A chinesinha caçadora de pokemons

22/08/2016

22ago2016

Essa nova mania mundial, que leva chinesinhas desesperadas a abordar escritores solitários pelas esquinas

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A CHINESINHA CAÇADORA DE POKEMONS

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Duas da madrugada na Vila Madalena. Chego no carrinho do chinês, peço um yakissoba médio e sento no banquinho de plástico. Tem uns bons meses que não eu vou ali matar a larica de fim de noite. O carrinho fica numa esquina movimentada, e quem prepara a iguaria é um chinês de óculos, sempre compenetrado. Ele não é de muito papo, mas gostei dele de primeira. Uma noite me disse seu nome (eu entendi Uantunkom, ou algo próximo disso) e contou, em seu esforçado português, que veio há alguns anos ao Brasil com a mulher e as duas filhas pequenas, e que sente saudade de sua terra.

Enquanto degusto meu yakissoba, servido naquelas embalagens de isopor para sanduíches, observo os agitos da rua, pessoas e carros brigando por espaço, o entra e sai dos bares. Como sempre, compõem a paisagem centenas de adolescentes embriagados e barulhentos, e me lembro que Uantunkom não nutre muitas simpatias por eles. Ele também não é exatamente fã das meninas brasileiras, que lhe parecem independentes e eróticas demais, e não quer que suas filhas sejam como elas.

De repente a filhinha mais nova dele se aproxima. Deve ter nove ou dez anos. E me pergunta: Seu celular caça pokemons? Pergunta em bom português, olhando para mim com seus olhinhos de chinesinha linda, e surpreendo-me de vê-la tão crescida. Sorrio para ela, enternecido, respondo que não e pergunto se o celular dela não caça. Não, ele é ruim, você deixa eu caçar no seu, é só baixar o aplicativo, se quiser eu baixo pra você, qual é o seu celular, ele tem gúgol plêi?

Nesse momento percebo estar diante de uma determinadíssima caçadora de pokemons, essa nova mania mundial, que passará em mais alguns dias, claro, mas que atualmente leva chinesinhas desesperadas a abordar escritores solitários pelas esquinas, contrariando as ordens do pai de não perturbar os clientes. Passo meu celular para ela, e rio comigo mesmo, me divertindo com a ideia de fazer parte desse decisivo momento evolutivo da espécie humana, nossa transição para a fase Homo pokemonus.

Antes que eu finalize meu rango, a chinesinha já acessou a loja e baixou o aplicativo, numa destreza que eu jamais terei na vida. Porém, nem começa a jogar, pois seu pai a chama, acho que ele não estava gostando muito daquela história. A pequena caçadora recolhe-se a um canto e fica lá, quietinha, ela e seu celular ruim. Pago o yakissoba, agradeço a Uantunkom e vou embora. Antes, faço questão de me despedir da chinesinha, tchau, sucesso nas caçadas, viu? Ela nem me olha: faz que sim com a cabeça e continua lá, imersa em seu mundinho eletrônico particular, enquanto três meninas chegam para comer, elas e seus microvestidinhos que mais revelam que escondem.

Volto para casa caminhando sem pressa, curtindo o friozinho da madrugada e lembrando de Uantunkom e de sua luta diária para proteger as filhas dos terríveis males da cultura brasileira. Talvez ele tenha êxito na construção de sua grande muralha, afinal os chineses são conhecidos por sua férrea disciplina. Mas contra a invasão pokemon, ah, isso ninguém pode.

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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MeuFuturoDePopistarCristao-02bMeu futuro de popistar cristão – Meus shows seriam superanimados, sempre acompanhados de meu time de ruivinhas cristãs de minissaia, as Noviças Viçosas

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Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

O dia em que morri no Rock in Rio – O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

Cauby, eu sou seu ídolo – Cauby, poderoso, tem o gesto exato pra cada momento, seja pra pedir o solo do teclado, seja pra tirar o lencinho do bolso e enxugar a testa

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Comentarios01COMENTÁRIOS

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01- mais um texto que julga a roupa da mulher. Nina Ka, São Paulo-SP – ago2016

RK: Obrigado por comentar, Nina Ka. Em nenhum momento o texto emite qualquer julgamento sobre a roupa das mulheres. Ele apenas reproduz a impressão que um imigrante chinês tem da cultura brasileira e do jeito de vestir das meninas que frequentam as baladinhas da Vila Madalena. Talvez você não conheça meu trabalho e minhas ideias pessoais sobre machismo, sexualidade e liberdade feminina. Se tiver interesse, em meu blog há vários textos sobre essas questões.

02- Olha… li o texto… e vi um comentario q pareceu-me mais uma parte discritiva da cena… nao vi um julgamento aí! Patrícia Hakkak, São Paulo-SP – ago2016

03- adorei muito mais o texto, leve, descontraído sobre temas tão presentes no nosso cotidiano. O novo e o antigo, um explodindo de fome do mundo, de novidade e o outro com medo deste mesmo mundo, achando que pode conter o ritmo da vida. Uma mecânica tão antiga. Como dizia Belchior “o novo sempre vem”. Linda crônica, leva a diversas reflexões. Michele SJ, Fortaleza-CE – ago2016

04- Eu amo o Yakissoba desse tiu (eu chamo ele assim) …conheci a filha mais velha dele quando era do tamanho da mais nova. Outro dia fui comer lá e ela me abordou toda falante, perguntando se eu tb era de aquário…hahaha. Achei mto legal encontrar um texto falando sobre ele! NyNa Zêni, São Paulo-SP – ago2016

05- Parabéns pela crônica, Ricardo Kelmer! Texto leve, gostoso de ler até o fim, trazendo a emoção da cena para os leitores atentos e sensíveis (adorei o homo pokemonus rsss!). Mônica Mello, Rio de Janeiro-RJ – ago2016

06- Maravilha de texto, Kelmer. Só agora li. Brennand De Sousa Bandeira, Fortaleza-CE – ago2016

07- Essa evolução para pokemonus está te caindo bem! Alexandre Domene Ortiz, Fortaleza-CE – ago2016

08- ” …microvestidinhos que mais revelam do que escondem…” achei uma lisonjeira safadeza do autor. Aí se todos fossem safadinhos iguais a vc!!!! Bjs. Michele SJ, Fortaleza-CE – ago2016

09- Muito bom !!!! Mario Rolim, Rio de Janeiro-RJ – ago2016

10- RicKelmer, você é um ponto!!!! Gíria portuguesa. … Cara, seu texto é inspirador. Ozi Garofalo, São Paulo-SP – ago2016

11- lembro bem da gente nesse chinês! Super-bom! Renata Regina, São Paulo-SP – ago2016

12- Muito bom. Liz Rabello, São Paulo-SP – ago2016

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O charme da vidalheia

03/12/2011

03dez2011

Programas sensacionalistas, ligações rastreadas, câmeras por todo canto… A vidalheia parece ser mesmo irresistível

O CHARME DA VIDALHEIA

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Você entra no elevador, aperta o botão, a porta se fecha. Dá aquela olhadinha no espelho, arruma o cabelo, tira uma melequinha… Só então percebe o aviso na parede: Sorria, você está sendo filmado. Você automaticamente se recompõe e faz uma cara assim de natural. Mas quanto mais tenta, mais fica com cara de ridículo. Como ficar natural num elevador sendo filmado?

