Carmélia Aragão nasceu em Sobral-CE. Vive em Fortaleza-CE.
É mestre em Literatura Brasileira pela UFC e trabalha na Secretaria de Cultura do Estado do Ceará – SECULT (Projeto Agentes de Leitura).
PUBLICOU: Eu vou esquecer você em Paris (contos, 2006). Os contos deste livro demonstram a necessidade que temos da Literatura como válvula de escape para enfrentarmos o cotidiano absurdo de nossas vidas. As personagens centrais do livro geralmente são mulheres perdidas no labirinto urbano, vivendo histórias cujo limiar está entre a loucura e a razão, porém tudo se faz possível ao se depararem com a Literatura.
CONTATO: carmelia.aragao@hotmail.com
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Jeff Peixoto nasceu em Fortaleza-CE. Vive em Fortaleza-CE
É escritor, jornalista, redator e designer publicitário. É também professor de Português e Literatura. “O olhar inquieto que sempre insistiu em não querer enxergar as coisas como a simplicidade apresenta, a essência ansiosa, a necessidade de desmantelar o óbvio, a relação passional com as letras, com os livros… antes mesmo de qualquer formação acadêmica, a literatura já era uma grande motivação vital. Iniciei com um livrinho de poesias, depois resolvi passear por outros gêneros: romance, contos, crônicas e ensaio. Ganhei prêmio importante da Academia Brasileira de Letras, depois resolvi sossegar um pouco, em 2008 retornei ao mundo da Literatura e isso me trouxe de volta um brilho na alma há muito não sentido. Meus grandes livros ainda estão inacabados, talvez eu nunca os conclua, até mesmo porque as reticências sempre me foram mais charmosas que o ponto final…” (JP)
Jorge Pieiro nasceu em Limoeiro do Norte-CE. Vive em Fortaleza-CE.
É professor e coordenador de Políticas do Livro e da Leitura da Secult. Crítico e ensaísta, Jorge Pieiro tem trabalhos editados em várias revistas e jornais do Brasil e exterior. Pesquisador e palestrante, ministra vários cursos na área da literatura brasileira. Cronista no sítio http://www.germinaliteratura.com.br, onde assina a coluna “no rasto de panaplo”. Co-edita – juntamente com Pedro Salgueiro – a revista Caos Portátil – Um almanaque de contos, da qual se formou o selo “Edição do Caos”.
PUBLICOU: A grande casca do S (contos); Bolha de osso (contemas); Os sonhos de Josafá (conto infantil); Caos portátil (contos); Galeria de Murmúrios (ensaio); Neverness (poema); O tange/dor (poemas); Fragmentos de Panaplo (contos breves); Ofícios de desdita (ficção).
CONTATO: jorgepieiro@secrel.com.br
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José Leite Netto nasceu em Fortaleza-CE. Vive em Fortaleza-CE. É web-designer.
PUBLICOU: O relojoeiro; Vermelho sol de Canudos; O olho de Tebas; O livro da chuva. Em seu novo livro de poemas, O livro da chuva (contemplado no edital de incentivo à literatura 2007 da SecultFor), “o poeta canta a liberdade: a liberdade da alma, do amor, da criação poética. A linguagem fragmentada dos poemas, facilmente demonstrada pela quebra sintática e semântica dos versos, pode ser entendida como a chuva a que se refere o título do livro: é como se as palavras e frases soltas fossem como gotas d’água sobre o papel, umedecendo o coração dos leitores. Chove poesia sobre a Fortaleza de Iracema.” (Urik Paiva)
Luciano Maia nasceu em Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, CE. Vive em Fortaleza-CE
É advogado, professor do curso de Direito Unifor, Cônsul Honorário da Romênia em Fortaleza e membro da Academia Cearense de Letras. Traduziu vários dos principais poetas da Romênia, como Mihai Eminescu, Mihail Sadoveanu, Marin Sorescu e Emil Cioran, além de outros da Suíça e da Itália.
PUBLICOU: Jaguaribe – Memória das águas (poema épico); Neruda – Canto Memorial (poemas); Rostro Hermoso (poemas); Autobiografia Lírica (poemas); Sol de Espavento (poemas); Almanaque Neolatino – Estudo das Línguas Românicas; Pátria dos Cataventos (poemas); Mar e Vento (poemas) entre outros.
CONTATO: terramaia@unifor.br
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Nilto Maciel nasceu em Baturité-CE, 1945. Vive em Fortaleza-CE.
Criou, em 1976, com outros escritores, a revista O Saco. Ganhou vários concursos literários estaduais e nacionais com destaque para o Concurso Brasília de Literatura, o Prêmio Graciliano Ramos e o Prêmio Literário Cidade de Fortaleza. Tem contos e poemas publicados em esperanto, italiano, espanhol e francês.
PUBLICOU: Contos: Itinerário; Tempos de mula preta; A guerra da donzela; As insolentes patas do cão; Pescoço de girafa na poeira; Babel; A leste da morte. Poemas: Navegador; Romance: Estaca Zero; Os guerreiros de Monte-mor; O cabra que virou bode; Os varões de Palma; A Rosa Gótica; A última noite de Helena; Os luzeiros do mundo. Crítica: Contistas do Ceará – D’A Quinzena ao Caos Portátil.
SAIBA MAIS: niltomaciel.blog.uol.com.br
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Ricardo Kelmer nasceu em Fortaleza-CE, 1964. Vive em São Paulo-SP.
É escritor, roteirista e letrista musical. Faz palestras sobre cinema, mitologia e psicologia e também sobre mercado literário e publicação de livros. Coordena a Oficina On-Line de Roteiro de Sitcom.
PUBLICOU: Quem apagou a luz? (ensaio, 1995); O irresistível charme da insanidade (romance, 1996); Guia prático de sobrevivência para o final dos tempos (contos, 1997;, Baseado nisso – Liberando o bom humor da maconha (contos/glossário, 1998); A arte zen de tanger caranguejos (crônicas, 2003); Matrix e o despertar do herói (ensaio, 2005); Guia do escritor independente (dicas, 2007); Blues da vida crônica (crônicas, 2007) e Vocês terráqueas (contos/crônicas, 2008).
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Assim como o artista tem que ir aonde o povo está, os livros também precisam ganhar o mundo e encontrar seus leitores. Esta é a ideia que inspirou a criação do Letra de Bar, em Fortaleza, um projeto que tem como objetivo aproveitar o ambiente dos bares para homenagear os escritores e divulgar a produção literária local.
Para o autor, é uma ótima oportunidade de dar mais visibilidade a seu trabalho. Para o bar, o evento traz publicidade, associando seu nome à cultura e oferecendo uma atração especial a seu público. E o público, por sua vez, tem a oportunidade de conhecer melhor a produção literária de sua região e incentivar os autores locais.
O bar escolhido para a fase inicial do Letra de Bar é o Bar do Papai, (rua Torres Câmara esq c/ Monsenhor Bruno – Aldeota – 85-3264.3495) por ser um bar de sucesso na cidade, onde os artistas locais se sentem prestigiados e cujo proprietário, Carlinhos Papai, figura conhecida há muitos anos no cenário artístico da cidade, sempre esteve aberto para apoiar as novas ideias.
Toda quinta-feira, a partir das 20h, acontecerá no bar uma sessão de autógrafos de um autor, que terá sua obra exposta para que as pessoas possam conhecê-la, conversar com ele e adquirir os livros. No palco o apresentador conversará com o autor, que falará sobre seu trabalho, responderá perguntas do público e poderá ler trechos dos livros. O bar oferecerá ao autor um jantar de cortesia e ganhará dele um livro que servirá para compor a biblioteca da casa.
O criador do projeto é o escritor e roteirista Ricardo Kelmer, radicado em São Paulo. A produção do evento é de Cristina Cabral e Ricardo Black, que também é o apresentador.
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Após oito meses de turnê nordestina (putz, esta foi bem longuinha), tô voltando pra São Paulo em maio. A agenda foi bem movimentada: palestras e lançamento do Vocês Terráqueas em Fortaleza, Crato, Juazeiro do Norte (CE), Campina Grande e Sousa (PB), além de uma série de 28 palestras pra funcionários das unidades da Cagece (CE). Além disso, produzi edições das festas Cabaré Soçaite e Farra no Cabaré Alheio e estreei uma nova festa (Sabadabadu), que espero que o Acervo Imaginário prossiga realizando mensalmente.
E criei dois eventos literários, que deixarei em Fortaleza como uma espécie de contribuição à vida cultural da cidade. Um é o Bordel Poesia, um sarau que se realizará mensalmente no Acervo Imaginário e cujos temas são o erotismo e a paixão. Mas depois eu falo dele. Agora eu quero falar do outro evento, o Letra de Bar. Aliás, deixarei que o texto de divulgação do projeto fale por mim.
LETRA DE BAR
Assim como o artista tem que ir aonde o povo está, os livros também precisam ganhar o mundo e encontrar seus leitores. Esta é a ideia que inspirou a criação do Letra de Bar, um projeto que tem como objetivo aproveitar o ambiente dos bares para divulgar a produção literária local, promovendo os autores e suas obras.
Para o autor, é uma ótima oportunidade de dar mais visibilidade a seu trabalho. Para o bar, o evento traz publicidade, associando seu nome à cultura e oferecendo uma atração especial a seu público. E o público, por sua vez, tem a oportunidade de conhecer melhor a produção literária de sua região e incentivar os autores locais.
O bar escolhido para a fase inicial do Letra de Bar é o Bar do Papai, (rua Torres Câmara esq c/ Monsenhor Bruno – Aldeota – 85-3264.3495) por ser um bar de sucesso na cidade, onde os artistas locais se sentem prestigiados e cujo proprietário, Carlinhos Papai, figura conhecida há muitos anos no cenário artístico da cidade, sempre esteve aberto para apoiar as novas ideias.
Toda quinta-feira, a partir das 20h, acontecerá no bar uma sessão de autógrafos de um autor, que terá sua obra exposta para que as pessoas possam conhecê-la, conversar com ele e adquirir os livros. No palco o apresentador conversará com o autor, que falará sobre seu trabalho, responderá perguntas do público e poderá ler trechos dos livros. O bar oferecerá ao autor um jantar de cortesia e ganhará dele um livro que servirá para compor a biblioteca da casa.
O criador do projeto é o escritor e roteirista Ricardo Kelmer, radicado em São Paulo. A produção do evento é de Cristina Cabral e Ricardo Black, que também é o apresentador.
CONTATOS:
Ricardo Kelmer (São Paulo)
Ricardo Black e Cristina Cabral (Fortaleza).
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Poizé. O Letra de Bar é isso aí. O evento teve início em mar2009 e espero que tenha vida longa. Quem sabe ele não se espalha por outros bares, outros bairros, outras cidades? Quem sabe não ganha o apoio das secretarias de cultura?
A produção desse tipo de evento é barata e combina bem com bares que trabalham com música ao vivo pois o palco e o som são aproveitados. E todos lucram, o autor, o bar e seu público.
Em Fortaleza o Letra de Bar tem o apoio cultural da Expressão Gráfica e da Garin Cópias. Livrarias e outras empresas estão convidadas a participar.
Agora um novo desafio me aguarda: implantar esse projeto em São Paulo. Algum bar se habilita?
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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.com
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O Diário de Marise – A vida real de uma garota de programa
Vanessa de Oliveira – Matrix Editora
Marise é o nome de trabalho de Vanessa. Em casa, uma mãe dedicada. Na faculdade de enfermagem, uma aluna esforçada. Nos hotéis e motéis onde atende, uma garota de programa muito requisitada por conta dos anúncios de jornal, nos quais vende com criatividade sua beleza e seus atributos, sozinha ou em dupla. Neste diário, ela fala sem censura de seus programas, das taras de seus clientes, da cafetinagem, das orgias, das casas de swing, da vida nas ruas e nas boates. Vanessa também mostra a relação com a família e as amigas, as frustrações com os homens que amou, como entrou nessa vida. E fala de vários dos 5 mil programas que já calcula ter feito.
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PROGRAMAS ONTEM, AUTOPROMOÇÃO HOJE
Ricardo Kelmer 2009
Comprei este livro primeiramente porque eu sou safado mesmo e me atrai o universo da prostituição, apesar de eu nunca ter sido seu frequentador habitual, e também porque na época, 2007, eu estava escrevendo o Vocês Terráqueas e nele há dois contos sobre prostitutas, esse arquétipo tão fascinante quanto apedrejado.
Gostei do livro da Vanessa, mais do que o da Bruna Surfistinha. Não glorifico a profissão mas sempre senti um natural carinho e respeito por prostitutas. Por ter sido escrito por ela mesma, ao contrário do da Bruna, o livro de Vanessa soa mais espontâneo. É um relato bem elucidativo sobre as engrenagens do clandestino mundo da prostituição: boates, motéis, casas de suingue, taxistas amigos, gerentes de hotéis comissionados, abortos, técnicas de enganar o cliente etc. Segundo a autora, foram cinco mil programas feitos em Balneário Camboriú (SC) entre 2002 e 2006. Na alta temporada Vanessa chegava a fazer negócio com dez ou mais clientes por dia, o que significava no fim do mês uma renda de R$ 20 mil. Hummm… Tomara que Vanessa não esteja pensando que vai faturar isso com livros.
Pausa pro tarado véi seboso se manifestar. É, gostei do livro, mas achei uma pena a moça não curtir sexo anal. Que péssimo exemplo pra prostituição nacional! Nesse ponto, fico com a Bruna Surfistinha, assumidamente mais eclética. Ah, que falta faz um homem jeitoso e paciente na vida traseira de certas donzelas…
A gaúcha Vanessa, que hoje tem 32 anos, formou-se em enfermagem em 2005, durante sua labuta na prostituição. Uma declaração numa entrevista em 2008 à Folha de São Paulo revela seu senso profissional:
”Meus métodos são comparáveis aos de um empresário. Passei a desenvolver técnicas para ganhar mais na profissão e criei outras duas personagens para equilibrar meus negócios. A Marise era sofisticada e cara, por isso eu precisava ganhar na quantidade, então criei a Mari, que cobrava R$ 80 por programa. Depois inventei a Ana, que também cobrava R$ 80 mas atendia homens que gostavam de vibradores. Cada uma utilizava uma peruca diferente para que ninguém percebesse a ‘tripla personalidade’. Assim, atingi diversos públicos, do magnata ao presidiário recém liberto; do médico ao matador de aluguel.”
Com seu livro, lançado em 2006 (35 mil exemplares vendidos, um grande sucesso pros padrões brasileiros) e com versões em italiano e inglês, a bela ruiva baixinha ganhou notoriedade, apareceu em programas de TV, deu palestras e até lançou uma linha de lingerie com seu nome. Em 2007 ela lançou outro livro, 100 Segredos de uma Garota de Programa – Tudo o que você queria saber sobre homens, sexo e a profissão. Algo me diz que este não será sucesso como o primeiro. E em 2008 lançou seu terceiro livro, Seduzir Clientes – O que todo profissional pode aprender com uma garota de programa e um homem de marketing, escrito por ela e Reinaldo Bim Toigo. Este parece interessante, mas não será forçação de barra? E o próximo? Pelo jeito, As Histórias que Marise Não Contou.
Em seu blog, Vanessa dá lições de vida, escreve sobre anjos da guarda e até comenta sobre literatura brasileira. Sim, por que não? Onde tá escrito que uma ex-puta não deve falar de literatura? Pois ela fala. E baixa o cacete em Machado de Assis, coitado. E diz que a literatura brasileira começa mesmo é com Nelson Rodrigues.
Chamei Vanessa de ex-puta pra frase pegar mais efeito mas ela prefere ser tratada por “profissional do sexo” ou “garota de programa” pois pra ela o termo puta é ofensivo e indigno. Ah, Vanessa, eu gosto de puta, acho bonitinho… E minha namorada também, ela adora que eu a chame de putinha safada. Bem, é verdade que não em público.
Palestras, livros e lingerie – Vanessa me dá a impressão de agir sempre focada em capitalizar de todas as maneiras possíveis seu passado de prostituta de sucesso. Profissional do sexo no passado, profissional da autopromoção no presente. Marqueteira, pra usar termo da moda. E daí? A moça tá no direito dela, até porque sabe que não vai dar pra viver eternamente da pensão de ex-prostituta.
Porém… por mais que Vanessa escreva, comente, palestre e lance suas novas coleções, e espero que ela não leve a mal minha franqueza, confesso que minha mente de tarado véi seboso sempre escorrega pra sacanagem e aí eu fico imaginando uma praia deserta em Santa Catarina, lá no céu uma lua brilhando discreta e cá na areia a ruivinha linda e nua, de quatro, finalmente aprendendo a gostar daquilo que sua colega escritora Toni Bentley, que nem brasileira é, já descobriu como é bom… .
A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, Editora Objetiva/2005) – A ex-bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor, submissão e salvação através do sexo anal
A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbett, Editora Paulus/1990) – Este livro mostra como nossa vitalidade e alegria de viver dependem de restaurarmos a alma da prostituta sagrada, a fim de nos proporcionar uma nova compreensão da vida.
O mistério da morena turbinada – Aí um dia ela, inocentemente, leva o computador numa loja pra consertar. Algum tempo depois dezenas de fotos suas estão na rede, inclusive fotos íntimas
O mistério da cearense pornô da California – Uma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e entre uma orgia e outra luta pela liberação das mulheres? Uau!
As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz
Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?
O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…
Por trás do sexo anal (1) – Se esotérico significa a parte mais oculta de uma tradição ou ensinamento, aquilo que somente iniciados alcançam após muito estudo e dedicação, então o sexo anal é o lado esotérico do sexo
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MAIS SOBRE SEXUALIDADE FEMININA
O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?
Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou
A gota dágua – A tarde chuvosa e a força urgente do desejo. Ela deveria resistir mas…
A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…
Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.
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Além da opção de depósito bancário, agora ofereço aos meus nobres leitores e generosas leitoras a opção de compra por cartão de crédito on-line. Isso é possível graças à parceria que fiz com o sebo Alternativa (SP) e o site Estante Virtual. Os livros são novos (os mesmos que vendo aqui), o preço é o mesmo (com exceção das promoções que eu faço no blog) e o comprador recebe em seu endereço em até 8 dias.
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A única solução possível pra esse engodo dos diabos seria não existir religião
Quanto mais a gente se aprofunda na questão Israel-Palestina, mais entende que ambos os lados estão totalmente certos – e ambos estão deploravelmente errados.
Na verdade o único e verdadeiro problema que existe ali chama-se religião. É a religião que faz com que judeus e árabes não se entendam e se odeiem e desejem varrer o outro lado da face da Terra. É a religião que leva esses líderes tribais de árabes e judeus a sempre revidar as agressões e a matar crianças e sacrificar inocentes, mesmo sabendo que isso gerará revides ainda piores.
Como cada lado age em nome do seu deus, o ideal seria que ambos os deuses descessem à Terra e explicassem aos seus seguidores, com muita paciência, que tudo tudo tudo não passou de um grande malentendido e que na verdade eles, os deuses, jamais existiram, e que agora se encontram numa puta crise existencial pois eles não existem e, no entanto, são o motivo de tanta intolerância, violência e guerras.
A única solução possível pra esse engodo dos diabos seria não existir religião. Em outras palavras: não há mesmo solução. É ruim concluir isso, né? É. E tudo indica que vai piorar.
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Em todo o planeta milhões de crianças adquiriram o hábito de ler livros graças às aventuras de Harry Potter
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Gostei do documentário Harry Potter: Um ano na vida de JK Rowling, que assisti no GNT. Eu, particularmente, não li nenhum dos livros da série sobre o garoto-mago mas simpatizo com ele e acho que a inglesa Johanne Kathleen Rowling fez uma imensa benfeitoria ao mundo dos livros.
Os sete títulos da série lançada em 1997 foram traduzidos pra 67 idiomas e venderam 400 milhões (sim, quatrocentos milhões) de exemplares. Pra efeito de comparação, Paulo Coelho vendeu 100 milhões de seus 19 livros e a Bíblia, segundo o Guiness, vendeu 2,5 bilhões de exemplares desde 1815. Mas o cálculo que vale mais é este: em todo o planeta milhões de crianças adquiriram o hábito de ler livros graças às aventuras de Harry Potter. Quanto vale isso?
Eu pude acompanhar esse fenômeno bem de perto com meu sobrinho Filipe, que com 9 anos andava com o livro debaixo do braço e me falava animado dos personagens e suas tramas. Hoje Filipe é um garoto de 13 anos que ama livros. Na última Bienal, por sinal, ele comprou um bem curioso, que ensina a entender as meninas. Putz. Não tive coragem de lhe dizer que gastou dinheiro à toa.
O lançamento do último livro da série Harry Potter foi cercado de tantos cuidados que a coisa mais parecia uma operação de guerra, tudo pra que o final da história não vazasse ao público. Só isso já daria um livro incrível. Foram selecionadas quase 2 mil crianças pra participar da sessão inaugural de autógrafos, entre mais de 60 mil que se inscreveram, e a autora assinou durante 8 horas seguidas. Era visível nos olhinhos daquelas crianças o fascínio e a felicidade por estarem vivendo um momento tão especial, e elas certamente jamais esquecerão esse dia de pura magia e encantamento.
Assim como o mundo da música e do cinema, o mundo dos livros também precisa de coisas assim, de grandes sucessos e badalações, de holofotes e festas literárias, sim. A própria JK Rowling admite que essa é a parte chata, mas necessária, de seu ofício. Claro que, assim como em outros mundos, o dos livros não está imune às pragas das superficialidades e enganações – mas é preciso, sim, jogar luz sobre os livros e seus autores pra que, antes de tudo, o público saiba que eles existem, e pra que os livros possam concorrer em menor desvantagem com seus colegas eletrônicos de entretenimento. Literatura é arte, sim, talvez a mais nobre de todas, mas até a arte precisa saber vender seu peixe.
Obrigado, JK Rowling. .
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LEIA TAMBÉM
> Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos
> O encontrão marcado – Fechei o livro, fui até a janela e olhei pro mundo lá fora. E disse baixinho, com a leveza que só as grandes revelações permitem: tenho que ser escritor
> Pesadelos do além – O pior pesadelo prum escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado.
> O escritor grávido – Será um lindo bebê, digo, um lindo livrinho, sobre o mais belo de todos os temas
> O dilema do escritor seboso – Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras
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As Brumas de Avalon The Mists of Avalon – 1979 Marion Zimmer Bradley
Editora Imago
Romance em 4 volumes. A saga arthuriana numa visão feminina e intimista. .
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A Bretanha por volta do sec. VII, as guerras pela unificação do Reino, a realeza e seus costumes, as tramas envolvendo paixões, traições e os mais altos ideais de nobreza e lealdade e as decisões de bastidores que estabeleceram definitivamente o cristianismo na ilha, exterminando boa parte da cultura local e seus cultos à Natureza e à Deusa Mãe. Este romance mostra o lendário universo de Camelot a partir da ótica de Morgana, a meia-irmã de Arthur e sacerdotisa de Avalon, a ilha que atuava como centro do culto à Grande Deusa.
QUEDA POR BRUXAS Ricardo Kelmer 2008
Li os quatro volumes da saga na década de 1980, eu tinha vinte e poucos anos. Poucas vezes me senti tão envolvido por um livro. É daquele tipo de história que a gente sabe desde o início que os mocinhos perderão o jogo mas mesmo assim prossegue lendo e torcendo por eles. Reflexões, risos, choros, raiva, compaixão, tesão – senti de um tudo com esse romance!
Durante toda a leitura dos livros, que durou semanas, o clima místico de As Brumas de Avalon me envolveu feito uma névoa e cheguei a querer, seriamente, me comunicar com os personagens, acredita? Pois foi. Identifiquei-me tanto com Morgana, com sua luta em preservar Avalon, seu sofrimento e sua solidão, seu amor não correspondido, que me peguei desejando voltar no tempo pra me casar com ela – pra que a sacerdotisa de Avalon não terminasse seus dias triste e sozinha. Mas não pense que eu virei santo não: se eu voltasse, eu comeria e muito a Morgana, mesmo com sua fama de feiosa. Ora se não comeria! Só de imaginá-la naqueles rituais correndo nua pela floresta, com o corpo todo lambuzado de sangue de gamo…
Sim, você tá certa, querida leitora, eu era doido mesmo. Melhorei um pouco. Mas continuo tendo uma queda fudida por bruxas, por mulheres que encarnam o arquétipo do feminino selvagem: mulheres ligadas à Natureza, de alma livre, harmonizadas com seus próprios ciclos e com a sabedoria natural do planeta, mulheres que não só vivem mas celebram a vida e estão conectadas ao Sagrado. Sim, é uma visão meio mística da mulher, uma visão meio pagã, sensual – mas também é uma visão sagrada. Conheço poucos homens que compartilham essa minha visão, ver a mulher como a representação viva da própria Deusa. Mas conheço várias mulheres que encarnam maravilhosamente o feminino selvagem. Putz, como não amar, admirar e reverenciar uma Filha da Deusa?
Em 2001 foi lançada uma versão do romance para a tevê. A história teve de ser alterada, afinal seria impossível contá-la da mesma forma em linguagem de tevê e em tão pouco tempo, mas a essência da história e sua mensagem foi mantida. Eu assisti e gostei. Pode ser encontrado em locadoras.
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MINISSÉRIE PARA TEVÊ
As brumas de Avalon Uma sacerdotisa prepara o nascimento de Arthur, que viria a se tornar rei para comandar a Bretanha e salvar Avalon.
Título original: The Mists of Avalon
Gênero: Aventura
Duração: 180 minutos
Ano de lançamento (EUA): 2001
Estúdio: Warner Bros. / TNT / Stillking Films / Constantin Film Production GmbH / Wolper Organization
Distribuição: TNT
Direção: Uli Edel
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SOBRE OS FESTIVAIS DE BELTANE Ricardo Kelmer 2008
Originalmente Beltane era um importante ritual pagão de fertilidade, realizado anualmente em várias regiões da Grã Bretanha durante a alta Idade Média. Nele festejavam-se os ciclos da Terra e se saudava o retorno da primavera, num clima de reverência à Deusa, ou ao que hoje chamamos de arquétipo da Grande Mãe. Os participantes ofereciam seu corpo pra que o mistério se realizasse através do casamento sagrado do masculino e do feminino. As crianças nascidas desse ritual eram consagradas à Deusa e destinadas a serem sacerdotes, druidas, sacerdotisas, todos defensores da Grande Mãe.
O contexto do ritual é a comunhão com o sagrado e não o sexo propriamente dito. O sexo faz parte mas está inserido num clima de entrega sagrada, de reverência à Deusa, fazer do próprio corpo o altar onde se celebram os mistérios dos ciclos, a dança das estações, a fecundidade da Mãe Terra.
A Deusa une as pessoas ao redor das fogueiras e é uma imensa honra entregar-se a um filho da Deusa ou a uma filha da Deusa. Não é a outra pessoa que importa – importante é o ato de entregar-se à Grande Mãe e através desse dispor-se, ser instrumento da sagrada celebração da fertilidade da terra e do milagre da vida. Em Beltane ninguém tem um rosto, ninguém tem um nome. Cada um é a encarnação do sagrado masculino e do sagrado feminino.
