor, próximo à porta do quarto que ele reservara.

– Que quarto era?

– Acho que… 1709.

– Sim, era o 1709 – confirmou Marisa. – E nós estávamos no 1701. Ambos ficavam nas pontas do corredor. E o elevador ficava no meio.

Anoto os números no caderno. Mas sei que ela fala a verdade.

– A câmera filmadora já estava lá no vaso – prossegue Adélio –, camuflada entre as folhas, devidamente posicionada para a porta do 1709. Pressionei o botão e ela começou a filmar. Corri e entrei no quarto. Como não havia câmeras de vigilância nos corredores, pude agir tranquilamente. Meia hora depois, o telefone tocou outra vez. Então, abri um pouco a porta do quarto e ouvi a porta do elevador se abrindo. Espiei com cuidado e vi uma mulher caminhando pelo corredor, de costas para mim e de frente para a filmadora. Lembro bem do som de seus saltos no chão, poc, poc, poc… Não consegui ver bem seu rosto, mas era ruiva e alta, e usava um minivestido preto. Imaginei que pudesse ser uma prostituta. Ela passou pela porta do 1709 e se aproximou do vaso de plantas. Tive medo de que ela houvesse visto a filmadora, mas o que ela queria era jogar algo na lixeira, talvez um chiclete. Após isso, ela voltou, foi até a porta do 1709, bateu e esperou. A porta se abriu e ela entrou. Logo depois, surgiu a cabeça de Bozonaro, ele olhando para um lado e para o outro do corredor, certificando-se de que ninguém havia visto nada. Pensei comigo: perfeito.

De fato, é uma história muito interessante, eu penso enquanto Adélio bebe um pouco dágua. E, como li o processo e sei de alguns detalhes do que aconteceu aquela noite, fica mais interessante ainda, pois posso acompanhar o relato e, ao mesmo tempo, compará-lo com as informações oficiais. Até agora, tudo se encaixa perfeitamente.

– Peguei a filmadora e fui para o quarto e, logo depois, Marisa chegou. Vimos as imagens com atenção e ela também achou que era uma prostituta. Fosse ou não, consideramos que já tínhamos o material que precisávamos. Como ficaríamos no quarto até a manhã seguinte, agora era hora de relaxar. Abri a janela do quarto para podermos respirar o ar da noite e fui tomar banho. Pouco tempo depois, escuto uma voz de homem. Era ele, Bozonaro. Do lado de fora da janela, no parapeito que circundava o prédio, ele apontava uma arma para Marisa. Nesse momento, eu já havia desligado o chuveiro e fiquei escutando em silêncio, apavorado e calculando como agir.

– E a visitante?

– Ele a mandara embora. Provavelmente, foi ela quem o avisou sobre a filmadora no vaso de plantas.

– Ele entrou e me mandou sentar na cama – Marisa segue com o relato, revelando sua visão dos fatos. – Estava espumando de ódio, os olhos vermelhos, e seu hálito cheirava a bebida. Com a pistola apontada para mim, falou assim: “Não conheço aquela travesti, ela errou de quarto, tá ok, tá ok?”. Disse e repetiu várias vezes. Depois, perguntou quem havia me contratado, citando alguns nomes.

– Que nomes ele falou?

– Não lembro, eu estava muito nervosa. Só pensava em Adélio e torcia para que ele continuasse quieto no banheiro, pois temia que Bozonaro o matasse.

– Também não lembro – Adélio emenda. – Certamente, eram adversários políticos. Mas como ele tinha mania de perseguição, podia ser qualquer pessoa.