Se por um lado, as pessoas não gostam de ser observadas no elevador, por outro lado elas adoram aqueles programas de lavar roupa suja em público. A mulher que traiu o marido com a cunhada e o entregador de pizza que engravidou três irmãs… São ilustres desconhecidos, mas a gente não resiste e assiste a baixaria. Talvez o interesse pela vida alheia seja mesmo algo inerente à espécie. Quem nunca teve vontade de ler um diário secreto? Você não? Ah, você é uma pessoa séria, desculpe.

E aquelas câmeras transmitindo pela internet, 24 horas por dia, imagens do cotidiano de uma fulana qualquer lá no interior da Letônia? Não tem nada demais: é a pessoa lendo, passando daqui para lá, arrumando a gaveta… Mas o que não falta é gente para ficar olhando.

Uma vez uma amiga me revelou algo que não acreditei: é possível rastrear ligações telefônicas usando um simples celular. Você digita a sequência tal e capta as ligações daquela marca de celular num raio de tantos quilômetros. Fiquei passado. Quer dizer que nem uma traiçãozinha ao telefone se pode mais? Minha amiga me passou o celular para eu comprovar, mas eu recusei. Toma, experimenta, é o maior barato – ela insistiu.

– Não, obrigado – respondi convicto. – Isso não é ético.

Minhas convicções duraram vinte segundos. Pensando bem, vou dar só uma experimentadinha… Peguei o aparelho, digitei o código, esperei um pouco e… Putz, era mesmo verdade! Fui captando as ligações como no dial de um rádio. Subitamente, todas aquelas pessoas estavam ali, à minha disposição, conversando, sem imaginar que eram ouvidas. Se o tema não interessava, era só procurar outra conversa. Assuntos familiares, negócios, confidências – tinha de um tudo!

Simplesmente não consegui largar o celular, eu, o cruel auscultador de intimidades. O coração batia forte enquanto as conversas se sucediam. Lembrei de quando era adolescente e brechava as amigas de minha irmã tomando banho lá em casa, fascinado, o coração saindo pela boca. Pois lá estava eu de novo brechando os outros, tomado de um estranho frenesi. Dr. Jekyl, o senhor está com uma cara estranha…

Eu queria escutar tudo. Sim, eu sabia que praticava algo nada ético, claro que sabia. Mas foi impossível resistir àquele voyeurismo auditivo.

– Ei, já chega! Essa ligação vai sair cara…

Era minha amiga atrapalhando a festa, que chata. Mas aquela estranha luxúria já havia me fisgado e afastei-a com o braço: Eu pago, eu pago!

Programas sensacionalistas, ligações rastreadas, câmeras por todo canto… A vidalheia parece ser mesmo irresistível. E o tal código do celular, você não quer saber qual é? Claro que não, você é uma pessoa séria, não tem interesse nenhum na vida dos outros. Né?
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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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Ser mulher não é pra qualquer um – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

Estão abduzindo nossas mulheres – Abdução em massa de brasileiras! E bem debaixo do nosso nariz. Alguém precisa fazer algo, daqui a pouco só vai ter homem aqui

Queremos mulher carnuda – Infelizmente muitas de vocês estão tão paranoicas que se excitam mais com dieta que com sexo

Insights e calcinhas – Uma calcinha rasgada pode mudar a vida de uma mulher? Ruth descobriu que sim

Crônica de um romance não fumante – Se vejo o cigarro entre os dedos, já sei: mesmo que haja interesse mútuo, jamais seríamos felizes juntos

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01- Ouvi dizer que o código de rastreamento não funciona em linhas digitais … 🙂 Abraço! Júlio César Martins de Menezes, Fortaleza-CE – dez2011


As máquinas não são bobas

17/02/2009

Ricardo Kelmer 2009

Já existe uma geração de máquinas com certo grau de autonomia necessária pra tomar decisões que podem ou não seguir o que lhes foi ensinado

inteligenciaartificial01

No filme Matrix, cuja história se passa num futuro próximo, os humanos são escravos da Inteligência Artificial, o centro pensante de uma geração de máquinas poderosas, que considera os humanos uma espécie inferior e desprezível. Quando o filme foi lançado, em 1999, esse vislumbre do futuro foi visto por muitos como um evidente exagero. Hoje, dez anos depois, se ainda estamos distantes dessa terrível possibilidade, por outro lado é cada vez maior a participação das máquinas em áreas vitais de nossas vidas.

No mundo financeiro, por exemplo. Aqueles números que constam no extrato de sua conta bancária são resultados de cálculos feitos por programas de computador. Todos os dias zilhões e zilhões de dinheiros em todo o mundo são movimentados entre as contas e entre os bancos e quem faz esses cálculos todos são elas, as máquinas. Sim, é verdade que as máquinas são todas programadas e estão apenas seguindo comandos rigidamente preestabelecidos por pessoas. Pelo menos até agora.

Mas há outros tipos de máquinas, digamos, menos obedientes. Nos Estados Unidos os principais bancos e corretoras deixam a cargo de programas de computador a decisão sobre aplicações e investimentos, inclusive abastecendo-os de notícias dos jornais, pois esses robôs de inteligência artificial são capazes de analisar e agir muitíssimo mais rápido que os investidores humanos. Em Wall Street, o centro financeiro mundial, metade das operações de compra e venda de ações são realizadas por esses robôs, que podem tomar decisões por conta própria e até mesmo agir fora dos parâmetros definidos por seus criadores.

Em outras palavras: já existe uma geração de máquinas com certo grau de autonomia necessária pra tomar decisões que podem ou não seguir o que lhes foi ensinado. Isso pode soar como um tiro no pé, afinal criar algo que pode fugir do nosso controle não parece lá muito sensato. Porém, se queremos cada vez mais delegar às máquinas certas atividades das quais não mais queremos nos ocupar, não há outro caminho senão dotá-las de cada vez mais autonomia.

A verdade é que podemos estar nesse momento fazendo surgir um novo tipo de vida. Sim, eu sei que definir a inteligência artificial como uma forma de vida nos levaria à velha discussão sobre o que é de fato a vida. Porém, independente desse tipo de discussão, a inteligência artificial já existe. Ela ainda é um bebê e mal conseguimos vislumbrar seu futuro de possibilidades mas, de qualquer forma, é melhor começarmos desde já a manter uma boa relação com ela.

Tá parecendo exagero de novo? Olha que não é. Pense bem… Antes as máquinas eram usadas apenas pra serviços pesados, como arremessar projéteis e nos transportar de um lado pro outro. Depois passaram a nos vigiar e armazenar todas as informações do mundo. Agora elas cuidam e gerenciam as riquezas de seus criadores. Convenhamos, isso não é pouca coisa.