O cristianismo bem que tentou exterminar por completo as tradições da antiga religião da Deusa, imprimindo a elas um caráter pecaminoso e demoníaco, além de perseguir e matar seus seguidores durante a vigência da Santa Inquisição. Mas as tradições pagãs sobreviveram e ainda hoje os festivais de Beltane são celebrados na Europa.
virou putaria
Outro dia encontrei numa comunidade do Orkut um tópico intitulado “Quem vc levaria para as fogueiras de Beltane?” (http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=1488969&tid=9037760&kw=levaria+beltane) Nas respostas tinha Axl Rose, Brad Pitt, Shakira, a minha vizinha gostosa e por aí vai… Putz, pode uma coisa dessa? Teve uma lá que disse que levaria o marido “mas botaria um bip no bolso dele”. Que bolso, minha filha, que bolso??!!
Ai, ai… Pelo jeito, as pessoas ouviram o galo cantar mas não sabem nem que bicho era. O que fiz? Deixei um recado meio indignado pra pirralhada lá, no estilo Jesus-expulsando-os-vendilhões-do-templo. Não sei se adiantou muito não…
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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.com
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Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:
As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar
A mulher selvagem– Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
Medo de mulher– A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará
Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há
Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido. .
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Gostei do cara: artista genial, visionário lisérgico, maluco da paz
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Meu primeiro contato com Alberto Marsicano foi pelo livro Jim Morrison por Ele Mesmo, que li no começo dos anos 90. Marsicano foi o organizador da obra, que integra uma coleção da Martin Claret sobre ídolos do rock.
Alguns anos depois dou de cara com o cara em Campina Grande, no Encontro da Nova Consciência, um festival multicultural mucholoco que rola lá durante o Carnaval desde 1992. Marsicano foi um dos convidados e tocou sua cítara, encantando a plateia do evento. Gostei do cara: artista genial, visionário lisérgico, maluco da paz. A partir daí passamos a nos encontrar lá, renovando anualmente a celebração da amizade, da vida e da poesia, eu, ele e outro poeta-músico maluco, o jornalista André de Sena. Longos papos sobre Rimbaud, Doors, Blake, Baudelaire, rock, drogas, deusas e diabas… E Marsicano sempre surpreendendo, tocando cítara até com os roqueiros do evento, com os forrozeiros, os emboladores…
Marsicano formou-se em Filosofia pela USP e é um grande conhecedor e tradutor de poesia inglesa. Morou em Londres, onde estudou cítara com o maestro indiano Ravi Shankar. Na Índia, graduou-se em Música Clássica pela Benares Hindu University da Índia e hoje é considerado o maior citarista do Brasil. Seu disco Sitar Hendrix, que foi indicado ao Grammy 2009, é uma releitura de Jimi Hendrix sobre a cítara, misturando rock, blues e baião – sensacional! Pra quem não sabe, Hendrix era aluno de cítara (confira a faixa Cherokee Mist de seu disco Axis Bold as Love) e tinha um projeto de gravar um disco tocando o instrumento. Marsicano realizou o sonho do guitarrista. Valeu, cumpade!
Quando escuto esse disco, a imagem de Marsicano aparece no holograma esfumaçado da minha memória: ele no palco, sentado no chão, abraçado à sua cítara, os longos cabelos loiros, o corpo sacudindo com a música, a expressão de êxtase… Adoraria saber o que ele sente nesses momentos em que viaja por sua música louca, por onde vai sua alma andarilha na carona das melodias estranhas e belas que borbulham de seu instrumento. Mas isso só ele sabe. A mim, me compete apenas escutar. E fazer minha própria viagem, claro.
São Paulo, 19.08.13 – O domingo de São Paulo nublou para se despedir de Alberto Marsicano. E eu aqui continuo nublado, chorando a partida do meu amigo amado. Obrigado, Marsica, por termos caminhado juntos, pela sua música, pelas cachaças, pelos momentos incríveis. Vou sentir tantas saudades suas, cara…
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DESPEDIDA MARSICÂNICA
Pra mim, não é fácil usar este espaço pra falar da morte de Alberto Marsicano, meu amigo querido que partiu no domingo 18.08.13. Mas vai me servir pra dividir e aliviar a dor.
Marsicano era a arte em divino estado de possessão demoníaca. A música e a literatura brilhavam nele a todo momento como explosões psicodélicas de insanas estrelas multicoloridas. Como aguentar um cara possuído vinte e quatro horas por dia pelos demônios criativos da arte? Nem todo mundo aguentava. Mas eu o amava assim mesmo como ele era, tresloucado, verborrágico, viajandão, inconformado, aquele infalível figurino em cor branca, e o humor, ah, o humor marsicânico, aquelas tiradas impagáveis que ele de repente sacava do bolso de sua mente sempre em ebulição e fazia a alegria de quem estivesse em volta.
Nunca mais isso. Nunca mais Marsicano de repente surgindo na Augusta que nem uma entidade cósmica a reclamar do preço da cerveja. Nunca mais vê-lo em êxtase a voar no tapete mágico de sua cítara. Nunca mais suas piadas sobre eu ser afilhado de Padre Cícero e protegido de Virgulino Lampião. Nunca mais aquele caminhar balançante, a gargalhada contagiosa, o olhar infantil de quem sempre fora velho.
Tchau, amigo. Escrevo essas coisas ainda chorando mas logo voltarei a rir. Como eu e você sempre rimos, como sempre ri muito de você. O riso que se fez música, é isso que você é. O som-riso marsicânico.
Ricardo Kelmer, 20.08.13
(Foto: com Marsicano e Mathew, num boteco de Campina Grande-PB, durante o Encontro da Nova Consciência de 2012)
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O VOO ETERNO DO PÁSSARO PSICODÉLICO
Ricardo Kelmer 2014 .
Feito um satélite desorbitado
Nos céus da nova consciência
Lá se vai o pássaro psicodélico
Com seu bêbado voar poético
E sua alva cabeleira
Mas na cantiga certeira da cítara alucinante
A vida é um sonho andante que não segue planos…
Ouçam! Estão ouvindo? Vocês viram?
O pássaro psicodélico passou por perto
Ouçam! Nas asas do transe o som se chama Alberto
E sobre as mentes da plateia consciente
Seu voo sagrado flutua eternamente
E a música estremece de prazer insano
O gozo do voo se chama Alberto Marsicano
(Poema criado no camarim, antes do número em homenagem a Alberto Marsican0, com a banda Cabruêra e os músicos Waldemar Falcão, Baixinho do Pandeiro e Vitor Harres, em Campina Grande, fev2014, no 23o Encontro da Nova Consciência. Vídeo abaixo, feito por Antonio Carlos Harres, o Bola.)
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Cítara, tabla e pandeiro Encontro da Nova Consciência, 2013
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Alberto Marsicano no programa Provocações (2012)
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COMENTÁRIOS
01- Dor profunda, Ricardo Kelmer, ficamos todos órfãos. Já falei com André, e ele está desolado, como todos. Eu fiquei literalmente tonto quando soube, sem chão, atônito. Me encontrarei com André na sexta, faremos isso, sim, e sintonizaremos com vc, meu querido, assim como manteremos em mente esse querido e único Profeta que tivemos a honra de conhecer – e digo, sem medo de errar: conhecemos o Marsicano “de camarote”, de perto, com um acesso privilegiadíssimo, como poucos. Forte abraço, meu brother Kelmer. Rógeres Bessoni, Recife-PE – nov2013
02- Lindo texto, Ricardo! À altura do homenageado. Bração saudoso. Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – nov2013
03- Puxa, Ricardo, eu aqui, sem saber o que dizer e você deitando memória e carinho com o seu melhor lado, louvando o que vai e confortando quem fica. Valeu mesmo, querido amigo. Pedro Camargo, Rio de Janeiro-RJ – nov2013
04- Há pessoas que passam na vida e deixam um rasto de pura luz. Alberto Marsicano era um desses. Tento encarar a morte como uma passagem natural, e há muito não choro quando alguém querido vai pro lado de lá. Mas hoje, aqui em Paris, não deu pra segurar. Um beijo querido Marsicano. Levou a cítara com você? Luis Pellegrini, São Paulo-SP – nov2013
05- Hoje fez um lindo amanhecer que me surpreendeu diante do frio. Um lindo ceu azul com nuvens redondinhas e cheinhas brincando no ceu e uma cor rosa salmon liiinndaaaa de se ver..Tinha tanta alegria no ceu que imaginei Marcinano Chegando e sendo recepcionado-tocando a sua citara, claro….Faz parte do Show,…Serve apenas pare lembrar que fisica ou virtualmente devemos ser verdadeiros, apaixonantes e intensos no aqui agora e amorosos e gentis nos relacionamentos. Porque depois não existe! Paz e Luz! Anosha Prema, São Paulo-SP – nov2013
06- fiquei de cara, muito triste perder uma pessoa tao proxima. Felipe Maia,São Paulo-SP – nov2013
Projetor 3D, supositório para disfarçar peido, máquina de sexo virtual com personalidades… Todas aquelas ideias geniais que se têm quando se está doidão são vendidas nessa loja
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(TEXTO TRANSCRITO DA GRAVAÇÃO do programa Canabistrô, exibido no dia 26/08/2005, pelo site Terramestra)
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– Bom dia, queridos amigos telespectadores do Canabistrô, seu melhor programa de viagem! Eu sou Bia Voyage e hoje vamos apresentar pra vocês aquela matéria que havíamos prometido na semana passada, a loja de ideias Ki Lombra, na praia de Canoa Quebrada. Uma das sócias da loja, a Lulu, recebeu nossa reportagem com muita simpatia, e a matéria taí no ponto pra vocês verem, tá sensacional, vocês não vão acreditar nas ideias dos malucos. Mas antes vamos às mensagens dos nossos patrocinadores lindos.
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Entra comercial da revista Lucidez Total. Matérias e reportagens do mês. Gatinha Canabis. Maconha e autoconhecimento. As mil e uma utilidades da planta para a indústria. Entrevista com o Deputado Federal Fernando Gabeira.
Entra comercial do colírio HOMO TOTAL, para usuários gays. Um rapaz aborda outro no balcão do bar e diz que seus olhos são muito bonitos para ficarem vermelhos e irritados daquele jeito. Ele puxa do bolso um colírio, oferece, o outro pinga uma gotinha em cada olho e, quando devolve, seus olhos já estão brancos. Áudio: HOMO TOTAL, colírio pra quem entende…
Entra comercial da maconha MARLEY. Uma garota assiste a um filme no cinema, viajando bastante. Uma outra, atrás dela, cochila. A garota vibra com as cenas e a de trás só cochila. No fim do filme, as duas saem, uma satisfeita e a outra sonolenta. Áudio: Maconha MARLEY, a diferença tá na cara.
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– Oi, gente, estamos de volta com o Canabistrô, eu sou Bia Voyage e você é uma pessoa que tá aí na sua e deseja se antenar com as novidades do mundo hemp, não é, trocar ideias com a gente, conhecer pessoas e se informar a respeito da canabis. Não é isso? Isso. Porque usuário consciente faz a diferença. Agora vamos ver, vamos ver, quem acertou a pergunta da semana passada. Qual é a dose mortal de canabis? Vamos ver, abre o envelope aqui, isso… Resposta: cinco quilos jogados do 20o andar de um prédio. Acertou! O felizardo da semana mora em… Cabrobó, olha só, em Pernambuco. Um beijão pra moçada de Cabrobó que tá de olho no nosso programa. Mas não é um felizardo, é uma felizarda. Beleza. Você sabe que aqui no programa a gente não lê o nome completo, só as iniciais. Então lá vai: A, M, O, S. Fica ligada, A-M-O-S, que a produção vai entrar em contato. Você, sua sortuda, vai receber em casa nosso kit Canabistrô completo, com camiseta, óculos, CD do programa, uma caixa de sedas Sedosa, maquininha, debulhador, marica e um exemplar da revista Lucidez Total. Parabéns. Solta o primeiro clipe aí enquanto eu vou despachar essa encomenda no correio. Volto já, moçada.
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Entra o clipe da música Libera a Pamonha, da banda Intocáveis Putz Band.
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– Bacana esse clipe, heim? Recebemos esta semana, é novinho. Se você gostou, ligue agora mesmo ou acesse nosso site, esse que taí no vídeo, e concorra a um CD da Intocáveis Putz Band, essa banda virtual mucho loca, que por sinal tem um baixista gatíssimo, vocês viram? Eu vi, não vou mentir. Mas vamos deixar de galinhagem que meu diretor já tá me olhando feio aqui. Libera a matéria com a Lulu. Libera o produto!
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Entra matéria sobre a loja Ki Lombra.
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– Olha só, gente… Eu sou Bia Voyage, pro programa Canabistrô, e você vai conhecer agora uma loja louquíssima que existe aqui em Canoa Quebrada, essa praia maravilhosa do Ceará. É a loja Ki Lombra. Sabe o que ela vende? Ideias! Ideias de todo tipo, mas de preferência, ideias malucas. As proprietárias são duas senhoras, a Lulu e a Ely. Um dia, elas vieram passar um fim de semana aqui em Canoa Quebrada, se apaixonaram pelo local e decidiram ficar. Aí tiveram a ideia de montar uma lojinha pra vender as ideias que o povo tem quando tá doidão. Começaram devagarinho, uma ideia aqui, outra ali, aí começou a aparecer gente interessada, artista, escritor, músico, gente de todo tipo interessada em ideias novas, ideias malucas, coisa diferente. A notícia se espalhou e hoje, além das próprias ideias, elas também vendem ideias dos outros. A maluqueira fuma, olha só, viaja nas ideias e depois vem aqui e vende pra elas. Não foi uma sacação genial? Tão genial que copiaram e aqui em Canoa já tem mais três lojas parecidas com esta. A Ki Lombra é a mais antiga e a mais famosa, certamente pela qualidade dos produtos. Mas também pela simpatia das donas, vocês vão ver. Olha só, A Lulu é essa aqui. Passa o dia de biquíni, o tempo todo de alto astral. Faz tempo que a senhora tem esse negócio, dona Lulu?
– Pode tirar o “dona”, viu, minha filha.
– Ah, me desculpe, eu esqueci. Faz tempo que vocês têm esse negócio, Lulu?
– Cinco anos.
– Dá pra faturar uma graninha com ideia maluca?
– Dá pra tirar a da cerveja, não tenho do que reclamar não.
– E sua sócia, a Ely?
– Ely tá viajando.
– Em que sentido?
– Eheheh. Tá cuidando da abertura de uma franquia da Ki Lombra em Piripiri.
– Em Piripiri? No Piauí?
– Lá mesmo. O povo lá é chegado numas ideias…
– E quantas franquias vocês têm?
– Deixa eu ver… Piripiri, Olinda, Jericoacoara, Jurerê, e mês passado inaugurou uma em Ipanema. Mas a gente tem um bocado de propostas, de vários países. Tamo estudando.
– Como que vocês fazem? O maluco ou a maluca vem aqui, conta a viagem…
– Isso aí, conta a viagem. A gente escuta. Se servir, a gente compra.
– Se for maluca demais, vocês dispensam?
– Aí é que eu compro mesmo, minha filha. As que vendem mais são essas, eheheh.
– E a clientela, é boa?
– De primeira vinha aqui só músico, escritor, pessoal que trabalha com cinema, televisão. Depois passou a vir outras pessoas. Até político já veio.
– Político?
– É. Porque tem maluco que tem umas ideias que serve pra política, umas ideias boas de se aproveitar.
– Tem alguma aí pra gente ver?
– Tinha muita. Mas hoje eu não vendo mais ideia pra político não. Quando eu vejo que é dessa raça, não vendo. Porque é tudo um bando de aproveitador, tudo nojento. Sabe aquela ideia do imposto único, pra substituir todos os impostos, um por cento sobre cada cheque? Foi uma moça que me vendeu, ideia boa. Aí veio um deputado aí, olhou, gostou e comprou. Pra quê? Pra transformar nesse imposto aí sobre movimentação financeira. Olha a ironia: o que era pra acabar com essa enormidade de imposto que tem aí, acabou virando mais um imposto. Por isso que pra político eu não vendo.
– Dá pra ver que a Lulu não gosta de político, né? Mas vamos ver o que tem mais… Isso aqui, o que é?
– Isso foi um menino que deixou semana passada. É um Flatex.
– Parece um apito.
– É um supositório pra quem sofre de flatulência crônica.
– Mas que coisa! Não acredito! Verdade, Lulu? Mostra aqui, Ferdinando, mostra aqui pertinho.
– E o preço tá bom, cinquenta pilas, eheheh.
– Quer dizer que com isso o pum fica retido. Mas que coisa, olha só, gente… Mas e se o pum chega aqui, vê que não tem saída… não periga ele pegar outro caminho e escapulir pela boca? É pior, não?
– Não, minha filha, fica retido não. O flato passa por essa frestazinha aí, ó, e libera uma fragrância bem suave. Tem Patchuli e Flores do Campo. Tinha um de Coisa Queimando, mas levaram ontem.
– Coisa Queimando? E alguém se interessou por uma fragrância dessa?
– É dos que mais vende. Porque disfarça bem, fica todo mundo preocupado, procurando o que é que tá queimando…
– Ahhh, é verdade. Olha só, mas que ideia maluca…
– Quer levar um Flores do Campo pra você? Cortesia.
– Tá me chamando de peidona, Lulu?
‒ É sempre bom estar prevenida, minha filha.
‒ A senhora tem razão. Muito obrigado. Mas esse Flatex serve também praqueles puns barulhentos?
– Arrá! Pra esses é que existe o Flatex Som. Tem Pássaros, Buzina, Freio, Celular…
– Flatex Som… Não acredito. A pessoa solta um pum, o ambiente fica perfumado, toca uma musiquinha e ninguém percebe. Que voyage… Que mais que tem por aqui, Lulu?
– Tem Noves-Fora de Placa de Carro.
– Ah, esse é manjado. Já vi nos seus concorrentes, não é só você quem tem.
– Mas esse é diferente, minha filha, esse é diferente… Olha aqui, parece um Noves-Fora de Placa comum, igual a esses que tem por aí, né? Mas esse tem um detalhe que os outros não têm: é Noves-Fora + Palavra.
– Palavra?
– Sim, você olha a placa do carro e, além de tirar o noves-fora, ainda tem que dizer a primeira palavra ou frase que vier à mente com as iniciais da placa. É mais difícil, só pra iniciados. Foi a Ely quem inventou, nesse dia ela tava inspirada. Olha esta aqui. ABE 9473. Qual é o noves-fora de 9473?
– Deixa eu calcular… Cinco.
– Isso. E o que lhe vem à mente com ABE?
– Com ABE? Humm, deixa eu ver…
– Não, não pode pensar. Tem que dizer a primeira ideia que vier, mesmo que não seja nada diretamente relacionado a ABE.
– Abacate.
– Abacate cinco, entendeu?
– Ahhh…
– Ou então Abelha, A Bela e a Fera, A Bunda da Ely, Associação Brasileira de Estranhos… O que vier.
– Nossa, mas o maluco tem de ser fera pra tirar o noves-fora e ainda pensar numa palavra…
– Com o tempo, pega prática. Quem compra muito é ator, pra exercitar o improviso. Mas também é muito bom praqueles momentos em que você tá preso no trânsito.
– Ah, é. Só maluco mesmo… Epa, isso aqui eu não conheço.
– Chegou sexta-feira. É um pacote de inventos do futuro. Tem três inventos aí.
– Isso parece um projetor de slides.
– É um Holocine, um projetor holográfico com som. Exibe imagens em 360 graus. Filme, show, qualquer coisa. Em vez de você assistir ao último show da Kátia Freitas numa tevê ou num telão, você liga o Holocine e se sente no próprio local do show, como se a Kátia realmente estivesse cantando bem à sua frente, como se você estivesse num camarote de frente pro palco.
– Que interessante…
– E pode ser visto de qualquer lugar, a imagem se ajusta automaticamente ao ângulo de visão.
– Gente, o futuro já chegou! E essa cabine aqui?
– É o CelebriSex. Sexo virtual com pessoas famosas. Você escolhe se hoje quer transar com a Sabrina Sato ou com a Angelina Jolie. Então você entra na cabine, senta, conecta os sensores na pele, põe o visor 3D e escolhe a pessoa aqui no painel. Sua estrela preferida vai surgir na tela.
– Que maravilha! Mas sente mesmo, quer dizer, a sensação é a mesma do sexo no mundo real?
– Igualzinha. Quer experimentar?
– Eu? Agora? Bem… Agora tô trabalhando, né, Lulu? Vamos deixar pra depois da gravação…
– Combinado. Ah, e você também escolhe o cenário. E tem a opção de bebidas, um baseado, o que você quiser pra incrementar o lance. Por exemplo: eu quero transar com o Kelmer no alto do Pão de Açúcar, tomando um vinho francês, escutando Sade.
– Quem é Kelmer?
– Ricardo Kelmer, é um escritor muito doido. Foi ele quem criou o CelebriSex. Olha ele aqui.
– É esse? Hummm… Mais ou menos. Quais os outros homens disponíveis aí?
– Tem vários. O Fábio Jr. sempre sai bem. Tem os globais, aquele povo de Hollywood, jogador de futebol. Tem até o pessoal aqui de Canoa. Tem também aquele baixista da Intocáveis Putz Band, o Emílio. Agora que ele casou, aumentou a procura.
– Gente! Minhas amigas vão ficar loucas! Tá vendo, né, Isabella? Tá vendo, né, Cris?
– Na nova versão do CelebriSex você pode escolher mais de uma pessoa, dá pra fazer ménage à trois. A nova cabine é bem espaçosa, ou seja, vai dar pra fazer swing, olha que maravilha!
– Tô passada…
– Ah, isso aqui também é muito legal. É um teletransportador instantâneo de moléculas, última geração, que transporta organismos vivos. O nome é TeleZapt. Você senta aqui, se conecta e puff!, é transportado pra qualquer lugar do mundo em um segundo. Com o TeleZapt você pode estudar em Londres de manhã, passear na Lagoa à tarde, e à noite dar um pulinho em Belém pra ver aquele seu namorado gostoso.
– Genial. Não precisa de passaporte?
– Que passaporte que nada! O TeleZapt chegou pra acabar com essa história de país, de soberania nacional. Todo mundo é livre pra ir aonde quiser. Minha pátria é o planeta, minha filha!
– É isso aí, Lulu! E isso aqui, é uma festa?
– É um festão. Aqui vem muito produtor comprar ideia pra festa. Essa aí, por exemplo, é um cassino-cabaré e os convidados se vestem a caráter: putas, madames, magnatas, políticos, marinheiros, garçonetes… A festa acontece numa mansão e os convidados chegam em limusines com chofer, são recebidos sob luzes de holofotes e conduzidos até o salão. Olha as máquinas de jogo, a roleta, os crupiês, a decoração da casa, tudo como se fosse um grande cassino. O nome da festa é Cabaré Soçaite. Tá vendo aquele piano ali no palco? É pro clímax da festa, um show com o Eduardo Dusek e a Karine Alexandrino. Festa boa.
– Festaça! Essa eu não perderia. Ninguém se interessou por ela?
– Todo mundo se interessa, mas a produção da festa é cara. Mas tem festa mais barata, esta aqui, por exemplo. Também é uma festa à fantasia, só que as pessoas se vestem com traje típico de algum país. Chama-se Planeta Show. Tem uma banda tocando músicas de vários países e barraquinhas com comidas típicas.
– Interessante. Acho que eu iria de dançarina espanhola. E isso aqui? “Transbordo”?
– É sugestão pra nome de transportadora, eheheh. Bom nome, não?
– Olha aí, quem estiver montando uma transportadora, passa aqui na Ki Lombra e pega um nome bom pro seu negócio. Transbordo, sua carga com segurança.
– Tem outras sugestões. Nome pra bar: Sarjeta, Mulheres Bahr, Bar Canal, Di Sempre, Barbossa, Cogumelo, Barembar, Baratoa, Glub-Glub, Tremilik… Nome pra banda: Orrori Zadus, Calígulas de Notre Dame, Os Desce-Mais, Rap Hour, Funk Tutti, Falsos Fósseis, Mulgasmos Órtiplos. Nome pra torcida organizada do Santos: Santo Suor & Cerveja. Do Fluminense: Fluminante. Nome pra motel: Dê Lírios, Amantes & Depois. Nome pra doceria: Papel de Bombom. Nome pra show de strip-tease masculino: Homens de Perto.
– E isso aqui? Cu Frito?
– É nome pra petisco de boteco. Anéis de lula na chapa.
– Ahahah! Adorei.
– Tem nome pra tudo, é só escolher.
– Isso aqui o que é? Campanha publicitária de lingerie?
– Exatamente. Uma moça deixou aí essa semana. Mas já tá vendida, um publicitário vem pegar amanhã. O mote é “Porque de repente tudo pode acontecer.”
– E pode mesmo. Aqui, Lulu, e este labirinto aqui?
– Ah, isso aí é um processador de ideias. Funciona assim, deixa eu mostrar. Você pega as ideias que você tem e joga dentro do labirinto por esse buraquinho aqui. Depois balança assim. O que é que vai acontecer? As ideias vão tentar encontrar a saída, claro. Nessa tentativa, muitas vão se encontrar pelos corredores, tá vendo? Olha só o que acontece quando elas se encontram… Uma se junta com a outra e forma uma nova ideia, tá vendo?
– Gente, que voyage… Será que é isso que acontece com as ideias na cabeça da gente?
– Chega um momento em que uma delas encontra a saída. Quando ela encontrar, você apanha rápido senão ela escapole. É sempre bom pra resolver aqueles problemas que parece que não têm solução, sabe?
– Tô passada… Mas olha, é tanta coisa aqui que um programa só não vê nem um por cento. Bem, pra terminar, Lulu, tem alguma ideia que você gostaria de mostrar pra gente?
– Tem essa aqui que chegou hoje de manhã. É o site do Grande Braulito. O Grande Braulito é o espírito da canabis, ele tá em todas as maconhas que são fumadas pelo mundo. Você fuma um e acessa o site do Grande Braulito. Você vai entrar numa viagem especial, com sensores conectados ao seu corpo, e aí você pode viajar pelos grandes momentos da História.
– Ah, é? Quais momentos, por exemplo?
– Você pode sentir o que Einstein sentiu quando criou a teoria da relatividade, o instante em que Vinícius e Tom viram a Helô Pinheiro passar e criaram Garota de Ipanema… Tem também umas lombras tortas, como o momento em que o piloto largou a bomba atômica em Hiroshima e em Nagasaki. Essa viagem eu não aconselho, pois todos os que experimentaram, ficaram pirados de verdade.
– Essa eu não quero.
– Tem a primeira transa da rainha Cleópatra, o milésimo gol do Pelé, o momento em que os índios viram as caravelas de Cabral chegando…
– Olha que coisa… Infelizmente nosso tempo tá no fim. É isso aí, gente. Você conheceu a Ki Lombra, loja de ideias da Lulu e da Ely, e pôde conferir o que tem de ideia maluca nesse mundo hemp, não é? A gente volta pro estúdio e na próxima semana tem mais. Valeu. Manda um tchauzinho aí, Lulu…
. Entra bloco de anunciantes.
. – E aí, Lulu, aquela proposta tá de pé?
– Claro. Quer experimentar agora? Pega essa ficha.
– Oba. Segura aqui o microfone, Ferdinando. Não vai gravar isso, heim?
