O segredo da princesa prometida

09/11/2015

09nov2015

Ele é um cantor famoso, e ela é uma garota num vestido preto que quer realizar seu sonho secreto

OSegredoDaPrincesaPrometida-01

O SEGREDO DA PRINCESA PROMETIDA

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Entro no banheiro da suíte, fecho a porta e me olho no espelho. A maquiagem disfarça os meus recém-completados dezoito anos. E espero que disfarce também o meu segredo. Sorrio satisfeita e me concentro no retoque do batom vermelho. Acho que ele adorou meu decote, não parava de olhar. Ajeito a flor no cabelo e confiro mais uma vez meu vestido. Adoro vestido preto, eles me deixam mais… mulher. Então escuto sua voz do outro lado da porta e ela me traz novamente o conflito. Sabendo tudo o que agora sei, ainda faz sentido estar com ele nesta suíte de hotel cinco estrelas? Estou realmente confusa. Será que já fui longe demais para voltar?

Mamãe me criou sozinha após meu pai morrer num acidente. Como na época eu era um bebê de dois anos de idade, não tenho nenhuma lembrança dele. Quando cresci o suficiente para entender que eu era órfã, fiquei muito triste, claro, mas minha mãe, que não casou novamente, me ajudou a assimilar a situação.

A dona da boca vermelha que me olha insinuante do espelho respira fundo e sai do banheiro. Agora vejo-o na porta do quarto recebendo o vinho que o garçom veio deixar. A decoração do quarto é sóbria e a iluminação é suave, e no rádio toca baixinho uma música romântica que eu gosto, ele escolheu bem a estação. Ele serve o vinho e me oferece uma taça, gentil como um homem da sua idade deve ser. À linda princesa que a vida trouxe hoje para mim, ele diz, sorrindo e me olhando nos olhos. Eu não sei o que dizer e as taças tilintam, respondendo por mim. O vinho é gostoso e bebo rapidamente. Ele suspende seu gole e diz, sempre sorridente e compreensivo: Calma, temos a madrugada inteira. Sim, eu respondo, quase engasgando. Sim, sim!, eu grito por dentro, eufórica e nervosa. E bebo o resto da taça.

Tive uma infância normal, sem a presença de um pai mas com toda a atenção de minha mãe, que se desdobrou para que nada faltasse à filha única. Em meu aniversário de treze anos, ela me presenteou com uma decoração nova em meu quarto, no estilo princesa. Gostei. Mas o que eu queria mesmo, não ganhei: meu melhor presente seria que mamãe me levasse para ver o show de um cantor romântico que eu gostava muito. Bastante surpresa com meu pedido, ela justificou a negativa explicando que havia outros artistas mais apropriados para minha idade. Insisti, e pela primeira vez mamãe foi grosseira comigo. Esse presente eu não dou e nunca mais me peça nada desse homem, ela falou, enfática, e saiu batendo a porta. De fato, eu era uma exceção entre minhas amigas, pois enquanto elas gostavam de artistas bem mais novos, eu gostava dele, trinta anos mais velho, cheio de classe ‒ para mim ele era como um rei. E foi embalada por sua voz masculina e sensual que descobri os prazeres deliciosos que uma garotinha pode ter à noite, sozinha em seu quarto de princesa.

Enquanto bebemos o vinho, sentados na cama da suíte, seu celular toca. Ele me pede desculpas, precisa atender, é sua empresária. Enquanto conversa sobre detalhes do show que fará no dia seguinte, observo-o mais atentamente. Veste jeans e camiseta sem mangas, está descalço. Gosto dos seus pés, são bem feitos. Reparo que seu peito é largo e que ele tem uma charmosa barriguinha. Está em ótima forma para os quase cinquenta anos que tem. E o cabelo grisalho que eu acho encantador… Caramba, de pertinho assim ele é ainda mais lindo e majestoso.

De nada adiantou a birra materna: não só continuei gostando como virei fanzona declarada: agora tinha todos os discos e DVDs do meu ídolo, todas as músicas, camisetas, as revistas com as matérias, tudo. Vendo que não tinha mesmo jeito, mamãe acabou aceitando, embora contrariada, mas desde então negou-se a comentar o assunto. Achei exagerado de sua parte, mas se ela preferia assim, por mim tudo bem. E quanto à minha fantasia predileta, melhor que ela jamais soubesse, pois nela o meu cantor amado era o meu primeiríssimo homem, aquele a quem eu daria o privilégio de me iniciar nos prazeres a dois.

Ele finaliza a ligação, pede desculpas mais uma vez e diz: Agora sou todo seu. E desliga o celular, pondo-o dentro da gaveta da mesinha ao lado. Ele percebe a garrafa quase vazia e ri. Vou pedir outro vinho, mas você vai beber devagar, promete? E eu prometo, claro, princesa prometida que dele sou.

Foi na semana passada que aconteceu. Eu olhava uns antigos álbuns de fotos e, mexendo no armário de minha mãe, me chamou a atenção uma bonita caixa de chocolate importado. Dentro encontrei uma foto, na qual mamãe sorria feliz, abraçada a um homem. Pela data no verso da foto, calculei que mamãe estava grávida de mim. Mas… aquele homem não era papai. Então, de repente… eu o reconheci.

Ele pergunta sobre mim e eu digo que sou apenas uma admiradora que, estando ele fazendo show pela primeira vez em minha cidade, não perderia por nada a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Ele sorri seu sorriso cavalheiro e conta, num tom de confissão, que está acostumado com as abordagens de suas fãs, mas que nessa noite, no restaurante do hotel, ficou realmente interessado na moça bonita de vestido preto e flor no cabelo que lhe oferecia de presente uma caixa de chocolate, parecia uma princesa. Como você sabe que esse sempre foi meu chocolate predileto?, ele me pergunta, e parece bem intrigado. Respondo que é segredo e ele ri, e diz que adora segredos, e que em agradecimento por um presente tão especial, fará tudo que eu quiser essa noite. Ponho a taça sobre a mesinha e, silenciosamente, começo a tirar os sapatos, depois o vestido e, por fim, a calcinha. Ele parece um bobo, sem acreditar no que vê. Agora, vestido ao chão e inteiramente nua, não sei como consegui fazer o que acabo de fazer. Mas sei também que não há mais retorno. Nua, de pé em frente a ele, sinto-me estranha… mas me sinto ótima. É como se nesse momento eu não fosse eu. É como se nesse momento eu finalmente fosse meu verdadeiro eu. Tudo que eu quiser? Sim, tudo que você quiser. Então quero que esta noite o rei cuide muito bem de sua princesa.

Sim, é o seu cantor, mamãe falou, respondendo à minha pergunta, e não sei dizer quem ali estava mais surpresa, se eu ou ela. Então, ainda olhando a foto que eu lhe mostrava, mamãe respirou fundo e pediu desculpas por ter escondido de mim o que agora iria revelar. E contou que o conhecera quando ela já estava casada e ele ainda não era um cantor famoso, que ela se apaixonou perdidamente e eles tiveram um caso secreto, e que quando eu nasci ele já a havia abandonado. Enquanto mamãe enxugava os olhos marejados, eu finalmente entendia o motivo de sua birra com meu cantor: bem antes de mim, ela também o amara. E, o que era pior, talvez ainda o amasse… Não sei dizer o que exatamente senti. No início, não consegui acreditar, mas depois senti raiva misturada com ciúme e outros sentimentos contraditórios. Lembrei do show que na semana seguinte ele, pela primeira vez, faria em nossa cidade, para o qual eu já havia comprado meu ingresso, e tive vontade de lhe contar que eu iria e o veria de pertinho, e até sabia o hotel em que ele ficaria, e tive vontade de contar até mesmo da minha fantasia secretíssima… Porém, nesse instante, intuí que poderia haver algo mais naquela história toda, algo bem mais sério. Mãe, tem mais alguma coisa sobre esse homem que eu ainda não sei?, perguntei, e estremeci ao pensar que aquela podia ser a pergunta que durante dezoito anos ela esperou não ter jamais que responder.

A tensão que me dominava o corpo aos poucos evapora ao toque de suas mãos, tão fortes, tão seguras. Eu fecho os olhos, e no escuro dos meus sentidos já não sei mais quem é o homem que me acaricia, mas sim, eu sei muito bem quem ele é, e ele não sabe quem eu sou, e o meu segredo me faz poderosa… Lembro de mamãe e me divirto imaginando que agora ela me vê… Esses meus pensamentos, porém, eles são tão pesados, não me deixam voar… Então, finalmente me solto do conflito e voo pelo céu de sensações que sua língua atrevida me provoca a explorar os mistérios guardados do meu corpo, e o afasto para que ele pare um pouco, me deixe respirar, senão eu posso morrer e eu não quero morrer ainda. Mas morrer assim é tão bom e eu lhe ordeno, vem, e ele obedece à sua princesa e vem, vem desde lá dos meus pés, vem subindo sobre meu corpo, e minhas pernas o abraçam como num laço de presente, o meu presente. Eu te amo, sussurro em seu ouvido, e ele, olhando em meus olhos, diz que me ama também, e eu choro porque sempre quis ouvir isso, e ele lambe as minhas lágrimas, provando o gosto da minha longa espera, e me beija a boca apaixonado, misturando lágrimas e saliva num beijo doce e verdadeiro. Tão doce e verdadeiro quanto a dor que subitamente sinto quando, num movimento mais forte, ele avança em direção ao meu profundíssimo desejo e me faz, finalmente, sua mulher.

Na fresta da cortina da janela as primeiras luzes do amanhecer se encontram com meu olhar. Meu olhar de quem não conseguiu dormir, pois os prazeres e as dores que vivi ainda formigam pelo meu corpo. Ele dorme ao meu lado, mas é como se ainda estivesse dentro de mim, másculo, gentil e experiente, cuidando para que tudo seja perfeito, e mais perfeito do que foi eu não poderia mesmo imaginar. Mas já passou, e estou aliviada porque tudo que resta do turbilhão de pensamentos conflitantes que me angustiavam a alma é uma mancha vermelha no lençol. Já passou, já foi, e agora preciso voltar para casa. Quando estou saindo, ele desperta e, bocejando, diz que me espera à noite no show. Sorrio satisfeita, mas não respondo, e saio, fechando a porta devagar. No saguão do hotel há uma lixeira. É lá que atiro o ingresso do show, comprado um mês atrás. E é assim que me vou, leve e reluzente como uma mulher amanhecida. Ou como uma princesa malcriada.

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Ricardo Kelmer 2012  – blogdokelmer.com

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Este conto integra o livro Indecências para o Fim de Tarde

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IndecenciasParaOFimDeTardeCAPA-01aINDECÊNCIAS PARA O FIM DE TARDE
Ricardo Kelmer – Contos eróticos

Os 23 contos deste livro exploram o erotismo em muitas de suas facetas. Às vezes ele é suave e místico como o luar de um ritual pagão de fertilidade na floresta. Outras vezes é divertido e canalha como a conversa de um homem com seu pênis sobre a fase de seca pela qual está passando. Também pode ser romântico e misterioso como a adolescente que decide ter um encontro muito especial com seu ídolo maior, o próprio pai. Ou pode ser perturbador como uma advogada que descobre que gosta de fazer sexo por dinheiro.

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Adorei essa princesa! Quando comecei a leitura eu tive a impressão de que ela tinha um quê de Anastasia Steele, mas não, ela é muito mais resoluta, e exala uma sensualidade linda a cada movimento que ela descreve. Me identifiquei, viu? Acho superexcitante essa fantasia da fã se entregar ao seu ídolo, acho que nunca perdi isso com vc. 🙂 E nossa, que coisa mais machadiana! Quando ela pergunta pra mãe se tem algo a mais naquela história que ela deveria saber, fica a dúvida se a mãe respondeu algo ou não. E afinal, o rei era mesmo pai da princesa? São tantas emoções… Muito bom seu jeito de deixar isso na cabeça do leitor sem que esteja explícito no texto nem mesmo em forma de dúvida da narradora. E acho que vc soube explorar bem essa rivalidadezinha que existe entre mãe e filha sem cair na competição declarada, que é o que rola na realidade muitas vezes. Os planos de encontrar o tal cantor no hotel parecem anteriores à descoberta do caso antigo da mãe. O que será que a fez desistir de ir ao show e, ao que parece, desistir de continuar encontrando o rei? Acho que esse segredo a princesa vai levar com ela, né? Amei o conto, é adorável, misterioso, surpreendente. Mais uma Lolita kelmérica inesquecível e mal criada. Wanessa, Fortaleza-CE – 2014

02- Porrada. A narrativa me conduziu ansioso até a última linha. Vai revelando aos poucos a surpresa. Tem a sutileza dela ser a princesa e ele o rei… Pra mim, só faltou um detalhe pro gosto final da leitura ganhar um poder literário mais definitivo: antes do “…como uma mulher amanhecida. Ou como uma princesa malcriada” poderia haver alguma informação a mais que nos fizesse realmente cúmplice de algum “pensamento/desejo impronunciável” dela – desculpe o clichê, mas a essa hora minha cabeça não conseguiu pensar nada melhor… – que desse uma pista sobre a motivação que a levou a querer se deitar com seu pai, digo, rei. De resto, o ritmo me parece perfeito, assim como as descrições, como os personagens vão se explicando. Tudo delicado, suave, contrastando com a porrada do tabu que se anuncia. Marcelo Pinto, Rio de Janeiro-RJ – 2014

03- Gostei sim dele, principalmente no final, mulheres vingativas estão sempre presentes em teus contos. A questão de que pode ser o pai dela e tal, apesar de não dizer com todas as palavras, deixa uma pulguinha atrás da orelha. (Lembra os contos de Machado). Geralmente é assim né, garotas se vingam dando o que tem de melhor, pelo menos isso já ocorreu comigo. A história tá ótima, só senti falta dos detalhes mais eróticos da noite de amor deles. Nadine, Fortaleza-CE – 2014

04- Posso te rasgar de elogios? rsrsrs O texto está ótimo, com detalhes importantes para aguçar a imaginação erótica do leitor (eu fiquei hipnotizada, depois surpresa com o desfecho). A priore, parece extenso, mas é de leitura fácil, prendeu minha atenção e, como na maioria dos textos, me fez colocar-se no lugar da “princesa”. Achei que fosse descrever a fantasia da moça, com detalhes de ‘sadomaso’, mas depois vi que eram pensamentos dela e o drama de praticamente dividir o belo cantor de cabelos grisalhos com a mãe. Isso aí dá ‘pano pra manga’, diria mais, dá um bom livro! Samara do Vale, Fortaleza-CE – 2014

05- Texto excelente. Você, como ninguém, sabe fazer essas voltas ao passado como flashes de filme… Os cortes de tensão nos lugares certos deixaram o clima de suspense intacto do início ao fim.  Princesinha complexa essa, né? No início fiquei meio penalizada pela história de vida dela, uma fragilidade imensa, depois ela se transfigurou em um menina diferente, um tanto quanto calculista, sádica até. Há nela uma determinação obsessiva em cumprir seu objetivo e isso foi muito bem descrito por você. A questão chave é a surpresa provocada no leitor com a revelação da mãe, que não chega a ser uma revelação literal. Imaginar a cena sensual e ao mesmo tempo possivelmente incestuosa causa uma confusão de sensações no leitor (pelo menos em mim causou). Os elementos de alguma maneira se completam, mesmo que antagonicamente: as fantasias, sonhos que se tornam realidade, a figura da princesa, tudo tão ingênuo, em seguida se transforma em algo mais ácido, nada infantil. O prazer que ela sente em “afrontar” a mãe parece que é muito maior que o próprio gozo sexual, enfim, personagem freudiana dá nessas nóias. A narração em primeira pessoa, sendo uma personagem feminina, sempre vai me surpreender quando se trata de Ricardo Kelmer. Tu soube transcrever realmente o pensamento de uma jovem cheia de conflitos, curiosa, lacônica, sedutora, fatal, menininha, maquiavélica, mulher. Parabéns, querido. Sou cada vez mais tua fã. Rosa Emília, Fortaleza-CE – 2014 

06- Rapas, muito bom. Eu juro que visualizei o Reginaldo Rossi nesse conto. E bem maluco essa mistério… Será que o hómi é o pai dela? Tô até imaginando uma adaptação… Bora! Publica logo que é muito bom. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – 2014

07- Oi! Curti!! Mas fantasiei outras coisas…rs…juraaaava que ele era o pai dela.. Bacana…prende a atenção e desconstrói a expectativa no final 🙂 Flávia L, São Paulo-SP – 2014

08- Conto: Segredo da Princesa. Qualidade literária: eu acho que vc escreve bem. Sexualmente excitante: sim. Prende a atenção: sim. Divertido: não é divertido, mas prende a atenção de outra forma, a iniciação sexual é sempre um marco, é tara para os homens e busca para as mulheres, aliando prazer a isso faz o conto ficar mais interessante. Provoca reflexões: sim, muitas… Muito legal ! Excitante, psicologico rico e interessante, pois lida com o desafio da menina que se torna mulher, é o momento em que ela tem que desafiar a mãe, e a menina faz isso, apesar de ter medo e receio, as mulheres vão se identificar com isso, ao mesmo tempo há o lance do proibido, do primeiro amor/amante ser o pai, isso é algo provocante, que mexe com o inconsciente da mulher, nosso primeiro amor é sempre o pai, ou alguém parecido com ele, mesmo que não tenhamos muita noção disso, e seu conto traz isso a tona, achei bom o tema, o desenvolvimento da historia, só acho que no final poderia colocar algo de disputa com a mãe, isso seria provocar ao máximo rs…talvez uma frase: “minha mãe nem imagina que amei o mesmo homem que ela” assim a menina prova que realmente vivou mulher e ainda de forma safada, um pouco Nelson Rodrigues sabe…rs. Adriana A, São Paulo-SP – 2014

09- O Segredo da Princesa eu não curti tanto, não achei excitante e nem divertido. Nota 2, e na questão prendeu a atenção 3. Cris B, São Paulo-SP – 2014

10- Achei o conto com muita história para ser desenvolvida e sobrou pouco para o erótico, faltou detalhe, um toque machadiano. A carga do mistério do plano de fundo foi grande comparada ao erótico que ficou apagado. Independente dessa opinião, super rigorosa, é um bom conto. Qualidade literária: 4. Sexualmente excitante: 2. Prende a atenção: 3. Divertido: 3. Provoca reflexões: 2. Marcela F, Rio das Ostras-RJ – 2014

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O desejo da Deusa

12/10/2015

12out2015

Um encontro na praia, as forças da Natureza e um deus repressor

ODesejoDaDeusa-02

O DESEJO DA DEUSA

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– Aí eu fico pensando o que Deus vai pensar de mim! – Zoé respondeu, angustiada. E Monquita balançou a cabeça, sem acreditar, como a amiga podia ser tão reprimida?

O céu de Jericoacoara parecia um manto negro cravejado de lantejoulas, tantas as estrelas, tão brilhantes eram. Zoé olhou para elas e, mesmo sabendo que a noite estava linda, não conseguia ver nenhuma beleza. Ela suspirou, desanimada. Estava em apuros. Uma parte sua ansiava pelo moço, mas a outra parte se aterrorizava diante de tal ânsia…

O moço. Ela o conhecera na noite anterior, no ônibus que os levaria a Jericoacoara: ele sentou na poltrona ao lado, entre eles apenas o vazio do corredor. O moço era jovem, moreno, bonito, tinha uns olhinhos verdes… Parecia tímido, e isso lhe dava um certo charme. E a observava! Discretamente, sim, mas não tanto que ela não pudesse perceber.

– Essa viagem promete, heim…

Era a amiga Monquita, lhe beliscando o braço.

– Sua boba. Ele é bem mais novo que eu.

– Pronto. Já começou a se boicotar…

Ela pensou em retrucar, mas desistiu. Estava cansada, queria aproveitar as próximas horas de estrada para dormir. E foi o que fez.

Acordou somente para a troca de carros, na cidadezinha de Jijoca. E foi enquanto passavam as mochilas para a caminhonete que ela soube que em Jericoacoara o moço se hospedaria na mesma pousada onde elas ficariam, que coincidência…

– Nada de coincidência – a amiga brincou. – Já te falei que em Jeri, o mar de repente aparece… e tudo acontece.

– Fala baixo, Monquita! – ela a repreendeu, e tratou de sentar no último banco, bem longe do moço.

– Eu vi como os teus olhos brilhavam quando você olhava pra ele ‒ continuou a amiga, sentando ao lado. ‒ Pareciam dois faróis!

– Tá bom. Agora te aquieta aí e vamos aproveitar a paisagem.

Mas foi inútil. Durante o trajeto pelas dunas, sob o céu estrelado do litoral cearense, teve que escutar mais uma vez a amiga a lembrar-lhe: ela era uma mulher de quarenta anos, separada, bonita, livre e não tinha que prestar satisfação a ninguém das coisas que fazia. Para Zoé, porém, não era assim tão simples. Sim, ela agora era uma mulher separada, mas acontece que sempre que se interessava por um homem, era como se toda a sua educação cristã de repente lhe pesasse sobre os ombros e aí era impossível fugir do olhar implacável de Deus…

– Ele está a dois quartos do nosso, você viu? – perguntou a amiga, enquanto trocavam de roupa, já no quarto da pousada.

– E daí? – respondeu Zoé, séria.

– Ih, relaxa, amiga. Este fim de semana é pra gente se divertir.

– Você sabe que eu fico nervosa com essas coisas, tô destreinada…

– Tá bom. Mas pelo menos põe um sorriso nessa cara, vai.

Zoé sorriu. A amiga tinha razão, precisava relaxar.

Escolheram um bar com música ao vivo. Logo na entrada, porém, Zoé ficou séria novamente. Lá dentro, em frente ao pequeno palco onde tocava uma banda de rock, o motivo de sua seriedade tomava uma cerveja.

– Hummm, acho que a Deusa tá querendo acasalar gente…

– Fala baixo, sua louca!

Monquita a puxou pelo braço e no instante seguinte estavam encostadas no balcão. Enquanto a amiga pedia duas caipiroscas, Zoé tentava se esconder do moço.

– Você tá parecendo uma adolescente idiota…

Ela riu de nervosismo e teve que admitir para si mesma: de fato, comportava-se como uma garota boba de quinze anos, e nem sua filha, um ano mais nova, agia assim. Como um desconhecido podia deixá-la tão nervosa daquele jeito?

A amiga havia ido ao banheiro quando, de repente, escutou a voz atrás de si:

– Legal esse bar, né?

Zoé virou-se e lá estava ele, o moço, bem à sua frente, ao alcance de seu braço, sorrindo para ela o sorriso tímido mais doce do mundo. E de repente ela sentiu um tremor em alguma parte não localizada de seu corpo.

– Se incomoda se eu… ahn… ficar aqui… com você?

A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi correr para o banheiro. Depois pensou em fingir que era surda. Por fim, procurando ser o mais natural possível, respondeu:

– Obriga-gada… mas eu… eu… tô aqui guardando a ca-caipirosca da minha amiga.

Hummm, que resposta ridícula, ela mesma reconheceu, já corando de vergonha. Mas agora era tarde, já falara. E ainda havia conseguido gaguejar três vezes numa única frase. Então sorriu, tentando relaxar. Mas o esforço pelo sorriso foi tamanho que no segundo seguinte ela estava séria novamente. Concentrou-se um pouco mais e conseguiu sorrir de novo. Mas imediatamente teve a certeza de que sorria o sorriso mais desajeitado da história da humanidade e desistiu de vez daquele negócio de sorrir. Pegou o copo no balcão e fingiu que dava um gole na bebida, qualquer coisa para não ficar ali olhando para ele, naquele silêncio constrangedor, os olhinhos dele… tão lindos… verdes como o mar de Jeri…

Como se houvesse cansado de esperar, o moço virou-se e saiu. Ela suspirou, aliviada – e ao mesmo tempo arrasada. De repente, a imagem do moço se afastando era a imagem viva de sua incompetência para ser feliz… Que droga! Tudo que precisava era obedecer a seu corpo e dizer sim, apenas isso, ela sabia… Mas por que era tão difícil? Por que a felicidade do corpo tinha de ser pecado?

Na volta para a pousada, a escuridão das ruelas de areia a fazia sentir-se num labirinto. Mas o labirinto na verdade estava dentro dela própria, ela sabia, corredores e curvas a levá-la sempre ao mesmo lugar: aquela maldita sensação de culpa. Onde ficava a saída? Por que se sentia tão suja por desejar um desconhecido?

A voz de Monquita a salvou do labirinto:

– Seu azar, minha filha, é que ele é tímido. Se fosse mais safado, tinha te agarrado ali mesmo no balcão.

– Tenho certeza que ele me acha uma débil mental.

– Acho que não. Ele apenas não entendeu o que uma freira fazia num bar de rock…

– O que você faria no meu lugar?

– Eu? Eu já tinha arrastado ele pro quarto e lhe mostrado o que a Filha da Deusa tem.

– Ai, Monquita… eu até que tenho vontade, juro… mas aí eu fico pensando…

– Fica pensando o quê, mulher?

– Aí eu fico pensando o que Deus vai pensar de mim! – Zoé respondeu, angustiada.

Monquita balançou a cabeça, sem acreditar, como a amiga podia ser tão reprimida?

– Que deus é esse que é contra você se dar um pouco de prazer?

De volta à pousada, ela trocou de roupa, jogou-se na cama e fechou os olhos, querendo apenas dormir, apagar. Fugir de si mesma. Sumir.

Pelo corredor da igreja cheia de gente ela caminhou, até chegar ao altar, e quando se preparava para receber o anel em seu dedo, das mãos de um noivo mascarado, deu-se conta de que estava nua, inteiramente nua, e correu para trás do altar, tentando se esconder, mas a toalha do altar era curta demais e não cobria sua nudez…

No quintal da pousada, sentada no banquinho sob a goiabeira, enquanto aguardava a amiga sair do banho, Zoé ainda podia sentir vívidas as sensações do sonho que tivera aquela noite, ela nua em seu próprio casamento, morrendo de vergonha…

Aceitara o convite de Monquita para passar o fim de semana em Jericoacoara e esquecer a chatice do processo de divórcio, mas até então tudo que conseguira foi mostrar para si própria o quanto não era nada da mulher livre que imaginava que podia ser. Nem mesmo em sonho.

Nesse momento, ela o viu. O moço saía de seu quarto e, vestido apenas com uma sunga preta, parou à porta ainda sonolento e despenteado, esticou os braços e se espreguiçou, dobrando o corpo para um lado, depois para o outro, girando o tronco, o pescoço… Não era tão forte, mas tinha um corpo bonito. Zoé sentiu o coração disparar enquanto o moço seguia em direção ao lugar onde o café era servido, caminhando descalço e devagar, de um jeito bonito, uma elegância displicente, parecia um felino…

Foi como se o tempo parasse para ela olhar. Olhar e sentir o calor na coxa, aquela antiga sensação… um arrepio a lhe fuçar por dentro, sem pedir licença… Ela levou a mão para o meio das pernas e juntou uma coxa contra a outra, e fechou os olhos, deixando que a sensação guiasse sua mente por aqueles caminhos que ela já esquecera que existiam…

Mas logo abriu os olhos, assustada com a intensidade das sensações. E saiu apressada para o quarto.

– Monquita, eu imaginei tanta coisa naquele tempinho… – ela comentou na praia, enquanto saboreavam peixe frito e cerveja.

– Aposto que ele também já imaginou. Garçom, mais uma, faz favor.

– Ah, tanta menina novinha por aí, o que ele pôde ter visto em mim?

– Ele viu a loba, amiga. Ele viu a loba.

Zoé riu da amiga, ela e seu jeito estranho e divertido de ver a vida daquele jeito pagão, sempre falando em Deusa, em bichos, forças da Natureza…

No meio da tarde, as duas subiram para a pousada e Monquita adormeceu logo. Mas Zoé não conseguiu dormir, possuída por um turbilhão de sensações e pensamentos, tudo se misturando, o desejo ardente, o medo, o calor nas coxas, o desejo, a vergonha, a culpa, o desejo… Quando não suportou mais, levantou-se e foi tomar um banho frio. Depois botou um vestido leve de algodão com alcinhas, amarelo para realçar o bronzeado recém-adquirido. Sair, caminhar. Ver o pôr do sol. Talvez fizesse bem.

Quando deixava o quarto, com cuidado para não acordar a amiga, lembrou que estava de cabelo preso. Retirou a presilha e sentiu os cabelos pousarem sobre os ombros nus. E reparou que desde que chegaram a Jeri, aquela era a primeira vez que soltava o cabelo.

Na curva da ruazinha de areia… ele surgiu. Ele sempre surgindo assim de repente, seria seu pensamento que o atraía? Quase esbarraram um no outro. Parada à frente dele, não soube o que dizer nem o que fazer. Sentiu o rosto corar e imediatamente se arrependeu de ter saído sozinha. Mas nada fez. Tudo que conseguiu foi continuar olhando para o moço bonito de sunga que olhava para ela, igualmente desconcertado, o moço dos olhos verdes, o mar nos olhos dele, o murmúrio do mar chamando, convidando…

Quando deu por si, já caminhavam lado a lado, descendo para a praia, sem falar nada. A oeste, por trás das nuvens, o sol se despedia. O céu estava nublado e começava a soprar um ventinho frio…

Finalmente, conseguiu falar alguma coisa: propôs um café. Ele gostou da ideia e pouco depois, já na praia, paravam na barraquinha de uma simpática senhora, que lhes serviu dois cafés em copo descartável. Ela deu o primeiro gole, mas o café estava muito quente e pôs o copo sobre o balcão. Enquanto ele fazia o mesmo, ela aproveitou e olhou para ele, e achou lindo seu jeito tímido, e passeou os olhos por sobre seu corpo bonito, a pele morena, os ombros largos, o peito com pouco pelo, os braços, o tórax, as coxas… E por trás dele, a imagem do mar, feito uma moldura, o mar de repente aparece e tudo acontece…

Então, sentiu. O velho peso. Aquela conhecida e terrível sensação de peso, que subitamente vinha e a tornava incapaz. A velha sensação de culpa e pecado tomando conta de sua alma, feito uma sombra vinda do alto. Ela fechou os olhos, numa angustiada tentativa de fugir dos olhos de Deus.

Mas já era tarde. Aconteceria de novo, mais uma vez, logo agora que estava tão perto…

Dessa vez, porém, foi diferente.

– Não.

Foi apenas um murmúrio a escapulir de sua boca, que nem ela mesma escutou. Um murmúrio feito de uma curta e única palavrinha anasalada, dita mais para dentro que para fora, sem força, sem ênfase, o último fiapo de resistência: não. Mas nessa palavrinha estava expressa toda a sua certeza de que não, ela não queria mais aquilo. Não. Ela agora queria ser livre. Ela agora queria ser ela, a verdadeira Zoé. Não a Zoé que durante todos aqueles anos vivera sufocada, amarrada, presa numa cela escura de sua própria alma, não essa Zoé, e sim a que nascera para ser feliz. Mas não a felicidade que a família e a religião de seus pais reservaram para ela, feito uma linda roupinha de bebê. Não, não essa Zoé. A outra. A outra que nunca pudera ser, mas que sempre se mantivera viva em algum lugar dela mesma, respirando por um canudo no fundo do lago, sobrevivendo das migalhas de sua esperança e matando a sede com as próprias lágrimas. Queria agora a outra Zoé, a que agora recusava a linda roupinha a ela reservada, que rasgava a linda roupinha. A Zoé que agora queria estar nua, pela primeira vez na vida.

– Não.

A rajada de vento foi repentina. E foi tão forte que virou o copo do balcão, fazendo o café derramar sobre ela, atingindo-lhe a cintura e a coxa. Ela gritou, abrindo os olhos assustada e sentindo o líquido fervente queimar sua pele. A senhora da barraca, preocupada, apontou a torneira ao lado e disse que ela pusesse logo água no local, rápido. O moço, assustado, saiu correndo e voltou no instante seguinte trazendo um balde com água.

Tudo foi muito de repente, tanto que Zoé só se deu conta do que fazia quando já estava fazendo: a mão erguendo o vestido, o moço jogando água sobre a pele avermelhada, a sensação da água fria sobre a pele quente, o vestido amarelo e molhado grudando-se às suas coxas, a transparência da roupa revelando a calcinha branca…

– Pronto, pronto, acho que já tá bom… – ela interrompeu, dando um passo para trás, subitamente envergonhada. – Não queimou tanto.

– Quer ir na pousada trocar de roupa? – o moço perguntou, preocupado.

A senhora da barraca ofereceu uma sombrinha, pode precisar, a noite tá com cara de chuva. E assim saíram, ele tenso e silencioso, e ela disfarçando com a sombrinha o vestido agora transparente, e torcendo para chegarem antes da chuva.

Mas não chegaram. No meio do caminho, a água desceu forte e tiveram que abrir a sombrinha. Foi assim, debaixo da sombrinha, os corpos molhados e juntinhos, que os dois percorreram as ruazinhas de terra, enquanto toda a água do mundo desabava sobre eles. Foi assim que, de repente, o mundo ao redor desapareceu e tudo que existia era o corpo quente do moço e o seu, juntinhos, como se fosse um corpo só. E foi assim, sem ter mais qualquer controle sobre si mesma, sem saber o que fazia e muito menos o que devia fazer, sem saber mais de nada, que ela sentiu as pernas fraquejarem e parou, temendo cair, e ele largou a sombrinha e a amparou em seus braços.

Aconteceu ali mesmo, na areia, na parte mais escura do beco. Mais tarde, ela não saberia contar com exatidão, mas lembraria que ele a puxou e ambos caíram na areia, em meio a abraços e beijos incontidos. Ou não, talvez tenha sido ela quem o puxou. Depois ele rasgou seu vestido e bebeu a água da chuva diretamente em seus seios, feito um andarilho à beira da morte que encontra a fonte da vida. Ou não, talvez ela é quem rasgou o vestido e lhe ofereceu os seios, mulher bondosa que dá de beber ao viajante sedento. Depois ela o deitou na areia e montou sobre ele. Ou não, isso foi depois dela pôr-se de quatro e ordenar, rangendo os dentes, rosnando feito um bicho, vem logo! E depois, e depois… Bem, depois só lembra de senti-lo lá dentro, bem lá dentro, inteira e maravilhosamente lá dentro de si, enquanto se sentia harmonizada com toda a Natureza, e suas lágrimas se misturavam à água da chuva, e de sua boca se libertavam longos gemidos, quase uivos, anunciando o prazer mais lindo e mais louco e mais intenso que jamais tivera em toda a vida.

