Matrix 20 anos depois

04/04/2019

04abr2019

Duas décadas depois, é interessante notar como os temas de Matrix seguem absolutamente atuais

MATRIX 20 ANOS DEPOIS

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Em abril de 1999, o filme Matrix estreava nos cinemas brasileiros. Dirigido pelas irmãs Lana e Lilly Wachowski, e tendo Keanu Reeves e Lawrence Fishburne no elenco, Matrix tornou-se um inesperado e estrondoso sucesso mundial. O filme revitalizou a ficção científica ao abordar temas filosóficos e inserir como foco da história o próprio conceito de realidade, e, além disso, sua estética visual e os efeitos especiais influenciaram não apenas muitos filmes que lhe seguiram como também a própria cultura pop.

A aventura de Neo contra a inteligência artificial, que transformara os seres humanos em meros doadores involuntários de energia para as máquinas, instigou intensas discussões no mundo inteiro sobre temas como filosofia, sociologia, tecnologia, ecologia, política, religião e até economia, e fez adolescentes nos shopping centers discutirem sobre o que é, de fato, a realidade. Somente grandes obras conseguem coisas assim.

Após ver o filme algumas vezes, escrevi um artigo para o jornal O Povo, de Fortaleza, e o incluí na relação dos filmes que usava em meus cursos e palestras sobre cinema e mitologia, ao lado de Blade Runner e Don Juan DeMarco. Em 2003, foram lançados os dois filmes restantes da trilogia, e Matrix consolidou-se como fenômeno cultural.

Meu livro Matrix e o Despertar do Herói – A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas foi lançado em 2005, de forma independente. Nele, analiso a obra na ótica da mitologia e da psicologia do inconsciente, mostrando a aventura de Neo como uma reedição moderna do antiquíssimo mito da jornada do herói e comparando-a ao processo de individuação de que nos fala a psicologia junguiana. É o meu livro mais vendido na Amazon.

Duas décadas depois, é interessante notar como os temas de Matrix seguem absolutamente atuais. A inteligência artificial cada vez mais se integra às nossas vidas, com suas vantagens e seus perigos. O planeta caminha célere para o esgotamento de seus recursos naturais ao som da hipnótica sinfonia do capitalismo e do consumismo desenfreado. O aprimoramento da tecnologia da realidade virtual nos leva, a cada dia, a ampliar nossa percepção sobre a natureza da realidade, o que pode ter impacto direto sobre todas as atividades humanas e sobre a ideia que temos do que seja a consciência.

E, no meio disso tudo, seguimos nós, cada um de nós, a atuar no roteiro próprio de nossas vidas, vivendo nossas existências numa realidade que por vezes parece tão absurda, tão falsa…

Toc, toc, toc. Acorde, Neo.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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Matrix2012Capa14x21aMatrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer

Analisando o filme Matrix pela ótica da mitologia e da psicologia do inconsciente e usando uma linguagem simples e descontraída, o autor compara a aventura de Neo ao processo de autorrealização que todos vivem em suas próprias vidas.

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ENTREVISTA

jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte-MG, abr2019

Por que você se interessou em escrever um livro sobre “Matrix”? Ele é quase um livro de autoajuda, não é verdade?
RK: “Matrix” é um grande filme, que marcou a história do cinema e influenciou a estética de muitas obras posteriores. Além disso, instigou discussões sobre vários assuntos pertinentes, como o uso da tecnologia, inteligência artificial, dominação, religião. Ele fez os adolescentes, nas praças de alimentação dos shopping centers, discutirem sobre a natureza da realidade, o que é algo notável. Em lugar do termo “autoajuda”, prefiro “autoconhecimento”, como, na verdade, é todo livro que aborde questões da psicologia do inconsciente.
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Apesar de já ter ficado um pouco datado (telas em DOS, cabines telefônicas), o filme ainda nos surpreende ao exibir discussões muito ricas envolvendo filosofia e mitologia. Qual delas mais lhe chama a atenção?
RK: Como toda grande obra, “Matrix” pode ser compreendido por diversos ângulos, como o socioeconômico, em que seres humanos são explorados em sua força de trabalho para a manutenção de um sistema injusto e opressor. Em meu livro, porém, analiso o filme na ótica da mitologia e da psicologia do inconsciente, mostrando a aventura de Neo como uma reedição do antigo mito da jornada do herói e comparando-a ao processo de autorrealizaçao, que Jung chama de individuação, e que todos nós vivemos, tendo ou não consciência disso.
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Creio que a ideia do seu livro parte de um desejo individual de mudar, de se conhecer e buscar a transformação. Como isso é expresso no livro?
RK: Para Jung, o futuro da humanidade dependerá da quantidade de pessoas que conseguirem se “individuar”, ou seja, tornarem-se in-divíduos, seres não divididos, unos, inteiros. Isso requer um grau avançado de autoconhecimento, para que se consiga harmonizar consciência e inconsciente. Individuar-se significa autorrealizar-se profundamente, efetivar as potencialidades. Porém, numa sociedade como a nossa, que prioriza o consumismo e a satisfação imediata, esse olhar para dentro não é estimulado, e assim as pessoas não se aprofundam em si mesmas e não se questionam verdadeiramente sobre o que são, e as divisões e conflitos internos persistem. O resultado final é a constatação, na velhice, que vivemos uma vida falsa, o que é muito triste e frustrante.

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Matéria do UOL: 20 Anos do Filme Matrix (abr2019)

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SOBRE O FILME

MatrixDVDCapa-1Matrix (The Matrix, EUA, 1999)

ARGUMENTO, ROTEIRO E DIREÇÃO: Lilly e Lana Wachowski
ELENCO: Keanu Reaves, Lawrence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving

No futuro, a humanidade é prisioneira de sua própria criação, a Inteligência Artificial, que criou a Matrix, uma realidade virtual onde foram inseridos todos os seres humanos para que eles não oponham resistência ao poder das máquinas. Todos não, pois um grupo de rebeldes mantém-se fora dessa realidade e luta para libertar o restante da humanidade. Eles creem na profecia do Oráculo que diz que um Predestinado um dia virá para vencer as poderosas máquinas e salvar a todos. Para eles, Neo, um jovem que vive na Matrix, é o Predestinado. Neo de fato desconfia que há algo errado com a realidade mas não pode aceitar que ele seja o tão aguardado salvador.

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TRÊILER OFICIAL


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Blade Runner: Deuses, humanos e androides na berlinda – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição, e é criando que ele faz isso

A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

Mulheres na jornada do herói – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

Seguir a boiada ou as próprias convicções? – Aos poucos podemos, cada um de nós, começar a agir de acordo com as nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos

A Matrix em cada um de nós – Em busca da realização mais íntima (tornar-se o Predestinado), o ego deve empreender uma longa jornada de autoconhecimento onde não faltarão medos e conflitos para fazê-lo desistir

A pergunta – Um dia, porém, alguém desconfia. E entende que os que olham para fora, sonham, e os que olham para dentro, despertam. E aí a pergunta é inevitável

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Um tempo para pensar no tempo

18/12/2017

18dez2017

Se pensamos sobre o tempo, logo não sabemos mais o que ele é

UM TEMPO PARA PENSAR NO TEMPO

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O tempo… Eis um tema instigante. Eu sei o que é o tempo. Você também sabe, todos sabemos. Porém, olha que curioso, se pensamos sobre o tempo, logo não sabemos mais o que ele é.

Para você, que me lê agora, o tempo vai do passado em direção ao futuro, ou vem do futuro e se faz passado? Ou você acha que o tempo não vem e nem vai para lugar algum, que ele é apenas um produto do estar-se vivo?

E o presente, quanto tempo exatamente ele dura? Um segundo? Um décimo de segundo? Um milionésimo de segundo? Tsc, tsc… Medir o tempo presente é impossível, pois qualquer medida será sempre divisível. Ou seja, o agora exato é uma mera abstração. Mas… se o passado já passou, o futuro ainda não chegou e o presente jamais será localizado, o que existe então?

Sabe as estrelas no céu? O que, de fato, você vê é a luz delas que chegou à Terra após uma viagem de muitos anos. Ou seja, o que você vê é o passado da estrela. Talvez ela já tenha desaparecido e só agora sua luz nos chegou. Aliás, tudo que você vê é passado, pois a luz emitida por qualquer objeto, inclusive essas palavras que você lê, demora um tempo, ainda que mínimo, para chegar às suas belas retinas. Na verdade, todas as suas percepções da realidade ocorrem em sua mente um tempo após seus sentidos captarem a imagem, o som, o sabor, o toque, o odor. Nem seu próprio pensamento escapa: quando você percebe que está pensando, já se passou um tempo, ainda que minimíssimo, desde o pensamento original. Isso significa que nossa consciência nunca está no mesmo tempo exato da realidade que acontece.

Vi recentemente o filme A Chegada (Arrival, do diretor Dennis Villeneuve), que é baseado no conto História da Sua Vida, de Ted Chiang, que li após ver o filme. A história é sobre a vinda de misteriosos seres extraterrestres à Terra. Uma renomada linguista é chamada pelos militares para, com ajuda de um matemático, tentar se comunicar com os alienígenas. Enquanto decifra a estranha linguagem dos visitantes, ela percebe que somente compreendendo o tempo de um modo diferente conseguirá realmente entendê-los e, assim, evitar um gravíssimo conflito internacional e definir o futuro da humanidade. Gostei muito do filme, e ainda mais porque desconfio seriamente que estamos próximos de uma descoberta decisiva sobre a natureza do tempo, e que isso poderá conduzir nossa espécie a um novo patamar evolutivo. Precisaremos que inteligências extraterrestres venham nos ensinar?

A teoria da reencarnação é uma ideia sedutora, pois admite a continuação da consciência na sequência do tempo, enquanto o corpo físico nasce, morre e renasce em vidas sucessivas. Porém, essa ideia está presa ao tempo linear, que não admite o conhecimento do futuro. Mas… e se for possível acessar o futuro, nem que seja apenas num lampejo de pensamento? Se é possível, e se existe a reencarnação, então por que não seria possível acessarmos uma vida nossa no futuro? Considerando essa possibilidade, o eu que fomos numa vida anterior poderia perfeitamente acessar esta nossa vida atual, como se fosse uma “lembrança” do futuro. Isso seria admitir que a consciência pode atuar em variados níveis de realidade espaço-temporal, uma ideia difícil de conceber, mas que é simpática a muita gente.

Inclusive gente doida como eu, que faz você ler isso tudo para, no fim, chegar à retumbante conclusão de que não sabemos absolutamente nada sobre o tempo, e que, por esse motivo, pensar sobre o tempo é a mais pura perda de tempo. Ou não?

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Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

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DICA DE LIVRO

O Irresistível Charme da Insanidade
Ricardo Kelmer – romance

Dois casais, nos séculos 16 e 21, vivem duas ardentes e misteriosas histórias de amor, e suas vidas se cruzam através dos tempos em momentos decisivos. Ou será o mesmo casal? Nesta história, repleta de suspense e reviravoltas, Luca é um músico obcecado pelo controle da vida, e Isadora uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. A uni-los e desafiá-los, o amor que distorce a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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LEIA NESTE BLOG

Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos (contos) – O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba?

O redemoinho do fim do mundo – É provável que estejamos à beira de um grandioso marco evolutivo, onde a Humanidade alcançará o clímax dessa aceleração das transformações

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DICA DE FILME

A CHEGADA (The Arrival, EUA, 2016)

Gênero: Ficção científica, drama, mistério
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Heisserer, baseado no conto História da sua vida, de Ted Chiang

Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker
Música: Jóhann Jóhannsson
Edição: Joe Walker

> Na Wikipedia

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TRÊILER DO FILME “A CHEGADA”

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01- muito bom! Conversas para as madrugadas… rsrs. Adorei o filme Arrival! Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – nov2017

02- Mestre! Me instigou a ver o filme! E nunca é perda de tempo ler vc! Kkkk bjks. Deise Carmo, Rio de Janeiro-RJ – nov2017

03- Amei ler isso mizifi RK. Não estou sozinha com minhas perguntas…. Zete More, Fortaleza-CE – nov2017

04- Bem precisamos de uma descoberta sobre a natureza do tempo, essa coisa que se mede em espaço… Porque a humanidade está num ponto de não retorno. Mais do que lugares para fugir ou regressar, precisamos de sair da linha reta e abraçar as curvas musculadas de Kronos. Susana Mota, Leiria-Portugal – nov2017

05- Tenho um livro aqui pra vc ler: O Espaço, o tempo e o Eu. Eu , Rômulo, Braulio Tavares e outros amigos costumávamos ler em voz alta, juntos, e conversar esses papos loucos que o “tempo” nos instiga. Isso rolava pela madrugada e só era interrompido quando eu servia um “arroz biônico”, prato delicioso feito com tudo que havia na geladeira. E a “plantinha” garantia o apetite.😎 Precisamos fazer isso juntos. Íris Medeiros, Campina Grande-PB – nov2017

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O dia em que entendi Belchior

30/04/2017

30abr2017

Ele já não tinha metas, estava finalmente livre para deixar a roda-viva que nos entorpece diariamente com a sedução das falsas necessidades

O Dia Em Que Entendi Belchior Ype 02

O DIA EM QUE ENTENDI BELCHIOR

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Um dia, pelos idos de 1984, meu velho amigo Alberto Perdigão me apresentou certa música de Belchior. Eu tinha vinte anos e já amava o bardo bigodudo, e subia o som no último volume quando o rádio tocava Coração Selvagem. Mas a música que Alberto me mostrou era outra, chamava-se Ypê, do disco Objeto Direto, de 1980. Lembro que ela me soou estranhamente bela, e em suas palavras parecia reluzir algo precioso, mas que eu sentia ser incapaz de alcançar.

Trinta e dois anos depois, em 2016, enquanto fazia pesquisas para o livro Para Belchior com Amor, topei com Ypê novamente, dessa vez na internet. Não a reconheci pelo título. Pus para tocar no You Tube e… imediatamente lembrei daquele dia. E para lá fui transportado. De repente, eu era outra vez aquele eu, o garoto bobo e deslumbrado com a vida que se abre em horizontes caleidoscópicos de infinitas possibilidades. O rio da vida não volta, é verdade, mas o continuum de suas águas é um mantra que tem o poder de nos levar para tempos que jamais se foram.

Como traduzir a íntima e poderosa revelação que Ypê agora me trazia? De repente, eu era o mesmo garoto de trinta anos antes, porque, na verdade, nunca deixei de sê-lo, mas ao mesmo tempo era outro porque agora eu simplesmente… me dava conta disso. Eu envelheci, mas continuo naquele dia, ouvindo meu amigo a cantarolar Ypê, a minha ignorância juvenil fascinada com as reluzentes novidades da vida. Reescutar esta música me pôs novamente frente à enigmática dançarina de pedra e me trouxe dias de metafísico assombro, em que o que fui e o que serei se harmonizaram no único tempo possível, o eu sou.

Após dias mergulhado em Ypê, voltei à tona e contemplei a obra de Belchior com um novo olhar. E sua trajetória floriu de um diferente significado. Sabe, eu entendi Belchior. Entendi como se entende algo ridiculamente óbvio. Sim, são bem visíveis a beleza e a sabedoria contidas em suas canções, mas, putz, ninguém cria algo como Ypê sem antes alcançar a verdade que habita, discreta, o fundo escuro do rio. Ninguém escreve um poema como esse, tão filosoficamente profundo e exato, tão misteriosamente simples, sem ter chegado à harmonia fundamental, aquela que transcende o tempo e os opostos, e nos faz ser um com o eus que somos e tudo que há. Belchior tinha apenas 34 anos, tão moço… Mas, ali, o poeta já havia cruzado o portal. E somente agora, tanto tempo depois, eu o entendia.

Feito o bodisatva da filosofia oriental, o poeta iluminou-se e ficou mais um tempo entre nós. E depois? Talvez Belchior tenha percebido que nada mais de relevante tinha para falar. Sua arte já o havia dito, e continua a dizer. Ele já não tinha metas, estava finalmente livre para deixar a roda-viva que nos entorpece diariamente com a sedução das falsas necessidades. E então o poeta se foi.

Para onde? Foi-se. Por aí. Algum tempo-lugar onde agora ele será o que sempre foi: um lindo ipê que apenasmente flora, apenso ao pé da serra.

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Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

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YPÊ
Belchior

Contemplo o rio que corre parado
E a dançarina de pedra que evolui
Completamente, sem metas, sentado
Não tenho sido, eu sou, não serei, nem fui
A mente quer ser, mas querendo, erra (a gente quer ter, mas querendo, era)
Pois só sem desejos é que se vive o agora
Vede: o pé do ypê apenasmente flora
Revolucionariamente apenso ao pé da serra

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Belchior – Ypê
gravação original, álbum Objeto Direto (1980)

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parabelchiorcomamorcapa3d-01Para Belchior com Amor

Neste livro, organizado pelo escritor Ricardo Kelmer e lançado em 2016 – sendo, portanto, o único livro lançado sobre Belchior com ele vivo -, o poeta, cantor e compositor cearense é homenageado por catorze autores conterrâneos, que escreveram contos, crônicas e cartas inspirados em suas músicas, as mesmas que tanto encantaram os mais velhos e continuam a encantar os mais novos. Literatura para celebrar um notável literato. Ele que soube, como poucos, harmonizar música e poesia, e que fez de sua obra e sua vida um intenso canto de amor, liberdade, questionamento e rebeldia. Salve Belchior!

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Esses jovens que resgataram Belchior – É um grito latino-americano que brota da dor das minorias e dos excluídos, de todos que não comungam com o deus mercado e vomitam a ração diária fornecida pela mídia poderosa

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FALARAM DE BELCHIOR

Jovens da era digital reabilitaram Belchior da pecha de chato – Artigo de Edmundo Leite, 03.05.17

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Andarilho – Eu sempre fui andarilho / Mas é assim que prefiro / Viver desse vento que eu sou

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OUTROS LIVROS

ICI2011Capa-01fRomance – Contos – Crônicas – Ensaio – Poemas

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VENDAS

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Ricardo Kelmer 2016 – blogdokelmer.com

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elalivro10Seja Leitor Vip e ganhe:

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 COMENTÁRIOS
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01- Minha canção preferida. Pablo Kaique, abr2017

02- Enfim ….. Michele SJ, abr2017

03- Poxa! Que texto! Jose Tavares De Araujo Neto, abr2017

04- Que coisa linda, Kelmito! Marta Pinheiro, abr2017

05- Lindo Ricardo Kelmer. Vou compartilhar, posso? Silvana Santiago, abr2017

06- Tocada com suas palavras, Kelmer. Neyane Macedo Infurna, abr2017

07- Perdeu o medo de abrir a porta. Sands Nepomuceno de Andrade, abr2017

08- Que pena, sumiu, e agora ele volta, sem vida.Tanto que pedimos ,Volta Bechior, e ele voltou. Vilma de Oliveira, abr2017

09- homenagem linda….. texto precioso… abraços…… o homem do nan nan nan nan nan nan….como dizia minha filha ao me repetir tantas vezes a mesma música… que amava e amo… Maria Allves, abr2017

10- Rica, tuas crônicas sempre tocantes e maravilhosas. Ouvimos Ypê repetidas vezes hoje. Se brotar um ao pé de onde será o aqui jaz, podem me culpar. Fabiana Vasconcelos, abr2017

11- Lindo seu texto, vou compartilhar também. Rosina Santana, abr20176

12- Linda Mente Brasileira.. Claudia Meirelles Bahia, abr2017

13- Lindo! Cecilia Eckmann Oliveira, abr2017

14- “A mente quer ser mas querendo erra…” 💓 Zete More, abr2017

15- Ricardo Kelmer estou a beber Ipê e celebrar Belchior. Fábio Bonfim, abr2017

16- #belchiorimortal. Sheler Souza, abr2017

17- Lindo!! Ypê, a minha favorita!! 😦 Helena Lima, abr2017

18- Maciel Que texto!!! 👏 👏 👏 👏 Fernanda Santiago, abr2017

19- Maravilhoso,um ótimo cantor , descanse em paz!!! Eva Heshiki, abr2017

20- 2011, o ano q eu entendi Belchior, conheço o meu lugar! Bertha Alves, abr2017

21- Inda bem que outras palavras de outros homenspoetas vem como tábuas no meio das águas dos olhos.Me salvo? Valeria Cordeiro, abr2017

22- A gente fica sem palavras, mas você disse tudo Ricardo Kelmer. Ligia Eloy, abr2017

23- Texto maravilhoso! 👏 👏 👏 👏 👏 Celia Sporrer, abr2017

24- Maravilha. Cicero Aguiar Ferreira, abr2017

25- Belas palavras Ricardo Kelmer! Almair Fernandes, abr2017

26- Tudo está tão triste, acabou esperança de vê-lo novamente no palco,tive a grande sorte de ir em vários shows dele. Marli Costa Ferreira, abr2017

27- Lindo isso q vc escreveu. Eliana Braga, abr2017

28- Belchior nos deixou belas letras…e você meu querido escreve como poucos.. nos leva as lágrimas… Onde está Belchior ? Agora com todos nós … podemos conversar em oração …..ele encontrará a paz… Regia Alves, abr2017

29- Comovidissima! Bela lembranca … Silvana Marques, abr2017

30- Wellington Alves olha que lindo , não tem como não lembrar de você…… Regia Alves, abr2017

31- Tomei muitas curtindo o professor Belchior, saudades,que descanse em paz. Wellington Alves, abr2017

32- Obrigada Ricardo Kelmer. Criss Maria Boscaratto, abr2017

33- Enfim sua volta p simplesmente … ir! Márcia Matos, abr2017

34- Valeu Ricardo Kelmer… 👏 👏 👏 👏 👏 Caio Napoleao Braga Soares, abr2017

35- Bonito, Ricardo!!! Daniel Medina, abr2017

36- 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻 texto lindo e profundo! Ana Paula Castro, abr2017

37- Perfeito! Ele foi o bardo, o menestrel e o monge budista de toda uma geração anterior a nossa, e tb tocou nosso coração com a força dos verdadeiros poetas! 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻 que encontre sua paz! 🙏🏻 🙏🏻 🙏🏻 😢 Isa Magalhães, abr2017

38- 👏 👏 👏 Marcos Luiz, abr2017

39- Valeuuuuuuuu cara! Maria Sá Xavier, abr2017

40- Maravilhoso seu texto Ricardo Kelmer!! O poema é lindo como todos os outros! Compartilhei. Sandra Macedo, abr2017

41- Valeu Belchior, valeu Kelmer!! Veronica Lopes, abr2017

42- vou partilhar, viu, rk 😢 Márcia Matos, abr2017

43- Se entende Belchior, porque ele canta muito bem “eu sou como você”… Ninha Alvarenga, abr2017

44- “Ninguém escreve um poema como esse, tão filosoficamente profundo e exato, tão misteriosamente simples” Disse tudo. Aderbal Nogueira, abr2017

45- texto maravilhoso, meu caro Ricardo Kelmer… Carlos Emílio C. Lima, abr2017

46- Lindissimo texto. Waldete Freitas, abr2017

47- 😢 👏 👏 👏 👏 👏 👏 👏 Celia Dos Santos, abr2017

48- Belo texto e bela homenagem Ricardo Kelmer #BelchiorEterno. César Espíndola, abr2017

49- Caralho Ricardo, como senti a morte desse moço! Maior representante da minha linda junventude!! Sandra Samm, abr2017

50- Querido, sábias palavras. Linda sua reflexão “…Ninguém escreve um poema como esse, tão filosoficamente profundo e exato, tão misteriosamente simples, sem ter chegado à harmonia fundamental…” Que dia triste! Lúcia Menezes, abr2017

51- Coisa linda, me arrepiei, chorei… Linda Homenagem, precisamos todos rejuvenescer” 👏 👏 👏 👏 Lucia Padua, abr2017

52- Justa homenagem, Ricardo Kelmer. Eugênio Oliveira, abr2017

53- Obrigada por me fazer descobrir essa música. Adorei! 👍 Luciana Loreau, abr2017

54- Texto lindo..Ipê, mararavilhosa..!! Verônica Filizola Salmito Soares, abr2017

55- Valeu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Roberto Tesch, abr2017

56- meu caro kelmer… nessa madrugada, falei com o shirlene sobre você, que tem ficado pouco em sp, para se dedicar ao projeto belchior 70 anos, essa mistura de show, literatura e teatro em homenagem a ele, a ele vivo e muito merecedor da iniciativa que lhe realçava o imenso talento. …. no caminho para casa, viemos no carro com verônica dirigindo, eu ao seu lado, e kita, selma e marici nos bancos traseiros. Eu e Verônica viemos cantando várias música do bel. enquanto eles conversavam lá atrás. Nem imaginávamos essa notícia triste que o domingo nos traria. Prometi tirar no violão ‘Brasileiramente, linda, oh yeah, oh yeah’.. E vou tirar. claro. …. …… um grane abraço! Arnaldo Afonso, abr2017

57- Obrigada Ricardo Kelmer. 👏 👏 👏 Vânia Quintana, abr2017

58- Nossa, que liiinda homenagem!!! Verdade Ricardo Kelmer!!! O rio da vida não volta, porém o contínuo de suas águas têm o poder de nos levar para tempos que jamais se foram. Nazare Moreira, abr2017

59- Belíssimo texto!  Foi meu primeiro impulso, escrever isso antes de ler os outros comentários e correr o risco de ser influenciado pela opinião alheia! Francisco Carlos Rodrigues, abr2017

60- Kelmer! Além da linda homenagem ao nosso grande poeta que nos deixa, o seu texto está cada vez melhor! Francisco Carlos Rodrigues, abr2017

61- Talvez eu morra jovem, alguma curva no caminho… Obrigado, Belchior! Ricardo Sergio Alves, abr2017

62- Q texto leve para este dia.beijo e abraço carinhos. Shirlene Holanda, abr2017

63- Deslumbrante…! Carla Cavalcante, abr2017

64- Essa partida eu senti. 😢 texto foda como sempre, Kelmer! Ana Cristina Martins, abr2017

65- Caramba como você escreve bem! Fascinante! ! Tina Holanda, abr2017

66- Meus sentimentos a família Belchior 😭 Enedina Pedro Henrique, abr2017

67- Meu parceirim Ricardo Kelmer. Você já contribuiu demais com sua homenagem a Belchior, com seu recente livro, em que vários escritores escrevem sobre nosso grande compositor. E essa sua crônica está demais. Parabéns. Solidário na tristeza. Joaquim Ernesto, abr2017