– Entra aí na cabine. Isso. Senta aí. Agora escolhe no painel quem você quer.
– Hummm… Quero o Tom Cruise, cadê ele? Ah, taqui. Hummm, vou comer o Tom Cruise… Quero essa aqui também.
– A Luana Piovani?
– Acho ela ótima.
– Hummm… Um baião-de-três, né?
– Pode ser?
– Claro. Você é quem manda. Agora bota esses sensores. Isso. Onde que vai ser?
– Hummm… Essa opção aqui, no quarto do Tom.
– Escutando o quê?
– Ai, tô um pouco nervosa… Deixa ver… Bota Chico.
– Chico Buarque, pronto. Tomando o quê?
– Tem uísque?
– Tem. Vai unzinho também?
– Lógico!
– Unzinho, pronto. Põe o visor. Assim. Isso. Tá vendo direitinho?
– Uau, é perfeito! Superreal!!!
– A Luana já apareceu?
– Ainda não. Ops… ela tá chegando.
– Oi, Bia. Tudo bem?
– Ahnn… Oi, Luana…
– Você queria me conhecer?
– Queria… quer dizer… quero.
– Tô aqui.
– …
– É a tua primeira vez, Bia?
– É.
– Relaxa, vai ser ótimo. Vamos fumar um?
– Nada mal…
– Tira o sapato. Pega essa almofada aí, fica à vontade…
– Nossa, quanto livro! Não sabia que o Tom gostava tanto de ler. Cadê ele?
– Toma, pode fumar na boa. Esse é ótimo pra transar.
– Obrigado. Ahnn… Luana, desculpa perguntar… Você já transou com o Tom Cruise?
– Não. Posso soltar teu cabelo?
– Pode. Hummm… Esse fumo é mesmo bom…
– Tá mais relaxada?
– Tô ótima.
– Que bom. Deixa eu servir teu uísque.
– Você é tão doce… Eu tinha a impressão que você… era meio antipática.
– Às vezes esse negócio de ser famosa enche o saco. Aqui é bom porque todo mundo é verdadeiro, é o que é, não tem falsidade.
– Você é muito solicitada no CelebriSex?
– Sou. Mas se eu não quiser, posso negar. Conheço o programador.
– Conhece? Olha só, que privilégio…
– Quantas pedras?
– Heim?
– Quantas pedras. No uísque.
– Ahahahah! Entendi outra coisa. Duas tá bom. Aliás, quanto tempo a gente tem?
– Se tua ficha for simples, vinte minutos.
– Só? Não dá pra nada!
– Você se incomoda se eu tirar a roupa?
– Você?… Não, claro que não…
– Quer que eu tire a tua também?
– Ahnn… Agora não, deixa ele chegar primeiro.
– Ele tá chegando…
– Oi, Bia.
– Quem é você? E o que é que você tá fazendo na minha viagem?
– Eu sou o Kelmer.
– O escritor? O que criou o CelebriSex?
– Eu mesmo. Vamos escutar Chico Buarque? Boa pedida. Deixa eu ligar o som.
– Peraí, cadê o Tom Cruise?
– O Tom tá ocupadão. Pediu pra eu substituir.
– Como assim?
– Ele é muito requisitado no CelebriSex, não pode atender a todos os pedidos.
– Eu pedi uma transa com ele e não com você.
– Eu sei. Mas ele não pode vir. Qual disco do Chico você prefere?
– Esse aí tá bom.
– Ei, cadê meu beijo, Rica? Tava com saudade. Hummm… Ah, agora sim.
– Vocês… Você já conhecia ele, Luana?
– A gente sempre se encontra aqui no CelebriSex. Né, Rica?
– É. O uísque tá bom, Bia? Se você quiser outra bebida, é só pedir.
– Não sei…
– Quer comer alguma coisa? Tem um sushi muito bom.
– Chega aqui, Bia, deixa eu te dizer uma coisa. Sabia que no outro aposento tem uma piscina incrível, com água quente, holocine com show dos Doors…
– Quanto tempo já passou, Luana?
– Não te preocupa. O Rica liberou nosso tempo.
– E se eu quiser ir embora agora?
– É só sair por aquela porta.
– Você quer ir embora, Bia?
– Ahnn… Deixa eu dar mais um tapinha que eu decido…
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Quando o jovem escritor fuma, minhocas saem de sua cabeça. É mais um caso do além para Javier Viegas resolver
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USADOS E ABUSADOS. Ivan conferiu a placa na fachada da loja de usados e entrou. A moça no balcão o cumprimentou.
– Boa tarde. Posso ajudar?
– É aqui a loja do Javier?
– Sim, Javier Viegas. No momento ele está atendendo, mas deve desocupar em quinze minutos. Aguarde um pouco, por favor.
Ivan sentou-se no sofá e pegou uma revista para folhear. Logo depois estava entretido numa matéria sobre extraterrestres que raptam pessoas para implantar chips em seus cérebros e depois as devolvem à Terra e elas só conseguem recordar o que se passou em sessões de hipnose. Foi quando o homem apareceu, saindo da salinha ao lado, acompanhado de uma senhora de quem se despediu.
– Até logo, dona Iracema. Não esqueça de acender a vela hoje, heim? Vela amarela, virgem, de sete dias.
O homem virou-se para Ivan:
– Boa tarde, o moço está me aguardando?
Ivan reparou na figura: moreno, barrigudinho, meio calvo, cabelo preto, provavelmente com tintura, numa trança única que descia até o meio das costas. Devia ter seus cinquenta anos. Um sotaque espanhol e uns trejeitos afeminados.
– Vi seu anúncio no jornal.
– Ah, entre, entre, por favor. Aceita um licorzito de manga? Ana Isaura, traz dois pra gente, traz.
Era uma sala decorada com coisas antigas, quadros, candelabros, móveis rústicos. Javier lhe ofereceu uma cadeira em frente à mesa e sentou-se na sua, do outro lado, brincando com a longa trança sobre o peito.
– Prazer. Javier Viegas. Tarô e outros babados.
– Prazer, Ivan.
– Ivan, el terrible, ui… Mas diga, meu filho, a que devo o prazer de receber olhos tão bonitos? – E cantarolou: – Lindo, e eu me sinto enfeitiçada, iééé…
– É o seguinte, seo Javier…
– Seo, não. Assim eu não atendo. Pode levantar e ir embora ‒ falou Javier, fingindo estar magoado.
– Desculpe. Javier. Bem, Javier, é uma coisa assim meio… esquisita.
– Mi querido, já vi tanta coisa esquisita neste mundo que não me assusto com mais nada. Olha seu licorzito aí. É caseiro, viu?
Ivan recebeu o cálice que a atendente lhe oferecia. Levou-o à boca, mas foi interrompido por Javier.
– Menino, que heresia! Não vai brindar?
– Ah, claro, claro…
Javier ergueu o cálice e fechou os olhos, concentrado, em silêncio. Ivan esperou que ele concluísse seu ritual, talvez fosse algo esotérico, melhor acompanhar. Fechou os olhos, respirou fundo e escutou:
– Beber sem brindar, dez anos sem pimbar… Brindar sem ver, dez anos sem foder…
Ivan abriu os olhos, surpreso. Javier bebia seu licor, compenetrado, os olhos fechados. Que diabo de sujeito era aquele?
– Muito bom o licor, obrigado – disse Ivan, após provar da bebida.
– Minha mamacita quem faz. Dona Carmela. Todo mês me manda um vidrão assim. Esse é de manga, que é muy bueno, mas tem um de café que você não crê. Aliás, estou procurando um sócio, esses licores de mamãe podem deixar qualquer um milionário. Você não estaria interessado?
– Não obrigado, não gosto de comércio.
– Depois não diga que eu não avisei. Mas fale, conte seu problema.
– Bem, eu… O senhor, digo, você fuma? – Ivan fez o gesto de quem fuma um baseado.
– Marijuana? Não no primeiro encontro – respondeu Javier, rindo. Ivan riu sem jeito. – Não é minha viagem predileta, mas de vez em quando dou meus tapinhas pra ir ver o Almodovar.
– Bem, eu fumo. Quer dizer, fumava. Deixei exatamente porque começou a acontecer uma coisa estranha…
– Hummm, está melhorando. A-do-ro cositas estranhas.
Ivan olhou para a porta, desconfiado.
– Está fechada, menino, fique tranquilo. Fora duas entidades aqui atrás… – e apontou com a ponta da trança por sobre o ombro – aqui nesta sala só tem eu e você, você e eu. Juntinhos. Tim Maia era ótimo, não?
– Ah, sim. Era sim. – Ivan pigarreou. E prosseguiu. – Você vê espíritos, Javier?
– Desde que eu era niño de teta. Mas diga, que coisa estranha é essa que lhe acontece?
– Ultimamente, quando eu fumo um baseado, começam a sair minhocas da minha cabeça.
– Minhocas?
– Isso.
– Saem minhocas de dentro da sua cabeça?
– Exatamente. Minhocas. Saem pelas orelhas.
Ivan aguardou enquanto Javier o observava.
– Faz tempo que você fuma marijuana?
– Desde os dezoito. Tô com trinta e quatro.
– Fuma todo dia?
– Geralmente, quando vou escrever. Duas, três vezes por semana. Sou escritor.
– Ah, é escritor? Que bueno receber um escritor em minha sala. Ainda mais um escritor cheio de lombrices na cabeça…
– É sério, Javier. Não é viagem não, é verdade. Olhe, eu trouxe uma aqui pra você ver.
Ivan tirou do bolso da camisa um saquinho de plástico e o estendeu sobre a mesa. Mas Javier o interrompeu.
– Não, não, gracias. Eu acredito em você.
– Pode pegar. É inofensiva.
– Não preciso pegar em sua minhoca pra saber que ela existe, criatura, estou vendo.
– E então? O que você acha?
– Já procurou um médico?
– Nunca falei pra ninguém. Quem ia acreditar?
– Então vamos ter que ver esse babado de perto. Quinta-feira, oito da noite. Tá bom pra você?
– Tá bom.
– Então me espere que eu apareço.
– E quanto vai cobrar?
– Pelo quê?
– Sei lá. Você vai fazer alguma coisa, não vai?
– Bueno, eu cobraria esses seus olhos. Botaria eles numa moldura pra eles ficarem mirando a mim todo dia. Mas como eu sei que você não me daria, então vou cobrar só o preço de custo.
– E quanto é?
– Milzito.
– Mil reais?
– Caro, é?
– Bem que me disseram que você é careiro.
– Careiro é quem cobra caro e não resolve. Eu resolvo.
– Eu não tenho esse dinheiro todo.
– Posso facilitar.
– Não dá pra deixar por cem?
– Cem? Ai, meu são Sebastião flechado… Setecentos.
– Cento e cinquenta.
– Meu filho, sabe quanto me custou esse livro aí que você está com o cotovelito em cima? Cinco mil reais. Mandei buscar em Damasco, veio na corcova de um camelo, protegido por uma caravana de tuaregs barbudos, pegou barco, avião… É um livro sobre como criar demônios em garrafa.
– Você cria demônios?
– Eu não. Mas conheço gente que cria e estou aprendendo a fazer umas garrafitas maravilhosas pros bichinhos morarem com mais dignidade. Sabe a Jeannie É Um Gênio? Pois é daquele modelito, com sofazinho, cortininha… Demônio também é gente.
Ivan coçou a cabeça, pensando se não fora uma péssima ideia ir ali.
– Muito bem. Quinhentos e não se fala mais nisso.
– Duzentos.
– Quatrocentos.
– Duzentos e cinquenta.
– Trezentos, e acabou. Metade agora que estou com o aluguel atrasado. A outra metade no dia.
– Ah, agora eu não tenho. Não dá mesmo pra pagar na quinta-feira?
– Ai, pelas sete pétalas! Está certo, criatura. Mas não diga a ninguém que fiz por esse preço, sim? Minha reputação iria pelo ralo do esgoto…
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NA QUINTA-FEIRA, A CAMPAINHA do apartamento de Ivan tocou e ele abriu a porta.
– Preparado? – Javier disse, alisando a longa trança que passava pelo ombro e caía sobre o peito. Vestia calça e camisão, tudo branco.
– Só um pouco nervoso… Vamos entrando. Que elegância, heim?
– Gostou? Comprei especialmente pra esta ocasião. Tinha que ser uma roupa que nunca foi usada. Humm, Karine Alexandrino… – Javier pegou um CD sobre o aparelho de som. – Mas não é que o bofe tem bom gosto? Adoro essa perua. Dizem que é homem operado, mas eu não acredito.
– Quer escutar?
– Em outra ocasião. Vamos logo ao que interessa. Menino, mas que buena vista que você tem desta janela. Pra empurrar cobrador é uma beleza. Cadê o baseadito?
– Aqui. Você fuma também?
– Desta vez não. Anda, senta aqui do meu lado e acende logo.
Ivan acendeu o baseado e começou a fumar. Javier observava atento, sentado ao lado no sofá.
– Não tem problema com os vizinhos?
– Que nada. Nesse prédio só tem maconheiro.
Ivan deu mais algumas tragadas, apagou e guardou a guimba numa caixinha de alumínio.
– Olha aí, já tá começando… – falou Ivan, apontando para a orelha direita.
Javier se aproximou e pôde ver perfeitamente: alguma coisa surgiu à entrada do ouvido. Depois foi saindo, saindo e era mesmo uma minhoca, uma pequena minhoca que deslizou um pouco mais para fora, balançou-se e caiu sobre o ombro do rapaz.
– Pelas pantufas do niño Jesus… Que coisa…
– Pode pegar, não morde.
– Não, gracias, minha religião não permite.
– Olha, já tá vindo outra…
Javier viu outra minhoca surgir à entrada do ouvido. Essa também deslizou, balançou um pouco e caiu.
– Tá saindo outra! – Javier gritou. – É a invasão das minhocas… E pelo outro ouvido, não sai?
– Sai. Tá saindo agora, olhaí.
– Que coisa loca. Me diga, quantas saem?
– Ah, depende. Às vezes sai uma só, outras vezes duas, três, cinco. Uma vez saíram nove, quase fiquei doido.
– O que você faz com elas?
– O que eu faço? Jogo fora, claro.
Javier fechou os olhos e apoiou-se com as costas na parede. Respirou profundamente, uma, duas, três vezes. Depois murmurou algo ininteligível por alguns segundos e, por fim, abriu os olhos. Afastou-se da parede e falou calmamente:
– Pois desta vez vamos fazer diferente. Já saiu tudo?
– Acho que sim.
– Então junta num papel e traz aqui – Javier foi à cozinha e abriu a geladeira. – Tem cebola?
– Cebola?
– É. Cebola. Aquela cosita arredondada, com casquinha, que faz chorar…
– Não tô entendendo…
– Claro que não está. Se estivesse entendendo não teria de me pagar quatrocentos reais.
– Trezentos.
– Não foi quatrocentos?
– Não, foi trezentos.
– Então anda, vem cá, me ajuda a cortar. Este tomate também vai.
– Minhoca não come tomate, Javier.
– Quem disse que elas vão comer alguma coisa? Onde está a frigideira, é aqui embaixo? Ah, aqui está. Tem manteiga?
– Javier, você podia me explicar…
– Dá aqui as minhocas.
Ivan passou-lhe as quatro minhocas e Javier despejou-as na frigideira, junto com pedaços picados de tomate e cebola.
– Javier, você não tá pensando…
– Um temperozinho…
Enquanto Javier fritava e temperava as minhocas, Ivan observava sem acreditar.
– Javier, você por acaso…
– Creio que já está bueno. Tem farinha? Tem, ótimo. Vamos botar um poquito, mexer… Onde estão os pires? Creio que um azeite vai bem. Pronto, você come essas duas aí e eu como essas duas aqui.
– Eu?!
– É riquíssimo em proteína, sabia? Na China o povo faz fila pra comer.
– Eu não sou chinês.
– Mas é um escritor que me contratou pra desvendar o mistério das lombrices. Anda, aproveita que está quentinho.
Javier levou a primeira minhoca à boca e começou a mastigá-la, de olhos fechados, calmamente. Ivan olhava enojado.
– Não está tão mal, Ivan. Prova aí.
Ivan levou a colher à boca e mastigou uma minhoca. Quase pôs tudo para fora, mas controlou-se e engoliu.
– Ivan, tô recebendo uma mensagem pra você – Javier falou, de olhos fechados.
– Pra mim?
– Um bruxo… que mora sozinho na floresta…
– Como?
– Isso mesmo. Um bruxo. Ele mora… sozinho numa cabana, próximo de uma aldeia.
– Ele tá enviando uma mensagem pra mim?
– Uma bruxa muy bonita que mora perto… e os dois vivem brigando.
– O que é isso, Javier?
– Na verdade, os dois… são apaixonados um pelo outro. Mas não reconhecem isso.
– Sinceramente, não tô entendendo nada.
– Deixa ver essa outra minhoquita… – Javier mastigou a segunda minhoca. – Hummm… Um velhinho que é o Guardião dos Gnomos… Cruzes, é isso mesmo? Sim, é isso mesmo, Guardião dos Gnomos. Os gnomos têm o poder de encontrar pessoas… de fazer com que as pessoas se encontrem… Um dia, um rapaz o procura porque está interessado em…
– Espere um pouco, Javier – interrompeu Ivan. – Só um instante.
– Um pescador… uma bela noite… – Javier seguia falando, aparentemente em transe. – Ele encontra uma sereia e ela… diz que tem o poder de lhe dar muito dinheiro.
– Espere, Javier, que eu vou pegar uma caneta!
Ivan saiu correndo e voltou com papel e caneta.
– Aquela primeira, como era mesmo? Um bruxo e uma bruxa que vivem na floresta…
– Um fantasma… ele mora no quarto de uma pensão e… e sempre trata de expulsar os inquilinos que o alugam.
– O guardião dos gnomos… e depois… depois o quê mesmo?
– Menino, o que eu fiz? – falou Javier, de repente, abrindo os olhos.
– Comeu duas minhocas fritas. Como era mesmo a outra mensagem?
– Aaaaaaarrrrrgh!!! – gritou Javier, levando as mãos à boca e correndo para o banheiro. – Me acuda, minha cabocla Mariana do cabelo cor de telha! Argh!
– Depois foi o quê mesmo? – perguntou Ivan, indo atrás dele com a caneta e o papel. – Ah, o pescador e a sereia.
– Minhoca frita! Não creio! Traz água, por caridade!
– Já vou pegar. Depois foi o quê?
– Ah, não me recordo, criatura. Quem tem de lembrar é você. Vai pegar minha água, maligno.
– Não são mensagens, Javier, são ideias pra contos.
– Ah, é?
– E são ótimas, todas elas. Ah, lembrei! O fantasma da pensão.
– Então não deixa de ser mensagem. Deixa que eu vou pegar a água, cavalheiro.
– Puxa, não acredito! Javier, você é demais!
– Ideias pra contos, heim? Bueno, vai ver que é isso que faltava pra você ser um escritor famoso: uma dieta à base de minhoca frita.
– Puxa, Javier, nunca poderei lhe agradecer…
– Claro que pode. São trezentos reais, aqui en la mano.
– Escute, Javier, tenho uma proposta a lhe fazer. Que tal trabalharmos juntos? Você come as minhocas e me passa as mensagens. Eu serei um escritor famoso, venderei muitos livros… Nós ficaremos ricos, Javier! Você fica com dez por cento de tudo o que eu ganhar, aceita?
– Não.
– Mas, Javier, as ideias são maravilhosas, eu vou escrever ótimos contos, eles vão ser um sucesso!
– Tsc, tsc. Madre de Dios, esse gosto horrível não sai…
– Vinte por cento.
– Já disse que não me interessa. Imagina, vou virar um minhocário ambulante…
– Trinta!
– Trinta por cento? – Javier alisou a trança sobre o peito, pensativo. Fez algumas contas rápido. – E se você não ficar famoso nem nada?
– Com essas ideias? Impossível!
– Não, não interessa. É melhor eu garantir o meu agora. Escuta, por que você não come as minhocas? Afinal, é da sua cabecita que elas saem, e não da minha.
– Ah, Javier, eu não vou conseguir, é ruim demais.
– Faz parte do seu aprendizado cósmico. Vamos, eu quero meu pagamento, dá aqui na mãozinha.
– Javier, por favor, seja mais bondoso…
– Mais bondoso? Só se da próxima vez eu comer aranha…
– Desculpe, não quero ser injusto.
– Exatamente, seja justo. Eu mostrei pra você qual a utilidade dessas minhocas que saem de sua cabeça quando você fuma, e agora é muito justo que eu receba meu pagamento, que te parece?
– Então vamos deixar pelos duzentos?
– Trezentos, foi o que combinamos.
– Duzentos e cinquenta então.
– Ah, eu não creio! Está bem, me pague e me deixe ir embora comer qualquer coisa pra tirar esse gosto horrível da boca, argh…
– Vou fazer os cheques.
– Cheques?
– Você parcela, não parcela?
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– SEO JAVIER, DESCULPE interromper, mas é encomenda pro senhor assinar – avisou Ana Isaura, entregando um pacote.
– Só um instantito, dona Iracema… – disse Javier, interrompendo a consulta do tarô e assinando o papel. – O que deve ser? Ah, é do Ivan, aquele bofe dos olhos lindos. Livro novo…
– Quem é Ivan? – perguntou dona Iracema, sentada à sua frente na mesa.
– É aquele escritor, a senhora não conhece? Ivan Ferreti.
– Ah, sim, claro. Ele é seu amigo?
– Uns anos atrás resolvi um babado forte pra ele, entonces sempre que ele lança livro novo, manda pra mim, com dedicatória e tudo – Javier abriu o pacote e mostrou o livro, orgulhoso. – Mira que capa bonita.
– Bonita mesmo.
– Era um pé-rapado. Hoje está famoso, podre de rico. Casou dia desses com uma modelo italiana que é a cara da Anita Ekberg, até os peitos são deste tamanho. Sabe onde o bofe mora atualmente? Num castelo na França, imagina o luxo.
– Nossa, que partido… Pra mim não cai um desse.
– Ai, ai, quando eu penso naqueles trinta por cento…
– Como?
– Nada, mulher, nada. Divaguei. Mas sim, onde estávamos?
– No Enamorado.
– Ah, nessa carta aqui. Pois bem… Bueno, deixa eu ver… Humm, é um senhor alto, viu, educado, distinto… Um guapo.
– Será que é casado, Javier?
– E isso lá é problema, mulher! Se for, a gente descasa.
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Os pais de Maria Amélia estão impressionados com o namorado da filha, um profundo conhecedor da psicologia dos super-heróis
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– PAI, MÃE, ESSE AQUI é o Mingo.
– Boa noite, seo Erandir. Boa noite, dona Gilda.
– Boa noite, Mingo. Sente aí pra jantar.
– Obrigado.
– Gosta de sopa de feijão, Mingo?
– Gosto, dona Gilda.
– Eu sirvo pra você. Maria Amélia, pega mais pão na cozinha.
– Ô Mingo, você sempre janta de óculos escuros?
– Estou com um probleminha nos olhos, seo Erandir.
– Ah.
– Maria Amélia me disse que você está concluindo uma tese de mestrado, Mingo. É verdade?
– É, dona Gilda.
– E sobre o que é mesmo?
– Personagens de gibis e desenho animado.
– Gente, que interessante.
– Pois é, mãe, o Mingo é um grande estudioso da psicologia dos super-heróis.
– Que bom.
– Quer mais pão, Mingo?
– Aceito.
– No meu tempo os desenhos eram muito bons, educativos, ensinavam coisas boas às crianças. Hoje o que se vê é só porcaria. Muita violência. Muito sangue.
– Concordo com o senhor.
– Na minha opinião, o último desenho que ainda prestava era aquele dos Smurfs. Você assistia?
– Sim.
– O que você acha? Era bom, não era? O Gargamel sempre se dava mal. Isso mostrava às crianças que fazer o mal não compensa. Desenho educativo.
– Quer bolo, Mingo?
– Aceito. Na verdade, seo Erandir, o Gargamel era usuário de LSD.
– Heim?
– Usuário, sim. O senhor conhece LSD?
– Se eu conheço? Não, mas já li alguma coisa.
– Aquele LSD não era dos melhores, a gente logo via. Atente pro comportamento do Gargamel. Fica a vida inteira perseguindo uns homenzinhos azuis que vestem gorros e fraldinhas. Aprofundando mais, podemos nos perguntar: pra que ele quer tanto pegar os Smurfs?
– Ahnn… Pra comer, né?
– Justamente. O LSD de péssima qualidade potencializa as tendências pedófilas do Gargamel. Isso hoje dá cadeia, o senhor sabe. Sem falar que ele abusava psicologicamente de seu gato, um prato cheio pra sociedade protetora dos animais entrar com um processo contra a produtora do desenho, milhões de dólares.
– Eu nunca tinha pensado nesses termos.
– Tem mais bolo?
– Tem, Mingo, deixa eu servir pra você. Ah, eu gostava mais do Patolino. Ele era muito engraçado, né, Erandir?
– Eu não gostava, Gilda. Ele era muito agoniado.
– Exato, seo Erandir. O Patolino é o maior cheirador do planeta.
– Cheirador?
– Cocaína, pai. Cheirador de coca.
– O cara é ligadão demais, seo Erandir. Não para de falar um só instante, tem uns papos muito estranhos. E sofre de mania de perseguição. É tão ligadão que consegue ficar gritando, pulando sem parar, arrancando as penas e batendo a cabeça no chão sem sentir dor.
– Gente, cocaína faz isso?
– Faz, dona Gilda. Uma vez ele cheirou tanto que travou geral.
– Travou geral?
– Exato. Foi uma travada tão violenta que o queixo dele foi bater atrás da cabeça.
– Ah, eu gostava tanto do Patolino… Gente, mas por que ninguém nunca disse que ele cheirava cocaína?
– Se dissessem, dona Gilda, os pais não deixariam seus filhos assistir.
– Viu, Gilda? Bem que eu não gostava dele.
– Ah, eu gosto. Quer dizer, depois dessa revelação, já não sei…
– E o Popeye? Aqui na rua tinha uma vizinha do outro lado da rua, a Lindalva, lembra da Lindalva, Gilda? Ela era bem magrinha. A gente chamava ela de Olívia Palito. Influência dos desenhos.
– Olívia Palito. É uma personagem inspirada em muitas mulheres que existem por aí, seo Erandir, mulheres de carne e osso.
– No caso da Lindalva, mais osso que carne.
– Exatamente, dona Gilda. Mas a Olívia é uma personagem tremendamente complexa. Foi a primeira heroína da TV a usar descaradamente anfetaminas e moderadores de apetite. Na verdade, ela é anoréxica. E ainda é evangélica.
– Evangélica?
– O senhor nunca reparou? Veja o estilo da roupa: saia abaixo do joelho, blusa fechadinha, tudo muito comportado e sem graça.
– Que coincidência! A Lindalva também era evangélica. Não era, Gilda?
– A Olívia é evangélica, seo Erandir, mas é uma evangélica piradaça, pois fica provocando o Popeye o tempo todo. Faz o coitado gastar uma fortuna tomando Viagra misturado com espinafre. Como se não bastasse, engana o cara o tempo todo com falsas promessas de casamento. E tem mais. A safada adora ser raptada e amarrada pelo Brutus. Sexo selvagem. É a famosa magrinha que aguenta o tranco…
– Isso! Exatamente!
