Seguir a boiada ou as próprias convicções

09abr2013

A pior morte será sempre a das nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos.

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SEGUIR A BOIADA OU AS PRÓPRIAS CONVICÇÕES

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A paquistanesa Malala Yousafzai, o israelense Nathan Blanc e o russo Sergey Balovin, com seus exemplos de vida, estão mostrando ao mundo que… sim, um outro mundo é possível. À sua maneira, agindo de acordo com suas convicções pessoais, eles simbolizam a grande luta que travam nesse momento muitas pessoas em todo o planeta: a luta contra a opressão e por um mundo mais justo e harmonioso.

Malala tem 15 anos e luta contra o fanatismo religioso dos talibãs no Paquistão, que impede que as mulheres tenham educação. Nathan Blanc tem 19 anos, recusa-se a prestar o serviço militar e por isso já foi preso várias vezes pelo governo de Israel. O pintor russo Sergey Balovin tem 29 anos e tenta viver sem dinheiro, trocando sua arte por bens e serviços. São jovens que vivem em culturas diferentes mas ousaram desafiá-las, expressando sua discordância e mantendo-se leal aos seus próprios valores. E pagando o preço por isso.

Religião, dinheiro e guerra – as três coisas têm muito a ver. Em nome delas os humanos perdem a razão, tornam-se fanáticos e se oprimem e se matam. No entanto, desde pequenos nos ensinam que elas são necessárias, que sem religião vamos para o Inferno, que com dinheiro compraremos a felicidade e que precisamos destruir quem pensa diferente de nós. O ensinamento é tão eficaz e dogmático que as pessoas não conseguem imaginar um mundo sem religião, sem dinheiro e sem inimigos e, assim, repassam os velhos dogmas aos seus filhos e o mundo segue o mesmo, cultuando deuses misóginos, injustos e sanguinários, que exigem vidas e mais vidas em seu nome.

Sim, é defendendo ferrenhamente seus valores culturais que as sociedades se afirmam no mundo. Porém, elas também precisam ser renovadas senão envelhecem e entram em colapso. Parece contraditório, mas essa tensão permanente entre o antigo e novo é que movimenta a cultura, levando-a a explorar suas potencialidades. E é justamente para renovar a sociedade que, vindos de dentro delas mesmas, surgem os indivíduos que a contestarão e trarão os novos valores, forçando as pessoas a erguerem-se um pouco acima de sua própria cultura e a ampliar sua visão da realidade.

A vida dos contestadores, porém, não é fácil, pois não é simples libertar-se dos condicionamentos culturais e religiosos aos quais somos submetidos desde que nascemos. Eles estão tão entranhados em nosso entendimento da realidade que abandoná-los é como morrer, pois morre em nós aquilo que nos liga à cultura ao redor. Mas a pior morte será sempre a das nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos.

O preço a pagar pela autenticidade pode ser a incompreensão e a solidão, pois a boiada não tolera os que se diferenciam. O preço a pagar pode ser a violência, pois essa é a única linguagem dos opressores e fanáticos. Porém, para os que cultuam a liberdade de ser, é libertando-se um pouco a cada dia que o espírito se fortalece e inspira outros espíritos.

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Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

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SOBRE MALALA, NATHAN E SERGEY
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MalalaYousafzai-3Adolescente atacada por talibãs publicará sua história – Malala Yousafzai prossegue em sua luta contra o fanatismo religioso que impede a educação de mulheres. Ela foi baleada na cabeça em um ataque cometido no dia 09.10.13 contra o ônibus escolar no qual viajava no Vale do Swat (noroeste do Paquistão) por um grupo talibã que queria castigá-la por seu compromisso em favor da educação das meninas paquistanesas. Dias depois, foi transferida ao Reino Unido, onde foi tratada e submetida no início de fevereiro a duas cirurgias de reconstituição craniana. Em mar2013 a adolescente pôde voltar à escola, desta vez em Birmingham (centro da Inglaterra), onde a família viverá por algum tempo. Malala, que tem 15 anos, é uma das candidatas ao prêmio Nobel da Paz 2013.

