O dilema do escritor seboso

07/10/2010

07out2010

Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras

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O DILEMA DO ESCRITOR SEBOSO

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Dia desses acessei o Estante Virtual, digitei meu nome no campo de buscas e encontrei, espalhados pelos sebos constantes no site, noventa livros meus. Foi aí que caiu a ficha: sou um escritor seboso! Fiquei feliz porque para um escritor, ter seus livros expostos é sempre bom, claro, e estar exposto numa imensa livraria virtual que reúne centenas de sebos e livrarias de todo o país é a certeza de que qualquer pessoa, do Oiapoque ao Chuí, poderá localizar facilmente meus livros e comprá-los sem precisar sair de casa.

Entre os títulos que encontrei, o único com exemplares novos é o Vocês Terráqueas, de 2008, que eu mesmo deixei num sebo paulistano. Os demais títulos são livros usados de edições antigas, inclusive o Quem Apagou a Luz?, de 1995, meu livro de estreia, da minha fase esotérica. Sim, já fui esotérico, eu juro. E este livro, que é prova disso, é meu campeão de vendas, com uns sete mil exemplares vendidos pela Universalista, uma pequena editora do interior do Paraná. Quatro anos depois a editora Record quis comprar os direitos de publicação mas eu já não gostava mais do livro e ele nunca foi reeditado. Mas essa história eu conto melhor outro dia, prometo.

No Estante Virtual encontrei também O Irresistível Charme da Insanidade, meu romance místico-erótico de 1996. Estavam lá também o Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos, livro de contos fantásticos, de 1997 (e a edição de 2000, pela editora Elevação), e o Baseado Nisso, meu livro independente de 1998, com seus contos de humor sobre o universo folclórico dos usuários de maconha e o glossário de termos e expressões.

Foi interessante ver esses livros lá, à disposição de quem quisesse adquiri-los. Mas foi também constrangedor esse encontro com o meu passado literário. Explico. É que a partir de 2004, estando sem editora, decidi republicar meus livros em edições independentes. E daí? Daí que, ao relê-los, morri de vergonha pois percebi que estavam mal escritos, as histórias não estavam bem contadas como deveriam. Então, antes de republicar, reescrevi todos eles.

Isso é comum entre escritores, desejar reescrever seus livros ao relê-los tempos depois. Eu não fujo à regra pois a cada releitura de meus textos, sempre sou tentado a mudar algo. Ultimamente, porém, isso já não ocorre tanto – sinal de maturidade estilística? Tomara. O campeão de mudanças é O Irresistível Charme da Insanidade: ele tem uma versão publicada em 1996, outra em 2005 e em 2010 reescrevi novamente para a edição da Arte Paubrasil. Dessa última vez usei minha experiência de roteirista e me concentrei no que era absolutamente indispensável à história, agilizando as situações e dando à narrativa o ritmo que ela sempre necessitou ter. Quinze anos após parir o rebento, só agora sinto que ele está realmente pronto para ganhar o mundo.

Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras. Nunca olharão para os seus livros nos sebos e secretamente desejarão que fiquem lá encalhados por toda a eternidade. A mim, do time dos que demoram a amadurecer, me resta esperar que alguns leitores comparem as edições antigas e novas e digam: É, até que ele melhorou…

Enquanto isso, aiai, lá no Estante Virtual o meu passado seboso me condena. Quer saber? Amanhã mesmo voltarei lá. E roubarei todos os exemplares de quem um dia eu fui.

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Ricardo Kelmer 2010 – blogdokelmer.com

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Lançamento do Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos (1997)

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RK1998LordAutografando1Lançamento do Baseado Nisso. Encarnando Lord Kelmer (1998)

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rk200508ICI-01Edição de bolso do Irresistível Charme da Insanidade (2005)

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Bienal do Livro, Fortaleza (2006)

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Vocês Terráqueas, Bienal de São Paulo (2010)

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LIVROS PUBLICADOS
relação atualizada aqui
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Quem Apagou a Luz?
(Ensaio, 1995. Fora de catálogo)
Certas coisas que você deve saber sobre a morte para não dar vexame do lado de lá

O Irresistível Charme da Insanidade
(romance, 1996/2005/2011)
Uma história de amor e vidas passadas, com erotismo e rock´n´roll

Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos
(contos, 1997/2005)2012)
O fantástico e o sobrenatural invadirão sua realidade. Você está preparado?

Baseado Nisso
Liberando o bom humor da maconha
(contos/glossário, 1998/2005)
Contos sobre o folclore dos usuários + glossário de termos e expressões

A Arte Zen de Tanger Caranguejos
(crônicas, 2003)

Seleção de crônicas publicadas em jornal, 1992 a 2003

Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(ensaio, 2005)

Blues da Vida Crônica
(crônicas, 2007)
Seleção de crônicas publicadas em jornal, 2003 a 2006

Guia do Escritor Independente
Como publicar livros e gerenciar a carreira literária
(dicas, 2007)

Vocês Terráqueas
Seduções e perdições do feminino
(contos/crônicas, 2008)
Coletânea de textos sobre a Mulher

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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Will Duran, no seu magnífico livro, A história da filosofia, diz que a imaturidade o tempo conserta. O Marx tentou várias vezes modificar o seu Manifesto Comunista, pois a cada vez que lia via possibilidades de mudanças. Em 2000 publiquei um ensaio sobre a violência urbana, Violência: causas, conseguencias e soluções,  e jamais imaginei que tudo que escrevi estaria acontecendo, mas devo te confessar que não gosto hoje do texto, pois ainda era neófito como publicista e fico até acabrunhado por tê-lo escrito. Mas o importante é escrevermos nossas histórias e ter a certeza de que um dia valeu a pena ter escrito, mesmo que depois não nos reconheçamos mais dentro do texto, como você genialmente dissertou. Forte abraço,

Luís Olímpio

O mistério da morena turbinada

01/10/2010

01out2010

Aí um dia ela, inocentemente, leva o computador numa loja pra consertar. Algum tempo depois dezenas de fotos suas estão na rede, inclusive fotos íntimas

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O MISTÉRIO DA MORENA TURBINADA

1ª parte

Tem sempre um mistério na fila. E o mistério da vez me chegou através do Orkut, num pedido de adicionar. Fernanda, o nome dela. Olhei a foto da moça: morena, sorridente, cabelão preto liso, um decote generoso… Queria ser minha amiga. Que meigo. Mas não deixara recado. E Errikelmer não adiciona sem recado, são normas da empresa. Mas o diabo é que um decote daquele desestrutura a vida do cidadão trabalhador. Aceito.

Um clique e lá tô eu na página da morena. Hummm, na foto ampliada da capa a moça ficou ainda mais atraente. Dou uma sacada na apresentação e vejo que ela mora em Santos, tem 28 aninhos, humm, é psicóloga, humm, e modelo fotográfico, hummmm…. Ops. Modelo e psicóloga? Estranho, né? É, eu sei, mas não sejamos tão rígidos, esse mundo é louco mesmo. Então clico pra ver as fotos do álbum da Fernanda Fuschini, vamos conhecer melhor a moça que deseja ser minha amiga.

Raramente me surpreendo no Orkut, sou macaco velho. Mas daquela vez engoli seco. O que é isso?, eu me perguntava enquanto via as fotos. A morena realmente era violenta. Linda, gostosa, bundão, peitão, bocão, tudo ão. Um olho cinza-azulado e um sorriso manga-larga daqueles. Lá estava morena de shortinho, morena num impossível vestidinho branco tomara que caia, morena indo às compras, morena na balada com as amiguinhas e morena de biquíni, sentada assim, como direi, beeem descontraída pros olhos do internauta.

Babei nas doze fotos, logo eu que sou passado e cozido na casca do alho. No começo, pelas roupas desconcertantes que ela usava, sempre valorizando curvas e protuberâncias, sem falar na marquinha assassina do biquíni, achei que fosse alguma superatriz de cinema pornô ou uma garota de programa classe AA pra cavalheiros de fino trato. Mas logo me condenei por estar sendo tão preconceituoso. Por que uma psicóloga não pode também ser modelo, heim? Por que psicóloga não pode ser turbinada, usar roupitchas criminosas e ter um doce jeitinho brejeiro, heim, heim? Oh, como sou vil! Que mentalidade curta tenho eu! Sim, eu mereço apodrecer junto aos vermes rastejantes na lama fétida dos umbrais, sim, eu mereço! A moça era apenas espontânea, só isso. E queria ser minha amiga. Certamente gostou do meu singelo jeitão de batráquio de ressaca, talvez deseje me conhecer pessoalmente… Isso. Aí ela me ligará e eu a convidarei a visitar meu duplex com vista pra Paulista, e aí ela aceitará uma dose de blequilêibou, nós dois lá na varanda, aí ela dirá que pareço o Fábio Jr., ah, que é isso, Fernanda, assim você me deixa encabulado… Só um instante, Fernanda, meu celular tá tocando, só um instantinho, não vai fugir, heim? Alô? Alô?

Iludido, ô iludido, acorda! Fernanda não existe. Ela não passa de um personagem do Orkut, mais um dos milhares de perfis falsos criados pra sacanear com tarados sebosos como você, que passam o dia na internet atrás de mulher pelada. Entendeu, vagabundo? Agora desliga o celular e vê se cai na real.

Roupitcha básica pra ir na padaria

No instante seguinte, Fernanda sumiu no ar e o copo que ela segurava espatifou-se no chão. O duplex na Paulista evaporou-se e dei por mim de volta ao meu quartinho alugado nesse pombal do centro, que divido com Tábata, minha barata voadora de estimação, que, por sinal, é minha assistente. Quer dizer que Fernanda é uma miragem? Pô, sacanagem! Um demente que não tem o que fazer armou a arapuca e eu caí direitinho. Você, não, os seus hormônios masculinos caíram ‒ me corrige Tábata, que entende bem de instintos animais. Então, de volta à dura realidade, me achando o idiota dos idiotas, fui fuçar o Orkut da personagem Fernanda. E vi que ela gosta de ler, e até cita uns escritores que nunca ouvi falar na vida. Na tevê, curte telejornais, programas de entrevistas e… Ana Maria Braga?! Eclética, a moça. Demonstrando todo o seu lado sofisticado, ela curte jazz, blues e concerto de piano. Frequenta academia, claro, e, surpresa, mora com os pais. E uma de suas paixões é sua família, ô, que meigo. Meigo mas incongruente. O inventor da Fernanda Fuschini passaria fome se trabalhasse com perfil de personagens. A não ser que fosse uma história de esquizofrênicos.

Aí, curioso pra saber se alguém mais tinha caído na pegadinha, fui fuçar os recados dela. Putz! Como tem homem idiota nesse mundo! Rimos muito, eu e Tábata, olhando pra cara dos abestados, todos babando pela morena e deixando seus recadinhos melosos e ridículos. Um tal de Dica mandou essa: “oi.vc arrasa.cuida bem desse corpao que deus te deu.benza deus.ufa…….” Detalhe: o Dica é casado. Tome tenência, seo Dica! Tem medo da tua mulher descobrir essas tuas galinhagens não? E esse outro, um tal de Voltei: “nao sei o que falar suas fotos travaram minha boca,meu inconciente esta dentro de vc no meio das suas pernas fazendo vc gozar com a língua”. Ahahahah! Inconsciente agora tem língua e faz sexo oral. Que pena que Jung não conheceu o Orkut.

Decididamente, o melhor foi o Allan Genaro, de Santos, esse bateu o recorde: “ola fernanda….td bem???? me desculpe entrar sem permissao no seu orkut, mais nossa vc nao existe …… to bobo …..vc é muito linda, e o melhor vc mora perto de mim sabia?” Ahahahah! Pode uma coisa dessa? O cara já tá se imaginando saindo de casa, todo cheiroso, caminhando duas quadras e pegando a Fernanda pra sair. Vai ser iludido assim lá na Baixada!

Aliviado por não ser o único tarado seboso idiota do mundo, deixei um recadinho parabenizando o criador da pegadinha, sim, só pode ser homem, só homem faz essas merdas. Tábata quis também deixar recado, dizendo que era óbvio que a moça era siliconada, que se ela tivesse dinheiro também teria bunda e peitos maravilhosos como aqueles. Pense numa baratinha despeitada… Não permiti, claro. Pois não é que dias depois recebo recado de uma senhora, de sobrenome Fuschini, me parabenizando! Por desmascarar a tal fulaninha. A senhora afirmava que não existia nenhuma sem-vergonha como aquela na família dela e coisa e tal. Ahahahah! A incansável defensora da moralidade dos Fuschini. Não respondi ao recado, mas ele me atiçou de vez a curiosidade. Talvez a incrível morena não se chamasse Fernanda Fuschini, isso era bem provável. Mas ela existia, sim, estava ali na tela, em carne e osso ‒ e peitos. E se ela existia, agora eu queria descobrir quem ela era. Mais um mistério pro investigador Errikelmer. Atenda os telefonemas, Tábata, vou dar uma boa volta pela rede.

2ª parte

Maria Fernanda Fuschini. Encontrei alguém com esse nome numa lista de chamada pra matrícula da Unesp de Lorena, estado de São Paulo, vestibular de 2003, curso de Engenharia de Materiais. Arrá! Existia, de fato, uma Fernanda Fuschini. Mas como saber se era a morena das roupitchas impossíveis?

Insisti mais um pouco e encontrei outra Fernanda Fuschini no Orkut, mas esta era de Guarujá. Infelizmente não tinha nenhuma foto e quase nenhuma informação pessoal. Não parecia ter ligação com o caso. Hummm… Aquela estratégia não estava me levando longe, talvez eu devesse tomar uma outra linha investigativa. Mas qual? Tudo que eu tinha eram umas fotos e um nome que podia ser falso. Bem, já eram nove da noite e eu estava faminto. Então desci pro boteco, me encostei no balcão e pedi o velho xizégui. Com um joguinho da terceira divisão na tevê. Nada mal. O cidadão trabalhador também merece, né?

Nem precisava tanto

Sorte. Bom investigador tem que ter sorte. Alguns dias depois, acidentalmente, vi uma foto no Orkut e achei familiar… Caramba, era a morena! A mesma pessoa, mas com outro nome: Paula Marques. E esta morava no Rio Grande do Sul. As fotos eram as mesmas da Fernanda. Mas dados como idade e altura eram diferentes, assim como outras informações pessoais. Mais um perfil falso, certamente. Deduzi que os dois perfis foram criados por pessoas diferentes, dois caras que decidiram homenagear a morena turbinada reproduzindo suas fotos no Orkut. E talvez até houvesse mais perfis além daqueles dois, com outros nomes. A morena certamente não se chamava Fernanda nem Paula. Oquei. Mas não era muita coisa pra minha investigação. Eu precisava de algo novo.

Três semanas depois, quando eu já desanimava, a informação que eu buscava me chegou. Sem eu pedir. Sorte de bom investigador. Sabe esses amigos que não têm nada pra fazer na vida e todo dia te enviam foto de amadora, vídeo de sexo bizarro, essas coisas bem educativas? Pois é, eu tenho vários desse tipo, tanto amigos como amigas. Uau, que expressão mais curiosa: como amigas. Preciso dizer isso mais vezes. Mas voltemos ao prato principal. Um amigo tarado seboso me enviou um arquivo com uma centena de fotos de uma tal Maria da Graça Mello. Abri o arquivo, assim meio desinteressado, só pra dar uma conferida e… arrááá! Adivinha quem era a tal Maria da Graça. Adivinhooooou. Era a morena turbinada.

Entre as fotos, estavam todas as que eu já vira no Orkut. O resto, porém, era novidade. E que novidade! Agora dava pra conhecer bem melhor a moça. Analisando as fotos, desconfiei que ela seria mesmo do Rio Grande do Sul, pois numa delas havia uma cuia de chimarrão e em outra a placa do carro era de Porto Alegre. Mas quem teria conseguido todas aquelas fotos, e como? E o nome da moça? Será que Maria da Graça Mello também era outro nome falso? Atenda os telefones, Tábata.

Rô-rô-rô… Pois não é que esse era mesmo o nome verdadeiro? Maria da Graça é um desses casos de sucesso instantâneo da grande rede, uma lenda da internet. Veja só o que descobri: gaúcha de Cachoeira do Sul, 26 aninhos, 1,60m, Maria da Graça é formada em Direito pela Ulbra e trabalhava como bancária, sendo também modelo. Olhaí, modelo e advogada. E eu cismando porque a outra era modelo e psicóloga… Aí um dia ela, inocentemente, leva o computador numa loja pra consertar e algum tempo depois dezenas de fotos suas estão na rede, inclusive fotos íntimas: dois funcionários da loja copiaram as fotos de seu computador e publicaram na internet, os calhordas. As fotos se espalham e rapidamente a linda morena das roupitchas inacreditáveis se torna conhecida entre os internautas. Essa é a história. Que coisa, a gente não pode mais nem levar o computador pra consertar, é o fim do mundo. Ah, parece que ela processou a loja.

Insisti um pouco mais na pesquisa e descobri dezenas de sites que republicaram as fotos, com comentários ultra-apaixonados, de homens e mulheres. Descobri vídeos com suas fotos, realizados por admiradores anônimos. Descobri até um vídeo curtinho feito por um cara, de dentro de um carro, que a filmou saindo de casa e caminhando na calçada. Por aí você tira a paixão que a moça desperta na torcida. Sem ter a intenção, e a um custo que ela certamente jamais imaginou ter de pagar, Maria da Graça virou não apenas lenda ‒ virou musa da internet.

O que ela disse sobre isso tudo? Não sei, não encontrei nada. Mas encontrei uma matéria no Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, de 2005, onde ela comenta sobre por que chama a atenção: “Sou um pouco diferente das outras meninas, não sigo padrões comuns para me vestir e uso roupas mais ousadas.” Bem, pelo menos ela reconhece. Ela diz que nas idas frequentes a um shopping em Porto Alegre, sempre volta com muitos cartões de agências de modelos. Não duvido, não duvido. Mas diz que nunca ouviu nada ofensivo por causa das roupas que usa. Ofensivo? Claro que não. Ela é tão bonita e vistosa, e suas roupas tão ousadas, pra usar sua própria expressão, e o conjunto da obra é tão impressionante, que se alguém por acaso pensasse mesmo em ofendê-la, daqui que passasse o assombro ela já estaria longe.

Modelito pra lavar louça

Modelito caseiro pra lavar louça

Satisfeito com a missão cumprida, ponho o caso na pasta Mistérios Resolvidos e me despeço de Maria da Graça, ainda meio encantado com toda essa mistura ambígua de sensualidade, inocência e perdição que ela inspira. Parece uma personagem do Manara. Então percebo Tábata me olhando com seu velho olhar pidão. Claro, garota, você também merece. E dou-lhe um docinho de amendoim, que ela adora. Quanto a mim, desço no boteco pra comemorar com um conhaque duplo mais uma lenda da internet desvendada. E quanto a você, Maria da Graça, gostaria que soubesse que agora você faz parte do time das minhas heroínas, junto a Druuna, Vampirella e Karine Alexandrino. Espero sinceramente que ganhe o processo contra a loja, que seja feliz e continue sendo a gracinha que você é. Será impossível controlar a publicação de suas fotos na rede pois, como você sabe, caiu na rede, é da rede. Mas, quem sabe, as mesmas fotos que te trouxeram constrangimento não te trarão alguma oportunidade interessante, né?

Ah, e quanto aos meus honorários, nem pense nisso, senhorita, por favor. Fiz por amor à profissão. Como? A gente se conhecer? Ahn… bem… claro que podemos. Mas olhe, eu fico tímido diante das minhas heroínas, é capaz de me dar gagueira, começar a tremer e sair correndo, vai ser vergonhoso. Como? Você me amarra numa cadeira? Super-Graça, não diga essas coisas… Heim? Você vai com aquele vestidinho branco da foto do balcão? Ah, não, o vestidinho branco não, assim você já tá abusando do cidadão trabalhador, tenha paciência. Tá pensando o quê, heim, heim? Aceito.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Este conto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

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Investigador Errikelmer passando mal.

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> Matéria com Maria da Graça Mello (RBS TV, 18.03.07)

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MGM057aVeja aqui as fotos proibidas da morena turninada e os vídeos com o making of dos ensaios eróticos. Exclusivo para Leitor Vip: basta digitar a senha de 2010.

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MAIS CASOS DO INVESTIGADOR ERRI KELMER

O mistério da cearense pornô da California – Uma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e entre uma orgia e outra luta pela liberação das mulheres

Tábata, a mulher barata – Não fazia parte dos meus planos ter uma secretária ninfômana, alcoólatra e escandalosa, mas fazemos uma boa dupla no mundo das investigações sexuais

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DICA DE LIVRO

IFTCapa-04aIndecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos eróticos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e salvação por meio da submissão no sexo anal

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COMENTÁRIOS
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01- vc arrasa sempre..parabéns!!! Feliz Ano novo pra vc, que Deus o abençoe sempre e nos permita conviver com tal humor e inteligência por muitas décadas(se não se importar em ficar velhinho, claro) beijos de uma de suas … fãs – Ana Virgínia, Fortaleza-CE – dez2006

02- meu……………….. .fantastico somplismente fantastico a coluna da fernanda q vc fez magnifico…….sem palavras responde ai c puder Abraços. Gustavo Coelho, São Bernardo do Campo-SP – dez2006

03- Olá Ricardo!!! Amei o texto, divertido e real. Infelizmente. Eu já fui uma desses taradas de plantão, rs, qse caí na lábia dum “galã” orkutiano… Sorte, que desconfiava, um cara lindo, descente, inteligente…e não era viado? Só podia ser invençao dum barrigudo punheteiro que não tinha nada melhor a fazer do que sacanear mocinhas incautas como eu…rs Bom, é isso! Beijo pra vc e aceno pra sua assistente(de longe, não sou fã de baratas). Daniela Polvani, São Paulo-SP – dez2006

04- Comentário: Meu caro colega tarado seboso idiota da internet, também faço parte desta categoria e acho que sei de quem se trata esta morena turbinada, o nome da maravilhosa criatura é: Maria da Graça Mello. Sempre gostei (e quem não gosta?) de humor e sacanagem e vc escreve isso numa mistura bem dosada. Só que agora passarei a mandar os links dos seus textos pras listas que participo com maior afinco. Tarados unidos jamais serão detidos… Rubens, Fortaleza-CE – dez2006

05- keeeeeeeeeeeeeeeeeeeee !!!!!!!! FELIZ ANO NOVOOOOOOOOOOOOOOOO… Se a TURBINADA é psicólogaaaaaa…eu sou um mico de circoooooooooo…rsss… bjs Ro PS. Pelo menos meus turbos são verdadeiroooooooooooosssss…. .rsss… Rosângela Letty, São Paulo-SP – jan2007

06- Olá Ricardo estás bem?ADOREI O TEXTO,SAUDADES!!!!!!!!!!!! Silvana Reis, Lisboa-Portugal – jan2007

07- Ilustre Kelmer Entrou meses atras wem Marsicano 3 uma nifeta sexi chamada Marry Jane (Marijuana). Começou a me escrever tietando, texcendo elogios. Respondi com depoimentos erotixcos. E a coisa foi crescendo ate que sugeri um encontro. Mas a coisa nao rolava nunca. Era sempre aquela bolinação intwerminavel. Ate que um dia uma voz feminina surge no meu telefone e reconheci ser da (…), uma chinesinha anã cocainomana inveterada e psicoide. Falei; O que voce quer (…)??? E ela desligou. Depois num recado, a voz dizia-se da Marry Jane, mas pude sacar que o perfil Marry Jane era falso, e a ninfeta nao era outra senão a fronteiriça paranoica da (…). Que Puta Alugação!!! Alberto Marsicano, São Paulo-SP – jan2007

08- INDA RAI NEGORREI! ADOREI!!!!!!!!!!!! Ana Lúcia Castelo, Newark-EUA – jan2007

09- Ricardo! Você é mesmo um incansável observador das coisas do mundo! Grata pelo envio do convite ao seu texto. Aproveito para lhe desejar um 2007 pleno de inspiração e reconhecimento! Juraci Maia, Lisboa-Portugal – jan2007

10- Bom demais!!!! Marcos André Borges, Fortaleza-CE – jan2007

11- adoreeeeeeeeeeeeeeeeei txiuuuuuuuuu, o negócio lá da Gracinha kkkkkkkkkk A-D-O-R-E-I!!!!!!!!!!!!!!!! é tu e mais ninguem viu? kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk bjs bjs bjsssssssssssssssssssssssssss. Gizelle Saraiva, Natal – jan2007

12- hahahhhahahahaha.rs eu dei tanta risada lendo seu texto, mas que coisa né, impressionante como nos engamos nos deixamos seduzir e se não fossem pessoas inteligente como vce, para investigar estes casos, imagine só quantas babadas ja não teria o seu e outros monitores, fico imaginando a cara da sua baratinha tabatha rindo e pensando ai este galã parecido com o fabio junior fuçou fuçou e acabou descobrindo uma heroína da net que apenas tinha ido levar seu computador sem imaginar que suas fotos pudessem ser extraviadas. Achei sensacional e muito bem humorado o texto, parabens Ricardo pela investigação e por seu espírito crítico, bjus. Érika Ortiz, São Bernardo do Campo-SP – jan2007

13- Como tem passado? Adorei este conto! É bem real!!!!!! Tenha um feliz 2007! De coração! Danila Gomes, Fortaleza-CE – jan2007

14- Valeu, meu camaradinha! Continue mandando q eu vou lá e leio! Bom Ano Novo pr’ocê! Palmas pro novo L.F. Verissimo… Engate uma reduzida e mande bala q vc chega lá!Só podia vir mesmo é da capital do nosso Ceará — eu só num digo o nome da cidade pq, diferentemente de vc, sou VOZÃO do coração do meu povão!!! Mas tudo bem; sei reconhecer o talento alheio qdo vejo um q nem vc, mesmo q seja torcedor do “stela”, seu único “defeito”… Rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs! E vamo pa frente pq a campanha do BI tá só começano… Wander Nunes Frota, Fortaleza-CE – jan2007

15- Erri Kelmer , parabéns pelo caso resolvido e não esquecendo a ajudante voadora, Tábata, envio um abraço bem virtual, ajudante é ajudante e merece cumprimentos, né?Bem de longe, bem de longe.Adorei o mistério e seu decorrer.Qualquer mistério insolúvel pedirei humildemente a ajuda do investigador e sua, hã…, ajudante.Beijo.Feliz 2007. Lia Aderaldo, Fortaleza-CE – jan2007

16- SEU TEXTO SOBRE A MORENA É SIMPLESMENTE: I N C R Í V E L!!! Andrea Menge, Niterói-RJ – jan2007

17- Ricardo, Incrível o teu senso de humor e a tua capacidade para descrever tão bem os encantos e os mistérios que cercam a Maria das Graças! Parabéns! E quanto ao resultado da soma entre a “mistura ambígua de sensualidade, inocência e perdição que ela inspira” e os teus instintos animais em ebulição, sem comentários!!!! kkkkk. Kátia Regis, João Pessoa-PB – jan2007

18- Eu adorei o Mistério da morena turbinada. Modelo e Psicóloga. Há.Há. Na verdade Orkut é um grande divã de pobre. Ô povo pra suvinar analista. E aquelas autodefinições me matam. Neura pra todo lado. E quem se define nem percebe. Por isso mesmo adorei o investigador que desvenda mistérios no Orkut. Grande contribuição para a sociedade. Há . Há. Dê noticias. bjs. Marcinha Sucupira, Fortaleza-CE – jan2007

19- Adorei o texto da morena do Orkut. Mariucha Madureira, Brasília-DF – ja/2007

20- esse texto é muuuuuito bom!!!! hauhauahuaha dei muitas gargalhadas.. saudades de vc, qdo vem ao Rio?? Beeeijos meus e da Lívia. Daniela Cecchi, Rio de Janeiro-RJ – jan2007

21- Oiiii, vim te dar os parabéns =] adoreiii “O mistério da morena turbinada”, ótimo!!! aproveitando a oportunidade, feliz 2007! beijos : * Priscila Piffer, Rio de Janeiro-RJ – jan2007

22- Adorei a história rsssssssss… Ora, sou tua amiga no orkut há tanto tempo e vc nunca reparou que sou linda??? Rssssssssssssssss…… Afffff…. homem é tudo igual mesmo rssssssssss…. Um 2007 de muito sucesso pra vc, ricardo. Beijão. Ana Cristina Souto, Fortaleza-CE – jan2007

23- sei nao meu irmao, + continuo achando que e uma traveca do piaui!!!! melhor da rua joao pessoa, aqui em campina!!!! Cesar de Cesário, Campina Grande-PB – jan2007

24- Bom, muito bom, excelente uso das palavras, das imagens, dos aspectos sedutores da criação nesse exercício, tá tudo no lugar, como na morena… Outra coisa: com temas assim, até eu… Pense numa coisinha inspiradora! é, é mesmo um material pra te dar um milhão de dólares, de um milharal americano Abs. Max Krichanã, Fortaleza-CE – jan2007

25- Muito elogiado o “morena turbinada ” inclusive pela citada Karine Alexandrino que te manda um bj. bjão bonequinho ! Michele Diamanti, Fortaleza-CE – jan2007

26- Muito bom Ricardo! Esse é o seu estilo.Tema interessante e atual, humor e criatividade. Eu torcí para que fosse uma mensagem “real”. Pensando bem !!!! Eduardo Macedo, Recife-PE – jan2007

27- Oi Kelmer, To te lendo aqui de Paris acredita? Nada me separa de ti. Como sempre ri demais. Foi bom, pq hoje nao to la muito bem, em Paris, pode? So eu mesmo! Bjs. Lígia Virgínia, Paris-França – jan2007

28- kelmer, s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l, sampa tá te inspirando. fiquei até com vontade de conhecer a tábata e tomar um conhaques desses. bjs. Ihvna Chacon, Fortaleza-CE – jan2007

29- PARABENS!!! seu artigo é muito bem escrito e inteligente! a maria adorou o texto. Site Maria da Graça On Line – fev2007

30Eta crônica boa!! Mede forças com L.F.Veríssimo ou Fernando Sabino nos bons tempos. Adriano Petrachi, Ferrara, Itália – out2010


Confissões de uma leitorinha nua

21/09/2010

Leitorinha, 2010

Fiquei tão à vontade pra ler a página dele na net que agora o fazia completamente nua

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CONFISSÕES DE UMA LEITORINHA NUA

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Por Leitorinha

Uma mulher tem um sonho: encontrar um ser da espécime macho que a compreenda nas suas mais variadas formas de pensar e sentir o mundo. Casar com esse homem? Talvez. Tê-lo em sua cama para dividir gemidos e conversas? Hum… Isso agradaria muito um coração feminino. Compartilhar segredos e levá-lo à tira colo para qualquer parte? Seria perfeito.

Foi assim que Ricardo Kelmer apareceu na minha vida. Um convite irrecusável, uma proposta indecente para conhecer seu blog sobre mulheres. Mulher é um bicho curioso por natureza, gostamos de investigar as coisas, e o rapaz parece ser tão engraçadinho… Custa nada… Comecei a leitura de umas crônicas que tinham o poder de derrubar meu queixo, de tão maravilhosas e bem sacadas. Percebi uma sintonia mágica. “Não acredito que ele saiba sobre isso também! Só pode ter parte com o demo um homem desses… ” RK virou leitura obrigatória, uma atividade de reencontro com minha essência humano-feminina. Ele me fazia rir como uma louca, depois vieram as mordidas nos lábios motivados pelo descaramento em certos textos mais picantes. Eram muitas as sensações, depois te digo mais.

A caixa de pandora havia sido aberta, mas ao contrário da mitologia, não libertou o mal, operou-se uma outra libertação. Eu indicava meu vício para outras viventes precisadas daquela diversão, daquela compreensão. E me orgulho de dizer que algumas amigas o dividem comigo atualmente (dividem o blog, tá?). Escapava nos intervalos do trabalho para ler os textos e me deliciar com cada palavra. Minha sobremesa, ora veja só.

Nunca sabemos em que exato momento começamos a admirar alguém, qual gesto ou palavra daquela pessoa nos cativou. Nesse meu caso de amor literário era qual a palavra poderosa me prendeu, mas a verdade era que não estava buscando respostas pra isso, eu, incrivelmente, apenas gostava de tudo o que o tal escritor produzia. E ponto final. “Afemaria, que agora tu deu pra ler essas doidices… Cadê teus clássicos românticos, maluca?” Eu, doida? Perturbada mentalmente estaria se trocasse a pintura da mulher de carne e osso, desejante e desejada por mulheres artificializadas dos folhetins de mil e oitocentos e me esqueci. Meu momento era de descoberta, experiências ao mesmo tempo pé no chão e fantásticas. Queria respirar novos ares na literatura brasileira, queria conhecer gente nova que me inspirasse tanto ou mais que os catedráticos imortais que estudei na universidade.

Descobri muito mais do que busquei. Achei humor, misticismo, erotismo, beleza, paixão, reflexões sobre a humanidade e tanta identificação com meu dia-a-dia que desconfiei que eu mesma, na calada da noite, assumia a persona de um escritor e produzia tudo aquilo. Aí a pessoa já entrou no nível de fã número zero, né? Exatamente.

Lembro que fui em um evento na cidade para, entre outras literaturices, ver de perto o tal Kelmer. “Bora saber se ele existe mesmo é hoje! Aposto que é uma mulher que assumiu esse pseudônimo aí.” A feira tava uma delícia, muita gente circulando, o povo guajarinando livros e afins, eu paquerando o moço dos dicionários pra ver se ele me dava um desconto, quando de repente ouço falar que em poucos minutos ia haver o lançamento do livro “Vocês Terráqueas”. Aham, era a minha chance. Momento mais apropriado que aquele não haveria. Compraria o livro, ganharia um autógrafo, quem sabe uma dedicatoriazinha marota? A própria glória. Acontece que a Lei de Murphy é minha guru espiritual; a amiga que me acompanhava disse que tava na hora de irmos, que tinha que estar em casa tal hora, que eu demorava demais pra escolher as coisas… Tudo bem, fia, eu já tô indo, deixa eu só passar naquele estande acolá.

E Ricardo era humano. E se movimentava, possuía cores. Acabei perdendo a aposta pra mim mesma. Uau! Figura interessantíssima… Amiga da gente nessas horas só atrapalha, ô derrota. Era ela andando pra saída dizendo que ia me deixar lá e eu andando em direção ao meu muso, resoluta. Cheguei perto e ele me olhou com simpatia. A minha timidez gritava, eu precisava dizer o quanto o sentia próximo, o quanto era precioso e prazeroso ler seus escritos. Mas a boba aqui não conseguiu falar quase nada. Só o parabenizei pelo lançamento do livro e pronunciei o velho “adoro o teu trabalho, viu?”. Contato de terceiro grau com um ser saltado das linhas pro mundo real! Achei que não podia abraçá-lo (vai que RK significasse o nome de um elemento químico radioativo…), mas o abracei ainda meio sem jeito. Ele me agradeceu por estar ali, eu ri amarelo e me despedi. Dois minutos de experiência-quase-morte. Dois minutos!

Saí do local da feira feliz e saltitante. Era o primeiro escritor amado que estava vivo e que ainda por cima tinha me abraçado. Tá, eu sei, deve ser bem piegas dizer tudo isso, mas se aprendi uma coisa com seo Kelmer é que não devemos sentir medo e muito menos vergonha de sentir o que quer que seja. E eu sinto que é uma beleza! A liberdade já existia em mim, eu que ainda tava me acostumando devagar com ela. Perder um pouco a minha timidez característica já era um grande passo.

O tempo passou e fui me tornando uma militante kelmérica das boas. Confessei publicamente minha preferência por músicas bregas, adotei o amor e a liberdade como bandeiras de vida, até tirei do armário o vestidinho que não usava mais por achar que minhas pernas não valiam a pena pra tanto. Virei uma habitué do blog, orkut, coluna d’O Povo, quê mais… Confessar uma coisa: fiquei tão à vontade pra ler a página dele na net que agora o fazia completamente nua, sem temor algum do olhar incisivo que me encarava no canto esquerdo da tela do computador. Intimidade é uma coisa louca.

E eis que num dia desses em que a gente não espera muitas surpresas da vida, o meu escritor cruzou novamente o meu caminho. E aí pude conhecer o homem por trás das letras e dos óculos charmosos. Eu já mais mulher, mais segura de mim, dessa vez não tinha mais motivos para ir embora. Não precisava e não queria ir embora da sua presença. Agora queria saber tudo sobre o ser que não era mais tão lendário, mítico, muito pelo contrário, era vivíssimo e cheio de sangue quente correndo pelas veias.

“Meu maior prazer é te ler, sabia?”

“Pois o meu é saber que você me lê.”

Bem, mas a partir daí já é uma outra história…

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LEIA NESTE BLOG

IncultaEBelaDengosaECruel-6aInculta e bela, dengosa e cruel – Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

Maior que meu horizonte (por Wanessa, inspirado na crônica Inculta e Bela, Dengosa e Cruel)E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

Desconstruindo Kelmer (por Wanessa, inspirado no conto Cristal) – Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação

Canalha Kelmer (por Rômero Barbosa) – Cara, essa tal de Cibele queria era te dar. Queria ler sacanagens escritas por você pra depois tu comer ela todinha

O pop pornográfico de Ricardo Kelmer (por André de Sena) – Os contos e crônicas reunidos nesta obra, que poderiam ser catalogados, grosso modo, como “pop/pornográficos”, mostram que a literatura é mais camaleônica do que se supunha

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01- Uma mulher que me lê nua… O que um escritor safado pode querer mais? Obrigado, Leitorinha! Ricardo Kelmer, São Paulo – set2010


Mulheres na jornada do herói

15/09/2010

15set2010

É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

A primeira vez que topei com o livro O Feminino e o Sagrado – Mulheres na Jornada do Herói foi quando eu lia a revista da Livraria da Vila. Lá estava ele num canto da página, a capinha e a sinopse, olhando todo manhoso pra mim, ei, cara, sabia que eu existo? Curioso, pedi ao atendente da livraria que me trouxesse um pra eu dar uma olhada. Ele procurou mas não encontrou nenhum exemplar na loja. Tudo bem, agradeci, vou pesquisar sobre ele na internet. E levei a revista pra casa. Ela, porém, terminou sumindo no meio da papelada sobre a mesa. E eu esqueci do livro.

Semanas depois eu tô no Espaço Cultural Alberico Rodrigues, em Pinheiros, e de repente vejo o livro sobre o balcão, sabia que eu existo, heim, sabia? Dessa vez peguei o danadinho nas mãos e li alguns trechos. E entendi porque nossos caminhos insistiam em se cruzar: esse livro tem muito a ver com meu trabalho. As autoras usaram as análises de Joseph Campbell pra desenvolver uma perspectiva feminina sobre o mito da jornada do herói, contando a história de 15 mulheres brasileiras e as transformações que elas viveram a partir do momento em que a força do mito irrompeu em suas vidas. É realmente um livro sensível e profundo, que pode inspirar a muitas mulheres e homens.

O livro queria que eu o levasse pra casa. Livros são muito carentes, sempre querem ser adotados, você sabe. Mas eu não tinha dinheiro e tive que deixá-lo lá. Dias depois minha amiga Bia me deu o livro de presente. Eu havia lhe falado dele e ela, que admira meu trabalho com cinema e mitologia, achou que poderia me ser útil.

Tô lendo o livro aos poucos. Vez em quando largo das dez mil coisas a fazer, escapulo do meu mundo de criações intermináveis e me deixo levar pela história de uma daquelas mulheres, seus caminhos percorridos, as crises, as superações… É sempre tocante saber como alguém um dia tornou-se o herói de sua própria vida. Porém, é ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas.

Um dia conheci pessoalmente as autoras, Beatriz e Cristina. Tomamos um café e batemos um papo muito agradável. Elas me contaram sobre a experiência de entrevistar aquelas mulheres e de escrever o livro. Falaram também da palestra que fazem e sobre como é gratificante levar ao público aquelas ideias sagradas. Vi que são mulheres bem cientes do imenso poder de transformação do mito e do quanto o mundo precisa de pessoas que seguem seu verdadeiro caminho de autorrealização ou, como diria Campbell, seguem sua bliss. Parabéns, Cristina e Beatriz.

O Feminino e o Sagrado – Mulheres na Jornada do Herói
Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro
Editora Ágora, 2010

> Blog do livro

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Ricardo Kelmer 2010 – blogdokelmer.com

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Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

AMulherSelvagem-11aA mulher selvagem – Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

Medo de mulher – A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido.