– E o Scooby-Doo, Mingo, fala do Scooby.
– Era um cachorro muito doido. Mas mais doido era o dono.
– Como era mesmo o nome dele?
– Salsicha.
– Isso, Salsicha! Eu não gostava muito dele não. Era assim meio, meio sujo…
– O Salsicha, seo Erandir, é o suspeito número um, o maconheiro típico.
– Ele fumava maconha? Nunca reparei.
– É só ver o jeitão dele, as roupas, o cabelo, o cavanhaque… O maluco conversa altos papos com um cachorro e está sempre na maior larica, louco pra traçar um sanduba. Isso sem falar naquele furgão psicodélico: eles se trancavam pra fumar um e saíam de lá vendo fantasma pra todo lado… Mas o Salsicha tinha muita moral com os roteiristas porque mesmo com aquela bandeira toda, nunca levou uma geral dos canas. O Scooby não fumava, mas pegava toda a maresia e por isso também vivia na larica.
– Maresia?
– É a fumaça do baseado, seo Erandir.
– E o que é larica?
– É a fome que dá depois de fumar. Esse bolo tá bom mesmo… Vou pegar mais um pouquinho. Mas voltando ao Scooby. Um cachorro que come, em média, cento e vinte biscoitos por episódio só pode estar totalmente laricado.
– Que coisa… Eu nunca tinha visto por esse lado.
– Fala do Homem-Aranha, Mingo, fala.
– Ah, o Homem-Aranha eu gosto! Lembra, Gilda, que eu tinha a coleção completa? Peter Parker. Esse sim era um super-herói educativo, você não concorda? Trabalhava, cuidava da tia doente, você via que ele era muito apegado a ela.
– Apegado ao dinheirinho que ela guardava na poupança, isso sim. A velha tinha quase cem anos. Já pensou o montante da bufunfa? Um nome mais apropriado pro Homem-Aranha seria Homem-Urubu, pois ele tava ali sempre rondando a tia, esperando a velha morrer pra pegar a herança. E ainda vivia em eterno conflito por não assumir sua bissexualidade.
– O Homem-Aranha era gay?
– Claro. O senhor acha que aquele negócio de ficar soltando teinha de aranha pra lá e pra cá é coisa de homem sério? É o primeiro caso de super-herói que começa a carreira por causa de uma picadura. E o cara é azarado pra cacete: a primeira namorada, uma loiraça rica e boazuda, morreu assassinada pelo Duende Verde. O senhor sabia que Duende Verde é o nome de uma boate gay lá em Pelotas?
– Não sabia.
– Pois é, homenagem ao Homem-Aranha. Super-herói gay tem muito por aí. Tem também o…
– Não sei se quero saber de mais algum…
– Batman.
– Ah, não!
– Ah, sim, seo Erandir. Essa é a dupla homossexual mais bandeirosa do mundo dos super-heróis. O clássico exemplo do gay titio que curte garotão. O bofinho esperto, que se aproveita do coroa pra pagar a faculdade. Homem-morcego. Morcego faz o quê, seo Erandir? Sai à noite e chupa fruta. Menino-prodígio. Prodígio em quê? Isso é lá apelido que um homem sério bote no outro! E ainda tem o mordomo.
– O Alfred? Que é que tem ele?
– Aquela pouca-vergonha rolando na bat-caverna, todo santo dia… O senhor acha que o Alfred não ia saber? Claro que sabia. Se é que não participava também. Aquela cara de diretor de seminário não me engana.
– Gente… Tô muito surpresa. Como você descobriu isso tudo, Mingo?
– Pesquisando, dona Gilda, pesquisando…
– Acho que vou proibir o Cacá de assistir TV. Batman, Homem-Aranha… Tudo gay!
– Relaxa, Erandir. Nosso filho gosta é do He-Man.
– Hummm… Logo o He-Man?
– Qual o problema com o He-Man?
– Quer saber mesmo, seo Erandir?
‒ Acho que não…
‒ Gay da geração mais nova, ligada em academia, corpo malhado. Consumidor compulsivo de esteróides. Torra a grana toda com vitamina e energético. E aquele cabelinho chanel? Loira poderosa.
– Não posso acreditar…
– Acredite. O He-Man lançou o “barbie life style” na TV. Sucesso total. E aquele grito dele?
– Ah, isso eu lembro. Pelos poderes de Grayskull! Eu tenho a fooorçaaaa!!!
– Isso na tradução final do estúdio brasileiro, seo Erandir.
– Como assim?
– No original é “Pelos poderes de gay que sou! Eu dou a rosca!”
– Você tem certeza, Mingo? Será que você não se enganou?
– Pense bem, dona Gilda, é muita bandeira. O cara mora num castelo, fica pra lá e pra cá de sunguinha e botinha, malhando o tempo todo, injetando anabolizante… Tem até um tigre de estimação. Pura fantasia selvagem de bicha louca.
– Mas se ele é gay, quem é o outro?
– Ora, quem mais seria? O Esqueleto.
– Cruz credo!
– Aquela risadinha do Esqueleto é muito aviadada, a senhora não acha não? Os dois têm um caso super-mega-mal-resolvido. O Esqueleto, coitado, não se conforma de jeito nenhum com a separação. Por isso é que fica o tempo todo bolando vingancinha, aprontando o maior barraco em público… Bicha vingativa é um horror.
– Bom, pelo menos tem a turma da Mônica pra salvar os gibis…
– Em termos, seo Erandir, em termos…
– Não vá me dizer que a Mônica e o Cebolinha…
– Os dois? Não, não, entre eles não sai nada. A Mônica é sapata, estilo caminhoneira, dá porrada em todo mundo.
– Gente, não acredito… Ah, mas pelo menos não tem droga no meio…
– Como não tem, dona Gilda? E o Rolo? Autêntico bicho-grilo dos anos 70. Barbudo, andava descalço… E o cabelo? Nunca viu um xampu na vida. O cara não trabalhava, passava o dia inteiro viajando nas ideias e tocando um violão faltando uma corda. Bastava ele acender um baseado e botar um Led na vitrola que a Tina vinha correndo dar pra ele.
– A Tina?
– Claro. Mas hoje é diferente. Ela virou hippie de butique, anda toda arrumadinha, tem namorado mauricinho e trocou o baseado por umas caipirinhas no pagode. E com essa moda aí de juntar os personagens, alguém ainda vai criar a história onde o Rolo e o Salsicha desvendam o misterioso caso do sumiço do bagulho.
– Nossa, Mingo, você deve ter pesquisado bastante. Aceita mais um café?
– Aceito. E se não for abusar, vou pegar só mais pedacinho desse bolo, tá muito gostoso.
– Ô Mingo. Não escapa ninguém nesse seu estudo? A Alice no País das Maravilhas, por exemplo. Eu não vejo nada ali de maldade…
– Alice, a ninfeta maluquete.
– Ah, não era isso não.
– Comeu sete cogumelos de uma vez só e ficou triloca, conversando com os bichos mais estranhos do pedaço e fumando um puta haxixe da Turquia num narguilê junto de uma centopeia doidona.
– Cogumelo? Haxixe?
– O haxixe deixou a ninfeta tarada: ela traçou o coelho corredor, o gato listrado, o chapeleiro maluco, e não dispensou nem as cartas de baralho. Só não traçou a rainha porque o efeito passou.
– Gostei do Mingo, Gilda. Ele deve ser muito estudioso. Só achei estranho aquele óculos escuro. E você viu como ele estava com fome? Quase acabou com o bolo.
– Erandir…
– Sim.
– O que você quis dizer com “exatamente”?
– Como assim?
– Não se faça de desentendido.
– Juro que não estou entendendo.
– Quando ele falou da Olívia Palito, você lembrou da Lindalva, nossa vizinha.
– Ué, você também lembra dela.
– O caso não é esse.
– E qual é o caso?
– Quando ele contou que a Olívia gostava de sexo selvagem com o Brutus e disse que ela era a famosa magrinha que aguentava o tranco, você disse o quê?
– Sei lá.
– Você disse “exatamente”.
– Eu disse isso?
– Disse.
– Tá, eu disse. E qual é o problema?
– Com aquele “exatamente” você quis dizer que sabe que a Lindalva também gosta de sexo selvagem.
– Eu sei disso?
– Erandir, não queira me fazer de boba. Você comeu aquela magricela sem-vergonha?
– Gilda, você está delirando…
– Estou é muito lúcida, isso sim. Você falou “exatamente” e eu sei muitíssimo bem o que você quis dizer com isso. Não queira me fazer de boba.
– Danou-se. Agora ninguém mais pode falar “exatamente”…
– Erandir, você comeu ou não comeu?
– Minha filha, você trabalhou muito hoje…
– Não me chame de minha filha!
– Tá bom, tá bom, calma…
– Comeu ou não comeu?
– Quer saber mesmo a verdade?
– Quero.
– Quer mesmo?
– Quero!
– Não comi.
– Não acredito.
– Então não acredite.
– Se não comeu, então o que você quis dizer com “exatamente”?
– Pô, Gilda, eu sei lá o que eu quis dizer com “exatamente”! A gente fala essas coisas pra conversa prosseguir e não porque está concordando…
– Sei.
– Gilda, a gente estava falando da Olívia e não da Lindalva.
– Você estava falando da Lindalva.
– Não, era da Olívia.
– Não era.
– Gilda, de uma vez por todas: eu não comi a Olívia.
– A Lindalva.
– A Lindalva sim. A Olívia não.
– Taí! Eu sabia!!!
– Sabia o quê?
– Você comeu!
– Não comi!
– Você acabou de falar!
– Eu falei?!
– Falou sim. “Comi a Lindalva, a Olívia não.”
– Enlouqueceu? Falei o contrário: comi a Olívia, a Lindalva não. Peraí. Eu também não falei isso. O que foi que eu falei mesmo?
– Erandir, você é desprezível!
– E você me confundiu de propósito.
– Como que você teve a coragem de me trair com aquela, aquela evangélica neurótica?! Aquela tarada que dava em cima dos homens todos dessa rua em nome de Jesus Cristo! Heim? Heim?
– Gilda…
– Você pensa que eu não percebia ela olhando pra você quando você regava as plantas? E aquelas visitinhas que ela fazia pra deixar panfletinho do culto? Eu sabia!
– Gilda…
– O que é?
– Eu te amo.
– Heim?
– Eu disse que eu te amo.
– Não vem com essa!
– Amo sim.
– …
– Eu te amo demais, Gilda…
– Não ama.
– Amo e sempre amei. E nunca vou deixar de amar.
– Você está é querendo mudar de assunto.
– Sabe por quê?
– Por que o quê?
– Por que eu nunca vou deixar de te amar?
– Não.
– Porque você é a heroína dos quadrinhos da minha vida.
– Mentira.
– Verdade.
– Eu te conheço, Erandir…
– E sabe o que um homem tem vontade de fazer com a heroína dos quadrinhos da vida dele?
– Não…
– Comê-la. Todinha. Com papel e tudo.
– Besteira.
– Besteira? Olha aqui o tamanho da besteira.
– Erandir, você é louco! Bota isso pra dentro!
– Só se for pra dentro da minha heroína.
– Erandir, o Cacá…
– Cacá já está no quinto sono.
– Ahnn… eu não sei…
– Pois eu sei. Senta aqui.
– Aqui não.
– Tira esse vestido.
– Erandir, é melhor…
– Então eu tiro.
– Não. Deixa que eu tiro. Você sempre arranca os botões.
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COMENTÁRIOS .
01- vc e muito figura mesmo mas devo confessar que adoro “animação no jantar” não da outro Mingo!!!!!!!!!!! lembro que estava em um vôo para o Parana e conheci um rapaz e começamos a falar sobre desenhos e eu falava igualzinho o Mingo e o figura morria de rir assim como eu daí no fim pedi pra ele visitar o blog do Ricardo kelmer que a idéia não era minha kkkkkkkk mas valeu …. Fernanda Vasconcelos, Aracaju-SE – jul2012
O soldado Rian foi capturado pelos inimigos. Seu sargento acredita que pode salvá-lo. Mas é uma missão quase impossível
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EU JÁ HAVIA ME JUNTADO a dois companheiros na 13ª base quando o soldado Rian, que deixava o 4o quadrante, foi capturado no momento em que tentava nos alcançar. Fora de fato uma tentativa arriscada, pois o 3o quadrante possuía dois destacamentos inimigos posicionados imediatamente atrás de nós. No entanto, se ele conseguisse passar por eles e juntar-se a nós, já poderíamos começar a comemorar a vitória, pois ele era o último soldado da retaguarda.
Vi quando renderam o soldado Rian, lhe bateram com o rifle e o levaram arrastado. Uma vez prisioneiro no 4o quadrante, Rian tentou escapar através da 20a e 22a bases, que estavam livres, mas levou azar: vieram as Senas Obscenas e o impediram. As Senas costumam aparecer nesses piores momentos. Logo em seguida, o inimigo conquistou a 20a base e aí a coisa piorou de vez, pois Rian passou a dispor de apenas uma única base para escapar, exatamente a 22a, e por três tentativas consecutivas não conseguiu, o que possibilitou ao inimigo retirar com tranquilidade um destacamento inteiro do 1o quadrante e avançá-lo até o 3º.
A sorte é que o inimigo também não foi competente o suficiente para conquistar a 22a base, deixando-a livre para mais uma tentativa de fuga de Rian. Foi assim que pude vislumbrar uma saída. Levei o plano ao comandante Martan.
– Deixe ver se entendi. Você quer se entregar, sargento Veras?
– Sim, comandante.
– Na 11ª?
– Exato, senhor.
– Você acha que aquele bunda-mole do Rian vale seu sacrifício?
– É o meu melhor soldado, senhor. Sem falar que ele anima bastante as noites da companhia com o seu violão. E é a única chance que temos de vencer. Atrairei o destacamento que ocupa a 10a e me deixarei aprisionar. Juntos, eu e Rian teremos mais chances de escapar do que ele sozinho.
– Ou então perderemos de vez esta batalha. Mesmo que vocês dois escapem, talvez não consigam retornar a tempo.
– Dê-me uma chance, senhor.
O comandante Martan levantou da cadeira e caminhou em silêncio pela sala, o olhar no chão. Foi até a janela e ficou a observar a movimentação de alguns destacamentos lá fora, nos rostos dos soldados a visível apreensão pelo companheiro aprisionado. Nós sabíamos perfeitamente o que aqueles demônios faziam com seus prisioneiros. Talvez, aquela hora, Rian sequer estivesse vivo para merecer que o Comando alterasse seus planos e arriscasse tudo para tentar resgatá-lo.
Mas eu sentia que ele estava vivo, que ele resistira a tudo o que porventura lhe houvessem feito. Havíamos nascido ali, vivido nossa infância no meio daquelas montanhas, daqueles rios. Conhecíamos todas as árvores e sabíamos dos atalhos e das cavernas. Juntos, participamos da tomada do 3o Quadrante na batalha de Barbanetto e, praticamente sozinhos, esfarelamos dois destacamentos, mandando-os para a prisão. Eu não podia voltar ao QG assim, deixando Rian lá, sozinho, a mercê do sadismo daqueles monstros.
– Sargento Veras, às vezes é melhor salvar o pouco que possuímos do que arriscar perder tudo.
– Sei disso, senhor.
– Estamos em vantagem aqui em Ludicósia e não estou disposto a perder o que já conquistei. A guerra nos ensina a ser práticos. Um soldado a menos não interferirá no resultado final. Por outro lado, se perdermos você, eles, além de tomarem sua posição, poderão nos fazer um bom estrago.
A cruel lógica da guerra estava ao seu lado, eu sabia. Mas eu tinha que tentar.
– Eles ainda não conquistaram a 22ª, senhor. Podem fazê-lo na próxima investida, eu sei. Mas se eu atraí-los na 11a, isso lhes desviará a atenção e eles ainda desmontarão a barricada na 12a.
– Nada garante.
– Eles me querem prisioneiro, senhor. Isca melhor não há. Barbanetto ainda está atravessada na garganta deles.
– Para seu plano dar certo, sargento, vocês teriam que sair imediatamente e ocupar a 22a.
– Operação Ternos Eternos, senhor. Já está engatilhada.
– Se não conseguirem na primeira tentativa, tudo estará perdido.
– Conseguiremos, senhor.
Ele me encarou durante um bom tempo. Era como se tentasse ver através de meus olhos um indício qualquer que enfim lhe revelasse minha incompetência para tal missão. Bastaria um indício qualquer, qualquer um… Quem poderia acreditar em missão tão suicida? Ninguém. Mas eu aguentei firme o olhar do comandante Martan.
– Permissão concedida, sargento Veras. Tentaremos resgatar o soldado Rian.
Eu conseguira! Agora tudo que eu precisava era apenas que toda a sorte do mundo estivesse ao meu lado.
Tínhamos três bases ocupadas no 1o quadrante, aguardando capturas. Havia um destacamento na 7a (cinco soldados) e o meu na 13a (eu e mais dois soldados). No 2o quadrante havia um destacamento deles ocupando a 12a (três soldados) e outro na 10a (dois soldados) O plano era atrair um desses dois na 11a.
A primeira movimentação, porém, foi um fracasso e tivemos de avançar dois dos nossos que estavam na 7a.
Eles contra-atacaram com um soldado da 12a e nos sobrou a última tentativa antes que o destacamento deles da 10a saísse para sempre de nosso alcance. Então corri. E fui atingido de raspão no braço. Caí, rolando pela ribanceira. Sob uma chuva de tiros consegui me arrastar e finalmente alcancei a 11ª. A primeira parte da missão estava cumprida. Então aguardei, enquanto improvisava um curativo. Dava para suportar a dor.
A isca funcionou. Um soldado inimigo percebeu o movimento e me emboscou. Fui aprisionado – exatamente como queria. Levaram-me ao 4º quadrante e lá encontrei o soldado Rian, bastante ferido, mas vivo. Ele sorriu ao me ver e de imediato entendeu tudo. Reanimei-o e lhe detalhei o plano. Ele sorriu e balançou a cabeça, como se dissesse: que loucura…
Na primeira tentativa de fuga, fracassamos. No entanto, como mais uma vez eles não conseguiram ocupar a 22ª, continuamos respirando. Mas fracassamos também na segunda tentativa. Então, o que não podia acontecer, aconteceu: a 22a foi ocupada e perdemos a única chance de saída. Era o fim.
Totalmente impossibilitados de escapar, as quatro movimentações seguintes foram todas deles: quatro soldados evacuados, levados livres para fora da área de combate. E os que ficaram continuavam, para o nosso azar, protegidos em dupla. Na quinta movimentação, porém, abriu-se a 19a. Imediatamente empurrei o soldado Rian:
– Corre!
Ele ainda vacilou um pouco, mas obedeceu. E eu fiquei, aguardando um milagre. Eis que ele veio duas movimentações depois, e eu ocupei a 24a. Enquanto Rian cumpria seu papel, retardando ao máximo sua chegada ao 1o quadrante, eles evacuaram mais alguns soldados.
Restavam apenas três soldados inimigos no 4o quadrante, onde eu estava, sendo dois na 22ª e um, sozinho, na 23ª, bem à minha frente. Eles aguardavam serem evacuados em uma ou duas movimentações, e aí perderíamos definitivamente a batalha. Mas fui rápido e eficiente: tomei a 23a e capturei o soldado que a ocupava. Alívio. Ganhávamos um pouco de tempo para respirar. Como o 1o quadrante estava inteiramente ocupado por nossos destacamentos, o que impedia qualquer chance do soldado capturado escapar, pude avançar tranquilamente pelo 3o e 2o e cheguei para comandar a evacuação de nossos homens.
Foi dramático, pois tivemos de arriscar várias vezes algumas de nossas posições enquanto o soldado prisioneiro tentava mas não conseguia um golpe certeiro. Quando ele enfim escapou, operando em Quinas Traquinas, pensei no pior, nadar tanto para morrer na praia. Evacuamos então um soldado e, em seguida, eles evacuaram dois.
Esta era a situação final: tínhamos seis soldados para retirar, e eles apenas dois. Então livramos dois e aguardamos, nervosos, sem poder acreditar que depois de tudo, não venceríamos. No entanto, um vacilo na movimentação deles fez com que sobrasse ainda um soldado, um único soldado instalado solitariamente na 24a base, a um pio da vitória. Reunimo-nos, nós quatro, os restantes, dois na 1a, um na segunda e outro na quarta, e eu lembrei a eles que somente agindo em dobradinha teríamos alguma chance. Dividimo-nos e, concentrados, contamos: um, dois, três e já!
– Quadras Esquadras!!!
Operação Quadras Esquadras. Alta complexidade. Mas conseguimos. Movimentação perfeita, em sincronia. No último instante. A vitória sorriu para nossas cores. Era realmente para não acreditar, pois vencemos contra todas as probabilidades. Na 24a base ficou o derradeiro soldado inimigo, à espera da evacuação que não viria, igualmente sem acreditar no que acontecia.
Enquanto o soldado Rian festejava junto com seus companheiros, sentei numa pedra, enxuguei o suor da testa e abri a garrafinha de Jack Daniel’s, mandando para dentro um merecedor gole. O tiro no braço não era problema, antes da próxima batalha eu já estaria em forma.
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– GOSTOU DAS QUADRAS?
– Sorte demais…
– Quer perder outra?
– Não, obrigado.
– Qualé, meu irmão? Cadê o espírito esportivo?
– Não é isso.
– O que é então?
– Pô, você viaja demais, cara! Faz muito drama!
– Desculpa de perdedor.
– Não dá pra jogar gamão com você doidão assim. Transforma o jogo numa guerra.
– Ah, deixa de viadagem. Vamos outra, vamos. Eu deixo você jogar com as vermelhas.
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O baseado acontecedor é aquele que provoca acontecimentos inusitados. Alfredo fumou um desses e reencontrou um amigo que acha que sua mulher está traindo-o.
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ALFREDO ABRIU O ESTOJINHO, olhou, olhou e escolheu o baseado acontecedor. Era uma noite de terça-feira e havia lhe batido uma vontade de fazer algo diferente. Para isso, nada mais apropriado que um fumo acontecedor.
Sim, porque existiam diversas qualidades de fumo, ele sabia disso. Existia o fumo energético, que servia perfeitamente para jogar bola, por exemplo. Existia o fumo musical, ideal para escutar Pink Floyd, Frank Zappa, Renascence, Cristiano Pinho, Érico Baymma… Havia também o namorador, o leitor, o Warner Bros, o bom-dia, o digestivo etc. Bom maconheiro que era, Alfredo sabia das melhores plantações e comprava direto na fonte, controlando assim a exata origem do fumo. Com o tempo, aprendera a catalogá-los, cada um na sua especialidade.
O acontecedor atraía situações insólitas, era essa sua especialidade. Situações nem sempre positivas, é verdade, mas esse era um risco que se corria. Fumo ideal para quem gostava de novidade, e de um certo risco. Pois bem, pensou Alfredo, acendendo o cigarro, vamos ver agora o que é que acontece. Eram sete horas da noite.
Alfredo sentou no sofá e ligou a TV. Já sentia o efeito do fumo, os sentidos e o raciocínio prolongando-se além dos próprios limites, descortinando novos horizontes de possibilidades. Procurou algo nos canais, zap-zap, mas não encontrou. Então pegou o jornal, começou a folhear. No caderno de variedades, entre as mesmices de sempre, encontrou algo curioso: uma palestra sobre astrologia cármica.
– Mas que porra é essa?
Meia hora depois lá estava Alfredo no Olimpo Center, ficava pertinho de sua casa. Sala 14, no fim do corredor. Escolheu uma cadeira nos fundos da sala e sentou-se, observando as pessoas. Um bando de esotéricos malucos, pensou, desses que conhecem profundamente os segredos da vida e principalmente da morte. Esse povo que à noite sai do corpo para ajudar desencarnados a deixar de vez o corpo físico. Esse povo que alardeia suas vidas passadas como quem exibe conquistas sexuais ou fala do carro novo. O fumo acontecedor o fizera ir a uma palestra sobre astrologia cármica, fosse lá o que isso significasse, em plena noite de terça-feira. Agora era relaxar.
Mas que nada. Não suportou a palestra muito tempo. Como é que em pleno século 20, ele se perguntava, ainda havia pessoas que se deixavam influenciar pelos astros? Então levantou e saiu da sala. No corredor, parou para beber água.
– Fala, Alfredo! Tá lembrado de mim?
Pronto, gente conhecida. Numa palestra de astrologia cármica. Ô mundo pequeno.
– Ahnn… Plínio.
Era o Plínio, amigo da faculdade, uns dez anos que não se viam.
– Não sabia que você se interessava por esses assuntos.
– Na verdade, não muito – disse Alfredo, enxugando a boca com a manga da camiseta.
– Dois amigos que se encontram. Anos sem ser ver. Numa palestra de astrologia cármica. O que é que isso quer mostrar, heim?
– Não sei. O quê?
– Então, tô dizendo. O que é que isso quer mostrar, heim? Quer mostrar que isso é um Acontecimento. Com A maiúsculo. A… contecimento – repetiu Plínio, desenhando no ar a letra A.
– Entendi.
Plínio sempre gostara daqueles temas. Pelo jeito, continuava o mesmo, ingênuo e acreditando em tudo. Em tudo que não existia.
– Já tá saindo, Alfredo? Eu também. Tá indo pra onde?
– Tomar uma cerveja.
– Tem um bar aqui na esquina.
– É lá mesmo.
– Vou com você. Eu já vi essa palestra.
– Já?
– Sete vezes.
Chegaram no bar, sentaram e pediram uma cerveja. Enquanto Plínio enchia os copos, Alfredo admirava a bunda de uma mulher que levantara da mesa vizinha. Foi quando escutou Plínio comentar algo.
– Desculpa, cara, o que é que tu falou?
– Sexo anal, Alfredo.
– O que é que tem?
– Não é recomendável, sabia?
– Ora, e por quê?
– Infesta o mundo astral. O astral fica que é um fedor só.
– Que papo, Plínio… Só se for os que tu anda pegando por aí.
– É sério. Se quiser, lhe mostro um livro que explica isso.
– Depois. Tô com muita coisa pra ler.
– Então um brinde pra comemorar.
– Ao nosso encontro.
– E também porque Plutão está mais próximo do Sol que Netuno.
– Não sabia. Está, é?
– Está.
– Ora veja. Então precisamos mesmo comemorar – Alfredo ergueu o copo. Comemorar que Plutão estava mais próximo do Sol. Isso sim era um pretexto.
Soubera um tempo desse que o Plínio terminou casando com a Nisa, a gostosa da Letras. A mais gostosa e também a mais danadinha de todas as meninas do Centro de Humanidades. Grande Nisa. Pensando bem, até que os dois tinham algo a ver, o Plínio sempre fora chegado em astrologia e a Nisa botava tarô nos intervalos, cobrava cinco pilas, lembrava bem. Tinha uns peitões maravilhosos, grandes e filantrópicos – ela os oferecia em decote todos os dias, como numa bandeja, generosíssimos. A sabedoria popular, aliás, juntando seus dotes físicos e espirituais, alcunhou-a oportunamente Peitonisa. Pois bem, a Peitonisa casada com o Plínio. Que coisa. Bem, melhor deixar de pensar na mulher do amigo.