– Não… isso não aconteceu… isso não aconteceu…

Monquita, que fora acordada aos puxões pela amiga e que escutara todo o relato em silêncio, agora tinha os olhos arregalados e estava pasmada, sem acreditar no que ouvia. Sentada ao seu lado na cama, num vestido rasgado e ensopado, os cabelos pingando água sobre a cama, Zoé estava radiante, iluminada, os olhos brilhando…

– Aconteceu sim, Monquita! Olha como eu tô! Olha aqui a queimadura.

Ela virou-se para a amiga ver na coxa a marca deixada pelo café fervente. E a amiga ficou ainda mais impressionada.

– Zoé… A Deusa te batizou com fogo!

Batizada com fogo. Zoé achou engraçada a expressão. E contou do momento em que, em sua angustiada luta contra a sensação de culpa, no segundo final de sua resistência, implorou com todas as forças que lhe restavam para que algo acontecesse…

– E aí a Deusa te acudiu.

– Não sei quem foi. Só sei que algo me ajudou derrubando aquele copo.

– Ela te mandou o Vento. Pra derrubar as defesas.

– Bendito vento.

– Depois mandou o Fogo, pra te batizar. Depois a Água pra te limpar. E, por fim, a Terra pra te acolher. Acolher a oferenda de vocês… o casamento sagrado…

– Quer saber mais? Ele me convidou pra dormir com ele.

– A amiga ainda tem disposição?

– Como você mesma diz, ele despertou a loba, agora que aguente… – brincou Zoé, rindo à solta.

Sentia-se tão leve… Parecia que se libertara de um peso imenso e, ao mesmo tempo, sentia-se preenchida, maravilhosamente preenchida. Tudo que sabia era que acontecera, apesar de todos os seus medos e culpas e resistências, apesar da timidez dele, apesar de Deus, apesar de tudo. Acontecera. E agora ela era outra Zoé. Zoé de Jeri. Renascida pelo Vento. Batizada pelo Fogo. Limpa pela Água. Acolhida pela Terra.

É, talvez Monquita tivesse razão. Só mesmo uma divindade feminina para fazer tudo aquilo com tamanho jeitinho…

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.com

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Este conto integra os livros
Indecências para o Fim de Tarde
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

Kelmer Para Mulheres – Nesta seção do blog, homem fica de fora

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AGotaDagua-02aA gota dágua – A força da tempestade, o poder do desejo. Ela deveria resistir, mas…

Dez segundos para ser feliz – Seus olhos continuam sorrindo mesmo quando ela conta, sem pudor, das imensas bobagens que fez em nome de sua busca por felicidade

Mulheres que adoram – Dar prazer a uma mulher, fazê-la dizer adoro mil vezes por dia…

Mulheres na jornada do herói – Elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

Insights e calcinhas – Uma calcinha rasgada pode mudar a vida de uma mulher? Ruth descobriu que sim

Carma de mãe para filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

O Reino Encantado de Jericoacoara – Perder-se em Jeri, eu recomendo. Perder-se de paixão. Perder a noção do tempo, a carteira de identidade, o medo de se experimentar…

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Qualidade literária: 5 Sexualmente excitante:  5 Prende a atenção:  5 Divertido: 3 Provoca reflexões: 4. O conto da Deusa é maravilhoso, voce imagina no começo que vai acontecer algo entre os dois, mas nao da pra imaginar como vai acontecer. E tudo acontece naturalmente, um sentimento forte, um tesao os une, sem pornografia, mas com muito erotismo e sensualidade. Adorei, nota 5. Bruna B, Campina Grande-PB – 2014

02- Maravilha Ricardo. Pra mim foi uma leitura completa. Maravilha. não acrescentaria nada. Está perfeita, sem comentários..puro desfrute….maravilha…. Eu nunca imaginei que um dia estaria tendo essa experiência e confesso que fiquei com medo quando me expus para te ajudar, mas esta sendo fascinante…rsrsrsr… és bem jeitoso e fostes bem cuidadoso com os contos que me enviates. Maravilha! Tu sabes escrever….sem comentários porque estou sem palavras….porque não há palavras mesmo….rsrs….  Anosha Prema, Campinas-SP – 2014

03- O Desejo da Deusa, amei!!  é divertido, excitante, eu li de uma vez só e adorei a personagem Zoé, nota 5 em tudo. Cris B, São Paulo-SP – 2014

04- Demais !!!! Silvia Teresa Polo Jimenez , João Pessoa-PB – nov2015

05- Aiii… adorei… me lembra uma certa pessoa… rsrsrs.. parabéns querido!  Thaís Guida, Rio das Ostras-RJ – nov2015

06- Perfeito, Kelmer! Ana Velasquez, Corumbá-MS – nov2015

07- Às vezes, meu caro Ricardo Kelmer, o olhar mais implacável é o nosso … Obrigada pela partilha, sempre produtiva… Bjs e até breve!!! Lenha Diógenes, Fortaleza-CE – nov2015

08- E ela não sabe se abre ou fecha a porta de vez, depois de tantos desencontros e o medo do sofrimento dos homens que nem acreditam em nada. E ai, vem o olhar implacável. Gostei muito. Jane Arruda de Siqueira, São Paulo-SP – nov2015

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Lágrimas na chuva

11/09/2015

11set2015

E quando finalmente chegarem ao lugar para onde tanto correm, estarão em paz com as lembranças da vida que viveram?

LagrimasNaChuva-05

LÁGRIMAS NA CHUVA

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É uma espécie de ritual. Quando anoitece, faço uma pausa no trabalho, ponho para tocar a trilha sonora do filme Blade Runner (Caçador de Androides) e preparo um chazinho de hortelã. Vou tomá-lo à janela do apartamento, observando a paisagem cinzamente caótica de São Paulo. Enquanto bebo o chá quentinho, as canções se sucedem, misturando-se ao som da cidade lá fora e emprestando sua suave beleza melancólica ao movimento das ruas lotadas, todos apressados, um bando de autômatos correndo de um lado para outro…

Mas para mim tudo está em câmera lenta. Talvez porque nesse momento eu sou Rick Deckard no alto daquele prédio, salvo da morte pelo replicante Roy Batty, totalmente rendido diante do grande mistério que é estar vivo e não saber até quando.

Acho que as pessoas correm tanto porque não sabem se amanhã estarão vivas. Mas será que correr tanto assim não faz apenas acelerar a paisagem que passa, deixando para o presente um mero cantinho desprezado, quase imperceptível, entre o que já foi e o que talvez não virá? Correndo tanto assim e vivendo no modo automático, em que momento essas pessoas poderão lembrar que estão vivas? E quando finalmente chegarem ao lugar para onde tanto correm, estarão em paz com as lembranças da vida que viveram? Do alto do prédio, em sua resignada lucidez de quem está morrendo, o replicante Roy tem mais uma pergunta: De que valerá tanta pressa se no fim a vida se perdeu no tempo, como lágrimas na chuva?

Penso nisso enquanto tomo o último gole do chá. E renovo minha falta de fé no roteiro que criamos para esta nossa época frenética de humanos automatizados. Corram por mim, amigos, que eu prefiro curtir a paisagem do agora. Até a derradeira faixa do disco.

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Ricardo Kelmer 2015 – blogdokelmer.com

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BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDROIDES

FILMEBladeRunner-01Ficção científica – EUA, 1982
Baseado no conto Androides Sonham com Carneiros Elétricos?, de Philip K. Dick

DIREÇÃO: Ridley Scott
ROTEIRO: Hampton Francher e David Webb Peoples
ELENCO: Harrison Ford (Rick Deckard/narrador), Rutger Hauer (Roy Batty), Sean Young (Rachael), Edward James Olmos (Gaff), M. Emmet Walsh (Capitão Bryant), Daryl Hannah (Pris), William Sanderson (J.F. Sebastian)…
TRILHA SONORA: Vangelis

> Na Wikipedia

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Blade Runner
Rick Deckard e Roy Batty no alto do prédio

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LEIA NESTE BLOG

BladeRunnerDeusesHumanosEAndroides-01aDeuses, humanos e androides na berlinda – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição, e é criando que ele faz isso

A pergunta – Um dia, porém, alguém desconfia. E entende que os que olham para fora, sonham, e os que olham para dentro, despertam. E aí a pergunta é inevitável

Vade retro Satanás (filme: O Exorcista) – O Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior

Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

Deus planta bananeira de saia (filme: Dogma) – Em Dogma, Deus passa mal bocados por conta de um dilema criado pelos próprios humanos. Santa heresia, Batman!

Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

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DICA DE LIVRO

Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem descontraída, Kelmer nos revela a estrutura mitológica do enredo do filme Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

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 COMENTÁRIOS
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01- Eh verdade, eu ja participei desse ritual ai! Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – ago2016

02- maravilha de pensamentos!…de-sa-ce-le-ran-do.. Shirlene Holanda, São Paulo-SP – ago2016

03- Muito bom Ricardo Kelmer.Correr pra quê?Vivamos o presente, de preferência ouvindo uma boa música e um chá quentinho.Viva a vida hoje. Vilma de Oliveira, Fortaleza-CE – ago2016

04- Tua escrita me faz viajar nas imagens e ideias que vão se desenhando…. Que texto gostoso e instigador! Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – ago2016

05- Que lindo Kelmer! A sabedoria de quem sabe apreciar e sentir a vida. Renata Kelly, Fortaleza-CE – ago2016

06- Texto ❤❤❤ Barba 💕💕💕💕💕💕. Sabrina Nádia de Sousa, Fortaleza-CE – ago2016

07- eu me identifico. Tetê Macambira, Fortaleza-CE – ago2016

08- Vc escreve muito bem. Simone Matoso, Belo Horizonte-MG – ago2016

09- Excelente. Susana X Mota, Leiria-Portugal – ago2016

10- Grande Ricardo Kelmer. Luiz Antonio Lima Alencar, Fortaleza-CE – ago2016

11- Texto ótimo, como sempre, Ricardo. Mas, francamente, um detalhe: com Blade Runner combina mais chá de cogumelos! Abr. Luis Pellegrini, São Paulo-SP – ago2016

12- Adorei! Márcia de Oliveira, Fortaleza-CE – ago2016

13- Kelmer, brôu. Imaginava que só eu pensava assim, mas não consegui transmitir tão bem como tu. Obrigado por nos apresentar tal texto, está ótimo. P. S.: O meu hortelã foi diferente do teu… Francisco Fontenele Veras Neto, Lourinhã-Portugal – ago2016

14- Viva o ócio. Iris Medeiros, Campina Grande-PB – ago2016

15- Grande Ricardo Kelmer !!!!! ❤ Oliveira Sidd, Fortaleza-CE – ago2016


Envelhecendo na paz da loucura

25/07/2015

25jul2015

Nossa missão é encontrar nosso público, mesmo que ele não encha uma kombi

DiaDoEscritor-02

ENVELHECENDO NA PAZ DA LOUCURA

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Escritor profissional? Logo no Brasil? Poizé, foi uma decisão difícil de tomar, e a empurrei com a barriga até os 30 anos. Meus pais, muito prudentes, sempre me aconselhando, seja escritor mas faça o concurso do Banco do Brasil… Alguns amigos, sempre querendo me ver mais rico, ainda hoje sugerindo, você devia trabalhar como roteirista de tevê, agência de publicidade, escrever para outros…

Superobrigado pelos conselhos, gente. Mas é que vivem em mim tantos universos simultâneos de histórias, e tantos personagens imploram diariamente que eu fale deles ao mundo, e a urgência de organizar o caos interior através das palavras é tanta, que dedicar metade do dia a um emprego formal me faria adoecer perigosamente. Sim, gente, eu tentei, tive empregos, me esforcei para ser como todo mundo. É por isso que eu bem sei o quanto não farei mais isso. Porque quero envelhecer em paz comigo mesmo, ainda que essa paz esteja na loucura da inquietude criativa. E porque sei que todo o dinheiro do mundo não pagaria essa paz.

Aos que, ao Kelmer escritor, preferem o Ricardo amigo, obrigado pela amizade que me faz tão bem. Mas hoje é o dia do escritor, e este ano comemoro vinte anos do livro de estreia! E como nossa missão é encontrar nosso público, mesmo que ele não encha uma kombi, quero agradecer especialmente a você, a quem finalmente encontrei. Muito muito muito obrigado. Por me ler e dar sentido à vida que me coube.

E um brinde a todos os escritores que não desistiram e, por isso, tanto nos enriquecem com suas criações.

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Ricardo Kelmer 2015 – blogdokelmer.com

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IFTRK201502-03aLIVROS – Clique aqui para saber mais

Indecências para o Fim de Tarde (contos eróticos)

Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino (contos e crônicas)

Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos (contos)

Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha (contos + glossário de termos e expressões)

A Arte Zen de Tanger Caranguejos (crônicas e artigos)

O Irresistível Charme da Insanidade (romance)

Matrix e o Despertar do Herói – A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas (ensaio)

Blues da Vida Crônica (crônicas)

Guia do Escritor Independente – Como publicar livros e gerenciar a carreira literária (dicas)

 

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LEIA NESTE BLOG

ODilemaDoEscritorSeboso-01aO dilema do escritor seboso – Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras

O encontrão marcado – Fechei o livro, fui até a janela e olhei pro mundo lá fora. E disse baixinho, com a leveza que só as grandes revelações permitem: tenho que ser escritor

Pesadelos do além – O pior pesadelo para um escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado

Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

Kelmer no Toma Lá Dá Cá – Aqueles aloprados moradores do condomínio Jambalaya descobriram meu livro maldito

O escritor grávido – Será um lindo bebê, digo, um lindo livrinho, sobre o mais belo de todos os temas

Obrigado, J K Rowling – Em todo o planeta milhões de crianças adquiriram o hábito de ler livros graças às aventuras de Harry Potter

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Quem tem sua riqueza intelectual, facilidade de transmitir a idéia, dinamismo na escrita, praticamente brinca com as letras, o sucesso como escritor é óbvio . Parabéns meu brother, você é inspiração para muitos, inclusive para mim !! Samuel Araujo, Vilhena-RO – jul2015

02- Parabéns, Ricardo Kelmer, q vc contonue neste caminho escolhido por vc e nos brindando com obras maravilhosas, como por exemplo, o irresistível charme da insanidade q eu amo. Um abraço. Luciana Brasileiro de Holanda, Campina Grande-PB – jul2015

03- Parabéns, Kelmer, por apimentar nossos dias com suas palavras! Tereza Cristina da Silva, Fortaleza-CE – jul2015

04- Nós, leitores, é que agradecemos sua dedicação Ter um texto para ler e poder viajar entre palavras precisas é nossa alegria! Obrigada, Kelmer! Por todas as histórias compartilhadas. Sandra Regina, Curitiba-PR – jul2015

05- Parabéns querido Ricardo Kelmer! Eu agradeço, como muitos outros eleitores, o prazer que vc nos dá com tuas experiências e imaginações contadas nesses teus livros tão nossos, que nos fazem viajarmos e nos libertarmos.
Que vc continue nesse caminho lindo e criativo da escrita e tenha com isso muito sucesso em tua vida….Ver mais. Renata Kelly, Fortaleza-CE – jul2015

06- Parabéns, Ricardo Kelmer, por sua perseverança. E sucesso! Maria Bulcão, Fortaleza-CE – jul2015

07- dá pra encher muitas kombis, mas vc sabe… os dois grupos… nem todos assumem que gostam… rss. Maria Gama, jul2015

08- Parabéns por nos enriquecer com suas palavras e seu talento! Maedir Coimbra, Rio das Ostras – jul2015

09- kkkkk meu pai tbm queria que eu fizesse o concurso do BB. Ainda bem que resolvi fincar pé… mas não tive sua coragem, estou sempre com um pé no jornalismo, outro na literatura. Mas não me arrependo: é ainda hj o que me dá tesão de viver… Parabéns, meu querido! Bjks. Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – jul2015

10- Parabéns por ser você mesmo e doar seu dom ao mundo, que nem borboleta que espalha o pólen. Sou sua leitora. Acredito que a kombi esteja mais lotada do que vc pensa. Gratidão. Fátima Landim, Fortaleza-CE – jul2015

11- Danielle Gouveia Fernandes, veja um relato parecido com o seu. Fátima Landim, Fortaleza-CE – jul2015

12- A gente é que agradece por você ter tido a firmeza de assumir essa carreira! Parabéns, Kelmer! Obrigada pela viagens… Thais Machado, Fortaleza-CE – jul2015

13- Que Deus te dê muita saúde e muitos anos pra você para continuar realizando o seu sonho. Vilma de Oliveira, Fortaleza-CE – jul2015

14- Obrigada por nos presentear com seus livros…tenho orgulho de ter seu nome entre os livros de meus melhores escritores na minha estante! Parabéns pelo seu dia!!! Celina Bezerra, Fortaleza-CE – jul2015

15- Que Deus ilumine sempre sua caminhada premiando sua dedicação pelos objetivos que o tornam feliz!parabéns pelo seu dia!! Landi Bravo Aires, Rio de Janeiro-RJ – jul2015

16- Ainda bem que você não desistiu… Parabéns, primo amado!…beijo no coração! Sílvia MedinaFortaleza-CE – jul2015

17- querido Rica… Susana X Mota, Leiria-Portugal – jul2015

18- Arriba Ricardo Kelmer! Emoticon smile Me gusta tu pluma, hermano. Felipe Obreer, Florianópolis-SC – jul2015

19- Querido Ricardo Kelmer!! Parabens ! Cd vez mais acredito q oque importa e ser honesto consigo! Muitas saudades de vc!! Bjos. Juliana Lyra, Dunedin-Nova Zelândia – jul2015

20- Parabéns!!!! Você com certeza escolheu o melhor caminho, da felicidade e paz espiritual. Caminho este que nós ,tidos como os ” normais” tanto buscamos. Raquel Bernardo, Maranguape-CE – jul2015

21- Vc é tão bom ,mas tão bom qdo escreve que às vezes tenho vontade de mergulhar em suas palavras e ir te dar um abraço. Minha homenagem discreta pra vc, meu querido escritor. Mas é verdade qto a me emocionar com seus escritos. Marina O, Fortaleza-CE – jul2015

22- Parabéns Ricardo Kelmer!!! Bjs. Iara Cristina, São Paulo-SP – jul2015

23- Parabéns RK! Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – jul2015

24- Parabéns ,Kelmer! Ainda bem que você seguiu sua vocação verdadeira! Presente pra nós que te admiramos! Feliz dia do Escritor! Vanessa Machado Monte, Fortaleza-CE – jul2015

25- :-)Parabéns Querido escritor Ricardo Kelmer! enquanto tiver e existirem amantes, apreciadores e admiradores da poesia, não morrerá, reviverá a cada dia! Viva os/as escritores(as) de todos os gêneros literários! Viva a poesia! beijos e abraços poético literários! Lidiane Santos Leite, Fortaleza-CE – jul2015

26- Parabenssss. Rosangela Dias Do Nascimento, Recife-PE – jul2015

27- Parabéns !!! Raquel Jolie Silva, Fortaleza-CE – jul2015

28- Parabéns! Vanderleia Santos, Santana de Parnaíba-SP – jul2015

29- Lindo texto e decisão de vida ! Lembra de mim? Gabriela Souza, Fortaleza-CE – jul2015

30- Parabéns meu querido. Que muitas inspirações brotem em seu coração. Cícera Souza Vidal, Fortaleza-CE – jul2015


A divertida mente da garotinha triste

23/07/2015

23jul2015

Um maravilhoso filme adulto para crianças que é um magistral filme infantil para adultos. Ou vice-versa

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A DIVERTIDA MENTE DA GAROTINHA TRISTE

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Como falar de psicologia para crianças? Como expor aos miúdos conceitos como personalidade, inconsciente e depressão? Como ensinar-lhes que, embora indesejada, a tristeza é um sentimento legítimo e importante na saúde psíquica do indivíduo? Impossível, né?

Não para a Pixar. Esta empresa de animação digital, comprada pela Disney em 2006, já ganhou muitos prêmios pela alta qualidade de seus filmes. Você certamente já viu alguns, como Toy StoryMonstros S.A. e Procurando Nemo. Pois com sua nova animação Divertida Mente (Inside Out), a Pixar foi além: ela conseguiu fazer um maravilhoso filme adulto para crianças que é um magistral filme infantil para adultos. Ou vice-versa.

Riley é uma garotinha de 11 anos que muda de cidade e enfrenta dificuldades na adaptação à nova vida. Parece um enredo bem simples, né? E é. Mas ele é só um coadjuvante para a grande atração do filme: a mente da garotinha. Paralelamente à vida cotidiana de Riley, vemos o funcionamento de sua vida psíquica, onde, numa sala de comando, atuam Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho, as personificações de seus pensamentos, sentimentos e sensações. São eles que monitoram e organizam a evolução da personalidade de Riley, determinando seu comportamento. A mudança de cidade, porém, trará o caos ao trabalho dessa turminha e uma crise para Riley.

Como estudioso da psicologia do inconsciente, fui ver Divertida Mente com um pé atrás na desconfiança. Mas ela se foi logo nas primeiras cenas. As alegorias usadas na tradução dos conceitos psicológicos para a linguagem infantil foram feitas, obviamente, de forma caricata, mas ficou ótimo. É um filme encantador, divertidíssimo e cheio de sacadas geniais. É tudo muito singelo e verdadeiro, e de uma profundidade surpreendente. Em nenhum momento o filme apela para o sentimentalismo barato, mas ainda assim é difícil não se emocionar. Eu me segurei bem, sim, mas só até o momento em que Bing Bong é esquecido ‒ aí também tenha paciência, né? A partir dessa cena, não mais contive as lágrimas, e quem assumiu minha sala de comando foi a criança que nunca deixei de ser, e que parece estar sempre mudando de cidade.

Pelos relatos dos pais, os pimpolhos gostam e entendem o filme. Como a história foi criada a partir da experiência real vivida por um dos roteiristas com a própria filha pré-adolescente, isso certamente foi fundamental no processo de criação. Deve ser bem interessante ver esse filme sendo uma criança e depois revê-lo adulto. Infelizmente, não terei essa chance, mas muitos poderão ter.

Interessante também foi perceber como Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho se parecem com pessoas reais que conheço (não adianta, não darei nomes), e isso me garantiu boas risadas. Evidentemente, nenhuma pessoa é apenas um tipo único de sentimento ou emoção, mas é natural que uma delas se destaque na personalidade, mesmo que por um tempo. E Nojinho, heim? Como tem Nojinho dando chilique nesse mundo! Elas são irritantemente lindas e fúteis, e odeiam brócolis, mas justamente por isso se parecem com eles, e você sabe que o bicho homem masculino adora um brócolis de vestidinho… Ops, tava demorando. Ricardinho, esta é uma crônica infantil. Corta.

Esse filme fala de autoconhecimento, de como é importante sabermos lidar com nosso mundo interior. É provável que haja uma continuação, mostrando Riley na adolescência. Se os roteiristas conseguirem manter a qualidade na estrutura narrativa, teremos a comprovação de que é possível mostrar a crianças e adolescentes toda a complexidade da vida psíquica de uma maneira lúdica e instigante, motivando-os desde cedo a se conhecerem psicologicamente. Bem, é claro que isso não é função da arte, mas depois de Divertida Mente eu me sinto no dever de descer lá no vale do esquecimento e resgatar meu Bing Bong pessoal. E viajar com ele na esperança de uma humanidade mais consciente de si mesma.

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Ricardo Kelmer 2015 – blogdokelmer.com

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FILMEDivertidaMente-03aDIVERTIDA MENTE

Divertida Mente (Inside Out) – EUA, 2015
Gênero: Animação
Realização: Walt Disney e Pixar Animation Studios
Direção: Pete Docter, Ronaldo Del Carmen
Argumento: Pete Docter
Roteiro: Josh Cooley, Meg LeFauve, Pete Docter
Vozes na versão original: Amy Poehler, Bill Hader, Bob Bergen, Carlos Alazraqui, Diane Lane, Jess Harnell, Kyle MacLachlan, Laraine Newman, Lewis Black, Lori Alan, Mindy Kaling, Paula Poundstone, Phyllis Smith, Richard Kind, Teresa Ganzel
Vozes na versão brasileira: Kaitlyn Dias (Riley), Miá Mello (Alegria), Katiuscia Canoro (Tristeza), Otaviano Costa (Medo), Dani Calabresa (Nojinho), Leo Jaime (Raiva)
Produção: Jonas Rivera
Trilha Sonora: Michael Giacchino
Duração: 102 min.

 

Trêiler do filme (português, dublado)

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Jung – a jornada do autodescobrimento – Vídeo com um resumo da vida e das ideias de Carl Jung, o psicólogo e pensador suíço criador da teoria do inconsciente coletivo

Livros: He, She, We – Os rios de nossas vidas correm, na verdade, por leitos muito, muito antigos – os mesmos leitos que outras águas, ou outras pessoas, também percorreram

Mulheres na jornada do herói – Elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

Carma de mãe pra filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

A Humanidade, o psicólogo e a esperança – Os acontecimentos mostram que a humanidade está se unificando, unindo seus opostos

Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

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DICA DE LIVRO

MatrixEODespertarDoHeroiCapaEdicaoDoAutor-01Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem descontraída, Kelmer nos revela a estrutura mitológica do enredo do filme Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Amei o que escreveu sobre o filme infantil. Fiquei duvidando se havia sido escrito por voce mesmo rsrsrs. Gostei desse lado Kelmer criança mizifio. Deu ate vontade de ver o filme. Ivonesete Rodrigues, Fortaleza-CE – jul2015

02- Mostrar que a tristeza tambem nos ajuda a passar por uma fase dificil foi genial! Debora Morais, Fortaleza-CE – jul2015

03- Ricardo Kelmer, ja tinha me programada para ver, mas depois desse belo artigo seu, se tornou imperdível! Abraço meu amigo! Cristina Balieiro, São Paulo-SP – jul2015

04- Achei o filme genial. ..as ilhas de personalidade da garotinha , o amigo imaginário…a mente dos pais..Vou ver novamente! Telma Parente, Fortaleza-CE – jul2015

05- consegui baixar o filme, louca para ver! Susana X Mota, Leiria-Portugal – jul2015

06- Tinha pensado em assisitr mas acabei deixando para la, agora assistirei com certeza! Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – jul2015

07- Poesia em forma de animação!!! Andeile Airam, Fortaleza-CE – jul2015

08- Que bacana Ricardo! Eu gostei muito do filme.. .impossível não refletir as nossas próprias emoções. .. ! Um filme que toca a alma se qualquer um .adulto ou criança. Adorei o seu texto …! Vou copiar…. bjs.
Compartilho essa analise do Ricardo Kelmer sobre o filme Divertida mente. Assisti e me tocou de forma profunda… é um filme que todos precisamos assistir qie nos leva ao auto conhecimento e melhor entendimento d as nossas emoções.. .mostra que emoções tidas como “negativas” também sao importantes para o nosso crescimento e devemos aceita-las… enfim. Leia e nao deixe de ver o filme! Sandra Macedo, Fortaleza-CE – jul2015

09- Para vc Paula Silvia. Fica a dica. Eliana Torres, Ponta Porã-MS – jul2015

10- Ah!…. MAS EU A-DO-RO BRÓCOLIS!!!! … kkkkkkkk…ainda não vi, mas estou muitíssima curiosa! Risos…mesmo porque Kelmer tem a liberdade de dizer tudo p/comigo, e…”detalhe” , Kelmer comenta ja me chamando (in box ) de ‘ NOJINHO! Bah! Já fui logo perguntando, né? kkkk … adorei o texto. Regina Zamora, São Paulo-SP – jul2015

11- Hehehe! Não podia faltar né mizifio , sua marca registrada! Kkkkkk. foi uma deliciosa dica e esse texto mais ainda! Ameeei! Eu tbém senti aperto no coração quando Big Bong se apagou no vale do esquecimento. Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – jul2015

12- incrível! Eu quero assistir esse filme. Renata Regina, São Paulo-SP – jul2015

13- Esse filme realmente, é genial. Muito profundo e importante pra adultos e crianças refletirem, Vlw, Rica. Bjs. Anabela Alcântara, Fortaleza-CE – jul2015

14- Sim!!!Pra adultos e crianças! Isabela Alcântara, Fortaleza-CE – jul2015

15- Grande sacada! Assisti e adorei! Interessantíssimo! Dri Flores, São Paulo-SP – jul2015

16- Eu soh vih o traler e me emocionei!…lindo!Louca pra ver! Isabela Alcântara, Fortaleza-CE – jul2015

18- Sensacional sr kelmer! Jayme Akstein, Sidney-Austrália – jul2015

19- Ricardo eu adorei o filme.comentário de Clarinha:Mamãe a alegria é bom mais a tristeza tb é. Germana Mourão, Fortaleza-CE – jul2015

20- Prof. Jacinta, Achei esse filme a cara da disciplina Motivação e Emoção! Seria ótimo aprender mais assistindo filmes assim… Bjo ‪#‎ficadica‬. Glaina Santos Costa, Fortaleza-CE – jul2015

21- Ricardo Kelmer doooida para assistir. Marilene Neri, Fortaleza-CE – jul2015

22- Sim Ricardo !!!! Com a minha de 5 anos !!! Ela adorou ! Só não gostou na hora que bing bong foi esquecido tbm .. Mas fala dos personagens até hoje rss. Ana Kariny Gomes Rosa, Fortaleza-CE – jul2015

23- Taí, o Ricardo Kelmer disse tudo o que eu queria. Vale demais ler o texto e, sobretudo, assistir o filme. Rosângela Aguiar, Fortaleza-CE – jul2015

24- Ricardo Kelmer, finalmente fui assistir Divertida Mente (Inside Out), uma graca! Nem me fale de Bing Bong, nao posso assistir esses filmes sem dar vexame… rsrs. Obrigada pela dica! Ah, o que seria de nos sem a tristeza? Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – out2015


Ventos do óbvio

07/06/2015

07jun2015

Ela tinha o controle de sua vida, ela e mais ninguém. Renascer. Renovar-se

VentosDoObvio-01

VENTOS DO ÓBVIO

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Zap! Seria tão bom se a vida tivesse controle remoto. Era só apertar um botãozinho para mudar a programação…

Olhando para o controle em suas mãos, ela sorriu. Sim, era dona de sua própria vida. Ela é quem tinha o poder de mudá-la. Ela e mais nada e mais ninguém. Então apontou o aparelho para a tevê, fechou os olhos e… zap!, desligou. Por que não? Por que não começar agora?

E foi assim que fez. Largou o controle no sofá, levantou e naquele exato momento começou vida nova. Sim, assim mesmo, de repente, aproveitar que chegava a Primavera. Mudanças, mudanças… Ela tinha o controle de sua vida, ela e mais ninguém. Renascer. Renovar-se.

Decidiu começar por uma faxina geral na casa, como havia tempo não fazia, escutando as músicas prediletas. Depois tirou do baú os vestidos de verão, leves e coloridos, tão lindos. E decidiu parar de fumar, dessa vez conseguiria. Há quanto tempo não se sentia tão disposta? Muito tempo. Aliás, disposta e bonita, ela completou, olhando-se no espelho. Faxina concluída, agora levaria os vestidos para lavar. E assim fez, seguindo pela calçada, bonita, feliz e inspirando o ar fresco da Primavera.

Eis, porém, que veio um vento. Forte e repentino. Invasor. Ela ainda não havia voltado da lavanderia. O vento estúpido desarrumou a casa toda, que ela tão bem ajeitara. E foi embora, rápido como chegou, levando com ele o rango que ela deixara na geladeira, a guitarra, a furadeira e o aparelho de dvd. Ainda bem que o dinheiro das contas, separadinho sobre a mesa, o desgraçado não viu.

Caramba… Quando ela entrou e acendeu a luz, demorou a acreditar. Quando, por fim, acreditou, encostou-se à parede, mais perplexa que desanimada, olhando para a casa inteira desarrumada, tudo fora de lugar. Por que esse vento? Por que logo agora que decidira mudar?

A guitarra era da filha roqueira, que por sinal já desistira da carreira. O dvd estava quebrado, só fazia volume na estante. A furadeira, o amigo esquecera lá tinha anos. E a comida… bem, um ou dois quilinhos a menos não fariam mal. Felizmente, o prejuízo material fora mínimo.

Mover-se, precisava mover-se, ela sabia. Lentamente, levantou-se, e tentando injetar ânimo nos próprios passos, foi pegar um cigarro. Sim, tinha decidido parar de fumar, sim… mas… ah, vai, não sejamos também tão radicais, numa hora dessas só os vícios nos salvam! Só os vícios nos salvam…, ela repetiu para si mesma, gostara da frase. Mas o diabo do cigarro também não estava lá, o vento invasor levara. Que desgraçado, podia ter lhe deixado ao menos os vícios.

A noite veio e a encontrou assim, do jeito que você a vê agora, em pé no meio da sala bagunçada, ainda inconformada com o roubo, buscando entender. Entender o quê? Que, de fato, faltava algo mais violento para o verdadeiro renascimento começar? Que precisa se livrar ainda mais das velharias que ocupam a estante de sua vida? Que antigos vícios podem salvar somente o que já não vive? Ou, na verdade, não há nada para entender além do óbvio? E qual é o óbvio? Será o óbvio isso, que ela tem que parar de buscar significados ocultos e se tornar uma mulher mais pé no chão? Prestar mais atenção no sinal que fecha do que nas cartas do tarô? Ou o verdadeiro óbvio nada tem a ver com os óbvios que a gente pensa que descobre?

Rindo da própria confusão mental, ela senta no chão, cruzando as pernas e juntando a barra do vestido entre as coxas. Sente na bunda o chão frio e isso parece despertá-la. Ela sorri da ideia, que a bunda a faz sentir-se viva, mas que hora de pensar sacanagem… Depois fecha os olhos e suspira, resignada. O pior de tudo, sabe o que é? Não é a casa de cabeça para baixo, não, amanhã arruma tudo outra vez. Também não é a incerteza do futuro, o futuro não existe, já sabe. O pior mesmo é sentir-se cercada da mais gritante obviedade… e não conseguir vê-la!