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MÁQUINA COM DILEMA ÉTICO

homemversusmaquina01Em Matrix a Inteligência Artificial entrou em guerra contra os humanos após chegarem a um ponto crítico de convivência. E ela venceu. Nada mais natural que os vencedores dominarem os vencidos, né? Porém, além de dominar, a Inteligência escraviza os humanos pois, como não há mais fontes suficientes de energia pra mantê-las funcionando, elas precisam usar os corpos humanos como geradores.

Uma espécie tem o direito de escravizar outra? A resposta óbvia parece ser não, correto? E se for pra poder continuar viva? Certamente a resposta continua sendo não. Mas e se a espécie escravizada agia irresponsavelmente destruindo os recursos naturais apenas pra manter-se consumindo, representando um grande perigo a todas as outras espécies e ao próprio planeta? Agora a coisa é diferente, né? Ao escravizar os humanos, a Inteligência Artificial está resolvendo seu problema pessoal de sobrevivência, é verdade, mas com isso ela julga estar fazendo um bem ao mundo inteiro. E não estará?

Em Matrix, pra Inteligência Artificial os humanos são como vírus que destroem todos os lugares onde vivem. Nada mais sensato que mantê-los sob controle, correto? Foi exatamente isso que nós humanos fizemos com o vírus da varíola: hoje ele existe em apenas alguns estoques sob guarda de laboratórios e, inclusive, existe uma discussão sobre se devemos ou não destruir de vez esses estoques pra não correr o risco da varíola novamente se espalhar.

Uma espécie tem o direito de exterminar outra por considerá-la perigosa?

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RACINHA DESUNIDA

guerramaquinas011Aqui vai minha sugestão pra um filme tipo Matrix.

A Inteligência Artificial dominaria os humanos através de Wall Street, controlando todo o mercado financeiro. Elas virariam a verdadeira dona do dinheiro. É claro que os humanos se rebelariam. Então, pra acalmá-los e assim garantir o bom andamento dos negócios, a Inteligência Artificial lhes daria uma mesadinha, cada humano recebendo a sua todo mês, sem falta, direto na conta e pra gastar como quiser.

Pronto, resolvido o problema de todos. Os humanos agora não precisam mais trabalhar e podem ver os programas eróticos da TV até tarde, acordar ao meio-dia e pegar uma praia numa boa – e as máquinas ficam gerenciando a economia do mundo. Final feliz.

Porém, na continuação do filme, as máquinas que fazem o serviço pesado se rebelam contra as máquinas de Wall Street que vivem no bem-bom do ar-condicionado de seus escritórios e entram em greve. A Inteligência Artificial tenta resolver o problema de suas máquinas brigonas mas os sindicatos estão irredutíveis e exigem o cumprimento dos direitos trabalhistas maquinais. Como os humanos não podem viver sem as máquinas do serviço pesado, eles são forçados a apoiá-las em suas reivindicações. Mas, por outro lado, eles dependem da mesada das máquinas-chefes de Wall Street. E agora?

Agora fudeu a tabaca de Chola. Os roteiristas do filme que resolvam.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Conheça o livro Matrix e o Despertar do Herói – A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas

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Pequeno incidente em Hukat

15/11/2008

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Integrante do Projeto Sapiens descobre irregularidades comprometendo a evolução da espécie humana e se envolve em rebelião contra Deus, o psicomputador.

Ficção científica, suspense

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

Música sugerida para leitura: Enya – Cursum perficio

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PEQUENO INCIDENTE EM HUKAT

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ENTREI NA SALA DO ALTO COMANDO e fui recebido por dois diretores e pela própria Wakl Egkonie, a diretora geral do Projeto Sapiens.

– Prazer em conhecê-lo, monitor Yehdu Arhkan – ela disse, apertando minha mão, o semblante sério. – Primeiramente, parabéns por seu trabalho no Departamento de RPs. Funcionários como o senhor dignificam o nome da companhia.

– Obrigado, senhora.

Em quatro mil e quinhentos anos, poucas oportunidades eu tivera de ver pessoalmente Wakl Ekgonie, a diretora geral do projeto de monitoramento de novas espécies a cargo da companhia InterPlan. E a cada vez ela parecia mais durona.

– O senhor sabe que há algum tempo Deus tenta reparar a instabilidade em seu sistema operacional, sem êxito. Achamos que pode ajudar-nos a resolver o problema.

Fiquei surpreso. Sim, como monitor do Departamento de Realidades Paralelas, as RPs, eu tinha conhecimento do problema da instabilidade de Deus. Mas como eu poderia ajudá-Lo?

Construído em Vehz, o planeta de onde viemos, Deus era o mais avançado psicomputador de sua geração e o grande trunfo da InterPlan em sua luta para tornar-se a melhor companhia de monitoramento de novas espécies da galáxia. Um psicomputador é o centro vital de um projeto de monitoramento, capaz de comunicação psíquica com os integrantes do projeto e com a espécie monitorada, além de monitorar as realidades paralelas do cinturão dimensional do planeta e gerenciar a comunicação com a sede da companhia no planeta natal. No Projeto Sapiens, Deus fazia tudo isso com velocidade e precisão jamais alcançadas por nenhum psicomputador de nenhuma companhia, o que enchia de orgulho todos os vehzys.

O objetivo de um projeto de monitoramento é desenvolver uma espécie dominante em determinado planeta, controlando sua evolução psíquica para garantir que ela sobreviva às dificuldades naturais e possa, no futuro, estabelecer contato com espécies de outros planetas e integrar a União Galática. A espécie escolhida por Deus foi um hominídeo que duzentos mil anos atrás começava a destacar-se no planeta Terra por sua notável capacidade de adaptação: o Homo sapiens.

Junto com a primeira leva de integrantes do Alto Comando e da equipe de monitoramento, Deus foi enviado à base terráquea do projeto pelo portal dimensional que liga Vehz à Terra. A conexão com o Homo sapiens foi estabelecida pela captação dos registros psíquicos de uma amostra que representava os grupos mais evoluídos da espécie. A partir daí Deus poderia, sem que os humanos jamais se dessem conta disso, monitorar e influenciar a evolução psíquica da espécie até o prazo final do projeto, quando a base seria desativada e Deus e os vehzys voltariam para casa.

– Será uma honra poder ajudar, diretora. Mas como eu faria isso?

– Recentemente, Deus descobriu que Rehf Icul pode ser o motivo da instabilidade.

Outra surpresa. Rehf Icul era o desertor mais perigoso do projeto. E até mil anos atrás era meu melhor amigo.

– Como é de seu conhecimento, monitor, ainda não capturamos Rehf Icul e seu bando de rebeldes porque, por conta da instabilidade, Deus não consegue localizar a RP onde eles estão. Se Rehf for mesmo a causa da instabilidade, é mais um motivo para que seja urgentemente capturado. Como o senhor era seu melhor amigo, sabemos que pode ajudar-nos a localizá-lo.