68- Essa doeu. Pra valer. Joaquim Ernesto, abr2017

69- Ricardo Kelmer, que texto lindo!!! Parafraseando Pessoa, como são velozes os dias que se passam na ribeira desse ou daquele rio. Talvez, por isso, seja tão importante o cultivo do “ypê que flora ao pé da serra” para além “da sedução das falsas necessidades”. Um abraço solidário!!! Lenha Diógenes, abr2017

70- Que lindo!!!! Manuella Surette Perdigao, abr2017

71- Que música. Fernanda Beirão Olajfa, abr2017

72- Texto lindo! Bela homenagem a esse grande artista. Rilza Araripe, abr2017

73- Que texto amigoRicardo Kelmer! ❤ Hoje não é mesmo dia para tristezas e sim para lembrar do quão vivo Belchior está em nossos dias! #Belchiorvive ☝ ☝ Lílian Martins, abr2017

74- Peço licença pra compartilhar… Wilkie Martins, abr2017

75- Lindíssimas palavras para dizer um pouco do nosso maravilhoso poeta. Que tristeza a sua partida… Mas ele sempre estará no coração de quem sente a poesia rebelde… Jacqueline Aragão, abr2017

76- Muito me honra ser citado em texto tão verdadeiro e tão lindo. Alberto Perdigão, abr2017

77- Admito que chorei : Lindo! Lia Aderaldo Demétrio, abr2017

78- Essa é uma das músicas de minha preferência. Castelo Branco, abr2017

79- Meus sentimentos mais sinceros Angela Belchior! Sabemos que ele voltou p casa, fique em paz! Cristina Luz, abr2017

80- Grande lindo poeta! Del Montenegro, abr2017

81- Sempre são belas, amarei sempre. Nila Ramalho, abr2017

82- Lindo, amigo! ❤ Esther Alcântara, abr2017

83- Linda Homenagem! Homem Inteligente, músicas com as letras que falam com a alma. Maria Aparecida Brigido, abr2017

84- Lindo!! Soraya Leao Rangel, abr2017

85- Juro q lembrei de vc qdo vi essa notícia Ricardo Kelmer … linda homenagem ! Hilbana Aquino, abr2017

86- Permita-me compartilhar. 👏 👏 👏 Jully Fernandes, abr2017

87- Que texto lindo. Ceça Vieira, abr2017

88- Que tecitura de palavras, amigo! Soa poesia. Sinonímia de Ypê… Partilhando. Marcos Melo Maracatu, abr2017

89- Bela verdade,belo texto Ricardo Kelmer,grato por me apresentar ypê que não existia para mim. Agora existe. Curto Belchior, estive com duas vezes. Inocêncio Melo, abr2017

90- Kelmer, seu livro está me fazendo companhia e ajudando a aceitar. Vivamos o agora. Braulio Tavares, abr2017

91- Que pena… Fiquei mais triste ainda com essa perda. Marcia Soares Fernandes, abr2017

92- Meio Alberto Caieiro, não? Brennand De Sousa Bandeira, abr2017

93- Querido Ricardo. Seu texto é mais que maravilhoso. Transcende tudo que sentimos. Marcia Soares Fernandes, abr2017

94- Vou compartilhar. Eglê Kohlrausch, abr2017

95- Lindo, Kelmer! Isabela Alvarenga Porto Lima, abr2017

96- Lindo mesmo!!!!! Andrea Bezerra Zokvic, abr2017

97- Larissa Luana Sergiana Nayara Marilia acho que precisamos conhecer melhor Belchior. Ravena Uchoa, abr2017

98- Sensacional a crônica sobre o dia que entendeu Belchior a partir do entendimento da letra de Ype. Sim, realmente…. Esse deve ter sido o último registro da compreensão necessária para ultrapassar o portal: “Não tenho sido, eu sou, não serei nem fui.”. Flávio Magalhães, Rio de Janeiro-RJ – jul2019

99- Que massa, tio. Belo texto. É isso. O Bel já sabia tudo e disse tudo. Ypê é muito foda. Eu ouvi hoje pela primeira vez. Aliás, o disco todo é muito bom! Levy Mota, Fortaleza-CE – out2019

100- Excelente!!! Igualmente a você foi também um amigo que me apresentou em 1976 o disco ALUCINAÇÃO. Fiquei sem entender a mensagem das canções, só tinha 13 anos de idade. Mas fui ouvindo naquele tempo quando tocava no rádio e passei a apreciar e depois fã. Até hoje e para sempre. Ediana Ferreira, Fortaleza-CE – mai2020

101- Emocionado, em prantos! Que delicadeza de post! De fato, Belchior simplesmente florou, nos deixando, no aroma sublime de sua vasta e profunda obra, rumos a seguir e caminhos a indicar. Valeu, Célio Feitosa, abraços e canções. Carlos Alberto Caetano Ribeiro, Belo Horizonte-MG – mai2020

102- E a dançarina de pedra que evolui. Pura poesia…! Expedito Alencar, Fortaleza-CE – mai2020

103- Uma belíssima homenagem. Campelo Neto, Pedro II-PI – mai2020

104- Eu tinha 16 anos em 1980, foi a primeira vez que ouvi Ypê, fiquei encantado sem saber exatamente o porque… Ao ler sua crônica, voltei aquela tarde de 40 anos atrás quando aquela canção/poesia me tocou tão profundamente. Voltando aos tempos de hoje, depois de ler sua crônica, o encantamento aumentou de uma forma melhor, mais completa, mais vívido. Obrigado por sua sensibilidade, vou mandar-lhe um e-mail, quero um exemplar físico do livro e se possível, autografado. Muito obrigado, por esta madrugada… Adrião Albuquerque, Recife-PE – mai2020

105- Vou pegar carona no texto e sensibilidade incrível de Ricardo Kelmer pra dizer algo dessa canção. Sempre que preciso, corro pra ouvi-la. E ela já tocou por aqui essa semana, nesse tempo estranho de recolhimento forçado. Ypê diz do mais sublime estágio da condição humana, a condição do compreender, finalmente, a filosofia da existência. Nela, Bel vai profundo no inconsciente e meu Deus, conseguiu essa proeza ainda aos 34 anos, a idade que tenho hoje!! Puxa! Pois bem. O recolhimento tem sido dolorido, tem exigido muito de mim, que olhe pra mim, que contemple o meu rio. Mas também têm sido de uma alquimia incrível! O recolhimento tem me dado o norte. Tem me ensinado sobre os meandros. Tem me dito que eu também sonho em ser ypê e que um dia, apenas floresça, revolucionariamente, apenso ao pé da serra. Ah!! Belchior, obrigada!!! E vou correndo ouvi-la! Aline Matias, Fortaleza-CE – mai2020

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Dia internacional da mulher selvagem

08/03/2017

08mar2017

No Dia Internacional da Mulher, uma homenagem ao feminino livre

DIA INTERNACIONAL DA MULHER SELVAGEM

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Neste Dia Internacional da Mulher, quero prestar uma reverente homenagem ao feminino livre. Para isso, reproduzo aqui um trecho da crônica A Mulher Selvagem.

“Ela equilibra em si cultura e natureza, movendo-se bela e poética entre os dois extremos da humana condição. Ela é rara, sim, mas não é uma aberração, um desvio evolutivo. Pelo contrário: ela é a mais arquetípica e genuína expressão da feminilidade, a eterna celebração do sagrado feminino. Ela está aí nas ruas, todos os dias. A mulher selvagem ainda sobrevive em todas as mulheres, mas a maioria tem medo e a mantém enjaulada. Ela é o que todas as mulheres são, sempre foram, mas a grande maioria esqueceu.”

Esta crônica é meu texto mais lido e comentado. A postagem oficial no Facebook tem mais de seis mil compartilhamentos. Acho que esse expressivo retorno dos leitores, mulheres principalmente, e seus comentários, significa que toquei em algo precioso para a psique feminina: a questão da liberdade de ser.

O que querem as mulheres? Para mim, a resposta é óbvia: mulheres querem o que homens também querem: liberdade para serem o que são, sem opressão. Apenas isso. Minha crônica fala sobre o arquétipo do feminino livre, de um modo poético, esse arquétipo poderoso mas que, infelizmente, a cultura machista e as religiões patriarcalistas conseguiram, durante séculos, manter bem escondidinho na psique feminina. O resultado dessa repressão criou não apenas mulheres domesticadas e infelizes, mas também sociedades injustas, relações desiguais, violência e desrespeito à Natureza.

Para um mundo mais justo e harmonioso, precisamos de mulheres livres.
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Ricardo Kelmer 2017 – blogdokelmer.com

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A Mulher Selvagem

Sua beleza é arisca, arredia aos modismos. Ela encanta por um não-sei-quê indefinível… mas que também agride o olhar. É um tipo raro e não tem habitat definido: vive em Catmandu, mora no prédio ao lado ou se mudou ontem para Barroquinha. E não deixou o endereço. É ela, a mulher selvagem.

> A crônica A Mulher Selvagem integra os livros Vocês Terráqueas e Blues da Vida Crônica

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MAIS SOBRE O FEMININO SELVAGEM

AMulherLivreEEu-02A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

Medo de mulher – A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido

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DICA DE LIVROS

vtcapa21x308-01Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino
Ricardo Kelmer – contos e crônicas

Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido… Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.

Mulheres que correm com os lobos – Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés –  Editora Rocco, 1994)

A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas

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Alma Una
(clipe da música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca)

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O cilindro da luz azul

17/08/2015

17ago2015

OCilindroDaLuzAzul-01.

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bEm sua luta para sobreviver no cenário apocalíptico de um mundo de opressão e violência, casal descobre estranhos cilindros trazidos pelo mar.

Mistério, ficção científica.

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

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O CILINDRO DA LUZ AZUL

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LILA FECHOU A PORTA do apartamento e desceu as escadas o mais silenciosamente possível. Chegou à calçada do prédio, olhou ao redor e certificou-se de que estava só, todos já haviam se recolhido aos seus pequenos apartamentos. A escuridão da rua protegeria seus movimentos e também, assim esperava, suas perigosas intenções.

Caminhou por alguns minutos pelas ruas desertas. Havia muito lixo acumulado nas calçadas e as lâmpadas dos postes estavam quase todas quebradas. Dali podia-se escutar bem próximo os tiros e as bombas, a fronteira do bairro sendo intensamente disputada pelas gangues. No alto de um prédio um enorme cartaz anunciava a novidade em segurança pessoal, um lança-chamas que, instalado no automóvel, protege contra assaltos.

Lila parou numa esquina, agachou-se junto à parede e olhou o relógio. Eram 22 horas.

“Ele tem que aparecer, não pode falhar…”

Quando soou o alarme, vindo de um alto-falante num poste próximo, ela sentiu um calafrio – era agora uma desobediente do toque de recolher. Toque de recolher, não, “horário de descanso”, como o Controle preferia. Um desobediente podia ser preso e enquadrado como destoante. E um destoante não escapava para contar a história. Ela não tinha dúvida que era esse o fim que a esperava caso seu plano desse errado. Pois bem, pensou, apertando as mãos com ansiedade, agora era tudo ou nada.

Enquanto aguardava, lembrou de Matias. Naquele momento, ele estava deitado no sofá do apartamento esperando por ela e dependia do sucesso da operação para não morrer. Ele estava muito doente. Resistira o quanto pôde, mas agora já lhe faltavam as forças. Lila dizia que era apenas uma indisposição passageira, porém ele sabia que ela tentava apenas não assustá-lo. Ambos sabiam que Matias havia contraído a doença típica dos resistentes – mais cedo ou mais tarde, todos eles apresentavam os mesmos sinais de tristeza e desânimo. Uma fraqueza geral os impedia até de comer e a grande maioria definhava e morria. Procurar hospitais significava entregar-se, pois o Controle já conhecia a doença. A única saída continuava sendo fugir da cidade.

Não resistir era a preferência da imensa maioria das pessoas. Numa época em que a população estava dominada pelos seus piores instintos, era sempre mais cômodo ir junto. Miséria, violência, epidemias, experimentos atômicos, poluição ambiental, ódios raciais e terrorismo religioso – o mundo sucumbira às suas próprias sombras e eram poucos os que conseguiam manter-se equilibrados no meio de toda a realidade confusa e opressiva.

Lila e Matias sabiam de amigos que conseguiram fugir da cidade. No início, ainda receberam algumas mensagens que foram lidas com alegria e esperança. No entanto, isso fora alguns anos antes, quando a perseguição aos destoantes e a vigilância das estradas ainda não eram tão fortes. Agora, escapar era quase impossível.

– Lila, você entende que o que vai fazer é muito arriscado, não é? – dissera Matias antes dela sair à rua aquela noite. – Pode ser o fim.

– Eu sei, meu amor. Mas a única coisa em que ainda podemos acreditar são aqueles sonhos.

– Não sei, sinceramente não sei mais… – respondera ele, baixando a cabeça. A doença turvava-lhe o raciocínio e a esperança.

– É nossa única chance, Matias. Se eu não voltar em duas horas, estarei numa delegacia. Ou morta. De qualquer modo não o entregarei, isso eu prometo.

– Você sabe que ninguém resiste aos métodos deles.

Ela apenas o beijou, carinhosamente, e saiu. Fechou a porta devagar e desceu as escadas em silêncio, para que os vizinhos nada percebessem.

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UM DIA, OS CILINDROS CHEGARAM. Milhares deles começaram a ser trazidos pelas ondas do mar sem que ninguém soubesse de onde vinham. Simplesmente amanheciam na areia das praias. Eram feitos de vidro transparente, tinham o tamanho de uma garrafa comum de refrigerante e pareciam conter apenas ar. Mas havia uma estranha luminosidade azulada em seu interior, um belo e instigante azul que de longe chamava a atenção.

A imprensa logo noticiou o fato, fazendo com que muitos curiosos corressem às praias. Imediatamente, o Controle entrou em ação e seus soldados vigiaram as praias, evitando que outros cilindros chegassem à população. Conseguiram também recuperar muitos dos que haviam sido recolhidos. Mas não todos.

Algum tempo depois, começaram os boatos. Eles diziam que destoantes conseguiam escapar utilizando o cilindro. No entanto, ninguém sabia explicar como faziam isso, se é que realmente faziam. O Controle fiscalizou barcos e navios, interrogou e prendeu centenas de pessoas, tudo com absoluto rigor. Entretanto, o mistério envolvendo os cilindros continuava.

Quando souberam o que estava chegando à praia, Lila e Matias lembraram imediatamente dos sonhos. Anos antes, eles sonharam, ambos e na mesma noite, com uma misteriosa luz azul pairando sobre o mar. Comentaram entre si o sonho e falaram sobre a forte aura de esperança que o envolvia. O sonho voltou outras vezes, sempre muito intenso, e eles entenderam que deviam manter a esperança e ficar atentos.

Lila ainda tentou se apoderar de algum dos cilindros, mas o Controle já enviara soldados às praias. Então ela agiu rápido e em poucos dias fez os contatos necessários, sempre com muita discrição. Precisava chegar às pessoas certas, caso contrário seria como pisar numa mina explosiva. Depois de todos os contatos realizados, passaram a aguardar. Tinham apenas que suportar até que chegasse a encomenda. Mas as semanas passavam devagar e o mundo ao redor parecia ele todo uma imensa correnteza sedutora a sussurrar: desistam, é bem melhor se entregar..

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ENTÃO, LILA O AVISTOU. O homem vinha pela calçada, protegido pelas sombras, caminhando rápido. Lila sentiu a expectativa quase explodindo seu coração. Olhou mais uma vez para um lado, para outro, para as janelas dos apartamentos. A rua estava deserta e tudo que podia fazer era torcer para que não a vissem.

– Demorei por causa dos Cães, moça. Eles já conseguiram controlar todas as entradas do bairro.

O homem retirou um embrulho do bolso do sobretudo e, com cuidado, passou a ela.

– Aqui está. Não me interessa o que pretende. Mas nunca vi ninguém me dizer a utilidade disso.

Ela guardou com cuidado o embrulho na mochila e entregou-lhe o dinheiro.

– Este mês você é a terceira pessoa que me pede esse troço.

– E as outras duas?

– Ninguém sabe.

O homem virou-se e rapidamente sumiu na escuridão da rua.

Por um instante, Lila não teve forças para sair do lugar. Finalmente, ali estava o cilindro. Era como se, depois de tantos anos, aqueles sonhos estranhos houvessem de repente se materializado em suas mãos. Teve vontade de chorar. Chorar por todo aquele tempo de resistência, por todos os perigos que passaram e por terem acreditado desde o início na mensagem de esperança dos sonhos. Então respirou profundamente e deu o primeiro passo de volta para casa.

As quadras seguintes pareceram intermináveis. Ela percebeu que algumas pessoas a viam das janelas dos prédios. Sabia que bastava uma delas ligar para um número e rapidamente uma viatura a recolheria como desobediente. E tudo estaria perdido. Sabia também que nem todos concordavam com o sistema de denúncias, mas os que discordavam não ousavam se pronunciar. Ela e Matias estavam sós, eles e todos os que ainda mantinham um mínimo de lucidez naquele inferno.

– Matias?

Deitado no sofá, Matias abriu os olhos devagar, despertando de um sono profundo.

– Está tudo bem? Estava dormindo?

– Sim – ele respondeu, ainda sonolento. Tentou lembrar o que estava sonhando… parecia ser um sonho interessante… mas não conseguiu. Então sentou-se e calculou mentalmente os movimentos da companheira pela sala. – Que bom que você voltou. Deu tudo certo?

– Sim. Aqui está o cilindro.

Lila tirou o embrulho da mochila e pôs sobre a mesa. Pela janela chegavam distantes sons de tiros e explosões. Os Cães aos poucos expulsavam todas as outras gangues do bairro. Eles logo o conseguiriam, estavam muito melhor armados e tinham o apoio dos Guerreiros de Deus, a gangue do bairro vizinho. Em breve o monopólio das drogas e das armas estaria com eles.

– E você, está bem?

– Só um pouco nervosa… Mas já está passando.

– Certificou-se de que não foi seguida?

– Não fui, fique tranquilo.

Ela sentou-se ao lado dele no sofá e o abraçou. Matias estava sem forças. Uma dieta à base de comidas mais saudáveis o ajudava a preservar o restante de lucidez, mas estava difícil encontrar bons alimentos no bairro.

– Lila, meu amor… – ele disse, e seus olhos esbranquiçados estavam úmidos. – Esse tempo todo você cuidando de mim e de você, sozinha… Arriscou-se tantas vezes…

– Ah, Matias, deixe disso – ela o interrompeu, acariciando-lhe o rosto magro e abatido. – Você deve estar com fome. Vou fazer uma sopinha bem gostosa.

Enquanto cozinhava para o companheiro, Lila lembrou do dia em que ele cansara, simplesmente cansara. Naquele dia, não adiantaram seus apelos: Matias simplesmente desistiu de nadar contra a corrente e se rendeu. Discutiram e ele terminou indo embora, deixando um bilhete em que lamentava não ser tão forte quanto ela e a incentivando a seguir, sem ele por perto a atrapalhar seus passos, ela era uma mulher forte, conseguiria sobreviver.

Dois anos depois, ela conseguiu finalmente encontrá-lo – num hospital psiquiátrico. Matias estava cego e em deplorável estado físico. Não duraria muito tempo naquele lugar, principalmente porque o Controle costumava eliminar doentes como ele. Então, gastando o resto de suas economias, ela subornou algumas autoridades e conseguiu retirá-lo de lá.

Durante meses cuidou dele até que recobrasse um pouco de suas forças e da esperança. Tentou arrumar-lhe trabalho, mas aqueles dois anos haviam deixado em Matias graves sequelas e o máximo que ele conseguiu foram subempregos clandestinos que lhe desgastaram ainda mais a saúde.

Isso acontecera quinze anos antes. Agora a cegueira já não o incomodava tanto, pois ele desenvolvera os outros sentidos e adquirira uma ótima noção do espaço, guiando-se por meio do som, do cheiro e da movimentação do ar. Mas estava cada vez mais fraco e o desânimo havia voltado. Morrer era apenas uma questão de tempo, eles sabiam. A não ser que Lila conseguisse um dos cilindros. Mas o que exatamente podiam os cilindros fazer por ele?

– O homem disse que este é o terceiro cilindro que ele vende este mês – comentou Lila, verificando de um canto da janela a rua lá embaixo. – Há outras pessoas lúcidas nesta cidade. E eu tenho certeza que todas escaparão.

– Agora que temos o cilindro, o que faremos?

– Sinceramente, não sei.

– Isso tem que servir para alguma coisa – ele falou, apalpando e cheirando o cilindro. – Mas não tem nenhuma abertura.

Então, aconteceu. Foi tudo muito rápido. De repente, para Matias, foi o barulho de porta sendo arrombada e homens gritando que eles estavam presos, não tentassem nada senão morreriam.

Matias percebeu o rápido deslocamento de ar no ambiente e compreendeu que haviam levado Lila para longe dele. Sentiu o cilindro ser puxado de suas mãos e, ao tentar reagir, um objeto moveu-se rapidamente na direção de sua cabeça. Ele ainda teve reflexo para, num mínimo movimento de pescoço, amortecer o golpe, mas mesmo assim a dor foi enorme e ele caiu, sentindo que estava prestes a desmaiar. Lila gritou, e ele percebeu que ela já estava imobilizada. Quis falar para ela não reagir, mas não conseguiu.

Caído ao chão, ficou quieto, sentindo a cabeça sangrar. Tentou reorganizar a apreensão do espaço ao redor. Eram quatro homens. Um deles estava com Lila. Outro na porta da sala. Um terceiro próximo à mesa, e certamente devia estar com o cilindro. E o quarto bem próximo, muito provavelmente o que o atingira com uma arma.

– Deus não quer violência, já basta a que existe – disse o que estava perto da mesa. – Então, vocês nos dizem para que serve o cilindro e nós deixamos vocês em paz.

– E você, logicamente, acha que nós acreditamos nisso… – respondeu Lila.

– Podemos negociar suas vidas. Na condição de vocês, isso já é muita coisa.

Então o Controle continuava sem saber manipular os cilindros, concluiu Matias, ainda imóvel no chão. Era uma boa notícia. Porém, ele e Lila também não sabiam. Sequer haviam-no aberto.

– Estamos esperando… – falou o da mesa, que parecia ser o chefe.

– Nós não sabemos para que serve – a voz de Lila soou do outro lado e, pelo ritmo e inflexão, Matias sentiu que ela estava bem atenta. Precisava ganhar um pouco mais de tempo, ainda estava grogue.

– Ah, deixe ver se entendi. Compraram um objeto, pagaram muito caro e não sabem para que serve. Isso não me parece lá muito inteligente… Cadela vagabunda!!!

O som forte e abafado de um soco doeu nos ouvidos de Matias. Escutou os gemidos de Lila e o som de seu corpo caindo ao chão. Tentou gritar, mas não teve forças.

– A cadela vagabunda tem cinco segundos para dizer como funciona o cilindro – disse o da mesa. Matias percebeu que o quarto homem se aproximava. Sentiu o cano de uma arma tocando sua cabeça. – Se não quiser, obviamente, que os miolos do ceguinho sujem o chão da sala. Cinco… Quatro…

– Mas eu já disse! – Lila gritou. – Nós não chegamos a usar!

– Três…

– Nós não sabemos, acredite em mim!

– Dois…

– Não faça isso, por favor!

– Um…

– Eu mostro… como funciona – disse Matias. A voz finalmente voltava.

– Ah, o ceguinho fala…

Matias levantou-se com dificuldade. Sentiu-se tonto e segurou-se na mesa para não cair. Perguntou onde estava o cilindro.

– Aqui está. E não tente ser esperto.

Matias recebeu o cilindro com as duas mãos, segurando firme. O homem que guardava a porta da sala continuava lá, no mesmo lugar, calculou ele. O da mesa estava ao seu lado. O terceiro continuava com Lila. O quarto homem se afastara um pouco, mas certamente ainda lhe apontava a arma.

– Estou muito fraco… não sei se vou conseguir abrir – ele disse.

– Além de cego, mentiroso.

– Ele está doente, estúpido! – gritou Lila.

Então Lila estava em pé de novo, Matias calculou rapidamente. Ela estava em pé e percebera que devia falar para que ele determinasse sua exata localização.

– Então abra você, cadela. Sem gracinhas.

Matias sentiu que o quarto homem se aproximava. Percebeu que ele pegaria o cilindro de suas mãos. Nesse exato instante entendeu que não deveria entregá-lo. Foi uma certeza estranha, como se na verdade sempre houvesse sabido disso. Então, abriu as mãos e deixou o cilindro cair…

O cilindro, porém, não chegou ao chão: o homem moveu-se rápido e o apanhou no último momento. Entendendo que nada mais restava a fazer, Matias saltou sobre o da mesa, o que parecia ser o chefe. Caiu sobre ele, abraçando-o, e os dois chocaram-se contra a parede. Suas mãos encontraram uma arma na cintura de seu oponente. Mas não conseguiu retirá-la, o outro era forte e ele estava fraco demais. O homem afastou-o de si e em seguida um golpe o atingiu no rosto, fazendo-o cair.

Tentou erguer-se, mas não conseguiu. Sentiu gosto de sangue na boca. Nesse instante, percebeu que Lila gritava e tentava alcançá-lo, mas era impedida. No chão, recebeu dois chutes. O primeiro partiu-lhe algumas costelas e o segundo arrancou-lhe vários dentes. Mais gosto de sangue. Muita dor. Mais golpes, na cabeça, no peito, por todo o corpo. E depois nada mais sentiu, nenhuma dor, nada. Apenas adormeceu, lentamente…

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– MATIAS?

Ele escutou a voz, trazida pelas ondas do mar, os sons quebrando em alguma longínqua praia de seu pensamento…

– Está tudo bem?

Ele abriu os olhos. Viu que estava deitado na cama.

– Sim, tudo bem…

– Você estava gemendo. Fiquei preocupada.

Matias sentou-se, esfregando os olhos. Reconheceu o quarto da pousada praiana onde passavam o fim de semana com amigos, o abajur ligado, o som distante do mar… E Lila ao seu lado.

