O último homem do mundo

24dez2008

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06c.

Este conto integra os livros Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha e o livreto O Último Homem do Mundo, de Ricardo Kelmer

O ÚLTIMO HOMEM DO MUNDO

O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 1

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eAGENOR CUMPRIU TODO O RITUAL, direitinho. Colhera o fumo num dia seis e seis dias depois o debulhara, fumo plantado no sítio Inferninho, na sexta noite após a sexta lua do ano. Não contara nada a ninguém. Tudo dentro dos conformes do ritual.

Eram onze e meia da noite e não havia lua no céu. A escuridão toda dava um pouco de medo, mas Agenor estava decidido. Apenas meia hora o separava do momento mais importante de sua vida.

Tirou o cigarro da bolsa e acendeu. O nervosismo fez o cigarro cair duas vezes. Deveria fumá-lo sozinho, era o que dizia o ritual. Agenor fumou e aos poucos foi se acalmando. Tinha de estar tranquilo para dizer as palavras certas, não podia errar. Subiu numa pedra mais alta e lá encostou-se. E relaxou. Era realmente um excelente fumo, diferente de qualquer um que já houvesse experimentado. Diziam que, de tão especial, não estragava nunca.

No céu as estrelas pareciam mais brilhantes, mais próximas. Lá embaixo dava para ver as luzes da cidade de Jubá, a torre da matriz, o estádio. Quase dava para ver a casa onde morava, e o restaurante onde trabalhava Dorinha…

De repente escutou um ruído vindo do mato. Olhou para o relógio. Onze e quarenta e cinco. Não, não devia ser ele ainda, pensou. Talvez algum bicho. Deu a última tragada e apagou o cigarro. Começava a fazer frio. Agenor tirou da bolsa um cobertor e se cobriu inteiro, encolhido à pedra.

Durante meses estudara seu pedido como quem retoca uma pintura, ajeitando aqui e ali os detalhes das miudezas semânticas. Segundo o ritual do Encontro, o pedido tinha de ser formulado corretamente, as palavras exatas, o sentido perfeito. Não podia haver qualquer erro. Os diabos eram espertos, e se as palavras dessem margem a qualquer outra interpretação, eles não perdoavam a falha.

Agenor olhou o relógio: meia-noite. O diabo chegaria a qualquer momento. Meia-noite e dez. Talvez o relógio estivesse adiantado, pensou Agenor. Meia-noite e vinte. Teria falhado em algum ponto do ritual?

À meia-noite e meia, quando já começava a cochilar, Agenor percebeu que alguém chegava, vindo de dentro do mato, caminhando devagar entre as folhagens. De repente sentiu medo. Pensou em desistir daquela história de pacto… mas as pernas não obedeceram e ele continuou ali em pé, esperando.

Quem chegou foi um velhinho de barbicha branca, de sobretudo, chapéu e bengala. Agenor estranhou. Não se parecia com um diabo.

CAP. 2

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06e– Boa noite – disse o velho, erguendo o braço e tocando seu chapéu. – Desculpe a demora, sexta-feira sempre tem muito serviço. Você é o Agenor, não é? Sou Soloniel, o mais astuto dos diabos. Certamente já ouviu falar muito de mim.

– Ahn… não… – Agenor olhava para a figura à sua frente. Aquilo era um diabo? Parecia mais com aqueles velhos aposentados que jogavam dominó na praça.

– Devia ler mais, meu jovem – disse o diabo, apontando-lhe um dedo acusador. – É nisso que dá ficar vendo esses filmes idiotas da tevê. Deixa de saber quem foram os grandes nomes da História.

Agenor concordava com a cabeça, sem compreender aquela espécie de sermão. Aquilo era mesmo um diabo?

– Ainda duvidando de mim, rapaz?

Ele lia pensamentos! – assustou-se Agenor.

– Desculpe… é que… eu… – E não soube mais o que dizer.

– Já sei, já sei – disse o diabo, dando com a mão, resignado. – Esperava um diabo mais jovem. É sempre assim. Por isso é que eles querem me aposentar. Nem um diabo velho é mais respeitado hoje em dia. O mundo está perdido.

– Desculpe, eu não quis…

– Eles sempre enviam diabos moços e vigorosos, para impressionar os tolos. Pois saiba, meu jovem, que toda a juventude deles não serve nem para lustrar as botas da experiência de Soloniel, estas aqui!

Agenor olhou para as botas. Eram bonitas e brilhosas. Só um pouco folgadas.

– Está vendo? Estas botas já estiveram em muitos lugares e muitos tempos, tantos que os números já não contam – Ele batia nas botas com a ponta da bengala, tum-tum-tum. – Estas botas já estiveram em cavernas, tendas, palácios! Em castelos, campos de batalha, escritórios, alcovas mal iluminadas! Já presenciaram acontecimentos cruciais da história humana. Não só presenciaram como também ajudaram a determiná-los. Entende?

– Sim, sim… – balbuciou Agenor.

– Eu é quem incentivo as pessoas no rumo dos seus sonhos mais íntimos. E por eles cobro meu preço, claro. Tem um pano aí?

– Um pano? Ahn… Este serve?

Agenor estendeu-lhe o cobertor. O diabo agachou-se e deu uma lustradinha nas botas.

– Obrigado. Vamos lá, qual é mesmo o seu pedido?

Agenor respirou fundo.

– Bem, eu… O senhor pode mesmo realizar qualquer desejo?

O diabo deu um risinho de impaciência.

– Diga logo o que quer, meu jovem. O diabo Soloniel ainda tem quatro encontros esta noite.

– Eu… eu…

De repente Agenor sentiu um medo imenso. Valia mesmo a pena um pacto com o demo?

– Até logo, jovem – disse o diabo, virando-se e pegando o caminho de volta. – Volte para a sua mamãe. Pacto com o diabo não é para gente fraca como você.

CAP. 3

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06e– Ei, espere! – gritou Agenor, nervoso. – Vou fazer o meu pedido. Agora.

O diabo parou e voltou-se. E aguardou, apoiado em sua bengala.

– Eu…

– Sim?

– Eu quero que todas as mulheres…

– Estou ouvindo.

– Eu quero que todas as mulheres do mundo me desejem.

Pronto, dissera. Estava feito. E uma vez formulado, o pedido não podia mais ser mudado, ele sabia. Não dava mais para voltar atrás.

Agenor aguardava, a respiração suspensa, as palavras ecoando em seus ouvidos: todas as mulheres… do mundo… me desejem… De repente, pela primeira vez, seu desejo lhe pareceu ridículo e despropositado… Era como se as palavras, finalmente pronunciadas, concretizadas solenes no ar, tivessem o poder de lhe abrir os olhos.

– Hummm… Bom pedido, bom pedido – disse o diabo, balançando a cabeça, coçando a barbicha branca. – Fazia tempo que eu não topava com um desse. Deixe-me ver…

Agenor aguardava, nervoso. Teria sido um pedido difícil demais? Será que zombaria dele? Estaria estudando suas palavras, procurando brechas para poder enganá-lo?

– Claro que é difícil. Fazer todas as mulheres do mundo desejarem um cara feio, pobre e desengonçado como você é missão que pode consagrar um diabo pela eternidade inteira. Sabe o que significa a eternidade inteira, jovem?

A eternidade? Sim, claro, Agenor respondeu com a cabeça. Quer dizer, não, não sabia.

O diabo continuava coçando a barbicha, apoiado na bengala, olhando para as estrelas… Eram segundos que para Agenor pareciam séculos.

– Teve muita sorte de pegar um profissional como Soloniel, meu jovem. O que você pediu requer a experiência que só eu possuo, acredite. Pois muito bem. Dê-me o documento.

Agenor puxou do bolso uma folha de papel dobrada. Nela estavam a frase exata de seu pedido, data, local e a assinatura.

– Perfeito – falou o diabo, guardando o papel no bolso do sobretudo. – Então estamos combinados. Toque aqui.

Apertaram-se as mãos.

– Na hora certa virei buscar o pagamento pelo serviço. Adeus.