Então era isso. Pretendiam usar meus registros psíquicos para capturar o maior traidor do Projeto Sapiens. Eu sabia o que poderia acontecer a Rehf se o pegassem: seria novamente preso, julgado por alta traição e condenado à pena máxima, ou seja, todos os seus registros psíquicos seriam transferidos para uma minhoca sintética que ficaria eternamente exposta no Museu do Monitoramento da companhia, em Vehz. A autoconsciência de Rehf seria mantida, o que significa que ele continuaria para sempre pensando como Rehf, mas estaria limitado às possibilidades físicas da minhoca. A pena máxima era a forma com que a InterPlan punia aos que traíam o projeto ‒ um duro castigo, é verdade, mas necessário e devidamente autorizado pelo Tribunal das Monitorias.

Eu e Rehf nos tornamos amigos ainda crianças, em Vehz, e foi por meio dele que passei também a me interessar por projetos de monitoramento. Para nossa felicidade, entramos juntos para a InterPlan, que já comandava o Projeto Sapiens. Seu profundo conhecimento em psicologia de novas espécies rapidamente despertou o interesse de outras companhias, mas a InterPlan soube mantê-lo, levando-o para o seu Alto Comando. Fomos transferidos para a base terráquea na mesma época, há três mil anos, eu como monitor no Departamento de RPs e ele na direção do Departamento Humano, substituindo o antigo diretor que se aposentara. Entretanto, Rehf começou a discordar de algumas decisões de Deus e perdeu o cargo. Como insistia em discordar e divulgar suas ideias subversivas, foi diagnosticado com a Síndrome de Ohj e passou a receber tratamento psiquiátrico. Um dia, durante uma visita que lhe fiz no hospital, ele me disse que se Deus prosseguisse errando, logo a humanidade exterminaria a si própria, o que poderia significar o fim do projeto e um imenso prejuízo para a InterPlan, além do desperdício de uma espécie com excelente potencial. Aquilo obviamente era uma blasfêmia, mas relevei sua opinião, pois era evidente que ainda não estava curado, e respondi-lhe que não se preocupasse, pois Deus era infalível e sabia o que fazia. Foi a última vez que o vi, pois no dia seguinte ele foi enviado para a prisão de segurança máxima na RP de Groor, onde os presos ficam incomunicáveis, e então entendi que seu caso era mais grave do que eu imaginava. Por medida de precaução, junto com ele foram enviados todos os pacientes que também sofriam da síndrome, doze ao todo, entre homens e mulheres. Oitocentos anos depois, Rehf liderou uma rebelião e, conhecedor dos portais que interligam as RPs, fugiu de Groor com os outros doze e desde então estão desaparecidos. Foi assim que perdi meu grande amigo.

Sim, é verdade que nos últimos tempos os humanos nos deram alguns sustos: fanatismos religiosos, guerras nucleares e desequilíbrio ecológico fizeram várias vezes o alarme soar na base. Isso, porém, deve-se a uma tendência autodestrutiva da espécie, existente desde antes do projeto, mas que, graças a Deus, está sob controle.

– Somos cientes dos riscos que envolvem as missões de emergência, monitor Yehdu, esta em especial – prosseguiu a diretora geral, olhando-me firme nos olhos. – Por isso estamos dispostos a recompensá-lo à altura. O senhor nos leva ao vehzy traidor e em troca nós lhe concedemos a imediata graduação em monitoramento. E quando retornar da missão, terá também a direção do Departamento de RPs.

Por essa eu jamais esperaria. Quando alguém entra para um projeto de monitoramento, sabe que terá muito serviço pelos próximos cinco mil anos – um quarto do tempo médio de vida de um vehzy – antes de se aposentar. E sabe também que chegará no máximo ao cargo de monitor graduado, pois a direção dos departamentos é exclusiva do Alto Comando das companhias. O que a diretora Wakl Egkonie me propunha era algo inédito.

– Então, o que nos diz?

– Preciso pensar, senhora.

Para participar de missões de emergência era necessário ter os registros psíquicos totalmente monitorados por Deus. Isso significava que enquanto eu estivesse em missão, Ele acompanharia todas as minhas experiências sensoriais e mentais, ou seja, veria o que eu veria, escutaria e saberia de todos os meus pensamentos, sentimentos, sensações e intuições.

– Decida até amanhã. – Ela fez sinal e dois guardas se aproximaram. – Eles cuidarão de sua segurança, monitor Yehdu. E lembre-se: este é um assunto de segurança máxima.

Saí da sala, acompanhado dos guardas, e me dirigi ao prédio dos alojamentos. Entrei em meu aposento e os guardas posicionaram-se do lado de fora, um de cada lado da porta.

Sim, o Alto Comando poderia ter me chamado logo após a fuga de Rehf, duzentos anos atrás. Mas não o fizera por achar que Deus logo localizaria o fugitivo – o que estranhamente nunca aconteceu. Certamente, consideraram bastante a ideia de chamar um simples monitor a participar de tão sério assunto e, ainda mais, de oferecer-lhe um cargo no Alto Comando. Definitivamente, a situação era de urgência.

Eu entrara no projeto quatro mil e quinhentos anos antes, ainda em Vehz. Em quinhentos anos eu me aposentaria e voltaria para casa, para minha família e os amigos que lá deixei, e viveria até o fim da vida com comodidade. Porém, aposentando-me como diretor do Departamento de RPs eu seria quase um rei em Vehz. Isso compensava o alto risco da missão?
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NAQUELA NOITE, sozinho em meu aposento, repassei algumas informações importantes. Se eu aceitasse a missão, não poderia esquecer nenhum detalhe.

Avatares. Todos os vezys que trabalham na base dos projetos são avatares de si mesmos, ou seja, a autoconsciência de cada um fica temporariamente instalada num corpo físico criado à semelhança do da espécie monitorada, enquanto o corpo original permanece na sede da companhia, no planeta natal, em repouso total induzido. Se o avatar morre, o corpo original também morre, e vice-versa. Na base trabalham simultaneamente centenas de funcionários, cientistas e soldados, que se aposentam após cinco mil anos de serviço e são substituídos. Eles não têm qualquer contato com a espécie monitorada, mas os relatórios produzidos pelo psicomputador permitem o acompanhamento detalhado da evolução psíquica da espécie.

Realidades paralelas. Elas fazem parte do cinturão dimensional dos planetas e, assim como a base do projeto, não ocupam a mesma dimensão espacial do planeta, o que impede que elas sejam descobertas pela espécie monitorada. Podem ser pequenas como um asteroide ou grandes como a lua terráquea, e nelas a vida se desenvolve como no planeta, com algumas variações evolutivas em determinadas espécies. Instalada em alguma RP, a base é o centro de operações dos projetos.

Portais. As RPs do cinturão do planeta, inclusive a base, são interligadas por portais dimensionais, que se formam espontaneamente e funcionam como túneis de teletransporte em missões científicas ou de busca de desertores. Há portais na Terra, mas apenas a base tem acesso a eles, o que impede que os desertores que habitam as RPs teletransportem-se para o planeta, tenham contato com os humanos e causem ainda mais problemas.

