Cubalança mas não cai

18/02/2014

18fev2014

A falta de democracia em Cuba é um grande defeito do regime, mas isso não anula as conquistas sociais realizadas pela revolução cubana

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CUBALANÇA MAS NÃO CAI

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Lá estou eu em Cuba, abril de 2006, três meses antes de Fidel baixar hospital, o irmão Raúl assumir (a presidência, gente) e o mundo inteiro voltar os olhos para o futuro da ilha. Uma semana de turismo em Havana, arriba!

Indo pelo Malecón, a beira-mar de Habana, vi um out-door sensacional e não resisti. Parei para tirar foto. Era tipo publicidade de filme, o presidente Bush feito um vampiro e os dizeres: “El Asesino ‒ Próximamente em las cortes norte-americanas”, e bem em frente à oficina de interesses estadunidenses. Sim, pois o Tio Sam não possui embaixada em Cuba. Mas em compensación não largam Guantánamo. Cara de pau…

Bueno, foi uma semana intensa. Conheci mais sobre a história da ilha, visitei locais históricos, tomei mojitos y cubanitos, ouvi salsas e boleros, andei de coco-táxi, comi nos famosos paladares. E me apaixonei pela ilha. Enquanto escrevo esta crônica, por sinal, ouço os maravilhosos cantores cubanos e me dá vontade de voltar. Na verdade, o que mais me interessava era conhecer Cuba por dentro, hablar con los cubanos, me misturar a eles. Minha porção jornalista era maior que a porção turista. E a principal conclusão que tirei foi esta: é impossível entender Cuba em apenas uma semana. O comunismo cubano, aos meus olhos, se já era estranho, revelou-se um monstrengo surreal. Bem, vivendo no Brasil, um país de outro planeta, eu já deveria estar acostumado. Mas Cuba é demais. Lá tem três moedas! Como aquilo pode funcionar? Muitos cubanos me responderam assim: não funciona.

Em tese, o regime comunista cuida dos aspectos básicos da vida do povo: fornece moradia, comida, roupa, trabalho, escola e saúde. Mas na prática não é bem assim. Como a comida não dá para o mês todo, o cubano acaba comprando comida – do governo, claro. Se o cubano quer uma casa, o governo financia, mas é tão caro que grande parte acaba morando com os pais, com os sogros… E os médicos formados, que ganham trinta dólares por mês? Dá para comprar trinta sabonetes. Você morre de fome, mas morre cheiroso.

Evidentemente, não dá para analisar os problemas do país sem considerar o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. O povo cubano sofre diariamente, de várias formas, por conta dessa crueldade. Rodando pela cidade, vi muita pobreza, casas desmoronando por falta de conservação. Vi pedintes, vi prostituição masculina e feminina. Boa parte dos cubanos se agarra nos turistas, literalmente, como náufrago numa boia. Muito cubano trabalha como guia. Todo cubano tem um irmão ou amigo que trabalha numa fábrica de rum ou charuto e pode conseguir mais barato e coisital. Alguns te convidam para conhecer a casa deles, na maior simpatia. Você acha isso lindo, fica encantado… mas na despedida eles te pedem um trocadinho. E não tem como não dar, né?

Felizmente em Cuba não há miséria como no Brasil, não há favelas nem crianças bandidas, o narcotráfico internacional tem pouquíssima força lá e o sistema primário de saúde, assim como a educação básica, funciona de verdade. Ay, que inveja. Mas até lá tem corrupção, essa praga tão brasileira. E o que dizer da fome insaciável do governo? Ele é sócio de tudo na ilha, até daquele quartinho que você aluga no sótão de sua casa. Veja os tais paladares. São restaurantes caseiros, permitidos pelo governo, uma forma de garantir a muitas famílias uma rendinha extra. Mas o governo não permite mais que doze mesas. E não pode servir frutos do mar, para não concorrer com os restaurantes dos hotéis. E ainda tem que pagar quatrocentos dólares de imposto por mês, com ou sem cliente… Carajo! Essa quantia lá é uma fortuna! Um sócio desse acaba incentivando o jeitinho, que nós brasileiros tão bem conhecemos: não tem no cardápio do paladar, mas, se você pedir, servem camarão e lagosta à vontade. Só não pode discriminar na conta, claro. E ainda disfarçam uma mesinha a mais ali atrás da cortina… É aquela coisa: o cubano se faz de morto e o governo faz que não vê.

A pior coisa, porém, pelo menos para mim, é a asfixiante falta de liberdade. Sei que aqui caímos na velha discussão sobre o que é mais importante, pão ou liberdade. Eu, particularmente, apesar de aplaudir de pé a revolução cubana, prefiro morrer fugindo que viver preso de barriga cheia. Se alguém se ausenta mais de um ano da ilha, perde automaticamente a cidadania cubana, sabia? Criticar o governo, então, nem pensar. O cubano tem de ser um soldado do regime, um porta-voz da sagrada revolución. É obrigado a deixar a sala de aula ou o trabalho para ir à praça escutar Fidel falar por cinco horas. Não pode acessar sites na internet e seu correio eletrônico é censurado. Ser homossexual em Cuba, até pouco tempo, podia dar cadeia.

Depois que Fidel se for, o que vai acontecer? Como el pueblo se comportará? E os cubanos de Miami? Tio Sam cessará o cruel embargo econômico? A ONU intervirá para ajudar a democratizar o país? Quem pode dizer? Mas o futuro já chegou e em breve falará oficialmente. Só espero que esse futuro mantenha as conquistas sociais trazidas pela Revolução e traga mais conforto e liberdade aos hermanos cubanos, que, mesmo com todas as dificuldades, são festivos e hospitaleiros. Ah, ia esquecendo de contar: todo turista, quando sai de Cuba, deve pagar ao governo uma taxa de vinte e cinco dólares, como presente à Revolução. Sem recibo.

