A Matrix em cada um de nós

20/05/2013

20mai2013

Em busca da realização mais íntima (tornar-se o Predestinado), o ego deve empreender uma longa jornada de autoconhecimento onde não faltarão medos e conflitos para fazê-lo desistir

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A MATRIX EM CADA UM DE NÓS

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Em termos psicológicos, a aventura de Neo, o herói do filme Matrix, é uma reedição moderna da antiga jornada humana rumo à autorrealização, ou seja, à realização do si-mesmo, o mais importante dos arquétipos, aquilo que há de mais profundo e verdadeiro em nós. Autorrealizar-se significa desenvolver o potencial adormecido e nos tornarmos quem somos destinados a ser, porque é isso o que sempre fomos: a semente que já traz em si a árvore futura. Para isso, porém, a pessoa deve primeiro despertar, diferenciar-se da mentalidade comum da massa e conhecer quem de fato é ‒ uma grande aventura da vida inteira.

No primeiro filme mora a essência da história, e ela é uma metáfora da luta cotidiana de cada um de nós para nos realizarmos. O personagem principal é Neo, que, psicologicamente, representa o ego, centro da consciência, o arquétipo do eu. Em busca da realização mais íntima (tornar-se o Predestinado), o ego deve empreender uma longa jornada de autoconhecimento onde não faltarão medos e conflitos para fazê-lo desistir.

Mas o ego não está só na jornada. Na verdade, ele é apenas o gerente da psique, administrando os vários aspectos pelos quais ela é formada e que fazem o “eu maior”. Esses aspectos, por viverem no escuro do inconsciente (fora da percepção do ego), agem influenciando as ideias e atitudes, para o bem ou para o mal. Por isso, para autorrealizar-se a pessoa terá de reconhecer e lidar muito bem com eles. Os personagens principais de Matrix representam esses aspectos.

Morfeu é o incentivador, o componente yang da psique, que é associado ao masculino. Ele tem força, acredita e realiza. É a parte do eu que não se cansa de lutar pelos nossos sonhos, por mais loucos que pareçam, e é capaz de mover o mundo para torná-los reais. Quando tudo parece perdido é essa parte que permanece alerta, impulsiona e nos faz crer em nosso potencial.

Cypher é o traidor interno. Representa o componente sabotador do processo de crescimento psíquico. É a força retrógrada do eu total que sente falta do tempo em que tínhamos menos autoconsciência e, exatamente por isso, menos responsabilidades. Cypher está no poder quando desistimos de lutar e achamos mais cômodo permanecer onde estamos ou, se possível, regressar a um estágio anterior, menos comprometido com mudanças pessoais e novas verdades. Cypher tem medo de arriscar o novo e prefere a segurança do velho, o que provoca estagnação e crise. Ironicamente, o ego precisa desse perigoso aspecto para ser testado.

Trinity é o aspecto yin da psique, que é associado ao feminino, e representa o sentimento, a paciência e o cuidado. Ela é a porta para a dimensão do amor, imprescindível para que o ser se complete. A experiência dramática do amor, com todas as suas facetas, pode impulsionar o ego rumo a níveis avançados de autoconhecimento e autoaceitação. Mas o amor não poderá fazer tudo sozinho: é preciso assumi-lo e cuidar dele no dia a dia, fato que a maioria dos homens, ao contrário das mulheres, demora a assimilar. Trinity aceita seus sentimentos no fim, e é isso que ressuscita Neo, trazendo-a de volta à vida mais forte e capaz.

O Oráculo soa como contrassenso na história: num mundo supertecnológico, onde a ciência atingiu seu apogeu e tudo depende de máquinas e programas, que importância teria uma senhora vidente, cheia de mistérios e ditando profecias? O Oráculo é a dimensão do sagrado em nossas vidas, o arquétipo do divino, o numinoso, algo pelo que nutrimos sentimentos de profunda fé e respeito. Pode ser uma religião formal, uma antiga tradição espiritual ou uma crença religiosa particular. Pode ser uma conexão intuitiva com a natureza, com o cosmos ou a humanidade. Pode ser a arte, e até mesmo a própria vida. Mas sempre será algo diante do qual nos tornamos reverentes, justamente por ser muito mais antigo e maior que nós. O sagrado é obscuro, misterioso, arredio ao intelecto, e jamais o definiremos com exatidões científicas – mas sem ele ficamos à deriva no grande caos da existência. Que seria dos resistentes de Matrix sem a fé no Oráculo?

Há ainda os agentes, sempre buscando eliminar os que se diferenciam. São representantes da própria sociedade, que age como boiada para melhor se organizar e se proteger, pois para ela é melhor que todos ajam e pensem de forma igual. A estratégia é natural e eficiente para a sobrevivência da espécie, sim, mas tem um alto custo: a anulação do indivíduo e a negação de sua singularidade. A maioria dos que tentam se diferenciar é dissuadida pela força da cultura ou por seu próprio sabotador interno e, com medo, volta à segurança da massa.

Mas alguns não desistem e, apesar das dificuldades externas e dos conflitos internos, prosseguem em sua transformação pessoal rumo ao si-mesmo, à realização de sua potencialidade. São esses os predestinados que, com seu exemplo, incentivam outros a fazerem o mesmo. Assim como Neo, aquele que se autorrealiza provoca a sociedade do melhor modo possível, forçando-a a reavaliar suas regras e transformando-a.

Tudo, porém, tem início com o despertar, aquele toc-toc-toc na porta da consciência: acorde!

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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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> Este texto integra o livro Blues da Vida Crônica

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SOBRE O FILME

MatrixDVDCapa-1Matrix (The Matrix, EUA, 1999)

ARGUMENTO, ROTEIRO E DIREÇÃO: Lilly e Lana Wachowski
ELENCO: Keanu Reaves, Lawrence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving

No futuro, a humanidade é prisioneira de sua própria criação, a Inteligência Artificial, que criou a Matrix, uma realidade virtual onde foram inseridos todos os seres humanos para que eles não oponham resistência ao poder das máquinas. Todos não, pois um grupo de rebeldes mantém-se fora dessa realidade e luta para libertar o restante da humanidade. Eles creem na profecia do Oráculo que diz que um Predestinado um dia virá para vencer as poderosas máquinas e salvar a todos. Para eles, Neo, um jovem que vive na Matrix, é o Predestinado. Neo de fato desconfia que há algo errado com a realidade mas não pode aceitar que ele seja o tão aguardado salvador.

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MATRIX, PSICOLOGIA E MITOLOGIA NO LIVRO:

Matrix2012Capa14x21aMatrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas

Analisando o filme Matrix pela ótica da mitologia e da psicologia do inconsciente, e usando uma linguagem simples e descontraída, RK compara a aventura de Neo ao processo de autorrealização que todos vivem em suas próprias vidas.

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Mulheres na jornada do herói – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres, pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

Seguir a boiada ou as próprias convicções? – Podemos, cada um de nós, começar a agir de acordo com as nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Profundo hein Ricardo Kelmer! Amo tudo o que fala do “Si Mesmo”, deste mundo grandioso de possibilidades que levamos dentro de nós mesmo, mas que muitos não acreditam ter ou ser. Também acredito que somos essa “a semente que já traz em si a árvore futura”. Renata Kelly, Fortaleza-CE – mai2013

02- Me lembrei agora de Por uma cultura de paz!!! Kathia Albuquerque, Fortaleza-CE – mai2013

03- Toc-Toc-Toc… Robert Pereira, Salvador-BA – mai2013

04- Excelente artigo. Exercer o eu é poder, liberdade, transformação e unidade. Sorrisos de êxtase lendo o texto. Nayanna Freitas, Fortaleza-CE – mai2013


O major da China

08/05/2013

08mai2013

A folha em branco era o próprio Partido Comunista Chinês a me desafiar, ou você escreve trinta linhas ou então zapt!

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O MAJOR DA CHINA

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Com 11 anos, entrei para o Colégio Militar, e lá se foi meu cabelão anos 70. No início, até me empolguei com a novidade, mas aos poucos emergiram incompatibilidades com a filosofia militar. Eu era um aluno estudioso, sim, mas ali a minha energia criativa e os anseios de liberdade não tinham muito espaço. O colégio parecia desafiar minha natureza, ei, mocinho, esse lugar é pequeno demais para nós dois…

Passar por média era importante, mas bem melhor foi me sagrar campeão do Torneio de Tampinha de 1977, organizado pelo grêmio, uma final arduamente disputada entre eu e Celestino ‒ e a medalha, ostentei-a orgulhosamente no peito por meses. Havia uma máfia que protegia calouros em troca de lanche na cantina, e eu fiz parte, claro. E participava das excursões ao Colégio Imaculada Conceição para paquerar as alunas, e depois, inspirado nelas, escrevia contos eróticos que circulavam secretamente durante as aulas. Era divertido. Mas havia todas aquelas regras, hierarquias, a ênfase no obedecer ordens…

Então, na sétima série, o major professor de geografia, disciplina que eu adorava, marcou a prova final. E, como sempre, nos passou cinco temas para a redação, um deles cairia. Segui minha velha e infalível estratégia, inspirada na lei das probabilidades: estudar três temas, dar uma olhadinha no quarto e desprezar o quinto. Pois dessa vez falhou: caiu a China, o tema que eu não estudara. Putz, bateu logo a angústia. Eu, um dos melhores em geografia, tirar zero na redação, que vergonha. Respirei fundo, me concentrei. Mas a folha em branco era o próprio Partido Comunista Chinês a me desafiar, ou você escreve trinta linhas ou então zapt!

Aumentei logo o tamanho da letra, recurso básico. E tratei de errar aqui e ali, riscando e reescrevendo em seguida, tudo para preencher as trinta linhas. Sobre a China, nada de economia, clima, bacias hidrográficas, apenas o ridiculamente óbvio: era um país enorme, ficava na Ásia, capital Pequim, o Japão ao lado, e tinha a muralha. Estiquei bem o trivial, que nem os olhos dos chineses. No fim, percebi, desanimado, que ainda restavam sete intermináveis linhas. O que mais poderia dizer?

Resolvi apelar para o bom humor. O major, gente boa, ia entender. “Como já disse no primeiro parágrafo, caro professor, a China é o país mais populoso do mundo. Há quem diga por aí que isso se deve, veja só o senhor, ao fato dos chineses comerem com dois pauzinhos. Mas não há confirmação científica.” Pois é, juro por minha medalha de ouro de tampinha que escrevi isso. A piadinha cumpriu seu papel, sim, mas ainda restavam três malditas linhas. Então, aberta a porteira, soltei a boiada: “Bem, major, isso é tudo que sei. Se o senhor quiser saber mais, só me resta dizer: vá pra China!”

Entreguei a prova satisfeito, crente que minha espirituosidade renderia uma boa nota. Três dias depois, o major manda me chamar, eu deveria vestir a farda e ir até sua residência. Como morávamos próximos, fui caminhando até lá, sonhando com honras ao mérito. Ele me recebeu fardado, muito sério. Bati continência e ele me conduziu à sua sala. E me passou um sermão que jamais esquecerei. Falou de minha petulância e falta de respeito, que eu zombava da autoridade, que se eu pensava que podia mandá-lo para a China e ficar impune, estava muito enganado. “Por causa dessa estupidez, vou lhe dar um zero, não só na redação mas na prova inteira, e você vai para a recuperação! E só não será expulso do colégio por consideração a seu pai, de quem sou amigo!”

Expliquei que não quis ofender, só tentei por um pouco de humor… “Respeite a instituição, aluno! O Colégio Militar não é circo!”, ele metralhou, do alto de sua patente, os meus ingênuos 13 anos. Mas major, eu só estava brincando, o senhor não sentiu? “Eu não julgo as coisas pelo que sinto! Eu julgo pelo que vejo!”

Saí de lá humilhado. E decepcionado, pois gostava do major, era um bom professor. Mas o pior era a recuperação em geografia, que merda. Por essas e outras é que no ano seguinte saí do colégio. Por vontade própria, bom que se diga. Comemorei deixando o cabelo crescer por um tempão, viva a liberdade capilar!

Não guardo nenhum ressentimento, pelo contrário, tenho ótimas lembranças. O Colégio Militar me ensinou disciplina, me deu amigos e uma medalha de ouro. E o major? Nunca mais vi. Hoje rio do episódio e percebo que serviu para a fortalecer minhas convicções, por isso sou grato ao meu professor. Tornei-me escritor profissional e sempre lutei para que as regras não tolhessem minha criatividade e meus sonhos. A vida não é um quartel, mas há algo pelo qual vale a pena fazer uma guerra, ah, vale: é a essência do que somos.

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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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> Postagens no tema “biográfico”

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01- Kelmer, eu nao conhecia esta sua estoria. Parabens, e realmente foram anos incriveis! Helder Avila, Fortaleza-CE – jun2013

02- Histórias verídicas da época do Colégio Militar contadas pelo meu amigo Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos. Quem não acreditar, vá pra China. Rsrs João Ilo Barbosa, Fortaleza-CE – jun2013

03- Que legal!!! Gostei do que li!!! Adeli Timbó, Fortaleza-CE – jun2013

04- Lembro de uma discussão que tive com o Maj. Studart na sala, sobre o Rio Nilo. Eu não aceitava que o Nilo nascesse no centro sul da África e desaguasse no Mediterrâneo que fica bem ao norte. Caramba, foi metade da aula para entrar na minha cabeça que Sul, não sobe para o Norte e o Norte não desce para o Sul. rsrsrsrsrsrs. João Guy Almeida, Fortaleza-CE – jun2013


Terror e êxtase na caverna

15/04/2013

15abr2013

Durante um tempo, ali fiquei, em êxtase, me sentindo parte de tudo aquilo, em paz com a caverna e comigo

TerrorEExtaseNaCaverna

TERROR E ÊXTASE NA CAVERNA

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Anos atrás fui convidado a participar de uma expedição do Ibama à gruta de Ubajara, no Ceará. Mas não seria uma visita comum, de grupos de excursão, com limites fixados para se aventurar na gruta. Participariam apenas espeleólogos, agrônomos, geólogos e arqueólogos de vários estados, e o grupo estava autorizado a ultrapassar os limites turísticos e seguir até o mais distante ponto conhecido.

De manhã cedo, o chefe da expedição reuniu o grupo de vinte e três pessoas, distribuiu capacetes, lanternas, cordas, sacos de lixo e atentou para que não deixássemos nenhum objeto lá dentro. Explicou que seguiríamos por uma via de difícil acesso rumo à Sala das Maravilhas (67m de profundidade, percurso de 1.120m), local alcançado por poucos devido ao alto grau de dificuldade. Lembrou as técnicas básicas, a posição firme do pé de apoio, manter sempre à vista o colega da frente. Apresentou-nos o guia mestre, que conhecia bem a via e seguiria à frente de todos. Então dividiu-nos em três grupos, cada um com seu guia próprio, e lá fomos nós, fila indiana, desafiar os segredos da grande caverna.

Eu já visitara a gruta como turista. Agora era diferente. Desde o início, senti uma solenidade no ar, como se realizasse algo muito importante. À medida que descíamos, o ar se tornava mais úmido e pesado e a respiração mais difícil. A caverna nos envolvia em seu manto de escuridão silenciosa e tudo em nós era concentração, esforço e cuidado. E respeito, muito respeito por tudo aquilo que a Natureza criara havia milhares de anos e que, gentilmente, nos permitia explorar.