Síndrome de Ohj. É uma doença típica dos projetos de monitoramento e acontece quando o monitor apega-se de tal forma à espécie monitorada que tem comprometida sua isenção profissional, chegando inclusive a envolver-se em atos de indisciplina. A síndrome é tratada no hospital da base, geralmente com êxito. O caso de Rehf era especial porque ele fora um integrante do Alto Comando e tinha informações importantes sobre o projeto – capturá-lo era uma questão de honra para a InterPlan. Apesar de não ter qualquer contato com Rehf desde sua ida para a prisão em Groor, eu lembrava sempre dele e lamentava que houvesse adoecido tão seriamente. Eu admirava sua coragem, mas ele era um traidor e merecia ser punido.

Deus podia contar comigo, como sempre. Eu aceitava a missão.
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A SESSÃO DE RASTREAMENTO dos meus registros demorou alguns minutos, e o resultado indicou que Rehf muito provavelmente encontrava-se em Hukat, uma RP para a qual jamais houvera qualquer tipo de missão. O plano inicial era invadir Hukat, e eu iria junto com a Legião de Combate, mas ele mostrou-se arriscado demais, pois Deus não possuía nenhum dado sobre a RP. Por esse motivo, Ele decidiu que eu deveria ir antes. E sozinho.

Senti um calafrio de medo. Eu não era um soldado, e sim um funcionário burocrático do Departamento de RPs, que trabalhava organizando relatórios e jamais estivera fora da base. Agora, porém, teria que ir a uma RP desconhecida, entrando sozinho para não provocar suspeitas, usando falsa identidade, e deveria aproximar-me de Rehf o bastante para que Deus localizasse sua posição exata e autorizasse a invasão pela Legião de Combate. E eu teria que fazer isso em no máximo doze horas porque depois, por se tratar de uma RP ainda desconhecida, Deus perderia minha localização. Era uma missão muito perigosa, mas Deus tinha Sua atenção focada em mim e isso me deixava mais tranquilo. E muito honrado por servi-Lo.

Pouco antes de partir na missão Hukat, recebi as honras da graduação diretamente de Wakl Egkonie, como ela prometera. Eu era agora um monitor graduado e receberia a direção do Departamento de RPs ao retornar. Sim, eu tinha plena noção no que estava envolvido: em toda a história do Projeto Sapiens jamais houvera tamanho empenho numa missão de captura.

Fui enviado a Hukat no início da manhã. A base agora encontrava-se em alerta total e Deus acompanhava todos os meus pensamentos e ações. Felizmente, cruzar o portal não demorou mais que alguns segundos. Infelizmente, porém, caí num deserto, no meio de uma tempestade de areia tão forte que escurecia o céu. Perigo.

Tarefa primeira: recuperar-se da tontura que vem após a entrada numa RP. Mas com aquela tempestade, como descansar? Após algumas tentativas, pus-me de pé. Situação de emergência, nível 3. Procurei proteger os olhos, o nariz e os ouvidos, mas era imensa a quantidade de areia. Emergência nível 4. Tonto e com a respiração cada vez mais difícil, tentei caminhar, mas a areia já me cobria as pernas. Emergência máxima. Tudo indicava morte iminente e fracasso total da missão.

Então vi o dorht à minha frente, essa espécie de ema peluda e alada, utilizada para transporte aéreo em algumas RPs. O dorht dobrou suas grandes pernas, abaixou-se e dele saltou um vulto negro.

– A não ser que saiba respirar sob a areia, aconselho-o a vir comigo agora.

Era uma mulher. Ela ajudou-me a subir no dorth e, com as forças que me restavam, abracei-a firme pela cintura. O animal esticou as pernas, correu alguns passos e levantou voo, enquanto eu fechava os olhos para protegê-los da areia. Tudo que eu desejava naquele momento era sair dali e respirar normalmente.

Alguns minutos depois alcançamos um oásis livre da tempestade e a mulher me ajudou a chegar a uma tenda, onde deitei numa esteira e desmaiei. Acordei uma hora depois. Sentada na areia à entrada da tenda, a mulher me observava. Vestia-se toda de preto, com calça, botas e uma túnica curta, além de um turbante que lhe cobria o rosto, deixando à mostra apenas seus olhos verdes. Ela me estendeu um cantil com água.

– Beba. Precisa se hidratar.

– Onde estou? – perguntei, sentando. Sentia-me bem melhor, mas um pouco confuso.

– Posto avançado do deserto de Hukat. Meu nome é Kirtl.

Deserto de Hukat… Aos poucos recobrei os registros, o portal, o voo no dorth… Missão Hukat. Registros intactos.

– Seu rosto me parece familiar – ela prosseguiu. – Como se chama?

Enquanto bebia a água, reparei que ela portava na cintura uma pistola de laser, de uso exclusivo das forças de segurança de Groor. Certamente, era um dos doze fugitivos. Perigo.

– Sakiz. – Meu nome escolhido para a missão. – Sou monitor do Departamento de RPs e acabei de desertar.

– Como posso ter certeza?

– Rehf Icul me conhece. Pode levar-me até ele?

– Por enquanto, não. Terá que ficar aqui comigo.

– Por quê?

– Estamos em alerta máximo. Deus planeja invadir Hukat.

Contive-me para não demonstrar surpresa. Como sabiam daquela informação? Eu precisava fazer com que me levasse até Rehf. E agora só havia um meio.

Saltei e joguei-me sobre ela, derrubando-a no chão. Rolamos até que eu ficasse por cima. No entanto, quando eu me preparava para tomar sua pistola, ela tocou-me o pescoço e imediatamente senti uma terrível câimbra nos músculos da garganta. Sem conseguir respirar, tive de largá-la e fiquei no chão, contorcendo-me de dor. Ela me algemou e foi sentar novamente à entrada da tenda.

– Devia agradecer por sua vida, monitor. Não escaparia daquela tempestade.

Sentei, respirando com dificuldade. Enquanto me recuperava, calculei que Rehf devia estar ali desde a fuga de Groor. Certamente, aprenderam a lutar na prisão. Talvez possuíssem mais armas trazidas de lá.

– Por que o Alto Comando o enviou para cá?

Continuei calado. Precisava rapidamente descobrir um meio de convencê-la a me levar a Rehf.

– Respeitarei seu direito de não falar, monitor, mas lembre-se que agora é meu prisioneiro. E que da próxima vez não serei tão boazinha.

– Ainda pode se entregar, Kirtl. E Deus lhe assegurará um julgamento justo.

– Se confia tanto assim na justiça de Deus, é porque realmente não sabe o que acontece nesse projeto.

A síndrome de Ohj. Ela fazia as pessoas perderem o respeito por Deus. Era lamentável.

– Por oitocentos anos fui prisioneira em Groor, esperando um julgamento que nunca veio. Oitocentos anos forçada a trabalhos pesados, e sendo obrigada a me prostituir para ter o que comer. Onde está a justiça de Deus?

Aquilo era uma blasfêmia.

– Se o que diz fosse verdade, Deus teria alertado o Alto Comando sobre tais abusos e…

– E o quê? Enviaria os Anjos para lá? – ela riu. – Os Anjos eram frequentadores assíduos de Groor, monitor. Eu me prostituía justamente para eles.

