A verdadeira história do resgate do soldado Rian

23dez2008

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a.

Este conto integra o livro Baseado Nisso – Liberando bom humor da maconha, de Ricardo Kelmer

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A VERDADEIRA HISTÓRIA
DO RESGATE DO SOLDADO RIAN

O soldado Rian foi capturado pelos inimigos. Seu sargento acredita que pode salvá-lo. Mas é uma missão quase impossível

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EU JÁ HAVIA ME JUNTADO a dois companheiros na 13ª base quando o soldado Rian, que deixava o 4o quadrante, foi capturado no momento em que tentava nos alcançar. Fora de fato uma tentativa arriscada, pois o 3o quadrante possuía dois destacamentos inimigos posicionados imediatamente atrás de nós. No entanto, se ele conseguisse passar por eles e juntar-se a nós, já poderíamos começar a comemorar a vitória, pois ele era o último soldado da retaguarda.

Vi quando renderam o soldado Rian, lhe bateram com o rifle e o levaram arrastado. Uma vez prisioneiro no 4o quadrante, Rian tentou escapar através da 20a e 22a bases, que estavam livres, mas levou azar: vieram as Senas Obscenas e o impediram. As Senas costumam aparecer nesses piores momentos. Logo em seguida, o inimigo conquistou a 20a base e aí a coisa piorou de vez, pois Rian passou a dispor de apenas uma única base para escapar, exatamente a 22a, e por três tentativas consecutivas não conseguiu, o que possibilitou ao inimigo retirar com tranquilidade um destacamento inteiro do 1o quadrante e avançá-lo até o 3º.

A sorte é que o inimigo também não foi competente o suficiente para conquistar a 22a base, deixando-a livre para mais uma tentativa de fuga de Rian. Foi assim que pude vislumbrar uma saída. Levei o plano ao comandante Martan.

– Deixe ver se entendi. Você quer se entregar, sargento Veras?

– Sim, comandante.

– Na 11ª?

– Exato, senhor.

– Você acha que aquele bunda-mole do Rian vale seu sacrifício?

– É o meu melhor soldado, senhor. Sem falar que ele anima bastante as noites da companhia com o seu violão. E é a única chance que temos de vencer. Atrairei o destacamento que ocupa a 10a e me deixarei aprisionar. Juntos, eu e Rian teremos mais chances de escapar do que ele sozinho.

– Ou então perderemos de vez esta batalha. Mesmo que vocês dois escapem, talvez não consigam retornar a tempo.

– Dê-me uma chance, senhor.

O comandante Martan levantou da cadeira e caminhou em silêncio pela sala, o olhar no chão. Foi até a janela e ficou a observar a movimentação de alguns destacamentos lá fora, nos rostos dos soldados a visível apreensão pelo companheiro aprisionado. Nós sabíamos perfeitamente o que aqueles demônios faziam com seus prisioneiros. Talvez, aquela hora, Rian sequer estivesse vivo para merecer que o Comando alterasse seus planos e arriscasse tudo para tentar resgatá-lo.

Mas eu sentia que ele estava vivo, que ele resistira a tudo o que porventura lhe houvessem feito. Havíamos nascido ali, vivido nossa infância no meio daquelas montanhas, daqueles rios. Conhecíamos todas as árvores e sabíamos dos atalhos e das cavernas. Juntos, participamos da tomada do 3o Quadrante na batalha de Barbanetto e, praticamente sozinhos, esfarelamos dois destacamentos, mandando-os para a prisão. Eu não podia voltar ao QG assim, deixando Rian lá, sozinho, a mercê do sadismo daqueles monstros.

– Sargento Veras, às vezes é melhor salvar o pouco que possuímos do que arriscar perder tudo.

– Sei disso, senhor.

– Estamos em vantagem aqui em Ludicósia e não estou disposto a perder o que já conquistei. A guerra nos ensina a ser práticos. Um soldado a menos não interferirá no resultado final. Por outro lado, se perdermos você, eles, além de tomarem sua posição, poderão nos fazer um bom estrago.

A cruel lógica da guerra estava ao seu lado, eu sabia. Mas eu tinha que tentar.

– Eles ainda não conquistaram a 22ª, senhor. Podem fazê-lo na próxima investida, eu sei. Mas se eu atraí-los na 11a, isso lhes desviará a atenção e eles ainda desmontarão a barricada na 12a.

– Nada garante.

– Eles me querem prisioneiro, senhor. Isca melhor não há. Barbanetto ainda está atravessada na garganta deles.

– Para seu plano dar certo, sargento, vocês teriam que sair imediatamente e ocupar a 22a.

– Operação Ternos Eternos, senhor. Já está engatilhada.

– Se não conseguirem na primeira tentativa, tudo estará perdido.

– Conseguiremos, senhor.

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04aEle me encarou durante um bom tempo. Era como se tentasse ver através de meus olhos um indício qualquer que enfim lhe revelasse minha incompetência para tal missão. Bastaria um indício qualquer, qualquer um… Quem poderia acreditar em missão tão suicida? Ninguém. Mas eu aguentei firme o olhar do comandante Martan.

– Permissão concedida, sargento Veras. Tentaremos resgatar o soldado Rian.

Eu conseguira! Agora tudo que eu precisava era apenas que toda a sorte do mundo estivesse ao meu lado.

