A ilha (uma fábula do autoconhecimento)

10/06/2010

10jun2010

Talvez uma ilha na verdade fosse uma… montanha! Sim, uma montanha com o pico fora dágua

A ILHA

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Era uma ilha que vivia no meio do oceano. Levava uma vida tranquila, sem grandes questionamentos. Conhecia outras ilhas e com elas se comunicava. Um dia, porém, uma ideia a inquietou: se toda vez que a maré baixava, uma porção de terra se descobria, então até que ponto haveria terra? Até onde a ilha existia?

Isso lhe tirou o sono por várias noites. De repente, seu conceito sobre si mesma começou a mudar. Sempre se considerara uma porção de terra boiando à superfície da água, todas as outras ilhas também pensavam assim. Mas agora já não podia crer nisso. Uma ilha não terminava logo abaixo da linha das ondas. Claro que não. Continuava para baixo. Talvez uma ilha na verdade fosse uma… montanha! Sim, uma montanha com o pico fora dágua.

Saber que continuava além daquilo que sempre julgou ser era algo espantoso de se pensar. Assim, dia após dia, a ilha prosseguiu em seus esforços de auto-investigação – precisava saber até onde existia. Mas à medida que sua atenção mergulhava em si mesma as águas ficavam mais escuras, e era preciso cada vez mais concentração para não se perder. Ela prosseguiu, mais atenta, e descobriu que aquilo que existia sob a superfície continuava sendo ela mesma, sim, mas parecia ter vida própria.

Cada vez mais surpresa, a ilha constatou que aquela parte mais profunda de si mesma levava uma existência semi-independente, porém interagindo com a superfície, influenciando e sendo influenciada por ela. A ilha, então, soube a razão por que se comportava dessa ou daquela maneira, e muitas coisas ficaram mais claras a respeito de si mesma, de seus relacionamentos com outras ilhas e da vida de modo geral. E a cada descoberta que fazia, outras mais se anunciavam, e era como se o Universo se expandisse para dentro dela mesma!

Muito tempo passou até que se convencesse, verdadeiramente, de que ela era mesmo uma montanha com o pico emerso. Estava presa a uma base, uma enorme extensão de terra que funcionava como chão. Vinham de lá todas as ilhas. E para lá voltariam todas quando os movimentos da terra, dos ventos e das águas as forçassem a isso. Mas a grande maioria das ilhas não sabia que todas elas continuavam para baixo, e por isso não entendiam as reais motivações de muito do que faziam. A parte acima da superfície era tudo que sabiam sobre si mesmas, e isso era pouco. A parte submersa, a montanha, era a parte inconsciente de cada ilha, aquilo que desconheciam de si mesmas. E o fundo do mar era o inconsciente maior, único, de todas elas, o lugar de onde vinham.

Ao entender esse fato, a ilha lembrou do tempo que sua autoconsciência se limitava àquela minúscula porção de terra à superfície. Todas as ilhas vêm do mesmo lugar – ela repetiu, intrigada com suas descobertas – porque são feitas da mesma terra… A areia e os nutrientes que as raízes de suas plantas colhem, vem tudo do mesmo chão… Todas as ilhas que existem são, no fundo, uma coisa só, que se experimenta em várias extensões de si própria… e cada extensão possui consciência de si, mas esta consciência é limitada, pois quase nunca desce em direção ao fundo, acomodando-se na parte mais superficial… Se cada ilha se aprofundasse em sua noção de si própria, acabaria se conhecendo melhor e, por virem todas do mesmo lugar, conheceria melhor a todas as outras ilhas.

A ilha viu que eram ideias grandes demais, confundiam a mente. Aquela autoinvestigação era importante, mas requeria muita atenção para não se perder durante o processo. Só assim poderia transitar com êxito entre as duas camadas de realidade, a que ficava à superfície e aquela mais escura e misteriosa que prosseguia rumo a seu próprio interior.

Enquanto tudo isso acontecia, as outras ilhas observavam seu comportamento e não entendiam o que ela tentava lhes dizer. A ilha sentiu-se só. Viu-se, então, pensando do ponto de vista da terra: se elas não se conhecem e elas todas são parte de mim, então eu ainda não me conheço tão bem… Assim sendo, como poderia condená-las? Não, não poderia. Deveria entender e aceitar o ritmo natural de cada uma das ilhas. Deveria agir com a mãe sábia e bondosa que incentiva todos os seus filhos, mas tem de respeitar o caminho individual de cada um deles…

Foi então que, subitamente, a ilha percebeu, num intenso clarão de compreensão, que toda aquela vasta extensão de terra lá embaixo funcionava como um útero a expulsar pedaços de si mesma, forçando-os à superfície. Uma vez lá, eles se entendiam ilhas e começavam sua aventura individual em busca de saber quem de fato eram, de onde vieram e por que existiam. Mas por que a terra fazia isso? Talvez para ela própria aprender com a experiência individual de cada ilha. Ao morrer, uma ilha levava à terra sua própria experiência que serviria para formar as futuras ilhas. Assim, toda ilha continha em si, sem se dar conta, a mesmíssima areia das que a antecederam. Através da vida de cada uma das ilhas, a terra como um todo estava aprendendo cada vez mais sobre si mesma…

Se isso era verdade, então cada ilha possuía uma enorme responsabilidade: conhecer-se a fundo, viver a vida da melhor forma possível e aprender o máximo que pudesse, pois tudo o que vivesse formaria o material do qual seriam feitas as ilhas que a sucederiam.

A vida é mesmo uma tremenda aventura! – pensou a ilha enquanto se divertia com os olhares estranhos que as outras lhe lançavam. Uma aventura de cada ilha. Mas também da terra inteira.

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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SOBRE CARL JUNG

Carl Gustav Jung (26.07.1875 – 06.06.1961)
Psiquiatra e pensador suíço. Fundador da psicologia analítica, também conhecida como psicologia junguiana. Jung, assim como Joseph Campbell (1904-1987), ajudou a reacender o interesse sobre a mitologia, situando os mitos como elementos essenciais na busca do indivíduo por sua essência e completude

Jung – a jornada do autodescobrimento – Vídeo com um resumo da vida e das ideias de Carl Jung, o psicólogo e pensador suíço criador da teoria do inconsciente coletivo

Jung na Wikipedia

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Oi Ricardo, parabéns pela concepção da ilha. Nem Jung teria feito melhor! Abraços. Angela Schnoor, Rio de Janeiro-RJ – nov2004

02- Caro Ricardo , Fiquei sendo seu fã desde que em 1999 qdo assiti a uma palestra tua no auditório do colegio capital sobre o filme MATRIX. Na tua palestra fizeste uma analogia de espelhos dentro de uma bola de vidro a refletir a luz do sol com nós seres humanos e perguntaste: O que é necessário fazer para mudar o modo do globo de vidro refletir a luz do sol? Ao que respondeste… basta mudar um só espelho. Assim querias dizer que não precisamos mudar ninguém somente a nós mesmo. Cara vc não sabe o quanto já falei de vc para as pessoas a quem conto esta analogia. O fato é que ouvir aquelas tuas palavras me levou a uma pesquisa igual “A ILHA”. Continue sempre assim… em constante questionamento consigo mesmo pois acredite foi assim que passei a ser uma pessoa melhor. Luiz Ferreira de Sousa Junior, Fortaleza-CE – nov2004

03- Mais um que a Amandinha aqui se Identifica… A Ilha!!! Belíssimo!!! hehehee Bkjão bom carnaaaaaaa aeeeeee hehehe. Amanda Gallindo Borges, Florianópolis-SC – fev/2007

04- Olá Xará, Há dias que quero te prestar um elogio. Encontrei em seu site um conto. A Ilha. Se eu pudesse limitar em uma única palavra o que dali absorvi, eu diria que INSPIRAÇÃO seria ela. Sua mensagem provoca o despertar. Oxalá o despertar coletivo. Mas, se assim não for, que seja o individual. Ilhas somos todos, alguns já sabem, outros ainda não. Gosto de pensar que já sei. Creio que cada um de nós tem um talento único, porém é muito difícil descobrir qual. Talvez o meu seja contemplar. Há tantas coisas belas por aqui nesta vida que muita gente não vê, ou se vê, não dá a atenção devida. Mas, quem sou eu para dizer quão atento alguém deve ser ?! Eu também procuro ser uma ilha que se diverte com esses pensamentos. Seu conto é uma coisa bela. Parabéns. Ricardo Rodriguez, São Bernardo do Campo-SP – fev2007

05- Li o primeiro texto do seu livro (“A Ilha”) e gostei da abordagem, da ilha como um ser pensante. Vou ler os outros com a calma que a leitura exige…rs De minha parte, tenho um blog (link no rodapé do e-mail) e um fotolog (http://cidadeembaixa.nafoto.net) ansiosos por comentários. Quando tiveres um tempinho, visite. Alessandro Pinesso, São Paulo-SP – ago2007

06- Que bom reler isso! Dos teus livros que eu li, o que eu mais gosto é o Arte Zen, porque lá eu encontro os meus dois RKs prediletos: aquele cara com um humor cruelmente puro e um outro, que me leva pra navegar nas águas densas da alma e da mente. Eu adoro essa crõnica da ilha que, como outros textos teus, tem sido um guia precioso nos mares que essa ilhazinha aqui habita. Beijos da tua leitora mais taradinha! Kdela, Fortaleza-CE – abr2009

07- Prarabéns Kelmer pelo texto da “ilha” Adorei! Seus escritos estão sempre contribuindo para meus estudos! Dóris Burlamaqui, Fortaleza-CE – nov2010

08- É muito difícil baixar a maré e enxergar toda a extensão de nós mesmos. Mas quando nos dispomos a fazer isso é muito recompensador. Maravilhoso texto!!! Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – abr2011

09- Adorei esse trecho: “Se isso era verdade, então cada ilha possuía uma enorme responsabilidade: conhecer-se a fundo, viver a vida da melhor forma possível e aprender o máximo que pudesse pois tudo o que vivesse formaria o material do qual seriam feitas as ilhas que a sucederiam.” Paula Izabela, Juazeiro do Norte-CE – abr2011

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Glossário de termos e expressões canábicos

31/05/2010

31mai2010

BaseadoNissoCapaMiragem-01a

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BaseadoNissoCapaMiragem-01aEste glossário integra o livro Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha,
de Ricardo Kelmer

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PARA COMPRAR

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> Livro impresso e PDF

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GLOSSÁRIO DE TERMOS E EXPRESSÕES CANÁBICOS

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Por envolver algo proibido por lei, o universo cultural dos usuários de maconha é feito de comunicações sutis e muitas vezes codificadas. A necessidade de segurança os leva a serem criativos, e a espirituosidade e o bom humor são uma constante. Como ocorre com a língua de modo geral, os termos e expressões canábicos variam de acordo com os contextos social, temporal e geográfico do usuário, mas há aqueles de uso geral, e a todo momento surgem novos termos. Este trabalho, portanto, representa uma ínfima parcela da vasta cultura linguística da maconha no Brasil.

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A

Acontecedor. Fumo que atrai acontecimentos inusitados ou interessantes. Da última vez que fumei do acontecedor, peguei o mesmo elevador que o Clodovil e o Tiririca…

Algum. Cigarro de maconha. Tem algum aí?

Alguém vai? Discreta indagação ou convite para fumar. Vocês aí, alguém vai?

Alto. Pessoa que está sob razoável efeito da maconha. Quando ela começa a querer tirar a roupa, já sei que tá meio alta.

Apertar. Preparar o cigarro. Muitos usuários consideram isso uma arte. Vou apertar mas não vou acender agora…

Apresentar. Oferecer maconha para que outros possam também usufruir. Pô, ninguém vai apresentar nada?

Aquele. Cigarro de maconha. Cadê aquele?

Asilado. Pessoa que está ou é desesperada para fumar. A gata tá asilada!

Avião. Aquele que faz a intermediação da compra ou que compra a maconha onde ela é vendida e leva ao usuário. Aquele nosso avião da Rocinha dançou!

Azucrinado. Sob forte efeito da maconha. Cara, fiquei azucrinado aquele dia que esqueci meu próprio nome.

B

Baculejo. Revista feita por policiais à procura de drogas. O mesmo que geral. Porra, tão dando baculejo até na saída da missa!

Bagana. Resto do cigarro de maconha. Apesar de apreciada devido a uma maior concentração de THC, apresenta o inconveniente de proporcionar prova material para um possível flagrante. O mesmo que beata, bia ou guimba. Ih, rapaz, esqueci a bagana na caixa de fósforo do papai.

Bagulho. Maconha. E aí, quem trouxe o bagulho?

Bahia. A pessoa de quem se espera que tenha maconha e que não tem (em oposição a salvador). Usado também para saber se a pessoa tem ou não maconha. Tu é Bahia ou Salvador?

Bala. Pequena porção de maconha vendida nas bocas de fumo. O mesmo que dólar. Também usado no diminutivo balinha. Vai uma bala aí, bacana?

Balão. Ato de pagar pela maconha e não receber. Naquela boca mauricinho leva balão.

Bandeira. Ação comprometedora que permite que se perceba que alguém está sob efeito, falando sobre, manuseando ou qualquer coisa relacionada à maconha. Segura tua gata aí que ela tá dando a maior bandeira.

Bandeiroso. Aquele que dá bandeira. Nunca vi ninguém mais bandeiroso!

Banzo. Estado causado pela maconha, que deixa a pessoa lerda e sem ação. Semelhante a morgação. Essa coisa me deu um banzo desgraçado.

Barato. Denominação clássica para o efeito da maconha. Esse cigarrinho aqui é daquele tipo que dá barato?

Baseado. Denominação clássica para cigarro de maconha. Deixa de papo, Íris, e aperta logo esse baseado!

Bater. Acontecer (o efeito da maconha). Fumei faz meia hora e agora que a lombra bateu.

Bater uma bola. Fumar maconha. Vamos bater uma bola antes ou depois?

Baurete. Cigarro de maconha. Termo cuja criação é comumente atribuída ao músico Tim Maia. Ô, Nelson Mota, não vai rolar um baurete?

Beata. Resto do cigarro de maconha. O mesmo que guimba. Joga fora que em viagem a beata é sempre da estrada.

Beatriz. Resto do cigarro de maconha. Também utilizado na forma abreviada: bia. Por falar nisso, quem é que tá atualmente com a Beatriz?

Beque. Cigarro de maconha. Wanessinha adora um beque antes de transar.

Beise. Cigarro de maconha (derivado de baseado). O papo tá muito bom, mas e o beise, tá com quem?

Berlota. Cada inflorescência da planta de maconha no ponto para ser preparada para fumar. Aquela coisa tem cada berlota!

Besteirinha. Pequena quantidade de maconha. Só consegui uma besteirinha.

Bia. Resto do cigarro de maconha. Não acredito! Não sobrou nem a bia?

Boa-noite. Tradicional cigarro que se fuma antes de dormir. Também conhecido por dorminhoco. Vamos fumar o boa-noite?

Bobeira. 1. Ação involuntária que permite que outros percebam que alguém está sob efeito da maconha. O mesmo que bandeira. Quando o Marquinhos fuma, fica dando bobeira! 2. Bobagem que se faz ocasionada pelo efeito da maconha. Da última vez que fumei e bebi, fiz cada bobeira…

Boca. Local onde é vendida a maconha (também usado de forma abreviada: boca). Aquela boca tá a maior sujeira.

Bode. Indisposição momentânea causada pela maconha. Não vou sair mais não, me bateu um bode…

Bola. Ver Dar uma bola.

Bolar. Fumar maconha. Será que a gente vai pro inferno se bolar um aqui na igreja?

Boldinho. Maconha. Originado de boldo, planta da qual se faz chá terapêutico. Pra dor de estômago, indico um boldinho…

Bomba. Maconha de forte efeito. Tenho uma bomba aqui que vai te deixar de quatro.

Bom-dia. Tradicional cigarro que se fuma após acordar. Também conhecido por despertivo. Quem é que vai no bom-dia?

Boqueiro. Aquele que é dono de boca de fumo ou negocia com maconha. Eu nunca ia desconfiar que a dona Juju era boqueira.

Braço-de-Judas. Cigarro muito grosso. Em referência à madeira da qual é feito o braço do boneco que é queimado nas festas juninas. Eita que hoje só tá rolando braço-de-Judas!

Brancão. Desmaio passageiro ocasionado por forte efeito da maconha. Originado do fato de que se vê tudo branco logo antes do desmaio. Deu um brancão na coitada e ela caiu no meio do velório.

Brau. Clássica denominação para cigarro de maconha. Melhor deixar o brau com o Vitinho que ele tem cara de santo.

Braúlio. Designação discreta para brau. O Braúlio tá gordo!

Braulito. Entidade sobrenatural considerada o espírito da maconha, e que surge quando se fuma. Também conhecido, de modo mais solene, como Grande Braulito. Ver Mescalito. Ó Grande Braulito, mostre-nos onde conseguir mais dessa marofa.

Brisa. Efeito da maconha de pouca intensidade. Pra assistir o culto, recomendo só uma brisa, senão dá crise de riso.

Brocado. Sob efeito do apetite acentuado que surge após se fumar maconha. O mesmo que laricado. O cara tá brocado!

C

Cabeça. 1. Cada inflorescência da planta de maconha já preparada e pronta para tratar. O mesmo que berlota e camarão. Essa maconha só tem cabeça… 2. Cada pessoa que vai participar do cigarro de maconha. Só essa tripinha pra estas três cabeças?!

Cabeça feita. Sob efeito da maconha. Não, muito obrigado, já tô de cabeça feita.

Cabeça-feita. Aquele que é usuário. Geralmente utilizado de forma elogiosa, no sentido de que a pessoa é inteligente, de opiniões formadas e/ou de bem com a vida. Pode referir-se também à relação tranquila que se tem com a maconha. Nessa roda só tem cabeça-feita.

Cabeça grande. Motivo (ou pretexto) pelo qual certos maconheiros fumam bastante, pois é necessário muita fumaça para encher sua cabeça, ao contrário de quem tem a cabeça pequena (cabecinha). Vou fumar esse sozinho porque minha cabeça é muito grande…

Cabeção. 1. Aquele que adora fumar maconha. Só tem cabeção nesse show. 2. Conotação depreciativa para aquele que está sempre querendo fumar maconha e não perde uma rodada, podendo não raro adquirir fama de chato oportunista. Fuma logo que lá vem o cabeção!

Cabelo de punk. Maconha de baixa qualidade por ser proveniente da folha e não da flor da planta. Os pedaços das folhas lembram os cabelos espetados dos punks e podem atrapalhar a confecção do cigarro. Esse cara só traz cabelo de punk.

Cachimbo da paz. Designação solene para cigarro de maconha. Em referência ao hábito indígena de se fumar coletivamente em eventos importantes. Tenho a honra de comunicar aos nobres colegas que o cachimbo da paz vai rolar lá na casinha do motor.

Cadê? Discreta indagação que se faz para saber se alguém tem maconha. Esse papo tá muito bom mas… cadê?

Caixão. Maconha de forte efeito, que deixa a pessoa atordoada (originado de onda caixão, que derruba e atordoa o banhista). Pega leve que esse fumo é caixão.

Camarão. Inflorescência da planta de maconha que lembra um camarão. O mesmo que cabeça. Tu vai ver como só tem camarão.

Canabis. Denominação para maconha ou cigarro de maconha. Originada do termo científico Cannabis sativa. Ah, nada como uma canabis pra relaxar…

Canal. Pessoa que sabe onde encontrar a maconha ou que faz a intermediação da compra. Eu sei de um canal que nunca falha.

Carburar. Fumar. Até a professora de ginástica carbura um antes da aula.

Careta. 1. Aquele que não fuma, não gosta, se incomoda com usuários e/ou é contra o uso da maconha. Lá em casa todo mundo é careta. 2. Cigarro comum, que não é de maconha. Acende agora um careta pra disfarçar. 3. Estado do usuário quando não está sob efeito da maconha. Vou apertar outro que eu já tô careta de novo.

Careta esperto. Aquele que não fuma mas não se incomoda de ter amigos usuários nem condena o uso da maconha. Minha irmã é careta esperta, mas meu irmão é careta careta mesmo.

Cavidade bucal. Discreta denominação para boca de fumo. Abreviação (mais discreta ainda): cavidade. Descobri uma cavidade numa rua atrás da delegacia.

Cecília. Semente de maconha. Não esquece de tirar as cecílias.

Cemitério. Lugar reservado para guardar as guimbas do cigarro, geralmente uma caixa de fósforo ou similar. Muitos maconheiros, quando estão sem maconha, procuram o cemitério e desmancham as guimbas para formar quantidade suficiente para fazer um novo cigarro. Estratégia utilizada também quando se quer fumar uma maconha com maior quantidade de THC, pois o mesmo se concentra nas guimbas. Guarda a bia aqui no cemitério.

Cera. Maconha da melhor qualidade. Uau, essa aqui é uma cera!

Chapação. Estado provocado por forte efeito da maconha. Menina, foi uma chapação geral!

Chapado. Aquele que está sob forte efeito da maconha. Cheguei chapadão lá no batizado!

Chapar. Ficar sob forte efeito da maconha. Putz, chapei total, vou dormir.

Charlie Brown. Cigarro de maconha, em referência ao famoso personagem de quadrinhos e TV. Tá na hora do Charlie Brown.

Charo. Cigarro de maconha. Libera o charo aí.

Chia. Resto do cigarro de maconha. Onde mesmo que eu deixei a chia?

Cigarro de carnaval. Cigarro de maconha. Variações: cigarro de artista, cigarro do capeta e cigarro de índio. Comumente usado no diminutivo. Cerveja não tem, mas eu trouxe um cigarrinho de carnaval…

Cinquinho. Pequena porção de maconha no valor aproximado de cinco reais. Porra, cara, tu não salva nem cinquinho não?

Cocô. Pequenos pedaços de maconha desprendidos devido ao manuseio de pedaços maiores. Geralmente é usado no diminutivo. Boa notícia: ainda sobraram uns cocozinhos…

Coice de mula. Efeito atordoante da maconha. Menino, que coice de mula que eu levei ontem…

Coisa. Maconha. E a coisa, quem é que tem?

Coisero. Pessoa que ganha a vida negociando com maconha. Originado de coisa. Pois é, o Gilmar é coisero.

Coisinha. Pequena quantidade de maconha. Essa coisinha aí não faz nem um baseado.

Confeccionar. Preparar o cigarro de maconha. O mesmo que apertar. Me apaixonei quando te vi confeccionando um brau enquanto com a outra mão passava batom.

Cortar o rabo. Ato de iniciar alguém a fumar maconha, muitas vezes revestido de caráter cerimonial por ser considerado um momento antológico que o usuário nunca esquece (como o primeiro porre). Devidos a diversos fatores, como o nervosismo e a expectativa, que impedem o relaxamento, a primeira vez nem sempre ocasiona uma viagem. Paulinha cortou o rabo de todas as amigas lá em Canoa.

Cuspindo bala. Estado muito comum causado pela maconha, logo após fumar, caracterizado pela secura na boca e falta de saliva para cuspir. Pede logo duas cervejas que eu tô cuspindo bala.

D

BaseadoNissoCapaMiragem-01aDa Jamaica. Maconha ou cigarro de boa qualidade, em referência à maconha jamaicana. Ah, esse é da Jamaica!

Da lata. Maconha da melhor qualidade. Referência à maconha encontrada embalada em latas, jogada ao mar por tripulantes de um navio estrangeiro para se livrar da prova do delito, fato ocorrido em 1989 no litoral do estado do Rio de Janeiro. Quarta-feira vai chegar uma da lata!

Danada. 1. Maconha. Cadê a danada? 2. Maconha de boa qualidade. Essa é danada!

Dançada. Ato de dançar. Não passa por aquela estrada que é dançada certa.

Dançar. Ser pego em flagrante com maconha ou fumando, pela polícia, pais ou outras pessoas comprometedoras. Vocês souberam que o Zenon dançou?

Dar uma bola. Fumar maconha. Variações: dar um dois, dar um pau e dar um pega. E aí, vamo dar uma bola pra comemorar que hoje é segunda?

Dar uma goma. Passar saliva no cigarro de maconha para que ele queime por igual e/ou para que não levante chama. Dá uma goma no tcheuris senão o vento vai fumar tudinho!

De baixo. Qualidade de quem não tem maconha. Quando eu tô de baixo, nunca tem blitz na rua.

De bobeira. Estado de silêncio e quieta concentração causado pela maconha. Variação: de bobs. Ih, a Andrea tá de bobeira…

De bode. Estado de lerdeza ou preguiça física e mental causado pela maconha ou pelo término do efeito. O mesmo que morgado. Ele fumou um e ficou lá na rede, de bode.

Debulhar. Preparar a maconha para ser fumada, picotando-a e separando galhos e sementes. O mesmo que tratar e destrinchar. Que beleza, já tá debulhada.

De Cabrobó. Maconha da melhor qualidade. Referência ao município pernambucano de Cabrobó, conhecido produtor de maconha. Vai chegar uma remessa de Cabrobó pra Semana Santa!

De cara. Estado daquele que não se encontra sob efeito da maconha ou não pretende fumar. Hoje eu tô de cara.

Dechavar. O mesmo que destrinchar e debulhar.

De cima. Qualidade de quem tem maconha. Não ande de cima por aqui que é sujeira.

Defumar. Fumar em um ambiente ou lugar pela primeira vez ou em homenagem a algo. Vamos defumar o carro novo da Ticiane!

Delegado. Pessoa que, numa roda de fumo, retém, consciente ou não, o cigarro para si. Ei, delegado, tu tá prendendo o brau.

Delírio. Colírio. Usa-se colírio para eliminar a vermelhidão dos olhos, comum após fumar maconha. Alguém tem um delírio aí?

Descolar. Conseguir maconha. Vou lá no morro ver se descolo uma coisinha.

Despertivo. Tradicional cigarro de maconha que se fuma após acordar. Também conhecido por bom-dia. E aí, o despertivo rola antes ou depois do café?

Destrinchar. Preparar a maconha para ser fumada. O mesmo que debulhar e tratar. Deixa que eu destrincho, tu demora muito.

Detonado. 1. Sob forte efeito da maconha. Dei só dois pauzinhos e fiquei detonado! 2. Diz-se do fumo que já acabou. Tem mais nada, foi tudo detonado ligeirinho.

Detonar. 1. Acender o cigarro para ser fumado. Detona o brau!!! 2. Fumar muito ou rapidamente. A turma detonou duzentos gramas naquele fim de semana.

Dezinho. Porção de maconha no valor aproximado de dez reais. Quero muito não, só dezinho mesmo.

Diamba. Maconha. Cadê a diamba?

Dichavar. O mesmo que dechavar. Tu dichava e eu aperto.

Dificultar. Dizer ou fazer algo que ponha obstáculos ou impedimento ao ato de comprar, fumar ou qualquer coisa relacionada a maconha. Qualé, maninha, vai dificultar mesmo?

Digestivo. Tradicional cigarro de maconha que se fuma após as refeições. Né por nada não, mas um digestivo agora caía bem…

Dispensar. Jogar fora a maconha ou a guimba do cigarro. A dispensa ocorre geralmente para evitar o flagrante ou porque o que sobrou do cigarro é pouco. Pode dispensar que eu já tô doidão.

Doidaço. Ver doido.

Doidão. Ver doido.

Doideira. 1. Efeito da maconha. Me deu uma doideira tão grande que eu fiz cinco músicas só no intervalo da novela. 2. Diz-se daquilo que é estranho ou interessante. Aquela viagem foi uma doideira!

Doido. 1. Sob efeito da maconha. Fiquei doido só com aquele pauzinho. 2. Usuário de maconha. Nunca imaginei que a Tetê fosse doida. 3. Qualidade daquilo que é estranho ou interessante. Esse conto do Kelmer é doido!

Dólar. Pequena porção de maconha vendida nas bocas de fumo. Também usado no diminutivo dolinha. Porra, o cara quer me vender o dólar a vinte reais!

Dorminhoco. Tradicional cigarro de maconha que se fuma antes de dormir. Também conhecido por boa-noite. Agora é sério, vamos fumar o último dorminhoco!

Douglas. Maconha. É provável que uma quantidade incontável de nomes de pessoas sejam usados com este nobre fim. O Douglas mandou avisar que infelizmente não vai poder vir.

Dragão. Aquele que quando fuma maconha, fuma bem mais que todos. Fuma logo antes de chegar o dragão.

E

E aí? Clássica e discreta indagação dos usuários que objetiva saber se alguém tem maconha ou se está no momento de fumar. E aí?

Emaconhado. Sob efeito da maconha. Também usado na forma maconhado. Esse povo só pode estar emaconhado.

Empapuçar. Enjoar por fumar em excesso. Não quero mais, tô empapuçada.

Encarar uma social. Ver social.

Encaretar. 1. Diz-se do efeito da maconha que passou, repentinamente ou aos poucos. Fiquei tão nervoso que encaretei. 2. Tornar-se careta. Depois que casou, a Gigi encaretou de um dia pro outro.

Encomenda. Designação discreta para maconha. Pode vir que a encomenda já chegou.

Engolir. Último recurso do usuário na iminência de ser flagrado. Ih, sujou! Engole, engole!

Enrolar. Preparar o cigarro, acondicionando a maconha na folha de papel. Deixa de papo e enrola logo esse negócio!

Entregação. Qualidade de pessoa, lugar, situação ou objeto que compromete o usuário. Esse livro que tu tá lendo é a maior entregação.

Entregar. 1. Comprometer, intencionalmente ou não, quem fuma ou está fumando ou manuseando maconha. Te abaixa aí, Fernandinho, ou tu ainda vai entregar a gente… 2. Denunciar quem fuma maconha. Foi a vizinha aqui de cima quem me entregou.

Envernizar. Atingir certo ponto onde, por ter fumado demais, a maconha não faz mais efeito. Pode se referir a períodos de algumas horas ou anos. Depois do quinto eu envernizei.

Envernizado. Aquele que se envernizou. A Vaninha não precisa fumar porque já tá envernizada.

Erva. Clássica denominação para maconha. Variação: erva maldita. O melhor lugar pra queimar erva é lá no meio do chuchuzal.

Esconder o jogo. Não se manifestar ou dizer que não tem maconha quando na verdade tem e há pessoas querendo fumar. Ih, ó o cara, escondendo o jogo…

Esperto. 1. Aquele que fuma. Fica frio que aqui todo mundo é esperto. 2. Estado de atenção e segurança quando se fuma ou em qualquer situação relacionada a maconha. Fica espertinha aí que agora a gente vai passar pela Rodoviária. 3. Cigarro de maconha. Tem um esperto aí?

Estandarte. Ação exageradamente comprometedora por parte do usuário que permite que outros saibam sobre sua condição. Olha o estandarte passando na avenida!