– Tive um sonho… tão estranho…

– Toma, bebe um pouco – ela disse, entregando-lhe um copo dágua.

– Um mundo de autoritarismo e opressão… Era uma vida difícil, perigosa… Eu era cego, e você cuidava de mim. E havia uns cilindros esquisitos, com uma luz azul…

– E o que acontecia?

– Fomos capturados, algo assim. E nos mataram.

– Ai, que horrível.

– Acho que nunca tive um sonho tão… tão real.

– Foi só um sonho, meu amor, está tudo bem agora – ela disse, em meio a um bocejo. – Vamos dormir? Amanhã cedo vamos passear de barco com a turma.

Ele não respondeu, ainda lembrando do sonho.

– Amanhã você me conta mais. Estou morrendo de sono.

Lila puxou a coberta, aconchegando-se ao corpo de Matias. Ele esticou o braço, desligando o abajur, e o quarto ficou escuro, iluminado apenas pela luz do luar que chegava pelas frestas da janela. Ele deixou-se envolver pelo calor do corpo da namorada e tentou adormecer. As imagens e a atmosfera do sonho, porém, insistiam em voltar. A sensação de ser um cego, de ser cuidado por Lila, de resistirem juntos, tudo era muito real. E o cilindro com aquela luz misteriosa, aquele azul…

– Lila?

– Hummm…

– Olha pra mim.

Ela abriu os olhos, sonolenta, e seu rosto foi iluminado pelo luar. Ele sorriu, confirmando para si mesmo: a luz do cilindro tinha a mesma cor dos olhos dela.

– O que foi? – ela perguntou, curiosa.

– Obrigado, meu amor.

– Pelo quê?

– Por existir.

Ela riu.

– Se você não me deixar dormir, amanhã eu serei uma morta-viva…

Ela o beijou e juntou seu corpo ao dele, buscando novamente o sono. Ele sorriu, feliz. E assim adormeceu, embalado pela melodia silenciosa que exalava da presença da mulher que tanto amava.

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– MATIAS?

Deitado no sofá, Matias abriu os olhos devagar, despertando de um sono profundo.

– Está tudo bem? Estava dormindo?

– Sim – ele respondeu. Tentou lembrar o que estava sonhando. Parecia ser um sonho interessante… Mas não conseguiu. Então sentou-se e calculou mentalmente os movimentos da companheira pela sala. – Que bom que você voltou. Deu tudo certo?

– Sim, aqui está o cilindro.

Lila tirou o embrulho da mochila e pôs sobre a mesa.

– Lembrei!

– O quê?

– O sonho.

– Que sonho?

– Foi tão real. Estávamos numa pousada na praia… Era um tempo bom, nós tínhamos amigos, éramos felizes. E eu enxergava.

– E o Controle?

– Não havia Controle.

Lila sorriu, comovida.

– Talvez esse outro mundo exista.

– Ele existe, Lila. Eu sei que existe.

Matias ergueu-se e caminhou até onde ela estava, ao lado da mesa.

– Este é o cilindro? – perguntou, apalpando o embrulho.

– Sim.

Ele abriu o embrulho e pegou o cilindro com cuidado.

– A luz dentro dele está acesa?

– Sim – ela respondeu. – E é mesmo azul.

– Da cor dos seus olhos… – ele sussurrou.

– Meus olhos são castanhos, meu amor, você esqueceu?

Ele sorriu. E seu sorriso era de pura tranquilidade.

– Não. São azuis.

No instante seguinte, ele abriu as mãos, deixando o cilindro cair…

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ENQUANTO DOIS HOMENS vigiavam a porta e a janela, outro homem examinava os corpos do casal no chão.

‒ Chegamos cinco minutos atrasados ‒ disse ele.

– Estão mortos? ‒ perguntou o outro homem, ao lado da mesa.

– Sim, chefe. Nenhuma marca, nada de sangue.

– Que merda.

Enquanto os outros três homens colocavam os corpos em sacos e os levavam, o chefe abaixou-se e começou a juntar os pedaços de vidro espalhados pelo chão. Aquilo estava deixando-o louco. Era sempre a mesma coisa: destoantes inexplicavelmente mortos, sempre com a expressão serena, como se estivessem dormindo, e o maldito cilindro espatifado no chão. Ele mesmo já quebrara alguns cilindros, mas nada acontecera. Que diabo de mistério era aquele?

Pôs os pedaços de vidro dentro da valise, fechou e caminhou até a saída. Deu uma última olhada na sala, apagou a luz e saiu, batendo a porta.

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1cEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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01- Baita texto do meu amigo Ricardo Kelmer, um dos meus preferidos, e que deixaria até o mestre Philip K. Dick pra lá de orgulhoso. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – ago2015


O strip-tease

13/07/2015

13jul2015

OStripTease-02

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bCriaturas do futuro que voltam no tempo para garantir que elas mesmas, no passado, não cancelem o futuro – esses são os Observadores.

Fantástico, ficção-científica

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Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

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O STRIP-TEASE

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– VOCÊ DEVIA BEBER MENOS, Zeca.

– Quer uma dose?

– Não, obrigado. Por que você anda bebendo tanto, Zeca?

– Tá na pauta, espera que vou contar.

– Tô esperando.

– Você tá muito bonita.

– Obrigado. E você, ainda farreando muito?

– Naquela época que a gente se conheceu eu tava no auge. Mas agora dei um tempo na noite.

– Aquela época faz só um ano.

– Pois é.

– …

– Gisele, eu pedi pra você vir aqui porque tenho uma coisa importante pra contar.

– Desde o início, eu sempre desconfiei que você me escondia algo.

– Vai ser a coisa mais estranha que você já escutou na vida. Vai achar que eu enlouqueci.

– Sei que muita gente acha que você é louco, mas eu sei que não é. É só um pouco excêntrico. E meio fechado.

– Vai achar sim. Mesmo assim eu vou falar.

– Zeca, eu gosto muito de você. Sei que você tem suas esquisitices, todo mundo tem. Só acho que podia se abrir um pouco mais…

– Eu sei, você já me falou isso. Eu vou lhe contar tudo. Mas tenho certeza que depois você vai dizer que preciso fazer um tratamento e não vai mais querer saber de mim.

– Você por acaso tá vendo alguém aí do seu lado?

– Como?

– Aí do seu lado tem alguém? Você fica olhando e sorrindo como se tivesse alguém aí…

– Hummm… Esse é o problema, Gisele. Tem alguém aqui do meu lado.

– Como assim?

– É exatamente sobre isso que vou lhe falar. Escute, por favor. Primeiro escute.

– Tô escutando.

– Vamos lá. Ahnn… Tudo começou numa noite em que eu estava aqui com uma garota. Foi antes de eu conhecer você. A gente tinha chegado da boate e ela tava no banheiro. E eu na cama, esperando. Foi aí que eu vi pela primeira vez. Não quer mesmo tomar nada?

– Não, obrigado.

– Ele tava sentado na cadeira da minha escrivaninha. Na hora pensei: assalto, putaquipariu. Eu nu na cama e um assaltante no meu quarto. Mas não fiquei muito nervoso não, acho que foi porque eu tava bêbado. Então falei: Ok, meu irmão, pode levar o que quiser, minha carteira taí, tem um som legal lá na sala, mas por favor não faça nada com a gente… Pois bem, quem tomou susto foi ele. Levantou, me olhou de perto e perguntou se eu realmente tava vendo ele. Era como se não estivesse acreditando. “Você tá me vendo mesmo, Zeca? Tá realmente me vendo?” Eu fiquei sem entender, achei que podia ser algum conhecido, ou que ele tava muito doidão… Então perguntei de onde me conhecia e ele levantou os braços dizendo: “Finalmente!!!” Quer continuar a ouvir?

– Claro. Eu tô ouvindo. Não era um assaltante?

– Não. Era o Observador.

– Quem?

– O Observador.

– Ah, o Observador. Deve ser novo no bairro, ainda não conheci.

– Nem queira.

– Afinal, era amigo seu?

– Era o Observador, já disse.

– Ah, sim…

– Sério, Gisele. É assim que ele mesmo se chama.

– Tá. E quem é o Observador?

– Vamos lá. Observadores são seres que vivem em outra dimensão de tempo e espaço. Levam uma vida normal por lá. Só que eles têm amigos aqui e às vezes têm de vir ajudar o amigo. Enquanto não conseguem, não podem retornar ao seu mundo, ficam presos aqui neste tempo-espaço. É isso. Pelo menos foi isso que ele me disse.

– Ah, você viu seu anjo da guarda.

– Não, não, tá mais pra demônio. Um demônio muito, muito chato.

– Era isso que você queria me falar?

– Tô falando sério, juro.

– Tá. E aí?

– Bem, isso tudo ele me explicaria depois, mas antes a garota entrou no quarto e perguntou com quem eu tava falando, e eu apontei pra ele. Mas ela não viu ninguém. Foi então que ele disse que somente eu podia vê-lo e escutá-lo, ninguém mais, que a coisa funcionava assim mesmo. O sujeito parecia superfeliz e dizia que seus dias de solidão haviam terminado. Bem, no fim a garota achou a coisa tão estranha que se vestiu e foi embora.

– E o cara?

– Ficou lá. Tentei tocar nele, mas minha mão atravessou a imagem. Aí eu disse pra mim mesmo que aquilo era um sonho muito louco e tratei de dormir. No outro dia, acordei e ele continuava me observando.

– Zeca, eu…

– Eu sei que você não tá acreditando, mas deixe eu contar até o fim. Você prometeu.

– …

– Ele disse que tinha uma missão secreta. Que era algo que dependia de mim, e que se eu fizesse a coisa certa, ele poderia ir embora.

– Olha, Zeca, eu…

– Espere…

– Eu não sei o que tá acontecendo com você, mas…

– Gisele, eu juro que é verdade. Eu não tô louco. Acho até que seria melhor se estivesse mesmo, seria mais fácil de aguentar esse pentelho o tempo todo ao meu lado…

– Quer dizer que você tá falando sério.

– Tô.

– Não tá me gozando.

– Não.

– Então diz pra mim: eu tô falando sério.

– Eu tô falando sério.

– Sem rir, Zeca!

– Desculpa, é que essa situação é meio ridícula.

– Ridícula sou eu aqui escutando essas, essas…

– Você quer ir embora?

– …

– Se quiser, pode ir na boa que eu…

– Vai, continua, eu quero escutar.

– Onde que eu parei?

– O Observador lhe disse que tinha uma missão.

– Isso. Que eu precisava fazer algo, e ele tava ali pra me ajudar a fazer esse algo.

– E você não sabia do que se tratava.

– Continuo sem saber.

– Nem desconfia?

– Bem, ele me conhece como ninguém, é incrível. Tem me feito pensar muito sobre minha vida, me faz ver onde que eu tô errando, os meus defeitos… Isso me deixa muito mal.

– Todo mundo tem defeito, Zeca.

– Mas eu é que tenho um cobrador de atitudes vinte e quatro horas por dia, infalível. É como se fosse uma parte de mim.

– Ele tá com você desde antes da gente começar a namorar?

– Sim, há um ano.

– Então quando você me conheceu ele tava junto?

– Tava. Ele não larga do meu pé, Gisele. Lembra de como a gente se conheceu?

– No balcão do Pai Herói.

– Lembra de como eu tava?

OStripTease-02– Calça preta e camisa azul. Um gato.

– Não, tô falando do meu estado.

– Bêbado, claro.

– E morrendo de rir, não era?

– Tava um tanto risonho.

– Por causa dele. Ele antecipava tudo que eu ia dizer, sabia de cor todas as minhas abordagens. “Oi. Você não se sente uma sardinha nesses bares tão lotados?” Eu abria a boca pra falar e ele falava antes. E eu começava a rir.

– Ah, era por isso?

– É um sádico gozador, me sacaneia bastante. De repente, se esconde entre as pessoas e eu acho que fiquei livre dele. Quando menos espero, surge com um comentário bem cretino. Lembra de uma vez que a gente tava numa mesa lá no Papillon e eu tive um acesso incontrolável de riso?

– Parecia um demente.

– Por causa dele. Naquela noite, ele apareceu de repente com a cabeça bem aqui do meu lado e falou assim, muito sério: “Você está olhando tanto que eu vim segurá-lo pra você não cair dentro do decote dela…”

– Meu decote?!

– Eu estourei de rir. Você tava com um decote assim bem chamativo, e aí fiquei imaginando eu caindo lá dentro… Você sem entender nada e eu morrendo de rir.

– Quer dizer que foi pelo meu decote…

– Na hora foi engraçado. Mas esse pentelho tornou minha vida um inferno. Por isso tem muita gente achando que eu sou doido.

– Muita gente mesmo.

– Pudera. No começo, até que eu me divertia, mas depois fui ficando irritado. Aí mandava a compostura pros diabos e discutia com ele na frente de quem fosse, dizia que ele não tinha o direito de fazer aquilo, que era uma coisa que ia contra a liberdade individual e a ética cósmica, e que…

– Ética cósmica?

– Eu tava desesperado, valia qualquer coisa.

– Realmente.

– Comecei a ficar com muita raiva dele. Sabe o que é ter de conviver com alguém que conhece você profundamente e vive lhe jogando seus defeitos na cara, ironizando suas atitudes? Pois é o que ele fazia. Não perdia uma oportunidade. Você se sente nu. Você não consegue se concentrar em mais nada. Vai ler um livro ou ver um filme e não consegue, é um inferno. De tanto ele falar, de um tempo pra cá comecei a perceber um bocado de coisa que tenho de mudar em mim.

– Por exemplo?

– Ah… Ele me fez ver o quanto eu tava sendo frívolo, superficial, o quanto era falso comigo mesmo. E me fez ver também o quanto sou dono da verdade.

– Ele fez isso?!

– Fez.

– E você reconheceu?!

– Tive, né? Ele não deixa passar nada. Eu tô conversando com alguém e dou uma opinião… Pronto, lá vem ele me alfinetando. No começo, eu fingia não escutar, mas a coisa ficou insuportável. Se ele fosse de carne e osso a gente já tinha saído na porrada.

– E ele sempre esteve perto, mesmo nos momentos em que a gente tava junto?

– Hum, hum.

– Até mesmo… naqueles momentos?

– Até naqueles momentos.

– Então ele me viu nua várias vezes.

– Eu não podia fazer nada, Gisele, entenda.

– Ele viu tudo?

– Ele tá pregado na minha alma, na minha energia. Também não pode fazer nada.

– Era só o que me faltava…

– Agora entende porque nunca consegui relaxar com você? Ele tava sempre perto observando… A única maneira de poder esquecer um pouco era enchendo a cara. Era mais conveniente ficar bêbado pra não pensar sobre certas coisas.

– Olha, Zeca… eu… não sei nem o que pensar. Não sei se me irrito com você, se rio dessa história absurda…

– Pode rir, não vou me importar.

– Não sei se continuo aqui escutando essas… essas loucuras… Não sei.

– Eu tinha de lhe contar.

– Por que eu? A gente não se fala há semanas.

– Foi ele quem sugeriu. Achou que você compreenderia. “Por que você não conta pra Gisa? Ela é uma pessoa sensível, pode ajudar…”

– Ele me chama de Gisa?

– É. Ainda tem essa intimidade.

– Ele tá aqui agora?

– Sentadinho aqui. Morrendo de rir dessa situação ridícula, o sádico. Pergunta algo pra ele.

– Eu?

– É, pergunta alguma coisa.

– Ah… Sei lá.

– Ele tá dizendo que você dança muito bem.

– E ele já me viu dançar?

– Ele foi comigo na apresentação do seu grupo.

– Ah… Que bom. Agradeça a ele.

– Agradeça você, ele tá ouvindo.

– Ahnn… Obrigado, seo Observador… Ai, Zeca! Essa situação realmente…

– Ah, ah, ah, ah!

– …

– Desculpa. É que foi engraçado.

– Zeca, você me chamou aqui pra conversar sério. Eu vim porque acreditei. Aí chego e você me vem com esse papo de Observador. Porra!

– …

– Zeca, se você estivesse em meu lugar, o que faria agora? Diga sinceramente.

– …

– Diga, o que você faria?

– Sinceramente? Acho que levantaria, sairia por aquela porta e tchau.

– Pois é o que vou fazer. Mas antes deixa eu dizer uma coisa: pare de beber, Zeca. Ou pelo menos diminua, se não quiser piorar tudo. E se estiver bebendo pra não ter de encarar certas coisas sobre você mesmo, então lamento dizer que tá indo pelo pior caminho.

– …

– Tchau, Zeca. E tchau pro seu amigo…

– …

– Ele tem nome?

– Eu chamo de Hóbis.

– Hóbis?

– É, Hóbis. Bonitinho, não?

– Hóbis, o Observador… Tchau, Hóbis. Não deixa o Zeca beber demais.
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OStripTease-02– EU AVISEI. Não era pra você contar assim, de uma vez só. Tinha de ser devagar.

– Agora já tá feito, Hóbis.

– E se você tiver perdido a Gisa de vez?

– O que tiver de ser, será.

– Você parece que fez isso pra se livrar dela.

– Se ela gosta de mim como você diz, então ela teria entendido melhor a coisa.

– Ela precisa de tempo, Zeca.

– Agora já tá feito.

– Ligue pra ela de novo. Agora que ela já sabe de mim, deixe que pense que você é louco mesmo. Ela também não é muito normal. Não pode tomar duas cervejas que quer fazer piruetas pelo meio da rua…

– Pelo menos ela dança bem.

– Você ainda não viu nada…

– Ei! O que você sabe sobre ela que eu não sei?

– Esqueça, pensei alto. Vá, Zeca, ligue pra ela.

– Eu não posso ligar de novo, Hóbis! Você viu, ela tem certeza que eu pirei.

– Ela gosta de você.

– Eu também gosto dela. Desde o começo, você sabe. Mas só fiz besteira.

– Claro, sempre bêbado…

– Por sua causa.

– E eu tô aqui por sua causa. Então é você quem tem de fazer alguma coisa.

– E tô fazendo. Tô bebendo pra ver se morro logo de uma vez e me livro de sua chatice.

– Zeca, seu tapado imbecil. Gisa é a mulher que pode te ajudar, te incentivar a seguir o melhor caminho. Acontece que você morre de medo daquilo que mais precisa. É um tolo.

– Se ela puder, me manda pro manicômio.

– Ligue pra ela, marque um local agradável.

– Papa-Tudo Motel. Suítes com cadeira erótica.

– Marque no Spy, convide pra tomar um suco. Por favor, nada de álcool.

– Já falei pra não me pedir isso. Bebo se eu quiser.

– Como posso deixar de pedir isso, seu burro?! A bebida tá estragando sua vida.

– Quem tá estragando minha vida é você!

– É você quem estraga a minha, incompetente! Eu poderia estar em casa, com minha família! Mas não, tenho de estar aqui com você, você que prefere viver personagens em vez de ser você mesmo!

– …

– …

– Escute, Hóbis, eu já passei uma semana sem beber e não adiantou nada, você continuou me pentelhando.

– Não são sete dias sóbrios que vão resolver os seus problemas, cretino. Olhe pra dentro de você mesmo e veja o que é que tem de mudar.

– Se soubesse, eu mudaria.

– Você sabe.

– Eu não sei, já disse!

– Sabe sim!

– Se soubesse, já teria mudado só pra me livrar de você, palhaço!

– Ah, você pensa que é agradável pra mim ficar assistindo seus porres idiotas, suas abordagens sem graça, “Oi, veja só, eu um sujeito simples e você tão cheia de predicados…” Sem falar nas suas performances sexuais horrorosas…

– Então vá pra merda! Aliás, fique aí mesmo. Pouco me importa se eu morrer de um coma alcoólico. Sabendo que você vai junto, eu vou me divertir bastante. Vamos os dois pro Inferno.
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– OI, GISELE.

– Você me convidando pra tomar um suco… Você não deve estar nada bem.

– Desde aquele dia que eu tô sem beber.

– Sério?

– Sério.

– E o que aconteceu?

– Resolvi dar um tempo. O que você quer?

– Maçã. Sem açúcar, por favor.

– Então dois. O meu com.

– E aí, o Hóbis veio?

– Claro.

– Ele tá aqui?

– Sentou agora. Mas a gente não tá se falando.

– Por quê?

– Divergências. Acontece.

– Ah.

– …

– …

– Não adianta olhar pra ele, Gisele, você não pode ver.

– Olhei sem querer. Ai, Zeca, esse papo vai me botar maluca igual a você, sabia?

– Pelo menos você vai me entender.

– Quer dizer que brigaram? Ele falou algo que você não gostou?

– Vamos mudar de assunto? Você vai bem?

– Ótima.

– Tô vendo. Linda como sempre.

– Você também tá bem.

– …

– Rindo de quê, Gisele?

– Besteira.

– Diz.

– Ah, besteira. Tava pensando na ironia da coisa.

– Que coisa?

– No dia em que finalmente conheço um cara interessante, ele tem um caso com um homem invisível.

– É muito azar mesmo…

– Eu fui um pouco indelicada da última vez. Queria lhe pedir desculpas.

– Seria a reação de qualquer um.

– Eu ia telefonar pra você.

– Ia?

– Fiquei curiosa sobre o Hóbis.

– Foi?

– Fiquei pensando… Ele não dorme?

– Dorme quando eu durmo. Acorda quando eu acordo. Mas não sente fome, nem sede, não consegue fazer nada a não ser me observar.

– Não deve ser um serviço muito agradável.

– Eu não queria estar no lugar dele.

– Ele gosta de você?

– Nossa relação é estranha. A gente se gosta e se detesta. No início era pior, eu nem dormia direito com ele olhando pra mim. Imagina fazer tudo com alguém olhando, tomar banho, fazer cocô, uma punhetinha… E trepar? Impossível, né? Ou então você toma todas e esquece.

– O que ele acha dessa sua bebedeira?

– Ele diz que eu tô fugindo.

– E tá?

– Pode ser. Mas acho que seria mais fácil sem ele por perto.

– Aí você não teria chegado às conclusões que chegou sobre sua vida. Acho que o Hóbis, se é que ele existe…

– Ele existe.

– Certo. Acho que o Hóbis tá fazendo você economizar a grana que pagaria por uma boa terapia, sabia?

– E quem disse que eu pagaria por uma terapia?

– Zeca, por que você não vem passar um fim de semana comigo na serra? Ia ser tão bom.

– Sério?

– Eu ia adorar.

– Não sei, Gisele. Tenho uns trabalhos…

– Ah, Zeca, vamos, eu cozinho pra você.

– Que mais?

– Deixo você ficar com o controle da tevê.

– Não pedi sua opinião.

– Como?

– Falei com o chato aqui.

– Com o Hóbis? O que ele disse?

– Disse que se eu fosse pra serra com você, ele esqueceria por uma semana dos meus defeitos.

– …

– Olhando pra ele de novo, Gisele?

– Heim? Ah, é. Já tô me comportando como se realmente tivesse alguém aí. Acho que é uma boa proposta a dele, Zeca.

– Como que você sabe que ela tem esse CD?

– Heim?

– O cretino aqui. Tá falando besteira.

– O que ele disse?

– Pra você não esquecer de levar seu CD de músicas eróticas. Você tem um cedê assim?

– Peraí, como que ele sabe?

– É, como que você sabe disso, Hóbis? Hum… Ah, tá. Ele disse que não sabia, que foi um palpite.

– Muito estranho…

 – Não sei se a gente pode acreditar em tudo que esse maluco diz. Mas deixa ele pra lá, Gisele. Então, posso ficar mesmo com o controle da tevê?
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– ELE TÁ OLHANDO AGORA?

– Com certeza.

– Tá ou não tá, Zeca?

– Ah, Gisele, eu não vou me virar agora pra ver. Tenha paciência.

– Ele não é gay, é?

– Que eu saiba, não.

– O que ele achou de mim?

– Ele gosta de você. Não percebeu lá no Spy? Era o mais animado com essa história da gente vir aqui pra serra.

– Você não se incomoda dele observar a gente transando?

– Eu já havia esquecido disso, Gisele.

– Desculpa…

– …

– …

– Vem cá, vem…

– Peraí, Zeca, Vou botar o CD de novo…

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– PARABÉNS, CHATO, você cumpriu a promessa. Uma semana caladinho.

– Fiz por nós dois, companheiro.

– Eu até consegui me concentrar em outras coisas, você viu?

– Vi. Foi uma semana bastante positiva.

– Você acha que a gente dá certo?

– A gente? Definitivamente não.

– Eu e Gisele, engraçadinho.

– Claro que sim. Não existe nada melhor pra você que essa mulher, meu rapaz. Gisa é maravilhosa. Bonita, inteligente, carinhosa… E tem um corpinho muito alinhado, cá pra nós.

– Ela dança desde os quinze.

– Você deveria pedir pra ela dançar pra você.

– Hummm… Boa ideia.

– Algo me diz que alguém tá apaixonado…

– Mais ou menos.

– Assuma, homem.

– Puta merda. Assumir o quê, Hóbis?

– Que você é doido por ela.

– Vou pensar no seu caso.

– Assuma logo, homem. Quer enganar quem?

– Hóbis, dá um tempo.

– Hoje, enquanto você falava ao telefone, encheu uma folha inteira com o nome dela, percebeu?

– Tava testando a caneta.

– Ah, sim, claro.

– …

– Então, assume ou não assume?

– Putaquipariu, Hóbis, você é um pentelho!

– Assume ou não assume?

– Já disse que vou pensar no seu caso.

– Pensar pra quê, homem? Tá na cara. Já viu sua cara no espelho? Viu?

– Eu mereço…
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– NÃO QUER QUE EU SIRVA uma tacinha de vinho pra você também?

– Não, obrigado, hoje você vai beber sozinha.

– Só uma tacinha não faz mal, Zeca…

– Depois, depois.

– Então tá bom. Vou servir mais uma pra mim. Escuta, você se importaria se eu conversasse com o Hóbis também?

– Por mim, tudo bem.

– Ótimo. Hóbis, o que você tá achando do meu apartamento?

– Ele respondeu que você tem muito bom gosto.

– Humm, obrigado. E o que ele acha de nós namorarmos sério?

– Nós quem, Gisele?

– Eu e você, né, Zeca? Com o Hóbis é que não é.

– Essa pergunta não tava no roteiro…

– Ah, então tem censura pra falar com ele, é?