Intuição… Agora ela percebe que a intuição já vinha tentando dizer-lhe algo. Sonhos, presságios, coincidências… Deveria ter atentado mais aos ventos? Sim, os ventos, eles sempre trazem algo. Dessa vez trouxeram destruição. Trouxeram algo mais também, uma sensação estranha… de que mudar não é só tirar os vestidos do baú… Não, não, nada disso, tudo na verdade é só a confirmação do fim de um ciclo… Hummm, mas casa significa o eu, então isso tudo na verdade quer dizer que…

Sacudindo a cabeça, ela finalmente liberta o grito primal, até então preso nas entranhas da dor, Aaahhh!!! Mais forte, Aaaaaaahhhhhh!!! Então, o eco de seu berro ainda ecoando na sala, ela levanta, caminha até a janela e suplica ao mundo: Por favor, alguém aí tem um cigarro? Não, não, esquece. Alguém aí tem óbvio? Isso mesmo, óbvio. Sem filtro, por favor.

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

Kelmer Para Mulheres – Nesta seção do blog, homem fica de fora

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DezSegundosParaSerFeliz-03Dez segundos para ser feliz – Seus olhos continuam sorrindo mesmo quando ela conta, sem pudor, das imensas bobagens que fez em nome de sua busca por felicidade

Mulheres que adoram – Dar prazer a uma mulher, fazê-la dizer adoro mil vezes por dia…

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Insights e calcinhas – Uma calcinha rasgada pode mudar a vida de uma mulher? Ruth descobriu que sim

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Um cara que acabou de acordar

12/04/2015

12abr2015

Por isso esse olhar de quem ainda não entendeu… Esse clima de Morfeu, essa preguiça de explicar

UmCaraQueAcabouDeAcordar-02

UM CARA QUE ACABOU DE ACORDAR

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Você quer saber quem eu sou
Pois bem, vou te falar
Eu sou apenas um cara
Que acabou de acordar

Por isso esse olhar
De quem ainda não entendeu
Esse clima de Morfeu
Essa preguiça de explicar
Por isso o gesto lento
Captar a poesia do momento
Antes dela sumir no ar
Eu sou apenas um cara
Que acabou de acordar

Você vai logo notar
O cabelo assanhado
O quarto bagunçado
Qualquer roupa pra usar
Vai perceber rapidinho
Que eu me perco no caminho
Que eu estranho esse lugar
Eu sou apenas um cara
Que acabou de acordar

Não consigo me acostumar
Pra onde vai toda essa gente?
E essa pressa mais demente?
Não, obrigado, eu vou mais devagar
A claridade fere a retina
O ouvido dói com as buzinas
Me coço todo na sujeira desse ar
Nessa loucura quase esqueço de lembrar
Que eu sou apenas um cara
Que acabou de acordar
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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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> Música – Ouça a gravação de um registro dessa música (melodia de Flávia Cavaca, ainda sem todos os instrumentos). Agradecimentos a Rodrigo Larese pela programação de estúdio. Música criada para a trilha sonora do seriado Sonhos Urbanos.

> Mais poemas e músicas

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SeguirABoiadaOuAsPropriasConviccoes-2Seguir a boiada ou as próprias convicções? – Aos poucos podemos, cada um de nós, começar a agir de acordo com as nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos

A pergunta – Um dia, porém, alguém desconfia. E entende que os que olham para fora, sonham, e os que olham para dentro, despertam. E aí a pergunta é inevitável

A Matrix em cada um de nós – Em busca da realização mais íntima (tornar-se o Predestinado), o ego deve empreender uma longa jornada de autoconhecimento onde não faltarão medos e conflitos para fazê-lo desistir

Pequeno incidente em Hukat – Integrante do Projeto Sapiens de Monitoramento Planetário descobre irregularidades comprometendo a evolução da espécie humana e se envolve em rebelião contra Deus, o psicomputador

Jung – a jornada do autodescobrimento – Vídeo com um resumo da vida e das ideias de Carl Jung, o psicólogo e pensador suíço criador da teoria do inconsciente coletivo

A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

Poesia – Poemas e letras de músicas

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DICA DE LIVRO

Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer, ensaio, 2005

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem descontraída, Kelmer nos revela a estrutura mitológica do enredo do filme Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

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UmCaraQueAcabouDeAcordar-02a

 

 


A vertigem

10/02/2015

09fev2015

AVertigem-01

Dizem que seo Pepeu, o louco da cidade, possui dois bichinhos mágicos que localizam coisas perdidas e fazem as pessoas se encontrarem. Mas ele está velho e tem de passar a alguém a missão de cuidar dos bichinhos

Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

Música sugerida para leitura: Sertão Noturno (Cristiano Pinho. Part. vocal: Raimundo Fagner)

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A VERTIGEM

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Os fatos que agora relatarei aconteceram há muito tempo. Mas parece que foi ontem.

Eu estava em Quixadá naquele sábado para resolver umas questões relacionadas a um imóvel de minha família, a casa onde moramos por muitos anos antes de mudarmos para a capital e que desde então estava alugada. Eu havia convencido meus pais a vendê-la e investir o dinheiro em ações na bolsa, obtendo muito mais rendimento. Porém, como a tarde já ia no fim e no domingo outros interessados visitariam a casa, decidi permanecer na cidade e me hospedei num hotelzinho na zona central. Após tomar um banho, aproveitei que o calor estava mais ameno e saí para dar uma caminhada pela redondeza.

Vinte e um anos. Esse era o tempo que eu não ia a Quixadá. Eu nascera e vivera ali até os quinze anos, quando minha família mudou-se para Fortaleza. Meus amigos de infância, o futebol com bola de meia, as quermesses na praça, tudo de repente ficou para trás. Determinado a vencer na cidade grande a qualquer custo, logo ajustei-me às suas leis, concentrando-me nos estudos e no trabalho, economizando dinheiro e deixando diversões e namoradas em terceiro plano. E tratei de convencer a mim mesmo, dia após dia, de que aquela era a minha verdadeira cidade. Em pouco tempo, substituí minha mentalidade interiorana por um comportamento metropolitano e Quixadá foi ficando cada vez mais relegada a um simples nome de cidade natal em meus documentos de identidade.

– Silvio?

Alguém falou meu nome. Era uma senhora. Encostada no portão de uma casa do outro lado da rua, ela acenava sorridente para mim. Atravessei a rua enquanto tentava buscar na memória quem poderia ser.

– Já vi que não lembra de mim.

Eu não lembrava mesmo.

– Fui sua professora de matemática.

Finalmente lembrei. Dona Necy. Estava bem mais velha e bem mais gorda.

– Desculpe, dona Necy. É que faz tanto tempo.

– Tenho memória boa. Você deve estar com… trinta e cinco?

– Trinta e seis.

– Até que não mudou muito. Está de volta à terrinha?

– Não. Só de passagem.

Ela me pegou pelo braço e me convidou para entrar um pouco.

– Acabei de fazer um docinho de caju – ela disse, animada.

Eu queria voltar logo para o hotel, pois levara o notebook e tencionava trabalhar aquela noite nuns relatórios da empresa. Porém, fiquei sem jeito de negar e me deixei conduzir à varanda da casa.

– Sente um pouquinho que eu vou pegar.

Era uma ampla varanda, que ocupava a frente e a lateral da casa. Calculei a área e vi que era maior que o quarto-e-sala onde eu morava. Havia duas cadeiras naquela parte da varanda, ambas de balanço, de ferro revestido com fios de plástico colorido, dessas que não existem mais nas cidades grandes. Sentei numa delas e o movimento de vai e vem da cadeira quase me deu vertigem.

Logo depois, dona Necy chegou e me entregou uma cumbuca cheia de doce. Enquanto eu comia, e o doce era desses com calda vermelha, realmente delicioso, conversamos um pouco. Falei que meus pais estavam bem, que iríamos vender a casa e que eu ainda era solteiro e trabalhava como diretor financeiro de uma empresa. Ela, por sua vez, contou que se aposentara, que seus filhos estavam todos casados e que Quixadá continuava do mesmo jeito que eu a havia deixado, com a diferença de que agora estava ainda mais quente. Falou e em seguida abriu um leque, começando a abanar-se.

– Muito gostoso o doce, dona Necy.

– Quer mais? Vou pegar.

– Não, obrigado – respondi, embora quisesse.

– Então vou pegar uma aguinha pra você.

Ela pegou a cumbuca e entrou, dirigindo-se à cozinha. Pensei na mania que esse povo do interior tem de oferecer comida às visitas. Para eles, você está sempre magro e precisando urgentemente engordar. Nesse momento, dei-me conta da presença de alguém ao meu lado, na porta da sala. Virei-me, achando que veria dona Necy, mas o que vi foi um senhor idoso, alto e magro. Vestia-se todo de branco, calça, paletó, sapatos e um chapéu de feltro, como se fosse sair. Seus olhos eram negros e me olhavam de um jeito estranho…

– Boa tarde – cumprimentei-o.

Ele não respondeu. Permaneceu no mesmo lugar, me olhando daquele jeito estranho, sem expressão. Ou melhor, com uma expressão, sim: de ausência. Mas uma ausência fixada em mim, difícil explicar. Era como se ele não estivesse ali – mas soubesse que eu estava. Senti um desconforto, uma insegurança, como se quem me olhasse pelos olhos daquele velho, de algum modo, soubesse de mim. Soubesse bastante de mim.

Desviei o olhar para o lado da rua. No céu, por trás das casas, o sol se punha entre as nuvens menstruentas, anunciando a noite do sertão.

– Ô, Pepeu, não vai falar com o rapaz, não? – disse dona Necy, chegando da cozinha. – É o Silvio, filho da Dezinha, que você conheceu. Lembra dela, Pepeu?

Ele continuou quieto e calado, encostado na porta. Dona Necy me estendeu o copo dágua e sentou. Bebi com gosto. Quando voltei-me para olhar para seo Pepeu, o lugar estava vazio, ele havia voltado para dentro da casa sem que eu percebesse.

– É primo torto de mamãe – explicou dona Necy, sem se importar com o repentino sumiço do velho. – Tem o juízo meio mole.

– Ah…

– Morava com ela, em Caiçarinha. Quando ela morreu, a gente trouxe ele pra morar com a gente.

– Ele não casou?

– Não. Nem teve filho. Já está com noventa anos, mas ainda tem saúde boa.

– E não causa problemas?

– Pepeu é quieto, faz mal nem a muriçoca. Só tem umas esquisitices, mas a gente já acostumou. A gente se acostuma com tudo, né?

Dona Necy riu. A loucura do agregado da família a divertia.

– Que esquisitices?

– Essas coisas de gente doida. Por exemplo, ele diz que cria uns bichinhos. Mas ninguém nunca viu.

– Devem ser invisíveis – brinquei.

– Ele gostou de você, viu?

– De mim? Me olhando daquele jeito?

– Quando não gosta, nem olha pra pessoa.

Sorri, lisonjeado.

– O doce estava ótimo, dona Necy, obrigado – falei, levantando-me.

– Tem certeza que não quer mais? Doce aqui não falta.

– Tenho que voltar pro hotel.

À noite, telefonei para meus pais e, após falarmos sobre a venda do imóvel, contei para mamãe que havia estado com dona Necy e seo Pepeu. Ela comentou que o conhecia.

– Seo Pepeu é bom de encontrar coisa perdida, sabia? – ela falou.

– Como assim?

– Se você perdeu qualquer coisa, é só falar com ele que rapidinho você encontra.

– Só a senhora mesmo pra acreditar nessas coisas, mãe – respondi, rindo das crendices interioranas dela.

– Ah, eu soube que Milena se separou. Tá solteirinha. Que nem você.

– Que Milena, mãe?

– A que você namorou.

Milena era uma garota de Quixadá que eu havia namorado na adolescência. Eu havia esquecido totalmente dela.

– Obrigado pela dica, mãe, mas prefiro as mulheres da capital.

Após desligar, sentei na cama e liguei o notebook para adiantar as tarefas que me aguardavam no escritório na segunda-feira, que eram muitas. Fiquei apenas na tentativa, pois o sono me chegou tão forte que adormeci no meio do trabalho com o notebook ligado, coisa que nunca havia me acontecido.

AVertigem-01No domingo, mostrei a casa para um casal que estava bastante interessado em comprá-la. Discutimos valores e combinamos que eu voltaria no fim de semana seguinte para concluir o negócio. E retornei ao hotel, satisfeito. Em breve, a casa onde eu vivera minha infância e que significava minha derradeira ligação com a cidade se transformaria num bom dinheiro, que eu esperava multiplicar rapidamente no mercado de ações.

Almocei no hotel e depois subi ao quarto para tomar um banho. Enquanto me vestia, olhando-me no espelho, achei minha imagem um tanto diferente… Recordei ter lido em algum lugar que os espelhos refletem nossa imagem cada um ao seu modo e que, por nos acostumarmos aos nossos reflexos cotidianos, nós nos estranhamos nos outros espelhos.

Pensava nisso quando de repente a lembrança de seo Pepeu tomou minha atenção. E quase pude sentir a mesma sensação de desconforto que me causara sua presença no dia anterior. Seo Pepeu e seu olhar estranho, sem expressão, mas que mexia com algo em mim. Seo Pepeu e seu olhar de quem parecia saber muitas coisas de mim.

Saí do quarto e fui pagar a conta. Conferi as horas: cinco da tarde. Caminhei até o carro, estacionado em frente ao hotel, e entrei. No entanto, em vez de rumar para a saída da cidade, fui à casa de dona Necy. Parei o carro, saí e bati palmas. Ela logo apareceu, sorridente.

– Vim me despedir.

– Mas ainda está quente pra pegar estrada – ela falou, já me puxando para dentro e fechando o portão. – Entre um pouquinho. Já almoçou?

– Já, obrigado.

– Mas aceita um docinho de caju, não aceita?

– Aceito. E seo Pepeu, está bem? – perguntei. E me senti um tolo por ter querido enganar a mim mesmo sobre o motivo de ter voltado à casa de dona Necy. Evidente que eu não fora me despedir – estava ali para rever seo Pepeu.

– Hoje ele me perguntou: cadê o filho da Dezinha?

– Sério?

– Não disse que ele tinha gostado de você?

Dona Necy entrou e logo retornou trazendo o doce. Como da outra vez, ela sentou em sua cadeira de balanço e, enquanto falava algo sobre a safra de caju, o som de suas palavras se acompanhava do barulhinho quase hipnótico do balançar da cadeira. Foi nesse momento que ele surgiu à porta em seu figurino branco, silencioso e impecável feito um gato.

– Olha quem veio ver você, Pepeu.

– Boa tarde, seo Pepeu. Como vai?

Ele não respondeu. Continuou parado, encostado à porta, o olhar ausente em mim. Dona Necy fez sinal com a mão, para que eu não me importasse, e começou a falar do clima, do custo de vida, da política local. Lembrou do tempo da escola e de como as crianças de hoje preferem o computador às brincadeiras na rua. Foi quando escutei a voz grave ao meu lado:

– Ele quer mais doce.

Seo Pepeu falara!

– Quer mais? – perguntou-me dona Necy, levantando da cadeira. – Me dê que eu vou pegar.

Dona Necy puxou-me a cumbuca das mãos e entrou. E eu olhei para seo Pepeu, ainda surpreso. Ele falara.

Foi esta a primeira vez que escutei sua voz. E ele falou de um modo tão natural, e havia uma tal lucidez das coisas por trás dela… Eu, de fato, havia terminado de comer e realmente queria mais, porém estava com vergonha de pedir. E ele percebera.

– O senhor também gosta de doce de caju? – perguntei, tentando parecer simpático. Ele apenas continuou me olhando, daquele jeito ausente. Senti-me ridículo, tentando me comunicar com um louco, e tive a nítida impressão de que seo Pepeu desdenhava de minha posição de são e normal.

Para meu alívio, dona Necy voltou, trazendo mais doce e me livrando do desconforto de fazer sala para a loucura. Conversamos mais um pouco e, em determinado momento, lembrei do que minha mãe me falara.

– É verdade que ele encontra coisas perdidas?

– Olha aí, Pepeu – ela falou, dirigindo-se a ele. – Silvio quer saber se você encontra as coisas. Encontra?

Seo Pepeu não respondeu. Continuava com seu olhar em mim, insistente e silencioso – e ausente.

– Você não perdeu alguma coisa ultimamente? – dona Necy me perguntou. Sim, eu havia perdido minha caneta predileta, uma de alumínio que tinha meu nome gravado. Perdera-a no dia anterior, logo que chegara a Quixadá.

– Sim, perdi uma caneta.

– Pede pra ele encontrar.

– O senhor pode encontrar minha caneta, seo Pepeu? – perguntei a ele. E flagrei-me desejando muito que a resposta fosse sim.

No silêncio que se seguiu, enquanto nós dois nos olhávamos e eu ansiava por sua resposta positiva, senti uma vertigem… E me veio, nesse exato momento, uma lembrança de minha infância… Lembrei de um poço que havia no quintal da casa do vizinho, um velho poço que fornecia água e do qual as crianças eram proibidas de se aproximar. Um dia, sem suportar mais a curiosidade, fui escondido até o poço e subi na borda. E na água lá embaixo, em vez de minha imagem refletida, vi um monstro horrendo. Com o susto, me desequilibrei e caí para dentro do poço. Felizmente fui rápido e consegui me segurar na borda, ficando pendurado lá enquanto o monstro, do fundo do poço, aguardava que eu despencasse. Com muito esforço, subi a parede e saí. Voltei correndo para casa, apavorado, o coração saindo pela boca. A experiência foi tão traumática que depois desse dia, bastava me aproximar de um poço para sentir uma forte vertigem. Olhar lá dentro, nem pensar.

A lembrança se dissipou e a vertigem foi sumindo aos poucos, o que me aliviou bastante. Agora eu estava novamente na varanda da casa de dona Necy, tendo nos meus olhos o olhar ausente de seo Pepeu. Mexi-me na cadeira para afastar o resto de vertigem que ainda sentia, sem saber bem quanto tempo estivera envolvido pela súbita recordação ou se alguém percebera alguma coisa.

Então seo Pepeu moveu-se, caminhando até dona Necy. Inclinou-se e sussurrou algo em seu ouvido. E voltou ao seu lugar, encostado na porta.

– Pepeu disse que se você trouxer um chocolate pra ele, ele encontra sua caneta.

Dar-lhe um chocolate? Que coisa infantil, pensei, decepcionado. E eu que, por um rápido instante, chegara quase a crer que ele possuía mesmo algum dom mágico, que transitava por outros mundos… Mas agora via que era tudo uma brincadeira entre eles, uma espécie de concessão que dona Necy fazia à estranha lógica da loucura.

Mesmo incomodado por ter feito papel de tolo, resolvi topar a brincadeira. Levantei e fui à mercearia da esquina. E logo voltei com o chocolate, que entreguei a ele. Seo Pepeu, porém, não o recebeu, deixando-me com o braço estendido no ar. Dona Necy riu e pegou o chocolate de minha mão, entregando a ele. Pensei que seo Pepeu fosse comê-lo ali mesmo, mas, em vez disso, guardou-o no bolso de dentro do paletó e tornou a sussurrar ao ouvido de dona Necy.

– Agora você espera que a caneta aparece – ela disse, me piscando um olho, como se estivéssemos brincando com uma criança.

Olhei para seo Pepeu e julguei ver um esboço de sorriso, uma quase imperceptível luzinha de satisfação em seu rosto… que um segundo depois sumiu, sem deixar vestígio. Então nos despedimos e fui embora.

Durante o trajeto de volta a Fortaleza a lembrança de seo Pepeu me fez companhia. Ele realmente me impressionara bastante. E havia provocado em mim algo difícil de precisar, um incômodo misturado com medo e… uma certa euforia. Por quê?

Enquanto eu dirigia, chegaram outras lembranças de minha infância… Lembrei de um tempo em que eu tinha passagem livre para outras realidades, que eu visitava sempre. Um tempo em que eu tinha amigos que os adultos não viam e com eles dividia segredos. Lembrei que eu tinha o poder de ficar invisível e fazia isso sempre que queria roubar doces da confeitaria ou quando queria ficar no quarto de minha prima sem ser notado, enquanto ela deitava em sua cama e se tocava intimamente como se estivesse sozinha. Era um tempo em que os dias eram cheios de aventuras e tudo era mágico e fascinante. Um tempo encantado que simplesmente havia sumido de minha memória, mas que durante aqueles momentos na estrada irrompeu no pensamento, feito bolhas que sobem à superfície da água fervente.

Na entrada da capital, envolto pelas lembranças, não percebi o sinal vermelho e passei direto pelo cruzamento. Freei o carro bruscamente, quase colidindo com um caminhão. Por pouco não causei um terrível acidente. Poderia ter morrido… Parei logo depois, assustado e ao mesmo tempo aliviado pela sorte que tivera. Melhor esquecer o passado, pensei, enquanto engatava a primeira e saía. Melhor voltar à realidade.

Nos dias seguintes, minha mente manteve-se focada nos afazeres do trabalho, que me consumia o dia inteiro e às vezes até a noite, quando levava tarefas para casa. Na quarta-feira, porém, enquanto trabalhava em minha sala na empresa, percebi que a luz do fim de tarde que vinha da janela refletia-se na estante em alguma coisa que eu não conseguia precisar o que era. Intrigado, levantei e fui conferir o que estava brilhando ali. Era uma caneta. Uma caneta de alumínio com meu nome gravado.

Senti um arrepio na espinha. Era a caneta que estava perdida! Mas como ela podia estar ali se eu a perdera em Quixadá? Seria seo Pepeu… responsável por aquilo?

Não, claro que não, imediatamente respondi para mim mesmo. Eu certamente me equivocara. Sem perceber, certamente eu trouxera a caneta comigo de Quixadá e…

E o quê? Eu pusera a caneta na estante e também não lembrava? Isso não. Claro que eu não fizera isso. Então como explicar?

Não encontrei nenhuma explicação. Não havia explicação. Durante três dias eu havia esquecido de seo Pepeu e agora ele subitamente voltava por meio daquele mistério. Seria mesmo possível que ele tivesse algo a ver com aquilo?

Pelo resto do dia a imagem do velho esquisito me perseguiu, aqueles olhos ausentes de expressão, mas que eu sabia me espreitarem atentos. E isso me fazia dividido. Se, por um lado, brisas suaves do outro mundo sopravam por intermédio de seo Pepeu, brisas que me arrepiavam os pelos e me traziam memórias de um tempo de magia e encantamento, por outro lado seus olhos pareciam querer me desmascarar, como se eu fosse culpado de algo…

AVertigem-01No sábado seguinte, voltei a Quixadá. Eu havia combinado com o casal interessado em comprar a casa que nos encontraríamos no domingo, mas minha vontade de rever seo Pepeu era tamanha que não pude esperar mais um dia.

Cheguei no fim da tarde e dona Necy me recebeu com a simpatia de sempre. Contei-lhe que havia encontrado a caneta.

– Que bom – ela respondeu. – Pepeu vai gostar de saber.

– Ele sempre faz… essas coisas?

– Que coisas?

– Encontrar objetos perdidos.

Ela riu.

– Você acredita nessas coisas?

– Eu? Bem… eu…

Parei de falar, encabulado feito um menino flagrado fazendo o que não deve. Simplesmente não consegui responder. Em que eu acreditava? Já não sabia.

– O povo mais jovem não liga pra isso não, sabe? Quem ainda acredita é o povo velho.

Sorri, sem jeito. Ao lado, no vidro da janela, vi minha cara envergonhada. Fiquei pensando: quem eu seria? Do povo jovem ou do povo velho?

– Ele está em casa?

– Pepeu? Não. Foi passear com os bichinhos dele.

– E ele sabe andar sozinho pelas ruas?

– Mas menino, Pepeu é esperto – ela confirmou, orgulhosa. – Só não sai quando os bichinhos dele não querem ir. Aí não tem quem faça Pepeu botar o pé fora de casa. Você não quer sentar um pouco? Tem suco de cajá bem geladinho, vou pegar pra você.

– Obrigado, dona Necy – recusei. – Mas eu preciso falar com seo Pepeu.

– Então vá por ali, ó, que você ainda pega ele.

Corri pela rua até que vi aquela figura magra e alta, metida em seu terno branco, o chapéu branco, ele e seu passo lento, parecendo não ligar nadinha para o mundo em volta. Quem visse não o distinguiria de qualquer desses velhos que seguem para a praça nos fins de tarde.

Diminuí o passo e fui me aproximando dele. O coração batia forte e o suor já me ensopava as costas. Estiquei o braço em sua direção e, antes de tocá-lo, escutei sua voz:

– Encontrou a caneta?

Seo Pepeu continuava caminhando, olhando para frente. Por um momento, achei que ele falara consigo mesmo.

– Sim… Encontrei sim. Vim agradecer.

Então me cheguei ao seu lado e o acompanhei em seu passo lento pela calçada. Perguntei como conseguira que eu encontrasse a caneta, mas ele nada respondeu. Comecei a sentir o peso do ridículo. Puxei mais conversa, mas ele continuou do mesmo jeito, silencioso e o olhar lá na frente ou, sei lá, em lugar nenhum.

Quando chegamos à praça meu entusiasmo inicial já havia se desmilinguido no meio daquele constrangimento, e de novo eu me sentia fazendo papel de tolo, confiando que podia domar a loucura. Foi quando, já sem saber mais o que falar, comentei sobre Milena, minha ex-namorada da adolescência, se ele a conhecia.

Mais uma vez. A sombra de um sorriso a lhe sobrevoar a face, rápida, um quase nada. Mas eu vi, sim. Perguntei novamente, se ele conhecia Milena.

– Quer encontrar a moça, né?

Meu coração deu um pulo. Então, mais para não perder o embalo da conversa do que qualquer outra coisa, respondi rapidamente que sim, e perguntei se ele podia me ajudar.

– Traga um chocolate, traga.

Um chocolate. O que ele queria dizer com isso? Que me faria encontrar a moça da mesma forma como encontrei minha caneta? Não quis arriscar perder a oportunidade e corri até uma banca de revistas, onde comprei uma barrinha de chocolate e levei para ele.

– O senhor gosta muito de chocolate, né, seo Pepeu?

Ele ainda guardava a barrinha no bolso interno do paletó quando olhou para mim e… sorriu! Sorriu de verdade. Bem, foi um sorriso de um segundinho só, camuflado pela boca rígida, mas ele sorriu sim. E falou:

– É pra mim não, é pros bichinhos. Agora pode ir, vá.

– Ir pra onde, seo Pepeu?

– Vá logo.

Ele parecia ter pressa. Mas eu não sabia o que fazer.

– Vá, vá – ele insistiu, me empurrando levemente. Eu olhava para ele e não sabia mesmo o que fazer. Devia voltar a Fortaleza? Encontraria Milena lá?

– Vá logo.

Não pude deixar de obedecer. Atravessei a rua e olhei para ele, que continuava indicando que eu devia prosseguir, vá, vá…

De repente, uma mulher surgiu bem à minha frente, quase esbarrando em mim. Paramos os dois, assustados.

– Não acredito… – ela falou, surpresa. – Silvio?!

– Milena? – balbuciei, ainda mais surpreso que ela.

– Está perdido aqui em Quixadá?

– Eu… ahnn…

Eu todo era uma confusão só. Aquele encontro era obra de seo Pepeu? Não, não era possível, não podia ser. Mas como não seria? Claro que era sim, só podia ser. Tinha que ser. Virei-me rapidamente para a praça, mas seo Pepeu não estava mais lá.

– Eu… vim resolver umas coisas.

Milena havia mudado, não era mais a menina que eu lembrava, obviamente. Mas continuava bonita.

– Que coincidência, Silvio. Eu nunca faço esse caminho. Mas hoje, sei lá por quê, resolvi vir por aqui.

Ficamos olhando um para o outro, no meio das pessoas que passavam, sem saber o que dizer. Ela enfim quebrou o silêncio, perguntando se eu estava sozinho.

– Eu? Sim, estou.

– Quer sair hoje à noite? Tem um barzinho novo que é bem legal.

Após me passar seu número de telefone, deu-me um beijo no rosto e seguiu caminhando. Então atravessei a rua e avistei seo Pepeu caminhando na direção de sua casa. Corri até ele.

– Foi o senhor que fez a gente se encontrar, não foi?

Ele não respondeu. Nem sequer olhou para mim.

– Por favor, seo Pepeu – implorei. – Eu preciso saber.

Nada. Ele continuou em silêncio, caminhando seu passo lento. E eu ali fiquei, parado na calçada, o coração feito uma britadeira, a ponto de ter um troço. No degradê do céu a tarde anunciava seu fim, abrindo caminho para a noite. Uma brisa soprou, eriçando os pelos do meu braço.

Mais tarde, no barzinho, pensei em comentar o ocorrido com Milena. Mas achei melhor não. Como dizer-lhe que em troca de um chocolate, um velho maluco havia mexido com as forças do além para que nos encontrássemos de repente naquela rua? Como explicar o que eu sentia, aquela confusão toda em minha cabeça? Como dizer-lhe que o outro mundo havia voltado, o mundo mágico da minha infância?

Para não ficar pensando o tempo todo nisso, tratei de conversar sobre várias coisas e rimos bastante dos velhos tempos, recordando nosso namoro de adolescentes. Ela me falou de seu casamento fracassado e eu contei sobre minha vida em Fortaleza. Ela me perguntou se eu estava solteiro e eu confirmei. No fim da noite, deixei-a em casa e trocamos um demorado beijo. Um beijo muito gostoso, por sinal, que me fez lembrar de uma antiga e doce sensação, a de ter Milena em meus braços, nós dois no banco do jardim de sua casa, prometendo um para o outro todas as estrelas do céu imenso de Quixadá.

Naquela noite, demorei a dormir. Estava absolutamente dividido. Uma parte de mim queria ardentemente acreditar que seo Pepeu tinha mesmo poderes mágicos, que talvez o mundo não fosse somente aquilo que os olhos veem, que talvez outras coisas existissem além da compreensão comum. Talvez os loucos tivessem respostas. Talvez fosse hora de eu buscá-las de outra forma que não fosse nos números frios dos relatórios financeiros.

Outra parte de mim, porém, balançava a cabeça, desapontada com minha própria tolice. O mundo real não estava ali, naquela cidadezinha do interior, eu sabia disso. Tampouco estava no passado, entre mentiras da imaginação infantil. A realidade ficava na outra ponta da estrada, para onde no dia seguinte eu voltaria.

AVertigem-01Na manhã seguinte, não escutei o despertador, e quando acordei já eram duas da tarde. Estava bem atrasado para o encontro com o casal que queria comprar a casa. Vesti-me às pressas e dirigi até o restaurante onde havíamos combinado o encontro. Felizmente, eles ainda me esperavam. Desculpei-me, almoçamos e pudemos, enfim, acertar os detalhes finais do negócio.

De volta ao hotel, o moço da recepção me informou que alguém me aguardava e apontou para o sofá ao lado. Virei-me, com a certeza que veria Milena. Mas o que vi foi um velho de terno e chapéu brancos.

Fui até lá, e antes que eu dissesse qualquer coisa, ele levantou-se calmamente e saiu do hotel. Segui-o e passamos a caminhar pela rua lado a lado, em silêncio. Ele queria passear comigo, pensei, como dois amigos fazem num fim de tarde. Eu, porém, queria tanto falar do dia anterior, saber dos bichinhos…

Então chegamos à pedra do Cruzeiro, um conjunto rochoso muito visitado por turistas em busca de uma vista panorâmica da cidade. Quando criança, eu adorava subir até o topo, mais de cem metros de altura, e lá me entretinha durante séculos com a paisagem. Seo Pepeu parou, olhou lá para cima, ajeitou o chapéu na cabeça e começou a subir por uma das trilhas. Pensei em protestar, não estava nem um pouco a fim de me cansar, mas não ousei falar nada, apenas segui-o.

Seo Pepeu subiu com espantosa agilidade, sem dar sequer um passo em falso. Eu, ao contrário, escorreguei várias vezes e estive a ponto de desistir. Felizmente, ele parou antes de chegarmos ao topo e pouco depois eu o alcancei, e sentei numa pedra para descansar. E só então foi que percebi a paisagem. Dali, boa parte da cidade se mostrava para nós, e lá longe, por trás dos montes de pedra que a circundavam, o sol poente enchia o céu de tons de vermelho, amarelo e laranja. Eu havia esquecido de como aquela visão era magnífica. Enquanto as nuvens lentamente trocavam de desenhos e o céu mudava de cor, senti-me como se estivesse fora do tempo…

– Você vai ficar com eles depois que eu for, não vai?

A voz de seo Pepeu…

– Com eles quem? – perguntei, meu olhar vagando pelo horizonte.

– Os bichinhos. Olhe, não pode se atrasar não, venha no dia que chamarem.

Os bichinhos, claro. Por um instante, ou teriam sido séculos?, eu havia esquecido deles.

– Que bichinhos são esses, seo Pepeu? ‒ indaguei, olhando para ele. Seo Pepeu, em pé, ao meu lado, também olhava para o horizonte.

– Deram pra eu criar, faz tempo. Um é o bichinho escondedor, gosta de esconder e encontrar as coisas, é danado que só.

– E o outro?

– É o bichinho alcoviteiro. Ele gosta de brincar com as pessoas, faz elas se perderem e se encontrarem. São pequenininhos, mas sobem em tudo que é canto. E gostam muito de chocolate.

Bichinho escondedor e bichinho alcoviteiro. Um que encontrava objetos, outro que fazia pessoas se encontrarem… Aquilo era absolutamente incrível. Continuei como estava, sentado na pedra, o olhar lá longe, além do tempo…

– Foi o bichinho alcoviteiro que fez sua mãe casar com seu pai, sabia?

– Como assim?

– Seu pai era moço festeiro, queria compromisso não. Então o bichinho fez ele encontrar com ela na rua sete dias seguidos em sete lugares diferentes.