Estojinho. Recipiente utilizado pelos usuários para guardar maconha e objetos úteis como seda, pilão, tesourinha, colírio e outros. Como bom virginiano, eu trouxe meu estojinho…

Estudantil. Cigarro de pequenas proporções. Tenho aqui um estudantil, só pra dar uma ligadinha.

F

BaseadoNissoCapaMiragem-01aFalsa-lombra. Aquele que finge ou exagera o efeito da maconha. Que nada, isso é coisa de falsa-lombra.

Fazer. Forma abreviada de fazer a cabeça. E aí, fez?

Fazer a base. Fumar antes de alguma situação específica, para vivê-la sob efeito da maconha. Antes de sair a gente faz a base lá em casa.

Fazer a cabeça. Clássica designação para fumar maconha. Vamos fazer a cabeça que o filme já vai começar.

Fazer a canoa. Ato de preparar o papel no qual o cigarro de maconha será feito. Consiste em friccionar as bordas do papel uma contra a outra, deixando-o no formato similar ao de uma canoa. Faz a canoa pra eu apertar o brau.

Fazer a social. Ver social.

Fazer uma sauna. Fumar maconha junto com outras pessoas em local pequeno e fechado. Ver sauna. Fecha a porta que a gente vai fazer uma sauna.

Fechar. Preparar o cigarrro de maconha. O mesmo que apertar. A fissura era tão grande que fecharam o brau num papel de embrulhar pão.

Fedorento. Cigarro de maconha. Ô Luciano, cadê o fedorento?

Finélio. Ver fino.

Finólio. Ver fino.

Fino. 1. Cigarro de maconha (comparativamente ao cigarro comum). Tem um fino aí pra gente?  2. Cigarro muito pequeno. Variação: finélio, finólio, finório e fino de cadeia (em referência aos pequenos e discretos cigarros de maconha conseguidos pelos presos nas cadeias). Também utilizado no diminutivo fininho. Pô, Alexandre, tanta maconha aí e tu faz um fino de cadeia!

Fissura. Desejo intenso de fumar maconha. A fissura era tão grande que ele comeu ela só pra fumar um brau.

Fissurado. Indivíduo que tem fissura. Esse cara vive fissurado.

Fumacê. 1. Ato de fumar. Tá rolando um fumacê lá na cozinha. 2. Fumaça do cigarro. Fecha a janela que o fumacê tá no mundo!

Fumo. O mesmo que maconha. Também utilizado no diminutivo “fuminho”. Ultimamente só tem pintado fumo ruim.

Fumódromo. 1. Local apropriado para fumar maconha. O fumódromo é lá atrás, debaixo do cajueiro. 2. Tradicional ponto de uma localidade aonde os usuários costumam ir para fumar ou passam fumando. Aquela rua é o melhor fumódromo da cidade.

Futum. Cheiro forte de maconha que fica no ar, em parte do corpo ou em um objeto que foi manuseado enquanto se fumou ou que é manuseado constantemente pelo usuário. Traz um Bom Ar que aqui tá o maior futum.

G

Game. O mesmo que jogo (originado do inglês). Toma aí meus vinte pra fazer um game.

Ganja. Maconha (do sânscrito ganjica). Uma das exigências da palestrante é uma ganja da boa antes de começar a palestra.

Garantir. 1. Assegurar a maconha. Deu pra garantir o do fim de semana. 2. Demonstrar eficiência em relação à maconha, como preparar, fumar, fazer comércio, manter-se discreto etc. Pô, meu irmão, se garanta aí!

Garantido. Certo, assegurado. Refere-se geralmente ao ato de conseguir maconha. Fique tranquilo que comigo é garantido.

Gelar. Ato de apagar, sem querer, o cigarro de maconha. Ih, o cara deixou o brau gelar.

Geral. Revista feita por policiais. Esconde bem que a gente vai passar por uma geral.

Goma. Saliva. Usada para umedecer o papel do cigarro para que ele queime por igual e/ou para que não acenda chamas. Passa uma goma no baseado.

Grande Braulito. Ver Braulito.

Guimba. Resto do cigarro de maconha. O mesmo que bia. O baseado era tão grande que a guimba ficou do tamanho de uma caneta!

H

Haxixe. Resina extraída da planta de maconha. Vamos fumar um com haxixe pra comemorar que hoje é terça.

História. 1. Conjunto de fatos e/ou ações marcantes no universo dos usuários. Aquela festa foi a maior história! 2. Maconha. Também utilizado no diminutivo. Só sobrou uma historinha aqui…

I

Impregnar. Insistir o tempo todo para fumar maconha. Leva essa menina que ela já tá impregnando!

Impregnado. Indivíduo, ambiente ou objeto que está com um forte cheiro de maconha. Esse teclado tá impregnado!

Intera (é). Pequena porção de maconha que será juntada a outra para formar quantidade suficiente para um cigarro. Alguém tem uma intera aí?

Intoca. Local onde a maconha está escondida. A parada tá numa intoca ali que só eu sei.

Intocar. Esconder a maconha. Ih, eu intoquei mas agora não sei mais onde foi…

Iracema. Apetite exagerado que surge após fumar. O mesmo que larica. Tô na maior iracema!

J

Jererê. Forma clássica para designar cigarro de maconha. Muito utilizado numa conhecida cantilena em carnavais ou ocasiões festivas. Ê, jererê, je-rê-rê-rê-rê-rê-rê… Viva a maconha!

Joana. Designação para maconha. Abreviado de marijuana. Como é, a Joana vem ou não vem?

Jogo. Transação que envolve o comércio da maconha. Vamos fazer um jogo legal pro fim de semana.

L

BaseadoNissoCapaMiragem-01aLarica. Apetite exagerado comum após fumar. Me deu uma larica tão desgraçada que eu comi feijão frio com sorvete.

Laricado. Com muito apetite após fumar maconha. Tranca a geladeira que tá todo mundo laricado!

Lariquento. 1. Diz-se do fumo que desperta a fome. A gente fumou aquele lariquento e depois foi direto pro supermercado. 2. Aquele que costuma ter muita fome depois que fuma. Fumar em casa com esse lariquento é o maior preju, minha geladeira não aguenta.

Laura. Forma discreta para larica. Pronto, chegou a Laura.

Leda. Discreta denominação para seda, o papel usado para confeccionar o cigarro. Não acredito que vamo deixar de fumar porque ninguém tem uma leda…

Lei seca. 1. Falta de maconha momentânea. A cidade tá numa lei seca horrível. 2. Impossibilidade de se fumar maconha. Quando meu irmão tá aqui, rola a lei seca.

Liberado. Livre para fumar tranquilamente. Vai na boa, galera, que aqui no escritório é liberado.

Liberar. Fornecer maconha. Pô, libera aí, Aninha, tá todo mundo na fissura…

Ligar. Acontecer (o efeito da maconha). O mesmo que bater. Ah, agora ligou.

Ligadeira. Efeito da maconha, oposto à morgação. Me bateu uma ligadeira que eu fiquei quatro horas jogando gamão sem nem piscar.

Ligado. Sob efeito da maconha. Silvana só gostava de transar ligada.

Light. Maconha que não é muito forte. Esse fumo é light, Luíza, pode dar até pra tua mãe…

Limpeza. Qualidade da pessoa, lugar, objeto ou situação em que é permitido fumar, falar sobre maconha e afins. Pode ficar despreocupado, todo mundo aqui é limpeza!

Livrar. Oferecer maconha para quem não tem e está com muita vontade de fumar. Se o Mazinho não tivesse livrado, eu tinha ficado o fim de semana de cara.

Livrar a cara. Fumar um cigarro de maconha. Diz-se em referência a de cara. Tem unzinho aqui pra gente livrar a cara.

Lombra. Efeito da maconha. Essa música é resultado de uma lombra que a gente teve subindo a serra.

Lombra torta. Ação estranha, sem sentido, inconveniente ou prejudicial a si próprio ou a outros causada pela maconha. Que lombra torta… O cara foi embora a pé!

Lombrado. Sob efeito da maconha. A Carmem tava tão lombrada que dizia que tinham mudado o mar de lugar.

Louco. Sob efeito da maconha. Eu fiquei tão louca que sentia cada nota da música na minha pele…

Luz. Fraco efeito da maconha. É, deu uma luz…

M

Maconhado. Sob efeito da maconha. Também usado na forma emaconhado. Quando ele trepa maconhado, fica me chupando por duas horas.

Maconheiro. 1. Usuário de maconha. Maconheiro é sempre o filho dos outros, nunca o seu. 2. Pé de maconha. Abacate vem do abacateiro, mamão do mamoeiro, maconha do maconheiro.

Maconheiro sem-vergonha. Designação genérica usada por antipatizantes da maconha para depreciar usuários. Variação: maconheiro safado. Isso é coisa de maconheiro sem-vergonha!

Mal-com-ele. Discreta designação para maconheiro. Aqui só tem mal-com-ele!

Malhação. Diminuição deliberada de uma porção de maconha em quantidade e/ou qualidade. Esse fumo tá a maior malhação.

Malhar. Ato de fazer com que a porção de maconha que está sendo negociada, perca em quantidade e/ou qualidade sem que a outra pessoa perceba. Vou malhar o fumo desse otário.

Maloca. Local onde se esconde a maconha. O mesmo que intoca. Eu tenho uma maloca lá no quintal.

Malocar. Ato ou ação de esconder a maconha. O mesmo que intocar. O cara malocou a maconha pra poder fumar sozinho!

Maluco. Usuário de maconha. O mesmo que doido. Todo ano a gente faz o racha: bebum contra maluco.

Manga rosa. Maconha da melhor qualidade. Tem uma cor avermelhada característica. O feriadão tá salvo, chegou da manga rosa!

Maquininha. Engenhoca própria para confeccionar cigarros de tabaco, também utilizada pelos usuários de maconha. Comprei esta maquininha numa feira esotérica.

Maresia. Fumaça do cigarro de maconha, que pode causar efeito também em quem não fumou. É comum que o usuário desenvolva uma alta capacidade de sentir o cheiro da fumaça, por menor que seja ou por mais longe de onde venha, e que isso lhe proporcione uma imediata e rápida sensação de esperança e felicidade. Vovó ficava doidona só com a maresia que vinha do quarto.

Mareado. Estado de quem fumou passivamente e ficou sob leve efeito da maconha. Ih, o gato ficou mareado…

Maria Joana. Maconha. Originado de marijuana. Faz tempo que eu não falo com a Maria Joana.

Marica. Piteira própria ou improvisada para fumar o cigarro, por conta da dificuldade de se fumar a guimba ou para não deixar cheiro forte nos dedos. Na sex-shop eu vi uma marica com o formato de uma piroca.

Marijuana. Clássica denominação para maconha (do espanhol). Tá chegando a marijuana!

Marofa. Maconha. Cadê a marofa?

Marola. Efeito de pouca intensidade da maconha. Ver onda. Foi só uma marola, mas valeu.

Massa. 1. Maconha. Tá na hora de servir a massa! 2. Maconha da melhor qualidade. O cara tem uma massa!

Matar. Fumar a guimba do cigarro de maconha até não sobrar mais nada. Às vezes dá-se a alguém a honra de matar a guimba, outras vezes é algo disputado. Pode matar que eu já tô doidão.

Matinal. O primeiro baseado do dia. O mesmo que despertivo ou bom-dia. Agora vai rolar o matinal que é pro dia nascer feliz.

Mato. Maconha. Geralmente utilizado no diminutivo. Ouvi dizer que você tem um matinho aí pra melhorar essa festa…

Merreca. Porção de maconha considerada insuficiente. Olha a merreca que sobrou daquele patuá todo.

Mescalito. Entidade sobrenatural considerada o espírito do cacto peiote, que produz a substância psicoativa mescalina. O termo popularizou-se nos anos 1960-70 pelos livros do antropólogo Carlos Castaneda e ganhou destaque nas histórias em quadrinhos dos Freak Brothers. O Mescalito seria primo do Braulito, e também pode aparecer para usuários de maconha, o que revelaria a interconexão dos universos das entidades psicobotânicas. O Mescalito tá dizendo que devemos apertar outro.

Mesclado. Cigarro de maconha preparado com pasta de cocaína. O efeito é uma mistura dos dois. Lá em Manaus rola muito mesclado.

Metro. Unidade de medida de maconha: 1 quilo = 1 metro. Tá chegando um metro pro carnaval.

Mike Tyson. Maconha ou cigarro de maconha de fortíssimo efeito. Em referência à potência do soco do famoso pugilista. Cuidado que esse aqui é um Mike Tyson.

Moçada. Amigos usuários. O mesmo que galera, rapeize etc. A moçada tá fumando demais, cara…

Mofado. Diz-se do fumo que mofou pela ação do tempo. Por conta disso ele perde o princípio ativo THC e causa pouco ou nenhum efeito. Galera, ontem encontrei uma paradona atrás do armário. Calma, calma… Tava mofada.

Monopolizar. Reter o fumo ou o cigarro de maconha, geralmente com fins egoístas. Como é, vai ficar monopolizando mesmo?

Morgação. Estado de lerdeza e preguiça causado pela maconha. Também pode se referir a uma situação. Essa festa ficou a maior morgação.

Morgado. Lerdo, com preguiça e/ou sem vontade para fazer qualquer coisa, em decorrência da maconha. Ele fuma, fica morgado e vai dormir.

Muito doido. 1. Sob forte efeito da maconha. Vai atrás que ela tá muito doida. 2. Aquele que fuma muito. Aqui nesse bar só tem muito doido. 3. Diz-se de algo estranho ou muito interessante. Este poema é muito doido.

Muito louco. O mesmo que muito doido. Também usado no espanhol mucho loco.

Muqueca. Considerável porção de maconha. O mesmo que parada. A Rose tá com uma muqueca!

Mutema. Sobrenome que se aplica a quem tem maconha quando ninguém mais tem. Referência a Sassá Mutema, famoso personagem da novela da Globo, O Salvador da Pátria. Acaba de chegar o André Mutema.

Mutuca. Porção razoável de maconha. Guardei uma mutuca bacana e ela mofou todinha.

N

Narguilê. Artefato adaptado dos narguilês comuns para ser usado por usuários de maconha, muitas vezes improvisado a partir de vários objetos, dependendo do espírito inventivo do usuário. Esse aqui merece a gente fazer um narguilê!

Nas internas. Situação em que o cigarro de maconha é oferecido somente para algumas pessoas e consumido discretamente, seja porque há pouco ou para privilegiar a alguns. Vai lá no estacionamento que tá rolando um nas internas.

Negócio. Maconha. Vai pintar um negócio de primeira pro reveiôm.

Noia. 1. Viagem ruim. Forma resumida de paranoia. Aquele fumo me deu a maior noia. 2. Estado continuado em que fica o usuário por fumar demais. O cara nem sai mais de casa, tá na maior noia.

Noiado. Pessoa que está com noia. Passei um tempão noiado por causa daquela dançada.

O

Onda. Efeito da maconha. Agora bateu uma onda legal!

Osvaldo. Denominação discreta para maconha ou cigarro de maconha. Só faltava o Osvaldo aqui…

O vento fuma. Expressão usada quando alguém demora a fumar, desperdiçando maconha. Alguns usuários entendem que o vento também merece ficar doidão, mas a maioria não gosta dessa ideia. Pô, Mariana, assim o vento vai fumar o bagulho todinho.

P

BaseadoNissoCapaMiragem-01aPagar uma social. Ver social.

Paia. Maconha de péssima qualidade. Mas que maconha paia!

Pala. O mesmo que bandeira. O Amaury tá dando pala.

Paludo. Pessoa que está dando pala. A Sandra hoje tá paluda que é uma beleza!

Parada. Porção de maconha. O cara ficou tão noiado que jogou a parada na privada e deu descarga.

Paranga. Porção considerável de maconha. O mesmo que mutuca. O Dudu mandou avisar que garantiu uma paranga pro feriado!

Passar a bola. Passar o cigarro de maconha. É comum pedir para passar a bola à pessoa que fica fumando o cigarro e não dá vez para que os outros também fumem. Pode ser complementado com o nome de algum jogador de futebol com fama de individualista, em evidência ou de nome folclórico, como Pelé, Mirandinha, Cafu, Ronaldinho, Edmundo, Maradona, Mazolinha etc. Passa a bola, Mirandinha!

Patuá. Razoável porção de maconha. Passei três meses fumando aquele patuá.

Pau. Cada trago que se dá no cigarro de maconha. O mesmo que tapa. Também utilizado no diminutivo. Só dei um pauzinho…

Paula. Forma abreviada de paulista.

Paulista. Modo característico de se fumar maconha com outras pessoas onde se dá apenas um trago e passa-se imediatamente o cigarro a quem está do lado. Fuma-se na paulista para um maior aproveitamento do cigarro. Sua origem pode estar ligada ao ritmo de vida apressado da capital paulistana, ou porque fumar em plena avenida Paulista é algo que requer rapidez e agilidade. Vamos fumar na paulista senão não vai chegar aqui.

Pegar. Fumar o cigarro de maconha. Ver dar um pega. Vamos pegar unzinho?

Perturbado. Sob razoável efeito da maconha. Aquele brau me deixou tão perturbada que eu falei duas horas com ela achando que era a Bebel.

Peruana. Modo característico de se fumar maconha que consiste em encher a boca de fumaça, sem tragar, e liberá-la devagar e aos poucos pelo nariz. Já fumou à peruana?

Picárdia. Mesquinhez. Usa-se geralmente quando o comprador sente-se lesado no negócio. Originado de picardia. Ah, maninha, deixa de picárdia.

Pilão. Qualquer objeto que se possa usar para socar o cigarro de maconha, geralmente um palito de fósforo, uma tampa de caneta ou similar. Alguém tem um pilão aí?

Pilar. Ato de socar cuidadosamente o cigarro de maconha. O baseado era tão grande que usaram um pincel atômico pra pilar.

Pilora (ô). Mal-estar ou leve desmaio causado pelo efeito da maconha. O mesmo que brancão. Deu uma pilora no coitado bem na hora de dizer sim.

Ping-pong. Monopolização do cigarro por duas pessoas, impedindo o restante de fumar. Como é, vão ficar mesmo nesse ping-pong aí?

Pitada. Rápida tragada no cigarro de maconha. Vou dar só uma pitadinha porque eu parei de fumar.

Poeira. Maconha transformada em pó devido ao manuseio. Não é apreciada por conta do fraco efeito. Só tem poeira naquela parada!

Ponta. Guimba do cigarro. O mesmo que bia. Vai dar pra fazer dois baseados com essas pontas.

Por falar nisso. Insinuação usada por maconheiros discretos quando desejam fumar ou para saber se alguém tem maconha. Sim, mas por falar nisso…

Prego. Pessoa muito chata quando está sob efeito da maconha. Equivale ao bêbado chato. Pense num cara prego: é o Dedé!

Pren-pren. Apelido carinhoso para prensado. Tive que cair com cinquentinha pros ômi e ainda levaram meu pren-pren.

Prensado. Fumo que é acondicionado em porções compactas para que ocupe menor espaço. Por esta razão ele normalmente é mais forte e mais caro. Tá chegando um prensado semana que vem.

Prensar. Acondicionar a maconha em quantidades compactas. Não é pouco não, é porque tá prensado.

Presença. Porção de maconha que se pede a outra pessoa. Dá pra arrumar uma presença?

Pressão. Ato de tragar e segurar a fumaça nos pulmões por muito tempo para conseguir um efeito maior. Dê um trago e faça pressão!

Preto. Maconha. Em comparação com a cocaína, que é branca. Deixei a branca, agora tô só no preto.

Produto. Maconha. Apareça lá que eu tenho um produto de primeira pra você experimentar.

Puxar fumo. Fumar maconha. O sobrinho da senhora toda noite puxa um fuminho na esquina com a filha do coronel.

Q

420. Número representativo do universo folclórico dos usuários, adotado a partir dos anos 1970. A origem, segundo a versão mais conhecida, estaria no fato de um grupo de jovens estadunidenses se reunirem frequentemente para fumar às 4:20 da tarde. O número foi usado para marcar o 20 de abril como data representativa e para a realização de eventos alusivos à maconha em todo o mundo. Também é caracterizado como uma espécie de código semissecreto de usuários, sendo usado em diversos contextos da vida cotidiana, assim como em obras artísticas e insinuações referentes à maconha. Quatro e vinte no terraço, beleza?

Queimar. Acender o cigarro. Queima logo esse brau que eu já tô me coçando todinho.

Quem vai? Discreto convite que se faz para saber quem vai participar do cigarro. E aí, quem vai?

Quem se habilita? Pergunta que se faz para saber quem pode preparar a maconha ou apertar o cigarro. E aí, moçadinha, quem se habilita?

R

Regular. Sujeitar a regras ou reprimir o uso de maconha. Qualé, meu irmão, tá regulando o brau?

Regulão. Aquele que regula o uso de maconha. Fumar junto com regulão é foda!

Resenha. Demora (para passar o baseado). Chegou na Shirlene, é uma resenha…

Rodada. 1. Passeio rápido para fumar. O mesmo que rolê ou rolé. A gente dá uma rodada e volta logo. 2. Giro completo que o cigarro faz num grupo que está fumando. Era tanta cabeça que só deu uma rodada!

Rodar. Passar o cigarro de maconha entre os que estão fumando. Esse negócio não roda não?

Rolar. Acontecer (a maconha). Vai rolar o baseado ou não vai?

S

Salvador. Pessoa que tem maconha e que oferece a quem não tem e está ávido para fumar. Pode ser complementado com “da pátria” em referência à novela da Globo O Salvador da Pátria. Chegou o nosso salvador!

Sauna. Diz-se do ambiente pequeno e fechado onde se reúnem pessoas para fumar. Esse carro tá a maior sauna!

Scud. 1. Maconha ou cigarro de maconha de excelente qualidade. Referência ao famoso míssil utilizado na Guerra do Golfo, em 1990-91. Tudo que eu queria agora era fumar um scud daqueles pra dormir. 2. Cigarro grande. Vai ver o tamanho do scud que tá rolando lá em cima da casa.

Se tocar. Aperceber-se de algo relacionado à maconha, geralmente comprometedor. A Dani tava com o baseado na orelha e nem se tocou.

Secura. 1. Forte desejo de fumar. Passei a semana toda na secura. 2. Falta de maconha. A cidade tá uma secura desgraçada. 3. Estado de baixa salivação causado pela maconha logo após fumar. Tem uma água aí pra matar essa secura?

Seda. Papel especial ou apenas mais apropriado para preparar o cigarro de maconha. Não acredito que a gente vai ter de parar numa lanchonete pra conseguir uma seda!

Segurar. Adquirir maconha. O cara segurou uma da massa!

Segura a coisa. 1. Expressão muito utilizada quando se quer fazer referência ao ato de fumar ou incentivar alguém a fumar. Vambora, menino, segura a coisa! 2. Bloco carnavalesco de Olinda que faz referências à maconha. O Segura a Coisa já tá saindo.

Social. Situação de caráter formal, geralmente envolvendo um ou mais não usuários, com a qual aquele que está sob efeito da maconha tem de lidar. Uma social costuma ser vista como algo incômodo e indesejado pelo fato de nela não se poder aproveitar devidamente o efeito da maconha, mas há usuários que apreciam lidar com tais situações e até se divertem. Usa-se: fazer a social, encarar uma social ou pagar uma social. A gente passa lá no velório, faz a social e vai embora.

Solto. Diz-se da maconha que não é prensada. Também usado no diminutivo. Ô saudade de um soltinho…

Só por causa disso. Expressão utilizada, por si só, como pretexto para se fumar. Só por causa disso eu vou apertar um.

Sugesta (é). 1. Susto desnecessário ou infundado que se leva por estar portando ou fumando maconha. Aquele carro da polícia me deu a maior sugesta! 2. Ação comprometedora por parte do usuário. Ei, Celsinho, te liga aí que tu tá dando a maior sugesta.

Sujar. 1. Comprometer. Para de andar com a Carol que tu vai te sujar rapidinho. 2. Ser flagrado com maconha, com usuários ou em situação afins. Ih, sujou!

Sujeira. Qualidade de pessoa, lugar, situação ou objeto comprometedor. Não acende agora que é sujeira!

Sugestivo. Cigarro de maconha. Vou apertar um sugestivo em homenagem à beatificação de Madre Paulina.

Sujo. 1. Qualidade da pessoa ou lugar ou objeto que possui caráter comprometedor e que por si só pode denunciar o usuário. Aquele bar já tá sujo. 2. Aquele que já teve problemas legais com relação a maconha. Metade dessa turma tá suja com a polícia. 3. Aquele que, por seu comportamento, não é bem visto entre os usuários e/ou entre os não usuários. Léo já fez tanta besteira que tá sujo em todos os bares daqui.

T

BaseadoNissoCapaMiragem-01aTapa. Cada tragada que se dá em um cigarro de maconha. Muitas vezes usado no diminutivo. Vou dar só um tapa e vocês fumam o resto.

Tapa na cascavel. Tragada no cigarro de maconha. O mesmo que tapa na pantera. Vou ali dar um tapa na cascavel e já volto.

Tarugo. Cigarro de maconha de grandes proporções. A Bel fumou sozinha um tarugo do tamanho do meu braço!

Tchauris. Cigarro de maconha. O mesmo que tcheuris. Quem foi que trouxe o tchauris?

Tchauri-tchuri. 1. Cigarro de maconha. Cadê o tchauri-tchuri? 2. Expressão vaga para se referir à maconha ou ao efeito da mesma, ou ainda sem qualquer significado específico, geralmente utilizada quando sob efeito.Tchauri-tchuri, cumade!

Tcheuri-tchuri. O mesmo que tchauri-thcuri.

Tcheuris. O mesmo que tchauris.

Tchonga. 1. Maconha. A pergunta que não quer calar: cadê a tchonga? 2. Cigarro de maconha de tamanho considerável. A gente carburou uma tchonga da grossura de um coqueiro.

Texto. Designação discreta para maconha. Passa aqui que eu tenho um texto bacana pra você ler.

THC. Tetrahidrocanabinol. Principal substância psicoativa da maconha. Nas aulas de ciência política, a melhor coisa que aprendi foi que THC é melhor que FHC.

Tirar a cara. Fumar um cigarro para sair do estado de cara, em que não se está sob efeito da maconha. O mesmo que livrar a cara. Informo à Vossa Majestade que os Beatles foram ao banheiro do palácio tirar a cara.

Tó. Forma resumida de toma, muito utilizada quando o usuário, ao fumar, quer passar o cigarro mas não quer deixar escapar a fumaça pela boca. Tó…

Toco. Cigarro grosso de maconha. Vou apertar um toco em homenagem às formigas.

Tora. Cigarro de grande proporção. Vai precisar de duas pessoas só pra acender essa tora.

Torpedo. Cigarro de grande proporção. A especialidade da Luíza é apertar torpedo.

Tragar. Engolir a fumaça do cigarro e fazê-la sair, a maior parte, pelo nariz. Bill Clinton fumou mas não tragou.

Trago. Ato de fumar maconha. O mesmo que pega e pau. Ah, relaxa, só esse trago e a gente sai.

Tratar. Preparar a maconha para a confecção do cigarro. Consiste em picar em pequenos pedaços após retirar galhos e sementes. O mesmo que triturar, debulhar e destrinchar. Você trata e eu aperto.

Tripinha. Pequeno e fino cigarro de maconha. Não se empolgue não que é só uma tripinha.

Triturar. Ver tratar.

Troncho. Aquele que fumou e ficou de tal modo que o corpo parece torto e a expressão aparvalhada. A Juliana tá toda troncha, olha lá.

Trouxinha. Pequenino embrulho de maconha em forma de trouxa. Um fim de semana inteiro pela frente e só tem essa trouxinha?!

U

Um. Cigarro de maconha. Alguém tem um?

Unzinho. Denominação carinhosa para o cigarro de maconha. Variação: unzito. Vai rolar unzinho lá no banheiro, quem vai?

Usuário. Denominação de caráter mais social para quem fuma maconha. Em certos contextos distingue quem fuma de quem trafica. Nas pesquisas eu sou usuário, nos programas policiais eu sou maconheiro.

V

Vacilão. 1. Aquele que comumente age sem cuidado em sua relação com a maconha. Nunca vi um cara mais vacilão! 2. Aquele que diz ou faz bobagens quando fuma, permitindo que outros percebam que ele está sob efeito da maconha. Olha a vacilona lá, estirada na grama!

Vacilar. Agir sem cuidado, de forma a comprometer-se em relação à maconha. Paulinha tá vacilando demais, daqui a pouco dança.

Vela. Cigarro de maconha comprido. Olha o tamanho da vela!

Veneno. Maconha da melhor qualidade. Às vezes é complementado com de rato, em referencia à potência do veneno. Pô, mas que veneno!

Viajandão. Aquele que se encontra inteiramente absorto no efeito da maconha, geralmente em estado de contemplação. Fui assistir The Wall e só tinha viajandão na plateia.

Viajar. 1. Usufruir plenamente do efeito da maconha. Vou fumar um e viajar naquele livro! 2. Dizer ou fazer algo estranho, interessante, engraçado ou sem sentido, por ter fumado. Esquece o que eu disse, viajei.

Voyage. O mesmo que viagem (originado do francês). Ih, ó o cara… Na maior voyage!

X

Xavier. Aquele que regula o fumo. Oriundo de Regulador Xavier, famoso preparado à base de extratos vegetais para distúrbios da menstruação. Ei, Xavier, aqui também tem gente querendo fumar, viu?

Z

Zé. Maconha ou cigarro de maconha. Ah, se o Zé estivesse aqui…

Ziquizira. Efeito incômodo da maconha. Saí no meio do filme porque me deu uma ziquizira…

Zoado. Sob efeito da maconha, levemente confuso e/ou atordoado. Ainda tô zoado.

Zoeira. Confusão sonora ou de ideias causada pela reunião de pessoas sob efeito da maconha. Putz, mas que zoeira!

Zumbi. Pessoa sob forte efeito da maconha, de gestos lentos ao modo de um zumbi. Variação: zumbizado. O bagulho era tão bom que ficou todo mundo zumbi.

Zureta. Sob efeito da maconha. Não me pergunte coisa difícil que eu tô zureta.

Zuruó. Sob efeito da maconha. Equivale a zoado e zureta. Tá dando pra notar que eu tô zuruó?