Tínhamos três bases ocupadas no 1o quadrante, aguardando capturas. Havia um destacamento na 7a (cinco soldados) e o meu na 13a (eu e mais dois soldados). No 2o quadrante havia um destacamento deles ocupando a 12a (três soldados) e outro na 10a (dois soldados) O plano era atrair um desses dois na 11a.

A primeira movimentação, porém, foi um fracasso e tivemos de avançar dois dos nossos que estavam na 7a.

Eles contra-atacaram com um soldado da 12a e nos sobrou a última tentativa antes que o destacamento deles da 10a saísse para sempre de nosso alcance. Então corri. E fui atingido de raspão no braço. Caí, rolando pela ribanceira. Sob uma chuva de tiros consegui me arrastar e finalmente alcancei a 11ª. A primeira parte da missão estava cumprida. Então aguardei, enquanto improvisava um curativo. Dava para suportar a dor.

A isca funcionou. Um soldado inimigo percebeu o movimento e me emboscou. Fui aprisionado – exatamente como queria. Levaram-me ao 4º quadrante e lá encontrei o soldado Rian, bastante ferido, mas vivo. Ele sorriu ao me ver e de imediato entendeu tudo. Reanimei-o e lhe detalhei o plano. Ele sorriu e balançou a cabeça, como se dissesse: que loucura…

Na primeira tentativa de fuga, fracassamos. No entanto, como mais uma vez eles não conseguiram ocupar a 22ª, continuamos respirando. Mas fracassamos também na segunda tentativa. Então, o que não podia acontecer, aconteceu: a 22a foi ocupada e perdemos a única chance de saída. Era o fim.

Totalmente impossibilitados de escapar, as quatro movimentações seguintes foram todas deles: quatro soldados evacuados, levados livres para fora da área de combate. E os que ficaram continuavam, para o nosso azar, protegidos em dupla. Na quinta movimentação, porém, abriu-se a 19a. Imediatamente empurrei o soldado Rian:

– Corre!

Ele ainda vacilou um pouco, mas obedeceu. E eu fiquei, aguardando um milagre. Eis que ele veio duas movimentações depois, e eu ocupei a 24a. Enquanto Rian cumpria seu papel, retardando ao máximo sua chegada ao 1o quadrante, eles evacuaram mais alguns soldados.

Restavam apenas três soldados inimigos no 4o quadrante, onde eu estava, sendo dois na 22ª e um, sozinho, na 23ª, bem à minha frente. Eles aguardavam serem evacuados em uma ou duas movimentações, e aí perderíamos definitivamente a batalha. Mas fui rápido e eficiente: tomei a 23a e capturei o soldado que a ocupava. Alívio. Ganhávamos um pouco de tempo para respirar. Como o 1o quadrante estava inteiramente ocupado por nossos destacamentos, o que impedia qualquer chance do soldado capturado escapar, pude avançar tranquilamente pelo 3o e 2o e cheguei para comandar a evacuação de nossos homens.

Foi dramático, pois tivemos de arriscar várias vezes algumas de nossas posições enquanto o soldado prisioneiro tentava mas não conseguia um golpe certeiro. Quando ele enfim escapou, operando em Quinas Traquinas, pensei no pior, nadar tanto para morrer na praia. Evacuamos então um soldado e, em seguida, eles evacuaram dois.

Esta era a situação final: tínhamos seis soldados para retirar, e eles apenas dois. Então livramos dois e aguardamos, nervosos, sem poder acreditar que depois de tudo, não venceríamos. No entanto, um vacilo na movimentação deles fez com que sobrasse ainda um soldado, um único soldado instalado solitariamente na 24a base, a um pio da vitória. Reunimo-nos, nós quatro, os restantes, dois na 1a, um na segunda e outro na quarta, e eu lembrei a eles que somente agindo em dobradinha teríamos alguma chance. Dividimo-nos e, concentrados, contamos: um, dois, três e já!

– Quadras Esquadras!!!

Operação Quadras Esquadras. Alta complexidade. Mas conseguimos. Movimentação perfeita, em sincronia. No último instante. A vitória sorriu para nossas cores. Era realmente para não acreditar, pois vencemos contra todas as probabilidades. Na 24a base ficou o derradeiro soldado inimigo, à espera da evacuação que não viria, igualmente sem acreditar no que acontecia.

 Enquanto o soldado Rian festejava junto com seus companheiros, sentei numa pedra, enxuguei o suor da testa e abri a garrafinha de Jack Daniel’s, mandando para dentro um merecedor gole. O tiro no braço não era problema, antes da próxima batalha eu já estaria em forma.

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BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a– GOSTOU DAS QUADRAS?

– Sorte demais…

– Quer perder outra?

– Não, obrigado.

– Qualé, meu irmão? Cadê o espírito esportivo?

– Não é isso.

– O que é então?

– Pô, você viaja demais, cara! Faz muito drama!

– Desculpa de perdedor.

– Não dá pra jogar gamão com você doidão assim. Transforma o jogo numa guerra.

– Ah, deixa de viadagem. Vamos outra, vamos. Eu deixo você jogar com as vermelhas.

– Não. Vou esperar você ficar de cara.

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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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Baseado Nisso
– Liberando o bom humor da maconha

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