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LIVROS

figlivrovocesterraqueas01Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino – Livro de contos e crônicas sobre a mulher

Mulheres que correm com os lobos – Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés –  Editora Rocco, 1994)

A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

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Religião no poder é fogo

09/09/2010

09set2010

A primeira vítima da promiscuidade entre poder e religião é justamente o maior dos sustentáculos da democracia: a liberdade

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RELIGIÃO NO PODER É FOGO

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Sim, faz parte da democracia que o pensamento religioso tenha representantes na vida política do país. Porém, os cidadãos verdadeiramente democratas devem sempre estar atentos para impedir que a religião ultrapasse seus limites de atuação, pois a primeira vítima da promiscuidade entre poder e religião é justamente o maior dos pilares da democracia: a liberdade. Há vários exemplos históricos das catástrofes que podem ocorrer quando a religião veste o manto do poder político. Mas fiquemos apenas num exemplo: a Santa Inquisição.

Também conhecida por Santo Ofício, a Inquisição é uma instituição católica criada no século 12 para, inicialmente, combater as heresias, ou seja, as demais versões do Cristianismo. A novidade católica inspiraria também a futura igreja protestante, que em alguns países executou na fogueira seus próprios hereges, inclusive católicos. Com o tempo, outras motivações ideológicas, sociais e econômicas se misturaram ao caráter inicial da Inquisição e suas atividades variaram bastante de acordo com o país e a época, mas de modo geral seu objetivo era combater tudo que representasse ameaça à supremacia católica.

A coisa funcionava assim: ao julgar necessário, a Santa Sé enviava seus representantes e instalava os tribunais que, após o julgamento, eram desfeitos. Para que a Igreja não sujasse de sangue suas santas mãos, os tribunais apenas torturavam, extraíam confissões e julgavam, e no fim os condenados eram entregues às autoridades locais para que fossem punidos. O total de execuções é incerto e as estatísticas variam de dezenas de milhares a milhões de mortos em seis séculos de perseguições.

Para ser um réu, bastava uma simples denúncia anônima da vizinha invejosa, o que fazia as chantagens e os subornos correrem à solta, enriquecendo inquisidores e denunciantes e criando na sociedade um permanente clima de terror e paranoia coletiva. Os condenados, se tivessem sorte, sofriam apenas umas torturas educacionais ou tinham tomados seus bens e propriedades. Entretanto, se não confessassem exatamente os pecados que os inquisidores queriam ouvir, a pena era a morte. Havia métodos mortais bem engenhosos e criativos, mas o mais famoso era queimar vivo o condenado numa fogueira, sempre em público para servir de exemplo ao povo. Quando descobriram que alguns morriam por asfixia antes de serem queimados, passaram a embeber enxofre na roupa dos condenados. Mas era tudo por amor a Deus.

Há poucos estudos sobre a Inquisição no Brasil, mas aqui ela também esteve presente, embora de forma menos intensa, condenando a maior parte dos réus por prática de judaísmo – e confiscando todos os seus bens, claro, pois não pense você que sai barato manter em funcionamento o escritório terreno do Reino de Deus. Nos séculos 18 e 19 os tribunais foram gradualmente extintos na Europa, e a Espanha foi o último país a fechar o seu, em 1834. A Inquisição, porém, se mantém viva na Igreja Católica até hoje, com o nome mais agradável de Congregação para a Doutrina da Fé.

Felizmente os tempos são outros e a Igreja já não tem o poder de torturar e queimar vivos aqueles que não seguem os dogmas de sua cartilha – é a liberdade vencendo a ditadura da fé. Alguém pode dizer que a Inquisição está longe demais no tempo e que o exemplo é exagerado. Ainda que fosse distante, e mesmo que soasse exagerado, é preciso que a sociedade continue sempre atenta para que religião e poder não se misturem. Com fogo não se brinca.
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Ricardo Kelmer 2010 – blogdokelmer.com

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DICAS DE LEITURA

A caça às bruxas na Europa moderna – Brian P. Levack (Campus, 1988) – O estranho e terrível fenômeno da caça às bruxas é uma mancha de vergonha não só para a Igreja Católica como também para toda a cultura ocidental. Neste livro, o autor analisa as razões que levaram os tribunais eclesiásticos a julgar e matar milhares de pessoas pela suposta prática de magia maléfica e adoração ao Diabo. Por que tal fenômeno teve lugar justamente nessa época específica da História? Quem eram os acusados e seus acusadores? E por que motivo os julgamentos chegaram ao fim?

A caminho da fogueira – Michael Kunze (Campus, 1989) – Este é o impressionante relato de todo o processo de julgamento e condenação de uma família inteira de camponeses alemães do século XVII. O autor nos põe no interior de toda a trama e, com competência, nos leva a conhecer os meandros escuros dos processos inquisitórios da Idade Média.

Inquisição: prisioneiros do Brasil (Séculos XVI a XIX) – Anita Novinsky (Perspectiva, 2009) – A autora pesquisou arquivos em Portugal e, através da análise dos processos que a Inquisição moveu sobre mais de mil brasileiros, nos oferece um painel sobre a realidade das atividades do Tribunal do Santo Ofício no Brasil entre os séculos 16 e 19.

Perseguição religiosa – A história dos que morreram e mataram porque acreditavam em Deus – Revista publicada pela Mythos Editora.

Inquisição na Wikipedia

Métodos de tortura da Inquisição (imagens fortes)

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DICAS DE FILMES

Arquivos Secretos da Inquisição – Documentário. Produção: Canadá, 2006. Direção: Lauren Drewery. Foi exibido em formato de minissérie no canal The History Channel. Baseado em documentos inéditos e pesquisas que revelam inúmeros segredos do Vaticano, a minissérie tem intervenções de especialistas e retrata passagens obscuras da Santa Inquisição católica.

Sombras de Goya – Longa-metragem de ficção histórica. Produção: EUA/Espanha, 2006. Direção: Milos Forman. Conta a história do grande pintor espanhol Francisco Goya dentro do contexto da Inquisição Espanhola do século 18.

As bruxas de Salem – Longa-metragem de ficção histórica. Produção: EUA, 1996. Diretor: Nicholas Hytner. Apesar de não ser sobre a Inquisição, este filme mostra como o fanatismo religioso pode facilmente promover uma histeria coletiva e levar a condenações injustas. O filme conta a história de um episódio real ocorrido no povoado estadunidense de Salem, Massachusetts, em 1692, que foi o último caso de condenação por bruxaria nos Estados Unidos.  O filme é baseado em uma peça teatral, escrita em 1953 por Arthur Miller, que também fez a adaptação pro cinema.

Giordano Bruno – Longa-metragem de ficção histórica. Produção: Itália/França, 1973. Direção: Giuliano Montaldo. O processo e a execução do astrônomo, matemático e filósofo italiano Giordano Bruno (1548-1600), queimado na fogueira pela Inquisição por causa de suas teorias contrárias aos dogmas da Igreja Católica.

O nome da Rosa – Longa-metragem de ficção. Produção: França/Itália/Alemanha, 1986. Direção: Jean-Jacques Annaud. Baseado no romance homônimo de Umberto Eco. Num mosteiro beneditino italiano do sec. 14, que guarda uma imensa e preciosa biblioteca, estranhas mortes começam a ocorrer, levando a Igreja a investigar. Nesse cenário instala-se a luta entre os valores da Santa Inquisição, representados pelo Inquisidor Geral Bernardo Gui, e a nova mentalidade renascentista, com sua postura humanista, representada pelo monge franciscano intelectual William de Baskerville.

Para baixar estes filmes: filmesepicos.com

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LEIA NESTE BLOG

O mundo é uma mentira – Este filme mostra o quanto a história é manipulada pelas elites religiosas e econômicas, que “criam” os fatos e nos fazem todos acreditarmos neles, lutarmos por eles, matarmos por eles

Bem vindo ao clube dos excomungados – Para a Igreja o pecado de estuprar ou assassinar alguém é menor que o de praticar um aborto

Memórias de um excomungado – Eu jamais havia cogitado a ideia de que era possível não ter religião ou não acreditar em Deus

A menina, a exorcista e a cantora – Primeiro a menina é usada como laboratório de novas técnicas de exorcismo. Agora é usada como objeto de promoção de igreja evangélica. ATENÇÃO: CONTÉM COMENTÁRIOS VIRULENTOS DE FANÁTICOS RELIGIOSOS

Religião certa e sexualidade errada – Com exceção daquelas mais ligadas à Natureza, as religiões atuais foram criadas por homens e refletem a mentalidade patriarcal dominadora

Religião no esporte é gol contra – Se nada for feito, a religião invadirá os campos e quadras e o esporte virará uma cruzada entre os jogadores e seus deuses. ATENÇÃO: CONTÉM COMENTÁRIOS VIRULENTOS DE FANÁTICOS RELIGIOSOS

Santa Luana, livrai-nos dos fanáticos – Crer que o ser supremo do Universo está do meu lado e castigará quem discorda de mim e que o meu deus é real e os outros são mentira – isso não é fanatismo? ATENÇÃO: CONTÉM COMENTÁRIOS VIRULENTOS DE FANÁTICOS RELIGIOSOS

Meu futuro de popistar cristão – Meus shows seriam superanimados, sempre acompanhados de meu time de ruivinhas cristãs de minissaia, as Noviças Viçosas

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01- Isso eh muito antigo nem existe mais, tem q se atualizar e parar de perseguir a igreja catolica ! Michele SJ, Fortaleza-CE – set2014

02- A crença no estado não seria outra espécie de religião? Antonio Carlos Bola Harres, Rio de Janeiro-RJ – set2014

03- Apropriado texto. Francisco Coelho, Rio de Janeiro-RJ – set2014

04- Meu amigo, estamos em 2014, fazer uma analogia entre o mundo de hoje e o de 600 anos atrás está fora de questão. A religião foi uma maneira encontrada pelos Homens para se aproximarem de seus Deuses. O problema são os homens e não as religiões e Deus não faz mal algum a seus filhos. Claudio Salazar, Fortaleza-CE – set2014

05- Você já ouviu sobre maçonaria? CasaVistamar Ilha Grande, Angra-RJ – set2014

06- concordo em partes, o problema não é a pessoa religiosa gerir um país, e sim o tamanho do preconceito que esta sendo propagado pelos mesmos, onde uma pessoa é julgada simplesmente por não participar de um culto, celebração ou reunião, vindo mais de protestantes que são os que mais se reprimem e impõe suas “verdades” absolutas. Nelis Ferreira, Caucaia-CE – set2014

ReligiaoNoPoderEFogo-03a

Onde baixar estes filmes:

http://www.filmesepicos.com


Pátria amada Terra

04/09/2010

04set2010

É animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária

PÁTRIA AMADA TERRA

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Honroso é morrer pela pátria. Militar adora dizer isso. Bem, morrer pelo Brasil eu particularmente nunca morri, mas já desmaiei por ele. Verdade. Tinha 12 anos e estudava no Colégio Militar. E como o colégio vive em função do Sete de Setembro, toda semana tinha treinamento para o grande desfile. Um dia, num desses treinos, nós todos metidos naquele pesado uniforme de gala e perfilados sob o solzão cruel, minha vista escureceu, o corpo fraquejou e… bufo!, desabei feito um armário, de cara no chão. Despertei na enfermaria, tudo bem, só uns arranhões. Novecentos e dezenove, você está liberado por hoje! Sim, senhor!

Se desmaiar já é ridículo, imagine morrer pela pátria. Isso não faz mais sentido num tempo em que ou nos unimos pelo bem geral do planeta e da espécie ou afundamos todos. Sim, sei que muitos ainda creem em superioridade étnica, racial, religiosa e outras ilusões. Porém, está em curso uma revolução que ameaça mudar tudo isso. Silenciosa e sem sangue, ela está fazendo com que a humanidade, cada vez mais, se veja como um único povo a habitar uma única pátria: o planeta Terra.

Estamos presenciando uma profunda transformação no modo da espécie entender a si mesma e ao mundo em que vive. Isso é tão sério que pode mudar o rumo evolutivo do Homo sapiens. Sempre que se aprofunda um pouco mais na maneira de entender a si mesmo, você adentra um novo nível pessoal de evolução. Você se transforma. E como tudo são espelhos a refletir tudo que há, nada fica imune à sua transformação. O mundo ao redor muda… porque você mudou. Este é o segredo da revolução: você não precisa transformar o mundo, basta mudar a si mesmo.

E quando esta revolução começou? Impossível precisar. No entanto, foi no século 20 que ela tomou impulso. E em 1969, quando divulgaram ao mundo aquela foto da Terra tirada da Lua, algo estalou na alma coletiva da humanidade. Foi um momento histórico muito significativo. A maioria não parou para refletir, mas o estalo aconteceu. Pela primeira vez olhamos para a imagem do planetinha azul e percebemos enternecidos como ele é lindo. E nos demos conta de algo incrível: do alto não há fronteiras! Habitamos todos o mesmo lar.

É animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária. As comunicações fáceis e a internet incentivam os jovens a viajar mais, conhecer o mundo. Seus horizontes são mais amplos e não se conformam com fronteiras nem intolerâncias raciais, étnicas, sexistas ou religiosas. Veem os fanatismos nacionalistas atuais como os últimos espasmos da velha mentalidade que não quer morrer, mas que já está moribunda. Para eles, essa noção de patriotismo é mesquinha demais diante de uma pátria bem maior que se chama Terra.

A nova revolução traz em sua luta o clamor pela conscientização ecológica, pelas liberdades individuais e pelo respeito à vida e às diferenças. Pode soar ingenuamente otimista, mas são conceitos que a cada dia se espalham mundo afora feito um vírus benigno. A Terra é meu país e a humanidade minha família ‒ este é o grito de seus soldados que, desarmados, se denominam cidadãos do mundo, uma nacionalidade bem mais abrangente e que abraça toda a riqueza da diversidade cultural humana. São ainda minoria, sim, esses belos revolucionários, mas sua bandeira tremula com a cor de todos os povos, e eu me orgulho de dançar ao lado deles.

Sim, sei que a espécie humana está muito doente e que em seu delírio põe em risco a própria sobrevivência. Vejo tempos terríveis se anunciando no horizonte. Mas sei também que às vezes é preciso que a doença atinja seu clímax para, somente então, regredir. Entram aí os ideais revolucionários: eles é que nos manterão vivos durante a longa noite.

É por isso que quando assisto à parada do Sete de Setembro, tudo aquilo me parece tão pequeno… E é por isso que nada vejo de honroso em morrer pela pátria. Sim, adoro o Brasil e seu povo. Porém, nossa pátria verdadeira, de todos nós, é muito maior que o Brasil. E nossa família não são apenas brasileiros, brancos ou negros ou índios, muçulmanos ou cristãos, homo ou heterossexuais: nossa família é a humanidade inteira, bela e diversa.

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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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LEIA NESTE BLOG

AvatarEOPovoDaTerraA mensagem de Avatar ao Povo da Terra – Temos de compreender o que os antigos já sabiam e nós esquecemos: a Terra é um ser vivo e nós fazemos parte dele

Eles estão na fronteira – Milhões de maltrapilhos famintos, perseguidos políticos, criminosos cruéis, terroristas suicidas, narcotraficantes e trombadinhas invadindo os países e quebrando tudo, estuprando nossas irmãs, matando todo mundo, o caos absoluto

A ilha – Talvez uma ilha na verdade fosse uma… montanha! Sim, uma montanha com o pico fora dágua

A imagem do século 20 – Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisões. Não vimos este ou aquele país: vimos o todo

WikiLeaks e o nascimento da cidadania global – Quanto mais as pessoas se conectam à internet, mais elas se entendem como participantes ativos dos destinos do mundo e não apenas de seu país

Uma bandeira diferente – As pessoas saudavam o nascimento do novo símbolo que emergia do fundo da alma de todos falando de paz e unicidade, de um mundo unido e sem divisões

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romoções e sorteios exclusivos
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.01- “do alto não há fronteiras! “ – Isso me fez ter umas idéias malucas sobre o papel da distância, ou melhor, do distanciamento… O seu artigo é um simples e belo manifesto. É incrível como todos os nossos problemas de espécie parecem ‘ se resumir’ a uma questão de conceito, de linguagem, de olhar. É quase mágico. Lilia Costa, Fortaleza-CE – set2006

02- Aprender a cuidar do planeta… Márcia Daré, São Paulo-SP – set2010

03- Espetacular, Ricardo. De longe , olhando oplanetinha azul- de fato- não há fronteiras. Isso é muito significativo…Por que todo mundo não percebe????” Lia Aderaldo Demétrio, Fortaleza-CE – set2010

04- Gostei, parabens Ricardo Kelmer. Vilma de Oliveira, Fortaleza-CE – set2015

05- Texto atualíssimo e tocante. Eu me identifico Ricardo Kelmer. Entendo-te demais nessas palavras. Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – set2015

06- Lindo texto! Vanessa Machado Monte, Fortaleza-CE – set2015


O cio das letras: Flávia Perez

01/09/2010

Ricardo Kelmer 2010.

Conheci Flávia Perez, que também assina Fla Perez, no sarau Politeama, que Bárbara Leite (a décima esposa de Vinicius) produz todo mês no bar Fidalga 33, na Vila Madalena. Adoro vê-la recitar seus poemas eróticos nos saraus. Ela me deu seu livro de presente. Obrigado, Flávia. Espero que continue nos deliciando com o cio das suas letras.

livro
Leoa ou gazela, todo dia é dia dela

Flávia Perez
poemas, 2009, 104 pag

contato: twitter.com/flaperez

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Modos
Flávia Perez
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Na mesa e no meio das gentes
ele é meu cavalheiro.

Puxa a cadeira pra eu sentar,
enche meu copo de vinho
(só até o meio),
abre a porta pra eu passar primeiro,
ajoelha, num rasgamento
beija-me de leve as mãos
e pede-me em casamento
(finjo que penso, mas depois aceito).

Nem preciso pedir:
“Poupe-me e me comporte,
comporte-se conforme os preceitos
da princesa e seu consorte”,
pois na frente de todos
me canoniza,

e abotoa até o último botão a camisa.

Mas depois,
sozinhos na cama,
meu bem me sodomiza.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Matrix e o Despertar do Herói cap 7

28/08/2010

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(Ensaio – Miragem Editorial/2005)
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Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões.

Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

> saiba mais – compre o livro

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Cap 7

PARALELOS ENTRE A AVENTURA DE NEO
E O PROCESSO DE AUTORREALIZAÇÃO

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Neo acorda em seu quarto e lê as estranhas mensagens no computador. Neo encontra Trinity.
> Início do despertar. O inconsciente se agita e seus conteúdos atingem a consciência, forçando o ego à autoinvestigação. Primeiro ciclo de dúvidas e inquietações.

Neo chega ao trabalho atrasado e é repreendido pelo chefe.
> Primeiras dificuldades. A sociedade reprime a diferenciação, desestimulando o autoconhecimento ao dificultar a libertação dos padrões de comportamento coletivo.

Guiado por Morfeu, pelo celular, Neo tenta fugir mas é detido pelos agentes que o torturam e lhe inserem um dispositivo rastreador.
> O ego segue a intuição, que atua como guia em substituição à lógica racional. A sociedade intensifica a repressão e o indivíduo paga com sofrimento sua busca pela autorrealização.

Trinity convence Neo a seguir com os resistentes. O rastreador é retirado.
> O ego começa a assimilar os conteúdos inconscientes e se fortalece. O indivíduo está mais autoconsciente e ganha mais discernimento e autonomia.

Neo encontra Morfeu, toma a pílula vermelha e inicia seu processo de desconexão da Matrix.
> Dilemas e encruzilhadas no caminho. O indivíduo precisa mostrar que está realmente disposto a prosseguir.

Neo desperta no casulo, fora da Matrix. É desconectado do sistema e jogado no esgoto.
> Novo ciclo de confrontos. O ego é violentamente abalado pelos conteúdos inconscientes e a verdade sobre si mesmo desestrutura o indivíduo. Desequilíbrio psíquico. Crise existencial.

Neo se recupera na nave. Os tripulantes cuidam de Neo.
> O ego sofre com a morte de velhos valores e padrões de comportamento. A psique conduz o ego no processo de autocura.

Morfeu mostra a Neo o que aconteceu com a Terra. Neo reluta em aceitar a verdade.
> Dúvidas, medo e dor no processo de morte e renascimento. Aceitação da transformação interior.

Neo treina com Morfeu em programas de simulação para saber agir dentro da Matrix.
> As novas informações sobre si mesmo são devidamente assimiladas pelo ego, que se torna mais forte, capaz e ciente de suas possibilidades. A força progressista da psique é ativada. O indivíduo se diferencia da massa e amadurece. A vida ganha sentido e se torna mais harmoniosa.

Neo é levado de volta à Matrix para consultar o Oráculo.
> O ego é testado em sua nova fase, vivenciando situações que põem à prova sua transformação.

O Oráculo examina Neo, que ainda não acredita ser o Predestinado.
> O indivíduo está mais autoconsciente, porém ainda não acredita plenamente em seu potencial.

Os resistentes são traídos por Cypher. Morfeu é capturado pelos agentes.
> Ainda relutante em assumir certas responsabilidades, o ego sabota a si mesmo, atraindo insucessos. A força retrógrada está no comando.

Cypher mata os companheiros, zomba da crença de Trinity no Predestinado e ameaça matar Neo.
> Perigos da jornada. O ego é constantemente posto à prova. A fé e a confiança no processo são fundamentais.

Morfeu é torturado pelos agentes.
> A necessidade de liberar o potencial criativo e incorporá-lo definitivamente à consciência.

Neo e Trinity voltam à Matrix, enfrentam soldados e resgatam Morfeu.
> O indivíduo precisa assumir novas e importantes responsabilidades. É necessária a união dos opostos psíquicos.

Neo decide lutar contra o agente Smith. Neo foge mas é encurralado e morto.
> Mais fortalecido, o ego passa por novo ciclo de confrontos com o inconsciente. Crise. Novos aspectos do ser devem ser urgentemente reconhecidos.

Trinity declara seu amor por Neo e ele ressuscita na Matrix. Neo detém as balas no ar e elimina o agente Smith. Neo volta à nave e impede sua destruição pelas sentinelas.
> Após longo e difícil confronto, o ego enfim assimila os novos conteúdos. Velhos valores morrem. A consciência é ampliada ainda mais e a psique se equilibra num nível mais profundo. O indivíduo emerge da crise renascido e ainda mais forte, autoconsciente e em harmonia consigo mesmo, com os outros e com o mundo ao redor. A diferenciação atinge o ponto culminante. O potencial criativo está inteiramente ativado.

Os Predestinados alcançam o centro de controle da Matrix e se reinserem no sistema.
> O avançado nível de autorrealização do indivíduo faz com que a sociedade reconheça e assimile sua experiência pessoal, incorporando-a aos valores coletivos e enriquecendo a cultura.

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FIM

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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CONTEÚDO INTEGRAL DO LIVRO

Cap. 1 – Cinema, mito e psicologia
Cap. 2 – Toc, toc, toc… Acorde, Neo!
Cap. 3 – Não existe colher
Cap. 4 – Morrendo para vencer
Cap. 5 – Matrix Reloaded e Matrix Revolutions
Cap. 6 – Os personagens
Cap. 7 – Quadro comparativo

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> saiba mais – compre o livro

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Matrix e o Despertar do Herói cap 6

28/08/2010

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(Ensaio – Miragem Editorial/2005)
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Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões.

Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

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Cap 6

OS PERSONAGENS

Os personagens de Matrix, seu papel no filme e os aspectos psicológicos que representam no processo de autorrealização

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PAPEL NO FILME

NEO – Personagem principal. Nascido na Matrix, Neo desconfia que há algo errado com a realidade, busca respostas e é localizado pelos rebeldes. Desperta e une-se a eles para ajudar os humanos na luta contra a Inteligência Artificial. Alguns dos rebeldes consideram que ele é o Predestinado de que fala a profecia do Oráculo e que salvará a humanidade. Neo é pressionado pelo dilema de ser ou não o Escolhido e luta contra sua própria natureza.

O PREDESTINADO – Aquele que virá e, com seus poderes, libertará os seres humanos da Matrix. Não se sabe exatamente como ele é nem o que fará, mas sua vinda foi profetizada pelo Oráculo.

TRINITY – Principal personagem feminina. Oficial da nave Nabucodonossor. Reservada e discreta quanto aos sentimentos, ela é avisada pelo Oráculo que se apaixonará por um homem morto e que ele será o Predestinado. Trinity localiza Neo na Matrix e o convence a seguir os rebeldes, levando-o ao líder Morfeu. Somente no fim, quando Neo está morto, é que ela revela seus sentimentos e o que lhe dissera o Oráculo.

MORFEU – Comandante da nave Nabucodonossor. Acredita firmemente na profecia do Oráculo, que diz que um dia o Predestinado virá para libertar a humanidade da Matrix. Ele busca e encontra Neo, um jovem que vive na Matrix. Morfeu está certo de que Neo é o Predestinado e por isso o liberta, treina-o para lutar contra os agentes e se sacrifica por ele.

AGENTES – Programas criados para capturar e eliminar humanos livres que invadem a Matrix. Podem tomar o corpo de qualquer pessoa e apresentam-se sempre de terno preto, gravata e óculos escuros. São fortes, ágeis e extremamente frios e controlados. E invencíveis.

AGENTE SMITH – Líder dos agentes. Tem especial antipatia pelos humanos rebeldes, pois é por causa deles que está preso à Matrix. Mata Neo com dez tiros à queima-roupa mas em seguida é por ele destruído no fim do primeiro filme. Reaparece no segundo filme, mais poderoso e podendo atuar também fora da Matrix. Evolui tanto que, igual ao Predestinado, foge do controle da própria Matrix.

CYPHER – Membro da tripulação da nave, está cansado de lutar contra as máquinas e entra em acordo com os agentes da Matrix para entregar o líder Morfeu. Deseja esquecer tudo o que viveu e recomeçar a vida na Matrix. Para ele, ignorância é felicidade. Trai os colegas, mata três deles mas é morto quando se prepara para eliminar Neo.

ORÁCULO – Programa intuitivo desenvolvido pela Inteligência Artificial para estudar a psique humana e auxiliar na estabilização do sistema. O Oráculo profetiza aos resistentes que Morfeu encontrará o Predestinado, que Trinity se apaixonará por ele e que Morfeu por ele se sacrificará.

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PAPEL NA PSIQUE

NEO – O ego. Centro da consciência. Tem a função de gerenciar o fluxo dos conteúdos entre a consciência e o inconsciente, entre os mundos interno e externo do indivíduo. Apesar do ego ser apenas uma parte do eu psíquico total, é com ele que o indivíduo tende a se identificar, considerando o ego e o eu total como absolutamente iguais. O impulso natural de autorrealização da psique, porém, leva o indivíduo a ampliar sua noção do eu através de um longo e contínuo processo de autoconhecimento, integrando conteúdos inconscientes à personalidade consciente. O processo exige o abandono de antigos valores, honestidade para consigo mesmo, coragem para enfrentar o que se desconhece de si próprio, perseverança e confiança no processo. O ego precisa morrer várias vezes para que um novo ego surja, mais capacitado para conduzir o indivíduo a novos níveis de realização.

O PREDESTINADO – Realização da psique em toda a sua potencialidade. Culminação do processo de ampliação da consciência pelo conhecimento de si próprio e equilíbrio entre consciência e inconsciente. Efetivação do eu potencial em toda sua totalidade, capacitando o indivíduo a viver, finalmente, suas verdades mais íntimas e a se harmonizar consigo mesmo, com as outras pessoas e toda a realidade.

TRINITY – Aspectos femininos da psique (yin), ligados ao cuidado, à maleabilidade, à paciência, aos sentimentos e à valorização dos relacionamentos. Representa a experiência enriquecedora do amor, que age confrontando o indivíduo com a verdade sobre ele mesmo e levando o ego a amadurecer, ampliando a consciência.

MORFEU – Aspectos masculinos da psique (yang), ligados à força criativa, autoconfiança, liderança, agressividade e capacidade de empreender. Representa a fé em todo o processo, o impulso e a força progressista da psique.

AGENTES – Conteúdos inconscientes (medos, traumas e bloqueios) dos quais o ego foge, evitando o confronto. Caso não sejam devidamente assimilados pela consciência, causarão desequilíbrio psíquico, ocasionando gafes, fracassos, doenças e até mesmo a morte.

AGENTE SMITH – Conteúdo de dificílima assimilação por parte da consciência e que, por permanecer inconsciente durante muito tempo, cresce e se torna extremamente poderoso e perigoso, pondo em risco o processo de autorrealização.

CYPHER – Aspectos negativos da psique ligados ao cansaço, desilusão, cinismo e acomodação. É o componente de autossabotagem, a força retrógrada que impede a ampliação da consciência, constituindo-se no impulso oposto à autorrealização. É o traidor interno, sempre fugindo de responsabilidades e saudoso de um tempo em que havia menos autoconsciência e nenhum comprometimento com a transformação pessoal.

ORÁCULO – Representa o sagrado, o numinoso, o mistério, uma força maior à qual o indivíduo se submete com reverência. Pode ser uma religião formal, uma antiga tradição mística, uma poderosa verdade íntima, a ligação com as tradições ou o sentimento de estar unido a algo maior e mais antigo. Pode ser uma conexão intuitiva com a Natureza, com o Universo, com a humanidade. A conexão com o sagrado é arredia ao intelecto racional, mas dá segurança e fornece um sentido para a vida.

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(continua)

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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CONTEÚDO INTEGRAL DO LIVRO

Cap. 1 – Cinema, mito e psicologia
Cap. 2 – Toc, toc, toc… Acorde, Neo!
Cap. 3 – Não existe colher
Cap. 4 – Morrendo para vencer
Cap. 5 – Matrix Reloaded e Matrix Revolutions
Cap. 6 – Os personagens
Cap. 7 – Quadro comparativo

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Seja Leitor Vip e ganhe:

 Acesso aos Arquivos Secretos
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Matrix e o Despertar do Herói cap 5

28/08/2010

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(Ensaio – Miragem Editorial/2005)
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Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões.

Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

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Cap 5

MATRIX RELOADED E MATRIX REVOLUTIONS

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paralelos com o processo de autorrealização

O processo de autorrealização está perfeitamente ilustrado no enredo de Matrix, o filme inicial da trilogia. Nele, acompanhamos o herói desde o início de sua aventura: as crises que levam ao despertar, o autoconhecimento, os conflitos internos, a assimilação dos conteúdos inconscientes, a autossabotagem, a experiência do amor, a morte e o renascimento. Em poucos filmes vemos a estrutura do mito da jornada do herói de modo tão preciso.

O filme inicial se fecha em si mesmo, no sentido de mostrar a trajetória completa do herói que se autorrealiza. Neo torna-se o Predestinado porque enfim se convence que sempre o fora. Em termos psicológicos: a consciência assimilou os conteúdos inconscientes que agiam livres, limitando a atuação do indivíduo, e equilibrou-se entre seus opostos, ampliando-se, permitindo a realização do potencial adormecido e levando o indivíduo a harmonizar-se consigo e o mundo à sua volta.

Vale a pena, porém, nos determos um pouco sobre os dois outros filmes da trilogia. Eles possuem alguns pontos interessantes que podem enriquecer nossa análise.

Zion

A única cidade humana da história é Zion. É lá onde vivem os humanos que nascem fora da Matrix e os que se libertam dela. É lá onde se concentra a resistência contra a Inteligência Artificial. Zion fica no centro do planeta e somente os comandantes das naves possuem seus códigos de acesso.

Na psicologia junguiana há o conceito de Self, ou Si-mesmo, que significa a totalidade e ao mesmo tempo o centro regulador da psique. É no Si-mesmo que a consciência se espelha para crescer e se tornar mais ampliada, pois ele é como a semente que traz em si o modelo da árvore futura. Assim como o ego é o centro da consciência, o Si-mesmo é o centro da psique total, uma espécie de, digamos assim, eu superior. É lá onde estão guardadas todas as potencialidades do ser, feito um código que necessita ser ativado para que se efetive aquilo que por enquanto é apenas potencial.

Neo e o Arquiteto

Em Matrix Reloaded, ao se encontrar pela segunda vez com o Oráculo, Neo fica sabendo que deve se dirigir à Fonte, ao núcleo da Matrix. “A Fonte é o fim do caminho do Predestinado”, diz o Oráculo.

Neo vai até lá e encontra o Arquiteto, a imagem digital da Inteligência Artificial, criadora da Matrix. Sentado tranquilo em sua poltrona, o Arquiteto explica a Neo muitas coisas e o diálogo é um dos mais interessantes da trilogia. Entre várias revelações, Neo descobre que antes dele existiram cinco Predestinados. Entende também que a Matrix foi criada inicialmente representando um mundo perfeito, onde ninguém sofreria e todos seriam felizes. Mantendo os humanos nesse eterno estado idílico de sonho, a Inteligência Artificial seguiria no controle total.

Entretanto, os humanos, mesmo adormecidos, rejeitavam o programa, causando-lhe instabilidade. A Inteligência Artificial insistiu, mas todas as suas tentativas falharam, levando à perda de “safras inteiras” de humanos. Entendendo que o problema era decorrente da falibilidade humana, que não tolera a perfeição, a Matrix foi transformada: no lugar de um mundo perfeito, a ilusão coletiva passou a ser ambientada numa réplica do mundo exatamente como ele era no fim do século 20, com todas as suas imperfeições e injustiças. Mesmo assim as mentes humanas ainda não o aceitaram e o programa continuou instável. Como resolver o problema? Como fazer com que a mente humana aceitasse devidamente a realidade ilusória da Matrix e as pessoas pudessem ser mantidas escravas?

Foi então desenvolvido um programa “intuitivo”, chamado Oráculo, cuja tarefa era estudar profundamente a psique humana. A solução encontrada pelo Oráculo foi oferecer aos humanos uma possibilidade de não aceitar a realidade virtual, ainda que apenas num nível inconsciente. Eles continuariam adormecidos e escravos, mas saberiam, de modo inconsciente, que poderiam despertar e se libertar. Porém, oferecer aos humanos essa opção de saber que podiam se libertar era muito perigoso, pois alguns deles poderiam efetivamente se libertar e, mesmo significando 0,01 da população, poderiam ameaçar a segurança do sistema. O jeito seria reforçar a segurança.

A estratégia funcionou perfeitamente. A quase totalidade das mentes humanas passou a aceitar o programa e o sistema se estabilizou. E as mentes que não aceitavam a ilusão da Matrix? Essa diminuta parcela dos humanos despertava do sonho coletivo e se libertava, formando a resistência. Eles então passavam a invadir o sistema e ajudar outros humanos a se libertar, causando certa instabilidade à Matrix. Para o sistema, porém, essa instabilidade estava prevista e os humanos libertos eram uma anomalia inevitável, exatamente o preço a pagar pelo máximo possível de estabilização do sistema.

Entretanto, o preço incluía algo mais: dentro da possibilidade de anomalia haveria sempre a eventualidade matemática de uma anomalia maior, o suprassumo anômalo, digamos assim. Periodicamente, entre esses humanos que se libertavam, haveria um com capacidades excepcionais, que aprenderia a agir dentro da Matrix melhor que todos, detectaria suas falhas e poderia provocar o colapso total do sistema: esse seria o Predestinado.

Portanto, tudo estava matematicamente previsto desde o início: a pequenina parcela de humanos que não aceitaria o programa e também os resistentes que sempre fugiriam para o centro da Terra e reconstruiriam Zion, a cidade humana, que funcionaria como centro da resistência. Por fim, o surgimento do Predestinado estava igualmente previsto, pois ele era, segundo o próprio arquiteto, “uma soma de um resíduo de uma equação desequilibrada inerente à programação da Matrix”. Mas como lidar com ele?

Matrix: o sistema (quase) perfeito

Embora tenha programado a Matrix para lutar ferrenhamente contra todos os que a desafiam, a Inteligência Artificial sabia que mais cedo ou mais tarde o Predestinado sempre surgiria. Assim, restou lidar com ele da melhor forma possível: se não pode com seu inimigo, una-se a ele.

Como o Predestinado conhece as falhas do sistema melhor que o próprio sistema, sabe de seus pontos vulneráveis e aprende a burlar todas as suas regras, modificando a programação à sua vontade, o ideal então seria fazê-lo se reinserir no sistema, reprogramando a Matrix com os novos dados que ele traria. Fazendo isso, a anomalia prevista reinsere a programação que traz consigo (sua experiência de vida, seus conhecimentos e todos os dados coletados sobre as falhas do sistema) e possibilita a atualização da Matrix, que é reiniciada num nível aperfeiçoado.

Mas como garantir que isso aconteça? Por que o Predestinado, inimigo da Matrix, aceitaria isso?

Para reconhecer a anomalia máxima, a Matrix está sempre a vasculhar a si própria a fim de localizar e eliminar todas as prováveis anomalias até que, dentre elas, sobreviva apenas aquela que, de fato, tem o poder de destruir, ou aperfeiçoar, o sistema. Após isso, esse suprassumo anômalo deverá ser convencido a não destruir, mas, em vez disso, aceitar ser reinserido no sistema. Mas como fazer isso?

Os próprios humanos rebeldes, sem saber, ajudam a Matrix a controlar o Predestinado, pois creem nele, necessitam dele e sempre o levam ao Oráculo. Este, por sua vez, sempre incentiva o Predestinado a se dirigir à Fonte. Ao alcançá-la, o Predestinado sempre encontra o Arquiteto, que lhe fala sobre a Matrix e no fim lhe apresenta duas opções: ou continua sua luta contra as máquinas ou se sacrifica, reinserindo-se no sistema. Se as opções são essas, por que o Predestinado sempre se entrega?

Porque, de fato, não vale a pena continuar lutando. Vejamos. Se o Predestinado prossegue a luta, Zion é destruída, pois a Inteligência Artificial cedo ou tarde saberá sua localização e tem tecnologia suficiente. Mais importante que isso, porém, é o fato de que, sem se atualizar, a Matrix mais cedo ou mais tarde entra em colapso, causando a morte de todos os humanos ligados ao sistema, o que, junto à destruição de Zion, significa a extinção da espécie humana. E quanto à Inteligência Artificial? Mesmo sem sua fonte principal de energia, os corpos humanos, ela ainda sobreviveria e recomeçaria tudo outra vez. Bem, isso é o que diz o Arquiteto. Será que é um blefe? Por via das dúvidas, o Predestinado nunca arrisca.

Por outro lado, aceitando reinserir-se no sistema, o Predestinado pode escolher 23 pessoas na Matrix para serem libertadas – elas fugirão para o centro da Terra e reconstruirão Zion, prosseguindo com a resistência. Ele se sacrifica pela humanidade, sim, mas os humanos continuam vivos. É verdade que a quase totalidade continuará escravizada, com seus corpos imersos em casulos e as mentes conectadas a uma ilusão coletiva. Mas esta opção não é pior que a extinção da espécie.

É por isso que os Predestinados anteriores a Neo aceitaram se sacrificar pela humanidade, reinserindo-se no sistema. Disseminando seus próprios códigos, reintroduziram o programa principal e assim o sistema foi reiniciado, num nível mais avançado ainda. Dessa forma, tudo prossegue como antes: a Inteligência Artificial dominando o planeta, a Matrix aperfeiçoada mantendo os humanos aprisionados e fornecendo-lhe a energia necessária, os rebeldes de Zion resistindo, tentando libertar mais humanos e, além disso, acreditando na profecia do Oráculo de que um dia virá o Predestinado…

As máquinas, a Matrix, os humanos e o Predestinado formam assim um sistema só, autossustentável, cujas imperfeições são na verdade mecanismos imprescindíveis à harmonia maior. O que parece ameaça à Matrix é, na verdade, a garantia da estabilização e do aperfeiçoamento do sistema. O Predestinado é tão somente apenas mais uma peça na engrenagem. Ele toma conhecimento disso somente no fim, quando chega à Fonte, mas então é levado, por seu amor à humanidade, a sacrificar-se, salvando a Matrix e permitindo à Inteligência Artificial continuar dominando o planeta e escravizando os humanos. Perfeito.

Na verdade… quase perfeito. Porque com Neo é diferente. Além do amor impessoal pela humanidade, característica de todos os Predestinados, ele ama Trinity. É justamente o amor romântico, além do amor pela humanidade, que o mantém disposto a lutar e desafiar as possibilidades, somente para continuar com ela, mesmo que isso ponha em risco toda a espécie humana. É um fator absolutamente novo, tão novo que a Inteligência Artificial não o previra.