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01- Oi Ricardo Cara, eu ri demais “No Dia em que papai e mamãe ficaram muito doidos” hahahaha… isso já valeu o meu domingo. Beijos. Ana Cristina Souto, Fortaleza-CE – jan2006

02- Adorei o Mingo! Ele só destruiu todos os meus ídolos de infância, mas…tudo bem!Beijos Kelmérico. Cinthia Azevedo, Fortaleza-CE – mar2006

03- Pois eu ganhei o Baseado Nisso de presente de um amigo, na realidade ele sempre me mandava alguns textos seu por email e eu curtia muito então no meu aniversário ele me deu… inclusive está assinado … hehehehe Adorei dimais… a ponte dos pergaminhos metálicos… pirei… ahahahahaha. Julia – mai2006

04- bom pra começar o livro é da minha irmã e eu por mta curiosidade por conta do título não resisti… confesso que as histórias são fascinantes de modo que não se consegue parar de ler… bom eu acho q ela comprou na net… não sei bem Parabéns pelo sucesso…. Nycka, São Paulo-SP – mai2006

05- passei para lhe dizer que adorei ter lido um de seus livros foi a minha cunhada que me deu esta ai da sua lista de amigos a Rildete, ela virou fã mesmo e consequentemente eu também… (rsrs) abraços. Nanda Vasconcelos, Fortaleza-CE – mai2006

06- Terminei de ler “O Último Homem do Mundo” e confesso que eu me senti agradavelmente surpresa com o final. Na verdade, eu me encantei com toda esta estória que me parece tocar em sentimentos profundos de uma maneira simples e bem humorada. Acho que neste conto vc descreveu muito bem o horror e a solidão que podem acompanhar o prazer sem limites. Interessante que “ao acordar” o Agenor sentiu necessidade de pedir desculpas para a Dorinha. Muito meigo e belo…, sabia?! Bj_. Kátia Regis Albuquerque, João Pessoa-PB – out2006

07- beleza, muito bom o baseado! Cesar de Cesário, Campina Grande-PB – out2006

 


A profecia

18/05/2010

18mai2010

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a.

Este conto integra o livro Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha, de Ricardo Kelmer

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A PROFECIA

A maconha terráquea, melhor da galáxia, está faltando no mercado. Os culpados são os mulgélicos, fanáticos religiosos que tomaram o poder no planeta. O Conselho Galático precisa decidir o que fazer
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A SRA. ZIEGR, PRESIDENTA do Conselho da Confederação Galática, entrou na sala e ocupou sua poltrona à grande mesa. Ela trazia o semblante sério e nas mãos alguns envelopes.

– Conselheiros, bom dia. Convoquei-os a esta reunião extraordinária porque acabo de receber o relatório do Centro de Registros. Como é de conhecimento de todos, fatos preocupantes estão acontecendo no planeta Terra. Por causa deles seremos obrigados a cortar o suprimento da canabis terráquea a todos os planetas confederados por tempo indeterminado.

O rumor na sala foi geral.

– Silêncio, por favor, silêncio!

Mas os rumores cresciam e a presidenta Ziegr teve de bater na mesa. Ela entendia perfeitamente o porquê da indignação. Todos já haviam protestado em reuniões anteriores pela diminuição da cota de canabis terráquea para seus planetas e alertavam para o perigo do corte definitivo.

– Eu sabia que isso ia acontecer! – protestou o conselheiro Baqt. – Todos sabiam. Menos o Centro de Registros.

– Por favor, conselheiros. Deixem-me mostrar o relatório antes de discutir o que faremos.

As vozes se calaram e a presidenta Ziegr passou a ler o relatório. Ele dizia que a canabis já não podia ser encontrada com facilidade no planeta Terra e que já se estudava a possibilidade de pesquisar outros planetas para o plantio.

– Bobagem! – levantou-se Baqt, irritado. – Todo mundo está cansado de saber que, exceto a Terra, nenhum planeta desta zona da galáxia reúne condições perfeitas para o plantio da canabis!

– Isso mesmo! – complementou uma conselheira. – Por que gastar verbas com pesquisas inúteis? Precisamos intervir antes que a canabis terráquea seja totalmente extinta.

– Exatamente! Minha família, por exemplo, não fuma um baseado que preste faz mais de um ano disse Reuzaramon, o mais velho dos conselheiros.

Ziegr escutou com paciência mais algumas considerações. Estavam todos revoltados. Então prosseguiu:

– Conselheiros, a canabis terráquea é material estratégico para a galáxia, todos nós sabemos. Foi ela que propiciou o desenvolvimento ecológico dos planetas confederados e lhes permitiu superar a delicada fase do término dos combustíveis fósseis. Para isso, no entanto, durante milênios as naves da Confederação abordaram a Terra e, na calada da noite, de lá retiraram a canabis para abastecer nossos mundos.

– Eram os deuses astronautas? Não. Eram os deuses maconheiros – sussurrou Reuzaramon para o colega ao lado.

– Agimos assim porque precisávamos da canabis, claro, mas também porque os terráqueos não estavam preparados para nos conhecer – continuou Ziegr. – Agora, porém, grandes mudanças operam naquele planeta e exigem que tomemos uma posição.

– São os mulgélicos, aposto!

– Eles mesmos – respondeu Ziegr.

– Calhordas! – gritou Baqt, erguendo-se. – Por causa deles só estou fumando maconha de Fens, aquela porcaria.

– Conselheiros, semana passada a nave da Monitoria 54 resgatou, da órbita da Terra, uma pequena cápsula contendo informações valiosas. São textos e imagens sobre o momento atual da Terra e que confirmam as informações do relatório do Centro de Registros.

Ziegr entregou a cada um dos conselheiros um óculos projetor, pediu que cada um assistisse com atenção e encerrou a reunião, avisando que prosseguiriam à tarde.

Reuzaramon, o mais velho dos conselheiros, rumou para o jardim dos fundos do prédio, lá era mais agradável. Sentou-se num banco, pôs o óculos projetor e ligou. Enquanto as imagens tridimensionais se formavam à sua frente, ele escutava…

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A Ecologia toma impulso no planeta Terra no fim do segundo milênio da era cristã com a constatação de que a sociedade industrial e tecnológica produzia riqueza e conforto, mas também gerava um enorme perigo ao planeta e a todas as formas de vida. A partir daí uma crescente conscientização ecológica desenvolveu-se e direcionou os rumos de uma nova noção de desenvolvimento para o planeta: o desenvolvimento sustentável, onde a prioridade é manter os avanços tecnológicos sem abrir mão do equilíbrio ambiental.

No primeiro século do terceiro milênio um acontecimento crucial vem somar-se a toda essa revolução: a canabis, até então criminalizada em quase todo o planeta, é reconhecida oficialmente pela maioria dos blocos geopolíticos como matéria-prima estratégica para a sociedade. O baixo custo, a alta performance produtiva, a não necessidade de agrotóxicos e o seu caráter limpo e renovável a credenciam como a grande alternativa ecológica para a crise dos combustíveis fósseis que se instalara no mundo.

Assim, sob recomendação da ONU, os blocos geopolíticos mudam suas leis e legalizam a canabis. Cultivar, comercializar e consumir maconha deixa de ser crime, e as leis referentes a ela se inspiram nas leis que regulamentam outras drogas legalmente aceitas como o álcool. Dessa planta altamente estratégica extraem-se milhares de produtos essenciais ao dia a dia da sociedade, permitindo que o mundo respire aliviado após décadas de medo e incertezas quanto à saúde do planeta. A planta mostra-se eclética a ponto de ser utilizada também, e com muita eficácia, na medicina terapêutica.

Junto à canabis, outros recursos naturais também passam a ser utilizados dentro dos princípios do desenvolvimento ecológico. A canabis, porém, logo apresenta-se como carro-chefe dessa transformação, pois à sua intensa utilização industrial vem juntar-se o tema das liberdades individuais, gerando providenciais discussões sobre a relação do ser humano com as drogas e a questão do tráfico, da violência e dos interesses econômicos, além de questionar a eficácia dos programas de saúde pública e o tratamento policial dispensado ao usuário.

Nem todos, porém, concordam com isso. Ocorrem protestos em vários setores da sociedade e uma nova organização político-religiosa surge para combater o que ela entende por “exageros da democracia”, como o uso livre da maconha. São os autodenominados mulgélicos (multidões angelicais), fanáticos religiosos de caráter ultraconservador que cultuam a tecnologia máxima e defendem o terrorismo como forma de garantir seus valores. A eles se juntam todos aqueles que discordam da legalização da canabis, e assim a organização cresce e promove atos terroristas por todo o mundo, utilizando tecnologia química e biológica contra a população. Com discurso sedutor às mentes religiosas e amedrontando a muitos com sua política ultrarradical, tomam o poder em alguns blocos e aos poucos conseguem exterminar os principais líderes democráticos.

Estamos sob domínio dos mulgélicos há uma década. Eles governam o mundo globalizado, convocando todos a se entregar aos braços de seu deus, que em breve, creem eles, voltará para carregar os abençoados consigo rumo ao Paraíso, abandonando na Terra os seguidores de Satanás. Os mulgélicos perseguem aqueles que não comungam da crença de seu deus e castram as liberdades individuais conquistadas. Para eles, a canabis é a personificação do Mal e precisa ser combatida com toda a força e métodos possíveis. De nada adiantam os argumentos médicos e sociológicos, de nada valem os direitos humanos: os usuários passam a ser perseguidos pelo mundo inteiro e mortos com crueldade. E o cultivo da canabis, novamente proibido, abre caminho para o retorno de antigas, caras e poluentes formas de produção industrial, intoxicando novamente o planeta e pondo em risco o equilíbrio ambiental.

O culto exacerbado da tecnologia torna cegos os mulgélicos e eles não percebem que estão conduzindo a espécie humana ao seu extermínio. Contra esses argumentos, e até mesmo contra todos os fatos, eles respondem que seu deus está chegando para resgatá-los e assim ficará provado quem está certo.

Hoje, vivemos num planeta praticamente esgotado de recursos naturais e a grande alternativa foi bloqueada pela política repressora dos mulgélicos. O ar, os rios e os oceanos estão sujos. A preservação da fauna e da flora não é mais importante – importante é tentar converter os infiéis. Catástrofes naturais acontecem todos os dias, mas os mulgélicos veem nisso o legítimo cumprimento de suas profecias, o sinal dos últimos dias que antecedem a tão esperada chegada de seu deus.

A única possibilidade que nós, os resistentes dessa ditadura teocrática, vislumbramos foi pedir ajuda a outros planetas. Certamente, há vida em outros mundos, e talvez eles tenham passado por problemas semelhantes aos nossos. Talvez seus habitantes possam ajudar a Terra a reencontrar o caminho das liberdades individuais e do desenvolvimento autossustentável.

Isso é um pedido de socorro interplanetário. Talvez ainda haja tempo de salvar este planeta que já foi tão belo. Ainda podemos reaprender a respeitar as liberdades que pertencem ao ser humano. Clandestinamente, ainda cultivamos os últimos exemplares da canabis em plantações disfarçadas, o que nos proporciona raros momentos de prazer e a esperança de que ainda podemos retomar o crescimento interrompido. Mas tudo está por um fio, pois não sabemos até quando o planeta suportará.

Nosso plano é soltar esta mensagem no espaço, feito uma mensagem de náufrago. Talvez consigamos. É uma operação arriscada e com poucas chances de sucesso. Mas talvez alguma nave a recolha e esta mensagem alcance boas mãos.

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Reuzaramon retirou o óculos projetor e olhou para o céu. Terra…, sussurrou ele. Era realmente um belo planeta. Lembrou que seu planeta natal vivera problemas semelhantes aos que os terráqueos agora viviam e que a história da evolução das espécies era sempre marcada por momentos cruciais onde velhos e novos valores protagonizavam o dramático teatro do mito do Juízo Final. Antes da criação da Confederação Galática muitos planetas morreram, e com eles o seu povo, por não saber encontrar seu próprio caminho de democracia e desenvolvimento sustentável. Hoje, a Confederação, ciente de que a morte de um planeta empobrece o Universo, estava sempre atenta para tentar ajudar – mas somente quando isso representava a última chance, pois o sagrado princípio da soberania dos mundos regia a Constituição Galática.

O velho conselheiro levantou-se do banco, guardando o óculos no bolso. Olhou mais uma vez para o céu e depois seguiu para a sala. Talvez fosse mesmo o momento da Confederação intervir.

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BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a– MUITO BEM, CONSELHEIROS – falou a presidenta Ziegr, contando os votos. – A maioria considerou que o Conselho deve intervir no planeta Terra. E que não podemos mais continuar roubando maconha de lá.

– Exatamente. O que está em jogo são os interesses da Galáxia.

– Isso mesmo! Os desvarios de um grupo de fanáticos religiosos não podem interromper a evolução do Universo.

– Mas como interviremos no planeta sem desrespeitar sua soberania? – insistiam os que não concordavam com a intervenção.

Reuzaramon pediu a palavra.

– Conselheiros, nenhum planeta é autônomo no último sentido do termo. Sabemos que todos os mundos estão ligados numa interdependência sutil, mas vital, e o que é feito a um repercute em todos. A Terra é apenas um dos elos dessa imensa corrente que se chama galáxia, que por sua vez é apenas um dos elos do Universo, que por sua vez é apenas um dos muitos universos possíveis. Quanto mais abrangemos nossa compreensão da realidade, mais percebemos o quanto tudo está ligado. O que acontece na Terra está influenciando o destino de outros mundos, e por isso a Confederação deve intervir.

– Você fala assim porque não é o seu mundo que será invadido!

– Conselheiros, por favor, deixem-me terminar. A espécie humana já está madura o suficiente para compreender que não está sozinha no Universo. Além disso, a canabis da Terra é a melhor de todas e ela é indispensável à evolução do planeta. Sem ela, não haverá desenvolvimento autossustentável. Sem ela, a Terra corre o risco de se destruir. E sem a Terra, senhoras e senhores deste Conselho, a Via Lactea enfrentará um grave desequilíbrio.

Reuzaramon foi aplaudido pela maioria. E mesmo os reticentes quanto à intervenção viram sentido em seus argumentos.

– A intervenção já foi decidida – falou Ziegr. – Mesmo assim, resta uma dúvida. Como faremos? Não podemos atacar os mulgélicos, nem podemos plantar canabis no planeta às escondidas.

– Que tal envolver o planeta numa grande baforada de maconha? – brincou alguém. – Assim todos finalmente experimentarão e tirarão suas próprias conclusões…

– O verdadeiro efeito estufa!

– Ou podemos fornecer armas com balas de canabis para os resistentes atirarem nos mulgélicos…

– Conselheiros, por favor. Precisamos de um plano de intervenção pacífica, sem comprometermos nossa carta de princípios. E não dispomos de muito tempo.

– Talvez possamos convencer os mulgélicos a retomar o crescimento ecológico – propôs uma conselheira. – Eles têm de entender que não há outra saída para o planeta deles.

– É inútil, minha senhora – falou Reuzaramon. – Para um fanático religioso, quem não está com ele, está de mãos dadas com o Mal.

Chegaram ao incômodo impasse. A intervenção se fazia necessária, mas parecia não haver maneira de realizá-la sem ferir os princípios éticos da Confederação. Até que Reuzaramon ergueu o braço.

– Amigos, acho que vislumbrei a saída do labirinto.

Todos olharam curiosos para ele.

– Nós sabemos o que pensam os terráqueos, sabemos sobre suas crenças e suas profecias. Isso é tudo que precisamos.

– Explique melhor, Reuzaramon – pediu Ziegr.

– Muitas profecias terráqueas falam do Juízo Final. Parte dos terráqueos já entendeu que a linguagem das profecias é simbólica, que “fim do mundo” é só o fim de uma fase, uma espécie de renascimento para a nova fase, tanto no âmbito individual quanto num âmbito social. Mas outros entendem ao pé da letra e acham que a salvação virá de fora. Estes se acham os eleitos e creem que seu deus, de fato, irá resgatá-los.

Todos ouviam atentos, curiosos por ver onde o velho conselheiro queria chegar.

– Ora, ora… As profecias se realizam porque no fundo as pessoas creem nelas. Se existe a profecia, então ela deve ser realizada.

– Sábias palavras, Reuzaramon. Mas quem vai realizar a profecia? E de que modo?

– Conselheiros… Esqueceram que quem acredita em deuses, precisa de deuses para viver?

Reuzaramon sorriu ao perceber que finalmente começava a ser compreendido.

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BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04aNAQUELA MANHÃ, as nuvens do planeta Terra se abriram e dos céus desceram naves gigantescas, milhares delas, espalhadas por todos os países. Trombetas soaram ensurdecedoras, para todos ouvirem, em todos os cantos do mundo. De cada uma delas saiu um anjo com roupa prateada e grandes asas reluzentes para avisar que o grande dia chegara e que os eleitos seriam levados.

– Aí está! – berravam os líderes mulgélicos com lágrimas nos olhos. – Aí está o Deus Todo Abençoado que veio resgatar seu rebanho querido!

A imprensa do mundo inteiro transmitia o fim do mundo. Nas residências, nas repartições, nas academias, todos se mantinham em frente à TV. Audiência total. Até os botequins estavam lotados.

– Ô, seo Manel! O fim do mundo chegou. Desce aí a saideira.

– Só se você primeiro pagar o que deve.

Os mulgélicos atenderam ao chamado e ocuparam rapidamente os assentos das naves, emocionados, gratificados por sua fé finalmente recompensada. Muitos tentaram se converter de última hora, mas não havia mais lugar nas naves.

– Eu até que queria ir, mas os cambistas estão explorando!

– Que dia pro fim do mundo! Deus podia pelo menos esperar passar o réveillon.

Ao fim da manhã, as naves partiram, levando todos os mulgélicos ao paraíso prometido. Uma nave, porém, a maior de todas, permaneceu no pátio da sede da ONU. Suspense. Bilhões de pessoas acompanhando pela TV. Uma voz ecoou, vinda da nave:

– Amigos terráqueos. Ouviremos agora o pronunciamento da excelentíssima presidenta do Conselho da Confederação Galática, sra. Ziegr.

A presidenta surgiu à porta da nave, de microfone à mão. Pigarreou discretamente e começou a falar:

– Serei breve, amigos terráqueos.

Ela fez uma pausa, juntou as mãos como quem implora, e perguntou:

– Alguém tem unzinho aí?

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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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O dia em que papai e mamãe ficaram muito doidos

18/05/2010

18mai2010

BaseadoNissoCLUBEDEAUTORESCapa-04a
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Este conto integra o livro Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha, de Ricardo Kelmer

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O DIA EM QUE PAPAI E MAMÃE
FICARAM MUITO DOIDOS

Juninho está preocupado. Seus pais decidiram experimentar um baseado para saber o que o filho via de tão bom nisso
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– Juninho, eu e sua mãe decidimos fumar um baseado com você.

O menino ficou olhando para os pais, sem acreditar no que escutava. Depois de tantos anos insistindo em conselhos, castigos e orações, seu pai e sua mãe resolveram experimentar para saber o que afinal o filho tanto via num cigarro de maconha. O importante era a união da família.

Juninho ficou tão surpreso, atordoado mesmo, que quando deu-se conta já havia entregue o baseado e seus pais estavam sentados em sua cama, fumando e tossindo. Juninho recusou-se a fumar também, inventou uma desculpa qualquer. Mas a verdade é que alguém tinha de ficar careta para segurar a onda.

– Não tô sentindo nada – reclamou a mãe.

– Calma, Vanda, demora um pouco – explicou o pai com ar de entendido. – Não é, Juninho?

– Você tá bem, mãe?

– Tô ótima, quer dizer, tô normal. Normalíssima – respondeu a mãe, rindo.

– Eu também – disse o pai. – Aliás, nunca me senti tão normal em toda a minha vida.

– Mãe, qualquer coisa tem leite na geladeira, viu?

– Vanda, há algo errado com minhas orelhas?

– Suas orelhas? – ela olhou curiosa para o marido. – Não, Afonso, por quê?

– Elas estão maiores, não?… – Ele apalpava as orelhas, intrigado.

– É normal, pai. É viagem.

– É normal as orelhas crescerem? – perguntou o pai, indo conferir no espelho do banheiro.

– Pois eu continuo normalíssima – observou a mãe, rindo. – Eu e minhas orelhas.

– Tem gente que não viaja da primeira vez, mãe.

– Vanda!!! Vem aqui correndo!

A mãe correu assustada. Chegou ao banheiro e deu com o marido se observando atentamente ao espelho.

– Eu sempre fui assim, Vanda? Sempre?

– Assim como? – Ela não compreendia. Juninho, atrás dela, muito menos.

– Como você pôde aturar essa barba horrorosa durante todos esses anos? Heim?

– Ué? Você sempre disse que era o seu charme…

– Sei não, acho que eu ficaria melhor sem barba.

– Pai… – Juninho começava a se preocupar.

– Não acredito! – exclamou a mãe, erguendo as mãos. – Minhas preces foram ouvidas!

– Mãe, não deixe… – pediu Juninho, assustado com o rumo das coisas. – Isso é viagem, mãe, é viagem…

– Então não se meta na viagem de seu pai – ralhou a mãe.

– Vanda, faz quantos anos que você não solta seu cabelo? – perguntou o pai de volta do banheiro, retirando de repente a fivela da cabeça da mulher. Ela tentou impedir, mas foi tarde.

– Afonso! Dá aqui, dá!

– Não fica melhor assim, filho? Sempre falei, mas ela nunca escutou.

– Pai, eu acho que… será que… vocês…

– Juninho, você tem algum CD aí pra eu dançar com sua mãe? O que é isso aqui?

– É rap. Acho que vocês não vão gostar muito não…

– Tá vendo, Vanda? Precisamos comprar uns CDs pra nós dois.

– Pai, bota um pouco desse colírio aqui…

– Afonso… – disse a mãe, o tom da voz levemente lânguido, como havia muito tempo ela não experimentava. – A noite está ótima… Bem que a gente podia ir dançar. Inaugurou um barzinho aqui perto…

– Sabe que você teve uma grande ideia?

– Não precisava pingar tanto, pai. Mãe, você tem certeza que…

– Vou tomar logo meu banho. Será que ainda sei dançar?

– E por que a gente não toma banho junto? Economiza água…

– Economiza água… Ahahahah!!! Economiza água… – repetiu a mãe, morrendo de rir.

Naquela noite, eles voltaram para casa às três da manhã. Juninho ainda rolava na cama, preocupado. Não conseguira dormir e muito menos estudar para a prova. Escutou abrirem a porta e experimentou um alívio imenso, que bom que estavam de volta. Os dois entraram se esforçando para não fazer barulho, mas não conseguiram.

– Afonso, você ficou um gato sem a barba…

– Aqui não, Vanda, vai acordar o Juninho…

Juninho virou para o outro lado. Não devia ter permitido, sabia que não devia. E se tivessem realmente gostado? E se ficassem viciados, o que podia acontecer? Seu pai tirara a barba depois de vinte anos, ficou tão estranho, não conseguiu olhar direito para ele. E se chamassem os amigos para fumar, o que eles achariam? E o trabalho deles, não podia prejudicar? E a mãe então, nunca vira a mãe rir tanto, parecia uma… uma louca. E se dessem muita bandeira e a polícia descobrisse, a vergonha que seria… Não podia fazer mal à saúde deles? Não era perigoso fumar e sair por aí?

Juninho puxou o lençol, fechando os olhos, tinha de acordar muito cedo. Bem, talvez fosse só empolgação, ele pensou, primeira vez é assim mesmo, pai e mãe são muitos inexperientes para fumar maconha.

Do corredor, ainda chegavam as vozes, abafadas:

– Afonso, onde será que ele guarda?
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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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01- Oi Ricardo Cara, eu ri demais “No Dia em que papai e mamãe ficaram muito doidos” hahahaha… isso já valeu o meu domingo. Beijos. Ana Cristina Souto, Fortaleza-CE – jan2006

02- adorooooooooooo muito bom…rs. Magna Mastroianni, São Paulo-SP – abr2011

03- Adorei!!! Aliás, tenho lido vários, e tá difícil não gostar de algum, viu?rsrs. Bjão!! Simone Marini, São Paulo-SP – abr2011

04- Esse Ricardão!!! ahahahah :* Gisela Symanski, Porto Alegre-RS – abr2011



Inspiración, essa vadia

12/04/2010

12abr2010

E não adianta argumentar, seu signo é a urgência. Desejo não é coisa que se adie, ela sempre diz

InspiracionEssaVadia-02

INSPIRACIÓN, ESSA VADIA

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Inspiración… Os poetas de todos os tempos, eles sabem: não há nada, absolutamente nada igual a uma noite com ela. Por isso é que, apesar de não estar quente, achei necessário um bom banho. Troquei as calças e a camisa, mas mantive o cabelo molhado e sem pentear, do jeito que ela gosta. Pus lençóis novos na cama e até pedi a uma das meninas da taberna, a Ruiva, que me emprestasse a escova de cabelos, uma do cabo de osso trabalhado, bem bonita, que ela ganhou do marroquino.

Eu empresto, mas só se o poeta fizer um verso pra mim – a Ruiva negociou. As meninas adoram poesia. Sorri, fingindo que não esperava por aquilo. Mas era uma troca justa, uma escova por um verso. Então improvisei quatro linhas, a dona da escova sentada em meu colo, e, ao fim, ganhei um beijo e a escova. E deixei a taberna, levando uma garrafa de vinho debaixo do braço e uma alegria mal disfarçada no canto da boca. Que ficassem e se divertissem eles, os amigos lascivos e as amigas embriagadas. Eu iria para casa, esperar por Inspiración. Nada como uma boa isca para atrair a cigana do imprevisível, os poetas sabem.

Maria de la Inspiración… Foram as meninas que me contaram que ela andava pelas ruas do povoado hoje de manhã. Que bela notícia…, pensei enquanto o som de seu nome me remetia às tantas alegrias que essa cigana desatinada me proporcionou durante a vida. Quantos versos lhe dediquei, cavalgando-a com paixão noites adentro? Poemas de saliva, rimas de sêmen, sonetos de suor…

É uma vadia, eu sei, eu sei, não precisa repetir. Todos sabem, e não há poeta que não o saiba deveras. O povoado inteiro a conhece, e as nossas pudicas mulheres a evitam quando ela, para alegria dos homens daqui, resolve aparecer. Mas isso certamente se trata de uma inassumida inveja por parte dessas respeitáveis senhoras recatadas e sem graça. Por não terem os homens na mão como os tem a cigana adorável. Tão bonita que nem precisava tanto. Ardente como nenhuma delas jamais poderá ser, de tão preocupadas com a vida alheia. E o vinho mais forte, creia, não embriaga tanto quanto a visão de seu corpo nu.

Mas, vadia. Dona de uma inconstância irritante. Como adivinhar o que pensa, saber o que realmente quer? Costumo dizer-lhe que ela é como são todos os felinos: aparecem quando não se espera, e se os chamamos, não vêm. Ela? Apenas ri, vaidosa da própria crueldade. Sim, ela é muito cruel. Usa e abusa de decotes generosos, servindo os seios em bandeja para a fome da noite. E se realiza, sim, como se realiza, sob os olhares dos homens. Então creio mesmo que deva se alimentar dos desejos alheios, a danada.

É fácil percebê-la numa festa: duas ou três canecas de vinho e lá está Inspiración a caminhar por entre as mesas, toda faceira e provocante, aceitando de bom grado tragos e elogios. Claro, desnecessário dizer que sua simples presença deixa enlouquecidos os árabes: da última vez presenciei meia dúzia de confusões. Os mais velados arregalam os olhos e coçam os bigodes – mas lhes transparece na cara o que lhes passa pela cabeça. Não creia, no entanto, ser possível subjugá-la. Ouse dominá-la e verá que escapole feito água entre os dedos. Submete-se apenas se lhe for vantajoso. Inspiración é tão fugaz quanto o brilho daquela estrela cadente.

E quando tenho a certeza de que homem nenhum a fará abrir as pernas dessa vez, eu inclusive, eis que vejo a vadia deixar a taberna de braços com o embriagado catalão, tão deslumbrado com a sorte que pagou bebida a meio mundo.

Eu a amo. Com desprezo, doçura e paixão, não nego. Mas essa sua volubilidade eterna nunca me dá tempo de me preparar. Aparece de surpresa em lugares ou situações que eu jamais esperaria. Surge de repente e eu, desprevenido, sinto-a insinuar-se lânguida pela minha virilha, as costas, o pescoço. E não adianta argumentar, seu signo é a urgência. Desejo não é coisa que se adie, ela sempre diz. E não é mesmo, não é mesmo, descobre a cada vez meu corpo vertido em beijos, minha alma convertida em versos.

Às vezes me enche de ciúmes, a diaba. Vejo-a na mesa de outros homens, sorridente, generosa. Mas não me permito levá-la tão a sério. Sorrio e entendo sua alma alegre e infantil. E quando inventa de dançar? Aí sim, é a própria expressão da felicidade. Solta os cabelos negros e com eles chicoteia o ar. Joga longe os sapatos e vai, rodopiando ao ritmo das palmas, tão cheia de graça e tão exata que penso se realmente não terá sido a dança inventada para ela. Seus movimentos aprisionam os olhares, e os homens se deliciam com a mais remota possibilidade de possuírem-na, e babam e gesticulam e se ensurdecem de tantos gritos e exclamações desvairadas. As meninas da casa são suas amigas, e ela sempre lhes traz roupas e enfeites e faz revelações pelas cartas sem cobrar. É uma dádiva essa cigana.

Marca encontros e me faz esperar em vão. Outras vezes acha de aparecer na pior hora possível. Rejeita meus versos em noites sem lua e em outras noites se deleita com eles e os deposita carinhosa em seu decote enluarado. Não tem jeito, previsível é coisa que Inspiración jamais conseguirá ser.

Mas certas iscas costumam dar resultado, sim. Por isso é que vim para casa mais cedo, deixei para trás a festa na taberna. A noite agradável, o vinho, o azeite da candeia renovado, meu corpo de banho tomado… Mel de atrair abelha.

“Armadilha”…, Inspiración dirá, já posso ouvir, o sorriso que eu bem sei nos lábios vermelhos. Então servirei mais vinho, apaixonado pelo seu pentear-se ao espelho, o cabelo negro dengosamente acariciado pela escova bonita a que ela não resiste. O corpo inflamável sob o vestido de pano fino… Candeia acesa em monte de feno seco… – eu já me vejo escrevendo depois sobre suas costas nuas, inspirado.

