Os apuros do homem feminista

07nov2012

Minha busca por relações igualitárias foi dificultada também porque muitas mulheres, mesmo oprimidas, preferiam relações baseadas no velho modelo machista

OsApurosDoHomemFeminista-2

OS APUROS DO HOMEM FEMINISTA

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Sou um homem feminista, sim, pois luto pela liberdade da mulher e para que o princípio feminino seja resgatado em nossa cultura, principalmente no homem. Porém, discordo quando dizem que no patriarcado apenas a mulher é violentada em seu direito à autorrealização. Claro que ela é a mais prejudicada, mas muitos homens também são penalizados.

Como a grande maioria das crianças da minha geração, que nasceram nos anos 1960, eu fui educado numa cultura patriarcal e cristã, que condiciona as pessoas, desde pequenas, a ver na mulher um ser inferior e de natureza maligna. Tal condicionamento leva os homens, inconscientemente, a temer o feminino e a tentar controlar a mulher. Eu fui treinado assim. Porém, algo deu errado.

Adolescente na Fortaleza de 1980, comecei a viver uma contradição pessoal que me incomodaria por muito tempo. De um lado, a educação e os amigos tentavam me convencer que mulher é incompetente e não merece confiança, que as que dão na primeira vez não servem para casar, que o homem deve ter amantes e a mulher não, que nós não sabemos por que batemos mas elas sempre sabem porque apanham… De outro lado, porém, algo em mim discordava dessas regras. A mulher me causava sensações de reverência e fascínio, me provocava o êxtase da beleza e me inspirava a fazer poemas e canções… A mulher era algo especialíssimo, havia nelas um quê de mistério e sagrado, e eu não as via como inferiores, pelo contrário: elas pareciam ter mais poder que qualquer homem.

Meus amigos contavam piadas machistas e eu já não via tanta graça nelas. Eles namoravam garotas passivas que faziam o estilo futura-mãe-e-dona-de-casa e eu buscava mulheres participativas e de sexualidade livre. Porém, infelizmente para mim, a maioria das mulheres se contentava em seguir os modelos de passividade preestabelecidos para elas. E eu me recusava a aceitar o modelo pré-moldado para mim, o de macho provedor e sempre forte, proibido de demonstrar fragilidade. Minha sensibilidade artística e meu desacordo com as regras faziam algumas pessoas acharem que eu era homossexual, e muitas mulheres não entendiam que eu não ligava para virgindade, não concordava que a mulher mudasse o sobrenome após casar, nem queria tomar a iniciativa toda vez e nem sempre podia pagar sozinho a conta do motel.

Hoje, quase cinquentão, vejo claramente que minha busca por relações igualitárias foi dificultada também pelas próprias mulheres, pois muitas, mesmo oprimidas, preferiam relações baseadas no velho modelo machista, o que é uma triste contradição, sim, mas também é um cruel efeito do patriarcado. Vejo também que minha inadequação aos padrões culturais inevitavelmente contribuiu para a sensação de solidão que sempre me acompanhou. Somente hoje, liberto de vários condicionamentos da cultura cristã-patriarcal, é que me sinto livre para ser quem realmente sou e viver minhas próprias verdades, que não são as verdades misóginas com as quais fui criado. Hoje vivo em paz com minha sensibilidade e com o feminino em mim, e isso me torna um homem mais inteiro, equilibrado, feliz e ainda mais amante da mulher.

A cultura menos machista de hoje gerará pessoas mais equilibradas, que bom. E os homens que não temem o feminino livre serão mais felizes, pois haverá mais mulheres livres. Será um mundo mais feminino. Será um mundo melhor.

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Ricardo Kelmer 2012 – blogdokelmer.com

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AMulherSelvagem-11aA mulher selvagem – Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

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LIVROS

LivroMulheresQueCorremComOsLobos-01Mulheres que correm com os lobos – Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés –  Editora Rocco, 1994)

A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

O feminino e o sagrado – Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Vamo Apoiar! Alberto Marsicano Rodrigues, São Paulo-SP – nov2012

02- O presidente Sukarno da Indonesia declarouque so vai permitir carta de habilitação para mulheres (proibida no pais) quando inventarem o ‘poste de borracha’. Alberto Marsicano Rodrigues, São Paulo-SP – nov2012

03- Adorei, Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos, e que esses tempos de machismo e patriarcado que nos fere a todas e todos esteja mesmo no fim!!! Cristina Balieiro, São Paulo-SP – nov2012

RK: Obrigado a Wanessa B e às amigas e amigos do grupo Relações Livres pelos comentários e sugestões, que me fizeram alterar trechos do texto para evitar interpretações errôneas. (jul2013)

04- Belo texto do Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos !!! Rainha Frágil, Fortaleza-CE – jul2013

