Pátria amada Terra

04set2010

É animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária

PÁTRIA AMADA TERRA

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Honroso é morrer pela pátria. Militar adora dizer isso. Bem, morrer pelo Brasil eu particularmente nunca morri, mas já desmaiei por ele. Verdade. Tinha 12 anos e estudava no Colégio Militar. E como o colégio vive em função do Sete de Setembro, toda semana tinha treinamento para o grande desfile. Um dia, num desses treinos, nós todos metidos naquele pesado uniforme de gala e perfilados sob o solzão cruel, minha vista escureceu, o corpo fraquejou e bufo!, desabei feito um armário, de cara no chão. Despertei na enfermaria, tudo bem, só uns arranhões. Novecentos e dezenove, você está liberado por hoje! Sim, senhor!

Se desmaiar já é ridículo, imagine morrer pela pátria. Isso não faz mais sentido num tempo em que ou nos unimos pelo bem geral do planeta e da espécie ou afundamos todos. Sim, eu sei que muitos ainda creem em superioridade racial e religiosa e outras ilusões. Porém está em curso uma revolução que ameaça mudar tudo isso. Silenciosa e sem sangue, ela está fazendo com que a humanidade, cada vez mais, se veja como um único povo a habitar uma única pátria: o planeta Terra.

Estamos presenciando uma profunda transformação no modo da espécie entender a si mesma e ao mundo em que vive. Isso é tão sério que pode mudar o rumo evolutivo do Homo sapiens. Sempre que se aprofunda um pouco mais na maneira de entender a si mesmo, você adentra um novo nível pessoal de evolução. Você se transforma. E como tudo são espelhos a refletir tudo que há, nada fica imune à sua transformação. O mundo ao redor muda… porque você mudou. Este é o segredo da revolução: você não precisa transformar o mundo, basta mudar a si mesmo.

E quando ela começou? Impossível precisar. No entanto, foi no século 20 que ela tomou impulso. E em 1969, quando divulgaram ao mundo aquela primeira foto da Terra tirada do espaço, algo estalou na alma coletiva da humanidade. Foi um momento histórico muito significativo. A maioria não parou para refletir, mas o estalo aconteceu. Pela primeira vez olhamos para a imagem do planetinha azul e percebemos enternecidos como ele é lindo. E nos demos conta de algo incrível: do alto não há fronteiras! Habitamos todos o mesmo lar.

É animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária. As comunicações fáceis e a internet incentivam os jovens a viajar mais, conhecer o mundo. Seus horizontes são mais amplos e não se conformam com fronteiras nem intolerâncias raciais, étnicas, sexistas ou religiosas. Veem os fanatismos nacionalistas atuais como os últimos espasmos da velha mentalidade que não quer morrer, mas que já está moribunda. Para eles, essa noção de patriotismo é mesquinha demais diante de uma pátria bem maior que se chama Terra.

A nova revolução traz em sua luta o clamor pela conscientização ecológica, pelas liberdades individuais e pelo respeito à vida e às diferenças. Pode soar ingenuamente otimista, mas são conceitos que a cada dia se espalham mundo afora feito um vírus benigno. A Terra é meu país e a humanidade minha família ‒ este é o grito de seus soldados que, desarmados, se denominam cidadãos do mundo, uma nacionalidade bem mais abrangente e que abraça toda a riqueza da diversidade cultural humana. São ainda minoria, sim, esses belos revolucionários, mas sua bandeira tremula com a cor de todos os povos e eu me orgulho de lutar ao lado deles.

Sim, eu sei que a espécie humana está muito doente e que em seu delírio põe em risco a própria sobrevivência. Vejo tempos terríveis se anunciando no horizonte. Mas sei também que às vezes é preciso que a doença atinja seu clímax para, somente então, regredir. Entram aí os ideais revolucionários: eles é que nos manterão vivos durante a longa noite.

É por isso que quando assisto à parada do Sete de Setembro, tudo aquilo me parece tão pequeno… E é por isso que nada vejo de honroso em morrer pela pátria. Sim, adoro o Brasil e seu povo. Porém, nossa pátria verdadeira, de todos nós, é muito maior que o Brasil. E nossa família não são apenas brasileiros, brancos ou negros ou índios, muçulmanos ou cristãos, homo ou heterossexuais: nossa família é a humanidade inteira, bela e diversa.