– Sem saber o que dizer, falei que fui contratada pela esposa dele – continua Marisa. – Ele pareceu ficar confuso. Então, pegou a filmadora e a minha bolsa e disse que se eu contasse a alguém sobre aquela noite, mandaria me matar. Pensei que sairia pela porta, mas ele parou e me olhou de um jeito estranho. E me mandou tirar a roupa e ficar nua. Achei melhor fazer o que ele queria. Porém, ele desistiu, e disse que eu era muito feia, que não merecia ser estuprada. Quando tocou a maçaneta para sair, viu as roupas de Adélio e perguntou se havia alguém no banheiro. Respondi que estava sozinha. Ele foi até o banheiro e tentei impedi-lo, e caímos sobre a cama. Nesse momento, Adélio saiu e se jogou sobre ele.

– Ele o reconheceu, seo Adélio?

– Não nesse momento – responde Adélio, retomando a narrativa. – No meio da briga, consegui pegar a pistola e o golpeei na cabeça. Ele cambaleou e ficou encostado na parede, tonto, com a cabeça sangrando. Apontei-lhe a arma, falei quem eu era e disse que não queríamos matá-lo, apenas propor um acordo. Ele riu com sarcasmo e disse que ninguém o impediria de cumprir seu glorioso destino, que Deus o escolhera para guiar o Brasil. Então, virou-se e passou uma perna para fora da janela. Marisa e eu nos olhamos, nervosos, sem saber o que fazer. Ele passou a outra perna e ficou lá, do lado de fora, de pé no parapeito. Falei para ele que entrasse, pois podia cair, mas ele respondeu fazendo um gesto com os braços, me dando uma banana, e saiu caminhando pelo parapeito na direção de seu quarto. Nós vimos tudo da nossa janela. Ele parou na janela do 1709, ficou imóvel por alguns segundos e, em seguida, despencou no vazio. Foi horrível.

Adélio para de falar. Agora, olha novamente para o jardim. Sua expressão é calma e suas mãos estão juntas novamente, as pontas dos dedos se tocando. Marisa se levanta, posta-se ao lado dele e toca delicadamente seu ombro. Olho para Kátia, que olha para eles aparentemente impressionada.

– Você me disse que leu o processo – diz Adélio, agora olhando para mim. – Está tudo lá.

– Sim. O corpo dele foi encontrado logo depois no pátio dos fundos do prédio – falo, expondo o que sei. – Como a janela do 1709 estava aberta, a polícia suspeitou logo da travesti, que ela o teria empurrado pela janela. Porém, nunca conseguiu localizá-la, nem descobriu seu nome verdadeiro, apenas o nome que deixou no registro da recepção: Zarla Cambelli, que ela, provavelmente, não mais usou. Dias depois, o senhor se apresentou à delegacia com a pistola de Bozonaro e contou que veio do futuro com a missão de evitar que ele se tornasse presidente do Brasil, e sustentou isso por todo o processo. Dona Marisa confirmou sua versão e chegou a ser considerada suspeita, mas não havia provas contra ela. O senhor realmente achava que havia matado Bozonaro? Ainda pensa assim?

– Não sabemos se ele perdeu o equilíbrio ou se ele se atirou, nem jamais saberemos o que pensou em seus últimos momentos. Talvez o golpe na cabeça o tenha feito se desequilibrar, ou talvez não. De todo modo, a sensação de culpa me atormentava, e foi por isso que me entreguei à polícia.

As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4aAnoto a palavra “suicídio” e penso na relação entre as mortes de Bozonaro. No sonho de Adélio, ele, derrotado, se mata com um tiro na cabeça. Na vida real, ele é golpeado na cabeça e cai do alto de um prédio. Do alto de suas ambições políticas…

– O que fizeram com a filmadora e o filme?

– Destruímos.

– O senhor foi diagnosticado como sendo portador de transtornos psicológicos, e por isso considerado inimputável. Ficou por vinte anos num manicômio judiciário. Como foi essa experiência?

– Não foi fácil. Precisei conviver diariamente com pessoas com muitos sofrimentos mentais e existenciais. Vivi, na própria pele, a imensa dificuldade que a sociedade tem de lidar com aquilo que ela não compreende. Mas tive o apoio de Marisa, que nunca faltou nos dias de visita.

