Olha a pegadinha

23jul2012

Quem nunca foi enganado? Esse ainda não nasceu

OLHA A PEGADINHA

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Já fui trapaceado no pôquer, me prometeram e não cumpriram, marquei hora e não fui recebido e já levei gato por lebre. Livrarias fecharam e não me pagaram. Uísque falsificado, hummm, é bom nem lembrar. Propaganda enganosa, corrente da riqueza, CD que não toca, poupança confiscada, consórcio quebrado… Hoje estou mais prevenido, mas já caí em várias. E ainda caio, como, por exemplo, quando assisti Nove Rainhas, filme do argentino Fabián Bielinski. Nunca fui tão ludibriado em tão pouco tempo. Quando as luzes do cinema acenderam, tive até medo de olhar pro lado e descobrir que não era minha mulher Karine quem de fato estava ali comigo. Felizmente era. Vá ver o filme, é sensacional. Mas vá sabendo: os caras vão lhe passar a perna.

Comissões embutidas, advogados corruptos, orçamentos superfaturados, sutian com enchimento… Tem tanta armação espalhada por aí que é melhor desconfiar de tudo que se mexe ou fica parado. Quem nunca foi enganado? Esse ainda não nasceu. E as enganações são de toda sorte: você é logrado por pessoas, empresas, governos, religiões e até por você quando mente pra si mesmo: segunda-feira começo meu regime, este ano serei mais estudioso, nunca mais eu bebo, só a cabecinha, agora vamos guardar esse restinho pra cheirar amanhã… Tudo conversa pra boi dormir.

Desvio de verba pública, esquema da previdência, painel eletrônico, juízes comprados, guerra contra o terrorismo, concurso de beleza – a enganação é uma praga. Umas são mais escondidas. Outras não têm pudor em mostrar a cara. Outras já são tão cotidianas que a gente se acostuma a viver com elas. Conheço um cidadão que se por acaso encontrar você aí pela rua, uma dessas três possibilidades acontece: ele lhe ferra um cigarro, descola uma carona ou então lhe pede o celular pra uma ligaçãozinha rápida. Tem também aquele amigo, mui amigo, que senta em sua mesa, bebe, come, se diverte e, na hora de pagar a conta, ou acabaram as folhas de cheque ou ele tomou só um chope. Malaca é o que não falta nesse mundo.

E tem aquele vendedor que nunca lhe viu antes e vai logo dizendo: “Este modelo combina perfeitamente com você!”. Terrível. E aquela velha história que foi roubado e precisa do dinheiro da passagem? Pois tem quem ainda insiste nisso. Lá na rodoviária tem um pedinte que faz vinte anos que tenta inteirar o dinheiro pra voltar pra Reriutaba. Êta passagenzinha cara… E aquela de se oferecer pra ajudar no caixa eletrônico? Ainda hoje tem quem cai nessa, creia. E o tal do Boa Noite, Cinderela? Você acorda no outro dia num motel, sem roupa, sem dinheiro, sem lembranças… Pior que clonagem de cartão de crédito.

Descuidistas da boa vontade alheia, é só o que tem. Você vacila por um segundo e quando dá conta, já dançou. Chifre, cheque sem fundo, programa que trava, mulher que não é mulher, camisinha furada, fumo malhado… Tem cara-de-pau que engana olhando na sua cara. Exemplo: político. Quando eles começam a responder uma pergunta com “veja bem”, é sinal que lá vem enganação, pode esperar. Depende, como sem falta, já-já, não tem como errar, essa é batata – é tudo mutreta. Nesse mundo de enroladas, nada é o que parece ser.

Amigos da onça, maus pagadores, mentirosos, aproveitadores, patifes, salafrários, larápios, golpistas, punguistas, ladrões, trapaceiros, trambiqueiros, vigaristas, charlatões – só de especialista dá pra fazer um time e mais os reservas. Tem pra todo gosto. Por mais que você fique atento, sempre vai ter um juiz lalau aprontando pertinho ou exatamente pra cima de você.

Às vezes o prejuízo é grande. Outras vezes é só uma pegadinha bem-humorada e inofensiva de algum amigo: quando você vê, já caiu. Pegando aqui tu vai dar naquela rua… No fundo o que você quer é isso… Qualquer coisa, disponha… Até nas pegadinhas verbais o repertório é infinito. Mas fiquemos por aqui que meu espaço acabou. Um abraço pra você e pra quem for da sua família.
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Ricardo Kelmer 2001  – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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NOVE RAINHAS (Nueve Reinas, Argentina, 2000)
ROTEIRO E DIREÇÃO: Fabián Bielinsky
ELENCO: Ricardo Darín, Gastón Pauls, Leticia Brédice, Óscar Núñez, Tomás Fonzi e Ignasi Abadal
Dois trapaceiros se conhecem e passam a atuar juntos, enganando pessoas e praticando golpes de todo tipo.

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