Não há democracia em Cuba, é verdade, o que é um grande defeito do regime, mas isso não anula as conquistas sociais realizadas pela revolução cubana, conquistas que mesmo países ricos e democratas jamais conseguiram. Talvez a implantação da democracia em Cuba trouxesse também o risco de algum tipo de piora nos indicadores sociais, tão arduamente conquistados, é, talvez, mas, ao meu ver, é algo que deveria ter acontecido. Como eu acredito na viabilidade de uma democracia socialista, torço para que os cubanos, e nós brasileiros também, possamos um dia vivê-la. Hasta la victoria, siempre.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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A propaganda oficial anti-EUA é onipresente no país. Esta placa está no Malecón. Equivaleria a estar no calçadão de Copacabana, no Rio, ou na Volta da Jurema, em Fortaleza, ou na Av. Paulista, em São Paulo.

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O isolamento do regime fez, em alguns aspectos, o tempo parar em Cuba. Para os colecionadores de carros antigos, Havana é um paraíso.

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Comitê de Defesa da Revolução. Espalhados pelos bairros, os CDRs são a mais poderosa das organizações cubanas não governamentais. Eles desempenham tarefas de vigilância coletiva contra atos de desestabilização do sistema político cubano.  Também participam em tarefas de saúde, higiene, de apoio à economia e de promoção da participação cidadã. Qualquer cidadão crítico do regime tem, obviamente, ficha suja nos CDRs.

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A santeria cubana e seu sincretismo religioso. O regime comunista da ilha não tem simpatia pela religião, mas boa parte da população pratica algum tipo.

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Vendo tudo borrado com Havana Club. Ah, o rum cubano… Na porta de um bar no centro de Havana fui abordado por um simpático cubano, que era fã do Ronaldinho Gaúcho e me ofereceu um Havana Club 7 Anos por U$ 10, uma pechincha que ele conseguia por ser amigos dos donos do bar. Empolgado, entreguei-lhe a grana, ele entrou no bar e fiquei esperando. Tô esperando até hoje, eu e meu chapéu de otário.

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Enchendo el cabezón com Bucanero.

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Os famosos paladares. Comida caseira, gostosa e barata.

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Uma família cubana.

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Mojitos com Christina no Malecón.

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BuenaVistaSocialClub1999CarnegieHall-01Buena Vista Social Club

Eu já sabia da existência do disco produzido por Ry Cooder. Aliás, eu já conhecia Ry Cooder pela trilha sonora dos filmes Paris Texas e Crossroads (A Encruzilhada). Porém, nunca havia procurado escutar as músicas. Após esta minha viagem a Cuba, baixei as músicas e… foi paixão imediata. A partir daí esse disco tornou-se trilha sonora da minha própria vida. O disco foi gravado em 1996, em Havana (e lançado em 1997), a partir da ideia de Ry Cooder de reunir músicos da era de ouro da música cubana. O nome do disco era uma homenagem ao Buena Vista Social Club, um lendário clube de Havana dos anos 1940-1950, onde esses músicos se apresentavam. O curioso é que vários deles estavam afastados dos palcos, alguns já aposentados, e o sucesso mundial instantâneo do disco os fez retomar a carreira, levando-os a se apresentar em vários países. Eles todos chegaram a tocar juntos em 10.07.98, no Carnegie Hall em Nova York, numa apresentação antológica que foi registrada em disco (2006) e consta no documentário Buena Vista Social Club, de 1999, dirigido por Win Wenders. Tanto os discos como o documentário são maravilhosos. Infelizmente a maioria dos artistas já estava em idade avançada, e um a um eles morreriam nos anos seguintes, mas felizmente puderam saborear o reconhecimento mundial de seu formidável talento.
> Baixe o disco (55mb)

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Recomendo … o texto , nao Cuba !!! Luciano Hamada, São Paulo – jul2015

02- Lindo! Michele SJ, Fortaleza-CE – nov2016

03- icardo Kelmer, muito bom vc compartilhar essa experiência. Realmente adorei ler! Clícia Karine Marques, Fortaleza-CE – nov2016

04- Q texto prazeroso de se ler! Shirlene Holanda, Fortaleza-CE – nov2016

05- Genial!!!! Melhor relato sobre a ilha desconheço!!! Kelzen Herbet, Fortaleza-CE – nov2016

06- Hasta Siempre Cuba.. Claudia Meirelles Bahia, Fortaleza-CE – nov2016

07- Muito bom, Ricardo! Virgínia Ludgero, Lourinhã-Portugal – nov2016

08- Atualíssimo! Cesar Veneziani, São Paulo-SP – nov2016

09- Bacana seu texto! Parabéns. Rosina Santana, Vitória da Conquista-BA – nov2016

10- Meu caro. Grande reportagem. Ótimo texto. Ailton D Angelo, São Paulo-SP – nov2016

11- Reli e mantenho minha admiração pelos teus textos Ricardo Kelmer. Sobre liberdade eu concordo muito. Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – nov2016

12- Muito bom relato, bem verdadeiro. Ana Maria Castello, Nova Yok-EUA – nov2016

13- Sem nenhuma referencia a todo o historico da revolucao ou ideologias, nunca tive a menor vontade de ir para Cuba. A ideia de ser livre em um pais onde ninguem mais eh, de poder ir e vir qdo ninguem mais pode, sempre me causou repulsa. Nao, eu nao vou para Cuba. Otimo texto. =) Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – nov2016

RK: Tata, é certo que os cubanos não têm, ainda, a liberdade de ir e vir e nem a liberdade de expressão que nós temos, mas por que isso deveria invalidar que pessoas como eu e você, que lutamos por justiça social e liberdade, viajemos para Cuba para visitá-los? Visitar Cuba não significa necessariamente avalizar a repressão política ainda vigente lá nem os erros cometidos pelo regime. O país tem coisas lindas, e o povo cubano necessita desse intercâmbio com outras culturas. Você não acha? nov2016

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O mundo transparente e a nova cidadania

07/11/2013

07nov2013

O povo não deve temer seus governos, os governos é que devem temer o povo

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O MUNDO TRANSPARENTE E A NOVA CIDADANIA

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Primeiro, foi Julian Assange, o australiano que criou o site Wikileaks para promover o vazamento de materiais secretos, como forma de combater a corrupção nos governos e nas empresas. Assange atualmente é perseguido pelo governo dos Estados Unidos e desde 2012 se encontra refugiado na embaixada do Equador em Londres.