E nem tinha como, coitada. Talvez as máquinas jamais consigam decifrar, calcular e prever o amor, essa força tão imensa, poderosa, insana e contraditória, essa equação tão desequilibrada e imprevisível. Tão imprevisível que a fragrância do amor de Neo e Trinity sensibiliza até o Oráculo e o leva a ajudar Neo mais do que deveria, arriscando ainda mais o equilíbrio do sistema. Tão imprevisível que em troca de um beijo de Neo (mais um beijo traidor), Perséfone trai os interesses do marido Merovíngio e permite aos rebeldes o acesso ao Chaveiro e a posterior chegada de Neo à Fonte.

Um beijo. Ai, ai, apenas um beijo… Um simples toque de lábios faz Perséfone sentir novamente a doce e inebriante sensação de estar amando. A ela bastou apenas o gostinho da sensação perdida, do amor que um dia encheu de sentido os seus dias, bastou isso para Perséfone. Como quantificar, equacionar e programar o amor?

psique artificial

A Matrix é tão somente um sistema de simulação da realidade, feito de muitos programas integrados, mas se parece bem mais com os humanos do que a Inteligência Artificial certamente gostaria de admitir. Aliás, em certos aspectos a Matrix parece uma imitação da psique humana. Podemos até falar de consciência e inconsciente, por mais estranho que pareça.

Consciência e inconsciente na Matrix? Antes que você feche o livro e diga que eu já estou forçando a barra, me dê só mais alguns parágrafos, por favor. Obrigado.

Veja só. A Matrix sabe tudo sobre si mesma? Não, pois o sistema possui os seus próprios guetos virtuais, onde se escondem os programas rebeldes que seriam desativados. Além disso, ela nem sempre sabe quando os humanos a invadem, nem onde se encontram e nem o que irão fazer. Os programas rebeldes até que não causam problemas sérios – mas os humanos invasores, estes sim dão uma dor de cabeça danada, pois além do sistema não ter controle sobre eles, os humanos desejam destruí-lo. São os conteúdos inconscientes da Matrix. Sem falar em Smith, que também sairá do controle do sistema.

A Matrix tem consciência de si através de seu programa gerenciador, que utiliza eficazes mecanismos de defesa (agentes) para perseguir e eliminar humanos invasores, pois sabe que dentre eles poderão surgir, e efetivamente surgirão, as anomalias previstas. As anomalias representam o risco de morte do sistema, mas o suprassumo das anomalias será, na verdade, a própria continuação do sistema, num nível mais avançado. O programa gerenciador, porém, não entende assim, e faz de tudo para que o sistema sobreviva. Parece até um velho conhecido nosso, não?

Isso mesmo, o programa gerenciador do sistema parece o ego. O ego da Matrix é igual a todos os egos: não quer morrer jamais. Mas não tem jeito, o Predestinado sempre vem. O programa gerenciador não sabe que o que morrerá é a versão antiga do sistema, obsoleta, uma versão incapaz de lidar com as novas exigências, com a agilidade e conhecimento do novo Predestinado. A Matrix, se entregando, se une a seu mais poderoso inimigo e ressurge atualizada, mais forte ainda. Viu? É a Matrix assimilando seus conteúdos inconscientes e se fortalecendo…

Smith personifica com perfeição o desastre que um ego inflado pode causar à psique. Na Matrix, ele é o representante mor do sistema e existe para gerenciar a relação delicada entre o sistema e os humanos, reprimindo a ação destes. Smith não aceita a derrota, não quer ser deletado: é o egão que resiste, orgulhoso. A Inteligência Artificial, na pessoa do Arquiteto, já sabe que precisa se entender com o Predestinado para que o sistema que ela criou passe para um novo nível – mas o diabo do Smith não quer saber de conversa. Sua teimosia é uma ameaça crescente ao próprio sistema e ele se torna mais perigoso até mesmo que Neo. Então, para manter o próprio equilíbrio, a Inteligência Artificial ajuda Neo a derrotar Smith. Assim também faz o Si-mesmo na psique quando o ego está inflado demais e compromete o equilíbrio do eu total: ele permite que os conteúdos inconscientes se manifestem tão fortemente que a vida sai do controle, vêm os desastres e insucessos, e o ego, humilhado e impotente, não resiste e morre.

Uma psique artificial, com seu equilíbrio dinâmico e seus próprios ciclos de morte e renascimento – assim é a Matrix, por mais blasfemo que pareça o termo psique artificial. Senão vejamos: trata-se de um sistema autoconsciente, mas não totalmente, que será sempre ameaçado e sabotado por seus próprios componentes indesejados, que um dia será por eles seriamente desestabilizado e, num processo de integração simbiótica, se unirá a eles para renovar a si mesmo e continuar vivo, mais forte e capaz – e então novos componentes indesejados surgirão e assim por diante. O centro desse sistema possui todas as informações e conhece perfeitamente o processo, pois é ele que o comanda. Além disso, essa espécie de Si-mesmo do sistema já o viu passar por tudo aquilo várias vezes, todos aqueles conflitos, e sabe que apesar de tudo o sistema sobreviverá.

Psique artificial, máquinas assimilando conteúdos inconscientes… Bem, é só uma comparação, claro, mas esse exercício de imaginação pode nos ajudar a vislumbrar como seria uma psicologia das máquinas. Sim, por que elas, sendo capazes de pensar por si próprias, não haveriam de ter uma psicologia? Talvez já seja hora de começar a pensar nessa possibilidade.

Aliás, o que Jung diria se soubesse que um dia suas ideias seriam utilizadas para explicar o comportamento das máquinas? Consideraria, de fato, uma blasfêmia? Não sei. Talvez ele desse uma daquelas suas boas risadas: “Bem, chame uma delas qualquer dia para tomar um chá comigo à beira do lago…”

retribuindo à sociedade

A engenhosidade de toda a trama de Matrix merece um prêmio. O segundo episódio, Matrix Reloaded, nos mostra a chegada do Predestinado à Fonte da Matrix e sua posterior reinserção no sistema. Ao nosso estudo, isso é mais um paralelo com o processo de autorrealização, mais precisamente o aspecto final do processo: a absorção, pela sociedade, da rica experiência do indivíduo que se autorrealiza. É o mito do herói revivido, o herói que se isola para depois retornar e salvar seu povo. É a volta do indivíduo ao outro lado da espiral indivíduo-sociedade após ter feito o percurso completo.

Já vimos que o processo de autorrealização exige que o indivíduo se diferencie. Essa diferenciação tem vários níveis e começa logo após a concepção, quando óvulo e espermatozoide se unem para formar um terceiro elemento, iniciando o processo de aglutinação dos conteúdos psíquicos indiferenciados que futuramente formarão a noção de eu. O novo ser é, por enquanto, uma pequenina porção do inconsciente coletivo da espécie que se destaca, feito uma erupção vulcânica no fundo do oceano, e que formará, com suas experiências individuais no útero materno, uma pequena elevação de terra, um inconsciente individual.

A diferenciação prosseguirá após o nascimento, quando desse inconsciente pessoal se destaca cada vez mais uma nova porção: a consciência. Ela ainda é um pedaço de terra submersa no grande oceano inconsciente, forçando passagem rumo à superfície, mas já revela as características que farão do indivíduo aquilo que ele potencialmente é. Nesse ponto, a consciência é isso, uma noção do eu que emerge, uma ilhota de individualidade e autopercepção.

Mais tarde, como vimos, o indivíduo precisa se diferenciar ainda mais, destacando-se da massa na qual vive e com quem divide valores e regras de comportamento. Vimos que isso desestabiliza a ordem social e faz a sociedade reprimir a diferenciação.

Entretanto, há um ponto do processo em que a sociedade não só não consegue mais reprimir como é influenciada pelo indivíduo que se diferencia e se autorrealiza. Nesse ponto, ocorre, numa analogia com o filme, a atualização do sistema. A força da autorrealização é tamanha que a sociedade é naturalmente levada a absorver as experiências do indivíduo, incorporando os novos valores que ele representa. O que antes era perigo à cultura mostra-se agora seu próprio alimento, aquilo que lhe permite enriquecer-se, renovar-se e sobreviver.

No Budismo, o indivíduo que alcança a iluminação torna-se o Buda (aquele que despertou) e está livre dos problemas do mundo, e nada mais pode perturbá-lo. Seu corpo está aqui, mas sua consciência voa por outros níveis, além dos níveis cotidianos. A consciência atingiu tal grau de maturidade e interação com a realidade que está livre para mover-se, liberta das dimensões do tempo e do espaço. Sidarta Gautama e outros que alcançaram a iluminação poderiam ter deixado que sua consciência partisse, finalmente liberta do corpo físico e das limitações terrenas. Mas preferiram ficar até o fim, até onde o corpo suportasse. Por quê? Para ensinar o que aprenderam. Esse é o exemplo de suprema compaixão do Bodhisatva, o ser que após uma vida inteira de busca finalmente atinge a iluminação mas aceita permanecer nas limitações do mundo, pondo à disposição da humanidade o seu conhecimento e toda a sua experiência.

Assim como o Bodhisatva, aquele que atinge a autorrealização está livre das pressões do mundo. O ser autorrealizado atingiu o equilíbrio entre consciência e inconsciente e nada mais o desequilibra. Ele agora pode finalmente descansar da longa jornada, esconder-se até o fim de seus dias num sitiozinho no alto da serra da Ibiapaba, sem TV e sem telefone, e aproveitar a paz de espírito que conquistou, longe do trânsito maluco, da poluição e dos operadores de telemarketing. Mas muitos não o fazem. Preferem continuar no mundo e contribuir com sua experiência para um mundo melhor. Reinserem-se no sistema, transbordantes de humildade e amor pela causa humana.

Essa reinserção contém certa dose de ironia, pois o indivíduo autorrealizado que agora contribui para a sociedade é o mesmo que, no início de seu processo de diferenciação, era visto como ameaça à própria sociedade, com suas ideias diferentes e atitudes subversivas, e por isso foi bastante reprimido.

Apesar da intensa repressão que leva a maioria a desistir, sempre haverá os que se diferenciam, desafiando e incomodando a sociedade. São as anomalias que o sistema se esforça em evitar. Mas são anomalias previstas e, além disso, necessárias ao sistema. São como antigas profecias que aguardam, pacientemente, que cada um de nós, predestinados que somos, decida realmente despertar.

(continua)

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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CONTEÚDO INTEGRAL DO LIVRO

Cap. 1 – Cinema, mito e psicologia
Cap. 2 – Toc, toc, toc… Acorde, Neo!
Cap. 3 – Não existe colher
Cap. 4 – Morrendo para vencer
Cap. 5 – Matrix Reloaded e Matrix Revolutions
Cap. 6 – Os personagens
Cap. 7 – Quadro comparativo

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Matrix e o Despertar do Herói cap 4

28/08/2010

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(Ensaio – Miragem Editorial/2005)
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Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões.

Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

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Cap 4

MORRENDO PARA VENCER

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Cypher entrega os companheiros

Quando estão prestes a retornar à nave, após a visita de Neo ao Oráculo, os rebeldes são surpreendidos numa emboscada. Estão presos num prédio sem saída e cercados por muitos soldados armados. Foram traídos por Cypher, companheiro da própria resistência.

A primeira cena do filme é o diálogo telefônico entre Cypher e Trinity. Na tela, as fileiras de caracteres (os códigos da Matrix) deslizam enquanto Trinity, na Matrix, diz que logo entrará em contato com aquele que Morfeu acredita ser o escolhido. Cypher pergunta se ela também acredita. Ela desconversa. Ele insiste, mas ela não responde. Ouve-se um ruído na ligação. “Esta linha é mesmo segura?”, ela pergunta. Cypher confirma.

Mas não é. Depois entenderemos que Cypher já age aí como informante dos agentes da Matrix e, através dessa ligação, está entregando Trinity às autoridades do mundo virtual. Não fica claro para o espectador que assiste pela primeira vez, mas começa aí a traição de Cypher, um dos elementos fundamentais da história de Matrix.

Mais tarde, na nave, quando Trinity leva o jantar para Neo, que ainda se recupera de seu despertar da Matrix, Cypher a aborda e comenta, aparentemente enciumado, que ela nunca fez isso para ele. Em outras cenas Cypher volta a testar e zombar da crença de Trinity no Predestinado, coisa em que ele, particularmente, não consegue acreditar.

O comportamento de Cypher intriga o espectador, aumentando sua desconfiança, até a cena em que fica claro que ele é um traidor: Cypher está num restaurante, na Matrix, a negociar com o agente Smith a entrega do líder Morfeu. Então sabemos que ele cansou da vida de resistente e sente falta da realidade virtual, onde pode, por exemplo, degustar uma picanha suculenta como a que está saboreando. Ele exige condições para entregar o líder: quer ser reinserido na Matrix como alguém rico e famoso, e nada quer lembrar de sua vida anterior. Smith concorda, satisfeito.

Cypher é a traição que nasce dentro da própria resistência, lembrando com isso que aqueles que lutam pela libertação da espécie humana são humanos, com todos os seus defeitos. Cypher não compartilha da crença no Predestinado. Pensando bem, é difícil mesmo crer que alguém possa destruir a tão poderosa Matrix e que esse alguém nascerá dentro dela própria. Cypher está cansado da vida desconfortável, de comer alimentos sem gosto, de fugir e se esconder, de lutar por algo em que não acredita. Mesmo sendo um dos que conseguiram despertar, já não tem forças para continuar resistindo. Some-se a isso seu interesse velado por Trinity, seu ciúme por sabê-la interessada em Neo e, pronto, a traição já tem todos os ingredientes para se consumar.

Cypher é o Judas Iscariotes de Matrix. O espectador é levado a desprezá-lo como o traidor que de fato é, mas observe-se: sem ele não haveria final feliz. Cypher e sua traição são necessários para que Neo finalmente se convença de que é o Predestinado. Se Morfeu não houvesse sido entregue por Cypher, Neo não teria porque voltar à Matrix, arriscando tudo pelo amigo. É arriscando sua própria vida, e morrendo, que Neo atinge mais um nível em sua autoconscientização. É voltando aos perigos da Matrix que Neo enfim pode se experimentar em toda sua potencialidade e cumprir o que profetizara o Oráculo: que ele morreria e que na outra vida seria o Predestinado. Sem a traição de Cypher nada disso poderia ocorrer.

No romance O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, o protagonista diz, para espanto do padre diretor do colégio em que ele estuda, que o grande medo de Jesus Cristo era que Judas não o traísse, pois se ele não o fizesse, como Jesus cumpriria seu destino? Sem a traição de Judas, Jesus teria que tentar outros meios de morrer pela humanidade. O que seria de Jesus sem Judas? O que seria do Cristianismo sem seu beijo entreguista? Esse é um dos paralelos de Matrix com a mitologia cristã. Aliás, o nome Cypher lembra Lúcifer.

o sabotador interno

No âmbito psicológico, Cypher representa o componente de autossabotagem da psique. Cypher tem medo de arriscar o novo e prefere a segurança do velho, o que provoca estagnação e crise. Ele preferiria não saber o que sabe. O lema desse nosso companheiro interno é: “a ignorância é uma bênção”.

Cypher existe em todos nós, é a força retrógrada em eterno combate com o impulso progressista. De onde pode vir a verdadeira traição senão de dentro de nós mesmos? Isso nos lembra que o grande inimigo a vencer não se encontra lá fora: ele está dentro de cada um de nós e age na escuridão do inconsciente, sem ser percebido, dissimulando-se em nossos medos e bloqueios mais íntimos. Preferimos não encará-lo, é mais cômodo. E assim ele prossegue nos sabotando.

Há sempre um preço a pagar quando insistimos em não olhar para o que nos chama atenção em nós mesmos. O que é rejeitado na psique cresce silencioso, e esse é o pior dos inimigos: um dia ele se manifestará e estará tão forte que não haverá como deter sua traição. Por isso os terapeutas insistem na necessidade do autoconhecimento psicológico – ele ainda é a melhor prevenção contra os Cyphers da vida.

O sabotador interno sente falta do tempo em que tínhamos menos autoconsciência e, exatamente por isso, menos responsabilidades. Cypher está no poder quando desistimos de lutar e achamos mais cômodo permanecer onde estamos, sem nos comprometer com mudanças pessoais, fingindo esquecer do que realmente devemos fazer em nossas vidas.

Cypher age toda vez que desistimos de lutar por nossos sonhos ou insistimos em padrões de comportamento autodestrutivos. Quer ver Cypher no comando? É só olhar para aquela garota que sempre dá um jeito de estragar seus relacionamentos porque no fundo acha que não merece ser feliz. Ela age de forma a ser rejeitada, e quando de fato é rejeitada, confirma para si mesmo sua visão pessimista da vida, maldizendo o amor e culpando as outras pessoas.

Com Cypher no comando há uma tendência para sarcasmos, ressentimentos, ódios encobertos e toda uma gama de sentimentos negativos. Além de não suportarmos ter de prosseguir lutando, também é insuportável ver os outros firmes em seu caminho e realizando seus sonhos. Para o Cypher que existe em nós, o que lhe resta é sabotar tudo o que nosso Morfeu planeja, numa vingança por se achar injustiçado pela vida. Enquanto Cypher não for chamado à conversa franca, não precisaremos de inimigo algum: seguiremos nós mesmos, sem perceber, sabotando nossos planos de felicidade, muitas vezes no último instante.

O exemplo de Cypher serve também para nunca esquecermos que na jornada do autoconhecimento ninguém está livre das tentações. A cada avanço, novos desafios se apresentam. O conhecimento e a experiência adquiridos nos dão poder, sim, mas o poder pode corromper o ego, fechando-nos ao aprendizado. A ampliação da consciência deve prosseguir e, para isso, novos aspectos do ser devem ser integrados.

A verdade liberta, sim, mas a cada nível de liberdade alcançado, um novo nível se apresenta e não podemos nos acomodar, pois a tentação de desistir estará sempre presente, feito um diabinho a nos cutucar com seu tridente. Feito a picanha suculenta no garfo de Cypher.

a fé em si mesmo

Morfeu é capturado pelos agentes da Matrix, mas Neo, Trinity, Apoc, Switch e Cypher conseguem escapar do prédio. Cypher é o primeiro a retornar à nave e, prosseguindo em sua traição, atira nos dois operadores. Podendo decidir sobre a vida e a morte dos colegas que ainda estão na Matrix, elimina Apoc e Switch, desconectando-os de seus corpos. Depois, pelo telefone, zomba da crença de Trinity no Predestinado e, por fim, quando se prepara para matar Neo, é morto por Tank, o operador que sobrevivera a seu ataque.

Antes de desconectar Trinity e Neo, Cypher deseja brincar com os sentimentos e a fé de Trinity, e diz, sarcástico, pelo telefone: “Se ele é mesmo o Predestinado, então algo deverá acontecer e me impedir de puxar este cabo.” O suspense é insuportável. Trinity e Neo, na Matrix, se olham assustados, impotentes diante da traição do colega que prossegue, perverso: “Vamos, Trinity, olhe nos olhos dele e me diga: você ainda acredita que ele é o Predestinado? Sim ou não?”

Trinity olha para Neo e, assustada mas convicta, com o celular ao ouvido, responde: “Sim.” Nesse momento, Tank surge e, mesmo ferido gravemente, atira em Cypher, impedindo-o de matar Neo.

Atente para o drama de Trinity. Se respondesse que acreditava, Cypher puxaria o cabo e mataria Neo, mostrando que, de fato, ele não era o Predestinado, e assim ridicularizaria Trinity e sua crença, e ainda zombaria de sua paixão, da qual tinha ciúme. Porém, para Trinity havia outra opção: dizer que não acreditava, ainda que de fato acreditasse, pois assim pouparia a si mesma do sarcasmo de Cypher. Entretanto, agindo dessa forma ela não estaria sendo verdadeira consigo mesma, pois negaria sua própria fé. Então, mesmo numa situação terrivelmente desfavorável, onde tudo parece perdido e só um milagre pode salvá-los, ela prefere assumir sua crença a qualquer custo. O que pode levar alguém a manter sua fé mesmo quando tudo aponta que ela é vã?

Na jornada da autorrealização, quando parece que já fomos suficientemente testados e que a vida não tem mais porque duvidar de nosso sincero esforço e honestidade em relação às nossas crenças pessoais, eis que nos vemos numa situação como a de Trinity. É como se uma força maior armasse toda a cena somente para testar, de forma definitiva, nossa fé naquilo que dizemos acreditar.

Nós acreditamos em nosso potencial, lutamos por nossos sonhos, temos fé que conseguiremos, estamos certos disso tudo, não há dúvida. Mas isso ainda não basta, pois um belo dia a vida nos pede para… saltar no escuro. Não é possível. Simplesmente não acreditamos no que está acontecendo. Parece uma brincadeira do destino. Bem, não deixa de ser, porque apesar da fama de difícil, a vida tem um ótimo senso de humor.

Nesse ponto, muitos desistem. Entendem que não vale a pena arriscar tudo que conquistaram e decidem voltar. Arranjarão mil desculpas e tentarão se convencer que fizeram o certo – mas ficará sempre a sombra do arrependimento, para alguns sutil, para outros impossível de ser ignorada. Sutil ou não, o arrependimento de não haver tentado pode encher a vida de frustração.

Ninguém poderá decidir por nós quando esse difícil momento surgir. Só nós mesmos, por nossas atitudes, é que podemos mostrar o quanto confiamos no processo. Teremos que saltar no escuro para poder descobrir se o que nos aguarda lá embaixo é a morte ou se, na verdade, o chão sempre esteve a um palmo de nossos pés. Somente seguindo nossa fé mais íntima e dizendo um sim verdadeiro aos nossos sonhos é que saberemos se eles realmente fazem parte de nosso destino. Somente dizendo sim, como Trinity, é que pode acontecer um milagre.

Neo decide resgatar Morfeu

Neo e Trinity retornam à nave, salvos. Tank lhes comunica que terá que sacrificar Morfeu, pois ele está na Matrix, sendo torturado pelos agentes, e a qualquer momento cansará e revelará os códigos de Zion, permitindo assim que as máquinas destruam a cidade.

Neo, porém, interrompe Tank, decidido a voltar à Matrix e resgatar Morfeu. Trinity tenta impedi-lo, dizendo que Morfeu se sacrificou para que eles pudessem salvar o Predestinado. Neo explica que Morfeu estava enganado, pois acreditava que ele é algo que, na verdade, não é: “Não sou o Predestinado, Trinity. O Oráculo me disse.”

“Não. Tem de ser você.”

“Sinto muito. Sou um cara comum”.

“Não é verdade, Neo. Não pode ser verdade.”

“Por que não?”, Neo indaga, e Trinity não responde.

Este é um momento bastante significativo da história. Neo, pela primeira vez, sente que é capaz de lutar contra a Matrix. Até então ele apenas treinou com Morfeu e entortou uma colher, mas agora, na iminência da morte do homem que tanto acreditou e tanto fez por ele, Neo é tomado de súbita autoconfiança. Uma nova força parece brotar dentro dele, tão poderosa que o faz crer ser capaz de voltar à Matrix, lutar contra os agentes e resgatar Morfeu, algo que ninguém jamais conseguiu fazer.

Apesar disso tudo Neo ainda não acredita que é o Predestinado. Ele se sente impulsionado a realizar algo grandioso e sabe que é perfeitamente capaz, mas essa convicção não vem do fato de se saber o Predestinado, pois ele continua negando. De onde então vêm essa força e essa certeza imensas?

Aqui o herói está no limiar de uma profunda transformação interior, o momento em que um fenômeno muito importante começa a se produzir: o indivíduo se sente tomado pela força irresistível que já aponta no horizonte da consciência. A personalidade consciente ainda não admite a verdade, mas ela é tão poderosa que avança do inconsciente para a consciência, encurralando qualquer tentativa de defesa do ego.

Nós nos transformamos pelo autoconhecimento e chegamos até esse ponto mais cientes de nossas capacidades, sabendo que somos capazes. Ao mesmo tempo, porém, insistimos em negar certas coisas a nosso respeito, apesar delas estarem obviamente estampadas em nossas ideias e atitudes. É o último baluarte de resistência do velho ego que se mantém firme. Por quê?

Isso ocorre porque ainda estamos apegados a uma velha verdade sobre nós mesmos. Admitir isso significaria assumir uma responsabilidade definitiva sobre nossas vidas, algo que mudará tudo, inclusive nosso conceito sobre nós mesmos. Outras pessoas ao redor já sabem ou desconfiam disso, mas nós insistimos em negar. São os resquícios do velho ego que, apesar das transformações já ocorridas, ainda se recusa a morrer inteiramente. É a percepção que temos de nós mesmos agarrando-se o quanto pode à comodidade que representa o não assumir-se.

A história bíblica de Jonas, que é engolido por uma baleia, nos mostra o quanto é vão fugirmos de nós mesmos, do nosso destino. Não adianta Jonas fugir no barco, ir para bem longe. Aquilo que o aguarda irá buscá-lo seja onde for, e assim, enquanto nega para si mesmo e se esforça no rumo contrário, Jonas apenas adia o que precisa acontecer. Ele cairá ao mar, será engolido pela baleia e ela o vomitará numa praia distante, exatamente o lugar que ele tanto evitava ir. Porque é isso que aguarda o herói: o seu próprio destino de herói.

O ego sempre resiste. A autopercepção nunca abre caminho facilmente para uma nova forma de entender a si próprio. Mas o eu total é muito maior que o ego e tem mecanismos para nos forçar a avançar em nosso caminho de autorrealização, rumo ao que sempre fomos destinados a ser. E a psique é muito criativa, não duvide. Ela pode inventar acontecimentos repentinos, iscas bem camufladas ou até mesmo uma baleia.

unindo os opostos

Neo se prepara para voltar à Matrix. Trinity diz que vai com ele. Neo não concorda. Trinity, então, usa de sua autoridade como oficial da nave e, resoluta, diz que ou ela irá junto ou ele não irá. Neo tem de aceitar, e os dois, então, são enviados de volta à Matrix. Eles invadem um prédio de segurança máxima, lutam contra soldados, usam um helicóptero e, por fim, libertam Morfeu.

A prática contínua do autoconhecimento nos torna confiantes em nós mesmos. Se sabemos quem somos, sabemos muito bem  de nossas possibilidades. A autoconfiança é atingida quando deixamos de ser desconhecidos para nós mesmos e ficamos íntimos da nossa própria verdade. Após confrontar o inconsciente e assimilar aquilo que por muito tempo evitamos reconhecer em nossa personalidade total, eliminamos o inimigo interno, a força retrógrada, e podemos finalmente concentrar os esforços em outras frentes.

“Neo, ninguém nunca fez isso”, Trinity o adverte. Mas ele está inteiramente convicto: “É por isso que vai dar certo.” Neo sente que é capaz de realizar o impossível. Sua audácia surpreende os companheiros, mas ele está tão decidido que só lhes resta concordar. Ocorre o mesmo quando atingimos esse ponto do autoconhecimento: fazemos coisas que antes eram impossíveis, superando os limites pessoais e surpreendendo a todos, às vezes até a nós mesmos.

Aqui, porém, cabe uma advertência. A autoconfiança é necessária para realizar grandes feitos, sim, mas se o ego acha que conseguirá fazer tudo sozinho, acabará sofrendo amarga decepção. Autoconfiança nem sempre quer dizer autossuficiência. Apesar de agora se entender melhor com o inconsciente e ter assimilado os conteúdos que antes só atrapalhavam, a personalidade consciente precisa estar bem equilibrada para dar o grande salto. O herói necessita reunir todas as suas forças para o embate.

No caso de Neo, ele reluta em admitir a presença de Trinity na perigosa missão de resgate, pois se considera capaz de resolver a parada sozinho – mas tem de render-se à autoridade de Trinity. Temos aqui, mais uma vez, a atuação do aspecto feminino do herói. É esse aspecto que, mais uma vez, e dessa vez num nível mais profundo, exige ser devidamente reconhecido e integrado à consciência.

No início do filme, quando os resistentes ainda tentavam despertar Neo, foi Trinity quem manteve com ele o primeiro contato, cuidadosa, pelo computador, e em seguida na festa, sussurrando em seu ouvido. Depois foi ela quem o convenceu, delicadamente, a ficar no carro e permitir a retirada do aparelho rastreador. Em todos esses momentos Trinity agiu com muito cuidado para não afugentá-lo de vez. Precisou ser calma, doce, compreensiva e paciente, conquistando-lhe a confiança. Agora é diferente. Ela sabe que Neo, sozinho, não conseguirá salvar Morfeu. Ela sabe que ele precisa dela.

A natureza feminina no homem, assim como a natureza masculina na mulher, é chamada a intervir em momentos cruciais onde a consciência corre o risco de se tornar unilateral, levando-nos a agir desequilibradamente. Sabemos que somos capazes, e de fato somos, mas só conseguiremos êxito se unirmos o que somos, masculino e feminino, força e delicadeza, razão e sentimento, yin e yang. Somente assim, enfim equilibrados entre nossos opostos, é que seremos realmente capazes de fazer o impossível acontecer. Sem essa união, apenas um lado das nossas capacidades atuaria, e, certamente, não seria suficiente.

É sempre bom parar um pouco antes de dar o primeiro passo rumo a uma grande conquista e sentir se estamos suficientemente equilibrados para a missão. Mas, num mundo regido pela pressa do relógio, parar e dedicar um tempo a nós mesmos soa como um luxo impensável, e muitas pessoas chegam a sentir culpa se não estão ocupadas trabalhando, produzindo, correndo de um lado para o outro. Muitas até adoram mostrar que estão sempre lotadas de trabalho, mesmo quando não estão.

Se precisamos empreender uma grande tarefa, que exige todo o nosso esforço e atenção e envolve enormes riscos, nada melhor que, antes de começar, reunir todas as forças, tudo o que somos. Quem se conhece mais, sempre tem mais chances de obter êxito no que faz. Quem não se conhece, não terá como unir harmoniosamente suas forças e ficará sempre a um passo de tudo aquilo que poderia realizar.

No filme, é Trinity quem pilota o helicóptero e impede que um agente mate Neo. Por outro lado, é ele quem segura Morfeu pela mão e é ele também quem segura o cabo para que Trinity escape do helicóptero que cai. Sozinhos, nenhum dos dois conseguiria resgatar Morfeu. Juntos, não apenas o fazem como também reafirmam a atração que já sentiam um pelo outro, fortalecendo os sentimentos que mais tarde permitirão a Neo ressuscitar e se tornar, definitivamente, aquilo a que estava, desde o início, predestinado a ser.

humanos e vírus

A cena da tortura de Morfeu é muito interessante pelo fato de apresentar a visão das máquinas sobre a espécie humana. Enquanto aguarda que Morfeu canse e finalmente lhe revele os códigos de Zion, o agente Smith fala de uma curiosa conclusão a que chegou:

“Percebi que os seres humanos não são mais mamíferos. Todo mamífero deste planeta instintivamente desenvolve um equilíbrio natural com o meio ambiente. Os humanos não. Vocês se mudam para um lugar, se multiplicam até que todos os recursos naturais sejam consumidos e a única maneira de continuar sobrevivendo é mudar para outro lugar. Existe outro organismo que segue o mesmo padrão. É o vírus.”

O raciocínio do agente Smith é, para nós humanos, desconcertantemente lógico. Smith é o vilão que detesta a espécie humana e tudo fará para destruir Zion. Ele é o mal personificado, um programa de computador cujo objetivo é coordenar missões de captura de humanos dentro da Matrix e eliminá-los, custe o que custar. Apesar de tudo isso, o espectador é levado a admitir, a contragosto, que são sábias as suas palavras.

Smith tem toda razão: a espécie humana se comporta como os vírus, exatamente como os organismos que tanto tememos e combatemos. Até poucos séculos atrás, porém, o Homo sapiens mantinha uma relação simbiótica com o meio, respeitando as leis naturais e convivendo em harmonia com animais, vegetais e minerais. Havia o sentimento do sagrado em relação à Natureza, pois instintivamente nos sentíamos unidos a ela e sabíamos que precisávamos dela para sobreviver, verdade que os povos indígenas sempre tentaram, e ainda tentam, nos mostrar.

Infelizmente, o advento da civilização, a industrialização e agora a tecnologização mudaram isso. Hoje, desligados de nossas raízes e desconectados das leis naturais que regem a vida, tornamo-nos peritos em violentar a Natureza e não acordamos para o fato de que fazemos parte dela. Sem Natureza não há planeta, e sem planeta nós não existiríamos. A Natureza é o planeta inteiro, inclusive nós. É uma verdade que de tão óbvia não precisaria ser lembrada, mas que fazemos questão de desconsiderar e até negar.

“Vocês são o mal, o câncer deste planeta. Vocês são a praga. E nós somos… a cura.”

As palavras do agente Smith são duras. Dói na consciência e é desconfortável reconhecer que ele está certo: a espécie humana é a grande praga da Terra, ela e sua cegueira absurda. Somos a peste humana que, por onde passa, deixa atrás de si um rastro de destruição. Já não destruímos apenas a Natureza: agora eliminamos também culturas inteiras, dizimando seus valores.

Destruindo o ambiente em que vivemos, estamos destruindo também a nós mesmos, condenando à morte todos os dias milhares de pessoas, inclusive crianças, vítimas da ganância capitalista, do fanatismo religioso e do medo do diferente.

Será que um dia, como em Matrix, as máquinas se rebelarão e, feito justiceiras do planeta, nos escravizarão, interrompendo assim a ação do câncer que tão bem representamos? Talvez isso não ocorra. Talvez seja a própria Terra que, em sua capacidade autorreguladora e cansada de ser agredida, decida sacrificar nossa espécie para que a vida no planeta possa prosseguir. De qualquer forma, talvez ainda haja tempo de reverter o processo. Isso dependeria de que uma parcela considerável da humanidade acordasse para o perigo que criamos. Dependeria de que pessoas simples, como eu e você, lembrassem da verdade mais óbvia.

Neo versus Smith

Morfeu volta à nave, seguido por Trinity. Neo, porém, é impedido de voltar pelo agente Smith, que surge no metrô. Ele pensa em correr, mas volta-se e decide enfrentar Smith, contrariando a regra básica dos resistentes, que diz que jamais deve-se lutar contra um agente, pois até então todos os que tentaram, morreram.

Os agentes são programas criados para capturar e eliminar humanos intrusos no sistema. Não podem ser mortos. No máximo são “expulsos” do corpo humano que provisoriamente ocupam na Matrix para, ato contínuo, assumirem outro corpo, retornando para prosseguir a luta, sem nenhum arranhão, sem cansaço. Eles não são apenas mais fortes que qualquer humano, são invencíveis. Por isso a recomendação: quando vir um agente, fuja o mais rápido que puder.

O agente Smith é o líder dos agentes. Quando Neo, no metrô, desobedece às recomendações de fugir e volta-se para lutar contra Smith, o espectador já sabe tudo sobre os agentes e por isso sabe também que Neo não pode destruí-lo. Como então ele poderá vencer?

Em termos psicológicos, o agente Smith representa algo muito difícil de ser assimilado pela consciência, um conteúdo inconsciente que se manteve intocado durante longo tempo, apesar de toda a ampliação da consciência. É algo que nos mete muito medo e do qual sempre fugimos, o que fez com que crescesse sem ser incomodado e se tornasse extremamente poderoso.

Um dia, porém, quando mais uma vez já estamos nos preparando para fugir, algo ocorre e decidimos ficar e encarar o que tanto evitávamos ver dentro de nós mesmos. É uma atitude de grande coragem e que só ocorre quando a consciência se encontra num elevado grau de ampliação. Aceitar o confronto com o mais poderoso dos inimigos internos não é para qualquer um, mas somente para quem já encarou e venceu muitos outros, tendo disciplinado a força interior de tal forma que o embate decisivo se faz necessário e já não se pode mais adiá-lo.

Neo, através de sua parceria com Trinity, já aprendeu a equilibrar os opostos e tornou-se ainda mais forte e capaz. Agora, a prova final surge bem à sua frente. Ele tem a opção de fugir e mais uma vez adiar o confronto, nada o impede. Mas em seu íntimo o herói sempre sabe quando chegou a hora. Neo sabe que não pode mais adiar a resolução da questão que o aflige desde que despertou da Matrix. Ser ou não ser o Predestinado tornou-se uma pressão constante em sua mente e ele tem de esclarecer isso de uma vez por todas se quiser ter alguma paz. Smith nunca foi vencido, Neo sabe, mas é exatamente por isso que deve enfrentá-lo, pois somente indo ao limite extremo das possibilidades é que saberá o que pode e o que não pode fazer.

Se prosseguirmos no caminho do autoconhecimento, superando dificuldade após dificuldade, um dia certamente também teremos de testar, num nível extremo, nossos limites de honestidade para com nossa verdade mais legítima. E o que exatamente enfrentaremos? Bem, o inimigo somos nós mesmos, sempre foi assim. Ele mora na escuridão do inconsciente e somente se revelará por inteiro no instante em que decidirmos conhecê-lo de verdade. Até lá poderemos fazer suposições, desconfiar e teorizar sobre muitas coisas. Entretanto, quando o momento decisivo chegar, sempre estaremos desprevenidos.

É quando a hora da verdade soa no relógio de nossa jornada que descobrimos essa nova e perigosa entidade dentro de nós. Tudo o que vivemos até então poderá nos ajudar, sim, mas agora trata-se de um fator inteiramente novo na história e não poderia haver qualquer preparação conveniente. Estaremos sós diante de nossa outra parte, aquela que sempre existiu, dividindo conosco o espaço do nosso próprio ser, mas levando uma vida autônoma, protegida da luz da consciência. Ela é mais forte que nós. Porque ela faz parte do que nos tornaremos.

E agora? Fazemos como Neo, que decidiu lutar contra algo que é invencível? Ou fugimos? Por um lado, lutar se mostrará um esforço vão e, por outro, fugir apenas adiará o confronto inevitável. E agora, como escapar desse dilema?

meu nome é Neo

Neo e o agente Smith posicionam-se um frente ao outro como nas cenas clássicas dos filmes de bang-bang. Eles avançam atirando, mas não se acertam. Esmurram-se e rolam pelo chão da estação, medindo forças. A luta é equilibrada, mas aos poucos Smith leva vantagem e consegue jogar Neo nos trilhos do metrô. Enquanto o trem se aproxima, Smith imobiliza Neo pelo pescoço e diz: “Está ouvindo, senhor Anderson? É o som do inevitável. O som de sua morte. Adeus.”

Neo, sufocado, cerra os dentes e responde: “Meu nome é… Neo!” E, num impulso, solta-se do abraço de Smith, deixando-o nos trilhos para ser esmagado pelo trem. Neo sai caminhando, julgando-se vitorioso, mas logo adiante o trem para, as portas se abrem e Smith reaparece, renovado, pronto para prosseguir a luta.

O que parece simples frase de efeito, um desses batidos clichês de cinema, é na verdade o melhor modo de mostrar que Neo, nesse ponto decisivo de sua trajetória, está ciente de sua identidade e sua força. “Meu nome é Neo” encerra em poucas palavras todo o caminho por ele percorrido, as dúvidas vividas e os desafios superados. Ao recusar-se a ser chamado pelo nome que foi inicialmente batizado na Matrix, Neo, simbolicamente, rompe ainda mais sua ligação com o mundo das ilusões, rompimento iniciado ao criar o codinome Neo para atuar como pirata no mundo dos computadores. A criação do codinome, ainda na Matrix, marca o desenvolvimento de sua nova consciência de si mesmo. Ao insistir em ser chamado pelo novo nome, Neo confirma sua identidade e resiste à morte.

Porém… apesar de confiar em sua força, Neo ainda não se convenceu realmente de que é o Predestinado, caso contrário não precisaria de tanto esforço, como veremos depois na cena do embate final contra Smith. Ele precisa, primeiramente, “saber” que é o Predestinado. Enquanto isso não ocorrer, ele seguirá lutando, lutando e lutando contra algo que não poderá jamais derrotar.

Muitas pessoas mudam de nome quando casam ou ingressam em nova religião. É uma forma simbólica de cortar os laços que as prendiam a seu antigo mundo, aos velhos valores que norteavam a vida. É um modo de recomeçar, com uma nova identidade. Isso não quer dizer que precisamos comparecer ao cartório toda vez que nos transformamos – o que interessa é a mudança interior, e não o nome. Se mudamos por dentro, nosso mundo em volta também muda, pois como tudo está interligado, nada fica imune ao que se transforma.