RK- Esta crônica tem despertado reações curiosas. As meninas do grupo Movimento Iuzômi, que se autodeclaram feminazis e misândricas, não gostaram nadinha. Postaram a crônica no grupo e os comentários sobre o texto e seu autor foram bem desfavoráveis. Veja todos os comentários aqui. Alguns comentários (preferi por as iniciais dos nomes):

SF: ééééé iuzômi + friendzone + mulheres são interesseiras + eu sou feminista e por isso sou bonzinho e to te fazendo um favor = essa merda de texto

SF: na parte de dividir conta de motel, ou das mulheres preterirem ele porque preferem um modelo machista de relacionamento. Isso é base do discurso ‘eu sou bonzinho, mas ela prefere o mauzinho’

SF: Não, o texto dele nem fala sobre não ser mono, ou ser mono… Ele fala da culpa das mulheres pela própria solidão e como muitas não querem ser igualitárias. Aliás, pelo que ele fala aí só ele quer ser igualitário no mundo HAHAHAHAH.

AM: tem tanta coisa ridícula nesse texto que tá difícil de mensurar

AM: se diz feminista mas é aquele típico machista benevolente que vê as mulheres como musas

RP: Vou comerr meu nescau cereal lendo isso pq ACORDAR SABOREANDO MALE-TEARS É TER UM DIA REPLETO DE ALEGRIA

RP: “E os homens que não temem o feminino livre serão mais felizes pois haverá mais mulheres livres para eles.” WAIT, WHAT?

LO: Culpando as mulheres loucamente! Como ele é sofrido, nossa!

CM: ESSE cara, falou um monte de merda sexista na pagina do evento de não monogamia, o tal do ricardo kelmer, lembra Yasmin?

NF: “A cultura menos machista de hoje gerará pessoas mais equilibradas, que bom. E os homens que não temem o feminino livre serão mais felizes pois haverá mais mulheres livres. Será um mundo mais feminino. Será um mundo melhor.” = homens sejam feministas pra garantir mais fodas

NF: “susanaxmota disse: Concordo com a Aline. Para mim, também o feminismo é um extremo sexista a evitar, tam-bém aprisiona. Aliás, como todos os “ismos”. Nada como ser realmente livre!” A mulher machista oprimindo o homem feminista, gente

05- Grande Kelmer, vc escreveu de forma simples e clara… Eu ainda vivo e convivo com este mesmo problema, tanto com a mulher, quanto comigo mesmo, devo dizer, porque o tal “modelo” é difícil de ser modificado qdo um outro ainda está em profunda construção e tb já apresenta outros problemas… No mais, somos sempre incompreendidos… Grande abraço. Ronald de Paula, Fortaleza-CE – jul2013

06- “Eu me considero um homem feminista”, já é, politicamente, bastante coisa! Jamile Mileipe, São Carlos-SP – jul2013

07- Sei não. Mas acho que vale a pena pesar algumas considerações: igualdade pressupõe direitos e deveres. então, por que não assumir posturas de sim ou não e pronto? e não jogar pra o outro a responsabilidade que pesa nos próprios ombros? é sempre mais fácil acusar e punir do que observar e depois bradar, se for o caso. Elieldo Trigueiro, Fortaleza-CE – jul2013

08- Feminismo é uma postura política, social e filosófica adotada por mulheres e homens sim. Está, em geral, relacionada a romper com a estrutura patriarcal de poder. No entanto, existem vários feminismos…. Considerar uma mulher frágil é negar o direito dela ocupar determinados cargos, justamente, cargos onde elas são agredidas e/ou violentadas. Pra mim, é aí que reside a seriedade da discussão machista/feminista. E quanto mais os homens reconhecerem a existência dessa violência e discutirem o absurdo cultural disso, melhor! Quanto à flor, gentileza deve gerar gentileza. Mas, infelizmente, muitas vezes, há interesses de dominação ou “panos quentes” por trás do singelo ato. É preciso inteligência, de ambos os lados, para discernir a situação. Kelmer, eu acompanho teu trabalho e creio que você deve continuar ofertando flores sem se preocupar com as opiniões. Principalmente, flores em forma de textos que nos salvam, mulheres e homens, do “machismo nosso de cada dia”. Um abraço! Jamile Mileipe, São Carlos-SP – jul2013

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14 Responses to Os apuros do homem feminista

  1. por um mundo com mais homens feministas. 🙂 parabéns pelo texto!