– Mas por que Plutão está mais próximo do Sol que Saturno? – perguntou Alfredo. Quase dissera peitão em vez de Plutão.
– Saturno não, Netuno.
– Netuno.
– Por causa de sua órbita. É mais elíptica – explicou Plínio, gesticulando a órbita de Plutão. – Entendeu? Mais elíptica, ó… – e repetiu o gesto. – Faça aí pra ver se entendeu mesmo.
– Entendi, pode continuar.
– Isso faz com que às vezes Plutão se aproxime mais do Sol que Netuno, que normalmente está mais próximo.
– Ahh.
Uma vez, aconteceu. A Nisa lhe concedera o prazer de chafurdar o rosto entre os peitos dela, por trás da cantina da faculdade. Ficou maravilhado, que nem menino em parque de diversão que não sabe qual brinquedo escolher. E só não chegaram às vias de fato porque tinha gente por perto. Então o curso terminou e nunca mais teve outra chance. Nisa e seus peitos impossíveis sumiram de sua vida. Essa era a grande falha de seu currículo universitário. Reprovado em Introdução a Peitonisa.
– Mas por que brindar a isso? – perguntou Alfredo, afastando as lembranças. Estava pensando muito na mulher do amigo, que coisa feia.
– Ora, porque essa situação só vai durar até 1999. Um nove nove nove.
– Que situação?
– Plutão estar mais próximo do Sol que Netuno. Começou em sete nove e vai até nove nove.
Não mudara nada. Era o mesmo chato de antigos tempos, com seus planetas, suas órbitas, a simbologia, aquele jeito de explicar as coisas. Tomaria três cervejas com ele, divertiria-se um pouco com suas histórias mirabolantes e pronto, depois iria para casa rastrear alguma coisa na tevê e fumar o velho dorminhoco. O acontecedor já fizera sua parte: encontrar o Plínio depois daqueles anos todos era realmente um acontecimento. Um Acontecimento. O Plínio às vezes se tornava um pouco chato, é verdade, mas também era um sujeito engraçado.
– E o que é que tem de tão importante numa coisa dessa, Plínio?
– Você não percebe?
– Perceber o quê?
– Isso são as férias de Plutão. Plutão vai à praia.
– Ahhhh…
Plutão vai à praia. Alfredo imaginou o planeta Plutão de calção e chinelas havaianas, segurando uma boia, o jornal debaixo do braço.
– Vai, por que não? Os deuses também têm direito a férias.
– Sem dúvida.
A mitologia! Esquecera da mitologia greco-romana. Quantas vezes, no intervalo das aulas, o Plínio o puxara para falar das eternas confusões que Mercúrio aprontava, e de como Juno descobriu que a ninfa Eco favorecia as infidelidades de Júpiter ao distraí-la com longas histórias, e, por isso, Juno a puniu, condenando-a a não mais falar sem que fosse interrogada e a só responder às perguntas com as últimas palavras que lhe fossem dirigidas. Daí seu nome, Eco.
– Quando Plutão vai à praia, sabe o que acontece?
– Juro que não sei, Plínio.
– Plutão é irmão de Júpiter e Netuno, todos filhos de Saturno, o deus que devora seus filhos. Eles se rebelam contra o pai e dividem os reinos. Júpiter fica com o Céu, Netuno com o Mar e Plutão com o Inferno. Plutão é o deus do Inferno, lugar pra onde vão todas as almas depois da morte, pra serem julgadas. Pois olha só: quando Plutão tira férias, o Inferno vira uma bagunça: falta funcionário, o serviço acumula, o barqueiro que faz a travessia do rio cobra mais caro, morto volta porque não tem ninguém pra receber, é uma confusão. O que é que isso quer dizer, heim? Quer dizer que…
– O que quer dizer?
– É isso que eu tô dizendo. O que é que quer dizer? Quer dizer que mesmo que você morra, corre o risco de não poder entrar no Inferno. Aí o que é que acontece?
– O que acontece?
– Deixa eu dizer, você é muito impaciente. O que é que acontece, heim? Acontece que muitos que morrem ficam por aí vagando, sem saber pra onde ir, alma penada zanzando de lá pra cá… – e ele mostrava com as mãos como as almas penavam, de um lado para o outro – Todas esperando que Plutão volte de férias e reorganize o Inferno pra poder enfim recebê-las.
– Pros romanos não havia paraíso depois da morte?
– É que o Inferno tem várias partes. Olha só, vou explicar. A primeira parte é o Érebo, onde tem um rio tenebroso chamado Cocito, feito das lágrimas dos maus. Caronte, o barqueiro do Inferno, é o encarregado de levar as almas ao julgamento, no Campo da Verdade. Mas Caronte se recusa a levar as almas dos que não tiveram sepultura, e então eles vagam pela margem do rio a implorar por cem anos até que o barqueiro canse de recusá-los.
– Que coisa horripilante.
– Muitíssimo. Depois vem o Inferno dos maus, um lugar absolutamente terrível, pra onde vão os condenados. Tem rios de lava, pântanos lamacentos e fedorentos, lagos gelados onde as almas são mergulhadas e outras barbaridades. Depois vem o Tártaro, onde fica o palácio de Plutão e a prisão dos antigos deuses expulsos do Olimpo. Por último vêm os Campos Elísios, o paraíso.
– E quem julgava os mortos?
Até que aquele assunto não era assim tão desinteressante, pensou Alfredo. Ou então era o fumo acontecedor que o deixara mais paciente com as doidices do outro…
– Três juízes: Éacos, Minos e Radamanto. Quem é condenado vai pro Inferno dos maus. Permanece lá o tempo que for necessário. O que é que isso tudo significa, heim? Significa… Peraí, deixa eu falar, significa que durante esses vinte anos em que Plutão saiu de férias, muita alma ficou penando por aí pelo meio do mundo. Isso é muito sério.
– Sério mesmo?
– Sério mesmo.
– Tu viu alguma?
– Eu não vejo espírito, mas minha mulher vê. Casei com a Nisa, que fazia Letras, lembra dela?
‒ Eu soube ‒ Alfredo respondeu com a expressão mais neutra que lhe foi possível.
‒ Pois foi. Uma noite a Nisa levantou pra beber água e deu de cara com um espírito. Agora esse espírito aparece lá toda sexta, logo na noite em que eu dou plantão na empresa.
‒ E aí, o que o espírito faz?
‒ A Nisa diz que ele espera ela ir beber água. Por causa disso, pusemos uma geladeirinha no quarto, lá o espírito não entra. Mas mesmo assim, a Nisa tem medo. Por isso, o Elísio está indo lá toda sexta, pra ela não ficar sozinha com esse espírito.
– Elísio?
– É o primo dela.
‒ O primo dorme na tua casa toda sexta? Na noite do teu plantão?
‒ Sim. Ele é de confiança, e não tem medo de espíritos.
Alfredo tomou um gole e lembrou… Um dia, alguns anos antes, encontrara a Nisa no shopping. Continuava gostosa, os mesmo peitos se oferecendo para o mundo. E já estava casada com o Plínio. Olharam-se maliciosamente, e ela lhe piscou um olho. Ele ficou muito atiçado, e só não foi lá ter com ela porque estava acompanhado. Porém, naqueles poucos segundos toda a cena lhe passou novamente no pensamento, Nisa subindo a camiseta, os peitões mais desejados da Humanas. Durante aqueles segundos sentiu-se novamente encostado à parede da cantina, sentiu inclusive o cheiro oleoso do velho sanduíche de queijo que sempre comia no intervalo. Peitonisa… Pelo jeito, continuava safada. E agora certamente estava dando para o primo, nas barbas do marido. E o coitado acreditando em espíritos.
– Ô, Plínio…
– Diz. Garçom, mais uma estupidamente.
– Tu que é mais entendido que eu nesses assuntos, me diz uma coisa. Por que essas almas, já que não podem entrar no Inferno, não fazem como Plutão e vão pegar uma praiazinha também? Tanta coisa melhor pra fazer do que ficar assustando a mulher dos outros no meio da madrugada enquanto o marido trabalha…
– Não sei. Acho que elas não podem frequentar a mesma praia dos deuses. Nunca tinha pensado nisso. Vou consultar.
– Faz isso.
– Pode deixar.
– Ô, Plínio…
– Do que é que você está rindo?
– Desculpe – Alfredo não sabia se devia dizer. – Posso ser bem franco?
– Claro. Qual é a graça?
Alfredo coçou a cabeça. Talvez fosse mais sensato não se meter naquele assunto de marido e mulher. Plínio sempre fora um ingênuo, e com mulher era um boboca de marca maior. E casara logo com quem? Com a Nisa. Chapéu de otário era marreta mesmo. Mas, coitado, ele não merecia aquilo.
– Plínio, por favor. Um homem do teu tamanho, querer me convencer de que Plutão sai de férias e vai se bronzear no Sol, e o Inferno vira uma bagunça, e por isso enche de alma penada por aí porque não pode entrar no Inferno? Ô, Plínio…
– Mas é sério! Se quiser, eu lhe mostro um livro…
– E essa história aí, rapaz, da tua mulher com o primo dela…
– O que é que tem?
– Onde já se viu uma coisa dessa, Plínio? O cara ir dormir na tua casa porque tem um espírito perseguindo tua mulher…
– O que é que tem?
– O que é que tem? Não acredito…
– Você por acaso está insinuando que minha mulher e o Elísio…
– Deixa pra lá – Alfredo deu com a mão, impaciente. Não conseguia entender como ainda havia pessoas, dois mil e quinhentos anos depois de Platão, que ainda acreditavam que seus destinos eram comandados pelos deuses.
– Não, não. Agora eu quero que você diga o que está pensando.
– Deixa pra lá.
– Pô, Alfredo, você é ou não é meu amigo? Amigo com A maiúsculo.
– Plínio… – Alfredo segurou o braço do outro. – Desculpe a sinceridade, mas pelo que tu me falou, a tua mulher tá te corneando com esse primo, rapaz! Tu tá levando um baita de um chifre e só tu não percebe. Fica aí com essa história de Plutão saindo de férias…
– Você não acredita, não é?
– Em ti ou na Nisa?
– Nos deuses.
– Plínio, eu…
– Pois eles existem.
– Tá bom.
– Sempre existiram. Estão todos ainda por aí, influenciando nossas vidas, aprontando todos os dias. Nós é que não acreditamos mais, só acreditamos na ciência. Pois eu acredito nos deuses e sei do que eles são capazes. Se você não acredita, lastimo.
– Tá bom, Plínio, respeito tua crença. Mas tu pelo menos podia ir averiguar direitinho a história desse espírito aí. Tá muito mal contada, rapaz, não percebe? Vai lá, conversa com a Nisa sobre isso, mostrar pra ela que tu não é trouxa de acreditar numa armação absurda dessa.
Alfredo respirou fundo. Pronto, falara. Como um homem podia ser tão ingênuo? Se contasse, ninguém acreditaria. E logo com a Nisa… Enquanto o amigo ia ao banheiro, vieram-lhe mais uma vez as lembranças, a cantina e o shopping se misturando. Peitonisa…
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DIAS DEPOIS, ALFREDO estava em casa, era uma sexta-feira, oito da noite. Acabara de fumar novamente do baseado acontecedor. Então o telefone tocou. Era o Plínio. Ele estava no mesmo bar da outra semana e precisava conversar. Pela voz do amigo, Alfredo percebeu que ele estava preocupado. Encontraram-se quinze minutos depois.
‒ Que bom que você veio, meu amigo ‒ disse Plínio, recebendo Alfredo com um abraço. ‒ Vamos sentar naquela mesa do canto. Não posso demorar, hoje dou plantão na empresa.
‒ Ah, sim, hoje é sexta. Mas que cara é essa? O que aconteceu?
– Conversei com a Nisa ‒ ele falou discretamente enquanto sentavam. ‒ Ela me contou tudo.
– Ah… ‒ Alfredo pediu uma cerveja e dois copos.
‒ Não, obrigado. Não posso chegar lá com bafo de bebida.
‒ Claro. Mas e então, eu tinha razão?
– Não.
– Não?
– Não. Ela não tem nada com o primo.
Alfredo olhou sério para o amigo.
– Quer dizer que tu fica trabalhando na empresa a noite toda e o primo dela vai dormir lá na tua casa porque um espírito inventou de toda sexta…
– É Plutão ‒ interrompeu Plínio.
– Heim?
– É ele, Plutão, Senhor do Tártaro.
– Como assim?
– O espírito. É o próprio Plutão. A Nisa está tendo um lance com ele. Ela confessou.
– Com Plutão.
– Com Plutão.
– O irmão de Saturno.
– Filho.
– O deus do Inferno.
– O próprio.
Alfredo suspirou. A coisa era mais séria, bem mais séria.
– E tu, o que é que fez?
– Eu, nada. Vou me meter com um cidadão desse?
– E ela?
– Ela disse que não pode fazer nada, que ele é mais forte que ela, o que é verdade, claro. Sem dizer que ele tem um cão terrível, com três cabeças, dentes enormes e serpentes enroladas pelo pescoço. Cara, eu tenho pavor mortal de cobra. Imagina dar com um bicho desse na minha frente de madrugada.
Alfredo suspirou. Era inútil, o homem era um caso perdido. Um prato de batatinhas fritas pousou no balcão.
– Gosta de molho tártaro, Plínio?
– Não, não. Tártaro não.
– Ah, claro…
Com marido traído, sempre bom ter cuidado com as palavras.
– Plínio.
– Diz.
– Não fica com essa cara, rapaz. A vida é boa.
– Você diz isso porque não é com você.
– Não, eu não tô zombando não.
– Tudo bem.
– Tá com raiva de mim?
– Claro que não.
– Então esta é pelo meu amigo Plínio – Alfredo ergueu o copo e bebeu.
E abraçou o amigo. De repente, sentia compaixão por aquele sujeito que acreditava piamente que os deuses governavam sua vida. Olhando-o, como diferenciá-lo daqueles hominídeos primitivos que se moviam por meros instintos? Não havia diferença. Nele, a humanidade não evoluíra.
– Alfredo.
– O que foi?
– Você não tem medo de espírito, né?
– Não.
– Sabe o que é…
– Pode dizer.
– Você sabe quem é Prosérpina?
‒ Quem?
‒ É filha de Júpiter. Um dia, ela foi buscar água na fonte e Plutão se apaixonou por ela. E a raptou. Os dois se casaram e ela virou rainha do Inferno.
‒ E daí?
‒ Daí que ele talvez deseje fazer o mesmo com a minha mulher.
‒ Raptar a Nisa.
‒ Isso.
Tinha bom gosto esse Plutão, pensou Alfredo.
‒ Andei pensando numa saída para esse problema. Será que você poderia dormir hoje lá em casa?
Alfredo quase engasgou com a cerveja.
– Eu?
– Sim. Talvez Plutão escute você.
– Peraí. Tu quer que eu converse com Plutão?
– Ele veria que você não o teme. E escutaria.
– E eu diria o quê pro deus do Inferno?
– Diria pra ele parar de…você sabe, pra ele deixar de importunar minha mulher. Talvez ele proponha um trato. Você escuta e depois me diz, a gente vê o que pode fazer. Os deuses também negociam.
Era demais, pensou Alfredo. Onde fora se meter? Não, aquilo não estava acontecendo.
– Você faz isso?
– Plínio, tu sabe que eu não acredito nessas coisas.
‒ Não precisa acreditar. É só pro caso de Plutão aparecer. Ah, vamos, você é meu amigo, não é? E minha mulher já está sabendo.
– Tu contou pra ela sobre essa ideia?
– Contei.
– E ela?
– Achou uma boa. Ela disse que você sempre foi um cara compreensivo. No que eu concordo. E eu confio mais em você que no primo dela, que, aliás, não vai lá em casa hoje. Nisa está sozinha.
Alfredo olhou novamente para o copo, refugiando nele o constrangimento que sentia. Seu amigo propondo que dormisse com a mulher para protegê-la das investidas de Plutão, o deus do Inferno, que estava aproveitando as férias para ir lá chafurdar nos peitos da outra. E a mulher do amigo concordava que ele fosse, ele, Alfredo. A Peitonisa. Dessa vez, o fumo acontecedor exagerara…
– Ô, Plínio.
– Diz.
– Que ano terminam mesmo as férias de Plutão?
– 1999. Um nove nove nove.
– Ano que vem?
– Exato.
– E depois?
– Depois ele volta pro Inferno. E só tira férias de novo daqui a 200 anos. Dois zero zero.
Um alvoroço se manifestando no baixo ventre, Alfredo podia senti-lo. Um alvoroço se espalhando pelo resto do corpo, se intrometendo no pensamento. Nisa sozinha…
Mas não, não podia, não era tão cafajeste assim…
– Quer um conselho, Plínio?
– Quero.
– Não mexe com o homem, rapaz. Esse pessoal tem muita influência. Melhor ser corno com espírito do que com gente. Pelo menos a fofoca fica só lá no astral. Tu sabe, né, o pior do chifre são os comentários.
– Você acha? – Plínio coçava o rosto, pensativo.
Alfredo sentia o alvoroço se espalhar rapidamente por seu corpo, por sua mente… Já não conseguia controlá-lo. Um animal enjaulado querendo sair a todo custo. Concentrava-se para falar, mas por dentro era o desejo louco que gritava.
Mas não, não podia fazer isso com o amigo…
– Sim, claro. E além do mais é só um ano, rapaz. Depois acabam as férias de Plutão, ele volta pro batente e esquece a tua mulher. Aguenta mais um pouquinho.
Nisa sozinha…
Não, não, precisava resistir. Melhor deixar aquela história com o tal do primo, mais prudente não se meter na confusão…
‒ Mas… e se Plutão raptar a Nisa? Você tem que ir, Alfredo. Vá, por favor, ela está esperando por você.
A Peitonisa… esperando… Alfredo sentia agora uma imensa coceira pelo corpo inteiro. Um ano… toda sexta… Olhou para o céu, tentando se concentrar nas estrelas, qual delas seria Plutão? Não, Plutão não era visível a olho nu. Ele atuava escondido, nos confins do sistema solar, lá onde a vista não alcançava. A vista… Visa… Nisa…
As grades da jaula enfim se romperam, um estalido que vibrou por todo seu ser. Alfredo virou a cerveja de um gole e bateu o copo na mesa, por pouco não o quebrou. Bem que tentara, disso depois não lhe poderiam acusar, bem que tentara.
– Hoje é sexta, né? – perguntou, virando-se de repente, agarrando o braço do amigo.
– É.
– Então aquele safado do Plutão vai lá hoje.
– Não fale assim, tenha respeito. Ele é um deus.
– Qual é o endereço?
Os olhos do amigo brilharam. Plínio puxou do bolso papel e caneta e anotou enquanto explicava:
– Fica ali na praça Pilos, dá pra ir a pé. No jardim do prédio tem uns ciprestes – Plínio ainda anotava o endereço, mas Alfredo já puxava o papel, ansioso, quase bufando. – Vou ligar agora pra ela avisando que você está indo.
– Ah, isso é importante, isso é importante.
O touro saltou da jaula. Um touro que acabou de cheirar dois quilos de cocaína. Ao lado, Plínio terminava de falar com a mulher pelo celular.
– Sim, amor, ele está indo. Tchau. Também te amo – Plínio desligou e virou-se para Alfredo. – Tudo ok, Alfredo, ela está aguardando.
– Pode deixar – bufou Alfredo.
– Na estante da sala tem um CD de música instrumental, uma lira na capa. O nome é Clássicos de Orfeu. Ponha pra tocar logo que chegar. Se Cérbero estiver com Plutão, somente essa música é capaz de amansá-lo.
– Cérbero? É pra dar porrada nele também?
– Não, é o cão de Plutão. Aquele de três cabeças, com as serpentes no pescoço. Você não tem medo de cobra, né?
– O cão de Plutão, o cão de Plutão – repetiu Alfredo enquanto levantava da mesa. Precisava decorar aquilo tudo. Botar para tocar o CD de Carlos Lira. Clássicos de Cérbero. Não, clássicos de Morfeu.
‒ Confio em você – disse o amigo com emoção na voz. – Sei que vai fazer um bom trabalho.
O touro ciscava a terra, a cabeça baixa, as narinas botando fogo… Nada no mundo importava agora a não ser fazer o que o amigo tanto lhe pedia. E, além do mais, aquela moleza terminaria no ano seguinte, quando findassem as férias de Plutão.
– Esqueci de lhe dizer uma coisa – Plínio chamou-o para perto. Alfredo aproximou-se, ofegante, os primeiros botões da camisa já saltando fora. – Plutão tem um capacete que o torna invisível. Foi presente dos Ciclopes. Mas mesmo sem vê-lo, você pode falar com ele.
– Claro, os Ciclopes. Eu pego eles também. Bajuladores!
Alfredo arrastou uma pata no piso do bar, uma, duas, três vezes, e saiu a toda velocidade. Atravessou a rua correndo e bufando, as patas mal tocando o chão, e sumiu entre os carros. Nem pagou a cerveja.
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COMENTÁRIOS .
01- Eu já li. Adorei. Parabéns. Vânia Cavalcante, Fortaleza-CE – set2010
02- Quase morro de rir lendo. Adorei! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – jul2015
03- Muito bom. Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – set2010
A mãe de Luís Carlos encontrou maconha no armário do filho. Ele prometeu que pararia de fumar e agora o pai quer que ele marque o dia
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– E AÍ, FILHÃO, já marcou o dia? – perguntou seo Tavares, sorridente, dando um leve tapinha na cabeça do filho, como fazem os amigos camaradas.
– Ainda não, pai – respondeu Luís Carlos, terminando a sobremesa do almoço. – Mas não tá longe não.
– Certo, certo… Mas você não acha que esse dia tá demorando muito, meu filho?
– Ah, pai, tem que ser um dia especial, não pode ser qualquer dia.
– Tá certo, tá certo – concordou seo Tavares. – É mesmo um dia especial. Mas não demore muito. O tempo costuma enterrar as decisões que a gente toma e demora a realizar.
– Beleza, pai.
Luís Carlos limpou a boca no guardanapo, pediu licença e levantou-se, tinha que voltar à loja. Beijou a mãe e o pai e saiu para o ponto de ônibus. No caminho para o trabalho ia pensando no absurdo da situação. O pior é que não tinha ideia de como sair da enrascada.
Tudo começara naquela noite de segunda-feira. Ele chegou da loja à noite, tomou banho e jantou normalmente com os pais. Não desconfiou de nada. Depois do jantar foi ao quarto, tendo antes o cuidado de fechar a porta. Abriu o guarda-roupa, foi na última gaveta e retirou a velha caixinha de madeira. E levou um susto: não havia nada na caixinha. Puta merda, cadê a parada?, pensou enquanto procurava por entre as cuecas e as meias. Nada. O fumo havia sumido. Por um instante, imaginou que houvesse deixado em algum outro lugar. Mas não, era ali mesmo que guardava, sempre foi. Sentou-se na cama e remoeu o pensamento atrás de alguma pista. Foi nesse instante que dona Leonor bateu na porta.
– Filho, a gente pode conversar um pouco?
Ih, sujou…, ele pensou, já imaginando tudo. Abriu a porta e a mãe entrou. E contou que fora procurar um par de meia do marido no guarda-roupa do filho quando se deparou com aquela caixinha.
– E o que a senhora fez com o que tava dentro, mãe? – Luís Carlos queria saber.
– Meu filho, você não jurou pra mim e pra seu pai que tinha parado com esse vício?
Luís Carlos sentiu o coração gelar, aquilo não podia estar acontecendo, que merda… Vamos, Luís Carlos, pense rápido, vamos… Precisava encontrar um meio de se safar de mais aquela. Mas agora a coisa era séria: ela havia descoberto a parada e não adiantaria dizer que não era dele, que não sabia que diabo aquilo fazia ali em seu guarda-roupa. Não dava mais para continuar nas velhas desculpas.
– Meu filho, você é um menino tão bonito, inteligente. Tem um emprego bom, tem pais que adoram você… Maconha é coisa pra marginal, meu filho, e você não é marginal. Ô, Luís Carlos…
Dona Leonor já ameaçava chorar. Era preciso pensar rápido.
– Mãe, o que a senhora fez com a…
– Você nunca pensou que um dia pode ser preso, meu filho? Ô, Luís Carlos, isso é uma coisa tão triste…
– Desculpe, mãe. Mas não chore não, tá? Não chore que dessa vez eu prometo que vou parar. Dessa vez é sério.
– Você jura, meu filho?
– Juro pelo meu glorioso alvinegro.
– Ah, Luís Carlos, isso não é jura que se faça! Jure por uma coisa séria.
– Mas mãe, você quer coisa mais séria que…
– Seu glorioso foi rebaixado. Não vale mais nem jura.
– É, mas a senhora viu que naquela última partida…
– Não mude de assunto.
Ele calou-se. Dessa vez a situação extrapolara. Tinha que dizer algo certeiro. Mas o quê?
– Está bem, mãe, está bem.
Vamos, Luís Carlos, pense em algo, pense.
– Está bem, mãe.
Isso, continue.
– Ok, mãe, ok.
Algo mais criativo, Luís Carlos.
– Eu lhe peço desculpas, mãe, pela tristeza que eu possa estar lhe causando. Desculpe, viu?
Bom começo. Continue, está indo bem.
– Olhe, mãe, eu vou ser sincero com a senhora…
Essa era sempre uma boa frase. Boa para ganhar tempo. Mas perigosa, porque agora tinha de ser sincero mesmo.
– Isso é só uma fase, mãe. Eu sei que é só uma fase e que um dia vai passar. A senhora não pensa, por acaso, que eu quero passar o resto da minha vida fumando maconha, né? Isso não tem cabimento. Um dia eu sei que isso vai perder a importância e eu vou parar, eu sei disso, do fundo do meu ser.
Ele percebeu um leve brilho de esperança no olhar da mãe e isso o animou a continuar:
– Eu só preciso de um tempo, mãe. Lembra quando eu tomava aqueles porres de rum todo fim de semana e ficava passando mal, acabado no sofá? Lembra, né? Foi uma fase braba. Mas passou, não foi? Da mesma forma agora, mãe. Eu sei que um dia eu vou olhar pra um baseado e dizer assim pra ele: Quer saber de uma coisa, meu chapa, não tô mais a fim de fumar você não. E aí acabou, não fumo mais. Acabou.
Bela argumentação. Digna de um tribunal. Às vezes se surpreendia consigo mesmo. Bem que o pai tentara fazê-lo advogado, herdar o escritório, ele é que não quis. Dona Leonor olhou para o filho e o abraçou emocionada. Luís Carlos sentiu-se aliviado. Teria sido perfeito se o pai não surgisse à porta do quarto.
– Tudo bem, filho, mas se você quer mesmo parar, então precisa levar a coisa a sério e marcar logo a data.
– Marcar a data? – Luís Carlos soltou-se da mãe, surpreso.
– Claro. Marque a data que no dia eu prometo que faço uma grande festa.
– Festa? – Luís Carlos tentava ganhar tempo. – Festa?
– Claro. O pai não fez uma grande festa pro filho pródigo que voltava ao lar? Então a gente também vai fazer uma.
– Ahnn… Não, não, pai. – Aquele papo estava ficando estranho. – Esquece esse negócio de festa. Acho que não pegaria bem.