Logo, as dificuldades começaram. Certas passagens eram tão estreitas que alguém mais gordo não passaria. As encostas enlameadas, difíceis de escalar, provocavam quedas. Havia trechos onde o teto era tão baixo que nos arrastávamos pelo chão, meio corpo dentro dágua. Cada guia, por ser mais ágil e experiente, tinha a missão de ir à frente, fixar bem a corda e aguardar que o restante de seu grupo finalizasse a passagem. Senso de equipe era fundamental: todos tinham que ajudar e ser ajudados.

Aos poucos, a tensão, o cansaço e o medo minavam as forças, forçando a desistência de alguns. Esses paravam, sentavam e ali mesmo ficavam, sempre acompanhados, para aguardar o retorno dos que prosseguiam. E eu? Eu era o próprio entusiasmo. Sentia a caverna como algo vivo, dona de uma força imensa e sabedoria própria, e isso me enchia de uma profunda reverência. Alguns passaram maus bocados, mas eu me sentia muito à vontade, como se sempre tivesse feito aquilo.

De repente, nos deparamos com um estreito buraco no chão. Já caminhávamos por três horas e estávamos cansados, mas ainda teríamos que passar por ali para alcançar o nível inferior seguinte, que enfim nos levaria ao trecho final. O guia mestre, segurando a corda-escadinha, já nos aguardava lá embaixo para auxiliar na descida. Nesse momento, algo curioso aconteceu. A espeleóloga que ia à minha frente chegou-se junto do buraco e então… ficou imóvel. Esperei que iniciasse a descida, mas, em vez disso, ela deitou-se ao chão e ficou na posição fetal, contorcendo-se. Percebi que seu corpo todo tremia e ela choramingava: “Mamãe… mamãe…”

O guia do grupo, mais experiente, entendeu logo o que se passava e me explicou: “Ela vai ficar boa, isso acontece até com os experientes. Vou ficar com ela. Daqui pra frente você assume o grupo.” Engoli em seco, sem acreditar. Guia do grupo, eu?! Em minha primeira exploração? Ele sorriu e confirmou, “Você vai conseguir”, enquanto tomava conta da mulher em sua crise de choro.

Meio atordoado com tudo aquilo, passei à frente, me aproximei do tal buraco e toquei a corda-escadinha, por onde desceria dez metros na escuridão. Segurei firme, botei os pés e… fiz a besteira de olhar para baixo. Imediatamente um estremecimento me percorreu por inteiro, corpo e alma. O coração quis sair pela boca e um pavor imenso me tomou o pensamento, impedindo qualquer raciocínio ou movimento. Quase borrei as calças. Por um instante, achei que também teria um colapso nervoso. Mas fechei os olhos e respirei fundo, tentando me acalmar. Precisava me controlar para fazer a descida com toda a atenção.

Quando finalmente toquei o chão, senti uma enorme alegria, vontade de sair gritando. Mas agora eu era o guia do grupo e precisava ajudar os outros. Depois daí vieram mais dificuldades e mais colegas desistiram, esgotados física e mentalmente. Eu continuei e, quatro horas depois do início, alcancei o destino final, com mais oito pessoas.

A Sala das Maravilhas parecia a abóbada de uma catedral. Havia pouca luz, mas vi que tinha uns quarenta metros de altura e sua beleza e imponência me faziam ridiculamente pequeno. Deitei-me ao chão, maravilhado, e fiquei quieto, olhos fechados, escutando o som musical dos pingos dágua que caíam lá de cima. Eu vencera. Superara as dificuldades, o medo e a própria desconfiança em mim. Durante um tempo, ali fiquei, em êxtase, me sentindo parte de tudo aquilo, em paz com a caverna e comigo. Tive vontade de ficar ali para sempre.

No fim da tarde, ao sairmos da gruta, eu sentia que algo havia mudado em mim. De fato, a experiência me tornaria um homem mais forte e autoconfiante. Por outro lado, me faria também mais humilde perante a Natureza. Explorar cavernas tem seus perigos, sim, mas muito mais perigoso é nos considerarmos separados da Natureza, nos julgarmos superiores e acharmos que podemos controlá-la. Se você ainda pensa assim, recomendo uma descidinha a alguma caverna. Não esqueça de manter firme o pé de apoio. E não custa nada levar papel higiênico. Mas não deixe nada lá dentro, tá?

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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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> Este texto integra o livro Blues da Vida Crônica

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CavernaUbajara-3.
A gruta de Ubajara está situada no leste do Estado do Ceará, no Parque Nacional de Ubajara, Serra da Ibiapaba, . Dista 3km do centro da cidade de Ubajara, possui uma área de 6.299 ha e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O acesso à gruta se dá por meio de teleférico, que desce mais 550m. Também é possível chegar à gruta pela trilha dos Cafundós, numa descida de mais de 4km. No período de janeiro a junho, a temperatura média é de 16 a 18 graus durante a noite, e entre 20 e 24 graus durante o dia. No período de julho a dezembro, a temperatura média é de 28 graus durante o dia, e de 19 graus durante a noite.

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CavernaUbajara-4.
A gruta de Ubajara tem 1.120m de extensão, dos quais 420m estão abertos ao público com o acompanhamento de guias. A gruta de Ubajara possui galerias e salas com formações de estalactites e estalagmites, como a Pedra do Sino, a Sala das Rosas, a Sala dos Retratos e a Sala das Maravilhas.

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> Mais sobre o Parque Nacional de Ubajara

360graus.terra.com.br
Blog Rotas Verdes

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Xamanismo de vida fácil – A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos

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Seguir a boiada ou as próprias convicções

09/04/2013

09abr2013

A pior morte será sempre a das nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos.

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SEGUIR A BOIADA OU AS PRÓPRIAS CONVICÇÕES

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A paquistanesa Malala Yousafzai, o israelense Nathan Blanc e o russo Sergey Balovin, com seus exemplos de vida, estão mostrando ao mundo que… sim, um outro mundo é possível. À sua maneira, agindo de acordo com suas convicções pessoais, eles simbolizam a grande luta que travam nesse momento muitas pessoas em todo o planeta: a luta contra a opressão e por um mundo mais justo e harmonioso.

Malala tem 15 anos e luta contra o fanatismo religioso dos talibãs no Paquistão, que impede que as mulheres tenham educação. Nathan Blanc tem 19 anos, recusa-se a prestar o serviço militar e por isso já foi preso várias vezes pelo governo de Israel. O pintor russo Sergey Balovin tem 29 anos e tenta viver sem dinheiro, trocando sua arte por bens e serviços. São jovens que vivem em culturas diferentes, mas ousaram desafiá-las, expressando sua discordância e mantendo-se leal aos seus próprios valores. E pagando o preço por isso.

Religião, dinheiro e guerra – as três coisas têm muito a ver. Em nome delas os humanos perdem a razão, tornam-se fanáticos e se oprimem e se matam. No entanto, desde pequenos nos ensinam que elas são necessárias, que sem religião vamos para o Inferno, que com dinheiro compraremos a felicidade e que precisamos destruir quem pensa diferente de nós. O ensinamento é tão eficaz e dogmático que as pessoas não conseguem imaginar um mundo sem religião, sem dinheiro e sem inimigos e, assim, repassam os velhos dogmas aos seus filhos, e o mundo segue o mesmo, cultuando deuses misóginos, injustos e sanguinários, que exigem vidas e mais vidas em seu nome.

Sim, é defendendo ferrenhamente seus valores culturais que as sociedades se afirmam no mundo. Porém, elas também precisam ser renovadas senão envelhecem e entram em colapso. Parece contraditório, mas essa tensão permanente entre o antigo e novo é que movimenta a cultura, levando-a a explorar suas potencialidades. E é justamente para renovar a sociedade que, vindos de dentro delas mesmas, surgem os indivíduos que a contestarão e trarão os novos valores, forçando as pessoas a erguerem-se um pouco acima de sua própria cultura e a ampliar sua visão da realidade.

A vida dos contestadores, porém, não é fácil, pois não é simples libertar-se dos condicionamentos culturais e religiosos aos quais somos submetidos desde que nascemos. Eles estão tão entranhados em nosso entendimento da realidade que abandoná-los é como morrer, pois morre em nós aquilo que nos liga à cultura ao redor. Mas a pior morte será sempre a das nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos.

O preço a pagar pela autenticidade pode ser a incompreensão e a solidão, pois a boiada não tolera os que se diferenciam. O preço a pagar pode ser a violência, pois essa é a única linguagem dos opressores e fanáticos. Porém, para os que cultuam a liberdade de ser, é libertando-se um pouco a cada dia que o espírito se fortalece e inspira outros espíritos.

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Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

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SOBRE MALALA, NATHAN E SERGEY
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MalalaYousafzai-3Adolescente atacada por talibãs publicará sua história – Malala Yousafzai prossegue em sua luta contra o fanatismo religioso que impede a educação de mulheres. Ela foi baleada na cabeça em um ataque cometido no dia 09.10.13 contra o ônibus escolar no qual viajava no Vale do Swat (noroeste do Paquistão) por um grupo talibã que queria castigá-la por seu compromisso em favor da educação das meninas paquistanesas. Dias depois, foi transferida ao Reino Unido, onde foi tratada e submetida no início de fevereiro a duas cirurgias de reconstituição craniana. Em mar2013 a adolescente pôde voltar à escola, desta vez em Birmingham (centro da Inglaterra), onde a família viverá por algum tempo. Malala, que tem 15 anos, é uma das candidatas ao prêmio Nobel da Paz 2013.

UmMundoMelhorSergeyBolavin-1Artista russo vive sem dinheiro trocando retratos por bens e serviços – O artista russo Sergey Balovin encontrou uma maneira de viver pura e simplesmente de sua arte. Ele vive sem dinheiro, pintando retratos de amigos, conhecidos e desconhecidos e usando as obras para pagar alimentação, serviços, hospedagens e outras necessidades básicas diárias.

UmMundoMelhorNathanBlanc-1Israel prende jovem que se recusa a entrar no exército – Nathan Blanc tem 19 anos e nas últimas 19 semanas foi preso oito vezes por ser contra serviço militar. Nathan sente uma forte conexão com seu país, do qual tem orgulho em vários aspectos. “Mas tenho uma aversão a nacionalismo”, explica. De qualquer modo, afirma não querer “lidar com política e conflitos minha vida toda”. O jovem quer estudar ciência ou tecnologia na universidade e sabe que pode ter prejudicado de algum modo seu futuro. “Mas isso é pequeno quando comparado aos meus princípios em risco”, conclui.

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WikiLeaksEONascimentoDaCidadaniaGlobal-01aWikileaks e o nascimento da cidadania global – Quanto mais as pessoas se conectam à internet, mais elas se entendem como participantes ativos dos destinos do mundo e não apenas de seu país

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DICA DE FILME

FILMEZeitgeist-01Zeitgeist (Direção: Peter Joseph. EUA/2007)
Este filme mostra o quanto a história é manipulada pelas elites religiosas e econômicas, que “criam” os fatos e nos fazem todos acreditarmos neles, lutarmos por eles, matarmos por eles
Veja também: Zeitgeist Addendum (2008) e Zeitgeist Moving Foward (2011)

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DICA DE LIVRO

MatrixEODespertarDoHeroiCapaEdicaoDoAutor-01Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer, ensaio, 2005

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem descontraída, Kelmer nos revela a estrutura mitológica do enredo do filme Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

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O trem não espera quem viaja demais

16/03/2013

16mar2013

Alguns captam o recado da planta, entendendo que a trilha da liberdade existe, sim, mas deve ser localizada no cotidiano de suas vidas e, mais precisamente, em seu próprio interior

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O TREM NÃO ESPERA QUEM VIAJA DEMAIS

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A maconha proporciona algo incrível: basta uma tragadinha para enxergar, bem à frente, a trilha da liberdade. É como se, de repente, uma trilha nítida surgisse no meio da mata espessa da vida e, ao caminhar por ela, nos libertássemos das limitações das regras sociais, abandonando a percepção padronizada da realidade e observando a vida sob um novo ângulo, bem mais interessante.

É exatamente assim, seduzidos pelo raro vislumbre dessa dimensão interior, que muitos se iniciam no uso da maconha. Porém, passado o efeito, a trilha da liberdade se dissipa feito névoa, ela que era tão nítida, tão próxima. A vida volta ao que era antes, uma mata espessa e difícil de ser vencida. Alguns captam o recado da planta, entendendo que a trilha da liberdade existe, sim, mas deve ser localizada no cotidiano de suas vidas e, mais precisamente, em seu próprio interior. Percebem que para trilharem, de fato, o caminho da liberdade, terão de livrar-se de tudo que atrapalha essa jornada interna. Terão de detectar pontos fracos e autoenganos. Terão de se comprometer com a transformação interior, autoconhecendo-se, reformulando ideias e atitudes sempre que necessário.

Fascinados com o vislumbre dessa dimensão interior que a planta lhes proporciona, muitos se frustram ao perceber que não é fácil ser livre no mundo externo do dia a dia, cheio de todo tipo de dificuldades. Muitos se cansam de procurar por si só a trilha da liberdade e então retornam à planta. Mas esquecem que ela apenas lhes faz lembrar que podem ser livres. Ela apenas mostra a trilha: cada um é que deve percorrê-la e conquistar, por si mesmo, sua própria liberdade, assumindo a responsabilidade por sua vida no dia a dia.

Sim, claro que não há nada demais em parar um pouco, fumar um baseado, relaxar, divertir-se e curtir a paisagem ao redor. A maconha também tem seu lado lúdico e ninguém é de ferro, né? O problema é o viajante relaxar demais e perder o trem, esquecer que tem de prosseguir, que há novos desafios à frente. Ele desperdiça a preciosa lição que recebeu e termina usando a maconha para fugir da realidade cotidiana, escondendo-se de seus próprios problemas e, dessa forma, criando mais um: a dependência da planta. O que era para libertar acaba virando muleta.

A maconha é isso: uma planta sagrada que pode nos reconectar à trilha interior da liberdade. Mas é bom saber que desrespeitar sua sabedoria natural leva o viajante a se acomodar na paisagem. E nada para atrasar mais uma viagem que perder o trem.

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Ricardo Kelmer 2002 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

 

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LEIA NESTE BLOG

Xamanismo de vida fácil – A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos

Rio Droga de Janeiro – Série de três artigos sobre a questão da proibição das drogas

Minha noite com a JuremaNessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

A Jurema e as portas da percepção (VIP) – Relato detalhado da experiência narrada em Minha Noite com a Jurema. Exclusivo para Leitor Vip. Basta digitar a senha do ano da postagem

A vida na encruzilhada (filme: O Elo Perdido) – Essa percepção holística da vida é que pode interromper o processo autodestrutivo que nos ameaça a todos

 

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DICA DE LIVRO

BaseadoNissoCapaMiragem-01aBaseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha
Ricardo Kelmer – Contos + glossário

Os pais que decidem fumar um com o filho, ETs preocupados com a maconha terráquea, a loja que vende as mais loucas ideias… O autor reuniu em dez contos alguns dos aspectos mais engraçados e pitorescos do universo dos usuários de maconha, a planta mais polêmica do planeta. Inclui glossário de termos e expressões canábicos. O Ministério da Saúde adverte: o consumo exagerado deste livro após o almoço dá um bode desgraçado.
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DICA DE FILME

Carlos Castaneda – Especial da BBC sobre o polêmico antropólogo que estudou o xamanismo no México, escreveu vários livros e tornou-se um fenômeno do movimento Nova Era

O Elo Perdido (Missing Link, 1988)
Homem-macaco tem sua família dizimada por espécie mais evoluída e vaga sozinho pelo planeta, conhecendo e encantando-se com a Natureza. Ao comer de uma planta, tem estranha experiência que o faz compreender o que aconteceu. Roteiro e direção: Carol Hughes e David Hughes. Com Peter Elliott

 

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Alma selvagem

11/03/2013

11mar2013

Ela celebra a vida em rituais… Bendiz os ciclos naturais… Ela sabe, o ser não cabe na definição

AlmaSelvagem-1

ALMA SELVAGEM

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Ela tem a alma selvagem
E o vento sopra liberdade
Na mecha do cabelo
Brinca de beijo, pede afago
Mas cuidado
Ela gosta de arranhar

Ela segue seu destino
No fluxo feminino
Deita com a lua nova
E o seu corpo se renova
À noite chora por amor
Sonhos que ainda não realizou

Ela celebra a vida em rituais
Bendiz os ciclos naturais
Ela sabe, o ser não cabe na definição
Abraça o mundo com carinho
Mas só vai pelo caminho
Onde tem um coração

Alma selvagem, liberdade de ser
Alma selvagem, coragem de viver

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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> O feminino em mim – Poemas e músicas sobre o feminino

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MAIS SOBRE O FEMININO SELVAGEM

figamulherselvagem01A mulher selvagem – Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

Medo de mulher – A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido.

