Os revolta

23dez2012

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a.

Este conto integra o livro Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha, de Ricardo Kelmer

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OS REVOLTA

Pais maconheiros e filhos caretas. Isso pode dar certo?

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TARDE DE SÁBADO no shopping. Na saída do cinema Rosinha escutou seu nome:

– Rosinhaaaaaaaaa!!!

Era a Neusa, amiga das antigas, anos e anos que não se viam. Rosinha cutucou o marido.

– Olha só, Roberto! A Neusa e o Charles. Lembra deles?

– Será que ainda são muito chatos?

– Pelo menos se comporte. Eles sempre gostaram muito de você.

– Como é mesmo o nome dos filhos deles? São uns nomes assim bem babacas…

– Oi, Neusa! Quanto tempo!

Abraço para cá, abraço para lá, como vão as coisas, e os meninos, cadê o resto da turma. Neusa propôs sentarem um pouco, tomar um chope. Sentaram, pediram os chopes e lembraram os velhos tempos. Charles lembrou um carnaval em que ele e Roberto saíram de mulher e um sujeito quase os atropelou. Apesar de não terem se ferido, decidiram ir à delegacia prestar queixa e os policiais simplesmente não conseguiam levar a sério a situação, um vestido de odalisca e outro de coelhinha com cenoura e tudo.

– Hoje, com essa barriga aí, Roberto, você ia ter que sair no bloco das grávidas.

– É. Tô com mais barriga, mas em compensação tô com menas bunda…

E Roberto riu, satisfeito e vingado com a própria piada.

– E os meninos, Neusa? – quis saber Rosinha. – Já devem estar grandes, né?

– Enormes!

– Como é mesmo o nome deles? – perguntou Roberto.

– Charles Junior. e Anna Priscylla. Com dois N, um Y e dois L. Ele tem quinze e ela treze.

– Charles Junior. e Anna Priscylla, isso! – repetiu Roberto, se controlando para não rir.

– Nossa, como o tempo passa, Neusa… Peguei os meninos no colo.

– E vocês?

– Decidimos não ter filhos. Mas temos dois gatos maravilhosos, a Xana e o Xexéu.

– Xexéu? Isso é nome de gato? – perguntou Charles.

– E o Charles Junior? – perguntou Roberto.

– Que é que tem ele? – perguntou Charles.

– Já decidiu o que vai ser?

– Ainda não. O negócio dele é computador. Se deixar, passa o dia lá.

Duas rodadas de chope depois, Charles inclinou-se para o centro da mesa e jogou a indireta:

– Mas por falar nisso, e vocês, ainda curtem um… – e fez o tradicional gesto, juntando os dedos indicador e polegar.

– Não acredito! – respondeu Rosinha, surpresa. – Vocês ainda fumam maconha?! Nós também!

– Psiu, Rosa! – reclamou Roberto, beliscando a mulher. – Quer que o shopping todo saiba?

– Fumamos sim. Não como naquele tempo, né, que ali também já era exagero. Mas vez em quando o Charles consegue uma coisinha. Vocês não estão a fim?

– Eu estou – respondeu Rosinha, animada. – Estamos, né, Roberto?

– Estamos.

Pagaram a conta e rumaram todos para o apartamento de Neusa e Charles.

– Psiu! Os meninos já podem ter chegado – avisou Charles, abrindo a porta do apartamento. – Esperem aqui na sala que eu vou conferir.

E sumiu no corredor, pisando no chão de mansinho, pé ante pé. Voltou logo depois.

– Ainda não chegaram, dá tempo a gente fumar. Entrem, entrem, fiquem à vontade. Eu vou buscar.

– O Charles deixa logo os cigarros apertados – explicou Neusa, sussurrando. – É mais prático, né?

– E por que a gente tá falando tão baixo se não tem ninguém no apartamento? – perguntou Roberto.

– Dá pra escutar tudo do corredor. Se os meninos chegarem, eles escutam direitinho.

– Pronto, vamos lá – falou Charles, voltando com o baseado.

– Vamos fumar na varanda? Tem uma vista boa.

– Não, não, Roberto – respondeu Neusa. – A gente fuma na área de serviço. É aqui, vem.

Neusa foi na frente, seguido por Rosinha, Roberto e Charles.

– Área de serviço? Por quê?

– Porque dá pra gente escutar o barulho do elevador chegando. Se os meninos chegarem, a gente sabe logo e dá tempo apagar.

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a– E a gente vai fumar assim, em pé, no meio dessas roupas todas penduradas?

– Roberto! – Rosinha cutucou o marido. – Pare de reclamar, que coisa feia…

– Lá em casa a gente fuma na varanda, olhando pro parque…

– Roberto!

Roberto calou-se. A baseado dado não se olha os dentes, pensou enquanto analisava o ambiente ao redor. Havia dois lençóis pendurados, três cuecas, uns sutians e uma camisa do Ferroviário Atlético Clube.

– Só uma perguntinha, Neusa… – ele falou, entre uma e outra tragada. – Os meninos são caretas?

– São.

– E eles não sabem que vocês fumam?

– Sabem sim.

– Mas então… Por que essa paranoia toda?

– Eles sabem mas fingem que não sabem.

– Como assim?

– Desde pequenos eles sabem que a gente fuma, mas não gostam. E também nem tocam no assunto.

– E a gente finge que não sabe que eles sabem – completou Charles.

Roberto não se aguentou. Explodiu num riso incontido, tossindo fumaça para todo lado. Rosinha o cutucou mais uma vez. Aquilo era demais…, pensava Roberto no meio do riso. Como uma família podia ser tão paranóica? Os filhos fingiam que não sabiam que os pais fumavam maconha e os pais sabiam que os filhos sabiam mas também fingiam que não sabiam. Era demais…

– Quer dizer que eles não dizem nada? – falou Roberto, conseguindo enfim uma trégua com o próprio riso.