Neste momento, por trás do casal, Kátia os fotografa: Adélio sentado na poltrona e Marisa em pé ao seu lado, a mão em seu ombro, a silhueta deles contra a luz que vem da porta aberta, e ambos a olhar na direção do jardim lá fora… Acho que será uma bela foto.

– E para a senhora, dona Marisa, como foi?

– Ele sofreu muito mais do que eu naquele lugar.

– Claro que não – rebate Adélio. – Ela chorava todos os dias.

– Vamos morrer bem velhinhos, discordando – brinca Marisa, e em seguida eles se beijam.

– Bem, acho que estou satisfeito – falo, e Kátia me faz um sinal de positivo. – O senhor gostaria de dizer algo mais?

– Sim – responde Adélio. – Você lembra que, quando conversei a primeira vez com Bozonaro, falei que, caso seguisse na carreira política, ele sofreria um atentado que quase o mataria?

– Sim, lembro.

– Foi durante a campanha presidencial. Num comício na rua, um homem o esfaqueou e ele precisou ser operado. As investigações da Polícia Federal concluíram que o homem agiu sozinho, mas ficaram muitas dúvidas, inclusive suspeitas de que o atentado foi forjado. O fato é que isso virou o jogo a favor de Bozonaro, serviu de motivo para ele não comparecer a nenhum debate e foi fundamental para ele vencer as eleições no segundo turno. Sabe como se chamava o homem que o esfaqueou? Adélio.

– Adélio? Tinha o mesmo nome do senhor?

– Sim.

Penso um pouco. O que isso pode significar?

– Coincidência? – pergunto.

– Não sei. Assim como eu, ele também foi considerado inimputável por ter transtornos mentais. Mas há algumas diferenças entre ele e eu. Aquele Adélio foi missionário evangélico e afirmou que agiu a mando de Deus. E eu sou ateu. Ele tentou matar Bozonaro. Em nenhum momento, Marisa e eu pensamos nisso. O que fizemos foi tentar convencê-lo por argumentos e, depois, por chantagem. Se aquele Adélio tentou evitar o futuro tenebroso que se anunciava muito próximo no horizonte do Brasil, seu ato teve o efeito contrário: ele ratificou o futuro. O futuro que eu anulei.

Penso um pouco sobre o que ele acaba de falar. São ideias instigantes.

– E sabe em que cidade ocorreu o atentado? Juiz de Fora.

– Foi por isso que vieram morar aqui?

– Na verdade, conhecemos Juiz de Fora no início do namoro, antes do sonho, e adoramos a cidade. Desde então, planejávamos vir morar aqui. Coincidência? Não sei.

Mais um detalhe intrigante na história… Então, anoto algumas informações no caderno, agradeço e dou por encerrada a entrevista. Em seguida, é servido um café, que tomamos enquanto o casal nos mostra as árvores do terreno, orgulhosos delas. O sol se põe por trás da casa quando deixamos o sítio.

Enquanto dirijo de volta para a cidade do Rio de Janeiro, é impossível não pensar sobre tudo que escutamos naquela sala. Penso que demorarei um bom tempo até chegar a uma conclusão sobre a incrível história de Adélio e Marisa. Ou talvez jamais chegue.

O que Adélio falou sobre o fascismo me deixou com a pulga atrás da orelha, mas continuo achando que uma desgraça daquele tamanho não tem condições de acontecer no Brasil, nem agora em 2010 e nem nos próximos anos. Um governo neofascista de extrema-direita… Não, não mesmo. Pelo menos desse perigo estamos livres.

Porém, quanto a uma pandemia mundial devastadora, acho que, infelizmente, é só uma questão de tempo para acontecer. Espero que quando ela chegar, nosso sistema público de saúde esteja melhor do que hoje e que os políticos e empresários entendam que a economia demora mas se recupera, mas os mortos não ressuscitam.

– Como ficaram as fotos? – pergunto para Kátia, enquanto ela observa no visor as fotos que fez.