– Ô Tavares, eu também acho que isso…
– Deixe comigo, Leonor. – O pai, do alto de sua convicção, acenou para que a esposa não se metesse. – Eu insisto, meu filho. Você faz sua parte e eu a minha. Amanhã mesmo vou comprar a cerveja. Vamos tomar um porre pra comemorar. Pode chamar todos os seus amigos.
– Chamar… os meus amigos? Ahnn… eu…
– Você só precisa dizer o dia.
– Que dia, pai?
– Que dia, Luís Carlos? O dia que você vai parar de fumar droga. Não é disso que estamos falando?
– É… mas… também não precisa… marcar um dia.
– Como não precisa? Quando a gente vai casar, a gente marca o dia do casamento, não é?
– Eu não vou me casar, pai – disse Luís Carlos, se sentindo perdido e ridículo.
– Você quer ou não quer parar?
Luís Carlos respirou fundo. Já havia ido longe demais, não dava mais para voltar.
– Quero – ele respondeu, desesperançado, não vendo a hora de ficar sozinho.
– Então? É só marcar o dia. Sexta-feira está bom?
– Sexta?!
– Sim, sexta.
– Esta sexta?
– Sim, esta sexta.
– Ahnn… Vou pensar, pai. Prometo.
– E precisa pensar numa coisa simples dessa, Luís Carlos? Não é, Leonor?
Dona Leonor apenas olhava para o filho, acariciando-lhe a mão.
– Não gostou do dia? – prosseguiu seo Tavares. – Então no sábado.
– Não, sábado é o aniversário do Foca.
– Ah, o aniversário do Foca. Ele não pode fazer no domingo?
– Tavares, não pressiona o menino!
– Então semana que vem.
– Semana que vem tem o feriadão, pai, eu vou viajar com a galera. Olhe, pai, deixe eu…
– Então quando, meu filho? Quando?
Luís Carlos podia perceber que o pai se esforçava por parecer compreensivo e camarada. Soava um pouco artificial, mas reconhecia que poucas vezes na vida vira o pai tão cordial e paciente.
– Pai, vamos fazer o seguinte… Me dê um tempo pra pensar. Não quero marcar um dia qualquer e quando chegar esse dia eu não estar preparado pra tomar uma decisão importante assim. Quero fazer a coisa direito, o senhor entende?
– Seu pai entende sim, meu filho – disse a mãe, tomando a vez. – A gente só quer que você pense bem no que é melhor pra você e sua família, tá? Não é, Tavares?
– Por mim, a gente marcava logo esse dia e…
– Seu pai concorda comigo, meu filho.
Então ficaram combinados. Luís Carlos pensaria num dia para parar de fumar maconha e avisaria aos pais.
Quando eles já deixavam o quarto, Luís Carlos pediu para falar a sós com a mãe.
– Por que só com ela?
– Sai, Tavares. Deixa eu conversar com o menino.
Dona Leonor empurrou o marido para fora e fechou a porta. Luís Carlos pegou a mãe pela mão e a levou até o outro lado do quarto, longe da porta, e falou baixinho:
– Mãe, o que a senhora fez com aquela parada?
– Com o quê, filho?
– A maconha, mãe. O que é que a senhora fez?
– Ah, Luís Carlos, eu fiquei apavorada, né? Imagina se a polícia descobre uma coisa daquela aqui em casa, imagina a vergonha pro seu pai…
– Mas e aí, o que a senhora fez? Enterrou no quintal?
– Joguei no aparelho.
– No aparelho?
Luís Carlos ainda pensou em correr para o banheiro.
– E dei descarga. Três vezes.
Luís Carlos fechou os olhos. A última esperança fora embora. Pelo esgoto. Ele sentou na cama.
– Pô, mãe, isso é caro, mãe, isso é caro… – foi tudo que encontrou para dizer, balançando a cabeça, sem acreditar.
Um ano depois, lá está Luís Carlos lendo jornal na sala.
– E aí, filhão, já marcou o dia? – pergunta seo Tavares, com toda a naturalidade que consegue.
– Ahnn… Que dia, pai?
– O dia, meu filho…
E o pai, dando uma de moderninho, junta o polegar e o indicador no gesto típico, como se fumasse um baseado, os dedos indo e vindo da boca em biquinho. Mas com todo o mau jeito possível de um pai que nunca sequer viu um cigarro de maconha na vida.
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Pais maconheiros e filhos caretas. Isso pode dar certo?
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TARDE DE SÁBADO no shopping. Na saída do cinema, Rosinha escutou seu nome:
– Rosinhaaaaaaaaa!!!
Era a Neusa, amiga das antigas, anos e anos que não se viam. Rosinha cutucou o marido.
– Olha só, Roberto! A Neusa e o Charles. Lembra deles?
– Será que ainda são muito chatos?
– Pelo menos se comporte. Eles sempre gostaram muito de você.
– Como é mesmo o nome dos filhos deles? São uns nomes assim bem babacas…
– Oi, Neusa! Quanto tempo!
Abraço para cá, abraço para lá, como vão as coisas, e os meninos, cadê o resto da turma. Neusa propôs sentarem um pouco, tomar um chope. Sentaram, pediram os chopes e lembraram os velhos tempos. Charles lembrou um carnaval em que ele e Roberto saíram de mulher pela rua e um sujeito quase os atropelou. Apesar de não terem se ferido, decidiram ir à delegacia prestar queixa e os policiais simplesmente não conseguiam levar a sério a situação, um vestido de odalisca e outro de coelhinha com cenoura e tudo.
– Hoje, com essa barriga aí, Roberto, você ia ter que sair no bloco das grávidas.
– Verdade, Charles. Tô com mais barriga, mas em compensação tô com menas bunda…
E Roberto riu, satisfeito e vingado com a própria piada.
– E os meninos, Neusa? – quis saber Rosinha. – Já devem estar grandes, né?
– Enormes!
– Como é mesmo o nome deles? – perguntou Roberto.
– Charles Junior e Anna Priscylla.
– Isso mesmo – falou Roberto, tentando se manter sério. – Anna com dois enes, né?
– Dois enes, um ípsilon e dois eles.
– Dois enes, um ípsilon e dois eles – repetiu Roberto. –Bem original. Mas o ípsilon é no lugar do primeiro i ou do segundo i?
– Do segundo.
– Bem pensado – Roberto falou, esforçando-se para não parecer irônico. – No lugar do primeiro ficaria estranho.
– Ela tem treze, e ele quinze.
– Nossa, como o tempo passa, Neusa… – comentou Rosinha. – Peguei os meninos no colo.
– E vocês?
– Eu e Roberto decidimos não ter filhos. Mas temos dois gatos maravilhosos, a Xana e o Xexéu.
– Xexéu? Isso é nome de gato? – perguntou Charles.
– E Charles Junior? – perguntou Roberto.
– Que é que tem ele? – perguntou Charles.
– Já decidiu o que vai ser? – Rosinha perguntou.
– Ainda não. O negócio dele é computador. Se deixar, passa o dia lá.
Duas rodadas de chope depois, Charles inclinou-se para o centro da mesa e jogou a indireta:
– Mas por falar nisso, e vocês, ainda curtem um… – e fez o tradicional gesto, juntando os dedos indicador e polegar.
– Não acredito! – respondeu Rosinha, surpresa. – Vocês ainda fumam maconha?! Nós também!
– Psiu, Rosa! – reclamou Roberto, beliscando a mulher. – Quer que o shopping todo saiba?
– Fumamos, sim. Não como naquele tempo, né, que ali também já era exagero. Mas vez em quando o Charles consegue uma coisinha. Vocês não estão a fim?
Pagaram a conta e rumaram todos para o apartamento de Neusa e Charles.
– Psiu! Os meninos já podem ter chegado – avisou Charles, abrindo a porta do apartamento. – Esperem aqui na sala que eu vou conferir.
E sumiu apartamento adentro, pisando no chão de mansinho, pé ante pé. Voltou logo depois.
– Ainda não chegaram, dá tempo a gente fumar – Roberto comunicou, falando baixinho. – Entrem, entrem, fiquem à vontade. Eu vou buscar.
– O Charles deixa logo os cigarros apertados – explicou Neusa, sussurrando. – É mais prático, né?
– E por que a gente tá falando tão baixo se não tem ninguém no apartamento? – perguntou Roberto.
– Dá pra escutar tudo do corredor. Se os meninos chegarem, eles escutam direitinho.
– Pronto, vamos lá – falou Charles, voltando com o baseado.
– Vamos fumar na varanda? Tem uma vista boa.
– Não, não, Roberto – respondeu Neusa. – A gente fuma na área de serviço. É aqui, vem.
Neusa foi na frente, seguido por Rosinha, Roberto e Charles.
– Área de serviço? Por quê?
– Porque dá pra gente escutar o barulho do elevador chegando. Se os meninos chegarem, a gente sabe logo e dá tempo apagar.
– E a gente vai fumar assim, em pé, no meio dessas roupas todas penduradas?
– Roberto! – Rosinha cutucou o marido. – Pare de reclamar, que coisa feia…
– Lá em casa a gente fuma na varanda, olhando pro parque…
– Roberto!
Roberto calou-se. A baseado dado não se olha os dentes, pensou enquanto analisava o ambiente ao redor. Havia dois lençóis pendurados, três cuecas, uns sutians e uma camisa do Ferroviário Atlético Clube.
– Só uma perguntinha, Neusa… – ele falou, entre uma e outra tragada. – Os meninos são caretas?
– São.
– E eles não sabem que vocês fumam?
– Sabem sim.
– Mas então… Por que essa paranoia toda?
– Eles sabem mas fingem que não sabem.
– Como assim?
– Desde pequenos eles sabem que a gente fuma, mas não gostam. E nem tocam no assunto.
– E a gente finge que não sabe que eles sabem – completou Charles.
Roberto não se aguentou. Explodiu num riso incontido, tossindo fumaça para todo lado. Rosinha o cutucou mais uma vez. Aquilo era demais, pensava Roberto no meio do riso. Como uma família podia ser tão paranoica? Os filhos fingiam que não sabiam que os pais fumavam maconha e os pais sabiam que os filhos sabiam mas também fingiam que não sabiam. Era demais…
– Quer dizer que eles não dizem nada? – falou Roberto, conseguindo enfim uma trégua com o próprio riso.
– Até dizem – respondeu Neusa. – Mas indiretamente. Por exemplo, quando passa notícia sobre droga na tevê, eles dizem: devia era prender esse bando de maconheiro sem-vergonha!
– Sério?! – e Roberto explodiu novamente em gargalhada, trégua desfeita.
– Roberto! – ralhou Rosinha, envergonhada diante do marido que se contorcia entre os lençóis, se equilibrando para não cair.
– E vocês, não respondem nada? – ele ainda encontrou forças para perguntar.
– O Charles faz que não escuta. Mas eu concordo, digo que tem mais é que botar tudo na cadeia mesmo.
– Mas você não sabe da melhor – prosseguiu Neusa. – Dia desses a gente descobriu como é que eles se referem à gente e aos nossos amigos que também fumam.
– Como é? – quis saber Roberto, já pressentindo que vinha mais coisa.
– “Os revolta”.
– “Os revolta”?
– Sim. Quer dizer os revoltados da vida. Engraçado, né? Vocês querem uma pastilha?
Pronto. Roberto não mais conseguiu se controlar e caiu no chão da área de serviço. Ainda tentou se segurar num lençol, mas terminou quebrando o cordão e as roupas todas despencaram por cima deles, derrubando-os. Enquanto Rosinha pedia desculpas e tentava ajudar Neusa a se levantar, Roberto rolava de rir pelo chão, as lágrimas escorrendo. E uma cueca na cabeça.
– O elevador! – avisou Charles. – São eles! Vou pegar o aromatizador.
– Levanta, Roberto, tá sujando a roupa lavada.
– “Os revolta”… – Roberto segurava a barriga enquanto a mulher tentava livrá-lo dos lençóis. – É demais…
Anna Priscylla e Charles Junior abriram a porta da sala e entraram.
– Oi, pai! Oi mãe!
Neusa correu para a sala, para encontrar os filhos. Charles chegou depois, acompanhado de Rosinha e Roberto.
– Meninos, esses são dois velhos amigos da gente, a Rosinha e o Roberto. A gente se encontrou no shopping e eles vieram pra conhecer vocês.
– Mas como cresceram! – exclamou Rosinha, impressionada.
– Oi, Charles Junior… Oi, Anna Pris… – tentou falar Roberto. Mas não se aguentou e caiu novamente na gargalhada, um acesso incontrolável que o fez se encostar na parede e ir descendo até sentar no chão.
Rosinha puxou-o pelo braço com uma cara horrível. Mas Roberto não conseguia parar de rir. Neusa sorria sem jeito, sem saber o que dizer, enquanto Charles fechava a porta da cozinha para os meninos não sentirem o cheiro. Esses, por sua vez, olhavam meio rindo, meio assustados para o homem que gargalhava e se contorcia no chão.
Por fim, Rosinha conseguiu erguer o marido e, desculpando-se, explicou que ele bebera demais e que já iam, estava tarde, foi um prazer conhecer os meninos…
Somente na rua, já dentro do carro, foi que Roberto conseguiu parar de rir.
– Ai, minha barriga… Há tempos eu não ria tanto.
– Há tempos eu não passava uma vergonha tão grande, isso sim.
– “Os revolta”… Ai, Rosa, é demais. Ainda não acredito nisso. E a cara do menino, você viu, com aquele boné pra trás da cabeça? Tinha mesmo cara de Charles Junior. Que nome horroroso! Como é que se batiza um filho com o nome de Charles Junior?
– Ah, coitado, Roberto…
– Já pensou, Rosa, quando esse menino arrumar uma namorada e ela precisar dizer eu te amo: Eu te amo, Charles Junior… Não, não, é impossível amar alguém chamado Charles Junior. E a outra, como é mesmo? Anna Priscylla. Com dois enes, um ípsilon e dois eles. É mole? E o pai ainda é torcedor do Ferroviário. E fuma tampando o nariz, você viu?
– Vi.
– Que família paranoica! Você viu a cara dos meninos, dois demoniozinhos repressores… Uns tiranos. Qualquer dia vão entregar os pais à polícia, você vai ver: Filhos denunciam pais maconheiros…
– Que exagero, Roberto.
– Como é que um pai e uma mãe chegam a esse ponto, de ser chamado de revolta pelos próprios filhos? Ei, revolta, telefone. Ei, revolta, cadê minha mesada? Pra mim, isso é falta de chinelada, isso sim.
Rosinha teve vontade de rir, mas ainda estava envergonhada pelo papelão do marido. Não podia dar o braço a torcer.
– Minha irmã olhava praqueles pôsteres do Che Guevara no meu quarto e me chamava de revoltado – lembrou Roberto. – Mas chamar os pais de “os revolta”?… É o fim do mundo mesmo. Sua mãe não vive dizendo que o mundo está acabando? Pois taí.
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CRIMES DE PAIXÃO
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Todos os frequentadores do Quais Bar pararam surpresos quando chegaram no sábado e descobriram que o Olimar não aparecera para trabalhar. Afinal de contas, além de se tratar do garçom mais folclórico do boemíssimo bairro da Praia de Iracema, ele era conhecido por Penalidade, alcunha que lhe botaram os clientes por ter faltado ao trabalho uma única vez em vinte anos de profissão – justamente por ter, no dia, defendido de forma magistral uma penalidade máxima na final da Liga de Futebol do Quintino Cunha. A comemoração foi tamanha que à noite não teve condições de trabalhar. Olimar, o Penalidade.
E agora o homem faltava pela segunda vez. Era um acontecimento quase tão histórico quanto o da primeira. Gente se gabava de ter estado no bar na noite em que o Penalidade faltara. Roger Gaciano Jr., o renomado jornalista e frequentador da praia, procurando alguém para ilustrar sua matéria sobre a boemia do bairro, entrevistou quem? O garçom Penalidade, claro. E a entrevista até hoje está lá na parede do bar, plastificada para todo mundo ler.
– O Olimar não veio trabalhar?! Será que defendeu outro pênalti?
– Proponho realizarmos uma assembleia pra mudar seu nome pra Dupla Penalidade…
Especulações correram soltas por toda a noite. Apostas foram abertas, um mês de birita grátis para quem acertasse o motivo da segunda falta do Olimar. Tão carismático o homem que até mesmo sua ausência era uma festa.
Porém, no domingo à noitinha, quando a mulher do Olimar chegou ao bar perguntando pelo marido, começou-se a desconfiar de algo mais sério. Dona Cândida, aflita, menino novo no braço, dizia que ele saíra sábado à tarde e desde então não teve mais notícia. Carlitos, dono do Quais Bar, sensibilizado com a aflição da mulher, propôs organizarem uma comissão para ir atrás de notícia do seu melhor garçom. Dona Cândida não se preocupasse, fosse para casa, ele mandaria um táxi deixá-la e logo estaria tudo bem, o Olimar ia aparecer.
O mistério continuou até segunda pela manhã quando o corpo do garçom Penalidade deu à praia da Barra, já em decomposição. O laudo apontaria afogamento. Ele não sabia nadar, portanto jamais se arriscaria no mar. E o mais esquisito é que estava de roupa – teria caído do píer? Dinheiro e documentos no bolso. No corpo, marca nenhuma de violência. O que poderia ter acontecido?
Penalidade foi enterrado no fim da tarde. Consternação geral. Quase todos os seus clientes se fizeram presentes, inclusive os ocasionais e até mesmo os que lhe deviam e ultimamente evitavam aparecer. A viúva recebeu ofertas de auxílio e pôde constatar como era querido o finado. Um turbilhão de flores acompanhou a descida do caixão e alguém puxou um violão para cantar “Beira-Mar”, de Ednardo, música favorita do Olimar.
No meio do chororô ninguém escutou o Jeová, vulgo Profeta, de dentro de seu casacão preto que havia muito não via sabão, dizer com seu jeito grave e o olhar fixo no caixão que descia:
– Lá se vai o segundo mártir.
Ou se alguém escutou, fez que não ouviu. Já não era fácil aguentar o Profeta nos bares com seus discursos sobre profecias apocalípticas, imagine em enterro.
– Mas o fim não se fez. Ainda restam três…
Apesar de muitos evitarem tocar no assunto, por uma lua inteira não se falou de outra coisa nas mesas dos bares da Praia de Iracema. Os mais inconformados fizeram abstinência etílica de três dias in memoriam. Outros beberam sem parar durante três dias.
Entretanto, ninguém, ninguém se deteve a relacionar a morte do garçom Penalidade com outra ocorrida três meses antes no Le Bombom, um motelzinho humilde frequentado pelas putinhas e travecas de fim de noite. A vítima fora seo Neném, dono do estabelecimento, gentil e pacato senhor de idade. Foi encontrado morto num dos quartos, estirado na cama. Estava nu e com a boca entupida com papel de bombons finos, coisa mais desumana. .
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O detetive Eládio Vieira, como gosta de ser chamado (porém conhecido no submundo do crime por Eládio Ratoeira), trinta e nove de idade e quarenta de baralho, que sempre se gabou de ser um detetive de nível, acordou naquela manhã numa ressaca federal. Não dormira mais que duas horas. Tomou um banho rápido e pegou um táxi para a favela Verdes Mares. Daquela vez exageraram: o pôquer terminara às seis da manhã. E ainda pagou o equivalente a um mês de trabalho ao filho-duma-égua sortudo do Mardônio.
O detetive Eládio Ratoeira (ele que nos desculpe, mas certos apelidos já fazem parte da pessoa) nunca trabalhava nas manhãs de quarta-feira. Naqueles anos todos nenhum caso foi tão importante que justificasse sua falta ao velho pôquer das terças nem ao sagrado sono da manhã seguinte. Porém, ele conhecia dona Iza, a cigarreira, era seu cliente fazia tempo. E não teve como não se sentir abalado quando soube pelo telefone de sua morte naquela madrugada.
Quando terminou de fazer suas perguntas a vizinhos, parentes e amigos da vítima, o detetive Ratoeira rumou para seu escritório, no centro da cidade. Sentado em sua mesa com vista para a Catedral, comparou as informações que tinha e montou sua reconstituição. Dona Iza chega em casa, um pequeno barraco de madeira na favela Verdes Mares, aproximadamente às quatro da manhã. Vem da Praia de Iracema, onde trabalha como vendedora ambulante de balas e cigarros. Meia hora depois o marido sai para a fábrica, deixando mulher e filho no barraco. As primeiras chamas são avistadas logo depois por três homens que jogam sinuca num bar distante cinquenta metros. Socorrem o menino que dormia e retiram o corpo de dona Iza, já carbonizado, que jaz no chão da cozinha.
Ninguém da favela viu nada suspeito, nenhum fato estranho. Apesar de tudo indicar acidente, Ratoeira coçava a nuca sem entender por qual motivo a vítima não conseguira sair do pequeno barraco a tempo.
À noite, foi à Praia de Iracema. Escutou garçons, taxistas e vendedores ambulantes – todos unânimes em afirmar que se tratava de pessoa querida, simpática e generosa, não cultivava inimizade. Às onze, fechou o caderninho e encerrou as atividades. Mas antes de ir para casa deu uma passadinha no Quais Bar, o bar do finado garçom Penalidade, só para molhar o bico numa cachacinha. Reconstituiu as conversas da noite, uma a uma. A mulher não devia a ninguém, não gostava de confusão, era fiel ao marido. Nem crime passional, nem latrocínio e nem vingança. Restava acidente.
Ratoeira coçou a nuca com a ponta do polegar. Alguma coisa lhe dizia que tinha cachorro naquele mato. E sua intuição nunca lhe pregava peças. Por isso lhe botaram o Ratoeira no nome. Por mais que se esforçasse, não conseguira tirar o apelido. Apelido ridículo, dizia ele, Ratoeira é para investigador de polícia, corrupto e camisa manchada de suor. Ele não, ele tinha nível. Trabalhava de detetive porque sempre gostara de investigar, mas era formado em Engenharia. Dava aulas em cursinho pré-vestibular mas seu negócio era desvendar casos. Era tão bom no que fazia que muitas vezes a própria polícia lhe solicitava auxílio. Aliás, foram eles que lhe botaram o ingrato apelido: Eládio Vieira é nome de professor, diziam. Então ficou Ratoeira. Até algumas madames, sempre preocupadas com as saidinhas dos maridos, conheciam-no pelo apelido: Dessa vez eu tenho certeza que ele está me traindo, seo Ratoeira…
Então tomou um gole e olhou para o mar iluminado da Praia de Iracema, descansando a vista. Os vendedores disso e daquilo, os carrinhos de pipoca e as luzes fortes dos postes faziam aquela parte do bairro parecer um parque. Como o bairro pudera mudar tanto em tão pouco tempo? Alguns anos antes, os bares eram meia dúzia e conviviam pacificamente com os moradores. Agora, eram mais de cem, e de pouco adiantavam os esforços da associação de moradores para garantir mais tranquilidade e respeito às famílias que ainda insistiam em morar ali.
De uns moradores, em depoimentos que recolhera, escutou repetidas queixas quanto ao inferno em que se transformara a vida no bairro. Alguns chegaram a dizer que a morte da vendedora podia ter sido fruto da luta por pontos de venda, já não duvidavam de mais nada, os bares haviam trazido muitas pessoas de fora, e com elas, a violência.
Ratoeira já fora assíduo frequentador do bairro e conhecia sua história. Sabia que procedia a queixa dos moradores. Mas sabia também que a vocação boêmia do bairro vinha de longe e que a proliferação dos bares era difícil de ser controlada por envolver muitos aspectos, entre eles a geração de empregos e o turismo cada vez mais forte.
Ele praticamente deixara de frequentar o bairro depois da massificação. Antes, podia-se caminhar pelas ruas à noite, tranquilamente. Podia-se namorar olhando o mar sem medo de assalto, e os frequentadores conheciam-se uns aos outros e mantinham certa cordialidade para com os moradores. Era comum encontrar uma roda de violão na calçada. A boemia continha em si uma boa dose de poesia e amizade.
Mas agora, não. Em lugar de músicos, artistas, poetas e intelectuais, a Praia de Iracema via desfilar por suas ruas bandos barulhentos de mauricinhos e patricinhas, jovens obcecados pela potência do som de seus carros e a etiqueta de suas roupas. Com eles, vieram assaltos, roubos de carro, brigas nos bares, mortes. Traficantes de drogas e jovens brigões de academia também descobriram o filão. Então vieram os turistas, ávidos por consumo. Depois chegaram as prostitutas, por que não haveria um pedaço também para elas? A Praia de Iracema é de todos! – alardeava o slogan da campanha turística.
O detetive voltou para sua quitinete com muitos pensamentos e uma pulga atrás da orelha. Embora se esforçasse para não levá-lo a sério, não conseguia esquecer do Profeta, o maluco que encontrara no Quais Bar aquela noite. Conhecia-o de vista dali dos bares. Era o mesmo bêbado cabeludo de vinte anos atrás, o mesmo casacão fedorento, a mania de rimar as frases, não mudara nada. Ele sentara-se à sua mesa sem pedir licença:
– Sua intuição está certa, seo detetive. O que aconteceu com dona Iza não foi acidente. Mas não adianta um culpado perseguir, pois a profecia vai se cumprir.
Na hora, não atinou para o fato, mas depois sim: como é que ele podia saber a respeito de sua intuição se não falara dela para ninguém? Era só o que me faltava, pensou intrigado, um maluco lendo meus pensamentos. Bem, concluiu, virando-se na cama para dormir, até mesmo os malucos acertam uma de vez em quando…
Dias depois, o laudo do IML saiu com uma conclusão curiosa: não havia indícios de fumaça nos pulmões da vítima. Isso significava que ela morrera antes de começar o incêndio. Mas não concluía sobre a causa. Para isso seria preciso mais alguns dias.
Ratoeira coçou a nuca com o polegar: quer dizer então que dona Iza já estava morta? Teria sido queda ou algo assim? Ou alguém a matara? .
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‒ Ô Garçom, duas cachaças, por favor.
– A minha é dupla.
– Muito bem, seo Jeová. O que o senhor sabe a respeito da morte de dona Iza?
Jeová, vulgo Profeta, de dentro de seu velho e endurecido casacão preto, olhou para o homem à sua frente com um misto de simpatia e desdém.
– O que eu sei é o que está escrito, seo detetive…
Naquela noite, uma semana após a morte de dona Iza, Eládio Ratoeira reencontrara o Profeta pelas ruas da Praia de Iracema e o convidou a tomar um aperitivo, por sua conta. Talvez o maluco tivesse algo de interessante a contar, ele que vivia dia e noite a realidade do bairro. O diabo era ter de aguentar o fedor daquele casaco…
O garçom chegou com as bebidas. O Profeta tomou a sua cachaça de dois goles e então pôs-se a falar da noite, da magia da praia e dos segredos dos bares. Contou histórias do bairro, lendas dos antigos moradores da área, personagens que já não existiam mais. Eládio Ratoeira escutava com atenção, surpreso com a própria paciência. O Profeta andava por ali desde o início da ocupação da praia pelos bares, ele e seu casaco, o cabelo sujo, os dentes estragados e todas as suas histórias esquisitas. Diziam que fora fotógrafo de jornal. Diziam que tivera uma banda de rock nos anos 1970, Punk Froid ou algo assim. Diziam que endoidara por causa de mulher. Não havia quem não o conhecesse, quem já não lhe tivesse pago uma dose de cana.