UmMundoMelhorSergeyBolavin-1Artista russo vive sem dinheiro trocando retratos por bens e serviços – O artista russo Sergey Balovin encontrou uma maneira de viver pura e simplesmente de sua arte. Ele vive sem dinheiro, pintando retratos de amigos, conhecidos e desconhecidos e usando as obras para pagar alimentação, serviços, hospedagens e outras necessidades básicas diárias.

UmMundoMelhorNathanBlanc-1Israel prende jovem que se recusa a entrar no exército – Nathan Blanc tem 19 anos e nas últimas 19 semanas foi preso oito vezes por ser contra serviço militar. Nathan sente uma forte conexão com seu país, do qual tem orgulho em vários aspectos. “Mas tenho uma aversão a nacionalismo”, explica. De qualquer modo, afirma não querer “lidar com política e conflitos minha vida toda”. O jovem quer estudar ciência ou tecnologia na universidade e sabe que pode ter prejudicado de algum modo seu futuro. “Mas isso é pequeno quando comparado aos meus princípios em risco”, conclui.

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LEIA MAIS NESTE BLOG

WikiLeaksEONascimentoDaCidadaniaGlobal-01aWikileaks e o nascimento da cidadania global – Quanto mais as pessoas se conectam à internet, mais elas se entendem como participantes ativos dos destinos do mundo e não apenas de seu país

Jung – a jornada do autodescobrimento – Vídeo com um resumo da vida e das ideias de Carl Jung, o psicólogo e pensador suíço criador da teoria do inconsciente coletivo

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Matrix e o Despertar do Herói, cap 5 – Se todos seguirem seu próprio caminho, não haverá mais boiada e, assim, a sociedade não conseguirá se organizar o suficiente. A diferenciação individual é um grande perigo para a sociedade coletiva mas, por outro lado, ela precisa ser renovada

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DICA DE FILME

FILMEZeitgeist-01Zeitgeist (Direção: Peter Joseph. EUA/2007)
Este filme mostra o quanto a história é manipulada pelas elites religiosas e econômicas, que “criam” os fatos e nos fazem todos acreditarmos neles, lutarmos por eles, matarmos por eles
Veja também: Zeitgeist Addendum (2008) e Zeitgeist Moving Foward (2011)

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DICA DE LIVRO

MatrixEODespertarDoHeroiCapaEdicaoDoAutor-01Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer, ensaio, 2005

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem descontraída, Kelmer nos revela a estrutura mitológica do enredo do filme Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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6 Responses to Seguir a boiada ou as próprias convicções

  1. Ivonesete disse:

    Mais uma vez suas palavras coerentes e repletas de lucidez seguem inspirando ao seu redor. Texto maravilhoso Kelmer! Nao por acaso “seguir as próprias convicções, ou a boiada” é agora ponto central nas minhas questões. Sempre bom te ler por aqui.

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  2. Paulo Henrique disse:

    Muito bom o texto. Embora as “próprias convicções” também sejam construções sociais e não algo individual (ainda bem, na verdade)

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    • ricardokelmer disse:

      > Você tem razão, Paulo Henrique, não podemos fugir do social. Mas podemos ser mais do que um número na boiada.

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      • Paulo Henrique disse:

        Ah com certeza, Ricardo. Ser mais um na boiada não dá! Agora já pensou se todos os bois decidem não serem apenas mais um na boiada! Parece impossível, embora pareça ser também o que pessoas como você (como nós) queira que aconteça, que os bois deixem de ser bois. Nesse caso, não haveria porque se diferenciar da “boiada”, já que todos não seriam apenas mais bois. Quer dizer, parece que as situações que tu mostrou são exemplos de que os conflitos (nesse caso) estão longe de ser algo ruim.

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      • ricardokelmer disse:

        > Você chegou ao centro da questão, Paulo Henrique, e não são muitos os que conseguem isso, parabéns! De fato, se todos seguirem seu próprio caminho, não haverá mais boiada e, assim, a sociedade não conseguirá se organizar o suficiente. A diferenciação individual é um grande perigo para a sociedade coletiva mas, por outro lado, ela precisa ser renovada. O filme Matrix tratou dessa questão com maestria. Em meu livro Matrix e o Despertar do Herói, aprofundo o assunto. Caso deseje ler: https://blogdokelmer.com/2010/08/28/matrix-e-o-despertar-do-heroi-cap-5/

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