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  2. Eu mudaria o título do texto para “Apuros de um homem livre”, pois trata-se de um belo rapaz livre dos esteriótipos que a sociedade nos impõe… eu acho que o termo feminista ficou muito maltratado e em certos momentos e me parece que as pessoas o enxerga como a masculinização do feminino… E se ser um homem livre, em pleno século 21 ainda é difícil que diremos das mulheres livres? Bem o sei, mal interpretada, os homens tem medo pois sabem que não vai dar para controlar…Certa feita me disseram que eu gostaria de ser homem… tolice, adoro ser mulher, se assustam quando digo que adoro menstruar. Mas é claro que gosto, significa que meu corpo está funcionando perfeitamente, que meu organismo está realizando uma de suas principais funções biológicas (ao meu ver), significa que ainda posso ser mãe, experiência que vivencio e também adoro. De outra vez me disseram que eu só faço o que quero… Lógico! deveria fazer o que os outros querem? Então não seria eu, o que se espera de uma mulher é que ela seja passiva e obediente, realmente, isso não sou. Batam o martelo, sou culpada destes “crimes”. Mas ainda me pergunto quando iremos entender de uma vez por todas a visão de feminino e masculino em sua totalidade, como por exemplo a do ROBERT A.JOHNSON (especialmente em SHE, HE e WE), perceber que em nossa essência coabitam estas duas forças supremas, que são diferentes sim, mas não implica dizer que uma é melhor que a outra. Ora, enquanto o paraíso não chega vou vivenciando, o que posso vivenciar, expressando o que posso expressar e rindo do que é muito ridículo…

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    • ricardokelmer disse:

      Leitorinhas selvagens. Adoro.

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    • Aline, essa liberdade a que vc se permite é uma atitude extremamente feminista, e acredite, isso é algo ótimo. Entendo seu ponto de vista, mas gosto do título. A gente precisa perder o medo de se declarar feminista, só assim os estereótipos serão derrubados e mais pessoas vão ter consciência do real propósito do movimento, que busca apenas a igualdade. 🙂

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  3. nielemendes disse:

    eu amei teu livro ” incrivel charme da insanidade” muito bommmmmmmmmm parabens niele mendes

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  4. susanaxmota disse:

    Concordo com a Aline. Para mim, também o feminismo é um extremo sexista a evitar, também aprisiona. Aliás, como todos os “ismos”. Nada como ser realmente livre!

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    • ricardokelmer disse:

      > Discordo, Susana. Feminismo não é um extremo sexista mas uma luta por direitos iguais, coisa que o machismo não quer. O machismo sim, é um extremo sexista pois se baseia na dominação da mulher pelo homem. Ser feminista é tão-somente ser a favor de direitos iguais. Quando esses direitos forem conquistados, não haverá mais motivo de ninguém ser feminista, assim como atualmente não precisamos mais ser abolicionistas e lutar pela libertação dos escravos.

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      • susanaxmota disse:

        Quando as pessoas se libertarem dos preconceitos, todas e cada uma, não haverá razão de existir nenhum “ismo” a indicar caminhos.Mas para isso é preciso que percebam que têm preconceitos, que consigam identificá-los, e se preocupem em viver suas vidas plenamente, sem ligar para julgamentos e aparências. Entendo que o feminismo lute pela equidade e contra a opressão de uma sociedade misógina, mas às vezes há direitos que era preferível não ter – a título de exemplo, começa a ser “normal” ver uma mulher a tourear. Se já acho horrenda a tourada tradicional e muito macha, ver um ser humano do meu próprio género a cometer tal atrocidade chega angustiar-me. Acho que não é para isto que tantas mulheres lutaram e lutam.

        uanto ao abolicinismo… era tempo de voltar, porque continua a haver escravatura. Disfarçada e hipócrita, mas talvez haja mais escravos do que nunca…

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      • ricardokelmer disse:

        > Feministas lutam por uma sociedade com direitos iguais para homens e mulheres, ou seja, que a mulher seja livre para ser o que ela quiser, assim como o homem. Se ela quiser ser empresária, puta ou freira, ela poderá escolher. Se quiser ser toureira, também. Numa sociedade machista a mulher não pode escolher. É melhor poder escolher, e escolher mal, que não poder escolher.

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  5. susanaxmota disse:

    Sim, tens razão, claro que é melhor poder escolher. Tu entendeste o que quis dizer. Mas muita gente acha que o feminismo defende que a mulher se masculinize, o que não é verdade, porque ser homem não é ser melhor (nem pior, já agora). Aliás, a humanidade está muito para além da biologia.

    Se calhar sou um pouco tonta, mas na minha cabeça não cabe a discriminação, seja de que forma for. Nem sequer sou “especista”, e simplesmente não entendo que se possa categorizar outro ser como “inferior” e dispôr da sua vida como se de uma coisa se tratasse, como se pudessemos ser proprietários de seres vivos. Da mesma forma que não entendo o patriotismo – como se pudessemos ter escolhido nascer com alguma nacionalidade ou seuer com alguma noção de “nação”! É, não me conformo com a falta de escolhas, até nosso nome nos foi dado.E ser discriminado por algo que nem sequer depende das nossas escolhas é ainda mais idiota do que ser discriminado pelas escolhas que fizemos, desde que saiam dos modelos padronizados… Enfim, é um mundo louco! 😛

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  6. Michele disse:

    Acho que é preciso ser “muito homem” para ir contra a padrões pré-estabelecidos pela sociedade, seja homem ou mulher! Lindo texto, sensível e ao mesmo tempo verdaderíssimo! Beijos!

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