Sorri, espantado. Aquilo era uma novidade.

– E quem lhe deu os bichinhos pra criar, seo Pepeu?

– Posso dizer não. Nem você vai poder dizer quem lhe deu. E vão ficar com você até o seu dia, viu? Quando você se for, eles voltam pra dentro da casinha deles e de lá só saem pras mãos do novo dono. E não pode ser mulher.

– Eles não gostam de mulher?

– Mulher ia usar pra fazer mal com a outra. E eles querem só brincar, fazer arte com o povo.

– Outra pessoa pode ver os bichinhos?

– Não. Eles estão sempre escondidos por trás das coisas.

A voz de seo Pepeu chegava lentamente aos meus ouvidos e se misturava à paisagem. De repente, tudo era uma coisa só, o sol se pondo, as pedras, o céu avermelhado e as palavras de seo Pepeu. O tempo passado e o tempo presente finalmente davam-se as mãos. Tudo fazia sentido.

– Tem uma coisa – ele continuou. – Os bichinhos não gostam nem de gato nem de padre.

– Por quê?

– Gato pode ver eles, eles não gostam. E padre deixa eles tristes.

– E eles falam com o senhor?

– Eu sei o que eles pensam. Com o tempo você vai saber também.

– E por que o senhor escolheu logo a mim?

– Eles que escolhem. Quando você chegou, eles me avisaram.

– E se, por acaso, eu não servir pro negócio?

– No dia que eles não tiverem mais dono, tudo vai parar.

– Como assim?

Ele não respondeu.

– Como assim tudo vai parar, seo Pepeu?

Virei-me e vi que ele já descia a pedra, enquanto minha pergunta era levada pelo vento.

Voltamos em total silêncio. Ao fim da descida, seo Pepeu seguiu por uma rua, sem olhar para trás, e eu segui por outra, voltando ao hotel. Sentia-me em paz, como alguém que finalmente encontra algo que havia muito procurava sem saber que procurava.

AVertigem-01Na segunda-feira pela manhã, do escritório, liguei para minha mãe e contei da caneta, do encontro com Milena e do que seo Pepeu falara sobre ela e papai. Ela riu e disse que era verdade, sim, que um dia, quando era solteira, procurou um senhor que vivia no meio do mato. Era um tipo meio ermitão e diziam que possuía poderes mágicos. Ela foi lá e encontrou um velho estranho, mas gentil, e ela lhe pediu que fizesse meu pai se apaixonar por ela. O velho disse que isso não podia fazer, mas que faria algo parecido.

– Pois ele fez – prosseguiu minha mãe, rindo gostosamente. – Fez seu pai se encontrar comigo por vários dias seguidos. Ele ficou tão cismado que não teve como não prestar atenção em mim. Depois que a gente casou, contei pro seu pai, mas você sabe que ele não acredita nessas coisas.

– E a senhora pagou pelo serviço?

– Dei um chocolate, como seo Pepeu havia me pedido. Saiu barato.

E os bichinhos, eu pensava, como seriam? Gordinhos de tanto chocolate? Talvez não, seo Pepeu dissera que eram ágeis. Podia-se andar com eles no bolso? Como era a casinha deles? Eu pensava nos bichinhos e a todo momento me vinham novas utilidades como encontrar documentos perdidos, forçar encontros providenciais, conferir se tal pessoa estava mesmo em tal lugar…

E o medo deles de gatos, que estranho… Então os gatos viam mesmo coisas? E quanto aos padres? Presumi que os bichinhos não gostavam deles pelo fato da Igreja Católica ter um passado reconhecidamente perseguidor para com outras crenças. Quem sabe os bichinhos não guardavam lembranças traumáticas de outros tempos, de cruéis perseguições?

Seo Pepeu dissera que no dia que os bichinhos não tivessem mais dono, tudo ia parar. O que podia significar? Uma profecia sobre o fim do mundo? Ele dissera também que eu ficaria com eles somente depois que ele se fosse. Bem, pela saúde que seo Pepeu tinha, esse dia ainda demoraria, o que era ótimo, pois eu queria aprender tudo sobre o outro mundo.

– Tudo, tudo – falei para mim mesmo. E ri que nem uma criança feliz.

Eu não estava mais dividido. Seo Pepeu era real, os bichinhos eram reais. O mundo mágico estava de volta.

Antes de sair para almoçar, liguei para o casal que compraria a casa. Comuniquei, sem dar muitas explicações, que o negócio estava suspenso e que, se fosse o caso, depois eu entraria em contato com eles. Desliguei o telefone e estiquei as pernas, relaxado e aliviado. De repente, vender aquela casa era algo que não fazia muito sentido. Talvez não fosse má ideia mantê-la alugada. Talvez, quem sabe, um dia eu cansasse da capital e voltaria a morar em Quixadá. Sim, por que não? Esquecer aquele negócio de mercado de ações e levar uma vida mais calma, sem tantas preocupações com lucros. Quem sabe com Milena. Por que não?

Então a secretária me tirou de meus devaneios, avisando que havia uma ligação para mim. Atendi. Era dona Necy. Ligava para avisar que seo Pepeu morrera na noite anterior. Ele estava bem, ela disse, havia feito seu passeio de fim de tarde e jantado normalmente. Morrera dormindo. O enterro seria à tarde.

Demorei alguns minutos até conseguir fazer algo. Seo Pepeu morto… Não parecia real. Não podia ser real, ele ainda tinha tanto a me ensinar…

Cancelei os compromissos da tarde, peguei o carro e mandei-me para Quixadá. Dirigi a toda velocidade, mas quando cheguei ao cemitério, o caixão já havia descido e dois homens o cobriam de terra. Havia pouca gente presente, só dona Necy e alguns familiares. Fiquei arrasado, pois queria ter visto seo Pepeu uma última vez.

– Ele gostava de você – dona Necy me falou, enxugando uma lágrima.

– Eu também.

– Acho que Pepeu pressentiu que ia morrer, pois ontem, antes de dormir, pediu pra lhe entregar uma coisa.

Dona Necy abriu sua bolsa, tirou um pequenino baú de madeira e me entregou.

– Ele guardava isso com muito cuidado, desde quando morava em Caiçarinha.

Segurei o bauzinho com as duas mãos, sentindo seu peso.

– Parece que tem alguma coisa dentro, mas eu não sei o que é. Pepeu me pediu pra eu entregar pra você sem abrir.

– Obrigado.

– Vamos agora lá pra casa tomar um café. Venha com a gente.

– Infelizmente não posso, dona Necy. Tenho que voltar logo pra Fortaleza.

Despedimo-nos e saí. Alguns minutos depois, eu estava na estrada, voltando para a capital. Dirigia tomado por uma mistura de tristeza, excitação e medo, e a todo instante olhava de canto de olho para o bauzinho de madeira no banco do passageiro.

Chegando em casa, pus o bauzinho sobre a cama e sentei ao lado. Minhas mãos tremiam e o coração batia descompassado. Uma gota de suor deslizou por meu rosto. Lá fora a tarde ia embora, e pela janela pude ver o céu começando a escurecer, anunciando a noite da cidade grande, tão diferente da noite do sertão. Dentro daquele pequeno baú estava a prova da existência do outro mundo, o mundo mágico que sempre existira, mas que eu um dia preferi esquecer. Bastava abri-lo e libertar os bichinhos.

Peguei o bauzinho e movi a tampa para cima, bem devagar. De repente, por um instante, surgiu na lembrança aquele terrível poço da minha infância… E imediatamente senti a vertigem me abraçar, novamente ela, a mesma vertigem. Interrompi o movimento, baixei a tampa e respirei profundamente. Está tudo bem, falei para mim mesmo, enquanto esperava a vertigem passar. Alguns minutos depois, quando me preparava para abrir de novo, uma pergunta surgiu em minha mente. E se… nada houvesse lá dentro?

Quando a noite veio, ela e sua escuridão, eu continuava lá, sentado na cama, o bauzinho ao lado. E a pergunta não calava em meu pensamento. E se nada houvesse lá dentro?

A madrugada chegou, ela e seu silêncio, e lá estava eu no mesmo lugar. Aquela pergunta não me deixara dormir. Nem dormi e nem tive coragem de abrir o bauzinho.

Quando amanheceu, guardei-o numa gaveta do armário e fui trabalhar. Esforcei-me como nunca para me concentrar no serviço, mas não consegui. Quando voltei para casa, a primeira coisa que fiz foi tirar o bauzinho da gaveta. Botei-o novamente sobre a cama e jurei para mim mesmo que daquela vez eu o abriria, eu precisava abri-lo e acabar de vez com aquela tortura. Sim, eu precisava fazer isso. Mas… e se nada houvesse lá dentro?

É a pergunta que me faço até hoje, cinquenta anos depois, quando cai a tarde e tiro o bauzinho da mesma gaveta, e sento na mesma cama do mesmo apartamento, tudo o mesmo. E se nada houver lá dentro?

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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Cristiano Pinho – Sertão Noturno
Trilha sonora do conto A Vertigem

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Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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01- Acabei de ler o conto sobre a loucura, do seu Pepeu. Pois saiba que eu segurei o ar por alguns instantes no final, achei muito legal. Vera Sabóia, Fortaleza-CE – jul2005

02 – Que o Seo Pepeu guie seu coração e a vc todo mesmo, ‘treim-rúim’, pelo túnel do irresistível-selvagem-charme da insanidade e lhe mostre a luz no fim! …que tire as tentações do caminho e lhe dê a paz! aaaaaaaaaamééémmmmmmmmm! Patrícia Rochael, Goiânia-GO – mar2007

03- Gostei muito, muito mesmo!!!Adorei! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – fev2015

04- Ricardo Kelmer, esse sempre foi um dos seus contos de que mais gosto. Muito bom mesmo!, Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – fev2015

05- Ricardo Kelmer, perfeito! Ana Velasquez, Altamira-PA – fev2015

06- Este livro é um dos melhores que conheço! Além do “Seo Pepeu”, tem outros contos alucinantes! Grande Ricardo Kelmer!!!- Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – fev2015

07- Eu amo Ricardo Kelmer. No bom sentido, macho réi. Você tem talento e um papo com você nos aproxima do tudo. Do ser inteligente que sabe combinar vida, pessoas, coisas, animais e o mundo de dentro e de fora de tudo. Nonato Albuquerque, Fortaleza-CE – fev2015

08- Esse é o conto preferido do Roman Peter Ciupka Junior, né não? Marcelo Gavini, São Paulo-SP – fev2015

09- Opa ! Fala seu Kelmer ! Lembrei que tinha lido esse conto ( muito bom !)la no seu livro ” Guia de sobre … ” … Acho que eu nunca comentei contigo mas esse conto tem um Q de ” Alem da Imaginaçao” … Luciano Hamada, São Paulo-SP – fev2015

AVertigem-01a


No olho da loucura

28/01/2015

28jan2015

Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador

NoOlhoDaLoucura-01

NO OLHO DA LOUCURA

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Ah, a loucura… Que diabos tem essa senhora que tanto nos incomoda e seduz? Por que estamos sempre a espiar, feito menino curioso, o brilho estranho de seus olhos, e ao mesmo tempo dele só queremos fugir, para bem longe?

Ela está lá, vejam, está lá e nos ameaça com sua irresponsabilidade consentida. Está lá, no canto da sala, no canto do olho, inflando dentro de si mesma para explodir a qualquer momento sobre nossa mal disfarçada indiferença. Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador que essa zombaria.

Por que temos medo? Por que a insegurança? Será que é porque quem nos olha, lá de dentro daquele olho, não é como nós? Sentimos segurança quando nos vemos em outros e nos sabemos muitos, mas na loucura não nos enxergamos. Nosso olhar bate e volta, sem encontrar reciprocidade, sem ter quem lhe dê a mão e o conduza pelo universo estranho. Nosso olhar bate e volta, sem notícias confiáveis do mundo de lá.

Ou será o contrário? Nós nos vemos, sim, e é isso que mete medo! Nós nos vemos, e vemos exatamente o que nunca se mostra de nós mesmos. Pressentimos aquilo que se esconde por trás de nossas verdades tão bem construídas e avalizadas. Ali, no olho da loucura, brilha, distante e entre névoas, o reflexo de um pressentimento que nos incomoda e nos faz despertar à noite subitamente amedrontados, na vertigem de uma queda…

No olho da loucura, por trás dele, nos espreita essa vertigem, nascida do medo de olhar dentro de nós mesmos – e não gostar do que descobrir. Por isso, fugimos de seu olhar. E é exatamente por isso que dele não adianta fugir.

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Mário Gomes, o poeta viralata

06/01/2015

06jan2015

Era com suas errâncias quixotescas e os versos obscenos que o povo se encantava, ele lá, de paletó sem gravata, camarada e bonachão

MarioGomesOPoetaViraLata-02

MÁRIO GOMES, O POETA VIRALATA

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Era um burburinho que rodava dentro da cabeça dele, sem parar. Uma noite, rodou, rodou e pariu um poema. E ele riu da própria marmota. Descobriu-se poeta.

Rapaz, trabalhar com redemoinho no juízo não dá. Veio-lhe aí a revelação, aquilo que todo cão viralata sabe: se é pelas ruas que a vida livre escorre em poesia, bebamos de sua sagrada putaria. Então batizou-se boêmio e vagabundo.

Rebelando-se contra tudo que não rima com liberdade, um dia ele fugiu do manicômio. Lá no alto, a lua se apaixonou, a andarilha do céu, e jurou protegê-lo em suas perambulanças e traquinagens. Assim, sempre sem dinheiro mas abençoado, fez-se aventureiro: em São Paulo foi preso, mas escapuliu, por se fingir cineasta para as mulheres, em Minas se atrasou e não embarcou no ônibus que viraria na estrada, e lá nos cafundós da Bahia escapou de morrer no veneno de um vatapá na encruzilhada.

Ah, ele sumia por meses, mas Fortaleza sempre o recebia de volta. Todo lascado de surras e prisões, mas uma ruma de história mirabolante para contar. À tarde, na Praça do Ferreira, o vento malandro a brincar de subir a saia das moças, era com suas errâncias quixotescas e os versos obscenos que o povo se encantava, ele lá, de paletó sem gravata, camarada e bonachão. Fiel se manteve ao ofício de sua nobre vagabundagem, vivendo sem amanhãs, e sempre o acudia um troco para a janta e o cigarro. De tanto encarnar o surreal da vida, ainda vivo virou lenda. Assim foi que um dia, ele contando orgulhoso da aposentadoria por invalidez mental, que os amigos entenderam: cidade bendita a que provê seus poetas mais puros.

Nos seus livros publicados, a arte intuitiva brincava longe dos parâmetros, feito criança travessa que, sem atinar, aponta o absurdo da existência. Era por isso que ele podia colher uvas no pé de cana até chegar o homem das laranjas. Por isso, ele, só ele, foi comido vivo em banquete por Odete, Judite e Maria Helena. Por isso que em seu braço a formiga bebia água e de sua merda uma tarde voaram borboletas. Porque só o poeta que reflete a lucidez primitiva do desconexo sabe que na vitrine a manequim tem fome.

Tua amada, cadê?, as estrelas lhe indagam na solidão das madrugadas. Ela não veio, responde magoado, e vira a cachaça. Agora, debilitado e maltrapilho, defende-se como pode de velhas assombrações, os eletrochoques, aquela virgem ingrata que lhe negou um nheco-nheco, a surra da multidão em Salvador por lhe confundirem com um bandido… Agora, veja só, lhe proíbem de recitar seus versos onde antes era aplaudido, como se atrevem? E esses moleques idiotas, que lhe acordam com pedradas, acham que é mendigo, não sabem que saiu no jornal, que o mulherio gama só de olhar? A mãe, tadinha, morrera, ela que cuidava de lhe dar os remédios que sossegavam os burburinhos, e que agora já não parem poemas. Dizem que virou espectro vagante, que é melhor ir para a casa de repouso, que morreu mês passado, ah, não entendem porra nenhuma. Aquele bar ali, outro dia lhe negaram um resto de pão que sobrou na mesa, vão tomar no cu. Felizmente, as ruas sabem quem ele é. E pode lavar a calça no banheiro do teatro. E embaixo da passarela ainda lhe deixam dormir. E descansar a carcaça. E sonhar seu sonho louco de liberdade radical…

Ele se foi numa tarde sem vento, com os fogos do ano-novo a ignorar sua partida. Como não tinha documento, não podiam liberar o corpo para o velório na biblioteca. Mas ele é o poeta Mário Gomes, os amigos tiveram de explicar. Era a sua credencial, de mais não carecia para adentrar a posteridade. Lá no alto, a lua grávida dele não quis falar. Por detrás do Universo, Jesus tomou uma com Satanás. E mais além, na Praça do Ferreira, um viralata rodou, rodou e mijou um minuto de silêncio.

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Ricardo Kelmer 2015 – blogdokelmer.com

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À memória de Mário Ferreira Gomes (Fortaleza, 23.07.1947 – Fortaleza, 31.12.2014)

Foto preto e branco da montagem: Érika Fonseca. Obrigado a todos que conheceram o poeta e registraram sua vida por meio de relatos, fotos e vídeos. Obrigado a Érika Menezes, por me comunicar da morte de Mário.

REPRODUZIRAM ESTA CRÔNICA:

Blog do Eliomar – Blog do jornalista Eliomar de Lima, jan2015

Roberto Maciel – Blog do jornalista Roberto Maciel, jan2015

Jornal O Estado – Caderno Arte & Diversão, jan2015

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VÍDEO-CRÔNICA
MÁRIO GOMES, O POETA VIRALATA

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MÁRIO GOMES EM IMAGENS

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MarioGomesPoeta-15Mário recita seus poemas (por volta de 2000)

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MarioGomesPoeta,VilmaMatos2002-01Mário Gomes entrevistado na praça por Vilma Matos (2002)

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MarioGomesPoeta-18O poeta em seu nobre ofício na Praça do Ferreira

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MarioGomesPoeta-06O poeta na praça, já bem debilitado

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MarioGomesPoeta-07Com o livro de Márcio Catunda, Mário Gomes, poeta, santo e maldito

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MarioGomesPoeta-01Foto de Mika Holanda, vencedora de concurso da revista National Geographic, feita em set2014, cem dias antes de sua morte

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MarioGomesMuralNoVelorio-01Mural com fotos de Mário em seu velório

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MarioGomesPoeta-14Os muros da cidade celebram Mário Gomes (Praia de Iracema)

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MarioGomesPoetaLivros-01Ensaio biográfico de Márcio Catunda e cordel sobre Mário Gomes, de Rouxinol do Rinaré

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CRÔNICA

AoMestreVagabundoComCarinho-01a.

AO MESTRE VAGABUNDO, COM CARINHO
Ricardo Kelmer, 2015

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Nos anos 1980, em Fortaleza, corriam histórias divertidas sobre um tal Mário Gomes e sua poesia mirabolante. Elas me alcançaram na faculdade ou em alguma mesa de bar. Eu não sabia se eram reais e nem se Mário existia de fato ou era um personagem da imaginação popular. Ou seja, ele para mim era uma lenda, como certamente o era para muitas pessoas.

Provavelmente, cheguei a vê-lo em algum evento cultural ou em algum bar, ou nas Rodas de Poesia e Percussão, no Dragão do Mar, mas talvez não tenha associado sua imagem ao seu nome, ou talvez eu estivesse muito bêbado. Tirando o tempo em que trabalhei como contínuo, em 1982-84, e ia quase todo dia ao centro, nunca fui muito assíduo da Praça do Ferreira, mas talvez o tenha visto lá alguma vez. Será que ele chegou a ir ao Badauê, um bar que eu tinha na Praia de Iracema em 1988-89?

Deixei Fortaleza em 2004. Anos depois, numa visita à cidade, surpreendi-me de saber que era ele aquela figura comovente que passeava no Dragão do Mar, bêbado e maltrapilho, discursando sozinho, e nos anos seguintes voltei a vê-lo por lá, deslizando solitário pelas noites, às vezes acompanhado da jornalista Ethel de Paula. Em 2013-14, acompanhei à distância a piora de seu estado, mas sabia que pouco podia ser feito, por sua recusa em deixar as ruas e tratar da saúde.

Naquela tarde de 31 de dezembro, eu estava em casa, em São Paulo, quando fui avisado de sua morte por minha amiga Érika Menezes. Eu sabia que dias antes ele fora encontrado desmaiado no Dragão, e que enfim o convenceram a ir para o hospital. Senti uma súbita tristeza e chorei. Tomei uma dose de uísque e homenageei o poeta, gargarejando um verso seu: Como era gostoso esse Mário Gomes! E fui buscar na internet o poema inteiro, para recitar. Putz… Bastaram poucos minutos de pesquisa para descobrir o imensamente quanto eu não sabia quem era Mário Gomes. Fiquei envergonhado da minha ignorância e ali mesmo comecei a catar tudo sobre ele, entrevistas, relatos de quem o via nas ruas, vídeos, a biografia de Marcio Catunda… Quanto mais descobria, mais me fascinavam sua história e sua arte. Perdi o ânimo para a festa do réveillon ‒ a vontade era de estar em Fortaleza e ajudar nas preparações para o velório.

Descobri um grandioso personagem, a perfeita encarnação do arquétipo do louco malandro, presente em tantas culturas do mundo. Ao ser avesso a regras e limites e recusar-se a trabalhar, Mário personificou o vagabundo que todos, no fundo, temos vontade de ser. Flanar livre por aí pelas ruas, fazendo poesia e vivendo incríveis aventuras, aceitando o que lhe dessem como ajuda e sem importunar ninguém, era essa a sua bela filosofia. Desconfio que um dia sua vida virará filme, uma comédia dramática burlesca, e estreará no Cine São Luís, na Praça do Ferreira. Nada mais justo.

Durante sete dias, me alimentei de Mário, quase não saí de casa, e, ao fim, vomitei a crônica Mário Gomes, o Poeta Viralata. Era o mínimo que eu tinha a fazer por sua memória, mas sei que meu texto não apagará minha sensação de débito com o poeta, por conhecê-lo somente após já ter ido embora. Quanto aos seus problemas mentais, talvez eles não lhe permitissem ter a exata consciência de sua condição, dos riscos de viver assim, da morte iminente na próxima esquina. Ou o contrário, talvez Mário soubesse mais que todos, quem pode ter certeza? Quem pode julgá-lo? E quem está livre de morrer na próxima esquina?

Não tenho a mesma coragem que Mário, mas busco todos os dias priorizar a minha liberdade e viver para a minha arte. Não durmo nas ruas, mas conheço a grande incerteza do tempo para quem decidiu ser escritor na vida. Mário Gomes se foi, e seu exemplo agora me fortalece em minha própria loucura. Obrigado, mestre vagabundo.

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MarioGomesPoeta2014-01a.

ANDARILHO
Ricardo Kelmer, 2015

Eu sempre fui andarilho
Mas é assim que prefiro
Viver desse vento que eu sou
Tanto tempo que deixei a trilha
Que hoje nem a minha mochila
Sabe mais para onde vou

Todo dia quando acordo
Sopro no ar a minha sorte
E ganho tudo que preciso ter
O que não preciso, que o vento leve
Porque nunca se perde
Quem não tem o que perder

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O poema Andarilho integra a trilogia que fiz em homenagem a Mário Gomes, com as crônicas Mário Gomes, o poeta viralata e Ao mestre vagabundo, com carinho. O poema foi inspirado numa fala de Mário, durante a gravação da matéria Poeta de Rua, da TV O Povo, de Fortaleza, em 2009. Tomei a liberdade de transcrever a fala em formato de poema e dei-lhe o título de Mora. Fiz isso para destacar o quanto Mário Gomes vivia a poesia, naturalmente, em sua vida cotidiana, mesmo tendo, nos últimos anos, deixado de escrever e publicar. Quando comparo os dois poemas, o dele se revela tão autêntico e o meu me soa tão artificial… Talvez por que Mário era poesia em estado bruto.

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MORA
Mário Gomes

Eu sempre fui andarilho
Eu sempre andei do jeito que eu sou
Eu nunca mudei minha personalidade
Esse negócio de dizer que eu moro na rua é papo furado
Se por acaso eu tô por aí, com muito sono, embriagado
O que é que tem eu dormir?
Eu moro na rua por quê?
Eu moro na rua onde?
A gente mora dentro de si, rapaz
A gente mora dentro da cuca da gente
Eu moro em qualquer canto onde eu chegar
O que é morar?
Agora eu que te pergunto: o que quer dizer morar?
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VEJA O VÍDEO

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MarioGomesPoeta-05aFoto de Raymundo Netto

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POEMAS DE MÁRIO GOMES

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SOU UM CACHORRO VIRA-LATA

Sou um cachorro vira-lata
Não tenho residência fixa
Não tenho responsabilidades
Não tenho dono.
Mas, também, não me falta sexo
Porque conheço lindas cadelas
De tipos diversos.
Onde chego procuro alimentos
Fumo na hora em que me é propício
Um cigarrinho com filtro ou sem.
Sou um cachorro fiel e valente
(Só na aparência)
Pois, sou um cachorro vira-lata.

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ANTROPOFAGISMO

Eu, sem ser antropófago,
já saboreei muita gente por aí.
Minhas preferências são os esbeltos
violônicos corpos femininos: a mulher.
Ah! Se a humanidade fosse toda antropófoga
como eu teria o prazer de ser devorado
em um banquete ou bacanal de lindas garotas
sexys, histéricas, eróticas
e eu, em cima de uma mesa qualquer totalmente nu.
Assado ou cozido.
Recheado de cebolas, tomates e farofas.
Enquanto Odete espetava um dos meus esverdeados olhos
que outrora foram profanos,
Judite arrancava minha língua e mastigava furiosamente.
Depois Maria Helena
pegava uma faquinha de mesa e cortava
delicadamente meu pênis ereto e dizia entre-dentes:
– Como é gostoso esse Mário Gomes.

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UMA VIOLENTA ORGIA UNIVERSAL

Olhei o sol.
Me irritei
E larguei a mão na cara dele.
No qual ele ficou
Desacordado por 12 horas ininterruptas.
Dei um ponta-pé nos ovos da terra.
Afastei São Jorge
E mantive relações sexuais com a lua.
Pisoteei o cadáver de satanás
Numa esquina encontrei-me com Deus
E saímos abraçados: rindo e cantando…. Chovia

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METAMORFOSE

Ontem,
Ao meio-dia,
Comi um prato de lagartas
Passei a tarde defecando borboletas.

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AÇÃO GIGANTESCA

Beijei a boca da noite
E engoli milhões de estrelas.
Fiquei iluminado.
Bebi toda a água do oceano.
Devorei as florestas.
A Humanidade ajoelhou-se aos meus pés,
Pensando que era a hora do Juízo Final.
Apertei, com as mãos, a terra,
Derretendo-a.
As aves em sua totalidade,
Voaram para o Além.
Os animais caíram do abismo espacial.
Dei uma gargalhada cínica
E fui descansar na primeira nuvem
Que passava naquele dia
Em que o sol me olhava assustadoramente.
Fui dormir o sono da eternidade.
E me acordei mil anos depois,
Por detrás do Universo.

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A LOUCA E O MANEQUIM

A menina louca, maltrapilha e suja,
Parou em frente à vitrine da Casa Parente,
E estática olhava para um manequim feminino.
Olhou… olhou… pensou… pensou…
Dado momento perguntou:
“ta com fome, égua?”
Esta pergunta causou-me
Certa impressão, o poeta,
Que também já conversou com os manequins.
Eu dissera: “se fosse realmente mulher
Como és de gesso,
Te daria um prato de comida.”
Será que essa louca é
A personificação da poesia?

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QUANDO EU MORRER

Quando eu morrer
Irão distribuir minhas camisas,
Minhas calças, minhas meias, meus sapatos.
As cuecas jogarão fora.
Ninguém usa cueca de defunto.
Irão vasculhar minha gaveta.
Vão encontrar muita poesia,
Documentos e documentários.
Só sei dizer
Que foi gostoso viver.
Sentir o amor e proteção de minha mãe.
De conhecer meus irmãos, meus amigos.
De ver de perto as mulheres.
Só posso deixar escrito:
“obrigado vida”.

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LIVROS PUBLICADOS

Lamentos do Ego (1981)

Aprendizes da Morte (1982, com Márcio Catunda e Cristiane Marinho)

Emoção Poética (1983)

Resquícios de uma Paisagem da Vida (1988)

Devaneios das Lamentações (1991, com Márcio Catunda)

Terno de Poesia (1997, com Alcides Pinto)

Uma Violenta Orgia Universal (1999, antologia poética)

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MarioGomesPoeta2010-01Mário Gomes na Casa Juvenal Galeno (Semana da Poesia, 2010)

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SAIBA MAIS

Mário Gomes Poeta – Blog em homenagem ao poeta, com poemas, depoimentos, vídeos e reprodução do livro Mário Gomes, poeta, santo e maldito, de Marcio Catunda

Entrevista com Mário Gomes – Vilma Matos entrevista o poeta para a publicação Cá Estamos Nós (2002)

Tributo ao Mário Gomes: Comendo lagartas e defecando Borboletas – Crônica de Raymundo Netto (2009)

A vida dentro dos sapatos – Artigo da jornalista Ethel de Paula, que tem Mário Gomes como tema de sua dissertação de mestrado (2014)

Procura-se Mário Gomes – Crônica de Raymundo Netto, escrita na noite da morte do poeta

Ricardo Guilherme fala de Mário Gomes – Belo e digno texto escrito pelo ator e amigo do poeta (2015)

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MarioGomesPoeta,AuribertoCavalcante-01Mário Gomes na praça, com o amigo Auriberto Cavalcante (2013)

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VÍDEOS

Poeta de rua – Programa Viva Fortaleza, da TV O Povo, entrevista Mário Gomes (2009)

Mário Gomes, o poeta da Praça do Ferreira – Bela homenagem ao poeta, com depoimentos. Direção de Zebaptista (2014)

Que Mário – Vídeo da Cia Pã de Teatro, com imagens de Mário Gomes na Praça do Ferreira

Repórter encontra Mário Gomes de madrugada – Matéria do programa sensacionalista Cidade 190 (2013)

Mário na Praça do Ferreira – Admirador encontra Mário Gomes e compra um cordel sobre sua vida (2013)

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LEIA NESTE BLOG

 

OSonhoDoVerdadeiroEu-01O sonho do verdadeiro eu – Entretanto, algo me dizia que na pauliceia eu poderia viver minha vida mais verdadeira, era só insistir

O mundo real da arte – O momento em que a magia do teatro se revela paradoxalmente em toda sua plenitude, expondo tanto sua maquiagem quanto seu avesso

O último blues de Lily – A lua nascendo no mar e os blues na voz de uma Lily que se rebola e se rebela e não ouve ninguém chamar

A celebração da putchéuris (Intocáveis Putz Band) – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

Pelas coxias de Guaramiranga – Entre uma peça e outra sempre dá tempo de cruzar uns olhares, nativos e forasteiros, e exercitar o roteiro das abordagens

Crimes de paixão – Detetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite

É o amor – E os outros zezés e lucianos por aí?

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Comentarios01COMENTÁRIOS

 

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01- Que triste. Ana Andréa Gadelha Danzicourt, Tubarão-SC – jan2015

02- Linda homenagem meu querido Ricardo Kelmer. Juliana Melo, Fortaleza-CE – jan2015

03- Muito legal…a eloquência da loucura… Adil Chaves, Fortaleza-CE – jan2015

04- Erika Menezes Obrigada, Ricardo Kelmer, por ter deixado eu ler seu texto. Bj.