– Ok, ok. O que você acha disso, Hóbis?

– Eu acho uma ótima ideia!

– Gisele, não atrapalha! Você quer ou não quer que ele responda?

– Desculpa, não resisti… Vai, pergunta de novo.

– Ele tá rindo de sua imitação dele. Horrível, por sinal.

– Que bom que ele tem senso de humor.

– Até que tem. Quando não tá preocupado em me dar lições de moral.

– Ele já parou de rir?

– Ele disse que se eu não namorar, ele namora.

– Então se decidam. Não tenho a noite toda.

– Acho que você tá um pouquinho alta…

– E você tá vermelho! Falou em namoro, você perde o rebolado… Viu o meu vinho por aí?

– Hóbis tem um recado pra você.

– Oba! Sou toda ouvidos.

– Ele tá dizendo que só tem um jeito dele não olhar pra você enquanto a gente transa.

– E qual é?

– É transarmos eu, você e outra garota. Assim, em respeito a você, ele fica olhando pra ela.

– Você disse isso mesmo, Hóbis?

– Ele acaba de dizer: “Claro, meu docinho de coco…”

– Ah, quer saber? Eu não ligo se ele quiser ficar olhando pra mim… Pode olhar, viu, Hóbis.

– Pois eu ligo.

– Acho que o Hóbis não falou nada disso, seu bobo… Você é quem quer realizar essa sua fantasia da gente transar com outra mulher e fica botando palavra na boca do pobre do Hóbis…

– É sério, ele disse.

– Mentira. Você falou mesmo, Hóbis?

– Falei sim, meu sorvetinho de duas bolas…

– Deixa ele falar, Zeca!

– Tô só repetindo o que ele diz.

– Vamos, Zeca, o que ele disse?

– Ele não vai responder porque tá rolando de rir do seu porre, Gisele.

– Pois agora eu vou mostrar a ele que tenho outras qualidades… Deixa primeiro eu apagar a luz. Onde foi que eu deixei o meu vinho?

– O que é que você vai fazer?

– Uma musiquinha especial pra vocês… Dá licença, deixa eu ligar o abajur. Ah, agora tá perfeito.

– Hóbis tá dizendo que eu também devia tomar algo, que eu tô muito tenso…

– Também acho. Cadê o CD?

– Você tá quase sentada em cima dele.

– Ai! É mesmo! Hummm, deixa eu ver… Acho que é a sete… Exatamente!

– Não acredito. Você vai fazer um strip-tease pra mim?

– Pra vocês dois. Hóbis, pode sentar, viu, fique à vontade.

– Ele já sentou há muito tempo.
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OStripTease-02– ELE TÁ OLHANDO AGORA?

– Tô com preguiça de virar o pescoço.

– Ele gostou do strip?

– Não desgrudou o olho.

– Sério?

– Até se emocionou.

– E você?

– Se eu gostei? Caramba! Não vou esquecer jamais.

– …

– Você é tão linda, Gisa…

– …

– Gisa?

– Hum.

– Ainda tá valendo aquela proposta?

– Qual?

– A do namoro.
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– ZECA…

– Hum…

– Escute, tenho que ir agora, meu ônibus chegou. Quando você acordar, já não estarei mais aqui.

– Humm…

– Um abraço, amigão. Você é um cara legal. Desculpe se fui rude algumas vezes, mas é que estávamos no mesmo barco, entenda. Mas estou orgulhoso de você.

– Hummm…

– Essa mulher lhe quer bem, não a deixe ir embora. Gisa ainda vai lhe dar muitas alegrias, você vai ver, filhos maravilhosos… Agarre sua chance agora, homem. O futuro é só uma questão de escolha. E não é qualquer uma que faz um strip daquele…

– Hummmm…

– Adeus, amigão.
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– BOM DIA, meu filho.

– Bom dia, seo Nestor. Pra casa?

– Pra casa, sim, que você já deve estar com saudade, né? Um ano fora.

– Pois é. O Outro me deu trabalho.

– Imagino. Pensei até que você ia pedir prorrogação. Pegue uma cervejinha pra você aí na geladeira, meu filho.

– Obrigado. Ônibus vazio, seo Nestor.

– Esta semana está assim.

– Não tem mais ninguém pro senhor pegar?

– Tinha a Felícia. Mas ela pediu prorrogação.

– Então ela ainda não conseguiu? Que pena.

– Felícia é aquela arquiteta, você sabe.

– Sei. Veio pra garantir que a Outra dela não abandonasse o curso. Humm, cervejinha boa.

– Pois a Outra abandonou. Foi fazer Direito. Felícia só não matou a Outra porque enfim não pode.

– Dá vontade de matar mesmo.

– Mas Felícia já pediu prorrogação. Disse que não vai desistir enquanto a Outra não voltar pra Arquitetura.

– Prorrogação é faca de dois gumes. Ou a gente consegue na marra ou deixa o Outro louco, e aí não tem mais jeito. Se eu tivesse pedido prorrogação, meu Outro também enlouqueceria e acabaria deixando a Gisa escapar de vez.

– Cá pra nós, filho, acho que não veremos mais nossa amiga Felícia. A coisa pra ela está difícil.

– Isso é muito triste.

– Tenho dó quando a pessoa descobre que seu futuro será anulado. Ultimamente tem aumentado, sabe? Quando as pessoas entram neste ônibus, eu já sei que muitas não vão voltar e sinto pena. Eu não sei como é a experiência de não poder voltar, mas imagino que seja a coisa mais terrível do mundo.

– É. Mas quando a gente recebe o chamado pra vir pro passado, já sabe que sempre tem a chance de não voltar.

– O diabo é que a gente tem sempre a esperança de que o nosso futuro é o que vai vingar, né?

– É. Só de imaginar que aquele cabeça-dura podia deixar a Gisa escapulir, já me dá um frio na barriga…

– Mas me conte, como foi?

– Rapaz teimoso o meu Outro, seo Nestor.

– Ah, mas todos já fomos assim.

– E deu pra tomar todas depois que eu apareci, o senhor precisava ver.

– Se não me engano, você também gostava de um copinho…

– É, gostava.

– Foi a Gisele quem botou você no prumo.

– Verdade. Mas o Outro tava bebendo bem mais que eu.

– E ele vai ficar com ela mesmo?

– Vai. Já tá no papo.

– Então está bom. Mas me diga, como é que foi ver a Gisele mais novinha?

– Ah, seo Nestor, achei que eu ia ter um troço…

– Eheheh, imagino.

– Eu faria qualquer coisa pra garantir nossa hipótese de futuro, o senhor sabe.

– Ora se sei.

– Posso lhe contar um segredinho, seo Nestor?

– Pode, filho.

– Embarquei nessa missão porque se eu não viesse, eu e a Gisa seríamos desativados, nós e os nossos filhos. Mas eu também tava doido pra rever o strip-tease que ela fez pra mim quando a gente começou o namoro… Ah, como eu queria!

– Mas veja só!

– Ah, seo Nestor, o senhor nem imagina… Foi aquele strip que me fez namorar sério com ela.

– E ela fez de novo?

– Fez. Essa noite mesmo. Igualzinho como foi, igualzinho…

– Ah, por isso que você chegou com essa cara… Então, missão encerrada?

– Claro! Depois daquela performance, o Outro casa até amanhã se ela pedir.

– Então está bom.

– O que a gente não faz por uma mulher…

– O que não faz!

– Faz de tudo.

– Ora!

– Até aguentar a si mesmo no passado o cara aguenta.

– Aguenta.

– Até casar a gente casa, seo Nestor.

– É o que eu digo.

– Ora se não casa.

– Ora se.

– Casa mesmo.

– Casa.

– Pois é.

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1cEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais. > Mais

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O médium, o marido, o morto e a amante

20/07/2014

20jul2014

Acho que Deus deveria controlar melhor as fronteiras do Além. Tá muito esculhambado

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O MÉDIUM, O MARIDO, O MORTO E A AMANTE

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Acabo de saber da última do Ageral, o bloco do Agora Esculhambou Geral. Veja só. Uma mulher é acusada de mandar matar o amante. O advogado usa como defesa uma carta psicografada num centro espírita, ditada pelo próprio amante morto, que, do além, inocenta a amante do crime. Se a carta foi determinante, eu não sei, mas o júri inocentou a mulher.

Se a moda pega nos tribunais, já pensou? Teremos agora, além dos advogados e testemunhas, a ilustre figura do médium de defesa. E nada impede que haja também o médium de ataque. Já que é assim, proponho, pra equilibrar o time, a escalação do médium-volante. E, logicamente, vale gol espírita.

Suponhamos que você é o morto de um crime envolvido em mistério, e que você, de onde quer que esteja, pode usar um médium pra ditar uma carta. Você obviamente aproveitaria pra esclarecer as circunstâncias do seu assassinato e apontaria o criminoso, né? Pois o infeliz do amante morto, que deuzutenha, não fez isso. Chamava-se Ercy e era tabelião. E a mensagem era endereçada… ao marido de sua amante Iara. Vixe! Exatamente, Iara era casada. Mas vamos a um trecho da dita cuja: “O que mais me peza no coração é ver a Iara acusada deste feito por mentes ardilosas como as dos meus algozes. Por isso tenho estado trizte e oro diariamente em favor de nossa amiga para que a verdade prevaleça e a paz retorne aos nossos corações”.

Vamos por partes. Pesa com Z? Triste com Z? Hummm, tem algo estranho aqui. Que diabo de tabelião é esse que não sabe escrever? Ou a gente desaprende a gramática depois que desencarna? Ou o tabelião foi pro inferno e o calor de lá atrapalha a concentração? Talvez o tabelião, uma vez do lado de lá, tenha virado o Zorro do Além, ferrenho defensor das ex-amantes dezamparadas.

Tudo bem, você acha que eu tô debochando de coisa séria. Mas, gente, essa história é muito cabeluda. O pior é que infelizmente tem mais. No fim da carta, o tabelião assina: Erci. Ops! Mas o nome dele não é Ercy, com Y? Socorro, manhêêê, a gente desaprende o próprio nome depois que morre!

Tá, vamos ter mais boa vontade com o caso. Vai que o médium lá do centro comeu uma coxinha estragada e por isso psicografou a carta apressado. Conclusão natural, ou sobrenatural: a culpa dos erros gramaticais é do médium. Entendi. O médium matava as aulas de português pra receber espírito.

Mas ainda tenho dúvidas. E se o morto estiver mentindo? Vai que Iara é realmente culpada e o morto-tabelião tá tentando salvar a pele da ex-amante. Ué, por que isso não pode acontecer? Faz anos que ele morreu, passou a raiva, já perdoou a amante assassina. Cá pra nós: na verdade ele ainda a ama e, lá onde está, escreve sonetos apaixonados e sente falta daquelas noites em que bebericavam licor de jenipapo escutando Vicente Celestino e coisital… Sei lá por que Vicente Celestino. Coisa de tabelião. Pois bem, os mortos não podem mentir? Ou depois que morre, a gente, além de analfabeto, vira santo?

Acho que Deus deveria controlar melhor as fronteiras do Além. Tá muito esculhambado. O Ageral se infiltrou no mundo pós-morte ‒ onde isso vai parar? Daqui a pouco entrarão lá com celulares. Minha proposta: morto só pode se comunicar com vivo após se cadastrar no Procecom (Programa Celeste de Comunicação), ter ficha limpa e pagar a taxa no Banco do Brasil. E não custa nada incluir também no programa um cursinho básico de gramática.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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01- Muito engraçado… Com certeza tem um “zombeteiro” perto de vc, kkkkkk!!!! E o tabelião de pijama, huahuahuahua!!! So vc mesmo p me fazer rir tanto. Lua Morena, Brasília-DF – jun2006

02- amei, trocar advogados por médiuns, acho q ficará mais barato, mais emocionante e menos chato !!!!!kkkkkkkkkkkkk tomara q nenhuma advogada leia isso!!!! hehehe !!!! Marysol Rosso, Cocal-SC – jun2006

03- achei tipo assim: de muito bom gosto, inteligente, charmoso. gostei . Rosa Red, Jardins-MS – jun2006

04- Adorei o texto, com humor maravilhoso, bem conduzido. Merece entrar entrar num livro de crônicas. Jayme Akstein, Rio de Janeiro-RJ – jun2006

05- Enfim , gostei muito . Voltando àquele papo de “ discurso polifônico”, essa tua sugestão de “ controlar melhor as fronteiras do Além ”, de cadastro no “Procecom ( Programa Celeste de Comunicação )”, de exigir o sujeito (a) ter “ ficha limpa e pagar a taxa no Banco do Brasil”, me lembrou também daquele aparente improviso do Vinicius de Morais ao final de Samba da Benção – lembra? “A vida é pra valer / E não se engane não , tem uma só / Duas mesmo que é bom / Ninguém vai me dizer que tem / Sem provar muito bem provado / Com certidão passada em cartório do céu / E assinado embaixo : Deus / E com firma reconhecida!” Marcelo Pinto, Rio de Janeiro-RJ – jun2006

06- hoje entrei em seu site e li : o médium,o morto, o marido e a amante (desculpa se não for exatamente esse nome…hehe) pois é, e estou lhe escrevendo para contar que achei muito engraçado…adorei…seu trabalho é otimo…sempre dou uma espiadinha em seu site…Beijinhos. Fernanda Dias Castro, Ponta Grossa-PR – ago2006

07 – rsrsrs estive lá no seu site. a história do médium-volante é muto boa rsrsrs depois degustarei mais. aquele abraço. p.s. gostei do seu jeito de escrever. Aroeira, Belo Horizonte-MG – dez2006 

08- Olha aí Glauber Filho, isso não dá um bom roteiro? Eduardo Freire, Fortaleza-CE – jul2014

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A tragédia de Neymar e o futuro que você merece

07/07/2014

07jul2014

 No futuro, há duas versões dessa história, ambas aguardando em silêncio o momento em que uma delas, apenas uma, acontecerá

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A TRAGÉDIA DE NEYMAR E O FUTURO QUE VOCÊ MERECE
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A trágica saída antecipada de Neymar da Copa do Mundo causou uma comoção nacional, e também no mundo inteiro. Os brasileiros sabiam que não tinham o melhor time, mas contavam com a genialidade do garoto craque para fazer a diferença. Agora, sem Neymar, o que acontecerá com a seleção anfitriã da Copa? No futuro, há duas versões dessa história, ambas aguardando em silêncio o momento em que uma delas, apenas uma, acontecerá. Qual delas?

Na versão com final triste para os brasileiros, a seleção não consegue superar seus problemas e é derrotada. Porém, ela é poupada das críticas, afinal a derrota é plenamente justificável, pois se o time não estava muito bem com Neymar, sem ele é que não melhoraria mesmo. A torcida, conformada, compreende.

Mas há a versão com final feliz. Nela, a tragédia de Neymar faz com que, de repente, a torcida se livre de qualquer tentação ao pessimismo, perdoe as deficiências do time e se concentre tão somente em incentivar sua seleção. Nesta versão do futuro, os jogadores não se acovardam ante à comodidade de uma compreensível derrota. A ausência de Neymar, feito a morte, tem o paradoxal poder de torná-lo ainda mais presente, e assim, com apoio total e o espírito do craque maior a inspirar seus companheiros, o time supera o trauma e o Brasil conquista o hexa. A seleção dedica o título ao seu jovem guerreiro abatido, e Neymar, de uma maneira que nunca desejaria, é o herói simbólico da sofrida e mitológica conquista.

No horizonte das possibilidades, as duas versões do futuro enigmaticamente nos aguardam. Se você torce pela versão com final feliz, faça agora um exercício de imaginação e ponha-se nesse futuro. Nele, lá está você, vibrando de felicidade pela gloriosa vitória. Mas, espere um pouco… Você está feliz, sim, mas em seu íntimo, você se pergunta se realmente, realmente mesmo, merece essa felicidade, pois você foi um dos que, após a perda de Neymar, acovardou-se e não acreditou que a história teria final feliz. Você não cumpriu com sua parte na construção do futuro. Ou não? Ou você foi um dos que acreditaram?

É assim o futuro, sempre aberto a uma ou outra versão. Mas podemos, ainda no presente, saber se realmente merecemos, ou não, a versão feliz.
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Ricardo Kelmer 2014 – blogdokelmer.com

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O PIOR DOS FUTUROS (RK, 09.07.14)

E o futuro aconteceu. E ele era tão improvável que foi impossível visualizá-lo no horizonte das possibilidades. O time brasileiro não apenas não conseguiu superar seus problemas: ele mostrou, claramente, que não estava preparado para vencer. A vida continua, mesmo após um 7×1, e jogadores e comissão técnica ainda podem conquistar muitas vitórias, mas a ferida jamais cicatrizará, e todos eles infelizmente terão que conviver até o último dos seus dias com essa mancha tenebrosa em seus currículos.

A torcida fez a parte dela, intensificando o apoio ao time mesmo com a perda de seu grande craque. A torcida sabia que seria muito difícil, mas não se acovardou. O time também não. A explicação exata sobre que aconteceu é algo que sempre será difícil de explicar. Falarão de esquema tático, preparação psicológica, ausência de Neymar e Tiago Silva… Seja o que for, tudo que resta agora à seleção brasileira é terminar a Copa de forma honrosa, conquistando o terceiro lugar. Quem acredita?

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01- Mt bom o texto. Cintia Lisboa, São Paulo-SP – jul2014

02- Um baita dum texto diga-se de passagem” do glorioso Ricardo Kelmer. Vale pra Copa e também pro resto dos seus dias. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – jul2014

03- Boa Kelmer!!! Meu querido Kelmer, eu não lembro de nenhuma copa que o atimismo fosse total, Neymar é um craque diferenciado, porem eu acredito que são profissionais que ganham milhões pra estarem ali, com Neymar ou não eles vão ter que honrar sua profissão e buscar a vitória. Eu acredito que podemos ganhar sem Neymar, mesmo sabendo que é um atleta diferenciado. Paulo Ricardy Dos Santos, Campina Grande-PB – jul2014

04- verdade amigo!! bj Rita Austregesilo, Fortaleza-CE – jul2014

05- Não me acho covarde se não participei de todo o trajeto da Copa…o momento que me mobilizou mesmo foi o da covardia que fizeram com o Neymar..mas se ele não voltar eu sinto muito, mas outros jogadores terão a chance de ser mais valorizados, porque um time de futebol não é feito com um jogador, como a mídia e o Sr. Galvão Bueno quer nos fazer crer…Sempre foi assim , elegem um ídolo e a mídia o coloca no topo…os outros são mero coadjuvantes e não recebem também os louros da vitória nas Copas…Teve uma Copa que o Brasil ganhou a Copa sem Pelé e o povo gostou tanto que fizeram uma marchinha com o fato que no final dizia assim…E,e,e eh! E e e éh. Brasil ganhou a Copa sem Pelé e quem foi visualizado foi o Garrincha, que teve sua gde chance (minha mãe que contava isso). Abssssssss Vera Helena, Vitória-ES – jul2014

06- Achei tbém mto covarde a atitude do jogador da Colômbia, mas agora o Neymar virou ídolo mesmo….ele criou um mito, um mártir, um ídolo da Copa 2014. Vera Helena, Vitória-ES – jul2014

07- Adorei, Ricardo Kelmer, e, claro q ficarei com o final feliz, pois na hora q Neymar se machucou tive a sensaçao de uma quase morte dele…E é isso q acredito q vai acontecer com os jogadores. Eles mais do q nunca vao lutar com unhas e dentes por ele e pelo hexa, pois o brasileiro reage melhor quando está em desvantagem do q quando está ganhando… A nossa vitória seria a melhor resposta p darmos ao mundo, sobretudo, ao jogador da Colombia… Luciana Brasileiro de Holanda, Campina Grande-PB – jul2014

08- Meu nobre e querido Primo.. muita sabedoria e discernimento em suas palavras… Como sempre… Versões Kelméricas me inspiraram!!!!!!!!!!! TAMO JUNTO!!!!!!!!!!!!!! Rafa Moreira, Fortaleza-CE – jul2014

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ATragediaDeNeymar-01a

 


Indecências para o Fim de Tarde – Pré-venda

07/05/2014

07mai2014

Adquira antecipadamente com um bom desconto, tenha seu nome no livro e receba em casa

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INDECÊNCIAS PARA O FIM DE TARDE – PRÉ-VENDA

Tô lançando meu livro de contos eróticos Indecências para o Fim de Tarde. A versão impressa será lançada no segundo semestre (datas e locais a definir), mas como terei que bancar parte do investimento, inicio agora a pré-venda (até 30jun2014)

Os leitores que adquirirem o livro antecipadamente nesta pré-venda:
– Ganharão um bom desconto
– Seus nomes constarão na seção Galeria de Leitores Especiais do livro (opcional)
– Receberão o livro pelo correio (ou pessoalmente, no lançamento), com dedicatória
– Ganharão um persex (nas opções C e D)

O pagamento pode ser feito pelo Pag Seguro (cartão ou boleto) ou por depósito em conta (HSBC, Itaú, Banco do Brasil e Bradesco). Para outros países: PayPal.

O persex (liga de perna) é uma cortesia da sex shop Via Libido (vialibido.com.br).

PREÇOS (frete incluído)

OPÇÃO A: R$ 22
1 livro impresso

OPÇÃO B: R$ 24
1 livro impresso
Brinde: livro eletrônico (PDF, com dedicatória personalizada)

OPÇÃO C: R$ 42
2 livros impressos
Brinde: livro eletrônico (PDF, com dedicatória personalizada) + 1 persex

OPÇÃO D: R$ 80
4 livros impressos
Brinde: livro eletrônico (PDF, com dedicatória personalizada) + 1 persex + 2 livretos (títulos à sua escolha)

MAIS DE 4 LIVROS: a combinar

SOMENTE O LIVRO PDF (com dedic. personalizada): R$ 6

PAGAMENTO
PAG SEGURO: cartão ou boleto
BANCOS PARA DEPÓSITO: HSBC, Itaú, Banco do Brasil e Bradesco
EXTERIOR: PayPal

Você vai participar? Que ótimo! Entre em contato: rkelmer@gmail.com

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IndecenciasParaOFimDeTardeCAPA-01aINDECÊNCIAS PARA O FIM DE TARDE
Ricardo Kelmer – Arte Paubrasil, 2014 – 208 pag

Os 23 contos deste livro exploram o erotismo em muitas de suas facetas. Às vezes ele é suave e místico como o luar de um ritual pagão de fertilidade na floresta. Outras vezes é divertido e canalha como a conversa de um homem com seu pênis sobre a fase de seca pela qual está passando. Também pode ser romântico e misterioso como a adolescente que decide ter um encontro muito especial com seu ídolo maior, o próprio pai. Ou pode ser perturbador como uma advogada que descobre que gosta de fazer sexo por dinheiro.

O erotismo de Ricardo Kelmer faz rir e faz refletir, às vezes choca, e, é claro, também instiga nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir. Seja em irresistíveis fetiches de chocolate ou numa selvagem sessão de BDSM, nos encontros clandestinos de uma lolita num quarto de hotel ou no susto de um homem que descobre verdadeiramente como é estar dentro de uma mulher, as indecências destas histórias querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

> saiba mais

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INDECÊNCIAS PARA VOCÊ TIRAR A ROUPA

IndecenciasParaVoceTirarARoupa-01aMuitas mulheres têm esse fetiche, o de exibirem-se anonimamente para o público. Então criei uma promoção: envio o livro e a leitorinha faz uma foto erótica com ele, sem precisar mostrar o rosto, e a foto será usada em cartazes de divulgação da obra. Você gostaria de participar? Clique aqui e saiba mais.

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LIVRETOS DO BRINDE
formato bolso, 48 pag

Guia do Escritor Independente (dicas)
Memórias de um Excomungado (crônicas, reflexão, humor)
Um Ano na Seca (conto, erotismo, humor)
O Ultimo Homem do Mundo (conto, terror, humor)
Trilha da Vida Loca (contos)

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APOIO CULTURAL

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01- Indico por q o cara é fera galera!!!!ndico por q o cara é fera galera!!!! Katie Furge, Queensland-Austrália – mai2014

02- Esse cara é genial!! um ótimo escritor. Josy Felix, São Paulo-SP – mai2014

03- Um livro instigante. Um autor inteligente e preparado ao tratar com o assunto. Um assunto polêmico no contexto sócio cultural que não pode passar despercebido no mundo atual. Um convite a uma leitura prazeirosa com uma visão política e uma reflexão cítica. Um manual para os psicologos! Um convite a leitura simplesmente! Anosha Prema, Campinas-SP – mai2014

04- Livro do Ricardo Kelmer o/ Ilana Dubiela, Fortaleza-CE – mai2014

05- Lançamento do Livro do Escritor Ricardo Kelmer. Boa Leitura! Érika Menezes, Fortaleza-CE – mai2014

06- Amei o tema, a fotografia… quero ler e deliciar-me com o conteúdo, parabéns Ricardo. Donizete de Paula, São Paulo-SP – mai2014


As unhas sujas de Matrix

19/11/2013

19nov2013

Certas obras artísticas se baseiam nesses conteúdos, os arquétipos, e por isso pessoas de todo o mundo se identificam tanto com elas

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AS UNHAS SUJAS DE MATRIX

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Faça um buraco na terra, cave sem parar e você alcançará areia e rochas que, de tão profundas, não são de país algum. Ou melhor, pertencem a todos, são patrimônio de toda a humanidade. Assim também é o inconsciente coletivo da espécie: seus conteúdos são de todos nós. Certas obras artísticas se baseiam nesses conteúdos, os arquétipos, e por isso pessoas de todo o mundo tanto se identificam com elas. É o caso de Matrix. Apesar de toda a tecnologia, o filme tem cheiro de terra, pois escava fundo as profundezas coletivas da psique.

Esse filme vale tanto assim?, é o que ouço quando descobrem que escrevi um livro sobre Matrix. Sim, vale. Além de marco na história do cinema, a aventura do guerreiro cibernético Neo e seus amigos resistentes é um grande fenômeno cultural da atualidade, alcançando pessoas de raças, religiões e idades diversas, influenciando comportamentos, gerando discussões e lotando cinemas. Mas tem gente que torce o nariz para o filme e não entende tanto rebuliço. Que diabos Matrix tem de tão especial?