Depois, veio Chelsea Manning (nascida Bradley Manning), a militar transexual do Exército dos Estados Unidos, que revelou documentos secretos sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão e informações diplomáticas que expuseram a podridão do governo dos Estados Unidos. Manning foi presa, teve negados seus direitos constitucionais e foi condenada a 35 anos de cadeia.

E agora, surge Edward Snowden, estadunidense ex-funcionário da CIA que denunciou à imprensa os programas que Tio Sam, sob pretexto de combater o terrorismo, usa para espionar a internet e as ligações telefônicas de cidadãos seus e de outros países. Snowden refugiou-se em Hong Kong, depois na Rússia, e está sendo raivosamente perseguido pelo governo Obama, que não o perdoa por ter revelado a verdade.

Esses três casos são três furos na velha estrutura de sigilo e espionagem dos Estados. Por enquanto, os governos conseguem tapar um ou outro, mas em breve surgirão outros furos e será impossível conter tanto vazamento, pois o mundo é cada vez mais transparente, e até para os governos está difícil esconder suas ações, mesmo as mais secretas.

As facilidades das comunicações e dos transportes estão tornando as sociedades cada vez mais interconectadas. Atualmente, os países se organizam em blocos geopolíticos, dissolvendo suas fronteiras, e a internet, permitindo o intercâmbio multicultural diário, faz nascer nas novas gerações uma revolucionária noção de cidadania global, para a qual as guerras não fazem nenhum sentido e as diferenças não são meros pretextos para conflitos. Isso tudo motiva a luta por democracia e contra governos opressores, e aponta para um possível futuro onde não teremos mais países: a Terra será a pátria de todos. Sim, ainda há muitas diferenças a serem superadas, preconceitos, fanatismos religiosos, interesses capitalistas… Mas os acontecimentos se aceleram e, apesar das resistências da velha ordem, esse futuro já está acontecendo.

Julian Assange, Chelsea Manning e Edward Snowden tiveram a coragem de denunciar o que estava errado, mesmo sabendo que o preço por desafiar os interesses de empresas e governos poderosos pode ser jamais ter uma vida tranquila. Suas belas atitudes não mudam o mundo de uma hora para outra, mas nos fazem ampliar nossa noção de cidadania, de um nível nacional para um nível global. E também fazem as pessoas no mundo inteiro começarem a se dar conta de uma verdade óbvia: o povo não deve temer seus governos, os governos é que devem temer o povo.

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Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

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O ATAQUE DOS HELICÓPTEROS

Em 12.07.07, na cidade de Bagdá, dois helicópteros do exército dos Estados Unidos executaram 12 homens durante um ataque surpresa. Os militares buscavam homens armados, mas confundiram dois funcionários da agência de notícias Reuters por causa de seus equipamentos e os mataram também, além de ferirem duas crianças. O site Wikileaks conseguiu o vídeo (gravado a partir da mira do helicóptero) e o divulgou em 2010, causando grande indignação em todo o mundo e contradizendo a versão do exército estadunidense mantida até então. O soldado Bradley Manning (que em 2013 viraria Chelsea Manning) foi preso sob a acusação de ter vazado o vídeo. Nesta versão do vídeo, o diálogo dos militares foi legendando em português e indicações mostram onde se encontravam os funcionários da Reuters. > Saiba mais sobre o ataque

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01- Muito bom Ric…o feitiço virando contra o feiticeiro… Emerson Boy Batista, São Paulo-SP – nov2013

 

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Acabou a paciência

19/06/2013

Ricardo Kelmer 2013

Cada um que protesta traz em si a frustração acumulada de tantas gerações por trabalhar dia após dia por um sistema econômico que finge querer o bem de todos mas concentra a renda

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Vemos neste momento as manifestações enchendo as ruas das cidades brasileiras e nos perguntamos: o que está acontecendo? Sabemos que os grandes grupos de mídia têm seus interesses corporativos a defender e mostram os fatos pelo lado que lhes é mais vantajoso. Em quem deve confiar o cidadão interessado em se informar?

Errou a mídia que acusou o movimento de ter apenas jovens riquinhos brincando de fazer revolução, que reduziu os manifestantes a mera massa de manobra de partidos e que supervalorizou os atos de vandalismo cometidos por uma minoria. Sim, há riquinhos e vândalos nas manifestações mas eles não representam a imensa maioria dos manifestantes, que são pacíficos, de classe média e apartidários.

Movimento Passe Livre é o nome do grupo que, convocando protestos pelo aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, acabou atraindo descontentes de toda parte e todos tinham algo mais para reivindicar. Como os protestos focam na melhoria do transporte público, isso forçará os governantes a priorizar essa questão em suas gestões, o que é ótimo. E como nos protestos não são poupados nem prefeitos, nem governadores e nem mesmo a presidenta, todos eles saem perdendo com as manifestações, o que é bem interessante.

Podemos ver pelos índices econômicos que o país melhorou em vários aspectos, sim. Porém, ainda há tanto a melhorar e as mudanças têm sido tão lentas que as manifestações que explodem pelo país inteiro sugerem algo que cedo ou tarde teria mesmo que acontecer: a população perdeu a paciência. O povo começa a perceber que, além do voto, o pleno exercício da cidadania inclui a fiscalização e a cobrança. Ponto para a democracia!