05- Vou levar..Gracias.. Claudia Bahia, Fortaleza-CE – jan2015

06- Kelmer, você fala a língua dos homens. Parabéns! André Marinho, Fortaleza-CE – jan2015

07- Que texto massa Ricardo!! Cristiane Bastos, Fortaleza-CE – jan2015

08- Fizeste uma homenagem linda, me emocionei. Ana Andréa Gadelha Danzicourt, Tubarão-SC – jan2015

09- Genial! Thayssa Gabriela, Fortaleza-CE – jan2015

10- Só mesmo poetas pra entender e falar sobre poetas. Parabéns pelo texto Ricardo Kelmer, posso compartilhar? Márcia Rodrigues, Fortaleza-CE – jan2015

11- Excelente texto ,Ricardo. Fraterno abraço. Dunga Odakam, Fortaleza-CE – jan2015

12- Seus textos agarram a gente pelos olhos e nos puxa pela sonoridade das palavras bem ditas! Tenho gostado. Bjs. Ana Maria Costa Lima, Fortaleza-CE – jan2015

13- Nesse pré carnaval eu quero musicar um samba em homenagem ao bêbado e o vagabundo. Quem se habilita em escrever uma letra? O título já foi dado pelo Ricardo. André Marinho, Fortaleza-CE – jan2015

14- Perfeito. Willa Lima, Fortaleza-CE – jan2015

15- ei, tio! tá foda, a crônica! me arrepiei todo como o final. e a impressão que dá é que a crônica nasce Ricardo Kelmer e vai morrendo Mario Gomes. parabéns!! Levy Mota, Fortaleza-CE – jan2015

16- Oi Ricardo. Adorei a crônica. Eu o vi, várias vezes, pelo centro. Nem desconfiava que era o Poeta Mario Gomes até que soube de sua morte pelo jornal e a foto que ilustrava. O mundo ficou um pouco menos louco e, consequentemente, mais chato. Abraços. Fabiano Brilhante, Fortaleza-CE – jan2015

17- tá é lindo, esse texto/essa homenagem. Shirlene Holanda, São Paulo-SP – jan2015

18- É de arrepiar!! Linda homenagem… Izadora Castelo, Fortaleza-CE – jan2015

19- Acho que vou trocar essa dissertação pelos textos do Kelmer e do Ricardo Guilherme – e não quero troco rsrs Ai, ai, como é gostoso mesmo esse Mário Gomes devorando a gente ao avesso!!! rs. Ethel de Paula, Fortaleza-CE – jan2015

20- Lindíssimo!!!!! Emocionante!!!!! Envolvente!!!!! Zeina Costa, Vitória-ES – jan2015

21- O encontro dos poetas …… João Moreira, Fortaleza-CE – jan2015

22- Sempre que ia ao Dragão o observava e respeitava seu espaço…interessante era que ele não pedia nada. Ando por lá desde que foi inaugurado, mas de 2006 pra cá foi que soube que ele era poeta, desde então sempre que o via ia logo dizendo: ” óh ú poeta!” Nem sempre ele falava, mas sempre ele sorria… Tiago Bandeira, Fortaleza-CE – jan2015

23- Ei, eu tinha lido no Eliomar. 🙂 Me deu saudades! beijo. Verônica Guedes, Fortaleza-CE – jan2015

24- Cara, q texto lindo! Bela forma de homenagear o poeta. Que a sua poesia seja eterna! Mariela Mei, Campinas-SP – jan2015

25- massa kelmer! bela homenagem ao mais rico dos poetas de fustaleza! um dia chegamos lá… Marcos Maia, São Paulo-SP – jan2015

26- Que lindo Ricardo! Grande homenagem a um grande poeta. Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – jan2015

27- Lindo coMtexto! Sugiro que juntem todas as homenagens feitas à ele em versos, poemas e divagações e organizem em um livro. .. será delicioso bebê-las e devorá-las. Gratidão! Abçs. Maria Castro, Fortaleza-CE – jan2015

28- Muito bem elaborado. Parabéns, Ricardo! Rejane Porto Cult, Fortaleza-CE – jan2015

29- Muito bom! Alexandre Domene Ortiz, Fortaleza-CE – jan2015

30- chorei. parabens pelo texto. de uma delicadeza incrivel. Dimitri Bitu de Araújo, Fortaleza-CE – jan2015

31- Sempre com sensibilidade pra escrever sobre outras sensibilidades Ricardo Kelmer. Belissimo texto. Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – jan2015

32- Mt bom! Belíssimo e emocionante texto! A morte do poeta me comoveu bastante. Eu que também escrevo meus versos, de tão comovido escrevi também um poema em homenagem ao grande Mario Gomes. João Batista Júnior, Fortaleza-CE – jan2015

33- Adorei! Regina Zamora, São Paulo-SP – jan2015

34- Parabéns, Ricardo, bela homenagem! Antonio Martins, Maceió-AL – jan2015

35- Nobre homenagem Ricardo Kelmer! Parabéns pelo texto. Gizelle Gi, Fortaleza-CE – jan2015

36- legal, kelmer… um brinde ao poeta!…. abração! Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – jan2015

37- Boa. Olhai Christiane Glasner. Ruth Hernández Boscán, no se si comprenderas, pero dos de tus pasiones en una persona: poesia y psique. Jose Paulo Araujo, Caracas-Venezuela – jan2015

38- Quando as latas tinham poesia. Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – jan2015

39- Fantástica homenagem do meu amigo Ricardo Kelmer ao poeta Mário Gomes, que todos víamos pelo Dragão do Mar, embarcado em sua loucura, sempre elegantemente maltrapilho, chamava a atenção. Fica a letra, rastro no mundo e na história da cidade. Ronald de Paula, Fortaleza-CE – jan2015

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MarioGomesOPoetaViraLata-03a

 

Bom ver você assim, entusiasmado. Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos que você….

 

 


A grana do lanche

05/11/2014

05nov2014

A jovem advogada Dinorah descobriu que gosta de fazer sexo por dinheiro, e agora vive um dilema: afinal, ela é ou não é uma puta?

Este é um dos contos do livro recém-lançado Indecências para o Fim de Tarde (Editora Escrituras, selo Arte Paubrasil). Ele será publicado nesta postagem em 10 capítulos até 30.11.14. Os leitores que comentarem durante esse período concorrem ao sorteio de 1 livro impresso + 1 livro em PDF com dedicatória personalizada. Mesmo que você não goste de algo na história, para mim será muito útil acompanhar suas impressões durante a leitura.

AGranaDoLanche-06a

A GRANA DO LANCHE

cap. 1

DINORAH É UMA MOÇA BONITA, mas nada que chame demais a atenção. Tem vinte e cinco anos, faz o tipo mignon, pele clara, cabelo loiro ondulado na altura dos ombros, olhos castanhos, enfim, é uma dessas garotas que você vê aos montes nas tardes dos shoppings. Vive na capital, classe média alta, mora com os pais, não trabalha, abandonou Administração e agora cursa Direito numa faculdade particular. Desde a primeira vez, aos dezesseis anos, transou com onze caras, e também com a Pati, que depois se tornou a melhor amiga. E namorou um cara por quatro anos. O namoro terminou e é nesse ponto que encontramos Dinorah, solteira, numa mesa do café do shopping, olhando para uma nota de cem reais. E dizendo baixinho para si mesma: Eu não sou puta, eu não sou puta…

Esta é a nossa menina. Permita-me chamá-la assim, nossa menina, porque acho que combina com seu jeitinho quase infantil, e porque tenho a impressão que você também vai gostar dela. Mas por que Dinorah está repetindo para si mesma que não é puta? Porque horas antes ela conheceu um cara ali mesmo no café e… Bem, é melhor contar do começo.

Às sextas, após a última aula da tarde, Dinorah costumava passar no shopping que fica pertinho da faculdade para tomar um capuccino. Numa dessas sextas, ela viu um cara numa mesa próxima, tipo quarentão charmoso, de camisa social, gravata, paletó pendurado no encosto da cadeira, a pasta do tipo executivo ao lado no chão. E ela? Vestidinho estampado, sandalinha, mochila, cabelo preso. Os dois sozinhos. Ela achou o cara interessante, e ficou atiçadíssima quando ele ergueu a xícara de café, olhando para ela, e sorriu. E ela sorriu também. Logo depois ele estava em sua mesa e ela já sabia que o quarentão se chamava Carlos, morava em outra cidade, era executivo de uma empresa e uma vez por mês ia à capital a trabalho, era separado e não tinha filhos. Pelo menos foi isso que ele dissera.

Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa e ela disse que não bebia, o que era verdade. Enquanto ele pedia outro café, Dinorah sentiu que uma ideia instigante nascia em sua mente… Não, talvez não fosse na mente. Ideias podiam nascer entre as coxas? Se podiam, aquela definitivamente nascera lá. Aquele cara era um desconhecido, não era tão bonito mas era interessante, parecia ser confiável e estava abertamente a fim dela, e ainda morava em outra cidade… Transar com um desconhecido. Por que não?, pensou nossa menina, e agora a ideia tomava conta de seu corpo inteiro, feito uma onda de calor gostoso.

É, por que não, ela continuava pensando, e a ideia se tornara uma sensação que ficava cada vez mais excitante. Sexo sem compromisso, um cara mais velho, depois tchau, cada um segue sua vida, isso combinava com a sexta, sexta era um dia bom para experimentar coisas novas. Sim, decidiu Dinorah. Daria para ele, sim, bastava ele querer. Mas não gostou do nome, Carlos era sem graça. Executivo era mais sexy.

Do que você gosta, Executivo, posso te chamar de Executivo?, ela perguntou, disposta a mudar logo o papo para rumos menos formais. E ele respondeu que podia, e emendou, meio sério, meio insinuante: Gosto de garotas da sua idade. Dinorah sorriu, surpresa, uau, ele não perde tempo. Melhor assim, ela não estava mesmo a fim de muito papo. Posso te chamar de Loirinha?, ele quis saber. Pode, respondeu ela, gostando daquele joguinho. Do que você gosta, Loirinha? Ela decidiu que era hora de passar o ponto de não retorno: Gosto de caras que gostam de garotas da minha idade.

Quando a garçonete trouxe a conta, ela quis pagar sua parte, mas ele, delicadamente, perguntou se ela ficaria chateada se ele pagasse tudo. Se fosse uma situação normal, Dinorah ficaria, sim, ela acha que mulher tem que dividir a conta, principalmente ela que ganha uma boa mesada dos pais. Mas aquela não era uma situação normal, e ele pagar tudo combinava com a situação, um executivo bancar uma noite de prazer para uma jovem estudante safadinha. Não, Executivo, não vou ficar chateada, muito pelo contrário…

Menos de uma hora depois, Dinorah estava no motel com Executivo. Um desconhecido, um cara mais velho, experiente, isso era muito interessante e ela sentia-se bem safada. Executivo tinha um pau grande, mas ele a fodeu com cuidado para não machucar. Superexcitado, ele lambeu e chupou todas as partes de seu corpo, comeu-a em várias posições e gozou com ela montada nele, e ele sempre chamando-a de loirinha gostosa, loirinha safada…

No fim, após pagar a conta, Executivo perguntou-lhe se tinha gostado e ela respondeu que sim, e estava sendo 99% sincera, pois, embora sem orgasmos, ela tivera muito prazer. O 1% restante era porque ela achava que poderia ter se soltado um pouco mais. Ele deu-lhe seu cartão e disse que dentro de um mês estaria de volta.

Já no táxi, ele se ofereceu para deixá-la em casa, mas ela disse que preferia voltar para o shopping pois queria fazer um lanche. Seguiram pelas ruas em silêncio. Dinorah sabia que não o procuraria novamente, já havia realizado seu desejo safadinho, mas sentia-se bem e não via a hora de contar tudo para a amiga Pati, com quem adorava dividir suas confidências mais sórdidas. Quando o táxi parou em frente ao shopping e ela se preparava para abrir a porta do carro, Executivo pôs em sua mão, discretamente, uma nota de cem reais. Ela olhou para a nota, sem entender. É pro lanche, ele explicou, sorrindo calmamente, aceite, Loirinha, por favor. Confusa, ela pôs a nota dentro da mochila e desceu.

Numa mesa do café, Dinorah agora observava a nota de cem em suas mãos. Ainda podia sentir o pau do Executivo dentro dela, sua buceta latejando… Era para estar feliz, afinal a transa fora boa, o cara a tratara bem… Mas e aquela nota de cem? Por acaso ele achava que ela era uma puta? E, se achava, então valia cem pilas? Aquilo era muito ou pouco?

Pediu outro capuccino, mas bebeu sem vontade. Decidiu ir para casa, não se sentia muito bem. Entrou na sala e seus pais assistiam a um programa religioso na tevê. Beijou a mãe, beijou o pai e sentou-se com eles no sofá. Tudo bem, filha?, perguntou o pai. Ela respondeu que sim, só estava um pouco cansada. Tem lasanha no micro-ondas, avisou a mãe. Ela respondeu que estava sem fome e foi para o quarto. Sentada na cama, sentia-se um tanto angustiada. É pro lanche, Executivo dissera. Mas um lanche não custava tudo aquilo. Na verdade, com cem reais ela poderia jantar num ótimo restaurante, vinho incluído. Assim sendo, era óbvio que não dera o dinheiro para lanche nenhum. Ele havia lhe pago pelo sexo, era óbvio.

Eu não sou uma puta, falou para si mesma mais uma vez, e dessa vez amassava forte na mão a nota de cem. Que merda, como os homens podiam ser tão insensíveis? Levantou da cama e foi ao banheiro, controlando-se para não chorar. Por que ele tinha que estragar tudo? Fez um bolinho com a nota e jogou no vaso sanitário. Eu não sou uma puta. Ao contato com a água, a nota abriu-se e ficou boiando, como se olhasse para ela, duvidando do que ela dizia. Eu não sou uma puta e nem preciso dessa grana escrota, murmurou, a voz abafada pelo som da descarga.

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NOS DIAS QUE SE SEGUIRAM, Dinorah ruminou sobre o assunto. Não estava arrependida, mas… havia a questão dos cem reais. Será que ele realmente achava que ela era puta? O que teria pensado, que naquela sexta, em vez de faturar, a puta decidira transar com um cara qualquer sem cobrar, e que coincidiu de ser ele? Mas, se fosse isso, por que ainda assim lhe dera dinheiro? Que merda, Dinorah não se conformava. Será que uma mulher não tinha o direito de trepar com um desconhecido sem ser confundida com uma puta?

No espelho do armário, nossa menina observou-se dezenas de vezes, virando de lado, fazendo poses. Será que tinha jeito de puta? Não, não podia ser isso, ela era uma garota normal, vestia-se como suas amigas e não exagerava na maquiagem. E, além do mais, tinha ódio dessas meninas muito fáceis, e sempre fora convictamente monogâmica em todos os seus relacionamentos.

Contou tudo para Pati. Desencana, respondeu a amiga, você não é puta, e o cara quis apenas ser gentil. Mas Dinorah não desencanou. Pesquisou sites de prostituição, olhou as fotos das garotas de programa, viu que a maioria cobrava mais que cem reais. Como Executivo podia achar que ela era uma daquelas mulheres?

Na última sexta do mês ela terminou o almoço no restaurante da faculdade e decidiu não ir às aulas da tarde, estava ansiosa demais, não conseguiria se concentrar. Botou os livros na mochila e foi para o café no shopping. Sentou-se em sua mesa predileta, pediu um capuccino e esperou. Meia hora ela esperou. Uma hora. Quase duas horas depois Executivo chegou, vestido do mesmo jeito, o paletó aberto, a pasta de executivo, e logo que entrou, percebeu sua presença. Posso sentar?, ele perguntou, simpático. Parecia contente em revê-la. Ela não conseguiu sorrir. Mas fez que sim com a cabeça e ele sentou.

– Cara, vou ser bem direta e quero que você seja sincero, tá? Por que você me deu aquela grana? Você acha que eu sou puta?

Ensaiara cuidadosamente aquelas exatas palavras durante as duas horas em que esperou por ele. Mas não falou nada disso. Porque simplesmente era uma questão que não tinha mais importância. Bem, na verdade ainda tinha importância, sim, mas de um outro modo… Saíra mais cedo da faculdade para garantir que o encontraria, e queria reencontrá-lo para tirar a limpo a história dos cem reais, sim, mas… algo nela havia mudado durante aquelas duas horas. Uma ideia estranha sobrevoava seus pensamentos, tão estranha que não ousava admiti-la… Mas de uma coisa ela sabia: queria transar novamente com aquele cara.

Uma hora depois, no motel, sob o peso do corpo dele, Dinorah gemia de prazer. Não era exatamente tesão pelo Executivo que sentia, e não era apenas tesão por estar sendo fodida por um quase desconhecido às cinco da tarde num motel, enquanto suas colegas assistiam aula de Direito Processual. Sim, tudo isso era excitante, porém enquanto ele metia firme em sua buceta e segurava suas pernas escancaradas na posição do frango assado, e ela assistia a tudo pelo espelho do teto, nossa menina fechou os olhos e imaginou os dois voltando para o shopping… Imaginou o táxi parando, os dois no banco de trás e… E o quê? A imagem seguinte parou um segundo antes de surgir em seu pensamento, esperando sua autorização. O táxi chegando no shopping, parando e… e…

Sem esperar mais pela autorização, a imagem que faltava invadiu de vez seu pensamento. O táxi para no shopping, Executivo abre a carteira, tira uma nota de cem e entrega a ela. Enquanto a imagem congelava em sua mente, ela recebendo o dinheiro no táxi, e na cama Executivo metia fundo em sua buceta, Dinorah gozou, de um jeito que nunca havia gozado antes, tão intenso que parecia que não ia acabar mais. E quando enfim acabou, na verdade não havia acabado: ela o abraçou com as pernas, puxando-o forte contra seu corpo e exigindo que ele continuasse a meter, e gozou novamente, outra vez intenso, uma coisa louca.

Pouco tempo depois, o táxi parou no shopping. Executivo deu-lhe um beijo no rosto e disse que no mês seguinte estaria no mesmo lugar novamente. Ela apenas sorriu. E aguardou quieta, sentada ao lado dele, as pernas juntas, mochila ao colo. Como nada aconteceu, ela aproximou a boca de seu ouvido e perguntou baixinho: Você não tá esquecendo nada? Ele pensou por alguns segundos, até que finalmente compreendeu. Então abriu a carteira, tirou uma nota de cem e deu para ela. Dinorah guardou-a na mochila, disse obrigado, abriu a porta e saiu. Instantes depois, no café, tomou o capuccino mais gostoso de quantos já tomara em toda sua vida.

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NA SEMANA SEGUINTE, Dinorah marcou com Pati num barzinho, queria contar sobre seu segundo encontro com Executivo. Ela adorava sair com a amiga, apesar de Pati, morena do tipo gostosona como era, sempre atrair todos os olhares disponíveis do ambiente. Na noite em que se conheceram, numa festinha quatro anos antes, Pati beijava um cara e convidou Dinorah a se juntar a eles. Dinorah riu, pensando que aquela garota devia ser muito louca. Mas pensou por que não e aceitou. O beijo ficou triplo e eles terminaram na cama. No dia seguinte, já eram amigas.

Nossa menina chegou ao barzinho e viu a amiga bebendo no balcão com um homem. Ao ver Dinorah, Pati deixou-o lá sozinho e foi abraçá-la.

– Você vai dispensar aquele gato? – Dinorah perguntou.

– Dei pra ele ano passado. Deixa o gato ficar com mais vontade.

– Pati sempre arrasando os corações…

Sentaram-se numa mesa, e Dinorah contou o que acontecera na sexta anterior.

– Você cobrou pra transar, sua danadinha! – Pati comentou, surpresa.

– Eu não, só queria a grana do lanche. E nem precisava tanto.

– Mas você falou pra ele que era pro lanche?

– Não.

– Humm. Então agora ele vai achar que você cobrou pelo sexo.

– Talvez eu tenha cobrado mesmo.

‒ Talvez ou cobrou? Decida-se, Dinorah.

‒ Antes eu estava realmente superencucada, mas admito que, na verdade, eu estava achando excitante a ideia de ser paga pra transar. Nessa segunda vez, isso ficou claro pra mim.

– O nome disso não é prostituição, amiga?

– Ou será um fetiche?

– Você acaba de inventar o fetiche remunerado.

– Você também sai com os caras, Pati, eles te levam no carro deles, te pagam barzinho, restaurante, motel… É a mesma coisa, não? No meu caso, foi uma grana pro lanche.

– Tá bom, você venceu. Mas você por acaso gastou a grana com lanche?

– Não. Mas podemos gastar agora. Vamos pedir o quê?

– Ai, amiga, você não existe!
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NÃO POSSO SER UMA PUTA, pensava Dinorah, sentada diante de seu guarda-roupa, porque puta nenhuma no mundo teria um guarda-roupa tão comportado. Porém, ser paga para transar, ah, isso tinha que admitir: era uma delícia. Nem o preço importava, o dinheiro em si não era importante, ela não precisava dele. Importante era ser paga. Lembrou da segunda transa, de como foi bom, do quanto se excitou imaginando que logo depois seria paga… Será que as putas também sentiam aquele mesmo tipo de excitação gostosa, aquele frenesi de saber que o homem à sua frente dispõe-se a gastar uma grana para estar dentro dela?

Decidiu dar um passo adiante em seu fetiche. Quando, no fim do mês, reencontrou Executivo no shopping e foram novamente para o motel, dessa vez ela fez diferente. Tirou a roupa, ficou inteiramente nua e pediu que ele se encostasse na bancada, o que ele fez. Ela ajoelhou-se no chão, abriu sua calça, pôs o pau para fora e o acariciou, vendo-o crescer rapidamente em suas mãos até ficar imenso e inteiramente rijo. Passou a língua devagar por toda sua extensão, beijou-o delicadamente na ponta e, um instante antes de começar a chupá-lo, parou de repente. Ergueu o rosto e olhou para ele. E falou, calmamente: Hoje eu quero adiantado.

Surpreso, Executivo abriu os olhos. Durante alguns segundos os dois se olharam em silêncio, o pau dele, duro e latejante, a um centímetro da boca de nossa menina, feito uma lança paralisada em pleno voo. Executivo sorriu e disse que aquilo não era problema. Ainda encostado na bancada, pegou a carteira, tirou uma nota de cem reais e entregou a ela. Dinorah pôs a nota sobre a cama e voltou à sua posição de joelhos. Segurou Executivo pelas coxas e começou a chupá-lo, fazendo exatamente como num vídeo erótico que vira aquela semana, engolindo o máximo que podia até senti-lo na garganta, até engasgar-se e lágrimas descerem por seu rosto, e depois voltando lentamente até a ponta da cabeça, sem deixar em nenhum momento de envolvê-lo totalmente com os lábios, sem usar as mãos, e repetindo o movimento cada vez mais rápido.

Pouco depois, ela percebeu que as pernas do Executivo tremiam e ele se apoiava na bancada com os braços. Ela o escutou gemer mais forte e logo depois sentiu o jato de sêmen em sua boca, um gosto de doce e salgado, morno, quase quente, que ela saboreou e engoliu. Depois afastou a boca e dirigiu o resto do jato para seu rosto, e com a outra mão espalhou o líquido pelas duas faces, pela boca, pelo pescoço, pelos peitos. Enquanto Executivo dobrava-se para trás, Dinorah, ainda ajoelhada e toda lambuzada de sêmen, olhava para a nota de cem sobre a cama e maravilhava-se de ser a mulher mais suja e feliz do mundo.

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DIAS DEPOIS DO TERCEIRO ENCONTRO com Executivo, Dinorah conheceu Bruno num bar, e o interesse foi mútuo. Ela, porém, não queria namorar, estava adorando a vida de solteira, e não cogitava interromper os encontros com Executivo. Mas Bruno insistiu, e uma noite transaram no apartamento dele. No dia seguinte, ela disse que não queria namorar, mas que topava ficar com ele, e assim foram ficando, ficando, até que um dia ela percebeu que estavam se relacionando como namorados. E decidiu deixar a coisa como estava.

Pouco mais velho que ela, Bruno administrava os postos de gasolina do pai, era rico e morava numa cobertura. Com ele o sexo até que era bom, mas… sempre faltava um algo mais. Ou ela é quem andava muito exigente? Sim, talvez fosse isso. As transas com Executivo haviam despertado seu lado selvagem, e com Bruno ela não se sentia sexualmente completa.

Uma noite, durante um fim de semana que passavam na serra, ela percebeu que havia putas na pracinha próximo ao hotel. A visão das garotas se oferecendo aos homens a fez sentir-se especialmente tarada naquela noite. Foram para o quarto do hotel e ela pediu que ele entrasse depois, exatamente cinco minutos depois. Bruno topou a brincadeira e quando entrou, ela estava nua, de quatro sobre o sofá, e o chamava: Quero que você me coma aqui. Bruno perguntou se ela não gostaria de tomar um banho antes. Não ‒ foi sua resposta, enfática. Pouco depois, enquanto Bruno satisfazia sua vontade, ela, gemendo alto de prazer, pediu que ele a chamasse de puta. Ele não chamou, e ela insistiu e insistiu, até que ele obedeceu. Mas o puta dele foi tão sem ênfase que ela não aguentou:

– Me chama de puta, porra, de puta safada! Vai, me chama, porque é isso que eu sou mesmo, uma putinha vagabunda! Eu sou muito putaaaaaaa!!!

E foi assim que ela gozou, o namorado comendo-a de quatro no sofá e ela berrando que era puta, para desespero dele, preocupado com o escândalo. E, apesar de Bruno nunca participar do texto exatamente como ela queria, assim passaram a ser seus melhores gozos, ele metendo nela de quatro e ela gritando que era puta, muito, muito puta.
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OS ENCONTROS COM EXECUTIVO se sucediam, sempre na última sexta do mês, quando ele ia à capital. Encontravam-se no café do shopping e seguiam para o motel. Quase não se falavam, não era necessário. Dinorah não queria saber sobre a vida dele e ele não tinha interesse pela vida dela – tudo que queriam era sexo. Os cem reais do lanche, Executivo pagava adiantado, logo que chegavam ao motel. A nota, Dinorah fazia questão de deixá-la à vista, e adorava ser fodida olhando para ela.

Era uma puta? Ou tudo aquilo era apenas uma fantasia? Ela ainda se perguntava isso. E ainda não sabia a resposta. Sempre escutara que o motivo das mulheres virarem putas era a falta de perspectivas ou os problemas familiares. Ela não tinha nenhum problema sério, levava uma vida confortável, tivera educação religiosa e mantinha uma ótima relação com seus pais. Não tinha motivo para querer ser uma puta. Bem, na verdade tinha um, sim: o fetiche de ser paga. Será que alguma outra mulher já havia virado puta pelo mesmo motivo?

Pelo sim, pelo não, nossa menina decidiu dar uma renovada no guarda-roupa. Comprou roupas novas, uns vestidos mais justos, umas calcinhas mais safadas. E comprou um vestidinho branco colante que jamais pensou que teria coragem de usar. Usou-o a primeira vez com Executivo. Enquanto o aguardava no café, sentiu que os homens a devoravam com o olhar. Era a primeira vez que era olhada daquela forma tão explícita. E era um delícia. Executivo adorou o vestido e pediu que ela o vestisse sempre, e sem calcinha, no que foi atendido. Não tem sempre razão, o cliente?

Executivo nunca lhe perguntou se ela de fato usava o dinheiro para lanchar. Ele apenas pagava e pronto, e Dinorah apenas recebia e transava que nem uma puta, ou pelo menos como achava que uma puta transava, com muita vontade. Passou a ler bastante sobre prostituição, devorando tudo que encontrava sobre práticas sexuais e preferências masculinas. Via vídeos na internet e depois praticava com, digamos assim, seu cliente.

– Cliente? É assim que você tá chamando o cara? – perguntou Pati, rindo da amiga. – Então você já assumiu a putice.

– Existe puta de um homem só?

– Se não existia, agora existe.

– Se ele me vê assim, pra mim tanto faz.

– Então deixe de ser besta e cobre mais, amiga.

– Ah, Pati, não é pela grana, é pelo prazer.

– Prazer tem esse cara. Conseguiu uma putinha bonita, classuda, futura advogada, que dá pra ele por cem pilas. Mixaria. Eu cobraria mais, na boa.

– Mas você é gostosona, Pati, tem peitão, bundão. Eu sou normal.

– Mas fode bem, não fode? É disso que os caras gostam.

Sim, fodia bem. Executivo que o dissesse. A cada vez Dinorah se soltava mais e vivia mais verdadeiramente seu fetiche de ser puta. Não importa se você tem prazer, aconselhava uma prostituta num livro de memórias, faça-os crer que tem e eles adorarão isso, e você terá real prazer por vê-los tão felizes. Interessante, pensou ela, matutando sobre esse trecho. Com Executivo, ela não precisava fingir, pois realmente sentia prazer. E sentia prazer não apenas físico, mas também em descobrir que aquela experiência lhe permitia explorar intensamente sua sexualidade, sem qualquer tipo de culpa, e isso era maravilhoso. Passou a adorar que ele gozasse em sua boca: ela engolia tudo e queria mais, sinceramente sedenta do jorro de sêmen. Aprendeu também a fazer anal, a receber o pau dele inteiro em seu cu, e se no início doía, depois passou a gostar e um dia foi assim que gozou, sentada sobre Executivo, o pau dele totalmente enterrado em seu cu, e ela subindo e descendo feito uma louca descabelada, transtornada pela sensação de estar sendo absolutamente preenchida por trás… e ainda ser paga por isso. Ah, era muita felicidade.

E o namoro com Bruno? Ia do mesmo jeito. Fora da cama se entendiam muito bem, saíam, bebiam e iam a festas, mas no sexo ela continuava um tanto insatisfeita. Sim, tinha prazer com ele, e ele com ela, mas com Bruno não conseguia ser a puta que sentia ser. Sexo anal, por exemplo, ele se recusava a fazer, dizia que era nojento, e ela não se conformava com isso.

Uma noite, enquanto viam um documentário sobre prostitutas na TV, Dinorah comentou que elas eram muito corajosas por trabalhar na rua de madrugada. E Bruno respondeu que elas não eram corajosas, eram doentes. Ela argumentou, dizendo que aquele era o trabalho delas, mas ele disse que era um trabalho de gente doente, e que quem pagava também era doente. Aquilo atingiu nossa menina em algum ponto sensível, era como se Bruno estivesse falando dela, e ela não era doente. Depois desse dia, Dinorah achou mais prudente não tocar no assunto. E deixou de gritar que era puta quando ele a comia de quatro. Uma pena, pois era o prazer mais gostoso que tinha com ele.
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UM DIA DINORAH RECEBEU a notícia que menos esperava. Após a transa, ainda no motel, Executivo lhe disse que um novo gerente assumiria seu lugar na empresa e que, por isso, ele não iria mais à capital. Aquela, portanto, era a última vez que se viam. Dinorah escutou em silêncio, sem conseguir acreditar. Ficou arrasada. Quando chegaram de volta ao shopping e ele lhe estendeu a nota de cem, ela olhou para ele com desdém e disse: É por conta da casa. E saiu.

Foi como se de repente lhe puxassem o chão de seus pés. De uma hora para outra ela perdia sua fantasia. Fantasia? Não, era mais que isso, e só agora ela se dava conta do quanto realmente precisava daquilo em sua vida. Ser puta não era só fantasia, era uma parte de sua vida que não podia mais ignorar. Foram treze meses lindos, treze encontros com Executivo onde aprendeu mais sobre sexo que em todas as suas experiências anteriores. Se dependesse dela, aqueles encontros nunca teriam fim.

E agora?, ela se perguntava, inconformada. Agora tinha apenas seu namorado, que não percebia o que ela era. Dinorah virou-se na cama, sem sono, e conferiu no relógio as três horas da madrugada. Puta. E pela milésima vez pensou no significado daquela palavra.

Dias e dias de tristeza, noites e noites mal dormidas. Dinorah não se conformava em ter sido abandonada. Até que um dia, quando já não suportava mais, entrou em contato com Executivo e perguntou se poderia visitá-lo em sua cidade uma vez por mês. Ela iria por conta própria, ele não precisaria se preocupar com nada. Mas Executivo disse que não seria possível.

– Por favor, você é meu único… cliente – ela completou a frase, e não se surpreendeu com o que dizia.

– Você vai conseguir outros, Loirinha, você é ótima.

– Você acha caro? Posso fazer por cinquenta.

– Obrigado, mas…

– Faço por dez reais, você quer?

– Loirinha, por favor…

– Um real.

Silêncio. Dinorah esperava ansiosa pela resposta. Acabara de pedir um real para transar. A puta mais barata do mundo.

– Você vai me cobrar um real? Tá falando sério?

– Sim.

– Como você pode cobrar um real por um programa?

– E como você pode não querer?

– Eu realmente não entendo.

– Não tente entender. Apenas aceite, por favor…

Novo silêncio. Dinorah sabia que havia ido longe demais. Mas era sua última cartada.

– Desculpa, Loirinha, não vai dar.

É, não deu. Executivo realmente não estava mais a fim. Ele, porém, disse que falaria com o gerente substituto, talvez se interessasse. Você promete?, perguntou nossa menina, um brilho de esperança acendendo-se em seus olhos. Ele prometeu.

Os dias seguintes foram de uma terrível expectativa. Ficou difícil prestar atenção às aulas. Passou a se irritar com qualquer coisa que Bruno dizia, e o sexo com ele, que já não era essas coisas todas, foi rareando até que ela perdeu de vez a vontade. Preocupado, ele perguntou o que estava acontecendo e ela desconversou, dizendo que estava concentrada nas provas da faculdade. Até mesmo a mãe percebeu algo errado, e para ela Dinorah disse que o problema era o namoro, que não ia bem. Para Pati, porém, contou a verdade, e a amiga sugeriu que fosse franca com Bruno e revelasse sua tara secreta.

– Ele me larga na mesma hora – Dinorah respondeu.

– Você arruma outro rapidinho, sua boba.

– Que homem iria aceitar isso, Pati?

– É. Só um cafetão mesmo.

– Cafetão eu não quero.

‒ Qual é o problema? Se alguém te arruma cliente, é justo que ganhe comissão.

– Eu sei que é justo. Mas não quero mais gente envolvida, entende?

‒ Então reza pro novo gerente gostar de você.

Um mês depois, o celular de Dinorah tocou. Era o novo gerente. Ele estava na capital e queria conhecê-la. No dia seguinte, uma sexta, ela pôs o vestidinho branco, sem sutiã e sem calcinha, e foi encontrá-lo no bar do hotel onde ele se hospedava. Chamava-se Jaques, era mais novo que Executivo e era um cara muito bonito. Ele disse que seu colega havia falado bem dela e que estava interessado.

– Ele te falou como é o meu esquema?

– Sim, Loirinha. Cem reais adiantados, né?

– Isso mesmo.

– Fechado. Vamos subir pro meu quarto?

– Você decide, Chefinho. Posso te chamar assim, você tem jeito de Chefinho.

E assim foi. Naquela noite, no décimo quinto andar do hotel, Dinorah foi novamente puta, agora com um novo cliente. Ele pagou adiantado, ela pôs o dinheiro sobre a mesinha ao lado e falou: Agora deixa tua putinha te chupar, Chefinho. E abriu a calça dele, recebendo em sua boca o pau do novo cliente, e nessa noite ela entendeu que os clientes de uma puta eram diferentes, uns mais cuidadosos, outros mais rudes. Aquele era do tipo rude. Não tinha o pau grande como o de Executivo, mas era um tanto indelicado, o que não a impediu em nada de sentir-se feliz, afinal estava novamente fazendo o que adorava fazer, estava outra vez transando por dinheiro. E dessa vez havia algo de muito especial: era a primeira vez do cliente, e era preciso fidelizar a clientela. Quer comer meu cu, Chefinho, é oferta especial da casa, ela perguntou, manhosa. E Chefinho quis, sim, e a pôs de quatro e a enrabou com violência, puxando seu cabelo, e Dinorah, mesmo sentindo-se rasgada por dentro, deleitou-se ao observar-se no espelho ao lado, parecia uma cadela devassa, e bem à sua frente, sobre a cama, os cem reais do lanche, mais belos que nunca.
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A VIDA VOLTOU AO NORMAL para Dinorah. As aulas voltaram a ser o que eram, a irritação com Bruno sumiu e até o sexo com ele ficou mais interessante. Bem, não tão interessante como com Chefinho, é verdade, que, diferente de Executivo, ia à capital duas vezes por mês. E sempre que ia, procurava Dinorah. E ela não recusava, o que a obrigou a ter o dobro de cuidado para que Bruno não desconfiasse.