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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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LEIA NESTE BLOG

AvatarEOPovoDaTerraA mensagem de Avatar ao Povo da Terra – Temos de compreender o que os antigos já sabiam e nós esquecemos: a Terra é um ser vivo e nós fazemos parte dele

Eles estão na fronteira – Milhões de maltrapilhos famintos, perseguidos políticos, criminosos cruéis, terroristas suicidas, narcotraficantes e trombadinhas invadindo os países e quebrando tudo, estuprando nossas irmãs, matando todo mundo, o caos absoluto

A ilha – Talvez uma ilha na verdade fosse uma… montanha! Sim, uma montanha com o pico fora dágua

A imagem do século 20 – Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisões. Não vimos este ou aquele país: vimos o todo

WikiLeaks e o nascimento da cidadania global – Quanto mais as pessoas se conectam à internet, mais elas se entendem como participantes ativos dos destinos do mundo e não apenas de seu país

Uma bandeira diferente – As pessoas saudavam o nascimento do novo símbolo que emergia do fundo da alma de todos falando de paz e unicidade, de um mundo unido e sem divisões

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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.01- “do alto não há fronteiras! “ – Isso me fez ter umas idéias malucas sobre o papel da distância, ou melhor, do distanciamento… O seu artigo é um simples e belo manifesto. É incrível como todos os nossos problemas de espécie parecem ‘ se resumir’ a uma questão de conceito, de linguagem, de olhar. É quase mágico. Lilia Costa, Fortaleza-CE – set2006

02- Aprender a cuidar do planeta… Márcia Daré, São Paulo-SP – set2010

03- Espetacular, Ricardo. De longe , olhando oplanetinha azul- de fato- não há fronteiras. Isso é muito significativo…Por que todo mundo não percebe????” Lia Aderaldo Demétrio, Fortaleza-CE – set2010

04- Gostei, parabens Ricardo Kelmer. Vilma de Oliveira, Fortaleza-CE – set2015

05- Texto atualíssimo e tocante. Eu me identifico Ricardo Kelmer. Entendo-te demais nessas palavras. Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – set2015

06- Lindo texto! Vanessa Machado Monte, Fortaleza-CE – set2015

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15 Responses to Pátria amada Terra

  1. Gledson Shiva disse:

    vc não acha que um governo mundial não ajudaria neste processo de conscientização de que vivemos todos na mesma casa e cada um ser humano é parte de nossa família?

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  2. MohanDas disse:

    ha ha ha “se desmaiar já é ridículo, imagine morrer”
    que comédia.
    Eu penso que o povo brasileiro de um modo geral, é assim, não quer dominar ninguém e nem ser dominado, e somos bacanas com os outros até um certo ponto né…he he he
    Estamos de boa com o que temos, toleramos uns políticos sem vergonhas, mais Deus tá vendo tudo…!
    Que paizinho manero é o nosso, seve e servirá de exemplo pro mundo, nosso presidente um cara simples, que está penando na mão da intelectualidade capitalista, deu mostras do nosso estado de espírito pacifista no caso da Petrobrás confiscada no país vizinho, foi dando um jeitinho, comendo pelas beradas e tá tudo certo, sem sangue, sem morte, sem ódio…!
    É isso aí Brasil – Basileiros e Brasileiras…!
    Beijos a todos….!

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  3. “O mundo ao redor muda… simplesmente porque você mudou”…. realmente, se queremos que a realidade ao nosso redor mude, então façamos a mudança primeiro em nós, assim tudo muda… nós, o mundo e a visão que temos dele…. “sejamos a mudança que queremos ver no mundo”…. como sempre, muito bons seus textos e suas reflexões. =) abraço

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  4. Sensacional sua opinião a respeito da pátria. Hoje em dia o cidadão brasileiro deve se preocupar com questões como a ecologia e a política. Elegendo políticos éticos que vão defender realmente o povo em geral e que tenham sensibilidade para com a vida do planeta.
    Vivemos no planeta terra e a sobrevivência nossa depende de ações mínimas para a continuadade dessa aventura humana aqui nesse planeta.

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    • ricardokelmer disse:

      > É, verdade, Arimatéa. Boa parte do eleitorado ainda pensa, limitadamente, em termos de nacionalidade. Claro que temos questões internas a resolver mas a noção de internacionalidade aos poucos se imporá e terminaremos nos misturando a todos e formando o que na verdade sempre fomos: uma só espécie, que habita o mesmo mundo.

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  5. Rosa disse:

    Lembrei de uma música do Vercillo que diz assim: “Faminto, o texano salvo pelas moedas de um ”cucaracha”e a vida se entrança, nem tudo anda para trás.A israelita recebendo em casa os pais da namorada libanesa e a vida se enrosca nem tudo anda para trás…Quando a noite aparacer lembra que somos um…”
    E de fato somos mesmo. Apenas seres humanos compartilhando esse mundão “véi” sem porteira.
    Pra que porteira, né?

    Lindo texto, querido meu.

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  6. waleska frota disse:

    Ola Ricardo?
    Sou autora do livro Circo-um olhar poetico,que
    homenageia a belissima arte circense.
    Abç fraterno…Waleska Frota.

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  7. Elaine Faria disse:

    Oi Ricardo!
    O talento e lucidez com que escreve sobre os mais variados assuntos sempre me encanta. Visito seu site com certa freqüência… mas o único comentário (071) que fiz foi em março/2010, no texto A mulher selvagem, que postei no meu blog e que foi o motivo de eu ter recebi gentilmente a sua visita.
    Gostei imensamente do texto “Pátria amada Terra”. queria pedir a sua permissão para posta-lo no meu blog.
    Tenho grande admiração por ti!
    Grande Beijo!
    Elaine

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