LIVROS

vtcapa21x308-01Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino
Ricardo Kelmer – Contos e crônicas

Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido… Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.

Mulheres que correm com os lobos – Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés –  Editora Rocco, 1994)

A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

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01- belissíma. Fada Helena, Fortaleza-CE – mai2013

02- Amei. Mara Monteiro, Fortaleza-CE – mai2013

03- Adorei… Elisabete Claudio, São Paulo-SP – mai2013

04- Um viva para a essência da mulher selvagem. Silvana Alves, Fortaleza-CE – mai2013

AlmaSelvagem-1c



Caminhos

21/02/2013

21fev2013

Lembremos, porém, que os caminhos cruzam outros, e é justamente nesses cruzamentos que brilha mais forte a verdade do todo

Caminhos-2

CAMINHOS

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Nenhuma religião ou filosofia é a melhor. Porque não é o caminho que verdadeiramente importa ‒ é o caminhante. Todos os caminhos que há são apenas a infinita e complexa realidade brincando de se explicar para nós, e não fosse esse espírito lúdico, nós pobres humanos não teríamos como de fato acessá-la. Evidentemente, é impossível percorrer todos os caminhos, mas podemos escolher alguns e caminhar por eles com alegria. Há, porém, bem à entrada de cada um, um aviso aos navegantes que, embora de séria importância, a maioria não lê, empolgada com as maravilhas da via recém-escolhida. O aviso diz: Para o caminho não criar lodo, não perca a noção do todo.

Caminhos são sedutores porque cremos que neles está a verdade e ela nos libertará. Sim, a verdade liberta ‒ mas não cabe no caminho. O caminho é que faz parte da verdade. Quando perde isso de vista, o caminhante se entorpece, fica cego e crê que somente seu caminho é verdadeiro e os demais são ilusão. Especializa-se cada vez mais em suas paisagens e esquece que cria lodo a água que não corre. Paisagens são bonitas, sim, descansam a vista… mas se paramos muito tempo para admirar, tornamo-nos parte da paisagem, e assim o caminho perde seu maior sentido, o movimento.

Então experimentemos os caminhos, com entusiasmo, extraindo deles o máximo que pudermos. Escolhamos aqueles que ecoam alma adentro e nos fazem tremer, aqueles que fazem a vontade de viver correr pelas veias. Temos uma vida inteira para experimentá-los. Lembremos, porém, que os caminhos cruzam outros, e é justamente nesses cruzamentos que brilha mais forte a verdade do todo.

Por isso, quando você encontrar alguém que descobriu o único de todos os caminhos que leva à verdade, sorria e seja compreensivo. Esse alguém trilha seu caminho intensamente, com entusiasmo tanto que não consegue erguer-se um pouco acima dele e perceber o belo desenho que fazem os caminhos entrelaçados. A verdade liberta, sim, mas liberta ainda mais se conseguirmos enxergá-la onde ela sempre esteve: em tudo.  

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Ricardo Kelmer 2002 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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LEIA NESTE BLOG

Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo do filme Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

Carma de mãe para filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

I Ching das patricinhas – Se alguém procura revelações com pressa e sem seriedade, jamais terá as revelações

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As encarnações da liberdade e da opressão

24/01/2013

24jan2013

No drama da existência humana liberdade e opressão sempre duelarão, e o que decidimos agora reforçará a um ou a outro lado no futuro

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AS ENCARNAÇÕES DA LIBERDADE E DA OPRESSÃO

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Todas as vidas, de todos os tempos, estão interconectadas. Esta é a mensagem básica do filme A Viagem (Cloud Atlas, baseado no livro Cloud Atlas Sextet, de David Mitchell), dos diretores Lilly Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer. As seis histórias que ele conta, passadas em épocas e lugares diferentes, ligam-se entre si pelas decisões individuais dos personagens que, sem saber, provocam drásticas mudanças nas vidas futuras e na própria história da Humanidade. O fato dos atores viverem vários personagens sugere que, de algum modo, somos todos os que nos antecederam e nos antecederão. Instigante, né?

Uma a uma, as histórias são contadas, alternando-se e entrelaçando-se: a escravidão de negros no século 19, o amor proibido de dois homens, o descaso da lógica capitalista pela vida humana, o cruel confinamento de idosos, a mecanização da existência numa sociedade totalitária e a prisão da mente às crenças religiosas, e em todas as histórias as pessoas lutam para libertar-se e libertar a sociedade de forças opressoras. O filme mostra que garantia de final feliz não há, pois os sistemas sociais são fortes e quem luta contra eles geralmente termina mal – mas mostra também que no drama da existência humana liberdade e opressão sempre duelarão, e o que decidimos agora reforçará a um ou a outro lado no futuro.

Desse tema da interconexão das vidas em diferentes épocas eu, particularmente, sou bem íntimo, pois gira exatamente sobre isso a trama de meu romance O Irresistível Charme da Insanidade. Em meu livro, porém, as vidas se cruzam por meio da sensação de déjà-vu, e passado e futuro influenciam-se mutuamente, numa lógica não linear do tempo. É uma metafísica difícil de conceber, eu sei, mas desconfio que logo os avanços tecnológicos nos trarão boas surpresas sobre a natureza do espaço-tempo e sobre a noção de eu. Em A Viagem, as conexões entre as vidas estão dentro da concepção comum do tempo linear, sim, mas elas também sugerem algo nesse sentido.

As irmãs Lilly e Lana Wachowski (antes, Andy e Larry) já mostraram, como diretoras, roteiristas e produtoras, que usam o cinema para nos fazer pensar criticamente sobre o mundo em que vivemos. Em Matrix e V de Vingança, há a luta incessante pela liberdade e pelo direito de todos sabermos a verdade. Agora, com A Viagem, ao mostrar as sutis conexões entre todas as vidas, elas nos incentivam a prosseguir na luta por liberdade e verdade, para que nossos esforços sejam captados no futuro pelos que lutam pela mesma causa.

Em um mundo onde as grandes corporações, que só visam ao lucro, têm mais força que os governos e estes precisam do apoio daquelas, o que pode o cidadão comum contra essa junção de poderes que vê nele apenas um eleitor ou um consumidor? Bem, pode votar mais consciente, protestar e lutar por mais transparência nas informações, democracia e respeito aos direitos humanos. Pode lutar contra o consumo exagerado e os preconceitos. Pode, e deve, fazer sua parte. Porém…

Um futuro melhor para a Humanidade e o planeta não é garantido, mesmo que você faça a sua parte, pois há outras forças envolvidas. Em A Viagem, foram em vão todos os esforços, já que a ganância destruiu a Terra? Vale mesmo a pena lutar por coisas como liberdade e verdade? Ou é mais vantajoso seguir a lei que diz que o fraco é a carne que o forte come?

Minha resposta para essas perguntas é a cena inicial do filme: se as histórias continuam a ser contadas, é porque a luta ainda não acabou.

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Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

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FILMEAViagem-1A VIAGEM

Cloud Atlas, EUA/ALE/Hong Kong/Cingapura, 2012
Direção: Andy Wachowski, Tom Tykwer, Lana Wachowski
Roteiro: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Susan Sarandon, Hugh Grant, Ben Whishaw, Keith David, Jim Broadbent, James D’Arcy, Doona Bae
Produção: Stefan Arndt, Grant Hill, Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Fotografia: Frank Griebe, John Toll
Trilha Sonora: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer
Duração: 172 min
Distribuidora: Imagem Filmes
Estúdio: Anarchos Productions / Media Asia Films / X-Filme Creative Pool / Asacine Produções / Five Drops / A Company Filmproduktionsgesellschaft

Treiler do filme

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LEIA NESTE BLOG

Jung – a jornada do autodescobrimento – Vídeo com um resumo da vida e das ideias de Carl Jung, o psicólogo e pensador suíço criador da teoria do inconsciente coletivo

Livros: He, She, We – Os rios de nossas vidas correm, na verdade, por leitos muito, muito antigos – os mesmos leitos que outras águas, ou outras pessoas, também percorreram

Mulheres na jornada do herói – As mulheres sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

Carma de mãe para filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

A Humanidade, o psicólogo e a esperança – Os acontecimentos mostram que a Humanidade está se unificando, unindo seus opostos

Wikileaks e o nascimento da cidadania global – Quanto mais as pessoas se conectam à internet, mais elas se entendem como participantes ativos dos destinos do mundo e não apenas de seu país

Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

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DICA DE LIVRO

ICI2011Capa-01dO Irresistível Charme da Insanidade
Ricardo Kelmer, romance

Nos séculos 16 e 21, dois casais vivem duas ardentes e misteriosas histórias de amor. Ou será o mesmo casal?

Um músico obcecado pelo controle da vida. Uma viajante taoísta em busca da reencarnação de seu mestre-amante do século 16. O amor que desafia a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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01- acho que os irmãos Wachowski são bons candidatos a dirigir o filme do Insanidade. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – jan2013

02- bom cometário Ricardo, como dizia Platão discipulo de Socrates que o sucesso terreno (homicidas, tiranos,libertinos,…) e o insucesso terreno (Socrátes, atribuido a sua morte) não podem representar critérios de mensurabilidade do caráter de um homem (se justo ou se injusto) . No reino das aparências (mundo terreno, sensível) o que parece ser justo, em verdade, não o é, e o que parece ser injusto, em verdade, não o é.( Eduardo Bittar, professor da USP). Luis Carlos Linhares, Fortaleza-CE – jan2013



Os ensaboados da nova consciência

15/01/2013

15jan2013

Desde seu início, o encontro prioriza o diálogo e a troca sadia de experiências, buscando o fio de unidade que permeia todas as coisas

OsEnsaboadosDaNovaConsciencia-1

OS ENSABOADOS DA NOVA CONSCIÊNCIA

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O Nordeste é mesmo uma terra curiosa. Nas ladeiras de Olinda chacoalha o mais divertido carnaval do planeta, e enquanto isso, a 200 km dali, na cidade serrana de Campina Grande, Paraíba, centenas de pessoas de todo o país e das mais diversas tendências se reúnem todo ano num grande evento onde se abraçam arte, filosofia, ciência e tradições. É o Encontro da Nova Consciência, um festival holístico que funciona, desde 1992, como um notável ponto de convergência da grande diversidade do pensamento humano.

Eu soube do evento em janeiro de 1996 por minha tia Liney, que de Recife me ligou para contar que sonhara que eu dava uma palestra no encontro. “Envia teu livro! Quem sabe eles te convidam…” Foi o que fiz, enviei um exemplar do Quem Apagou A Luz?, meu primeiro livro, recém-lançado. Dias depois lá estava eu dando a palestra, o sonho se realizara. O convite se repetiu, e pelos anos seguintes, no teatro municipal, falei sobre o filme Matrix, taoísmo, Jung, mitologia… Talvez minhas palavras tenham acrescentado algo de útil a alguém, mas muito mais aprendi que ensinei durante esses anos. Depois tornei-me apresentador dos eventos artísticos da noite, papel no qual me senti muito à vontade.

Em Campina Grande conheci pessoas que trouxeram mudanças significativas à minha vida. Escritores, artistas, cientistas, educadores, religiosos, líderes indígenas, gente simples do povo ‒ de todos eles absorvi conhecimentos e muitos tornaram-se meus amigos, maravilhosas amizades interdisciplinares. Foi lá também que vivenciei experiências com plantas de poder, como a ayahuasca e a jurema, e vi alargarem-se os horizontes de minha percepção da realidade e de mim mesmo.

À primeira vista, reunir tantas ideias diferentes no mesmo espaço pode soar caótico e inútil. No entanto, desde seu início, o encontro prioriza o diálogo e a troca sadia de experiências, buscando o fio de unidade que permeia todas as coisas. Isso me lembra o ato de escutar as várias testemunhas de um acontecimento: mesmo distintas entre si, as versões do mesmo fato contribuem para uma visão mais abrangente e precisa do todo.

Da plateia do teatro disparam flashes a toda hora: as pessoas querem uma recordação do dia em que sentaram à mesma mesa e se abraçaram representantes de diferentes religiões, todos acreditando que é possível sim transformar este mundo num lugar onde todas as crenças convivam em harmonia. Física quântica, psicologia, ecologia, medicina natural, educação, tarô, xamanismo – o evento é um colorido encontro das diversas versões da realidade. Lá a sociedade também discute seus problemas: loucura, alcoolismo, aids, prostituição, a questão indígena e os conflitos étnico-religiosos. Há espaço também para outros problemas como, por exemplo, decidir o melhor lugar para aguardar a chegada das naves extraterrestres que virão nos resgatar. Isso, é claro, para os que querem ser resgatados. Não sei informar quantos lugares há nessas naves, me desculpe a ignorância no assunto, mas no Encontro eu sei: tem espaço para tudo.

Lembra do ET de Varginha? Pois ele já esteve por lá, em slides. O evento também oferece passeio a sítios arqueológicos, há uma feira com vários expositores, um encontro de ateus e agnósticos e até mesmo um encontro mundial de, acredite, ex-ufólogos, só no Nordeste mesmo. Depois das palestras, debates e oficinas, vem a noite na praça, com seus bares e um grande palco onde se revezam dança, teatro, poesia, cinema e shows musicais que vão do forró ao metal mantra. Com direito a cervejinha gelada que ninguém é de ferro, né?

O evento possui um caráter naturalmente democrático, pois dele fazem parte até mesmo os que são contra. Isso pode ser aferido logo à entrada do teatro: de um lado, barulhentos e divertidos Hare Krishna, com suas roupas coloridas e instrumentos exóticos, entoando aqueles mantras dançantes, e do outro lado evangélicos distribuindo panfletos onde demonstram que esse negócio de Nova Era é coisa do demo.

No fim, vendo todas aquelas tradições, ciências, artes e filosofias dançando e celebrando de mãos dadas, vendo negros e brancos e índios, cristãos e muçulmanos entoando cânticos ao planeta e à humanidade, lembrei do festival de Woodstock. Passados 40 anos, cá estamos nós, no interior nordestino, buscando as mesmas coisas que aqueles pacíficos sonhadores: paz, amor, liberdade, união, respeito às diferenças…

Houve um ano em que fui para lá aproveitando a carona de meu amigo André Barbacena. Ele estava indo para Olinda, curtir aquele incrível carnaval que eu já conhecia de outros anos, e seguimos em seu fusca. André deu um gole na cerveja e logo enganchou seu coração na cintura de uma bela passista de frevo que descia a ladeira dos Quatro Cantos. Desejei-lhe felicidades e me despedi, combinando o reencontro para logo após o reinado de Momo. Botei a mochila nas costas e peguei o ônibus para Campina Grande, o coração no ritmo do frevo.