Raramente vimos na história uma mobilização popular de tal magnitude, espalhando-se espontaneamente e tão rápido por tantas cidades, sem lideranças definidas. A motivação inicial, que foi o preço da passagem, encontra eco mais que legítimo nas camadas populares, que precisam diariamente de transporte público, e agora os protestos miram também em questões como corrupção, reforma política, saúde, educação… Mas por que justamente agora?

As frases dos cartazes não o dizem diretamente mas arrisco afirmar que cada um que protesta traz em si a frustração acumulada de tantas gerações por trabalhar dia após dia por um sistema econômico que finge querer o bem de todos mas concentra a renda.

Revoltados por se sentirem injustiçados e não representados por seus políticos e governantes, os brasileiros parecem agora crer que podem mudar a situação indo às ruas. Se podem ou não, é o futuro que dirá, mas o presente já nos diz que o povo está enfim deixando de ser tão conformista e alcançando um novo nível de consciência política. É gol do Brasil!

Ultimamente vemos os protestos aumentando em muitos países. Com o mundo cada vez mais interconectado, a consciência coletiva passa a evoluir no mesmo ritmo e é assim que dia após dia as manifestações públicas por liberdade, democracia e direitos humanos se espalham pelo mundo. A humanidade parece exausta do capitalismo e dos atuais sistemas políticos.

A população brasileira, assim como em outros países, talvez esteja neste momento finalmente se dando conta de uma verdade óbvia: não é o povo que deve temer o governo, é o governo que deve temer o povo.

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Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

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COMENTÁRIOS
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01- Disse tudo, primo!!! Vânia Dias, Fortaleza-CE – jun2013

02- Ricardo! Amei o texto! Vc disse tudo mesmo! Bjs! Isabella Furtado, Modena-Itália – jun2013

03- massa, tio! dá uma lida nesse outro texto: http://incandescencia.org/2013/06/18/isso-e-sim-sobre-20-centavos-conservadorismo-nos-movimentos-sociais. já vinha pensando sobre isso e esse texto me esclareceu algumas idéias. não concordo inteiramente com o autor, mas acho o texto valioso para o momento. hoje, por exemplo, vi o jornal da emissora cidade (eu acho) e eles faziam uma clara e obvia puxada das manifestações para um viés conservador e anti-dilma. logo após rechaçar os momentos de violência das manifestações e falar que os alvos agora são a corrupção e a violência, mostraram uma queda da dilma nas pesquisas de opinião. claro que, como diz o autor do texto, se fosse para algo mais à esquerda do PT, ótimo! mas não é! ‘é preciso estar atento e forte!’ abraço! Levy Mota, Fortaleza-CE – jun2013

04- PROPONHO UMA “nOVA CAMPANHA/MANIFESTO” INCLUSIVE, A SE ESPALHAR PELA NET COMO UM VIRAL: VAMOS REDUZIR EM PELO MENOS 50% O SALARIO DE TODA A CLASSE POLITICA,,,,,e aplica esta “economia” naquilo que o País realmente precisa… DUVIDO SE OS POLITICOS VIRIAM A PUBLICO PARA APOIAR ALGO ASSIM… E NADA JUSTIFICA OS SALARIOS ASTRONOMICOS DELES..NA-DA…. José Carlos Neves, Belo Horizonte-MG – jun2013

05- Concordo e compartilho Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos. Ivonesete Rodrigues, Fortaleza-CE – jun2013

06- Dez o seu texto,mesmo!Você pergunta ao final o porquê do MPL agora,né?Inúmeras situações históricas surgiram de coisas banalíssimas.Tipo aquela máxima do mosquitinho na garganta quando já passaram até elefantes…rs.O que estou admirada é que a herança getulista dos jogos associados à política(arghhhh…isto te lembra alguma coisa,tipo Roma????),estão por um fio.O Brasil pode até AMAR futebol,mas a chancela de alienado não está mais tão aderente assim. Quase uma primavera árabe porque pode ser esquecido na entrada do outono…rs. Fateha Liza, Corumbá-MS – jun2013

07- Bacana! E o pior de tudo, Kelmer, é que entre os países emergentes, o Brasil foi o que menos cresceu economicamente, ficando atrás de Rússia, China e Índia. Ou seja, só crescemos em comparação a nós mesmos. Sobre “os movimentos”, como dizia um moderno filósofo da Revolução Francesa (Iluminismo): “Estamos saindo da menoridade, do acomodo que sempre nos assolou.”
Revolução Francesa (1789 – 1799) – Estopim: O aumento no preço do pão.
Revolução Brasileira (2013 – ) – Estopim: O aumento no preço daquilo que nos leva ao pão – o transporte público. Abraços escritor, sucesso! Rômero Barbosa Sérgio, Porto Nacional-TO – jun2013

 


Terror e êxtase na caverna

15/04/2013

15abr2013

Durante um tempo, ali fiquei, em êxtase, me sentindo parte de tudo aquilo, em paz com a caverna e comigo

TerrorEExtaseNaCaverna

TERROR E ÊXTASE NA CAVERNA

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Anos atrás fui convidado a participar de uma expedição do Ibama à gruta de Ubajara, no Ceará. Mas não seria uma visita comum, de grupos de excursão, com limites fixados para se aventurar na gruta. Participariam apenas espeleólogos, agrônomos, geólogos e arqueólogos de vários estados, e o grupo estava autorizado a ultrapassar os limites turísticos e seguir até o mais distante ponto conhecido.

De manhã cedo, o chefe da expedição reuniu o grupo de vinte e três pessoas, distribuiu capacetes, lanternas, cordas, sacos de lixo e atentou para que não deixássemos nenhum objeto lá dentro. Explicou que seguiríamos por uma via de difícil acesso rumo à Sala das Maravilhas (67m de profundidade, percurso de 1.120m), local alcançado por poucos devido ao alto grau de dificuldade. Lembrou as técnicas básicas, a posição firme do pé de apoio, manter sempre à vista o colega da frente. Apresentou-nos o guia mestre, que conhecia bem a via e seguiria à frente de todos. Então dividiu-nos em três grupos, cada um com seu guia próprio, e lá fomos nós, fila indiana, desafiar os segredos da grande caverna.