Muitas coisas. A base mitológica do enredo, por exemplo: o jovem que se vê confrontado com seu próprio destino, que precisa abandonar seu mundo seguro e partir numa aventura perigosa, lutar contra inimigos terríveis, arriscar a própria vida e salvar sua gente. A história de Neo é o antigo mito da jornada do herói recontado com roupas novas. Por nascerem do inconsciente coletivo e serem feitos de elementos arquetípicos, os mitos são parte de nossa psique individual, e é por isso que nos identificamos com eles. Todos nós vivemos os mitos em nosso dia a dia, sendo novos protagonistas de antiquíssimos dramas.

Na história há outros elementos mitológicos que revestem a trama de um caráter numinoso: o despertar da consciência, o salvador, o traidor, o oráculo, o amor, a morte. Esses arquétipos habitam o profundo de cada um de nós, e Matrix os aciona em nossa mente. Messianismo, ressurreição, a natureza ilusória da realidade, ser um com o mundo e assim entortar colheres ‒ Matrix une mitologia cristã e filosofia oriental. Quem não gosta desses temas da mente e do espírito tende a atirar contra o filme, porém Matrix manipula filosofia, religião e esoterismo com a destreza de um guerreiro tecno-zen e detém as balas no ar.

Ah, claro, tem os efeitos especiais, as cenas de luta, o figurino… Para nossos jovens, que nasceram e vivem numa Matrix onde a imagem é tudo e os cega para a essência das coisas, o apelo visual do filme é irresistível. O filme usa a si mesmo como isca para transmitir ideias profundas sobre a natureza da realidade, a importância do autoconhecimento para a realização do potencial, a necessidade de morrer para renascer mais forte… Pelo jeito, a isca funciona, pois a discussão sobre o que é real saiu dos círculos filosóficos e esotéricos e alcançou o shopping center. Enquanto tomam sorvete, adolescentes de piercing e boné para trás se perguntam: E se todos nós estivermos sonhando? Uau, isso é ótimo.

Mas será que os criadores de Matrix tiveram mesmo a intenção consciente de mexer com todos esses temas? Esse filme não seria um mero borrão de tinta no qual as pessoas, inclusive eu aqui do meu galho, veem o que querem ver? Bem, a mim, particularmente, essas unhas sujas não enganam: Matrix é feito de terra, lá do fundo, a mesma terra da qual somos todos feitos. Por isso Matrix é tão real.

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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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SOBRE O FILME

MatrixDVDCapa-1Matrix (The Matrix, EUA, 1999)

ARGUMENTO, ROTEIRO E DIREÇÃO: Lilly e Lana Wachowski
ELENCO: Keanu Reaves, Lawrence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving

No futuro, a humanidade é prisioneira de sua própria criação, a Inteligência Artificial, que criou a Matrix, uma realidade virtual onde foram inseridos todos os seres humanos para que eles não oponham resistência ao poder das máquinas. Todos não, pois um grupo de rebeldes mantém-se fora dessa realidade e luta para libertar o restante da humanidade. Eles creem na profecia do Oráculo que diz que um Predestinado um dia virá para vencer as poderosas máquinas e salvar a todos. Para eles, Neo, um jovem que vive na Matrix, é o Predestinado. Neo de fato desconfia que há algo errado com a realidade mas não pode aceitar que ele seja o tão aguardado salvador.

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TRÊILER OFICIAL


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MATRIX, PSICOLOGIA E MITOLOGIA NO LIVRO:

Matrix2012Capa14x21aMatrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer

Analisando o filme Matrix pela ótica da mitologia e da psicologia do inconsciente e usando uma linguagem simples e descontraída, o autor compara a aventura de Neo ao processo de autorrealização que todos vivem em suas próprias vidas.

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Seguir a boiada ou as próprias convicções? – Aos poucos podemos, cada um de nós, começar a agir de acordo com as nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos

A Matrix em cada um de nós – Em busca da realização mais íntima (tornar-se o Predestinado), o ego deve empreender uma longa jornada de autoconhecimento onde não faltarão medos e conflitos para fazê-lo desistir

A pergunta – Um dia, porém, alguém desconfia. E entende que os que olham para fora, sonham, e os que olham para dentro, despertam. E aí a pergunta é inevitável

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Destino e intuição

06/07/2013

06jul2013

A intuição pode nos conectar não apenas com o passado, onde estão as causas do que agora vivemos, mas também com o futuro, onde viveremos a consequência de nossa decisão no tempo presente

DestinoEIntuicao-01

DESTINO E INTUIÇÃO

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Algumas pessoas creem em destino, no sentido de que, não importa o que façamos, nossas vidas correm inevitavelmente para um determinado ponto no futuro, já programado de antemão. Para outras pessoas, porém, o futuro está sempre aberto e é formado a cada decisão tomada no presente. Eu, particularmente, desconfio que, sendo uma coisa ou outra, nosso futuro está de algum modo ligado à intuição, essa coisa misteriosa.

Para a psicologia junguiana, a intuição é uma função psíquica que nos permite perceber as possibilidades inerentes a determinada questão de uma forma não racional, pois apreende a realidade instintivamente, por meio do inconsciente, sem a participação do pensamento lógico consciente. É a intuição que nos fornece súbitas revelações e novas perspectivas: de repente intuímos, sem qualquer lógica envolvida, que é melhor fazer desse jeito que de outro jeito, e isso, depois, se revela a decisão acertada. Qual foi a sensação, o pensamento ou o sentimento que nos levou a tomar a decisão correta? Nenhum deles. Foi outra coisa. Foi um entendimento súbito e não racional da totalidade da questão. A intuição é, assim, uma função psíquica que nos conecta com o todo. Uma função holística.

E o futuro? É aquela possibilidade que se realizará dentre todas as possíveis. Como as possibilidades se ramificam a partir do presente em direção ao futuro, decidir por uma é anular automaticamente as demais e, ao mesmo tempo, abrir uma nova teia de ramificações. Assim, existem muitos futuros hipotéticos, cada um esperando nossa decisão para acontecer. Há futuros bons e ruins a nos aguardar, e o que determina qual deles se realizará é a decisão individual – ainda assim ela não é o único fator envolvido, pois o que pensamos e fazemos depende do que outros pensam e fazem, numa inter-relação muito dinâmica e complexa. Porém, o que está ao nosso alcance é justamente a nossa parte na infinita teia das possibilidades: a decisão pessoal.

Diante da necessidade de escolha, geralmente seguimos a lógica do pensamento racional (irei por esta rua, pois é mais seguro), do sentimento (gosto mais de fulano que de sicrano) ou da sensação (aqui está mais quente que ali). Às vezes, porém, algo nos parece avisar que nenhuma dessas funções é o melhor guia e, assim, decidimos seguindo uma espécie de conselho interior misterioso, que às vezes vai contra a lógica das demais funções. É assim que a intuição age.

Ora, quem tem mais informações tem, obviamente, condições de analisar melhor e tomar a melhor decisão. Se a razão ou o sentimento ou a sensação apreendem parte por parte da teia de possibilidades, separando, discriminando e julgando, a intuição apreende de imediato a teia como um todo, e o todo da questão inclui também o tempo. Como não está ligada à mente consciente, mas ao inconsciente, que não respeita a lógica do tempo linear, a intuição pode nos conectar não apenas com o passado, onde estão as causas do que agora vivemos, mas também com o futuro, onde viveremos a consequência de nossa decisão no tempo presente. Assim sendo, se buscamos o nosso melhor futuro, a intuição não pode ser desprezada sob pena de limitarmos a avaliação da questão ao agora.

Talvez a intuição seja isso, uma espécie de atalho atemporal. Entre a inevitabilidade do futuro e a incerteza do que virá, a intuição pode ser justamente o passaporte que nos levará ao melhor destino possível. Porém, é necessário confiar nela. Você confia?

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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Este texto integra o livro Blues da Vida Crônica

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MATRIX, PSICOLOGIA E MITOLOGIA NO LIVRO:

Matrix2012Capa14x21aMatrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas

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Mulheres na jornada do herói – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres, pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

Seguir a boiada ou as próprias convicções? – Podemos, cada um de nós, começar a agir de acordo com as nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos

Jung, a ciência revolucionária – Como pesquisador da consciência, psicoterapeuta, antropólogo e pensador, Jung levou suas descobertas a uma abrangência notável, refletindo sempre sua preocupação com o futuro da humanidade

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01- linda plataforma. Marcos Felix, Ceilândia-DF – jul2013

02- Eu confio na minha!!!!! Ana Maria Alcantara, Rio de Janeiro-RJ – jul2013

03- Posso compartilhar??? Adoro este tema… Luciana Brasileiro de Holanda, Campina Grande-PB – jul2013

04- “Eis o mistério, o que está por trás da intuição? Será o inconsciente mais poderoso que o “limitado” consciente? Sein und zeit, já questionava Heidegger… Esse assunto não me abandona por mais que tente, grande Kelmer. Abraços!” Teo Lorent, São Paulo-SP – ago2013


Quando os homens não voltam para casa

18/01/2013

19jan2013

QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1.

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bJavier Viegas é tarólogo e resolve problemas do Além. Dessa vez uma moça deseja reencontrar o namorado que foi atraído por uma bela princesa para dentro de um quadro de parede.

Mistério, sobrenatural.

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

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QUANDO OS HOMENS NÃO VOLTAM PARA CASA

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OI, LU… Por favor, leia a carta com atenção. Você é a única pessoa em quem confio. Saiba que, apesar de tudo, ainda amo você. Beijos. Junior.

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Luciane leu o bilhete intrigada. Já fazia uma semana que não tinha notícia do namorado. No escritório avisaram que ele não ia lá fazia três dias, os porteiros do prédio não sabiam dele e seu telefone não atendia. No início, pensou que Junior se chateara com a discussão que tiveram e resolvera dar um tempo. Mas aquele sumiço não fazia sentido.

Então decidira falar pessoalmente com ele. Entrou no apartamento com a chave extra que possuía. Nada viu de anormal, estava tudo em ordem. Sobre a cama, encontrou o bilhete, e ao lado, o quadro que ele tanto gostava, a princesa sentada num banco à entrada de um bosque, o mesmo quadro que originara a fatídica discussão. Nunca viu nada demais naquele quadro, mas Junior nutria por ele uma tal admiração que ela simplesmente não entendia. Pôs o bilhete de lado e começou a ler a carta.

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A margem de um lago, um pequeno ancoradouro e um bote amarrado. Um caminho que sai do ancoradouro e penetra o bosque, por entre as árvores. Logo à entrada do bosque, um banco de madeira e uma princesa muito bonita, em trajes medievais, olhando triste para a curva do caminho, como se aguardasse alguém que de repente surgirá vindo do bosque…

Encontrei o quadro numa loja de usados e gostei dele de cara. A princesa me passava uma ternura tão grande… E havia a sensação de familiaridade, era como se eu a conhecesse de algum lugar, de algum tempo. Levei o quadro e pus na sala. Você deve lembrar desse dia: eu mostrei, você olhou e riu, e disse que princesas sempre fizeram o meu tipo, e que se acaso eu encontrasse uma pela frente, não pensaria duas vezes e lhe trocaria por ela. Lembra?

Primeiro, pus o quadro no corredor, para olhar sempre que eu passasse. Depois, trouxe para o quarto e deixei ao lado da cama, para que eu adormecesse olhando para ele. Várias vezes tentei lhe dizer do quanto o quadro me fascinava. Mas você apenas zombava dos meus comentários.

Para mim, aquela princesa estava presa no bosque. Ela era triste e passava os dias sozinha, chorando de saudade de seu país. Mas havia um leve brilho de esperança em seus olhos: ela esperava pela chegada de um cavaleiro que a libertaria. Ele viria do bosque e surgiria na curva do caminho. Ele a pegaria pela mão e juntos tomariam o bote que os levaria rumo ao país da princesa. Enquanto isso não acontecia, ela aguardava cantando uma canção melancólica que se espalhava pelo bosque e um dia chegaria aos ouvidos de seu libertador.

À noite, eu acariciava o quadro como se isso pudesse amenizar o sofrimento da princesa. Tirava o vidro, passeava a ponta dos dedos por sobre o papel e quase podia sentir o relevo das árvores, a água do lago, a pele dela, o cabelo…

Então, uma noite tive um sonho. Eu estava no bosque e seguia pelo caminho entre as árvores. Estava à procura da princesa e precisava muito encontrá-la antes que anoitecesse. E só havia um jeito: guiar-me por sua canção. Mas ventava muito e a voz dela se perdia nos ventos. Tentei muitos caminhos, sabia que ela estava perto, podia sentir sua presença… mas não a encontrei. Começou a ficar escuro e eu tive medo de me perder no bosque. Então, lamentando muito não tê-la encontrado, voltei.

Acordei no meio da noite chorando. O sonho ainda estava presente no quarto e eu podia sentir o vento, ainda ouvia os ecos da canção triste. Eu estivera tão perto… Ela estava ali, em algum lugar… e eu não soube encontrá-la. Não fui bom o bastante para ser seu cavaleiro – era isso o que mais me doía.

No outro dia nem fui trabalhar, impressionado com a força do sonho. Contei para você, lembra? Pela primeira vez você escutou com atenção e, então, falou que eu já estava exagerando, e que se continuasse assim, ia ficar doido. Você levantou com o quadro na mão e saiu, dizendo que ele era de mau gosto e que ia jogá-lo no lixo.

Alcancei você na sala. Avancei e puxei o quadro de sua mão, mas ele escapou e caiu. E espatifou-se no chão. Quando vi os pedaços de vidro espalhados, fiquei transtornado, uma dor imensa no coração. Tentei juntar os pedaços e você se abaixou para me ajudar, pedindo desculpas. Mas eu lhe empurrei, com raiva, e disse que dispensava sua ajuda. Você ficou olhando para mim, assustada. Certamente devia achar que eu não estava bem da cabeça ou, então, pela primeira vez teve um vislumbre do quanto aquele quadro era importante para mim. Não sei, afinal não conversamos mais. Você bateu a porta com força e foi embora.

No dia seguinte, inventei uma desculpa e novamente não fui trabalhar, não conseguiria me concentrar. E à noite tive o segundo sonho. Estava de novo no bosque e a cantiga da princesa me chegava por entre os ventos. Ela estava mais perto que na noite anterior… Eu queria prosseguir, mas já estava escuro e eu tinha medo de ficar perdido no bosque para sempre. Dividido nessa dúvida mortal, decidi voltar, uma dor me dilacerando a alma por mais uma vez deixar a princesa sozinha.

Como da outra vez, despertei logo, tão triste que suspirava. Por alguns instantes, o quarto pareceu ser o bosque, tão real que quase toquei as folhas no chão. Rapidamente, tomei o quadro no peito, como se faz com alguém que a gente gosta tanto que tem vontade de trazer para dentro de si. Apertei a princesa contra o peito enquanto fazia força para que o sonho não fugisse. E por alguns instantes deu certo: toquei um galho, segurei-o… Mas logo o bosque sumiu e eu estava de volta ao meu quarto, eu e minha enorme tristeza. Então, falei para a princesa ser forte e aguardar só um pouco mais, eu logo a encontraria. E foi com esse pensamento que adormeci, esperançoso de que o sono me conduzisse de volta ao bosque.

Mas não voltei. Acordei pela manhã decepcionado, sem ânimo nem para comer. Não fui trabalhar. Trabalhar como, sabendo que ela ainda estava lá, sozinha naquele bosque?

Sem conseguir pensar em outra coisa, saí para dar um passeio. Olhando para o lago do parque, escutei a voz da princesa. Estava distante, eu quase não ouvia. Mas ela era sim. Fiquei radiante: aquilo era um sinal. Então, voltei para casa com a certeza de que à noite eu a encontraria.

Já é madrugada e estou com sono. Logo mais estarei com a princesa e a levarei de volta a seu país. Não se preocupe comigo, eu voltarei.

Junior

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Luciane continuou olhando para o papel. Tentava organizar as ideias, mas todo o seu pensamento era um emaranhado de interrogações girando sem parar. Que diabo afinal estava acontecendo?

De fato, no início não ligara. Com o tempo, no entanto, o interesse de Junior pelo quadro lhe botou uma pulga atrás da orelha. Mas nem de longe imaginou que a coisa pudesse chegar a tal ponto. Lembrou que nos últimos tempos ele andava mais quieto e pensativo, questionando coisas e com considerações filosóficas a respeito da vida. Talvez houvesse faltado um pouco mais de tato de sua parte para entender o que se passava. Ele dizia que precisava ficar sozinho mais tempo, e ela considerou que ele não mais a queria. Talvez não fosse nada disso. Talvez ele ainda a amasse mesmo.

Aqueles dias longe dele serviram para rever algumas ideias. Pediria desculpas e tentaria ser mais compreensiva, afinal ela o amava muito e não imaginava a vida sem ele. Claro que ele também tinha seus defeitos, mas primeiro era preciso não perdê-lo, isso agora era o mais importante. Por esse motivo, resolvera procurá-lo.

Mas agora, aquela carta… E se ele estivesse lhe aprontando uma brincadeira?, pensou, subitamente irritada. Sim, Junior bem seria capaz disso. Ela ali preocupada e ele em algum lugar por aí, rindo de sua cara. É, ele estava lhe aprontando alguma. E ela fazendo papel de boba, perdendo tempo com os delírios de um cara metido a cavaleiro garboso e sua princesa casadoira. Conheceu outra mulher e agora inventava aquela palhaçada, era isso. Pois se quisesse, que a procurasse para esclarecer a situação. Tinha mais o que fazer.

E foi embora, batendo a porta.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1ELE, PORÉM, NÃO A PROCUROU. Os dias seguiram e a indefinição a deixava nervosa. Estava com saudades. E muito preocupada. Aquela carta não fazia sentido. E ainda havia a questão do trabalho: ele faltava já fazia uma semana, os colegas também estavam preocupados.

Voltou ao apartamento três dias depois. Estava decidida a chamar a polícia. Foi até o quarto e pegou o quadro sobre a cama. Então, percebeu algo tão estranho que teve de tapar a boca para não gritar. Ali, no quadro, no exato local onde o caminho fazia uma curva para entrar no bosque, ali havia uma nova figura, uma pessoa que não estava lá da última vez. E, olhando bem… era Junior.

Luciane largou o quadro sobre a cama. Um medo gelado lhe subiu a espinha. Olhou novamente o quadro. Havia mesmo um detalhe novo na paisagem, havia alguém vindo de dentro do bosque em direção à princesa. A imagem não estava nítida, mas era uma pessoa. E o rosto parecia com o de Junior, o formato, o cabelo, os olhos… Ou será que aquela pessoa sempre estivera ali? Não, impossível.

Luciane fechou os olhos e disse para si mesma, mentalmente: Junior está dentro desse quadro. Ao mesmo tempo em que resistia à ideia, sentia seu pensamento sendo atraído para ela. Junior estava naquele quadro, podia sentir isso. E quanto mais se deixava envolver pela ideia, mais absurda ela se tornava.

Olhou novamente. E se fossem dois quadros? Em sua brincadeira, Junior bem poderia ter substituído o primeiro quadro por aquele segundo. Mas não, não. Por que ele se daria ao trabalho de fazer tudo aquilo, por quê? Não fazia sentido.

Decidiu dormir no apartamento. Estava com medo, mas precisava descartar a hipótese de que seu namorado lhe pregava uma peça, ele que sempre fora muito brincalhão. Dormindo ali, talvez o surpreendesse chegando para trocar o quadro novamente. Precisava tentar.

Não conseguiu dormir de tanta ansiedade. Levantou assim que o dia clareou. A primeira coisa que fez foi pegar o quadro. E lá estava a mesma pessoa chegando pelo caminho – dessa vez, no entanto, a imagem estava mais nítida. Não havia dúvidas: era Junior sim. E ele estava bem próximo da princesa, quase tocando-a.

Luciane olhava o quadro impressionada. Da noite para o dia os contornos da figura adquiriram maiores detalhes, como se alguém houvesse retocado o quadro. Não havia engano: aquele era seu namorado… vestido feito um cavaleiro medieval.

– Junior… – murmurou, enquanto acariciava o quadro. – Junior, você está aí?

De repente, deu-se conta do que fazia e começou a chorar. Chorou pelo namorado cujo paradeiro desconhecia, e também pela possibilidade de estar sendo vítima de uma bizarra brincadeira. E chorou, principalmente, pelo medo de tudo aquilo ser verdade.

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A MOÇA DO BALCÃO suspendeu os olhos do livro que lia e olhou para Luciane.

– Bom dia. Meu namorado comprou este quadro aqui mês passado. – Luciane tirou o quadro da mochila. – Foi você quem vendeu pra ele?

– Estou lembrada, fui eu mesma. Algum defeito?

– Não, não é isso. É que… bem… Você lembra se o quadro tinha esse detalhe aqui, esse cavaleiro?

– Como assim?

– Tente lembrar, é importante.

– Não estou vendo nada de errado nele.

Luciane suspirou. Não ia ser fácil.

– Moça, eu sei que você não vai acreditar, mas…  Olha, eu tenho fortes motivos pra acreditar que meu namorado… caiu dentro desse quadro. – Pronto, falara. Estava dito. – Ele é esse cavaleiro que está vindo pelo caminho…

A atendente olhou para o quadro, e depois para ela. Viu o rosto cansado de Luciane, a expressão angustiada.

– Seu namorado… caiu dentro do quadro?

Luciane sentiu que ia chorar novamente. Controlou-se e tentou falar, mas não conseguiu. Sentia-se totalmente ridícula. A atendente continuava observando-a. A situação toda era absurda, irreal. Então, compreendeu que era inútil, estava fazendo papel de louca.

– Esqueça o que eu falei – ela disse, pondo o quadro de volta na mochila. – Não devia ter vindo aqui.

Quando se preparava para deixar a loja, um homem surgiu, vindo da sala ao lado.

– Por favor, não vá.

Luciane virou-se e viu um sujeito baixo, moreno, barrigudo. Vestia jeans, tênis e camisão estampado por fora da calça. Devia ter seus cinquenta anos. O homem tinha um olhar forte, mas amigável.

– Se não for incômodo, gostaria de ouvir sua história.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1A PEQUENA SALA tinha uma luminosidade suave que vinha de um vitral colorido na janela. No ar pairava um suave cheiro de incenso. Havia objetos antigos como baús, candelabros e estatuetas, muitos livros numa estante de madeira e belos quadros pelas paredes.

Luciane sentou-se numa cadeira que parecia ter quinhentos anos de idade. Reparou no homem que sentava do outro lado da mesa. Tinha trejeitos femininos. E falava com sotaque espanhol. Olhos negros, olhar amável. Era calvo na frente, mas atrás o cabelo descia numa trança até o meio das costas. Figura exótica.

A atendente entrou trazendo uma bandeja.

– Chá de capim-santo, querida – o homem falou. – É bom pros nervos. Obrigado, Ana Isaura. Agora pode nos deixar a sós, está bem? Não atendo ninguém.

– Dona Carlota tem consulta às seis, seo Javier.

– Desmarque, mulher. Diga que minha vó menstruou e que eu saí correndo pra lá. Passar bem.

Luciane riu. Exótico e gozador.

‒ Ana Isaura começou mês passado, ainda não entrou direito no clima desse negócio. Tenho essa loja de usados, meu anjo, mas também dou consulta de tarô. E resolvo outros babados. Nunca ouviu falar do tarô do Javier?

Tarô do Javier… Onde se metera?

– Você deve estar se perguntando, onde que eu fui parar, minha Virgem, não é? Mas não se preocupe, veio ao lugar certo, eu vou ajudá-la. Vamos lá, me conte essa história direito.

Luciane pesou a situação. Certamente se tratava do maior charlatão do bairro. Aquele sotaque espanhol devia ser puro golpe de marketing. A trança enorme nas costas, o jeitão de bicha… Vai ver nem era bicha, era tudo marketing. E a túnica branca, por que não usava? Certamente para não ficar estereotipado demais. Aquela gente sabia como fazer a coisa. Bem, não custaria nada contar para ele. Para quem mais, afinal?

Então, contou que Junior comprara o quadro ali e que se afeiçoara exageradamente a ele. Falou da crise por que passava a relação, da discussão por conta do quadro e que depois ficaram sem se falar por uns dias. Javier escutava atento.

– Uma semana depois, como ele não atendia o telefone, fui até lá. E só encontrei esse quadro. Quando voltei no outro dia, Junior começou a aparecer na paisagem, vestido de cavaleiro… – ela falou e sorriu sem jeito, nervosa, esperando que Javier sorrisse também. Mas ele continuou compenetrado, olhando em seus olhos. – E aqui estou eu.

Não falara da carta. Proposital. Queria ver até onde o sujeito era mesmo bom naquelas coisas.

– O que você acha que pode ter acontecido? – ele perguntou.

Ele queria saber qual a sua própria expectativa, raciocinou Luciane. Sabendo isso, jogaria de acordo. Gente esperta.

– Pra ser sincera, não sei mesmo.

Javier pediu o quadro. Ela tirou da mochila e entregou.

– Hummm, bom gosto pra homem, heim?…

Ele segurou o quadro com as duas mãos e fechou os olhos. Por um tempo assim ficou, a cabeça reclinada para trás, num movimento circular e vagaroso, respirando fundo. Ela acompanhava com atenção seus movimentos. Sentiu vontade de rir, mas se controlou. Quando tudo se resolvesse, Junior iria lhe pagar direitinho aquele ridículo todo, ah, iria sim, o cretino.

Javier abriu os olhos.

– Babado fortíssimo, meu anjo.

– Heim?

– Olha, não deu pra ver os detalhes, mas fizeram coisa bem feita com seu namorado.

– Uma mulher?

– Mulher. Mas não deu pra ver de quem se trata.

– Taí, não sabia que eu tinha uma rival… – ela ironizou. E não teve como evitar a lembrança de algumas amigas, umas certas colegas de escritório dele… Mas não, aquele papo era conhecido. Agora o charlatão ia dizer que podia desfazer o feitiço e que cobrava tanto, mas, como simpatizou com ela, deixava por tanto…

– Essa moça é poderosa.

– Eu conheço?

– Talvez. Mas é uma velha conhecida dele.

– E o que vai acontecer?

– Ele parece que está enfeitiçado. É como se estivesse sendo atraído por ela.

Luciane lembrou da canção triste da princesa…

– Ela deve ter atraído seu namorado com este quadro. Ele veio aqui e comprou, levou pra casa. Crau! Mordeu a isca direitinho.