– Parecem boas. As fotinhas da Amanda estão ótimas, ela é superfotogênica.

– Você acha que ele é louco, meu amor? – devolvo-lhe a pergunta que ela me fez na ida.

– Claro que não, Leandro. Você acha?

– Não sei.

– Acho que eles são muito lúcidos. E acho que ele acessou mesmo o futuro, e eles conseguiram alterá-lo. Você não acredita?

– Também não sei.

– Pois eu acredito. Naquele futuro de 2022 eles não puderam ficar juntos na velhice, mas nesse eles podem. E numa casinha linda.

– Parece que eles se amam, né?

– Com certeza, e é uma história de amor maravilhosa. Ela esperou vinte anos por ele!

De fato, é algo admirável, penso eu.

– Você faria isso por mim, Leandro?

– Eu?

– Sim, você.

– Sinceramente?

Kátia olha para mim, aguardando a resposta. Eu rio, e aperto sua bochecha.

– Esperei por você durante quarenta anos, meu amor. Vinte a mais não será problema.

Ela ri. E rimos juntos.

Ligo os faróis para enxergar melhor a estrada. Temos um futuro pela frente para nós dois. E quando a pandemia vier, espero lembrar do conselho de Adélio.

.
Ricardo Kelmer 2020 – blogdokelmer.com

.

OBS.: Este conto foi escrito, originalmente, em maio de 2020 para um concurso promovido pela livraria Lello, de Portugal (não foi classificado). Um ano depois eu o reescrevi, com algumas alterações. Qualquer semelhança com a realidade, infelizmente, poderá ser mais que uma trágica coincidência.

.

.

LEIA NESTE BLOG

As duas mortes de Jair Bolsonaro CAPA 4aAs duas mortes de Jail Bozonaro – Após ter uma visão do futuro, Adélio quer impedir que Jail Bozonaro, um militar reformado com ambições políticas, torne-se presidente do Brasil.

No museu da pandemia – Definitivamente, a humanidade fracassou…, ela pensou, triste

Robinho, Bolsonaro, Deus e a cultura do estupro – Culpado por estupro, Robinho diz que Deus está no comando e que fará um gol para homenagear Jair Bolsonaro.

A alma fascista do governo Bolsonaro – Roberto Alvim apenas escancarou a alma fascista do governo Bolsonaro. Mas a alma fascista continua lá

O beijo da resistência contra a besta do fascismo – O fascismo não faz política ‒ ele é a negação da política, pois não dialoga, apenas agride, persegue e censura

.

.

Resistência antifascista

.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.
 
Comentarios01


COMENTÁRIOS


Cristina sem vergonha de ser feliz

16/08/2021

16ago2021

Alegre e festeira, autêntica e de personalidade forte, ela marcou o entretenimento de Fortaleza

Cristina Cabral 20210812 1

CRISTINA SEM VERGONHA DE SER FELIZ

.
Cristina Cabral se foi. Vítima da doença de Parkinson, nos últimos anos isolara-se. Fomos muito amigos e trabalhamos juntos. Baiana arretada e formada em Jornalismo, Cristina morou em São Paulo e, após mudar para Fortaleza, trabalhou como produtora de eventos, tornando-se referência por seu profissionalismo.

Conheci-a em 1999, no inesquecível Luau da Opção (1999-2000) que ela organizava na barraca Opção Futuro, de Carlinhos Aragão, uma festa maravilhosa que chegava a reunir duas mil pessoas num clima alto astral de beira de praia. Também na barraca Opção Futuro, ela produziu aos sábados, no fim de tarde, inesquecíveis shows com Lily Alcalay (falecida em 2003) e Banda Marajazz.