“O poeta está ficando ordinário” – ela sussurrará, virando-se na cama e me roubando um beijo. E eu, que certos escrúpulos já perdi:

“A gente se merece…”

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Ricardo Kelmer 1989 – blogdokelmer.com

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Este conto integra os livros:

> Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino
> Indecências para o Fim de Tarde

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MAIS SOBRE LIBERDADE E O FEMININO SELVAGEM

AMulherSelvagem-11aA mulher selvagem – Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

Sexo tinto – Palmas para a musa dos inebriados

A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

Medo de mulher – A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido
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MAIS SOBRE INSPIRAÇÃO

O chamado da caverna – Mas talvez não, talvez se decida por entregá-la ao mundo, mãe que não pode criar o filho porque sua missão termina em parir

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DICA DE LIVROS

vtcapa21x308-01Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino
Ricardo Kelmer – contos/crônicas

Com que propriedade um homem pode falar sobre o universo feminino? Neste livro RK ousou fazer isso, reunindo 36 contos e crônicas escritos entre 1989 e 2007, selecionados em suas colunas de sites e jornais, além dos textos inéditos. Usando o humor e o erotismo, eles celebram a Mulher em suas diversas e irresistíveis encarnações, seja através de instigantes personagens femininos ou através do olhar e do discurso masculinos.

Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido… Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.

Mulheres que correm com os lobos – Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés –  Editora Rocco, 1994)

A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01– Achei lindo o conto da cigana. Como diria Oswaldo Montenegro em sua musica, “Virtuosa e profana Pra cantar o sol. Dança, dança, dança pra cantar o sol Todo ao amor que emanar, pra cantar o sol Fiz do meu corpo cabana Pra cantar o sol…” e por aí vai. Acho que essa coisa de mistério que envolve os nômades é que faz tudo ficar ainda mais encantador, lindo!! Marcia Morozoff, Brasília-DF – jan2006

02- Viva a você, caro amigo. Nos delicia com tuas linhas sempre sinuosas como uma bela e incomível cigana. Viva o Phoder da palavras bem ditas e mal ditas idem Só para te passar um grande abraço. Maninho (Aluisio Martins), Fortaleza-CE – jan2007

03- costumo fugir do mundo real ás madrugadas no bate papo do meu estado…meu personagem é esssa mulher sobre quem ecreveu…assim me visto assim me imponho. sou conhecida como “vadia”. meus devaneios ficam apenas alimentando ou atormentando espíritos inocentes me sinto gostosa faço meus parceiros delirarem…é tudo virtual, não permito encontros mas eles só descobrem isso quando já estão envolvidos enebriados, seduzidos…e eu me vou deixando-os livres…para sonharem comigo. bjs amigo. Diva, Macapá-AP – abr2007

04- Curioso. Será a musa, sempre feminina? Se pensarmos nela como “Inspiracion”, sim. Sempre sim. Alma, fada, algo diáfano que se deixa penetrar pelo espírito masculino. Mas quem (ou o quê) inspira as mulheres a escrever? Levanto a peteca porque o Ricardo nos dá uma imagem feminina da inspiração assim como fizeram os escritores de todo o Mundo. Digamos então que existe a ECLOSÃO. E que esta, apesar de substantivo feminino, é notoriamente masculina. Assim se chama meu “muso”. E ele chega como um Cavaleiro do Fogo, um Príncipe de Bastões me obrigando a fazer sua vontade. E escrever que nem uma louca, num astral de emergência. Por falar nisso, por onde andará meu cavaleiro? Monica Berger, Curitiba-PR – ago2007

05- A colocação da mulher, que mesmo sendo vadia, tem todo o encantamento do homem… lindo! Será que todas nós temos um pouco de Inspiración? Mulheres masculinizadas… isso no sexo masculino agora tem até nome, e é: metrossexualismo! Concordo no ponto em que mulheres devem exigir direitos iguais, mas não perder o jeito feminino! Talvez isso pareça contraditório para algumas pessoas… Pamela Bathory, Juiz de Fora-MG – set2007

06- O texto da Inspiración é um de meus favoritos. Aprecio a Espanha (que duplo sentido! rs) e, como danço Salão, já me arrisquei no flamenco…Enfim. O conto é maravilhoso e, ao contrário da comentarista anterior, eu não diria ‘apesar de ser vadia’, mas justamente por sê-la. Engraçado como as pessoas sempre intepretam um sentido pejorativo nisto… Estou ansiosa pelo novo livro, e sempre estarei passando por aqui para conferir os novos escritos. Abraços. Mariana Melo, Maceió-AL – set2007

07- Talvez todas mulheres sejam Inspiración, não que sejam vadias, mas que seja mulher, que não sejam marrentas; mulheres que tem suas curvas, saliências e reentrâncias. Um bom conto. Abraços! Kelly Cristina, Fortaleza-CE – set2007

08- Correndo o risco de estar um pouco atrasada, mas gostaria de dizer que achei muito lindo o texto sobre a Inspiração, rsrs, uma vadia! a frase que mais gostei foi: “à minha maneira eu a amo. Com desprezo, doçura e paixão”. Essa mulher me lembra Lilith. Adoro Lilith. Um abraço, e que Inspiración te acompanhe! Fabiane Ponte, Curitiba-PR – set2007

09- Inspiración vadia é tão linda!!!!!! CIGANA DO IMPRVISÍVEL É DEMAIS!!!! Beeeijo calliente na tua Alma Cigana Na tua Bela e Perigosa Inspiración. Patrícia Lobo, Salvador-BA – jun2011

10- O texto “Inspiracion,essa vadia”,lido na faculdade, me despertou curiosidade para ler o Vocês Terráqueas. Rita Queiroz, Fortaleza-CE – jun2012

11- É incrível esse texto. O sentimento do personagem para com Inspiracion, é o que me chama mais atenção. É um desejo carnal que entrelaça com um sentimento que foge dos preconceitos e esteriótipos social. INSPIRACION, me faz recordar alguns episódios da vida cotidiana. Wescley Gomes, Fortaleza-CE – fev2014

12- Incrivelmente sensacional… Carla Falcão Bouth, São Paulo-SP – fev2014

13- Está bem romântico. Mais que o seu habitual. Luc Lic, São Paulo-SP – fev2014

14- Gostei… Erika Menezes, Fortaleza-CE – fev2014

15- Adoro este texto !!! Há uma ambiguidade no nome da personagem…Todo escritor, poeta para escrever/criar precisa de inspiração. Então nada melhor do que esse habilidade ser retratada como uma mulher cheia de mistérios, indomável…Lindo!!!Adoooooro. Michele Nagle, Fortaleza-CE – fev2014

16- adoooru. Sandra Xavier Amarantha, Poá-SP – fev2014

17- Huuuuuuum, obrigada pela homenagem Ricardo Kelmer. Esse poema deixa a gente suspirando, pois encontramos sempre um tanto de Inspiración dentro de nós. Essa alma de cigana dançante há sim em todas as mulheres, mas , infelizmente, nem todas a expressam, nem todas conseguem ser inspiração. Felizes aquelas que dançam a vida, encantam os corações dos seus espectadores e levam ao mundo a sua alegria! Sandra Xavier Amarantha, Fortaleza-CE – fev2014

18- Inspiración… Adoooooro! Renata Kelly, Fortaleza-CE – mai2014

19- E perfeito! Amei. Amanda Rangel Ryback Lobo, Carlópolis-PR – fev2017

20- Meu “signo é a urgência”… Adoro esse texto. Christiane Oliveira, Rio de Janeiro-RJ – fev2017

21- Nossa gostei de mais principalmente da parte que fala que o poeta e está ficando ordinario e você com certos escrúpulos rsrsrsrsrd parabéns lindas palavras e pensamentos bem certos gosto dos seus poemas são bastante inspiradores 😀 uma boa tarde querido amigo. Silvanna Carvalho – fev2017

22- Uau. Que texto esplêndido. Adorei. Ana Paula Mayer, Boa Vista-RR – fev2017

23- Maravilhoso amei. Anairda Dry Lima, Rio de Janeiro-RJ – fev2017

24- Adorei amigo parabéns e obrigado por compartilhar. Lili Liliane, Poços de Caldas-MG – fev2017

25- Uau! sim!! Maravilha de cigana que encanta e deslumbra a todos e aparece sem pedir e faz da vida a liberdade de seguir seus desejos e emoções irresistível e urgente, está sempre presente quando é preciso ser feliz e esquecer dos padrões e se deixar levar pelo seu pulso vibrante da paixão. Eu já vivi muitas vidas assim…faz parte de mim faz parte de nós. Gratidão pela fuga poética que me embriagou…bjos!!! Bya Blanco, Rio de Janeiro-RJ – mar2017

26- Maravilhoso me indentifiquei kkkk muito bom!!! Gostei da parte que ela não consegue ser previsível. Anabela Simões, Feira de Santana-BA – mar2017

27- Que lindo. Elizandria Vieiro, mar2017

28- Adorável cigana imprevisível… Muito bom texto! Neyane Macedo Infurna, Rio de Janeiro-RJ – mar2017

29- Encantada, amigo! Sarah Carvalho, Campo Maior-PI – mar2017

30- Inspiración o verdadeiro espelho de muitas mulheres… Que no qual eu me incluo. Perfeito! 👌💃 Vivi Oliveira, Seropédica-RJ – mar2017

31- mto bom. Aline Lira, São Caetano do Sul – mar2017

32- Lindo amei. Lucineia Seiberth Kamke, mar2017

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As vizinhas que a crise traz

24/02/2010

24fev2010

Jessi passou o gel e a fantasia de Rahbe foi devidamente realizada, enquanto minha pequena fazia o complemento, beijando e masturbando nossa generosa vizinha

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AS VIZINHAS QUE A CRISE TRAZ
As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi
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Más notícias. Perdi a última coluna de jornal que me restava. Pelo jeito os caretas do MNBC conseguiram convencer mais um editor de que Diametral é um péssimo exemplo pra juventude brasileira. Que bosta. Esse tal Movimento Nacional pelos Bons Costumes nos elegeu inimigos mortais, a mim e a Ninfa Jessi, desde que começamos nossa sexualíssima campanha pela ampliação do diâmetro do mundo.

Ei, gatão, não nos abatamos! Ninfa Jessi procurou logo me animar. – Em momentos de crise, vale a estratégia do cocô: é indo em frente que a gente encontra a saída.

O que seria de mim sem a sabedoria da minha pequena…

Rooooonc! O estômago deu o aviso: cinco da tarde e a gente nem tinha almoçado ainda. Fui na cozinha e abri a geladeira: uma garrafa dágua e um ovo. A coisa tava feia. Saímos catando dinheiro pela casa e tudo que conseguimos foi juntar quinze pratas. Me deu vontade de chorar. O que se faz numa situação dessa?

Ora, o que qualquer cara de bom senso faria: daria a grana pra namorada ir no supermercado falou Jessi, me tomando o dinheiro. – Nessas horas mulher sabe gastar melhor.

Meia hora depois Ninfa Jessi voltou do supermercado. Abri a porta do apartamento, ela me entregou a sacola e anunciou, toda solene: Hora de comemorar a crise! Na sacola havia uma garrafa de vodca vagabunda e um pacotinho de tiragosto. Sábia Jessi. Foi quando percebi, humm, que ela não viera sozinha, hummmm, havia uma garota parada atrás dela, de shortinho, camiseta e sandalinha, hummmmmmm.

Encontrei Rahbe no elevador. Ela veio comemorar a crise com a gente.

Ninfa Jessi não presta. Rahbe é a ninfeta do 702 que adora acompanhar as aventuras sexuais de Diametral e Ninfa Jessi em minha coluna no jornal. Ops, minha ex-coluna. Que bosta, nem gosto de lembrar. Maldito MNBC. Rahbe me deu dois beijinhos e entrou na sala. Belo e volumoso par de peitos Rahbe tinha. Ideal pra fazer espanhola.

Dez minutos depois estávamos no tapete da sala, ouvindo The Doors, que Jessi adooora, e mandando ver na vodca. Na segunda dose ela e Rahbe chegaram à conclusão que eu deveria criar um blog pra continuar publicando nossas aventuras e brindamos a essa ideia. Depois Jessi serviu uma dose dupla pra todos e quis saber da ninfeta qual a nossa aventura que ela mais gostava, e Rahbe disse que era a transa com as enfermeiras na festa à fantasia, que aquilo a havia excitado bastante pois ela queria ser enfermeira. Na metade da garrafa, já bem animadinha, Jessi proclamou, soleníssima, que a melhor função da roupa sempre foi ser tirada, sapientíssima Jessi. Dito isso, fez um strip-tease completo, ao som de The Spy, em homenagem à nossa peituda vizinha que, ao final, aplaudiu bastante, maravilhada com a performance de minha pequena. Tão maravilhada que, tchum, pulou sobre ela.

As cenas seguintes eu assisti de camarote, as duas enlouquecidas no sofá num festival de línguas e dedos, cena de altíssima voltagem. Como Jessi sempre diz que nenhum homem chupa uma mulher como outra mulher chupa, aproveitei que elas faziam um meia-nove e tratei de aprender um pouco mais sobre o assunto. Em outras palavras: hora das fotinhas. Câmera na mão, registrei o valioso momento, até que não me controlei mais e entrei na festa, pedindo pra Rahbe me fazer uma espanhola naqueles peitões irresistíveis, o que ela fez com muita propriedade, acho que já tava acostumada ao pedido. Depois Rahbe cochichou no ouvido de Jessi, que sorriu e me disse:

Gatão, ela quer ampliar o diâmetro. Vou buscar o gel.

Caramba, mais uma com essa fantasia de ser enrabada pelo Diametral. Fazer o quê, né? Enquanto Jessi ia no quarto pegar o gel, pus a ninfeta de quatro no sofá e, após verificar que o cu da moça era do tipo semirrosa, um tipo de valor 8,5 no mercado, fiz as preliminares com a língua até deixá-la alucinada, elas sempre ficam alucinadas com isso. Depois Jessi passou o gel e a fantasia de Rahbe foi devidamente realizada, enquanto minha pequena fazia o complemento, beijando e masturbando nossa generosa vizinha. Generosa e escandalosa. Caramba, como aquela menina berrava! Na reunião seguinte do condomínio os espiões do MNBC teriam um prato cheio pra reclamar. Povo recalcado. Não trepa nem deixa ninguém trepar.

Pedimos pra ela dormir com a gente mas Rahbe explicou que tava de recuperação em química e tinha prova no dia seguinte, ainda precisava estudar. Ninfeta responsável, exemplo bonito de se ver. Rahbe nos beijou e voltou pra casa toda felizinha, levando seu diâmetro semirrosa 8,5 devidamente ampliado. Agora ela não seria apenas uma simples leitora das aventuras de Diametral e Ninfa Jessi seria personagem. E antes de ir ainda deixou uma curiosa sugestão pra Jessi:

Por que você não entra no ramo de strip-tease pela internet? Tem gente ganhando superbem com isso, sabia?

Mas Jessi não gostou muito da ideia. De manhã, porém, enquanto me despertava com seu tradicional boquete sabor menta, minha pequena já havia mudado de opinião:

Começo amanhã mesmo, gatão. Vou usar aquele quartinho do fundo. Vinte minutos, cinquenta pratas. Ninfa Jessi, sua amante virtual. Que tal?

Ninfa Jessi não presta.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.com

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> Confira os bastidores e as imagens desta aventura de Diametral e Ninfa Jessi. Exclusivo pra Leitores Vips. Basta digitar a senha do ano da postagem.

> Mais aventuras de Diametral e Ninfa Jessi

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – Um casal apaixonado vive seu amor libertino com bom humor e muita safadeza

As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz

Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir

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LEIA NESTE BLOG

Por trás do sexo analHá algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

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DICA DE LIVRO

IFTCapa-04aIndecências para o fim de tarde
Ricardo Kelmer – Contos eróticos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e salvação por meio da submissão no sexo anal

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COMENTÁRIOS
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Jessi passou o gel e a fantasia de Rahbe foi devidamente realizada, enquanto minha pequena fazia o complemento, beijando e masturbando nossa generosa vizinha

Protegido: As vizinhas que a crise traz (VIP)

24/02/2010

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Lama

21/01/2010

21jan2010

O que é mais forte, o amor ou o ódio? Ou será o ódio dos ex-amantes o último recurso do amor?

LAMA

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Se quiser fumar, eu fumo

Se quiser beber, eu bebo
Não interessa a ninguém

Oito horas da noite. Lena põe o CD no aparelho de som e sobe o volume até o máximo. A música que toca, estridente, é um velho samba-canção de fossa, cantado por Núbia Lafayette. Na calçada, as pessoas passam curiosas, olhando para dentro do bar. Mas Lena não as vê. Encostada à porta do bar, acende um cigarro, dá uma longa tragada e solta a fumaça para cima. Do outro lado da rua está a igreja, ela pode ver o movimento lá dentro, os pastores no palco, os fiéis sentados nos bancos a aguardar o início do culto. Na entrada, uma moça e um rapaz convidam os transeuntes a entrar e aceitar o Senhor Jesus. Lena sorri de vê-los constrangidos pela música que ecoa de seu bar. Então, ele surge, bem à entrada da igreja, de paletó, a bíblia na mão. O rapaz aponta para o outro lado da rua e ele se vira para olhar. É nesse momento que seus olhares se cruzam. E é como se dez anos não houvessem se passado. Os olhares se mantêm fixos um no outro, intercalados pelos carros que passam pela rua. Lena se delicia ao constatar a imensa surpresa nos olhos dele. Pega o copo na mesa e toma um gole de campari. Quando olha novamente, ele já voltou para o interior da igreja.

Se o meu passado foi lama
Hoje quem me difama
Viveu na lama também

Olhai, irmãos, olhai em vossa volta e vereis a Babilônia a seduzir com seu hálito de bebida e suas promessas de luxúria!!! A voz dele, amplificada, extrapola os limites da igreja, atravessa a rua e parece duelar com a música do bar. Lena, imperturbável, toma mais um gole de seu campari. O garçom se aproxima e comenta algo sobre o volume alto da música, mas ela não responde, permanece na mesma posição, o olhar distante. Olhai, irmãs, e vereis as mensageiras de Satanás na porta dos bares e dos prostíbulos, essas almas perdidas cuja especialidade é levar os homens com elas para o Inferno!!!

Comendo da minha comida
Bebendo a mesma bebida
Respirando o mesmo ar

Ele era um garoto quando ela o conheceu… e se perdeu de paixão. Foi uma paixão instantânea, mútua e avassaladora. Semanas depois, seu marido descobriu, expulsou-a de casa e ela alugou para eles um pequeno quarto no centro, cuja cama passou a ser o templo sagrado de seus desejos insaciáveis. E, uma vez juntos, perderam-se ainda mais. Para sustentar os vícios, que não eram poucos, enganaram, roubaram e assaltaram, afundando-se cada vez mais nesse amor bandido. Foi por amor que várias vezes ela foi buscá-lo no hospital, tantas brigas que ele arrumava pelas ruas. Foi por amor que várias vezes, louca de ciúmes, ela bateu nas mulheres que ele insistia em cortejar descaradamente em sua presença. E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central.

E hoje, por ciúme ou por despeito
Acha-se com o direito
De querer me humilhar

Foram oito anos de praça. Oito anos suportando o bafo de cachaça dos operários e o suor fedido dos mendigos. Oito anos vendendo por meia hora aquilo que deveria ser apenas dele durante toda a vida. No fim da noite, ela levava o arrecadado para ele, que aguardava no bar, bebendo e jogando com os amigos. Uma noite, porém, não o encontrou lá. Procurou-o pelas ruas, mas nelas ele também não estava. Quando chegou em casa, já de manhã, encontrou-o em sua cama, com outra mulher. Ela não lembra exatamente do que fez, mas nos autos do processo consta que os policiais, alertados pelos vizinhos, a encontraram sentada no chão, ainda segurando a faca, tranquila e cantarolando um triste samba-canção. E, ao seu lado, os dois corpos ensanguentados.

Quem és tu? Quem foste tu?
Não és nada
Se na vida fui errada
Tu foste errado também

Doze anos depois, foi libertada. Deixou o presídio e foi diretamente ao prédio onde antigamente morava com ele. Depois de muito perguntar foi que soube onde poderia encontrá-lo. Surpresa com o que ouviu, rumou para lá. Era uma modesta igreja evangélica que funcionava no salão do segundo andar de um prédio velho. Ela chegou, sentou-se no último banco para que ele não a reconhecesse e o escutou pregar. Ele falava de amor, fraternidade e perdão. Era um sermão bonito, que tocava o coração. Mas o de Lena não tocou. Antes do fim, ela levantou-se, interrompendo o culto, e dedo em riste na cara dele, gritou tudo que se acumulara em seu coração naqueles doze anos. Doze anos em que ele jamais fora visitá-la. Sequer lhe mandara um lençol limpo. Um mísero bilhete, nem isso. Ele não conseguiu dizer nada, assustado e constrangido por ver exposto, diante dos fiéis, todo o seu passado sombrio. Quando ela fez uma pausa, ele aproveitou e anunciou, solene e em voz alta, para todos ouvirem, que aquela pobre mulher estava possuída por Satanás. Imediatamente, os seguranças avançaram e a seguraram, enquanto o outro pastor assumia o ritual de exorcismo. Ela protestou. Mas foi inútil. Gritou e se debateu. Mas foi tudo inútil. Minutos depois, vencida pelo cansaço, pelo desânimo e pela decepção, deixou-se cair no chão, chorando todas as lágrimas que em doze anos não chorara, enquanto os fiéis, braços erguidos ao céu, louvavam a glória do Senhor Jesus.

Não compreendeste o sacrifício
Sorriste do meu suplício
Me trocando por alguém

Foram várias noites em claro, lutando contra sua própria alma dilacerada e dividida. Uma parte ainda o amava, muito, profundamente, mas a outra parte não conseguia perdoá-lo. Durante quarenta dias e quarenta noites, amor e ódio fizeram de sua alma campo de horrenda batalha, sequiosos por conquistá-la. Até que um dia ela, enfim, adormeceu sorrindo. E dormiu o sono justo dos que finalmente compreendem aquele que talvez seja o maior dos mistérios do amor: que ele perdoa até mesmo o que não tem como ser perdoado. No outro dia, ela foi ao culto, disposta a contar-lhe a boa nova que soprava alegre em seu espírito feito uma brisa de verão. Mas quando chegou à porta do salão foi barrada pela esposa dele, que disse, numa frase curta e cheia de desprezo, que ali ela jamais seria bem-vinda. Enquanto Lena tentava assimilar a surpresa, alguns fiéis chegaram e a enxotaram, levando-a para fora e arrastando-a até o beco ao lado. Foi lá que a apedrejaram. Jogada ao chão, quase desfalecida, o sangue a cobrir-lhe a vista, ela ainda o viu se aproximar, largar um punhado de areia sobre seu corpo e dizer: Pra mim, você já morreu.

Se eu errei, se pequei
Pouco importa

A voz do garçom chega novamente, se misturando às dolorosas lembranças. Enquanto ele comenta algo sobre um caixão e clientes indo embora, dez anos se passam rapidamente em sua mente, dez anos em que ela apenas trabalhou e trabalhou e trabalhou, inteiramente obcecada. E o resultado está aí, na forma desse pequeno bar, que ela inaugura exatamente hoje. Nesse instante, um casal entra. Eles observam o interior do recinto, dão meia-volta e saem, assustados. O garçom, perdendo a paciência, diz que ali ele não trabalha e vai embora. Lena dá outra tragada no cigarro e entra. Caminha até o centro do bar, entre as mesas, e toca o caixão. É um caixão branco de madeira brilhosa, suspenso sobre o pedestal de ferro, como se fosse a decoração principal do bar. Grudada pelo lado de dentro do vidro, por onde se veria o rosto do defunto, o que se vê é uma foto desbotada, onde, sentado numa mesa de bar, um homem jovem sorri.

Se aos teus olhos estou morta
Pra mim morreste também
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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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Este conto integra a série Trilha da Vida Loca. A letra usada é da música Lama, de Aylce Chaves e Paulo Marques, que Núbia Lafayette interpretou de forma magistral.

Este e outros textos integram o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino e o livreto Trilha da Vida Loca – Contos do amor doído

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Trilha da Vida Loca
Ricardo Kelmer – contos

O amor é belo. Mas também é ridículo, risível, trágico… Aqui estão reunidas seis histórias inspiradas em grandes sucessos musicais da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor. Amar é para estômagos fortes.

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NÚBIA LAFAYETTE CANTA “LAMA”

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MAIS

Núbia Lafayette canta Lama em programa de TV, 1993 (vídeo)
Núbia Lafayette canta Devolvi, 1994 (vídeo)
Notícia da morte de Núbia Lafayette, 18.06.07

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LEIA NESTE BLOG

PaixaoDeUmHomem-01aPaixão de um homem (Trilha da Vida Loca) – Amigo, por favor leve esta carta e entregue àquela ingrata, e diga como estou

Vou tirar você desse lugar (Trilha da Vida Loca) – De repente, a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser apenas detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

Por que brigamos (Trilha da Vida Loca) – Ou continuava tentando salvar o casamento, e todo o seu esforço não seria nenhuma garantia de sucesso, ou então salvava a si mesmo – se é que existia salvação para ela

Odair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

A última canção – O que mais impulsionava sua voz, a raiva por ela brincar assim com seus sentimentos ou o ódio por pressentir que mais uma vez não conseguiria resistir?

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TrilhaDaVidaLoca201302Cartaz-2aTrilha da Vida loca – o show

Música e literatura em histórias de amor inspiradas em clássicos da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor… Ricardo Kelmer e Felipe Breier interpretam contos kelméricos e músicas de Odair José, Diana, Paulo Sergio, Waldick Soriano e Núbia Lafayette. Sugere-se que todos paguem o couvert antes de cortar os pulsos

Texto e direção: Ricardo Kelmer. Duração: 2h (ou versão de 1h30)
> Saiba mais

TRILHA DA VIDA LOCA
Contos e canções do amor doído

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Gostei pra caramba.Li com a música tocando ao fundo, e texto e música se integram naturalmente.O clima é esse.Mais uma vez, vc foi perfeito! Beijos. Mônica Burkle Ward, Recife-PE – abr2007

02- Oba!!!! Adorei Lama e a trilha sonora. Na verdade todos teus textos são hilários…vou começar a esboçar alguns… Beijinhos. Liliana Ostrovski, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

03- Muito boa mesmo essa história… VALE UM CURTA… Já pensou? E qto ao Campari, foi boa pedida!! José Lins Jr., Juazeiro do Norte-CE – abr2007

04- olá..ricardo adorei..ler ….o que vc me mandou… Maria Aparecida Brígido, São Paulo-SP – abr2007

05- Adorei essa modalidade de literatura on line, com trilha sonora…. É muito bom vc ter uma musica dando o clima da estória…. Ciça Castello, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

06- Oi Kelmer, Já estava com saudade. Bom demais. Adorei! Beijos. Virgínia Lígia de Freitas, Fortaleza-CE – abr2007

07- O CONTO DA VIDA LOUCA ESTÁ TUDIBOM. PARABENS!!!!!BJU Christina Alecrim, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

08- Oi Ricardo, Divertidissima sua “trilha da vida loca”, eu ja tinha lido o texto na sua coluna no Povo e fiquei pensando como seria o tal bolero, ai surpresa, a noite chega seu email com a trilha sonora! Haja drama, hein? Parabens! Ah, e quando vai ter apideiti no site? Beijinho de saturday morning. Ana Wauneka, San Diego-EUA – abr2007

09- Dear Ricardo, Adorei a interpretacao da trilha da musica Lama. Voce e’ demais. Adoro de verdade o que voce escreve. E quando e’ que vens me visitar aqui na California? Tem coisas unicas por aqui pra voce observar e depois quem sabe escrever sobre elas. Beijinhos. Raquel F. Araujo, Los Angeles-EUA – abr2007

10- Nossa! Porque depois de tanto sofrimento ela ainda tem que continuar a destruir a própria vida e o seu ganha pão por causa de um sacana?Eu fique muito deprimida com o final deste conto.Ela deveria ter realmente ter aceitado esta dura lição da vida,agradecido por tudo o que aprendeu e por ter sobrevivido e dali prá frente tocar a vida dela com mais humildade e amor no coração. Bia Leite, São Paulo-SP – abr2007

11- Parabéns pelo belo texto, Ricardo! Interessante a maneira pela qual vc abordou as ironias e as desventuras que cercam o universo do desejo e das paixões. Kátia Albuquerque, João Pessoa-PB – abr2007

12- Cara! Parabéns!!! Gosto muito de ler seus textos! Me envie sempre que puder!!! Forte abraço de um fã! Thiago Jede, Três de Maio-RS – abr2007

13- Caramba, que final, rapaz!!!!! GENIAL! Parabéns, mais uma vez! Humberto Batista, Fortaleza-CE – abr2007

14- Minha nossa… sempre, sempre você. Ao terminar de ler estava exausta. Amores… sempre eles… Fabiana Polotto, São José do Rio Preto-SP – abr2007

15- Bem, sobre o texto, adorei, mesmo, assim como a trilha, só vc mesmo, sempre criativo! Parabéns! Jayme Akstein, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

16- Tu tá cada vez melhor, macho véio. José Everton de Castro Jr., Fortaleza-CE – abr2007

17- Campari. :^) Como adivinhou minha bebida preferida??? Bjus… Rildete Ribeiro, Aracaju-SE – abr2007

18- Achei lindo,extremamente sensível, mas muito triste…. Isso tudo daria um belo filme! Tu poderias me mandar a música? Beijinhos. Vanessa Santini Vebber, Caxias do Sul-RS – abr2007

19- Loner, meu breg brother!!! Tá EXCELENTE! Só lembrei dos velhos tempos de Roque Santeiro. Sensacional!!! Valeu! Beijos. Malena, Brasília-DF – abr2007

20- Recebo sempre seus emails e já que, além de nordestino você passou dois meses pelo nordeste. Grava essa: NÃO EXISTE PAREA PRA VOCÊ.Risos.Um abraço. Francisca Fernandes, Fortaleza-CE – abr2007

21- Ô, Kelmer, esse negócio aí da Lena num é amor nao, Cara, é doença… Abraço lusitano e fraterno. Flamarion Pelúcio, Fortaleza-CE – mai2007

22- Adorei a TRILHA DA VIDA LOCA: LAMA. É uma série, não? Muito bem escrito, personagens fortes e sua linguagem está melhor a cada dia. Gostei muitíssimo! Que bom! Cara, mande ver !!! Admiro-o muito nesta empreitada que já é jornada de tantos anos e gosto muito de você, pessoa massa! Abração. Érico Baymma, Fortaleza-CE – mai2007

23- Caro Ricardo Lafayet, O texto é péssimo!!! Não prende a atenção do leitor.Tema banal no cotidiano.Não há humor, poesia, … Prenda o leitor meu caro!!! Na minha opinião, o que faço com imparcialidade, vc alterna bons e maus textos. Quando gosto de um, sei q o seguinte será ruim!!!!! Eduardo Macedo, Recife-PE – mai2007

24- Tá com a gôta!!!!!!!!!!!!!!!!! Show! Nazaré Franca, Fortaleza-CE – mai2007

25- perfeito!como sempre brilhante!te admiro muito!bjs. Beth Alencar, Fortaleza-CE – mai2007

26- Oi, Ricardo! Caramba, vç tem a extrema facilidade de fazer o leitor ler, visualizar e sentir ao mesmo tempo. As emoções de ambos foram introjetadas de tal forma que senti como se estivesse vivendo aquilo.E é que li sem ouvir a música, imagine o apelo q se torna então.Brilhante, sou kelmerfã de carteirinha! Beijos. Lia Aderaldo, Fortaleza-CE – mai2007

27- Eita!!! “Pega fogooooooooooooo o cabaré!!!!” Da até pra dançar um bolerão, hahahahaha!!! Pensa numa “Boate Azul”!!! Adorei o texto!!!! Só trocaria o campari por uma vodka!!! huahuahuahua!!!!! Bjssssssssss. Lua Morena, Luziânia-GO – mai2007

28- Ricardo , que massa a história. Curti. Irei a Sampa semana que vem . Se rolar podemos trocar uma idéia!! abços. Petrus, Fortaleza-CE – mai2007

29- DOREEEEEEEEEEEEI !!! Beijo grande. Ilana Nahm, Rio de Janeiro-RJ – mai2007

30- Lama é o máximo ,dá um filme fantástico , e Odair José me fez viajar nas lembranças , nos finais de noites ,lá na abolição……….no dia que só chegamos em casa a noite depois de um tour enormeeeeeeeeeeee nos bares e restaurantes da cidade , depois de um luau ,com a irmã da Cris , lembra? bom demais…………..tudo que lí me transportou total para lembranças maravilhosas…. é meu amigo , voce está ótimo , muito + sensivel ,calmo ,muito + tudo de bom em um homem……………. Cristina Cabral, Fortaleza-CE – out2007

31- Adoooooooro essa música num mix com Preconceito. Divinas!! Tenho o CD Imitação da Vida (Bethânia) com as duas. Carmem Mouzo, Rio de Janeiro-RJ – fev2011

32- Muiiitttoooo booommmmm!!! Luce Galvão, Fortaleza-CE – fev2011

33- Gostei da ousadia do texto, sou evangélica e tenho horror dessa história de colocar a culpa de tudo em Satanás. Ora e o livre arbítrio? Nota 10 pra o texto “LAMA”. Marilde Jorge, Fortaleza-CE – fev2011

34- Obrigada!! Eh essa mesma! Fala na alma. Aiai..rs Pouco importa…para mim morreste tambem!!! Kkkkkk ohh drama! Cibele Cortez, Fortaleza-CE – nov2012

35- bom demaaaaaaaaaaaaaaissss!!!!! Ana Erika Oliveira Galvao, Fortaleza-CE – nov2013

36- Tu é um show completo. Eugenia Nogueira, Fortaleza-CE – nov2013

37- puuuutzzzz…. ela era bonita, heiiim. Tetê Macambira, Fortaleza-CE – ago2014

Lama-03a


Vou tirar você desse lugar

08/01/2010

08jan2010

Ele então comunicou que era o próximo e pediu um montila pra esperar. Mas a gerente respondeu que tinha quatro na frente

VouTirarVoceDesseLugar-03

VOU TIRAR VOCÊ DESSE LUGAR

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Olha, a primeira vez que eu estive aqui
Foi só pra me distrair
Eu vim em busca de amor

Dario foi ao balcão e pediu um montila. Era a primeira vez que ia no Leila´s. Virou a dose de um gole, depois cuspiu no chão e esfregou o sapato em cima. Reparou na luz vermelha do teto, o efeito bacana que dava no ambiente. Na máquina tocava uma música do Odair José, e uns casais dançavam entre as mesas. Dario deu uma coçadinha nos possuídos e pediu outra dose. Foi nesse momento que ela apareceu, vinda da penumbra do corredor. Usava sainha jeans e bustiê estampado de manga comprida. Ela se encostou na parede, mascou o chiclete e olhou para ele de rabicho de olho. Ele a achou muito mimosa. Ela pregou o chiclete atrás da cortininha de babado e… sorriu.