Um dia, Chefinho disse que queria sexo a três, e perguntou se ela por acaso não tinha uma colega. A ideia não a agradou muito, mas não podia perder o novo cliente. Ela disse que falaria com uma amiga. A amiga era Pati, claro, a única que poderia topar aquela parada e, além disso, elas já haviam transado a três uma vez, não seria nenhuma novidade. Pati trabalhava como operadora de telemarketing para poder pagar a faculdade de Turismo e uma graninha extra certamente seria muito bem vinda. Além disso, era inteligente e descolada, saberia lidar bem com a situação.

– Ai, amiga, não sei se eu levo jeito pra puta.

– Ah, nem vem, eu sei que você gosta de uma boa putaria. E ele é lindo, você daria pra ele de graça.

– É rico?

– Acho que sim.

– Quanto a gente cobraria?

– Semana que vem ele volta. A gente marca um encontro e você negocia, que tal? Você é melhor que eu nisso.

Na semana seguinte, elas se encontraram com Chefinho no bar do hotel. Pati foi vestida com uma minissaia bem curta e um decote tão generoso que a cada dez segundos magnetizava o olhar abobalhado do Chefinho. Ele gostou dela, que se apresentou como Morena, e ofereceu duzentos.

– Pra cada uma, Chefinho? – perguntou Pati, à frente das negociações.

– Não, pras duas.

– Então nada feito.

Dinorah tremeu. Tudo que não podia acontecer era perder o cliente por ganância da amiga. Mas confiava nela.

– Quanto vocês querem?

– Quatrocentos é um preço justo.

– Tudo isso? Sua amiga cobra cem.

– Meu lanche é mais caro, Chefinho.

Dinorah suava. Conhecia bem Pati e sabia de sua personalidade forte e determinada. Determinada até demais. Talvez não houvesse sido uma boa ideia…

– Pago trezentos, Morena.

– Trezentos é o meu preço. Pague mais cem e terá duas meninas lindas e fogosas em sua cama.

– Você é tão competente quanto sua amiga?

– Se você não gostar, te devolvo a grana.

Dinorah aguardou nervosamente a resposta do homem. À frente dele, os peitos de Pati se ofereciam feito dois melões numa bandeja, e Chefinho, coitado, até se esforçava por não olhá-los, mas seus olhos inapelavelmente escorregavam para dentro do decote da Morena e a muito custo é que conseguiam sair de lá. Chefinho afrouxou o nó da gravata, deu um gole no uísque e falou, enfim, que o negócio estava fechado. Enquanto ele pedia a conta ao garçom, Pati piscou um olho para Dinorah, que sorriu aliviada.

Pati precisou devolver o dinheiro? Longe disso. As duas deram muito prazer ao Chefinho, uma de cada vez, as duas juntas, os três misturados, o pau na buceta da Loirinha e a boca nos peitos da Morena, Morena chupando Loirinha e Chefinho enrabando Morena… Duas horas depois ele estava esgotado, mas totalmente satisfeito com o dinheiro investido.

Quinze dias depois, Chefinho voltou à capital e a dupla Loirinha e Morena novamente compensou cada real pago por elas. Dinorah e Pati, grandes amigas e agora grandes parceiras do ménage à trois. Para Pati, além do prazer da putaria, que ela realmente gostava, havia agora seiscentos reais todo mês ajudando bastante no orçamento. Para Dinorah, alívio: o cliente estava garantido. E ainda ajudava a amiga. Tudo sob controle.

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A VIDA, PORÉM, RESERVAVA surpresas desagradáveis para nossa menina. Uma noite, três meses depois do início da parceria sexual com Pati, ao chegar à cobertura de Bruno, ela percebeu de imediato que algo não estava bem. Bruno recusou o beijo e disse que queria conversar. Sentaram-se no sofá, mas ele logo levantou-se e perguntou:

‒ Há quanto tempo você faz programa?

Dinorah tomou um susto tão grande que ficou muda.

‒ Não vai responder? ‒ ele insistiu.

Ela pensou em fingir que não sabia do que ele falava, mas percebeu que não conseguiria. E respondeu a verdade, que começara pouco antes de conhecê-lo. Ela podia ver a sombra da decepção em seus olhos, ele estava arrasado. Perguntou-lhe como descobrira e ele disse que dias antes um amigo a havia visto num bar com Pati e um homem, e os seguiu até o motel. Por quê, Dinorah?, Bruno perguntou. E ela nada respondeu. Por quê, Dinorah? E dessa vez ela respondeu a única coisa possível: Porque eu gosto.

O clima era horrível. A vontade era de levantar e sair correndo, mas ela sabia que não podia fugir assim daquele momento. Bruno tinha direito a um mínimo de consideração de sua parte.

– Não vai dar pra continuar.

– Desculpa, Bruno. Eu não queria que terminasse assim.

– Por isso você sempre defendia as putas. Você é uma delas.

Dinorah fechou os olhos. Ouvir aquilo daquela forma era doloroso. Mas…

– Você é uma doente, Dinorah.

Era doloroso, sim, mas foi nesse momento, confrontada com a acusação que sofria, que ela finalmente compreendeu. Não, não era doente. Era uma puta. Não era a sua profissão, mas gostava de transar por dinheiro, e isso era o bastante, não? Sim. Tinha alma de puta. Fosse fetiche, fantasia ou realidade, era isso que ela era: uma puta. Era puta, sim. De corpo e alma.

– Eu não menti pra você, Bruno. Te falei várias vezes que eu sou puta.

– Falou? Quando?

– Quando a gente transava.

– Mas… na transa não vale.

– É nesse momento que uma mulher revela suas melhores verdades, você não sabia?

Bruno não respondeu. Tinha os olhos marejados e olhava para um ponto qualquer no espaço. Dinorah sentiu pena dele, mas sabia que nada mais havia a ser feito. Caminhou até a porta, abriu e, após dezoito meses de um namoro que nunca deveria ter começado, saiu para sempre da vida de Bruno.

Naquela noite não conseguiu dormir, seu ser inteiro era um turbilhão de pensamentos e sentimentos. Por um lado, estava triste por Bruno. Não o amava, mas gostava dele. Como poderia ter sido diferente? Não, não poderia, ele jamais aceitaria sua condição. Por outro lado, sentia-se aliviada, pois agora finalmente não tinha mais dúvidas: ela era puta, sim. Transar por dinheiro era delicioso e não machucava ninguém, o que havia de errado nisso? Por que não continuar? E já que namorado nenhum a aceitaria, ela seguiria solteira mesmo, pelo menos enquanto sentisse prazer em ser puta.

Quando amanheceu e a claridade do dia invadiu o quarto, ela estava em paz consigo mesma, não mais havia conflito em sua alma. Então levantou e encontrou os pais na sala tomando café. Sentou à mesa e eles logo comentaram sobre o estado de espírito da filha. Ela riu e contou que estava novamente solteira. A mãe comentou que ela estava mais bonita, e que o namoro não estava mesmo fazendo bem a ela, e o pai lembrou que em poucos dias ela receberia o diploma de advogada, bola para frente, minha filha. Página virada, vida nova, ela respondeu, sorridente.

Após o café, calçou os tênis e, enquanto os pais saíam para a missa das oito, seguiu para o parque. Era um belo domingo ensolarado, ela pensou, perfeito para recomeçar a vida. Do parque mesmo ligou para Pati, para contar as novidades. Falou que ainda estava triste por Bruno, mas que se sentia muito feliz por ter finalmente assumido o que ela, de fato, era. E preveniu a amiga:

– Ele sabe que você também tá no esquema, Pati. Melhor a gente tomar cuidado.

– Eu não tô mais, Dinorah.

– Como assim?

– Eu ia te contar num momento mais oportuno… mas acho melhor resolver isso agora.

Dinorah sentiu um calafrio. O tom de voz da amiga a assustava.

– Mas… você estava tão animada. O que aconteceu, Pati?

– Eu e Jaques estamos namorando.

Ficou em silêncio. Pati e Chefinho namorando? Escutara direito?

– Viajo na próxima semana, já tô com tudo pronto. Vou morar com ele.

Não. Pati só podia estar brincando.

– É sério, Dinorah. Você vai ter que arrumar outro cliente.

– Mas… Pati…

– Desculpa, Dinorah. Boa sorte.

Ela escutou o som da ligação encerrada. Sentada no banco do parque, tinha a impressão que estava sonhando, que em breve algo aconteceria e ela, puff, despertaria. Mas nada aconteceu. Cinco minutos antes sorria feliz para o mundo, e agora estava totalmente sem chão. O namorado descobrira que ela era puta e o único cliente que tinha a abandonara para ficar com sua melhor amiga. Sem cliente, sem amiga, sem namorado, sem nada. Aquilo era a realidade, brilhando tão forte quanto o sol sobre sua cabeça.
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AGranaDoLanche-06acap. 8

UM MÊS DEPOIS, RECUPERADA DO BAQUE, Dinorah começou a estudar as possibilidades. Tinha vinte e sete anos, era agora uma advogada formada e trabalhava num importante escritório. Dois anos antes começara a transar por dinheiro e descobrira nisso o grande prazer de sua vida. Embora tivesse plena consciência de todos os riscos envolvidos, não estava disposta a abrir mão do prazer. Precisava fazer algo para continuar tendo sexo pago.

Mas o quê, exatamente? Bater ponto em alguma rua? Não, isso estava fora de cogitação, pois temia por sua segurança e nem podia tornar públicas suas atividades. Os bares dos hotéis pareciam ser uma opção interessante, mas desistiu quando descobriu que teria que deixar uma gorda comissão com os gerentes. Tudo de que precisava era um único cliente, só isso.

Optou pelo Pai Tomás, um bar de sinuca que era frequentado também por mulheres que faziam programa. Lá certamente não encontraria conhecidos. Escolheu um vestido discreto, chegou no bar cedo e sentou-se num banco do balcão. Pediu um suco. Enquanto reparava no ambiente, percebeu que um cara acenava para ela da mesa de sinuca. Um segundo antes de sorrir de volta, reconheceu o cara: era um conhecido da faculdade. Que merda, pensou Dinorah, assustada. Desanimada, levantou e foi embora.

No dia seguinte, pesquisou mais lugares e encontrou um bar num bairro distante. Talvez lá não topasse com conhecidos. De fato, não topou, mas os homens que o frequentavam eram feios e grosseiros, jamais transaria com eles, nem por pouco nem por muito dinheiro.

Não lhe agradava ter que anunciar-se em sites de garotas de programa, mas pelo jeito não havia opção melhor. Então criou coragem e ligou para um número que conseguira num dos tais sites. Era o telefone de um tal Dinho, o cara que fizera as fotos das garotas. A ideia era fazer fotos bonitas e sensuais como aquelas, mas ela posaria de máscara para não ser reconhecida. Um dia depois ela foi ao estúdio conversar com o fotógrafo. Dinho tinha cinquenta anos, era um profissional experiente e lhe pareceu um cara confiável. Ela explicou que queria as fotos para fazer uma surpresa ao namorado, e marcaram a primeira sessão de fotos para a semana seguinte. Ela comprou algumas peças de lingerie, luvas e apetrechos. E as máscaras, claro.

No dia marcado, lá estava nossa menina, nervosa mas decidida. Dinho a tranquilizou, dizendo que ela era uma mulher linda, de sensualidade natural, que não ia ser difícil fazer boas fotos, e que podiam explorar seu jeitinho de menina, misturando ingenuidade e malícia, e ela adorou a ideia. Ele explicou que no estúdio ficariam apenas ele e sua assistente, que o ajudaria na iluminação e na troca de roupa. Combinaram que naquela primeira sessão ela fotografaria vestida e que, na segunda sessão, com ela mais relaxada, fariam as fotos de nu. Ele perguntou se ela aceitava uma taça de vinho para relaxar, mas ela recusou. E assim, durante as três horas seguintes, Dinorah experimentou várias poses, fez caras e bocas e trocou muitas vezes de roupa. Ao fim, Dinho elogiou-a e disse que ela se saíra muito bem.

Três dias depois, fizeram a segunda sessão, e dessa vez Dinorah aceitou a taça de vinho, pois estava mais nervosa. Foi uma sábia decisão. O vinho a ajudou a relaxar e ela posou com muita naturalidade para a lente de Dinho, seminua e totalmente nua, e enquanto os cliques se sucediam, ela lembrava das noites com Executivo e Chefinho, e aquilo tudo a deixou num tal estado de excitação que teve ímpetos de se masturbar ali mesmo, na frente de Dinho e de sua assistente. Quando a sessão terminou, ela continuou deitada sobre as almofadas por algum tempo, nua e relaxada, curtindo as boas possibilidades com que o futuro lhe acenava. Acho que temos fotos maravilhosas, Dinho falou, você fotografa muito bem. Dinorah agradeceu o elogio e a assistente lhe entregou sua roupa.

Dias depois, ela voltou ao estúdio e gostou bastante das fotos, todas feitas com muito bom gosto. As máscaras lhe escondiam bem a identidade, e seu corpo parecia mesmo o de uma adolescente. Mesmo nua e em poses provocantes, alguém diria que aquela garota era uma puta?

Pagou o restante do acertado e levantou-se para ir embora.

– Seu namorado é um cara de sorte – Dinho disse. – Ele vai ter uma bela surpresa.

Dinorah parou e pensou um pouco. Por que mentir para ele?

– Na verdade, não tenho namorado.

– As fotos são pra algum trabalho?

– Ahn… Não. Sim.

Dinho sorriu, e pelo sorriso, Dinorah desconfiou que ele já havia entendido tudo. Sentiu-se desmascarada.

– Fique tranquila, Dinorah, sou um profissional e já tô acostumado com esse tipo de trabalho. Se quiser alguma dica de site, posso sugerir alguns muito bons.

– Na verdade… – ela começou a responder, sem jeito. – Eu não sou exatamente o que você tá pensando, Dinho.

Ele a olhou curioso. Ela reparou que ele tinha olhos pretos muito bonitos, como não reparara antes? Aliás, não eram apenas os olhos, ele era realmente um cara bonito e charmoso, aqueles cabelos grisalhos, o porte elegante…

– O que você é, então?

De repente, ela sentiu uma imensa vontade de contar tudo para ele. Sim, mal o conhecia, mas talvez ele pudesse realmente ajudá-la, quem sabe?

– Tem um barzinho legal aqui perto, quer ir comigo? – ele perguntou.

Meia hora depois, na mesa do bar, Dinorah abriu o jogo sobre sua fantasia de transar por dinheiro. Contou sobre os programas com Executivo e Chefinho, o namoro frustrado com Bruno, o lance com Pati e também sobre seus planos de usar as fotos para conseguir um novo cliente. Dinho escutou tudo em silêncio. Ao fim, ela falou:

– Tá surpreso, né?

– Admito que sim.

– Você acha que eu sou uma puta?

Dinorah fez a pergunta e esperou nervosamente pela resposta. Não que ela fosse mudar o que pensava a respeito de si mesma, pois quanto a isso já não tinha dúvidas. Mas saber o que Dinho pensava tornara-se de repente algo muito importante.

– Não sei o que você é – ele respondeu, olhando sério em seus olhos. – Mas se é uma puta, então é a puta mais linda e verdadeira do mundo.

Ela ficou pasma. Não esperava por uma resposta como aquela. Ele tocou seu rosto com delicadeza, aproximou-se devagar, como se dando tempo para que ela recuasse, mas ela não recuou, e ele a beijou na boca. Suas línguas se envolveram num beijo quente enquanto as mãos buscaram com sofreguidão o corpo do outro. Dinorah estava gostando de tudo: o jeito dele de beijar, as mãos firmes em seu corpo, o cheiro… Séculos depois, quando suas bocas se separaram, ele falou, ofegante:

– Quero te comer, Dinorah. Agora.

Ela adorou ouvir aquilo. Já ia dizer eu também quando ele completou:

– Te pago adiantado, como você gosta.

Ela quase riu. Não seria nenhum sacrifício dar de graça para aquele cara, mas já que ele queria pagar, mil vezes melhor.

– Você me paga no motel.

– Pode ser em meu apartamento? Moro na rua de baixo.

– O cliente manda.

E foram. O apartamento era um quarto e sala com decoração simples e uma pequena sacada. Dinho pôs Lovage para tocar e a levou para o quarto. E lá transaram até a exaustão. Quando Dinorah acordou, já estava claro, e Dinho dormia ao seu lado na cama. Ela o observou por alguns instantes, admirando sua excitante beleza de homem vivido, as marcas no rosto… Para quem tinha cinquenta anos, ele estava bem, e até aquela barriguinha era um charme. E o pau, molinho como estava, nem lembrava o pau grosso e inquieto que horas antes metia gostoso nela, invadindo-a de todas as formas, com uma mistura de delicadeza e violência que ela adorou. Ela levantou-se, pegou a nota de cem no chão, vestiu-se e saiu em silêncio para que ele não acordasse. No elevador, viu-se no espelho e riu de sua cara de boba. Ah, não, Dinorah, ela pensou, você não está apaixonada, não está, entendeu?
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AGranaDoLanche-06acap. 9

ESTA SIM, ESTA NÃO, ESTA SIM, esta não, esta sim. A escolha das melhores fotos não foi difícil, havia várias muito boas, e logo Dinorah tinha as suas prediletas separadas num arquivo em seu computador. Faria ainda uma segunda triagem e depois escolheria os sites onde as publicaria. Sua intenção era atrair homens de outras cidades, seria menos arriscado. Mas faria isso no dia seguinte, estava muito cansada, o dia fora cheio, com aula de manhã e à tarde, e no dia seguinte tinha que acordar cedo. E, além disso, havia dormido pouquíssimo na noite anterior.

A noite anterior… Ela desligou o computador e ficou lembrando da noite com Dinho, no apartamento dele. Fora uma transa incrível, maravilhosa mesmo. Ele a comera de um jeito que ela jamais havia sido comida antes, nem por Executivo, nem por Chefinho, nem por ninguém. Comera-a com vontade, com tesão, ao mesmo tempo com violência e com doçura, ao mesmo tempo o beijo alucinado e o pau entrando e saindo com delicadeza, como era possível aquilo? E metera nela olhando fundo em seus olhos, tão fundo que ela de repente se perdia no olhar dele e o quarto sumia, tudo sumia, e ela sentia-se uma coisa só junto dele, um único ser, que transava consigo mesmo… Que coisa louca.

Será que ele fazia isso com as outras garotas que fotografava? Será que havia gostado dela? Ele tinha um jeito especial de olhar, como se a visse como realmente era, e ela se sentia nua quando ele olhava assim, mais nua que quando esteve sem roupa diante dele no estúdio. Ou ele olhava assim para todas? Ele era atraente, inteligente, devia haver muita mulher atrás dele. Por que estava solteiro?

Dinorah virou-se na cama, sentindo-se docemente envolvida pelas lembranças da noite que teimava em não terminar. Será que ele ligaria, querendo outro programa? Ou era do tipo que não se envolvia com clientes? E se ela mesmo ligasse, com a desculpa de que queria fazer mais fotos? Parecia uma boa ideia, ela pensou, mas logo repensou: Caramba, e por que eu faria isso? Não. Não e não. Melhor esquecer o cara e se concentrar no que tinha a fazer. Se ele quisesse ser seu cliente, ótimo, e se ele foi um cliente de apenas um programa, ótimo também. E assim nossa menina adormeceu, com a questão resolvida.

Doce ilusão. A questão voltou à estaca zero dois dias depois: no escritório, durante o intervalo para o lanche, ela viu uma mensagem dele: Quero te ver de novo. Quem disse que conseguiu se concentrar depois disso? Enquanto tentava organizar o material de um cliente sobre sua mesa, os pensamentos e as dúvidas voltaram à sua mente. Até que não aguentou mais, saiu da sala e dirigiu-se ao banheiro, trancando-se num box.

– Oi, Dinho. É a Dinorah.

– Que bom que você ligou. Podemos marcar um horário?

Ele quer outro programa, pensou Dinorah, subitamente feliz.

– Claro. Pra quando?

– Pra hoje.

– Hoje?

‒ Sim, hoje.

‒ Bem, eu…

– Eu pago o dobro.

– Ahn… só um instante – ela falou, fingindo que estava em dúvida. ‒ Pode ser amanhã?

– Não. Eu pago o triplo, Dinorah. Não, o quádruplo. Mas tem que ser hoje.

Uau, ela pensou, desse jeito ele vai acabar me devolvendo tudo o que paguei pelas fotos…

– Deixa ver… Pode ser às dez? – ela perguntou, e achou aquilo superexcitante, fingir que consultava a agenda para ver se havia algum horário livre entre os programas do dia.

– Tá ótimo, te espero em meu apartamento. Você tem vestido preto?

Percebendo que alguém entrava no banheiro, respondeu baixinho:

‒ Tenho um que você não vai acreditar.

‒ Venha vestida nele, por favor.

Quando encerrou o expediente, foi direto para o shopping e comprou um vestido novo: preto, curtinho e de costas nuas. E às dez chegou no prédio do cliente. Nossa menina já tinha experiência, você sabe, mas ela nunca esteve tão nervosa como nessa noite. Enquanto o elevador subia, ela olhava-se no espelho e ajeitava o vestido, o cabelo, o brinco, o vestido de novo… E aquele batom vermelho, não estava um pouco demais? Percebendo o próprio nervosismo, ela terminou rindo de si mesmo: era a própria adolescente indo para o primeiro encontro.

Dinho a recebeu com um sorriso generoso, e disse que ela estava maravilhosa… Ela agradeceu e entrou. Ele ofereceu vinho, ela aceitou um pouquinho. Sentada no sofá da sala, sentiu voltarem as sensações da noite que passara com ele, o sexo gostoso, o cheiro bom do peito dele, aquele olhar intenso… Dinho chegou com o vinho, deu-lhe uma taça e brindaram. A esta noite, ele falou, e as taças tilintaram. E para Dinorah, aquele som foi como um sino a badalar a verdade que ela não queria admitir: estava apaixonada. Apaixonada por um cliente. Quanto amadorismo de sua parte…

Ela pediu que ele contasse um pouco sobre sua vida, estava curiosa por saber mais sobre aquele cara tão interessante. Ele contou que já fora casado, que tinha um filho da idade dela que morava com a mãe, que adorava seu trabalho de fotógrafo e que mais não falaria pois não conseguia se concentrar com uma mulher tão linda e especial pertinho dele. Dinorah riu, lisonjeada.

Dinho pôs a taça sobre a mesa, pegou a carteira, tirou quatrocentos reais e deu para ela. Dinorah pegou as quatro notas de cem, separou três e as devolveu a ele.

– Mas combinamos quatrocentos.

– Meu preço é cem – ela disse, sorrindo. – Guarde pras próximas vezes.

– Próximas vezes?

– Só se você não quiser.

– Eu quero muito mais que próximas vezes, Dinorah.

O que ele queria dizer com aquilo? Ela precisava saber.

– Muito mais como?

Ele respirou fundo antes de responder.

– Não consigo tirar você da cabeça desde o primeiro dia. Nunca conheci uma mulher tão incrível como você, acredite. Sei que isso não é a coisa mais sensata do mundo… eu não devia… mas… eu tô apaixonado, Dinorah.

Ela não acreditava no que ouvia. Pôs a taça sobre a mesa, ao lado da taça dele, e as duas tilintaram novamente. Aproximou-se, ficando colada ao corpo dele. E, com o rosto bem pertinho do dele, sussurrou:

– Eu é quem não devia. Mas também me apaixonei por você.

– Verdade?

Ela percebeu a felicidade nos olhos dele, e por um instante Dinho lhe pareceu um garotinho a ganhar o presente com o qual mais sonhava.

– Verdade. Mas não sei se isso é bom. Demorei pra aceitar o que eu sou, mas hoje eu não tenho nenhuma dúvida.

‒ O que você é?

‒ Eu sou uma puta, Dinho. Você pode achar que é apenas um fetiche, mas eu sei bem o que eu sou.

– Eu gosto de você do jeito que você é.

– Putas não devem se apaixonar por clientes, é a regra número um.

– Eu sei. Mas é fácil resolvermos isso.

– Como?

– Basta você ser minha namorada.

– Não entendi.

– Aceite namorar comigo e eu continuarei te pagando, como um cliente.

Dinorah riu, mas continuava sem entender. Aquilo não fazia sentido.

– Sei que você já cobra barato. Mas eu jamais terei grana suficiente pra te pagar o tanto que eu quero te comer. Então a gente namora e você me faz um bom desconto, o que acha?

Aquilo começava a fazer sentido.

– Você queria um cliente exclusivo, né? É isso que falta pro teu fetiche, tô certo?

Estava certo, sim, ela pensou, estava certíssimo.

– Seja minha namorada, Dinorah. E eu serei o cliente que você tanto procura.

Dinorah puxou-o para si e o beijou apaixonadamente. Sim, aquilo fazia todo o sentido do mundo.
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AGranaDoLanche-06acap.10

NOSSA HISTÓRIA AGORA DÁ UM SALTO no tempo, um ano na frente. Você acha que esse namoro deu certo? Acha possível dar certo um namoro onde ela é puta e ele é cliente? Bem, até agora tem dado certo sim, e muito certo. Ela cobra por cada transa, cobra mesmo, e se ele não tem o dinheiro na hora, ela anota numa cadernetinha. Dez reais por cada transa. Se for só um boquetinho básico, cobra a metade, e ela sempre engole, feliz. Anal? Claro que faz, afinal é uma de suas especialidades. Meter em seu cu custa o dobro, porém ela sempre dá o anal seguinte de brinde, não é nenhum sacrifício. Ménage à trois é cortesia da casa, mas ela tem que aprovar previamente a outra. Swing foi uma novidade, ela não esperava, mas topou conhecer e hoje é ela quem pede para ir. Apesar da inflação, ela não pensa em aumentar preços, pois a quantidade de transas compensa e, além do mais, ela faz questão de manter o cliente, por quem está cada vez mais apaixonada. Ele, então, nem se fala: passou até a evitar as massas e a correr no parque para melhorar a forma física, pois quer ser um cinquentão em forma para que sua putinha sinta orgulho do namorado-cliente.

E as fotos que fizeram? Ficaram lá no computador, sem usar, ela já está satisfeita com a clientela que possui. Mas as roupas que comprou para fazer as fotos, essas ela faz questão de usar com Dinho, todas elas, e dia desses ainda comprou mais, inclusive uma fantasia de aeromoça, que essa era uma antiga fantasia dele, transar com uma aeromoça ao som do tema de Aeroporto 77. Um dia a mãe dela desconfiou daquelas roupas tão estranhas no guarda-roupa da filha e Dinorah decidiu contar a verdade… mas pela metade: disse que tinha esse fetiche de se fantasiar, e que o namorado adorava. Se a desculpa funcionou bem, até hoje Dinorah não sabe.

Mês e meio atrás, o casal decidiu que seria melhor morar junto. Só com a grana do táxi que ela pegava para ir vê-lo já fariam uma boa economia. E ainda tinha o escritório em que ela trabalhava, que ficava perto. Os pais aprovaram a ideia com ressalvas, principalmente o pai que não gostava do fato de Dinho ter a mesma idade dele. Fizeram um jantar de despedida para a filha única que saía de casa e Dinho jantou com eles, o que não serviu muito para que simpatizassem mais com ele, pois em certo momento Dinho não conseguiu controlar o hábito que tinha de chamar a namorada pelo apelido carinhoso. Nada preocupante, claro, se o apelido carinhoso não fosse… Putinha. Dinorah tentou consertar, mas ela e Dinho tiveram uma crise de riso e o jantar terminou num clima meio surreal, uns sem entender muito e outros se controlando para não rir.

Semana passada o namoro completou um ano. A comemoração? Uma viagem para o Pantanal, onde ficaram sete maravilhosos dias. E quem pagou a viagem foi ela, só com o dinheiro que juntou em um ano de programas com seu cliente amado. E, para completar o pacote nupcial, não cobrou um centavo para transar com ele, foi tudo cortesia.

Bem, quase tudo. No último dia, após o café da manhã na pousada, enquanto arrumavam as mochilas para ir embora, bateu o tesão urgente-urgentíssimo e começaram a se agarrar no quarto. Quando já estavam nus, e ela de quatro sobre a cama, Dinorah perguntou se ele ficaria chateado se ela… bem, se ela cobrasse por aquela saideira.

‒ Ah, Dinho, esta semana foi tão maravilhosa… Seria a cereja do bolo, você não acha?

‒ Uma puta com lábia de advogada… ‒ ele respondeu, rindo.

‒ Ou o contrário.

‒ Só tem um problema. Já gastamos tudo, estamos zerados.

‒ Não tem nada aí na carteira?

‒ Só cartão.

‒ Ah, não…

Nesse momento, o funcionário da pousada bateu na porta para ajudá-los a levar as bagagens. Dinho enrolou-se na toalha, foi até ele e conversou baixinho alguma coisa. Depois fechou a porta e voltou.

‒ Resolvido.

‒ O que você fez?

‒ Pedi emprestado um real ‒ respondeu ele, sorrindo e jogando a moeda sobre a cama. ‒ Agora, de quatro, Putinha. Já.

Dinorah imediatamente obedeceu e, feliz, voltou a ficar de quatro sobre a cama, a bunda empinada. E, de olhos fechados, aguardou o instante seguinte, aquele mágico instante em que a vida parece suspensa e tudo que existe é a quase insuportável expectativa de que no segundo seguinte ela sentirá um pau duro invadindo sua buceta, e ao lado lhe sorrirá o seu suado, e gozado, dinheirinho.
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Ricardo Kelmer 2013  – blogdokelmer.com

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Ricardo Kelmer – contos eróticos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. > saiba mais

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- A grana do lanche ou a grana por ter sido o lanche?! (O que pensa o Executivo da Loirinha? Como a Loirinha se sente? Vai saber! ) Confusa a situação da Dinorah, mesmo que uma garota deseje agir como uma puta por um dia (falo das artimanhas e safadezas), muitas vezes ela não quer ser paga por isso, é como se valesse pouco, como se diz no popular: fica se sentindo uma merda. O pior ainda é quando a garota namora o cara mais velho e já fica todo mundo falando que é por causa do dinheiro e o cara ainda quer dá uma grana pra garota para “ajudá-la” nas despesas… Já passei por isso. Os caras precisam ter mais noção, saber com quem estão lhe dando e não sair ofendendo as garotas assim. Renata Kelly, Fortaleza-CE, nov2014

02- O conto é ótimo,adorei!Mas realmente a situação dela é dificil de entender..pode ser que o cara tenha sido apenas gentil,mas em nossa sociedade tem muitos dogmas e preconceitos em relação á liberdade sexual da mulher.Então,entendo a confusão que ele tá sentindo…complicado. Thaís Guida, Rio das Ostras-RJ – nov2014

03- Eu só tenho uma coisa a dizer: BICHA BURRA! Como q me joga uma nota de 100 pila fora assim? AHUAHEUAHEUAEHU muito bom! Elaine Evangelista, São Paulo-SP – nov2014

04- Ricardo meu mestre em putaria, me diga… Este livro estará disponível à compra no próximo sarau? Ozi Garofalo, São Paulo-SP – nov2014

05- Eu acho que ta super certa sim! Quantas vezes uma mina nao dá e depois o cara nem olha na cara, sequer lhe dá um café ou cigarrinho de “depois”??? Tem mais é q cobrar mesmo AHUEHAUEHEUEHUE. Elaine Evangelista, São Paulo-SP – nov2014

06- Uaaaaaaaau! Não tinha lido os capítulos 2 e 3… O negócio esquentou hein! A verdade é que toda garota gosta de ser respeitada, mas tem o seu lado santa e seu lado puta. O complicado é o cara saber qual lado explorar na hora da transa, mas não custa nada a garota sugerir o que quer, talvez custe para o cara “a grana do lanche”. rs! E como eu falei no comentário anterior, os caras devem ficar ligados para não saírem ofendendo quem não quer ser assim uma “puta”, ser paga, mas se a garota tá afim e se excita com isso que mal tem né. Renata Kelly, Fortaleza-CE, nov2014

07- Entendo o conflito que ela vive…mas não acho que ela seja puta,acho que é um fetiche dela. Thaís Guida, Rio das Ostras-RJ – nov2014

08- Terminei de ler os capitulos agora, enfim, minha conclusão: ela nao era prostituta nao. Tinha apenas o fetiche de ser tratada com uma. Se fosse de fato, teria dado pra qualquer um (como os caras xexelentos do boteco q ela foi), pois é isso que as puta de fato fazem … se importam apenas em serem pagas ^^ Bem bacana a historinha, acho que faz quem lê pensar bastante e refletir ^^ Parabens Kelmer. Elaine Evangelista, São Paulo-SP – nov2014

09- Sucesso com sua inocente Dinorah. Gilvanilde, Fortaleza-CE, abr2015

10- Ô cabra pra se garantir esse Kelmer. Rogers Tabosa, Fortaleza-CE, abr2015

11- Ricardo Kelmer melhor a cada leitura. Diego Claudino, Rio de Janeiro-RJ – mai2015

12- Valeu, Primo. A Dinorah está com tudo. Parabéns pela graça e verossimilhança da criatura. Abração. Leite Jr., Fortaleza-CE – mai2015.

AGranaDoLanche-06


Literalmente

23/10/2014

23out2014

Literalmente-03
LITERALMENTE

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De minuto em minuto, a vida se revela só para você, feito um texto que se lê sozinho. E o texto, de palavra em palavra se desvela, feito a vida que passa na tela do tempo. Cada segundo vivido é vida que encurta. Em cada palavra lida, o ponto final se prenuncia. Tem vida o texto que se lê: ele nasce, cresce e morre diante dos olhos, e o sentido de tudo o autor infelizmente não pode dar. O sentido é justamente a própria busca por ele, na sutileza do que não se leu, nas entrelinhas do que virá. A vida não se repete, mas o texto sempre dá uma nova chance, e você pode voltar e revivê-lo, até que o sentido que lhe fugia reluza ao olhar num repente.

Releu o que escrevera, achou que estava bom e postou. E foi tratar de viver. Literalmente.
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Ricardo Kelmer 2014 – blogdokelmer.com

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Prazer proibido – Essas mães e suas filhas…

Cem vezes mais – Deus é fiel, tá sabendo?