Em 2002 e 2003, fizemos juntos a festa Lua Loka, na barraca Biruta. Em 2008, Cristina produziu na boate do Restaurante Docentes & Decentes (Varjota) algumas edições da festa 30 e Alguns Anos, com a banda Baby Dolls. Em 2009, criei um evento literário-musical chamado Letra de Bar, no Bar do Papai (rua Torres Câmara), tendo ela como produtora e Ricardo Black como entrevistador. Seu irmão mais novo, Paulinho, era DJ e morreu em 2001 num trágico acidente enquanto trabalhava, fato que a marcou profundamente.

Cristina era alegre e festeira, autêntica e de personalidade forte. Sabia receber muito bem as pessoas e era querida pelos músicos e DJs. Impossível resumir aqui tudo que ela proporcionou para o entretenimento de Fortaleza.

Viver e não ter a vergonha de ser feliz…, ela adorava essa música do Gonzaguinha, dizia que lembrava seu irmão querido. Cristina deixa três filhos e muita saudade em nós que tivemos a sorte de conviver com ela. Obrigado por tantos bons momentos, Cris.

.
Ricardo Kelmer 2021 – blogdokelmer.com

.

RK 200905 Cristina Ca, Black 1

Ricardo Black, Cristina Cabral e eu no evento Letra de Bar (Bar do Papai, Fortaleza-CE, 2009)

.
.

LEIA NESTE BLOG

IntocaveisPutzBand1994-201aA celebração da putchéuris – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

A sociedade feladaputa de Geraldo Luz – Crítica social, literatura, filosofia, anarquismo, sacrilégios explícitos e sodomismos irreparáveis

Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

O brega não tem cura – Porque o senhor sabe, né, o brega sempre puxa uma dose, que puxa outra, que puxa a lembrança daquela ingrata, que puxa outra dose…

Odair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

Maluquice beleza – Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra

Paz e amor express – Durante cinco dias, o Festival Express cruzou a leste-oeste do verão canadense levando em seus vagões os ideais da união pela música, a esperança ainda viva de um mundo de paz e amor

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer
(saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01-
 


Não quero dinheiro

11/08/2021

11ago2021

Vivo uma vida simples, adoro carne moída com ovo mexido, compro óculos no camelô… Mas, na verdade…

Não quero dinheiro 01.

NÃO QUERO DINHEIRO

.
Diante dos recentes casos de golpes financeiros pelo Whatsapp, informo aos amigos:

Nunca, jamais em tempo algum, pedirei dinheiro emprestado pelo Whatsapp. Nem por Instagram, Facebook, Twitter, e-mail ou qualquer rede social. Acho isso tão deselegante.

Porém, há outro motivo. É, acho que tá na hora de revelar meu segredo. Seguinte. Tenho esse jeitão mulambo, né? Vivo uma vida simples, adoro carne moída com ovo mexido, compro óculos no camelô… Mas, na verdade… sou um milionário. Poizé. Tempos atrás, ganhei uma bolada na mega sena.

Então, serei eu um milionário excêntrico? Não. Na verdade, sou um milionário esquecido. Eu sempre esqueço que sou podre de rico, acredita? É sério. É por isso que uso roupa até desbotar e adoro pesquisar promoção de miojo.

Portanto, se algum dia chegar mensagem minha pedindo dinheiro, não empreste. E denuncie à polícia. Estamos combinados, né? Ótimo. E se você precisar de miojo, outro dia vi uma promoção de compre 15 e pague 10. Sai muito em conta.

.
Ricardo Kelmer 2021 – blogdokelmer.com

.

.

DICA DE LIVRO

Viajando na Maionese Astral CAPA 07aVIAJANDO NA MAIONESE ASTRAL
Memórias exóticas de um escritor sem a mínima vocação para salvar o mundo
Miragem Editorial, 2020

Enquanto relembra as pitorescas histórias de quando largou uma banda de rock para liderar um aloprado grupo esotérico e lançou-se como escritor com um livro espiritualista de sucesso (Quem Apagou a Luz? – Certas coisas que você deve saber sobre a morte para não dar vexame do lado de lá) que depois renegou, o autor fala, com bom humor, sobre sua suposta vida no século 14, carreira literária, amores, sexo, drogas ilegais, prostituição e crises existenciais, reflete sobre sua relação com o feminino, o xamanismo, a filosofia taoista e a psicologia junguiana e narra sua transformação de líder de jovens católicos em falso guru da nova era e, por fim, em ateu combatente do fanatismo religioso e militante antifascista.