Olha, foi então que eu lhe conheci
Naquela noite fria, em seus braços
Meus problemas esqueci

Uma hora depois ele saiu de cima dela e foi se limpar na bacia que ficava sobre a mesinha de madeira. Quando voltou, ela estava sentada na cama e segurava um copo. Peguei um montila pra você, por minha conta – ela falou. Ele agradeceu, bebeu e perguntou se ela queria. Ela disse que não gostava, mas que ia beber porque estava gostando de estar com ele. Ela tomou um gole e fez careta. E Dario achou lindo. Ela acariciou seus cabelos e disse que o achava parecido com aquele cantor. Ele riu, descontraído. De repente, a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

Olha, a segunda vez que eu estive aqui
Já não foi pra distrair
Eu senti saudade de você

Uma semana depois, quando ele chegou e perguntou pela Josélia, e a gerente disse que ela estava ocupada, ele se esforçou para disfarçar a frustração. Ele então comunicou que era o próximo, e pediu um montila para esperar. Mas a gerente respondeu que tinha quatro na frente. Quatro? Será que escutara direito? E olhe que hoje a clientela dela tá fraca, a gerente explicou enquanto anotava o nome dele num caderno de sete matérias cheio de fotos de artistas. Dario virou a dose e pediu uma dupla. E foi sentar na mesa do canto, perto da maquininha de música.

Olha, eu precisei do seu carinho
Pois eu me sentia tão sozinho
Já não podia mais lhe esquecer

Duas horas depois, quando Josélia apareceu e o levou ao quarto, ele enjoou e vomitou na porta oito montilas, duas coxinhas e um sarrabulho. Ela o levou ao banheiro e deu banho nele. Depois deitou-o na cama e começou a tirar a roupa, mas ele a interrompeu e disse que daquela vez queria ficar abraçado com ela, só isso. Surpresa, Josélia ajeitou o travesseiro e ele deitou, se aconchegando ao corpo dela. Ela o beijou no rosto com suavidade e fez carinho em sua cabeça. E Dario adormeceu.

Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa o que os outros vão pensar

O salário como vendedor na loja de autopeças não era muito bom, mas ele conseguira um empréstimo e estava montando uma carrocinha de cachorro-quente na esquina do Fórum, ela poderia ajudá-lo a tomar conta, não era um trabalho complicado. Sentados na mesa do canto, a preferida dele, ela o escutava falar. Tinha também um cliente da loja, que era dono de um colégio, ele tentaria uma bolsa com esse cara para ela estudar. Nesse instante, ela não conseguiu mais segurar a lágrima que insistia em escapar de seu olho. Ele percebeu e tocou seu rosto, desviando a lágrima para seu dedo, a luz vermelha do teto refletindo na gotinha. O que foi?, ele perguntou. E ela então falou de Goiânia, as cartas que enviava aos pais, onde contava sobre como ia bem no supletivo – mentira que renovava já fazia dois anos. Acho até que eles já sabem, ela murmurou, chorosa. Dario sorriu, compreensivo, e disse que adoraria conhecê-los, que deveriam ser pessoas maravilhosas e… Eles devem ter vergonha de mim, ela interrompeu. Ele pegou no queixo dela, erguendo seu rosto e olhando bem no olho: Mas eu, eu tenho orgulho.

Eu sei que você tem medo de não dar certo
Pensa que o passado vai estar sempre perto
E que um dia eu possa me arrepender

Na saída do cinema, enquanto ele comprava outro saco de pipoca, ela não conseguia deixar de admirar o cartaz do filme. Estava radiante. Imaginava que cinema era algo bonito, mas não imaginava que fosse tanto. Ele a escutou falar excitada do filme, das músicas românticas, de como a moça era linda e de como não esperava que o moço voltasse para salvá-la do marido cruel. Ele a pegou pela mão e atravessaram a rua, rumo à pracinha. Ela não queria ir para lá, mas ele disse que não havia problema, e insistiu tanto que ela cedeu. Então, sentados no banquinho, ela disse que ele era um homem muito bom, que gostava muito dele, mas… o problema é que ela era… Ele não a deixou terminar: segurou seu queixo e a beijou na boca. E Josélia pela primeira vez não afastou os lábios. Foi nesse momento que ele escutou, vindo de um grupo de rapazes que bebiam na birosca ao lado: Grande Dario, me chupando por tabela…

Eu quero que você não pense em nada triste
Pois quando o amor existe
Não existe tempo pra sofrer

Hoje faz um ano que Dario e Josélia se conheceram. Semana passada ela ganhou o anel de noivado e o abraçou forte, chorando emocionada. Ela ainda trabalha no Leila´s onde, aliás, está cada vez mais requisitada, principalmente depois que passou a usar o anel. E é justamente pelo movimento que proporciona à casa que a gerente aceitou suas reivindicações. Uma delas é que agora ela só começa os programas depois das onze, que é a hora que chega do supletivo. E a outra é que ela tem sempre direito a quinze minutos de intervalo – que Josélia faz questão de aproveitar, todos eles, tomando um montila com Dario em sua mesinha predileta.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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VouTirarVoceDesseLugarDiv-01a.

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figlivrovocesterraqueas01Este conto integra os livros Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino e Trilha da Vida Loca. A letra usada é da música Vou Tirar Você Desse Lugar, de Odair José.

Ouça: Vou tirar você desse lugar (1972)

> Odair José site oficial: odairjoseoficial.com

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Trilha da Vida Loca
Ricardo Kelmer, contos

O amor é belo. Mas também é ridículo, risível, trágico… Aqui estão reunidas seis histórias, inspiradas em grandes sucessos musicais da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor. Amar é para estômagos fortes.

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VOU TIRAR VOCÊ DESSE LUGAR
Bordel Poesia (São Paulo, 18.02.14). Encenação: Ricardo Kelmer e Thais Durães

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VOU TIRAR VOCÊ DESSE LUGAR
CCBNB (Fortaleza-CE, abr2017). Encenação: Patrícia Crespí e Maurício Rodrigues

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odairjose009SUCESSOS DE ODAIR JOSÉ:

E depois volte pra mim (disco Praça Tiradentes, 2012)
Não me venda grilos (o disco censurado O Filho de José e Maria, 1977)

Nunca mais (disco O Filho de José e Maria, 1977)
Na minha opinião (1975)
Dê um chega na tristeza (1975)

A noite mais linda do mundo (1974)
Cadê você (1973)
Eu, você e a praça (1973)
Vou tirar você desse lugar (1972, original)

Vou tirar você desse lugar (ao vivo com Caetano Veloso, 1973)
Vou tirar você dsse lugar (2016)
Esta noite você vai ter que ser minha (1972)
Foi tudo culpa do amor (2017)

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LEIA

Discografia de Odair José

Vou tirar você desse patamar – Temática social na canção de Odair José – Trabalho acadêmico de Ana Karolina Cavalcante Assunção e Síria Mapurunga Bonfim (2011)
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LEIA NESTE BLOG

odairjose010aOdair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

Lama (Trilha da Vida Loca) – Se quiser fumar, eu fumo… Se quiser beber, eu bebo… Não interessa a ninguém

Paixão de um homem (Trilha da Vida Loca) – Amigo, por favor leve esta carta… E entregue àquela ingrata… E diga como estou

Por que brigamos (Trilha da Vida Loca) – Quanto mais eu penso em lhe deixar… Mais eu sinto que não posso… Pois me prendi à sua vida muito mais do que devia

A última canção (Trilha da Vida Loca) – Esta é a última canção que eu faço pra você… Já cansei de viver iludido, só pensando em você

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TRILHA DA VIDA LOCA
Clipe com trechos do show

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NA CASA DAS MOÇAS (blues de Odair José)

 

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- interessante Ricardo, como produtor vejo um projeto de grande porte, pois só pode ser assim, Envolve questões de direitos autorais de um monte de gente, pois alem dos caantores, compositores e ECAD, tem a parte das gravadoras, é uma coisa trabalhosa, mas se pode pensar a respeito, envolvendo varios outros atores, como por exemplo uma base de produção aí em SP, é isso. Gledson Shiva, Fortaleza-CE – fev2007

02- Adorei o texto, se não tivesse o nome do escritor saberia q era seu… Lua Morena, Brasília-DF – fev2007

03- Valeu, cara, adorei, sou fã do Odair, desde quando morava em Tamboril… Pedro Rodrigues Salgueiro, Fortaleza-CE – fev2007

04- “Vou tirar vc desse lugar” é uma musica da safra “brega” que considero mto bonita e sensível…e a estória que vc bolou, que vc pressupõe possa ter acontecido…está perfeita, imaginei a cena…mtas estórias desse tipo devem ter de fato acontecido. Gostei. Bjux e parabéns. Christina Alecrim, Rio de Janeiro-RJ – fev2007

05- Tio, gostei muito do conto! Bem cinematográfico mesmo: descritivo, detalhista. Muito bom! Tô doido pra ler os próximos da série! Abração! Levy Galvão Mota, Fortaleza-CE – fev2007

06- Fala, Ricardo! Gostei da idéia. E essa música do Odair é muito boa mesmo. Não sei se você já ouviu na voz dos Los Hermanos, mas a versão ficou show. Abraço. Alex Felix, São Paulo-SP – fev2007

07- Rapaz, muito boa essa do Odair José… Essa música é um fenômeno e a historia por cima casou perfeito! Pode ter certeza que se compilar tudo num livro, vai fazer o maior sucesso… Muito bom mesmo! Eu já cheguei a pensar em algo do gênero, tipo fazer um filme mesmo em cima da letra de uma música. A minha preferida, que eu ainda executarei, é aquela “Geni e o Zeppellin”, do Chico Buarque… Mas aí já é hostória quase pronta, né… Só roteirizar. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – fev2007

08- beleza irmão, muito bom!!!! cara, tu foi frequentador de berel mermo, hem? César de Cesário, Campina Grande-PB – fev2007

09- Muito bom, Kelmer! Estou ansioso para ler os próximos! abraço! Marcos Siqueira, Rio de Janeiro-RJ – fev2007

10- Ora… ora… grande idéia, a sua. Tenho grande fascínio por música em geral, especialmente as instrumentais . Costumo dizer que uma das personagens coadjuvantes de meu livro é justamente a M úsica. Haveria alguma chance de contribuir com um conto? Um abraço! Sergio dos Santos, São Paulo-SP – fev2007

11- A história de amor entre Dário e Josélia exala uma profunda intimidade com a letra da música de Odair José. Ao ler este conto, eu tive uma deliciosa sensação de que ouvia/lia uma única música que parecia deslizar com suavidade! Parabéns RK! Kátia Regis, João Pessoa-PB – fev2007

12- RK, ótima a idéia dos curtas!!! Todo apoio e ajuda (que não é lá muita coisa) no que precisar. Abraço! Wanderson Uchôa, Fortaleza-CE – fev2007

13- leio sua coluna no O povo. Massa. PQP a do Dário quase conta a minha vida! A minha Josélia não topou… Diz uma coisa, posso mandar uma bobagens minhas pra vc ler? Coisa curta. Faço filosofia na UFC e tenho umas viagens pra por no papel mais organizado. Forte abraço. Leandro de Paula, Fortaleza-CE – mar2007

14- isso me da uma saudade, bons momentos do cabare no acervo!!!!!!! Rodrigo Chaves Ferreira, Fortaleza-CE – fev2011

15- ADOGO!!! Cris Pinheiro Lima, Santos-SP – jan2014

16- Boa , kelmi. Que saudade de você e suas historias. Beijos. Carol Oliveira, Rio de Janeiro-RJ – jan2014

17- So vc me faz rir ricardo!! Juliana Lyra, Dunedin-Nova Zelândia – mar2014

18- Estas tuas gatas… ai, ai. Brennand De Sousa Bandeira, Fortaleza-CE – abr2014

19- HAJA LUXÚRIA,,,NAN VIOLAN!! Osmar Pimentel Junior, Fortaleza-CE – abr2014

20- Eu adoro esse conto! E a música-tema também, claro. “E não me interessa o que os outros vão pensar…” Samara Do Vale, Fortaleza-CE – abr2014

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Protegido: As taras de Lara – Começando por trás

28/11/2009

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Protegido: As taras de Lara – Começando por trás (VIP)

28/11/2009

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O crime

26/11/2009

26nov2009

Trago em mim a chama e o perigo. Um calor na coxa. Quer tomar alguma coisa?

O Crime 05c

O CRIME

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Você logo vai perceber que eu não sou uma pessoa fácil. Vou me virando aí pelas avenidas, mudando de pensão e ideologias conforme a luz. Gosto dos venenos lentos e das bebidas mais fortes. Converso com sapos. Ouço boleros na madrugada e caminho nu pelo quarto. E nem sempre é santa a minha ira.

Mas é que explode em mim uma liberdade que te fascina: vodcas, olheiras, buscar nos bares todos os olhares… Trago em mim a chama e o perigo. Um calor na coxa. Quer tomar alguma coisa?

Creio no fascínio, nas doentias obstinações, as paixões mais absurdas. Sou desses que carregam sempre o lado oculto de um forte desejo. Cúmplice, louco e delirante, ah, você não me conhece. O limite, o crime, o desatino! Nada que me tente tanto.

Homem de opinião e nenhum caráter. Eu uso máscaras, garota, você não vai me entender a alma. Um ator na vida, meio canalha como todos são – à luz do dia acho tudo indecente. Palavras sem pudor, essa roupa rasgada que é preciso esconder… Olha, entre meu signo e o seu há uma possibilidade de veneno. Eu sei.

Quero tudo que é estilete, faca, lâmina, metal. Quero te dar um beijo na boca ou pelo menos dormir com você. Mas percebo sua resolução de não ceder, você é uma mulher séria. Olhe que se preciso fosse, eu te mataria a sangue-frio e com cuidado… Nem tanto pelo amor, mas pelo insólito. Ai, ai, eu sempre terminarei meus filmes como o bandido. Mas é isso mesmo o que sou, uma mistura dos cheiros da festa. E foda-se se você me detesta.

Confesso que mal te conheço, mas sei muito bem das tentações dos sortilégios. Você tentará se domar, disciplinar, pensará ser mais forte que os ciclos e a força dos mistérios. Tsc, tsc… Não, garota, não se doma o mar. Então nisso é que consistirá o meu crime: você não saberá o que fazer e acabará abrindo a blusa.

Como faria qualquer mulher confusa em seu lugar.

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Ricardo Kelmer 1992 – blogdokelmer.com

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Texto compilado e adaptado de poemas do livro O Perigo do Dragão (Ed. Record, 1984), de Bruna Lombardi.

> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos, de 2003

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Dueto de poemas com Sandra Regina, no Eita Sarau, 2012

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Bruna Lombardi na Wikipedia

Página oficial de Bruna Lombardi no Facebook

Livros de Bruna Lombardi:

O Signo da Cidade, roteiro do filme (Imprensa Oficial de SP, 2008)
Meu Ódio Será Tua Herança, romance (Guanabara Koogan, 2004)
Filmes Proibidos, romance (Companhia das Letras, 1990)
Apenas Bons Amigos, infantil (Globo, 1987)
Diário do Grande Sertão, registro poético das filmagens (Record, 1986)
O Perigo do Dragão, poemas (Record, 1984)
Gaia, poemas (Codecri, 1980)
No Ritmo Dessa Festa, poemas (Editora Tres, 1976)

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LEIA NESTE BLOG

O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

Mulheres que adoram – Dar prazer a uma mulher. O que pode haver de mais recompensador na vida?

Insights e calcinhas – Uma calcinha rasgada pode mudar a vida de uma mulher? Ruth descobriu que sim

Kelmer Para Mulheres – Nesta seção do blog, homem fica de fora

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01- Nem tanto pelo amor mas pelo insólito… Legaaal… Juliana Galdino, São Paulo-SP – dez2005

02- bom texto do ricardo. ele tá se transformando num belo de um “boca maldita”! Paulo Nunes, São Paulo-SP – ago2013

03- Aplausos! Aluisio Martins, Fortaleza-CE – set2023

04- Maravilhoso!!!! Soraya Freire, Fortaleza-CE – set2023 

05- Aplausos! Marcus Dias, Fortaleza-CE – set2023

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Lolita, Lolita

03/09/2009

03set2009

A calcinha desce suave pelas coxas finas, beija os joelhos, pousa nos pezinhos… Engulo seco. Diante de mim a luz dos meus dias, fogo em minha alma

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LOLITA, LOLITA

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A cena sempre me extasia, sua língua faceira saltando três vezes… Olho em silêncio enquanto ela lambe o papel, fecha o baseado e acende, segurando na ponta de seus dedinhos finos. Ela puxa a fumaça devagar, os olhinhos fechados, tão linda… E eu amo sua boca enquanto ela solta a fumaça. A boca. Que ela sempre esquece entreaberta, na medida exata, meio dedo, ela faz de propósito, sabe que não resisto. O que essas colegiais andam aprendendo no recreio?

Vai, fuma, minha amiga quem me deu, você vai gostar. Hoje não, meu anjo, obrigado. Ah, é, pois só de mal não vou fazer aquilo. Então cumpro minha parte no trato, dou uma tragadinha, o suficiente para que a doce chantagista se satisfaça. Ela me mostra a língua, me chama de velho careta. Entendam, quero sóbrios os meus sentidos, para depois passar todas as imagens, uma por uma, e recordar… e recordar… até que seja novamente terça-feira.

Trancada a porta da suíte. Cerradas as cortinas. Os pequenos cuidados de sempre. Mas as cortinas, eu sei, ela depois abrirá para olhar a cidade, ela e seu prazer de me desobedecer. E eu paciente a puxarei para dentro, perigoso ficar na sacada, meu anjinho, eu já disse, principalmente assim de calcinha. Ela protestará, claro: Seu chato, parece meu pai! E citará probabilidades, uma chance em mil de alguém reconhecê-la ali no vigésimo andar. Mas vocês hão de convir, já foi sorte demais encontrá-la, não tenho mais idade para abusar do destino.

No frigobar, ela se diverte: iogurtes, suquinhos e chocolates que devora e guarda na mochila, levará para a amiga. Na TV, vibra com os clipes musicais, essas bandas modernas com nomes estranhos e garotos idiotas que ela adora, e zomba do meu ciúme cantarolando em seu inglês vacilante, o que me faz lembrar de seu curso, justamente onde ela deveria estar agora. Mas vocês vão entender, as terças são minhas.

Ela vem para a cama, lânguida e relaxada. Tira minha camisa e brinca com os pelos brancos do meu peito, me aperta as sobras da barriga. Com meu cinto, brinca de me chicotear, rindo como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. Depois, salta da cama: Me dispa, escravo, é uma ordem. Sim, minha princesa.

Fico na ponta da cama, ela à minha frente. Tiro seu uniforme com cuidado, da outra vez rasguei a saia. Desabotoo a camisa e os seios pequenos me olham. Pergunto se estão com saudade e ela os move para cima e para baixo: Siiiim, estamos… E outra vez morre de rir. As meias brancas mantenho no lugar, quase no joelho, gosto assim. A fita no cabelo também. Ela ergue a saia plissada e surge a calcinha, hoje é azul claro, combina com a tarde. A vontade é de arrancá-la, me controlo, o coração quer sair do peito. A calcinha desce suave pelas coxas finas, beija os joelhos, pousa nos pezinhos… Engulo seco. Diante de mim, a luz dos meus dias, fogo em minha alma.

É nas curvas de seu corpo quase infantil que eu me desgoverno: tento dirigi-la, mas ela faz o que tem vontade e minhas juntas sofrem para segui-la. Ela geme sob o peso de meu corpo, dança sobre ele, senta em meu rosto, vira de costas, sim, sou tua Lolita, para sempre, siiiim… Lembro do trato e ela cumpre a promessa, bebendo-me até a última gota, adora observar minhas reações. Depois, na telinha da máquina, ela apaga as fotos em que está feia e zomba da minha expressão apaixonada, manda por e-mail, pliiis, você nunca manda, malvado. Ela me oferece chiclete, e diz que a amiga quer um dia participar também… Paro, sem acreditar no que ouço. Você não devia ter contado, nossa felicidade não precisa de mais ninguém! Mas ela é minha amiga… Foda-se sua amiga, já falamos disso, quer estragar tudo, tem merda na cabeça?!

Vamos em silêncio até o shopping, uma lágrima escorre de seu olho. Que eu não vejo porque não ouso olhar, mas sei, porque é a mesma lágrima que tremula no meu. Paro e ela sai do carro, fecha a porta. Três passos e retorna, e emoldura o rosto na janela, e sussurra: Fica assim não, desculpa… A boca. Por favor, não quero que acabe, pliiis… A boca entreaberta, meio dedo. Meu coração se derrete. Entrego-lhe o dinheiro do cinema e do lanche, mais um pouco para gastar com bobagens. Te amo, ela diz sorrindo, e eu respondo eu também. Ela conta orgulhosa que verá seu primeiro filme de catorze anos e, como se revelasse um segredo mortal, diz que a amiga entrará com carteira falsa. Não precisa correr, meu anjo, tem tempo. Mas ela já se virou. E lá se vai minha Lolita, correndo estabanada pelo estacionamento, mochila às costas, as pernas, as meias brancas. Tão linda em seu prazer de me contrariar.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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– Este conto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino
– Este conto integra o livro
Indecências para o Fim de Tarde

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LOLITA E VLADIMIR NABOKOV

VladimirNabokov-01Vladimir Nabokov nasceu em 22 de abril de 1899 em São Petersburgo, na Rússia. Morou na Inglaterra, Alemanha e a partir de 1940 viveu nos Estados Unidos. Morreu em 1977, na Suíça. Seu romance Lolita, publicado originalmente em 1955, é seu livro mais conhecido. A história do amor entre o quarentão desequilibrado e sua enteada de doze anos foi traduzida em dezenas de línguas, gerou duas versões cinematográficas (1962 e 1997) e deu origem aos termos lolita e ninfeta, significando meninas adolescentes ou menores de idade sexualmente precoces.

> Covering Lolita – Sessão do site do estudioso alemão de literatura Dieter Zimmer, que reúne capas de edições de Lolita, publicadas desde 1956 em dezenas de países.

A menina que teria inspirado “Lolita” – Um novo livro aprofunda a relação entre o romance de sucesso de Nabokov e a história real de Sally Horner, de 11 anos, sequestrada e maltratada por um pedófilo em 1948
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O PRIMEIRO PARÁGRAFO de Lolita é considerado por muitos como uma das mais belas introduções da literatura ocidental.  Eu, particularmente, concordo.

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.”

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MAIS SOBRE SEXUALIDADE FEMININA

OIncubo-06O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

A gota dágua – A tarde chuvosa e a força urgente do desejo. Ela deveria resistir, mas…

A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…

O mistério da cearense pornô da California – Uma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e, entre uma e outra orgia, luta pela liberação feminina

Bettie Page, nós te amamos – Ela é um ícone da moda, da arte erótica e também do universo BDSM, inspirando artistas e fetichistas

Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino – Livro de contos e crônicas sobre a mulher

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DICA DE LIVRO

IFTCapa-04aIndecências para o fim de tarde
Ricardo Kelmer, contos eróticos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Rica, Lolita merece todas as homenagens. Amor de perdição, amor de redenção – e não é sempre assim? Mas você ainda vai demorar para virar um Humbert Humbert, um velhinho tarado. Quarenta anos é uma idade ótima, ótima! Ana Beatriz Nogueira, Brasília-DF – jul2005

02- Caraca , mermão! Fiquei zonzo. Sem saber o que pensar. Sem saber o que dizer. Mas cheio de imagens retidas na retina da memória. Se eu fosse fazer algum comentário, arriscaria um que é um grande lugar-comum, eu sei, mas foi o que me bateu: senti falta de conhecer um pouco mais essa Lolita, de perscrutar algumas de suas motivações, ainda que difusas, próprias de uma adolescente, uma adolescente que já é muito diferente das adolescentes de quando estávamos no segundo grau, quanto mais em relação àquela criada por Nabokov. Acho que o amigo fez uma crônica-conto, que deixa no leitor a sensação de que há muito mais pra contar. Aliás, percebo que já estava entregue ao prazer do conto, tanto é que nas linhas finais já me via na expectativa de alguma surpresa, alguma reviravolta típica de conto. Mas o final teve sabor de crônica-poesia. Como diria Leminski, a vida é mesmo crônica. O que “ falta ” neste texto provavelmente só atesta sua qualidade. Marcelo Pinto, Rio de Janeiro-RJ – jul2005

03- Tá ótimo! Deu bem a idéia da estória toda numa página só! Eu não li o livro mas vi o primeiro filme e o remake. E gostei, é muito perverso porém. Isabella Furtado, Modena-Itália – jul2005

04- Quarentão, careca, e agora perdido por garotinhas! Esse não é o Ricardo Kelmer que conheci. Um beijo saudoso, e lembre-se de que, ao meu lado, voce sempre serah o garoto… Clotilde Tavares, Natal-RN – jul2005

05- Bela… Lolita. Bjo. Graça Carpes, Rio de Janeiro-RJ – jul2005

06- He,he,he, As Lolitas de hoje não são “tão puras” como a do nosso nobre Nabokov, né? Sinal dos tempos … Álvaro de Paula, Fortaleza-CE – jul2005

07- Oi, Ricardo. Bem que poderia haver a versão homo de lolita..já pensou eu iria adorar e se eu fosse o lolito seria melhor ainda…rsrsrsrr. Abraços. Fabiano, Fortaleza-CE – jul2005

08- Adorei a crônica, achei bem sensual, mas talvez incentive o assedio a jovens meninas. Cacilda Luna, Fortaleza-CE – jul2005

09- Primoroso… Nelson Neraiel, Rio de Janeiro-RJ – jul2005

10- Uma menina, só mesmo uma menina. Pobres velhinhos…kkkkkkkk! Muito bom. Adorei. Mas uma pergunta cretina: o texto é só uma homenagem mesmo? Desculpa, não resisti 🙂 Luana Patrícia, Fortaleza-CE – jul2005

11- Olha, adorei essse texto da Lolita…Parabéns! Pela sua criatividade!!! Clécio Rhustem, Crateús-CE – jul2005

12- O filme é maravilhoso. Já vivi um amor louco desse. Lisa Mary, Fortaleza-CE – jul2005

13- oi, ricardo. li o teu texto “lolita, lolita”. gostei muito. escrevi algo num clima parecido. talvez queiras ver: http://www.fotolog.net/daimon/?photo_id=8958936 . abraço. Paulo Amoreira, Fortaleza-CE – jul2005

14- Oi Ricardo, Adorei o texto da ninfa (Nabokov ‘2005) principalmente o ” beija os joelhos e pousa…”. Puta tesão,,,. Agora que já tô quase acabando as 130 ou mais páginas da minha tese (parece ridículo pelo número!) talvez possa te devotar a atenção devida… a merecida, jamais!!!. Beijos. Valmir Menezes, Lisboa-Portugal – ago2005

15- Tornei-me sua fã recentemente desde que li um texto seu na página do IG. semanalmente abro seu site para ver as novidades. Você parece ser um estilo raro de homem não o conheço,mas mesmo assim me identifiquei algumas de suas produções,outras fiquei um pouco cismada como no caso de “lolita” me senti agredida não se foi porque já pasei dos trinta, ou se porque como mãe de duas garotas e ainda mais sendo professora tive a impressão de que estava lendo uma apologia ao sexo com menores de idade. De qualquer forma voltei outras vezes para desfrutar de suas idéias,li e vi sua revelação nos quarenta anos,Adorei seu texto suas fotos então…. bjs e muito sucesso!!!! Sua fã. Diva645 – Rio de Janeiro-RJ – out2005

16- li um texto seu (Lolita, lolita) e gostei muito… Trabalho com produção cultural, sou apaixonada por literatura e bons textos sempre me impedem de ficar calada, porisso tive que fazer essa pequena invasão pra lhe trazer as minhas congratulações! realmente é um texto polemico, mas gostei do seu jeito de escrever sobre um assunto tão polemico tornando a coisa assustadoramente natural… Um grande beijo! Wania Alvarez, Santos-SP – mar2006

17- Caramba, que realismo!Deus me vi quando ainda aos treze… Tanbém escrevo e deveras fiquei anestesiada, o comportamento de uma ninfeta é esse mesmo! Parabéns! Nádia Rosa de Castilho, São Francisco do Sul-SC – jul2006

18- O primeiro conto q li foi sobre a Lolita… sorriso… fiquei um pouco incomodada, sabe aquela coisa hipócrita de achar a menina mto nova, mas no fundo sentindo maior tesão pela coisa??? Pois é, lembrei também q sempre tive uma queda, não, um TOMBO, por homens assim 15, 20 anos mais velhos (e hj isto me é complicado… rsss). Ilde Nascimento, São Luís-MA – abr2009

19- E-S-P-E-T-A-C-U-L-A-R! sensacional!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Literatura pura, com romance, erotismo e poesia. Camila Briganti, São Paulo-SP – mai2011

 


Cristal

22/07/2009

22jul2009

Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

Cristal-02.