Resistindo à morte e insistindo com todas as forças por sua vida, Neo está, na verdade, apegando-se ao que ele sabe de si próprio, à sua autopercepção. Porém, nesse momento sua autopercepção é insuficiente para fazê-lo vencer, pois ele ainda não admite que é o Predestinado, e somente o Predestinado é que pode vencer a Matrix. Assim sendo, sua luta contra Smith é, na verdade, a luta de Neo contra si mesmo, contra o que ele é e sempre foi (o Predestinado), mas ainda não consegue reconhecer. O que Neo realmente necessita não é vencer Smith, e sim assumir sua verdadeira natureza. Mas, então, o que ele deveria fazer?, você pode estar se perguntando. Chamar Smith para um cafezinho?

Seria ótimo se não precisássemos confrontar nossas partes não reconhecidas. Seria menos doloroso se pudéssemos nos entender pacificamente com nosso eu maldito. Mas não é assim que se dá o crescimento psíquico, pois a consciência só evolui quando é intimada a largar sua cômoda posição e seguir em frente. Entretanto, o ego, o velho ego, sempre se apega ao que ele é e acaba esquecendo do óbvio: ele só é o que é justamente porque um dia deixou de ser o que era para ser o que agora é. Sem transformações, a personalidade não tem como evoluir.

É uma função difícil, a do ego. E contém em si boa dose de ironia. Ele é um conjunto de conteúdos psíquicos que, ainda na fase uterina do indivíduo, se aglutinaram com tal força e coesão que se desprenderam do inconsciente, formando essa entidade autoconsciente na psique que chamamos eu. Imprescindível para o desenvolvimento psíquico do indivíduo, o ego precisa de muita coesão para ser ego, caso contrário a personalidade seria tão fragmentada que não existiria um indivíduo, mas muitos e vagos conteúdos que não chegaram a se unir numa única noção de eu. No entanto, o processo de crescimento sempre forçará o ego a perder, embora momentaneamente, a sua própria coesão para que ele possa assimilar novos conteúdos do ser e, com isso, ampliar a área da personalidade consciente. O ego sempre resistirá, senão não seria ego.

Todas as vezes que se fizer necessário, o ego precisará passar a gerência do ser para um outro ego mais capaz. Neo precisa morrer para que morram junto os últimos resquícios de um Neo que ainda não crê que é o Predestinado. Por mais que afirme que é Neo e se aproxime da verdade que ao mesmo tempo tanto evita, se ele não morrer inteiramente para a antiga vida jamais chegará de fato à verdade e jamais será concretizado o que ele é em sua essência. Neo mudou e está mais forte, mas ainda não mudou o suficiente, pois continua tentando derrotar Smith, e Smith não pode ser derrotado, já que ele é o próprio Neo não reconhecido.

É um paradoxo de fritar neurônio, mas é assim que funciona: quanto mais Neo se fortalecer, mais forte Smith será. Quanto mais Neo insistir em viver, outra vez a porta do trem abrirá e Smith ressurgirá, renovado, pronto para prosseguir a luta. Nós também agimos como Neo quando estamos no limiar da grande transformação e julgamos que é nosso dever matar a nossa outra parte, aquela de quem fugimos a vida inteira. É engano. Não conseguiremos derrotá-la, por mais que lutemos ‒ ela é mais forte que nós. O que temos de fazer é admiti-la em nossa natureza, pois ela é justamente o que nos falta para sermos inteiros.

Smith não morre porque Neo ainda não aceita que é o Predestinado. Como o Predestinado tem que morrer (“sua próxima vida, quem sabe…”, dissera o Oráculo), Neo evita o autossacrifício. Pretende alcançar o máximo de si sem morrer. Obviamente, não conseguirá. Ninguém consegue.

Em sua última noite antes de ser preso pelos soldados romanos, Jesus Cristo, no jardim do Getsêmani, desesperou-se ante a visão do destino que o aguardava: sangue, humilhação, crucificação, dores terríveis e morte. Desejou que não precisasse passar por tudo aquilo e lutou em seu íntimo contra o que tenebrosamente se aproximava. Agiu exatamente como Neo, tentando evitar o inevitável. Mas Cristo compreendeu que ao Predestinado é impossível vir a sê-lo sem antes padecer e morrer. Por essa razão, entregou-se ao destino e abraçou com firmeza sua cruz.

Então Neo deveria ele mesmo jogar-se sob o trem a fim de apressar a chegada do novo nível de consciência? Também não. O que Neo tem de fazer é ir até o limite possível de suas forças e de seu sofrimento e viver honestamente a agonia que aguarda a todos os heróis. Tem de aceitar seu fardo como nós também teremos de aceitar quando chegar nossa hora. Infelizmente, não nos é dado saltar etapas. Nenhum herói teve ou terá essa regalia.

o herói morre

Neo, percebendo enfim que não conseguirá derrotar Smith, começa a correr. Liga para a nave, implorando uma saída urgente. Tank lhe indica a sala de um hotel e ele corre para lá a fim de atender a ligação telefônica, enquanto os três agentes o perseguem.

Depois de correr pelas ruas, subir escadas, saltar muros e invadir apartamentos, Neo corre por um corredor enquanto o telefone toca bem próximo. Ele abre a porta e dá de cara com Smith apontando-lhe uma arma. Um tiro é disparado à queima-roupa. Neo é atingido, mas continua de pé, sem se mexer. Leva a mão à barriga e constata que está sangrando. Está tão surpreso que parece não sentir dor alguma, como se não acreditasse que tudo aquilo de fato está acontecendo.

Enquanto o telefone continua tocando, Smith dispara uma segunda vez. Neo cambaleia para trás e se apoia na parede do corredor. Olha para Smith e parece que fará algo, mas Smith atira mais oito vezes. Seu corpo escorrega e tomba para o lado. Os agentes o examinam e confirmam: “Ele se foi”. Smith, imperturbável, fala: “Adeus, senhor Anderson.”

Façamos um pequeno exercício de imaginação. O que aconteceria se Neo houvesse atendido à chamada e, assim, retornasse a salvo para a nave, livre da perseguição dos agentes? Continuaria vivo, junto com seus companheiros. Talvez fosse levado a Zion. Talvez voltasse outro dia à Matrix, para ajudar outros humanos a despertar.

Entretanto, continuaria sendo Neo – e não o Predestinado. Ele não teria os poderes que somente sendo o Predestinado poderia ter. Não poderia manipular os códigos da Matrix e quebrar as regras do sistema como somente o Predestinado pode fazer. Se retornasse à nave, Neo não passaria pela última e decisiva transformação, aquela que é imprescindível ao herói em sua jornada sagrada: a morte.

Não é fácil encarar a morte, nós sabemos. Morte biológica ou morte como símbolo máximo de profunda transformação, nunca é fácil vivenciá-la. Mas não há outro modo de cruzar o portal. Somente com a morte do ego, ou seja, do atual nível de autopercepção, é que chegaremos ao nível seguinte de ampliação da consciência. Enquanto não morremos, ficamos presos à fase na qual estamos, que já não tem nada de novo a nos oferecer. Morrer então significa, vamos dizer desta forma, saltar do nível 1 para o nível 2. Por outro lado, recusar-se a morrer significa botar uma vírgula depois do 1 e, por meio desse movimento ilusório, enganar-se com o 1,1 e mais adiante com o 1,15, depois com o 1,157 e assim sucessivamente. A vida prosseguirá nessa dízima e nós nos movimentaremos, sim, mas não será um movimento para frente, em direção do novo, ao 2, e sim um mergulhar cada vez mais fundo na fase atual, totalmente apegados a ela: 1,157 e depois 1,1574 e depois 1,15748 e a enrolação não terá fim.

Se Neo voltasse à nave, estaria apenas adiando seu confronto com Smith. Seria perda de tempo, o mesmo tempo que perdemos toda vez que não aceitamos a mudança necessária. Neo já morreu uma vez, na Matrix, e continuou vivo, na verdade mais vivo ainda. Ele já experimentou a morte de suas ilusões e venceu. Por que então sente medo de morrer mais uma vez?

Aqui, o medo é justamente o que nos indica a necessidade de transformação. Ele, em si, não é algo ruim. Sentir medo é natural, faz parte do instinto de autopreservação. Ao perceber que novos conteúdos estão para vir à tona da consciência e que poderão desestabilizá-lo, o ego tende a se esforçar para impedir. O ego sente de longe o cheiro da mudança, e quando ela está bem próxima ele usa de toda sua força para se manter no controle, pois sente que vai morrer.

A fuga de Neo pelas ruas é a fuga que a autopercepção empreende para não morrer e, assim, não dar vez à nova autopercepção que surgirá. O esforço desesperado de Neo para atender à chamada que o levará de volta à segurança da nave é o mesmo esforço que todos nós empreendemos, inconscientemente, para escapar daquilo que nos aguarda: o nosso eu legítimo, nosso eu cada vez mais verdadeiro, aquele que desde o início estava predestinado a ser, feito uma antiga profecia.

Não adianta fugir. O medo do que nos libertará nos levará a fazer isso e aquilo, sempre justificando nossos atos, e a desenvolver mil estratégias para evitar sermos apanhados pela transformação. Mas para onde nos virarmos… lá estará o agente Smith, lá estará a morte nos espreitando.

Insistir demais na velha fase transformará nossa vida no joguinho do Pac-man: viveremos num cruel labirinto, correndo alucinados, cercados de problemas, insucessos e sofrimentos. No joguinho do crescimento psíquico o único modo de escapar é desistir da luta contra nós mesmos e aceitar a transformação. Muitas vezes agimos como Neo quando recebe o primeiro tiro e quase se convence de que aquilo não pode estar acontecendo. É por pouco. O herói está a um passo de finalmente alcançar a verdade… mas não consegue, pois ainda está apegado à velha vida.

o amor libertador     

Na nave, Morfeu, Tank e Trinity acompanham o que se passa na Matrix e ficam chocados ao ver que Neo morreu. Morfeu murmura, sem acreditar: “Não é possível…” Trinity se aproxima do corpo inerte de Neo e, calmamente, sussurra em seu ouvido: “Neo, eu já não sinto medo. O Oráculo me disse que eu me apaixonaria por um homem morto e que ele seria o Predestinado. Sendo assim, você não pode estar morto, pois eu te amo.” Ela beija a boca de Neo e seu corpo estremece, voltando à vida. “Agora levante”, ela diz. Na Matrix, Neo desperta.

É bem significativo que venha de Trinity a ordem para que Neo desperte. Poderia ter vindo de Morfeu, o líder, mas veio de Trinity. Temos aqui, mais uma vez, a presença decisiva do feminino na jornada do nosso herói. Ele já havia se entendido com alguns aspectos yin de sua psique e, graças a essa união dos contrários, equilibrou-se, fortaleceu-se e conseguiu resgatar Morfeu, e tornou-se tão ágil que Smith não pôde derrotá-lo na luta.

Agora, porém, Neo está morto, e Trinity, pela primeira vez, declara seu amor por ele, sussurrando em seu ouvido o que ela sempre mantivera em segredo, escondendo dele, dos colegas e, principalmente, dela mesma.

Você certamente lembra que na cabine telefônica do metrô, prestes a voltar à nave, Trinity fala para Neo que tem algo importante a dizer mas tem medo do que pode ocorrer se disser. Ela então fala que tudo que o Oráculo lhe disse “aconteceu, menos isso”. Isso o quê?, o espectador se indaga. Não fica claro, pois Trinity retorna à nave antes que possa revelar o teor exato da profecia, mas no fim do filme saberemos: ela se referia ao fato do Oráculo ter lhe dito que ela se apaixonaria por um homem morto e que ele seria o Predestinado. Ali, no metrô, Trinity está apaixonada por Neo, mas ele… é um homem vivo. Ela está confusa: isso significa que o Oráculo errou? Ou que Neo não é o Predestinado? Pobre Trinity, não deve ter sido fácil conviver com tantas dúvidas.

Na nave, o gesto final de Trinity aciona de vez a profecia e desperta Neo, fazendo nascer o Predestinado. O sussurro de Trinity é o pneuma, o sopro milagroso da vida, o mesmo sopro com que Ísis ressuscita Osiris na mitologia egípcia. Ao nosso herói, faltava o amor para que ele se completasse e pudesse enfim ser ele mesmo em todo seu potencial. Quando tudo parecia perdido, o componente yin da psique entrou em ação mais uma vez, ocupando seu devido lugar na personalidade consciente do herói.

A recusa de Trinity em dividir o que sentia com os companheiros significa a recusa do indivíduo em aceitar a realidade de seus sentimentos. Ao fixar-se mais em outras dimensões do ser, como a intelectual, o ego despreza a dimensão dos sentimentos, que torna-se para ele um aspecto ameaçador. O ego pressente e tudo faz para não encarar o que o destruirá.

Bem, Trinity podia aos poucos ter assimilado seus próprios sentimentos e assim não deixaria tudo para ser perigosamente resolvido no último instante. Sim, poderia. Mas para assimilar os sentimentos é preciso, antes, reconhecê-los. Trinity os reprimia, tinha medo do que eles podiam significar, sequer falava deles. Como a consciência pode trabalhar de modo satisfatório algo que finge não existir?

É exatamente assim que o último inimigo se esconde da consciência, cresce na surdina e mais tarde irrompe, exigindo reconhecimento urgente. O ego não tem como vencer algo tão mais forte que ele. Então o ego morre, derrotado por aquilo que a consciência a todo custo evitou integrar a si mesma.

Neo morre porque não há outra maneira do Predestinado nascer. O ego morre porque somente um novo ego, que reconheça os conteúdos inconscientes que exigem participação na consciência, pode comandar a partir daí a jornada do eu total rumo à autorrealização.

O amor de Neo e Trinity, que os guia rumo à vitória final, é o mesmo amor romântico que guiou a mentalidade medieval, mostrando-se como imprescindível na busca moderna do indivíduo por sua essência mais legítima. É a misteriosa lógica alquímica que une duas pessoas e as transforma numa terceira, o casal, levando a individualidade a um novo nível.

Neo é o Predestinado

Neo desperta, abrindo os olhos devagar. Parece surpreso por estar vivo, mas está muito tranquilo. Põe-se de pé e olha ao redor. Os agentes percebem, sacam suas armas e atiram.

“Não…”, Neo diz baixinho, sem se abalar, e estende o braço, detendo as balas no ar. Ele agora enxerga a Matrix através de todos os seus códigos, como os rebeldes a veem nos monitores da nave, mas com muito mais nitidez. Surpreso, Smith larga a arma e avança para Neo, que se defende dos golpes com incrível facilidade. Neo então corre e salta para dentro de Smith, fazendo-o explodir. Depois reaparece, de pé, calmo e respirando profundamente. Os outros dois agentes saem correndo.

Com a aceitação do amor, Neo alcança mais um nível do despertar. É a consciência que se amplia ao integrar os derradeiros conteúdos que não admitia.

Mas isso tudo só aconteceu porque o ego morreu, o velho ego que havia muito se agarrava obstinadamente ao comando da consciência. O novo ego faz de nós pessoas mais equilibradas e mais cientes de nossas possibilidades. Além disso, a consciência ampliada nos propicia uma visão mais clara da realidade, fazendo-nos ver o mundo além das aparências, assim como Neo passa a ver a Matrix através de seus códigos, limpidamente. Agora já não podemos ser enganados como antes, pois enxergamos tudo sem disfarces, principalmente a nós mesmos.

É bom deixar claro que a aceitação e a vivência do amor é o derradeiro inimigo que Neo tem de enfrentar para que possa se tornar, de fato, o Predestinado – mas para outras pessoas o último inimigo pode ser outro aspecto do ser. Seja qual for, será sempre algo que até o fim evitamos admitir em nós mesmos.

O Taoísmo, milenar filosofia oriental, nos fala do Tao, o ritmo do Universo, o indetível escoamento da realidade. Para o Taoísmo, sábio é aquele que capta esse ritmo e assim entende o equilíbrio dinâmico do crescimento e os ciclos de fluxo e refluxo da vida, harmonizando-se com ela. Isso é tornar-se um com o Tao, uno com tudo ao redor. Agindo assim o sábio pratica um dos princípios básicos do Taoísmo: a unicidade. Ele torna-se uno com a vida porque, na verdade, é o que sempre foi, mas não percebia.

Neo harmonizou-se totalmente com sua própria natureza e isso se refletiu automaticamente no mundo externo: ele passou a ser um com a realidade. Isso fica bem ilustrado na cena em que, após invadir o corpo de Smith e fazê-lo explodir, Neo respira fundo e a Matrix, ao seu redor, respira junto com ele, num movimento harmônico de contração e expansão.

Quem poderá ser mais forte que aquele que é um com a realidade? Neo consegue harmonizar-se com a Matrix de tal modo que nada mais é impossível para ele. Assim ocorre quando, após finalmente nos entendermos com o inconsciente, adquirimos um profundo grau de integração com nós mesmos e com a vida, nos conectando aos seus ciclos e às leis naturais. É mais ou menos como pegar onda: para chegar à praia, deve-se harmonizar os movimentos do corpo com o ritmo da onda, confiando no processo e abandonando-se ao sentido da força maior – tornando-se uno com ela. Desse modo, as coisas se tornam mais fluidas e a vida mais simples. As dificuldades continuam, é claro, mas nós agora as vemos não como obstáculos, mas como forças que, feito as ondas, podem nos conduzir à segurança da praia. E é por compreendermos as coisas desse novo modo que a vida se transforma no que há de melhor para nós.

É a isso que nos conduz a autorrealização: à efetivação do que realmente somos e à harmonia com a vida. Não são todos os que a atingem. Na verdade, são poucos, pois a grande maioria desiste ante as primeiras dificuldades e se convence que é impossível. A maioria toma a pílula azul.

Porém, o impulso para a autorrealização está presente em todos nós. O que faremos com ele é que determinará se realmente nos tornaremos ou não os heróis de nossas próprias vidas.

*     *     *

As luzes se acendem e os créditos na tela já estão subindo. O lanterninha vem nos avisar que o filme terminou e só então nos damos conta. Levantamos meio atordoados e saímos, envoltos em mil pensamentos. Teremos muitas coisas em que pensar nos próximos dias.

Na rua, as pessoas voltam para a realidade de suas vidas cotidianas. E, no interior de cada uma delas, o mito prossegue, vivo e pulsante, guardando o símbolo sagrado da autorrealização sob a mais importante de todas as perguntas:

“Quem sou eu?”

(continua)

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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CONTEÚDO INTEGRAL DO LIVRO

Cap. 1 – Cinema, mito e psicologia
Cap. 2 – Toc, toc, toc… Acorde, Neo!
Cap. 3 – Não existe colher
Cap. 4 – Morrendo para vencer
Cap. 5 – Matrix Reloaded e Matrix Revolutions
Cap. 6 – Os personagens
Cap. 7 – Quadro comparativo

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Matrix e o Despertar do Herói cap 3

28/08/2010

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(Ensaio – Miragem Editorial/2005)
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Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões.

Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

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Cap 3

NÃO EXISTE COLHER

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crises do despertar

Neo é resgatado pelos rebeldes. Pela primeira vez em toda a vida sua mente está fora da Matrix, no mundo real. Muito debilitado pelos anos em que seu corpo ficou imobilizado no casulo, cedendo energia para as máquinas, Neo dorme e a tripulação cuida dele. Ele acorda e pergunta por que seus olhos doem. Morfeu responde que é porque ele nunca os usou. E finaliza: “Descanse, Neo. As respostas estão vindo”.

O indivíduo jamais sai impune de sua diferenciação da sociedade, pois a conquista da individualidade sempre cobra seu preço. As crises que envolvem o despertar deixam o ego fragilizado, pois pode ser bastante doloroso encarar a verdade sobre nós mesmos. É comum que tais descobertas abalem tanto o ego que a pessoa, num primeiro momento, adoeça, precisando de um tempo para se recuperar e retomar os afazeres normais do dia a dia. A psique, em sua capacidade autorreguladora, força a pessoa a diminuir o ritmo e cuidar de si nessa fase delicada.

Em certos casos, o corpo segue a mente e expressa o sofrimento do ser, somatizando o conflito interno e refletindo fisicamente o que se passa na dimensão da alma. Vêm daí certas doenças que devem ser entendidas num contexto mais amplo, como sintomas da crise psíquica.

Infelizmente, a maioria dos nossos médicos ignora essa dimensão psíquica do ser e por isso se concentra nos cuidados físicos e neurológicos, comprometendo o processo total de cura com seu entendimento restrito da natureza humana. Nessas ocasiões o médico geralmente não encontra causa alguma para a doença. Ora, não encontra porque procura no lugar errado. A doença física, aqui, é um sintoma localizado do desequilíbrio psíquico, pois o ego está sendo confrontado por conteúdos inconscientes, e isso ocorre porque o ego precisa evoluir, a pessoa precisa se tornar mais adulta. Por ignorar a realidade objetiva da psique, o médico também ignora que esse doloroso confronto é vital ao desenvolvimento do ego e, consequentemente, à saúde do ser total. Quando o médico desconhece que a doença já faz parte da cura, suas tentativas de exterminá-la a todo custo poderão também anular o potencial curativo que a doença oferece.

Esta noção mais ampla da saúde ainda é rara entre médicos, enfermeiros e psiquiatras, profissionais formados por escolas que tendem a ignorar a dimensão psíquica do ser. Felizmente, já existem profissionais que compreendem o ser de um modo holístico, o que os torna mais capacitados para ajudar as pessoas a entender melhor as razões de seus males. Isso nos dá esperança de que num futuro próximo as crises do despertar da consciência (e as crises psíquicas em geral) possam ser tratadas não como meras doenças, à base de comprimidos, mas como manifestações físicas e psicológicas de um processo de cura e crescimento que envolve todo o ser.

os olhos veem

Estamos num momento decisivo do processo. No começo eram indícios vagos e confusos, mensagens sutis vindas do inconsciente que inquietaram o ego, forçando-o a sair de seu quartinho. O ego começou a desconfiar que havia algo além do que sabia sobre si mesmo e passou a se investigar. Vieram as dificuldades iniciais, mas o ego persistiu em seu caminho de autodescobertas. Vieram novas dificuldades e a coisa ficou mais séria. É como se a vida dissesse: “Não era você quem queria ver o que há do outro lado de sua dúvida? Pois agora veja.”

Diante do perigo, o ego hesita. Ele pode recuar, levando a pessoa a se convencer de que essas coisas não têm importância, que é melhor não cutucar a onça… Infelizmente, às vezes basta um vislumbre do que estamos por descobrir sobre nós para nos afastarmos do caminho.

A jornada da autorrealização não é para fracos. Somente os que vencem o medo de se conhecer podem realizar a si próprios. Neo já sentiu esse medo quando tentou andar pelo parapeito do prédio e quase caiu. Sentiu pavor quando foi torturado pelos agentes. E, diante da estranha proposta de Morfeu, parou para avaliar se valeria mesmo a pena prosseguir…

O herói decidiu pagar para ver e tomou a pílula vermelha. O ego decidiu prosseguir e aceitou ver o que vinha do escuro do inconsciente. Isso fez o herói finalmente se confrontar com a realidade. E a visão dela foi tão dolorosa que o ego não resistiu e começou a morrer. E não poderia ser de outro jeito. Da mesma forma que os olhos de Neo doem por ele nunca ter usado antes, nós também sofremos por estarmos, pela primeira vez, olhando diretamente para dentro. Mas o que exatamente pode ser tão doloroso assim em nós mesmos? Resposta: tudo aquilo que incomoda e envergonha – mas que agora somos forçados a admitir como parte integrante de nossa personalidade.

Assumir que somos fracos, mesquinhos, mentirosos, medrosos, covardes, ciumentos, violentos, desonestos, enfim, assumir coisas que sempre julgamos inexistentes em nós é tarefa das mais difíceis. O ator principal tem de descer do pedestal de sua autoimportância, desculpar-se com a plateia e apresentar a ela os outros atores da peça, que ele antes desprezava ou sequer conhecia. O ator se sente humilhado.

Na vida real a plateia não são as pessoas ao redor, mas a nossa própria consciência. Podemos até enganar os outros, mas agora já não podemos seguir mentindo para nós mesmos. O ego está frente a frente com outros aspectos do ser e é impossível prosseguir ignorando-os, pois agora eles se comportam feito funcionários em greve que simplesmente paralisam as atividades e impedem o funcionamento normal da empresa, levando o ego-gerente ao desespero. A pessoa estará impossibilitada de viver sua vida normal enquanto se mantiver o caos psíquico.

Só há uma saída: o ego tem de assimilar o que vem do inconsciente e integrar essas novidades à consciência. No início é doloroso, mas logo os conteúdos assimilados fazem o ego mais forte e a psique finalmente se equilibra.

Por isso que é difícil para o indivíduo se desgarrar da sociedade: a floresta lá fora é escura. Poucos avançam quando o ego é chamado ao confronto com seus aspectos sombrios. O mais comum é tomar a pílula azul e tratar de esquecer certos assuntos. Os horizontes de quem não arrisca são menores, sim, mas no mundo das ilusões ao menos não temos de encarar a incômoda verdade sobre nós mesmos.

No entanto, sempre há quem tome a pílula vermelha, testando seus limites e assumindo todos os riscos da aventura de se conhecer. Fazem isso porque têm coragem, sim, mas também porque sentem que não podem deixar de fazê-lo, que morrerão frustrados se desistirem nesse ponto. Então dão o passo à frente.

Você já ouviu falar de Alexandre o Grande? Ele foi rei da Macedônia (atual região da Grécia) e viveu no século 4 antes da era comum. À frente de seus soldados conquistou reinos da Europa, África e Ásia, promovendo uma intensa troca cultural entre Ocidente e Oriente. Alexandre é considerado um dos maiores estrategistas militares da história. Uma das lendas a seu respeito diz que ele desembarcava seu exército na praia inimiga, retirava dos barcos as armas e a comida, reunia os soldados à beira-mar e mandava atear fogo aos próprios navios. Então, diante das chamas, gritava para a tropa: “Se quiserem voltar para casa e rever suas famílias, só temos uma opção: vencer a guerra e voltar nos barcos do inimigo.”

História interessante… Mas o que isso tem a ver com o processo de autorrealização? Tudo. Alexandre, ao queimar os próprios navios, tomava sua pílula vermelha, ou seja, tomava uma atitude drástica em relação a seu destino, obrigando a si mesmo a avançar e dar o melhor que pudesse. Para voltar para casa, seus soldados não tinham outra opção a não ser dar tudo de si, lutar com todas as forças que tivessem e algo mais. Eles eram obrigados a se superar. Por isso venciam.

Neo, ao aceitar a pílula vermelha, não age com excesso de confiança ou soberba. É justamente o contrário: ele está assustado e tem medo. Se soubesse o que o aguarda, talvez preferisse a pílula azul, como logo veremos. Nada lhe garante sucesso, mas ele, sentado naquela poltrona, parece escutar a intuição lhe sussurrar ao ouvido que sim, ele deve prosseguir, que somente assim saberá onde vai dar a toca do coelho. Somente dando esse temível salto no escuro é que o herói conhecerá o fim de sua própria história.

mais crises

Neo acorda de seu sono profundo. Sente-se melhor. Morfeu lhe explica: “Você acredita que o ano é 1997, mas é mais provável que estejamos em 2197.” Neo diz que isso é impossível. Morfeu continua: “Eu prometi a verdade a você e a verdade é que o mundo em que você vivia era uma mentira”.

Neo e Morfeu são conectados a um programa de realidade virtual onde Neo fica sabendo sobre a Inteligência Artificial, a guerra, a Matrix e o que aconteceu com o planeta. Neo reluta em aceitar que toda sua vida foi apenas um sonho gerado e mantido por máquinas pensantes. Angustia-se e é retirado do programa. Ele vomita e vai para seu aposento descansar. Aos poucos se recupera do choque e começa, finalmente, a aceitar a verdade.

Os acontecimentos que nos fazem encarar a verdade sobre nós mesmos têm força suficiente para desestruturar a vida. A verdade está à frente e não podemos mais fingir que ela não existe. Ou podemos?

Assim como Neo, mesmo desperto da Matrix, ainda reluta em aceitar a verdade, nós às vezes demoramos a reconhecer aquilo que já é evidente. Por quê? Simplesmente porque o velho ego ainda não morreu de todo e seus espasmos continuam.

Neurose. É o nome dessa tensão entre nossa verdadeira natureza e os interesses superficiais do ego ou os papéis a que sociedade nos obriga. As neuroses se manifestam porque já não é mais possível manter no inconsciente certos aspectos do ser, e ainda assim a personalidade consciente insiste em não reconhecê-los. Quanto mais tempo se prolongar essa tensão, mais a pessoa sofrerá até tornar a vida algo muito difícil de suportar.

Devemos ver a neurose com olhos mais otimistas – ela é um sinal de que estamos lidando com nossos conteúdos inconscientes, com a nossa própria natureza. Isso quer dizer que a psique está tentando se equilibrar entre seus opostos. Passamos maus bocados toda vez que o ego demora a reconhecer o que precisa ser reconhecido, sim, mas tudo isso faz parte do processo. O ego necessita de tempo para assimilar o que descobriu. Os mecanismos autorreguladores da psique têm sua sabedoria própria e por isso as descobertas do mundo interior se fazem aos poucos, para podermos digerir bem as novas informações, cada uma em seu devido tempo.

Morfeu tem de aguardar Neo se recuperar do choque causado pelo desligamento da Matrix para, só então, levá-lo a um programa de realidade virtual a fim de que ele entenda o que houve com o planeta e a humanidade. E ainda assim, com todos esses cuidados, Neo sofre bastante e precisa de mais tempo para aceitar, chegando a perguntar a Morfeu se ainda pode voltar à Matrix.

Nós também demoramos a aceitar o que realmente somos. A vida, porém, sempre trata de nos mostrar a verdade. Certos comentários a nosso respeito nos irritam? Aí está uma boa pista a seguir. Se tais comentários nos tiram do sério, talvez eles queiram nos dizer algo importante sobre quem somos mas receamos admitir. Quem está seguro em seu caminho não tem porque se incomodar com o que falam, mas, por outro lado, quem esconde algo de si mesmo será constantemente lembrado disso através de outras pessoas que, de alguma maneira, conscientes ou não, porão o dedo bem na ferida.

Outra boa pista é atentar para o que nos incomoda profundamente nos outros. Como projetamos inconscientemente aquilo que é incômodo dentro de nós, é nos outros que o veremos claramente e não em nós mesmos. Ter de conviver com essas pessoas parece um castigo, mas, na verdade, é uma ótima oportunidade para reconhecer nossas falhas. A agressividade que não reconhecemos em nós mesmos, nós a detectaremos em alguém agressivo, e isso poderá nos incomodar a tal ponto que não conseguiremos conviver com tal pessoa, pois ela sempre nos faz lembrar do que somos mas queremos esquecer.

O ego imaturo não permite que esses conteúdos inconscientes sejam reconhecidos pela consciência, e assim eles prosseguem agindo na surdina, influenciando a personalidade. Mas um ego maduro esquece o orgulho e reconhece, através de suas projeções, as falhas de sua própria personalidade. O autoconhecimento faz com que todas as pessoas sejam mestres para nós, nos ensinando o que precisamos saber sobre nós mesmos. Mas para isso precisamos de autocrítica e humildade em relação a nós, e de paciência e compreensão em relação aos outros. Precisamos treinar essas capacidades em nós para podermos praticá-las com menos dificuldade sempre que a vida exigir que avancemos ao nível seguinte de autorrealização.

Neo treina com Morfeu        

Após finalmente aceitar a verdade e se recuperar, Neo inicia seu treinamento para saber agir na Matrix. Ele é inserido num programa que simula a realidade da Matrix e consegue superar o mestre. Depois, aprendendo a saltar prédios, falha e cai, despencando sobre o asfalto.

O percurso rumo à autorrealização envolve várias situações em que será preciso admitir que o que se vivia era apenas uma ilusão. Para evitar lidar com a verdade, nós fugimos de nós mesmos. Essa fuga constante requer muita energia por parte do ego: ele se esforça a cada minuto do dia para manter as aparências, não somente para os outros, mas principalmente para si mesmo.

Nós fingimos que somos o que não somos e reprimimos o que na verdade sempre fomos. Ignoramos a voz interior que nos chama para uma conversa, e quanto mais ela insiste, mais abafamos sua voz com qualquer coisa que estiver à mão: trabalho, diversão, compras, sexo, drogas…

Com o tempo, essa tática acabará obstruindo o fluxo natural do crescimento e a crise virá num vendaval que arrancará as máscaras que o ego construiu com tanto esmero para si. O mundo de superficialidades se mostrará um cenário de papelão, os relacionamentos perderão a graça e muitas coisas que ocupavam tanto espaço na vida deixarão de fazer sentido. Teremos de admitir que vivíamos uma mentira, uma grande Matrix criada e mantida por nós mesmos, em nossa ânsia de fugir do que nos chamava.

É um momento perigoso para o herói. Para se proteger dos escombros de seu mundo que desmorona, muitos se refugiam em qualquer lugar que lhes acene com o mínimo de segurança. Muitos recorrem à religião ou às drogas. Há também aqueles que sucumbem ao cinismo e adotam uma postura sarcástica perante a vida, como se tivessem sofrido uma grande decepção amorosa. Há também aqueles que perdem o prumo e têm sua vida desorganizada a tal ponto que nunca mais a organizam de forma satisfatória. Há os que enlouquecem. E há os que desistem de viver.

Descobrir que a própria vida é uma mentira pode ser insuportável. Mas muitos conseguem assimilar a descoberta e prosseguir com suas vidas sem se entregar a novas mentiras. Buscam e encontram dentro de si mesmos o sentido maior para o sofrimento por que passam, e assim superam a crise. A experiência da dor e da superação os torna mais fortes e capazes, e eles prosseguem cada vez mais firmes rumo à concretização de suas potencialidades.

Neo aprende a lutar nos programas de simulação e termina por vencer o próprio mestre. Após nos livrarmos das mentiras que só consumiam nossa energia, podemos agora, como Neo, fazer o que realmente importa, nos capacitando a viver de modo verdadeiro, investindo em nossas vocações e lutando pelos sonhos mais íntimos. Sem o peso das mentiras que usávamos para nos proteger de nós mesmos, agora somos mais ágeis, nos movimentamos melhor pela vida. Estamos mais preparados. Mas o aprendizado não terminou. Falta, por exemplo, saber saltar prédios.

Morfeu, o princípio yang

Se Trinity representa valores mais femininos, Morfeu é a personificação do masculino na psique do herói. Morfeu é o princípio yang da personalidade: força criativa, liderança, incentivo, agressividade e capacidade de realizar. Morfeu é o líder da tripulação e foi ele quem libertou os colegas. Foi ele quem descobriu Neo na Matrix e primeiramente acreditou que ele era o Predestinado. Foi Morfeu quem enviou Trinity para contatar Neo. Foi ele quem mostrou a dolorosa realidade para Neo. Agora é ele quem o treina para lutar contra a Matrix.

O herói precisa desse aspecto Morfeu do ser. Todos nós precisamos crer que somos capazes senão nada conseguiremos realizar. Precisamos buscar nossa própria força para fazer o que devemos fazer. É esse importante aspecto da psique que nos mantém acreditando em nossos sonhos, por mais improváveis que sejam. Às vezes, quando tudo diz que não conseguiremos, é justamente o Morfeu que existe em nós que temos de localizar e fazer agir, pois ele não medirá esforços para lutar por nós. Ele é feito da inabalável fé que diz que nós somos predestinados.

A natureza agressiva do aspecto yang é bem visível nos homens, criados desde bebês para lidar com valores como força, liderança e empreendorismo. Mas eles precisam equilibrá-los com os valores femininos de sua psique senão se tornam seres psicologicamente desajustados, incapazes de levar adiante o processo de autorrealização.

Com as mulheres ocorre o mesmo, de modo inverso. Elas precisam de sua contraparte masculina para se equilibrar e serem mais coesas. A vida moderna exige das mulheres força e capacidade de liderança nos negócios, mas infelizmente muitas ficam exageradamente possuídas pelos valores masculinos e, assim como ocorre com os homens quando se deixam possuir demais pelos valores femininos, as mulheres também se tornam psicologicamente desequilibradas.

Confiar na vida e no próprio processo de crescimento é uma qualidade vital, forjada principalmente nos fracassos, pois são as derrotas que revelam os que são dignos de prosseguir no caminho. Nas situações difíceis, quando as incertezas e o sofrimento nos abatem, quando nada dá certo, lembre-se das lendas e dos mitos: as terríveis provas do herói jamais são à toa. É justamente o sofrimento que faz o herói amadurecer e se transformar, conseguindo assim, mais tarde, realizar o que antes lhe seria impossível.

É preciso confiar no processo, e isso inclui confiar inclusive no sofrimento pessoal, pois ele tem um propósito que mais adiante saberemos entender. É esta a lição de Morfeu: confie na vida, acredite em você e faça.

negar os instintos

Os tripulantes estão reunidos para comer. Dozer explica que as refeições da nave não são gostosas, mas são feitas de proteína unicelular, combinada com aminoácidos, vitaminas e minerais sintéticos, e que isso é tudo que o corpo precisa. Mouse, o mais novo, discorda: “Não é tudo o que o corpo precisa.” A seguir, Mouse comenta com Neo sobre a mulher de vestido vermelho do programa de simulação da Matrix. Afirma que foi ele quem o construiu e pergunta se Neo não gostaria de um encontro a sós com a mulher. Switch graceja: “O cafetão digital em ação…”.

“Não ligue. São hipócritas”, prossegue Mouse. “Negar nossos instintos é negar o que nos faz humanos”.

A espécie humana é apenas uma ramificação da longa cadeia evolutiva que teve início com organismos minúsculos e se diversificou pelo planeta em milhões de espécies. A maioria desapareceu pelo caminho, e entre as que chegaram vivas nos dias de hoje está o Homo sapiens, descendente direto de outras espécies de hominídeos que, por sua vez, descenderam dos primeiros primatas. Nossa espécie adquiriu elevado grau de autoconsciência e, por isso, deixou de ser guiada unicamente por seus instintos, construindo cultura. Sua mente refinou-se e adquiriu habilidades que levaram-na a dominar outras espécies, e agora seu impulso yang de conquistas segue rumo ao espaço sideral.

O Homo sapiens é uma espécie conquistadora, mas não tem poder sobre a Natureza e sequer consegue controlar a si mesmo. Nossos cientistas desvendam os segredos do Cosmos, mas apesar de todo o conhecimento adquirido, o ser humano permanece um grande mistério para si próprio.

A mentalidade científica nos fez pedantes e hoje nos cremos separados da Natureza, olhando para tudo ao redor com ar de superioridade. Mas o buraco é mais embaixo. Apesar de toda a cultura que construímos e de todos os avanços tecnológicos, ainda somos animais e, por isso, feitos de instintos. Continuamos fazendo parte da Natureza, assim como nossos peludos antepassados milhões de anos atrás.

Ironicamente, é a própria ciência que nos faz cair desse pedestal de soberba. Primeiro descobrimos que somos primos dos macacos e formamos com eles uma única família chamada primata, e depois as pesquisas revelaram que 97% de nossa constituição genética é igual a de alguns deles. Isso tudo contradiz nosso sentimento de superioridade e a crença de que, por sermos dotados de razão e pensamento abstrato, não mais fazemos parte da Natureza nem somos guiados por instintos como os bichos.

Os instintos são nossa ligação direta com a Natureza, inclusive a natureza humana. Negá-los é negar as nossas raízes e fugir do que somos. Em Matrix, os humanos rebeldes resistem a fazer parte do mundo das máquinas e, por essa razão, valorizar as características humanas faz parte da resistência. Máquinas não têm instintos (pelo menos ainda), e, como veremos quando o agente Smith expuser suas opiniões sobre os humanos, elas de certa forma se orgulham dessa autonomia em relação aos impulsos naturais. Para Mouse, porém, admitir os próprios instintos é justamente um modo de se diferenciar do mundo mecânico e previsível das máquinas e elevar a categoria humana. Reconhecer a própria humanidade é uma questão de sobrevivência.

Para que haja equilíbrio psíquico é preciso reconhecer a dimensão instintiva do ser e assimilar o que é natural em nós, aquilo que herdamos e transmitiremos a nossos descendentes, queiramos ou não. Se, ao contrário, reprimimos os instintos no inconsciente, nas regiões escuras que a luz da consciência não alcança, eles se desenvolvem sem o olhar crítico da consciência e ganham força para influenciar o comportamento do indivíduo de modo negativo e até destrutivo.