– Dizem – respondeu Neusa. – Mas indiretamente. Por exemplo, quando passa notícia sobre droga na tevê, eles dizem: devia era prender esse bando de maconheiro sem-vergonha!

– Sério?! – e Roberto explodiu novamente em gargalhada, trégua desfeita.

– Roberto! – ralhou Rosinha, sem jeito perante o marido que se contorcia entre os lençóis, se equilibrando para não cair.

– E vocês, não respondem nada? – ele ainda encontrou forças para perguntar.

– O Charles faz que não escuta. Mas eu concordo, digo que tem mais é que botar tudo na cadeia mesmo. Mas você não sabe da melhor. Dia desses a gente descobriu como é que eles se referem à gente e aos nossos amigos que também fumam.

– Como é? – perguntou Roberto, já pressentindo que vinha mais coisa.

– “Os revolta”.

– “Os revolta”?

– Sim. Quer dizer os revoltados da vida. Engraçado, né? Vocês querem uma pastilha?

Pronto. Roberto não mais conseguiu se controlar e caiu no chão da área de serviço. Ainda tentou se segurar num lençol mas terminou quebrando o cordão e as roupas todas despencaram por cima deles, derrubando-os. Enquanto Rosinha pedia desculpas e tentava ajudar Neusa a se levantar, Roberto rolava de rir pelo chão, as lágrimas escorrendo. E uma cueca na cabeça.

– O elevador! – avisou Charles. – São eles! Vou pegar o aromatizador.

– Levanta, Roberto, tá sujando a roupa lavada.

– “Os revolta”… – Roberto segurava a barriga enquanto a mulher tentava livrá-lo dos lençóis. – É demais…

Anna Priscylla e Charles Junior abriram a porta da sala e entraram.

– Oi, pai! Oi mãe!

Neusa correu para a sala, para encontrar os filhos. Charles chegou depois, acompanhado de Rosinha e Roberto.

– Meninos, esses são dois velhos amigos da gente, a Rosinha e o Roberto. A gente se encontrou no shopping e eles vieram pra conhecer vocês.

– Mas como cresceram! – exclamou Rosinha, impressionada.

– Oi, Charles Junior… – tentou falar Roberto. Mas não se aguentou e caiu novamente na gargalhada, um acesso incontrolável que o fez se encostar na parede e ir descendo até sentar ao chão.

Rosinha puxou-o pelo braço com uma cara horrível. Mas Roberto simplesmente não conseguia parar de rir. Neusa sorria sem jeito, sem saber o que dizer, enquanto Charles fechava a porta da cozinha para os meninos não sentirem o cheiro. Esses, por sua vez, olhavam meio rindo meio assustados para o homem que gargalhava e se contorcia no chão.

Por fim, Rosinha conseguiu erguer o marido e, desculpando-se, explicou que ele bebera demais e que já iam, estava tarde, foi um prazer conhecer os meninos…

Somente na rua, já dentro do carro, foi que Roberto conseguiu parar de rir.

– Ai, minha barriga… Há tempos eu não ria tanto.

– Há tempos eu não passava uma vergonha tão grande, isso sim.

– “Os revolta”… Ai, Rosa, é demais. Ainda não acredito nisso. E a cara do menino, você viu, com aquele boné pra trás da cabeça? Tinha mesmo cara de Charles Junior. Que nome horroroso! Como é que se batiza um filho com o nome de Charles Junior?

– Ah, coitado, Roberto…

– Já pensou, Rosa, quando esse menino arrumar uma namorada e ela precisar dizer eu te amo: Eu te amo, Charles Junior… Não, não, é impossível amar alguém chamado Charles Junior. E a outra, como é mesmo? Anna Priscylla. Com dois N, um Y e dois L. É mole? E o pai ainda é torcedor do Ferroviário. E fuma tampando o nariz, você viu?

– Vi.

– Que família paranoica! Você viu a cara dos meninos, dois demoniozinhos repressores… Uns tiranos. Qualquer dia vão denunciar os pais, você vai ver: Filhos denunciam pais maconheiros…

– Que exagero, Roberto!

– Como é que um pai e uma mãe chegam a esse ponto, de ser chamado de revolta pelos próprios filhos? Ei, revolta, telefone. Ei, revolta, cadê minha mesada? Pra mim isso é falta de cinturão, isso sim.

Rosinha teve vontade de rir mas ainda estava envergonhada pelo papelão do marido. Não podia dar o braço a torcer.

– Minha irmã olhava praqueles pôsteres do Che Guevara no meu quarto e me chamava de revoltado – lembrou Roberto. – Mas chamar os pais de “os revolta”?… É o fim do mundo mesmo. Sua mãe não vive dizendo que o mundo está acabando? Pois taí. É o fim do mundo.

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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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Comentarios01COMENTÁRIOS

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3 Responses to Os revolta

  1. […] Os revolta Pais maconheiros e filhos caretas. Isso pode dar certo? […]

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  2. Lilla Lima disse:

    Oi Kelmer…
    Vivo essa situação acredita ?? 50 anos, putz..tô me sentindo ridícula rsrs..
    Já quero esse livro. Como faço ???

    Abçs,

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    • ricardokelmer disse:

      > Pra adquirir o livro impresso, basta enviar imeio pra rkelmer(arroba)gmail.com. Pra ler o livro no blog, é só ler pois o acesso aos textos do livro é livre. E pra receber o livro em formato pdf (pra ler no computador ou imprimir), é preciso ser Leitor Vip.

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