– Mas onde ele está agora?

– O quadro está mostrando, meu amor. A princesa representa a mulher que jogou o feitiço nele. Ele já a encontrou.

– Você quer dizer que esse cachorro está me passando um chifre por aí? – ela falou sorrindo, tentando mostrar que aquilo não a afetava. Mas se descobriu verdadeiramente irritada com a tal hipótese. Talvez aquela priminha dele que vez em quando vinha para a cidade…

– Em outras palavras… é isso mesmo.

– Mas que diabo de mulher é essa que faz um homem largar casa, trabalho, se mandar, não avisar ninguém?…

– Babado forte, meu anjo, já falei. Não crê em bruxa?

– Não.

– Pois elas existem.

Ele só podia estar inventando tudo aquilo. Mas como explicar o que acontecia com o quadro?

– Claro que você tem o direito de desconfiar de tudo que estou falando, meu bem. Acontece que enquanto você desconfia, a rival ganha terreno.

Ele pôs o quadro sobre a mesa.

– Javier, eu não sou a pessoa mais cética do mundo, pode ter certeza. Mas você há de convir que essa história parece mais uma grande loucura.

– Se é loucura, o que você está fazendo aqui?

O tom de voz dele tornara-se mais sério. O olhar agora era grave.

– Muito bem. Digamos que eu acredite. E agora?

– Agora você me faz um cheque de mil reais e podemos começar. Normalmente eu cobro dois. Mas simpatizei com seus olhos…

– Mil reais?! De jeito nenhum.

– Se você acha que seu namorado não vale isso…

– Talvez não. E se eu não tiver esse dinheiro?

– E não tem como arrumar?

– E se arrumar? Que garantia tenho de que vai dar certo?

Ele se inclinou para frente e seu olhar mudou novamente. Tornou-se mais manso e envolvente. E ela podia senti-lo feito suaves ondas… que iam e vinham dentro de seus próprios olhos…

– Vai dar certo, meu anjo.

– E se por acaso não der? – As ondas iam e vinham, iam e vinham… formando um balanço agradável… inebriante… sonolento… – Você me devolve o dinheiro?

– Eu não falho, minha querida.

Por um instante, quase se deixou levar por aquele vai e vem… Mas, subitamente, uma forte vontade se manifestou e agitou seu pensamento, pondo-a em terra firme. A sonolência sumira.

– Isso não é garantia, Javier, você sabe disso.

Ele encostou-se de volta na cadeira. Pousou os cotovelos nos encostos, juntou as mãos sobre a barriga e cruzou os dedos. Encarou-a por alguns segundos, gravemente. Já não havia ondas em seu olhar.

– E você dizendo que não acredita em bruxas…

– Como?

Impressão ou ele tentara hipnotizá-la?

– Quantos anos você tem, Luciane?

– Vinte e sete.

– Você é nova. Se quisesse, podia ser ainda uma grande bruxa. O que tem de gente precisando de serviço. Você tem jeitão, é forte… Mas sem essas ombreiras, meu anjo, por favor. Não lhe caem nada bem. Se quiser, posso ser seu estilista, você me dá dez por cento do que faturar, que tal? Estilista de bruxa. Chique.

– Eu só quero meu namorado de volta.

– Encontrei pouquíssimas mulheres com sua força. E olhe que eu já rodei muito.

– Você é desses que se aproveitam do desespero das pessoas, Javier?

– Só cobro dos que podem pagar.

– Se posso ou não, não vem ao caso. O que estou discutindo é a garantia de seu serviço.

Ele sorriu.

– Você ganhou, sorcière. Não precisa pagar nada agora. Mas se seu namorado voltar, quero mil e quinhentos.

– Mil e duzentos.

– Mil e trezentos. É pegar ou largar.

Luciane sentia-se ridícula. Aquilo não estava acontecendo. Negociando com um charlatão a volta da pessoa amada…

– Combinado.

– Sábia decisão  – ele falou, e levantou da cadeira, apontando o quadro. – Eu vou entrar hoje mesmo. E vou trazê-lo de volta.

– Vai entrar no quadro?

– Já entrei em muitos. Seu namorado não é o primeiro a cair nessa história. Mas vamos logo ao que interessa. – Ele caminhou até a porta. – Traga o quadro.

– Vamos aonde?

– Ao local do crime, lógico. – Ele abriu a porta e saiu. Ela o acompanhou. – A energia do babado ainda deve estar por lá. Vou ter de dormir uma noite no apartamento do seu namorado. Ana Isaura, vou sair mais cedo, pode fechar. Até amanhã. – Virando-se para Luciane, falou baixinho: – Você devia pensar melhor sobre ser uma bruxa…

– Não estou interessada.

– Que desperdício, meu anjo Mikael, que desperdício…

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1ERAM OITO HORAS quando chegaram ao apartamento. Javier entrou no quarto e procedeu como na loja: fechou os olhos e girou a cabeça, concentrando-se. Luciane observava da porta, aquele quarto lhe dava calafrios. Por um instante, ainda considerou a hipótese de desistir. Mas já havia ido longe demais.

– O portal é exatamente aqui, neste quarto – disse Javier após abrir os olhos. – Olha, vou precisar de treze velas brancas. Novas, viu? O supermercado ainda está aberto. Vou dormir no quarto, você na sala. Se quiser, pode comer alguma coisa, eu vou dormir de barriga vazia.

– E o quadro?

– Dorme comigo. Não se preocupe, vou encontrar seu namorado e ele vai voltar pra você, lindo e maravilhoso.

Meia-hora depois, Javier foi ao banheiro e trocou de roupa. Despediu-se dela e foi para o quarto, levando o quadro e as velas.

Luciane deitou no sofá da sala e manteve-se atenta. Mas não escutou nenhum som vindo do quarto. O que aconteceria? Estava exausta, os olhos pesando de tanto sono. Talvez a vizinha de baixo, talvez… O idiota bem seria capaz de se enrabichar por um tipinho daquele. Ou aquela caixa da farmácia…

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O BARULHO DO TRÂNSITO, as buzinas, os ônibus passando… Luciane despertou assustada, a claridade da manhã entrando pela fresta da janela. Eram nove horas. Dormira profundamente, como havia dias não o fazia. Levantou do sofá e correu para o quarto. Abriu a porta e não viu ninguém. No chão estavam as velas derretidas. Sobre a cama, o quadro. Aproximou-se. E viu Junior. Sentado no banco, ao lado da princesa, segurando-lhe as mãos.

– Bom dia, princesa…

O susto foi tão grande que ela tropeçou nas próprias pernas e caiu, gritando.

– Meu São Sebastião flechado, mas pra que esse escândalo, criatura? – Javier estava à porta do quarto, enxugando o rosto com uma toalha. ­– Eu, heim… Depois bicha é que é escandalosa.

– Cadê o Junior? O que aconteceu?

– Primeiro, se acalme. O mundo vai acabar mas não é hoje. O que acabou foi o papel higiênico do banheiro. Melhor providenciar.

– Já estou calma – disse ela, levantando-se.

– Vamos tomar um café que eu tenho algo muito importante pra lhe falar.

 

 

– ME ENGANEI. Isso não é coisa de gente desse mundo.

Sentado à mesa da cozinha, Javier tinha a expressão grave.

– Não?

– Eu bem que desconfiei ontem lá na loja.

– Do quê?

– A princesa perdida. Eu já soube de uns babados desses, mas nunca nenhum tinha caído em minhas mãos. Essa é a primeiríssima vez.

– Ainda não entendi – Luciane falou, servindo duas xícaras de café.

– Obrigado. Pois bem, a princesa perdida é uma princesa belíssima, a mulher mais bonita que já existiu. E olhe que entendo de beleza, já fui até jurado de concurso, sabia?

Luciane continuou séria.

– Ela é de um reino muito distante, que fica depois do lago. Um reino fora do tempo. E só um cavaleiro destemido pode ajudá-la a voltar pra casa.

Ela riu.

– Cavaleiro destemido, o Junior?! Você está brincando… Aquele frouxo morre de medo de altura.

– A princesa não o subestimou.

Luciane ficou séria novamente, lembrando da carta. Sentiu que não adiantaria muita coisa pensar em termos lógicos. Até ali se comportara como se estivesse no limite entre duas realidades, sem se decidir por nenhuma. Talvez fosse hora de se resolver.

– Essa princesa perdida, ela existe mesmo?

– Sim. Mas só pros homens.

– E por que diabo ela está fazendo isso com ele?

– Primeiro, porque ela precisa voltar pra casa, já lhe disse. E, depois, porque seu namorado se encantou com ela.

– Mas ele me ama.

– Não tem nada a ver com vocês, meu bem. É coisa dos homens.

– Aquele cachorro…

– Isso não é hora de briga. E eu não tenho vocação pra terapeuta.

– Francamente, cheguei ao fundo do poço. Ser trocada por uma princesa de papel…

– Ela é tão real quanto você, querida. Apenas vive no mundo dele, entende?

– Homem não presta mesmo! – Luciane continuava inconformada. – São todos uns fracos, não podem ver bunda se balançando na frente deles… Bunda de princesa então!

– Eu não acredito que a madona está com ciúmes.

– Ciúmes? Não seja ridículo, Javier…

– Pra ciúme, é salmo 115, viu? Sete vezes ao dia durante sete dias. Virada pra igreja de Éfeso.

Ela engoliu em seco a provocação. Estava com muita raiva e não tinha por que esconder. Se Junior não estava satisfeito com ela, por que então não a procurou antes para conversar? Mas não, saiu logo atrás da primeira que apareceu. Uma mulher de papel, do outro mundo, que ridículo.

– Diz que essa princesa tem uma voz lindíssima. Ela atrai os homens cantando, como as sereias.

– Além de princesa, cantora. Eu mereço.

– Mas tem um jeito de fazê-la parar de cantar.

– Qual é?

– Indo encontrá-la, pessoalmente. Exatamente como ele fez.

– Então chame de volta, Javier.

– Tsc, tsc. Agora não é hora.

– Por que não?

– Quando chega a hora do homem encontrar essa mulher, não se deve impedi-lo.

– Por quê?

– É uma velha lei do mundo da magia, meu amor. Não fui eu quem inventou.

– Leis existem pra serem quebradas.

– Essa eu não quebro, santa, não mesmo, olha o dedinho…

– Então o que fazemos?

– Nesse caso, nada.

– Ótimo. E ele vai ficar lá até quando?

– Não sei. Mas ele vai tentar levá-la de volta ao seu reino.

– Rola sexo nessa história? – Luciane perguntou, séria.

Javier riu.

– Estou falando sério, Javier.

– Vai depender dele.

– Então já deve estar rolando. – Ela se levantou, irritada.

– Pelo jeito, você não confia muito em seu namorado.

– Isso não é da sua conta.

– Devia se orgulhar dele. São poucos os homens que têm coragem de ir encontrar a princesa. E menos ainda os que conseguem levá-la de volta a seu reino. A maioria só quer sexo com ela. Esses, ela rejeita.

– E o que acontece com esses?

– Eles voltam e continuam os mesmos. Mas se o homem a olha além do desejo físico, ela o sagra cavaleiro de uma ordem muito especial. Ele volta outro homem, mais sábio, mais maduro.

Luciane pensou um pouco.

– Tenho que lhe mostrar uma coisa, Javier.

Ela mostrou a carta, envergonhada. Javier a leu em silêncio. Depois dobrou e entregou de volta.

– Por que você não me falou antes, dona cascavel? – ele perguntou, muito sério. – Teria me poupado trabalho.

– Desculpe. Eu só queria ver se você era bom mesmo. Agora vejo que é.

– Típico de bruxa. Bruxa que ainda tem muito que aprender. De qualquer forma, eu não posso trazê-lo de volta. Só podemos torcer pra que ele não fracasse.

– Vai ser uma torcida inútil.

– Não subestime os homens, meu anjo. Muitos partem com uma verdade e descobrem outras.

– Vou ter de ficar aqui torcendo pra que meu namorado seja forte o suficiente e resista a essa princesa? Acho muito difícil… Olha aqui a cara deles, parecem dois pombinhos apaixonados…

– Junior já deve ter sofrido um bocado com esse seu gênio, heim, menina?…

– Tenho o direito de ficar nervosa. E, além disso, estou pagando.

– Não vai mais pagar, meu bem. Ninguém pode ir lá buscar seu namorado. Aposto minha trança nisso.

– Que espécie de bruxo é você que não pode tirar um homem dos braços de uma princesa idiota?

– Ah, meu anjo, você ainda tem muito a aprender sobre magia…

– Pois me ensine. Agora quero aprender.

Javier a olhou num misto de riso e espanto.

– E pra quê, criatura louca? Não vai me dizer que é pra ir lá buscar…

– E eu poderia? – ela o interrompeu.

– Duvi-dê-o-dó. E mesmo que pudesse, eu não aconselharia.

– E se eu quisesse apenas observar?

– É arriscado.

– Por quê?

– É o mundo dela, só os homens vão lá.

– Pois eu quero ir.

Javier terminou de tomar seu café, levantou-se e lavou a xícara na pia.

– Desista, Luciane, é realmente muito arriscado.

– Eu assino um papel me responsabilizando, fique tranquilo. Apenas me diga o que tenho de fazer. Aí você cai fora e eu faço o resto.

Javier suspirou. Não era todo dia que se tinha o privilégio de ver uma bruxa daquelas em ação. No entanto…

– Quanto você quer, Javier?

Ele não respondeu.

– Eu lhe pago os mil e trezentos, está bem? E você me ensina como fazer.

– Não sei, acho melhor não facilitar…

– Mil e quinhentos.

Javier se assustou com a força das palavras dela. A bruxa enfim se revelava… Ele observou a mulher à sua frente, tão determinada que não duvidou que ela pudesse fazer mesmo o que tinha em mente. Mas o que poderia acontecer?

– Dois mil, Javier. Vai topar ou não?

Dois mil…, pensou Javier. Dava para passar quinze dias na praia comendo camarão. Bem longe daquelas loucas descabeladas atrás de homem. Mas que dia! Primeiro a princesa perdida, e agora uma bruxa ciumenta disposta a enfrentá-la, cara a cara, desrespeitar as sagradas leis da magia. Seria uma briga boa de se ver…

Mas não. Não estava disposto a patrocinar a quebra de uma lei tão forte, seu nome iria direto para o livro negro. Mas pensando melhor… também não precisava se arriscar tanto. Podia tão somente conduzi-la até o bosque, e ela que se virasse depois. Não era bruxa mesmo?

– Três mil – ele falou. – E nem pechinche porque não faço uma loucura dessas por menos.

– Combinado – Luciane sorriu, satisfeita. – Vou no banco pegar o dinheiro.

– Espera, criatura. Olha, só podemos agir à noite. Eu vou na loja e mais tarde nos encontramos aqui, tá? Mas você precisa ficar calma.

– Eu tô calma.

– Sente e olhe aqui pra lente da verdade. Aqui no meu olho, isso… – Ele a pegou pelos ombros, olhando fixamente em seus olhos. – Você me promete que não vai fazer nada, vai só assistir?

– Prometo.

– Não senti firmeza.

– Eu prometo. Juro.

– Se você desrespeitar as leis, não sei o que pode acontecer com você.

– Não vou fazer isso.

– Mostre que está ao lado de seu namorado, que confia nele. Assim como ele confiou em você, lhe contando essa história. Isso é importante. Você entende isso?

– Entendo.

– Entende mesmo?

– Sim.

Não, ela não entendia – percebeu Javier. Lógico que não entendia.

– Então pode trazer o dinheiro.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1OS DOIS DEITARAM na cama de Junior, o quadro entre eles. Eram dez horas da noite.

– Lembre-se, nós vamos despertar logo após o sonho, como Junior contou na carta. O portal vai estar aberto pro bosque, e assim que surgir, nós entramos. Se demorarmos, ele some.

– É tão fácil assim?

– Fácil?! Pelas doze pétalas! Claro que não, criatura! Esse portal só se abre uma vez na vida de um homem. E vai acontecer hoje de novo porque a energia do babado ainda está por aqui. Agora vamos dormir que a noite vai ser longa.

Ele ainda duvidava que uma mulher fosse capaz de entrar naquele mundo. Mas não custava tentar.

Luciane fechou os olhos. Magia, portais, criaturas do outro mundo, tudo isso a deixara bastante excitada. Era como se uma força nova, que jamais suspeitara possuir, houvesse de repente irrompido, e aquilo lhe proporcionava uma estranha e prazerosa sensação de poder. Javier alertara sobre o perigo, mas quem corria perigo era o seu namorado nos braços de uma princesa caçadora de homem. Ela, porém, Luciane, podia trazê-lo de volta. Tinha esse poder, sim, podia senti-lo como sangue correndo sob a pele.

Talvez Javier estivesse certo. Talvez fosse mesmo uma bruxa. Se era mesmo, saberia naquela noite.

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DESPERTARAM COMO JAVIER PREVIRA. Luciane abriu os olhos na escuridão do quarto. Estava ainda sonolenta, mas pôde ver perfeitamente as árvores do bosque… Pareciam sombras, mas… estavam ali, sim, as árvores estavam ali no quarto!

– Javier?…

– Não fale agora – ele respondeu baixinho enquanto saía da cama pelo outro lado. – Ande, levante.

Ela pôs os pés no chão e ficou de pé. A sensação era de sonho, mas podia sentir, pouco a pouco, a realidade concreta do quarto se apoderando de seus sentidos, de seu pensamento, como se a chamasse de volta…

Então, viu Javier tomando a trilha de terra entre as árvores e rapidamente o seguiu.

E foi como acordar. De repente, sentiu-se desperta. Estava no bosque, caminhando. Um silêncio tão grande, tão perfeito que metia medo. As árvores, o cheiro de mato… Era tudo real e, no entanto, era tudo meio nebuloso, como num sonho. Caminhava, mas não sentia bem o chão. Tocava as árvores, mas não as sentia inteiramente. Era como se seus sentidos estivessem anestesiados. O pensamento, porém, funcionava perfeitamente.

Não podia ser verdade, pensou. Devia ser alguma espécie de sonho…

– Pare de pensar, sua boba! Se continuar questionando, você automaticamente volta!

Javier estava pasmo: ela conseguira. O que uma mulher ciumenta não fazia…

– Onde está você, Javier? – Ela o escutava, mas não o via.

– Fiquei no meio do caminho, não consigo entrar mais. Mas não se preocupe comigo. Daqui posso ver você.

– Onde eles estão?

– Concentre-se.

Luciane fechou os olhos, e de repente soube que deveria pegar à esquerda. Caminhou durante algum tempo. Não tinha mais medo. Sentia-se forte e determinada. Após uma curva, avistou o banco de madeira e, logo mais à frente, o lago e o pequeno ancoradouro. Correu para lá, ansiosa. Mas não encontrou ninguém. Apenas água e névoa. E o silêncio.

– Eles já foram, Javier!

– Então você chegou tarde, meu bem.

– Mas não devem estar muito longe… – disse ela, procurando. A névoa sobre o lago, porém, não permitia enxergar mais que alguns metros.

– Acho que foi melhor assim, Luciane.

Ela mergulhou um pé na água. Era suave e morna.

– Ei, o que está fazendo?

Ela não respondeu.

– Luciane!

Ela mergulhou o outro pé.

– Sua desmiolada, você não vai encontrar ninguém nesse nevoeiro!

Enquanto avançava, ela sentia vagamente o chão do lago sob seus pés, a água subindo devagar pelo seu corpo…

– Luciane, saia daí enquanto é tempo. Você pode nunca mais encontrar o caminho de volta.

Ela começou a nadar, e era como se nadasse em nuvens.

– Junior! – ela gritou, entrando cada vez mais na névoa, e seu grito ecoou durante um longo tempo pelo silêncio infinito do lago.

Gritou de novo, mais forte. E ficou aguardando, flutuando… Mas nada, nenhum som de volta. Nadou novamente, cada vez mais para dentro das brumas. Algum tempo depois escutou:

– Lu, é você?

– Sou eu, Junior! Estou aqui!

Luciane sentiu uma irresistível alegria tomar-lhe conta. Junior estava ali em algum lugar – ela conseguira. Desafiara as leis da magia e vencera. Javier tinha razão: era mesmo uma bruxa. E quanto não havia perdido sem saber disso?

– Onde você está, meu amor? – ela gritou, excitada.

Pouco a pouco distinguiu no meio da bruma os contornos do bote e, em pé, a figura de Junior, empurrando-o com uma longa vara. Viu sua roupa de cavaleiro, a cota de malha, a calça justa, as botas… Em outra ocasião o acharia inteiramente ridículo e teria um acesso de riso. Mas agora não. Estava lindo… Aquele era o seu homem. Apenas seu e de mais nenhuma outra mulher.

Mas havia algo estranho… Havia algo novo em Junior, uma coisa diferente… Ficou a observá-lo enquanto flutuava. Ele estava realmente mais bonito, mas havia algo mais… Havia uma dignidade. Sim, uma dignidade, uma altivez de cavaleiro, uma postura digna de alguém… a serviço de uma princesa.

Nesse instante, desapareceu a alegria do reencontro e, em seu lugar, desceu-lhe a terrível sensação de ser preterida por outra mulher. Junior nunca se portara assim por ela. E a tal princesa, onde estava?

– Lu, o que está fazendo aqui?

– Vim buscar meu namorado, ora – ela respondeu, agarrando-se ao bote.

– Luciane, não! – Era a voz de Javier. – Você não precisa subir!

Ela subiu rapidamente.

– Meu amor, o que você está fazendo? – Junior perguntou, assustado. – Não pode ficar aqui.

– Eu pergunto, Junior, eu pergunto – ela falou, muito séria, pondo-se de pé no bote. – Que diabo você está fazendo aqui enquanto eu… Aliás, cadê a vaca?

– Quem?

– A princesa fajuta.

– Não está vendo?

Luciane não via ninguém além dele.

– Deve ter se mandado quando me viu. Pelo menos sensata ela é.

– Lu, você não pode ficar aqui.

– Me diga só uma coisa: o que essa princesa tem que eu não tenho, heim? Pode falar, não vou ficar com raiva.

– A gente conversa depois, Lu. Tenho que conduzir a princesa até seu reino. Quando eu voltar, a gente…

– Não, você vai voltar agora, vamos pra casa. Você não imagina o que eu passei por causa desse seu sumiço.

– Não posso, Lu. Por favor, compreenda…

– Junior, eu admito que errei algumas vezes… Você ainda me ama?

– Lu, você está estragando tudo!

– Eu não volto sem você.

– Eu não posso voltar agora! – Junior gritou, angustiado. – Você não entende? Eu não posso!

– Então também vou. Quero conhecer esse reino.

– Luciane, sua louca excomungada! – A voz de Javier. – Saia já daí!

– Dois homens querendo mandar em mim… Um metido a cavaleiro e uma bicha doida. Era só o que faltava. Junior, como você pode estar apaixonado por uma mulher que não existe, seu bobo? Eu existo, olhe pra mim…

– Lu, vou ter de botar você pra fora desse bote…

– Eu sou uma bruxa, meu amor. Você não pode comigo.

– Luciane, não faça isso! – Javier gritou de novo.

Junior a agarrou e a imobilizou. Mas Luciane tentou escapar e os dois perderam o equilíbrio. E caíram na água, afundando rapidamente, enquanto o silêncio voltava a tomar conta do lago.

Alguns segundos depois um corpo veio à tona. Era Luciane.

– Junior! – ela gritou, desesperada. Mas não escutou nada. – Junior!!!

Nenhuma resposta. Só o silêncio do lago.

– Javier, me ajude!

Mas Javier também não respondeu. Luciane procurou o bote e não o viu. Ao seu redor a névoa, a névoa sem fim. E o silêncio infinito, aterrorizante. O silêncio ensurdecedor.

– Junior!!! – ela gritou, cada vez mais desesperada, enquanto procurava a margem e não encontrava.

Mas ninguém respondeu.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1DE MANHÃ CEDO, Javier levantou. Sentia-se cansado. Ao lado da cama havia um quadro com a paisagem de um bosque, um lago com ancoradouro e um banquinho de madeira. Nem princesas nem cavaleiros.

Minutos depois, fechou a porta do apartamento e saiu. Na rua o sol brilhava forte. Ele pôs o óculos escuro, fez sinal para um táxi e entrou. Deu bom dia ao motorista, indicou-lhe o endereço e acomodou-se no banco traseiro.

Por que mulher tinha de ser tão teimosa?, pensou. Tanto aviso para nada. Uma pena. Um talento maravilhoso desperdiçado. E o moço, tão bonito… Ele abriu o bolso do casaco e conferiu o maço de dinheiro, os três mil do serviço.

Mais adiante, quando passavam pelo parque, Javier viu a multidão, um carro da polícia parado. O táxi diminuiu a velocidade. Ele aproveitou e perguntou a uma senhora o que estava acontecendo. Ela respondeu que haviam encontrado dois corpos no lago. Um rapaz e uma moça.

Javier quase pediu para o motorista parar. Mas achou melhor não. Tinha certeza que não iria gostar nada do que veria.