Agenor viu o diabo sumir mato adentro. Então respirou fundo. Fizera o pacto. Estava feito. O diabo realizaria seu desejo, era isso que importava.

Ele conseguira. Não era um fraco. Quanto à sua alma, pensou, já descendo a pedra a caminho da cidade, perdê-la seria um preço pequeno diante do grandioso futuro que o aguardava.

CAP. 4

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eO DIA SEGUINTE FOI NORMAL como todos os outros dias do carteiro Agenor. Envelopes, endereços, campainhas que não funcionavam, cães que detestavam carteiros. Entregas e entregas sob o sol da manhã e sob o sol da tarde. Nada demais. Mas nesse dia, pela primeira vez, o feio, tímido e desengonçado Agenor olhou as mulheres com certa segurança. Na lanchonete olhou para a moça que servia e lhe piscou um olho. Mas a moça não correspondeu e virou o rosto. Ele sorriu e apenas pensou: Deixe estar…

O dia terminou sem novidades. Após o jantar pediu bênção à mãe, dona Fafá, e se recolheu. Antes, porém, olhou-se no espelho. Nada mudara em seu rosto, em seu corpo, ele continuava o feio de sempre. Mas era apenas o primeiro dia, explicou a si mesmo. Em breve as coisas seriam diferentes.

No segundo dia as coisas também não foram diferentes. Envelopes, encomendas, endereços, cães antipáticos, o sol. A mesma caminhada diária, a mesma rotina. Tudo continuava igual. E as mulheres de Jubá também. Nenhuma lhe pareceu mais simpática. Continuavam todas em seu mundo distante, princesas inalcançáveis de um reino a ele não permitido. Nem Dorinha, pela qual era secretamente apaixonado, mostrou-se mais acessível. Uma pena, pois Dorinha era bonita, prendada, trabalhadeira. Poderia ser sua mulher…

O terceiro dia também não trouxe novidades. O quarto dia também. Passou-se uma semana e nada aconteceu. Agenor olhava-se ao espelho e via, decepcionado, que continuava feio e desajeitado. E a vida também era a mesma, ele suando de número em número e as mulheres limpas e perfumadas a ignorá-lo.

A segunda semana também correu igual, assim como a terceira. Um mês e nada, nenhuma mudança em sua vida.

Naquela noite Agenor virou-se na cama e sentiu-se imensamente triste por seu desejo não ter sido realizado. O diabo bem que dissera: era um pedido difícil.

Talvez houvesse errado na formulação do pedido, será? Talvez não houvesse escolhido as palavras exatas, isso era comum nas histórias dos pactos com o demo. Mas onde errara? De todas as que pensara, aquela era a melhor frase. Não podia dizer “Quero todas as mulheres”, pois o diabo simplesmente poderia fazê-lo continuar querendo. Listar as mulheres que queria que o desejassem também não era uma boa ideia, pois terminaria deixando alguma de fora e, além do mais, está sempre nascendo mulher.

“Quero que todas as mulheres do mundo me desejem” era a melhor maneira de pedir. Não importariam sua pobreza, sua feiúra e sua falta de jeito se elas o desejassem. E sendo “todas as mulheres do mundo” não haveria risco de deixar nenhuma de fora, entrariam todas, da mais feia à mais linda, da mais pobre à mais rica, da mais anônima e insignificante à mais famosa e cobiçada. Todas o desejariam e a ele caberia apenas escolher quem delas teria o privilégio de realizar seu desejo. Você sim, você não. Ah, seria o paraíso!

Súbito lembrou-se de um detalhe, algo que havia lhe escapado durante todo aquele tempo: sua mãe. Dona Fafá também estava incluída na relação! Claro. Sua mãe querida, viúva, que tão bem cuidava do filho único. Sua mãe era uma mulher e, sendo assim, também o desejaria. E agora?

Agenor percebia sobressaltado que a formulação não fora perfeita. O que fazer com o desejo de sua mãe? Ou ela, por ser mãe, estaria automaticamente excluída das possibilidades? O diabo Soloniel seria razoável, entenderia a questão? E se seu pai fosse vivo, o que não acharia de uma marmota dessa?

Agenor puxou o lençol e se cobriu, como se assim pudesse se esconder de tantos pensamentos e dormir. Demorou uma eternidade para conseguir pegar no sono.

CAP. 5

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06ePRIMEIRO FOI O CHICO DA MAGNÓLIA, velho amigo. Era domingo e tomavam uma cachacinha à beira da lagoa quando Chico, já bêbado, confidenciou a Agenor, sem jeito, que estava acontecendo com ele uma coisa terrível, terrível. E a muito custo foi que conseguiu dizer que ficara broxa, já não conseguia fazer nada com as mulheres, o dito cujo não funcionava mais, uma desgraça. Na noite anterior, por sinal, fora ter com as raparigas lá do Siribó, elas que sabiam como ninguém alegrar o cidadão. Mas que nada, não teve jeito que desse jeito. Tentou com a Paizinha, com a Chiquinha Piassaba e a Neide Peixeirão. Nenhuma delas conseguiu levantar-lhe o moral um centímetro que fosse. Tentou até umas pilulazinhas que um primo trouxera da cidade grande, diziam que levantava até bigorna. Mas nem elas deram jeito. No desespero chamou a Paloma, a espanhola dos peitões, a mais cara daquelas bandas do sertão, disposto a gastar cinquenta contos, o salário da semana inteira. Pois nem a Paloma, veja você, nem ela.

Agenor consolou o amigo, dizendo que procurasse um médico, não devia ser coisa muito séria. Mas Chico disse que já havia ido ao médico e este, sem detectar nada de anormal, falou que algum problema devia estar preocupando-o. Mas não tinha problema algum, explicou Chico, a não ser esse, esse era o problema, o pinto não queria mais subir e pronto. Uma vergonha que o cidadão trabalhador e pagador dos seus impostos não merecia passar.

Agenor, sensibilizado, encheu um copo e tomou. Que uma desgraceira daquela nunca se abatesse sobre ele, jamais.

Depois foi a vez do seo Ribamar da bodega, que se chegou para perguntar se ele, Agenor, não conhecia um pai de santo bom, bom mesmo, que entendesse de mandinga de mulher malamada, pois ele tinha certeza: foi mulher sim que lhe jogara aquele trabalho desgostoso, foi mulher sim.

Agenor ficou impressionado. Seo Ribamar era homem forte, de saúde, viúvo e namorador. Difícil crer que tão cedo deixasse de dar nos couros. Pois deixara. Sim, ele sabia de um pai de santo muito bom, lá para as bandas do Paredão, fosse lá que ele com certeza anularia aquele encosto de mulher ruim. Seo Ribamar agradeceu e saiu. Agenor viu o homem se afastar e bateu três vezes na madeira.

Então começaram a chegar as notícias. O atendente da farmácia, rapaz novo, não tinha vinte anos, também andava com o mesmo problema, como podia? E o cabo Nonato, famoso pela ruma de namorada que tinha, também havia ido ao Paredão se consultar com o pai de santo para se curar de uma desgraceira repentina que o deixara inutilizado para as artes da agarração.

De repente boa parte dos homens de Jubá estava broxa e o assunto era o preferido nas rodas de conversa. As beatas nas janelas invocavam Esaú aos Filisteus, capítulo 2, versículo 14: “E o peso da descrença pesará sobre a virilidade dos ímpios, e estes serão marcados pelo Anjo com o castigo de não poderem mais dar filhos às suas mulheres e a Terra os amaldiçoará.” Benza Deus.

Autoridades evitavam se pronunciar sobre o assunto porque o fato provocava risinhos e constrangimentos. O que estava acontecendo afinal? Ninguém possuía explicação convincente para o fato e os médicos da cidade se debatiam entre teorias diversas, sem chegar a conclusão alguma.

A cada notícia, Agenor se assustava e corria para o banheiro para se investigar, munido de alguma revistinha. Não, com ele não, felizmente. Com ele tudo corria normalmente, conforme a natureza estabelecera. E com as mulheres, tudo normal também: elas continuavam distantes como sempre.