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01- Minicontos, muito bom. Tenho alguns também, gosto do estilo, combina com a atualidade. Antonio Martins, Maceió-AL – mar2015

02- Li e reli. Gostei! Rejane Porto Cult, Fortaleza-CE – mar2015

03- Adorei. Muito lindo Ricardo Kelemer. Vilma Galvão, Braga-Portugal – mar2015

04- Maravilha!!! Arlete Franco, São Paulo-SP – mar2015

05- Muito bom! Quando vem por aqui? Erika Lobo, Brasília-DF – mar2015

06- Vou ler…boa noite,Rica!bj e parabens sempre. Isabela Alcântara, Fortaleza-CE – mar2015

07- Amei!! Ana Andréa Gadelha Danzicourt, Tubarão-SC – mar2015

08- Vou ler !! Jane Arruda de Siqueira, São Paulo-SP – mar2015

09- Muito bom… adorei literalmente. Andrea Coelho, Lisboa-Portugal – mar2015

10- Belo texto! Cicío Bonneges, São Paulo-SP – mar2015

11- Cada dia melhor! Gisela Symanski, Porto Alegre-RS – mar2015

12- Muito bom! Emille Valença, Fortaleza-CE – mar2015

13- Pois sim…… Nada como uma boa leitura, e uma Vida no meio. Andrea Dal Castel, Rio de Janeiro-RJ – mar2015

14- Muito bem, Ricardo Kelmer! Parabéns, amigo, cujas palavras, nos levam a refletir sobre a vida e a morte — Eros/Thanatus. Abração, meu caro! Mônica Ananias, São Paulo-SP – jul2016

15- Texto lindo… Marilu Dias, São Paulo-SP – jul2016

16- Bravo! Clea Fragoso, Fortaleza-CE – out2019

17- É isso mesmo. E o texto não se repete, se reconfigura, se dá outro sentido. Feliz niver de novo, Barbixa Ricardo Kelmer querido do meu ♥️. Fabiana Z Azeredo, Fortaleza-CE – out2019 

18- Lindo Texto…Lindo Poeta😚❤👏👏👏👏 Irene Oliveira da Silva, São Paulo-SP – out2019

19- Eita! 👏👏👏 Sheyla Araujo, Fortaleza-CE – out2019 

20- Show! Marcondes Dourado, Fortaleza-CE – out2019 

21- Adorei! Fernanda Francisco Justino, Fortaleza-CE – out2019 

22- E por segundos vivi esse texto 🙂 Shirlene Holanda, São Paulo-SP – out2019

23- Cara , tu é muito show!!! Rsrsrs. Paz e luz!! Regia Alves, Fortaleza-CE – out2019

24- Nossa, vc escreve muito bem, parabéns! Fernanda Francisco Justino, São Caetano do Sul-SP – nov2019

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A pergunta

23/09/2014

23set2014

Um dia, porém, alguém desconfia. E entende que os que olham para fora, sonham, e os que olham para dentro, despertam. E aí a pergunta é inevitável

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A PERGUNTA

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Quando você estiver lendo esta crônica, eu talvez já esteja morto, meu corpo estirado no chão da sala e o vizinho desconfiando do mau cheiro. Ou talvez eu tenha sumido de repente, sem explicação, e neste exato instante estou sendo torturado numa sala sombria. Tudo é possível. Tudo pode acontecer agora que… descobri a verdade.

Ultimamente, eu vinha desconfiando. Porém, de um tempo para cá tudo ficou óbvio: a Inteligna existe. Parece papo de maluco, teorias da conspiração… Mas não é. A Inteligna existe sim. A Inteligência Maligna. E está cada vez mais poderosa. Ops! Acabo de escutar algo… Tem alguém aqui no apartamento… Eles chegaram! Nãããão! Aaaaaaahhhhhh!!!…

Eu exagerei, admito. Foi só um pouco de drama para chamar sua atenção. Mas a Inteligna existe. E sabe muita coisa. Sabe muito sobre você, por exemplo, pelas pistas que deixa por onde passa: seu cartão de crédito, o movimento da conta, navegação na internet, telefonemas… Sem falar nas câmeras de vigilância. Acha que exagero de novo, né? Ou que fumei daquele da lata. Eu entendo, é mesmo difícil conceber que somos monitorados por uma inteligência maquiavélica e invisível, que nos mantém sempre ocupados para que não façamos a pergunta.

Mas, que pergunta? Não posso dizer aqui… é perigoso. Mas posso dizer o motivo de não a fazermos: nós somos escravos. Escravos de uma realidade que nos cerca e cega o tempo todo com ideias e valores que fazem com que nos comportemos feito uma boiada. Numa boiada, todos seguem o movimento geral, ninguém se detém para pensar por que tem mesmo que seguir por aqui e não por ali. Se pensasse, perceberia coisas estranhas. Perceberia que, apesar da publicidade insistir no contrário, um celular novo não traz felicidade. Nem possuir o carro do ano. Nem ter vinte bolsas no armário, nem usar roupas de grife, nem frequentar o lugar da moda, nem ter o corpo igual ao daquela modelo.

Sutilmente, repetindo dia após dia, a Inteligna faz você se convencer que precisa de tudo isso para se autorrealizar. Então você compra isso e mais aquilo e se sente vivo, e brinda à sua felicidade, tim-tim! Mas aí o que você comprou saiu de moda. Aí lançam um modelo melhor e você ainda nem terminou de pagar o anterior. E aí você se endivida ainda mais. E não consegue alcançar a tal realização. Claro. A Inteligna não vende realização, vende ilusão. Se vendesse autorrealização, diria para você buscar onde ela sempre esteve: em você mesmo. Diria para você parar um pouco e deixar a boiada seguir sem você. Somente assim você se daria conta que não é apenas uma estatística de consumo, e se perceberia uma pessoa única. Então você diria oi para si mesmo e se faria a pergunta fatal.

O diabo é que isso nunca lhe ensinaram. Não se fala disso nos comerciais da novela, pois a Inteligna ocupa todos os espaços. Sim, uns livros falam disso, é verdade. Mas como encontrá-los?

Um dia, porém, alguém desconfia. E entende que os que olham para fora, sonham, e os que olham para dentro, despertam. E aí a pergunta é inevitável. A Inteligna sabe que os que fazem a pergunta automaticamente se desconectam da realidade criada por ela, feita de modismos, consumos, boiadas e ilusões. E o pior: esses que despertam acabam influenciando outros…

E qual é a pergunta que a Inteligna tanto teme? ‒ você já deve estar impaciente. Não posso dizer aqui, entenda. Melhor deixar a Inteligna na dúvida sobre se eu realmente sei ou não. Mas eu a escrevi neste texto, apenas está codificada. Se você já começou a virar o olhar para si mesmo, saberá encontrá-la.

Um boi que escapole da boiada é a verdadeira revolução. Porque o trabalho de trazê-lo de volta é maior que o de manter a boiada junta. Então seria melhor uma boiada inteira fugindo ‒ você pode concluir. Não. Porque ainda seria uma boiada. A única revolução possível é a individual. E começa com a pergunta que não querem que você faça.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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DICA DE LIVRO

MatrixEODespertarDoHeroiCapaEdicaoDoAutor-01Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem descontraída, Kelmer nos revela a estrutura mitológica do enredo do filme Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Myitoooooooooo fodaaa esse texto Primo!!!! A inteligna está em tudo ao nosso redor, nos mantendo dentro do pasto cercado com grades e arames e concreto. A única forma de escapar é por um caminho que inicialmente é escuro, cheio de dúvidas. . O Caminho para Dentro. Rafa Moreira, Fortaleza-CE – jan2015

02- bacana, Kelmer!!! Tô de olho….rs. Teo Lorent, São Paulo-SP – jan2015

03- Sensacional como sempre. Jayme Akstein, Sidney-Austrália- jan2015

04- #Dalata. Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – jan2015

05- Identificação total. Que texto foda! ! ! Grande Ricardo! Alexsander Lepletier, Rio de Janeiro-RJ – jan2015

06- Quando encontramos a pergunta ja sabemos a resposta. Muito bom, Ricardo! Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – jan2015

07- cara, eu te curto demais….vc escreve coisas que eu penso! Mayara Nirley, Aracaju-SE – fev2015

08- Muito bom e bastante reflexivo! Fiquei um tempão subindo e descendo… lendo nas entre-linhas… Jean Nascimento, Aracaju-SE – fev2015

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A tragédia de Neymar e o futuro que você merece

07/07/2014

07jul2014

 No futuro, há duas versões dessa história, ambas aguardando em silêncio o momento em que uma delas, apenas uma, acontecerá

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A TRAGÉDIA DE NEYMAR E O FUTURO QUE VOCÊ MERECE
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A trágica saída antecipada de Neymar da Copa do Mundo causou uma comoção nacional, e também no mundo inteiro. Os brasileiros sabiam que não tinham o melhor time, mas contavam com a genialidade do garoto craque para fazer a diferença. Agora, sem Neymar, o que acontecerá com a seleção anfitriã da Copa? No futuro, há duas versões dessa história, ambas aguardando em silêncio o momento em que uma delas, apenas uma, acontecerá. Qual delas?

Na versão com final triste para os brasileiros, a seleção não consegue superar seus problemas e é derrotada. Porém, ela é poupada das críticas, afinal a derrota é plenamente justificável, pois se o time não estava muito bem com Neymar, sem ele é que não melhoraria mesmo. A torcida, conformada, compreende.

Mas há a versão com final feliz. Nela, a tragédia de Neymar faz com que, de repente, a torcida se livre de qualquer tentação ao pessimismo, perdoe as deficiências do time e se concentre tão somente em incentivar sua seleção. Nesta versão do futuro, os jogadores não se acovardam ante à comodidade de uma compreensível derrota. A ausência de Neymar, feito a morte, tem o paradoxal poder de torná-lo ainda mais presente, e assim, com apoio total e o espírito do craque maior a inspirar seus companheiros, o time supera o trauma e o Brasil conquista o hexa. A seleção dedica o título ao seu jovem guerreiro abatido, e Neymar, de uma maneira que nunca desejaria, é o herói simbólico da sofrida e mitológica conquista.

No horizonte das possibilidades, as duas versões do futuro enigmaticamente nos aguardam. Se você torce pela versão com final feliz, faça agora um exercício de imaginação e ponha-se nesse futuro. Nele, lá está você, vibrando de felicidade pela gloriosa vitória. Mas, espere um pouco… Você está feliz, sim, mas em seu íntimo, você se pergunta se realmente, realmente mesmo, merece essa felicidade, pois você foi um dos que, após a perda de Neymar, acovardou-se e não acreditou que a história teria final feliz. Você não cumpriu com sua parte na construção do futuro. Ou não? Ou você foi um dos que acreditaram?

É assim o futuro, sempre aberto a uma ou outra versão. Mas podemos, ainda no presente, saber se realmente merecemos, ou não, a versão feliz.
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Ricardo Kelmer 2014 – blogdokelmer.com

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O PIOR DOS FUTUROS (RK, 09.07.14)

E o futuro aconteceu. E ele era tão improvável que foi impossível visualizá-lo no horizonte das possibilidades. O time brasileiro não apenas não conseguiu superar seus problemas: ele mostrou, claramente, que não estava preparado para vencer. A vida continua, mesmo após um 7×1, e jogadores e comissão técnica ainda podem conquistar muitas vitórias, mas a ferida jamais cicatrizará, e todos eles infelizmente terão que conviver até o último dos seus dias com essa mancha tenebrosa em seus currículos.

A torcida fez a parte dela, intensificando o apoio ao time mesmo com a perda de seu grande craque. A torcida sabia que seria muito difícil, mas não se acovardou. O time também não. A explicação exata sobre que aconteceu é algo que sempre será difícil de explicar. Falarão de esquema tático, preparação psicológica, ausência de Neymar e Tiago Silva… Seja o que for, tudo que resta agora à seleção brasileira é terminar a Copa de forma honrosa, conquistando o terceiro lugar. Quem acredita?

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Matrix2012Capa14x21aDestino e intuição – A intuição pode nos conectar não apenas com o passado, onde estão as causas do que agora vivemos, mas também com o futuro, onde viveremos a consequência de nossa decisão no tempo presente

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Mt bom o texto. Cintia Lisboa, São Paulo-SP – jul2014

02- Um baita dum texto diga-se de passagem” do glorioso Ricardo Kelmer. Vale pra Copa e também pro resto dos seus dias. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – jul2014

03- Boa Kelmer!!! Meu querido Kelmer, eu não lembro de nenhuma copa que o atimismo fosse total, Neymar é um craque diferenciado, porem eu acredito que são profissionais que ganham milhões pra estarem ali, com Neymar ou não eles vão ter que honrar sua profissão e buscar a vitória. Eu acredito que podemos ganhar sem Neymar, mesmo sabendo que é um atleta diferenciado. Paulo Ricardy Dos Santos, Campina Grande-PB – jul2014

04- verdade amigo!! bj Rita Austregesilo, Fortaleza-CE – jul2014

05- Não me acho covarde se não participei de todo o trajeto da Copa…o momento que me mobilizou mesmo foi o da covardia que fizeram com o Neymar..mas se ele não voltar eu sinto muito, mas outros jogadores terão a chance de ser mais valorizados, porque um time de futebol não é feito com um jogador, como a mídia e o Sr. Galvão Bueno quer nos fazer crer…Sempre foi assim , elegem um ídolo e a mídia o coloca no topo…os outros são mero coadjuvantes e não recebem também os louros da vitória nas Copas…Teve uma Copa que o Brasil ganhou a Copa sem Pelé e o povo gostou tanto que fizeram uma marchinha com o fato que no final dizia assim…E,e,e eh! E e e éh. Brasil ganhou a Copa sem Pelé e quem foi visualizado foi o Garrincha, que teve sua gde chance (minha mãe que contava isso). Abssssssss Vera Helena, Vitória-ES – jul2014

06- Achei tbém mto covarde a atitude do jogador da Colômbia, mas agora o Neymar virou ídolo mesmo….ele criou um mito, um mártir, um ídolo da Copa 2014. Vera Helena, Vitória-ES – jul2014

07- Adorei, Ricardo Kelmer, e, claro q ficarei com o final feliz, pois na hora q Neymar se machucou tive a sensaçao de uma quase morte dele…E é isso q acredito q vai acontecer com os jogadores. Eles mais do q nunca vao lutar com unhas e dentes por ele e pelo hexa, pois o brasileiro reage melhor quando está em desvantagem do q quando está ganhando… A nossa vitória seria a melhor resposta p darmos ao mundo, sobretudo, ao jogador da Colombia… Luciana Brasileiro de Holanda, Campina Grande-PB – jul2014

08- Meu nobre e querido Primo.. muita sabedoria e discernimento em suas palavras… Como sempre… Versões Kelméricas me inspiraram!!!!!!!!!!! TAMO JUNTO!!!!!!!!!!!!!! Rafa Moreira, Fortaleza-CE – jul2014

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ATragediaDeNeymar-01a

 


Indecências para o Fim de Tarde – Pré-venda

07/05/2014

07mai2014

Adquira antecipadamente com um bom desconto, tenha seu nome no livro e receba em casa

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INDECÊNCIAS PARA O FIM DE TARDE – PRÉ-VENDA

Tô lançando meu livro de contos eróticos Indecências para o Fim de Tarde. A versão impressa será lançada no segundo semestre (datas e locais a definir), mas como terei que bancar parte do investimento, inicio agora a pré-venda (até 30jun2014)

Os leitores que adquirirem o livro antecipadamente nesta pré-venda:
– Ganharão um bom desconto
– Seus nomes constarão na seção Galeria de Leitores Especiais do livro (opcional)
– Receberão o livro pelo correio (ou pessoalmente, no lançamento), com dedicatória
– Ganharão um persex (nas opções C e D)

O pagamento pode ser feito pelo Pag Seguro (cartão ou boleto) ou por depósito em conta (HSBC, Itaú, Banco do Brasil e Bradesco). Para outros países: PayPal.

O persex (liga de perna) é uma cortesia da sex shop Via Libido (vialibido.com.br).

PREÇOS (frete incluído)

OPÇÃO A: R$ 22
1 livro impresso

OPÇÃO B: R$ 24
1 livro impresso
Brinde: livro eletrônico (PDF, com dedicatória personalizada)

OPÇÃO C: R$ 42
2 livros impressos
Brinde: livro eletrônico (PDF, com dedicatória personalizada) + 1 persex

OPÇÃO D: R$ 80
4 livros impressos
Brinde: livro eletrônico (PDF, com dedicatória personalizada) + 1 persex + 2 livretos (títulos à sua escolha)

MAIS DE 4 LIVROS: a combinar

SOMENTE O LIVRO PDF (com dedic. personalizada): R$ 6

PAGAMENTO
PAG SEGURO: cartão ou boleto
BANCOS PARA DEPÓSITO: HSBC, Itaú, Banco do Brasil e Bradesco
EXTERIOR: PayPal

Você vai participar? Que ótimo! Entre em contato: rkelmer@gmail.com

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IndecenciasParaOFimDeTardeCAPA-01aINDECÊNCIAS PARA O FIM DE TARDE
Ricardo Kelmer – Arte Paubrasil, 2014 – 208 pag

Os 23 contos deste livro exploram o erotismo em muitas de suas facetas. Às vezes ele é suave e místico como o luar de um ritual pagão de fertilidade na floresta. Outras vezes é divertido e canalha como a conversa de um homem com seu pênis sobre a fase de seca pela qual está passando. Também pode ser romântico e misterioso como a adolescente que decide ter um encontro muito especial com seu ídolo maior, o próprio pai. Ou pode ser perturbador como uma advogada que descobre que gosta de fazer sexo por dinheiro.

O erotismo de Ricardo Kelmer faz rir e faz refletir, às vezes choca, e, é claro, também instiga nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir. Seja em irresistíveis fetiches de chocolate ou numa selvagem sessão de BDSM, nos encontros clandestinos de uma lolita num quarto de hotel ou no susto de um homem que descobre verdadeiramente como é estar dentro de uma mulher, as indecências destas histórias querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

> saiba mais

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INDECÊNCIAS PARA VOCÊ TIRAR A ROUPA

IndecenciasParaVoceTirarARoupa-01aMuitas mulheres têm esse fetiche, o de exibirem-se anonimamente para o público. Então criei uma promoção: envio o livro e a leitorinha faz uma foto erótica com ele, sem precisar mostrar o rosto, e a foto será usada em cartazes de divulgação da obra. Você gostaria de participar? Clique aqui e saiba mais.

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LIVRETOS DO BRINDE
formato bolso, 48 pag

Guia do Escritor Independente (dicas)
Memórias de um Excomungado (crônicas, reflexão, humor)
Um Ano na Seca (conto, erotismo, humor)
O Ultimo Homem do Mundo (conto, terror, humor)
Trilha da Vida Loca (contos)

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APOIO CULTURAL

vialibido.com.br

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01- Indico por q o cara é fera galera!!!!ndico por q o cara é fera galera!!!! Katie Furge, Queensland-Austrália – mai2014

02- Esse cara é genial!! um ótimo escritor. Josy Felix, São Paulo-SP – mai2014

03- Um livro instigante. Um autor inteligente e preparado ao tratar com o assunto. Um assunto polêmico no contexto sócio cultural que não pode passar despercebido no mundo atual. Um convite a uma leitura prazeirosa com uma visão política e uma reflexão cítica. Um manual para os psicologos! Um convite a leitura simplesmente! Anosha Prema, Campinas-SP – mai2014

04- Livro do Ricardo Kelmer o/ Ilana Dubiela, Fortaleza-CE – mai2014

05- Lançamento do Livro do Escritor Ricardo Kelmer. Boa Leitura! Érika Menezes, Fortaleza-CE – mai2014

06- Amei o tema, a fotografia… quero ler e deliciar-me com o conteúdo, parabéns Ricardo. Donizete de Paula, São Paulo-SP – mai2014


O dia em que o chinlone me pegou

02/02/2014

02fev2014

Assim como o chinlone, na vida é fundamental harmonizar-se com o mundo ao redor pra que o jogo fique bonito de se ver

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O DIA EM QUE O CHILONE ME PEGOU

Ou a arte zen de sair por aí à toa e encontrar o que se precisa
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E lá eu ia caminhando pela Visconde de Pirajá, seis da tarde. Apesar das pessoas apressadas e dos automóveis barulhentos, eu seguia leve e tranquilo. Na verdade, até me sentia meio em harmonia com toda aquela zorra. Levava uns exemplares do meu livro Baseado Nisso e uma missão ultrassecreta: deixá-los na La Cucaracha, uma loja em Ipanema que vende uns baratos ligados a cultura alternativa: roupas, livros, revistas, CDs e, é claro, sedinha para enrolar o baseado, maquininha de debulhar, essas coisas. Melhor lugar para vender meu livro só mesmo na passeata da legalização.

Na loja, meu livro ficou, mui honradamente, ao lado do sensacional Capitão Presença, livro do desenhista Arnaldo Branco. O Presença é o único super-herói que realmente salva. E foi inspirado no dono da loja, Matias Maxx, uma figuraça. Aí entraram dois caras e um deles foi direto no meu livro. Era simplesmente… o Arnaldo Branco. Uau! E o outro era o Allan Sieber, outro monstro dos quadrinhos. Fiquei tão abobalhado diante dos meus ídolos que depois de dez minutos é que consegui dizer algo além de dâââ…

Cessada a fase monga, troquei nossos contatos, combinei uma entrevista e nos despedimos. E segui caminhando de volta para casa, exercitando minhas pernas e admirando as das ipanemenses. Eis porém que, numa banca de revista, reconheço uma senhora… É Alzira, uma amiga recente, que dia desses me levou para ver uma peça sobre o Torquato Neto, que foi seu amigo. Você por aqui, que coisa boa, abraço, beijo. Ela me pegou pelo braço e saímos, ela comentando sobre um conto meu que havia lido. Depois falou que eu precisava conhecer o Álvaro, dono da Pororoca, uma famosa livraria especializada em misticismo. Mal fecha a boca, Álvaro se materializa bem à nossa frente. O susto foi tão grande que quase saí correndo.

O Álvaro é um cara simples, cinquentão com cara e jeito de garoto. Conversamos sobre livros e mercado editorial, ele disse que lembrava de meu primeiro livro e marcamos de continuar o papo outro dia em sua loja. E seguimos eu e Alzira, eu satisfeito com tantos bons encontros. Ela então me levou a uma galeria para conhecer o Estação Ipanema, com suas duas salas de cinema que eu, vergonhosamente, ainda não conhecia. Alzira me deu um puxão de orelha e subimos para conhecer.

No momento em que olhávamos a programação do Festival do Rio, um desconhecido chegou e… me ofereceu um ingresso de presente. Um ingresso para Mystic Ball, um filme do festival, última oportunidade de ver. Perguntei a Alzira se ela ficaria chateada se eu aceitasse aquele inesperado presente. Claro que não, aproveita que hoje você tá iluminado… Dei um abraço nela, depois te conto do filme, tchau, peguei o ingresso e entrei na sala escura, nem lembrava a última vez que eu fora ao cinema sem saber qual era o filme.

Tchan, tchan, tchan, tchan…. Que surpresa! Desde o instante em que sentei até o fim do filme, eu fiquei hipnotizado pelas imagens, fascinado, torcendo para não acabar. Como pude viver quarenta e dois anos sem saber que existia aquilo? O documentário conta a história de um canadense que se tornou o primeiro ocidental a praticar o chinlone ao lado dos mestres. E agora se dedica a divulgá-lo pelo mundo. Poizé, mas que diabo é chinlone?

Ronaldinho Gaúcho. Você certamente já o viu brincar com a bola, sem deixar cair no chão. Pois o chinlone é parecido. É um esporte tradicional de Mianmar, sudeste da Ásia, e existe há mil e quinhentos anos. Seis jogadores, homens ou mulheres, formam uma pequena roda e, usando apenas pés e pernas, passam a bola entre si, revezando-se como solista no meio da roda. A bola é oca, feita de feixes entrelaçados de ratan com espaços vazios formando pequenos buracos. Sem finalidade competitiva, o chinlone está mais para exibição artística, pois não basta não deixar a bola cair no chão – é preciso que as jogadas sejam plasticamente belas. Então o que se vê é uma espécie de dança coletiva regida pela própria bola, onde os movimentos combinam a graça delicada e sutil das danças do oriente com a rapidez e a precisão das artes marciais. Ou seja: Ronaldinho não daria nem para o começo.

O chinlone requer atenção aguda e permanente ao movimento da bola e dos outros jogadores. Requer também alto grau de leveza e elasticidade corporal. Mas, sobretudo, é indispensável que o grupo esteja totalmente harmonizado em torno da bola e funcione como uma única entidade feita de uma bola e doze pernas em contínua movimentação. O chinlone prioriza ao mesmo tempo a noção de grupo e o talento individual. E esses talentos não têm sexo ou idade: entre os melhores jogadores há garotas e velhinhos de setenta anos. Certas jogadas são tão curiosas e rápidas que só em câmera lenta pode-se entender como aconteceram. A habilidade dos jogadores é impressionante, e suas improváveis piruetas levam a pensar sobre onde afinal estão os limites da capacidade humana. Depois de ler os créditos finais, demorei a me levantar da poltrona ‒ estava inteiramente apaixonado pelo que acabara de conhecer. E louco de vontade de escrever a respeito. O mundo precisava conhecer aquilo.

Saí da sala com um sentimento de gratidão por uma noite tão generosa. Tantos encontros e surpresas incríveis… Mas ainda havia um último encontro a me esperar. E ele estava à minha frente, na saída da sala, segurando uma bola… de chinlone. Era Greg Hamilton, diretor e personagem principal do filme. Reconheci-o de imediato e, ignorando a timidez, fui falar com ele. Parabenizei-o, peguei a bola, fiz perguntas tolas em meu inglês capenga, ele me falou sobre o chinlone e ganhei um postal do filme. E fui embora para casa feliz, pensando… Assim como o chinlone, na vida é fundamental harmonizar-se com o mundo ao redor para que o jogo fique bonito de se ver. Não basta viver, é preciso encontrar-se.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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DOCUMENTÁRIO (em português)
Narração: Gilberto Gil

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CHINLONE, THE MYSTIC BALL

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DICA DE LIVRO

ICI2011Capa-01dO Irresistível Charme da Insanidade
Ricardo Kelmer – romance

Dois casais, nos séculos 16 e 21, vivem duas ardentes e misteriosas histórias de amor, e suas vidas se cruzam através dos tempos em momentos decisivos. Ou será o mesmo casal? Nesta história, repleta de suspense e reviravoltas, Luca é um músico obcecado pelo controle da vida, e Isadora uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. A uni-los e desafiá-los, o amor que distorce a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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É a Tao coisa – Uma maneira intuitiva de compreender a realidade através da harmonia com o Tao

Rumo à estação simplicidade – Jurei me manter sempre no caminho, sem pesos nem apegos excessivos, pronto pra pegar a estrada no momento em que a vida assim quisesse

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As unhas sujas de Matrix

19/11/2013

19nov2013

Certas obras artísticas se baseiam nesses conteúdos, os arquétipos, e por isso pessoas de todo o mundo se identificam tanto com elas

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AS UNHAS SUJAS DE MATRIX

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Faça um buraco na terra, cave sem parar e você alcançará areia e rochas que, de tão profundas, não são de país algum. Ou melhor, pertencem a todos, são patrimônio de toda a humanidade. Assim também é o inconsciente coletivo da espécie: seus conteúdos são de todos nós. Certas obras artísticas se baseiam nesses conteúdos, os arquétipos, e por isso pessoas de todo o mundo tanto se identificam com elas. É o caso de Matrix. Apesar de toda a tecnologia, o filme tem cheiro de terra, pois escava fundo as profundezas coletivas da psique.

Esse filme vale tanto assim?, é o que ouço quando descobrem que escrevi um livro sobre Matrix. Sim, vale. Além de marco na história do cinema, a aventura do guerreiro cibernético Neo e seus amigos resistentes é um grande fenômeno cultural da atualidade, alcançando pessoas de raças, religiões e idades diversas, influenciando comportamentos, gerando discussões e lotando cinemas. Mas tem gente que torce o nariz para o filme e não entende tanto rebuliço. Que diabos Matrix tem de tão especial?

Muitas coisas. A base mitológica do enredo, por exemplo: o jovem que se vê confrontado com seu próprio destino, que precisa abandonar seu mundo seguro e partir numa aventura perigosa, lutar contra inimigos terríveis, arriscar a própria vida e salvar sua gente. A história de Neo é o antigo mito da jornada do herói recontado com roupas novas. Por nascerem do inconsciente coletivo e serem feitos de elementos arquetípicos, os mitos são parte de nossa psique individual, e é por isso que nos identificamos com eles. Todos nós vivemos os mitos em nosso dia a dia, sendo novos protagonistas de antiquíssimos dramas.

Na história há outros elementos mitológicos que revestem a trama de um caráter numinoso: o despertar da consciência, o salvador, o traidor, o oráculo, o amor, a morte. Esses arquétipos habitam o profundo de cada um de nós, e Matrix os aciona em nossa mente. Messianismo, ressurreição, a natureza ilusória da realidade, ser um com o mundo e assim entortar colheres ‒ Matrix une mitologia cristã e filosofia oriental. Quem não gosta desses temas da mente e do espírito tende a atirar contra o filme, porém Matrix manipula filosofia, religião e esoterismo com a destreza de um guerreiro tecno-zen e detém as balas no ar.

Ah, claro, tem os efeitos especiais, as cenas de luta, o figurino… Para nossos jovens, que nasceram e vivem numa Matrix onde a imagem é tudo e os cega para a essência das coisas, o apelo visual do filme é irresistível. O filme usa a si mesmo como isca para transmitir ideias profundas sobre a natureza da realidade, a importância do autoconhecimento para a realização do potencial, a necessidade de morrer para renascer mais forte… Pelo jeito, a isca funciona, pois a discussão sobre o que é real saiu dos círculos filosóficos e esotéricos e alcançou o shopping center. Enquanto tomam sorvete, adolescentes de piercing e boné para trás se perguntam: E se todos nós estivermos sonhando? Uau, isso é ótimo.

Mas será que os criadores de Matrix tiveram mesmo a intenção consciente de mexer com todos esses temas? Esse filme não seria um mero borrão de tinta no qual as pessoas, inclusive eu aqui do meu galho, veem o que querem ver? Bem, a mim, particularmente, essas unhas sujas não enganam: Matrix é feito de terra, lá do fundo, a mesma terra da qual somos todos feitos. Por isso Matrix é tão real.

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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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SOBRE O FILME

MatrixDVDCapa-1Matrix (The Matrix, EUA, 1999)

ARGUMENTO, ROTEIRO E DIREÇÃO: Lilly e Lana Wachowski
ELENCO: Keanu Reaves, Lawrence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving

No futuro, a humanidade é prisioneira de sua própria criação, a Inteligência Artificial, que criou a Matrix, uma realidade virtual onde foram inseridos todos os seres humanos para que eles não oponham resistência ao poder das máquinas. Todos não, pois um grupo de rebeldes mantém-se fora dessa realidade e luta para libertar o restante da humanidade. Eles creem na profecia do Oráculo que diz que um Predestinado um dia virá para vencer as poderosas máquinas e salvar a todos. Para eles, Neo, um jovem que vive na Matrix, é o Predestinado. Neo de fato desconfia que há algo errado com a realidade mas não pode aceitar que ele seja o tão aguardado salvador.

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TRÊILER OFICIAL


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MATRIX, PSICOLOGIA E MITOLOGIA NO LIVRO:

Matrix2012Capa14x21aMatrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer

Analisando o filme Matrix pela ótica da mitologia e da psicologia do inconsciente e usando uma linguagem simples e descontraída, o autor compara a aventura de Neo ao processo de autorrealização que todos vivem em suas próprias vidas.

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Mulheres na jornada do herói – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

Seguir a boiada ou as próprias convicções? – Aos poucos podemos, cada um de nós, começar a agir de acordo com as nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos

A Matrix em cada um de nós – Em busca da realização mais íntima (tornar-se o Predestinado), o ego deve empreender uma longa jornada de autoconhecimento onde não faltarão medos e conflitos para fazê-lo desistir

A pergunta – Um dia, porém, alguém desconfia. E entende que os que olham para fora, sonham, e os que olham para dentro, despertam. E aí a pergunta é inevitável

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AsUnhasSujasDeMatrix-02a


É o amor

07/08/2013

07ago2013

E os outros zezés e lucianos por aí?

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É O AMOR

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Como sou homem besta para chorar, é claro que ensopei a manga da camisa vendo 2 Filhos de Francisco (direção de Breno Silveira). Sempre me tocam histórias de superação, isso de lutar por um sonho. Não sou fã de música romaneja, mas é comovente acompanhar a trajetória do artista que, apesar das dificuldades, não desiste de sua arte. Mas então a pulga me coça a orelha: e os outros zezés e lucianos por aí?

A dupla do filme conseguiu chegar lá. Antes passaram muita necessidade, engraxando sapato, vendo a mãe chorar porque não tinha comida em casa, perderam um irmão. Palmas, eles merecem. Mas, que diacho, não consigo deixar de pensar nos outros. Todo mundo saindo do cinema cantando feliz, e eu, o estraga-prazer, pensando naqueles que lutam tanto ou até mais e, no entanto, não chegam lá. E aí?

E aí é isso mesmo, é a vida, uns chegam e outros não. É, você tem razão, se todos chegassem, não caberiam todos no palco. Cruel matemática a do sucesso artístico. Então a vida é injusta? É assim que ela trata seus artistas, aqueles que têm a sagrada missão de entreter e divertir o povo? O que afinal está errado com a arte? Por que para a grande maioria a arte nasce sonho bonito, mas aos poucos vira pesadelo e faz da vida um trágico erro de percurso?

Tenho um palpite. Ele é fruto de tudo que aprendi em minha própria vida, buscando ser escritor num país de não leitores. Não existe fracasso na arte. Porque a arte, por si só, é a eterna celebração da vida. Aqueles a quem a vida escolhe para serem artistas têm a missão de fazer arte e pronto. Se conseguirão se sustentar com ela, isso é outra coisa, a arte em si nada tem a ver com isso, não lhe peçam o que não é de sua competência.