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1cEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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Comentarios01COMENTÁRIOS

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01- A “releitura” (somente uma nova leitura) me tocou quando percebi que a jornada de Júnior “quadro a dentro” para levar a princesa de volta para o reino e que somente ele poderia fazê-lo, seria um resgate, ou uma busca de harmonização dele mesmo. Colocar esse feminino no seu lugar dentro dele. Nossa! que linda metáfora! O quanto de amor ele sentia por sua namorada, cega de raiva e ciúmes do fantasma de todos os femininos. No final a tragédia do lago trazendo na minha visão da leitura, a morte do relacionamento. Quando ele compartilha com ela sua jornada e ela não consegue perceber, deu uma dó de tudo. Dele, dela, dos feminos e masculinos distorocidos. Um conto bem masculino com muita sensiblidade. Ivonesete Rodrigues, Fortaleza-CE – dez2012

02- Muito interessante esta releitura “cega de raiva e ciúme” e quem sabe e talvez cega de amor para trazê-lo de volta à realidade! Adorei! O melhor do livro! Michele SJ, Fortaleza-CE – jan2013

03- Que texto FANTÁSTICO,Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos!!!Riquíssimo!!!Por trás de tanta magia,muitas reflexões podem ser feitas tanto em relação ao comportamento feminino como o masculino,dentro de um relacionamento a dois!!!Quantas vezes,nós,mulheres,enxergamos princesas e vocês,homens,enxergam príncipes encantados que só existem nos quadros da nossa imaginação?Muitas,né?Por conta desses pensamentos lúdicos,acabamos nos aventurando por lagos perigosos e desconhecidos,nos afogando,muitas vezes, e,colocando tudo a perder!!!!Como diz a frase: o ciúme é sempre um mau conselheiro!!!! Silvana Alves, Fortaleza-CE – jan2013

04- Nesse aqui o Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos quebrou tudo. Vale muito a pena ler. E o livro todo é sensacional. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – jan2013

05- Ainda não consegui terminar de ler todos, mas este foi o que eu mais gostei! Maria do Carmo, São Paulo-SP – jan2013


Os ensaboados da nova consciência

15/01/2013

15jan2013

Desde seu início, o encontro prioriza o diálogo e a troca sadia de experiências, buscando o fio de unidade que permeia todas as coisas

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OS ENSABOADOS DA NOVA CONSCIÊNCIA

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O Nordeste é mesmo uma terra curiosa. Nas ladeiras de Olinda chacoalha o mais divertido carnaval do planeta, e enquanto isso, a 200 km dali, na cidade serrana de Campina Grande, Paraíba, centenas de pessoas de todo o país e das mais diversas tendências se reúnem todo ano num grande evento onde se abraçam arte, filosofia, ciência e tradições. É o Encontro da Nova Consciência, um festival holístico que funciona, desde 1992, como um notável ponto de convergência da grande diversidade do pensamento humano.

Eu soube do evento em janeiro de 1996 por minha tia Liney, que de Recife me ligou para contar que sonhara que eu dava uma palestra no encontro. “Envia teu livro! Quem sabe eles te convidam…” Foi o que fiz, enviei um exemplar do Quem Apagou A Luz?, meu primeiro livro, recém-lançado. Dias depois lá estava eu dando a palestra, o sonho se realizara. O convite se repetiu, e pelos anos seguintes, no teatro municipal, falei sobre o filme Matrix, taoísmo, Jung, mitologia… Talvez minhas palavras tenham acrescentado algo de útil a alguém, mas muito mais aprendi que ensinei durante esses anos. Depois tornei-me apresentador dos eventos artísticos da noite, papel no qual me senti muito à vontade.

Em Campina Grande conheci pessoas que trouxeram mudanças significativas à minha vida. Escritores, artistas, cientistas, educadores, religiosos, líderes indígenas, gente simples do povo ‒ de todos eles absorvi conhecimentos e muitos tornaram-se meus amigos, maravilhosas amizades interdisciplinares. Foi lá também que vivenciei experiências com plantas de poder, como a ayahuasca e a jurema, e vi alargarem-se os horizontes de minha percepção da realidade e de mim mesmo.

À primeira vista, reunir tantas ideias diferentes no mesmo espaço pode soar caótico e inútil. No entanto, desde seu início, o encontro prioriza o diálogo e a troca sadia de experiências, buscando o fio de unidade que permeia todas as coisas. Isso me lembra o ato de escutar as várias testemunhas de um acontecimento: mesmo distintas entre si, as versões do mesmo fato contribuem para uma visão mais abrangente e precisa do todo.

Da plateia do teatro disparam flashes a toda hora: as pessoas querem uma recordação do dia em que sentaram à mesma mesa e se abraçaram representantes de diferentes religiões, todos acreditando que é possível sim transformar este mundo num lugar onde todas as crenças convivam em harmonia. Física quântica, psicologia, ecologia, medicina natural, educação, tarô, xamanismo – o evento é um colorido encontro das diversas versões da realidade. Lá a sociedade também discute seus problemas: loucura, alcoolismo, aids, prostituição, a questão indígena e os conflitos étnico-religiosos. Há espaço também para outros problemas como, por exemplo, decidir o melhor lugar para aguardar a chegada das naves extraterrestres que virão nos resgatar. Isso, é claro, para os que querem ser resgatados. Não sei informar quantos lugares há nessas naves, me desculpe a ignorância no assunto, mas no Encontro eu sei: tem espaço para tudo.

Lembra do ET de Varginha? Pois ele já esteve por lá, em slides. O evento também oferece passeio a sítios arqueológicos, há uma feira com vários expositores, um encontro de ateus e agnósticos e até mesmo um encontro mundial de, acredite, ex-ufólogos, só no Nordeste mesmo. Depois das palestras, debates e oficinas, vem a noite na praça, com seus bares e um grande palco onde se revezam dança, teatro, poesia, cinema e shows musicais que vão do forró ao metal mantra. Com direito a cervejinha gelada que ninguém é de ferro, né?

O evento possui um caráter naturalmente democrático, pois dele fazem parte até mesmo os que são contra. Isso pode ser aferido logo à entrada do teatro: de um lado, barulhentos e divertidos Hare Krishna, com suas roupas coloridas e instrumentos exóticos, entoando aqueles mantras dançantes, e do outro lado evangélicos distribuindo panfletos onde demonstram que esse negócio de Nova Era é coisa do demo.

No fim, vendo todas aquelas tradições, ciências, artes e filosofias dançando e celebrando de mãos dadas, vendo negros e brancos e índios, cristãos e muçulmanos entoando cânticos ao planeta e à humanidade, lembrei do festival de Woodstock. Passados 40 anos, cá estamos nós, no interior nordestino, buscando as mesmas coisas que aqueles pacíficos sonhadores: paz, amor, liberdade, união, respeito às diferenças…

Houve um ano em que fui para lá aproveitando a carona de meu amigo André Barbacena. Ele estava indo para Olinda, curtir aquele incrível carnaval que eu já conhecia de outros anos, e seguimos em seu fusca. André deu um gole na cerveja e logo enganchou seu coração na cintura de uma bela passista de frevo que descia a ladeira dos Quatro Cantos. Desejei-lhe felicidades e me despedi, combinando o reencontro para logo após o reinado de Momo. Botei a mochila nas costas e peguei o ônibus para Campina Grande, o coração no ritmo do frevo.

Na quarta-feira de cinzas lá estava eu de volta a Olinda. André, cansado mas alegre, trazia ainda uma cerveja na mão e um bocado de história para contar. Enquanto degustávamos uma tapioca com queijo, ele me falou do quanto se divertiu no bloco dos ensaboados, um bocado de gente descendo a ladeira ensaboando e passando xampu uns nos outros com um carro atrás jogando água, olha que coisa. Eu desatei a rir imaginando a cena.

Assim como nós em Campina Grande e os cabeludos de Woodstock, os ensaboados de Olinda, com sua alegoria, também desejam um mundo mais limpo, mais alegre e mais unido. Com muito frevo, amor e paz. Amém. Shalom. Oxalá. Axé.

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Ricardo Kelmer 2002 – blogdokelmer.com

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Site do evento: novaconsciencia.com.br

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LEIA NESTE BLOG

DiversosEIguais-01aEncontro da Nova Consciência – Diversos e iguais – Não precisamos concordar com os outros. Mas podemos aceitá-los, tanto quanto quisermos também ser aceitos

O psicólogo, a humanidade e a esperança – Os acontecimentos mostram que a humanidade está se unificando, unindo seus opostos

Entrevista com o ateu – Um pregador evangélico entrevista um escritor ateu

Pátria amada Terra – É animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária

A imagem do século 20 – Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisões. Não vimos este ou aquele país: vimos o todo

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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 01- Adoro! Paula Izabela, Juazeiro do Norte-CE – jan2013

02- gostaria de conhecer…. Dhara Bastos, Fortaleza-CE – jan2013

03- Reunião de todos os loucos do Brasil.. Andre Soares Pontes, Fortaleza-CE – jan2013

04- Lá tem espaço para mostrar trabalhos em arteterapia Kelmer? Ppue se der acho q vou programar uns dias nessa “loucura” como disse o Andre Soares3>. Izabel Castro, Fortaleza-CE – jan2013

05- “Assim como nós em Campina Grande e os cabeludos de Woodstock, os ensaboados de Olinda, com sua alegoria, também desejam um mundo mais limpo, mais alegre e mais unido. Com muito frevo, amor e paz. Amém. Shalom. Oxalá. Axé.” Esse encontro entre as diferenças é a prova de que ainda é possível extirpar o maior câncer da humanidade: a intolerância!!! Silvana Alves, Fortaleza-CE – jan2013


O novo salto quântico da consciência

05/01/2013

05jan2013

Por qual razão tantas pessoas ousam se submeter a uma experiência incerta, largando a segurança de sua mente cotidiana e desafiando o desconhecido de si mesmo?

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O NOVO SALTO QUÂNTICO DA CONSCIÊNCIA

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A cada dia, mais pesquisadores ligados ao estudo da consciência, antropologia, psicologia e botânica se debruçam sobre uma possibilidade intrigante e polêmica. É provável que as plantas psicoativas (que induzem a mente a funcionar em estados especiais) possam ter contribuído significativamente para o surgimento da autoconsciência, fator decisivo que proporcionou aos nossos ancestrais, num determinado ponto da evolução, as condições para sobreviver e gerar a incrível espécie a qual pertencemos, o Homo sapiens.

Admitir tal hipótese é mexer num vespeiro. Muita gente se indagará: “Então nós humanos só existimos porque um bando de macacos comeram umas plantinhas e ficaram doidões?” Imagino os mais religiosos: “Era só o que faltava! Deixa só Deus escutar isso!” Pois infelizmente para muita gente, e até para alguns deuses, essa hipótese vem sendo estudada com seriedade e encontra ressonância positiva no meio científico.

Quem já passou por uma experiência com as tais plantas sagradas, como a Ayahuasca, o Peiote e a Jurema, sabe perfeitamente do imenso poder que elas guardam. E sabe também que elas não se prestam a um consumo recreativo, exatamente porque podem tocar muito fundo em nosso interior, abalando nossa compreensão da realidade e de nós mesmos e nos fazendo emergir da experiência profundamente transformados. Xamãs e pajés do mundo inteiro as utilizam há milhares de anos em contextos religiosos e terapêuticos. Atualmente, médicos e pesquisadores unem medicina acadêmica com antiquíssimas práticas xamânicas que envolvem o uso de plantas psicoativas e, com essa curiosa união, obtêm resultados animadores na cura de doenças, como a dependência química.

No Brasil, proliferam-se seitas que em seus rituais utilizam chás à base dessas plantas, chamando a atenção de estudiosos para o emergente fenômeno. Toma-se o chá para entrar num estado de consciência não ordinário, onde é possível viver experiências sensoriais e cognitivas as mais diversas. Há quem encontre pessoas vivas ou mortas, santos, entidades animais ou espíritos de plantas. Há os que experimentam capacidades psíquicas incomuns ou vivenciam uma intensa sensação de união com a Natureza e tudo que existe. Há quem passe por profundas experiências de autoinvestigação psicológica ou seja tocado por revelações importantes de caráter terapêutico e que podem mudar toda uma vida. Pode não acontecer nada, mas também pode ser prazeroso ou doloroso. Depende de cada um e de seu momento. Alguns religiosos radicais, sempre obcecados, diriam que é coisa do demônio. Alguns psicólogos talvez usassem o termo “terapia de choque”.

Por que a crescente procura atual pelas plantas de poder dos xamãs? Por qual razão tantas pessoas ousam se submeter a uma experiência incerta, largando a segurança de sua mente cotidiana e desafiando o desconhecido de si mesmo? Minha impressão é que isso tudo talvez signifique uma forma de religação à Natureza. Religação, sim, porque nós também fazemos parte da Natureza, mas infelizmente passamos a nos ver separados dela, nos distanciamos da sabedoria natural do planeta e agora, perdidos num mundo caótico e insano, buscamos experiências que nos reconectem às nossas verdades mais profundas. Entendo isso como um anseio natural e legítimo de uma espécie adoecida: o anseio de cura, liberdade, totalidade e harmonia com a Mãe Terra.

Por minha própria experiência, sei que plantas psicoativas podem ser muito úteis porque nos fazem olhar para dentro, nos reconectam às leis naturais e ao sagrado de nossas vidas, nos lembram de nosso potencial para a autocura e ajudam a nos libertarmos de medos, culpas e bloqueios. Não há como não se transformar após um profundo encontro consigo mesmo. É por isso que quem passa por tais experiências xamânicas engrossa a legião dos que entendem o mais importante: somente a profunda mudança interior de cada um é que fará finalmente com que o mundo mude para melhor.

Talvez nesse momento as plantas sagradas estejam nos alertando para o fato que quanto mais pessoas se religarem à sua verdade mais íntima, mais próxima a humanidade estará de seu ponto de equilíbrio. Porém, na busca angustiada pela cura, muitos exageram no remédio, caindo escravos justamente daquilo que um dia elegeram como libertador. As plantas sagradas não ficam de fora desse perigo. Tenho amigos que fazem parte de seitas que utilizam tais plantas e certamente discordarão. Respeito o que eles pensam e admiro sua busca pessoal, mas como tudo mais que existe, as plantas sagradas também possuem dois lados.

Religiões, seitas e gurus funcionam muito bem para os que necessitam de regras ou se sentem mais seguros pertencendo a um grupo. Porém, há pessoas que conseguem beber em todos os ensinamentos e usufruir do melhor que eles oferecem sem ter de se enquadrar em nenhum específico. É um caminho mais solitário, evidente, e exige um contínuo estar aberto ‒ mas que recompensa quem o trilha com a liberdade que nenhum outro caminho pode oferecer. As regras da seita ou as palavras do guru podem até iluminar por um tempo, sim, mas até mesmo essa luz pode cegar para os horizontes seguintes da jornada. É isso o que ensinam as plantas de poder, que devemos abandonar as muletas e aprender a caminhar por nós mesmos.

O atual processo coletivo de reconectar-se aos valores da Natureza pelas plantas psicoativas não significa uma espécie de retrocesso evolutivo e que devemos voltar a saltar pelas árvores. Nada disso. Uma vez ultrapassados, os marcos da evolução da consciência sempre nos impulsionam para o novo, jamais para trás. Porém, a verdadeira evolução avança em forma de espiral, e é por isso que quando o caminho parece retornar a um determinado ponto, ele está sim passando novamente por lá ‒ mas num novo nível, numa nova dimensão.

Talvez essas poderosas plantas, que acompanham nossa espécie desde seu nascimento numa impressionante relação simbiótica, estejam agora nos oferecendo a preciosa oportunidade de mais um salto quântico da consciência, uma intensa transformação da mente e de sua interpretação da realidade, como fizeram nossos peludos antepassados em algum ponto de sua jornada. Agora, porém, diferente deles, possuímos razão e discernimento. Possuímos milênios e milênios de experiência sedimentados no inconsciente comum da espécie e temos nossos próprios erros para nos guiar.

Retornaremos à Mãe Terra e ao sagrado, sim, porque não há outro caminho se quisermos de fato sobreviver como espécie. Mas o faremos num novo nível, porque agora estamos mais experientes para lidar com o grande mistério da vida, esse mistério que nos maravilha e assombra cada vez que olhamos para o sem-fim do Universo lá fora ou para o infinito interior de nós mesmos.

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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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EM ITALIANO

IL NUOVO SALTO QUANTICO DELLA COSCIENZA

RK analizza le piante psicoattive e la loro importanza nel processo evolutivo della specie umana

ONovoSaltoQuanticoDaConsciencia-1Ogni giorno che passa più ricercatori legati allo studio della coscienza, antropologia, psicologia e botanica investigano su una possibilità almeno intrigante e polemica. Probabilmente le piante psicoattive (che inducono la mente a funzionare in stati speciali) possono aver contribuito di maniera significante al sorgere dell’autocoscienza, fattore decisivo che ha proporzionato ai nostri predecessori, in un determinato punto dell’evoluzione, le condizioni per sopravvivere e per generare l’incredibile specie alla quale apparteniamo: l’Homo sapiens. Ammettere tale ipotesi è come toccare un alveare. Molti si chiederanno: “Vuoi dire che noi umani esistiamo soltanto perché un gruppo di scimmie ha mangiato delle piantine e si sono sballati?”

Immagino i più religiosi: “Era quello che ci mancava! Vediamo cosa dirà Dio al sentire questo!” Per la sfortuna di molta gente, e anche di alcuni dei, questa ipotesi viene da qualche tempo studiata con serietà e trova risonanza positiva nell’ambiente scientifico.

Chi ha già avuto un’esperienza con queste “piante sacre”, come “l’ayahuasca” (tisana ricavata dal vino di Banisteriopsis caapi e dalle foglie di Psychotria viridis), il “peyote” (Lophophora williamsii e Lophophora diffusa) e la “jurema” (Mimosa tenuiflora e Mimosa verrucosa) conosce perfettamente l’incredibile potere che hanno. E sa anche che loro non servono ad un consumo ludico, esattamente perché di solito vanno molto a fondo nel nostro interiore, indebolendo la nostra comprensione della realtà e di noi stessi, e ci fanno invece emergere da quest’esperienza profondamente trasformati. “Pajés” (gli indigeni dell’Amazonia che applicano la “pajelança”)* e sciamani di tutto il mondo le utilizzano da migliaia di anni nei contesti religiosi e terapeutici. Attualmente medici e ricercatori di diversi paesi uniscono alla medicina accademica le pratiche sciamaniche che coinvolgono l’uso di piante psicoattive e, con questa curiosa unione, ottengono risultati incoraggianti nella cura di molte malattie come la dipendenza chimica.

Attualmente in Brasile c’è la proliferazione di sette e di altri gruppi dissidenti a queste sette che nei suoi rituali utilizzano tisane a base di queste piante, richiamando l’attenzione degli studiosi a questo emergente fenomeno. Si beve la tisana per entrare in uno stato di coscienza non ordinario, dove è possibile vivere le più diverse esperienze sensoriali e cognitive. Alcuni incontrano persone vive o morte, santi, entità animali o gli spiriti delle piante. Alcuni provano capacità paranormali non comuni o vivono un’intensa sensazione di unione con la Natura e con tutto quello che esiste. Alcuni passano per profonde esperienze di autoindagine psicologica così come di autoguarigione, o sono toccati da rivelazioni importanti che possono cambiare tutta la vita. Può darsi che non capiti niente, ma può essere piacevole o doloroso. Può essere infernale o divino ma sarà sempre costruttivo. Dipende da ognuno e dal suo momento. I religiosi radicali, sempre accecati, affermerebbero che è una cosa del demonio. Forse alcuni psicologi userebbero il termine “terapia d’urto”. Forse non è nient’altro che un provvidenziale rincontro con se stessi e con la sua verità più intima.

Perché la crescente ricerca delle piante di potere dei sciamani? Per quale motivo tante persone osano sottomettersi ad un’esperienza incerta, abbandonando la loro sicurezza quotidiana mentale e sfidando il lato sconosciuto di se stessi? La mia impressione è che tutto questo probabilmente significa, in ultima istanza, una forma di ricollegamento con la Natura perché, nella realtà, siamo una parte integrante. Purtroppo, è successo che ci siamo separati da lei e, per questo motivo, ci siamo allontanati troppo della saggezza del pianeta, ed adesso, persi in un mondo sempre più caotico ed insano, cerchiamo con avidità delle credenze ed esperienze che ci ricolleghino al più grande senso della vita e alle nostre verità più profonde. Capisco questo come un’ansia naturale e legittima di una specie ammalata: l’ansia di guarigione, libertà, totalità ed armonia con la Madre Terra.

Dalla mia esperienza personale, so che le piante psicoattive possono essere molto utili perché ci fanno guardare dentro, ci ricollegano alle leggi naturali e al sacro delle nostre vite, ci ricordano il nostro potenziale per l’autoguarigione e ci aiutano a liberarci dalle paure, colpe e blocchi. È impossibile non trasformarsi dopo un profondo incontro con se stessi. È per questo che chi passa per tali esperienze sciamaniche aumenta la legione di quelli che capiscono la cosa più importante: soltanto il profondo cambiamento interiore di ognuno di noi potrà finalmente cambiare il mondo in migliore.

Forse è questo l’invito che le piante sacre fanno in questo momento alla nostra specie: più persone si ricollegano alla loro verità più intima, più l’umanità sarà vicina dal suo punto di equilibrio. D’altra parte, so anche che la specie umana è ammalata e che, nella angosciata ricerca della guarigione, è capace di esagerare nella cura. Per questo, in questa urgente ricerca di valori spirituali, è necessario soprattutto, dare priorità alla libertà e prestare attenzione al rischio sempre presente di diventare schiavi esattamente da quello che un giorno abbiamo eletto come liberatore. Le piante sacre non sono escluse da questo pericolo. Ho amici che fanno parte di sette che utilizzano tali piante e che sicuramente non saranno d’accordo. Rispetto quello che pensano e ammiro la loro ricerca personale. Però, così come tutto quello che esiste, anche le piante sacre hanno due lati. Se un lato libera, l’altro è lì pronto a schiavizzare nel caso tu sia eccessivamente legato alle piante, non rimanga attento ed equilibrato.

Religioni, sette e guru funzionano molto bene con chi ha bisogno di regole o si sente più sicuro appartenendo ad un determinato gruppo. Loro sono nella tua strada e questo deve essere rispettato. Ma esistono persone che riescono a trarre degli insegnamenti ed approfittare del meglio di quello che offrono senza dover inquadrarsi in nessuno specifico. È un cammino più solitario, evidentemente, ed esige un continuo “essere aperto” – ma, giusto per questo, ricompensa chi segue questo cammino con la libertà che nessun’altro può offrire. Sì, le regole della setta o delle parole del guru possono addirittura illuminare per un tempo, ma questa stessa luce può accecare i successivi orizzonti del processo. Il principale insegnamento delle piante di potere (così come dovrebbe essere l’insegnamento di ogni guru) è questo: dobbiamo abbandonare tutte le stampelle ed imparare a camminare da soli.

Questo attuale processo collettivo di ricollegarsi ai valori della Natura tramite le piante psicoattive non significa una forma di retrocessione evolutiva e che ci fa tornare a vivere sugli alberi. Non è niente di questo. Una volta ultrapassati, i segni dell’evoluzione della coscienza ci spingono sempre verso il nuovo, mai indietro. Succede che la vera evoluzione avanza come una espirale ed è per questo che quando il cammino sembra ritornare ad un determinato punto, nella realtà lui sta passando nuovamente lì – però in un altro livello, superiore, in un’altra dimensione.

Forse queste potente piante, che accompagnano la nostra specie dalla nascita in un’impressionante relazione simbiotica, stiano adesso offrendoci la preziosa opportunità di un altro salto quantico della coscienza, un’intensa trasformazione della mente e della sua interpretazione della realtà – come hanno fatto i nostri pelosi predecessori in qualche punto del loro processo. Adesso, però, diversamente da loro, abbiamo la ragione e il discernimento. Possediamo millenni e millenni di esperienza sedimentati nell’incosciente comune della specie ed abbiamo i nostri propri errori che ci guidano.

Ritorneremo alla Madre Terra ed al sacro, sì, perché non esiste un’altro cammino se vogliamo di fatto sopravvivere come specie. Ma lo faremmo in un nuovo livello perché adesso siamo più capaci per affrontare il grande mistero della vita, questo mistero che ci meraviglia e spaventa ogni volta che guardiamo l’infinito mondo fuori e dentro noi stessi.

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Ricardo Kelmer è scrittore, paroliere e sceneggiatore ed abita a São Paulo

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* N.T.:

PAJELANÇA: una forma di culto sciamanico esistente nella regione Nord del Brasile, con rituali d’origine indigena mescolati ad elementi dello spiritismo, cattolicismo e dei culti afro-brasiliani. I celebranti sono chiamati “pajés”, termine d’origine tupi che significa sciamano. La pajelança coinvolge canti e balli per chiamare gli spiriti, accompagnati soltanto del “maracá” (semplice strumento di percussione). La principale finalità è ottenere la guarigione di malattie fisiche. La pajelança non deve essere confusa con i credi, rituali e pratiche mediche proprie di ogni popolo indigene.

SCIAMANO: è il personaggio delle religioni tradizionali dell’Asia settentrionale, anche se esistono sciamani in altre società, come in America settentrionale ad esempio; il termine “xamã” designava determinati stregoni dell’Africa tradizionale. Secondo il credo, quando cade in stato di trance, lo sciamano è posseduto dagli spiriti che parlano e agiscono tramite lui. È la stessa cosa per il “pajé” fra gli indigeni brasiliani.

TRADUZIONE: Isabella Furtado – REVISIONE: Massimo Savigni

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Xamanismo de vida fácil – A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos

A vida na encruzilhada (filme: O Elo Perdido) – Essa percepção holística da vida é que pode interromper o processo autodestrutivo que nos ameaça a todos

Carlos Castaneda (vídeo) – Especial da BBC sobre o polêmico antropólogo que estudou o xamanismo no México, escreveu vários livros e tornou-se um fenômeno do movimento Nova Era. Legendado

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FILME: O Elo Perdido (Missing Link)
Um milhão de anos atrás, na África, homem-macaco tem sua família dizimada por hominídeos e ele vaga sozinho pelo planeta, conhecendo e encantando-se com a Natureza. Ao comer de uma planta, tem estranha experiência que lhe traz importantes revelações.

O Elo Perdido (Missing link, EUA, 1988)
Direção: David Hughes e Carol Hughes
Elenco: Peter Elliot, Michael Gambon, Brian Abrahams, Clive Ashley

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MISSING LINK – TRÊILER

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 COMENTÁRIOS
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01-  “…porque nós também fazemos parte da Natureza mas infelizmente passamos a nos ver separados dela, nos distanciamos da sabedoria natural do planeta e agora, perdidos num mundo caótico e insano, buscamos experiências que nos reconectem às nossas verdades mais profundas…”!!!Amei isso!!! Texto fantástico!!! Silvana Alves, Fortaleza-CE – jan2013

02- mas quando a encontramos tudo fica iluminado e na mais perfeita harmonia… sinto-me connectada com a mae natureza e por isso pareço estar feliz o tempo todo mesmo nos piores momentos… Dhara Bastos, Fortaleza-CE – jan2013


O rastro luminoso da solidão

23/11/2012

23nov2012

Estaremos mesmo irremediavelmente sós, confinados aqui neste planetinha, no meio de toda a vastidão cósmica lá fora?