CAP. 6

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eAlguns forasteiros, atraídos pela notícia de que as mulheres de Jubá estavam que nem lagartixa, subindo pelas paredes, decidiram descer por lá e averiguar se a história tinha mesmo cabimento. Resultado: os hotéis da cidade agora estavam lotados. Se a broxação geral representava um golpe no orgulho dos machos jubaenses, a receita do turismo fechava os olhos dos donos de hotéis e dos bares.

Os homens sérios de Jubá não gostaram nem um pouco dessas novidades, lógico, e exigiram posição firme das autoridades. Uma equipe médica da capital foi então designada para estudar a estranha epidemia e, após muitos exames, constatou que, com exceção de uns gatos pingados, quase toda a população masculina da cidade já havia sido afetada. Uma tragédia.

Apesar de todos os esforços, a equipe deixou a cidade sem qualquer explicação para o fenômeno. Bem ao contrário de outras coisas na cidade, o mistério continuava de pé.

Receitas, simpatias, promessas e orações, tudo foi usado contra a desgraceira. A Ladainha Milagrosa dos Sete Pingos, ou Ladainha da Bengala Poderosa, como também é conhecida, que diz que é tiro-e-queda, reapareceu por esses dias com força total, circulando pelas banquinhas da feira e até mesmo em farmácia, veja o desmantelo da situação. Ela dizia que o cidadão, pouco antes de começar a peleja do amor, devia acender uma vela branca nunca antes usada e, ajoelhado na direção de Juazeiro do Norte, deixar cair sete pingos sobre o dito cujo desmilinguido enquanto rezava:

Com minha fé e humildade, eu trago aberto o coração
E rogo pela intercessão de quem escuta o meu pedir
Que me ajude nessa prece para expulsar o malefício
Acabando o meu suplício nos sete pingos a cair

Minha bengala poderosa, acuda logo sem demora
Que é urgente essa hora de dor, espanto e aflição
Minha bengala poderosa, cancele a lei da gravidade
Para que suma a maldade e suba logo o cacetão

O estojinho contendo vela e folheto vendeu que nem bolacha, não deu para quem quis. Só não ensinava para que lado ficava exatamente a cidade de Juazeiro, indesculpável falha que, certamente, deve ter inviabilizado muita reza pois ninguém viu melhora alguma na situação.

Um jornalista da capital, que acompanhava o trabalho dos médicos, levou as informações para o seu jornal e pronto: no outro dia o estado inteiro estava por dentro da desgraça da pequena Jubá. No mesmo dia começaram a chegar repórteres de rádio, jornal e tevê e a cidade se transformou em notícia obrigatória em todo o estado. Até um laboratório farmacêutico, que produzia as tais pilulazinhas milagrosas, andou distribuindo amostras grátis, farejando na desgraceira alheia uma grande oportunidade de negócios. Mas deu com os burros nágua: para os homens de Jubá as pilulazinhas e nada eram a mesma coisa.

Foi então que começaram a chegar notícias de outras localidades próximas: nelas também estava ocorrendo a mesma coisa! Tudo o que acontecera em Jubá estava se repetindo por lá, o mesmíssimo drama. E poucos dias depois soube-se dos primeiros casos fora do estado. Logo depois cidades do país inteiro exibiam alarmadas seus casos de impotência. Semanas depois o mal já havia alcançado os outros países. A desgraça agora era global.

Cientistas se esforçavam por explicar, políticos exigiam verbas, empresários se mobilizavam, organizações formavam passeatas… O mundo inteiro não falava em outra coisa. Da Europa aos recônditos da África, de Santiago a Vladvostock, os homens, pretos, brancos, índios e amarelos, ricos e pobres, iam, dia após dia, sucumbindo ao mal sem que ninguém entendesse por que diabos aquilo acontecia.

CAP. 7

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eDESDE O PRIMEIRO CASO notificado em Jubá tinham se passado quase seis meses e as estatísticas mostravam que mais de noventa por cento da população mundial masculina fora afetada pela repentina impotência, e os casos prosseguiam aumentando, sem poupar nem os adolescentes, coitados, mal entrados no assunto. Podia-se realizar inseminação artificial nas mulheres, é claro, mas isso não resolvia o problema. Muito menos explicava.

Enquanto isso médicos e terapeutas faturavam alto com o desespero, pais de santo engordavam a conta bancária, pomadas e sprays milagrosos surgiam às centenas e os vibradores viraram itens obrigatoríssimos no comércio inteiro, fazendo surgir inclusive um projeto de lei que incluía o vibrador na cesta básica.

Enquanto o mundo vivia seu terrível pesadelo, naquele domingo Agenor acordou sorridente. Após dois sorvetes na lanchonete e três noites de conversa mole na porta de sua casa, Dorinha aceitara seu pedido e agora estavam namorando, ela que já fazia algum tempo comprovava, nas despedidas ao portão, que aquele romance tinha, literalmente, onde se segurar. E para comemorar o namoro, ela conseguiu folga no restaurante e passaram o sábado na lagoa bebendo vermute. No final, já noite escura, ela o puxou para si e ali mesmo sacramentaram o nheconheco, ele alegríssimo, ela em desesperado ardor, como se havia muito não soubesse como era um homem, coitada. Nessa noite ela foi a mulher mais feliz do mundo e, embora não houvesse muitas estrelas no céu, Dorinha viu todas elas, de pertinho, brilhando em todas as cores, uma constelação de felicidade.

Quando as amigas de Dorinha souberam que ela estava namorando Agenor e andava cantarolando alegre e vistosa, chegaram à mais óbvia das mais óbvias das conclusões. Assim foi que a partir desse dia, Agenor pôde perceber uns olhares mais insinuantes pela rua e por onde quer que fosse.

Belo dia, ao receber a correspondência entregue por Agenor, a moça da butique, de nome Carmela e apelido Botinha, que por sinal era prima da Dorinha, mas, ao contrário da prima, nunca se prestara a saliência na frente do portão, perguntou mui delicadamente a Agenor se por um acaso ele não faria a gentileza de matar uma barata voadora que teimava em não querer deixar o depósito lá atrás, ela que tinha pavor de barata, quanto mais voadora. Agenor, muito solícito, se dispôs. Quando chegou ao depósito foi que percebeu que era outra a barata. Embora a moça não fosse lá muito bem dotada de atributos físicos, tendo, inclusive, de usar bota ortopédica, daí o apelido, por causa de uma perna maior que a outra, sem falar num braço seco que furou no prego, Agenor foi solidário, ah, foi sim, e fez com que a danada da barata se aquietasse. E voltou para a rua de ânimo revigorado, nem ligando para os cães que detestavam carteiros.

Mas em cidade pequena as notícias correm que nem fogo morro acima. Dois dias depois elas foram dar no ouvido de Dorinha que, depois de largar meia dúzia de mãozada na cara da prima Botinha traidora, tratou logo de tomar providências contra o perigo que seu patrimônio corria. O que fez: botou as amigas, todas de altíssima confiança, para acompanhar a trajetória do namorado pelas ruas da cidade, olheiras a bem dizer, uma vez que ela mesma não podia fazê-lo, já que pegava no batente o dia inteiro no restaurante.

Uma semana depois Agenor já havia sido requisitado para matar duas dezenas de baratas pela cidade, inclusive na casa das tais olheiras, algumas delas crentes, irmãs em Cristo, sim, que Cristo, bom que se diga, não tem nada a ver com certas agonias femininas que costumam dar no fim da tarde, quando o sol desce em Jubá e sopra um ventinho fresco que se intromete por baixo das saias.

Dorinha, de sangue quente por causa da crescente fama do namorado, agarrou-o pelo cangote no meio da praça e deu o ultimato: ou ela ou as baratas, que ela não era mulher de dividir com as outras aquilo que de direito era só dela.