– Não duvide da realidade, seo detetive. Isso é importante pra sua profissão. Por exemplo, se eu disser que tem alguém sentado nesta mesa com a gente, alguém que veio com o senhor, o senhor duvidaria, né?
Eládio Ratoeira olhou automaticamente para o lado. Quando deu-se conta, irritou-se consigo mesmo e entendeu que já escutara demais, meia hora ouvindo maluquices, onde andava com a cabeça? Então respirou fundo e, botando um pouco de autoridade na voz, falou que já estava tarde e que se o outro não tivesse nada de mais concreto para dizer, então fosse desculpando que ele tinha trabalho amanhã cedo. E pediu a conta.
O Profeta sorriu um sorriso curto de resignação.
– Vou falar na língua que o senhor conhece, seo detetive. Me diga uma coisa. Se o senhor não sabe que eu tenho nas mãos uma quadra de damas, então essa quadra não existe pro senhor, não é mesmo? Não existe porque o senhor não sabe que eu tenho, não é isso? Pois ela existe sim, independente do senhor saber.
O detetive Eládio Ratoeira, quarenta anos de baralho, encarou o Profeta e sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. O maluco sabia que ele jogava pôquer? Então lia mesmo pensamentos?
Por alguns segundos, manteve o olhar fixo nos olhos do homem, procurando alguma pista que indicasse qualquer coisa… Mas a expressão do outro não mudou, permaneceu impassível, o olhar manso e desarmado, tipo do sujeito incapaz de mal algum.
De repente, um gato preto entrou pela porta do bar e aproximou-se da mesa, miando para o Profeta. Ele o pegou nos braços e pôs no colo, acariciando-lhe o pelo.
– O senhor está investigando somente o caso de dona Iza, não é? Pois vou ampliar um pouco mais seu horizonte. É só porque simpatizei com a sua honestidade.
Eládio Ratoeira esperou. Dos braços do Profeta, o gato preto o observava com seus olhos amarelos.
– Olhe, a morte de dona Iza tem dois precedentes. Um é seo Neném, dono do motel, que morreu cinco meses atrás. O outro é o garçom Penalidade, morto faz dois meses. Eu sei que o senhor sabe, eu sei. Mas ainda não ligou os fatos. Os três eram personagens conhecidos na praia, faziam parte da paisagem. Atente pra ironia, homem: o dono do motel, que vendia sexo, morreu na cama. O garçom, que vendia bebida, morreu afogado. E a cigarreira morreu queimada.
– Morreu antes de ser queimada – interrompeu Ratoeira, dando-se conta, um segundo depois, que revelava um segredo de trabalho.
– É o simbolismo que vale. A noite está morrendo por meio de seus personagens. A profecia é desumana, mas é real.
– Que profecia?
– O senhor conhece. Um dia, a noite da Praia de Iracema vai morrer.
Eládio Ratoeira perdeu de vez a paciência. Pagou a conta e levantou-se.
– Pelo que me consta, seo Profeta, e talvez não conste ao senhor, é que foi uma mulher loira, bonita e aparentando vinte e poucos anos, trajando vestido preto, que foi vista na companhia de seo Neném poucos minutos antes dele ser encontrado morto. Nada de símbolo. Foi assassinato e vou provar.
– Então, homem? Pra que melhor simbolismo? Uma loira bonita e cruel, vestida de preto… A cool girl will kill you in a darkened room… O senhor conhece essa música?
Pronto, o maluco sabe inglês, pensou Ratoeira, coçando a nuca.
– O senhor está tão obcecado em descobrir o assassino que não consegue ver o óbvio.
Ratoeira caminhou para a calçada e, enquanto acenava para o táxi, pôde ouvir o Profeta lá na mesa, ainda com o gato preto nos braços:
– Toinho, Tereza, Tarzan… Quem é o próximo de amanhã? .
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Durante os dias que seguiram, o detetive Eládio Ratoeira aguardou com expectativa o segundo laudo sobre a morte de dona Iza. Finalmente, obteve uma informação: os legistas não conseguiam descobrir a causa mortis. Simplesmente, não sabiam.
A segunda conversa com o Profeta repercutia insistente em sua cabeça. Aquela história da profecia sobre a morte da Praia de Iracema era antiga, mas era apenas mais uma das histórias malucas sobre o bairro. O povo ficava fumando maconha nos becos e inventando aquelas coisas. A verdade verdadeira era que seo Neném morrera de ataque cardíaco e a mulher loira fora realmente vista na noite do crime por duas testemunhas. O garçom Olimar morrera afogado e não havia suspeitos. O caso de dona Iza é que era o mais misterioso. As mortes, porém, não tinham ligação entre si, como supunha o Profeta.
De qualquer modo, os casos do garçom e do dono do motel não eram da sua conta. O garçom certamente caíra sozinho do píer, embriagado. E a loira suspeita de matar seo Neném estava sendo procurada pela polícia. Seu problema era a cigarreira, descobrir por que ela não conseguira escapar do incêndio.
Eládio Ratoeira ligou o chuveiro e meteu-se debaixo da água fria. O que precisava era de um bom banho e de uma mesinha de pôquer divertida. Quadra de damas… Quem sabe não seria uma dica para a mesa daquela noite? Bem que podia ser. Descontar o que o Mardônio lhe ganhara da última vez.
Após o banho, vestiu-se rapidamente e foi encontrar o resto do pessoal no Papagaio, o único bar que aceitava receber aquela mesa de pôquer, uma mesa no depósito do primeiro andar, é verdade, mas aceitava. Mesa de cinco, uma garrafa de conhaque, pratinho de amendoim. Do lado de suas fichas, uma foto da Danusa pelada, secretária do escritório vizinho ao seu, era para dar sorte, patuá antigo, ela até já casara. O cacife vale vinte, primeira pausa à meia-noite, mexeu no patuá do outro vale uma advertência, o prêmio é um, dois e quatro cacifes, vamos jogar que o jogo é jogado e tomem cuidado que hoje eu tô invocado…
Ratoeira tentava se concentrar no jogo, mas não podia aparecer uma dama na mesa que logo lembrava da conversa do outro. Como o maluco podia saber que ele jogava pôquer? Será que era por isso que o chamavam de Profeta, tinha o dom de adivinhar coisas?
As três cartas da mesa começaram a ser abertas. Uma dama de espadas surgiu. Precisava se concentrar no jogo.
Toinho, Tereza, Tarzan… Mas até o Tarzan estava metido naquela história? Ratoeira achou engraçado e riu. Precisava se concentrar, estava muito disperso.
A segunda carta da mesa: dama de paus.
Toinho, Tereza, Tarzan… Todos começavam com T. Será que o maluco queria dizer que o nome do próximo a morrer começava com T?
Então, a dama de copas apareceu na mesa. Trinca de damas! Uma exclamação geral percorreu a mesa. Todos se entreolharam, sorrindo maliciosos. Quem tivesse a dama de ouro faria a quadra. Se alguém tinha, sorriu para disfarçar a felicidade. E quem não tinha, sorriu para esconder o medo.
Ratoeira sentia o coração pulando dentro do peito. Ergueu o olhar e, do outro lado da mesa, deu de cara com os olhos desconfiados do Mardônio por trás da fumaça do baseado. Voltou às suas cartas. Ou se concentrava ou então o demônio do Mardônio lhe adivinharia o jogo.
Já havia visto a primeira de suas duas cartas. Era um dois de paus. A outra estava por trás. Faria um pequeno suspense para si próprio. Então, num impulso, dobrou a aposta, ainda sem saber qual era sua segunda carta, uma jogada no escuro. Claro que era arriscado. Não costumava fazer aquilo, mas era o tipo da coisa que podia funcionar como um bom golpe psicológico nos outros jogadores. Tomou um gole do conhaque. Tinha de aparentar calma.
Então Mardônio pôs várias fichas sobre a mesa, dobrando a aposta mais uma vez. E tornou a encará-lo. Os outros jogadores desistiram e sobraram eles dois. Ratoeira, ainda sem ver a segunda carta, pagou a aposta. Alguém assobiou, surpreso.
Ratoeira tentou manter-se tranquilo. A coisa estava ficando séria. Respirou longamente e decidiu finalmente ver a segunda carta. Seu próximo lance dependia dela. Se fosse a dama de ouros, iria com a aposta até o fim do mundo. Tinha que ser a dama. Tinha que ser a quadra. A quadra do Profeta.
Ratoeira deslizou os dedos lentamente, fazendo a pressão exata para que a carta de trás não surgisse de todo. Fazia suspense para os outros e para si próprio. Podia sentir que Mardônio o observava atentamente, pronto para interpretar qualquer mínimo gesto seu. Os outros não ousavam falar nada. Era a maior aposta da noite.
Ratoeira deslizou os dedos mais um pouco. Descobrindo o lado inferior esquerdo, percebeu pelo desenho que a carta era uma figura, não era um número. O coração disparou. Tinha uma trinca de damas já certa e agora aquela carta podia ser a outra dama que faltava. Ou era um rei ou um valete ou uma dama. Tinha de ser a dama de ouros.
Continuando o suspense, descobriu um pouco da parte superior esquerda e a letra começou a aparecer, em cor vermelha, aos poucos, devagarinho, a cor vermelha…
Ratoeira, quarenta anos de baralho, não acreditou no que viu. Por alguns segundos, não conseguiu pensar em qualquer coisa. Depois, imaginou que alguém aprontara alguma brincadeira idiota para cima dele. Mas ninguém ria. Estavam todos sérios aguardando sua decisão.
Ratoeira engoliu seco. Em sua mão estava uma carta que não era rei, nem valete e nem dama. Em sua mão estava um macabro esqueleto sobre um cavalo, empunhando uma foice. E a letra, no canto superior da carta, era um T. Um T vermelho como sangue. .
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Tânia Mara parou em frente ao espelho do banheiro e enxugou os longos cabelos negros. Passou uma escova e jogou-os para trás. E parou para se olhar. Sua experiência como loira durara apenas seis meses, não foi muito proveitosa, poucos aprovaram. Até mesmo Rian, seu gato, estranhou a mudança. Ficava olhando para ela com seus olhos amarelos, olhando como se não reconhecesse aquela mulher loira. Agora seus cabelos eram negros novamente, a cor do seu gato e das roupas que usava, e era confortável reencontrar a velha imagem.
Vivia um bom momento. Os shows estavam acontecendo. Os rapazes da nova banda eram músicos competentes, e juntos faziam um bom trabalho. A noite aos poucos tomava conhecimento de Tânia Mara. Ah, a vida devia ser sempre assim, ela falou para a imagem no espelho, cantar blues e viver as emoções. De preferência, bem fortes, meu bem.
Deu uma última olhada no corpo nu refletido, o corpo que assumidamente usava como arma, nos palcos e na vida. Pôs duas gotas de perfume nas mãos e passou na nuca e no colo. Apalpou os seios. Olhou-os de perfil. E vestiu uma camiseta preta, que lhe desceu até metade das coxas. No espelho, viu seu rosto ao lado do de Jim Morrison, refletido do pôster da parede de trás. Antes de deixar o banheiro e dirigir-se ao quarto, beijou-o na boca pelo espelho.
– Você não me engana, cara. Sei que está vivo. Um dia a gente se encontra.
No toca-disco da sala, era ele, o Rei Lagarto, quem cantava: If you give this man a ride, sweet family will die… Killer on the road… Tânia Mara fechou os olhos, escutou a música e respirou fundo. Mordeu o lábio. Eu resisto a tudo, meu bem, menos às tentações… No quarto, pegou a garrafa de Jack Daniel´s na mesinha de cabeceira e foi para a sala. Parou na porta, segurando a garrafa e olhando para o homem sentado no chão encostado no sofá. O relógio da parede lhe dizia que demorara vinte minutos no banho. Vinte minutos para o que ele terá é pouco…, ela pensou, sorrindo.
– Tim-tim… – ela brindou, após servir os copos.
– A você. Desumana Tânia.
– A mim.
Enquanto Jim cantava a mortal carona na estrada, Tânia Mara bebeu um pouco do uísque e olhou para o homem à sua frente. Conhecera-o por ocasião de um show, uma semana antes. Logo que chegou ao bar seus olhares se cruzaram de um modo estranho, e durante o show pôde perceber como ele a olhava com desejo. Cantou o tempo todo excitada, sentindo a calcinha molhada. E fez seu melhor show. Quando saiu do camarim passou pela mesa para chamar sua atenção. A isca funcionou: ele a convidou para um drinque e ela aceitou. Ele elogiou sua voz e as músicas, principalmente “Desumano blues”. Ela gostou do jeito dele, misterioso. Além do mais, ele falou: Você tem o jeito da noite… E isso ficou em sua cabeça, não esqueceu. O jeito da noite.
Rian surgiu de repente, vindo da cozinha, e foi enroscar-se em suas pernas. Ela pôs o gato preto em seus braços.
– Escapou, né, safado? Vem, vamos voltar. Hoje você não pode ficar comigo, entenda…
Ela saiu em direção à cozinha e voltou logo depois.
– Quem é você, Tânia?
– Uma garotinha sortuda sob os holofotes da noite.
– Ou só mais um anjo perdido na noite da cidade?
Ela imitou uma garotinha tímida e desprotegida, brincando com os dedos. Então foi até a estante botar novamente o disco para tocar. Podia sentir o olhar dele em suas costas, deslizando pelos seus contornos. Ele agora vai levantar e vir até aqui…
– Também gosta de Jim Morrison? – perguntou ela, pousando a agulha novamente na última música.
– Gosto mais de Tânia Mara.
A voz dele bem atrás, podia senti-la em seu pescoço.
– Por que você diz que eu tenho o jeito da noite?
– Porque a noite é desumana.
Desumana…, pensou ela, saboreando o que escutara.
– Nada que eu possa evitar, meu bem…
– Você tem futuro, Tânia Mara.
– Eu sei.
– Comigo.
– Com você? Essa parte do roteiro não recebi.
– Se quiser, posso levá-la daqui, exibir sua voz pelo mundo, vivermos uma tórrida paixão. No fim, morreremos de amor em Paris. Na banheira de um quarto de hotel.
– Tentador… Mas os lagartos não morrem em Paris, querido.
Primeiro, foi o braço dele em sua cintura, puxando-a com força. Em seguida, foi a sua boca invadindo a dele, as línguas sem cerimônia. Depois as mãos, a camiseta subindo, rasgando, as mãos em suas costas, em seu pescoço, nos seios, seu corpo nu nos braços dele, no meio da sala. Depois foi o sofá, depois as roupas dele, a urgência, o suor. Depois as estrelas, as estrelas… E os teclados gotejantes de um blues morrendo aos poucos, sob a chuva. Depois, o silêncio. Desumano silêncio.
Meu bem, esta cidade ensurdece E você esquece do que eu tenho pra dizer Meu bem, a noite é desumana Fumando e bebendo sozinha em meu apê…
(Tânia Mara – Desumano Blues) .
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Foi o tenente Trindade, amigo informante na polícia, quem avisou Eládio Ratoeira. Imediatamente, ele pegou um táxi e conseguiu chegar ao apartamento da vítima antes da imprensa, quando a polícia ainda recolhia material e fazia as fotos. Ratoeira conferiu o estrago com os próprios olhos. Viu o corpo nu da cantora, belo e ensanguentado, estirado de bruços no tapete, as pernas abertas, o pescoço rasgado. A polícia já havia recolhido alguns objetos para análise pericial, entre eles dois copos e um disco de vinil partido ao meio com restos de sangue.
– Conhece, Ratoeira? – perguntou o tenente Trindade, mostrando o disco partido.
– “L. A. Woman”. Um crime quebrar um vinil desse.
Ratoeira caminhou pelos aposentos. No mural do quarto viu fotos, bilhetinhos, cartazes de show… De repente, um gato preto surgiu correndo e foi meter-se debaixo do guarda-roupa. Pela ração na cozinha, Ratoeira deduziu que morava com a moça. Tentou pegá-lo, mas o gato saltou e em dois tempos estava no parapeito da janela, olhando para ele. Por um instante, passou-lhe pela cabeça que o bichano podia estar tentando dizer algo, gatos são meio bruxos. Fixou o olhar nos olhos do animal e perguntou:
– Quem foi? Eu sei que você sabe.
O gato, imóvel no parapeito, continuou olhando para ele. E miou.
– Então é este seu método, Ratoeira… Interrogação felina.
Ele virou-se e viu o tenente, parado na porta.
– A vizinha disse que o nome dele é Rian. Em francês quer dizer…
– Nada.
– Exatamente. Ou seja: ele não sabe nada.
Enquanto o tenente Trindade ria, Ratoeira pegou o gato nos braços e o acariciou.
– Não se deve duvidar da realidade… Né, Rian? .
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Eládio Ratoeira sentou no sofá da sala de sua quitinete. Ligou a tevê, mas não prestou atenção. Seu pensamento estava na Praia de Iracema…
Tânia Mara, o nome da moça. Bonita. Vinte e três anos, cantora de blues. Tinha uma banda e os frequentadores dos bares a conheciam. Estava na cidade havia um ano, morava sozinha. Fizera um show na noite de terça e depois não foi mais vista. Quem descobriu o corpo foi o gaitista da banda, dois dias depois. Como ela não havia comparecido ao ensaio nem atendia ao telefone, ele fora até seu apartamento. A porta não estava trancada e ele entrou, encontrando o corpo estendido no tapete.
Tânia Mara… O T da charada, pensou Ratoeira. Cantora da noite. Morreu com o pescoço rasgado por um disco. Indícios de luta corporal, ela certamente resistiu. Mas o assassino era mais forte e a derrubou. Virou-a de costas no tapete da sala, deitando sobre ela. Tapou-lhe a boca com um lenço para que não gritasse. Quebrou o disco ao meio e rasgou-lhe o pescoço. Enquanto a hemorragia a enfraquecia, ele a sodomizou ao som de “Riders on the Storm”…
– Miaaauuu…
Ratoeira despertou com o miado do gato aos seus pés.
– Tá com fome, Rian?
Levantou-se e pôs mais ração no pratinho. Depois, ainda com a cena do crime em sua mente, pegou caneta e papel. E escreveu o nome de todas as vítimas. Primeiro, o dono do motel, que morreu na cama. Três meses depois, o garçom, que morreu afogado. Dois meses depois, a cigarreira, que morreu queimada. Um mês depois, a cantora, morta com o pescoço rasgado por um disco. Nenhum latrocínio. Nem crime passional, nem vingança. Em seis meses, quatro crimes sem sentido. Mas simbolicamente coerentes, como dizia o Profeta. Ratoeira coçava a nuca, pensando se a polícia estaria a par daquela suposta relação entre os crimes. Coincidência ou não, ele já não conseguia deixar de relacioná-los.
Mas como o Profeta sabia que a próxima vítima começaria pela letra T? Ou teria sido apenas um palpite? Ratoeira escreveu o nome das vítimas no papel. Neném, Penalidade, Iza e Tânia, em sequência cronológica. N, P, I e T. Não formavam nada lógico à primeira vista. Tentou algumas combinações, mas nada lhe chamou a atenção. Então percebeu que os dois primeiros eram apelidos. O nome verdadeiro do seo Neném era Nilton, a mesma inicial. Mas o nome do garçom era Olimar.
Substituiu a letra P de Penalidade pela letra O de Olimar. Tinha agora N, O, I e T.
Um relâmpago cruzou o interior de sua mente. Um arrepio percorreu-lhe o corpo de cima a baixo. Ratoeira ficou olhando para o papel, sem acreditar.
A profecia. .
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– Eu sabia que você viria. Quer sentar?
Jeová, o profeta da praia, ele e seu casacão preto e imundo.
– Uma dose de cana pro Profeta – pediu Ratoeira ao garçom.
– Tripla – acrescentou Jeová, grave como sempre. – A moça merece.
– Como você sabia que seria ela?
– Tudo que sei é o que está escrito.
– E o que está escrito?
– Que chegou o fim dos tempos.
– Que mais?
– Que a noite desta praia está condenada.
– Condenada por quem?
O garçom chegou com a bebida. Eládio Ratoeira observou o Profeta erguer o copo cheio de cachaça à altura do nariz, fechar os olhos e cheirar. Ia repetir a pergunta quando o outro abriu os olhos.
– As pessoas dizem que eu sou louco. O que o senhor acha?
– Não acho nada. Quem está tentando matar a noite?
– A noite está morrendo… – prosseguiu o Profeta, entre um e outro gole. – Mas a morte sempre vem, seo detetive. Ninguém sai vivo daqui. A noite dessa praia morre quando abrem um novo bar, por mais estranho que pareça. A noite morre quando esses boyzinhos vêm desfilar suas grifes por aqui, quando as barraquinhas na rua vendem bebida aos menores, quando os próprios garçons fornecem cocaína aos clientes e os taxistas e donos de motéis fazem vista grossa pros turistas e suas menininhas de doze anos.
Ratoeira escutava, seus olhos nos olhos vermelhos do Profeta.
– A noite morre toda vez que alguém é assaltado na esquina escura, quando um carro é roubado, quando brigam os garotões valentes de academia. A noite morre quando a mãe se exaspera ao ouvir o choro do bebê que não consegue dormir por causa do som alto do bar vizinho. A noite morre nas músicas dos carros, nas churrascarias que trazem gente de bairros distantes e que não entende a brisa da praia. A noite morre porque esse é o destino de todos. E a culpa não é de ninguém. Por isso não adianta o senhor procurar o culpado.
– O que fazer então?
– Os dias estranhos nos alcançaram, seo detetive. Seguiram nosso rastro e destruíram nossas alegrias mais simples. Nada a fazer.
– Tem de haver um assassino.
– A Praia de Iracema é de todos… – O Profeta sorriu tristemente, olhando o mar pela janela do bar: – Todos têm direito a uma cota de seu linchamento.
– E você, não tem pena dela? Ou das vítimas?
– Lamento pelos filhos da praia, que tentam perpetuar o que já é passado. Esses amam a noite e morrem com ela. Muitos nem nasceram aqui, mas são feitos da mesma maresia. É ruim se apegar demais ao que vai morrer. Koi-guera.
Ratoeira escutou com atenção. Dessa vez as palavras do Profeta, por mais loucas que fossem, pareciam ter alguma coerência. Ou será que sempre tiveram e ninguém nunca percebera?
– Quem será o próximo?
– O senhor ainda não desconfia?
– A letra E é de Eládio?
– O que o senhor acha?
– Faria sentido. O assassino matou o sexo, a diversão, a droga e a música. Não falta mais nada. Matar quem quer desmascará-lo seria o último passo. O grand finale.
O Profeta escutava, sério.
– Quem matou a cantora foi um homem, eu sei que foi, o mesmo que esteve com ela depois do show, bebendo no bar. Se vários foram os assassinos, então eles estão obedecendo à sequência “noite” nas mortes. Ele ou eles trabalham pra quem?
– O senhor não entende. Quem matou os quatro foram os mesmos que matam a Praia de Iracema, a cada noite, a cada violência. E eles não têm consciência disso, matam por ignorância. Pensando bem, talvez seja melhor acabar de vez com sua agonia. Matar antes que ela morra. Matar por amor – acrescentou o Profeta, bebendo o resto da cachaça e levantando-se da mesa.
– O que vai acontecer quando morrer a letra E?
– Cumpre-se a profecia.
– Como assim?
– Pensei que o senhor já tivesse entendido… É a parte mais óbvia da história, seo detetive.
Sempre que pensava na profecia, Ratoeira sentia-se meio ridículo. Mas já não podia evitar.
– A noite morre… – repetiu o Profeta, saindo em direção à porta. – Nada lhe ocorre?
Enquanto pensava nas palavras do Profeta, Ratoeira puxou a carteira para pagar a conta. Foi quando percebeu que o copo de cachaça do Profeta continuava cheio, do jeito que chegara. Mas ele não havia bebido tudo? .
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Eládio Ratoeira entrou em casa, foi direto ao quarto e deitou-se, os olhos pesando de tanto sono. Precisava de uma noite bem dormida.
Mas… algo estranho estava acontecendo…
Acendeu o abajur e viu Rian, deitado na cama, olhando para ele. Então percebeu que Rian na verdade era uma gata. E estava parindo, exatamente naquele momento, estava tendo gatinhos em sua cama, vários gatinhos saindo sem parar, vários, muitos…
Ratoeira abriu os olhos. A luz do quarto estava acesa. Passou a mão no rosto suado, compreendendo que sonhara. Se as coisas continuassem daquele jeito terminaria precisando de um tratamento. No pôquer do mês anterior vira uma carta com a figura da morte, um esqueleto montado num cavalo, a letra T, que loucura. Terminou jogando as cartas na mesa, indignado com o que pensava ser uma brincadeira idiota dos amigos. Teve que pedir para sair, tão abalado que ficou com a visão da carta. Depois viu o copo cheio de cachaça do Profeta quando, na verdade, vira-o bebendo tudo bem à sua frente. E agora tinha pesadelo com uma gata parindo em sua própria cama.
Tomou um banho frio e depois pegou um pedaço de pizza na geladeira. Comeu sem esquentar. A tevê exibia o clipe da Intocáveis Putz Band tocando o “Manifesto das bem-aventuranças”, todos vestidos feito monges, capuzes, o clima sombrio… Ratoeira desligou, irritado. Aquelas mortes estavam inspirando até mesmo as bandas da cidade.
Olhou para Rian, dormindo no sofá. Estaria sentindo falta da antiga dona? Lembrou do sonho, a gata parindo. O que podia significar? Parto… nascimento… algo importante que virá… Mas o quê? Quando? .
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“No dia 28 de dezembro completam-se nove meses da primeira morte.”
Eládio Ratoeira olhou para a frase que escrevera, pensando em quanto aquilo era estranho. Deixaria um depoimento escrito a respeito de tudo que sabia sobre as mortes, caso algo viesse a acontecer com ele. Na carta, admitia que podia muito bem estar fantasiando mas não podia desprezar o simbolismo de que falava o Profeta.
Podia muito bem dar o caso de dona Iza por encerrado: os legistas finalmente admitiram que havia sim vestígios de fumaça nos pulmões da vítima e, portanto, ela morrera asfixiada, fora um acidente. Mas isso lhe parecera algum tipo de armação, talvez os legistas realmente não tivessem descoberto a causa da morte. E como se tratava de gente pobre e não havia nenhum interesse maior no caso, inventaram tal conclusão.
As outras mortes continuavam sem culpados. A polícia concluíra que o garçom realmente se afogara. Quanto a seo Neném, nenhuma pista sobre a tal loira de preto. Nem sobre o assassino da cantora.
Mas as estranhas mortes viraram assunto indispensável, e frequentavam as mesas da Praia de Iracema todo tipo de suposições, desde as que acusavam ser tudo obra para desviar a atenção das eleições às que denunciavam maquiavélicos planos de empresários dispostos a substituir os bares por hotéis de luxo.
E havia os que reiteravam o que dizia o Profeta: faltava apenas uma morte para que a profecia se cumprisse e a noite da Praia de Iracema morresse de vez. Por isso era preciso aproveitar o que ainda restava, as noites estavam no fim. Bandas compunham músicas sobre as mortes. Nas mesas, os poetas vendiam cordéis de terror. Nas ruas, as camisetas circulavam com os dizeres “Esta pode ser a última noite. Aproveite. Comigo.” Bares pegavam carona na onda e faziam promoções. “ApocaLIP-se!” – assim convocava seus clientes o Lip Bar. Alguns mais supersticiosos vendiam barato seus pontos para evitar prejuízo maior: se não haverá noite, quem irá aos bares?