Na quarta-feira de cinzas lá estava eu de volta a Olinda. André, cansado mas alegre, trazia ainda uma cerveja na mão e um bocado de história para contar. Enquanto degustávamos uma tapioca com queijo, ele me falou do quanto se divertiu no bloco dos ensaboados, um bocado de gente descendo a ladeira ensaboando e passando xampu uns nos outros com um carro atrás jogando água, olha que coisa. Eu desatei a rir imaginando a cena.

Assim como nós em Campina Grande e os cabeludos de Woodstock, os ensaboados de Olinda, com sua alegoria, também desejam um mundo mais limpo, mais alegre e mais unido. Com muito frevo, amor e paz. Amém. Shalom. Oxalá. Axé.

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Ricardo Kelmer 2002 – blogdokelmer.com

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Site do evento: novaconsciencia.com.br

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LEIA NESTE BLOG

DiversosEIguais-01aEncontro da Nova Consciência – Diversos e iguais – Não precisamos concordar com os outros. Mas podemos aceitá-los, tanto quanto quisermos também ser aceitos

O psicólogo, a humanidade e a esperança – Os acontecimentos mostram que a humanidade está se unificando, unindo seus opostos

Entrevista com o ateu – Um pregador evangélico entrevista um escritor ateu

Pátria amada Terra – É animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária

A imagem do século 20 – Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisões. Não vimos este ou aquele país: vimos o todo

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 01- Adoro! Paula Izabela, Juazeiro do Norte-CE – jan2013

02- gostaria de conhecer…. Dhara Bastos, Fortaleza-CE – jan2013

03- Reunião de todos os loucos do Brasil.. Andre Soares Pontes, Fortaleza-CE – jan2013

04- Lá tem espaço para mostrar trabalhos em arteterapia Kelmer? Ppue se der acho q vou programar uns dias nessa “loucura” como disse o Andre Soares3>. Izabel Castro, Fortaleza-CE – jan2013

05- “Assim como nós em Campina Grande e os cabeludos de Woodstock, os ensaboados de Olinda, com sua alegoria, também desejam um mundo mais limpo, mais alegre e mais unido. Com muito frevo, amor e paz. Amém. Shalom. Oxalá. Axé.” Esse encontro entre as diferenças é a prova de que ainda é possível extirpar o maior câncer da humanidade: a intolerância!!! Silvana Alves, Fortaleza-CE – jan2013


O novo salto quântico da consciência

05/01/2013

05jan2013

Por qual razão tantas pessoas ousam se submeter a uma experiência incerta, largando a segurança de sua mente cotidiana e desafiando o desconhecido de si mesmo?

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O NOVO SALTO QUÂNTICO DA CONSCIÊNCIA

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A cada dia, mais pesquisadores ligados ao estudo da consciência, antropologia, psicologia e botânica se debruçam sobre uma possibilidade intrigante e polêmica. É provável que as plantas psicoativas (que induzem a mente a funcionar em estados especiais) possam ter contribuído significativamente para o surgimento da autoconsciência, fator decisivo que proporcionou aos nossos ancestrais, num determinado ponto da evolução, as condições para sobreviver e gerar a incrível espécie a qual pertencemos, o Homo sapiens.

Admitir tal hipótese é mexer num vespeiro. Muita gente se indagará: “Então nós humanos só existimos porque um bando de macacos comeram umas plantinhas e ficaram doidões?” Imagino os mais religiosos: “Era só o que faltava! Deixa só Deus escutar isso!” Pois infelizmente para muita gente, e até para alguns deuses, essa hipótese vem sendo estudada com seriedade e encontra ressonância positiva no meio científico.

Quem já passou por uma experiência com as tais plantas sagradas, como a Ayahuasca, o Peiote e a Jurema, sabe perfeitamente do imenso poder que elas guardam. E sabe também que elas não se prestam a um consumo recreativo, exatamente porque podem tocar muito fundo em nosso interior, abalando nossa compreensão da realidade e de nós mesmos e nos fazendo emergir da experiência profundamente transformados. Xamãs e pajés do mundo inteiro as utilizam há milhares de anos em contextos religiosos e terapêuticos. Atualmente, médicos e pesquisadores unem medicina acadêmica com antiquíssimas práticas xamânicas que envolvem o uso de plantas psicoativas e, com essa curiosa união, obtêm resultados animadores na cura de doenças, como a dependência química.

No Brasil, proliferam-se seitas que em seus rituais utilizam chás à base dessas plantas, chamando a atenção de estudiosos para o emergente fenômeno. Toma-se o chá para entrar num estado de consciência não ordinário, onde é possível viver experiências sensoriais e cognitivas as mais diversas. Há quem encontre pessoas vivas ou mortas, santos, entidades animais ou espíritos de plantas. Há os que experimentam capacidades psíquicas incomuns ou vivenciam uma intensa sensação de união com a Natureza e tudo que existe. Há quem passe por profundas experiências de autoinvestigação psicológica ou seja tocado por revelações importantes de caráter terapêutico e que podem mudar toda uma vida. Pode não acontecer nada, mas também pode ser prazeroso ou doloroso. Depende de cada um e de seu momento. Alguns religiosos radicais, sempre obcecados, diriam que é coisa do demônio. Alguns psicólogos talvez usassem o termo “terapia de choque”.

Por que a crescente procura atual pelas plantas de poder dos xamãs? Por qual razão tantas pessoas ousam se submeter a uma experiência incerta, largando a segurança de sua mente cotidiana e desafiando o desconhecido de si mesmo? Minha impressão é que isso tudo talvez signifique uma forma de religação à Natureza. Religação, sim, porque nós também fazemos parte da Natureza, mas infelizmente passamos a nos ver separados dela, nos distanciamos da sabedoria natural do planeta e agora, perdidos num mundo caótico e insano, buscamos experiências que nos reconectem às nossas verdades mais profundas. Entendo isso como um anseio natural e legítimo de uma espécie adoecida: o anseio de cura, liberdade, totalidade e harmonia com a Mãe Terra.

Por minha própria experiência, sei que plantas psicoativas podem ser muito úteis porque nos fazem olhar para dentro, nos reconectam às leis naturais e ao sagrado de nossas vidas, nos lembram de nosso potencial para a autocura e ajudam a nos libertarmos de medos, culpas e bloqueios. Não há como não se transformar após um profundo encontro consigo mesmo. É por isso que quem passa por tais experiências xamânicas engrossa a legião dos que entendem o mais importante: somente a profunda mudança interior de cada um é que fará finalmente com que o mundo mude para melhor.

Talvez nesse momento as plantas sagradas estejam nos alertando para o fato que quanto mais pessoas se religarem à sua verdade mais íntima, mais próxima a humanidade estará de seu ponto de equilíbrio. Porém, na busca angustiada pela cura, muitos exageram no remédio, caindo escravos justamente daquilo que um dia elegeram como libertador. As plantas sagradas não ficam de fora desse perigo. Tenho amigos que fazem parte de seitas que utilizam tais plantas e certamente discordarão. Respeito o que eles pensam e admiro sua busca pessoal, mas como tudo mais que existe, as plantas sagradas também possuem dois lados.

Religiões, seitas e gurus funcionam muito bem para os que necessitam de regras ou se sentem mais seguros pertencendo a um grupo. Porém, há pessoas que conseguem beber em todos os ensinamentos e usufruir do melhor que eles oferecem sem ter de se enquadrar em nenhum específico. É um caminho mais solitário, evidente, e exige um contínuo estar aberto ‒ mas que recompensa quem o trilha com a liberdade que nenhum outro caminho pode oferecer. As regras da seita ou as palavras do guru podem até iluminar por um tempo, sim, mas até mesmo essa luz pode cegar para os horizontes seguintes da jornada. É isso o que ensinam as plantas de poder, que devemos abandonar as muletas e aprender a caminhar por nós mesmos.

O atual processo coletivo de reconectar-se aos valores da Natureza pelas plantas psicoativas não significa uma espécie de retrocesso evolutivo e que devemos voltar a saltar pelas árvores. Nada disso. Uma vez ultrapassados, os marcos da evolução da consciência sempre nos impulsionam para o novo, jamais para trás. Porém, a verdadeira evolução avança em forma de espiral, e é por isso que quando o caminho parece retornar a um determinado ponto, ele está sim passando novamente por lá ‒ mas num novo nível, numa nova dimensão.

Talvez essas poderosas plantas, que acompanham nossa espécie desde seu nascimento numa impressionante relação simbiótica, estejam agora nos oferecendo a preciosa oportunidade de mais um salto quântico da consciência, uma intensa transformação da mente e de sua interpretação da realidade, como fizeram nossos peludos antepassados em algum ponto de sua jornada. Agora, porém, diferente deles, possuímos razão e discernimento. Possuímos milênios e milênios de experiência sedimentados no inconsciente comum da espécie e temos nossos próprios erros para nos guiar.

Retornaremos à Mãe Terra e ao sagrado, sim, porque não há outro caminho se quisermos de fato sobreviver como espécie. Mas o faremos num novo nível, porque agora estamos mais experientes para lidar com o grande mistério da vida, esse mistério que nos maravilha e assombra cada vez que olhamos para o sem-fim do Universo lá fora ou para o infinito interior de nós mesmos.

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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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EM ITALIANO

IL NUOVO SALTO QUANTICO DELLA COSCIENZA

RK analizza le piante psicoattive e la loro importanza nel processo evolutivo della specie umana

ONovoSaltoQuanticoDaConsciencia-1Ogni giorno che passa più ricercatori legati allo studio della coscienza, antropologia, psicologia e botanica investigano su una possibilità almeno intrigante e polemica. Probabilmente le piante psicoattive (che inducono la mente a funzionare in stati speciali) possono aver contribuito di maniera significante al sorgere dell’autocoscienza, fattore decisivo che ha proporzionato ai nostri predecessori, in un determinato punto dell’evoluzione, le condizioni per sopravvivere e per generare l’incredibile specie alla quale apparteniamo: l’Homo sapiens. Ammettere tale ipotesi è come toccare un alveare. Molti si chiederanno: “Vuoi dire che noi umani esistiamo soltanto perché un gruppo di scimmie ha mangiato delle piantine e si sono sballati?”

Immagino i più religiosi: “Era quello che ci mancava! Vediamo cosa dirà Dio al sentire questo!” Per la sfortuna di molta gente, e anche di alcuni dei, questa ipotesi viene da qualche tempo studiata con serietà e trova risonanza positiva nell’ambiente scientifico.

Chi ha già avuto un’esperienza con queste “piante sacre”, come “l’ayahuasca” (tisana ricavata dal vino di Banisteriopsis caapi e dalle foglie di Psychotria viridis), il “peyote” (Lophophora williamsii e Lophophora diffusa) e la “jurema” (Mimosa tenuiflora e Mimosa verrucosa) conosce perfettamente l’incredibile potere che hanno. E sa anche che loro non servono ad un consumo ludico, esattamente perché di solito vanno molto a fondo nel nostro interiore, indebolendo la nostra comprensione della realtà e di noi stessi, e ci fanno invece emergere da quest’esperienza profondamente trasformati. “Pajés” (gli indigeni dell’Amazonia che applicano la “pajelança”)* e sciamani di tutto il mondo le utilizzano da migliaia di anni nei contesti religiosi e terapeutici. Attualmente medici e ricercatori di diversi paesi uniscono alla medicina accademica le pratiche sciamaniche che coinvolgono l’uso di piante psicoattive e, con questa curiosa unione, ottengono risultati incoraggianti nella cura di molte malattie come la dipendenza chimica.

Attualmente in Brasile c’è la proliferazione di sette e di altri gruppi dissidenti a queste sette che nei suoi rituali utilizzano tisane a base di queste piante, richiamando l’attenzione degli studiosi a questo emergente fenomeno. Si beve la tisana per entrare in uno stato di coscienza non ordinario, dove è possibile vivere le più diverse esperienze sensoriali e cognitive. Alcuni incontrano persone vive o morte, santi, entità animali o gli spiriti delle piante. Alcuni provano capacità paranormali non comuni o vivono un’intensa sensazione di unione con la Natura e con tutto quello che esiste. Alcuni passano per profonde esperienze di autoindagine psicologica così come di autoguarigione, o sono toccati da rivelazioni importanti che possono cambiare tutta la vita. Può darsi che non capiti niente, ma può essere piacevole o doloroso. Può essere infernale o divino ma sarà sempre costruttivo. Dipende da ognuno e dal suo momento. I religiosi radicali, sempre accecati, affermerebbero che è una cosa del demonio. Forse alcuni psicologi userebbero il termine “terapia d’urto”. Forse non è nient’altro che un provvidenziale rincontro con se stessi e con la sua verità più intima.

Perché la crescente ricerca delle piante di potere dei sciamani? Per quale motivo tante persone osano sottomettersi ad un’esperienza incerta, abbandonando la loro sicurezza quotidiana mentale e sfidando il lato sconosciuto di se stessi? La mia impressione è che tutto questo probabilmente significa, in ultima istanza, una forma di ricollegamento con la Natura perché, nella realtà, siamo una parte integrante. Purtroppo, è successo che ci siamo separati da lei e, per questo motivo, ci siamo allontanati troppo della saggezza del pianeta, ed adesso, persi in un mondo sempre più caotico ed insano, cerchiamo con avidità delle credenze ed esperienze che ci ricolleghino al più grande senso della vita e alle nostre verità più profonde. Capisco questo come un’ansia naturale e legittima di una specie ammalata: l’ansia di guarigione, libertà, totalità ed armonia con la Madre Terra.

Dalla mia esperienza personale, so che le piante psicoattive possono essere molto utili perché ci fanno guardare dentro, ci ricollegano alle leggi naturali e al sacro delle nostre vite, ci ricordano il nostro potenziale per l’autoguarigione e ci aiutano a liberarci dalle paure, colpe e blocchi. È impossibile non trasformarsi dopo un profondo incontro con se stessi. È per questo che chi passa per tali esperienze sciamaniche aumenta la legione di quelli che capiscono la cosa più importante: soltanto il profondo cambiamento interiore di ognuno di noi potrà finalmente cambiare il mondo in migliore.

Forse è questo l’invito che le piante sacre fanno in questo momento alla nostra specie: più persone si ricollegano alla loro verità più intima, più l’umanità sarà vicina dal suo punto di equilibrio. D’altra parte, so anche che la specie umana è ammalata e che, nella angosciata ricerca della guarigione, è capace di esagerare nella cura. Per questo, in questa urgente ricerca di valori spirituali, è necessario soprattutto, dare priorità alla libertà e prestare attenzione al rischio sempre presente di diventare schiavi esattamente da quello che un giorno abbiamo eletto come liberatore. Le piante sacre non sono escluse da questo pericolo. Ho amici che fanno parte di sette che utilizzano tali piante e che sicuramente non saranno d’accordo. Rispetto quello che pensano e ammiro la loro ricerca personale. Però, così come tutto quello che esiste, anche le piante sacre hanno due lati. Se un lato libera, l’altro è lì pronto a schiavizzare nel caso tu sia eccessivamente legato alle piante, non rimanga attento ed equilibrato.