CRISTAL
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Ele pensa enquanto a pergunta da Mestra ainda ecoa: Que tal passar o aniversário com sete namoradas? Ele olha para trás, para frente, o corredor infinito, portas de um lado e outro. Que estranho presente de aniversário…. A Mestra abre a porta. Ele pensa. Pode recusar? Não, ele sabe que não pode. E entra, devagar, desconfiado.

Silêncio. Uma sala enorme, toda branca. À esquerda ele vê dois olhos verdes. Chega mais perto e reconhece: é ela. Uma dor repentina o entristece. O que acontece com os sentimentos que desprezamos em nós mesmos? Ele se desculpa: Eu era só um garoto estúpido, mas amei você mesmo assim, acredite…

Rejuvenescido. É como ele se sente no ambiente seguinte onde a bailarina faz piruetas sobre uma nuvem. Ela sorri um sorriso tão juvenil que imediatamente ele se sente mais jovem do que é, do que era. Quer sentar para admirar, mas não há tempo. Resta-lhe dizer: Tudo valeu, as alegrias, as brigas, tudo, mas o tempo, infelizmente não houve tempo, você já estava de partida, fui apenas sua despedida deste mundo…

Beleza e loucura… beleza e loucura… De algum lugar escuta alguém sussurrar. Lá em cima, no alto da torre. A linda princesa. Ela o chama, implora que a liberte de sua prisão. E joga duas enormes tranças. Que caem a seus pés. Bela e irresistível como o diamante da insanidade… E ele foi, subiu agarrado às suas tranças até o alto. E lá no alto teve medo do que ele era. Horrorizado, despencou. E morreu sua primeira morte, rígido de dor. Obrigado por ter me matado, princesa, eu a amarei para sempre por isso, obrigado…

Vazio. O aposento vazio. Ele escuta um piano… Um som doce, tão doce que o sente na boca, se desmanchando sob a língua. Depois que se desmancha é que percebe que o doce… é ela. Tenta provar o som mais uma vez… porém tudo volta a ser o imenso vazio. Sente-se tão incomodado que se apressa para sair… mas uma ideia súbita o faz voltar. E então compreende. O vazio é ele, ele todo o imenso vazio, sem nada para oferecer além da própria busca alucinada por si mesmo. Ela ao piano, os seios generosos, ela e a doçura que sempre se desmancha antes que ele a alcance… Desculpa, por favor, que era eu um vaso vazio?…

Fantasias. Mil fantasias nos espelhos ao redor. Qual delas será ele? Experimenta todas e nenhuma lhe cabe. Sente-se perdido em meio a tudo aquilo que não é ele, e se angustia ainda mais. Então surge a mão dela, amorosa e compreensiva a acariciá-lo. Ele leva a mão ao peito e se acalma. No meio do caleidoscópio de tantos eus ele sussurra: Você me vê, mais do que eu mesmo, e isso me faz existir…

Girando e girando e girando… Ele agora gira no escuro, sem saber onde se encontra. Está úmido e abafado. Enquanto gira, sente a excitação lhe subir pela virilha, mais, mais… Um segundo antes de gozar, percebe que está na caverna e então compreende que está dentro dela, ela o comeu, viúva negra. Entorpecido, deita-se para morrer, finalmente descansar na escuridão total. Mas no último segundo desperta aterrorizado e, com as forças que restam, levanta, e as luzes se acendem. Fomos fundo, meu bem, fomos tão fundo em nós…

Karma. O último ambiente é o ônibus que o levará ao inferno. Quer desistir, mas o olhar providencial de sua irmã lhe diz que não há outro caminho para o céu. Ele entra, fecha os olhos e chora indefeso, pressentindo o que virá. A rodomoça oferece o cálice, e quando o bebe, vê que é sangue. Não há palavras para descrever o gosto, a dor, o inferno, a morte. Dias sem noites e noites sem dias sem poder dormir. Rendido, permite que demônios devorem sua carne. Sem mais qualquer orgulho, abre os braços e oferece a alma à Terra. Na última noite escuta pombas brincarem no teto… e percebe que renascerá. E tudo se esclarece: Você é o que eu precisava viver para que o Cosmos se reequilibrasse em mim, não há palavras para agradecer…

A porta se abre e ele cai de joelhos, chorando de gratidão. A Mestra o abraça, compreensiva. Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe. Ela pede que ele abra a mão… e lá estão sete pedrinhas de cristal, em todas o reflexo de seu próprio rosto. Extasiado, ele pega os cristais com cuidado, admirando seu brilho. Então, de repente, não são mais sete, são apenas um, o mais belo. Ele aperta o cristal ao peito e respira fundo. Quer dizer algo, mas, pensando bem, não há nada para dizer. Nem pensar. Apenas sentir.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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vtcapa21x308-01Este conto integra o livro
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino
contos/crônicas

Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido… Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.

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LEIA NESTE BLOG

DesconstruindoKelmer-04aDesconstruindo Kelmer (por Wanessa, inspirado no conto Cristal) – Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina…

Inculta e bela, dengosa e cruel – Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

Maior que meu horizonte (por Wanessa, inspirado na crônica Inculta e Bela, Dengosa e Cruel) – E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

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Desconstruindo Kelmer

12/07/2009

Wanessa, 2009

Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação

DesconstruindoKelmer-04.

DESCONSTRUINDO KELMER

Por Wanessa
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Eu adoro o Vocês Terráqueas. E eu, grande releitora que sou, claro que escarafunchei o livro todo, li de cabo a rabo incontáveis vezes. Principalmente depois daquela conversa que nós tivemos, em que tu me contou um segredinho que se esconde em alguns textos. Depois disso, a tua obra virou um mistério ainda maior pra mim. Comecei a ler teus textos com mais atenção, agora entendo melhor algumas coisas e desconheço completamente outras.

Um conto em especial me instigou desde a primeira leitura: Cristal. A ordem dos acontecimentos é compreensível, tem começo, meio e fim, mas não dá pra terminar a leitura sem a sensação de que tem algo muito maior que eu não consegui captar. Eu, meio Sherlock Holmes das palavras, fico tentando decifrar os enigmas, seguir possíveis pistas, mas é tudo em vão. Não dá.

Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina. Um presente de aniversário, a viagem sem escolha. Depois o corredor cheio de portas e ela aparece, a Simone. Provavelmente um amor da adolescência. Eu vejo um Ricardo cheio de ideias, querendo tudo ao mesmo tempo. Tempo que, até então era inesgotável e por isso permitia um monte de erros que levam a um rompimento doloroso, que deixa uma dor que invade, dor física, forte.

Encontro com a Renata. A bailarina que faz piruetas num nicho, algum lugar perdido, intocável. Os movimentos leves; contemplamos a beleza porque é finita. Melhor não me demorar por aqui, não há tempo, só pra recuperar o fôlego, o assombro diante das surpresas da vida.

A Bel traz o encontro com a princesa, o primeiro. Joga suas tranças da torre; beleza e loucura juntas provocam vertigem? A morte do primeiro Ricardo, daquele que por vezes era desconhecido de si próprio, te deixa profundamente grato, a mim também. Vânia, Valesca, Vanessa, Valéria, são tantas as possibilidades dessa musicista sensual, sensual como doce desmanchando na boca. O inalcançável, mesmo que a distância entre os corpos seja curta. É preciso achar-se a si, antes do outro. Talvez a fuga seja o melhor caminho quando o vaso ainda está vazio.

Minhas dúvidas se multiplicam em relação aos nomes, Fabiana, Fabíola, Fátima… o nome tanto faz, as fantasias são múltiplas, volúveis, diáfanas. Encantam e entontecem. É preciso um fio que te conduza a realidade, uma mão talvez. E ela sabe fazer isso, no meio do redemoinho de possibilidades e sonhos, é bom se saber compreendido por alguém, uma certeza tranquilizadora de não ser tão estranho, hermético. Gisele, como a espiã nua em Paris, a tua cara isso. E mais uma vez a tontura, mas essa é diferente e conheço: a euforia da excitação e o gozo (ai, que saudade da tua carinha gozando…), a sensação de ir cada vez mais fundo, mais longe. Transpiração e transcendência lado a lado.

O inferno te espera e traz também o sabor indigesto. A inquietação, o ápice do sofrimento e desespero. A alma conturbada se rende a mais uma morte. Passou pelo seu Karma, Karine. As palavras não bastam para agradecer por uma nova vida. E no fim, sete encontros, sete vidas que hoje formam um só cristal, o mais belo, o ser mais incrível que ja conheci na vida, tu. Talvez eu tenha acertado um pouco, talvez tenha passado longe, mas uma coisa eu aprendi com esse conto, às vezes racionalizar sobre o que está diante dos olhos, só torna tudo mais complicado, a compreensão pode ser simples, não precisa muito. Apenas sentir.
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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.com

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Cristal-02aCristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

Inculta e bela, dengosa e cruel – Então, arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

Maior que meu horizonte (por Wanessa, inspirado na crônica Inculta e Bela, Dengosa e Cruel)E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

Confissões de uma leitorinha nua (por Leitorinha) – Fiquei tão à vontade pra ler a página dele na net que agora o fazia completamente nua

Canalha Kelmer (por Rômero Barbosa) – Cara, essa tal de Cibele queria era te dar. Queria ler sacanagens escritas por você pra depois tu comer ela todinha

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DesconstruindoKelmer-04a

 


A garçonete da minha vida

08/07/2009

08jul2009

Naquela sexta de dezembro, Diametral, que não era ainda Diametral, e Ninfa Jessi, que já era Ninfa Jessi, começaram oficialmente a mais bela e safada história de amor jamais contada, ele que a amava em silêncio havia um ano, ela chorando de raiva, desamparo e tesão

AGarconeteDaMinhaVida-01.

A GARÇONETE DA MINHA VIDA
As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi
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Ninfa Jessi e seus fetiches. Que eu adoro, por sinal. Um deles é por garçonete. Pelas garçonetes e também por ser uma garçonete. Pra ela, é umas das melhores profissões que uma mulher pode ter na vida.

– Homens, mulheres e vodca toda noite, Gatão! E ainda ser paga pra isso!

Quando a conheci, pelo Orkut, Jessi tinha 19 aninhos. Idade perfeita pra uma taradinha como ela se perder no lado bom da vida. De família do interior, mal esperou fazer 18 anos: largou o namorado careta, a cidade que não entendia seu cabelo mutante e suas lentes coloridas e se picou pra capital, queria estudar Cinema. Dividia um quarto com uma amiga e trampava num espaço cultural, onde via filme de graça e estava sempre conhecendo homens e mulheres interessantes – conhecendo e comendo, claro, que ela desde então já não prestava. Jessi, a pequena tarada.

Mas, como ela gosta de dizer, tinha espaço pra mais adrenalina nas veias de sua vida. Na verdade, Jessi queria ampliar o diâmetro do mundo, o mundo que ela conhecia ainda era pequeno demais pra tanto sonho e tesão que ardiam em sua alma e em seu corpo. Ela precisava de mim e não sabia. Mas antes de mim ainda haveria alguns capítulos em sua vida.

Então o Bukowski abriu vaga pra novas garçonetes. Bukowski, o bar que toda menina má sonha ter no currículo. Era um barzinho rock´n´roll que era meio inferninho, onde as garçonetes faziam uns shows performáticos bem apimentados. Cara, o público enlouquecia, choviam gorjetas. A casa pagava academia pras meninas manterem seus corpinhos em forma e elas tinham até professora de dança. Era bem organizado o negócio. E lá estava a adrenalina de que minha pequena precisava.

Ela passou na entrevista, passou no teste de dança e aí ficou faltando apenas o teste final que a professora exigia. Adivinha onde era o teste final? Na cama da professora, claro, professorinha esperta.

Já perfeitamente ciente das delícias que uma xana proporciona, o tal do teste final não desmotivou minha pequena nem um pouco. E ela fez, claro. Mas a professora deve ter ficado com muita dúvida pois em vez de um só, fez um bocadão de testes finais com ela. O resultado é que as duas se apaixonaram, é mesmo difícil não se encantar pela Jessi, e assim a pequena tarada virou garçonete do Bukowski e foi morar com sua professora de dança.

– Mais que dançar, ela me ensinou a comer direitinho uma mulher, Gatão. Isso não tem preço, tem?

Ninfa Jessi não presta.

Vem desse romance com a professora outro fetiche de Jessi, que hoje ela não dispensa com nossas namoradas: a morena adorava que ela a comesse com aqueles paus de silicone, ficava louca, gozava horrores. Jessi diz que numa dessas vezes, sua morena de quatro e ela metendo forte, por alguns instantes deixou de ser ela mesma e de repente era um homem, e quase pôde entender realmente, de corpo e alma, o que é ser homem. Foi algo meio místico, que nunca mais se repetiria com a mesma intensidade, mas que sempre volta quando ela está dentro de uma mulher, e também quando ela me vê dentro de uma mulher – nesses momentos seu olhar sempre busca o meu, como se nele pudesse reencontrar a louca sensação que ela uma noite teve. Como se através de mim e do nosso amor, trepando com nossas namoradas, ela pudesse enfim ser o homem que ela não é.

NinfaJessi-027Durante seis meses Jessi experimentou a felicidade que jamais tivera em sua vida. Tinha o emprego dos seus sonhos, ganhava bem, era querida pelos clientes e vivia seu lindo caso de amor. Seus shows no Bukowski? Eram dos mais aguardados, principalmente quando ela atuava com Sheilinha, a Sheila Dinamite. Todas as meninas tinham nomes artísticos e vem dessa época seu nome, Ninfa Jessi, bolado pela professora. Nome perfeito, combinava demais com ela, com os modelitos de ninfeta que ela usava, os lacinhos no cabelo – e, é claro, com seu apetite sexual. Não haveria nome melhor.

Mas nesse mundo os ventos mudam, né? O primeiro grande amor da vida de Jessi durou até o dia em que um vento em forma de loirinha desempregada bateu lá no Bukowski pra fazer teste pra garçonete. Exatamente, a professora trocou Jessi por ela. Pobre Jessi, sofreu pra caramba. Prosseguiu no emprego, mas deixou o apê da professora e alugou uma quitinete. O pior de tudo era ter que encontrar sua paixão quase todos os dias e se morder de ciúmes sempre que chegava garçonete nova na casa.

Foi por esses dias que eu fui lá no Bukowski. Nossa amizade, que havia começado numa comunidade bluseira do Orkut – sim, foi o blues crônico da vida que fez nossos caminhos se cruzarem – estava agora no estágio MSN, com papos quase diários. Já apaixonado pela pequena tarada, como ela mesma se chamava, e sabendo que trabalhava no Bukowski, me piquei pra lá. Cara, paguei a maior grana pra entrar, e tudo que eu tinha no bolso só deu pra tomar duas cervas. E ela nem me viu. Mas valeu a pena. Foi a primeira vez que meus olhos pousaram diretamente em Ninfa Jessi. E vê-la ali, com seu jeitinho cativante de moleca safada, dançando nua no balcão com outra menina, putamerda, foi inesquecível. Era a mulher perfeita, inacreditavelmente perfeita, assustadoramente perfeita. A Deusa-Ninfa dos meus sonhos que nem nos melhores sonhos eu havia sonhado. E sabe quando bate aquela certeza fulminante e inexplicável no destino? Bateu. No Bukowski, apertado no meio de outros caras e outras meninas que assistiam ao show, eu tive a calma certeza de que ali estava a mulher da minha existência, a deusa-diaba que seguiria comigo pela vida. Ali estava o motivo de eu acordar todos os dias com aquela dilacerante saudade do que eu nunca tinha vivido.

Faltava só ela também saber disso.

(continua)
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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.com

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NinfaJessiGarconetes-01dA continuação do conto, contendo fotos de Ninfa Jessi e de um show no Bukowski, além do Álbum das Garçonetes, está disponível aqui. Exclusivo para Leitor Vip. Basta digitar a senha do ano da postagem.

Ainda não é Leitor Vip? Vamos resolver isso agora!

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – Um casal apaixonado vive seu amor libertino com bom humor e muita safadeza

As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz

Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir

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LEIA NESTE BLOG

Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

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DICA DE LIVRO

IFTCapa-04aIndecências para o fim de tarde
Ricardo Kelmer – Contos eróticos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

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01- Eu adooooro essa Ninfa Jessi… 😀 Samara Do Vale, Fortaleza-CE – jun2013


Protegido: A garçonete da minha vida (VIP)

08/07/2009

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Diâmetros exaltados

26/03/2009

26mar2006

Linda, louca e gostosa, Jessi tem duas manias: uma é trocar a cor do cabelo. A outra é ampliar o diâmetro comigo. Comigo e umas namoradas que ela arruma pra gente se divertir

diametralninfajessi05b.

DIÂMETROS EXALTADOS

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi
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O júri decidiu que Diametral é culpado das acusações de incentivo ao sexo promíscuo e doentio entre os jovens brasileiros. A pena é assistir por um ano a todos os programas religiosos do MNBC na madrugada. Faça-se cumprir.

Aaaahhh!!! Acordo de repente, sobressaltado. Olho ao redor. Estou no quarto do motel. Ninfa Jessi dorme nua ao meu lado. Ufa, foi só um sonho ruim… Levanto, afasto devagar a cortina da janela e observo. Lá fora, o jipe no estacionamento, o luminoso do motel Centelha Vermelha, a estrada escura e deserta. Está tudo bem, eles não têm nossa localização.

Volto à cama. Jessi murmura algo e me abraça. Melhor dormir, amanhã cedo seguiremos. Mas a lembrança dos últimos acontecimentos insiste. Tudo começou quando conheci aquele site de relacionamentos…

Julho de 2005. Lá estou eu me cadastrando no Orkut. Esse negócio virou mania no Brasil. Tem gente que vive lá conectado e só sai pra comer e dormir, isso quando não dorme sobre o teclado. Tem mulher que conheceu o marido lá. É lá que muito marido monitora as paqueras da mulher. Tem de um tudo. Outro dia, conheci uma comunidade que luta pela liberdade dos pinguins de geladeira. Claro que entrei.

Novembro de 2005. Crio em meu site pessoal uma seção chamada Submundo Orkut, pra comentar o que rola nessa tal dimensão onde milhões de brasileiros vivem parte de suas vidas. É, eu assumo, sou bisbilhoteiro do comportamento alheio. Por falar nisso, algo que sempre me chamou a atenção foi aquela frase de boas vindas que consta na página de abertura: Participe do Orkut para ampliar o diâmetro do seu círculo social. Que frase mais esdrúxula! Comento com Jessi e ela solta sua gargalhada inconfundível. Jessi é uma pequena que conheci, adivinha onde, no Orkut. Linda, louca e gostosa. Tem duas manias: uma é trocar a cor do cabelo. A outra é ampliar o diâmetro comigo. Comigo e umas namoradas que ela arruma pra gente se divertir. Ninfa Jessi não presta.

Junho de 2006. A crônica Ampliando o Diâmetro é publicada em minha coluna no site do jornal O Povo. O texto é uma gozação sobre essa tal frase do diâmetro.

Dia seguinte. Recebo as primeiras mensagens. São os leitores, a grande maioria me parabeniza pela crônica. Alguns não gostam e, entre esses, um se diz integrante de um tal MNBC, Movimento Nacional pelos Bons Costumes, e afirma que solicitará ao jornal a minha saída do quadro de cronistas. E completa ameaçando me processar por incentivo ao sexo promíscuo e doentio entre os jovens brasileiros. Não acredito… Jessi fica indignada: Esse povo devia é ter mais senso de humor, em vez de ficar se preocupando com o diâmetro dos outros!

Próximo dia. Pelo sim, pelo não, lá estou eu no computador, xícara de café ao lado, buscando informações sobre esse tal de MNBC. Não encontro nada. Será que era pegadinha? Descubro, porém, que a direção do jornal de fato recebeu protestos de alguns leitores indignados com meu texto. Hummm, talvez o MNBC seja uma entidade meio secreta, tipo Opus Dei, que reúne gente estranha em reuniões noturnas e não divulga suas atividades. Desligo o computador e vou pra janela respirar. E percebo que alguém me observa do prédio ao lado. Hummm, não estou gostando disso…

Semana seguinte. Coisas estranhas estão acontecendo. Pessoas me seguem na rua. O telefone toca e quando atendo, desligam. Talvez seja melhor ficar em casa. Pra garantir, melhor fechar todas as janelas. Melhor também não atender o telefone. Na terça, entrei no elevador e reparei nas duas mulheres que entraram depois de mim: saias abaixo do joelho, blusinha comportada, cabelo preso, um livro grosso e escuro ao peito… Pregadoras do MNBC!!! Saí correndo, apavorado.

Julho de 2006. Estão batendo na porta. Não vou atender, são eles, vieram me pegar, é o meu fim… Mas reconheço a voz: é Jessi, ufa. Abro e vejo uma Jessi ruiva, hummm, até que ficou bonito. Ela, porém, me olha sério. E diz que tem algo importante pra me dizer. E diz: Entrei pro MNBC. Fico olhando pra ela, sem acreditar, não é possível… Ela então sorri, sobe a camiseta e me exibe aqueles peitos impossíveis que ela tem. E completa: Movimento das Ninfômanas Bem Comidas. E me empurra pro sofá, rindo e já desabotoando minha calça.

Vinte minutos depois, suados e abraçados no sofá, Jessi diz que não posso permitir que um bando de careta recalcado destrua minha vida. Mas fazer o quê? E ela responde: Ora, Gatão, o que a gente sabe fazer melhor… sexo e humor. Quando ela fala, tudo é óbvio. Vamos, pega a mochila, tá na hora, e não esquece o notebook. Pergunto o que planeja e ela sobe na cadeira, solene: Vamos ampliar o diâmetro do mundoooo!

Cinco dias depois. Pelo retrovisor, o Centelha Vermelha vai ficando pra trás. À frente, a estrada nos convida a novas aventuras. Ninfa Jessi estava certa, eu não podia continuar aceitando aquela situação. Pois bem. Não sou mais aquele cara medroso, agora eu sou… Diametral! E minha missão é horrorizar os caretas com os meus textos. Vocês pediram, caretas imbecis! Enquanto dirijo, Jessi revisa minha nova crônica e se irrita com a forma poética com que descrevi nossa última trepada, e diz que meus leitores querem ver mais sacanagem. Meus leitores e você, corrijo. Ela solta sua gargalhada e depois faz biquinho: Então publica aquela fotinha que eu tirei no motel, vai… Oquei, pequena. O que ela não me pede sorrindo que eu não faço gemendo?

Duas horas depois. Paro o jipe na estrada pra abastecer. Desço e olho o céu, o horizonte está escuro, ameaçador. Sopra um vento gelado, papéis voam… Dias difíceis virão, digo pra mim mesmo. Entramos na lanchonete e pedimos duas cervas. Num canto, uns caras feios tocam Não Me Peça Pra Te Amar, sempre bom ouvir um blues. Jessi me mostra a notícia no jornal: MNBC procura cronista fugitivo. Sorrio discreto por trás do óculos escuro. Hummm, perigo: a garçonete está olhando demais para nós…

Ei, você é o Diametral!, ela exclama, alegre. Psiu, não espalha…, respondo aliviado. Eu também não gosto do MNBC, ela diz baixinho, toda cúmplice. Entrego-lhe um cartão, acessa minha coluna, boneca, e deixa tua mensagem de apoio pra nossa luta. A garçonete guarda o papel no bolso e faz sinal de positivo. Ela é a Ninfa Jessi?, pergunta, surpresa. E Jessi, que adora uma garçonete, responde, inclinando-se e expondo seu decote irresistível: Em carne, osso e hormônios. A garota parece hipnotizada.

Pago as cervejas e deixo uma boa gorjeta. Jessi pergunta se a garota quer um autógrafo. Ela gagueja que si-si-sim. Tem preferência de lugar? E a garota nã-nã-não sabe o que dizer. Ninfa Jessi então a puxa pela cintura e… tasca-lhe um beijo na boca daqueles que não acaba nunca. Depois larga a garota que fica lá, extasiada, imprestável pra vida. Ai, ai, Jessi não presta.

Na mesa ao lado, uma senhora está simplesmente hor-ro-ri-za-da. Vejo que ela veste saia abaixo do joelho, cabelo preso, segura uma bíblia… Pronto, logo o MNBC saberá que estivemos aqui. Levanto e caminho pra saída: Vamos, pequena, tem muita estrada pela frente. E Jessi me segue, retocando o batom: E muito diâmetro pra ampliar!

Pedido atendido, pequena

Pedido atendido, pequena

Pago as cervejas e deixo uma boa gorjeta. Jessi pergunta se a garota quer um autógrafo. Ela gagueja que si-si-sim. Tem preferência de lugar? E a garota nã-nã-não sabe o que dizer. Ninfa Jessi então a puxa pela cintura e… tasca-lhe um beijo na boca daqueles que não acaba nunca. Depois larga a garota que fica lá, extasiada, imprestável pra vida. Ai, ai, Jessi não presta.

Na mesa ao lado, uma senhora está simplesmente hor-ro-ri-za-da. Vejo que ela veste saia abaixo do joelho, cabelo preso, segura uma bíblia… Pronto, logo o MNBC saberá que estivemos aqui. Levanto e caminho pra saída: Vamos, pequena, tem muita estrada pela frente. E Jessi me segue, retocando o batom: E muito diâmetro pra ampliar!

 

 

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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Ampliando o Diâmetro – A crônica que originou esta série

Ouça Não Me Peça pra Te Amar (De Blues em Quando)

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – Um casal apaixonado vive seu amor libertino com bom humor e muita safadeza

As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz

Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir

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LEIA NESTE BLOG

Cio das letras – Ensaio erótico – Tá no ar a primeira parte do Cio das Letras, um ensaio erótico que fiz sobre amor, paixão e desejo. Utilizei poemas meus e letras de músicas que fiz com parceiros, além de montagens com imagens de mulheres muuuito especiais

Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

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DICA DE LIVRO

IFTCapa-04aIndecências para o fim de tarde
Ricardo Kelmer – contos eróticos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e salvação por meio da submissão no sexo anal

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No carro com Lara

14/02/2009

14fev2009

Ela quase desanimou. Quase. Porque enxergou uma última saída. Tá bem, então nada de motel, dariam umazinha no carro mesmo

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NO CARRO COM LARA
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Noite dessas, Lara foi com o namorado para um bar e tomaram umas caipiroscas. Lara estava bem tarada essa noite, mais que o normal, que já é exagerado. Ela cismou que queria ir para o motel, queria porque queria.

– Desde quarta-feira que a gente não transa, Clodomir.

– Lara, quarta foi anteontem…

– Então? Dois dias sem nenhum sexozinho.

Clodomir tentou argumentar, já estava muito tarde, quase meia-noite. Nunca é tarde para o desejo, ela respondeu, guiada mais pela necessidade do que pela filosofia. Ele lembrou que estava sem dinheiro. Paga no cartão, ela insistiu, o Deliryus parcela em cinco vezes. Ele apelou: Lara, eu trabalhei demais esta semana, tô pregado, vamos deixar pra amanhã…

Ela quase desanimou. Quase. Porque enxergou uma última saída. Tá bem, então nada de motel, dariam umazinha no carro mesmo, que estava estacionado um pouco depois do bar, num cantinho mais discreto da rua, jogo rápido, ele não ia cansar nadinha. Clodomir suspirou, resignado.

Dez minutos depois, Lara reclinou o banco do carona, tirou a calcinha, ergueu a saia e deitou-se, os pés apoiados no console, as pernas abertas. Abertas não, escancaradas. Clodomir, coitado, fez o que pôde. Indo e vindo sobre ela, o suor escorrendo pelo rosto, um calor danado por causa dos vidros fechados, ele era um olho no peixe e outro no gato, preocupado com a segurança, podia aparecer alguém, um assaltante, hoje em dia não se pode vacilar, ops, dobrou um carro na rua, não, passou direto, tudo bem…

Mas tá pensando que Lara queria saber de segurança? Que nada! Estava tão tarada que em três minutos gozou, gozou que nem uma louca condenada, gritando dentro do carro, o carro que já estava com os vidros todos embaçados, um pé chutou e arrancou o espelho retrovisor, o outro quase quebrou o tocacedê, um escândalo. Quando Clodomir se preparava para sair de cima dela, Lara o puxou de volta, queria mais, agora queria de quatro, vem, meu gatão endiabrado, vem logo, taradão da lagoa negra…

– Ah, não, Lara – ele protestou, e explicou paciente: – Não vamos abusar da sorte, tem muito assalto por aqui, é sério.

– Que assalto que nada, vem logo, cacete!