Agenor pensou um pouco. Não era sua intenção magoá-la, Dorinha era mulher boa e ele gostava muito dela. Mas é que as baratas… Bem, elas lhe acenavam com um horizonte bem mais amplo de possibilidades, digamos dessa forma. Andava até pensando em montar uma firmazinha de dedetização, o mercado era promissor.

Ficaria com elas, as baratas. Foi o que respondeu.

Quem estava na praça viu quando o tabefe de Dorinha estalou no pé da orelha do carteiro, tabefe daqueles de ficar zunindo por três dias. Ela virou as costas e saiu, o passo ligeiro, a tromba desse tamanho, deixando Agenor de quatro a recolher as correspondências caídas ao chão.

Na mesma noite, porém, ela haveria de cair em si e se arrepender, tentar reconciliação, haja vista a carência horrorosa de homem na cidade. Melhor dividir o prato que não ter o que comer, coisa mais óbvia, né?

Mas nada feito. Agora era Agenor quem não queria. Ela chegara atrasada à obviedade.

CAP. 8

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eNo dia seguinte um conhecido repórter da rádio local, de modos muito delicados, e que fazia uma reportagem sobre a epidemia, cismou de querer entrevistar algum homem que ainda estivesse com suas funções de macho normais. Acionando seus contatos e perguntando daqui e dali, o repórter soube do carteiro Agenor. Animado com a descoberta, alcançou-o no momento em que, fim de expediente, trabalho terminado, o moço se encaminhava para matar uma barata lá para o lado do açude. Porém, tímido como era, Agenor nem deixou que o repórter lhe explicasse o motivo da entrevista e saiu correndo.

Naquela mesma noite a reportagem foi ao ar. Não continha a entrevista de Agenor, claro, mas falava dele, e muito. E bem.

Dez minutos após terminada a reportagem já tinha gente em frente à casa do carteiro Agenor. Dois amigos e sete vizinhas. Dona Fafá disse que o filho não estava mas que não devia demorar a chegar. Todos resolveram aguardar, os dois amigos e as sete vizinhas. Oito, porque chegou mais uma. Aliás, nove.

Do outro lado da cidade, Agenor pediu que a garota parasse um pouquinho com o vai e vem sobre seu corpo porque ele acabara de escutar seu nome no rádio.

– Preciso ir para casa – ele falou, afastando a garota. – Mamãe deve estar preocupada.

– Ah, fica mais um pouquinho…

Era a terceira vez que escutava aquela mesma frase naquele dia.

Alguns minutos depois Agenor dobrou a esquina de sua rua e tomou um susto. Havia um bando de gente em frente à sua casa. Ele se escondeu atrás de uma árvore, com medo, enquanto pensava o que fazer. Decidiu entrar pelos fundos.

– Filho, aquilo que saiu no rádio é verdade? – Foi a primeira coisa que a mãe perguntou, ao abrir a porta do quintal para ele entrar.

– Mãe, a senhora viu? Está cheio de gente lá fora.

– Na sala também. O Chico da Magnólia, seu tio Ferreirinha… Suas primas também estão aí. Até o prefeito veio.

– Pode dizer para todo mundo que eu viajei.

– Mas…

– Vai, mãe. Vou esperar aqui.

Agenor escondeu-se no quartinho dos fundos enquanto dona Fafá voltava à sala.

– Foi um custo, mas foram embora – ela disse, retornando. – Agora me conte direito essa história.

Agenor falou que não sabia o que estava acontecendo. Mas estava muito preocupado com tudo aquilo.

– Então vá dormir, filho, que é melhor. Estou vendo que você está cansado. Trabalhou muito hoje, né?

Agenor pediu a bênção e foi para o quarto. Mas sono que é bom, não teve, não conseguiu pregar o olho. Sem falar que no meio da madrugada uma vizinha conseguiu entrar pela janela e se atracou com ele, quase que não consegue se soltar, a moça pedindo pelo amor que ele tinha a Nossa Senhorinha que também desse uma chinelada em sua barata, que ela andava muito precisada. E já perto de amanhecer foi a Jaciara, filha do dono do cartório, que todo mundo desconfiava ser meio destrambelhada do juízo. Pois ela provou que era mesmo: trepou-se no telhado da casa, e ficou lá em cima, nua, berrando para o mundo inteiro ouvir que estava grávida de Agenor. Mentira, claro, Agenor nunca nem tocara na moça, e ela antes nunca nem tinha olhado para ele.

Assustado e exausto pela noite em claro, Agenor decidiu que o melhor era ir embora.

– A gente pode mudar de endereço.

– Não vai adiantar, mãe.

– O mundo lá fora é tão perigoso, filho. Essas mulheres todas se enxerindo para você…

Agenor olhou para a mãe e sentiu uma pontada de tristeza magoar seu coração. Súbito percebeu o quanto estava sendo egoísta. Como podia pensar em abandonar sua mãe querida, deixá-la sozinha? Pensava apenas em si mesmo, esquecera da mãe. Como podia ser tão ingrato com aquela que lhe deu a vida, que o criou e nutriu?

Então se achegou no colo da mãe, que o abraçou forte, abraço sentido, apertado, seu corpo envolvendo o do filho amado… Agenor fechou os olhos e deixou-se levar por aquele abraço gostoso, o mormaço aconchegante dos seios de dona Fafá, que o apertava mais forte contra si, mais forte, mais forte…

Agenor abriu os olhos. O rosto afundado entre os seios grandes da mãe, quase não conseguia respirar. Um terror repentino se apossou de sua alma. O que estava fazendo?

– Tenho que ir embora, mãe… – balbuciou, levantando-se. – A senhora me perdoa?

– Eu sabia que um dia você ia partir, filho.

Ela então foi ao quarto e voltou com umas notas que tirara do fundo da gaveta.

– Guardei esse dinheirinho para você. É muito não, mas ajuda. Tome, leve. Vou ligar para minha irmã Zulmira para ela lhe receber.

CAP. 9

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eNa rodoviária, enquanto Agenor esperava o ônibus, foi surpreendido pela equipe de tevê da capital, que havia acabado de chegar a Jubá à sua procura. Ele não quis dar entrevista, mas mesmo assim o filmaram entrando no ônibus.

Na estrada, a caminho de Bocariús, foi que atinou: o pacto com o diabo! E ficou pasmo, os olhos arregalados. Tudo aquilo seria o pacto funcionando?, ele se perguntava, a mão sobre o coração agitado. Talvez o diabo estivesse realizando seu desejo, embora por vias que ele jamais pudesse atinar. Todo o tempo pensou que ficaria mais bonito, talvez o diabo lhe fornecesse um perfume irresistível… Mas não, não foi nada disso.

Se era realmente o pacto funcionando, então lamentava que os outros homens estivessem pagando tão caro pela sua felicidade. Mas talvez fosse só por um tempo, logo voltariam ao normal. Mas se voltassem ao normal, como ficaria ele?

O ônibus chegou a Bocariús na hora do almoço. Agenor estava faminto, pensava somente num prato de comida. Encostou-se no balcão da lanchonete e pediu arroz, feijão, bife e ovo. Na tevê passava uma reportagem, mostrando o último homem de Jubá entrando no ônibus, seguindo para… Bocariús.

Todos na lanchonete pararam ao ouvir o nome da cidade. Agenor nem respirava. A garçonete foi a primeira a reconhecê-lo.

– Gente, é ele! O homem de Jubá!

No instante seguinte estavam todos à sua volta, queriam perguntar coisas, tocá-lo. Os homens imploravam que divulgasse a receita milagrosa, as mulheres o abordavam eufóricas. Agenor se desvencilhou como pôde e saiu. Mas as pessoas o seguiram. É o cara de Jubá!, uma garota gritou da janela do ônibus que passava na rua. Ele vai morar aqui!, gritou a outra. E a terceira completou: E vai casar comigo!!!