A discussão entre Mouse e os outros tripulantes pode ser vista como uma reedição da velha discussão sobre corpo e espírito. Apoc, Switch e Dozer criticam a sexualidade do jovem Mouse, certamente pensando que um humano liberto da Matrix deve concentrar sua energia no trabalho de salvar outros humanos, nas missões dentro do sistema e na luta contra as máquinas. É como se o interesse pelo sexo pudesse lhes desviar da prioridade e demonstrasse fraqueza de caráter.

Ideias desse tipo são comuns nos caminhos do autoconhecimento, principalmente quando há algum tipo de religiosidade envolvida. Para alguns a energia sexual deve ser reprimida para que a pessoa se concentre apenas no caminho da salvação. Mas, afinal, que diabo de salvação é esta que exclui algo tão natural e legítimo como o sexo?

Não podemos cair no erro de ter vergonha do corpo e dos instintos apenas porque almejamos nos tornar pessoas mais equilibradas ou espiritualizadas. Corpo e espírito são dimensões através das quais o ser atua e reprimir um ou outro sempre traz problemas. A consciência, mesmo ampliada, não deve se desgarrar de sua base instintiva sob o risco da psique se desequilibrar. O corpo tem suas necessidades e elas devem ser atendidas de forma saudável, caso contrário ele adoece. Não podemos nunca esquecer que também somos corpo e temos de entender sua linguagem, suas necessidades e nos tornarmos íntimos dele.

Sidarta também teve de entender isso antes de se tornar o Buda. Após anos de jejuns e privações numa severa vida de austeridade, ele arrasta seu fiapo de corpo sujo e mal-cheiroso até o rio e se banha. Depois aceita a tigela de arroz que lhe oferecem. Seus discípulos o abandonam, julgando-o traidor da causa ascética. Sidarta limpa seu corpo, aplaca sua fome e tem prazer nisso. Ele então entende que se sua antiga vida de príncipe era um exagero, a vida de negação ao corpo era o outro extremo do exagero. Para atingir a iluminação, ele precisou transcender aos dois extremos.

A sexualidade é um instinto que nos liga à nossa natureza animal. Se a reprimirmos, cedo ou tarde ela nos cobrará tal negligência, irrompendo do inconsciente e manifestando-se de forma descontrolada. Devidamente reconhecida e assimilada pela consciência, a sexualidade pode ser vivida de forma sadia, ampliando ainda mais a consciência de si, o mesmo ocorrendo com outros instintos como a fome, a autopreservação, a busca de significado e o instinto criativo, que leva à arte. É possível usar até mesmo a sexualidade para alcançar novos níveis do espírito.

A energia sexual nos faz sentir mais vivos, mais integrados com as leis naturais. Enquanto há sexo, há vida. Por isso é um alívio ver sexo em Matrix. Aplausos para Mouse e sua linda loira de vermelho. Um brinde à dança sensual dos corpos na festa de Zion. Viva o tesão urgente de Neo e Trinity no elevador!

o Oráculo

Mas que diabos um oráculo, coisa tão arcaica e misteriosa, está fazendo num filme como Matrix, num ambiente tão moderno e tecnológico? O Oráculo é um dos personagens mais intrigantes do filme. Sua participação na trama é fundamental, e por isso vale a pena nos debruçarmos um pouco mais sobre ele.

Oráculo é um instrumento (ou alguém ou um lugar) através do qual formulamos perguntas e recebemos respostas para as mais variadas questões. Mas de quem ou de onde vêm as respostas? De alguma divindade, de algum aspecto mais sábio de nós mesmos ou da própria Natureza, conforme a crença do consulente. Eles são comumente usados para esclarecer fatos do presente, para previsões do futuro ou como instrumento de autoinvestigação psicológica. A pessoa se concentra, formula a questão e obtém a resposta. Enquanto é processada a ritualística do oráculo, qualquer que seja ele (tarô, I Ching, runas etc.), o silêncio age em nossa mente, isolando-nos das preocupações cotidianas, e nos põe em contato com o essencial da questão.

Oráculos são utilizados por diversas culturas há milhares de anos. Como surgiram não se sabe ao certo, mas olhando para a evolução histórica da consciência, é óbvio que não há necessidade de oráculo enquanto a espécie humana ainda está no estágio de indiferenciação psíquica, ou seja, ainda não existe a autoconsciência e, por isso, não há a separação conceitual entre o eu e o mundo exterior. Nesse ponto do processo evolutivo hominídeos e Natureza coexistem num estado de total comunhão mística e tudo é uma coisa só, um imenso inconsciente. Como não existe ainda um ego para avaliar e entender o mundo, também não há necessidade de comunicação.

Entretanto, à medida que a espécie evolui, a consciência emerge e se diferencia do profundo oceano inconsciente, feito uma frágil ilhota, e a realidade se divide entre o eu e o não-eu. A espécie começa a se entender de forma distinta da Natureza e, consequentemente, pela primeira vez “olha” para o mundo e o interpreta. A Natureza, em suas diversas formas e manifestações, é para esses hominídeos algo absolutamente imenso e assombroso, muito além da compreensão. Deve ser mais ou menos nesse ponto que são desenvolvidas as primeiras formas de oráculos. Nossos antepassados, cada vez mais sentindo-se diferenciados da Natureza (ou expulsos do paraíso, como prefere a linguagem mitológica cristã), sentem necessidade de criar instrumentos para se comunicar com ela e entender seus humores e, assim, começam a “ler” a Natureza no comportamento dos bichos, no movimento das nuvens, nas folhas das árvores, nos sulcos da terra e, dessa forma, compreendendo o funcionamento do mundo, podem se proteger das feras, prever eventos e programar migrações.

Os primeiros oráculos são isso: a observação e interpretação primitiva do mundo em toda sua imensidão e mistério. Mas essa observação tem um caráter sagrado, numinoso, pois a Natureza aqui é uma divindade viva e, como tal, é reverenciada com o mais profundo respeito. A Natureza é a Mãe Terra, a generosa doadora da vida e sua mantenedora, o lugar de onde vêm e para onde voltam todos os seres.

Quanto mais a consciência se diferencia do inconsciente e o ser se firma em sua individualidade, mais a espécie se distingue da Natureza, entendendo-se como algo separado. Os oráculos surgem então, digamos assim, como um paliativo para compensar aquele perfeito estado natural de interação entre a espécie e o mundo, estado que fica irremediavelmente para trás com o advento da autoconsciência.

Atualmente, utilizamos oráculos modernos como as medições meteorológicas por aparelhos. Ah, mas isso é ciência!, você pode dizer. Sim, é ciência, mas só difere dos oráculos primitivos por envolver tecnologia, pois a motivação e os resultados são os mesmos. Os primeiros instrumentos oraculares eram um modo primitivo de fazer ciência, e nem por isso menos válido que o atual. Por estarem muito mais próximos da sabedoria natural do planeta, nossos antepassados sabiam se comunicar com ele. Nós, civilizados, é que nos afastamos tanto da Natureza que agora, para entendê-la, apelamos a uma parafernália de instrumentos que nem sempre traduzem corretamente os humores do planeta. Além disso, a Natureza perdeu seu caráter sagrado, e é por isso que não vemos nenhum problema em desrespeitá-la e violentá-la todos os dias.

Para entender a Natureza, nossos cientistas, vestidos em seus caros paletós e do alto dos pedestais acadêmicos, gastam fortunas construindo aparelhos sofisticados. Para fazer a mesma coisa, nossos antepassados cutucavam a terra ou observavam o comportamento dos pássaros.

oráculos da alma

Num determinado momento, nossos antepassados percebem que os oráculos podem ajudá-los não somente a entender o funcionamento do mundo como também compreender a eles mesmos. Descobrem que, compreendendo melhor sua própria natureza individual, podem viver melhor e mais harmonizados com o mundo. Nada mais natural, pois se os oráculos servem para entender a Natureza e, da mesma forma que plantas, nuvens e bichos, nós também fazemos parte dela, por que os oráculos não poderiam nos auxiliar a desvendar a nós mesmos?

Foram então criados oráculos, digamos, artificiais, voltados para temas relativos à alma, como o tarô moderno, que é uma evolução das cartas que já circulavam no século 14. Contrário ao que muitos pensam, a função principal do tarô não é dizer se vamos casar com o Adalberto ou se vamos passar no concurso do Banco do Brasil. Ele pode até nos responder sobre questões como essas, mas, na verdade, a estrutura de suas cartas nos revela algo mais profundo…

Analisando o tarô à luz do que hoje se sabe sobre a psique e seus arquétipos, suas cartas revelam uma espécie de mapa do caminho de autocompreensão, feito de imagens arquetípicas que funcionam como símbolos ou marcos desse caminho, indicando experiências pelas quais temos de passar durante a vida. As cartas do tarô são, assim, uma metáfora do processo de autorrealização, um espelho do mundo inconsciente.

As pessoas que possuem sensibilidade e intimidade com o mundo simbólico podem ler a vida através das cartas ou dos hexagramas do I Ching, assim como nossos antepassados liam a Natureza por suas manifestações. Em muitas culturas os sonhos também são vistos como oráculos, e ainda hoje os governantes consultam pessoas para a interpretação de seus sonhos. Hoje, a psicologia do inconsciente, principalmente a junguiana, entende os sonhos como a autoexpressão da psique, um drama que se desenrola do ponto de vista do inconsciente e que visa levar ao ponto de vista do ego informações, em forma de símbolos, sobre o eu total, promovendo assim a autorregulação psíquica. Vistos dessa ótica, os sonhos são, de fato, oráculos, pois através deles podemos ler a natureza humana.

Os oráculos, no século 20, se tornaram populares no Ocidente por conta do modismo esotérico que leva as pessoas a comprar tudo que lhes promete fornecer o sentido que falta às suas vidas. É mais uma das tantas armadilhas de nossa cultura consumista, pois o sentido da vida é algo que se descobre por si só e não que se compra na lojinha mística para pagar de três vezes no cartão. O fato de se consultar um oráculo não significa, por si só, que se está apto a captar o sentido da mensagem recebida. Para isso a pessoa deve se livrar dos bloqueios e autoenganações que a impedirão de compreender, verdadeiramente, a resposta do oráculo.

No filme Matrix, o Oráculo soa como um contrassenso: num mundo supertecnológico e racional que importância teria uma senhora vidente, cheia de mistérios e profecias? Muita importância. O Oráculo no filme representa o sagrado em nossas vidas, o numinoso, um mistério que é maior e mais antigo que nós e pelo qual nutrimos profunda fé e respeito. Pode ser uma religião formal ou uma crença religiosa particular. Pode ser o amor, a arte ou uma conexão intuitiva com a Natureza, o Cosmos, a humanidade… Mas sempre será algo diante do qual baixamos a cabeça reverentes – justamente porque nos sentimos ligados a esse mistério maior.

O sagrado é obscuro, misterioso, arredio ao intelecto e jamais o definiremos com exatidões científicas, mas sem ele podemos ficar à deriva no grande caos da existência. Perder de vista nossos valores mais sagrados nos desequilibra. Que seria dos resistentes de Matrix sem a confiança no Oráculo? Eles o consultam e respeitam suas mensagens e previsões porque ele é a âncora com o sagrado em suas vidas, e é isso que os mantêm fortes, unidos e esperançosos.

voltando à Matrix

Morfeu leva Neo de volta à Matrix para consultar o Oráculo. Durante o percurso pelas ruas, dentro do carro, Neo olha silencioso pela janela e comenta que costumava comer num restaurante daquela rua.

Já passamos pelo choque de descobrir a verdade sobre quem somos. Passamos também pela crise que envolve esse momento delicado: adoecemos, tivemos a vida virada de cabeça para baixo, fomos tentados a voltar atrás e, por fim, assimilamos bem tudo que descobrimos sobre nós mesmos. Agora estamos recuperados do choque e aos poucos a vida retoma seu curso normal. Voltamos ao cotidiano sabendo mais sobre quem somos e o que queremos. Estamos mais fortes e mais equilibrados.

No entanto, como a evolução da consciência se faz em espiral, será inevitável que passemos pelo mesmo ponto, num outro nível. Isso significa que poderemos ser envolvidos novamente nas mesmas situações de antes e, se não estivermos suficientemente preparados, haverá um grande perigo de cairmos em tentação e falharmos.

Na Matrix, o carro segue pelas ruas e Neo observa em silêncio a cidade, as pessoas nas calçadas… Parece vagamente saudoso de sua vida anterior, esse tempo em que ele ainda não conhecia a verdade, e chega a comentar que comia muito bem num restaurante daquela rua, certamente um macarrão ao molho bem mais gostoso que a ração servida na nave.

Aqui, do lado de fora da tela, na vida real de cada um de nós, também passamos por situações como a de Neo, obrigados a vivenciar novamente situações que vivíamos antes do despertar, lugares e pessoas que parecem pertencer a uma época anterior de nossas vidas. Isso funciona como teste para o ego, que se vê envolvido pelo clima dos antigos valores.

É comum que o ego sinta certa nostalgia de quando não tinha tantas responsabilidades para consigo mesmo, um tempo sem compromisso com o autoconhecimento. Podemos comparar com a sensação que nos passam as crianças, elas e sua inocência, sua despreocupação com as coisas do mundo, algo que nos dá uma espécie de saudade. Mas isso faz parte da jornada, e após despertos, precisamos voltar ao mundo para viver nossa vida, com toda a intensidade que for necessária, e isso nos obrigará a lidar com as mesmas situações de antes. Podemos ir aos mesmos lugares e estar com as mesmas pessoas de antes, e até fazer tudo que fazíamos. Agora, porém, tudo é diferente, pois nós estamos diferentes. Nossa consciência se encontra num outro nível da espiral.

entortando a colher

Enquanto aguarda ser atendido, Neo observa uma criança careca vestida como monge budista. Ela entorta uma colher sem tocá-la e depois lhe pede que faça o mesmo, dizendo: “Não tente entortar a colher. Isso é impossível. Em vez disso, tente apenas perceber a verdade.”

“Que verdade?”, pergunta Neo, curioso.

“Não existe colher. Então verá que não é a colher que entorta. É você mesmo.”

Entortar a colher é o primeiro feito extraordinário de Neo na Matrix. Aliás, frente aos que ele ainda realizará, este é bem modesto. Mas o que importa aqui é que, pela primeira vez, Neo quebra as regras, ou seja, contraria as leis que regem o mundo na Matrix. Ele, porém, só realiza este pequeno milagre porque compreendeu, de verdade, que ele e a colher são a mesma coisa, a mesma realidade. Ele não apenas concordou com a ideia e pensou que pode ser assim. Não. É algo mais profundo: ele de repente soube que é verdade.

Há milhares de anos que os místicos de diversas tradições, como o Taoísmo e o Budismo, insistem que a separação que vemos entre as coisas é apenas aparente. Na verdade, tudo que existe, objetos, pessoas, animais e plantas, tudo está unido de uma forma que nossos sentidos não captam, e é justamente por causa dessa unicidade que os místicos sempre ensinaram: para mudar o mundo, mude a você mesmo.

Se nós e o mundo que nos cerca somos a mesma coisa, então o que fizermos a nós estaremos fazendo ao mundo. Se tudo que existe está interconectado, então nada escapa à ação de algo. Se Neo e a colher são a mesma coisa, não é necessário entortar a colher: basta que Neo mova a si mesmo.

Essa verdade, que era exclusiva do misticismo, passou a ser compartilhada no século 20, por incrível que pareça, pela ciência. Descobertas em diversas áreas parecem concordar com a ideia da unicidade cósmica. Na física, os cientistas, pesquisando o estranho mundo do interior do átomo, constataram que as partículas, de algum modo ainda obscuro, se comunicam entre si. A física quântica chocou os próprios cientistas ao concluir que não existe a tal neutralidade científica, pois para se determinar a profunda natureza de qualquer objeto, o observador deve incluir na análise o próprio ato de observar, o que inevitavelmente envolve observador e observado no mesmo fenômeno. Em outras palavras: a realidade em si não existe. O que existe é a nossa interação com ela.

Outras descobertas rumam para a mesma conclusão. Na ecologia já se trabalha com a teoria que a Terra é um imenso organismo vivo, dotado de inteligência própria, e tudo que nela existe, seres, plantas e minerais, são como órgãos desse imenso organismo. A psicologia, com Jung, apresentou ao público a ideia de inconsciente coletivo e sincronicidade, ou seja, a união de todos os inconscientes, através do qual pode se processar a comunicação e os acontecimentos se relacionam significativamente entre si em forma de coincidências.

Tudo se influencia porque tudo faz parte de uma coisa só. Essa verdade cabe bem no mundo globalizado de hoje, onde as economias dos países se afetam umas às outras instantaneamente e as pessoas estão interligadas por seus computadores. A tecnologia parece confirmar, à sua maneira própria, o que as milenares tradições místicas sempre afirmaram: tudo é uma coisa só.

Se tudo está mesmo interconectado, inclusive as pessoas e suas mentes, então seria possível fazer o que Neo fez com a colher. E por que eu tento e não consigo?, você pode perguntar. Certamente porque você, em seu íntimo, não acredita nisso, não sabe disso. Seria fácil demais se nos bastasse dizer para nós mesmos que podemos desviar aquela bola para o gol para que, efetivamente, nós a desviássemos. Infelizmente, isso não basta. “Não pense que é, saiba que é”, diz Morfeu para Neo a certa altura do filme. Está justamente nesse detalhe a chave do enigma. Precisamos não apenas concordar com essa verdade, mas vivê-la profundamente, em nossa mente, em cada átomo de nosso corpo. Precisamos saber que é real em vez de apenas concordar que pode ser.

Em outra cena Morfeu ensina Neo a saltar entre prédios. Tudo que ele precisa é saber que aquilo não é real, ou melhor, que ele está num programa e pode burlar suas regras. Neo se concentra, diz para si mesmo que está entendendo, corre e salta, todo confiante. E cai lá de cima, direto no asfalto. Por que não conseguiu? Porque sua mente ainda funcionava dentro das tradicionais leis físicas, e é como se elas, no instante do salto, lembrassem a seu corpo que a gravidade existe e ela sempre o levará para baixo.

Mudarmos a nós mesmos para mudar o mundo – esta é a lição que Neo começa a aprender com a garotinha. A mesma lição com que todos nós teremos de lidar na jornada em busca da completude.

o mistério do Oráculo

O Oráculo examina Neo e diz que ele tem o dom, mas parece esperar por algo, talvez sua próxima vida. Neo ainda acha que não é o Predestinado.

Quando Neo ainda se recupera em seu aposento na nave, tentando assimilar a terrível verdade que lhe foi revelada, Morfeu lhe conta sobre o surgimento da Matrix e a profecia do Oráculo que diz que um dia alguém surgirá para libertar a humanidade de sua prisão mental. Depois diz que embora eles, os resistentes, não costumem despertar alguém após certa idade porque a mente simplesmente se recusa a aceitar a realidade, ele decidiu correr o risco com Neo porque acredita que sua busca (a dele, Morfeu) finalmente terminou.

Neo fica encucado com essa história de Predestinado. Depois Tank, o operador da nave, comenta: “Cara, se você for mesmo quem dizem que é…” Neo fica cada vez mais confuso. Por fim, Morfeu diz que irá levá-lo para que o Oráculo o veja. Essas atitudes mostram que os rebeldes valorizam bastante o Oráculo e têm por ele forte respeito.

Enquanto seguem no carro para o encontro, Neo pergunta a Trinity sobre o que lhe dissera o Oráculo. O assunto parece incomodá-la e ela não responde. O mistério em torno do Oráculo aumenta.

Neo e Morfeu chegam ao prédio. É um lugar simples e um tanto sujo. Tomam o elevador, compenetrados, e à porta do apartamento Morfeu lembra: “Eu disse que o levaria até a porta. Você é quem tem de abri-la.” Neo pensa um pouco. O espectador também: o que acontecerá dessa vez? Neo estica o braço, mas a porta se abre antes que ele a toque. Mais tarde entenderemos que Neo ainda não está preparado para aceitar a si mesmo, para abrir a porta que o levará à sua verdade mais íntima.

Uma mulher os saúda e diz que logo serão atendidos. Na sala crianças brincam de entortar e fazer levitar objetos: são mentes com potencial para despertar da Matrix. Elas já sabem manipular os códigos do sistema e, por esse motivo, alteram as leis físicas da Matrix.

Quando enfim Neo se encontra com o Oráculo, descobre-se que o Oráculo não tem nada demais. É uma senhora negra, de meia idade, que o atende na cozinha, de avental, e está ocupada com os biscoitos no forno. Simpática, ela acende um cigarro e dá um gole em algo que lembra uma caipirinha caseira.

“Não se preocupe com o vaso”, ela diz. Neo não entende: “Que vaso?” Quando se vira para procurá-lo, seu braço bate num vaso sobre o móvel e o derruba ao chão, estilhaçando-o. Confuso, pergunta como ela sabia que ele o derrubaria. E ela: “O que vai encucá-lo mesmo é isso: você o teria quebrado se eu não houvesse falado nada?”

Ela olha atentamente para Neo: “Você é mais bonito do que eu pensava. Agora entendo porque ela gosta de você”. Ele pergunta: “Ela quem?” Ela sorri e diz: “Mas não é muito esperto.” A senhora põe o óculos e pede para examiná-lo: olha seu rosto, abre sua boca, pede que diga “Aaah…” como num exame médico. Isso nos faz lembrar, por contraste, da frieza da medicina tecnológica atual, do distanciamento dos médicos que, em sua soberba, não se importam se sua grafia nas receitas não são entendidas e às vezes sequer olham para seu paciente.

Ela olha suas mãos: “Muito interessante, mas…” Neo, curioso, pergunta: “Mas o quê?” Ela responde: “Mas é claro que você sabe o que vou dizer”. Neo então entende ao seu modo e conclui: “Não sou o escolhido”. O Oráculo larga suas mãos: “Sinto muito. Você tem o dom, mas parece que está esperando algo.” Ele pergunta o que pode ser e ela responde: “Sua próxima vida, quem sabe.”

profecias

É interessante o modo como foi conduzida a questão do oráculo. Primeiro, os rebeldes o citam e o espectador fica curioso. Depois a expectativa cresce quando falam da profecia sobre o Predestinado. O silêncio de Trinity só aumenta o mistério. De repente, o Oráculo não é nada do que se podia esperar, mas ainda assim surpreende com sua aparência e atitudes.

A conversa entre Neo e o Oráculo é perfeita: mostra que oráculos, na verdade, não dão resposta alguma, mas apenas servem de instrumento para que enxerguemos a resposta dentro de nós mesmos. Se não conseguimos olhar o suficiente para dentro, jamais entenderemos o significado mais profundo da resposta que nos foi dada. Assim sendo, as mensagens de um oráculo só fazem sentido se entendidas dentro do próprio universo cognitivo de quem pergunta.

Numa consulta a qualquer oráculo é determinante a posição do consulente, pois a resposta só será compreendida se a mente estiver receptiva, sem verdades preconcebidas e falsas expectativas. A resposta sempre vem, mas nem sempre se está preparado para compreendê-la. No estado em que se encontra, confuso e temeroso de assumir a grande responsabilidade de um salvador da humanidade, qualquer resposta de qualquer oráculo seria também entendida por Neo como um “você não é o escolhido”.

Neo parece sentir alívio com a declaração. Depois fala de Morfeu, e o Oráculo diz que todos lhe devem muito, que ele é muito importante. E profetiza: “Ele crê tanto nisso que se sacrificará por você. E você terá que escolher: numa mão terá sua vida, e na outra, Morfeu. Um dos dois morrerá”.

No fim, todas as profecias do Oráculo se realizam: o Predestinado veio, Trinity apaixonou-se por ele, Morfeu sacrificou-se e Neo teve de escolher entre salvar a si e ao amigo. Escolheu o amigo ao decidir retornar à Matrix. E por causa disso morreu. Morreu, mas ressuscitou. “Quem sabe numa outra vida…”, dissera o Oráculo. Na cena do helicóptero Neo está pendurado por uma corda e segura Morfeu. Numa mão ele segura a si próprio e na outra o amigo: é a profecia que se cumpre literalmente.

As profecias sempre nos intrigaram. Será mesmo possível prever o futuro? Como saber sobre algo que ainda não aconteceu? Isso nos remete à natureza do tempo, essa coisa tão impalpável e escorregadia. Nós sabemos o que o tempo é, mas só quando não pensamos, pois logo que pensamos nele, já não sabemos mais.

Se é possível prever o futuro, então automaticamente abre-se a possibilidade de alterá-lo. Se há a alteração, então o futuro previsto não acontece. Se ele não acontece, então não era o futuro. O que era então? Isso nos remete a outros aspectos da questão: os futuros hipotéticos. Talvez existam várias possibilidades de futuro e elas possam ser acessadas, nos permitindo participar no processo de determinação do futuro que efetivamente acontecerá. Ou seja: o futuro, assim como o tempo em si, necessita da consciência para existir.

Veja o vaso que Neo quebra. Exercitemos as possibilidades da questão. Ele o teria quebrado se o Oráculo nada falasse? Isso não podemos saber. Mas analisemos. O Oráculo conhece o futuro. Assim sendo, se ele sabe que Neo quebrará o vaso, então não precisa falar para que o destino se cumpra. Ou precisa? O fato é que fala. Por quê? Será que quer apenas mostrar suas capacidades, feito um cartão de apresentação? E se sabe mesmo do futuro, por que não retira o vaso ou alerta Neo de forma mais cautelosa? Bem, se assim fizer, o futuro que ele previu não se cumprirá, e dessa forma o Oráculo agirá contra si mesmo, o que não faz sentido.

Como explicar as profecias que se cumprem? Seria tudo mero acaso, coincidência? Talvez a profecia em si mesma seja justamente a força que leva os acontecimentos a se realizarem de forma a cumpri-la, uma espécie de autossugestão, ou seja, o futuro passa a existir potencialmente porque foi anunciado. Ou não? Será que o futuro realmente já está escrito?

Há quem entenda as profecias como autênticos flagrantes de falhas no entendimento unidimensional do tempo, comprovando que o tempo não é algo linear que vem do futuro, passa pelo presente e segue para o passado ou, como queira, é algo que vem do passado que já aconteceu, passa pelo presente que vivemos e se abre em perspectivas de futuro. Em vez de uma linha reta, talvez o tempo esteja mais para uma teia, algo que só faz sentido se for entendido em seu todo, de uma vez só. Para entender o fenômeno das profecias talvez seja necessário pensá-las não em termos de causa e efeito, mas como ocorrências sincrônicas que se explicam mutuamente, algo cujas partes se sustentam umas às outras ao mesmo tempo e não podem ser totalmente entendidas separadamente. Neo quebrou o vaso porque o Oráculo falou, e o Oráculo, por sua vez, fala justamente porque Neo quebrará o vaso.

o tempo

Está vendo? Conjeturar sobre o tempo é um exercício que, em vez de nos trazer certezas, nos deixa com mais dúvidas. Entretanto, para o nosso estudo, gostaria apenas de fazer mais uma breve reflexão. Se o tempo futuro ainda não existe e o tempo passado não existe mais, o que existe então? O tempo presente, você pode dizer. Certo. Mas quanto tempo dura o presente? Um minuto? Um segundo? Mas um segundo pode ser dividido em infinitas partes, e cada uma dessas em infinitas outras partes. Em qual delas estaria o tempo presente?

Não importa em quantas zilionésimas partes dividamos o tempo. Sempre poderemos dividi-lo em partes menores, e assim jamais localizaremos seu núcleo final onde poderia estar o agora. Simplesmente porque o agora não existe, assim como não há futuro e nem passado: é tudo abstração. O tempo é como alguém que virá ou que já se foi, jamais alguém que está. Nós nos posicionamos para flagrar o momento exato de sua passagem e quando nos damos conta… o tempo já passou.

Agora danou-se. Se o tempo não existe, o que existe então?

A psique. É ela que inventa o tempo. E o faz no momento em que a consciência nasce do inconsciente atemporal, pois, para se manifestar, a consciência precisa de um veículo, o corpo, que por sua vez precisa de um plano formado de três dimensões espaciais (altura, largura e profundidade) e uma temporal. É o cruzamento dessas dimensões, o espaço-tempo, que fornece as coordenadas exatas para a manifestação da consciência.

Quando o ser se dá conta que existe, ou seja, quando surge a autoconsciência, automaticamente surge o tempo. Porém, se a consciência se detém sobre a natureza do tempo, pode perceber que ele na verdade só existe como uma dimensão necessária para que ela possa atuar, e que talvez seja mesmo possível à consciência ir além da dimensão temporal à qual está limitada e acessar o inconsciente atemporal de onde veio para, assim, distinguir informações do passado ou do futuro e, inclusive, fazer profecias.

Putz, o cara viajou… Viajou no tempo. Pois é. Se é possível uma máquina do tempo, o meu palpite de viajandão é que ela já existe. Já está construída. Ou em contínua construção. É a consciência.

autoconfiança

O fato de Neo não acreditar que é o Predestinado é compreensível, afinal trata-se de uma responsabilidade enorme, terrivelmente incômoda, principalmente para alguém que até pouco tempo atrás ainda vivia na Matrix, imerso num mundo de ilusões. Coisa parecida ocorre no caminho da autorrealização. Sentimo-nos capazes de realizar muitas coisas, mas ao mesmo tempo nos retraímos, desconfiados de nós mesmos, temerosos de assumir responsabilidades.

Os amigos confiam em nós. As pessoas dizem que temos talento. E nós, o que pensamos sobre nós? Até nos convencermos de toda nossa potencialidade e mostrarmos a nós próprios que somos capazes, muita água rolará por baixo da ponte. Teremos muitas noites mal dormidas, envoltos em dúvidas e hesitações. Rezaremos pedindo luz, procuraremos oráculos, insistiremos em receber a aprovação das pessoas para nossos projetos…

Nada, porém, poderá fazer o trabalho por nós. E o trabalho consiste em nós mesmos nos convencermos de quem somos. Mas não adianta pressa, pois cada um tem seu próprio tempo. A convicção amadurece em nosso ser à medida que nos mantemos atentos ao caminho e fazemos o que deve ser feito. Cada autodescoberta nos faz mais fortes e mais cientes de que estamos no caminho certo. À medida que o herói avança e vence os obstáculos, mais capaz ele se torna.

A sociedade repressora já tentou de tudo, mas o indivíduo prossegue rumo à sua individualidade. Cada vez menos ela pode contra ele.

(continua)

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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CONTEÚDO INTEGRAL DO LIVRO

Cap. 1 – Cinema, mito e psicologia
Cap. 2 – Toc, toc, toc… Acorde, Neo!
Cap. 3 – Não existe colher
Cap. 4 – Morrendo para vencer
Cap. 5 – Matrix Reloaded e Matrix Revolutions
Cap. 6 – Os personagens
Cap. 7 – Quadro comparativo

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Matrix e o Despertar do Herói cap 2

28/08/2010

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(Ensaio – Miragem Editorial/2005)
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Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões.

Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

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Cap 2

TOC, TOC, TOC… ACORDE, NEO!

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seguindo o coelho branco

A primeira cena de Neo o mostra em seu pequeno apartamento, adormecido sobre a mesa. Um ruído no computador chama sua atenção. Sonolento, ele observa que alguém tenta se comunicar. A mensagem na tela diz: “Acorde, Neo…” Ele não entende. Surge outra mensagem: “Siga o coelho branco”. Intrigado, hesita ante o teclado e lê a mensagem seguinte: “Toc, toc, toc…”.

Neo escuta batidas na porta e, confuso, vai abrir. São amigos que foram buscar uma encomenda e o convidam para uma festa. Ele pensa em recusar, mas vê um coelho branco tatuado nas costas da garota e aceita.

Na festa, uma desconhecida chamada Trinity se aproxima e, sussurrando em seu ouvido, diz que sabe de suas noites mal dormidas, de suas dúvidas e da pergunta que o move. Neo escuta surpreso. Como ela sabe tanto sobre sua vida?

O processo de autorrealização é um impulso natural da psique. De modo geral, ele se manifesta primeiramente através de algum tipo de curiosidade, dúvida ou insatisfação pessoal. É preciso que haja algum incômodo para que o indivíduo se sinta impulsionado a agir. Esta é a isca que a psique utiliza para atrair a atenção do ego, a personalidade consciente, para a questão. Um ego acomodado em seu mundinho de interesses imediatistas jamais terá motivação para buscar outros níveis do eu total. É necessário que uma força maior que o ego agite as águas do fundo do oceano inconsciente e faça com que as ondinhas cheguem até a superfície da consciência, incomodando o ego. É preciso sacudir o ego e despertá-lo. É hora de transformação.

No caso de Neo, ele desconfia que há algo errado com a realidade. Em suas buscas na internet, colhe pistas vagas sobre a existência de uma tal Matrix e tem curiosidade sobre um sujeito chamado Morfeu, que é considerado um perigoso fora-da-lei. Algo o atrai e fascina nesse homem: ele parece ser forte, inteligente e destemido, e desafia as autoridades em ações ousadas, sempre desaparecendo em seguida. Depois surgem aquelas mensagens no computador, a coincidência do coelho branco tatuado… E agora essa intrigante garota Trinity que sabe muita coisa sobre ele. Afinal, o que está acontecendo?

A curiosidade em relação ao que seja essa tal Matrix traz inquietação à vida de Neo. É a imagem do Graal que surge para os cavaleiros do rei Artur, impelindo-os a buscá-lo na floresta. É o início do processo. E é assim que também ocorre com todos nós. As mensagens de Trinity no computador representam, no processo de autoinvestigação psicológica, o primeiro contato com o inconsciente. Todo início é assim, confuso e feito de pistas e indícios sem consistência. São ideias sobre nós mesmos e nossas vidas que surgem no pensamento e ficam a nos instigar. Se até então o ego nunca precisou voltar a atenção a outros aspectos do ser, agora, porém, ele tem de abandonar seu mundo seguro se quiser descobrir o que o inquieta.

É bastante significativo o fato de que a primeira cena de Neo o mostra em seu quarto, pequeno e fechado, um ambiente escuro e claustrofóbico. Em nossas vidas é exatamente assim que o ego se comporta, fechado e acomodado em si mesmo. O ego tende naturalmente a ser egocêntrico. O processo do despertar, porém, exige que o ego abandone a segurança do quarto em que sempre viveu e saia para conhecer o mundo, ou seja, vivenciar outros aspectos do ser total. Visto por este ângulo, torna-se bem emblemática a primeira frase dirigida ao nosso herói: “Acorde, Neo!”

Então começam as transformações para o ego. De repente, a vida não é mais tão tranquila como antes, as certezas já não são tão certas e algumas coisas não funcionam tão bem quanto funcionavam. De repente, nos sentimos incomodados, agindo de modo estranho e desconfiando de certas ideias que sempre foram indiscutíveis. A noção que temos de nós mesmos, segura e inquestionável, começa a se mostrar não tão verdadeira assim. Agora, parece que há algo errado com o mundo.

Na verdade, nada está errado com o mundo. O mundo é o que é. Nós é que estamos diferentes e, exatamente por isso, começamos a entender o mundo de maneira diferente. É bom nos acostumarmos logo: cada vez que nos transformamos, o mundo também se transforma. Nada mais natural, afinal fazemos parte do mundo, não é? É como se tudo fossem espelhos a se refletirem o tempo todo: por menor que seja nossa mudança pessoal, ela será refletida pelos outros.

Uma vez que o processo de autorrealização começa a se manifestar, será impossível prosseguir sem se transformar, pois para atingir novos níveis de realização, teremos de descobrir quem na verdade somos. Não poderemos mais nos enganar em relação a nós mesmos. Quem se descobre, naturalmente se transforma.

Em certos casos, é uma relação amorosa que provoca esse incômodo inicial, pois o parceiro parece possuir uma certa capacidade de nos fazer descobrir coisas desagradáveis sobre nós mesmos. Isso nos indispõe com ele, mas por mais que arrumemos um culpado para nosso mal-estar, já não é mais possível fazer de conta que ele não existe. O incômodo está lá, feito um espinho em algum lugar do ser, e é uma questão de tempo entendermos que o que verdadeiramente incomoda está em nós mesmos e não em outra pessoa ou em certas situações.

Você já experimentou uma sensação parecida com essa, lembra? Foi na adolescência, quando começou a deixar de ser criança e estava se transformando em algo diferente. Tudo mudava em você, seu corpo, suas ideias, as atitudes. Era como se você estivesse deixando de ser você para ser um outro você, sem no entanto deixar de ser você mesmo.

A adolescência é um bom exemplo do tipo de transformação que aguarda aqueles que seguirão o coelho branco em suas vidas. A diferença é que enquanto na adolescência estamos construindo verdades e conceitos que a partir daí pavimentarão nosso caminho, agora o chamado interior do autoconhecimento exige que nos desfaçamos de nossas próprias verdades se quisermos prosseguir.

A pessoa precisa reconhecer outros aspectos do ser, mas se o fizer deixará de ser quem sempre foi. Isso soa como morte para o ego. Exatamente por esse motivo é que nunca aceitamos muito bem a própria transformação.

primeiras repressões

Na manhã seguinte, Neo acorda tarde e chega atrasado ao trabalho. Seu superior o repreende e o aconselha a se adequar às normas da empresa. Ele o acusa de se achar melhor que os outros e ter problemas com a autoridade, e o ameaça de demissão. Neo escuta e, temeroso, nada responde. Na janela, pelo lado de fora, um funcionário limpa a vidraça.

O processo já foi iniciado. As águas profundas do inconsciente se agitam e as ondinhas alcançam a praia da consciência. Incomodado, o ego agora terá de abandonar sua antiga e tranquila posição caso deseje satisfazer a curiosidade, dissipar suas dúvidas ou parar com seu sofrimento.

Se a autorrealização é um impulso natural da psique, por outro lado existe uma força que vem da própria sociedade e que sempre tenta barrar esse impulso, desaconselhando, a princípio sutilmente, aqueles que começam a se diferenciar e agir fora do padrão.

Mas que amiga da onça! Por que ela faz isso? Por uma questão de sobrevivência da própria sociedade, pois é melhor que todos ajam e pensem de forma parecida, feito uma boiada – assim é mais fácil se organizar. Tal estratégia repressora é natural e eficiente para a sobrevivência de nossa espécie, mas tem um custo: a anulação do indivíduo e a negação de sua singularidade. Para a sociedade o que importa é que o indivíduo se comporte como uma peça da engrenagem social e cumpra com seu papel para que ela funcione perfeitamente e se mantenha a si mesma.

Quando ocorre o impulso da diferenciação temos então um encontro de forças, uma vindo do indivíduo e a outra da sociedade, em forma de cultura, leis e padrões de comportamento. O conflito é inevitável. O indivíduo que tenta se diferenciar age como o náufrago que quer escapar da correnteza do mar: ele deve alcançar as ondas que o levarão à terra firme, mas a tarefa é difícil, pois terá que lutar contra o oceano que o puxa para si, contra o medo de desafiar algo tão grande e contra seu próprio cansaço.

Aqui, mais uma vez, nos lembramos da adolescência, quando usávamos roupas e penteados diferentes para, inconscientemente, desafiar os mais velhos. Queríamos ser diferentes deles e, ao mesmo tempo, precisávamos ser iguais aos da nossa turma. Essa procura por identidade leva os adolescentes a criar padrões de comportamento que os ajudam a se estabelecer no meio cultural em que vivem. É um tipo de diferenciação, sim, mas ainda não se trata da diferenciação psíquica de que estamos falando.

O adolescente está construindo sua identidade própria, e para isso precisa copiar dos outros, de preferência de seus amigos e seus ídolos, o que faz com que ele entre para uma turma que se veste, fala e se comporta igual, um grupo que o aceita e se reforça com sua presença. Por outro lado, a pessoa adulta que, obedecendo ao primeiro impulso rumo à autorrealização, tenta se diferenciar da massa, não tem como prioridade construir uma identidade, pois, bem ou mal, já a possui. Seu objetivo é escapar do movimento hipnótico da massa para poder avaliar melhor o que está ocorrendo em sua alma e analisar suas inquietações. Por isso é que ela precisa fugir da correnteza que a faz girar e girar sem se questionar.

A correnteza é a cultura. Nascido dentro dela, o indivíduo está impregnado, até o último fio de cabelo, de leis, ideias padronizadas e modelos de comportamento. Para se dedicar mais a seu mundo interno e dar atenção ao que o inquieta, ele terá necessariamente de se afastar um pouco do mundo exterior. Para isso, terá de mudar de hábitos.