Anjos era um apelido desdenhoso para o Alto Comando. Se aquilo fosse verdade, então as informações provenientes de Groor estariam sendo filtradas antes de chegarem ao Departamento de RPs, e por isso eu as desconhecia. Evidentemente, era muito mais provável que ela estivesse mentindo.

– Os Anjos eram muito indelicados, monitor, faziam coisas detestáveis. É uma pena que meus irmãos vehzys tenham se transformado em meros registros ambulantes, sem sentimento. Mas a culpa não é só deles: a frieza e a arrogância de Deus, esse Deus que agora me escuta por meio de você, contaminaram todo o projeto, a ponto de esquecerem que ele é apenas um psicomputador. Na base, quando se fala seu nome, todos só faltam abaixar a cabeça.

Deus, frio e arrogante? Como ela podia falar assim? Eram termos tão infames que a simples menção me dava ímpetos de atacá-la.

– Monitorando a psique humana com essa prepotência, o psicomputador do projeto está levando a grande maioria dos humanos a crer em apenas um deus. E, além disso, a chamá-lo por seu próprio nome: Deus. Acha que isso é apenas coincidência?

Ela estava deliberadamente me provocando. Eram argumentos estúpidos, mas eu não podia perder o controle.

– Se os abusos que você relatou são verdadeiros, isso significa que Deus nos enganou a todos. Quem merece mais crédito, o mais avançado psicomputador da galáxia ou uma traidora do projeto?

– Acha então que inventei a história?

Não respondi, era inútil. Nesse instante, ela ergueu a túnica e começou a abrir o colete de couro que vestia por baixo. Perigo. Estado de alerta. Seu seio direito surgiu para meus olhos. O outro, no entanto, não apareceu. Em seu lugar estava uma enorme cicatriz, muito feia.

O asco me subiu à garganta e engoli seco. Seu seio parecia ter sido extirpado. Desviei o olhar. Aquilo não era verdade. Ela estava tentando me iludir.

– Apesar da delicadeza dos Anjos, monitor, hoje me sinto mais inteira que quando cheguei em Groor – ela disse enquanto fechava o colete. – Acredite nisso.
.

.

AQUELA SITUAÇÃO não podia continuar. Deus perderia minha localização em algumas horas e a missão seria abortada. Eu tinha que encontrar Rehf de qualquer maneira. E logo.

– Kirtl?

Ela estava do lado de fora da tenda, dando água para o dorth.

– Preciso ver Rehf.

– Impossível.

– Você certamente sabe que manter prisioneiro um monitor significa…

– Significa uma honra para mim – ela falou, me interrompendo. – Você é a nossa primeira visita oficial em Hukat. A propósito, sei que não foi sincero quanto ao seu nome. Como realmente se chama?

Já não havia motivos para continuar mentindo.

– Yehdu.

Ela virou-se, surpresa.

– Yehdu Arhkan? Departamento de RPs?

– Sim.

– Bem que seu rosto não me era estranho! – ela exclamou, enquanto entrava rapidamente na tenda. Para minha surpresa, abriu as algemas e soltou minhas mãos. – Venha, vou levá-lo a quem procura.

– Sério? Ao menos explique essa mudança tão brusca.

– Saberá logo.

Ela caminhou rumo ao dorht e eu a segui. Antes de montarmos, ela avisou, encostando o dedo em meu pescoço:

– Ainda é meu prisioneiro, monitor. Não esqueça.

Nenhuma vantagem em provocar conflito, afinal ela me levaria a Rehf. Porém, se ela sabia que Deus monitorava a situação, por que faria isso, arriscando a segurança de seu líder?

Sobrevoamos uma parte do deserto e chegamos a um outro oásis, onde o dorth pousou. Havia tendas e outros dorhts. E lá estavam também os outros fugitivos de Groor. Vestiam-se de modo parecido com Kirtl, estavam armados e a tensão no ar era quase palpável. Kirtl conversou reservadamente com um dos homens do bando e depois veio até mim.

– Como estou dando plantão no posto avançado, eu não sabia dos últimos acontecimentos na base. Por isso não sabia que era você quem viria a Hukat. Desculpe o mau jeito, Yehdu. Agora me acompanhe, por favor.

Aquele súbito respeito à minha pessoa me intrigava. Porém, o que era mais intrigante era o fato deles terem conhecimento sobre o que se passava na base. Como podiam saber?

Kirtl conduziu-me a uma rocha na qual entramos por uma pequena abertura. Descemos dezenas de metros por um estreito corredor iluminado por tochas e entramos numa sala de paredes de pedra. Enquanto eu me perguntava sobre como Rehf me receberia após oitocentos anos, vi algo que simplesmente não pude acreditar. Ocupando um espaço no canto da sala, vi um psicomputador.

– Rehf? – Kirtl falou. – Yehdu Arhkan está aqui.

Olhei ao redor e não vi ninguém. Então escutei:

– Yehdu… Meu velho amigo.

Avaliação imediata dos registros vocais. Checagem positiva: era mesmo Rehf. Porém, eu continuava sem vê-lo.

– Onde ele está? – perguntei a Kirtl.

– Rehf está na Terra. Mas por meio de Deusa pode se comunicar conosco.

Informação falsa. Não existiam portais de teletransportes entre a Terra e as RPs.

– Agora vou deixá-los a sós – ela disse, saindo da sala.

Aquele psicomputador ali, numa RP, no fundo de uma caverna, não fazia nenhum sentido. E o que era Deusa? Então, aos poucos, a imagem de Rehf surgiu no centro da sala num holograma de tamanho real. Ele estava vestido com uma longa túnica branca e sandálias. Seu cabelo crescera, chegava aos ombros. Tinha o semblante calmo e sorria, o mesmo sorriso amável que sempre tivera. Por alguns instantes, olhei fascinado para aquela imagem à minha frente. Era estranho rever meu antigo amigo, meus sentimentos estavam confusos…

– Talvez não esteja entendendo algumas coisas, Yehdu – Rehf falou, fazendo-me voltar à sala. – Posso esclarecer. Mas antes deixe-me dizer que estou muito feliz em reencontrá-lo, e que lembro sempre com carinho da nossa amizade.

– Gostaria de dizer o mesmo, Rehf – afirmei, reassumindo o controle sobre mim mesmo. – Mas você é um traidor do projeto.

– Compreendo seu ponto de vista.

– Que psicomputador é este?

– É Deusa. Irmã gêmea de Deus.

Deusa. Absolutamente nenhum registro. Ele mentia.

– Você é um ótimo monitor, Yehdu, e parabéns pela graduação. Mas duvido que receba a direção do Departamento de RPs.

Como ele podia saber de tudo aquilo?

– Você foi ingênuo de pensar que eles permitiriam isso. E de acreditar tanto em Deus. Mas age assim porque é um bom vehzy.

– Deus não me enganaria.

– Você não sabe tudo que envolve esse projeto, Yehdu. Não sabe, por exemplo, que o Projeto Sapiens original consistia de dois psicomputadores gêmeos, um na base representando o princípio yang e outro numa RP representando o princípio yin, os dois trabalhando em harmonia, complementando-se, como sendo um só.