Religioni, sette e guru funzionano molto bene con chi ha bisogno di regole o si sente più sicuro appartenendo ad un determinato gruppo. Loro sono nella tua strada e questo deve essere rispettato. Ma esistono persone che riescono a trarre degli insegnamenti ed approfittare del meglio di quello che offrono senza dover inquadrarsi in nessuno specifico. È un cammino più solitario, evidentemente, ed esige un continuo “essere aperto” – ma, giusto per questo, ricompensa chi segue questo cammino con la libertà che nessun’altro può offrire. Sì, le regole della setta o delle parole del guru possono addirittura illuminare per un tempo, ma questa stessa luce può accecare i successivi orizzonti del processo. Il principale insegnamento delle piante di potere (così come dovrebbe essere l’insegnamento di ogni guru) è questo: dobbiamo abbandonare tutte le stampelle ed imparare a camminare da soli.

Questo attuale processo collettivo di ricollegarsi ai valori della Natura tramite le piante psicoattive non significa una forma di retrocessione evolutiva e che ci fa tornare a vivere sugli alberi. Non è niente di questo. Una volta ultrapassati, i segni dell’evoluzione della coscienza ci spingono sempre verso il nuovo, mai indietro. Succede che la vera evoluzione avanza come una espirale ed è per questo che quando il cammino sembra ritornare ad un determinato punto, nella realtà lui sta passando nuovamente lì – però in un altro livello, superiore, in un’altra dimensione.

Forse queste potente piante, che accompagnano la nostra specie dalla nascita in un’impressionante relazione simbiotica, stiano adesso offrendoci la preziosa opportunità di un altro salto quantico della coscienza, un’intensa trasformazione della mente e della sua interpretazione della realtà – come hanno fatto i nostri pelosi predecessori in qualche punto del loro processo. Adesso, però, diversamente da loro, abbiamo la ragione e il discernimento. Possediamo millenni e millenni di esperienza sedimentati nell’incosciente comune della specie ed abbiamo i nostri propri errori che ci guidano.

Ritorneremo alla Madre Terra ed al sacro, sì, perché non esiste un’altro cammino se vogliamo di fatto sopravvivere come specie. Ma lo faremmo in un nuovo livello perché adesso siamo più capaci per affrontare il grande mistero della vita, questo mistero che ci meraviglia e spaventa ogni volta che guardiamo l’infinito mondo fuori e dentro noi stessi.

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Ricardo Kelmer è scrittore, paroliere e sceneggiatore ed abita a São Paulo

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* N.T.:

PAJELANÇA: una forma di culto sciamanico esistente nella regione Nord del Brasile, con rituali d’origine indigena mescolati ad elementi dello spiritismo, cattolicismo e dei culti afro-brasiliani. I celebranti sono chiamati “pajés”, termine d’origine tupi che significa sciamano. La pajelança coinvolge canti e balli per chiamare gli spiriti, accompagnati soltanto del “maracá” (semplice strumento di percussione). La principale finalità è ottenere la guarigione di malattie fisiche. La pajelança non deve essere confusa con i credi, rituali e pratiche mediche proprie di ogni popolo indigene.

SCIAMANO: è il personaggio delle religioni tradizionali dell’Asia settentrionale, anche se esistono sciamani in altre società, come in America settentrionale ad esempio; il termine “xamã” designava determinati stregoni dell’Africa tradizionale. Secondo il credo, quando cade in stato di trance, lo sciamano è posseduto dagli spiriti che parlano e agiscono tramite lui. È la stessa cosa per il “pajé” fra gli indigeni brasiliani.

TRADUZIONE: Isabella Furtado – REVISIONE: Massimo Savigni

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Carlos Castaneda (vídeo) – Especial da BBC sobre o polêmico antropólogo que estudou o xamanismo no México, escreveu vários livros e tornou-se um fenômeno do movimento Nova Era. Legendado

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FILME: O Elo Perdido (Missing Link)
Um milhão de anos atrás, na África, homem-macaco tem sua família dizimada por hominídeos e ele vaga sozinho pelo planeta, conhecendo e encantando-se com a Natureza. Ao comer de uma planta, tem estranha experiência que lhe traz importantes revelações.

O Elo Perdido (Missing link, EUA, 1988)
Direção: David Hughes e Carol Hughes
Elenco: Peter Elliot, Michael Gambon, Brian Abrahams, Clive Ashley

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MISSING LINK – TRÊILER

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 COMENTÁRIOS
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01-  “…porque nós também fazemos parte da Natureza mas infelizmente passamos a nos ver separados dela, nos distanciamos da sabedoria natural do planeta e agora, perdidos num mundo caótico e insano, buscamos experiências que nos reconectem às nossas verdades mais profundas…”!!!Amei isso!!! Texto fantástico!!! Silvana Alves, Fortaleza-CE – jan2013

02- mas quando a encontramos tudo fica iluminado e na mais perfeita harmonia… sinto-me connectada com a mae natureza e por isso pareço estar feliz o tempo todo mesmo nos piores momentos… Dhara Bastos, Fortaleza-CE – jan2013


O rastro luminoso da solidão

23/11/2012

23nov2012

Estaremos mesmo irremediavelmente sós, confinados aqui neste planetinha, no meio de toda a vastidão cósmica lá fora?

O RASTRO LUMINOSO DA SOLIDÃO

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Li dia desses a entrevista de um astrônomo que duvida que exista vida inteligente similar à nossa fora da Terra. Ele sustenta que os fatores astrofísicos e bioquímicos que propiciaram as condições de vida em nosso planeta são tão únicos e difíceis de ocorrer no Universo que é altamente improvável que os mesmos tenham se repetido em outra galáxia, ainda que elas existam aos bilhões, como de fato existem. A espécie humana, segundo o cientista, seria fruto de circunstâncias tão difíceis de se reproduzirem em conjunto que se poderia dizer que nossa existência se deve a um grande golpe de sorte e que, por isso, os esforços em contatar supostas inteligências extraterrestres são inúteis ‒ nós simplesmente estamos sozinhos no Universo.

Sozinhos no Universo… A frase explodiu em minha mente feito um foguete sinalizador, deixando um rastro luminoso de solidão pelo espaço sideral do pensamento. Sozinhos no imenso Mar Universo… O coração apertou, e creio ter experimentado, enquanto lia a entrevista, uma espécie de angustiante solidão cósmica. Estaremos mesmo irremediavelmente sós, confinados aqui neste planetinha, no meio de toda a vastidão cósmica lá fora? Somente nós?

Bem, mesmo que de fato não exista mais nenhuma espécie com um grau de evolução similar ao nosso, ainda assim nós humanos nos teríamos uns aos outros como sempre tivemos, e não estaríamos verdadeiramente sós, não é verdade?

Hummm, em termos. A evolução da espécie fez mudar os parâmetros. Hoje, já conhecemos todos os povos existentes e o planeta tornou-se pequeno para nossos anseios de expansão. Somos os únicos terráqueos dotados da capacidade de autoquestionamento (pelo menos assim nos vemos) e isso nos traz um tipo estranho de solidão. Agora que atingimos esse ponto de autoconhecimento, sentimos a necessidade de redefinir nosso lugar não mais em termos de planeta, mas de Universo.

Da mesma forma que a criança precisa do outro para construir sua própria definição e os povos da Terra precisaram conhecer outros povos para entenderem melhor a si mesmos, acho que a espécie humana necessita, neste momento histórico de sua evolução, confrontar-se com outra forma de inteligência para entender melhor a vida e galgar novos estágios em sua definição como espécie. Claro que ainda há muito que aprender sobre a natureza humana, mas estamos acelerando as descobertas e cada vez mais rápido as novidades surgem, num ritmo vertiginoso que faz com que a História afunile como num redemoinho, em voltas cada vez mais rápidas, cada vez mais, girando cada vez mais próximo do vórtice…

Não sei aonde chegaremos com esse tal ritmo de transformações. Talvez estejamos nos aproximando perigosamente do vórtice do redemoinho, esse ponto em que algo ocorrerá, algo que mudará a História e inclusive nossa própria compreensão do espaço e do tempo, da vida e de nós mesmos. Fará parte dessa mudança a descoberta de outros seres inteligentes no Universo? Por enquanto, temos apenas nossas próprias dúvidas a nos impulsionar rumo ao desconhecido, como sempre fizemos, com a diferença que agora tudo gira a cada dia mais rápido.

Se o cientista da entrevista estiver certo, prosseguiremos irremediavelmente sós e teremos de nos aguentar sozinhos. Mas prefiro acreditar que ele está equivocado. No fundo de minha alma grita a esperança de que não, não estamos sozinhos, e que em algum lugar lá fora existem seres mais ou menos como nós, talvez com dúvidas parecidas, talvez mais sábios, talvez até saibam de nós…

Não sei. Tudo são dúvidas que faço ecoar por meio dessas linhas, exatamente como a espécie humana também faz com seus foguetes espaciais, lançando à escuridão do espaço nossa ardente incerteza, feito um sinalizador que sobe aos céus e, em seu rastro luminoso, não se cansa de repetir a mesma pergunta angustiante: há alguém mais aí fora?

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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.com

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O esoterismo morreu

18/11/2012

18nov2012

Assim como esoterismo superficial é um contrassenso e esoterismo pop jamais será esoterismo de verdade, seu sucesso teria necessariamente que decretar sua deturpação

O ESOTERISMO MORREU

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Esoterismo significa, originalmente, a parte mais oculta de uma filosofia, religião ou tradição, que requer sincera dedicação para ser alcançada. Essa dificuldade torna-se uma barreira natural aos aspectos mais profundos do aprendizado, e assim eles prosseguem exclusivos aos que persistem. Foi assim que os ensinamentos esotéricos se protegeram das perseguições e chegaram ao mundo contemporâneo.

Em contrapartida, a parte mais simples e visível das tradições sempre foi abertamente oferecida a todos, e as pessoas que se contentavam com sua simplicidade não precisavam passar por severos ritos de iniciação nem se dedicar durante anos ao aprofundamento. Esses aspectos mais triviais são a parte exotérica (exo, do grego fora, exterior), exatamente o contrário da parte esotérica (eso, do grego dentro, interior).

No Ocidente, as antigas tradições místicas e religiosas se mantiveram vivas mesmo sob extrema perseguição por parte das religiões oficiais, como fez a Igreja Católica, entre os séculos 14 e 18 com sua impiedosa Santa Inquisição. No século 19, a facilidade crescente dos transportes e das comunicações as tornou mais conhecidas, e mais ainda no século 20. Nos anos 1960, com a explosão da contracultura, as bandeiras de paz, amor e igualdade ganharam a mídia, e a espiritualidade, desatrelada das religiões formais, ganhou espaço.

E foi justamente num dos aspectos da espiritualidade, o esoterismo, que a mentalidade mercantilista do Ocidente farejou grande potencial de consumo. Porém, como tornar popular (para vender mais) algo que necessita de tempo, estudo e dedicação? A saída foi vestir o esoterismo com uma roupinha mais leve, que desse para usar em qualquer ocasião. Foi assim que a cultura esotérica tornou-se popular e, mais que isso, massificada. Uns aproveitaram a quantidade de informações circulante para, de fato, se aprofundar no esoterismo, mas a grande maioria ateve-se aos aspectos superficiais.

Assim como esoterismo superficial é um contrassenso e esoterismo pop jamais será esoterismo de verdade, seu sucesso teria necessariamente que decretar sua deturpação. Foi o que ocorreu. A maior parte do que se vê por aí como esotérico são apenas aspectos caricatos de ensinamentos profundos que durante séculos foram passados de iniciado a iniciado, com cuidado e reverência. Porém, mesmo disseminadas e desvirtuadas na promiscuidade da mídia e da internet, as profundas tradições místicas e religiosas continuam com sua essência guardada aos que se dispõem ao esforço do aprendizado. São como algo valioso que pode até circular entre muitos mas que, para alcançá-lo de verdade, tem-se de passar pelo inevitável e insubornável guardião da iniciação.

Os anos 1970 vieram com John Lennon avisando que o sonho acabara e o movimento hippie percebendo que flores, de fato, não venceriam canhões. Porém, a espiritualidade, despertada nos anos 60 e vivenciada agora sem tantas formalidades religiosas, já se incorporara à cultura ocidental. Foi o esoterismo pop, no entanto, esse monstrengo ideológico, que se mostrou mais vendável, e assim tudo passou a ser esotérico para poder vender: era a sensação consumista dos anos 1990. Shirley McLaine, no cinema, falou de vidas passadas, e o mago Paulo Coelho, nos livros, tornou-se fenômeno mundial de vendas. Agora, início do novo milênio, para desespero de seus críticos, o furacão do esoterismo pop ainda mostra fôlego, explorando (e deturpando) aspectos das tradições milenares.

A espiritualidade do novo milênio é multifacetada, reflexo do caos de valores e informações. Anjos, pirâmides e vidas passadas ainda vendem horrores, mas é interessante ver que em muitas pessoas a espiritualidade mostra-se mais madura e menos bitolada, chegando, em alguns momentos, a abranger questões bioéticas, sociopolíticas e ecológicas, e a flertar com valores como diversidade das crenças e autoconhecimento psicológico. Até que nem tanto esotérico assim.
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Ricardo Kelmer 1999 – blogdokelmer.com

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Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer, 2005

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo do filme Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

Carma de mãe para filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

I Ching das patricinhas Se alguém procura revelações com pressa e sem seriedade, jamais terá as revelações

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Os apuros do homem feminista

07/11/2012

07nov2012

Minha busca por relações igualitárias foi dificultada também pelas próprias mulheres, pois muitas, mesmo oprimidas, preferiam relações baseadas no velho modelo machista

OsApurosDoHomemFeminista-2

OS APUROS DO HOMEM FEMINISTA

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Sou um homem feminista, sim, pois atuo pela liberdade da mulher e para que o princípio feminino seja resgatado em nossa cultura, principalmente no homem. Porém, discordo quando dizem que no patriarcado apenas a mulher é violentada em seu direito à autorrealização. Claro que ela é muitíssimo mais prejudicada, mas muitos homens também são penalizados.

Como a grande maioria das crianças da minha geração, que nasceram nos anos 1960, eu fui educado numa cultura patriarcal e cristã, que condiciona as pessoas, desde pequenas, a ver na mulher um ser inferior e de natureza maligna. Tal condicionamento leva os homens, inconscientemente, a temer o feminino e a tentar controlar a mulher. Eu fui treinado assim. Porém, algo deu errado.

Adolescente na Fortaleza de 1980, comecei a viver uma contradição pessoal que me incomodaria por muito tempo. De um lado, a educação e os amigos tentavam me convencer de que mulher é incompetente e não merece confiança, que as que dão na primeira vez não servem para casar, que o homem deve ter amantes e a mulher não, que nós não sabemos por que batemos mas elas sempre sabem porque apanham… De outro lado, porém, algo em mim discordava dessas regras. A mulher me causava sensações de reverência e fascínio, me provocava o êxtase da beleza e me inspirava a fazer poemas e canções… A mulher era algo especialíssimo, havia nelas um quê de mistério e sagrado, e eu não as via como inferiores, pelo contrário: elas pareciam ter mais poder que qualquer homem.