Eu já visitara a gruta como turista. Agora era diferente. Desde o início, senti uma solenidade no ar, como se realizasse algo muito importante. À medida que descíamos, o ar se tornava mais úmido e pesado e a respiração mais difícil. A caverna nos envolvia em seu manto de escuridão silenciosa e tudo em nós era concentração, esforço e cuidado. E respeito, muito respeito por tudo aquilo que a Natureza criara havia milhares de anos e que, gentilmente, nos permitia explorar.

Logo, as dificuldades começaram. Certas passagens eram tão estreitas que alguém mais gordo não passaria. As encostas enlameadas, difíceis de escalar, provocavam quedas. Havia trechos onde o teto era tão baixo que nos arrastávamos pelo chão, meio corpo dentro dágua. Cada guia, por ser mais ágil e experiente, tinha a missão de ir à frente, fixar bem a corda e aguardar que o restante de seu grupo finalizasse a passagem. Senso de equipe era fundamental: todos tinham que ajudar e ser ajudados.

Aos poucos, a tensão, o cansaço e o medo minavam as forças, forçando a desistência de alguns. Esses paravam, sentavam e ali mesmo ficavam, sempre acompanhados, para aguardar o retorno dos que prosseguiam. E eu? Eu era o próprio entusiasmo. Sentia a caverna como algo vivo, dona de uma força imensa e sabedoria própria, e isso me enchia de uma profunda reverência. Alguns passaram maus bocados, mas eu me sentia muito à vontade, como se sempre tivesse feito aquilo.

De repente, nos deparamos com um estreito buraco no chão. Já caminhávamos por três horas e estávamos cansados, mas ainda teríamos que passar por ali para alcançar o nível inferior seguinte, que enfim nos levaria ao trecho final. O guia mestre, segurando a corda-escadinha, já nos aguardava lá embaixo para auxiliar na descida. Nesse momento, algo curioso aconteceu. A espeleóloga que ia à minha frente chegou-se junto do buraco e então… ficou imóvel. Esperei que iniciasse a descida, mas, em vez disso, ela deitou-se ao chão e ficou na posição fetal, contorcendo-se. Percebi que seu corpo todo tremia e ela choramingava: “Mamãe… mamãe…”

O guia do grupo, mais experiente, entendeu logo o que se passava e me explicou: “Ela vai ficar boa, isso acontece até com os experientes. Vou ficar com ela. Daqui pra frente você assume o grupo.” Engoli em seco, sem acreditar. Guia do grupo, eu?! Em minha primeira exploração? Ele sorriu e confirmou, “Você vai conseguir”, enquanto tomava conta da mulher em sua crise de choro.

Meio atordoado com tudo aquilo, passei à frente, me aproximei do tal buraco e toquei a corda-escadinha, por onde desceria dez metros na escuridão. Segurei firme, botei os pés e… fiz a besteira de olhar para baixo. Imediatamente um estremecimento me percorreu por inteiro, corpo e alma. O coração quis sair pela boca e um pavor imenso me tomou o pensamento, impedindo qualquer raciocínio ou movimento. Quase borrei as calças. Por um instante, achei que também teria um colapso nervoso. Mas fechei os olhos e respirei fundo, tentando me acalmar. Precisava me controlar para fazer a descida com toda a atenção.

Quando finalmente toquei o chão, senti uma enorme alegria, vontade de sair gritando. Mas agora eu era o guia do grupo e precisava ajudar os outros. Depois daí vieram mais dificuldades e mais colegas desistiram, esgotados física e mentalmente. Eu continuei e, quatro horas depois do início, alcancei o destino final, com mais oito pessoas.

A Sala das Maravilhas parecia a abóbada de uma catedral. Havia pouca luz, mas vi que tinha uns quarenta metros de altura e sua beleza e imponência me faziam ridiculamente pequeno. Deitei-me ao chão, maravilhado, e fiquei quieto, olhos fechados, escutando o som musical dos pingos dágua que caíam lá de cima. Eu vencera. Superara as dificuldades, o medo e a própria desconfiança em mim. Durante um tempo, ali fiquei, em êxtase, me sentindo parte de tudo aquilo, em paz com a caverna e comigo. Tive vontade de ficar ali para sempre.

No fim da tarde, ao sairmos da gruta, eu sentia que algo havia mudado em mim. De fato, a experiência me tornaria um homem mais forte e autoconfiante. Por outro lado, me faria também mais humilde perante a Natureza. Explorar cavernas tem seus perigos, sim, mas muito mais perigoso é nos considerarmos separados da Natureza, nos julgarmos superiores e acharmos que podemos controlá-la. Se você ainda pensa assim, recomendo uma descidinha a alguma caverna. Não esqueça de manter firme o pé de apoio. E não custa nada levar papel higiênico. Mas não deixe nada lá dentro, tá?

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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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> Este texto integra o livro Blues da Vida Crônica

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CavernaUbajara-3.
A gruta de Ubajara está situada no leste do Estado do Ceará, no Parque Nacional de Ubajara, Serra da Ibiapaba, . Dista 3km do centro da cidade de Ubajara, possui uma área de 6.299 ha e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O acesso à gruta se dá por meio de teleférico, que desce mais 550m. Também é possível chegar à gruta pela trilha dos Cafundós, numa descida de mais de 4km. No período de janeiro a junho, a temperatura média é de 16 a 18 graus durante a noite, e entre 20 e 24 graus durante o dia. No período de julho a dezembro, a temperatura média é de 28 graus durante o dia, e de 19 graus durante a noite.