Em poucos minutos uma multidão o acompanhava pelas ruas, parecia uma procissão. O comércio fechou para vê-lo passar. Agenor correu e a multidão correu atrás. Finalmente ele chegou à casa da irmã de sua mãe, ofegante, a roupa rasgada, um sapato faltando. Tia Zulmira, noventa e cinco quilos de gordura e macheza, abriu rápido a porta e botou para dentro o sobrinho escangalhado. Depois, brandindo a carabina velha, gritou que o primeiro que chegasse perto ia ficar que nem peneira. E atirou para o alto, espalhando a multidão.

Mas a cidade inteira já sabia quem havia chegado e não o deixaram em paz nem por um minuto. Eram populares, radialistas, comerciantes, religiosos, vereadores e toda classe de gente interessada em ter com o último homem de Jubá. A tia trancara portas e janelas e desligara o telefone. Mas lá fora a multidão alvoroçada gritava seu nome, homens e mulheres, e tarde da noite ainda tinha gente rondando a casa.

Agenor estava cada vez mais assustado. A tia, porém, lhe garantiu que ali dentro ele estava seguro.

– Obrigado, tia. Vou ficar em dívida com a senhora para o resto da vida.

De madrugada, outra noite sem conseguir dormir, Agenor viu a tia entrando no quarto.

– Ô, meu filho, acuda sua tia, acuda… Não é só lá em Jubá que tem carestia de homem não…

Foi assim que Agenor pagou a dívida.

Antes que amanhecesse, ele aproveitou a escuridão, correu para a estrada e pegou carona num caminhão. Sorte que o motorista não o reconheceu. Desceu numa cidadezinha que nem sabia o nome. Mas lá também as pessoas imediatamente o reconheceram. Ele até que tentou conversar, mas a confusão logo se instalou ao seu redor, os homens, raivosos, se arregimentando para capá-lo e as mulheres, revoltadas, tentando impedir. Quando a polícia chegou, ele precisou correr bastante para não ser preso por incitar a desordem.

Pobre Agenor. Já não havia mais onde se esconder. Sua imagem fora divulgada pela tevê para o mundo inteiro, o mundo todo sabia seu nome, conhecia detalhes de sua vida. Para onde fosse, seria reconhecido e apanhado. Podia ser preso, podia ser morto.

Mas havia um lugar sim, lembrou Agenor, a esperança de repente renascida. A capital. Lá tinha muita gente, parecia formigueiro. E as pessoas estavam sempre ocupadas demais para reparar nas outras.

Foi assim que Agenor, pela primeira vez na vida, pisou o chão da cidade grande. Escondendo o rosto com boné e óculos escuros, claro. Na primeira lixeira jogou fora todos os seus documentos. Não era mais Agenor. Era um ninguém.

CAP. 10

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eO MUNDO INTEIRO CONTINUAVA buscando a explicação e, principalmente, a solução para o problema da impotência generalizada. Jubá, a pequenina cidade interiorana, virara atração internacional, por ter sido lá onde a estranha epidemia começou. Assim foi que os jubaenses de repente se viram entre autoridades de países do mundo inteiro, toda uma espécie de gente ávida por saber o que havia naquela cidade que pudesse ter causado o que causou. Jubá, a cidade celebrizada pela desgraça.

– Dizem que só sobrou um homem sadio em Jubá – explicou o prefeito impotente em entrevista. – Mas ele fugiu, ninguém sabe onde se meteu. Aproveitando a ocasião, gostaria de dizer que estamos inaugurando um monumento comemorativo dessa epidemia que projetou para todo o planeta o nome da próspera cidade de Jubá e…

Pelos quatro cantos do mundo os jornais ofereciam anúncios de mulheres, e homens também, que pagavam fortunas por uma noite, uma noite apenas com qualquer um que houvesse escapado da broxação geral. Na tevê os cientistas, olheiras profundas, imploravam que se apresentassem aqueles que ainda podiam ser preservados da epidemia. Nas ruas os semblantes seguiam tristes. Nas igrejas os sermões falavam de castigo divino, de Sodoma e Gomorra revividas, de fim do mundo.

Parecia que o sombrio e previsível fim havia finalmente chegado: o mundo não tinha mais homens dignos do nome.

CAP. 11

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eSEIS MESES APÓS CHEGAR à capital, lá estava Agenor, ao lado do ponto de ônibus, sentado na calçada, a mão estendida. Era o seu ponto de pedir esmolas. O local não era muito movimentado mas pelo menos não tinha dono para cobrar aluguel, como os outros pontos. A barba crescida, o boné e as roupas sujas faziam-no apenas mais um entre os tantos mendigos que compunham a cena da cidade grande.

O que ganhava era o suficiente para não morrer de fome e de frio. Dormia num velho prédio que fora abandonado no meio da construção, onde também dormiam outros mendigos, com os quais evitava maiores contatos. Não era um lar, era um esconderijo. As pouquíssimas coisas que possuía levava sempre consigo numa bolsa de pano, que um dia fora branca. E tomava banho, quando dava, usando a torneira da praça, na discrição da madrugada.

A vida na clandestinidade era difícil, claro, mas era melhor ser ninguém que ser reconhecido na rua e ir parar sabe-se lá onde, nas mãos de sabe-se lá que tipo de gente. Emprego então, nem pensar. Mesmo que conseguisse empregar-se sem documentos, ainda assim seria arriscar-se demais.

Não tinha amigos, não podia confiar em ninguém. A solidão era a companheira, ela e a saudade da mãe e dos amigos. Sua vida chegara a uma rua sem saída, onde ele não podia seguir em frente e muito menos voltar. Estava condenado a viver aquela subvida até o último dia, quando finalmente o diabo voltaria para receber sua alma como pagamento pelo serviço. A não ser que…

A não ser que descobrissem a cura para a impotência generalizada. Quando isso acontecesse, Agenor finalmente poderia deixar de ser ninguém para ser novamente… Agenor. Ou seja, continuaria a ser ninguém. Mas pelo menos voltaria para seu lar e não teria que pedir esmolas.

Que grande ironia…. Obtivera a realização do seu maior desejo e, no entanto, não podia usufruir nem um pouco dele. Ele era desejado por todas as mulheres do mundo mas elas sequer o conheciam. Ele era o último homem do mundo – e não havia nenhuma vantagem nisso.

Às vezes tomava coragem e caminhava pelas ruas, ia aos parques, mas sempre surgia algum guarda ou policial para importuná-lo. Outras vezes percebia nas pessoas uns certos olhares desconfiados… Pronto, era o bastante para fazê-lo voltar imediatamente ao esconderijo. Estava bem diferente da imagem que o tornara famoso – mas todo cuidado era pouco.

Pelos jornais que pegava no lixo ou pela tevê do botequim, Agenor acompanhava as notícias da epidemia. Sabia que tudo continuava do mesmo jeito. E sabia que o mundo inteiro prosseguia a busca pelo último homem do mundo, como ele ficara conhecido. Seu desaparecimento gerara uma série de hipóteses, desde as que afirmavam que ele fora assassinado às que sustentavam que ele era mantido preso nos subterrâneos de um laboratório enquanto cientistas tentavam decifrar seu segredo. Alguns diziam que o último homem do mundo fugira para uma ilha distante e montara um harém só para ele, mandando buscar as mulheres mais lindas do mundo…

Agenor às vezes ria desses absurdos, era mesmo incrível a imaginação do povo. Mas não dava para rir quando ele via seu rosto surgir na tela da tevê, o que acontecia quase todo dia. Nessas ocasiões ele baixava ainda mais o boné sobre o rosto e saía de mansinho, tremendo de medo.

Quase tão grande quanto o medo de ser descoberto era a angústia que lhe faziam sentir… as mulheres. Ah, as mulheres da cidade grande… Eram lindas, carnudas, bem aprumadas, vestiam-se com elegância, a pele fresquinha, o cabelo bem tratado, o jeito de andar… Elas enfeitavam todos os lugares, as ruas, as lojas, os bares. Onde estivesse, vinha-lhe o perfume inebriante da tentação, atingindo-o em cheio e tirando a concentração. À noite, deitado sobre os papelões que lhe serviam de cama, rolava de um lado para outro, a imagem de mil mulheres passeando por seu pensamento, aquela de vermelho com quem cruzou na esquina e aquela que passou no ônibus e aquela vendedora de flores, todas elas, mil mulheres, mil possibilidades… Mil possibilidades que, entretanto, sempre desapareciam expelidas num jato de prazer solitário.