Meus amigos contavam piadas machistas, e eu já não via tanta graça nelas. Eles namoravam garotas passivas que faziam o estilo futura-mãe-e-dona-de-casa, e eu buscava mulheres participativas e de sexualidade livre. Porém, infelizmente para mim, a maioria das mulheres se contentava em seguir os modelos de passividade preestabelecidos para elas. E eu me recusava a aceitar o modelo pré-moldado para mim, o de macho provedor e sempre forte, proibido de demonstrar fragilidade. Meu desacordo com as regras e a sensibilidade artística faziam algumas pessoas acharem que eu era homossexual, e muitas mulheres não entendiam que eu não ligava para virgindade, não concordava que a mulher mudasse o sobrenome após casar, nem queria tomar a iniciativa toda vez e nem sempre podia pagar sozinho a conta do motel.

Hoje, quase cinquentão, vejo claramente que minha busca por relações igualitárias foi dificultada também pelas próprias mulheres, pois muitas, mesmo oprimidas, preferiam relações baseadas no velho modelo machista, o que é uma triste contradição, sim, mas também é um cruel efeito do patriarcado. Vejo também que minha inadequação aos padrões culturais inevitavelmente contribuiu para a sensação de solidão que sempre me acompanhou. Somente hoje, liberto de vários condicionamentos da cultura cristã-patriarcal, é que me sinto livre para ser quem realmente sou e viver minhas próprias verdades, que não são as verdades misóginas com as quais fui criado. Hoje, ainda luto contra as sobras de minha formação machista, mas tenho um bom convívio com o feminino em mim, e isso me torna um homem mais inteiro, e ainda mais amante da mulher.

A cultura menos machista de hoje gerará pessoas mais equilibradas, que bom. E os homens que não temem o feminino livre serão mais felizes, pois haverá mais mulheres livres. Será um mundo mais feminino. Será um mundo melhor.

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Ricardo Kelmer 2012 – blogdokelmer.com

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Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido

Quem poderá me salvar? – Heroínas e heróis da minha vida

Marchando com as vadias – Se ser vadia é ser livre para exercer a própria sexualidade, então todas as mulheres precisam urgentemente assumir sua vadiagem, para o seu próprio bem e o de suas filhas

Me estupra, meu amor – Fantasiar ser estuprada é uma coisa – querer ser estuprada é outra coisa totalmente diferente

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LIVROS

LivroMulheresQueCorremComOsLobos-01Mulheres que correm com os lobos – Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés –  Editora Rocco, 1994)

A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

O feminino e o sagrado – Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

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01- Vamo Apoiar! Alberto Marsicano Rodrigues, São Paulo-SP – nov2012

02- O presidente Sukarno da Indonesia declarouque so vai permitir carta de habilitação para mulheres (proibida no pais) quando inventarem o ‘poste de borracha’. Alberto Marsicano Rodrigues, São Paulo-SP – nov2012

03- Adorei, Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos, e que esses tempos de machismo e patriarcado que nos fere a todas e todos esteja mesmo no fim!!! Cristina Balieiro, São Paulo-SP – nov2012

RK: Obrigado a Wanessa B e às amigas e amigos do grupo Relações Livres pelos comentários e sugestões, que me fizeram alterar trechos do texto para evitar interpretações errôneas. Veja os comentários aqui. (jul2013) 

04- Belo texto do Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos !!! Rainha Frágil, Fortaleza-CE – jul2013

RK: Esta crônica tem despertado reações curiosas. As meninas do grupo Movimento Iuzômi, que se autodeclaram feminazis e misândricas, não gostaram nadinha. Postaram a crônica no grupo e os comentários sobre o texto e seu autor foram bem desfavoráveis. Seguem alguns comentários (preferi por as iniciais dos nomes):

SF: ééééé iuzômi + friendzone + mulheres são interesseiras + eu sou feminista e por isso sou bonzinho e to te fazendo um favor = essa merda de texto

SF: na parte de dividir conta de motel, ou das mulheres preterirem ele porque preferem um modelo machista de relacionamento. Isso é base do discurso ‘eu sou bonzinho, mas ela prefere o mauzinho’

SF: Não, o texto dele nem fala sobre não ser mono, ou ser mono… Ele fala da culpa das mulheres pela própria solidão e como muitas não querem ser igualitárias. Aliás, pelo que ele fala aí só ele quer ser igualitário no mundo HAHAHAHAH.

AM: tem tanta coisa ridícula nesse texto que tá difícil de mensurar

AM: se diz feminista mas é aquele típico machista benevolente que vê as mulheres como musas

RP: Vou comerr meu nescau cereal lendo isso pq ACORDAR SABOREANDO MALE-TEARS É TER UM DIA REPLETO DE ALEGRIA

RP: “E os homens que não temem o feminino livre serão mais felizes pois haverá mais mulheres livres para eles.” WAIT, WHAT?

LO: Culpando as mulheres loucamente! Como ele é sofrido, nossa!

CM: ESSE cara, falou um monte de merda sexista na pagina do evento de não monogamia, o tal do ricardo kelmer, lembra Yasmin?

NF: “A cultura menos machista de hoje gerará pessoas mais equilibradas, que bom. E os homens que não temem o feminino livre serão mais felizes pois haverá mais mulheres livres. Será um mundo mais feminino. Será um mundo melhor.” = homens sejam feministas pra garantir mais fodas

NF: “susanaxmota disse: Concordo com a Aline. Para mim, também o feminismo é um extremo sexista a evitar, tam-bém aprisiona. Aliás, como todos os “ismos”. Nada como ser realmente livre!” A mulher machista oprimindo o homem feminista, gente

05- Grande Kelmer, vc escreveu de forma simples e clara… Eu ainda vivo e convivo com este mesmo problema, tanto com a mulher, quanto comigo mesmo, devo dizer, porque o tal “modelo” é difícil de ser modificado qdo um outro ainda está em profunda construção e tb já apresenta outros problemas… No mais, somos sempre incompreendidos… Grande abraço. Ronald de Paula, Fortaleza-CE – jul2013

06- “Eu me considero um homem feminista”, já é, politicamente, bastante coisa! Jamile Mileipe, São Carlos-SP – jul2013

07- Sei não. Mas acho que vale a pena pesar algumas considerações: igualdade pressupõe direitos e deveres. então, por que não assumir posturas de sim ou não e pronto? e não jogar pra o outro a responsabilidade que pesa nos próprios ombros? é sempre mais fácil acusar e punir do que observar e depois bradar, se for o caso. Elieldo Trigueiro, Fortaleza-CE – jul2013

08- Feminismo é uma postura política, social e filosófica adotada por mulheres e homens sim. Está, em geral, relacionada a romper com a estrutura patriarcal de poder. No entanto, existem vários feminismos…. Considerar uma mulher frágil é negar o direito dela ocupar determinados cargos, justamente, cargos onde elas são agredidas e/ou violentadas. Pra mim, é aí que reside a seriedade da discussão machista/feminista. E quanto mais os homens reconhecerem a existência dessa violência e discutirem o absurdo cultural disso, melhor! Quanto à flor, gentileza deve gerar gentileza. Mas, infelizmente, muitas vezes, há interesses de dominação ou “panos quentes” por trás do singelo ato. É preciso inteligência, de ambos os lados, para discernir a situação. Kelmer, eu acompanho teu trabalho e creio que você deve continuar ofertando flores sem se preocupar com as opiniões. Principalmente, flores em forma de textos que nos salvam, mulheres e homens, do “machismo nosso de cada dia”. Um abraço! Jamile Mileipe, São Carlos-SP – jul2013

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O melhor investimento do mercado

24/10/2012

24out2012

As qualidades e defeitos que você supervaloriza em algo ou alguém, na verdade quem os possui é você mesmo

O MELHOR INVESTIMENTO DO MERCADO

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Certa empresa de calçados, disposta a montar uma fábrica em outro país, enviou para lá um técnico para sondar o mercado local. Ele foi, estudou as possibilidades e escreveu um relatório onde concluía: “Péssimo mercado! Ninguém usa sapatos.” A empresa então, seguindo suas recomendações, desistiu da ideia de montar a fábrica por lá. Por que investir tanto num lugar onde as pessoas sequer usavam sapatos?

Anos depois, outro técnico foi enviado ao mesmo país para mais uma sondagem, talvez as coisas houvessem mudado por lá. Ele foi, estudou as possibilidades e escreveu um relatório onde concluía: “Excelente mercado! Ninguém usa sapatos.” A empresa então, seguindo sua conclusão, decidiu montar a fábrica, empolgada com o enorme mercado à espera de ser conquistado.

Qual dos dois técnicos tinha razão? Eu diria que ambos, pois a realidade nada mais é que nossa interpretação dela. A maneira como vemos as coisas já determina, por si só, o que essas coisas serão para nós. Se entendemos o mundo como um lugar violento onde somente a violência dita as regras, terminaremos sendo mais um aspecto dessa violência e teremos de seguir suas regras e sermos mais violentos para sobreviver ‒ está formado o círculo vicioso. Claro que existe violência, sim, mas o mundo também é um lugar bonito, com coisas boas. Infelizmente, algumas pessoas valorizam tanto a violência dentro de si mesmas que terminam regendo sua vida com base no competivismo, na ganância e na violência. Valorize uma coisa e ela existirá para você cada vez mais forte, e você, consequentemente, a valorizará ainda mais e assim por diante.

O primeiro técnico compreendeu a realidade ao seu modo e a partir daí tomou suas decisões, e assim aquele país continuou sendo um péssimo mercado para a empresa. E continuaria sendo até que outro alguém compreendesse a realidade de outro modo e assim… a transformasse. A psicologia do inconsciente descobriu que projetamos sem perceber, nas pessoas e coisas ao redor, tudo o que não sabemos bem de nós mesmos. Isso significa que as qualidades e defeitos que você supervaloriza em alguém, na verdade quem os possui é você mesmo, pois se não possuísse, não valorizaria tanto nos outros.

Claro que, independente de nós, existem pessoas maldosas e violentas. Tem gente que é capaz de matar pai e mãe só para não perder o baile dos órfãos. Mas o que importa aqui é o quanto valorizamos as coisas no sentido de exagerar-lhes a importância. Ninguém pode ver, no mundo externo, algo que, de certa forma, já não exista em seu interior. É estranho dizer isso, mas a realidade precisa de nossa compreensão dela para existir. O que conhecemos por realidade, então, não passa de uma compreensão intensamente compartilhada que desde pequenos aprendemos a sedimentar em nossas mentes. E para mudar a realidade, tudo que precisamos é mudar… o modo como a vemos.

A vida é um péssimo mercado? Se essa foi a conclusão que um dia se sedimentou em sua mente, então é melhor mesmo não investir nada, pois você só terá prejuízo. Mas você pode ver a vida como um excelente mercado, sim. Nesse caso, não perca tempo. Termine logo esta crônica e olhe ao redor com melhores olhos. É lucro garantido.

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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

Jung e a jornada do autodescobrimento – Vídeo sobre a vida e a obra do psicólogo e pensador suíço, criador da psicologia analítica

A humanidade, o psicólogo e a esperança – Os acontecimentos mostram que a humanidade está se unificando, unindo seus opostos

Pesadelos reais – A realidade, em si, não existe – o que existe é nossa interação com ela. Filme: Alucinações do Passado

 

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Fim do mundo inesquecível em Jericoacoara

01/10/2012

Ricardo Kelmer 2012

Concorra a um fim de semana pra casal numa das praias mais lindas do mundo

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Criei uma promoção pra divulgar o lançamento de meu livro de contos Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos. Ela brinca com a crença que o mundo vai acabar em 21 de dezembro de 2012. A promoção acontece no Facebook e pra participar, basta compartilhar a postagem da promoção e deixar nome e cidade. Obrigado à Pousada Casa do Ângelo, que tem o saudável hábito de apoiar causas culturais. Eis o texto:

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FIM DO MUNDO INESQUECÍVEL EM JERICOACOARA
> sorteio de pacote para casal (3 dias + transporte + livro)

Se o mundo vai mesmo acabar no fim do ano, melhor estar numa praia paradisíaca, hospedado numa pousada aconchegante e acompanhado do novo livro de contos de Ricardo Kelmer. E se o mundo não acabar, você terá boas histórias pra contar…

SORTEIO – A Pousada Casa do Ângelo, em Jericoacoara-CE, sorteará um pacote de 3 dias (21 a 23.12.12) para casal, incluindo transporte ida e volta Fortaleza-Jericoacoara-Fortaleza, além de 1 exemplar do livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos (contos fantásticos, Editora Arte Paubrasil), de Ricardo Kelmer. Para participar compartilhe esta postagem e deixe seu nome e cidade. Sorteio: 31.10.12 pela Loteria Federal. O prêmio nao é transferível. Se você curtir a página do livro, ganhará mais dois livros do autor (à sua escolha).

DESCONTO – Participantes da promoção podem adquirir o livro por R$ 22, com dedicatória e frete incluído.

LEITORES QUE ADQUIRIRAM NA PRÉ-VENDA receberão o livro pelo correio até o início de novembro

PÁGINA DO LIVRO NO FACEBOOK

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PARTICIPANTES DA PROMOÇÃO: 26
até 01.10.12, 20h

CE – Alyson Fernandes Basilio, Bruna Braun, Camila Souza, Cledson Ramos Bezerra, Danielle Freire, Esther de Paula, Fabio Oliveira, Felipe Araújo, Gustavo Lima Verde, Hawylla Gonçalves, Jefferson Roberto, Lano Lima, Letícia Silva, Linda Mascarenhas, Michele SJ, Paulo Costa, Quel Raquel, Rochelle Araujo, Sandra Alves Ribeiro, Soraya Aquino (Fortaleza), Adryanno Ferreira, Paula Izabela (Juaz. do Norte)
PB – Samantha Pimentel (Campina Grande)
PR – Ana Cristina Suzina (Ponta Grossa)
PI – Teresinha Itapirema (Parnaíba)
RR – Suely Bezerra (Boa Vista)
SP – Juliana Martins (SB do Campo), Barbara Leite, Durval Brasil, Maria Do Carmo Antunes, Maria Pimentel (São Paulo)

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SOBRE O LIVRO

Publicado originalmente em 1997, o livro foi reescrito e alguns contos mudaram bastante. Em minha opinião, ficou bem melhor. Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, os personagens são surpreendidos por estranhos acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmos e deflagram crises tão intensas que podem se transformar numa questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses pessoais.

LANÇAMENTOS – Em breve divulgarei as datas e locais dos lançamentos em São Paulo, Fortaleza e outras cidades.

> Saiba mais, leia contos e comentários

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pousadacasadoangelo.com.br

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Jung – A ciência revolucionária

23/09/2012

23set2012

Como pesquisador da consciência, psicoterapeuta, antropólogo e pensador, Jung levou suas descobertas a uma abrangência notável, refletindo sempre sua preocupação com o futuro da humanidade

JUNG – A CIÊNCIA REVOLUCIONÁRIA

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A psicologia analítica de Jung é um caso curioso na ciência. Embora suas ideias sobre a psique tenham se entendido muito bem com outras ciências como a física quântica, a antropologia e a sociologia, Jung sempre foi considerado um tanto místico por grande parte de seus colegas psicólogos, tendo suas ideias relegadas a uma importância menor na história da psicologia e do pensamento contemporâneo.

Somente agora, quatro décadas após sua morte, suas teorias a respeito da psique começam, de fato, a ser levadas a sério no meio acadêmico, influenciando psicólogos, psiquiatras e os novos cientistas da consciência. A notável abrangência de seu trabalho também tem alcançado profissionais de áreas distintas como médicos, educadores e artistas, o que tem feito com que suas ideias sejam cada vez mais incorporadas pelo público médio.