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CavernaUbajara-4.
A gruta de Ubajara tem 1.120m de extensão, dos quais 420m estão abertos ao público com o acompanhamento de guias. A gruta de Ubajara possui galerias e salas com formações de estalactites e estalagmites, como a Pedra do Sino, a Sala das Rosas, a Sala dos Retratos e a Sala das Maravilhas.

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> Mais sobre o Parque Nacional de Ubajara

360graus.terra.com.br
Blog Rotas Verdes

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Carlos Castaneda (vídeo) – Especial da BBC sobre o polêmico antropólogo que estudou o xamanismo no México, escreveu vários livros e tornou-se um fenômeno do movimento Nova Era

O Elo Perdido (Missing Link) – Veja o filme. Homem-macaco tem sua família dizimada por espécie mais evoluída e vaga sozinho pelo planeta, conhecendo e encantando-se com a Natureza. Ao comer de uma planta, tem estranha experiência que o faz compreender o que aconteceu

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Seguir a boiada ou as próprias convicções

09/04/2013

09abr2013

A pior morte será sempre a das nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos.

SeguirABoiadaOuAsPropriasConviccoes-2

SEGUIR A BOIADA OU AS PRÓPRIAS CONVICÇÕES

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A paquistanesa Malala Yousafzai, o israelense Nathan Blanc e o russo Sergey Balovin, com seus exemplos de vida, estão mostrando ao mundo que… sim, um outro mundo é possível. À sua maneira, agindo de acordo com suas convicções pessoais, eles simbolizam a grande luta que travam nesse momento muitas pessoas em todo o planeta: a luta contra a opressão e por um mundo mais justo e harmonioso.

Malala tem 15 anos e luta contra o fanatismo religioso dos talibãs no Paquistão, que impede que as mulheres tenham educação. Nathan Blanc tem 19 anos, recusa-se a prestar o serviço militar e por isso já foi preso várias vezes pelo governo de Israel. O pintor russo Sergey Balovin tem 29 anos e tenta viver sem dinheiro, trocando sua arte por bens e serviços. São jovens que vivem em culturas diferentes, mas ousaram desafiá-las, expressando sua discordância e mantendo-se leal aos seus próprios valores. E pagando o preço por isso.

Religião, dinheiro e guerra – as três coisas têm muito a ver. Em nome delas os humanos perdem a razão, tornam-se fanáticos e se oprimem e se matam. No entanto, desde pequenos nos ensinam que elas são necessárias, que sem religião vamos para o Inferno, que com dinheiro compraremos a felicidade e que precisamos destruir quem pensa diferente de nós. O ensinamento é tão eficaz e dogmático que as pessoas não conseguem imaginar um mundo sem religião, sem dinheiro e sem inimigos e, assim, repassam os velhos dogmas aos seus filhos, e o mundo segue o mesmo, cultuando deuses misóginos, injustos e sanguinários, que exigem vidas e mais vidas em seu nome.

Sim, é defendendo ferrenhamente seus valores culturais que as sociedades se afirmam no mundo. Porém, elas também precisam ser renovadas senão envelhecem e entram em colapso. Parece contraditório, mas essa tensão permanente entre o antigo e novo é que movimenta a cultura, levando-a a explorar suas potencialidades. E é justamente para renovar a sociedade que, vindos de dentro delas mesmas, surgem os indivíduos que a contestarão e trarão os novos valores, forçando as pessoas a erguerem-se um pouco acima de sua própria cultura e a ampliar sua visão da realidade.

A vida dos contestadores, porém, não é fácil, pois não é simples libertar-se dos condicionamentos culturais e religiosos aos quais somos submetidos desde que nascemos. Eles estão tão entranhados em nosso entendimento da realidade que abandoná-los é como morrer, pois morre em nós aquilo que nos liga à cultura ao redor. Mas a pior morte será sempre a das nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos.

O preço a pagar pela autenticidade pode ser a incompreensão e a solidão, pois a boiada não tolera os que se diferenciam. O preço a pagar pode ser a violência, pois essa é a única linguagem dos opressores e fanáticos. Porém, para os que cultuam a liberdade de ser, é libertando-se um pouco a cada dia que o espírito se fortalece e inspira outros espíritos.

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Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

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SOBRE MALALA, NATHAN E SERGEY
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MalalaYousafzai-3Adolescente atacada por talibãs publicará sua história – Malala Yousafzai prossegue em sua luta contra o fanatismo religioso que impede a educação de mulheres. Ela foi baleada na cabeça em um ataque cometido no dia 09.10.13 contra o ônibus escolar no qual viajava no Vale do Swat (noroeste do Paquistão) por um grupo talibã que queria castigá-la por seu compromisso em favor da educação das meninas paquistanesas. Dias depois, foi transferida ao Reino Unido, onde foi tratada e submetida no início de fevereiro a duas cirurgias de reconstituição craniana. Em mar2013 a adolescente pôde voltar à escola, desta vez em Birmingham (centro da Inglaterra), onde a família viverá por algum tempo. Malala, que tem 15 anos, é uma das candidatas ao prêmio Nobel da Paz 2013.

UmMundoMelhorSergeyBolavin-1Artista russo vive sem dinheiro trocando retratos por bens e serviços – O artista russo Sergey Balovin encontrou uma maneira de viver pura e simplesmente de sua arte. Ele vive sem dinheiro, pintando retratos de amigos, conhecidos e desconhecidos e usando as obras para pagar alimentação, serviços, hospedagens e outras necessidades básicas diárias.