Uma vez, sem aguentar mais, dirigiu-se à periferia em busca de um cabaré, mesmo consciente do altíssimo risco da operação. Mas não encontrou nenhum. Foi então que soube que todos os cabarés haviam fechado. Por absoluta falta de clientes.

Esta era a angústia. E durante aqueles meses ela só não foi maior que o medo de ser descoberto. Até que uma noite…

CAP. 12

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eDesde o início Agenor adquirira um hábito: guardar classificados dos jornais que recolhia no lixo. Recortava pedaços e juntava aos que já possuía. Eram todos anúncios de mulheres oferecendo pequenas fortunas por uma noite com um homem de verdade. Pois bem. Naquela noite sem lua, no auge da angústia e da solidão, ele separou um anúncio e com ele desceu as escadas sem corrimão do velho prédio inacabado. De um orelhão da rua ligou para o número do anúncio. Uma voz de mulher atendeu, bonita, sexy… Ele falou quem ele era. A mulher não acreditou. Nervoso, ele falou que poderia facilmente provar, mas para isso precisavam se encontrar. A mulher então disse que enviaria um táxi imediatamente. Agenor passou o endereço onde estava e desligou.

Enquanto aguardava, ansioso, começou a chover e ele protegeu-se sob o orelhão. Não sabia se havia feito a coisa certa, mas agora já não voltaria atrás, não aguentava mais.

Em cinco minutos o táxi chegou. Ele entrou e acomodou-se no banco de trás, molhado da chuva. Estava nervoso, mas esperançoso. Aquela podia ser a saída que tanto buscava: uma mulher rica e insatisfeita, disposta a pagar muito por um homem que lhe desse prazer. Ela o levaria para morar numa bonita casa de praia, cozinharia para ele, lhe compraria roupas caras, lhe daria um carro bonito e lhe ensinaria a dirigir, faria todas as suas vontades. Em troca disso tudo, ele teria apenas que ser o que ele era: um homem. Só isso.

O táxi parou em frente a uma casa. Agenor reparou que era grande e bonita, com um jardim cheio de plantas coloridas. Um homem de paletó, com um guarda-chuva, abriu a porta do carro.

– Boa noite, senhor. Queira acompanhar-me, por gentileza.

Agenor foi conduzido pelo jardim, subiu uma escadaria e entrou numa sala.

– Por favor, sente-se. Anunciarei sua chegada.

Agenor sentou-se no sofá, admirando os móveis e os quadros nas paredes. Devia ser uma mulher muito rica, pensou, satisfeito. Aproveitando o espelho ao lado, passou o pente no cabelo e ajeitou a camisa. Por sorte havia tomado banho aquele dia. Pensara até em tirar a barba, mas não teve coragem.

Então uma outra porta se abriu e uma moça muito bonita surgiu à sua frente. Tinha lindos cabelos loiros, um rosto suave e… sorria. E vestia uma camisola transparente que nada escondia de seu corpo perfeito.

– Agenor de Jubá? – perguntou, delicadamente.

– Sim… sou eu… – gaguejou Agenor, o desejo já se manifestando sob as calças.

Ela o observou atentamente por alguns segundos. Então aproximou-se.

– Como posso ter certeza disso?

Agenor sorriu, sem saber o que responder. De repente ela o empurrou e ele caiu sentado no sofá. Ela tirou seus sapatos, depois sua calça e rapidamente o deixou nu. Agenor nunca vira tamanha pressa, a moça devia estar mesmo na precisão.

– A senhora pensou que eu estava mentindo, né? – disse ele, vendo que ela olhava impressionada para o meio de suas pernas. – Menti não.

Ela continuou ajoelhada entre suas pernas, o queixo caído, os olhos de quem não acredita no que vê. Então ela se recuperou e gritou, alvoroçada:

– Está no ponto! Está no ponto!

Agenor achou estranho, mas já sabia que as mulheres da cidade grande possuíam hábitos esquisitos, de forma que apenas riu. No instante seguinte, vindos do corredor, surgiram uma mulher e dois homens.

– Obrigado – a mulher falou para a moça de camisola. – Agora é com a gente.

– Não dá para eu ficar sozinha com ele por dez minutinhos? – perguntou a moça.

Um dos homens, porém, a puxou e a afastou para o outro lado da sala. Agenor percebeu que o outro homem empunhava uma câmera de filmar. De repente uma luz forte acendeu-se sobre ele.

– Estamos transmitindo ao vivo! – disse a mulher, falando no microfone. – Isso que você está vendo não é truque. A imagem não deixa qualquer dúvida: é o último homem do mundo! Nós o encontramos! Vocês podem ver, olhem aqui, é incrível, é, é inacreditável, é… maravilhoso…

Apavorado, Agenor levantou-se de um salto e abriu a porta. Um dos homens ainda tentou detê-lo mas ele desvencilhou-se e saiu correndo, nu como estava, a luz do refletor seguindo atrás. Saltou o muro da casa, sempre a luz a persegui-lo, e caiu na calçada no meio de uma poça dágua. A chuva havia aumentado bastante. Agenor levantou-se, sentindo a perna doendo, e continuou correndo.

Correu, correu até não aguentar mais. Somente então parou e caiu no chão, ofegante, a perna doendo bastante. E assim ficou, estendido no chão da passarela do viaduto, enquanto a chuva caía sobre seu corpo e lá embaixo os automóveis passavam em alta velocidade.

Chegara ao fim. Não tinha mais forças para continuar com aquela vida. Estava cansado. Cansado de correr, de se esconder, de ser ninguém. Que sentido ainda havia em continuar vivo? Nenhum, absolutamente nenhum.

Então, apesar do cansaço, da dor da perna, de tudo, Agenor sorriu. Sorriu porque a certeza do fim de repente era como um bálsamo para sua alma sofredora. Sorriu porque sentia-se finalmente liberto da dolorosa obrigação de viver.

CAP. 13

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eUM TEMPO DEPOIS, Agenor percebeu que havia alguém ao seu lado.

– Humm, como você fica horrível sem roupa…

Ainda deitado, Agenor virou o rosto e tentou ver quem era. Mas a água em seus olhos dificultava a visão. Aos poucos foi enxergando melhor: um par de botas pretas, a ponta de uma bengala…

– Soloniel… – ele sussurrou, agora reconhecendo o diabo em seu sobretudo preto.

– O mais astuto dos diabos – falou o diabo, tocando seu chapéu com a ponta dos dedos.

Agenor deitou novamente a cabeça, sem saber se deveria se sentir alegre ou triste.

– Por que fez isso comigo?

– Como assim? Fiz apenas o que me pediu.

– Eu só queria ser desejado…

– E não conseguiu?

Agenor suspirou, sem forças para falar.

– Creio que ambos concordamos que cumpri minha parte no trato, não é?

Agenor não respondeu. Nada mais importava. Ficaria ali, debaixo da chuva, até morrer…

– Conforme combinamos, vim buscar meu pagamento.

Agenor escutou aquelas palavras sem qualquer surpresa. Não lhe importava. Já estava morto.

– Por favor, levante-se, jovem. Esta não é a melhor posição para um momento tão solene.

Agenor abriu a boca, deixando que a água entrasse. Bebeu um pouco e depois perguntou, enquanto se erguia com dificuldade.

– O mundo vai continuar como está, todos os homens impotentes?

– É isso que você deseja?

– Claro que não. Não está certo.

O diabo Soloniel riu.

– Sente-se culpado apenas porque realizou seu grande desejo?

Agenor não respondeu.

– Como a vida é pródiga em ironias… – falou o diabo, batendo na bota com a ponta da bengala. – Bem, se isso serve de consolo, depois que você se for, tudo voltará ao normal.

Por um breve instante Agenor sentiu-se feliz.

– Agora siga-me. Está na hora.