Afinal, o que possuem as ideias de Jung que tanto aproxima as ciências e o qualifica como o primeiro pensador da pós-modernidade e um dos mais revolucionários pesquisadores da consciência?
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Carl Gustav Jung nasce em 1875, em Kesswill, na Suíça. Forma-se médico e especializa-se em psiquiatria, ciência em formação. O interesse pelos distúrbios mentais o faz desenvolver profundos estudos sobre a mente e suas conclusões o aproximam de Freud em 1907. O já famoso psicanalista judeu-austríaco é figura polêmica no meio acadêmico e enfrenta dificuldades para ter levadas a sério suas ideias sobre o inconsciente. Freud logo reconhece o alto valor do suíço e vê nele, no não judeu, a cabeça ideal para levar adiante a psicanálise. Jung, chefe de clínica do renomado hospital psiquiátrico de Zurique, mesmo ciente dos riscos que corre sua carreira e vendo limitações comprometedoras nas teorias do mestre vienense, toma defesa de Freud em público e tornam-se colaboradores.

Seus estudos e sua experiência clínica, porém, levam-no a divergir da psicanálise e a dolorosa ruptura acontece em 1912. Freud sente-se traído. E Jung vê-se em apuros, pois conhecidos e amigos o abandonam. Inicia-se aí o período mais difícil e delicado de sua vida, onde ele abandona as atividades acadêmicas e parte para um solitário, terrível e decisivo confronto com o inconsciente ‒ que levará anos e quase lhe será fatal.

Mas Jung supera o desafio, emerge dessa fase revigorado e prossegue com seus estudos, mesmo consciente que dificilmente a mentalidade científica ocidental levará a sério coisas como inconsciente coletivo, mitologia e alquimia, para ele fundamentais na compreensão dos processos psíquicos. Morre aos 86 anos, em 1961, deixando uma instigante obra, ainda hoje revolucionária.

Atualmente, percebe-se um aumento de interesse pelo pesquisador suíço, tanto no meio acadêmico quanto pelo público médio, mas até poucos anos atrás a grande maioria dos cursos de psicologia dedicavam, quando muito, uma ou duas aulas às ideias de Jung. Assim como a medicina tradicional ainda está, na maior parte, presa ao paradigma mecanicista newtoniano, nossa psicologia “oficial” ainda é freudiana-psicanalítica. No entanto, alguns pesquisadores desde cedo apoiaram as teorias do suíço, inclusive físicos (!) que viram em suas inusitadas descobertas no mundo das partículas subatômicas incríveis semelhanças com as teorias junguianas sobre o funcionamento da psique. Para esses cientistas, o mundo dos átomos revelava uma espécie de consciência e, de repente, era como se mente e matéria não fossem tão distintas assim e se influenciassem mutuamente ‒ como afirmava Jung, desafiando o paradigma newtoniano-descartiano ainda hoje vigente. Sociólogos e antropólogos também o apoiaram, e a psicologia transpessoal surgiu a partir dele.

Como pesquisador da consciência, psicoterapeuta, antropólogo e pensador, Jung levou suas descobertas a uma abrangência notável, refletindo sempre sua preocupação com o futuro da humanidade. Suas ideias estão cada vez mais presentes nas universidades, em livros, filmes, na vida cotidiana e nas novas maneiras de se interpretar a realidade.

ciência e eu superior

Jung afirma que o inconsciente não é subproduto da consciência nem mero depósito para onde são desviados desejos recalcados e frustrações sexuais, como pensava Freud. Para Jung, a consciência individual é que é produto do inconsciente coletivo da humanidade e traz consigo sua própria porção inconsciente, que, com seus conteúdos escondidos da luz da consciência, influencia o comportamento do indivíduo. Nos recônditos escuros da psique o inconsciente está sempre atuando, e faz com que os sonhos, em sua linguagem simbólica, sejam a representação fiel dos processos psíquicos ‒ nosso apego à racionalidade é que nos afastou da linguagem dos símbolos e não mais a entendemos.

Aprendemos com Jung que o sentido da vida é a individuação, espécie de impulso natural da psique rumo à concretização da potencialidade que trazemos em nós (realização da personalidade total). Esse processo inclui um profundo conhecimento de si próprio pela autoinvestigação psicológica, fazendo-nos mais cientes de nós mesmos e mais capazes.

Para Jung, o processo de individuação é conduzido por um tipo de centro ordenador da psique, que ele denominou self (si-mesmo) e que seria ao mesmo tempo o centro e a totalidade da psique. Individuar-se significa ampliar a consciência, a área superficial da psique. Representa separar-se da massa, do turbilhão inconsciente, e adquirir autonomia. Tornar-se uma totalidade psicológica, una e centrada, sem divisões internas: um “in-divíduo”. Este é o caminho para a personalidade total e a mais íntima realização pessoal. Para Jung, o futuro da humanidade dependerá diretamente disso, da quantidade de pessoas que conseguirem se individuar.

Não é difícil imaginar o quanto isso deve ter soado místico a certas mentalidades. Quer dizer então que se eu entrar nessa, meu eu superior passa a cuidar de mim? ‒ gozam os mais céticos. Há, porém, os que pagam para ver.

taoísmo, alquimia, ufologia

Jung foi ousado ao valorizar o estudo da mitologia, das religiões e da sabedoria oriental, mostrando a ponte para ligar dois modos distintos, mas não excludentes, de interpretar a realidade. Seu conceito de sincronicidade (coincidência envolvendo estados psíquicos e acontecimentos físicos sem relação causal entre si) apresentou à mentalidade científica o mecanismo das grandes coincidências, dos oráculos como o tarô e dos eventos ditos ocultos.

Ele sugeriu que, assim como a ideia taoísta de unicidade, nosso inconsciente pessoal está ligado a todos os outros formando um inconsciente maior, único e coletivo, o que faria nossos pensamentos todos interconectados. Chegou à corajosa conclusão que a humanidade guarda em seu inconsciente geral o registro de todas as suas vivências, mesmo as mais arcaicas (mitos e arquétipos) e assim o passado de um torna-se patrimônio de todos (viria daí, afinal, a ideia de que já fomos alguém em outra vida, presente em tantas culturas?). Mostrou que o I Ching, o milenar livro chinês das mutações, constitui a primeira tentativa documentada de relacionar o inconsciente e o Universo e, assim, a mentalidade oriental deveria ser vista com mais atenção. Jung falava de intercâmbio, não de descarte, entre distintas percepções da realidade. Mas a ciência tradicional deu risinhos.

Seus estudos sobre a alquimia medieval mostraram que ela é precursora da nossa ciência do inconsciente. A relação mente-matéria já era conhecida dos alquimistas que, em sua linguagem, descreviam simbolicamente os processos psíquicos. Sobre isso, diz a psicóloga Nise da Silveira, uma das mais respeitadas estudiosas da obra de Jung no mundo: “A exploração em profundeza do inconsciente levou ao curioso achado de que os mais universais símbolos do self (si-mesmo) pertencem ao reino mineral. São eles a pedra e o cristal. Se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique.”

As ideias de Jung influenciam até mesmo a ufologia. Hoje, pesquisadores de todo o mundo se debruçam intrigados sobre o fenômeno óvni e o drama psicológico dos contatados e abduzidos (pessoas que dizem ter contatos com extraterrestres), buscando pistas que possam nos ajudar a compreender por que tudo isso está acontecendo.

Já em 1958, em seu livro Um Mito Moderno sobre Coisas Vistas no Céu, Jung alertava que é preciso pensar nesses discos voadores de um modo mais abrangente e captar a verdade psicológica das aparições, não importando se são verdadeiras ou não. É preciso entender que quando um mito emerge das profundezas da psique para a vida cotidiana, força a consciência a integrar novos aspectos da existência e inaugura uma nova fase de evolução psíquica. Assim sendo, estamos, todos nós, nesse exato momento, sendo atingidos pelo forte impacto desse mito moderno e, confusos, ainda não entendemos exatamente que diabo está acontecendo. Os contatados e abduzidos são, no entanto, os mais atingidos. Como pioneiros, eles são forçados a vivenciar certas experiências que podem conduzir a humanidade a uma nova e mais abrangente compreensão da realidade e de si mesma.

Para Jung, o desequilíbrio psicológico levou a humanidade a um terrível impasse evolutivo: ou nos tornamos seres mais autoconscientes ou nos exterminaremos a todos. O fenômeno dos discos voadores, mito que alcançou a consciência coletiva no meio do século 20, é assim uma projeção inconsciente, nos céus, de um intenso anseio coletivo de salvação num momento crucial de desespero. As luzes e imagens circulares que vemos são a mais antiga e perfeita representação simbólica do arquétipo da unificação, equilíbrio e totalidade psíquica: o círculo. É a psique coletiva da humanidade a jogar aos céus seu recado urgente: “Atenção todos! Precisamos nos tornar mais inteiros e unificados!”

As teorias junguianas sobre o fenômeno óvni são inadequadas para provar a existência física de naves e extraterrestres, é verdade. Mas esse não é seu papel. Elas agem contribuindo para alargar nossa compreensão do fenômeno, alertando para a relação entre o que ocorre na alma da humanidade e o que está acontecendo nos céus de nosso planeta.

o chamado para dentro

Jung deu o nome de psicologia analítica à sua psicologia. Ela difere da psicanálise em muitos pontos, mas ele mesmo não descarta a importância dessa para alguns tipos específicos de terapia. A psicologia analítica incentiva o indivíduo a descer os degraus escuros do inconsciente e, uma vez lá, reconhecer o que ele na verdade é e integrar esses conteúdos à consciência, tornando-se um ser mais completo e autoconsciente. Assim como alguém faz um curso de computação para investir em seu futuro, muitos procuram a psicoterapia para autoconhecer-se e saber de suas potencialidades. Aí está um grande investimento: conhecer-se melhor. Para viver melhor.

O processo de individuação será sempre algo difícil. Mas ele é a base da existência. Durante muito tempo nós o vivemos apenas superficialmente, mas em algum momento a psique chama o ego a voltar-se para dentro, a conhecer-se e vasculhar no interior as verdades até então buscadas fora. A partir daí novos horizontes se abrem para a realização pessoal. Entretanto, mesmo sob esse impulso natural, o ego, temeroso de confrontar-se com seus medos mais íntimos, pode se recusar a tal interiorização. Nesse caso, ele estará impedindo o fluxo natural de sua evolução, e a psique, em sua capacidade autorreguladora, encaminhará a vida a um conflito insustentável, ocasionando doenças, fracassos e até mesmo a morte.

O autoconhecimento psicológico nos faz ver que os conflitos da humanidade acontecem primeiro dentro de cada um, sutilmente, para depois se exteriorizarem. Para Jung, entendermo-nos com aquilo que não conhecemos de nós mesmos é o grande passo que falta ao Homo sapiens. Só assim deixaremos de ver o inimigo no outro e o reconheceremos onde sempre esteve, dentro de nós mesmos. Esta é uma verdade simples, que poucos enxergam. Mas que traz em si a força das maiores revoluções.

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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SAIBA MAIS

> Jung na Wikipedia

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Jung – A jornada do autodescobrimento (1) 9m12s

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Jung – A jornada do autodescobrimento (2) 9m03s

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A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

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Carma de mãe para filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

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Mulheres na jornada do herói – Elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

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DICA DE LIVRO

MatrixEODespertarDoHeroiCapaEdicaoDoAutor-01Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer

Analisando o filme Matrix pela ótica da mitologia e da psicologia do inconsciente e usando uma linguagem simples e descontraída, o autor compara a aventura de Neo ao processo de autorrealização que todos vivem em suas próprias vidas.

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Pesadelos reais (Alucinações do Passado)

28/08/2012

28ago2012

A realidade, em si, não existe – o que existe é nossa interação com ela

PesadelosReais-01

PESADELOS REAIS

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Alucinações do Passado
é um grande filme e mostra que o inferno existe, sim, mas não tem de ser um lugar cheio de chamas e diabos cruéis. O inferno pode ser aqui e agora, e acontece quando nos apegamos demasiadamente a ideias ou comportamentos que não são mais úteis ao crescimento pessoal e, assim, obstruímos o fluxo natural da vida a tal ponto que ela apodrece dentro de nós, transformando o viver num pesadelo real.

O magistral roteiro do filme prende a atenção desde o início e aos poucos é que entendemos que Jacob embarcara para o Vietnã afetado por sua imensa culpa pela morte do filho. Lá, ferido mortalmente, sua consciência o transporta para uma realidade onde ele segue vivendo sua vida após retornar da guerra, com a namorada Jeze e seu emprego de carteiro. É nessa realidade que ele terá a chance de se libertar da culpa que ainda carrega para, finalmente, ficar em paz.

A tarefa, porém, não vai ser fácil. A nova realidade mostra-se um confuso e perigoso labirinto onde Jacob tem frequentes pesadelos com o Vietnã, é envolvido numa conspiração assassina e chega a sonhar um sonho dentro do sonho, o que o deixa à beira da completa loucura. No auge do sofrimento, sem saber mais a que apelar para entender o que acontece, Jacob recebe de seu quiropata o conselho de se desapegar daquilo que ainda o prende ao inferno em que vive.

No início do século 20 os físicos quânticos desconcertaram o meio científico ao relatarem suas experiências com as partículas subatômicas. Estudando-as minuciosamente, perceberam que o simples ato de observá-las já alterava seu comportamento. Isso os levou à inquietante conclusão que a realidade, em si, não existe: o que existe é nossa interação com ela. Voltando ao filme, a realidade em que Jacob vive após ser ferido no Vietnã é tão real quanto a própria guerra, mas só existirá enquanto ele não se conciliar com seu passado. Em outras palavras, é justamente a compreensão de Jacob a respeito da vida que cria a própria realidade em que ele vive.

É um tanto confuso, sim, mas disso tudo podemos extrair coisas úteis. Podemos, por exemplo, ficar mais atentos para não permitir que a vida se transforme num inferno real, criado por ideias, sentimentos e atitudes aos quais nos apegamos mais que o necessário. Assim como a física quântica já provou em seus laboratórios, tudo que precisamos para transformar a realidade é mudar a nós próprios.
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Ricardo Kelmer 2002 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

> Este texto no site Adoro Cinema

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Alucinações do Passado
(Jacob’s ladder, EUA, 1990)
Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Bruce Joel Rubin
Elenco: Tim Robbins, Elizabeth Peña e Danny Aiello

> Saiba mais

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TREILER DO FILME

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MatrixEODespertarDoHeroiCapaEdicaoDoAutor-01Matrix e o Despertar do Herói
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I Ching das patricinhas

10/08/2012

10ago2012

O oráculo tem validade num caso desse? Ou eu estava sendo extremista?

I CHING DAS PATRICINHAS

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A noite seguia animada e eu tomava minha vodca, espremido entre as pessoas no balcão do bar. Bem ao lado, duas animadas garotas, estilo patricinha, comentavam sobre um rapaz na mesa próxima. Uma delas estava interessada nele e não sabia se devia ir ou não até sua mesa. Foi quando escutei algo extraordinário: Já sei, vou consultar o I Ching!

Tomei um susto. Olhei discretamente e percebi que ela digitava seu celular. I Ching pelo celular… Eu não acreditei. Mas era verdade. As patricinhas esotéricas estavam ali ao lado lendo na telinha o resultado enquanto riam e comentavam. Como a música estava alta, não pude saber qual hexagrama saiu. Mas fiquei encucado. O I Ching parecia não combinar com a situação, aquele clima de brincadeira e futilidade. Soava como algo sagrado sendo profanado. Uma garota consultando o I Ching no bar para decidir se devia ou não ir à mesa do rapaz… O oráculo tem validade num caso desse? Ou eu estava sendo extremista?