Mas ele não foi. Em vez disso, fechou a calça e voltou para o seu banco, pô, alguém ali tinha que ter um mínimo de juízo. Lara, ainda arfando, olhou bem séria para o namorado. Depois, devagar e silenciosamente, vestiu a calcinha, ajeitou a saia e voltou o banco para a posição normal. E não falou mais nada até chegar em casa, uma tromba deeeesse tamanho. Clodomir estava impressionado com aquele drama todo, mas não sabia se ria ou levava a coisa a sério. Eles namoravam fazia pouco tempo e ele nunca a vira daquele jeito.

– Caramba, Lara, você ficou com raiva mesmo, heim?

– Acho melhor você ir mais depressa. Tá tarde, lembra? – foi tudo que ela disse, fria que nem uma espiã alemã.

Mal ele parou o carro em frente ao prédio dela, Lara abriu a porta e saiu. Em vez do beijo de despedida, apenas um a gente se fala amanhã. E entrou. E Clodomir ficou lá, olhando para o nada, sem acreditar.

No dia seguinte, ela ligou envergonhada e pediu desculpas. Clodomir aceitou, claro, e eles deram boas risadas, estava tudo bem. Mas agora Clodomir já sabia: com Lara jamais haveria argumento bom o suficiente. Quando ela quisesse, ai dele se não correspondesse.
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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.com

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AsTarasDeLaraLogo-01aAs Taras de Lara – capítulos publicados

E você, generosa leitorinha, conhece alguém como Lara? Não gostaria de contribuir com a série? Envie suas sugestões: rkelmer@gmail.com

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LEIA NESTE BLOG

Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

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As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada

As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz

Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

O último homem do mundoO sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir

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DICA DE LIVRO

IFTCapa-04aIndecências para o fim de tarde (Ricardo Kelmer, Arte Paubrasil) – Contos eróticos

A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e salvação por meio da submissão no sexo anal

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O último homem do mundo

24/12/2008

24dez2008

O Ultimo Homem do Mundo CAPA 2a.

O sonho de Agenor é que todas as mulheres o desejem. Para isso, ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja, pois você pode conseguir…

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Este conto integra os livros Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha e o livreto O Último Homem do Mundo.

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O ÚLTIMO HOMEM DO MUNDO

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Agenor cumpriu todo o ritual, direitinho. Colhera o fumo num dia seis, e seis dias depois o debulhara, fumo plantado no sítio Inferninho, na sexta noite após a sexta lua do ano. Não contara nada a ninguém. Tudo dentro dos conformes do ritual.

Eram onze e meia da noite. Ali, no alto do morro, o céu parecia mais próximo e a pouca lua permitia às estrelas brilharem à vontade. Agenor sentia medo, mas estava decidido. Apenas meia hora o separava do momento mais importante de sua vida.

Tirou o cigarro da bolsa e acendeu. O nervosismo fez o cigarro cair duas vezes. Deveria fumá-lo sozinho, era o que pregava o ritual. Agenor fumou e, aos poucos, foi se acalmando. Tinha de estar tranquilo para dizer as palavras certas, não podia errar. Subiu numa pedra mais alta e lá encostou-se. E relaxou. Era realmente um excelente fumo, diferente de qualquer um que já houvesse experimentado. Diziam que, de tão especial, não estragava nunca.

Agora, as estrelas pareciam mais brilhantes, mais próximas. Lá embaixo, dava para ver as luzes da cidade de Jubá, a torre da matriz, o estádio. Quase dava para ver a casa onde morava e o restaurante onde trabalhava Dorinha…

Então, escutou um ruído vindo do mato. Olhou para o relógio. Onze e quarenta e cinco. Não, não devia ser ele ainda, pensou. Talvez algum bicho. Deu a última tragada e apagou o cigarro. Começava a fazer frio. Agenor tirou da bolsa um cobertor e se cobriu inteiro, encolhido à pedra.

Durante meses, estudara seu pedido como quem retoca uma pintura, ajeitando aqui e ali os detalhes das miudezas semânticas. Segundo o ritual do Encontro, o pedido tinha de ser formulado corretamente, as palavras exatas, o sentido perfeito. Não podia haver qualquer erro. Os diabos eram espertos, e se as palavras dessem margem a qualquer outra interpretação, eles não perdoavam a falha.

Agenor olhou o relógio: meia-noite. O diabo chegaria a qualquer momento. Meia-noite e dez. Talvez o relógio estivesse adiantado, pensou. Meia-noite e vinte. Teria falhado em algum ponto do ritual?

À meia-noite e meia, quando já começava a cochilar, Agenor percebeu que alguém chegava, vindo de dentro do mato, caminhando devagar entre as folhagens. Sentiu medo. Pensou em desistir daquela história de pacto… mas as pernas não obedeceram e ele continuou ali em pé, esperando.

Quem chegou foi um velhinho de barbicha branca, de sobretudo e botas pretas, chapéu e bengala. Agenor estranhou. Não se parecia com um diabo.

– Boa noite – o velho o cumprimentou, erguendo o braço e tocando seu chapéu. – Desculpe a demora, sexta-feira sempre tem muito serviço. Você é o Agenor, não é? Sou Soloniel, o mais astuto dos diabos. Certamente, já ouviu falar muito de mim.

– Ahn… não… – Agenor olhava para a figura à sua frente. Aquilo era um diabo? Parecia mais com aqueles velhos aposentados que jogavam dominó na praça.

– Devia ler mais, meu jovem – disse o diabo, apontando-lhe um dedo acusador. – É nisso que dá ficar vendo esses filmes idiotas da tevê. Deixa de saber quem foram os grandes nomes da História.

Agenor concordava com a cabeça, sem compreender aquela espécie de sermão. Aquilo era mesmo um diabo?

– Ainda duvidando de mim?

Ele lia pensamentos! – assustou-se Agenor.

– Desculpe… é que… eu…

– Já sei, já sei – o diabo o interrompeu, dando com a mão, resignado. – Esperava um diabo mais moço. A culpa é da moda, que agora exige diabos jovens e bonitões. Por isso que eles querem me aposentar. Nem um diabo velho é mais respeitado hoje em dia. O mundo está perdido.

– Desculpe, eu não quis…

– Pois saiba, rapaz, que toda a juventude deles não serve nem para lustrar as botas da experiência de Soloniel, estas aqui!

Agenor olhou para as botas. Eram bonitas e brilhosas. Talvez um pouco grandes.

– Eu emagreci e elas ficaram um pouco folgadas. Mas não comprarei outras. Sabe por quê? Porque estas botas estiveram em muitos lugares e muitos tempos, tantos que os números já não contam – Ele batia nas botas com a ponta da bengala, tum-tum-tum. – Estas botas já pisaram em cavernas, tendas, palácios… Em castelos, campos de batalha, escritórios, alcovas mal iluminadas… Presenciaram acontecimentos cruciais da história humana. Não só presenciaram como também ajudaram a determiná-los. Entende?

– Sim, sim… – balbuciou Agenor.

– Com estas botas, realizei vontades ardentes e inconfessáveis. Elas são testemunhas das confissões dos desejos mais profundos da humanidade. Tem um pano aí?

– Um pano? Este serve?

Agenor estendeu-lhe o cobertor. O diabo agachou-se e limpou o bico da bota com o cobertor.

– Obrigado. Vamos lá, qual é mesmo o seu pedido?

Agenor respirou fundo.

– Bem, eu… O senhor pode mesmo realizar qualquer desejo?

O diabo deu um risinho de impaciência.

– Diga logo o que quer, meu jovem. O diabo Soloniel ainda tem quatro encontros esta noite.

– Eu… eu…

De repente, Agenor sentiu um medo imenso. Valia mesmo a pena um pacto com o demo?

– Volte para a sua mamãe, jovem – disse o diabo, virando-se e afastando-se. – Pacto com o diabo não é para gente fraca como você.

– Ei, espere! – gritou Agenor, nervoso. – Vou fazer o meu pedido. Agora.

O diabo parou e voltou-se. E aguardou, apoiado em sua bengala.

– Eu…

– Sim?

– Eu quero que todas as mulheres…

– Estou ouvindo.

– Eu quero que todas as mulheres do mundo me desejem.

Pronto, dissera. Estava feito. E uma vez formulado, o pedido não podia mais ser mudado, ele sabia.

Agenor aguardava, a respiração suspensa, as palavras ecoando em seus ouvidos: todas as mulheres… do mundo… me desejem… Naquele instante, pela primeira vez, seu desejo lhe pareceu ridículo e despropositado. Era como se as palavras, enfim pronunciadas, concretizadas solenes no ar, tivessem o poder de lhe abrir os olhos.

– Hummm… Bom pedido, bom pedido – disse o diabo, balançando a cabeça e coçando a barbicha branca. – Fazia tempo que eu não topava com um desse. Deixe-me ver…

O Ultimo Homem do Mundo CAPA 2aAgenor aguardava, o coração batendo forte. Teria sido um pedido difícil demais? Zombaria dele? Estaria estudando suas palavras, procurando brechas para poder enganá-lo?

– Fazer todas as mulheres do mundo desejarem um cara feio, pobre e desengonçado como você não é tarefa fácil. Por outro lado, é o tipo de coisa que pode consagrar um diabo pela eternidade inteira. Sabe o que significa a eternidade inteira, meu jovem?

A eternidade?, pensou Agenor. Sim, claro. Quer dizer, não, não sabia.

O diabo continuava coçando a barbicha, apoiado na bengala, olhando para as estrelas… Eram segundos que para Agenor pareciam séculos.

– Teve muita sorte de pegar um profissional como Soloniel, meu jovem. O que você pediu requer a experiência que só eu possuo, acredite. Pois muito bem. Dê-me o documento.

Agenor puxou do bolso uma folha de papel dobrada. Nela estavam a frase exata de seu pedido, data, local e a assinatura.

– Perfeito – falou o diabo, guardando o papel no bolso do sobretudo. – Então, estamos combinados. Toque aqui.

Apertaram-se as mãos.

– Na hora certa virei buscar o pagamento pelo serviço. Adeus.

Agenor viu o diabo sumir mato adentro. Então, suspirou. Fizera o pacto. O diabo realizaria seu desejo, era isso que importava. Ele conseguira. Não era um fraco.

Quanto à sua alma, pensou, já descendo o morro a caminho da cidade, perdê-la seria um preço pequeno diante do grandioso futuro que o aguardava.

*     *     *

O dia seguinte foi normal como todos os outros dias do carteiro Agenor. Envelopes, encomendas, campainhas que não funcionavam, cães que detestavam carteiros. Entregas e entregas sob o sol da manhã e da tarde. Nada demais. Mas, nesse dia, pela primeira vez, o feio, tímido e desengonçado Agenor olhou as mulheres com certa segurança. Na lanchonete, olhou para a moça que servia e lhe piscou um olho. Mas a moça não correspondeu e virou o rosto. Ele sorriu tranquilo: Deixe estar…

O dia terminou sem novidades. Após o jantar, pediu bênção à mãe, dona Fafá, e se recolheu. Antes, porém, olhou-se no espelho. Nada mudara em seu rosto, em seu corpo, ele continuava igual. Mas era apenas o primeiro dia, explicou a si mesmo. Estava esperançoso.

No segundo dia, as coisas também não foram diferentes. A mesma caminhada diária, a mesma rotina, tudo igual. E as mulheres de Jubá também. Nenhuma lhe pareceu mais simpática. Continuavam todas em seu mundo distante, princesas inalcançáveis de um reino a ele não permitido. Nem Dorinha, pela qual era secretamente apaixonado, mostrou-se mais acessível. Uma pena, pois Dorinha era bonita, prendada, trabalhadeira. Poderia ser sua mulher…

O terceiro dia também não trouxe novidades. O quarto dia também. Passou-se uma semana e nada aconteceu. Agenor olhava-se ao espelho e via, decepcionado, que continuava feio e desajeitado. E a vida também era a mesma, ele suando de endereço em endereço, e as mulheres limpas e perfumadas a ignorá-lo.

A segunda semana também correu igual, assim como a terceira. Um mês e nada, nenhuma mudança em sua vida.

Naquela noite, Agenor virou-se na cama e sentiu-se imensamente triste por seu desejo não ter sido realizado. O diabo bem que avisara que era um pedido difícil.

Talvez houvesse errado na formulação do pedido, será? Talvez não houvesse escolhido as palavras exatas, isso era comum nas histórias dos pactos com o demo. Mas onde errara? De todas as que pensara, aquela era a melhor frase. Não podia dizer “Quero todas as mulheres”, pois o diabo poderia, simplesmente, deixá-lo continuar querendo. Listar as mulheres que queria que o desejassem também não era uma boa ideia, pois terminaria deixando alguma de fora e, além do mais, está sempre nascendo mulher, né?

“Quero que todas as mulheres do mundo me desejem” era a melhor maneira de pedir. Não importariam sua pobreza, sua feiura e sua falta de jeito se elas o desejassem. E sendo “todas as mulheres do mundo” não haveria risco de deixar nenhuma de fora, entrariam todas, da mais feia à mais linda, da mais pobre às milionárias, da mais insignificante à mais famosa e cobiçada. Todas o desejariam e a ele caberia apenas escolher quem delas teria o privilégio de ficar com ele.

Súbito, lembrou-se de um detalhe, algo que havia lhe escapado durante todo aquele tempo: sua mãe. Dona Fafá, viúva, que tão bem cuidava do filho único. Sua mãe era uma mulher e, sendo assim, também o desejaria. E agora?

Agenor percebia, sobressaltado, que a formulação não fora perfeita. O que fazer com o desejo de sua mãe? Ou ela, por ser mãe, estaria automaticamente excluída das possibilidades? O diabo Soloniel seria razoável, entenderia a questão? E se seu pai fosse vivo, o que não acharia de uma marmota dessa?

Agenor puxou o lençol e se cobriu, como se assim pudesse se esconder daqueles tantos pensamentos. Demorou uma eternidade para pegar no sono.

*     *     *

Primeiro, foi o Chico da Magnólia, velho amigo. Era domingo e tomavam uma cachacinha à beira da lagoa quando Chico, já bêbado, confidenciou a Agenor, sem jeito, que estava acontecendo com ele uma coisa terrível. E a muito custo foi que conseguiu dizer que ficara broxa, já não conseguia fazer nada com as mulheres, o dito cujo não funcionava mais, uma desgraça. Na noite anterior, por sinal, fora ter com as raparigas lá do Siribó, elas que sabiam como ninguém alegrar o cidadão. Mas que nada, não teve jeito que desse jeito. Tentou com a Paizinha, com a Chiquinha Piassaba e a Neide Peixeirão. Nenhuma delas conseguiu levantar-lhe o moral um centímetro que fosse. Tentou até umas pilulazinhas que um primo trouxera da cidade grande, diziam que levantava até bigorna. Mas nem elas deram jeito. No desespero, chamou a Paloma, a espanhola dos peitões, a mais cara daquelas bandas do sertão, disposto a gastar cinquenta contos, o salário da semana inteira. Pois nem a Paloma, veja você, nem ela.

Agenor consolou o amigo, dizendo que procurasse um médico, não devia ser coisa muito séria. Mas Chico respondeu que já havia ido ao médico e este, sem detectar nada de anormal, falou que algum problema devia estar preocupando-o. Mas não tinha problema algum, explicou Chico, a não ser esse, esse era o problema, o pinto não queria mais subir e pronto. Uma vergonha que o cidadão trabalhador e pagador dos seus impostos não merecia passar.

Agenor, sensibilizado, encheu um copo e tomou. Que uma desgraceira daquela nunca se abatesse sobre ele, jamais.

Depois, foi a vez do seo Ribamar da bodega, que se chegou para perguntar se ele, Agenor, não conhecia um pai de santo bom, bom mesmo, que entendesse de mandinga de mulher malamada, pois ele tinha certeza: foi mulher, sim, que lhe jogara aquele trabalho desgostoso, para descompensar sua rola, foi mulher sim.

Agenor ficou impressionado. Seo Ribamar era homem forte, de saúde, viúvo e namorador. Difícil crer que tão cedo deixasse de dar nos couros. Sim, ele sabia de um pai de santo muito bom, lá para as bandas do Paredão, fosse lá que ele com certeza anularia aquele encosto de mulher ruim. Seo Ribamar agradeceu e saiu. Agenor viu o homem se afastar e bateu três vezes na madeira.

Então, começaram a chegar as notícias. O atendente da farmácia, rapaz novo, não tinha vinte anos, também andava com o mesmo problema, como podia? E o cabo Nonato, famoso pela ruma de namorada que tinha, também havia ido ao Paredão se consultar com o pai de santo para se curar de uma desgraceira repentina que o deixara inutilizado para as artes da agarração.

O Ultimo Homem do Mundo CAPA 2aDe um dia para o outro, boa parte dos homens de Jubá estava broxa e o assunto era o preferido nas rodas de conversa. As beatas nas janelas invocavam Esaú aos Filisteus, capítulo 2, versículo 14: “E o peso da descrença pesará sobre a virilidade dos ímpios, e estes serão marcados pelo Anjo com o castigo de não poderem mais dar filhos às suas mulheres e a Terra os amaldiçoará.” Benza Deus.

Autoridades evitavam se pronunciar sobre o assunto porque o fato provocava risinhos e constrangimentos. O que estava acontecendo, afinal? Ninguém possuía explicação convincente para o fato e os médicos da cidade se debatiam entre teorias diversas, sem chegar a conclusão alguma.

A cada notícia, Agenor se assustava e corria para o banheiro para se investigar, munido de algum recorte de revista. Não, com ele não, felizmente. Com ele tudo corria normalmente, conforme a natureza estabelecera. E com as mulheres, tudo normal também: elas continuavam distantes como sempre.

Alguns forasteiros, atraídos pela notícia de que as mulheres de Jubá estavam que nem lagartixa, subindo pelas paredes, decidiram descer por lá e averiguar se a história tinha mesmo cabimento. Resultado: os hotéis da cidade agora estavam lotados. Se a broxação geral representava um golpe no orgulho dos machos jubaenses, a receita do turismo fechava os olhos dos donos de hotéis.

Os homens sérios de Jubá não gostaram nem um pouco dessas novidades, lógico, e exigiram posição firme das autoridades. Uma equipe médica da capital foi designada para estudar a estranha epidemia e, após muitos exames, constatou que, com exceção de uns gatos pingados, toda a população masculina da cidade fora afetada. Uma tragédia.

Apesar de todos os esforços, a equipe deixou a cidade sem qualquer explicação para o fenômeno. Bem ao contrário de outras coisas na cidade, o mistério continuava de pé.

Receitas, simpatias, promessas e orações, tudo foi usado contra a desgraceira. A Ladainha Milagrosa dos Sete Pingos, ou Ladainha da Bengala Poderosa, como também é conhecida, que diz que é tiro-e-queda, reapareceu por esses dias com força total, circulando pelas banquinhas da feira e até mesmo em farmácia, veja o desmantelo da situação. Ela dizia que o cidadão, pouco antes de começar a peleja do amor, devia acender uma vela branca nunca antes usada e, ajoelhado na direção de Juazeiro do Norte, deixar cair sete pingos sobre o dito cujo desmilinguido enquanto rezava:

Com minha fé e humildade, eu trago aberto o coração
E rogo pela intercessão de quem escuta o meu pedir
Que me ajude nessa prece para expulsar o malefício
Acabando o meu suplício nos sete pingos a cair

Minha bengala poderosa, acuda logo sem demora
Que é urgente essa hora de dor, espanto e aflição
Minha bengala poderosa, cancele a lei da gravidade
Para que suma a maldade e suba logo o cacetão

O estojinho contendo vela e folheto vendeu que nem bolacha. Só não ensinava para que lado ficava exatamente a cidade de Juazeiro, indesculpável falha que, certamente, deve ter inviabilizado muita reza, pois ninguém viu melhora alguma na situação.

Um jornalista da capital, que acompanhava o trabalho dos médicos, levou as informações para o seu jornal, e pronto: no outro dia, os leitores estavam cientes da desgraça da pequena Jubá. No mesmo dia, chegaram repórteres de rádio, jornal e tevê, e a cidade se transformou em notícia obrigatória em todo o estado. Até um laboratório farmacêutico, que produzia as tais pilulazinhas milagrosas, andou distribuindo amostras grátis, farejando na desgraceira alheia uma boa oportunidade de negócios. Mas deu com os burros nágua: para os homens de Jubá, as pilulazinhas e nada eram a mesma coisa.

Foi então que começaram a chegar notícias de outras localidades próximas: nelas também estava ocorrendo a mesma coisa! Tudo o que acontecera em Jubá estava nelas se repetindo, o mesmíssimo drama. E poucos dias depois, soube-se dos primeiros casos na capital e fora do estado ‒ era uma epidemia, desconhecida e assustadora. Logo depois, cidades do país inteiro exibiam alarmadas seus casos de impotência. Daí a mais uns dias e o mal já havia alcançado os outros países. A desgraça atingira nível de pandemia.

Cientistas se esforçavam por explicar, políticos exigiam verbas, empresários se mobilizavam, organizações formavam passeatas… O mundo inteiro não falava em outra coisa. Da Europa aos recônditos da África, de Santiago a Vladvostock, os homens, pretos, brancos, índios e amarelos, ricos e pobres, sucumbiam ao mal sem que ninguém entendesse por que diabos aquilo acontecia.

*     *     *

Desde o primeiro caso notificado em Jubá tinham se passado quase seis meses, e as estatísticas mostravam que noventa por cento da população mundial masculina fora afetada pela repentina impotência, e os casos seguiam aumentando, sem poupar nem os adolescentes, coitados, mal entrados no assunto. Podia-se realizar inseminação artificial nas mulheres, é claro, mas isso não resolvia o problema. Muito menos explicava.

Enquanto isso, médicos e terapeutas faturavam alto com o desespero, líderes religiosos engordavam a conta bancária, pomadas e sprays milagrosos surgiam às centenas e os vibradores viraram itens obrigatoríssimos no comércio inteiro, fazendo surgir inclusive um projeto de lei que incluía o vibrador na cesta básica.

Enquanto o mundo vivia seu terrível pesadelo, naquele domingo Agenor acordou sorridente. Após dois sorvetes na lanchonete e três noites de conversa mole na porta de sua casa, Dorinha aceitara seu pedido e agora estavam namorando, ela que já fazia algum tempo comprovava, nas despedidas ao portão, que aquele romance tinha, literalmente, onde se segurar. E, para comemorar o namoro, ela conseguira folga no restaurante e passaram o sábado na lagoa bebendo vermute. No fim, já noite escura, ela o puxou para si e ali mesmo sacramentaram o nheconheco, ele alegríssimo, ela em desesperado ardor, como se havia muito não soubesse como era um homem, coitada. Embora não houvesse muitas estrelas no céu, Dorinha viu uma constelação delas, todas brilhando só para si.

Quando as amigas de Dorinha souberam que ela estava namorando Agenor e andava cantarolando alegre e vistosa, chegaram à mais óbvia das mais óbvias das conclusões. Assim foi que a partir desse dia, Agenor pôde perceber uns olhares mais insinuantes pela rua e por onde quer que fosse.

Belo dia, ao receber a correspondência entregue por Agenor, a moça da butique, de nome Carmela e apelido Botinha, que por sinal era prima da Dorinha, mas, ao contrário da prima, nunca se prestara a saliência na frente do portão, perguntou mui delicadamente a Agenor se por um acaso ele não faria a gentileza de matar uma barata voadora que teimava em não querer deixar o depósito lá atrás, ela que tinha pavor de barata, quanto mais voadora. Agenor, muito solícito, dispôs-se. Quando chegou ao depósito foi que percebeu que era outra a barata. Embora a moça não fosse lá muito bem dotada de atributos físicos, tendo, inclusive, de usar bota ortopédica, daí o apelido, por causa de uma perna maior que a outra, sem falar num braço seco que furou no prego, Agenor foi solidário, ah, foi, sim, e fez com que a danada da barata se aquietasse. E voltou para a rua de ânimo revigorado, nem ligando para os cães que detestavam carteiros.

Mas em cidade pequena as notícias correm que nem fogo morro acima. Dois dias depois, elas foram dar no ouvido de Dorinha que, depois de largar meia dúzia de mãozada na cara da prima Botinha traidora, tratou logo de tomar providências contra o perigo que corria seu patrimônio. O que fez: botou as amigas, todas de altíssima confiança, para acompanhar a trajetória do namorado pelas ruas da cidade, olheiras a bem dizer, uma vez que ela mesma não podia fazê-lo, já que pegava no batente o dia inteiro no restaurante.

Uma semana depois, Agenor já havia sido requisitado para matar duas dezenas de baratas pela cidade, inclusive na casa das tais olheiras, algumas delas crentes, irmãs em Cristo, sim, que Cristo, bom que se diga, não tem nada a ver com certas agonias femininas que costumam dar no fim da tarde, quando o sol desce em Jubá e sopra um ventinho fresco que se intromete por baixo das saias.

Dorinha, de sangue quente por causa da crescente fama do namorado, agarrou-o pelo cangote no meio da praça e deu o ultimato: ou ela ou as baratas, que ela não era mulher de dividir com as outras aquilo que de direito era só dela.

Agenor pensou um pouco. Não era sua intenção magoá-la, Dorinha era mulher boa e ele gostava muito dela. Mas é que as baratas… Bem, elas lhe acenavam com um horizonte bem mais amplo de possibilidades, digamos dessa forma. Andava até pensando em montar uma firmazinha de dedetização, o mercado era promissor.

Ficaria com elas, as baratas. Foi o que respondeu.

O Ultimo Homem do Mundo CAPA 2aQuem estava na praça viu quando o tabefe de Dorinha estalou no pé da orelha do carteiro, tabefe daqueles de ficar zunindo por três dias. Ela virou as costas e saiu, o passo ligeiro, a tromba desse tamanho, deixando Agenor de quatro a recolher as correspondências caídas ao chão.

Na mesma noite, porém, ela haveria de cair em si e se arrepender, tentar reconciliação, haja vista a carência horrorosa de homem na cidade. Melhor dividir o prato que não ter o que comer, coisa mais óbvia, né?

Mas nada feito. Agora era Agenor, ainda com a orelha ardendo, coitado, quem não queria. Dorinha chegara atrasada à obviedade.

No dia seguinte, um conhecido repórter da rádio local, de modos muito delicados, e que fazia reportagem sobre a pandemia, cismou de querer entrevistar algum homem que ainda estivesse com suas funções de macho normais. Perguntando daqui e dali, o repórter soube do carteiro Agenor. Animado com a descoberta, alcançou-o no momento em que, fim de expediente, trabalho terminado, o moço se encaminhava para matar uma barata lá para o lado do açude. Porém, tímido como era, Agenor nem deixou que o repórter lhe explicasse o motivo da entrevista e saiu correndo.

Naquela mesma noite, a reportagem foi ao ar. Não continha a entrevista de Agenor, claro, mas falava dele. E bem.

Dez minutos após terminada a reportagem, já tinha gente em frente à casa do carteiro Agenor, homens e mulheres. Um pouco assustada, Dona Fafá lhes informou que o filho não estava, mas que não demoraria a chegar. Todos resolveram aguardar, enquanto outros chegavam.

Do outro lado da cidade, Agenor pediu que a moça parasse um pouquinho com o vai e vem sobre seu corpo porque ele acabara de escutar seu nome no rádio.

– Preciso ir pra casa – falou, afastando a moça. – Mamãe deve tá preocupada.

– Ah, só mais um pouquinho…

Era a terceira vez que escutava aquela frase naquele dia.

Alguns minutos depois, Agenor dobrou a esquina de sua rua e tomou um susto. Havia um bando de gente em frente à sua casa. Ele se escondeu atrás de uma árvore, com medo. Decidiu entrar pelos fundos.

– Filho, aquilo que saiu no rádio é verdade? – Foi a primeira coisa que a mãe perguntou, ao abrir a porta do quintal para ele entrar.

– Mãe, a senhora viu? Tem uma ruma de gente lá fora.

– Na sala também. O Chico da Magnólia, seu tio Ferreirinha… Suas primas também estão aí. Até o prefeito veio.

– Pode dizer pra todo mundo que eu viajei.

– Mas…

– Vai, mãe. Vou esperar aqui.

‒ Já jantou?

‒ Não tô com fome. Vai, mãe.

Agenor escondeu-se no quartinho dos fundos enquanto dona Fafá voltava à sala.

– Foi um custo, mas foram embora – ela disse, retornando. – Agora me conte direito essa história.

Agenor falou que não sabia o que estava acontecendo. Mas estava muito preocupado com tudo aquilo.

– Então, vá dormir, filho, que é melhor. Estou vendo que você está cansado. Trabalhou muito hoje, né?

Agenor pediu a bênção e foi para o quarto. Mas sono que é bom, não teve, não conseguiu pregar o olho. Sem falar que, perto da meia-noite, uma vizinha conseguiu entrar pela janela e se atracou com ele, quase que não consegue se soltar, a moça pedindo pelo amor que ele tinha a Nossa Senhorinha que também desse uma chinelada em sua barata, que ela andava muito precisada. E, já perto de amanhecer, foi a Jaciara, filha do dono do cartório, que todo mundo desconfiava ser meio destrambelhada do juízo. Pois ela provou que era mesmo: trepou-se no telhado da casa, e ficou lá em cima, peladinha da silva, berrando para toda a cidade ouvir que estava grávida de Agenor. Mentira, claro, Agenor nunca nem tocara na moça, e ela antes nunca nem tinha olhado para ele.

Assustado e exausto pela noite em claro, Agenor decidiu que o melhor era ir embora.

– A gente pode mudar de endereço.

– Não vai adiantar, mãe.

– O mundo lá fora é tão perigoso, filho. Essas mulheres todas se enxerindo pra você…

Agenor olhou para a mãe e sentiu uma pontada de tristeza magoar seu coração. Súbito, percebeu o quanto estava sendo egoísta. Como podia pensar em abandonar sua mãe querida, deixá-la sozinha? Pensava apenas em si mesmo.

Então, se achegou no colo da mãe, que o abraçou forte, abraço sentido, apertado, seu corpo envolvendo o do filho amado. Agenor fechou os olhos e deixou-se levar por aquele abraço gostoso, o mormaço aconchegante dos seios de dona Fafá, que o apertava forte contra si, mais forte, mais forte…

Agenor abriu os olhos. O rosto afundado entre os seios grandes da mãe, quase não conseguia respirar. Um terror repentino se apossou de sua alma. O que estava fazendo?

– Tenho que ir embora, mãe… – balbuciou, levantando. – A senhora me perdoa?

– Eu sabia que um dia você ia partir, filho.

Ela foi ao quarto e voltou com umas notas que tirara do fundo da gaveta.