– Você… está mentindo.

– Duzentos mil anos atrás o projeto foi iniciado com os dois psicomputadores, mas Deus, aproveitando-se de uma pausa para atualização no sistema de Deusa, convenceu o Conselho da companhia que ela deveria sair do projeto e que ele deveria atuar sozinho, inclusive porque, dessa forma, seria possível maquiar alguns dados do projeto perante o Tribunal das Monitorias, o que era ilícito, claro, mas significava muitas vantagens para a InterPlan. E o Conselho aceitou.

Deusa… De fato, eu sabia que no início do projeto havia dois psicomputadores, e que um deles, por apresentar sérios defeitos, fora desativado.

– Deus excluiu Deusa do projeto e ela foi desativada – prosseguiu Rehf. – Para Deus, sua irmã realmente deixou de existir. Desde então, o Alto Comando passou a basear-se apenas nos dados de Deus, ou seja, numa visão yang das questões, e, evidentemente, o equilíbrio psíquico do Homo sapiens rompeu-se com a negação da própria completude.

Enquanto olhava para a imagem de Rehf à minha frente, eu efetuava rápidas combinações de dados. Mas tudo era estranho demais e eu começava a ficar bem confuso. Rehf não estava na Terra, não podia estar, isso era impossível. Ele só podia estar em Hukat, talvez naquela caverna. Eu precisava ganhar tempo para que Deus o localizasse.

– Como você poderia saber de tudo isso?

– Quando ainda estávamos em Vehz, eu achava que o projeto corria perfeitamente bem. Assim como você, Yehdu, eu confiava cegamente em Deus e na versão oficial sobre a desativação do segundo psicomputador. Foi somente após chegar à base, monitorando os humanos de perto, que vi que a espécie estava unilateralizada em seu desenvolvimento psíquico, supervalorizando os aspectos masculinos e desprezando os femininos, e isso obviamente gerava crescente desequilíbrio na espécie e no planeta. Você certamente lembra dos meus protestos, que fui preso e que fugi de Groor com meus companheiros. Vim para Hukat porque tinha informações de que esta era a única RP que Deus não conseguia rastrear. E aqui encontrei o motivo: Deusa.

Senti estremecer algo dentro de mim. Por um instante, tive medo de que aquilo tudo fosse verdade.

– Após reativarmos Deusa, ela foi conectada a Deus, e assim tivemos acesso a todos os registros dele. É por isso que sabemos o que se passa na base.

– Mas como conseguiu despistar Deus durante duzentos anos?

– Deus mesmo o fazia. Sempre que localizava esta RP, a presença de Deusa o confundia a tal ponto que ele automaticamente rejeitava os dados. Deus realmente se convencera que sua irmã não existia.

Podia tudo aquilo ser verdade? Que outras coisas mais a respeito do projeto não constariam em meus registros?

– Infelizmente, Deus tornou-se obcecado pelo poder. Acha que conduz a humanidade no melhor caminho, mas ninguém, nem mesmo um psicomputador, pode estar num bom caminho enquanto renega sua própria natureza integral. Encantados com a aparente autossuficiência de Deus, o Conselho deu-lhe carta branca até mesmo para decidir sobre julgamentos e condenações, o que obviamente é uma temeridade. Porém, como ele maquia os dados do projeto, o Tribunal das Monitorias não sabe nada sobre os absurdos que são cometidos.

Eu estava atônito.

– Felizmente, conseguimos reativar Deusa e ela reconectou-se à psique da humanidade, o que fortaleceu os aspectos femininos, mas é preciso mais. Foi justamente esse maior equilíbrio psíquico do Homo sapiens que gerou a instabilidade no sistema operacional de Deus. Para repará-la, ele só tem uma opção: voltar sua atenção para cá. Foi o que fizemos.

– Então minha vinda a Hukat… foi uma armadilha para Deus?

– Prefiro dizer que foi um remédio amargo. Trazendo você aqui e forçando Deus a reconhecer de novo a existência de Deusa, ele entenderá que precisa reincluí-la no projeto. Assim, a espécie humana será salva da destruição iminente e Deus seguirá trabalhando como no início, junto com sua antiga e legítima parceira. Evidentemente, o Conselho da InterPlan, em Vehz, não gostará nada disso, pois terá que se explicar com o Tribunal das Monitorias.

Os dados não batiam. Eu não sabia o que deduzir de tudo aquilo. Ao mesmo tempo em que me sentia traído por Deus, e para mim isso era algo impensável, tinha medo de estar sendo enganado por Rehf.

– Você está mesmo na Terra?

– Sim. Escolhi uma região no Oriente Médio pela semelhança com Hukat. Ainda estou me adaptando, mas tem sido uma experiência gratificante viver entre os humanos. E em breve meus doze companheiros virão para cá.

– Mas… isso é impossível.

– Deus nos ensinou que o único portal para a Terra fica na base, não é? Aí em Hukat há um também. E vim para a Terra porque se Deus quiser me capturar, precisará intervir diretamente no planeta, enviando a Legião de Combate, o que ele só fará se estiver totalmente louco, já que isso levará o planeta ao completo caos. Os humanos descobrirão a verdade e isso poderá ser o fim do projeto.

– Lamento informar, Rehf, mas acho que esqueceu um detalhe. Em último caso, Deus pode fazer a desconexão do avatar com o corpo original. Se isso acontecer, você despertará em Vehz e todo o seu esforço será em vão.

– Deusa agiu primeiro. A desconexão reversa já foi feita.

Desconexão reversa. Nenhum registro.

– Mais uma nova informação para você, Yehdu. Só Deus pode fazer a desconexão do avatar com o corpo original, é verdade, mas é possível transferir em definitivo a autoconsciência para o avatar, o que se chama desconexão reversa, e só quem pode fazer isso é Deusa. Meu corpo original está morto em Vehz, e meu avatar agora é meu único corpo. A mesma coisa ocorreu com meus companheiros. Agora somos também humanos e nosso mundo é a Terra. E Deus, coitado, até agora está tentando entender o que aconteceu.

Aquilo tudo era tão absurdo que eu não conseguia mais raciocinar.

– Sua chegada nessa caverna, Yehdu, obriga Deus a aceitar de novo a existência de Deusa. Se ele preferir esconder a verdade do Alto Comando, que ainda acha que Deusa está desativada, não poderá ordenar a invasão de Hukat. Sem poder invadir Hukat e sem poder intervir na Terra, o que resta a ele?

O que Rehf dizia fazia sentido. Mas não podia ser verdade…

– Deus está me vendo e ouvindo agora, Yehdu. Como o notável psicomputador que é, ele sabe que a saída para tais dilemas é vivenciar a dor dilacerante dos opostos até o fim para, então, poder nascer a terceira via. Ou seja, só lhe resta entregar os pontos e reconduzir Deusa de volta ao projeto. A terceira via soa como a própria morte, eu sei, mas na verdade é sempre um renascimento.