O diabo caminhou até a murada da passarela e subiu, ficando de pé. Depois virou-se para Agenor.

– Sua vez.

Agenor foi até a murada e olhou para baixo. Era uma altura bem considerável. Ouvira dizer que várias pessoas já haviam se jogado dali.

– Vamos, jovem, não posso ficar esperando a eternidade inteira.

Agenor ficou parado por um instante. Que maneira de morrer, estatelado no asfalto, os carros passando por cima… Depois seu corpo seria recolhido aos pedaços e levado ao necrotério, ninguém o reconheceria, seria enterrado numa cova qualquer, como indigente…

Apesar da dor na perna, Agenor subiu e firmou os pés sobre o cimento.

– Muito bem – disse o diabo. – Se quiser se despedir, posso dar-lhe um minuto.

De pé na murada, inteiramente nu, Agenor viu as milhões de luzes da cidade ao redor. O som da chuva se misturava ao dos carros passando lá embaixo. A queda seria rápida, apenas alguns segundos e pronto, tudo estaria acabado, não haveria mais sofrimento.

– Um, dois, três e…

CAP. 14

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eDe repente… uma dúvida. Como assim não haveria mais sofrimento? Esperava o quê do inferno? Agenor olhou para o diabo, pensando em como perguntar sobre aquela dúvida repentina.

– Que saco. O que foi agora? – perguntou o diabo, impaciente.

– Como é o Inferno?

O diabo pareceu não acreditar no que ouvia.

– Você quer que eu lhe explique como é o Inferno? Agora?

– É que… não consigo imaginar algo pior do que o que já estou vivendo.

O diabo bateu na bota com a bengala.

– Bem, digamos que seu caso é uma exceção.

– Como assim?

– Como havia lhe dito, todos os diabos sonham com um pedido como o seu. Realizá-lo significaria a glória eterna para um diabo, o nome para sempre brilhando em ouro na entrada do Inferno. Bem, eu consegui. Agora sou o diabo mais respeitado de todos. Depois do chefão, é claro. E graças a você.

Agenor continuava ouvindo, curioso.

– Então, como retribuição, reservei um lugar especial para você. Será meu assessor. Você sabe, já estou velho, preciso dividir o serviço.

– Assessor? Eu?

– Claro. Dentro de alguns segundos você também será um diabo. E já tem um serviço esperando.

– Como assim?

O diabo fez uma pausa enquanto sorria.

– Dorinha vai fazer o pacto. Assim que terminar com você, irei encontrá-la.

– Dorinha?! – exclamou Agenor, surpreso.

– Sim. Sua ex-namorada. Já esqueceu da moça?

Então a lembrança de Dorinha chegou, vinda de longe… Agenor viu seu rosto bonito, sorridente… Uma sensação de suavidade e ternura tomou-lhe conta. A doce Dorinha, esquecera dela. Esquecera dos bons momentos que viveram, antes daquele pesadelo começar.

– Pois ela não esqueceu. E sabe qual é o pedido dela?

Agenor ficou calado, com medo do que poderia escutar.

– Que você volte para ela.

– Não acredito…

– Pelo jeito, ela gosta muito de você.

Agenor estava confuso.

– Ao ponto de sacrificar a própria alma.

Mas como aquilo seria possível?, Agenor pensou. Como ele voltaria para Dorinha se iria para o Inferno?

O diabo deu uma gargalhada.

– Você vai para o Inferno, sim. Mas logo voltará aqui para buscar Dorinha. Dessa forma ela terá seu grande desejo realizado. Soloniel é um diabo de palavra.

Agenor não acreditou. Não, aquilo não podia acontecer. Não com Dorinha.

– Escute, Soloniel, Dorinha é uma pessoa boa, não merece sofrer.

– Todos têm que sofrer. É a lei da vida.

– Mas não deviam vender a alma!

Agenor se surpreendeu com o próprio grito. E com o raio que caiu bem próximo, seguido de um estrondoso trovão. Ao seu lado o diabo continuava olhando para ele, agora muito sério.

– Ainda bem que você não é o dono do Inferno. Eu perderia meu emprego. Agora salte, já me fez perder muito tempo.

Agenor continuou parado, a água da chuva escorrendo por seu rosto.

– Salte, homem. Ainda tenho trabalho hoje.

Agenor nem se mexeu. O diabo respirou fundo, olhando para as próprias pernas.

– Você já reparou que eu não sou manco?

– Como?

– Eu não sou manco.

– E daí? – perguntou Agenor, estranhando aquela mudança de assunto.

De repente a dor, súbita e aguda. Num gesto muito rápido diabo o atingira com uma bengalada na perna machucada, fazendo-o perder o equilíbrio. Seu corpo oscilou para frente.

– Não me diga que achava que esta bengala era só charme…

Agenor agitou os braços, como se pudesse se segurar em algo, e seus movimentos pareceram uma estranha dança. Seu corpo caiu pesadamente enquanto ele gritava:

– Nãããããooooo!!!…

CAP. 15

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eChocou-se todo desajeitado contra o chão, batendo a cabeça. Quando abriu os olhos e olhou para cima, meio zonzo, percebeu que a chuva havia subitamente parado. Mas… onde estava a passarela? Não viu a passarela. Nem os carros. Nem a avenida, nem a cidade, nada. Estava no Inferno. Mas o Inferno tinha mato? Ao redor, via apenas mato. E o céu cheio de estrelas.

Levantou-se, sentindo o coração acelerado, o suor no rosto. Havia adormecido enquanto aguardava… e caíra da pedra onde estava sentado. E tivera um pesadelo horrível!

Apoiou-se na pedra, as sensações do sonho ainda fortes. Estava na pedra grande, a cidade de Juba lá embaixo. Respirou fundo, tentando se acalmar. Como pudera sonhar tanto em tão pouco tempo? E além do mais fora tudo tão real, tão real…

Pegou o cobertor no chão. Depois olhou o relógio. Era meia-noite, em ponto. Nesse momento escutou um ruído, alguém chegando pelo mato. O ruído ficou mais forte e ele viu as folhas mexerem. Então, por entre a folhagem escura, surgiu…

Não teve dúvidas: deu meia-volta e saiu numa carreira desatinada, descendo a encosta da pedra numa velocidade louca, o pavor fazendo cada passo valer por dez. Não olhou para trás nenhuma vez. Entrou na cidade correndo e só parou quando chegou em casa. Pegou a chave no bolso, abriu a porta e entrou rapidamente.

– Meu filho, onde você estava? – perguntou dona Fafá, vindo da cozinha. – Venha jantar.

– Oi, mãe… – ele murmurou, ofegante, fechando rapidamente a porta e passando a tranca.

– Que cara é essa? Parece que viu alma.

Agenor procurou se acalmar. Beijou a mãe e foi para a cozinha.

– Quem esteve aqui agora há pouco foi Dorinha.

– Dorinha? – ele perguntou, novamente assustado.

– Sim, vinha do restaurante. Perguntou de você. Menina boa, ela.

– Verdade? E… pra onde ela foi?

– Disse que ia se encontrar com alguém e depois ia para casa.

– Encontrar… com alguém? A essa hora? Ela disse com quem?

O coração de Agenor batia forte. Dona Fafá olhou para o filho sem entender aquelas perguntas todas. Foi então que alguém bateu na porta.

– Será que a Dorinha esqueceu alguma coisa? – disse dona Fafá, caminhando para abrir a porta.

– Não, mãe! Não abra!

Dona Fafá parou e olhou para o filho, desconfiada.

– Você está muito estranho. Andou bebendo?

Agenor correu para impedir mas ela abriu a porta, enquanto ele fechava os olhos para não ver.

– Oi, Agenor.

Aquela voz…

– Mas que pressa medonha, Agenor! Passou correndo por mim, nem me ouviu te chamar…

Agenor abriu os olhos e viu Dorinha.

– Tem comida na geladeira, viu, filho? – disse dona Fafá, piscando um olho para Dorinha e saindo da sala.