Mas não será fácil. Aqui surgem as primeiras dificuldades, pois a sociedade age como a Matrix, acionando suas forças repressoras e detectando com rapidez aqueles indivíduos que começam a se diferenciar e se movimentar fora do movimento padrão da massa. É como se eles representassem um perigo para o funcionamento normal da engrenagem – o que é verdade.

A repressão, a princípio, costuma vir em forma de recados sutis: são os olhares desconfiados, as desaprovações e as censuras. É como se a sociedade nos repreendesse: “Para que fazer diferente se até agora a coisa vem funcionando?”

Dessa vez, Neo se safou. Mas o impulso da diferenciação continuará, cada vez mais forte. E a repressão também.

seguindo a intuição

Após escutar a ameaça de seu superior, Neo vai para sua sala e recomeça o trabalho. Um funcionário lhe entrega uma encomenda. É um celular que, para sua surpresa, logo toca. Neo atende e descobre que quem fala é Morfeu, por quem tem tanta curiosidade e fascínio.

Morfeu o avisa do perigo que corre e o orienta para que possa fugir dos agentes. Neo está confuso, mas obedece. Morfeu explica que ele tem duas opções: ou tentar escapar pela janela ou se entregar aos agentes. Angustiado, Neo anda pelo parapeito, mas olha para baixo e a vertigem o domina. O celular cai de sua mão. De repente, percebe a grande loucura que está fazendo e se entrega, sem saber por que estão à sua procura.

Durante a jornada de autorrealização nos encontraremos muitas vezes em situações onde é a intuição que nos aponta o caminho a seguir. O caminho é novo e desconhecido, e olhamos para ele com medo, pois jamais o percorremos antes. De um lado a sociedade nos aconselha com suas regras tradicionais, mas por outro lado, a intuição sussurra que nosso caminho é outro.

O ego se vê num dilema. Estamos em conflito com nós mesmos, pois uma parte de nós sabe que precisamos arriscar e a outra parte tem medo. Intuímos o que temos de fazer, mas nos faltam forças. Nesse momento crucial o ego está sendo testado: uma viagem, uma troca de curso ou emprego, um término de relacionamento, uma atitude diferente… O ego se encontra diante de um portal e a intuição lhe diz que deve cruzá-lo. Muitos até que tentam, pondo em risco coisas importantes, mas da mesma forma que Neo, sentem uma espécie de vertigem e recuam, preferindo voltar.

Vertigem é medo de altura. É isso que ocorre nesses momentos: temos medo de nos soltar das amarras das seguranças já conquistadas e, com isso, não alçamos voo. O ego está inseguro no início da jornada e desiste ante as primeiras dificuldades, preferindo não arriscar o novo e desconhecido. A pessoa retorna aos afazeres cotidianos e tenta esquecer a sensação de derrota, abrigando-se na segurança do que já conhece. O portal se abriu, mas o vislumbre da liberdade que esse momento oferece às vezes nos é assustador. Ser livre tem seu preço e nem todos estão dispostos a pagar. Mas o portal se abrirá outra vez.

Neo não vê quem lhe fala. É uma voz misteriosa, mas que parece querer orientá-lo – uma analogia perfeita para a intuição e seu modo de trabalhar. A intuição é uma das funções psicológicas (as outras são a sensação, o pensamento e o sentimento) de que dispomos para nos guiar vida afora, e ela nos permite perceber as possibilidades inerentes à situação. É uma função irracional, pois apreende a realidade instintivamente, através do inconsciente, sem a participação do pensamento lógico consciente. É a intuição que nos fornece súbitas revelações e perspectivas diferentes sobre a realidade. De repente, intuímos, sem uma lógica aparente, que é melhor seguir por aqui e não por ali, e isso depois se revela a decisão correta. Qual foi a sensação, o pensamento ou o sentimento que nos levou a tomar tal decisão? Nenhum deles. Foi outra coisa. Foi um entendimento súbito e instintivo da totalidade da questão.

Diante da necessidade de escolha, geralmente decidimos seguindo a lógica do pensamento racional: irei por esta calçada, pois assim caminharei na sombra. Às vezes, porém, algo parece nos impelir na direção contrária à lógica racional, como se uma parte de nós captasse algum aspecto importante, mas invisível, da questão. Se a razão enxerga parte por parte, separando, discriminando e julgando, a intuição apreende o todo de uma vez. É como se ela estivesse em contato com todos os aspectos da questão, mas não pudesse explicar um por um: ela fornece um entendimento instantâneo e geral.

Podemos dizer que a intuição é uma função psicológica de caráter holístico, pois nos conecta com o todo, ou seja, a totalidade ao redor (pessoas, coisas, fatos etc.) e também a totalidade de nós mesmos. Ao redor, a intuição percebe aspectos que o pensamento, as sensações ou os sentimentos não captam e nos fornece dados valiosos para a nossa decisão. E em relação a nós mesmos, a intuição nos faz considerar aspectos do ser que estão além da percepção do ego, da mente racional. Dessa forma, pensamos e agimos de acordo com tudo o que somos, consciência e inconsciente. Isso significa que a intuição nos ajuda a ser mais abrangentes e verdadeiros com nós mesmos e, assim, nos faz agir mais harmoniosamente com o mundo ao redor.

Confiar e agir seguindo a intuição não significa desprezar o pensamento lógico, os sentimentos e as sensações, pois eles também são importantes. Porém, às vezes essas funções são insuficientes e, por isso, nos levam a tomar a decisão errada, ou se contradizem, nos deixando em cruéis dilemas. É nesses momentos que a intuição pode ajudar, ainda que pareça um salto no escuro. Infelizmente, nossa cultura supervaloriza o pensamento racional e desdenha da intuição, atrofiando-a a cada dia e nos fazendo guardá-la quietinha no porão da psique, feito um objeto sem serventia, quando, na verdade, ela precisa ser desenvolvida para podermos sempre reconhecer sua voz.

Neo está metido numa situação incrivelmente estranha. De um lado está sendo perseguido por policiais e sujeitos estranhos, com jeitão de mafiosos, sem ter a mínima ideia do motivo. De outro lado um tal Morfeu, que ele nunca viu antes, aconselha-o, pelo telefone, a se esconder e arriscar a vida no alto do prédio. Neo fica dividido, mas algo lhe diz que deve obedecer a Morfeu. Logo depois, porém, sente medo de cair e desiste, preferindo se entregar a seus perseguidores. Sim, o herói deve sempre seguir sua intuição, mas isso requer uma coragem que nem mesmo os maiores heróis possuem o tempo inteiro.

repressão e tortura

Neo está num tipo de sala de interrogatório e os agentes mostram que sabem tudo sobre sua vida. Eles querem sua cooperação para capturar Morfeu, mas Neo se nega a ajudar. Os agentes o torturam e lhe inserem um aparelho rastreador para que ele, sem saber, os leve até Morfeu.

O que teria acontecido se Neo continuasse seguindo as recomendações de Morfeu? Teria escapado dos agentes? Ou teria despencado do alto do prédio e morrido na contramão, atrapalhando o tráfego? Não podemos saber. Sabemos apenas que o medo o faz desistir de seguir as orientações da voz misteriosa. Ele de repente dá por si e percebe a loucura que está fazendo, como se estivesse possuído por algo insano que o leva a se arriscar e seguir uma voz interior que quer conduzi-lo para… para onde mesmo?

Neo prefere se entregar a continuar seguindo a tal voz. Mas, por não aceitar entregar Morfeu, ele é torturado. O primeiro preço a pagar pela diferenciação foi apenas um sermão e uma ameaça de demissão, nada que impedisse o herói de continuar seguindo a intuição. Agora, porém, o preço a pagar pelo nível seguinte de indiferenciação é bem mais alto. A sociedade age de modo parecido, exigindo que desprezemos a intuição e desistamos daquilo que tanto buscamos. É um tipo de acordo, muito comum: nós entregamos os nossos sonhos mais íntimos e em troca a sociedade não mais nos cobrará. Será que você alguma vez na vida não aceitou esse acordo?

Diferenciar-se custa caro. Tentar ser livre sempre nos levará a situações arriscadas, pois a sociedade, por meio de seus agentes repressores, dificultará o caminho. Ela nos interrogará e humilhará, tentando nos convencer a seguir suas regras. A sociedade nem sempre é tão direta quanto os agentes da Matrix, mas é igualmente eficiente. Cabe a nós decidir: compactuamos com ela ou continuamos seguindo o impulso da diferenciação?

Os que seguem o impulso devem estar preparados para retaliações – é o jeitinho que a sociedade tem de punir seus membros rebeldes. Assim, aquele que, em vez de se acomodar num emprego seguro, busca um trabalho mais condizente com seus interesses pessoais, certamente terá dificuldades financeiras. Aquele que assume sua sexualidade ou um estilo de vida diferente da maioria sofre com o preconceito. Aquele que questiona o modo como as coisas funcionam é visto com desconfiança e pode ter seu trabalho sabotado. Aquele que tenta apresentar novos modos de entender o mundo sofre resistência por parte de amigos, familiares, colegas, professores, chefes, líderes religiosos e autoridades, e pode ter problemas com a lei.

Os agentes repressores da diferenciação psíquica não são necessariamente pessoas cruéis: são geralmente pessoas comuns que não têm consciência do papel que representam, são apenas seres humanos inseridos numa cultura que os leva a agir assim, sem questionar. No fim deste livro, quando analisarmos a reinserção do Predestinado na Matrix, veremos que até mesmo os que se diferenciam estão, com isso, contribuindo também, mesmo que a princípio não pareça, para o fortalecimento da cultura.

Trinity, o princípio yin

Neo acorda em sua cama, assustado com o pesadelo que teve, onde homens o prendiam e lhe metiam um bicho nojento barriga adentro. O telefone toca. É Morfeu. Ele diz que foi sorte os agentes terem-no subestimado e marca um encontro. Na cena seguinte está chovendo, e Neo, sob uma ponte, vê um carro preto parar à sua frente. Ele entra, desconfiado, e senta ao lado de uma mulher. Ele a reconhece, é Trinity. Do banco da frente Switch lhe aponta uma arma e ele se assusta. Neo pede que parem o carro, pois está farto disso tudo. Trinity olha para ele com ternura e gentilmente o convence a ficar. Neo é submetido a uma rápida e delicada operação para retirada do rastreador de seu corpo. Agora ele já não pode mais ser localizado pelos agentes.

O portal se abre novamente para Neo, o novo lhe concede uma segunda chance. Ele segue sua intuição e vai ao encontro. Dentro do carro, o medo o domina mais uma vez e ele quase desiste. Quase, pois a doçura com que Trinity lida com a situação o faz superar o medo e a desconfiança e assim ele prossegue rumo ao novo que o chama.

Trinity é uma personagem feminina, e ao longo do filme veremos que ela representa os aspectos femininos da psique do herói que ele deve reconhecer em si mesmo e assimilar, integrando-os à personalidade consciente. Trinity é o princípio yin de que fala a filosofia oriental, um princípio ligado ao feminino (enquanto o princípio yang é ligado ao masculino), e na psique ele se manifesta na forma de intuição, sentimento, cuidado, paciência, maleabilidade e doçura – esses são os valores que Neo precisa reconhecer e desenvolver em sua própria personalidade, caso contrário não se transformará suficientemente e não vencerá os desafios.

Durante o processo de autoconhecimento do homem, a contraparte feminina vai ensiná-lo a ser doce, paciente e sutil nos momentos em que a força, a rigidez e a pressa nada resolvem. Isso também é válido se o herói é uma mulher, pois as mulheres também possuem sua contraparte masculina e necessitam estar conscientes dela para equilibrá-la dentro de si.

A força, a racionalidade e a conquista são valores yang. A flexibilidade, o sentimento e a empatia são valores yin. Todos necessitamos de tudo isso, dependendo da situação, mas na jornada do autoconhecimento, mulheres e homens terão sempre a missão de reconhecer e dosar esses valores em si mesmo, caso contrário a personalidade não se desenvolverá como poderia.

a pílula vermelha

Trinity leva Neo a um prédio. Ele é apresentado a Morfeu, que lhe fala sobre a Matrix, sobre ser escravo, e que ninguém pode lhe explicar exatamente o que é a Matrix. ”Você tem que vê-la por seus próprios olhos”, Morfeu diz, e, por fim, lhe oferece duas pílulas, uma azul e outra vermelha. A azul fará com que Neo acorde em seu apartamento, seguro, e aquela estranha aventura terminará, como se tudo houvesse sido um sonho. A vermelha o levará adiante. Neo escolhe a pílula vermelha.

Quando começamos a nos interessar por nosso mundo interior, é comum surgir curiosidade por temas ligados a psicologia e espiritualidade. Há pessoas que entram para seitas esotéricas, escolas místicas e leem livros e frequentam palestras e cursos.

A curiosidade é normal, pois o mundo interior, em toda sua vastidão, é realmente fascinante e envolvente. Porém aqui há outra armadilha do caminho. Por mais livros e cursos que acumulemos, nada disso terá muito valor se a transformação não for vivida na própria carne. Não adianta se tornar especialista em algum assunto, fazer curso de xamanismo, entrar para uma seita esotérica, contatar extraterrestres ou guias espirituais ou lembrar de vidas passadas se tais coisas não contribuem para que a pessoa se conheça melhor e se relacione melhor com o mundo, com os outros e consigo mesma. A espiritualidade que não gera o sadio intercâmbio entre consciência e inconsciente tende apenas a inflar o ego. Aliás, o mundo da espiritualidade e da religião às vezes mais parece um espetáculo de enormes ego-balões coloridos e vaidosos a desfilar no céu…

O mundo interior é como uma caverna escura e cheia de labirintos. O explorador pode facilmente ser seduzido por qualquer um de seus encantos e mistérios e esquecer que precisa prosseguir e viver os desafios seguintes de sua transformação pessoal. É justamente assim, seduzida pelos conhecimentos que as religiões, seitas e os mais diversos ismos e logias oferecem, que a pessoa se acomoda em algum tipo de explicação da realidade e “autoriza” que alguma ideologia faça o trabalho por ela.

A própria pessoa é quem tem de percorrer seu caminho e viver em si mesma a alquimia que a transformará num novo ser. Saberes intelectuais e dons paranormais, por si só, nada valem na jornada do verdadeiro autoconhecimento e não significam necessariamente percorrer o caminho interior. Morfeu certamente concorda com isso, pois em certo ponto da história ele diz a Neo: “Há uma diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho”.

Assim como Neo terá que ver a Matrix com os próprios olhos e entendê-la por si mesmo, nós também teremos que ver a verdade através de nossa própria vivência individual, que se parece com o convite para aquela festa chique: é pessoal e intransferível. Livros e cursos explicam com detalhes, mas tudo fica no plano do entendimento intelectual. É como planejar uma viagem e estudar a região pelo guia, decorando pontos turísticos, preços de pousadas e nomes de ruas: tanta preparação só valerá mesmo se a viagem for posta em prática, e ainda assim sabemos muito bem que na prática a coisa geralmente não sai como planejado…

É só o que tem por aí: frequentadores de cursos e catedráticos dos assuntos da alma. Muitos têm gurus, sabem botar cartas, até escrevem livros – mas não vivenciam em suas próprias vidas a transformação necessária que os conduzirá ao nível seguinte de autoconhecimento e realização pessoal. Estão empacados em algum ponto de seu crescimento interior, repetindo fórmulas e orações decoradas. Têm na ponta da língua o versículo para cada ocasião, conhecem a hierarquia dos seres ascensionados e recitam suas vidas passadas como quem narra as férias em Canoa Quebrada. Putz, de que vale mesmo tudo isso?

Assim como Morfeu não explica para Neo o que é a Matrix, nenhum livro, curso, religião ou guru pode viver por nós aquilo que nós mesmos temos de viver. Se desejamos avançar no conhecimento do mundo interior e nos libertar do que nos escraviza, só há um jeito: tomar a pílula vermelha e ver a verdade com nossos olhos, vivendo-a na própria pele, mesmo que doa. E vai doer.

o despertar

Depois de tomar a pílula vermelha, Neo é conectado aos aparelhos para finalizar seu processo de desligamento da Matrix. Ele estica a mão e o espelho à sua frente engole seus dedos. De repente, a superfície do espelho sobe pelo seu braço, feito um gel prateado, envolvendo cada vez mais seu corpo. Ele entra em pânico e desmaia.

Então Neo desperta. Está numa espécie de casulo, imerso num líquido avermelhado, e de seu corpo nu saem cabos conectores. Ele olha impressionado para as enormes construções ao redor, centenas delas, cada uma com milhares de casulos como o dele, cada casulo abrigando um corpo humano.

De repente, um robô se aproxima, observa-o e desconecta os cabos, fazendo Neo escorregar por um longo tubo e cair num esgoto, de onde é resgatado pelos rebeldes.

Esta cena tem forte carga dramática e certamente é a mais impressionante de todo o filme. Mostra o momento exato em que Neo desperta para o mundo real, acordando de um sonho no qual viveu durante toda a vida.

Em nossas vidas não acordamos em casulos gosmentos, ainda bem, mas o drama do despertar da consciência é sempre intenso e carregado de fortes sensações e emoções. O mito do despertar da consciência está espalhado em diversas culturas. Na mitologia cristã ele aparece na metáfora da árvore do bem e do mal cujo fruto faz com que Adão e Eva adquiram consciência de si próprios. Despertos, eles são expulsos do Paraíso e daí em diante terão de trabalhar duro para se sustentar. Em linguagem psicológica isso significa que o indivíduo atingiu um certo grau no conhecimento de si mesmo e já não pode mais permanecer na comodidade em que estava, com as velhas ideias e atitudes perante a vida. Nesse momento, as forças psíquicas forçam o ego a deixar seus limites de autopercepção e a ele não restará outra alternativa senão buscar novos níveis de compreensão de si mesmo.

Mas o despertar não é um processo que ocorre magicamente de um momento para o outro: ele é feito de acontecimentos que precedem as revelações transformadoras. Para Neo, o despertar começa com o estranhamento que sente em relação à realidade e com as incríveis façanhas de um tal Morfeu. Depois vêm as estranhas mensagens no computador, o encontro com Trinity, o telefonema de Morfeu, o encontro com os agentes, mais um encontro com Trinity e, por fim, o decisivo encontro com Morfeu. O herói precisa ser devidamente iniciado e passar por testes para que possa suportar a grande revelação que terá.

Não pensemos também que o despertar é uma experiência única, no sentido de que uma vez desperto, sempre desperto. Não é assim. O processo de autorrealização é feito de muitos despertares, cada um levando o indivíduo a um novo nível de autoconhecimento que, por sua vez, o leva a um novo nível de relação com mundo e isso força sua consciência a nova mudança e assim por diante.

Em nossas vidas o despertar acontece quando passamos por uma experiência forte o bastante para mexer com nossa noção da realidade ou de nós mesmos. Experiências fortes existem aos montes: basta ir ao parque de diversão, ao futebol, a uma festa, tomar alguma droga ou receber a fatura do cartão de crédito após o fim do ano. Porém, a experiência que leva ao despertar é especial porque transforma a pessoa para sempre, mudando sua autoimagem. O terremoto interno que o despertar provoca muda a pessoa para sempre.

Se na adolescência precisávamos construir uma imagem de nós mesmos, agora precisamos desconstruir. Precisamos matar o que éramos para que o novo eu possa nascer, com outros valores. Precisamos passar pelo fogo da transformação e isso envolve dor, conflitos internos, insegurança e medo. Muitas coisas podem servir de catalisador para o despertar: separações, insucessos, acidentes, doenças e até a morte, pois esses acontecimentos fornecem o choque necessário para que a pessoa pare e se concentre um pouco mais em seu mundo interno, repense os valores que até então a guiaram e perceba finalmente que a vida está lhe exigindo uma nova postura diante dela.

Na jornada de autodescoberta nós despertamos um pouco mais cada vez que assumimos certas coisas sobre nós mesmos. Podem ser boas ou ruins, mas sempre são coisas que não sabíamos ou não admitíamos. Neo precisa acordar de um longo sonho senão jamais se tornará o Predestinado de que fala a profecia. Nós precisaremos acordar também, não exatamente de um sonho, mas de uma falsa ou limitada compreensão de nós mesmos. Precisaremos nos desconectar dos valores que nos guiaram até agora mas que não são mais úteis ao crescimento pessoal, assim como Neo teve que se desconectar dos cabos que o mantinham preso ao casulo.

O verdadeiro autoconhecer-se dói porque implica necessariamente enfrentar o que se teme, tornar-se o que se evita ser, entrar no fogo dos piores medos. Dói admitir que estávamos errados, que as coisas não são bem como sempre pensamos e que nós mesmos não somos quem sempre consideramos ser. A sensação de desamparo e solidão nos atinge como um raio. Sentimo-nos impotentes, humilhados e não vemos saída para nosso sofrimento. Se pudéssemos, apertaríamos um botão, desceríamos pelo ralo e morreríamos no esgoto. E tudo estaria finalmente terminado, a dor, a decepção, a solidão. Ponto final.

Bem, de fato todo despertar da consciência exige uma morte. Mas aqui trata-se de uma morte simbólica: a morte do ego. O velho ego morre, ele e seus valores ultrapassados, para que um novo ego possa tomar seu lugar, mais forte, mais sábio e capaz de mediar os mundos interno e externo do indivíduo, gerenciando as necessidades dos dois lados. Um ego que possa conduzir o herói adiante em sua jornada.

os sonhos e a morte

Se nós tivéssemos o hábito de atentar e registrar nossos sonhos, veríamos que durante todo o tempo eles refletiam o próprio processo que vivíamos. É assim, através dos sonhos, que a psique individual retrata a si mesma, seus movimentos, suas transformações. Além de servir de espelho para a realidade psíquica do sonhador, os sonhos também podem orientar, mostrando o caminho que se deve tomar.

Por virem diretamente do inconsciente, os sonhos falam a mesma linguagem do mito, ou seja, falam pela imagem, pelos símbolos. Por isso é que eles têm fama de incompreensíveis e até mesmo de absolutamente ilógicos. Os sonhos têm uma lógica, sim, mas para captá-la precisamos ser mais íntimos de sua linguagem simbólica. Sim, é verdade que ainda temos muito que aprender sobres os sonhos, mas já sabemos que as situações que eles trazem podem se referir a aspectos do ser, cada figura representando algo em nós mesmos, em nossa vida. Se quisermos compreender mais os nossos sonhos e, consequentemente, a nós mesmos, temos que olhar para eles como estamos olhando agora para o filme Matrix, monitorando o personagem principal através de seus vários aspectos, entendendo as situações pelas quais ele passa como metáforas de seu próprio processo interior de autorrealização.

Infelizmente, no corre-corre do cotidiano não sobra tempo para nos dedicarmos ao nosso mundo interno. Acordamos já apressados e os sonhos se dissipam no ar, levando embora as importantes mensagens que a psique elaborou durante a noite, mensagens que poderiam facilitar a vida, fornecendo respostas para questões difíceis e apontando o melhor caminho. Certamente, gostaríamos de saber o que nossa parte mais sábia tem a nos dizer, mas infelizmente estamos atrasados, um monte de coisa a resolver, o aluguel está vencido, não há tempo.

Um psicólogo experiente, que sabe reconhecer as sutilezas do processo de autorrealização, pode facilitar nosso contato com os sonhos e suas mensagens. Para isso temos também de fazer nossa parte, registrando os sonhos e nos mantendo vigilantes em relação a nós mesmos, comprometidos com o processo, sendo honestos com nossas verdades interiores. Desconfie dos livros que oferecem fáceis interpretações dos sonhos, pois apesar de certos símbolos serem coletivos, sempre haverá detalhes do universo onírico estreitamente ligados à história pessoal do sonhador.

Se, nesse ponto decisivo do processo, o herói se torna mais íntimo de seu mundo onírico, ele poderá captar a mensagem e entender que a morte está se anunciando em seus sonhos, sim, mas representa a profunda transformação pela qual ele passa. Imagens de mares revoltos, catástrofes, documentos difíceis de encontrar ou desorientação na floresta indicam, em metáforas, o que está ocorrendo em sua vida: o herói está perdido, pois sua noção de si mesmo, sua preciosa identidade, ruiu feito um prédio que desaba e agora ele se sente acuado por forças que ameaçam matá-lo.

Mas a morte é simbólica e o herói não precisa ter tanto medo assim. Nós também não precisamos temer. Veja o exemplo das serpentes: elas se tornaram símbolos da vida que se renova. Justamente porque trocam de pele de tempos em tempos e com isso se tornam mais fortes e resistentes.

O sofrimento inerente ao processo de autorrealização é como uma troca de pele, um sacrifício necessário, pois não há crescimento possível sem dor. Grandes conquistas exigem grandes sacrifícios. E o que de maior podemos entregar senão a nossa própria noção de eu?

 

(continua)

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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CONTEÚDO INTEGRAL DO LIVRO

Cap. 1 – Cinema, mito e psicologia
Cap. 2 – Toc, toc, toc… Acorde, Neo!
Cap. 3 – Não existe colher
Cap. 4 – Morrendo para vencer
Cap. 5 – Matrix Reloaded e Matrix Revolutions
Cap. 6 – Os personagens
Cap. 7 – Quadro comparativo

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Matrix e o Despertar do Herói cap 1

28/08/2010

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(Ensaio – Miragem Editorial/2005)
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Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões.

Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

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Cap 1

CINEMA, MITO E PSICOLOGIA

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resumo do filme

No futuro, a Inteligência Artificial, uma avançada geração de máquinas pensantes, entra em guerra contra os humanos e vence. Como quase não há mais fontes de energia no planeta, os corpos dos humanos sobreviventes são usados para manter as máquinas funcionando. Para que eles não percebam o que acontece, a Inteligência Artificial faz uso da Matrix, um superprograma de realidade virtual ao qual são conectadas as mentes dos humanos. Dessa forma, adormecidos e indefesos, os humanos dormem e vivem um sonho coletivo onde o mundo é como era no fim do século 20.

Um grupo de humanos, porém, despertou e mantém-se fora da realidade virtual. Eles se escondem das máquinas, invadem o sistema e tentam fazer as pessoas despertarem. Esses rebeldes creem na profecia do Oráculo que diz que o Predestinado um dia virá para destruir a Matrix e libertar a espécie humana de sua prisão mental. Eles acreditam que Neo, um jovem que vive na Matrix, é o Predestinado. Neo de fato desconfia que há algo errado com a realidade, mas não pode aceitar que ele seja o tão aguardado salvador. Começa então sua guerra, contra a Matrix e contra si próprio.

escravos da própria criação

O filme Matrix entra para a história como uma das obras que mais simbolizam o espírito de nossa época, onde a espécie humana festeja e glorifica a suprema tecnologia, mas ao mesmo tempo começa a despontar no horizonte uma ameaça que nos aterroriza: a possibilidade de nos tornarmos escravos de nossa própria criação.

De certa forma, já somos escravos. A tecnologia atual nos faz depender das máquinas para quase tudo no dia a dia, desde o momento em que acordamos até a hora de dormir. Muitos inclusive só conseguem dormir se houver ar condicionado, ventilador, calefação, música no rádio ou uma TV ligada.

Faça um teste: da próxima vez que faltar energia elétrica, perceba como as pessoas se comportam. É como se de repente a vida ficasse suspensa. Muitos simplesmente não sabem o que fazer e andam de um lado para outro feito zumbis, como se aguardassem uma ordem para voltar a funcionar. Panes elétricas geram sérios contratempos, é verdade, mas até mesmo elas podem trazer benefícios. Lá em casa, por exemplo, quando faltava luz, íamos para o quintal e deitávamos no chão para olhar o céu e procurar estrelas cadentes. Meu pai e eu discutíamos sobre o Universo ser ou não infinito, a velocidade da luz, as galáxias… A imensidão do Cosmos nos inspirava certa reverência, nos fazendo lembrar do quão pequenos somos. Quando a energia voltava, eu sempre estava mais calmo. Às vezes, naqueles poucos minutos, conversávamos mais que durante o mês inteiro. A pane elétrica, ironicamente, forçava a família a se reunir.

O desenvolvimento tecnológico é importante. A espécie humana só sobreviveu até os dias atuais porque desenvolveu tecnologia suficiente para superar todas as dificuldades que surgiram, desde a necessidade de fabricar machadinhas de pedra até a criação de vacinas que evitam doenças graves e as sondas que viajam além do sistema solar. O problema é que a tecnologia ocupa cada vez mais espaço em nossas vidas. Transformamos a ciência numa espécie de deus e nos convencemos religiosamente de que a tecnologia pode nos salvar de todo perigo. Infelizmente, não pode. Aliás, é justamente por causa dela que a espécie ameaça destruir o planeta e se extinguir. O desequilíbrio ecológico e as guerras biológicas estão aí para confirmar o perigo do uso descontrolado do saber científico.

Como tudo que existe tem dois lados, a tecnologia tanto pode criar como destruir. Em Matrix, os avanços tecnológicos chegaram a tal ponto que as máquinas se tornaram independentes e escravizaram, literalmente, a mente dos humanos, algo que, de certo modo, já ocorre hoje. Podemos fazer algo para essa possibilidade sombria não se tornar realidade?

Acredito que sim. Podemos, por exemplo, lidar com a tecnologia de um modo menos dependente, equilibrando necessidades e facilidades tecnológicas com uma vida mais ligada à Natureza (inclusive a natureza humana) e às coisas simples. Podemos também, desde já, ensinar às nossas crianças que a tecnologia existe para nos servir e não para nos escravizar. E podemos também dar mais atenção às necessidades da alma, entendendo que o sentido da vida é nos autorrealizarmos, da forma mais verdadeira possível, nos tornando pessoas mais livres e harmonizadas com a vida. Isso a tecnologia não pode fazer em nosso lugar.

A verdadeira autorrealização é uma conquista individual, uma jornada mítica que cada um deve empreender em sua própria vida. É aqui, neste ponto, que podemos aprender com os mitos, essa coisa tão arcaica e que a mentalidade racional trata com tanto desdém, repetindo sempre que “é só um mito”, desprezando sua importância e vendo-os apenas como histórias exóticas de povos primitivos ou como religiões estranhas que insistem em sobreviver junto à nossa religião. É como se disséssemos: “Somos mais evoluídos. Não precisamos de mitos”.

Mitos jamais serão “apenas” mitos, pois são eles que formam a estrutura da alma e também das sociedades. Assim como os ossos sustentam o corpo físico, os mitos sustentam a psique humana. Entender como eles agem em nossas vidas é fundamental para compreendermos melhor a nós mesmos e ao mundo que nos cerca.

o mito

Mitos são formas de interpretação da realidade, compostas de narrativas simbólicas e imagens metaforizadas, que estruturam e orientam as sociedades e guiam os indivíduos no crescimento psíquico. Eles não são deliberadamente criados por alguém, mas nascem espontaneamente da alma coletiva da espécie, a psique, que os faz emergir das profundezas do inconsciente geral da espécie e se sedimentar, geração após geração, na cultura dos povos, para conduzi-los a novos níveis em sua relação com o mistério da vida e em sua organização social, assim como na evolução de toda a espécie humana.

A mentalidade atual costuma entender os mitos como mentirinhas ingênuas. Mito não é mentira, é metáfora. Uma metáfora não é uma mentira, mas um modo simbólico de expressar uma verdade. Por esse motivo, a metáfora é a língua nativa dos mitos, pois por trás deles há sempre um símbolo carregado de mistério e numinosidade, e a melhor forma de expressá-lo será sempre a linguagem figurada.

A fotografia é tão somente um processo químico usado para captar e expressar visualmente a realidade, e nem por isso uma foto é uma mentira. Assim como a ciência e a arte, o mito expressa a realidade à sua maneira própria, metaforicamente, que não é nem mais nem menos verdadeira. Se a ciência usa a razão lógica para explicar a vida e a arte usa a beleza e a harmonia para expressar o que sentimos, o mito se utiliza dos símbolos para nos provocar e nos ligar aos mistérios da existência, que estão além da linguagem da ciência, da arte e da filosofia. As explicações dos mitos não podem satisfazer ao intelecto, nem deveriam, mas os símbolos que eles contêm possuem o poder de nos situar no contexto geral do Cosmos, alinhando nossas vidas com uma ordem maior e ligando a consciência individual a um sentido mais amplo e coletivo.

Podemos dizer que, além de fornecer explicações para o mistério da vida e da criação do mundo, o mito exerce duas funções principais, sendo uma de ordem social e outra individual. Como nos ensinou Joseph Campbell, o famoso mitologista irlandês-estadunidense que ajudou a reacender o interesse pela mitologia no século 20 e nos incentivou a olhar para dentro e seguir nossa bem-aventurança, os mitos não só expressam a realidade: eles são o fundamento de toda sociedade. Não seria nenhum exagero afirmar que toda nossa vida, desde os menores detalhes até questões como arte, ciência, política e economia, tudo são formas rituais baseadas nos símbolos que os mitos expressam. Não há nada que não esteja sob uma espécie, digamos assim, de jurisdição simbólica dos mitos, pois, explicando a vida, eles estão também endossando e justificando todos os aspectos culturais de uma sociedade, desde instituições como casamentos, ritos como funerais até o padrão de comportamento de homens e mulheres e a criação de religiões.

No plano individual, o mito atua guiando o indivíduo pelas diversas fases de sua vida, fornecendo-lhe imagens e narrativas ricas de significado para auxiliá-lo em sua jornada rumo à maturidade psicológica. Sim, os mitos descrevem ocorrências exteriores, referentes a tempos e lugares distantes – no entanto, isso é só aparência, pois o plano real dos acontecimentos é interior, é justamente a dimensão psicológica humana. É na alma e não no mundo externo que se desenrolam os dramas metaforizados pelos mitos.

Dessa forma, o mito grego de Saturno, que devora os próprios filhos, nos ensina sobre o perigo da estagnação e o eterno medo da renovação, e o mito judaico-cristão da expulsão de Adão e Eva do Paraíso nos diz sobre as dores inerentes ao despertar da autoconsciência e ao crescimento psicológico. Infelizmente, o desprezo da mentalidade racional pelo mito nos impede de captar esses importantes significados, tão úteis à vida.

o mito da jornada do herói

Um dos motivos pelos quais o filme Matrix fez e continua fazendo um sucesso danado pelo mundo inteiro é o seu enredo: ele tem profundas bases mitológicas e as pessoas se identificam com essas obras porque elas vivem, em sua própria vida, os temas contidos no filme. O mito é como o leito de um rio antigo, e eu, você e todas as pessoas somos a água que corre por ele: é através da experiência de nossas vidas individuais que o mito está sempre se renovando.

Existem muitos e muitos mitos, cada um relativo a um determinado aspecto da existência, e mesmo sem conhecê-los ou pertencendo a outra cultura, nós os vivemos, cada um de nós, em diversos momentos da vida. Nossas águas estão sempre a percorrer o leito de algum mito, embora quase sempre estejamos inconscientes disso. Conhecendo os mitos e olhando-os pela ótica da psicologia do inconsciente, podemos compará-los com nossas vidas, perceber de que modo os vivemos e, assim, saber para onde se dirigem nossas águas, evitando possíveis desastres.

A história de Neo, que procura incessantemente uma resposta para a pergunta que o move (o que é a Matrix?) nos lembra Percival, o jovem cavaleiro do Rei Artur, buscando saber para quem serve o cálice do Graal. Neo e Percival são versões modernas do mito da jornada do herói, presente há milhares de anos na cultura e religião dos diversos povos da Terra. As histórias variam, mas a essência é a mesma: o herói é alguém que larga a segurança de seu mundo cotidiano e parte em busca de algo difícil e precioso, enfrentando incertezas, sofrimentos, perigos e arriscando a própria vida para, no fim, retornar transformado e vitorioso, mais forte, experiente e seguro, para guiar ou salvar seu povo, casar-se ou substituir um velho rei injusto ou doente.

Com algumas variações, este tema se repete em nossas lendas, contos de fada, religiões e obras artísticas desde que aprendemos a contar histórias ao redor das fogueiras. Esse é o modo pelo qual os humanos conseguem, através de metáforas e sem muita consciência disso, passar para as gerações seguintes algo vital para a sobrevivência da espécie: os segredos da autorrealização.

Nossos ancestrais escutavam as histórias dos heróis com respeito e assombro, envolvidos por rituais que se transmitiam pelas gerações. E hoje, no terceiro milênio da era comum, nós continuamos repassando o mesmo costume, com a diferença que, em lugar das fogueiras, nos reunimos no escuro dos cinemas, compenetrados e reverentes, para escutar a mesma história, para não esquecermos que a vida tem um segredo: cada um de nós precisa realizar a si próprio. Por isso, quando o segredo é recontado nos filmes, disfarçado em dramas, romances, aventuras e comédias, nós nos identificamos, algo dentro de nós se agita e de repente a vida faz mais sentido: é o mágico efeito que os mitos provocam.

Em algum momento da vida o mito da jornada do herói (o mito da autorrealização) é reativado na psique individual, em toda sua força. Vemo-nos então como o herói de Matrix, insatisfeitos com os velhos papéis reservados para nós pela sociedade e em conflito com nós mesmos. Despertamos da letargia, somos obrigados a largar as certezas de nossos valores atuais e partimos rumo ao desconhecido em busca de algo que nos completará, arriscando a segurança e enfrentando medos, dúvidas, sofrimentos e até a autossabotagem. Se persistirmos na jornada interior alcançaremos nossa essência e atingiremos novos níveis de autoconhecimento e harmonia com a vida, realizando nosso potencial, alcançando a bem-aventurança e, inclusive, gerando benefícios para a sociedade. É assim que vivemos o mito da autorrealização em nossas vidas, encarnando em nós a antiga jornada do herói.

Como vivemos em grupo, toda vez que alguém alcança a verdadeira realização pessoal, de algum modo seu exemplo influencia outras pessoas, e assim a espécie como um todo também avança. Por isso se diz que a autorrealização é a melhor forma de contribuirmos, individualmente, para o desenvolvimento coletivo da humanidade.

E é justamente por essa razão que continuamos a contar para as novas gerações, nos cinemas, nos livros e teatros, com roupagem moderna e efeitos especiais, as aventuras míticas dos heróis. Fazemos isso para não esquecer que o sentido da vida é seguirmos a nossa bem-aventurança e realizarmos quem verdadeiramente somos. Uma aventura heróica, sim, mas ao alcance de cada um.

Jesus Cristo super-herói

O filme Matrix tem muitos elementos que remetem à literatura, à cultura pop e ao próprio cinema, a diversas tradições religiosas, místicas e filosóficas, assim como analogias a teorias ligadas a vários ramos da ciência como psicologia, antropologia e sociologia. Pouquíssimas obras de ficção instigaram tantas interpretações diferentes envolvendo tantas áreas do conhecimento humano. Alguns argumentam que Matrix não passa de um borrão de tinta no qual cada um vê o que quer ver, um argumento que também mostra a riqueza da história e de seus fundamentos arquetípicos, pois poucas obras artísticas fornecem tantas e diversas visões.

Na filosofia, as analogias são muitas. É óbvia a parábola da caverna de Platão (parábola ou alegoria, e não mito), onde as pessoas veem apenas as sombras da realidade e as tomam como a própria realidade, limitando suas vidas. Muitos abordam o filme usando ideias de Sócrates, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Laplace, Nietzsche, Sartre, Dostoievski, Marx e Baudrillard para discutir coisas como natureza da realidade, metafísica, materialismo, tecnologia, livre-arbítrio, destino e onisciência.

No campo das tradições místicas e religiosas, pode-se ver em Matrix a ideia hinduísta de maya, ou seja, a ilusão na qual vivemos e que nos cega para a verdade maior. Pode-se ver também a ideia taoísta da unicidade de tudo que existe, de se tornar uno com o mundo e assim harmonizar-se com os ritmos naturais da vida. A iluminação de que nos fala o budismo, com sua ênfase na libertação da mente dos padrões a que ela se acorrentou, é uma constante durante toda a história. Pode-se falar também da ideia gnóstica do demiurgo, o arquiteto deste mundo, um falso deus que governa a realidade humana. Os planos astrais e suas entidades, ideias presentes em tantas correntes espiritualistas, também podem ser vistas no filme.

A mitologia grega é representada na história pelo nome de personagens como Morfeu (o deus dos sonhos), que auxilia Neo a despertar de seu sono na Matrix. Há também Perséfone, esposa de Hades e rainha do submundo, que ajuda os humanos quando esses descem ao Inferno, e que em Matrix é esposa de Merovíngio e também dá uma forcinha aos humanos.