SAIBA MAIS – LEIA COMENTÁRIOS

.

LEIA NESTE BLOG

BarDoAraujoEASalvacao-04aBar do Araújo é a salvação – Espremido entre duas igrejas evangélicas, o Bar do Araújo é a última resistência dos ateus. E do bom humor

Amor de bar – Uma homenagem aos bares que amamos

Períneos ensolarados – Com vocês, a nova sensação da temporada: o banho de sol no períneo

As ciclistas orgásticas da Colômbia – Ciclistas adotam uniforme polêmico e usam a energia de seus orgasmos para vencer corridas

O verme incansável e os grilos zumbis – O nematomorfo fará de um tudo para alcançar seu objetivo

> mais textos sobre humor

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- Miojo raiz harmoniza com q vinho? Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – ago2021

02- Adoro você. Um abç meu amigo. Bruna Torres Nepomuceno, Floriano-PI – ago2021

03- Por isso é bom ser bilionário!!!! Francisco Lopes Bonfim, Fortaleza-CE – ago2021

04- eu sempre desconfiei que tu enviavas os lucros de escritor ricaço para paraísos fiscais. Ivone Zete, Fortaleza-CE – ago2021

05- Você é incrível, meu querido sobrinho . Mi Brother. ! Leonor Oliveira Moreira, Fortaleza-CE – ago2021

06- Prefiro cuscuz que miojo. Rosangela Primo, Fortaleza-CE – ago2021

07- Achei massa o “jeitão mulambo”. Quanto ao “miojo” ñ pode exagerar pelo sódio! Régis Aragão, Fortaleza-CE – ago2021

08- ah meu primo como eu te admiro kkkkkkk. Maria Célia Oliveira Garcia, Fortaleza-CE – ago2021

09- OH Menino Danado ! Love U. Edith V Dragaud, Fortaleza-CE – ago2021

10- Passa aí o endereço de onde tem essa promoção? Leve 15 paga 10… Marcos Antonio Ribeiro Santos, Fortaleza-CE – ago2021

11- Isso é uma caipirinha ou caipirosca? Saúde! Haroldo Aragão, Fortaleza-CE – ago2021

12- Maravilha!! Cesar Di Cesario, Campina Grande-PB – ago2021

13- O meu foi clonado hj. Tatiana Santos Moreira, Fortaleza-CE – ago2021

14- “essa aparẽncia de mero vagabundo e mera coincidência”, deve-se ao fato de ter vindo ao mundo com a incubência: ser rocheda. A proposito, onde acho o “baseado nisso”? José Roger Barros, Fortaleza-CE – ago2021

15- Tamo junto nessa idéia. Quando se tem a si mesmo. Pra quê dinheiro? Sou do troca tudo por coisas criativas e úteis. Marcos Pacoli, Fortaleza-CE – ago2021

16- Kkkk. Ticiana Castelo, Fortaleza-CE – ago2021

17- Vc é o nosso Guimarães Rosa moderno… abraços. Maria Ines Ramalho, Fortaleza-CE – ago2021

18- Eu queria era essa Caipirinhas aí. Magah Costa, Tune-Suíça – ago2021

19- Oh Ricardo Kelmer …miojo não por favor…dá uma pesquisada no que provoca o consumo de miojo… Danila Gomes, Fortaleza-CE – ago2021

20- Adorei a prosa! Glau Mota Brasil, Fortaleza-CE – ago2021

21- Poxa, eu também sou milionária, pensei que era só que vivesse assim, kkkk. Cristiane Ribeiro, Fortaleza-CE – ago2021

