O riacho sobrevivente

01dez2022

Canalizado e subterrâneo em grande parte de sua extensão, escorrendo no rumo noroeste em galerias sob ruas e prédios, lá vai o danado a seguir seu instinto de sobrevivência

O Riacho Sobrevivente Sergio Helle 01a

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O RIACHO SOBREVIVENTE

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Por trás das dunas da Praia do Futuro o sol se eleva, anunciando um novo dia em Fortaleza. Hora de partir. Deixamos a casa silenciosamente para não acordar meus pais. Comigo vão meus irmãos e primos, todos com cara de sono, mas animados.

Tomaremos o rumo da lagoa, onde nasce o riacho Papicu, uma hora de caminhada. Foi lá no riacho onde o disco voador pousou, trazendo os etês que querem destruir a Terra. Não podemos falhar em nossa missão. Todos prontos? Sim! Então, simbora.

Somos a Patota do Mato e gostamos de fazer piquenique nas matas do Cocó e do Papicu. Sempre encontramos muitos animais soltos, jumentos, cabras, vacas e seus bezerrinhos, e também tejos e preás. Ah, e tem muita aventura: já enfrentamos piratas na salina Diogo e monstros horríveis no morro da Cidade 2000, e uma vez o Siri Gigante me afogou no mangue do rio Cocó, mas escapei.

Meia hora de caminhada. Todos bem? Sim! Seguimos pelas trilhas, descansando à sombra das árvores e brincando na areia branquinha. Para recompor as forças, na lancheira a tiracolo tem água e biscoito champagne, e atenção, que soim adora roubar comida. No céu, gaviões passam curiosos a nos observar. Cuidado que esta planta aqui é cansanção. Não mexe nas pedras que pode ter cobra embaixo.

Chegamos à lagoa. Pousada à margem do riacho, vemos a nave dos etês. Aproximamo-nos devagar… Preparem-se, vamos atacar, um, dois, três, meia e já! O combate é intenso, tome isso, e mais isso, e chego a levar um tiro de laser de raspão no braço, mas no fim os etês saem na carreira. Todos vivos? Sim! Então, missão cumprida, podemos voltar. A Terra estava salva.

Fortaleza, 2020. Os bairros Papicu e Cocó ainda existem, mas não são os da minha infância, onde naquelas férias de 1975 vivi emocionantes aventuras no aconchego da Natureza, num tempo sem asfalto nem condomínios de luxo, mas cheio de imaginação e muito carrapicho e bicho de pé.

A lagoa ainda está lá, mesmo com todo o mal que lhe fazem, e também o riacho Papicu, palco da épica batalha contra os etês. Canalizado e subterrâneo em grande parte de sua extensão, escorrendo no rumo noroeste em galerias sob ruas e prédios, lá vai o danado a seguir seu instinto de sobrevivência, cruzando o subsolo da avenida Alberto Sá, resistindo à poluição e à ganância capitalista, reaparecendo ofegante para respirar e sumindo novamente, unindo mais adiante suas águas ao riacho Maceió, na Varjota, e depois, os dois juntos, descendo a céu aberto até a praia do Mucuripe, para, enfim, serem mar.

Em nossa inocência aventureira, botamos para correr os etês. Mas não eram eles os inimigos da Terra. Nunca foram seres cruéis de outras galáxias os que destroem nosso planeta em nome do lucro, desequilibrando a Natureza e fazendo eclodir terríveis pandemias de vírus. Nosso maior inimigo sempre foi outro.

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Ricardo Kelmer 2020 – blogdokelmer.com

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Ilustração: Sergio Helle

Esta crônica foi escrita, originalmente, em 2020, para o livro Fortaleza Ilustrada (Fundação Demócrito Rocha, em parceria com a SecultFor), publicado em 2021 e organizado pelo jornalista e escritor Raymundo Netto. Depois, teve o último parágrafo levemente alterado para integrar a coletânea Pandemônio (Lumiar Editora), organizada pela jornalista Ana Karla Dubiella. Sinto-me muito honrado por minha crônica estar presente em duas obras tão especiais.

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Riacho Papicu mapa 01a

Trajetória do Riacho Papicu, na zona leste de Fortaleza

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