O RASTRO LUMINOSO DA SOLIDÃO

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Li dia desses a entrevista de um astrônomo que duvida que exista vida inteligente similar à nossa fora da Terra. Ele sustenta que os fatores astrofísicos e bioquímicos que propiciaram as condições de vida em nosso planeta são tão únicos e difíceis de ocorrer no Universo que é altamente improvável que os mesmos tenham se repetido em outra galáxia, ainda que elas existam aos bilhões, como de fato existem. A espécie humana, segundo o cientista, seria fruto de circunstâncias tão difíceis de se reproduzirem em conjunto que se poderia dizer que nossa existência se deve a um grande golpe de sorte e que, por isso, os esforços em contatar supostas inteligências extraterrestres são inúteis ‒ nós simplesmente estamos sozinhos no Universo.

Sozinhos no Universo… A frase explodiu em minha mente feito um foguete sinalizador, deixando um rastro luminoso de solidão pelo espaço sideral do pensamento. Sozinhos no imenso Mar Universo… O coração apertou, e creio ter experimentado, enquanto lia a entrevista, uma espécie de angustiante solidão cósmica. Estaremos mesmo irremediavelmente sós, confinados aqui neste planetinha, no meio de toda a vastidão cósmica lá fora? Somente nós?

Bem, mesmo que de fato não exista mais nenhuma espécie com um grau de evolução similar ao nosso, ainda assim nós humanos nos teríamos uns aos outros como sempre tivemos, e não estaríamos verdadeiramente sós, não é verdade?

Hummm, em termos. A evolução da espécie fez mudar os parâmetros. Hoje, já conhecemos todos os povos existentes e o planeta tornou-se pequeno para nossos anseios de expansão. Somos os únicos terráqueos dotados da capacidade de autoquestionamento (pelo menos assim nos vemos) e isso nos traz um tipo estranho de solidão. Agora que atingimos esse ponto de autoconhecimento, sentimos a necessidade de redefinir nosso lugar não mais em termos de planeta, mas de Universo.

Da mesma forma que a criança precisa do outro para construir sua própria definição e os povos da Terra precisaram conhecer outros povos para entenderem melhor a si mesmos, acho que a espécie humana necessita, neste momento histórico de sua evolução, confrontar-se com outra forma de inteligência para entender melhor a vida e galgar novos estágios em sua definição como espécie. Claro que ainda há muito que aprender sobre a natureza humana, mas estamos acelerando as descobertas e cada vez mais rápido as novidades surgem, num ritmo vertiginoso que faz com que a História afunile como num redemoinho, em voltas cada vez mais rápidas, cada vez mais, girando cada vez mais próximo do vórtice…

Não sei aonde chegaremos com esse tal ritmo de transformações. Talvez estejamos nos aproximando perigosamente do vórtice do redemoinho, esse ponto em que algo ocorrerá, algo que mudará a História e inclusive nossa própria compreensão do espaço e do tempo, da vida e de nós mesmos. Fará parte dessa mudança a descoberta de outros seres inteligentes no Universo? Por enquanto, temos apenas nossas próprias dúvidas a nos impulsionar rumo ao desconhecido, como sempre fizemos, com a diferença que agora tudo gira a cada dia mais rápido.

Se o cientista da entrevista estiver certo, prosseguiremos irremediavelmente sós e teremos de nos aguentar sozinhos. Mas prefiro acreditar que ele está equivocado. No fundo de minha alma grita a esperança de que não, não estamos sozinhos, e que em algum lugar lá fora existem seres mais ou menos como nós, talvez com dúvidas parecidas, talvez mais sábios, talvez até saibam de nós…

Não sei. Tudo são dúvidas que faço ecoar por meio dessas linhas, exatamente como a espécie humana também faz com seus foguetes espaciais, lançando à escuridão do espaço nossa ardente incerteza, feito um sinalizador que sobe aos céus e, em seu rastro luminoso, não se cansa de repetir a mesma pergunta angustiante: há alguém mais aí fora?

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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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Deuses, humanos e androides na berlinda (filme: Blade Runner) – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição, e é criando que ele faz isso

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Deus planta bananeira de saia (filme: Dogma) – Em Dogma, Deus passa mal bocados por conta de um dilema criado pelos próprios humanos. Santa heresia, Batman!

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Fim do mundo inesquecível em Jericoacoara

01/10/2012

Ricardo Kelmer 2012

Concorra a um fim de semana pra casal numa das praias mais lindas do mundo

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Criei uma promoção pra divulgar o lançamento de meu livro de contos Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos. Ela brinca com a crença que o mundo vai acabar em 21 de dezembro de 2012. A promoção acontece no Facebook e pra participar, basta compartilhar a postagem da promoção e deixar nome e cidade. Obrigado à Pousada Casa do Ângelo, que tem o saudável hábito de apoiar causas culturais. Eis o texto:

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FIM DO MUNDO INESQUECÍVEL EM JERICOACOARA
> sorteio de pacote para casal (3 dias + transporte + livro)

Se o mundo vai mesmo acabar no fim do ano, melhor estar numa praia paradisíaca, hospedado numa pousada aconchegante e acompanhado do novo livro de contos de Ricardo Kelmer. E se o mundo não acabar, você terá boas histórias pra contar…

SORTEIO – A Pousada Casa do Ângelo, em Jericoacoara-CE, sorteará um pacote de 3 dias (21 a 23.12.12) para casal, incluindo transporte ida e volta Fortaleza-Jericoacoara-Fortaleza, além de 1 exemplar do livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos (contos fantásticos, Editora Arte Paubrasil), de Ricardo Kelmer. Para participar compartilhe esta postagem e deixe seu nome e cidade. Sorteio: 31.10.12 pela Loteria Federal. O prêmio nao é transferível. Se você curtir a página do livro, ganhará mais dois livros do autor (à sua escolha).

DESCONTO – Participantes da promoção podem adquirir o livro por R$ 22, com dedicatória e frete incluído.

LEITORES QUE ADQUIRIRAM NA PRÉ-VENDA receberão o livro pelo correio até o início de novembro

PÁGINA DO LIVRO NO FACEBOOK

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PARTICIPANTES DA PROMOÇÃO: 26
até 01.10.12, 20h

CE – Alyson Fernandes Basilio, Bruna Braun, Camila Souza, Cledson Ramos Bezerra, Danielle Freire, Esther de Paula, Fabio Oliveira, Felipe Araújo, Gustavo Lima Verde, Hawylla Gonçalves, Jefferson Roberto, Lano Lima, Letícia Silva, Linda Mascarenhas, Michele SJ, Paulo Costa, Quel Raquel, Rochelle Araujo, Sandra Alves Ribeiro, Soraya Aquino (Fortaleza), Adryanno Ferreira, Paula Izabela (Juaz. do Norte)
PB – Samantha Pimentel (Campina Grande)
PR – Ana Cristina Suzina (Ponta Grossa)
PI – Teresinha Itapirema (Parnaíba)
RR – Suely Bezerra (Boa Vista)
SP – Juliana Martins (SB do Campo), Barbara Leite, Durval Brasil, Maria Do Carmo Antunes, Maria Pimentel (São Paulo)

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SOBRE O LIVRO

Publicado originalmente em 1997, o livro foi reescrito e alguns contos mudaram bastante. Em minha opinião, ficou bem melhor. Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, os personagens são surpreendidos por estranhos acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmos e deflagram crises tão intensas que podem se transformar numa questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses pessoais.

LANÇAMENTOS – Em breve divulgarei as datas e locais dos lançamentos em São Paulo, Fortaleza e outras cidades.

> Saiba mais, leia contos e comentários

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pousadacasadoangelo.com.br

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I Ching das patricinhas

10/08/2012

10ago2012

O oráculo tem validade num caso desse? Ou eu estava sendo extremista?

I CHING DAS PATRICINHAS

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A noite seguia animada e eu tomava minha vodca, espremido entre as pessoas no balcão do bar. Bem ao lado, duas animadas garotas, estilo patricinha, comentavam sobre um rapaz na mesa próxima. Uma delas estava interessada nele e não sabia se devia ir ou não até sua mesa. Foi quando escutei algo extraordinário: Já sei, vou consultar o I Ching!

Tomei um susto. Olhei discretamente e percebi que ela digitava seu celular. I Ching pelo celular… Eu não acreditei. Mas era verdade. As patricinhas esotéricas estavam ali ao lado lendo na telinha o resultado enquanto riam e comentavam. Como a música estava alta, não pude saber qual hexagrama saiu. Mas fiquei encucado. O I Ching parecia não combinar com a situação, aquele clima de brincadeira e futilidade. Soava como algo sagrado sendo profanado. Uma garota consultando o I Ching no bar para decidir se devia ou não ir à mesa do rapaz… O oráculo tem validade num caso desse? Ou eu estava sendo extremista?

É sabido que a cultura esotérica tornou-se massificada e isso desvirtuou muita coisa. Veja o caso dos oráculos, como o Tarô e o I Ching. Eles são excelentes instrumentos de autoinvestigação psicológica e podem ser úteis na resolução de problemas, mas muitos os utilizam sem seriedade alguma e sem noção do que verdadeiramente representam, pois para que o processo seja eficaz, o consulente necessita parar, silenciar e esvaziar sua mente.

No caso do I Ching, o uso ritualístico das varetas requer seus vinte ou trinta minutos, e durante o ritual a mente se aquieta, se recolhe e se afasta do barulho exterior. Essa interrupção do diálogo interno proporciona um estado mental propício para que o consulente possa captar a essência da mensagem que virá. No entanto, a mentalidade apressada do Ocidente não gostou de ter que perder tanto tempo e trocou as quarenta e nove varetas pelas três moedas, e assim gasta apenas um minuto. Pela internet, com apenas um clique consulta-se o I Ching e num mísero segundo obtém-se a resposta. Agora vem o I Ching pelo celular: você consulta na fila do maquedônaldis e no intervalo da novela. Será que é válido? Ou estarei agindo como um purista dos oráculos, antiquado e intransigente?

Sim, é válido ‒ mas apenas para quem está preparado para receber a revelação. Porque tudo pode ser um oráculo, até mesmo a numeração de uma cédula ou o som das folhas ao vento. Tudo que existe pode conter as respostas que buscamos. No entanto, se alguém busca o oráculo com pressa ou intenções frívolas, ele responderá com uma repreensão ou então ironizará o consulente com uma resposta estapafúrdia, como faria qualquer mestre. As respostas sempre virão, sim, mas o consulente precisa estar apto a captar sua essência.

No filme Matrix, Neo consulta o Oráculo e entende que ele não é o Predestinado quando, na verdade, o Oráculo diz apenas que ele ainda está aguardando por algo para ser o que de fato já é. A resposta dos oráculos são claras ou obscuras dependendo de quem pergunta porque, na verdade, é o próprio consulente, em seu nível de sabedoria maior, quem responde para si mesmo, sendo o oráculo um mero instrumento para o processo.

Quanto à patricinha e seu dilema, espero que tenha se saído bem. Mas, cá para nós, se nossa amiga depende do I Ching para arrumar namorado, talvez seja mais produtivo encurtar a saia, apelar para o silicone ou participar do Namoro na TV.

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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

> I Ching na Wikipedia

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LEIA NESTE BLOG

Livro: Matrix e o Despertar do Herói – A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas

É a Tao coisa – Uma maneira intuitiva de compreender a realidade através da harmonia com o Tao

O esoterismo morreu – Assim como esoterismo superficial é um contrassenso e esoterismo pop jamais será esoterismo de verdade, seu sucesso teria necessariamente que decretar sua deturpação

Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

Carma de mãe para filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

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O fim dos tempos chega primeiro aqui

10/07/2012

Ricardo Kelmer 2012

Putz, Kelmer, minha situação financeira tá horrorosa… Sério? Então parabéns, seus problemas acabaram


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Meu livro de contos fantásticos Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos (Editora Artepaubrasil, 2012) será lançado em outubro. Os leitores que adquiriram com aquele descontão na pré-venda receberão o livro pelo correio, com seus nomes devidamente constantes na página Galeria de Leitores Especiais. Chique no último.

E os Leitores Vips? Diferente dos simples mortais, eles poderão adquirir o livro diretamente comigo com um bom desconto. Chique no penúltimo.

Putz, Kelmer, minha situação financeira tá horrorosa… Sério? Então parabéns, seus problemas acabaram. Você pode ler alguns contos aqui no blog ou baixar gratuitamente o piratão (pdf) pra ler no computador ou imprimir. Pode não ser chique mas funciona.

Prefiro que leiam o piratão oficial pois como enviei o livro ainda não finalizado pra algumas pessoas analisarem, versões não-autorizadas podem circular pelaí. E se você gostar do livro, repasse o arquivo aos amigos pois é assim que espero que ele se torne rapidamente conhecido. Em 2013 a editora deverá lançar o e-book oficial, com todos aqueles recursos bacanudos e coisital.

E o meu buchão aí na revista Pinheiros Vip, gostou?

SOBRE O LIVRO

Publicado originalmente em 1997, o livro foi reescrito e alguns contos mudaram bastante. Em minha opinião, ficou bem melhor.

Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, os personagens são surpreendidos por estranhos acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmos e deflagram crises tão intensas que podem se transformar numa questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses pessoais e coletivos.

RESUMO DOS CONTOS
alguns estão disponíveis p/ leitura no blog

O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas, uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

Quando os homens não voltam para casa – Mulher contrata os serviços de um sensitivo para reencontrar o namorado que foi atraído por uma bela princesa para dentro de um quadro de parede.

O cilindro da luz azul – Em sua luta para sobreviver num mundo apocalíptico de autoritarismo e violência, casal descobre estranhos cilindros trazidos pelo mar.

A vertigem – Dizem que seo Pepeu, o louco da cidade, possui dois bichinhos mágicos que localizam coisas perdidas e fazem as pessoas se encontrarem. Mas ele está velho e tem de passar a alguém a missão de cuidar dos bichinhos.

Pequeno incidente em Hukat – Integrante do Projeto Sapiens de Monitoramento Planetário descobre irregularidades comprometendo a evolução da espécie humana e se envolve em rebelião contra Deus, o psicomputador.

Crimes de paixão – Detetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite.

O presente de Mariana – A cabocla Mariana, entidade da umbanda, propõe noivado ao moço Dedé. Ela garante estabilidade financeira mas em troca exige fidelidade absoluta.

Há algo de podre no 202 – Quando crianças, as primas guardavam um terrível segredo sobre o amanhecer. Agora que cresceram, o que pode acontecer?

O strip-tease – Criaturas do futuro que voltam no tempo para garantir que eles mesmos, no passado, não cancelem o futuro – esses são os Observadores.

> Saiba mais, leia comentários, baixe o piratão oficial

> Baixe outros livros kelméricos

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Detestei te ver nu e grávido,mas reconheço que a estratégia foi ótima pra gente se manter ligado às últimas do blog.Tb não sou mulher de ¨piratão”… Hehehe.Acredita q ainda sou mocinha e ainda tenho TPM? Pois é.Acho q vc me pegou num mau dia,pobre Kelmer! Mas,apesar dos pesares, ailóviu, vc sabe disso. Bjs da loura 🙂 Mônica B, Recife-PE – jul2012

02- rapaz! to em choque! hehehe… quer dizer que no atual momento vc está de licença maternidade? hehehe… abçomano. Marcelo Ferrari, São Paulo-SP – jul2012

03- Putz Ricardo, quem é o pai? Blz, arrasou na curtição! Espero que o lançamento seja o maior sucesso e as vendas ainda mais! cheiro Amaury, Fortaleza-CE – jul2012

04- Kelmer, voce está IRRESISTÌVEL assim! UAU! Tentei postar no seu blog mas ele não deixou. Precisa CPF, RG, carta de boas intenções, jurar que eu sou eu mesma mesmo e que mais…? beijo! parabens! Beatriz Del Picchia, São Paulo-SP – jul2012

05- fio, até grávido vc fica lindo! bjão. Renata Regina, São Paulo-SP – jul2012

06- kkkkkkkkkkk… Paula Medeiros de Castro, São Paulo-SP – jul2012

07- kkkkk ‘Believe Ricardo. Krishna Eufrásio, Fortaleza-CE – jul2012

08- ‎Ricardo Kelmer,sou sua fã. Fadinha, Fortaleza-CE – jul2012

09- diabéisso tio???? kkkkkkkkk Laís Galvão, Fortaleza-CE – jul2012

10- comeu o que mesmo,kkkkkkkkkk. Luciene Maia, Fortaleza-CE – jul2012

09- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk meu primo !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Ângela Dias, Fortaleza-CE – jul2012

10- Dia 06/10 seria um dia muito especial para o lançamento desse livro. Que tal? rsrsrsrsrsrs. Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – jul2012

11- Vou fazer o parto. Vânia Dias, Fortaleza-CE – jul2012

12- Vou ser a madrinha??? Kkkkkkk. Karen Brochado, Fortaleza-CE – jul2012

13- Cruzes!!!!!!!!!!!!!!!!! Virgínia Ludgero, Lisboa-Portugal – jul2012

RK: Coisa boa é mulher rindo / O que pode ser mais lindo? / Só mesmo mulher gozando / Até se goza chorando / Seja no riso ou no gozo / Não tem nada mais mimoso / É tudo o que a vida quer / Ver prazer numa mulher 🙂 São Paulo-SP – jul2012


Elas estão entre nós

30/05/2012

30mai2012

Existiria uma espécie de buraco negro invisível, feito um dragão insaciável a devorar lindas e inocentes (e às vezes virgens) canetinhas?

ELAS ESTÃO ENTRE NÓS

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Por que diabos as canetas somem? É um grande mistério que sempre me afligiu. Num momento estão aqui, bem ao lado… e no momento seguinte, inexplicavelmente, não estão mais, sumiram. E aí ficamos feito idiotas, fuçando os papéis e apalpando os bolsos sem entender. Mistério. Existiria uma espécie de buraco negro invisível, feito um dragão insaciável a devorar lindas e inocentes (e às vezes virgens) canetinhas?

E isso não ocorre apenas com gente desligada como eu. Pergunte a qualquer pessoa e verá que com ela as canetas também somem. Já cogitei que talvez seja coisa do Estilista Maquiavélico: ele contrata milhares de pessoas no mundo inteiro para roubar canetas para ele, e na véspera do desfile, calada da noite, ele invade os camarins e despeja toda a tinta sobre os modelitos do estilista rival.

Tá bom, é uma hipótese meio dramática, admito. Mas também já testei outras mais simples, como esta: as canetas não somem, apenas são passadas adiante. Você acha que perdeu a caneta, mas não, você a emprestou para fulano anotar algo e ele simplesmente esqueceu de devolver. É, isso acontece, eu sei, mas se fosse só isso todas as fábricas de caneta já teriam falido, pois em vez de comprar, as pessoas apenas trocariam canetas entre si.

Outra hipótese é que as canetas, na verdade, saem para dar uma voltinha, respirar ar puro, talvez um encontro romântico com aquela bonitona de ponta porosa. Tudo bem, elas têm esse direito. Porém, as ingratas nunca voltam desse passeio, já percebeu? E aí, onde vão parar? Haveria um esquema secreto nos motéis para sequestrar canetas amantes? Mas com qual objetivo? Ora, para operar a fusão do tungstênio e construir armas que equiparão milícias ultradireitistas nos Estados Unidos. Hummm… Ok, exagerei outra vez. O que você me diz então de organizadores de abaixo-assinado, eles sempre precisam de canetas, não?

Outro aspecto desse enigma é que as canetas nunca estão à mão quando mais precisamos, já notou? De repente, parado no sinal vermelho, você lembra que sonhou com a milhar do jogo do bicho. Caneta urgente! Você procura no bolso da camisa, no porta-luva, embaixo do banco. Nada. O sinal esverdeia, você tem que seguir e perde a chance de ficar rico. Dia seguinte, a caneta surge, com a maior cara de pau, onde deveria estar. Mistério.

Você amarra a caneta ao telefone: ela se solta feito um Houdini e some. Você escreve seu nome num papelzinho e mete no interior da caneta: ela se vinga dessa intimidade forçada e nunca mais aparece. Você apela e compra uma caixa com cem canetas: em um mês só restará metade, como pode? Já cheguei a imaginar que as fábricas instalam nas canetas um potente micro-imã e assim, quando estamos desatentos, elas são atraídas de volta à fábrica, para serem recarregadas e revendidas, gerando lucros fabulosos. Parece absurdo? Então me responda: quando foi a última vez que você usou uma caneta até a última gota de tinta, heim?

Noite dessas despertei com a solução do enigma: as canetas são uma espécie extraterrestre, muito brincalhona, que em seu planeta natal brincavam a vida inteira de esconde-esconde. Um dia a brincadeira perdeu a graça, pois ninguém queria mais procurar, só se esconder. Foi aí que souberam de um inacreditável planeta Terra onde as pessoas chegam a fixar nas paredes das cidades cartazes de “Procura-se”. É o paraíso, elas pensaram. E assim vieram todas, aos bilhões, brincar de esconde-esconde com os terráqueos.

Mas claro!, entusiasmei-me com a súbita revelação. Extraterrestres, é isso mesmo! E, como sou desses otimistas bobos que creem em equilíbrio cósmico, logo imaginei que existe, em algum planeta por aí, seres especializados em encontrar… canetas sumideiras. É só questão de tempo até chegarem aqui. E nossos problemas estarão resolvidos. Lógico! Agora tudo se encaixava perfeitamente.

Respirei aliviado. Eu podia voltar a dormir, estava finalmente resolvida a questão. Então, satisfeito, liguei o abajur para anotar a ideia. Mas não encontrei a caneta.

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Ricardo Kelmer 2002 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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As quarenta raposas

27/02/2012

27fev2012

Um silêncio vindo de fora do tempo caiu sobre sua figura altiva, e naquele eterno segundo ela foi o anjo vingador: belo, justo e implacável

AS QUARENTA RAPOSAS

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O desfile chegara ao fim. A última modelo concluíra sua performance e a plateia ainda aplaudia, quando de repente cessaram a música e as luzes. Os aplausos silenciaram e ficaram todos em expectativa. Foi nesse exato instante, no vácuo dos pensamentos, que o anjo da morte surgiu, e sua presença arrepiou a todos. Surgiu no início da passarela. Parecia ser apenas mais uma modelo num casaco de pele da coleção de inverno. Mas não era. Mais tarde a produção simplesmente não saberia explicar quem era aquela mulher. A equipe de modelos também não a reconheceu, e os seguranças balbuciaram desculpas.

Ela postou-se à entrada, séria, e cravou seus olhos negros por sobre a plateia. Um frisson correu pelo ambiente. Um vento frio cruzou o salão. Mas não se ouviu nenhum rumor, absolutamente nada, e flash nenhum foi disparado. A vida ficou suspensa e nada mais existiu. Um silêncio vindo de fora do tempo caiu sobre sua figura altiva, e naquele eterno segundo ela foi o anjo vingador: belo, justo e implacável.

E, no entanto, era linda, irresistivelmente linda… E sua figura atraía os olhos feito ímã. O casaco de pele de cor castanho deixava à mostra seus joelhos e os pés tocavam descalços a passarela. O rosto tinha traços indígenas sul-americanos e o cabelo negro descia numa trança pelas costas. E era rude e imperturbável seu olhar.

Pôs-se então a caminhar. Seu andar lento e seguro seguiu pelo silêncio frio da passarela, como se pisasse o interior de cada um. E em cada um o negrume dos seus olhos cravou-se sem dó, como um justiceiro que desnuda os pensares e nada escapa de seu julgamento. De repente, todos sentiram-se indignos, e era como se sua presença os enchesse a todos de uma dolorosa vergonha, vinda de algum lugar dentro deles mesmos.

Completado o percurso, ela parou e levou as mãos às costas. De um gesto libertou os longos cabelos, que espalharam-se pelo ar e assentaram-se sobre os ombros, pousando macios nas costas. Nesse momento a música disparou e as luzes coloridas voltaram a piscar. E o angustiante silêncio foi finalmente preenchido.

Agora era o ritmo frenético da música em alto volume. Agora eram as cores dos holofotes, piscando alucinadas. Seu passo tornou-se mais rápido. Ela percorreu o segundo corredor, perpendicular ao primeiro. E desabotoou o pesado casaco. Após o derradeiro botão, começou a girar, a girar, e seu casaco, acompanhando o movimento, parecia uma hélice. Aos olhos pasmos de todos surgiu o seu corpo nu, inteiramente nu. E ninguém conseguiu desviar o olhar daquele exótico bailado.

As primeiras gotas de sangue salpicaram os fotógrafos à beira da passarela, eles que depois perceberiam não terem feito foto alguma. O sangue bateu-lhes no rosto, no peito e atingiu os equipamentos. Surpresos, contorceram-se agoniados e cheios de nojo enquanto os primeiros gritos explodiam na plateia. Nas mesas mais atrás aquelas pessoas finamente vestidas viram, de um segundo para outro, suas roupas respingadas de sangue e também seus rostos e as taças de champanhe.

Enquanto ela girava e girava na passarela, o terror explodiu num grande rumor abafado pela música estrondosa. Rostos ensanguentados, semblantes apavorados. Roupas salpicadas de vermelho e gritos de pavor. Uns choravam descontrolados, sem compreender de onde vinha tanto sangue, outros corriam pela multidão sem saber para onde ir. Era de repente um imenso pesadelo, absurdo e real.

Então ela parou de girar. Livrou-se do casaco. Seu corpo nu surgiu inteiro e vigoroso sob o piscar das luzes. E ela caminhou para o lugar por onde entrara. O corpo nu avançou em passos serenos e decididos enquanto o braço arrastava atrás de si o pesado casaco, feito uma longa cauda castanha, deixando pelo chão um largo rastro de sangue.

Ela chegou ao início da passarela e foi recebida pelo estilista idealizador da coleção, que tentou falar, mas nada conseguiu dizer. Seu olho negro o atingiu em cheio, imobilizando-o, e por um momento ele viu não uma mulher, mas um bicho. Ela depositou pesadamente em seus braços o casaco ensopado de sangue, e antes de sumir para sempre, disse, bem perto de seu ouvido, para que a música não o impedisse de compreender o mais importante:

– É preciso matar quarenta raposas para fazer um casaco desses.

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Ricardo Kelmer 1996 – blogdokelmer.com

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vtcapa21x308-01> Este texto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

 

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