A maioria dos artistas, de fato, não consegue se sustentar e desiste. Uma parte prossegue a duras penas, sempre maldizendo o sistema e envolta em amargura. Mas há aqueles que, mesmo com reconhecimento curto e dinheirinho minguado, continuam com sua arte, são felizes e não abrem mão dela ‒ porque não saberiam viver longe de seu grande amor. Jamais terão sua história contada no cinema, mas ela certamente é a melhor de todas as histórias. Esses encarnam o verdadeiro espírito artístico: fazer arte pela arte. Esses darão a volta completa na roda da experiência e chegarão, não necessariamente ao estrelado panteão das celebridades, mas ao ponto mágico de compreensão onde vida e arte se tornam uma coisa só, e dinheiro e fama não importam tanto quanto continuar… fazendo arte.

Eles olharão para trás e entenderão que a recompensa maior era a própria arte que faziam. E que mesmo devendo o aluguel, não deveram a alma. Que mesmo sem saber como seria o dia seguinte,  cumpriram seu destino. Por amor à arte. Que, no fundo, é o mesmo amor à vida. É o amor.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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01 Cara, li o texto sobre o filme…. vc disse tudo! Parabéns, ficou ducaralho! Vou ler o outro mais tarde, pois hoje tem banho mensal. Parabéns para nós, que arriscamos a vida com arte, e para vc escreveu tão bem a nossa labuta boa. Jayme Akstein, Rio de Janeiro-RJ – set2005

02- Linda crônica, além de me emocionar muitíssimo com o filme ( eu também ensopei não só a camisa mas também a saia, as meias, a fitinha do cabelo… ), agora você me fez reviver um pouco a emoção com as tuas tão bem empregadas palavras. Engraçado, depois que vi o filme, sempre falei muito bem dele, mas sempre completei meus comentários dizendo que o filme me fez pensar muito mais naqueles Zezés e Lucianos que estão por aí, vagando pela vida, e que por acasos ou não acasos do destino, não estão nem na telona, nem com suas vozes gravadas em CDs, e muitas vezes estão aí, vendendo bugingangas nas ruas sem que nos demos conta do sonho matado à força que existe por trás de cada um deles. Como você, também sai do cinema comentando como esse país deve estar repleto deles, e que dor que dá pensar nisso né ? Bem, só queria te dizer que teu texto veio em boa hora, quando estou justamente num momento de amor e ódio com a tal arte citada por você, pois por tabela vivo a peleja diária do Jayme na sua escalada para algum lugar que nem se sabe direito qual. E que justo hoje, estava num dia de descrença total, mas quando li tua crônica, me lembrei da essência dessa busca, do amor que move aqueles que buscam imprimir qualquer forma de arte nesse mundo nem sempre tão receptivo às nossas formas de expressão. Um beijo. Ilana Nahm Akstein, Rio de Janeiro-RJ – set2005

03- OLÁ RICARDO !!! COMO SEMPRE UMA POETA SENSÍVEL, PREOCUPADO COM O PRÓXIMO. CHEGAR AO SUCE$$O DEPENDE DO ESFORÇO E VONTADE DE CADA UM. SE TODOS OS ARTISTAS, POR MÉRITO CHEGASSEM AO TOPO, COM CERTEZA NÃO TERIA UM PALCO TÃO GRANDE QUE COUBESSE TODOS. O SEU JÁ ESTÁ PRONTO, É CERTO. SÓ FALTA UMA GRANDE CAMINHADA PRA CHEGAR ATÉ LÁ. AS DIFICULDADES EXISTEM, VOCÊ SABE. SE VOCÊ FÁCIL NÃO TERIA GRAÇA, NEM SATISFAÇÃO DE ATINGIR A META QUE CADA UM QUER PRA SUA VIDA. O CAMINHO É ESTE, SER AUTÊNTICO. PARABÉNS, MAIS UMA VEZ !!! NÃO O CONHEÇO, MAS, SINTO A PESSOA BOA, HUMANA QUE É, E PROCURA DEMONSTRAR NAS SUAS CRÔNICAS, POESIAS. UM PROFUNDO CONHECEDOR DO SEXO FEMININO. NÃO SEI ESCREVER BONITO, MAS, ESPERO TER PASSADO ENERGIAS POSITIVAS, NESTAS POUCAS PALAVRAS. SAUDAÇÕES. Lucimar Rabello, Vila Velha-ES – set2005

04- OI RICARDO… Que coincidência. Ontem, fui assistir o filme. Também saí de lá chorando. Até porque, conheci o Zezé na época em que ele vinha à Santos “mendigar “shows. Acho que realmente eles mereceram. È meu caro, se ficarmos falando das dificuldades de nossa área, levaria a noite toda. // Mas, como vc disse, é o amor… Mardito amor que só sabe fazer a gente sofrer… Seja qual for o tipo de amor… é o amor. Parabéns pela crônica. Cristiane Carvalho, São Vicente-SP – set2005

05- Muito legal, Rico. Como legítima representante dos não-artistas (com dor no coração, claro), faço minhas as suas sábias palavras. Grande beijo. Marta Crisóstomo Rosário, Brasília-DF – set2005

06- É isso aí mano. Para mim, os verdadeiros vencedores são aqueles que não abandonaram os seus ideais, mesmo com “reconhecimento curto e dinheirinho minguado”, os que não se entregaram ao sistema. Viva para eles… Claudio Roberto Azevedo, Fortaleza-CE – set2005

07- E ai, Ricardo… Você já imaginou, que é por algum motivo, muito especial, que algumas pessoas foram escolhidas, para percorrer este caminho, que realmente pode não ser fácil, é nem é pra ser. Que consigam transmitir sua arte, seja em que segmento for, para muitos, ou simplesmente poucos, não importa!!! O importante é que continuem, trazendo para nossas vidas: cores, risos, lagrimas, emoções, sentimentos, realidades e também muitos sonhos. Assim, como você, Meu Escritor Favorito!!! Rita de Cássia, São Paulo-SP – set2005

08- Fala Ricardo, gostei muito mesmo do seu texto, concordo com tudo o que você disse. Acho que todos concordariam se pudessem enxergar além das pretensões narcisisticas e da ignorância. A arte é a transmutação do sentimento urgente de viver que o artista sente e nada mais. Não deixa de me chamar pro lançamento do seu livro, abraço. Pedro Schprejer, Rio de Janeiro-RJ – set2005

09- Como é lindo esse teu lado, tua alma feminina. A vida é bem essa luta para aprendermos a ser verdadeiros. Os artistas sabem disso. É como você falou. Mas mesmo quem não é artista, muitas vezes tem que se vender um pouco (se é que existe isso) até encontrar seu limite e daí partir prá luta (como eu fiz), ou infelizmente se perder como muitos no furacão da insegurança e da ganância humana. No final nada há prá nos deixar mais em paz do que ser fiéis a nós mesmos. Eh…acho que eu vou ter que ver o filme…droga, detesto borrar a maquiagem. Lucilene Anderson, Fortaleza-CE – set2005

10- Ricardo, mais uma vez vc. fez Bingo!!!! Sinto-me uma das tais e ainda me pergunto se, nestes dias de total banalidade e baixa qualidade, lá no fundinho de nós, não há um sabotador esperto que prefere o anonimato e as dificuldades a vender barato nossa amante fiel de toda uma vida. Se não der pra estar próximo a uma Mona Lisa ou uma Capela Sistina, uma Divina comédia ou mesmo um ótimo romance do Saramago ou um poema do Pessoa, que nossa musa não vire consumo fácil do tipo imã de geladeira, a meu ver, o melhor ícone de nossos dias! Um grande abraço. Angela Schonoor, Niterói-RJ – set2005

11- podis crer… Fábio Morais, Rio de Janeiro-RJ – set2005

12- Putz, Ricardo, Sensacional. Tu é foda … Parabéns. Um grande abraço. Alvin, Fortaleza-CE – set2005

13- Excelente texto, sêo Ricardo! :D*. Susana Motta, Leiria-Portugal – set2005

14- É isso aí, Rika!!! Vc disse tudo; exatamente o que eu acho e a maioria ds pessoas sensíveis, artistas acham tbm. Quando existe mesmo a arte dentro de nós, quando a sentimos forte e latente , ela flui naturalmente, mesmo sem sabermos do seu retorno financeiro e profissional. Quando ela está enraizada dentro de nós, ela precisa sair de qualquer maneira e a nossa alma e a das pessoas ao nosso redor, agradecem. Anabela Alcântara Pinto, Fortaleza-CE – set2005

15- Ainda bem meu amigo (acho que já o posso chamar assim), que você não desistiu dos seus Sonhos, seguiu em frente e continua a escrever essas coisas tão bonitas, com tanta sensibilidade, que sempre nos toca fundo a alma. Um grande abraço, Heloisa Pontes, Fortaleza-CE – set2005

16- Ricardo, me sinto parte dessa crônica! Bj. Luciana P Martins, Rio de Janeiro-RJ – set2005

17- E aí, Ricardo? Não vi o filme, confesso que motivado por meu preconceito contra os sertanejos midiáticos, que passam o domingo a gemer nos Faustões e Gugus da vida. Pra minha surpresa, chega minha mulher, uma fã da boa música brasileira (leia-se Chico, Gil, Belchior) e alguma afinidade com o rock e o pop (Led, U2, santana, Sting, Phil Collins) e diz que viu e adorou. Você pode imaginar o quanto me senti duplamente traído, primeiro por ter ela ido ao cinema sem me consultar – ô cabra macho! – e segundo pela imperdoável escolha musical. Como todo corno que se preza, me conformei depois de alguns beijinhos e argumentos tais como: “a história é muito bonita…”, “os atores estão muito bem..;” etc. Mas o que interessa mesmo é essa sua bela visão do que seja o sucesso ou o fracasso, que transporto tanto para artistas quanto para o ser humano em geral. Há aqueles que procuram o sucesso a qualquer custo, e essas poucas linhas somente me permitem destacar duas categorias, mas há certamente muitas outras: aqueles sem nenhum talento e muito menos visão do processo a que se entregam ou participam, e que são pinçados por esta ou aquela gravadora, esta ou aquela empresa, este ou aquele partido ou grupo político como produto de uso e consumo, ou aqueles que têm talento, acreditam no que fazem e mesmo assim se deixam usar ou corromper por aquelas mesmas entidades e patrões. Tanto estes quanto aqueles, passarão pela vida, percebendo ao fim que por terem escolhido tal caminho, que não necessariamente é o mais fácil, ao perderem aquilo pelo que se venderam, como você mesmo disse, restará apenas o rancor de se sentirem abandonados, ou a cruel amargura de perceber o tempo perdido. Aos grandes homens, em todas as áreas, que não se venderam, não cederam ao apelo fácil de dizer sim a tudo e a todos, como você bem disse, não há fracasso. Poder caminhar a cada dia, construindo os seus sonhos e o dos outros, mesmo que estes nem saibam, nem agradeçam, é paga mais do que suficiente. Por isso meu camarada, sem pieguice nem baitolagem, como nos nossos tempos de menino, vai aí o meu quase inaudível aplauso a você mesmo, que me parece ter descoberto esse caminho da felicidade, de viver fazendo arte, vendo longe sem deixar de olhar pra dentro de si mesmo, ou melhor ainda; sem deixar de olhar pros próprios pés e dar valor a coisas simples como andar na areia e molhá-los na Praia de Iracema, Ipanema, no Leme ou Pontal… Um abraço. Paulo Marcelo, Brasília-DF – set2005

18- Adorei! Bom dia. Qdo vc aparece? Bj. Liége Xavier, Fortaleza-CE – set2005

19- Boa tarde! Olá Ricardo. Gostei de sua crônica, mas sabe o que acontece nós passamos pela vida com uma missão de aprender e ensinar. Sou uma apaixonada por arte, ela me faz sorrir e ser feliz. Gostei dessa frase: ” Porque a arte, por si só, é a eterna celebração da vida.”(Ricardo Kelmer) A diferença entre os que conquistam o sonho e os que ficam pelo caminho é a prova da existência de cada um. Devemos saber utilizar dos recursos conquistados para ajudar a humanidade, só assim a evolução acontece. Cacilda Luna, Fortaleza-CE – set2005

20- Ricardo, Eu ainda não assisti a este filme, talvez nem o vá, pois sei que como vc e todos os que assistiram, vou chorar, mas pensei tbem como vc, o que foram feitos dos outros “filhos de Chico” do mundo afora que nem sequer tiveram chance de sua expressão, com isso não quero desmerecer o poder de conquista destes dois irmãos, é que o mundo é muito estranho mesmo, por vezes carrasco. Mesmo assim a despeito de qualquer tristeza, dores ou eventuais problemas, eu continuo acreditando no amor e espero e desejo que você e todos os que sofrem diante de certas injustiças também continue a acreditar, porque basta que desejemos o amor… e haverá amor! Um abraço. Sandra A Dehn, Cuiabá-MS – set2005

21- Ô texto bom de se ler, bichorréi lindo!!! Como é gostoso seu jeito de pensar pra nós!!! Deus continue a te iluminar, que as musas te inspirem… Para que mais gente saiba que o que nos faz vivos…É O AMOOOOORRR!!!! Bjos. Karla Karenina, Fortaleza-CE – set2005

22- Parabéns, fazer arte não é para qualquer um. mas fazer boa arte é para poucos. Mesmo assim não desisto de fazer as minhas, como vc o faz. Dom não se compra na esquina, nasce com agente; somos abençoados pela vida. Beijos. Paula Rabelo, Rio de Janeiro-RJ – set2005

23- Valeu Ricardo, mais uma vez vc foi dez na sua forma de expressar seu pensamento, que na realidade compartilha com milhões de artistas que também tiveram que percorrer árduos caminhos para chegar ao sucesso. Os outros Zés da vida talvez não tenham tido dinheiro suficiente para produzir um filme e contar suas mazelas. Bjinhos. Mariucha Madureira, Brasília-DF – set2005

24- É O AMOR. Gostei muito do filme e confesso que chorei… Chorei porque é uma bela historia de vida. Marcia Morozoff, Brasília-DF – set2005

25- Cara, essa foi do caralho!!! Um grande abraço. Sergio Nogueira, Fortaleza-CE – set2005

26- Oi Ricardo! Muito boa essa critica!! Eu confesso que näo fui asssisti ao filme que todas as pessoas que eu conheco foram, por puro preconceito! Nao gosto da dupla. Nao so pelo estilo musical, mas por saber que eles sao pessoas que adoram destratar os outros sempre que nao tem nenhuma camera por perto. A ultima que fiquei sabendo foi de uma colega de trabalho que foi a um show deles aqui em Fortaleza, na vaquejada de Itapebussu. Eles passaram pelo camarote onde minha colega estava e ela, coitada, toda tiete, querendo conversar, tirar foto, foi surpreendida pela falta de educacao do Luciano (educacao nao se compre ) que foi bastante grosseiro. Bem, mas esse nao e o mais importante. O que mais me revolta nesse filme e saber que varias sao as pessoas que lutam dignamente, diariamente, por uma vida melhor, por um sonho, e que nao sao e nunca serao reconhecidas. So falta eles ganharem o Oscar. Tantos filmes bons ja tivemos, mas logico, nenhum a altura deste que conta uma historia tao bonita. Historia que e so olhar para o lado que veremos tantas outras, tao perto, tao sofrida, mas que nao merecem ser contadas , nem lembradas, muito menos admiradas, porque sao historias comuns, de pessoas comuns. Acho uma pena darmos tanto valor a pessoas tao futeis! Ana Karolina Nascimento, Fortaleza-CE – out2005

27- sou conteporâneo seu do santo inácio e do cearense. Depois de morar no rio e em sp hoje moro em brasilia. Quando estava em férias na nossa cidade ouvi uma crônica sua sobre o filme os dois filhos de francisco, depois passei a acompanhar sua coluna no jornal o povo (confesso que é a única coisa que leio). A tempos estou para solicitar seus livros mas só hoje venci a preguiça. Cláudio Gondim B. Farias, Brasília-DF – jan2007

28- Li várias crônicas ontem, mas, a que me fez ficar daquele jeito, foi: É o amor. Achei de uma beleza sem igual. Define muito bem a dureza que é a vida de um “artista”. Parabéns! Cada crônica tem um segredo escondido, até mesmo naquelas mais engraçadas! Acho que essa coragem que você tem de arriscar, mesmo com medo, você vai em frente e enfrenta os leões ferozes que aparecem e ainda consegue vencê-los. É essa coragem de ser você mesmo que encanta todos os que convivem com você e faz de você uma pessoa mais que especial! Obrigada pelas lágrimas de hoje! Obrigada por nos colocar em contato com o nosso eu mais profundo! E muito obrigada por não deixar a gente esquecer que esse mundo não é só matéria. Existe algo além disso… E é sobre isso que você sabe escrever muito bem! Um cheiro bem grande!!!! Vânia Vieira, Fortaleza-CE – jun2007

29- Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos ! vc conseguiu! emocionada! em extase! sem comentários para não perder a sençãção intraduzível do momento!UAU! Anosha Prema, Campinas-SP – ago2013

30- Puxa primo, você consegue colocar em palavras a realidade da vida por nós sentida com muita naturalidade e atentar para coisas imperceptível para muitos. Vânia Dias, Fortaleza-CE – ago2013

31- Grande Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos ! Seu texto está no ponto, maravilhoso e completamente real ! Abração forte! Erico Baymma, Fortaleza-CE – ago2013

32- Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos, grande texto em que eu concordo com cada palavra! Diego José, Fortaleza-CE – ago2013

33- Eu concordo com voce, mas se pensarmos direitinho, isso acontece em todas as areas, por exemplo, a gente tira pelos concursos publicos, pra juiz por exemplo… o cara estuda a vida toda, o salario é maravilhoso, pode mudar totalmente a vida, mas sao milhares de candidatos, e apensa algumas dezenas de vagas… Nem todos passam. Bruna Barros, Campina Grande-PB – ago2013

34- Ricardo Kelmer gostei muito desse filme! Vale à pena ver esta análise:http://www.cartacapital.com.br/…/view. Shirlene Holanda, São Paulo-SP – nov2013

35- Texto sensacional!!!Como é bom ler suas escritas…. Bjks. Carla Falcão Bouth, São Paulo-SP – nov2013

36- Lindo texto !!! Tanto quanto vc !!! Joyce Lôbo, Brasília-DF – nov2013

Bom ver você assim, entusiasmado. Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos que você….

A cruz da paixão

12/07/2013

12jul2013

O crescimento só virá se o ego se entregar ao sacrifício da paixão, mandando Judas fazer logo a sua parte e aceitando o sofrimento inerente ao processo

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A CRUZ DA PAIXÃO

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Os religiosos costumam ver os mitos de sua religião como fatos históricos, que realmente aconteceram. Limitar a compreensão a essa mera questão diminui a beleza do mito e esconde a essência metafórica da história. Mitos são metáforas, e uma metáfora não é uma mentira, mas um outro modo de expressar a realidade. Ao insistir na questão factual e desprezar o simbolismo da narrativa, o crente se afasta da verdade psicológica contida no mito e perde a chance de aplicá-la em sua vida.

Talvez Jesus Cristo, historicamente, não tenha existido e sua vida seja, na verdade, uma mistura de relatos posteriormente agrupados. Porém, o mito Jesus Cristo é rico de simbolismo e nele há profundas verdades psicológicas que podem ser úteis a crentes e não crentes. Uma delas diz respeito à cruz, que é o símbolo maior da mitologia cristã. No filme A Paixão de Cristo, do diretor Mel Gibson, há uma cena representativa da força desse símbolo: é o momento em que Jesus é apresentado à cruz onde será pregado. Exausto pela tortura, o corpo uma chaga só, ele vê o madeiro e, curiosamente, ajoelha-se e o abraça em meio a uma súbita crise de choro. Enquanto alguém zomba do ato aparentemente despropositado, ele mantém-se abraçado à cruz, acariciando-a e chorando feito criança.

Mas que insano… Por que ele abraça a cruz onde morrerá? Porque simplesmente não lhe resta outra coisa a qual se agarrar. Jesus foi traído por seus discípulos, seu próprio povo o condenou, seus amigos se escondem, sua família não pode ajudá-lo e seu Pai Celestial não afastou dele o terrível cálice. Nenhuma ajuda ele pode esperar. Em que se agarrar num desamparo desses? Ao destino. Sim, porque por paradoxal que pareça, o destino é a única coisa certa. Por isso Jesus se agarra à cruz, o símbolo mor de sua missão. É um ensinamento difícil de assimilar, pois é natural fugir do sofrimento, mas é preciso confiar nas forças da vida e do crescimento psíquico, por mais que as dores se anunciem no horizonte do que nos espera. O sofrimento de Jesus ensina a quem quiser aprender: no momento de maior abandono, em que tudo parece perdido, é preciso abraçar a cruz e aceitar o que nos aguarda. Este é o único modo possível de não afundar em desespero antes de cumprir o que deve ser feito.

Só há vida se houver morte. E não há morte sem dor. Para alcançar novos níveis de percepção e relacionamento com a vida, o ego tem de atravessar o fogo da transformação. Ele sempre resistirá até onde puder, afinal morrer não é fácil, mas há um momento em que o crescimento só virá se o ego se entregar ao sacrifício da paixão, mandando Judas fazer logo a sua parte e aceitando o sofrimento inerente ao processo. É assim que transmutamos o que nos aterroriza naquilo que nos salvará. De outra forma, viveremos num exílio psíquico, fugindo do que verdadeiramente somos.

Os crentes não deveriam se preocupar com a possibilidade de Jesus não ter existido historicamente, pois isso em nada desmerece o mito. O sagrado e o numinoso não residem na factualidade das histórias religiosas, mas nos símbolos que elas guardam. O que importa é que o Cristo mitológico vence o desamparo toda vez que alguém abraça com firmeza seu destino. O que realmente vale é que o mistério de sua paixão se renova toda vez que alguém morre para um velho e limitado eu e ressuscita psicologicamente na vida nova.

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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Este texto integra o livro Blues da Vida Crônica

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MATRIX, PSICOLOGIA E MITOLOGIA NO LIVRO:

Matrix2012Capa14x21aMatrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Fantástico meu irmão….Deixar morrer o ego e ressucitar no seu verdadeiro destino…..Agarrar-se a sua missão…..Adorei seu texto…… Jacques Josir, Santo André-SP – jul2013

02- Eu amei demais esse artigo. Porque as pessoas querem explicar mesmo tudo. Se existe, se não existe, se deve acreditar, se não deve… E há tantas possibilidades a partir desses simbolos. Rainha Frágil, Fortaleza-CE – jul2013

03- Tudo a ver, Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos e que lindo texto: ADOREI! Cristina Balieiro, São Paulo-SP – jul2013

04- Oi,amigo Ricardo! Interessante mesmo o trecho.Muitos se perdem pelo caminho sabendo que se perdem.O homem desde sempre,Ricardo,contou histórias para justificar algo…e eis o mito.E dessa necessidade surgiu a hagiografia para sustentar a função religiosa e não a beleza da fé por si só.E fez um belo estrago…rs.Eu já li alguns livros do Jiddu Krishnamurti e você me recordou umas palavras dele. Fateha Liza, Dourados-MS – jul2013

05- Ótimos textos, Ricardo Kelmer! Ana Velasquez, Corumbá-MS – abr2015

06- Excelente texto Entendo e sinto a Vida dessa maneira, inclusive os mitos, deuses e demônios, que criamos. Dorah Andrade, São Paulo-SP – abr2015

07- É bom ver você em plena forma!… Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – abr2015

08- Amei ler esse texto claro e sincero agora. Ser senhor do seu destino é uma leitura fantástica do mito Jesus. Jane Arruda de Siqueira, São Paulo-SP – abr2015

09- Meu querido, BELÍSSIMO!! E chega até mim numa hora tão necessária que você nem imagina. Terá sido porque Deus mandou você me dizer isso? Ou por acaso? Não, não falemos nem em Deus nem em acaso, mas, permanecendo nos domínios junguianos que tanto nos inspiram, digamos que foi mais um momento de encantadora sincronicidade. Inclusive, um beijo no seu coração, meu brother! Rógeres Bessoni, Recife-PE – abr2015

10- Grandioso texto, Ricardo Kelmer! Giba C. Carvalho, Recife-PE – abr2015

11- Belo texto, Ricardo. E bota belo nisso! Obrigado por esta dádiva de Páscoa! Pedro Camargo, Rio de Janeiro-RJ – abr2015

12- Belíssimo texto, Ricardo. Se me permite acrescentar, acrescento, com muito menos elegância, que o problema todo está na covardia e desonestidade das pessoas. A grande maioria não está interessada no *trabalho* de aperfeiçoamento moral, mental ou espiritual. A maioria só quer fazer parte de algum clube, bando ou coletivo que lhe dê razão e proteção contra inimigos e adversidades. A grande maioria só quer mesmo fazer média com Deus, porque acha que assim será protegida. Animais são mais fortes em bando, logo todos têm que aderir a alguma religião, filosofia, ideologia, partido, time de futebol, escola de samba, ter parente na polícia, parente advogado, conhecidos em Brasília, amigo na favela e diversos outros esquemas de se garantir pela força de um coletivo, um bando, uma máfia. (As pessoas defendem seus coletivos com unhas e dentes porque assim defendem, em última instância, uma ferramenta da sua própria segurança e bem-estar. Nada mais egoísta que o coletivismo.) Tá cheio de “cristão” que nem sonha em amar o próximo, mas faz sinal da cruz quando passa na frente da igreja, que é pra puxar o saco do Patrão mesmo. E vivem pedindo coisas. Putzgrila, como essa gente pede!

Toda essa lógica fica mais evidente no Brasil, onde as pessoas são católicas e devotas de algum santo *protetor*, mas também são filhas de algum orixá, fazem despacho, descarrego, vão a centro kardecista tomar passe, andam com amuletos pendurados no corpo e tratam muito bem a benzedeira do bairro, tudo isso e muito mais, que é pra garantir. Mané fé coisa nenhuma, é medo da vida mesmo. Sempre digo: a grande maioria de quem se considera religioso é apenas supersticioso.

Concluindo: as pessoas se prendem à interpretação factual porque, sem ela, sua proteção fica desmoralizada. Sem a autoridade dos fatos, resta apenas o ensinamento. A ilusão da proteção se esfarela, e o devoto de uma figa se vê diante do que mais teme: estar só e ser responsável pelo próprio destino. Namastê, anauê, katinguelê e Salve Jorge pra você. Luc Lic, São Paulo-SP – abr2015

12- Texto cheio de sabedoria e beleza, Ricardo. Obrigado. Mas acho que vc é ateu só na religião. Não no Espírito… Abr e ótima Páscoa. Luis Pellegrini, São Paulo-SP – abr2015

13- Luis Pellegrini, Waldemar, eu acho que Kelmer é ateu não praticante! Hahahaha Abraços a todos e excelente Páscoa. Rógeres Bessoni, Recife-PE – abr2015

14- Perfeito Ricardo Kelmer. Texto muito, muito bom. Iris Medeiros, Campina Grande-PB – abr2015

15- Profundo Ricardo Kelmer, qdo nos agarramos a nossa cruz ela deixa de ser um sofrimento! Numa sociedade q proclama apenas a ” felicidade sempre” é preciso rever a questao da cruz. Talvez tivessemos menos depressoes e outros males da alma! Michele SJ, Fortaleza-CE – abr2015

16- Brilhante Abordagem!! Marcelo Figueiredo, Rio de Janeiro-RJ – abr2015

17- Muito louvável o que se tenta passar. E, com a licença de um comentário meu, e não tendo de longe entendido mal, é sempre bom relembrar que é justamente paralelo a este medo onde trabalham as trevas, negando a simbologia, antes do ser (tanto de Jesus como nossa). Tanto que o que existe, no que se refere a Jesus, é justamente o contrário: correntes materialistas tentando provar a existência de um Jesus histórico mas terreno, para negar o Jesus “Cósmico”. Tendo o cuidado, como no trecho “não deveriam se preocupar com a possibilidade de Jesus não ter existido historicamente” é um bom texto para entender um pouco a questão de como Jesus, existindo como ser unigenito, desceu a terra para, junto a nós, dar esse exemplo único da lição do crescimento. O texto tenta explicar, com muito esplendor, que não é no nosso “ser” (estático) e sim no nosso “estar sendo”, na dinamica ser-dor-redescoberta-crescer-ser, que nós existimos. Quando a humanidade descobrir isso, muitos dos dramas e artificialismos emocionais deixarão de existir. Todos nós torcemos para que isso aconteça. Muito legal! Valeu ! Ney José, Recife-PE – abr2015

18- Muito bom o texto, é auto-explicativo, quando induz o leitor a uma refkexão do seu existir como simbolo metafórico de si mesmo, afinal o mito Jesus Cristo está inserido no inconsciente coletivo da humanidade ao percebermos que nós precisamos de mitos para suplantar os nossos medos existenciais e nisso o simbolo da cruz quando verdadeiramente compreendido nos leva ao patamar da nossa redenção espiritual nessa jornada cósmica. Texto para ser lido e relido, vou compartilhar o mesmo. Francisco Souza Bonifacio, Recife-PE – abr2015

19- Como seria importante que todos pudessem compreender. Obrgada Giba C. Carvalho por esse belo presente. Elizabeth Costa Carvalho Andrade, Recife-PE – abr2015

20- muito bom gostei mesmo do seu domínio com as palavras do seu pensar! pena que não podemos mais criar outro mito como esse que mudou ate o calendário o tempo contado da nova história criado por esse mito! gostaria de usar minha consciência para uma nova história agregada a tecnologia e que não fosse uma tragedia como a de cristo que convenceu a humanidade que na dor seremos salvos! o destino que temos que nos agarrar! obrigado amigo gostei de ler! Luis Carlos Pedrosa, Fortaleza-CE – abr2018

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Destino e intuição

06/07/2013

06jul2013

A intuição pode nos conectar não apenas com o passado, onde estão as causas do que agora vivemos, mas também com o futuro, onde viveremos a consequência de nossa decisão no tempo presente

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DESTINO E INTUIÇÃO

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Algumas pessoas creem em destino, no sentido de que, não importa o que façamos, nossas vidas correm inevitavelmente para um determinado ponto no futuro, já programado de antemão. Para outras pessoas, porém, o futuro está sempre aberto e é formado a cada decisão tomada no presente. Eu, particularmente, desconfio que, sendo uma coisa ou outra, nosso futuro está de algum modo ligado à intuição, essa coisa misteriosa.

Para a psicologia junguiana, a intuição é uma função psíquica que nos permite perceber as possibilidades inerentes a determinada questão de uma forma não racional, pois apreende a realidade instintivamente, por meio do inconsciente, sem a participação do pensamento lógico consciente. É a intuição que nos fornece súbitas revelações e novas perspectivas: de repente intuímos, sem qualquer lógica envolvida, que é melhor fazer desse jeito que de outro jeito, e isso, depois, se revela a decisão acertada. Qual foi a sensação, o pensamento ou o sentimento que nos levou a tomar a decisão correta? Nenhum deles. Foi outra coisa. Foi um entendimento súbito e não racional da totalidade da questão. A intuição é, assim, uma função psíquica que nos conecta com o todo. Uma função holística.

E o futuro? É aquela possibilidade que se realizará dentre todas as possíveis. Como as possibilidades se ramificam a partir do presente em direção ao futuro, decidir por uma é anular automaticamente as demais e, ao mesmo tempo, abrir uma nova teia de ramificações. Assim, existem muitos futuros hipotéticos, cada um esperando nossa decisão para acontecer. Há futuros bons e ruins a nos aguardar, e o que determina qual deles se realizará é a decisão individual – ainda assim ela não é o único fator envolvido, pois o que pensamos e fazemos depende do que outros pensam e fazem, numa inter-relação muito dinâmica e complexa. Porém, o que está ao nosso alcance é justamente a nossa parte na infinita teia das possibilidades: a decisão pessoal.

Diante da necessidade de escolha, geralmente seguimos a lógica do pensamento racional (irei por esta rua, pois é mais seguro), do sentimento (gosto mais de fulano que de sicrano) ou da sensação (aqui está mais quente que ali). Às vezes, porém, algo nos parece avisar que nenhuma dessas funções é o melhor guia e, assim, decidimos seguindo uma espécie de conselho interior misterioso, que às vezes vai contra a lógica das demais funções. É assim que a intuição age.

Ora, quem tem mais informações tem, obviamente, condições de analisar melhor e tomar a melhor decisão. Se a razão ou o sentimento ou a sensação apreendem parte por parte da teia de possibilidades, separando, discriminando e julgando, a intuição apreende de imediato a teia como um todo, e o todo da questão inclui também o tempo. Como não está ligada à mente consciente, mas ao inconsciente, que não respeita a lógica do tempo linear, a intuição pode nos conectar não apenas com o passado, onde estão as causas do que agora vivemos, mas também com o futuro, onde viveremos a consequência de nossa decisão no tempo presente. Assim sendo, se buscamos o nosso melhor futuro, a intuição não pode ser desprezada sob pena de limitarmos a avaliação da questão ao agora.

Talvez a intuição seja isso, uma espécie de atalho atemporal. Entre a inevitabilidade do futuro e a incerteza do que virá, a intuição pode ser justamente o passaporte que nos levará ao melhor destino possível. Porém, é necessário confiar nela. Você confia?

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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Este texto integra o livro Blues da Vida Crônica

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Analisando o filme Matrix pela ótica da mitologia e da psicologia do inconsciente e usando uma linguagem simples e descontraída, RK compara a aventura de Neo ao processo de autorrealização que todos vivem em suas próprias vidas.

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01- linda plataforma. Marcos Felix, Ceilândia-DF – jul2013

02- Eu confio na minha!!!!! Ana Maria Alcantara, Rio de Janeiro-RJ – jul2013

03- Posso compartilhar??? Adoro este tema… Luciana Brasileiro de Holanda, Campina Grande-PB – jul2013

04- “Eis o mistério, o que está por trás da intuição? Será o inconsciente mais poderoso que o “limitado” consciente? Sein und zeit, já questionava Heidegger… Esse assunto não me abandona por mais que tente, grande Kelmer. Abraços!” Teo Lorent, São Paulo-SP – ago2013