A mitologia cristã também está lá, emprestando sua rica simbologia. A trajetória de Neo tem tantos pontos em comum com a vida de Cristo que é improvável que sejam apenas coincidências. Comecemos pelo nome de Neo na Matrix, Thomas Anderson. Anderson, de procedência nórdica, significa originalmente “o filho do homem”, uma das expressões que Cristo utiliza para se referir a si. No início do filme, o amigo que faz uma visita a Neo se refere a ele, literalmente, como “Jesus Cristo” e “meu salvador pessoal”. Assim como Cristo, Neo é tentado e torturado, morre, ressuscita e sobe aos céus. O nome da personagem Trinity remete à trindade cristã (Pai, Filho e Espírito Santo). Merovíngio, o poderoso chefe dos programas rebeldes, é uma referência aos reis merovíngios, da idade média, que se acreditavam descendentes da linhagem real proveniente de Cristo. A nave Nabucodonossor traz a inscrição MARK III, no 11, que pode ser uma referência ao evangelho de Marcos, capítulo 3, versículo 11: “Os espíritos imundos, quando o viam, prostravam-se diante dele, e gritavam, dizendo: Tu és o filho de Deus.”

No entanto, e é isso que mais nos interessa, há algo além das religiões e filosofias que liga a história de Neo com a vida de Cristo e no qual ambas se inspiram. Este elo é justamente o mito da jornada do herói, bem mais antigo que os dois e que pode funcionar como uma espécie de roteiro para entendermos, psicologicamente, suas trajetórias. Jesus Cristo é o grande herói da mitologia cristã. Não é relevante aqui se ele de fato existiu ou não ou se era ou não o legítimo filho de Deus. Para o estudo da psicologia do inconsciente aplicada à mitologia, o que importa é o que sua história tem a nos oferecer em termos psicológicos. O que vale é o leito do rio, a estrutura do mito, e de que modo as pessoas o preenchem com as experiências de suas vidas.

Cristo viveu, a seu modo, a clássica trajetória do herói. Abandonou a segurança do lar e das tradições, empreendeu uma difícil jornada de autoaceitação, sofreu as dúvidas, tentações e dores inerentes aos conflitos de quem reluta em assumir seu destino e, por fim, submeteu-se à sua verdade mais íntima, ou seja, ao fato de que, sim, ele era o filho enviado por Deus Pai para redimir a humanidade.

Igual a Cristo, muitas lendas em variadas culturas, até mesmo mais antigas, contam histórias muito parecidas, com personagens de trajetórias similares, contadas e recontadas através dos séculos. O que torna a história de Cristo tão especial é o fato dela ter inspirado o nascimento de uma religião que atualmente, incluindo suas subdivisões, é seguida por aproximadamente um terço da população do mundo. Não fosse isso, certamente a história do galileu que obrava milagres, arrebanhou seguidores, incomodou líderes políticos e religiosos e morreu crucificado chegaria à nossa época como apenas uma lenda, da mesma forma que tantas outras.

Quinhentos anos antes de Cristo, na Índia, um príncipe muito rico abdicou do conforto de sua vida e foi para a floresta viver de esmolas e meditar sobre o sentido da existência. No momento em que o compreendeu, tornou-se um iluminado, um Buda, perfeitamente integrado à Natureza, capaz de fazer milagres e de ensinar as pessoas a encontrarem também a iluminação e se libertarem das prisões mentais. A mitologia cristã possui tantas semelhanças com a vida do Buda e com outros mitos de outras culturas que é como se uma única história estivesse sendo contada em variadas sociedades sob diversas versões, sob as características próprias de cada cultura e baseada em suas necessidades espirituais específicas. De fato, é sempre a mesma história: o mito da jornada do herói.

Neo, Buda e Cristo, assim como Percival, são heróis porque realizaram a si mesmos, concretizando seu potencial, vivendo profundamente seu mito pessoal e cumprindo seu destino. Cada um deles viveu, a seu modo, o roteiro que marca a jornada mítica do herói.

herói e sociedade: um moto-contínuo

Tudo que existe já traz em si a semente daquilo que o destruirá. A sociedade instintivamente sabe dessa lei universal e por isso sempre verá com desconfiança o indivíduo, ele e seu perigoso potencial de transformá-la. Mais cedo ou mais tarde ele a transformará, e os dois prosseguirão num novo nível, ela tentando manter as coisas como estão, ele a desafiando com sua diferenciação. É um moto-contínuo.

Assim como o impulso evolutivo faz com que a consciência individual evolua numa espiral, passando pelos mesmos pontos em novos níveis, a consciência coletiva da espécie também age assim, tendo de um lado da espiral a sociedade e do outro a individualidade. Nascemos imersos na sociedade, e durante a vida inteira ela exerce sua força coesiva sobre nós – mas do outro lado da espiral a individualidade nos atrai. Para os que a alcançam, ela fornece a diferenciação e a força necessária para prosseguir no caminho legítimo da alma. Seu impulso, porém, obviamente conduz o indivíduo ao outro lado da espiral, de volta à sociedade. Isso significa que a mesma sociedade que segurou o quanto pôde o impulso diferenciador do indivíduo e o rejeitou, mais tarde assimilará os novos valores que ele traz, e assim ela se enriquece, se renova e forma novos indivíduos que, por sua vez, serão também atraídos para o outro lado da espiral e, caso prossigam, levarão a sociedade a novos níveis de evolução. É assim que a espécie evolui, fazendo com que o conflito entre individualidade e sociedade seja o motor do movimento contínuo. Se não houvesse individualidade, as sociedades não mudariam e, assim, logo apodreceriam e morreriam.

Atualmente, a realização individual não se contenta apenas em se diferenciar do bando, como nos dias em que éramos semimacacos, ou em adquirir identidade própria, como nos estágios seguintes da história humana. A autorrealização agora exige mais, exige que alcancemos o ponto mais verdadeiro do que somos para que o potencial que está lá, adormecido, possa se realizar em toda sua plenitude. O novo nível de individualidade que temos de alcançar determina que atinjamos nosso centro, mas para isso precisamos, é claro, conhecer o nosso todo, e o todo inclui não só a superfície, mas o que está dentro. Isso significa que temos de conhecer o interior de nós mesmos, profundamente, do modo mais verdadeiro possível, se quisermos alcançar nosso centro mais legítimo.

Quando Neo finalmente consegue compreender quem ele é, entende seu papel no contexto da existência humana e faz o que deve fazer. É assim que ele salva a humanidade e renova as esperanças do planeta que, agora, suspenso o conflito entre humanos e máquinas, pode enfim se recuperar.

monitorando Neo

O enredo de Matrix será aqui utilizado para ilustrar o processo de autorrealização do ser humano e mostrar que podemos deixar de ser meros personagens para ser os grandes heróis de nossas próprias vidas. Para isso, usaremos como guia o primeiro filme da trilogia, onde mora a essência da história, e alguns trechos dos outros dois. Seguiremos cronologicamente, descrevendo as cenas mais importantes e comparando-as com a referida etapa do processo, usando exemplos da vida cotidiana, sempre dentro do contexto do processo de autorrealização.

Agiremos mais ou menos como os agentes da Matrix, que prenderam Neo e lhe implantaram um rastreador para não perdê-lo de vista. Em nosso caso, seguiremos Neo durante sua perigosa e emocionante jornada porque sua história é a história de cada um de nós. A aventura do guerreiro cibernético vivido pelo bonitão Keanu Reeves é uma metáfora de nossa jornada pessoal rumo à mais verdadeira realização de nós mesmos. A diferença é que Neo é um personagem de ficção e só existe nas telas, enquanto nós, eu e você, existimos aqui no mundo real, na tridimensionalidade do dia a dia, pegando ônibus lotado, suando para pagar as contas, sofrendo por nossos relacionamentos e pelo time que vai mal no campeonato, batalhando arduamente pelo que acreditamos e ainda procurando um sentido maior no meio desse grande caos da existência. Ufa! Merecemos um Oscar pelo conjunto da obra, não?

Monitoraremos Neo para, através de sua trajetória mítica, ver como nós mesmos nos comportamos em nosso processo de autorrealização. Será como um jogo onde o que virmos na tela será transplantado para a vida prática. Definiremos as regras do jogo a seguir, mas não há nada de muito complicado. Lidaremos com noções de mitologia e psicologia do inconsciente, mas tudo será feito de forma leve e descontraída.

Bem, de fato não é fácil traduzir em simples palavras e rápidas explicações o profundo, complexo e misterioso universo da alma. É como traduzir em linguagem racional e científica coisas que são do reino dos sonhos e da intuição. Porém, felizmente existe a arte e seu poder mágico de tocar as pessoas. Existem filmes como Matrix, que já trazem em si, metaforicamente, muito daquilo que os profissionais da psicologia e psicoterapia se esforçam para explicar em seus livros, palestras e consultórios. A metáfora facilita as coisas, levando ao entendimento imediato e instintivo do que realmente interessa, o centro da questão, o símbolo. Por esse motivo é que a psique faz uso da metáfora dos mitos para comunicar suas verdades.

Pois bem. O plano é usar esse incrível filme como instrumento para que nós mesmos apliquemos as verdades mitológicas em nossas vidas e, assim, possamos nos compreender melhor e nos libertarmos um pouco mais.

Mas… libertar-se de quê? Libertar-se daquilo que nos mantém presos e que nos impede de ser quem verdadeiramente somos e de seguir a nossa bem-aventurança. E isso somente cada um de nós será capaz de descobrir o que seja. Esta é a nossa missão, a sagrada missão de cada um de nós.

você se conhece?

Já vimos que, em termos psicológicos, a aventura de Neo pode ser entendida como uma reedição moderna da jornada humana rumo à autorrealização. Certo. Mas o que exatamente vem a ser isso?

Autorrealização é a efetivação do que há de mais profundo e verdadeiro em cada um de nós. Feito uma potencialidade existente no mais profundo do eu, ela nos impulsiona a um processo contínuo de autoconhecimento onde integramos os conteúdos do ser e rumamos para a mais íntima realização pessoal: a concretização da personalidade total.

Autorrealizar-se significa desenvolver o potencial adormecido e nos tornarmos quem somos destinados a ser porque é isso o que sempre fomos: a semente que já traz em si a árvore futura. É impossível autorrealizar-se sem conhecer as próprias possibilidades e torná-las reais. Seria impossível para Neo fazer tudo o que fez sem antes se convencer que, de fato, podia fazê-lo. Você lembra quando ele decide voltar à Matrix para resgatar Morfeu, mesmo sabendo que jamais alguém fez isso antes? Pois é. Nesse momento Neo está, pela primeira vez, convencido de seu potencial e, por isso, consegue fazer o impossível.

Uma pessoa autorrealizada é uma pessoa equilibrada, física e psicologicamente, que se conhece a fundo e por isso é senhora de seus atos. Está consciente das necessidades do corpo e da mente, da linguagem das emoções e do espírito. Em outras palavras, todas as dimensões de seu ser estão harmonizadas. Por conta desse elevado grau de autoconhecimento, é alguém que sabe de seu potencial e o utiliza do melhor modo, sem desperdícios nem autoenganações. É alguém que, mesmo vivendo em meio ao grande caos do mundo, está em harmonia com ele e não se abala facilmente com imprevistos e derrotas. Uma pessoa autorrealizada venceu os desafios mais importantes que a vida lhe impôs e não mais precisa lutar contra seus demônios internos, pois um dia teve a coragem de encará-los, conseguindo assim que eles passassem para o seu lado, herdando deles a força contra a qual tanto lutava.

Para atingir esse ponto, porém, a pessoa tem antes de despertar e se diferenciar da mentalidade comum, como Neo despertou da Matrix, como nossos antepassados peludos se diferenciaram do bando e inauguraram o novo ramo evolutivo que seria a espécie humana. Isso é necessário para que a individualidade se manifeste e a pessoa possa realmente conhecer quem é, buscando suas verdades dentro de si mesma. Quem sou eu? – tudo começa com essa perguntinha safada.

Nada disso é fácil ou rápido. Aqui, porém, precisamos entender algo muito importante: o que verdadeiramente interessa não é alcançar a meta. Parece contraditório empreender uma jornada onde não há chegada, mas é assim que funciona, pois o que interessa realmente nessa jornada é estar no caminho. A essência da autorrealização não é chegar, mas manter-se em movimento, até porque talvez não exista uma chegada definitiva na evolução psíquica. É mais ou menos como encontrar um grande amor: quando isso acontece, não importa o que exatamente vamos fazer ou até onde estaremos com a outra pessoa. Fixar-se nisso é perder a noção do mais importante, que é estar junto e viver o amor a cada dia, sem se preocupar mais que o necessário com seu futuro.

A alma é a dimensão interna da vida, uma dimensão fascinante e também libertadora. Porém, a maior parte das pessoas nunca chega realmente a se aventurar pelo universo de sua alma, preferindo a experiência de vida em níveis superficiais do ser. O motivo disso é que a nossa cultura não nos incentiva a olhar para dentro e, além disso, lá dentro é escuro e, você sabe, do escuro sempre podem vir coisas perigosas…

Geralmente, na primeira metade da vida gastamos a maior parte de nossa energia correndo de um lado para outro em busca de brincadeiras, dinheiro, aceitação social, poder, conquistas sexuais… Mesmo que o mundo interno nos chame a atenção, ele frequentemente é relegado a segundo plano. Algumas pessoas sentem cedo esse chamado, mas a maioria só vai escutá-lo a partir da metade da vida, quando começa a fazer falta um sentido maior. Muitas percebem que o tudo que conquistaram não as fez realizadas – nem livres. Aliás, é comum as pessoas chegarem a esse ponto se sentindo sufocadas: pelo tempo, pelo trabalho, pela família, pelas exigências sociais e até por suas próprias ideias e atitudes que durante muito tempo foram úteis, mas agora não têm o mesmo valor. É em momentos assim que a vida nos faz lembrar que temos uma missão sagrada e que só poderemos cumpri-la se nos voltarmos para a dimensão interna da nossa vida.

A história de Neo é a nossa própria história, a de alguém que um dia não se conforma com a vida que vive e busca uma vida mais verdadeira. Assim sendo, a partir de agora olhemos para o filme com outros olhos. Para monitorar o herói em sua jornada de autorrealização, precisamos ver o filme sob um ângulo psicológico, onde Matrix passa a ser a história de apenas uma pessoa, no caso Neo, e onde todas as situações do filme se referem diretamente ao herói, à sua psique. Por isso todos os personagens, a partir de agora, representarão aspectos psicológicos do próprio Neo.

Acho que não entendi bem…, você pode estar pensando. Não se preocupe. Vamos treinar nosso olhar um pouco mais antes de começarmos o monitoramento de Neo. Vamos falar sobre essa coisa misteriosa e fascinante que é a psique.

o organismo psíquico

A cada dia novas descobertas tornam menos precisas as fronteiras entre mente e corpo, mostrando que as duas coisas talvez não sejam tão distintas como julgamos. Mas, para efeito didático, ainda precisamos explicar separadamente essas dimensões do ser.

Assim como possuímos um conjunto de órgãos, um organismo, que age dentro de leis físicas, químicas e biológicas, possuímos também um “organismo psicológico” que atua seguindo suas próprias leis. Esse segundo organismo é a psique, e assim como o corpo físico, ela também regula a si mesma, podendo adoecer mas também promover a própria cura. Para entendermos melhor a psique, temos de vê-la como algo vivo e possuidor de uma espécie de inteligência própria e capaz de se autorregular. Nesse ponto, ela é como a Terra, um superorganismo que mantém a vida em si através do equilíbrio entre seus órgãos minerais, vegetais e animais. Bem, é verdade que o Homo sapiens, um dos órgãos animais, ultimamente tem se esforçado bastante para desequilibrar tudo, mas isso é outra história.

A psique é formada pela consciência e pelo inconsciente. A consciência é a área superficial da psique, ou seja, o nosso conhecimento imediato sobre nós mesmos. O centro da consciência é o ego, e é por ele que manifestamos nossa vontade. Por ele ser o centro da personalidade consciente, é justamente pelo ego que temos consciência do que somos ou não somos. Mal comparando, o ego é como a pele, pois ela é o elemento de comunicação mais visível e imediato do corpo com o ambiente externo. Mas a pele não é o corpo inteiro: do lado de dentro há outros elementos que atuam o tempo todo, estruturando o corpo, mantendo-o vivo e influenciando nosso comportamento, mesmo que não o percebamos. Ver o ego como a personalidade total equivale a confundir a pele com o corpo inteiro.

O conhecimento do ego sobre a psique ou a personalidade total, da qual ele é apenas uma parte, só alcança o que está na consciência, aquilo que é distinguível com a luz do discernimento da personalidade consciente. O que está além da fronteira da consciência, ou seja, o que faz parte do inconsciente, está na escuridão e não pode ser percebido pelo ego. Por conta do posto que ocupa, de “representante autorizado” da psique para o mundo externo, o ego tende sempre a se considerar o eu psíquico total. Mas não é. Esta é a sua velha ilusão, achar que está sempre no controle da situação. Não está porque os elementos do inconsciente influenciam no comportamento da pessoa sem o ego se dar conta, pois ele só admite a existência do que está em sua área, a consciência. Para o ego, reconhecer o inconsciente é reconhecer que não está sozinho no controle – e isso é sempre um golpe no orgulho egóico.

Às vezes dizemos: “Eu tenho umas coisas que não entendo…” ou “Não sei o que deu em mim para fazer aquilo…” ou “Eu estava fora de mim.” Em momentos assim estamos pressentindo que não somos apenas o ego, ou seja, que somos algo mais que apenas a nossa percepção consciente de nós mesmos. Estamos quase admitindo que existem outros aspectos de nós e que não os conhecemos bem nem temos controle total sobre eles. Quando surgem essas incertezas é sinal que conteúdos do ser, antes totalmente inconscientes, se aproximam da fronteira da consciência. O ego já os pressente e se incomoda. Esses conteúdos estão saindo das sombras do inconsciente e forçam saída rumo à luz da consciência, querendo ser integrados à personalidade consciente. O melhor a fazer é ir ao encontro deles antes que esses danados imprevisíveis provoquem confusões maiores. Isso é investigar-se psicologicamente, dar atenção ao mundo interno. Isso é autoconhecimento.

O ego, portanto, é uma espécie de gerente da psique, incumbido de facilitar o fluxo de conteúdos entre a consciência e o inconsciente, fluxo este que visa manter o equilíbrio psíquico, vital para a saúde do indivíduo. Um ego imaturo, porém, age feito um gerente inseguro, que está sempre tão preocupado em manter a ilusão de se achar mais do que é que não consegue perceber a existência de certos problemas na empresa. É exatamente por causa dessa negligência que os problemas se acumulam, ou seja, o fluxo de conteúdos entre consciência e inconsciente não ocorre de modo satisfatório. Para esse gerente inflado de orgulho, a prioridade não é o crescimento psíquico (crescimento da empresa), mas segurar seu cargo, manter as coisas como estão, empurrando com a barriga, adiando, fingindo não ver.

Se o ego não desempenha bem sua função gerenciadora da psique total, ignorando o inconsciente e fazendo a pessoa viver a si mesma de modo unilateral, os interesses egóicos se chocam com os interesses do eu total e as forças autorreguladoras da psique intervêm, queira o ego ou não. E aí surgem as crises.

o inconsciente

Mas… e o inconsciente, de que é feito exatamente? Podemos, a princípio, resumi-lo como o conjunto de tudo aquilo que não sabemos sobre nós mesmos. No inconsciente vivem, vamos chamar assim, complexos energéticos que possuem certo grau de independência, como se fossem entidades de vontade própria dentro de nós mesmos. Enquanto esses conteúdos inconscientes não forem percebidos e devidamente assimilados pelo ego, estarão sempre agindo na surdina, influenciando o comportamento, nos impedindo de sermos melhor do que somos, levando-nos a fazer coisas das quais nos envergonhamos e ocasionando males diversos.

É um monstro terrível esse inconsciente, um Godzilla que sempre destrói os planos da personalidade consciente? Não é bem assim. O inconsciente é imenso como o mar, é escuro como a noite – mas não é bom nem mau. Ele não tem moral, e tudo que deseja, e vai conseguir de um modo ou de outro, é se manifestar no mundo externo. O inconsciente possui conteúdos positivos e negativos, que podem ajudar ou prejudicar, dependendo da atenção que lhes dê o ego. Se o ego for um bom gerente, o inconsciente se tornará um importante aliado da personalidade consciente vida afora.

Você já comeu o corpo de um inimigo vencido? Não? Eu também não. Mas algumas tribos guerreiras tinham esse hábito de, após vencer uma batalha, comer os corpos dos inimigos mais valentes num ritual cheio de respeito e reverência. Nojento? Para nós pode ser, mas agindo assim eles acreditavam incorporar a coragem e a destreza do inimigo e, com isso, tornavam-se guerreiros mais fortes. Você pode não agir assim com seus inimigos de carne e osso, porém é isso que ocorre quando vencemos os desafios internos de nossa personalidade: o que antes era um inimigo traiçoeiro a nos emboscar no escuro do inconsciente finalmente junta-se à consciência e nos engrandece, nos equilibra e nos faz mais fortes e capazes.

hoje tem espetáculo

Talvez a analogia com as tribos guerreiras não tenha feito bem a seu estômago. Tentemos então pelo lado da arte.

Imaginemos a psique como um grupo teatral, composto de vários atores. Quando a cortina se abre, porém, no palco há somente um único ator sob um facho de luz concentrada. O ator é o ego e a luz é a consciência. A consciência ilumina tudo o que toca, permitindo que o ego, que está sempre em seu centro, veja, descrimine o que existe e decida o que fazer com o que descobriu. O próprio ego dirige o foco de luz da consciência, formando com ela quase que uma só entidade. Quase, pois em certos momentos ela ilumina um pouco mais do que ele gostaria de ver.

O ego acha que está só no palco, realizando seu monólogo mas, atrás dele, na penumbra do fundo do palco, existem outros atores, uns mais quietos, outros nem tanto: são os outros aspectos do ser. Estão no escuro porque lá a luz da consciência ainda não chegou, e o ego, por isso, não reconhece sua existência. São aspectos da personalidade que ainda não foram devidamente integrados à consciência. São conteúdos inconscientes porque o ego está inconsciente deles. Pode ser a agressividade ou um grande medo não reconhecido, pode ser um trauma da infância, uma grande culpa ou a sexualidade não assumida. Pode ser muita coisa – mas o ego não sabe desses aspectos ou finge não saber, pois em algum momento decidiu que seria melhor não conviver com eles.

Esses atores da escuridão sabem que o ego é o ator principal, mas eles também querem participar mais ativamente do espetáculo. Mesmo que não sejam oficialmente reconhecidos pelo ego, eles se movimentam em segundo plano e isso cedo ou tarde interferirá no andamento da peça. Quando isso ocorrer, o ego terá a primeira noção de que não está sozinho no palco. Mas poderá insistir em continuar desprezando os colegas, fingindo que nada aconteceu. Quanto mais os desprezar, mais eles se esforçarão para aparecer, podendo forçar a barra e chegar ao cúmulo de se adiantar no palco e dividir a luz do refletor com o ego, para surpresa e embaraço deste. O ego, coitado, que em nenhum momento teve controle total sobre os rumos da peça, agora é obrigado a admitir abertamente que existem outros atores e terá forçosamente de incluí-los em sua própria história.

Isso é apenas uma comparação, claro, mas é o que ocorre diariamente em nossas vidas. Pensamos que estamos agindo sozinhos, mas outros aspectos que fazem parte de nosso eu total estão atuando também, às vezes contribuindo e outras vezes atrapalhando e até mesmo sabotando os planos de nossa personalidade consciente. A necessidade de autoconhecimento leva o ego a ampliar a luz da consciência a fim de iluminar outros pontos da psique total, à procura do que mais possa estar ali. É um trabalho delicado e custoso, pois requer a coragem de encarar o que não se conhece em si próprio. Isso trará mudanças, inevitavelmente, e o ego não é muito chegado a mudanças, preferindo sempre manter as coisas como estão. Mas não há outra forma da psique se equilibrar e da personalidade consciente ter mais controle sobre a própria vida. O ego precisará se transformar, e para isso terá de ter grande honestidade consigo mesmo, paciência e perseverança.

Jogar a luz da consciência sobre nossos conteúdos inconscientes significa assumir outras partes de nós mesmos. Algumas dessas partes já suspeitamos que existem e, bem ou mal, convivemos com elas no cotidiano. Outras partes, porém, por algum motivo, em algum momento da vida decidimos mantê-las na escuridão – são essas as mais difíceis de lidar, pois, se por um lado essa decisão permitiu ao ego levar a vida como se essas partes não existissem, por outro lado lhes proporcionou a oportunidade de se desenvolver sem serem incomodadas. Por conta disso o ego sempre se assusta ao vê-las sair das sombras, crescidas e cheias de vontade, e vir dividir com ele a atenção da plateia.

tornar-se o próprio herói

Uma pessoa consciente de seu caminho de autorrealização sabe perfeitamente que o processo exige um contínuo transformar-se e toda transformação traz algum tipo de crise. Essa pessoa sabe que dialogar com suas outras partes e reconhecer que elas fazem parte do eu total não é trabalho fácil, pois traz incertezas e angústias. Mas o processo de autorrealização exige que a consciência se amplie para que a pessoa pare de brigar com seu próprio inconsciente, ou seja, com ela mesma. Deixando de brigar com o que reprime dentro do ser, a pessoa se torna mais autoconsciente e equilibrada, assim como Neo que, à medida que conhece seu potencial, segue treinando suas capacidades e assim consegue se movimentar melhor na Matrix.

Por outro lado, se a pessoa tem medo do que possa vir do escuro do ser e continua reprimindo a própria natureza, a psique cobrará tal negligência, atrapalhando os planos do ego, forçando-o a gafes e atitudes cada vez mais constrangedoras ou até mesmo provocando insucessos, acidentes e doenças – isso tudo para forçar o ego a parar um pouco e olhar para dentro. Esses mecanismos psíquicos fazem parte da capacidade de autorregulação do eu total, que só tem um único objetivo: realizar-se em sua inteireza, tornar-se a árvore futura que a semente predizia. Mas isso será impossível se consciência e inconsciente não estiverem em harmonia.

O processo de autorrealização leva a pessoa a lidar mais harmoniosamente com o mundo, com as outras pessoas e consigo mesmo. É como Neo, que a partir do momento em que entende verdadeiramente quem é, deixa de ser iludido pela Matrix e percebe que, em vez de ser manipulado, pode fazer o que bem quiser.

Nosso objetivo é o mesmo de Neo: tornarmo-nos os grandes heróis de nossas próprias vidas. Devemos descobrir quem somos e o que devemos fazer – isso é o processo de autorrealização. E ele é como as melhores aventuras do cinema: tem um enredo criativo e cheio de reviravoltas, um herói cativante, inimigos terríveis, perigos e armadilhas por todo lado, suspense de arrepiar, romances… E o que é mais incrível: é real. Não está acontecendo na tela, mas em nossas próprias vidas!

Mas antes é preciso despertar. Abrir a porta que dá para o mundo interior. Seguir o coelho branco.

Bem, acho que basta de treinamento. Já estamos prontos para monitorar nosso herói. Então vamos lá. As luzes já foram apagadas. Desligue o celular e se acomode na poltrona. O filme vai começar.

(continua)

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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CONTEÚDO INTEGRAL DO LIVRO

Cap. 1 – Cinema, mito e psicologia
Cap. 2 – Toc, toc, toc… Acorde, Neo!
Cap. 3 – Não existe colher
Cap. 4 – Morrendo para vencer

Cap. 5 – Matrix Reloaded e Matrix Revolutions
Cap. 6 – Os personagens
Cap. 7 – Quadro comparativo

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Vinicius, embaixador da arte e do amor

23/08/2010

Ricardo Kelmer 2010

A promoção póstuma do nosso mais querido diplomata faz a sociedade brasileira se livrar de um peso moral que carregava havia quatro décadas

Em 1969 o diplomata Vinicius de Moraes foi forçosamente aposentado, após 26 anos de serviços prestados no Brasil, Los Angeles, Paris, Roma e Montevidéu. A decisão do Itamaraty se deu no contexto do Ato Institucional no. 5, o famigerado AI-5, que a ditadura militar decretou pra conceder poderes extraordinários ao Presidente da República e suspender garantias constitucionais dos cidadãos. A alegação oficial era de que o comportamento boêmio de Vinicius não condizia com a carreira pública.

Na verdade a boemia foi apenas o pretexto. O que era realmente insuportável pra mentalidade ditatorial era ter, em seu quadro diplomático, um poeta da paz e do amor, artista de sucesso, homem popular e amado pelo povo. Vinicius não criticava abertamente a ditadura militar mas a paz, o amor, a liberdade e a alegria que exalavam de sua arte e de sua vida simplesmente não cheiravam bem aos militares.

Evidente que Vinicius ficou muito chateado pela exoneração, ainda mais com a justificativa que teria sido dada pelo governo do marechal Costa e Silva: “Precisamos limpar o serviço público desses bêbados, corruptos e homossexuais.” Mas ele não perdeu o bom humor. Conta-se que, ao reencontrar os amigos, Vinicius apareceu com uma garrafa de uísque debaixo do braço e foi logo dizendo: “Eu sou o bêbado, viu?”.

Autoexilar-se na Europa e juntar-se aos amigos que viviam lá – Vinicius até pensou nisso mas preferiu ficar no Brasil e continuar fazendo resistência política a seu modo, com sua arte e sua mensagem de amor e paz. Se oficialmente não era mais diplomata, na prática ele seguiu representando e divulgando a cultura brasileira pra velhas e novas gerações, no Brasil e no exterior, como nenhum diplomata jamais fez. Até que em 1980 ele deitou em sua banheira amiga e deixou-se morrer, vítima de um edema pulmonar. Ele se foi mas nos legou a herança de sua arte imortal e seu inspirador exemplo de vida.

Corta a cena pra 41 anos depois. Estamos agora em 16 de agosto de 2010. Nesse dia, em Brasília, numa cerimônia que conta com a presença de amigos e parentes de Vinicius, o presidente Lula assina sua promoção póstuma ao cargo máximo de embaixador, respondendo ao movimento popular que se articulara em pró da reabilitação e promoção de Vinicius. A imprensa de vários países noticiou o fato e certamente muitas garrafas de uísque pelo mundo foram abertas pra festejar a reparação histórica. Embora a exoneração tenha sido obra exclusiva de uns militares covardes e mal-amados, a promoção póstuma do nosso mais querido diplomata faz a sociedade brasileira se livrar de um peso moral que carregava havia quatro décadas.

E eu, que comecei a amar Vinicius em minha adolescência, ainda estou aqui vibrando e brindando de contentamento. Mais que poeta preferido, Vinicius de Moraes é um guia que ilumina meu caminho com seu radiante exemplo de vida. E foi pra homenageá-lo que criei, em 2009, o espetáculo Viniciarte – Vida, música e poesia de Vinicius de Moraes. Levar às pessoas a vida e a obra de Vinicius, com humor e emoção, é pra mim um grande prazer. Mas também é a melhor maneira que eu poderia encontrar de dizer:

– Obrigado, poeta. Parabéns, embaixador.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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LEIA MAIS

> Viver como Vinicius viveu – Viver outra vez aquele frio na barriga que antecede cada subida ao palco, recitar seus poemas por aí e mostrar a grandeza do Vinicius homem e artista – putz, tem sido tão gratificante fazer isso!

> Vinicius, embaixador da arte e do amor – A promoção póstuma do nosso mais querido diplomata faz a sociedade brasileira se livrar de um peso moral que carregava havia quatro décadas

> O poeta embaixador (direitoshumanos.etc.br, 16.08.10)

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VINICIARTE

Agenda de apresentações

– Vídeo com trechos do espetáculo

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01- A crônica é maravilhosa. Vinícius deixa tudo mais apaixonado… Trazer o VINICIARTE pra Fortaleza seria uma ótima! Aline Alcoeres, Fortaleza-CE – ago2010

02- Adorei o texto. Bj. Raquel Brasil, Fortaleza-CE – ago2010

03- Adorei a cronica e repassei. Beijocas kelmericas. Ana Lucia Castelo, Newark – EUA – ago2010

04- Adorei a crônica! Mônica Burkle Ward, Receife-PE – ago2010


O Kelmer endoidou e seus livros liberou

17/08/2010

Ricardo Kelmer 2010

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Liberei mesmo. Decidi disponibilizar todos os meus livros, gratuitamente, em meu blog e também em arquivo PDF.

NO BLOG DO KELMER – blogdokelmer.wordpress.com/livros
Os livros poderão ser lidos por qualquer pessoa, sem necessidade de senha.

NO FORMATO PDF
O arquivo será enviado gratuitamente aos Leitores Vips, que poderão imprimir ou ler na tela do computador. O primeiro é o Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino, que foi enviado esta semana. Os outros livros serão enviados até dez2010. Se você é Leitor Vip e não recebeu nenhum livro, solicite pelo rkelmer(arroba)gmail.com.

SORTEIO
Sortearei exemplares da obra entre os leitores que enviarem comentários sobre os livros que receberam.

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Não afasto a hipótese de voltar a publicar por editoras, e isso pode ocorrer em breve. Mas considero a internet uma aliada cada vez mais indispensável em meu trabalho.

Obrigado. Ser lido por você é uma honra pra mim. 🙂

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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01- Amo este livro!!! Amoooooooo- talvez pq ele seja um espelho fidedigno da alma feminina, escrito, magistralmente, por um elemento do sexo masculino. É a constatação de que temos, pelo menos, duas almas. Então, vc abre o livro e vai se encontrando nas outras almas(além das duas) e como um reflexo, se achando nos mais diversos personagens. Depois, já no finzinho, desejando que o livro não acabe… Mas isso é um outro segredo. 😉 – recomendadíssimo!!! ” Lucia Gonczy, São Paulo-SP – ago2010

02- Olá Kelmer. É sempre um prazer ler suas obras, tá… que fiquei um tempo sem ler quase nada, mas voltarei. Ainda mais que tenho em PDF ;D Bjão e muuuiiita sorte, sempre! Kelly Cristina, Fortaleza-CE – ago2010

03- “O Kelmer endoidou e seus livros liberou…será q vc inspirou-se naquele saudoso comercial televisivo, que falava: O gerente endoidou e o preço baixou…rsrs. de que loja era mesmo? Xepinha, era? kkkkkkkkkk.” Magah Costa, Thun-Suíça – ago2010

04- Nossa, você é bom mesmo, heim? Ia ler o primeiro conto para dar pprosseguimento depois, mas ainda não consegui parar…:-) Abraços. Tânia Contreiras, Salvador-BA – ago2010

05 Gostaria de lhe parabenizar pela grandiozidade dos textos que compõe o leu livro “Vocês Terráqueas”. Mas, em particular, gostaria de lhe parabenizar pela crônica “Medo de Mulher”. Poucos homens seriam tão capazes de reconhecer esse medo de forma tão explícita. Menos ainda seriam capazes de assumi-lo publicamente editando em um livro. Isso mostra, no mínimo, a segurança que você tem quanto a sua masculinidade, não tendo medo de expor o que pra muitos seria um “fraqueza”. Mostra também a cumplicidade que você tem com nós mulheres, nos orientando e esclarecendo os motivos pelos quais muitos homem não desceram da árvore. Talvez os “ETs” tenham maior domínio desse medo e por isso as mulheres brasileiras se deixam abduzir. Parabéns: pelo grande escritor, pelo grande homem e pela grande pessoa que você é. Maria do Carmo, São Paulo-SP – ago2010


As Terráqueas na Bienal de SP

13/08/2010

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Poizé. Minhas adoráveis e dadivosas terráqueas darão o ar da graça na 21a Bienal do Livro de São Paulo. Farei uma sessão de autógrafos do livro na 2a feira 16go, de 18 a 22h. O local é o estande do Espaço Cultural Alberico Rodrigues (estande 41, rua O). Obrigado, Alberix!

TRANSPORTE: Tem ônibus grátis saindo do Terminal Tietê pro Anhembi.

SAIBA MAIS SOBRE O LIVRO

16ago – seg, 18 a 22h – São Paulo-SP
Vocês Terráqueas – Noite de autógrafos
Bienal do Livro – Estande do Espaço Cultural Alberico Rodrigues
Estande 41, rua O

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01- muito boa haha! Jéssica Nayanne, Fortaleza-CE – ago2010

02- Essa foto é muito você!!!! kkkkkkkk. E você com cara e asa de anjinho. Lindo!!!! Vânia Cavalcante, Fortaleza-CE – ago2010


Guia do Escritor Independente cap 4

10/08/2010

GuiaDoEscritorIndependenteAmazon-05a
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Guia do Escritor Independente
Como publicar livros e gerenciar a carreira literária

(Dicas, Miragem Editorial/2007)

As mudanças na sociedade e as novas tecnologias possibilitam cada vez mais aos escritores a possibilidade de desenvolver suas carreiras sem necessariamente estarem ligados a alguma editora. Hoje é possível publicar, divulgar e vender os próprios livros usando-se a internet e outros meios alternativos, baratos e eficientes.

Com sua experiência no mercado editorial oficial e alternativo, o autor resume neste livro as ideias que divulga em suas palestras e oficinas, mostrando que os novos autores podem gerenciar a própria carreira, publicando e vendendo seus livros, conquistando seu público e realizando, assim, o velho sonho de ser escritor.

OBS: Esta obra é constantemente atualizada devido às rápidas mudanças trazidas pela tecnologia.

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Cap 4

OS 8 MANDAMENTOS DO OFÍCIO DE ESCRITOR

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1- Escreva, escreva

Para escrever bem, só há um caminho: escrever. Escreva muito, todos os dias, escreva sempre. Fique exausto de tanto escrever. Somente escrevendo bastante você conseguirá errar bastante, e somente errando muito é que você se aperfeiçoará, eliminando os pontos falhos. Escreva o que sentir vontade: crônica, artigo, conto, romance, poesia de guardanapo, pensamento de agenda. Somente escrevendo, seja lá o que for, você reconhecerá suas potencialidades e seu texto seguirá o caminho que lhe é destinado.

2- Missão ou maldição

Não se importe se um dia será ou não reconhecido, se será famoso ou se ganhará dinheiro ou não com suas letras. Não espere sequer elogios ou recompensas. Alimentar expectativas é meio passo para engordar desde logo uma futura frustração profissional. Simplesmente não espere nada. Quem escreve, escreve porque gosta. Ou porque sente necessidade – é algo orgânico e ao mesmo tempo espiritual. Alguns dizem que é missão e outros, maldição. Há escritores que dizem ser algo absolutamente inútil. Não importa o que significa. O que importa é que se você esperar algo dessa dama chamada Literatura, vai se dar mal. Ela é linda e encantadora… mas gosta de prometer o que não pode cumprir. Viva bons momentos, goze muito com ela, briguem bastante. Mas jamais espere que dona Literatura lhe sirva café na cama. Pagar seu aluguel, então…

3- Ler

Para qualquer leitor, a leitura é um poderoso ativador da imaginação. Para o escritor, porém, ela o enriquece em muitos aspectos. Um texto, qualquer que seja, pode conter coisas muito interessantes, pode detonar uma bomba de novas ideias. Lendo, o escritor conhece outros estilos, outras formas de se contar uma história e sente em qual água deve beber. Mesmo quando não agrada, a leitura pode descortinar amplos horizontes de possibilidades literárias. Matéria de jornal, bula de remédio, rabiscos de porta de banheiro – em qualquer texto pode se esconder um tesouro.

4- Arte da alma

A alma individual faz parte da alma coletiva. Assim, quanto mais fundo o artista expressa sua própria alma, mais fundo expressará a alma da humanidade. O artista que, por meio do autoconhecimento psicológico, se torna íntimo de si mesmo, saberá não apenas expressar a sua alma e a da humanidade, como também se tornará uma pessoa equilibrada e harmonizada consigo mesmo e com a vida. O autoconhecimento psicológico não faz necessariamente um grande escritor, é verdade, assim como não é função da arte torná-lo uma pessoa melhor, mas o autoconhecer-se traz uma imensa vantagem: ele jamais deixará que o escritor se perca nos caminhos e descaminhos de sua alma. Nem de sua arte.