UmMundoMelhorNathanBlanc-1Israel prende jovem que se recusa a entrar no exército – Nathan Blanc tem 19 anos e nas últimas 19 semanas foi preso oito vezes por ser contra serviço militar. Nathan sente uma forte conexão com seu país, do qual tem orgulho em vários aspectos. “Mas tenho uma aversão a nacionalismo”, explica. De qualquer modo, afirma não querer “lidar com política e conflitos minha vida toda”. O jovem quer estudar ciência ou tecnologia na universidade e sabe que pode ter prejudicado de algum modo seu futuro. “Mas isso é pequeno quando comparado aos meus princípios em risco”, conclui.

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Matrix e o Despertar do Herói, cap 5 – Se todos seguirem seu próprio caminho, não haverá mais boiada e, assim, a sociedade não conseguirá se organizar o suficiente. A diferenciação individual é um grande perigo para a sociedade coletiva, mas, por outro lado, ela precisa ser renovada

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DICA DE FILME

FILMEZeitgeist-01Zeitgeist (Direção: Peter Joseph. EUA/2007)
Este filme mostra o quanto a história é manipulada pelas elites religiosas e econômicas, que “criam” os fatos e nos fazem todos acreditarmos neles, lutarmos por eles, matarmos por eles
Veja também: Zeitgeist Addendum (2008) e Zeitgeist Moving Foward (2011)

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DICA DE LIVRO

MatrixEODespertarDoHeroiCapaEdicaoDoAutor-01Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
Ricardo Kelmer, ensaio, 2005

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem descontraída, Kelmer nos revela a estrutura mitológica do enredo do filme Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

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O trem não espera quem viaja demais

16/03/2013

16mar2013

Alguns captam o recado da planta, entendendo que a trilha da liberdade existe, sim, mas deve ser localizada no cotidiano de suas vidas e, mais precisamente, em seu próprio interior

OTremNaoEsperaQuemViajaDemais-04

O TREM NÃO ESPERA QUEM VIAJA DEMAIS

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A maconha proporciona algo incrível: basta uma tragadinha para enxergar, bem à frente, a trilha da liberdade. É como se, de repente, uma trilha nítida surgisse no meio da mata espessa da vida e, ao caminhar por ela, nos libertássemos das limitações das regras sociais, abandonando a percepção padronizada da realidade e observando a vida sob um novo ângulo, bem mais interessante.

É exatamente assim, seduzidos pelo raro vislumbre dessa dimensão interior, que muitos se iniciam no uso da maconha. Porém, passado o efeito, a trilha da liberdade se dissipa feito névoa, ela que era tão nítida, tão próxima. A vida volta ao que era antes, uma mata espessa e difícil de ser vencida. Alguns captam o recado da planta, entendendo que a trilha da liberdade existe, sim, mas deve ser localizada no cotidiano de suas vidas e, mais precisamente, em seu próprio interior. Percebem que para trilharem, de fato, o caminho da liberdade, terão de livrar-se de tudo que atrapalha essa jornada interna. Terão de detectar pontos fracos e autoenganos. Terão de se comprometer com a transformação interior, autoconhecendo-se, reformulando ideias e atitudes sempre que necessário.

Fascinados com o vislumbre dessa dimensão interior que a planta lhes proporciona, muitos se frustram ao perceber que não é fácil ser livre no mundo externo do dia a dia, cheio de todo tipo de dificuldades. Muitos se cansam de procurar por si só a trilha da liberdade e então retornam à planta. Mas esquecem que ela apenas lhes faz lembrar que podem ser livres. Ela apenas mostra a trilha: cada um é que deve percorrê-la e conquistar, por si mesmo, sua própria liberdade, assumindo a responsabilidade por sua vida no dia a dia.

Sim, claro que não há nada demais em parar um pouco, fumar um baseado, relaxar, divertir-se e curtir a paisagem ao redor. A maconha também tem seu lado lúdico e ninguém é de ferro, né? O problema é o viajante relaxar demais e perder o trem, esquecer que tem de prosseguir, que há novos desafios à frente. Ele desperdiça a preciosa lição que recebeu e termina usando a maconha para fugir da realidade cotidiana, escondendo-se de seus próprios problemas e, dessa forma, criando mais um: a dependência da planta. O que era para libertar acaba virando muleta.

A maconha é isso: uma planta sagrada que pode nos reconectar à trilha interior da liberdade. Mas é bom saber que desrespeitar sua sabedoria natural leva o viajante a se acomodar na paisagem. E nada para atrasar mais uma viagem que perder o trem.

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Ricardo Kelmer 2002 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

 

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Minha noite com a JuremaNessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

A Jurema e as portas da percepção (VIP) – Relato detalhado da experiência narrada em Minha Noite com a Jurema. Exclusivo para Leitor Vip. Basta digitar a senha do ano da postagem

A vida na encruzilhada (filme: O Elo Perdido) – Essa percepção holística da vida é que pode interromper o processo autodestrutivo que nos ameaça a todos

 

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DICA DE LIVRO

BaseadoNissoCapaMiragem-01aBaseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha
Ricardo Kelmer – Contos + glossário

Os pais que decidem fumar um com o filho, ETs preocupados com a maconha terráquea, a loja que vende as mais loucas ideias… O autor reuniu em dez contos alguns dos aspectos mais engraçados e pitorescos do universo dos usuários de maconha, a planta mais polêmica do planeta. Inclui glossário de termos e expressões canábicos. O Ministério da Saúde adverte: o consumo exagerado deste livro após o almoço dá um bode desgraçado.
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DICA DE FILME

Carlos Castaneda – Especial da BBC sobre o polêmico antropólogo que estudou o xamanismo no México, escreveu vários livros e tornou-se um fenômeno do movimento Nova Era

O Elo Perdido (Missing Link, 1988)
Homem-macaco tem sua família dizimada por espécie mais evoluída e vaga sozinho pelo planeta, conhecendo e encantando-se com a Natureza. Ao comer de uma planta, tem estranha experiência que o faz compreender o que aconteceu. Roteiro e direção: Carol Hughes e David Hughes. Com Peter Elliott

 

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As encarnações da liberdade e da opressão