A noite, porém, ainda estava viva. E naquele 28 de dezembro, exatos nove meses após a morte de seo Neném, Ellen Star faria na Boate Circus a sexta apresentação de seu macabro espetáculo transformista “Mate-me que eu já te matei”, que tratava exatamente de todas aquelas mortes. E era lá que Eládio Ratoeira estaria.
“Nove meses que tudo começou. Sinto que hoje o mistério será decifrado. Tenho que estar lá. Se estou fantasiando, nada acontecerá, e os crimes seguirão sem solução. Mas se estou certo, então alguém morrerá. E talvez eu descubra quem é o assassino.” .
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Era quase meia-noite quando Eládio Ratoeira chegou à boate Circus e sentou-se numa mesa mais ao fundo. Pediu uma cachaça e foi ao banheiro. Aproveitou para observar o ambiente, balcão, cozinha, corredores. A boate não era grande, cabiam ali umas vinte mesas. No canto havia um pequeno palco. Em caso de confusão, a porta principal seria estreita demais para evacuação rápida.
Todas as mesas estavam cheias quando as luzes se apagaram.
– Estão todos aí? – uma voz cavernosa ecoou pela boate. – O espetáculo vai começar.
A cortina se abriu para o primeiro ato. Uma voz feminina cantando ao som de um piano. Você me olha desse jeito… Pensa que eu não sei que você quer me comprar… O cenário de um quarto de motel. Um homem deitado na cama. Uma mulher loira num vestido negro com uma generosa fenda lateral, exibindo suas belas pernas. Mas eu não estou à venda, meu bem… A mulher caminhando devagar até a cama. Ratoeira ajeitou-se na cadeira, impressionado com a beleza da atriz. O que está à venda é seu sonho de ter o que você pode pagar…
Ellen Star foi a loira amante do dono do motel que morria de ataque cardíaco durante um orgasmo. Depois, foi o garçom que se encontrou no píer com o amante de sua mulher, que o empurrou ao mar. Ratoeira demorou a acreditar que Ellen também era o ator que interpretava o garçom. Como alguém podia ser tão convincente como mulher e também como homem?
Em todas as cenas Ellen dublava músicas especialmente escolhidas. Na terceira, ela era um garoto que tentou roubar dinheiro do barraco da cigarreira e causou o incêndio que a vitimou.
– Ellen é ela ou ele? – perguntou Ratoeira ao garçom.
– É um mistério. Mais uma cachaça?
A cena da cantora começou com Ellen Star dublando “Little girl blue”, um blues muito triste na voz de Janis Joplin, e Ratoeira pôde observar como as pessoas estavam bastante absortas no espetáculo, algumas visivelmente emocionadas. Havia no ar um clima de comoção, mas também de suspense. No momento em que a cantora chegava em casa radiante de felicidade por ter feito o melhor show de sua vida, Ratoeira escutou um miado. Procurou no palco, mas não viu gato algum. Então escutou novamente, dessa vez mais forte, e viu as cabeças se virando, todos procurando saber de onde vinha o som.
Vinha do lado da entrada. Ratoeira virou-se, e na penumbra percebeu um homem em pé, encostado na parede, de frente para o palco, vestido num sobretudo preto. Olhando melhor, percebeu que seu rosto estava pintado, lembrando o de um gato. Faria parte do show? No palco, a cantora rasgava com um disco de vinil a própria garganta, morrendo feliz e realizada. Quando Ratoeira olhou novamente, o homem havia sumido.
Ratoeira coçou a nuca, cada vez mais nervoso. Algo o inquietava. Havia algum mau presságio no ar, ele podia senti-lo.
A quinta cena começara e Ellen Star representava uma travesti batendo seu ponto na esquina, sob a luz fraca de um poste. Saia branca curtíssima, meias pretas, salto alto, o cabelo ruivo chanel revelando o pescoço fino. Os olhos sombreados e os lábios vermelhos. Os carros passavam e ela, insinuante, fazia trejeitos e jogava piadinhas aos motoristas. Tocava um envolvente bolero chamado “Lupiscínica”, de onde vinha a frase-título do espetáculo.
Vamos adiar essa briga, amor…
De repente, um automóvel parou mais à frente. Ellen sorriu. A luz traseira acendeu-se e o carro voltou de ré. Ellen ajeitou a saia e assumiu posição de espera.
Na madrugada, sonolento, de bolero em bolero…
O carro parou ao lado e o vidro fumê baixou, surgindo os rostos de uma garota e de um garoto. A travesti aproximou-se pelo lado da garota, debruçou-se na janela e sorriu, os seios como se numa bandeja.
A tua boca guarda segredos de mim…
– Boa noite, jovens.
– Oi – respondeu a garota.
– Ontem vocês passaram por aqui, não passaram?
– Você é boa observadora.
– Sou boa também em outras coisas…
E hoje sinto ciúmes até da tua falta…
– Você é homem ou mulher?
– Sou o que você e ele quiserem, meu bem.
– Quanto custa desvendar o mistério?
– Pra vocês faço por cem.
Mas não vou mais matar ninguém por tua causa…
– Você é muito bonita.
– E vocês são uma gracinha.
– Bonito, teu peito…
– Quer pegar? – perguntou a travesti, levando a mão da garota até seu seio. – Concorrência desumana, né, querida?
– Outra noite a gente vem com mais calma – disse o garoto.
– Mas não demora, viu? Posso não estar aqui.
– Vai mudar de ponto?
– Eu sou a noite, meu bem. A noite sempre chega ao fim.
Mate-me que eu já te matei…
Um homem. Vestido num sobretudo preto. Rosto pintado como um gato. Surgiu de algum lugar da escuridão da rua. Tão silencioso que de repente ele já estava lá, na calçada. Aproximou-se.
No momento em que a travesti virou-se, ele desferiu-lhe um violento soco no rosto. Ela caiu no chão, sobre o meio-fio, quase no asfalto.
Assustada, Ellen passou a mão no canto da boca e percebeu que sangrava. O homem continuava em pé. O automóvel arrancara. E o bolero havia terminado. Ele meteu a mão sob a roupa e puxou um revólver.
Ratoeira sentiu o coração gelar. O único som era o dos automóveis passando pela avenida. Ratoeira viu Ellen Star levantar-se e encarar com altivez o sujeito à sua frente. Foi ela quem gritou, a mão sobre os lábios feridos:
– Você tinha que estragar tudo, né?
Quando o homem empunhou a arma e apontou para ela, Ratoeira não ousou piscar os olhos. Estava petrificado, a respiração presa, toda a sua atenção concentrada nos dois, a travesti que encarava o homem e o homem que atiraria na travesti.
O tempo parecia ter parado. Ratoeira não mexia um único músculo. Alguma coisa iria acontecer no próximo instante e ele não fazia ideia do que seria.
Um pensamento lhe veio rápido à mente: e aqueles carros passando, aqueles prédios todos ao redor? Ninguém via nada? Ninguém para gritar, impedir um crime? Aquelas janelas todas, centenas, milhares de janelas… A noite da cidade tinha tantos olhos e, no entanto, ninguém via nada…
Ellen Star moveu-se rapidamente e de dentro da bolsa sacou um revólver, apontando-o com as duas mãos para o homem. A arma disparou. Um grande estrondo, o eco permanecendo no ar por longos segundos, a fumaça subindo do cano…
Ratoeira viu Ellen afastar-se para trás, cambalear sobre os saltos altos, perder o equilíbrio e chocar-se contra o poste feito um triste boneco desengonçado. Depois escorregou para o chão e ficou lá, inerte, enquanto os faróis seguiam indiferentes pela avenida. E as janelas nada viam.
O homem do sobretudo, ainda segurando o revólver, avançou. Ele agachou-se sobre o corpo de Ellen, passou a mão levemente por seu rosto e falou baixinho:
– Meu amor…
Então ergueu-se e saiu caminhando devagar pela calçada. E atravessou a avenida, num passo tranquilo, sem olhar para os lados. Um carro freou bruscamente para não atropelá-lo e quase provocou um acidente com outros carros. Na confusão, os passantes perceberam o corpo na calçada e se ajuntaram ao redor.
Eládio Ratoeira também foi para lá, abrindo caminho entre a multidão. Dirigiu-se até o corpo caído. Viu o sangue espalhado pela roupa, escorrendo para o chão. Suspendeu a cabeça de Ellen enquanto ela abria os olhos devagar. No meio de sua expressão serena surgiu um doce sorriso:
– Aquela cartomante me paga…
– Como? – indagou Ratoeira.
– Ela me garantiu que… ai…. eu morreria em Paris…
– Aguente mais um pouco, Ellen.
– É o fim, meu belo amigo. O fim das doces mentiras… das noites em que tentamos morrer…
– Não fale. O socorro está chegando.
– Você… ai, como dói… faz parte deste teatro ridículo?
– Ahnn… sim… – ele respondeu, sem saber o que dizia.
– Acho que minha participação termina aqui… Você gostou?
Ratoeira virou-se para as pessoas ao redor, elas e seus rostos impassíveis.
– Quem é ele, Ellen? Um cliente seu?
– Ele não tem culpa…
Ratoeira percebeu que ela respirava com cada vez mais dificuldade.
– Por que ele atirou em você?
– A profecia. Tem que ser cumprida.
Ratoeira desgrudou o cabelo ensanguentado da boca de Ellen e, olhando para aquele rosto bonito, lembrou-se do que ela dissera ao casal do carro: Eu sou a noite…
– O que vai acontecer agora?
– Acabou a peça, meu bem. As luzes se acendem.
Então ela fechou os olhos. E sua cabeça tombou para o lado no momento em que as luzes se acendiam. Ratoeira olhou para o corpo imóvel em seus braços, o belo corpo de Ellen. Percebeu que um seio estava de fora, um seio bonito. Olhou para as pernas. Lentamente estendeu o braço e tocou o sexo de Ellen, apalpando-o…
– Essa técnica eu não conhecia, Ratoeira.
Ele virou-se rápido, retirando a mão. Reconheceu o tenente Trindade, em pé, a viatura parada atrás. Pousou a cabeça de Ellen no chão e ficou de pé, a roupa encharcada de sangue.
Ratoeira olhou o relógio: uma da manhã. Foi então que percebeu que a claridade não vinha dos faróis de carro algum. Nem vinha dos prédios ao redor. Estava clara a noite da Praia de Iracema. Estranhamente clara.
Desumanamente clara, diria o outro.
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Ricardo Kelmer 1994 – blogdokelmer.com
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TRILHA SONORA DESTA HISTÓRIA
Flor púrpura (Ricardo Kelmer e Joaquim Ernesto) – Um tango para cortar os pulsos da angústia
Beira-mar (Ednardo) – E um gosto de você que foi ficando… e a noite enfim findando… igual a todas as demais
O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais. > Mais
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COMENTÁRIOS
. 01- Massa. Jose Leite Netto, Fortaleza-CE – mai2015
02- Muito bom,li só o trecho mas já gostei . Vou ler tudo qndo meu computador sarar. Samuel Araujo, Vilhena-RO – mai2015
03- Eita! crimes passionais sempre são comoventes, afinal são motivados (na maioria das vezes) pelo amor que adoeceu… E como há amores doentes perambulando pelas curvas da nossa velha Iracema! Valeu pela indicação de leitura amigo! Lílian Martins, Fortaleza-CE – mai2015
No dia 21out, no Buoni Amici´s (Centro Cultural Dragão do Mar – Fortaleza), aconteceu o lançamento do meu novo livro, Vocês Terráqueas. Obrigado a todos que compareceram e me proporcionaram uma noite memorável. Espero que gostem da obra. Obrigado também aos apoiadores: Célio do Amici´s, Cristina Cabral, Luce Galvão de Sá Arquitetura e Kingston.
O próximo lançamento em Fortaleza será durante a Bienal Internacional do Livro (Centro de Convenções), no dia 19nov, às 20h, no estande da Secult. Mas antes levarei o livro a bares, faculdades e espaços culturais, fazendo sessões de autógrafos itinerantes.
Como parte da estratégia de divulgação, criei clips musicais com trechos do livro e imagens de arquétipos femininos. O dvd com os clips será exibido em alguns bares e casas noturnas da cidade. Utilizei músicas famosas que falam da mulher e também músicas minhas. Caso deseje adquirir, é só entrar em contato: rkelmer@gmail.com
. Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.com
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Milhões de maltrapilhos famintos, perseguidos políticos, criminosos cruéis, terroristas suicidas, narcotraficantes e trombadinhas invadindo os países e quebrando tudo, estuprando nossas irmãs, matando todo mundo, o caos absoluto
ELES ESTÃO NA FRONTEIRA
. A família muda-se para uma ilha e lá passa a viver. Constrói casas, cria bichos, tem filhos, netos e bisnetos. Um ramo da família acumula riquezas e passa a ter mais poder, impondo suas regras. Cada vez mais poderoso, causa admiração, mas atrai antipatia e cobiça. Então, cerca-se num canto da ilha para se proteger dos que desejam participar de suas riquezas e facilidades. Quanto mais enriquece, mais atua na ilha inteira e mais gera conflitos. Finalmente, para evitar ameaças a seu patrimônio, passa a atacar antes que possa ser atacado. E, para evitar represálias, fortifica ainda mais suas fronteiras…
A Terra é bem maior que uma ilha, sim, mas é um único planeta, e a cada dia está menor, suas distâncias mais curtas, tudo mais rápido. O que acontece num lugar provoca automaticamente uma onda que logo atinge os locais mais distantes. Nosso mundo atual é uma interconexão dinâmica de culturas, cada vez mais em contato entre si pelo comércio, transporte, arte, comunicação, religião… Quanto mais nos desenvolvemos, mais a Terra se parece com uma ilha. Num mundo assim ninguém consegue se isolar totalmente. E mesmo com muito dinheiro, é impossível erguer um muro para viver lá dentro, seguro e separado dos demais, usufruindo de sua riqueza acumulada.
Faz anos que queimo meus neurônios, que já não são muitos, pensando nisso. E ultimamente o tema dos imigrantes clandestinos tem provocado manchetes diárias no mundo todo, gerado livros e filmes e até uma novela televisiva no Brasil. Recentemente li a aventura de Pedro, que se torna um atravessador de brasileiros que tentam cruzar a fronteira dos Estados Unidos (Clandestinos na América, de Dau Bastos, editora Relume Dumará, 2005). Foi a gota dágua, decidi me meter na discussão. Trago uma ideia polêmica, como é tudo que nasce contra a correnteza. Mas estou cada vez mais convencido de sua coerência. A ideia é esta: assim como não existe raça, coisa que os cientistas já provaram, também não existe país. País é uma convenção caduca. Devemos acabar com todos os países. Jogando uma bomba? Não, abolindo as fronteiras. Se não há país, não pode haver fronteira.
Sem fronteiras? Você está louco?! Hummm, já estou vendo a cara de alguns leitores, alarmados com a imagem de milhões de maltrapilhos famintos, perseguidos políticos, criminosos cruéis, terroristas suicidas, narcotraficantes e trombadinhas invadindo os países e quebrando tudo, estuprando nossas irmãs, matando todo mundo, o caos absoluto. Os mais apavorados devem estar vendo descamisados bolivianos se esbaldando na Daslu. Esfomeados etíopes devorando os macdônaldis. Torcedores argentinos lotando o Maracanã. Calma, gente, eles ainda estão na fronteira, calma…
O que provoca esse medo todo vem de muito tempo atrás: a concentração das riquezas do mundo. Se houvesse mais equilíbrio de riqueza entre os países, haveria menos problemas sociais e econômicos e, assim, menos necessidade de emigrar. Aí você pensa: que culpa tem meu povo se o povo vizinho não tem recursos naturais nem indústrias nem nada? Em princípio, não tem culpa, é verdade, mas quem tem muito deve dividir com quem tem pouco, ou então pagar o preço. Que preço? Esse que pagamos atualmente, a cada minuto: medo, preconceito, insegurança, violência, terrorismo, guerras preventivas…
É um terrível ciclo vicioso. Para se prevenir de imigrantes, os povos ricos gastam fortunas com suas fronteiras militarizadas. Se investissem uma pequena parte nos países desafortunados, até mesmo a vida dos povos ricos seria mais tranquila. E a ilha inteira lucraria.
Utopia, eu sei. É, sempre fui um cara sonhador. Mas talvez em breve essa tal utopia se revele uma necessidade urgente. Então, nesse dia, lembraremos finalmente que, assim como na historinha da ilha, nós também viemos da mesma família, que se ramificou bastante, sim, mas que ainda é a mesma família. Nesse dia, veremos os outros povos como aqueles parentes que há tempos não vemos, gente meio esquisita, sim, mas com tanta coisa em comum com a gente que todo o tempo será pouco para botar o papo em dia.
A ilha – Talvez uma ilha na verdade fosse uma… montanha! Sim, uma montanha com o pico fora dágua
A mensagem de Avatar ao Povo da Terra – Temos de compreender o que os antigos já sabiam e nós esquecemos: a Terra é um ser vivo e nós fazemos parte dele
A imagem do século 20 – Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisões. Não vimos este ou aquele país: vimos o todo
Religião no esporte é gol contra – Se nada for feito, a religião invadirá os campos e quadras e o esporte virará uma cruzada entre os jogadores e seus deuses
Pátria amada Terra– É animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária
WikiLeaks e o nascimento da cidadania global – Quanto mais as pessoas se conectam à internet, mais elas se entendem como participantes ativos dos destinos do mundo e não apenas de seu país
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O pior pesadelo para um escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado
Nada pode ser mais aterrorizante para um escritor que a seguinte situação: dia do lançamento de seu novíssimo livro, ele sentado na mesinha, o lugar todo preparado, a pilha de livros em espiral, o fotógrafo ao lado para registrar as presenças ilustres… e ninguém aparece. Putz, que horror.
Acabo de descobrir, porém, que existe um pesadelo bem pior. Não, não falo desses textos com falsa autoria que analfabetos literários repassam aí pela internet, matando o escritor de vergonha por ver que milhares de pessoas acham mesmo que ele escreveu aquele texto horroroso. Isso é de lascar, mas nesse caso pelo menos podemos ir à tevê e nos defender.
O pior pesadelo para um escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado. Putz, me dá uma fininha de nervoso só de imaginar essa possibilidade… Não acredito em Deus, mas se um troço desse me acontecer, juro que entrarei com um processo contra ele por permitir tal barbaridade. Espíritos, reencarnação, psicografias, todo mundo é livre para acreditar no que quiser, até em promessa de político. Mas fazer isso com a pessoa depois que ela já bateu as botas, aí é muita covardia.
Foi dia desses. Alguém me enviou uma letra musical que teria sido escrita por John Lennon depois de morto. A letra era tão cheia de beatitudes e bem-aventuranças, uma pieguice espiritual tão grande, que das duas, uma: ou John de repente virara coroinha ou então onde ele estava só rolava fumo da pior espécie. Putz! Só alguém que não conhece porra nenhuma de John Lennon poderia supor que aquela coisa horrenda seria obra dele. Poisbem. Depois desse dia o alerta vermelho foi acionado e percebi a gravidade da situação: e se eu morresse e alguém psicografasse uma crônica minha que falasse de seres de luz, jardins celestiais e coisitais? Argh!
Mania horrorosa a desse povo, de converter a gente depois que a gente morre. Magali, por exemplo. Além de ateia, Magali sempre foi uma grande escrota e nunca nem botou os pés numa igreja. Aí um dia Magali morre, e uma semana depois, no centro espírita, recebem uma mensagem dela: Queridos paizinhos, amada irmãzinha, que a graça de Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo ilumine vossos corações e… Como é? Amada irmãzinha?! Mas um dia antes de morrer ela queria decapitar a irmã e jogar a cabeça no lixão! Vossos corações?! Mas Magali não tinha nem primeiro grau completo! Então ela, além de se converter e virar santa assim que morreu, ainda fez um superintensivo de português?
Imagino que nesse ponto do texto haja algum espírita indignado comigo. Paciência. Particularmente, para mim até faz sentido que após a morte haja algum tipo de continuação da vida tipo Matrix ou que, após morrer, o cidadão desperte e entenda que tudo foi uma viagem de LSD mucho loca, sei lá. Mas, psicografia? Bem, isso até poderia ser interessante caso a vida pós-morte fosse tão tediosa que a única diversão de um escritor como eu se resumisse a ditar contos de sacanagem para seu público encarnado. Mas acho que ainda não existe centro espírita moderninho assim para topar receber esse tipo de cartinha.
Então, quero desde já deixar claro, claríssimo, que eu, Ricardo Kelmer, terráqueo nascido em 1964 na província de Fortaleza Desmiolada de Sol, atribuído da autoridade a mim concedida por eu ser eu mesmo, e de plena posse de minhas faculdades mentais, não, melhor tirar essa última parte, eu não autorizo ninguém, absolutamente ninguém, a psicografar, psicoaudializar ou canalizar ou receber, seja como for, quaisquer textos de minha autoria, na íntegra ou em parte. Heim? Não, nem mesmo se o texto for de sacanagem, não dá para confiar. Ninguém está autorizado e pronto. E quem disser que recebeu, meus representantes legais poderão processar o engraçadinho.
Ufa. Agora já posso partir em paz. Mas… e se um dia eu, lá dos cafundós do Além, sentir uma vontade danada de escrever um novo livro? Como farei se ninguém estará autorizado a psicografar? Não tem problema: escreverei o livro e darei um jeito de publicar no Além mesmo, não se preocupem, até porque por essa época certamente alguns leitores meus já estarão por lá. Mas novos leitores desencarnados serão sempre bem-vindos, claro. Afinal, já pensou eu, sentado na mesinha do Além, a pilha de livros toda linda em espiral, a equipe de tevê do CulturAlém a postos… e nenhuma alma aparece? Que horror. .
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O encontrão marcado – Fechei o livro, fui até a janela e olhei pro mundo lá fora. E disse baixinho, com a leveza que só as grandes revelações permitem: tenho que ser escritor
Kelmer no Toma Lá Dá Cá – Aqueles aloprados moradores do condomínio Jambalaya descobriram meu livro
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COMENTÁRIOS .
01- Adorei, Ricardo! Denise Santiago, São Paulo-SP – jan2012
02- genial… Glaucia Costa, Fortaleza-CE – jan2012
03- Ai ai, ai, essa Jurema te fez um belo estrago! kkkkkkkk, tô aqui rolando de rir! Lindão, se você for primeiro do que eu pode sussurrar seus textos no meu ouvido que eu prometo ser fiel às suas sacanagens, será um imenso prazer psicografar suas criações! E desde já te prometo ser fiel nas insanidades e nas filosofias! Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – jan2012
04- De fato, Kelmer. Quero inclusive te informar que dentre o próprio meio espírita se reconhece que muita abobrinha foi e vem sendo escrita na área da psicografia. Hoje ando afastado do movimento, mas mesmo quando fui parte integrante dele questionava esses absurdos. Só vejo um contra-senso em teu texto. Se você não crê nessa possibilidade comunicativa, não deveria, teoricamente, incomodar-se em nada quanto à fidedignidade das mesmas num futuro batimento de botas. rsrsrsrs A não ser é claro, que você tenha se utilizado da licença poética. Brennand de Sousa Bandeira, Fortaleza-CE – jan2012
05- O escritor transmite as ideias q lhe vem à cabeça. Cabe ao leitor optar pela interpretação que mais lhe agrade… ou mesmo discordar de tudo q está escrito. Denise Santiago, São Paulo-SP – jan2012
Escritor, ateu, socialista, antifascista. Amante da arte, devoto do feminino, ébrio de blues. Fortaleza Esporte Clube. Fortaleza-CE.
Em meio a problemas no casamento, Téssio é transportado para o passado e lá encontra a si mesmo e a sua mulher Ariane, aos vinte anos de idade. Envolvidos numa conflituosa relação a três, eles precisarão lidar com novos e antigos sentimentos enquanto Téssio tenta retornar à sua vida oficial.
VIAJANDO NA MAIONESE ASTRAL
Um grupo de amigos que viveu na Dinamarca do sec. 14 se reencontra no sec. 20 no Brasil para salvar o mundo de malignas entidades do além. Resumo de filme? Não, aconteceu com o autor. Líder desse grupo aloprado, Kelmer largou uma banda de rock e lançou-se como escritor com um livro espiritualista de sucesso, que depois renegou: Quem Apagou a Luz? – Certas coisas que você deve saber sobre a morte para não dar vexame do lado de lá. As pitorescas histórias desse grupo são contadas com bom humor, entre reflexões sobre carreira literária, amores, sexo, crises existenciais, prostituição e drogas ilegais. Kelmer conta também sobre sua relação com o feminino, o xamanismo, a filosofia taoista e a psicologia junguiana e narra sua transformação de líder de jovens católicos em falso guru da nova era e, por fim, em ateu combatente do fanatismo religioso e militante antifascista.
PENSÃO DAS CRÔNICAS DADIVOSAS
Nesta seleção de textos, escritos entre 2007 e 2017, Ricardo Kelmer exercita seu ofício de cronista das coisas do mundo, ora com seu humor debochado, ora com sobriedade e apreensão, para comentar arte, literatura, comportamento, sexo, política, religião, ateísmo, futebol, gatos e, como não poderia deixar de ser, o feminino, essa grande paixão do autor, presente em boa parte desta obra.
INDECÊNCIAS PARA O FIM DE TARDE
Contos eróticos. As indecências destas histórias querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.
Agenda
2026
Lançamento do livro Fortaleza Prometida do Sol (abr)
Coordenação do estande de literatura cearense na Feira de Artesanato do Cantinho do Frango (mensal)
Coordenação da Confraria Literati (@confrarialiterati), divulgadora da cena literária cearense
O IRRESISTÍVEL CHARME DA INSANIDADE
Romance. Dois casais, nos séculos 16 e 21, vivem duas ardentes e misteriosas histórias de amor, e suas vidas se cruzam através dos tempos em momentos decisivos. Ou será o mesmo casal?
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GUIA DE SOBREVIVÊNCIA PARA O FIM DOS TEMPOS
Contos. O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba?
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PARA BELCHIOR COM AMOR
Organizada pelos escritores Ricardo Kelmer e Alan Mendonça, esta terceira edição foi enriquecida com ilustrações e novos autores, com mais contos, crônicas e cartas inspirados em canções de Belchior. O livro traz 24 textos de 23 autores cearenses, e conta com a participação especial da cantora Vannick Belchior, filha caçula do rapaz latino-americano de Sobral, que escreveu uma bela carta para seu pai.
Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem descontraída, Kelmer nos revela a estrutura mitológica do enredo do filme Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.
Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens... Em cada um dos 36 contos e crônicas deste livro, encontramos o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.
Os pais que decidem fumar um com o filho, ETs preocupados com a maconha terráquea, a loja que vende as mais loucas ideias… RK reuniu em dez contos alguns dos aspectos mais engraçados e pitorescos do universo dos usuários de maconha, a planta mais polêmica do planeta. Inclui glossário de termos e expressões canábicos. O Ministério da Saúde adverte: o consumo exagerado deste livro após o almoço dá um bode desgraçado…