– Guardei esse dinheirinho pra você. É muito não, mas ajuda. Tome, leve. Vou ligar para minha irmã, em Bocariús. Zulmira vai lhe receber.

Na rodoviária, enquanto Agenor esperava o ônibus, foi surpreendido pela equipe de tevê da capital, que acabara de chegar a Jubá à sua procura. Ele não quis dar entrevista, mas mesmo assim o filmaram entrando no ônibus.

Na estrada, a caminho de Bocariús, foi que atinou: o pacto com o diabo! E ficou pasmo, os olhos arregalados. Tudo aquilo seria o pacto funcionando?, ele se perguntava, a mão sobre o coração agitado. Talvez o diabo estivesse realizando seu desejo, embora por vias que ele jamais pudesse atinar. Todo o tempo pensou que ficaria mais bonito, ou que o diabo lhe forneceria um perfume irresistível… Mas não, não foi nada disso.

Se era realmente o pacto funcionando, então lamentava que os outros homens estivessem pagando tão caro pela sua felicidade. Mas talvez fosse só por um tempo, logo voltariam ao normal. Mas se voltassem ao normal, como ficaria ele?

O ônibus chegou a Bocariús no fim da manhã. Agenor estava faminto, pensava somente num prato de comida. Encostou-se no balcão da lanchonete e pediu arroz, feijão, bife e ovo. Na tevê, passava uma reportagem, mostrando o último homem de Jubá entrando no ônibus, seguindo para… Bocariús.

Todos na lanchonete pararam ao ouvir o nome da cidade. Agenor nem respirava. A garçonete foi a primeira a reconhecê-lo.

O Ultimo Homem do Mundo CAPA 2a– Gente, é ele! O homem de Jubá!

No instante seguinte, estavam todos à sua volta, queriam perguntar coisas, tocá-lo. Os homens imploravam que divulgasse a receita milagrosa, as mulheres o abordavam, eufóricas. Agenor se desvencilhou como pôde e saiu. Mas as pessoas o seguiram. É o gostosão de Jubá!, uma garota gritou da janela do ônibus que passava na rua. Ele vai morar aqui!, gritou a outra. E a terceira completou: E vai casar comigo!!!

Em dois minutos, uma multidão o acompanhava pelas ruas, parecia uma procissão. O comércio fechou para vê-lo passar. Agenor correu e a multidão correu atrás. Finalmente, chegou à casa da irmã de sua mãe, ofegante, a roupa rasgada, um sapato faltando. Tia Zulmira, noventa e cinco quilos de gordura e macheza, abriu rápido a porta e botou para dentro o sobrinho escangalhado. Depois, brandindo a carabina velha, gritou que o primeiro que chegasse perto ia ficar que nem peneira. E atirou para o alto, espalhando a multidão.

Porém, a cidade inteira já sabia quem havia chegado e não o deixaram em paz nem por um minuto. Eram populares, radialistas, comerciantes, religiosos, vereadores e toda classe de gente interessada em ter com o último homem de Jubá. A tia trancara portas e janelas e desligara o telefone. Mas lá fora a multidão alvoroçada gritava seu nome, e tarde da noite ainda tinha gente rondando a casa.

Agenor estava cada vez mais assustado. A tia, porém, lhe garantiu que ali dentro ele estava seguro.

– Obrigado, tia. Vou ficar em dívida com a senhora pro resto da vida.

De madrugada, outra noite sem conseguir dormir, Agenor viu a tia entrando no quarto.

– Ô, meu filho, acuda sua tia, acuda… Não é só lá em Jubá que tem carestia de homem não…

Foi assim que Agenor pagou a dívida.

Antes que amanhecesse, ele aproveitou a escuridão, correu para a estrada e pegou carona num caminhão. Sorte que o motorista não o reconheceu. Desceu numa cidadezinha que nem sabia o nome. Mas lá as pessoas também sabiam quem ele era, e havia homens revoltados, se arregimentando para capá-lo, e as mulheres, revoltadas, tentando impedir. Quando a polícia chegou, ele precisou correr bastante para não ser preso por incitar a desordem.

Pobre Agenor. Já não havia mais onde se esconder. Sua imagem fora divulgada pela tevê para todo o planeta, o planeta sabia seu nome, todos conheciam detalhes de sua vida. Para onde fosse, seria reconhecido. Podia ser preso, podia ser morto.

Mas… havia um lugar, sim, lembrou Agenor, a esperança de repente renascida. A capital. Lá tinha muita gente, parecia formigueiro. E as pessoas estavam sempre ocupadas demais para reparar nas outras.

Foi assim que Agenor, pela primeira vez na vida, pisou o chão da cidade grande. Escondendo o rosto com boné e óculos escuros. Na primeira lixeira, jogou fora todos os seus documentos. Não era mais Agenor. Era um ninguém.

*     *     *

O mundo inteiro continuava buscando a explicação e, principalmente, a solução para o problema da impotência generalizada. Jubá, a pequenina cidade interiorana, virara atração internacional, por ter sido lá onde a estranha pandemia começou. Assim foi que os jubaenses, de repente, se viram entre autoridades de diversos países, toda uma espécie de gente ávida por saber o que havia naquela cidade que pudesse ter causado o que causou. Jubá, a cidade celebrizada pela desgraça.

– Dizem que só sobrou um homem sadio em Jubá – explicou o prefeito na coletiva de imprensa. – Mas ele fugiu, ninguém sabe onde se meteu. Aproveitando a ocasião, gostaria de dizer que inauguraremos um monumento comemorativo dessa pandemia que projetou para todo o planeta o nome da próspera cidade de Jubá e…

Pelos quatro cantos do mundo os jornais ofereciam anúncios de mulheres, e homens também, que pagavam fortunas por uma noite, uma noite apenas com qualquer um que houvesse escapado da broxação geral. Na tevê, os cientistas, olheiras profundas, imploravam que se apresentassem aqueles que ainda podiam ser preservados da pandemia. Nas ruas, os semblantes seguiam tristes. Nas igrejas, os sermões falavam de castigo divino, de Sodoma e Gomorra revividas, era o fim do mundo das profecias.

Parecia que o sombrio e previsível fim havia finalmente chegado: o mundo não tinha mais homens dignos do nome.

*     *     *

Seis meses após chegar à capital, lá estava Agenor, ao lado do ponto de ônibus, sentado na calçada, a mão estendida. Era o seu ponto de pedir esmolas. O local não era muito movimentado, mas pelo menos não tinha dono para cobrar aluguel, como os outros pontos. A barba crescida, o boné e as roupas sujas faziam-no apenas mais um entre os tantos mendigos que compunham a cena decadente da cidade grande.

O que ganhava era o suficiente para não morrer de fome e de frio. Dormia num velho prédio que fora abandonado no meio da construção, onde também dormiam outros mendigos, com os quais evitava maiores contatos. Não era um lar, era um esconderijo. As pouquíssimas coisas que possuía levava sempre consigo numa bolsa de pano, que um dia fora branca. E tomava banho, quando era possível, usando a torneira da praça, na discrição da madrugada.

A vida na clandestinidade era muito difícil, claro, mas era melhor ser ninguém que ser reconhecido na rua e ir parar sabe-se lá onde, nas mãos de sabe-se lá que tipo de gente. Emprego, então, nem pensar. Mesmo que conseguisse empregar-se sem documentos, isso seria arriscar-se demais.

Não tinha amigos, não podia confiar em ninguém. A solidão era a companheira, ela e a saudade da mãe e dos amigos. Sua vida chegara a uma rua sem saída, onde ele não podia seguir em frente e, muito menos, voltar. Estava condenado a viver aquela subvida até o último dia, quando finalmente o diabo voltaria para receber sua alma como pagamento pelo serviço. A não ser que…

A não ser que descobrissem a cura para a impotência generalizada. Quando isso acontecesse, Agenor finalmente poderia deixar de ser ninguém para ser novamente… Agenor. Ou seja, continuaria a ser ninguém, mas, pelo menos, teria um lar e não precisaria pedir esmolas.

Que grande ironia…. Obtivera a realização do seu maior desejo e, no entanto, não podia usufruir nem um pouco dele. Era ardentemente desejado por todas as mulheres, era o último homem do mundo – e não havia nenhuma vantagem nisso.

Às vezes, tomava coragem e caminhava pelas ruas, ia aos parques, mas sempre surgia algum guarda ou policial para importuná-lo. Outras vezes, percebia uns certos olhares desconfiados… Pronto, era o bastante para fazê-lo voltar imediatamente ao esconderijo. Estava bem diferente da imagem que o tornara famoso, sim, mas todo cuidado era pouco.

Pelos jornais que pegava no lixo ou pela tevê do botequim, Agenor acompanhava as notícias da pandemia. Sabia que tudo continuava do mesmo jeito. E sabia que o mundo inteiro prosseguia a busca pelo último homem do mundo, como ele ficara conhecido. Seu desaparecimento gerara uma série de hipóteses, desde as que afirmavam que ele fora assassinado às que sustentavam que ele era mantido preso nos subterrâneos de um laboratório enquanto cientistas tentavam decifrar seu segredo. Corria a notícia que o último homem do mundo fugira para uma ilha distante e montara um harém só para ele, mandando buscar as mulheres mais lindas do mundo…

Agenor até ria desses absurdos, era mesmo incrível a imaginação do povo. Mas não dava para rir quando via seu rosto surgir na tela da tevê, o que acontecia quase todo dia. Nessas ocasiões, ele baixava ainda mais o boné sobre o rosto e saía de mansinho, tremendo de medo.

Tão grande quanto o medo de ser descoberto, porém, era a angústia que lhe faziam sentir… as mulheres. Ah, as mulheres da cidade grande… Eram lindas, carnudas, bem aprumadas, vestiam-se com elegância, a pele fresquinha, o cabelo bem tratado, o jeito de andar… Elas enfeitavam todos os lugares, as ruas, as lojas, os bares. Onde estivesse, vinha-lhe o perfume inebriante da tentação, atingindo-o em cheio. À noite, deitado sobre os papelões que lhe serviam de cama, rolava de um lado para outro, a imagem de uma ruma de mulheres desfilando em seu pensamento, aquela de vermelho com quem cruzou na esquina e aquela que passou no ônibus e aquela vendedora de flores, todas elas, mil mulheres… Mil possibilidades que, entretanto, sempre terminavam expelidas em jatos de prazer solitário.

Uma vez, sem aguentar mais, dirigiu-se à periferia em busca de um cabaré, mesmo consciente do altíssimo risco da operação. Mas não encontrou nenhum. Foi então que soube que todos os cabarés haviam fechado. Por absoluta falta de clientes.

Até que uma noite…

O Ultimo Homem do Mundo CAPA 2aDesde o início, Agenor adquirira um hábito: guardar classificados dos jornais que recolhia no lixo. Recortava pedaços e juntava aos que possuía. Eram anúncios de mulheres oferecendo verdadeiras fortunas por uma noite com um homem de verdade. Pois bem. Naquela noite, no auge da angústia e da solidão, ele separou um anúncio e com ele desceu as escadas sem corrimão do velho prédio inacabado. De um orelhão da rua ligou para o número do anúncio. Uma voz de mulher atendeu… Ele falou quem ele era. A mulher não acreditou. Nervoso, ele insistiu, disse que poderia facilmente provar, mas para isso precisavam se encontrar. Então, a mulher pediu o endereço e informou que enviaria um táxi imediatamente.

Enquanto Agenor aguardava, ansioso, começou a chover e ele se protegeu sob o orelhão. Não sabia se fizera a coisa certa, mas já não voltaria atrás.

Logo, o táxi chegou. Ele entrou e acomodou-se no banco de trás, molhado da chuva. Estava nervoso, mas esperançoso. Aquela podia ser a saída que tanto buscava: uma mulher rica e insatisfeita, disposta a pagar muito por um homem que lhe desse prazer. Ela o levaria para morar numa bonita casa de praia, cozinharia para ele, lhe compraria roupas caras, lhe daria um carro bonito e lhe ensinaria a dirigir, faria todas as suas vontades. Em troca disso tudo, ele teria apenas que ser o que era: um homem. Só isso.

O táxi parou em frente a uma casa. Agenor reparou que era grande e bonita, com um jardim cheio de plantas coloridas. Um homem de paletó, com um guarda-chuva, abriu a porta do carro.

– Boa noite, senhor. Queira acompanhar-me, por gentileza.

Agenor foi conduzido pelo jardim, subiu uma escadaria e entrou numa sala.

– Por favor, sente-se. Anunciarei sua chegada.

Agenor sentou-se no sofá, admirando os móveis e os quadros nas paredes. Devia ser uma mulher muito rica, pensou, satisfeito. Aproveitando o espelho ao lado, passou o pente no cabelo e ajeitou a camisa. Por sorte havia tomado banho aquele dia. Pensara até em tirar a barba, mas não teve coragem.

Uma outra porta se abriu e uma moça muito bonita surgiu à sua frente. Tinha lindos cabelos loiros, um rosto suave e… sorria. E vestia uma camisola transparente que nada escondia de seu maravilhoso corpo.

– Agenor de Jubá? – perguntou, delicadamente.

– Sim… sou eu… – gaguejou Agenor, o desejo já se manifestando sob as calças.

Ela se aproximou.

– Como posso ter certeza disso?

Agenor sorriu, sem saber o que responder. De repente, ela o empurrou e ele caiu sentado no sofá. Ela ajoelhou-se, tirou seus sapatos, depois sua calça, a cueca, deixando-o inteiramente nu.

– A senhora pensou que eu estava mentindo, né? – disse ele, vendo que ela olhava impressionada para o meio de suas pernas. – Menti, não.

Ela continuou ajoelhada entre suas pernas, o queixo caído, os olhos de quem não acredita no que vê. Então, ela gritou, alvoroçada:

– Está no ponto! Está no ponto!

Agenor achou estranho, mas já sabia que as mulheres da cidade grande possuíam hábitos esquisitos, de forma que apenas riu. No instante seguinte, surgiram uma mulher e dois homens, carregando equipamentos.

– Obrigado – a mulher falou para a moça de camisola. – Agora é com a gente.

– Não dá pra eu ficar sozinha com ele por dez minutinhos? – perguntou a moça.

Um dos homens, porém, a puxou e a afastou para o outro lado da sala. Agenor percebeu que o outro homem empunhava uma câmera de filmar. Uma luz forte acendeu-se sobre ele.

– Estamos transmitindo ao vivo! – disse a mulher, falando no microfone. – Isso que você está vendo não é truque. A imagem não deixa qualquer dúvida: é o último homem do mundo! Nós o encontramos! Vocês podem ver, olhem aqui, é incrível, é, é inacreditável, é… maravilhoso…

Apavorado, Agenor levantou de um salto. Um dos homens ainda tentou detê-lo, mas ele saiu correndo, nu como estava, a mulher e os homens correndo atrás, aquela luz a persegui-lo. Saltou o muro da casa e caiu na calçada, no meio de uma poça dágua. A chuva havia aumentado bastante. Agenor levantou, sentindo a perna doendo, e continuou a correr.

Correu e correu até não aguentar mais. Somente então parou e caiu no chão, ofegante, a perna doendo bastante. E assim ficou, estendido no chão da passarela do viaduto, enquanto a chuva descia sobre seu corpo e lá embaixo os automóveis passavam em alta velocidade.

Chegara ao fim. Não tinha mais forças para continuar com aquela vida. Estava cansado de correr, de se esconder, de ser ninguém. Que sentido ainda havia em continuar vivo?

Naquele instante, apesar do cansaço, da dor da perna, de tudo, Agenor fechou os olhos e sorriu. Sorriu porque a ideia do fim era como um bálsamo para sua alma sofredora. Sorriu porque sentia-se finalmente liberto da dolorosa obrigação de viver.

*     *     *

Um tempo depois, Agenor percebeu que havia alguém ao seu lado.

– Humm, você fica horrível sem roupa…

Ainda deitado, Agenor virou o rosto e tentou ver quem era. Mas a água em seus olhos dificultava a visão. Aos poucos, foi enxergando melhor: um par de botas pretas, a ponta de uma bengala…

– Soloniel… – ele sussurrou, reconhecendo o diabo em seu sobretudo.

– O mais astuto dos diabos – respondeu Soloniel, tocando seu chapéu com a ponta dos dedos.

Agenor deitou novamente a cabeça.

– Por que fez isso comigo?

– Como assim? Fiz apenas o que me pediu.

– Eu só queria ser desejado…

– E não conseguiu?

Agenor suspirou, sem forças.

– Creio que ambos concordamos que cumpri minha parte no trato, não é?

Agenor não respondeu. Nada mais importava. Ficaria ali, sob a chuva, até morrer.

– Conforme combinamos, vim buscar meu pagamento.

Agenor escutou aquelas palavras sem qualquer surpresa. Não lhe importava. Já estava morto.

– Por favor, levante-se, jovem. Esta não é a melhor posição para um momento tão solene.

Agenor abriu a boca, deixando que a água entrasse. Bebeu um pouco e depois perguntou, enquanto se erguia com dificuldade, a perna uma dor só.

– O mundo vai continuar como está, todos os homens impotentes?

– O que você acha?

– Não está certo.

O diabo Soloniel riu.

– Sente-se culpado apenas porque realizou seu grande desejo?

Agenor não respondeu.

– Eu devia estar acostumado, mas sempre me encantam essas ironias… – O diabo bateu na bota com a ponta da bengala. – Bem, se isso serve de consolo, depois que você se for, tudo voltará ao normal.

Por um breve instante, Agenor sentiu-se feliz.

– Agora, siga-me. Está na hora.

O diabo caminhou até a murada da passarela e subiu, ficando de pé. Depois, virou-se para Agenor.

– Sua vez.

Agenor foi até a murada e olhou para baixo. Era uma altura considerável. Ouvira dizer que várias pessoas já haviam se jogado dali. Que maneira horrível de morrer, estatelado no asfalto, os carros passando por cima… Depois, seu corpo seria recolhido aos pedaços e levado ao necrotério, ninguém o reconheceria, seria enterrado numa cova qualquer, como indigente…

Apesar da dor na perna, Agenor subiu e firmou os pés sobre o cimento.

– Muito bem – disse o diabo. – Se quiser se despedir, posso dar-lhe um minuto.

De pé na murada, inteiramente nu, Agenor viu as luzes da cidade ao redor. O som da chuva se misturava ao dos carros passando lá embaixo. A queda seria rápida, uns poucos segundos e pronto, tudo estaria acabado, não haveria mais sofrimento.

– Um, dois, três e…

O Ultimo Homem do Mundo CAPA 2aDe repente… uma dúvida. Como assim não haveria mais sofrimento? Esperava o quê do inferno? Agenor olhou para o diabo, pensando em como perguntar sobre aquela questão repentina.

– Que saco. O que foi agora, meu jovem?

– Como é o Inferno?

O diabo pareceu não acreditar no que ouvia.

– Você quer que eu lhe explique como é o Inferno? Agora?

– É que… não consigo imaginar algo pior do que o que já estou vivendo.

O diabo bateu na bota com a bengala.

– Bem, digamos que seu caso é uma exceção.

– Como assim?

– Como havia lhe dito, todos os diabos sonham com um pedido como o seu. Realizá-lo significaria a glória eterna para um diabo, o nome para sempre brilhando em ouro na entrada do Inferno. Bem, eu consegui. E graças a você.

Agenor escutava, curioso.

– Então, como retribuição, reservei um lugar especial para você. Será meu assessor. Você sabe, já estou velho, preciso dividir o serviço.

– Assessor? Eu?

– Claro. Dentro de alguns segundos, você também será um diabo. E já tem um serviço esperando.

– Como assim?

O diabo fez uma pausa enquanto sorria.

– Dorinha vai fazer o pacto. Assim que terminar com você, irei encontrá-la.

– Dorinha?! – exclamou Agenor, surpreso.

– Sim, sua ex-namorada. Aquela que você abandonou.

A lembrança de Dorinha chegou, vinda de longe… Agenor viu seu rosto bonito, sorridente… Uma sensação de suavidade e ternura tomou-lhe conta. A doce Dorinha, esquecera dela. Esquecera dos bons momentos que viveram, antes daquele pesadelo começar.

– Pois ela não esqueceu. E sabe qual é o pedido dela?

Agenor ficou calado, com medo do que poderia escutar.

– Que você volte para ela.

– Não acredito…

– Pelo jeito, ela gosta muito de você.

Agenor estava confuso.

– A ponto de sacrificar a própria alma.

Mas como aquilo seria possível?, Agenor pensou. Como ele voltaria para Dorinha se iria para o Inferno?

O diabo deu uma gargalhada.

– Você vai para o Inferno, sim. Mas logo voltará aqui. Para buscar Dorinha. Dessa forma, ela terá seu grande desejo realizado. Soloniel é um diabo de palavra.

Agenor não acreditou. Aquilo não podia acontecer. Não com Dorinha.

– Escute, Soloniel, Dorinha é uma pessoa boa, não merece sofrer.

– Todos têm que sofrer. É a lei da vida.

– Mas não deviam vender a alma!

Agenor se surpreendeu com o próprio grito. E com o raio que caiu próximo, seguido de um estrondoso trovão. Ao seu lado, o diabo o encarava, muito sério.

– Ainda bem que você não é o dono do Inferno. Eu perderia meu emprego. Agora, salte, já me fez perder muito tempo.

Agenor continuou parado, a água da chuva escorrendo por seu rosto.

– Salte, homem. Ainda tenho trabalho hoje.

Agenor nem se mexeu.

Então. a dor, súbita e aguda. O diabo o atingira com uma bengalada na perna machucada, fazendo-o gritar de dor.

– Algo me diz que você também precisará de uma bengala em sua nova vida.

Desequilibrado, Agenor agitou os braços, como se pudesse se segurar em algo, e seus movimentos pareceram uma estranha dança. Seu corpo caiu pesadamente e se chocou todo desajeitado contra o chão.

Quando abriu os olhos, já não havia dor. E a chuva havia parado. Não viu a passarela. Nem os carros. Nem a avenida, nem a cidade, nada. Estava no Inferno? Ao redor, via apenas mato. Mas o Inferno tinha mato? No céu, as estrelas brilhavam.

Levantou, sentindo o coração acelerado, o suor no rosto. Adormecera enquanto aguardava pelo diabo, e tivera um pesadelo horrível. E caíra da pedra. Estava no alto do morro, a cidade de Jubá lá embaixo.

Como pudera sonhar tanto em tão pouco tempo? E fora tudo tão real, tão real…

Pegou o cobertor no chão. Depois, olhou o relógio. Era meia-noite, em ponto. Nesse momento, escutou um ruído, alguém chegava pelo mato. O ruído ficou mais forte e ele viu as folhas mexerem.

Não teve dúvidas: deu meia-volta e saiu numa carreira apavorada, descendo aos saltos a encosta do morro, sem olhar para trás. Entrou na cidade e só parou de correr quando chegou em casa.

– Meu filho, onde você estava? – perguntou dona Fafá, vindo da cozinha. – Venha jantar.

– Oi, mãe… – ele murmurou, ofegante, fechando rapidamente a porta e passando a tranca.

– Que cara é essa? Parece que viu alma.

Agenor beijou a mãe e foi para a cozinha.

– Quem esteve aqui agora há pouco foi Dorinha.

– Dorinha? – ele perguntou, surpreso.

– Sim, vinha do restaurante. Perguntou de você. Menina boa, ela.

– E… pra onde ela foi?

– Disse que ia se encontrar com alguém e depois ia para casa.

– Encontrar… com alguém? A essa hora?

O coração de Agenor batia forte. Foi então que alguém bateu na porta.

– Tá esperando alguém? – disse dona Fafá, caminhando para abrir a porta.

– Não, mãe! Não abra!

O Ultimo Homem do Mundo CAPA 2aDona Fafá parou e olhou para o filho, desconfiada.

– Você andou bebendo?

Agenor correu para impedir, mas ela abriu a porta, enquanto ele fechava os olhos para não ver.

– Oi, Agenor.

Aquela voz…

– Mas que pressa medonha, Agenor! Passou correndo por mim, nem me ouviu te chamar…

Ele abriu os olhos e viu Dorinha.

– Tem comida na geladeira, viu, filho? – disse dona Fafá, piscando um olho para Dorinha e saindo da sala.

– Você… foi encontrar… alguém? – ele indagou, gaguejando.

– Fui.

– Quem?

– A prima Botinha. Ela vai casar, sabia? E a festa vai ser lá no restaurante.

Ele suspirou, aliviado. Depois desviou o olhar, com vergonha.

– E você, tudo bem?

Ele fez que sim com a cabeça. Ela sorriu.

– Vim só dar um oi.

Ele procurou algo para dizer, mas não achou. O coração ainda batia acelerado. Dorinha… Em Jubá até havia mulheres mais bonitas que ela, mas Dorinha era especial, tinha um algo mais… Se ela soubesse quantas noites ele sonhara com ela… em seus braços…

– Bem, acho que já vou indo.

– Vai?

– Tá tarde, Agenor.

Ele sentiu uma súbita vontade de abraçá-la. Mas a timidez jamais permitiria. A velha timidez que nos últimos meses sempre o impedia de dizer a ela o que sentia.

– Dorinha…

– Sim?

Ela aguardava.

– É, está tarde mesmo ‒ ele falou, sorrindo nervosamente. Nunca conseguia. Jamais conseguiria.

– Tchau, Agenor. Aparece no restaurante.

Dorinha virou-se e saiu. Agenor foi para o batente da porta e de lá a observou caminhando pela calçada. Não fora forte para fazer o pacto. E nem era forte para lutar pela mulher com quem tanto sonhava. Era um fraco.

Naquele instante, um carro passou na rua e a luz dos faróis bateu em cheio sobre seu rosto. Lembrou da luz a persegui-lo enquanto tentava escapar da equipe de tevê. Então, num impulso, sem pensar no que fazia, abriu a porta e saiu correndo.

Na esquina, o carro fez a curva e sumiu. Mas Agenor não dobrou a esquina, não era o carro que lhe interessava. Continuou correndo e só parou quando alcançou Dorinha, que tomou um susto ao vê-lo chegar e lhe pegar pelos ombros. Sem dizer nada, ele a virou para si e sapecou-lhe um beijo na boca. Dorinha quase caiu, mas ele a amparou e a encostou no muro, sem interromper o beijo.

Um bom tempo depois, quando ele finalmente a largou, Dorinha só de uma coisa sabia: que queria mais.

– Pensei que você não me desejava… – ela murmurou, encostada no muro, toda molenga.

– É que eu… não sabia desejar direito.

E beijaram-se outra vez, mais forte.

Na bodega da esquina, sentado numa mesa com o último cliente da noite, Ribamar olhava satisfeito o casal se beijando.

– Até que enfim esse rapaz tomou tenência. A moça doidinha por ele…

– Quanto lhe devo, meu amigo?

– Um conhaque. Dois reais.

O homem tirou uma nota do bolso do sobretudo e pagou.

– O senhor não é daqui, né? – perguntou Ribamar, recolhendo o copo e levando para o balcão.

– Vim ver um cliente ‒ respondeu o homem, levantando e apoiando-se numa bengala. ‒ Mas ele não apareceu.

– Que pena. Fez viagem perdida.

– Fiz não. No meu ramo, cliente é o que não falta.

– Coisa boa. Que mal pergunte, qual é o seu ramo? – perguntou Ribamar, voltando à mesa.

Mas ela estava vazia. Ninguém na mesa, ninguém por perto.

– Vixe! – exclamou, sentindo um calafrio.

Bateu três vezes na madeira e rapidamente fechou a porta, sem esquecer de dar duas voltas na chave, e do cadeado e da tranca.

Adiante, encostada no muro, Dorinha suspirou nos braços de Agenor e, com os olhinhos fechados, pediu outro beijo. Mais forte.

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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso, ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja, pois você pode conseguir…

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COMENTÁRIOS
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01- Eu gostei deste muito. gigi28 – jul2008

02- Você é bom mesmo, Ricardo. Quando vem a terrinha? Um grande abraço do amigo-leitor seu. Maninho, Fortaleza-CE – ago2008

03- Quem quer todas, não tem nenhuma. A graça de um relacionamento é ir até o fundo, explorar tudo, dure 3 meses ou 10 anos. Mas com inteireza, com verdade. Quem tem todas, não conhece, de verdade, nenhuma. Bjo. Chris, Rio de Janeiro-RJ – jan2009

04- Aquela que serve é a que conhece . conhece mesmo ? e aquele que deseja, é o faminto do lobisomem ? o grande assustado ? o fugitivo de boné … quisera ter o pacto com quem ? efusivo Agenor , talvez um perfume afrodisíaco com a tônica dionisíaca vai saber … agradaria uma bela garçonete que pega a carona no seu caminhão feito mesmo o último homem de jubá …. ahahahahahahah ! Marcia, São Paulo-SP – ago2009

05- Oi, Kelmer! Agenor é bem dotado, também, de criatividade. Ele conseguirá, um dia. rsss Linkei o teu blog no meu. =) Abs! Val – mar2010

06- Ei macho… Tu quer me matar de curiosidade é?? Parabens esse conto é incrível!!! Todo homem já se imaginou nessa situação, o problema é que nenhum homem tentou imaginar a saída desta. Valeu!!! Pedro Henrique – mar2010

07- =D Adorei essa história!!! Parabéns… o desfecho foi muito interessante. Agradeço pela possibilidade de tê-la lido. Mas… Já acabou… =(. Luciana R – abr2010

08- Achei legal o desfecho. Que pena que acabou! Karla – abr2010

09- Adorei! Aplausossssssssssss….. Gostei tanto que fiquei triste por ter acabado, hauhauahau… Parabéns Kelmer. Quero mais histórias assim. ;D Até a próxima! ;* Ingrid – abr2010

10- É até boa, mas muito brusco o fim, o que a torna sem um bom desfecho. Mariana – abr2010

11- Faltaram os créditos para a imagem da pintura usada neste artigo. O autor é o pintor peruano Boris Vallejo. Silveira Neto – abr2010

12- Muito boa a história, acompanhei-a e gostei muito. Até que enfim o Agenor teve coragem. Eu já estava angustiado com a timidez dele. Francisco Edvar – abr2010

13- ACOMPANHEI E GOSTEI DE TODA A HISTÓRIA,PORÉM O FINAL FICOU UM TANTO INCOMPLETO,HAVERÁ CONTINUAÇÃO? Dokho– abr2010

14- eita historia mais envolvente rapaz,cada capitulo era uma viagem,parabens para o escritor que deleitor dentro dos sonhos de muitos homens timidos q desejam serem desejados. Espero outras historias exoticas. Kildery – abr2010

15- Esse cigarrinho era bem docinho, hein? rs. Christiane – mai2010

16- Essa história é genial (O último homem do mundo). Recomendo. Vale muito a pena ler. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – jun2010