 5- Regras, leis e prisão

A arte é para libertar. Então, estude gramática e aprenda as regras da língua. Consulte dicionários e manuais de estilo e redação. Nesse ponto, escritores e advogados se parecem: eles estudam as leis exatamente para se desviar delas. O conhecimento teórico lhe facilitará a criação de um estilo próprio, que surgirá aos poucos com a prática e se imporá dentro de sua arte, libertando-a cada vez mais. Quem sabe onde estão as grades, só caminha para a prisão se quiser.

6- Mostre

O melhor escritor do mundo jamais será o melhor escritor do mundo se ninguém o conhecer. Então perca a vergonha e sempre mostre o que você escreve, pois o retorno dos leitores o ajudará a definir seu caminho. Se terão saco de ler, isso é outra coisa, mas você precisa mostrar que escreve e o que escreve. Nunca espere nada, mas uma ou outra pessoa dirá exatamente aquilo que você precisa escutar. As críticas negativas são as melhores: elas têm o poder de lhe fazer ver aquilo que de outra forma jamais veria. Crie um blog, distribua seus textos por e-mail, imprima livretinhos para presentear nos aniversários, enfim, estabeleça algum tipo de rotina profissional e de estratégias de divulgação para que você se mantenha sempre comprometido com seu próprio sonho. Se você for um mau escritor, seguirá escrevendo porque gosta e não porque isso lhe dá fama ou dinheiro. Mas se for um bom escritor, então, de tanto insistir, o mundo poderá lhe abrir as portas.

7- Vergonha e aperfeiçoamento

O aperfeiçoamento nos faz melhores, sim, mas, por outro lado, sempre traz o desconforto de nos revelar o quanto éramos ruins. Só quem não se envergonha do que fez antes é aquele que não melhora. Se esse incômodo não acontece para o escritor, é sinal que ele não está mudando. E só melhora quem arrisca se transformar. Mas não se arrependa do que fez: você só melhorou sua escrita porque um dia percebeu que ela não era boa. Parabéns!

8- Sacrifício

A última das dicas é um grande ponto de interrogação que jogo em seu colo. Que tipo de sacrifício você está disposto a fazer em nome desse sonho de ser escritor? Pense nisso. Você aceitaria passar anos e anos levando uma vida difícil, de solidão e privações materiais, sem nenhuma garantia que um dia será descoberto pelo mercado e ganhará dinheiro com sua arte? Pense nisso com calma. Você aceitaria abdicar de ter uma família, filhos, e ter que ir morar longe, sozinho, sem amigos, tudo isso para poder dedicar a sua energia a esse sonho? Pense nisso com honestidade. Se uma bola de cristal lhe mostrasse que, após uma vida inteira dedicada a escrever, você vai morrer sem ter conseguido que nenhuma editora se interessasse por seu trabalho, ainda assim você continuaria sendo escritor? Se existe um segredo nessa história toda, é este: o sacrifício que você está disposto a empreender para ser escritor tem o mesmo tamanho das suas possibilidades de sucesso. E só você sabe a resposta.

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.com

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GuiaDoEscritorIndependenteAmazon-05aLEIA O LIVRO NA ÍNTEGRA

Cap 1:  Circuito oficial
Cap 2:  Circuito alternativo
Cap 3:  Autogerenciamento
Cap 4:  Os oito mandamentos do ofício de escritor

> ou compre aqui

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Guia do Escritor Independente cap 3

10/08/2010

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Guia do Escritor Independente
Como publicar livros e gerenciar a carreira literária

(Dicas, Miragem Editorial/2007)

As mudanças na sociedade e as novas tecnologias possibilitam cada vez mais aos escritores a possibilidade de desenvolver suas carreiras sem necessariamente estarem ligados a alguma editora. Hoje é possível publicar, divulgar e vender os próprios livros usando-se a internet e outros meios alternativos, baratos e eficientes.

Com sua experiência no mercado editorial oficial e alternativo, o autor resume neste livro as ideias que divulga em suas palestras e oficinas, mostrando que os novos autores podem gerenciar a própria carreira, publicando e vendendo seus livros, conquistando seu público e realizando, assim, o velho sonho de ser escritor.

OBS: Esta obra é constantemente atualizada devido às rápidas mudanças trazidas pela tecnologia.

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Cap 3

AUTOGERENCIAMENTO

Este trabalho visa incentivar autores independentes a publicar seus livros, mas também a aprender a gerenciar a própria carreira. Sem esse autogerenciamento, a coisa é ainda mais difícil.

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o que é ser independente?

Pode-se dizer, de modo geral, que um escritor é independente se ele tem seu trabalho desvinculado das editoras tradicionais. Entretanto, ainda que possua livros publicados por editoras, o escritor pode adotar uma posição relativamente independente. Por exemplo, ele pode manter certos trabalhos fora do mercado oficial, publicando e vendendo seus livros no circuito alternativo. E por que faria isso? Talvez porque nenhuma editora tenha se interessado por esses trabalhos e ele não os deixaria no fundo da gaveta. Ou talvez porque deseja ter total controle sobre algum trabalho, o que não acontece quando se publica por editoras.

Um autor independente ou semi-independente pode vender seus livros mais barato por um site próprio, criar promoções e fazer sorteios e estabelecer algum tipo de contato direto com seus leitores. Isso é mais complicado no caso de escritores famosos, claro, mas mesmo para esses é possível manter certa postura independente.

Nem todo escritor, porém, gosta dessa ideia de independência, circuito alternativo e coisa e tal. Alguns querem apenas escrever seus livros, receber seus direitos autorais e o resto não lhe interessa. Mas há escritores, assim como certos artistas, que se sentem comprometidos com sua independência e com certos conceitos ligados ao mundo alternativo que falam de liberdade e democratização da informação. Para esses escritores, não basta vender seus livros: eles querem que os livros sejam mais acessíveis, que mais pessoas gostem de ler, que um dia ler seja entendido como necessidade básica. Muitos escritores e artistas famosos até desejam tudo isso, é verdade – mas não tomam qualquer atitude, o que é uma pena.

o escritor independente ideal

Se existe um escritor independente ideal, eu o imagino assim:

Tem bom conhecimento da língua e sabe se expressar através de variadas formas de linguagem como textos formais e informais, curtos e longos etc.

Conhece as leis do mercado editorial oficial e alternativo, mantém-se informado sobre muitos assuntos, é organizado, disciplinado, perseverante e ama o que faz.

Encara a tecnologia como aliada e sabe usar a internet e os programas de computador necessários à produção, divulgação e venda de seus livros.

Está atualizado quanto às políticas culturais, tem um bom senso de classe, conhece as pessoas certas nos lugares certos que podem ajudá-lo e sabe se relacionar;

Consegue manter-se em seu caminho de escritor e obtém bom retorno de seu trabalho.

Caramba, essa pessoa existe mesmo?! Bem, como falei no início, esse seria o perfil do profissional ideal. Talvez você não reúna todas essas qualidades, mas pode reunir boa parte delas com o tempo e a prática.

você é um(a) escritor(a)?

Não se iluda: ser escritor é para pouquíssimos. Tem muitos autores de livros por aí, poetas de botequins, gente que comete suas crônicas e até publica em jornal. Mas ser escritor é mais que isso.

Na vida de um verdadeiro escritor, a literatura é mais que sua companheira de viagem pela vida: ela é a própria viagem. É por ela e é nela que ele se move. O amor pela palavra escrita ilumina seus dias e suas noites e dá sentido à existência. Por esse amor o escritor será capaz de imensos sacrifícios, inclusive abdicar de todos os outros amores. Ele é absolutamente comprometido com essa relação. O verdadeiro escritor sabe que não tem outra opção na vida.

Se você está mesmo disposto a seguir esse difícil caminho, terá antes de tudo que desenvolver uma personalidade de escritor independente, ou seja, adquirir a força, a sagacidade e a flexibilidade de um lutador e temperar tudo isso com humildade, paciência, confiança na vida e a capacidade de recomeçar sempre que for necessário. E, além de tudo isso, terá de manter sempre viva a chama de encantamento, aquele mesmo encantamento que lhe tomou conta quando viu um livro pela primeira vez ou quando soube que precisava escrever senão morreria frustrado.

É muito difícil ser escritor independente. É preciso ser capaz de fazer outras coisas além de escrever bem: você poderá ter de ser seu próprio secretário, ilustrador, diagramador, marqueteiro, divulgador e vendedor. Escritores ricos e famosos podem pagar por esses serviços, mas você não pode.

E aí, você acha que consegue?

a força para prosseguir

Acho que agora é útil dizer algo que aprendi a duras penas, mas que me permitiu chegar ao ponto onde estou, mantendo-me até hoje como escritor independente. Estou falando de autoconhecimento.

Assumi esse comprometimento total com minha arte aos 30 anos. Cedo ou tarde, foi no momento que precisava ser. Porém, o importante é que, uma vez que entendi verdadeiramente que ser escritor era o meu destino, precisei de muita força para não abandonar o caminho. E de onde tirei essa força?

Alguns tiram sua força da religião, família ou pessoa amada. E há os que tiram de si mesmo, como eu. Na época em que assumi a sina, me interessei por psicologia junguiana e foram as ideias de Jung sobre autorrealização (que ele chama de individuação) que me forneceram a luz que iluminou meu caminho nos momentos de maior escuridão e incerteza. A psicologia junguiana me fez entender que se eu me conhecesse profundamente, saberia usar toda a força que há em mim para realizar a essência do que sou.

O processo de autoconhecimento não é fácil, pois exige muita coragem, honestidade consigo mesmo e total confiança no próprio processo. O autoconhecimento nos força a atravessar nossos infernos pessoais, mas as recompensas são grandiosas.

Graças ao conhecimento de mim mesmo adquiri o equilíbrio e a clareza de visão necessários para não me perder. Uma das coisas mais importantes que o autoconhecimento me deu, na verdade ele tirou: a autoimportância. Precisei me livrar de muitos pesos inúteis para prosseguir na jornada e um desses pesos era o excesso de importância que eu mesmo me dava. Para um escritor independente, é melhor se livrar cedo de certas vaidades. Quanto antes você compreender que não é a arte que tem de servi-lo, mas é você quem tem de servir à sua arte, menos você sofrerá.

GuiaDoEscritorIndependenteAmazon-05acomputador e programas

Em pleno século 21 ainda tem escritor que usa máquina de escrever ou que escreve apenas com caneta. Questão de preferência, claro. Mas se você deseja ter menos trabalho, ser mais organizado, gastar menos tempo, economizar e se preparar desde cedo para gerenciar sua própria carreira de escritor, ou seja, se você quer se aproximar ao máximo daquele perfil ideal de escritor independente, dê um jeito de possuir um computador pessoal. Ou, pelo menos, tenha um à sua disposição.

Antes de entregar seu livro à gráfica, o autor independente precisa digitá-lo, criar uma capa, inserir imagens. Uma opção é contratar os serviços de profissionais. Porém, se o autor souber usar os programas certos, ele mesmo poderá fazer tudo isso e economizar, reduzindo assim os custos de produção de seu livro.

Há editores de texto específicos para escrever livros, mas começar com o velho Word já está de bom tamanho. Para criar capas um bom programa é o Corel Draw. Para editar imagens há o Photoshop. Esses são programas bem conhecidos, mas há outros que podem substituí-los. Dominando-os, você poderá montar seus livros no computador, desde o miolo à capa, incluindo imagens. Poderá também criar cartazes, panfletos, convites de lançamento e projetos de patrocínio.

Não esqueça da revisão textual. Alguém, que não seja você, deve revisar todo o texto, de preferência um profissional. Por melhor que você escreva, não caia na besteira de pular essa parte.

contatos

Conhecer pessoas na imprensa é fundamental. Descubra quem são essas pessoas em sua cidade, faça amizades. Se conhecem você e seu trabalho, isso facilita a divulgação. Mas seja sensato, viu? Nunca force a barra, pedindo que leiam o que escreveu, e muito menos encha o saco para publicarem aquela sua crônica linda. A falta de simancol fecha portas rapidinho.

O circuito alternativo também oferece boas oportunidades de publicação. Publique textos em jornais de bairro, revistinhas alternativas e qualquer tipo de publicação que aparecer. Aos poucos, você chamará a atenção para seu trabalho e, se ele tiver qualidade, você passará a ser convidado a publicar.

No circuito alternativo nem pense em exigir pagamento por seus primeiros textos publicados. No início, o escritor é um desconhecido como muitos outros, todos buscando um espaço para mostrar seu valor, e nesse momento o mais importante é mostrar o trabalho, além de que publicações alternativas dificilmente dispõem de recursos para remunerar autores, sem falar que provavelmente durarão pouco tempo.

gráficas tradicionais

Existe também a opção de encomendar a edição de seu livro às gráficas tradicionais, que além de geralmente imprimirem com alta qualidade, também fazem um bom acabamento no livro (corte, montagem, laminação e refilamento). No entanto, para obter um preço razoável, que viabilize um bom preço final de venda, geralmente os autores precisam encomendar muitos exemplares (500 a 1.000), o que obriga o autor a investir uma alta quantia. Se há uma garantia de retorno desse investimento, de preferência rápido, ótimo. Mas, infelizmente, a grande maioria dos autores não tem como vender tanto livro. Até pouco tempo atrás, esta era a única opção em termos de gráfica.

gráficas rápidas

Então, a tecnologia fez surgir as máquinas fotocopiadoras. E algumas lojas, recentemente, passaram a oferecer serviços de edição de livros. Algumas se especializaram, tornando-se concorrentes das gráficas tradicionais. A qualidade de impressão e acabamento da maioria é mais baixa que as das tradicionais, mas há uma grande vantagem: o autor pode encomendar pequenas tiragens, investindo bem menos. Outra vantagem: o autor pode fazer alterações em seu livro a cada nova edição, revisando o texto, consertando falhas de diagramação ou incluindo um novo patrocinador. Numa alta tiragem ele também pode mas, nesse caso, terá que esperar vender todos os exemplares da edição.

Uma boa opção é imprimir o livro (miolo e capa) numa copiadora e fazer o acabamento numa gráfica tradicional. Esse acabamento inclui o corte e a montagem das folhas, a colagem, a laminação (película plástica que reveste a capa) e o refilamento (corte final). Outra opção é imprimir miolo na gráfica rápida (e reimprimir à medida que necessitar) e imprimir capa e fazer o acabamento numa gráfica tradicional (guardando as capas para usar à medida que reimprimir o miolo).

parcerias, apoios e patrocínios

Vamos primeiro nos entender sobre os termos que utilizarei. Patrocínio envolve dinheiro em troca de publicidade no livro. Apoio não envolve dinheiro, mas algum produto ou serviço em troca de publicidade no livro. E parceria é uma troca de interesses, e pode ou não envolver publicidade no livro.

PATROCINADOR – O patrocinador paga um valor em troca de publicidade no livro (na última capa e/ou no miolo) e nas peças de divulgação. Dividir o valor total que se necessita em várias cotas também funciona.

DICA: Estabeleça valores baixos, para fechar suas cotas mais facilmente. Lembre-se sempre que muitos aceitam patrocinar mais por vontade de ajudar do que por esperar um bom retorno de publicidade. Então, facilite.

APOIO – Às vezes o autor não consegue dinheiro, mas consegue algum tipo de apoio, como produtos ou serviços. Se eles depois puderem ser transformados em dinheiro, ótimo. Se ajudarem ao menos a diminuir os custos de produção do livro ou do evento de lançamento, muito bom. Se for algo que não está diretamente ligado ao livro mas que o autor necessita (crédito numa loja ou num restaurante), também pode ser bom. Talvez a própria copiadora ou gráfica aceite diminuir o preço de seus serviços em troca de publicidade no livro e na divulgação.

PARCERIAS – São feitas de várias formas. Ao autor, a parceria oferece alguma vantagem em termos de venda ou divulgação. Exemplo: o autor pode dar (ou vender com desconto) alguns exemplares de seu livro para um bar ou uma loja, que fará sorteios semanais entre os clientes. O estabelecimento ganha porque oferece algo interessante à clientela e o autor ganha com a divulgação de sua obra a um custo baixo.

financiamento coletivo

Uma forma de viabilizar a publicação de seu livro é usar os sistemas de financiamento coletivo, também conhecidos por crowdfunding. Há vários sites em que você pode apresentar seu projeto e receber doações e vender antecipadamente seu livro. Você também pode fazer isso por conta própria, criando uma promoção de pré-lançamento onde seus leitores adquirem antecipadamente seu livro e, em troca, ganham desconto no preço, têm seus nomes registrados na página de agradecimento e participam de sorteios de serviços e produtos que você pode conseguir com apoiadores.

alternativas de venda e distribuição

Após esbarrar nas tenebrosas dificuldades relativas a distribuição e venda, a maioria dos autores iniciantes desanima e desiste. Resultado: muitos exemplares encalhados, que mofarão no canto do armário ou servirão para presentear os amigos durante séculos. Para que isso não aconteça com você, é preciso encontrar alternativas além da tradicional venda em livrarias.

Há autores que também são professores e têm em seus alunos um bom público comprador, que se renova a cada ano letivo. Há autores que fazem palestras e cursos e vendem seus livros nesses eventos.

Outra forma de vender livros é participar de eventos ligados ao tema de sua obra como feiras culturais, gastronômicas, esportivas etc. Há empresas distribuidoras que poderão se interessar em distribuir seu livro em livrarias e eventos culturais, ganhando um percentual na venda. E há também a internet, onde você pode encontrar sites que vendem livros independentes, nos formatos impresso e eletrônico.

GuiaDoEscritorIndependenteAmazon-05apreço

O preço de seu livro deve estar dentro dos preços praticados pelo mercado. Há autores que, por considerar que seu livro requereu muito tempo de pesquisa e trabalho, estipulam um preço acima da média. É o ponto de vista do autor, claro. Mas é preciso considerar alguns fatores importantes.

Já foi dito aqui, mas não custa reforçar: o primeiro livro de um autor é um marco em sua carreira. Equivale ao lançamento de um novo produto de uma empresa. O que as empresas fazem nessas ocasiões? Elas estabelecem estratégias especiais de divulgação e venda porque sabem que precisam muito entrar no mercado daquele produto, chamar rapidamente a atenção do consumidor e fazer com que as pessoas experimentem seu produto.

O mesmo vale para o autor. O mais importante agora é que seu livro seja lido. Ele precisa ganhar dinheiro, claro, mas se o preço do livro estiver acima da média, ele perderá leitores em potencial. Portanto, nada de querer ganhar muito agora. Melhor vender muitos livros com lucro menor que ganhar mais mas vender poucos.

Faça uma pesquisa nas livrarias e veja o preço de livros do mesmo gênero que o seu e compare a qualidade do material e a quantidade de páginas para se certificar de que seu livro terá preço inferior aos livros das editoras. Faça isso, pois além da sua necessidade de ser lido, há o fato de que as pessoas tendem a desvalorizar autores locais e muitas compararão seu livro aos livros que elas veem nas livrarias, capas lindas, acabamento impecável, autores famosos… Então não lhes dê mais um motivo para não querer comprar seu livro.

Ah, e tem sempre aquele chato que acha que você deve dar um exemplar para ele. O argumento costuma ser o mesmo: vou fazer propaganda, conheço muita gente… Não dê, ofereça um desconto. É provável que não adiante, pois o chato quer porque quer o livro de graça e não entenderá que esse é o seu trabalho. Uma pessoa assim, por mais que diga o contrário, na verdade está desvalorizando seu trabalho. Há uma frase que geralmente é usada por artistas nessas ocasiões: Não me peça para dar a única coisa que eu tenho para vender. Às vezes funciona, mas chato que é chato nunca se manca.

Bem, há casos e casos, claro, mas com o tempo você aprenderá a detectar quem realmente valoriza seu livro.

outros trabalhos

Escrever dificilmente vai lhe dar dinheiro suficiente para ficar apenas escrevendo, principalmente no início. Então, se você não herdou uma boa grana ou possui outros recursos, a saída é arrumar um trabalho ou uns bicos, o que seja, para poder manter-se escrevendo, na esperança de que um dia seu ofício seja autossustentável.

Há escritores que só se tornaram escritores após certa idade, quando já ganharam dinheiro suficiente e puderam dedicar-se mais ao ofício. Há os que param de trabalhar e se dão um tempo para escrever um livro. E há aqueles que não conseguiriam abandonar sua arte, mesmo que apenas por alguns anos, e preferem enfrentar todas as dificuldades que surgirem.

A decisão é sua. Mas se decidir pela terceira opção, saiba que será preciso muita criatividade, perspicácia e jogo de cintura para manter-se escrevendo.

alternativas de trabalho

É relativamente comum que escritores assumam um estilo de vida simples, quase franciscano, com o objetivo de diminuir ao mínimo possível seu custo de sobrevivência. Então, largam mão de viagens e prazeres, deixam de sair à noite e até mesmo de comprar livros. Muitos abdicam de ter uma família, pois sabem que a obrigação de sustentá-la poderá afastá-los de seu sagrado ofício.

O ideal seria conseguir algum trabalho ligado ao trabalho de escritor. Eis algumas opções:

PROFESSOR PARTICULAR – Aqui, evidentemente, você precisará dominar bem alguma disciplina e ter vocação para ensinar.

REDATOR OU DIGITADOR – Redatores são criadores de textos que geralmente trabalham para agências de propaganda, veículos de comunicação ou instituições de ensino. Digitadores transcrevem textos para o computador ou organizam dados em planilhas para empresas.

REVISOR DE TEXTO – Não apenas estudantes, mas muitas pessoas em vários segmentos precisam produzir textos e nem sempre escrevem bem. Para essas pessoas, o serviço que prestam os revisores de texto é providencial. Vantagem: trabalhar em casa.

COLUNISTA – Manter uma coluna em jornal, revista ou site é ótimo, pois ao mesmo tempo que o escritor pratica seu ofício, também divulga seu trabalho. Às vezes a remuneração é direta, mas é comum que o colunista tenha liberdade de negociar a publicidade de seu espaço e, assim, ganhe por seu trabalho de modo indireto.

PALESTRANTE – O escritor pode se especializar em falar sobre algum assunto, não necessariamente sobre literatura, e vender palestras e cursos a colégios, faculdades, empresas, espaços culturais etc. Vantagem: poder vender livros nesses eventos.

EDITOR – É cada vez mais comum escritores se tornarem editores de publicações como zines, revistas, jornais e sites. Para isso, você precisará ter conhecimentos técnicos e de mercado, além de conhecer profissionais como outros autores, jornalistas, ilustradores etc. Se há venda de publicidade, você precisará de bons vendedores ou você mesmo assumir a função, coisa que geralmente escritores não sabem fazer bem.

ROTEIRISTA – Um roteirista escreve textos dirigidos para algum tipo de expressão artística ou veículo de comunicação. Há roteiristas de teatro, cinema, novelas, seriados, aulas na tevê etc. A linguagem dos roteiros é diferente da linguagem dita literária e às vezes envolve especificações técnicas ligadas às cenas, como posição de câmera, iluminação, direção de ator, inserção de imagens e outros detalhes. O mercado para roteiristas vem crescendo com as novas tecnologias voltadas para o entretenimento como tevê a cabo, internet e celular.

PRODUTOR CULTURAL – Esse termo envolve todas as atividades ligadas à produção de cultura, seja em forma de produtos como livros, CDs, peças de teatro ou eventos como festivais artísticos. Aqui é necessário ter muitos e bons relacionamentos, além de vocação para venda. É um ramo em expansão e algumas faculdades já oferecem cursos nessa área.

GuiaDoEscritorIndependenteAmazon-05alivretos

Uma boa estratégia de venda e divulgação é produzir livretos com textos seus que possam ser vendidos bem barato e que também sirvam para distribuir entre certas pessoas que você gostaria que conhecessem seu trabalho. Usarei o termo livreto para diferenciar dos livros propriamente ditos, que seriam os seus livros oficiais, com melhor acabamento, mais volumosos e mais caros.

Os livretos poderiam conter textos não utilizados nos seus livros ou você até poderia repeti-los, mas reunindo-os sob o mesmo gênero (contos, crônicas, poemas) ou sob o mesmo tema, por exemplo.

Monte um livreto simples, 48 páginas, tamanho bolso (1/4 de uma página de A4). Peça à gráfica uma capa em preto-e-branco e em papel cuchê numa espessura razoável, e solicite dois grampos na lombada para garantir que as folhas não se soltarão.

Fazendo tiragens de 30 ou 50 exemplares, o custo unitário fica mais baixo e o tamanho permite que você saia com alguns no bolso, estando preparado para a possibilidade de encontrar alguém a quem valha a pena dar ou vender um exemplar. Se você conseguir patrocínio ou apoio de alguma empresa, insira a publicidade na contracapa ou no miolo.

Você também poderá usar esses livretos como presente. Em vez de gastar dinheiro comprando outra coisa, você dá um livreto. Sai mais barato e ainda serve para divulgar seu trabalho.

DICA: Crie promoções. Por exemplo: se o leitor comprar dois livros seus, ele ganha um livreto de brinde. Ou ofereça aos leitores que lhe indicarem outros leitores ou potenciais apoios.

Como são mais baratos que seus livros oficiais, esses livretos são perfeitos para serem usados em certas promoções, onde você faz uma parceria com algum bar, loja ou espaço cultural.

Uma possibilidade interessante, não apenas nesses livretos de bolso mas também em qualquer livro independente, é que o autor pode oferecer uma edição especial, personalizada, para os patrocinadores. Estes, além de terem sua publicidade na obra, podem também escrever um texto de apresentação e inserir imagens. Dependendo da negociação, o autor pode até alterar o projeto gráfico original para que a edição fique mais a gosto do patrocinador.

publicando na internet

Antigamente, o escritor só podia publicar em livro ou em jornais e revistas. Hoje, está muito mais fácil, pois existe a internet. Comece então com um site ou um blog, há diversas opções gratuitas na rede, é só escolher. Há também sites onde você pode publicar textos gratuitamente. Publique na internet o que você escreve e só depois pense em publicar um livro impresso.

Publicar na internet traz várias vantagens:

Você aprende cedo a lidar com a internet, ferramenta indispensável aos escritores do século 21.

Você perde a vergonha de mostrar o que escreve e se acostuma a ver seu trabalho publicado.

Você tem um mostruário permanente, 24h, de seu trabalho.

Você começa a formar seu público leitor e aprende a se relacionar com ele, recebendo o retorno imediato do que escreve.

Você chama a atenção do mercado.

direitos autorais e internet

Não perca seu tempo se preocupando se vão copiar o que você publicou na internet e reproduzir por aí sem seus créditos ou se algum sabidinho vai usar seu texto e assinar como se fosse dele. Hoje, esses riscos são naturalmente inerentes ao trabalho de qualquer pessoa e não apenas de escritores, e nem por isso as pessoas deixam de expor seu trabalho na grande rede. Além disso, se for o caso, você poderá provar a data de publicação original de seu texto. E não esqueça que se alguém copiou ou assinou o que você escreveu, isso é um termômetro: seu texto tem algo de bom e atrai a atenção do público.

Se, por um lado há o risco de ter a obra ou a autoria dela adulterada, por outro lado há uma imensa vantagem em publicar na internet: se as pessoas gostarem de seu trabalho, elas próprias se encarregarão de espalhá-lo pela rede, distribuindo seus textos aos amigos. Essa valiosa publicidade não tem preço.

central do autor

Ter um blog ou um site pessoal é muito importante. Ele funcionará como uma central de produção do escritor, uma referência permanente de seu trabalho. Atualize-o constantemente e incentive os visitantes a se cadastrarem para receber novidades e participar de promoções.

É possível também vender seus livros através de seu blog ou site. Para isso, você precisa organizar uma seção com as capas e trechos dos livros, preço, procedimento de compra etc. O sistema de compra pode ser por depósito bancário (quanto mais opções de banco oferecer, melhor), cartão de crédito ou débito ou o serviço de remessa de valores dos Correios.

Os Correios oferecem uma tarifa especial para envio de livros com registro, e você e o comprador ainda podem monitorar o percurso do produto. Há também a opção do comprador pagar após receber o produto. Informe-se sobre todos os serviços e condições e você encontrará os que melhor lhe convêm.

Uma opção interessante de venda são os portais de venda, que servem de intermediário entre quem vende e quem compra, oferecendo, inclusive, seu sistema de venda por cartão de crédito em troca de uma pequena taxa.

Outra opção de venda pela internet são os sebos afiliados do Estante Virtual. Procure um sebo em sua cidade e acerte uma parceria onde eles venderão seu livro, mesmo sendo novo, para todo o país.

GuiaDoEscritorIndependenteAmazon-05aagenda

Monte a sua agenda de contatos num editor de textos como o Word. Ela será um instrumento imprescindível em sua vida profissional, algo que você terá de usar todo dia. Ela deve conter os nomes e os e-mails de amigos e leitores e, em alguns casos, telefones e endereços físicos. Caso deseje maior organização, será útil algum tipo de referência como, por exemplo, a data e o modo como o leitor chegou até você.

Divida a agenda em seções como Amigos, Leitores, Estado, Cidade etc. e mantenha a ordem alfabética. Essa organização será vital quando sua agenda tiver milhares de contatos e você precisar localizar determinado leitor ou por ocasião do lançamento do livro em determinada cidade e quiser enviar o convite apenas a quem mora lá.

DICA: Crie uma seção com apenas os endereços de e-mails (sem quaisquer outros dados), separados por ponto-e-vírgula. Isso facilitará quando você for copiá-los para inserir nos e-mails que enviará.

Há programas de gerenciamento de e-mails, como o Outlook Express, que também organizam os contatos. Porém, a vantagem de fazê-lo num arquivo de editor de texto como o Word é que você pode copiá-lo e levá-lo com você, para abrir em qualquer computador. Melhor que isso: você pode enviá-lo para seu próprio e-mail e assim ter todos os seus contatos sempre atualizados e disponíveis a qualquer hora que precisar, bastando acessar a internet.

Você pode enviar periodicamente por e-mail um texto a seus leitores, mantendo-os informados sobre sua produção. Pode também enviar convites de lançamento ou avisar sobre sua participação em eventos ou naquele programa de tevê. Esse contato periódico criará um vínculo entre autor e leitor que poderá prosseguir ao longo de toda a sua carreira. Tenha cuidado, porém, para não abusar. Um ou dois textos por mês é um número razoável. Mais que isso pode provocar o efeito inverso e seu leitor se cansará de você.

assinaturas e redes sociais

Uma boa maneira de se manter atualizado sobre o mercado literário é assinar os boletins de notícias que são enviados por e-mail, como o da Publishnews e o da Libre (Liga das Editoras Brasileiras).

Como a internet é muito dinâmica, com novidades a cada mês, você precisa ficar atento para captar com rapidez as novas possibilidades que se apresentam para divulgação e venda de seus livros. Um exemplo são as redes de relacionamentos como Orkut, Facebook, Twitter e Instagram. Além de fazer amigos, você pode também usá-las para divulgar seu trabalho, publicando textos em comunidades, realizando promoções e convidando as pessoas a conhecerem seu site. Em sua página você pode manter um resumo do novo livro ou comunicados diversos.

Cuidado ao publicar textos inteiros nas redes sociais. Em alguns casos talvez seja melhor publicar trechos com link para seu site, pois se você precisar revisar o texto, revisará apenas o original que está no site e não todas as cópias que publicou nas redes sociais.

DICA: Promova sorteios de seus livros em comunidades de pessoas que gostam de ler ou que sejam relacionadas ao tema de sua obra. Além de divulgar seu livro, você pode cadastrar os participantes em sua agenda.

livro digital

Aprenda a converter seus livros para o formato PDF ou similar e disponibilize-os para venda nas livrarias virtuais ou diretamente com você. Alguns autores preferem disponibilizar gratuitamente seus livros para que seu trabalho seja conhecido mais rapidamente.

Há livrarias e editoras que aceitam vender seu livro digital, ganhando um percentual em cada venda e sem exigir exclusividade. Pesquise e encontre a que melhor se adequa às suas necessidades.

descentralizando o mercado

Cada vez mais o conceito de independente ganha força no mercado artístico. Artistas independentes, gravadoras independentes, produtoras independentes – a cada dia vemos o mercado se descentralizar, fazendo com que os grandes grupos dividam o bolo com grupos menores. A internet veio acelerar esse processo, permitindo aos profissionais chamar a atenção para seu trabalho, manter contato permanente entre si e ajudarem-se uns aos outros.

Você também pode contribuir para descentralizar ainda mais o mercado. Tente se unir a outros profissionais e formar um grupo que tenha os mesmos interesses, trocando ideias e experimentando novas estratégias de atuação. Uma boa ideia é criar uma espécie de cooperativa de escritores para chamar a atenção do mercado, organizar eventos e negociar melhores preços com gráficas e profissionais como desenhistas, fotógrafos, diagramadores etc.

Nesse exato momento há outros escritores como você, todos buscando publicar livros e vendê-los. Unindo as forças, o caminho de todos pode ficar mais fácil.

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(continua no próximo capítulo)

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.com

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GuiaDoEscritorIndependenteAmazon-05aLEIA O LIVRO NA ÍNTEGRA

Cap 1:  Circuito oficial
Cap 2:  Circuito alternativo
Cap 3:  Autogerenciamento
Cap 4:  Os oito mandamentos do ofício de escritor

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Guia do Escritor Independente cap 2

10/08/2010

GuiaDoEscritorIndependenteAmazon-05a
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Guia do Escritor Independente
Como publicar livros e gerenciar a carreira literária

(Dicas, Miragem Editorial/2007)

As mudanças na sociedade e as novas tecnologias possibilitam cada vez mais aos escritores a possibilidade de desenvolver suas carreiras sem necessariamente estarem ligados a alguma editora. Hoje é possível publicar, divulgar e vender os próprios livros usando-se a internet e outros meios alternativos, baratos e eficientes.

Com sua experiência no mercado editorial oficial e alternativo, o autor resume neste livro as ideias que divulga em suas palestras e oficinas, mostrando que os novos autores podem gerenciar a própria carreira, publicando e vendendo seus livros, conquistando seu público e realizando, assim, o velho sonho de ser escritor.

OBS: Esta obra é constantemente atualizada devido às rápidas mudanças trazidas pela tecnologia.

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Cap 2

CIRCUITO ALTERNATIVO

Livros independentes

E se nenhuma editora se interessar por seu trabalho? Ficará tentando editora atrás de editora e envelhecerá e morrerá sem ver seus livros publicados? Claro que não. Há outras opções. Mas antes vamos falar sobre o que você pode aprender para depender menos de outros profissionais para produzir seus próprios livros.

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concursos

Uma tradicional opção para publicação de livros independentes são os concursos promovidos por secretarias de cultura, colégios, associações, clubes, centros culturais etc. Neles, os vencedores costumam ganhar a edição paga de seus livros. Mesmo que a qualidade desses livros não seja de empolgar, essa é uma opção bastante válida no início da carreira.

Se puder bancar os custos ou tiver um patrocinador, você pode também imprimir seu livro nas tais editoras por demanda ou em gráficas (tradicionais ou rápidas). Adiante, no capítulo sobre autogerenciamento da carreira, veremos estas opções.

lançamento

Tem gente que prefere lançar seu livro numa livraria ou num clube social. Tem gente que prefere um barzinho descolado ou até mesmo uma praça. O local não importa muito. O que interessa mesmo é que o lugar tenha a ver com o público leitor de seu livro e que não haja falhas na organização. Lembre-se de que talvez você não terá outra oportunidade tão boa para divulgar e vender seu livro.

Programe o evento com muita antecedência para que você, caso necessite, possa alterar algum detalhe. Esse tempo também é útil para que várias pessoas possam ler seu livro e comentar na imprensa e redes sociais.

O ideal é que você consiga matérias e dê entrevistas. Se puder pagar por uma assessoria de comunicação, ótimo, senão você mesmo terá de ligar para muita gente, divulgar  pela internet e agendar entrevistas. Tente sempre citar seus patrocinadores e apoiadores, pois é essa publicidade que pode fazer com que eles repitam o apoio no próximo livro ou na próxima edição.

Com exceção de autores famosos, a grande maioria das pessoas que vai a lançamento de livro é parente ou amigo do autor e uma boa parte vai chateada por estar perdendo a novela ou o futebol. O que importa é que essas pessoas estão saindo de casa para ir ao lançamento de seu livro: você tem a obrigação de lhes proporcionar um evento agradável, onde elas se sintam à vontade e voltem para casa satisfeitas.

O tradicional é oferecer uns comes e bebes. Mas, se puder, ofereça mais, contrate um músico ou uma banda ou monte um telão para exibição de clips musicais ou um documentário interessante, faça sorteio de algum produto ou serviço ligado aos seus patrocinadores ou apoiadores, contrate um número de strip-tease… Faça algo diferente.

A fila da dedicatória é sempre um problema, pois a maioria das pessoas chega no mesmo horário. Ponha alguém para lhes servir algo e anotar o contato delas enquanto estão na fila, isso ajuda a tornar a coisa menos enfadonha. Seja simpático na hora da dedicatória, claro, mas não se alongue no papo. Aquela velha frase “Senta um pouquinho que já, já eu vou na tua mesa pra gente conversar” é uma mentirinha que funciona.

GuiaDoEscritorIndependenteAmazon-05adivulgação

Se o mundo não souber que seu livro existe, todo seu esforço de escrevê-lo e produzi-lo será em vão. Divulgação é fundamental e não adianta querer economizar muito nessa etapa.

Do total de exemplares da primeira edição, separe logo uma parte. A quantidade varia de acordo com a divulgação que o autor pode fazer, mas geralmente inclui exemplares para a imprensa e para formadores de opinião (pessoas cuja posição social ou trabalho influencia os gostos e as opiniões de muitas pessoas). Uma única matéria sobre seu livro na imprensa atingirá milhares de pessoas e por isso vale o custo de um ou mais exemplares.

Há inúmeros modos de divulgar, desde os tradicionais aos mais inusitados. Se o autor se mantiver atento ao que acontece em sua cidade, poderá usar certos fatos ou eventos para divulgar bem seu livro.

É compreensível que o autor deseje ganhar dinheiro rapidamente. Entretanto, se ele almeja uma carreira literária, nesse momento a divulgação é tão ou mais prioritária que a venda. Ele precisa que o mercado saiba que existe um novo escritor. O ideal é que as pessoas saibam disso comprando seu livro, claro, mas geralmente isso não ocorre de imediato. O autor deve entender que nesse momento importante, os exemplares dados às pessoas certas são, na verdade, um bom investimento que ele está fazendo em sua carreira.

Aqui é bom lembrar de algo fundamental: se você está nessa por dinheiro, é melhor mudar de profissão. Esteja nessa por amor ao ofício e por necessidade de escrever. Se o dinheiro vier, será muito bem vindo.

distribuição e venda

Se você acha que superou a pior parte, lamento dizer que ela vai começar agora. É na hora da distribuição e venda que o autor descobre porque as editoras escolhem a dedo seus autores e porque pagam apenas 10% de direito autoral.

Há várias maneiras de vender livros, mas a mais tradicional é através das livrarias. Se esse é seu caso, creio ser bastante útil lhe informar agora o que pode ocorrer…

Seu livro provavelmente não terá qualquer destaque entre os milhares de títulos expostos na livraria. Talvez ele vá para a seção de “autores locais”, o que geralmente significa desvalorização por parte do público de sua própria cidade.

A livraria não aceitará comprar seu livro. Mas ela poderá aceitar ficar com ele em forma de consignação: se vender, você recebe sua parte. Você diz por quanto o livro deve ser vendido ao consumidor e a livraria geralmente fica com 30% a 50% desse valor.

Você imaginará que venderá tantos exemplares por mês. Porém é mais provável que seu livro venda bem menos que suas projeções iniciais. Não porque ele seja ruim – a concorrência é que é forte demais. Após algum tempo, você deixará de ligar todo mês para saber se vendeu algum. Seu livro exposto se desgastará com o tempo e o manuseio (se houver manuseio, o que não deixa de ser bom sinal), e talvez você precise trocá-lo.

Há também a possibilidade da livraria fechar e depois você ter que ir atrás do dono ou do advogado para reaver seus preciosos exemplares. E talvez constate que o esforço não valerá a pena.

É isso que acontece com a maioria dos autores independentes, não só da sua cidade mas do mundo inteiro. Estou exagerando? Então me diga: quantas vezes você entrou numa livraria e comprou um livro de um “autor local”?

O que fazer então? É aqui que entra o conceito que é a base deste livro: o autogerenciamento.

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(continua no próximo capítulo)

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.com

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Cap 1:  Circuito oficial
Cap 2:  Circuito alternativo
Cap 3:  Autogerenciamento
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