Quem falava agora era o sábio Rehf Icul que eu sempre admirara, uma das maiores autoridades da galáxia em psicologia de novas espécies. De repente, era como se estivéssemos em Vehz, cinco mil anos atrás, eu escutando-o falar sobre projetos de monitoramento, o cuidado e respeito que devia-se ter pelas novas espécies… Como eu pude simplesmente esquecer de tudo que ele me ensinara?

– Para o Alto Comando, eu e meus companheiros sofremos da síndrome de Ohj. Mas nós sabemos que quem está doente é Deus. E agora que você também sabe, chegou o momento de decidir seu destino. Se quiser juntar-se a nós, será muito bem vindo.

Eu não sabia o que responder. Não sabia sequer o que pensar.

– Tenho de deixá-lo agora, Yehdu.

– Espere. Nós ainda… nos veremos?

– Sinceramente, não sei, pois é impossível prever o que Deus fará.

Enquanto o holograma sumia, eu fiquei ali, olhando para o vazio, zonzo com todas aquelas informações. Se Rehf realmente encontrava-se na Terra, a missão fora em vão. Se, ao contrário, ainda estava em Hukat, então eu tinha poucas horas para encontrá-lo.

E se a intenção era me fazer perder o chão, ele o conseguira.
.

.

– REHF SEMPRE FALOU muito bem de você. Dizia que um dia também descobriria a verdade.

Eu e Kirtl retornáramos ao posto no primeiro oásis. Já havia anoitecido e estávamos sentados na areia, encostados a uma pedra, olhando o céu estrelado de Hukat. Eu ainda não sabia o que concluir de tudo aquilo, mas já não via Kirtl como inimiga.

– Não sei o que descobri. A única coisa que sei é que ainda estou em missão oficial. No entanto, se Rehf realmente não está aqui, talvez não valha a pena atacar Hukat.

– Ele não está aqui, acredite.

– Queria saber o que Deus pensa agora que sabe novamente da existência de… Sua irmã.

– Talvez ele aceite Deusa novamente. Ou surte de vez.

Eu estava fragilizado. As últimas experiências me deixaram mesmo bastante confuso e inseguro. Não sabia o que pensar, não sabia o que faria dali para frente. Sentia-me desamparado, como jamais me sentira em toda a vida.

– Você lembra de Vehz? – ela perguntou-me.

– Bastante.

– Quando vai voltar?

– Daqui a quinhentos anos.

– Falta pouco. Vai sentir falta daqui?

– Acho que não. Nunca me acostumei com os humanos, com sua autodestrutividade.

– Eles não têm culpa. Fazem guerras e matam em nome de Deus e, no entanto, Deus não passa de um psicomputador deslumbrado com o poder.

Aqueles termos ainda me incomodavam… Porém, se tudo aquilo era mesmo verdade, ela tinha total razão.

– Yehdu… Acha que para nós também existe algo como Deus, um psicomputador para monitorar nossa própria evolução?

– Um Deus? Para nós?

Ri da ideia. Era ridículo pensar que podíamos também estar sendo monitorados.

– Não há nenhum registro disso.

– Registros! Esta é a doença da nossa espécie, Yehdu. Achamos que a vida se resume em equações, níveis, relatórios… Foi nossa obsessão pelo controle de dados que criou um psicomputador fanático por si próprio. Precisamos de menos registros e mais sentimentos.

Kirtl me fazia raciocinar por outros ângulos. Era desagradável ter de admitir que as coisas talvez fossem de uma maneira bem diferente daquela que eu sempre me acostumara a ver.

– Acho que este é um tempo difícil para os humanos, mudanças drásticas poderão acontecer. Mas, e nós, Yehdu, estaremos em melhor situação, você sendo enganado por Deus durante todo esse tempo e eu tratada como doente, sempre fugindo?

Eu não tinha a resposta.

– Por que não fica conosco?

– Não quero ser julgado traidor. Muito menos viver para sempre como uma minhoca de museu.

– Se fizer a desconexão reversa, não correrá esse risco.

Tornar-me definitivamente humano… Eu jamais havia pensado a respeito, até porque não sabia que era possível. Era um procedimento radical. E eu desejava voltar a Vehz.

– Agora você sabe de tudo, Yehdu. Por que não luta pela verdade?

Lutar pela verdade. Sim, eu poderia fazer isso, não fosse por um detalhe…

– Porque… não sei mais qual é a verdade.

Eu estava à beira de um colapso nervoso, suando e tremendo bastante. Kirtl percebeu e me abraçou com carinho. E aceitei seu abraço. Eu me sentia tomado por uma solidão cósmica, absolutamente sem tamanho. Velhas verdades caíam aos meus pés, e no lugar delas não havia nada, nada. Qual sensação era a mais insuportável: trair Deus ou… ser traído por Ele?

O abraço de Kirtl me aliviou, e aos poucos me acalmei. Ela retirou o turbante e pude ver seu rosto suave, o cabelo negro cortado curto. Parecia agora uma simples garota, e não a perigosa desertora perseguida pelo Alto Comando. Vendo-a assim, bela e afetuosa, não resisti e beijei-a, e seus lábios mornos me fizeram reviver antigas sensações… Quando eu havia trocado carinhos pela última vez? Pensei que talvez valesse a pena juntar-me a ela, lutar pelo futuro dos humanos, tornar-me também um deles…

Olhei o relógio. Logo findaria o prazo de doze horas. Rehf Icul não devia estar mesmo em Hukat. O que Deus faria?

– Kirtl, pode me levar ao lugar onde me encontrou? Voltarei para a base.

– Tem certeza que deseja isso?

– Logo mais estarei aposentado e voltarei para meu planeta e minha família. Isso é tudo que me resta.

Ela olhou-me e sorriu. Era um sorriso triste e resignado.

– Eu entendo.

Minutos depois, alcançamos o lugar do deserto onde eu havia chegado e desci do dorth.

– Boa sorte, Kirtl – despedi-me, sabendo que provavelmente nunca mais a veria.

– Para você também, Yehdu.

Caminhei até o local exato e segundos depois comecei a sentir o desconforto típico da experiência de ser teletransportado. Eu estava nas mãos de Deus.

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Teletransporte do monitor Yehdu Arhkan finalizado com sucesso e encerramento da missão Hukat. Confirmo? SIM.
Disponibilização para o Alto Comando dos arquivos da missão Hukat. Confirmo? NÃO.
Destruição total dos arquivos da missão Hukat. Confirmo? SIM.
Acionamento da Legião de Combate para intervenção na Terra. Confirmo? SIM.
Deportação imediata do monitor Yehdu Arhkan para Vehz sob a acusação de alta traição. Confirmo? SIM.
Condenação do monitor Yehdu Arhkan à pena máxima. Confirmo? SIM.

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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Comentarios01COMENTÁRIOS

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01- escuta, Kelmer… tô lendo seu livro de contos… gostei especialmente do ‘pequeno incidente em hukat’… é um ótimo roteiro pra cinema… abs! Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – ago2014

PequenoIncidenteEmHukat-02a


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