Questão de dias

23dez2008

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a.

Este conto integra o livro Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha, de Ricardo Kelmer

QUESTÃO DE DIAS

A mãe de Luís Carlos encontrou maconha no armário do filho. Ele prometeu que pararia de fumar e agora o pai quer que ele marque o dia

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– E AÍ, FILHÃO, já marcou o dia? – perguntou seo Tavares, sorridente, dando um leve tapinha na cabeça do filho, como fazem os amigos camaradas.

– Ainda não, pai – respondeu Luís Carlos, terminando a sobremesa do almoço. – Mas não tá longe não.

– Certo, certo… Mas você não acha que esse dia tá demorando muito, meu filho?

– Ah, pai, tem que ser um dia especial, não pode ser qualquer dia.

– Tá certo, tá certo – concordou seo Tavares. – É mesmo um dia especial. Mas não demore muito. O tempo costuma enterrar as decisões que a gente toma e demora a realizar.

– Beleza, pai.

Luís Carlos limpou a boca no guardanapo, pediu licença e levantou-se, tinha que voltar à loja. Beijou a mãe e o pai e saiu para o ponto de ônibus. No caminho para o trabalho ia pensando no absurdo da situação. O pior é que não tinha ideia de como sair da enrascada.

Tudo começara naquela noite de segunda-feira. Ele chegou da loja à noite, tomou banho e jantou normalmente com os pais. Não desconfiou de nada. Depois do jantar foi ao quarto, tendo antes o cuidado de fechar a porta. Abriu o guarda-roupa, foi na última gaveta e retirou a velha caixinha de madeira. E levou um susto: não havia nada na caixinha. Puta merda, cadê a parada?, pensou enquanto procurava por entre as cuecas e as meias. Nada. O fumo havia sumido. Por um instante, imaginou que houvesse deixado em algum outro lugar. Mas não, era ali mesmo que guardava, sempre foi. Sentou-se na cama e remoeu o pensamento atrás de alguma pista. Foi nesse instante que dona Leonor bateu na porta.

– Filho, a gente pode conversar um pouco?

Ih, sujou…, ele pensou, já imaginando tudo. Abriu a porta e a mãe entrou. E contou que fora procurar um par de meia do marido no guarda-roupa do filho quando se deparou com aquela caixinha.

– E o que a senhora fez com o que tava dentro, mãe? – Luís Carlos queria saber.

– Meu filho, você não jurou pra mim e pra seu pai que tinha parado com esse vício?

Luís Carlos sentiu o coração gelar, aquilo não podia estar acontecendo, que merda… Vamos, Luís Carlos, pense rápido, vamos… Precisava encontrar um meio de se safar de mais aquela. Mas agora a coisa era séria: ela havia descoberto a parada e não adiantaria dizer que não era dele, que não sabia que diabo aquilo fazia ali em seu guarda-roupa. Não dava mais para continuar nas velhas desculpas.

– Meu filho, você é um menino tão bonito, inteligente. Tem um emprego bom, tem pais que adoram você… Maconha é coisa pra marginal, meu filho, e você não é marginal. Ô, Luís Carlos…

Dona Leonor já ameaçava chorar. Era preciso pensar rápido.

– Mãe, o que a senhora fez com a…

– Você nunca pensou que um dia pode ser preso, meu filho? Ô, Luís Carlos, isso é uma coisa tão triste…

– Desculpe, mãe. Mas não chore não, tá? Não chore que dessa vez eu prometo que vou parar. Dessa vez é sério.

– Você jura, meu filho?

– Juro pelo meu glorioso alvinegro.

– Ah, Luís Carlos, isso não é jura que se faça! Jure por uma coisa séria.

– Mas mãe, você quer coisa mais séria que…

– Seu glorioso foi rebaixado. Não vale mais nem jura.

– É, mas a senhora viu que naquela última partida…

– Não mude de assunto.

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04aEle calou-se. Dessa vez a situação extrapolara. Tinha que dizer algo certeiro. Mas o quê?

– Está bem, mãe, está bem.

Vamos, Luís Carlos, pense em algo, pense.

– Está bem, mãe.

Isso, continue.

– Ok, mãe, ok.

Algo mais criativo, Luís Carlos.

– Eu lhe peço desculpas, mãe, pela tristeza que eu possa estar lhe causando. Desculpe, viu?

Bom começo. Continue, está indo bem.

– Olhe, mãe, eu vou ser sincero com a senhora…

Essa era sempre uma boa frase. Boa para ganhar tempo. Mas perigosa, porque agora tinha de ser sincero mesmo.

– Isso é só uma fase, mãe. Eu sei que é só uma fase e que um dia vai passar. A senhora não pensa, por acaso, que eu quero passar o resto da minha vida fumando maconha, né? Isso não tem cabimento. Um dia eu sei que isso vai perder a importância e eu vou parar, eu sei disso, do fundo do meu ser.

Ele percebeu um leve brilho de esperança no olhar da mãe e isso o animou a continuar:

– Eu só preciso de um tempo, mãe. Lembra quando eu tomava aqueles porres de rum todo fim de semana e ficava passando mal, acabado no sofá? Lembra, né? Foi uma fase braba. Mas passou, não foi? Da mesma forma agora, mãe. Eu sei que um dia eu vou olhar pra um baseado e dizer assim pra ele: Quer saber de uma coisa, meu chapa, não tô mais a fim de fumar você não. E aí acabou, não fumo mais. Acabou.