É sabido que a cultura esotérica tornou-se massificada e isso desvirtuou muita coisa. Veja o caso dos oráculos, como o Tarô e o I Ching. Eles são excelentes instrumentos de autoinvestigação psicológica e podem ser úteis na resolução de problemas, mas muitos os utilizam sem seriedade alguma e sem noção do que verdadeiramente representam, pois para que o processo seja eficaz, o consulente necessita parar, silenciar e esvaziar sua mente.

No caso do I Ching, o uso ritualístico das varetas requer seus vinte ou trinta minutos, e durante o ritual a mente se aquieta, se recolhe e se afasta do barulho exterior. Essa interrupção do diálogo interno proporciona um estado mental propício para que o consulente possa captar a essência da mensagem que virá. No entanto, a mentalidade apressada do Ocidente não gostou de ter que perder tanto tempo e trocou as quarenta e nove varetas pelas três moedas, e assim gasta apenas um minuto. Pela internet, com apenas um clique consulta-se o I Ching e num mísero segundo obtém-se a resposta. Agora vem o I Ching pelo celular: você consulta na fila do maquedônaldis e no intervalo da novela. Será que é válido? Ou estarei agindo como um purista dos oráculos, antiquado e intransigente?

Sim, é válido ‒ mas apenas para quem está preparado para receber a revelação. Porque tudo pode ser um oráculo, até mesmo a numeração de uma cédula ou o som das folhas ao vento. Tudo que existe pode conter as respostas que buscamos. No entanto, se alguém busca o oráculo com pressa ou intenções frívolas, ele responderá com uma repreensão ou então ironizará o consulente com uma resposta estapafúrdia, como faria qualquer mestre. As respostas sempre virão, sim, mas o consulente precisa estar apto a captar sua essência.

No filme Matrix, Neo consulta o Oráculo e entende que ele não é o Predestinado quando, na verdade, o Oráculo diz apenas que ele ainda está aguardando por algo para ser o que de fato já é. A resposta dos oráculos são claras ou obscuras dependendo de quem pergunta porque, na verdade, é o próprio consulente, em seu nível de sabedoria maior, quem responde para si mesmo, sendo o oráculo um mero instrumento para o processo.

Quanto à patricinha e seu dilema, espero que tenha se saído bem. Mas, cá para nós, se nossa amiga depende do I Ching para arrumar namorado, talvez seja mais produtivo encurtar a saia, apelar para o silicone ou participar do Namoro na TV.

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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

> I Ching na Wikipedia

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A vida na encruzilhada

01/08/2012

01ago2012

Essa percepção holística da vida é que pode interromper o processo autodestrutivo que nos ameaça a todos

A VIDA NA ENCRUZILHADA

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A história deste incrível filme (Missing Link, de 1998 – em português: O Elo Perdido), é desenvolvida sobre um curioso exercício de imaginação antropológica. Os roteiristas focaram sobre o que poderia ser a derradeira família de uma espécie extinta um milhão de anos atrás, o Paranthropus robustus (ou Australopithecus robustus). A família é dizimada por uma espécie hominídea mais evoluída e seu único sobrevivente sai a vagar solitário pelo mundo desconhecido. Ele está muito mais que sozinho: ele é o último representante de sua espécie na Terra.

A pobre criatura não sabe disso, claro. Ela entende que está sozinha, e a noção de morte que possui é suficiente para entender também que não mais verá sua família. Mas não pode fazer ideia da dimensão cósmica de sua solidão. Menos mal. Tivesse noção disso, o peso de tal constatação seria insuportável. Ao espectador é difícil não se comover com a trágica situação da criatura, triste, confusa e repentinamente só num mundo onde já não mais existe um único ser como ela.

Evidentemente, o filme trabalha sobre uma suposição, pois não sabemos em que exatas circunstâncias se deu o desaparecimento do último dos últimos dos robustus, mas pelo que se conhece atualmente, eles viveram na África meridional e oriental e eram uma espécie vegetariana e relativamente dócil, que não sabia manejar o fogo e não tinha intimidade com ferramentas, como o machado, por exemplo. Essa sua “ingenuidade” foi determinante para sua extinção numa África onde o gênero Homo, mais agressivo e capaz, aos poucos ocupava os espaços e partia para povoar o planeta.

Os Paranthropus robustus foram eliminados, mas as espécies do gênero Homo sobreviveram porque desenvolveram talentos especiais, souberam se adaptar às mudanças ambientais e eliminaram espécies semelhantes. Os seres humanos de hoje são, portanto, o elo seguinte de um determinado seguimento da longa e ramificada corrente da evolução da vida neste planeta.

Essa força chamada vida e que se manifesta em tudo que existe ainda está longe de ser compreendida por nós. Mas foi esta mesma força primordial, imagino, que criou nosso sistema solar e fez nascer nosso planeta, 4,5 bilhões de anos atrás. A Terra, por sua vez, precisou de um bilhão de anos para gerar as condições ideais para que a vida pudesse florescer na superfície. Então, seguindo um sofisticado senso de autorregulação que chamamos Natureza, nosso planeta enfim deu à luz um minúsculo e rudimentar organismo: nascia na Terra o que entendemos por vida.

Essa primeira forma de vida terráquea gerou outras, que se diversificaram, se aperfeiçoaram e geraram outras mais complexas que prosseguiram, ao longo de milhões de anos, gerando formas de vida cada vez mais aperfeiçoadas. Foi assim que o princípio vital dessa força, tão cuidadosamente gerado e mantido graças à Terra e seu delicado senso de equilíbrio e autorregulação, chegou aos dias de hoje, manifestado em tudo que existe, animais, vegetais e minerais. Uma longa e paciente aventura!

Essa força primordial experimentou-se em infinitas formas de vida feito uma corrente que se ramifica em muitos segmentos, e seus elos vão criando novos elos a partir deles próprios, numa intrincada lógica em que cada segmento depende de outros segmentos para prosseguir se reproduzindo. Essa interdependência geral foi indispensável para que o processo da vida no planeta se desenvolvesse em harmonia, apesar de sua aparente confusão e casualidade.

Num determinado momento desse processo, aproximadamente 8 milhões de anos atrás, ocorre uma notável divergência evolutiva: uma das milhões de ramificações da corrente se sobressai e passa a se aperfeiçoar através de seus descendentes num ritmo que as ramificações vizinhas não acompanham. Esse rápido e contínuo aperfeiçoamento garante a sobrevivência de seus descendentes e faz com que sua linhagem chegue até os dias de hoje, representada por nós, da espécie Homo sapiens.

O que fez com que essa ramificação se diferenciasse tão subitamente (para os padrões evolutivos, claro) das demais? Isso ainda é um mistério, mas há pesquisadores que trabalham com a hipótese disso ter a ver com o contato com plantas psicoativas expansoras da consciência, como sugere o filme O Elo Perdido. Polêmicas à parte, essa ramificação hominídea adquire a noção de si mesma e passa a refletir sobre o processo evolutivo do qual faz parte. Quanto mais pensa, mais se aperfeiçoa sua capacidade de pensar. Quanto mais se aperfeiçoa, mais longe vai em sua jornada de compreensão de todo o processo que a criou. Paradoxalmente, quanto mais descobre sobre o processo, mais mistérios surgem e mais complexa se revela a estrutura de todo o processo da vida.

A espécie humana é o último elo dessa ramificação especial. Ela adquiriu tamanha capacidade que hoje detém poder sobre a vida no planeta. Infelizmente, ela utiliza esse poder para mostrar a si mesma o quanto é poderosa, numa ostentação inconsequente e perigosa que pode destruir a si própria e ao planeta.

Prefiro crer que a espécie humana despertará de sua cegueira a tempo de evitar o pior. Assim como o robustus que, ao comer da planta, ampliou sua compreensão sobre a vida e a morte, talvez tenha chegado o momento do Homo sapiens ampliar seu entendimento do processo no qual está inserido. Não falo de entendimentos racionais e científicos, que continuam sendo importantes, sim, mas para que essa ampliação seja possível, o entendimento deve agora ocorrer num nível mais intuitivo, que inclua uma percepção não apenas de cada uma das partes, como fizemos até agora, mas da relação entre todas as partes que formam o todo da Terra. Essa percepção holística da vida é que pode interromper o processo autodestrutivo que nos ameaça a todos.

Aquele pobre robustus, infelizmente, não teve como aplicar o aprendizado que a planta lhe permitiu obter, pois tudo que lhe restava era cumprir o destino de ser o último elo de seu segmento. Quanto aos sapiens, o mais destacado dos segmentos, espalhado neste momento em bilhões por todo o planeta, seu destino não é ser destruído por uma espécie rival, pois tal perigo não mais existe. Ironicamente, o destino que começa a se lhe afigurar no horizonte é ser destruído justamente por sua própria arrogância de se entender como algo separado da Natureza. Triste fim para uma longa e bela aventura.

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Ricardo Kelmer 2002 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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O ELO PERDIDO (Missing Link)

Um milhão de anos atrás, homem-macaco tem sua família dizimada por espécie mais evoluída. Sozinho e confuso, ele vaga por terras estranhas, enfrentando perigos desconhecidos e se encantando com os mistérios e maravilhas do planeta primitivo. Ao comer uma planta, tem visões e revelações que o farão compreender melhor o que aconteceu.

O Elo Perdido (Missing link, EUA, 1988)
Direção: David Hughes e Carol Hughes
Elenco: Peter Elliot, Michael Gambon, Brian Abrahams, Clive Ashley

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TREILER DO FILME

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O fim dos tempos chega primeiro aqui

10/07/2012

Ricardo Kelmer 2012

Putz, Kelmer, minha situação financeira tá horrorosa… Sério? Então parabéns, seus problemas acabaram


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Meu livro de contos fantásticos Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos (Editora Artepaubrasil, 2012) será lançado em outubro. Os leitores que adquiriram com aquele descontão na pré-venda receberão o livro pelo correio, com seus nomes devidamente constantes na página Galeria de Leitores Especiais. Chique no último.

E os Leitores Vips? Diferente dos simples mortais, eles poderão adquirir o livro diretamente comigo com um bom desconto. Chique no penúltimo.

Putz, Kelmer, minha situação financeira tá horrorosa… Sério? Então parabéns, seus problemas acabaram. Você pode ler alguns contos aqui no blog ou baixar gratuitamente o piratão (pdf) pra ler no computador ou imprimir. Pode não ser chique mas funciona.

Prefiro que leiam o piratão oficial pois como enviei o livro ainda não finalizado pra algumas pessoas analisarem, versões não-autorizadas podem circular pelaí. E se você gostar do livro, repasse o arquivo aos amigos pois é assim que espero que ele se torne rapidamente conhecido. Em 2013 a editora deverá lançar o e-book oficial, com todos aqueles recursos bacanudos e coisital.

E o meu buchão aí na revista Pinheiros Vip, gostou?

SOBRE O LIVRO

Publicado originalmente em 1997, o livro foi reescrito e alguns contos mudaram bastante. Em minha opinião, ficou bem melhor.

Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, os personagens são surpreendidos por estranhos acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmos e deflagram crises tão intensas que podem se transformar numa questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses pessoais e coletivos.

RESUMO DOS CONTOS
alguns estão disponíveis p/ leitura no blog

O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas, uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

Quando os homens não voltam para casa – Mulher contrata os serviços de um sensitivo para reencontrar o namorado que foi atraído por uma bela princesa para dentro de um quadro de parede.

O cilindro da luz azul – Em sua luta para sobreviver num mundo apocalíptico de autoritarismo e violência, casal descobre estranhos cilindros trazidos pelo mar.

A vertigem – Dizem que seo Pepeu, o louco da cidade, possui dois bichinhos mágicos que localizam coisas perdidas e fazem as pessoas se encontrarem. Mas ele está velho e tem de passar a alguém a missão de cuidar dos bichinhos.

Pequeno incidente em Hukat – Integrante do Projeto Sapiens de Monitoramento Planetário descobre irregularidades comprometendo a evolução da espécie humana e se envolve em rebelião contra Deus, o psicomputador.

Crimes de paixão – Detetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite.

O presente de Mariana – A cabocla Mariana, entidade da umbanda, propõe noivado ao moço Dedé. Ela garante estabilidade financeira mas em troca exige fidelidade absoluta.

Há algo de podre no 202 – Quando crianças, as primas guardavam um terrível segredo sobre o amanhecer. Agora que cresceram, o que pode acontecer?

O strip-tease – Criaturas do futuro que voltam no tempo para garantir que eles mesmos, no passado, não cancelem o futuro – esses são os Observadores.

> Saiba mais, leia comentários, baixe o piratão oficial

> Baixe outros livros kelméricos

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Detestei te ver nu e grávido,mas reconheço que a estratégia foi ótima pra gente se manter ligado às últimas do blog.Tb não sou mulher de ¨piratão”… Hehehe.Acredita q ainda sou mocinha e ainda tenho TPM? Pois é.Acho q vc me pegou num mau dia,pobre Kelmer! Mas,apesar dos pesares, ailóviu, vc sabe disso. Bjs da loura 🙂 Mônica B, Recife-PE – jul2012

02- rapaz! to em choque! hehehe… quer dizer que no atual momento vc está de licença maternidade? hehehe… abçomano. Marcelo Ferrari, São Paulo-SP – jul2012

03- Putz Ricardo, quem é o pai? Blz, arrasou na curtição! Espero que o lançamento seja o maior sucesso e as vendas ainda mais! cheiro Amaury, Fortaleza-CE – jul2012

04- Kelmer, voce está IRRESISTÌVEL assim! UAU! Tentei postar no seu blog mas ele não deixou. Precisa CPF, RG, carta de boas intenções, jurar que eu sou eu mesma mesmo e que mais…? beijo! parabens! Beatriz Del Picchia, São Paulo-SP – jul2012

05- fio, até grávido vc fica lindo! bjão. Renata Regina, São Paulo-SP – jul2012

06- kkkkkkkkkkk… Paula Medeiros de Castro, São Paulo-SP – jul2012

07- kkkkk ‘Believe Ricardo. Krishna Eufrásio, Fortaleza-CE – jul2012

08- ‎Ricardo Kelmer,sou sua fã. Fadinha, Fortaleza-CE – jul2012

09- diabéisso tio???? kkkkkkkkk Laís Galvão, Fortaleza-CE – jul2012

10- comeu o que mesmo,kkkkkkkkkk. Luciene Maia, Fortaleza-CE – jul2012

09- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk meu primo !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Ângela Dias, Fortaleza-CE – jul2012

10- Dia 06/10 seria um dia muito especial para o lançamento desse livro. Que tal? rsrsrsrsrsrs. Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – jul2012

11- Vou fazer o parto. Vânia Dias, Fortaleza-CE – jul2012

12- Vou ser a madrinha??? Kkkkkkk. Karen Brochado, Fortaleza-CE – jul2012

13- Cruzes!!!!!!!!!!!!!!!!! Virgínia Ludgero, Lisboa-Portugal – jul2012

RK: Coisa boa é mulher rindo / O que pode ser mais lindo? / Só mesmo mulher gozando / Até se goza chorando / Seja no riso ou no gozo / Não tem nada mais mimoso / É tudo o que a vida quer / Ver prazer numa mulher 🙂 São Paulo-SP – jul2012