22- Ganhou na Mega Sena e não me disse nada.Me admiro muito, nem joga, sua mãe sim, joga e nunca ganhou nada. Vilma de Oliveira, Fortaleza-CE – ago2021

23- Você gosta também de um franguinho assado, farofa e feijoada. Vilma de Oliveira, Fortaleza-CE – ago2021

24- Sei não, viu? Acho que milionários não usam a expressão “em conta”. 🤔 @elinaudobarbosa, Fortaleza-CE – ago2021

25- Se chegar uma mensagem minha pedindo dinheiro, pode depositar! Já já mando o PIX! @martacrisostom0, Brasília-DF – ago2021

26- Pois eu estou pobre, pobre, pobre… tem como arranjar aí 20 mil pra eu pagar meu aluguel? 😎😎😎😎😎 @ana.eufrazio.5, Fortaleza-CE – ago2021

27- Tirando o miojo (que eu acho totalmente deselegante! 😂), eu estou na mesma, uma milionária mulambenta que curte demais uma caipirinha! 😍😂 @renatakelly_ce, Fortaleza-CE – ago2021

28- 😂😂😂😂😂😂 @soniamvcastro3010, Fortaleza-CE – ago2021

29- 😂😂😂😂 @sandra_macedobr, Fortaleza-CE – ago2021

30- Fechou!!! Hasta La Victoria!!! @ten.prof.edvaldo, Fortaleza-CE – ago2021

31- 😂😂😂 @fabiana.azeredo, Fortaleza-CE – ago2021

32- Kkkkkkkkk ….bom demais. @p_ardal, Fortaleza-CE – ago2021

33- Pena…já iria quebrar meu… cofrinho! Márcia Matos, Fortaleza-CE – ago2021


Receita de neném

30/07/2021

30jul2021

Germânia e Pablo querem um bebê, mas está difícil…

RECEITA DE NENÉM

.
Após sete anos de casamento, Germânia e Pablo queriam muito ter um filho, mas as tentativas não logravam êxito, o que já causava desgaste na relação. Decidiram-se, enfim, pela inseminação artificial. No dia marcado, acordaram cedo e se dirigiram à clínica. Após uns minutos de espera, a funcionária veio e Pablo a acompanhou à sala de coleta.

‒ O material está sobre a mesa, seo Pablo, e aqui ao lado há um banheiro. Fique à vontade ‒ ela explicou, saindo e fechando a porta.

Sobre a mesa, além do material para coleta do esperma, Pablo viu várias revistas de mulheres nuas. Escolheu uma delas, sentou-se no sofá, esticou as pernas e começou a folhear. De repente, toc, toc, toc, alguém batia à porta. Ele levantou-se, pôs a camisa para fora para disfarçar o volume sob a calça e abriu a porta. Era Germânia. Por trás dela, a funcionária sorria sem graça, desculpando-se:

‒ Eu avisei à sua esposa que o senhor já estava em processo de coleta, seo Pablo.

‒ Vim só ver se tá tudo bem com meu maridinho.

‒ Tá tudo bem, meu amor ‒ respondeu Pablo, envergonhado. ‒ Pode voltar pra recepção.

‒ E essas revistas aí?

‒ O que é que tem?

‒ Mulher pelada? Não acredito. Que coisa mais brega.

‒ Germânia…

‒ Dá licença ‒ ela falou, entrando e pegando uma revista. ‒ Magda Cotrofe? Gente, essa mulher deve estar com 110 anos.

‒ Germânia, por favor…

‒ Rita Cadillac??!! Moça, vocês acharam essas revistas num museu, foi? Olha, as folhas tudo colada, que horror…

‒ Cuidado pra não rasgar, Germânia.

‒ E essa bebê aqui, quem é?

‒ É a Luciana Vendramini.

‒ Minha filha, isso já é pedofilia, vocês podem ser processados, sabia?

A funcionária sorriu, sem saber o que dizer.