24/01/2013

24jan2013

No drama da existência humana liberdade e opressão sempre duelarão, e o que decidimos agora reforçará a um ou a outro lado no futuro

AsEncarnacoesDaLiberdadeEDaOpressao-2

AS ENCARNAÇÕES DA LIBERDADE E DA OPRESSÃO

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Todas as vidas, de todos os tempos, estão interconectadas. Esta é a mensagem básica do filme A Viagem (Cloud Atlas, baseado no livro Cloud Atlas Sextet, de David Mitchell), dos diretores Lilly Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer. As seis histórias que ele conta, passadas em épocas e lugares diferentes, ligam-se entre si pelas decisões individuais dos personagens que, sem saber, provocam drásticas mudanças nas vidas futuras e na própria história da Humanidade. O fato dos atores viverem vários personagens sugere que, de algum modo, somos todos os que nos antecederam e nos antecederão. Instigante, né?

Uma a uma, as histórias são contadas, alternando-se e entrelaçando-se: a escravidão de negros no século 19, o amor proibido de dois homens, o descaso da lógica capitalista pela vida humana, o cruel confinamento de idosos, a mecanização da existência numa sociedade totalitária e a prisão da mente às crenças religiosas, e em todas as histórias as pessoas lutam para libertar-se e libertar a sociedade de forças opressoras. O filme mostra que garantia de final feliz não há, pois os sistemas sociais são fortes e quem luta contra eles geralmente termina mal – mas mostra também que no drama da existência humana liberdade e opressão sempre duelarão, e o que decidimos agora reforçará a um ou a outro lado no futuro.

Desse tema da interconexão das vidas em diferentes épocas eu, particularmente, sou bem íntimo, pois gira exatamente sobre isso a trama de meu romance O Irresistível Charme da Insanidade. Em meu livro, porém, as vidas se cruzam por meio da sensação de déjà-vu, e passado e futuro influenciam-se mutuamente, numa lógica não linear do tempo. É uma metafísica difícil de conceber, eu sei, mas desconfio que logo os avanços tecnológicos nos trarão boas surpresas sobre a natureza do espaço-tempo e sobre a noção de eu. Em A Viagem, as conexões entre as vidas estão dentro da concepção comum do tempo linear, sim, mas elas também sugerem algo nesse sentido.

As irmãs Lilly e Lana Wachowski (antes, Andy e Larry) já mostraram, como diretoras, roteiristas e produtoras, que usam o cinema para nos fazer pensar criticamente sobre o mundo em que vivemos. Em Matrix e V de Vingança, há a luta incessante pela liberdade e pelo direito de todos sabermos a verdade. Agora, com A Viagem, ao mostrar as sutis conexões entre todas as vidas, elas nos incentivam a prosseguir na luta por liberdade e verdade, para que nossos esforços sejam captados no futuro pelos que lutam pela mesma causa.

Em um mundo onde as grandes corporações, que só visam ao lucro, têm mais força que os governos e estes precisam do apoio daquelas, o que pode o cidadão comum contra essa junção de poderes que vê nele apenas um eleitor ou um consumidor? Bem, pode votar mais consciente, protestar e lutar por mais transparência nas informações, democracia e respeito aos direitos humanos. Pode lutar contra o consumo exagerado e os preconceitos. Pode, e deve, fazer sua parte. Porém…

Um futuro melhor para a Humanidade e o planeta não é garantido, mesmo que você faça a sua parte, pois há outras forças envolvidas. Em A Viagem, foram em vão todos os esforços, já que a ganância destruiu a Terra? Vale mesmo a pena lutar por coisas como liberdade e verdade? Ou é mais vantajoso seguir a lei que diz que o fraco é a carne que o forte come?

Minha resposta para essas perguntas é a cena inicial do filme: se as histórias continuam a ser contadas, é porque a luta ainda não acabou.

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Ricardo Kelmer 2013 – blogdokelmer.com

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FILMEAViagem-1A VIAGEM

Cloud Atlas, EUA/ALE/Hong Kong/Cingapura, 2012
Direção: Andy Wachowski, Tom Tykwer, Lana Wachowski
Roteiro: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Susan Sarandon, Hugh Grant, Ben Whishaw, Keith David, Jim Broadbent, James D’Arcy, Doona Bae
Produção: Stefan Arndt, Grant Hill, Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Fotografia: Frank Griebe, John Toll
Trilha Sonora: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer
Duração: 172 min
Distribuidora: Imagem Filmes
Estúdio: Anarchos Productions / Media Asia Films / X-Filme Creative Pool / Asacine Produções / Five Drops / A Company Filmproduktionsgesellschaft

Treiler do filme

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Livros: He, She, We – Os rios de nossas vidas correm, na verdade, por leitos muito, muito antigos – os mesmos leitos que outras águas, ou outras pessoas, também percorreram

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Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

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DICA DE LIVRO

ICI2011Capa-01dO Irresistível Charme da Insanidade
Ricardo Kelmer, romance

Nos séculos 16 e 21, dois casais vivem duas ardentes e misteriosas histórias de amor. Ou será o mesmo casal?

Um músico obcecado pelo controle da vida. Uma viajante taoísta em busca da reencarnação de seu mestre-amante do século 16. O amor que desafia a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- acho que os irmãos Wachowski são bons candidatos a dirigir o filme do Insanidade. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – jan2013

02- bom cometário Ricardo, como dizia Platão discipulo de Socrates que o sucesso terreno (homicidas, tiranos,libertinos,…) e o insucesso terreno (Socrátes, atribuido a sua morte) não podem representar critérios de mensurabilidade do caráter de um homem (se justo ou se injusto) . No reino das aparências (mundo terreno, sensível) o que parece ser justo, em verdade, não o é, e o que parece ser injusto, em verdade, não o é.( Eduardo Bittar, professor da USP). Luis Carlos Linhares, Fortaleza-CE – jan2013



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