Bela argumentação. Digna de um tribunal. Às vezes se surpreendia consigo mesmo. Bem que o pai tentara fazê-lo advogado, herdar o escritório, ele é que não quis. Dona Leonor olhou para o filho e o abraçou emocionada. Luís Carlos sentiu-se aliviado. Teria sido perfeito se o pai não surgisse à porta do quarto.

– Tudo bem, filho, mas se você quer mesmo parar, então precisa levar a coisa a sério e marcar logo a data.

– Marcar a data? – Luís Carlos soltou-se da mãe, surpreso.

– Claro. Marque a data que no dia eu prometo que faço uma grande festa.

– Festa? – Luís Carlos tentava ganhar tempo. – Festa?

– Claro. O pai não fez uma grande festa pro filho pródigo que voltava ao lar? Então a gente também vai fazer uma.

– Ahnn… Não, não, pai. – Aquele papo estava ficando estranho. – Esquece esse negócio de festa. Acho que não pegaria bem.

– Ô Tavares, eu também acho que isso…

– Deixe comigo, Leonor. – O pai, do alto de sua convicção, acenou para que a esposa não se metesse. – Eu insisto, meu filho. Você faz sua parte e eu a minha. Amanhã mesmo vou comprar a cerveja. Vamos tomar um porre pra comemorar. Pode chamar todos os seus amigos.

– Chamar… os meus amigos? Ahnn… eu…

– Você só precisa dizer o dia.

– Que dia, pai?

– Que dia, Luís Carlos? O dia que você vai parar de fumar droga. Não é disso que estamos falando?

– É… mas… também não precisa… marcar um dia.

– Como não precisa? Quando a gente vai casar, a gente marca o dia do casamento, não é?

– Eu não vou me casar, pai – disse Luís Carlos, se sentindo perdido e ridículo.

– Você quer ou não quer parar?

Luís Carlos respirou fundo. Já havia ido longe demais, não dava mais para voltar.

– Quero – ele respondeu, desesperançado, não vendo a hora de ficar sozinho.

– Então? É só marcar o dia. Sexta-feira está bom?

– Sexta?!

– Sim, sexta.

– Esta sexta?

– Sim, esta sexta.

– Ahnn… Vou pensar, pai. Prometo.

– E precisa pensar numa coisa simples dessa, Luís Carlos? Não é, Leonor?

Dona Leonor apenas olhava para o filho, acariciando-lhe a mão.

– Não gostou do dia? – prosseguiu seo Tavares. – Então no sábado.

– Não, sábado é o aniversário do Foca.

– Ah, o aniversário do Foca. Ele não pode fazer no domingo?

– Tavares, não pressiona o menino!

– Então semana que vem.

– Semana que vem tem o feriadão, pai, eu vou viajar com a galera. Olhe, pai, deixe eu…

– Então quando, meu filho? Quando?

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04aLuís Carlos podia perceber que o pai se esforçava por parecer compreensivo e camarada. Soava um pouco artificial, mas reconhecia que poucas vezes na vida vira o pai tão cordial e paciente.

– Pai, vamos fazer o seguinte… Me dê um tempo pra pensar. Não quero marcar um dia qualquer e quando chegar esse dia eu não estar preparado pra tomar uma decisão importante assim. Quero fazer a coisa direito, o senhor entende?

– Seu pai entende sim, meu filho – disse a mãe, tomando a vez. – A gente só quer que você pense bem no que é melhor pra você e sua família, tá? Não é, Tavares?

– Por mim, a gente marcava logo esse dia e…

– Seu pai concorda comigo, meu filho.

Então ficaram combinados. Luís Carlos pensaria num dia para parar de fumar maconha e avisaria aos pais.

Quando eles já deixavam o quarto, Luís Carlos pediu para falar a sós com a mãe.

– Por que só com ela?

– Sai, Tavares. Deixa eu conversar com o menino.

Dona Leonor empurrou o marido para fora e fechou a porta. Luís Carlos pegou a mãe pela mão e a levou até o outro lado do quarto, longe da porta, e falou baixinho:

– Mãe, o que a senhora fez com aquela parada?

– Com o quê, filho?

– A maconha, mãe. O que é que a senhora fez?

– Ah, Luís Carlos, eu fiquei apavorada, né? Imagina se a polícia descobre uma coisa daquela aqui em casa, imagina a vergonha pro seu pai…

– Mas e aí, o que a senhora fez? Enterrou no quintal?

– Joguei no aparelho.

– No aparelho?

Luís Carlos ainda pensou em correr para o banheiro.

– E dei descarga. Três vezes.

Luís Carlos fechou os olhos. A última esperança fora embora. Pelo esgoto. Ele sentou na cama.

– Pô, mãe, isso é caro, mãe, isso é caro… – foi tudo que encontrou para dizer, balançando a cabeça, sem acreditar.

Um ano depois, lá está Luís Carlos lendo jornal na sala.

– E aí, filhão, já marcou o dia? – pergunta seo Tavares, com toda a naturalidade que consegue.

– Ahnn… Que dia, pai?

– O dia, meu filho…

E o pai, dando uma de moderninho, junta o polegar e o indicador no gesto típico, como se fumasse um baseado, os dedos indo e vindo da boca em biquinho. Mas com todo o mau jeito possível de um pai que nunca sequer viu um cigarro de maconha na vida.

– Tô marcando, pai, tô marcando…

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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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3 Responses to Questão de dias

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