‒ Essas aqui eu conheço. A loira e a morena do Tchan. Até meu pai comprou essa revista.

‒ É uma das mais solicitadas.

‒ Solicitadas? Como assim?

‒ Enviamos a relação das revistas e o cliente escolhe.

‒ Quer dizer que foi você quem escolheu, Pablinho? Que mau gosto…

‒ Meu amor, isso já está ficando um pouco ridículo…

‒ Ridículo é gerarmos uma criança com meu marido pensando nesse mulherio de papel, isso sim. Bora, vamo recolhendo essas breguices.

‒ Deixa pelo menos a edição especial com as trigêmeas.

‒ Nem trigêmea, nem bigêmea. Eu, heim, Pablinho. Tome, minha filha, pode levar tudo embora. Ele vai olhar é pra mim, que sou a mulher dele.

‒ Desculpe, mas a senhora não pode ficar aí dentro, são as normas.

‒ Já que é assim…

Germânia retirou da bolsa o celular.

‒ Acessa aí teu zap, Pablinho.

‒ Pra quê?

‒ Tô mandando minha foto na praia da Peroba. Você não disse que eu fico linda naquele maiô?

‒ Senhora, temos um horário…

‒ Vai dar tempo, minha filha. Meu marido é ligeirinho. Até demais, acredite em mim.

Pablo sentiu uma gota de suor lhe descer pelo rosto.

‒ Posso deixar meu celular aqui pra filmar?

‒ Infelizmente, não, senhora.

‒ Afff, quanta regra. Tá bom. Pablinho, posso confiar em você?

Pablo fechou os olhos. Não acreditava que aquilo estava acontecendo.

‒ Posso ou não posso?

‒ Pode, meu amor.

Ela sorriu, satisfeita, e o beijou na boca.

‒ Eu e nossa futura filha agradecemos. ‒ E, sussurrando para a funcionária, acrescentou: ‒ Eu sei que vai ser menina, sou bruxa. Vai se chamar Clara.

Germânia saiu e Pablo fechou a porta, suspirando. Pegou o celular e o material de coleta e dirigiu-se ao banheiro. Ele tentou, tentou novamente, deu um tempo, tentou outra vez… mas não conseguiu. Muita pressão, coitado.

Na recepção, ele procurava disfarçar a vergonha.

‒ Não se preocupe, senhor, isso é comum ‒ a recepcionista procurou tranquilizá-lo. ‒ Para quando agendo a nova data?

‒ Daqui a trinta dias ‒ respondeu Germânia.

‒ Não preciso desse tempo todo, meu amor.

‒ Mas eu preciso. Vou fazer umas fotos novas. Tô precisando.

Já faz seis meses e a data é sempre remarcada. É que Germânia é muito exigente com foto. Nesse tempo, um casal amigo os levou a uma aula de dança de salão e eles tomaram gosto pela coisa. No embalo da novidade, Germânia voltou para a academia e Pablinho iniciou uma dieta. Não é que o casamento deu uma esquentada? Ontem, inclusive, ela sentiu uns enjoos…

.
Ricardo Kelmer 2021 – blogdokelmer.com

.

.

DICA DE LIVRO

Indecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

.

LEIA NESTE BLOG

Faxina Summer Show

Faxina Summer Show – A namorada do Pedrão exigiu que ele contratasse uma faxineira. E ele contratou

O namorado perfeito – Gabi só queria um namorado que realizasse seu grande fetiche

A putinha do quartinho do fundo – Ninfa Jessi agora faz strip tease pela internet. Guenta firme, Diametral…

A cidade das almas boas – Arlindo de dia, Michele de noite. De dia no banco, de gravata. De noite, fazendo caridade na esquina

O brinquedo – Quando criança, ele viveu uma relação abusiva com uma mulher mais velha. Agora, um novo envolvimento traz à tona esse passado de dor, humilhação e… prazer

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail para rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

.


%d blogueiros gostam disto: