Marchando com as vadias

25mai2013

Se ser vadia é ser livre para exercer a própria sexualidade, então todas as mulheres precisam urgentemente assumir sua vadiagem, para o seu próprio bem e o de suas filhas

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MARCHANDO COM AS VADIAS

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A cultura patriarcalista e as religiões cristãs sempre temeram a sexualidade da mulher. Durante séculos a união do machismo com a religião fez as mulheres reprimirem sua própria liberdade, tudo em nome da família e de Deus, claro. As que ousavam viver naturalmente sua sexualidade, como os homens heterossexuais sempre viveram a sua, eram xingadas, perseguidas, agredidas, execradas, expulsas, estripadas, assassinadas, queimadas em fogueiras. E, evidentemente, iam para o Inferno, arder eternamente pelo pecado de serem livres.

Hoje, a repressão diminuiu, pois a cultura machista e a religião felizmente já não têm tanta força. Mas, de modo geral, a sociedade ainda teme a sexualidade feminina e, infelizmente, grande parte das próprias mulheres contribui para a manutenção dos valores machistas, aceitando certas vantagens que ele oferece mas esquecendo que essas tais vantagens cobram um alto preço no balanço geral. E muitas mulheres ainda não conseguem aceitar a independência sexual de outras mulheres, e assim unem-se aos estupradores ao criticá-las por serem… livres.

A apropriação do termo “vadia” pelas próprias mulheres é uma boa estratégia de luta, pois usa a força do agressor contra ele mesmo. Se ser vadia é ser livre para exercer a própria sexualidade, então todas as mulheres precisam urgentemente assumir sua vadiagem, para o seu próprio bem e o de suas filhas. Muitas se sentem incomodadas com o termo, e isso é compreensível, mas o significado das palavras muda com o tempo e talvez as mulheres da próxima geração não tenham qualquer problema em dizer que são vadias e os homens que não temem o feminino terão orgulho da vadiagem de sua mulher.

Com os termos “louco” e “maluco” aconteceu algo parecido. Cansados de serem assim estigmatizados, os artistas, os trangressores e os inconformistas se apropriaram dos termos e hoje é comum que eles mesmos se autodenominem loucos, malucos e vagabundos, e não apenas eles mas muitas outras pessoas que discordam da normalidade. A imposição ditatorial de normas de comportamento, principalmente sexual, gera inevitavelmente esse tipo de repúdio e revolta. Mais justo seria respeitar as diferenças e aplaudir a liberdade de sermos quem somos.

Eu sou louco e vadio. Por isso prefiro as loucas e vadias, as putas, as vagabas e todas as que desafiam a cultura e a religião em busca da própria liberdade de ser. E é por isso que marcho feliz e orgulhoso ao lado delas.

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Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

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IMAGENS DA MARCHA DAS VADIAS

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LEIA NESTE BLOG

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A noiva lésbica de Cristo – Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco

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A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…

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DICAS DE LIVROS

A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, Editora Objetiva/2005) – A ex-bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e submissão através do sexo anal

A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990) – Um livro belo e libertador, que celebra o sagrado na sexualidade

Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino – Livro de contos e crônicas sobre a mulher

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COMENTÁRIOS
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01- legal o texto, mas essa foto com a modelo branca, magra, de calcinha e super sensualizada me cheira a objetificação. principalmente porque o texto foi escrito por um homem. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – mai2013

RK: Adorei o cometário, Wanessa. Escolhi essa imagem provocativa por dois motivos. Primeiro porque ela atrai a atenção de muitos homens, que devem ser provocados pelo assunto e rever seus conceitos sobre a sexualidade feminina (não é fácil falar de feminismo para homens). E, depois, porque é o tipo de imagem que instiga justamente este aspecto da questão: é válido usar sensualmente o corpo da mulher para divulgar as lutas feministas? Na Marcha das Vadias vemos muitas mulheres bonitas exibindo seus seios. Elas estariam objetificando a si próprias? Elas podem mas um homem não pode? (mai2013)

02- mostrar os seios na Marcha é uma questão de empoderamento, de dizer “isso é meu e de mais ninguém” e muito disso de mostrar os seios é justamente pra dessexualizá-los. muitas feministas são contra a imagem das glândulas mamárias como órgão sexual porque isso não acontece com os mamilos masculinos. Wanessa Bentowski, mai2013 – Fortaleza-CE

RK: Feministas mostram os seios na Marcha das Vadias como forma de afirmar o poder sobre o próprio corpo. Muito justo. Mas dessexualizar os seios da mulher apenas porque os seios do homem não são igualmente sexualizados? Isso não faz sentido, e acho que não seria possível pois os seios femininos são naturalmente sexualizados por serem zonas erógenas e darem prazer sexual a homens e mulheres, além de estarem ligados a um dos prazeres primários da vida, que é o de mamar. (mai2013)

03- tenho visto muitas criticas cegas. a maiora que critica nao sabe nem o que ta acontecendo, mas como todas as coisas em nosso país, os professores tambem foram criticados pela greve e ninguém sabia ao certo do que estava falando. Sandra Xavier Amarantha, Poá-SP – mai2013

04- se a Herlene tivesse usado essa imagem na postagem do blog dela, eu iria estranhar porque isso não é habitual na comunidade feminista, onde se prefere imagens reais de mulheres comuns, mas isso não iria me incomodar muito porque ela não é o gênero opressor, você sim, e simbolicamente isso tem muita força. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – mai2013

RK: Então a imagem da minha crônica te incomoda porque foi um homem que a postou? Sim, eu sei que por ser homem, sou do mesmo gênero que oprime as mulheres. Mas o machismo oprime também a homens como eu, e as mulheres são oprimidas também pelas próprias mulheres. Isso mostra que o que oprime não é o gênero masculino, mas a cultura machista e patriarcalista.

Algumas feministas sustentam que uma mulher pode usar uma imagem de uma mulher bonita e sensual para defender o feminismo, mas os homens, por pertencerem ao gênero opressor, não podem. Se, por exemplo, eu usar, estarei sendo um instrumento da ditadura da beleza ou contribuindo para a objetificação feminina – mas se uma mulher usar, tudo bem. Seguindo essa lógica, só posso usar imagens de mulheres feias ou comuns e nada sensuais. Isso seria terrível para mim particularmente, pois o erotismo faz parte do meu trabalho. E soa um tanto… opressor. No mínimo, seria um tipo de ditadura do comum e do insosso. Não me parece o melhor caminho. (mai2013)

05- só pra encerrar, o problema não tá em mostrar imagens de meninas no padrão de beleza vigente, o problema tá em SÓ mostrar meninas nesse padrão. eu não me referi a todos os seus textos, só a essa imagem nesse texto específico. eu sei que o erótico tá muito presente no seu trabalho. acho que a erotização da mulher em todo e qualquer contexto não é uma atitude feminista. eu te conheço bem, sei que vc não é oportunista, mas eu não bato palma pra homem porta-voz de feminismo porque a imensa maioria só é feminista quando convem. sei que posar de bonzinho na internet é bem diferente de combater o machismo em ambientes claramente machistas e onde quem é homem leva vantagem, no meio de amigos homens por exemplo. e isso eu sei que vc faz. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – mai2013

06- e assim como existem críticas cegas, existem defesas cegas vindas de pessoas sem conhecimento sobre o assunto, misturando assuntos que não cabem nesse contexto com o único intuito de agradar, né, queridinha? Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – mai2013

RK- Algumas feministas radicais afirmam que nenhum homem tem legitimidade suficiente para defender o feminismo pelo simples fato de que são homens. Sim, sou homem e meu gênero é o do opressor, mas isso por si só me desqualifica a defender a igualdade de direitos entre mulheres e homens? Seguindo essa lógica, nenhum branco teria moral para lutar contra o racismo, nenhum heterossexual estaria qualificado para marchar a favor da diversidade sexual e nenhum civilizado poderia defender os índios. Levando essa lógica mais adiante, nem os próprios ecologistas teriam legitimidade para defender a Natureza e os animais pois todos fazemos parte da espécie destruidora.

Há homens machistas e homens feministas, assim como há mulheres machistas e feministas. Percebo que, na ânsia de destruírem o machismo, muitas mulheres veem em cada homem um inimigo emboscado pronto para oprimi-la e, assim, todos nós viramos farinha do mesmo saco. Entendo a revolta das mulheres e o ódio acumulado por tanto tempo de opressão, mas essas mulheres precisam compreender que há homens que também são oprimidos pela mesma cultura que estupra a mulher, e eles também lutam pela mesma causa que elas. Por que não nos unirmos?

O feminismo é uma luta humana e não apenas das mulheres, e ela integra o contexto maior da luta pela liberdade de ser e por um mundo mais justo. Se o feminismo tem um rosto, ele é humano. (mai2013)

07- não conheço nenhuma feminista que não adore homens que se dizem feministas. homens são aliados muito bem-vindos, mas acho que o feminismo tem que ser protagonizado por mulheres, assim como o movimento negro vai ser sempre protagonizado por pessoas negras. o que eu noto em muito homem feminista é uma necessidade do cara de dizer “olha aqui como eu sou legal”, mas botar a mão na massa de fato ele não faz e ainda assim leva mérito por isso. é um sintoma triste que até no feminismo, um homem seja mais ouvido do que uma mulher. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – mai2013

RK- Superobrigado por comentar, Wanessa. Aprendo bastante com suas observações.

Conheço mulheres que afirmam que nenhum homem, mesmo que seja feminista, tem moral para criticar o movimento feminista, justamente por ser homem. Isso mostra que elas consideram os homens insuficientemente qualificados para lutar pelo feminismo, já que a luta inclui também apontar equívocos do próprio movimento.

Quanto aos homens feministas da boca para fora, é claro que existem, assim como existe muita mulher que critica o machismo mas que acha certo que o homem sempre pague sozinho a conta do motel. Porém, quando o assunto é feminismo, que homem é mais lido ou ouvido que Rose Marie Muraro, Regina Navarro Lins ou Lola Aronovich? Mas mesmo que seja, se esse homem defende a igualdade de direitos entre gêneros, é bom que ele seja ouvido, não? E que, evidentemente, seja o próprio exemplo do que prega.

Sabe, acho que um dia a consciência coletiva estará madura o suficiente para perceber que o feminismo, assim como as antigas lutas abolicionistas e as atuais lutas contra o racismo e a discriminação sexual, são lutas que se misturam e fazem parte da grande luta contra os sistemas opressores da liberdade de ser, e que todos os que lutam são, sim, protagonistas.

Se nenhum homem pode ter qualquer tipo de protagonismo no movimento feminista, mesmo que as feministas concordem com tudo o que ele diz e faz, então o que devem fazer escritores como eu, que são declaradamente feministas e estão sempre escrevendo sobre igualdade de direitos? Devemos escrever menos para não correr o risco de sermos considerados ilegítimos protagonistas do movimento? Ou devemos criar uma dissidência do feminismo, uma espécie de feminismo sem gênero, onde possamos escrever à vontade, sem medo de ser muito lido? Bem, eu não quero criar dissidência nenhuma, nem quero ser protagonista de nada.

Acho que seguirei escrevendo, que é o que sei fazer. E defendendo não apenas o feminismo, mas também a diversidade humana. E combatendo a imposição de modelos de amor e todos os tipos de opressão que limitam a liberdade de ser. Se minha voz é masculina, a causa é humana, e é a causa que importa. (mai2013)

09- é claro que você deve continuar escrevendo, e eu vou continuar lendo, elogiando quase tudo e criticando as coisas destoantes, como essa imagem. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – mai2013

RK- Wanessa, vou contratar você como consultora de imagens feministas. Esta aqui embaixo tá aprovada? https://blogdokelmer.com/2010/05/04/quem-tem-medo-do-desejo-feminino-1 (mai2013)

10- haha sim, passou pelo controle de qualidade porque você tá falando de desejo sexual e claro que a imagem tinha que fazer jus ao contexto da crônica. o que me incomoda é a hiperssexualização da figura feminina todo o tempo sem nenhuma justificativa, isso me incomoda especialmente em um texto feminista. agora peço licença pra me retirar da discussão porque já tô virando a feminazi chata do teu facebook. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – mai2013

11- Aí é cabeção, grande abraço brother. Welington Lopes Silva, Ceilândia-DF – mai2013

12- #WillPirouNaImagemDoPost. Will Simões, Campina Grande-PB – mai2013

13-  Adoro ver as mulheres lutando pelos os seus direitos, assumindo-se e conquistando espaços. O que me incomoda é essa exposição desnecessária, falo de saírem nuas e vestindo-se de frases vulgares para tentar impor as outras pessoas respeito. Mulheres têm todo o direito de vestirem-se como querem, de ficarem nuas quando bem entenderem, independente de ser uma “gostosona” ou não, o problema é que muitas fazem isso só mesmo pelo o fato de radicalizarem ou aparecer, e esse pra mim que é o problema. Infelizmente em todos os protestos há os falsos protestantes e aí está o motivo de muitas lutas não serem levadas à sério. Renata Kelly, Fortaleza-CE – mai2013

RK- Obrigado por comentar, Renata Kelly. Eu acho necessária, sim, a exposição da nudez pois a nudez dessas mulheres nos protestos é, acima de tudo, um ato de resistência (o corpo é meu e não abrirei mão do meu direito sobre ele) e também é um modo eficaz de atacar o machismo num ponto nevrálgico, usando justamente o que atrai os homens para fazê-los aprender que uma mulher vestida dessa ou daquela forma, ou mesmo nua, não é um convite para a violência. Elas estão querendo aparecer? Ótimo! Quanto mais visibilidade, mais a questão será discutida.

Sobre a vulgaridade… Isso é muito relativo. Vulgaridade está no olho de quem vê. Eu, particularmente, nada vejo de vulgar na Marcha das Vadias. Palavras de ordem como “A buceta é o meu poder” estão num contexto de legítima afirmação do corpo e, verdade seja dita, a buceta realmente é o poder da mulher. Se o corpo é o símbolo desse movimento de protesto antimachista, a buceta é o que melhor representa o corpo da mulher que protesta. A buceta é o paraíso profano do prazer, o portal sagrado da vida, viemos todos dela. Aliás, há homens, como eu, que estão sempre querendo retornar, mas isso é outro assunto.

Por ser tão poderosa, é justamente ela, a buceta, o que os estupradores almejam como troféu ensanguentado de sua força opressora. Assim sendo, nada mais simbólico que fazer da buceta a bandeira da resistência e do protesto e de ter orgulho de exibi-la na cara dos machistas. Enxergar vulgaridade nisso pode denotar um tipo de vergonha de si próprio e do que é natural, um resquício maldito de nossa colonização cristã, que sempre associou o corpo e a Natureza ao pecado.

Nas passeatas dos anos 1960 as feministas queimavam sutians. Não foram poucas as mulheres que acharam isso vulgar e prejudicial ao feminismo. Pois bem, hoje a situação social da mulher é muito melhor, graças também aos sutians queimados. Muitos homens, porém, e muitas mulheres, ainda hoje culpam a própria mulher que é estuprada. Contra essa mentalidade estúpida, só mesmo atos radicais como a nudez e os protestos na Marcha das Vadias. (jun2013)

14- Verdade Ricardo Kelmer, a mulher tem uma grande arma, o seu corpo, como vc falou, a sua “buceta”, e como essa é poderosa viu. rs! E também é verdade que a vulgaridade está no olho de quem ver, infelizmente a sociedade ainda é bastante “cega” e atrasada diante as conquistas femininas. Falei da exposição desnecessária, devido muitas fazerem uso dessa exposição sem ter uma causa ou algo a protestar, como vi algumas conhecidas fazerem isso na marcha aqui em Fortaleza, só mesmo pelo o fato de “Eu vou ficar famosa!”. Como falei, há hoje tantos falsos protestantes, por isso sempre há grande desrespeito e confusões nesses protestos. Seria maravilhoso se levássemos mais as nossas causas à sério e respeitássemos o espaço de cada um. Na verdade se começássemos nos respeitando mais e nos amando mais, teríamos esses sentimentos também pelo o outro e viveríamos em um mundo com menos desigualdade, sem preconceitos e mais livre… É um sonho a ser realizado! 😉 Renata Kelly, Fortaleza-CE – jun2013

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