– Você… foi encontrar… alguém? – ele perguntou, gaguejando.

– Fui.

– Quem?

– A prima Botinha. Ela vai casar, sabia? E a festa vai ser lá no restaurante.

Ele suspirou aliviado. Depois desviou o olhar, com vergonha.

– E você, tudo bem?

Ele fez que sim com a cabeça. Ela sorriu.

– Tudo bem. Vim só dar um oi.

Ele procurou algo para dizer mas não achou. O coração ainda batia acelerado. Dorinha… Em Jubá até havia mulheres mais bonitas que ela, mas Dorinha era especial, tinha um algo mais… Se ela soubesse quantas noites ele sonhara com ela… em seus braços…

– Bem, acho que já vou indo para casa.

– Vai?

– Está tarde, Agenor.

Ele olhou na direção da pedra grande. Depois olhou para ela. Sentiu uma súbita vontade de abraçá-la, uma vontade tão grande que precisou segurar os próprios braços. A velha timidez. A velha timidez que nos últimos meses sempre o impedia de dizer o que sentia por ela.

– Dorinha…

– Sim?

Ele fechou os olhos, procurando em algum lugar dentro de si a força necessária para o que tanto queria dizer. Ela aguardava.

– É, está tarde mesmo ‒ ele falou, sorrindo nervosamente. Não conseguia. Nunca conseguia. Jamais conseguiria.

– Tchau, Agenor. Aparece no restaurante.

Dorinha virou-se e saiu. Agenor foi para o batente da porta e de lá a observou caminhando pela calçada. Não fora forte para fazer o pacto. E nem era forte para lutar pela mulher com quem tanto sonhava. Definitivamente, era um fraco. Então entrou em casa e puxou a porta.

CAP. 16

OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eNesse instante, porém, um carro passou na rua e a luz dos faróis bateu em cheio sobre seu rosto. Imediatamente lembrou da luz a persegui-lo enquanto tentava escapar da equipe de tevê. Num impulso, sem pensar no que fazia, abriu a porta e saiu correndo atrás do carro.

Na esquina o carro fez a curva e sumiu. Mas Agenor não dobrou a esquina, não era o carro que lhe interessava. Ele continuou correndo e só parou quando alcançou Dorinha, que tomou um susto ao vê-lo chegar de repente e lhe pegar pelos ombros. Sem dizer nada, ele a virou para si e sapecou-lhe um beijo na boca, forte, ardente. Dorinha quase caiu, mas ele a amparou e a encostou no muro, sem interromper o beijo.

Um bom tempo depois, quando ele finalmente a largou, Dorinha não sabia bem onde estava, que dia era… Sabia apenas que queria mais.

– Voltei – ele disse.

– Pensei que você não me desejava… – ela murmurou, encostada no muro, toda molenga.

– É que eu… não sabia desejar direito.

E beijaram-se outra vez, ainda mais forte.

Na bodega da esquina, sentado numa mesa com o último cliente da noite, Ribamar olhava satisfeito o casal se beijando.

– Até que enfim esse menino tomou tenência. A moça doidinha por ele…

– Quanto lhe devo, meu amigo?

– Um conhaque. Dois reais.

O homem tirou uma nota do bolso do sobretudo e pagou.

– O senhor não é daqui, né? – perguntou Ribamar, recolhendo o copo e levando para o balcão.

– Vim ver um cliente ‒ respondeu o homem, levantando-se e apoiando-se numa bengala. ‒ Mas ele não apareceu.

– Que pena. Fez viagem perdida.

– Fiz não. No meu ramo, cliente é o que não falta.

– Coisa boa. Que mal pergunte, qual é o seu ramo? – perguntou Ribamar, voltando à mesa.

Mas não havia mais ninguém. Ninguém na mesa, ninguém por perto.

– Vixe! – exclamou, sentindo um calafrio.

Bateu três vezes na madeira e rapidamente fechou a porta, sem esquecer de dar duas voltas na chave, e do cadeado e da tranca.

Adiante, encostada no muro, Dorinha suspirou nos braços de Agenor e, com os olhinhos fechados, pediu outro beijo. Mais forte.
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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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OUltimoHomemDoMundoA6Capa-06eO Último Homem do Mundo

O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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COMENTÁRIOS
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01- Eu gostei deste muito. gigi28 – jul2008

02- Você é bom mesmo, Ricardo. Quando vem a terrinha? Um grande abraço do amigo-leitor seu. Maninho, Fortaleza-CE – ago2008

03- Quem quer todas, não tem nenhuma. A graça de um relacionamento é ir até o fundo, explorar tudo, dure 3 meses ou 10 anos. Mas com inteireza, com verdade. Quem tem todas, não conhece, de verdade, nenhuma. Bjo. Chris, Rio de Janeiro-RJ – jan2009

04- Aquela que serve é a que conhece . conhece mesmo ? e aquele que deseja, é o faminto do lobisomem ? o grande assustado ? o fugitivo de boné … quisera ter o pacto com quem ? efusivo Agenor , talvez um perfume afrodisíaco com a tônica dionisíaca vai saber … agradaria uma bela garçonete que pega a carona no seu caminhão feito mesmo o último homem de jubá …. ahahahahahahah ! Marcia, São Paulo-SP – ago2009

05- Oi, Kelmer! Agenor é bem dotado, também, de criatividade. Ele conseguirá, um dia. rsss Linkei o teu blog no meu. =) Abs! Val – mar2010

06- Ei macho… Tu quer me matar de curiosidade é?? Parabens esse conto é incrível!!! Todo homem já se imaginou nessa situação, o problema é que nenhum homem tentou imaginar a saída desta. Valeu!!! Pedro Henrique – mar2010

07- =D Adorei essa história!!! Parabéns… o desfecho foi muito interessante. Agradeço pela possibilidade de tê-la lido. Mas… Já acabou… =(. Luciana R – abr2010

08- Achei legal o desfecho. Que pena que acabou! Karla – abr2010

09- Adorei! Aplausossssssssssss….. Gostei tanto que fiquei triste por ter acabado, hauhauahau… Parabéns Kelmer. Quero mais histórias assim. ;D Até a próxima! ;* Ingrid – abr2010

10- É até boa, mas muito brusco o fim, o que a torna sem um bom desfecho. Mariana – abr2010

11- Faltaram os créditos para a imagem da pintura usada neste artigo. O autor é o pintor peruano Boris Vallejo. Silveira Neto – abr2010

12- Muito boa a história, acompanhei-a e gostei muito. Até que enfim o Agenor teve coragem. Eu já estava angustiado com a timidez dele. Francisco Edvar – abr2010

13- ACOMPANHEI E GOSTEI DE TODA A HISTÓRIA,PORÉM O FINAL FICOU UM TANTO INCOMPLETO,HAVERÁ CONTINUAÇÃO? Dokho– abr2010

14- eita historia mais envolvente rapaz,cada capitulo era uma viagem,parabens para o escritor que deleitor dentro dos sonhos de muitos homens timidos q desejam serem desejados. Espero outras historias exoticas. Kildery – abr2010

15- Esse cigarrinho era bem docinho, hein? rs. Christiane – mai2010

16- Essa história é genial (O último homem do mundo). Recomendo. Vale muito a pena ler. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – jun2010


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8 Responses to O último homem do mundo

  1. Chris disse:

    Adorei essa estória, que diabo tão do bem, fiquei fã dele. Essa estória daria um filme de comédia fantástico.

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  2. Christiane disse:

    Esse cigarrinho era bem docinho, hein? rs

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  3. Noelly disse:

    iasudhaiudhas, adorei!

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  4. […] O último homem do mundo Agenor só queria ser desejado pelas mulheres. Então lhe indicaram um fumo muito bom e ele fez um pacto com um demônio. […]

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  5. Tárcio Meireles disse:

    Ri muito durante a leitura. Texto muito “visual”, é possível ver cada uma das passagens como cenas de uma comédia. Espero um dia ver esse texto em alguma montagem teatral. Divertido, empolgante, cativante, fluido. Simples e direto…

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