O voo eterno do pássaro psicodélico

09/03/2014

09mar2014

OVooEternoDoPassaroPsicodelico-01a.

O vídeo abaixo é o registro da homenagem que fizemos a Alberto Marsicano. Aconteceu durante o show da banda Cabruêra, no 23° Encontro da Nova Consciência (Campina Grande-PB). Participam também os músicos Waldemar Falcão, Baixinho do Pandeiro e Vitor Harres, e o vídeo foi gravado por Antonio Carlos Harres, o Bola. O poema que interpreto foi parido no camarim, momentos antes de subir ao palco.

Alberto Marsicano nasceu em São Paulo, 31.01.1952, e morreu em 18.08.2013, em São Paulo. Era músico, tradutor, escritor, filósofo e professor. Foi um dos introdutores do Sitar indiano no Brasil, instrumento que requer muitos anos de estudo e dedicação. Era presença constante no Encontro da Nova Consciência.
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O VOO ETERNO DO PÁSSARO PSICODÉLICO
Ricardo Kelmer 2014
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Feito um satélite desorbitado
Nos céus da nova consciência
Lá se vai o pássaro psicodélico
Com seu bêbado voar poético
E sua alva cabeleira

Mas na cantiga certeira da cítara alucinante
A vida é um sonho andante que não segue planos…

Ouçam! Estão ouvindo? Vocês viram?
O pássaro psicodélico passou por perto
Ouçam! Nas asas do transe o som se chama Alberto

E sobre as mentes da plateia consciente
Seu voo sagrado flutua eternamente
E a música estremece de prazer insano
O gozo do voo se chama Alberto Marsicano

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Ricardo Kelmer 2014 – blogdokelmer.com

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VÍDEO (4:44)

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Comentarios01COMENTÁRIOS

01- poxa que massa, dia desse foi o aniversario dele, ele chegou a me dar o cd cabruera que ele tocou, justa homenagem! Felipe Maia, São Paulo-SP – mar2014

02- Muito foda! Lembrei da primeira apresentação dele que eu vi na nova consciência. Sempre foi uma figura ímpar do evento. Encantador! Tayane Cristine, Campina Grande-PB – ago2014

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Cubalança mas não cai

18/02/2014

18fev2014

A falta de democracia em Cuba é um grande defeito do regime, mas isso não anula as conquistas sociais realizadas pela revolução cubana

CubalancaMasNaoCai-04

CUBALANÇA MAS NÃO CAI

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Lá estou eu em Cuba, abril de 2006, três meses antes de Fidel baixar hospital, o irmão Raúl assumir (a presidência, gente) e o mundo inteiro voltar os olhos para o futuro da ilha. Uma semana de turismo em Havana, arriba!

Indo pelo Malecón, a beira-mar de Habana, vi um out-door sensacional e não resisti. Parei para tirar foto. Era tipo publicidade de filme, o presidente Bush feito um vampiro e os dizeres: “El Asesino ‒ Próximamente em las cortes norte-americanas”, e bem em frente à oficina de interesses estadunidenses. Sim, pois o Tio Sam não possui embaixada em Cuba. Mas em compensación não largam Guantánamo. Cara de pau…

Bueno, foi uma semana intensa. Conheci mais sobre a história da ilha, visitei locais históricos, tomei mojitos y cubanitos, ouvi salsas e boleros, andei de coco-táxi, comi nos famosos paladares. E me apaixonei pela ilha. Enquanto escrevo esta crônica, por sinal, ouço os maravilhosos cantores cubanos e me dá vontade de voltar. Na verdade, o que mais me interessava era conhecer Cuba por dentro, hablar con los cubanos, me misturar a eles. Minha porção jornalista era maior que a porção turista. E a principal conclusão que tirei foi esta: é impossível entender Cuba em apenas uma semana. O comunismo cubano, aos meus olhos, se já era estranho, revelou-se um monstrengo surreal. Bem, vivendo no Brasil, um país de outro planeta, eu já deveria estar acostumado. Mas Cuba é demais. Lá tem três moedas! Como aquilo pode funcionar? Muitos cubanos me responderam assim: não funciona.

Em tese, o regime comunista cuida dos aspectos básicos da vida do povo: fornece moradia, comida, roupa, trabalho, escola e saúde. Mas na prática não é bem assim. Como a comida não dá para o mês todo, o cubano acaba comprando comida – do governo, claro. Se o cubano quer uma casa, o governo financia, mas é tão caro que grande parte acaba morando com os pais, com os sogros… E os médicos formados, que ganham trinta dólares por mês? Dá para comprar trinta sabonetes. Você morre de fome, mas morre cheiroso.

Evidentemente, não dá para analisar os problemas do país sem considerar o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. O povo cubano sofre diariamente, de várias formas, por conta dessa crueldade. Rodando pela cidade, vi muita pobreza, casas desmoronando por falta de conservação. Vi pedintes, vi prostituição masculina e feminina. Boa parte dos cubanos se agarra nos turistas, literalmente, como náufrago numa boia. Muito cubano trabalha como guia. Todo cubano tem um irmão ou amigo que trabalha numa fábrica de rum ou charuto e pode conseguir mais barato e coisital. Alguns te convidam para conhecer a casa deles, na maior simpatia. Você acha isso lindo, fica encantado… mas na despedida eles te pedem um trocadinho. E não tem como não dar, né?

Felizmente em Cuba não há miséria como no Brasil, não há favelas nem crianças bandidas, o narcotráfico internacional tem pouquíssima força lá e o sistema primário de saúde, assim como a educação básica, funciona de verdade. Ay, que inveja. Mas até lá tem corrupção, essa praga tão brasileira. E o que dizer da fome insaciável do governo? Ele é sócio de tudo na ilha, até daquele quartinho que você aluga no sótão de sua casa. Veja os tais paladares. São restaurantes caseiros, permitidos pelo governo, uma forma de garantir a muitas famílias uma rendinha extra. Mas o governo não permite mais que doze mesas. E não pode servir frutos do mar, para não concorrer com os restaurantes dos hotéis. E ainda tem que pagar quatrocentos dólares de imposto por mês, com ou sem cliente… Carajo! Essa quantia lá é uma fortuna! Um sócio desse acaba incentivando o jeitinho, que nós brasileiros tão bem conhecemos: não tem no cardápio do paladar, mas, se você pedir, servem camarão e lagosta à vontade. Só não pode discriminar na conta, claro. E ainda disfarçam uma mesinha a mais ali atrás da cortina… É aquela coisa: o cubano se faz de morto e o governo faz que não vê.

A pior coisa, porém, pelo menos para mim, é a asfixiante falta de liberdade. Sei que aqui caímos na velha discussão sobre o que é mais importante, pão ou liberdade. Eu, particularmente, apesar de aplaudir de pé a revolução cubana, prefiro morrer fugindo que viver preso de barriga cheia. Se alguém se ausenta mais de um ano da ilha, perde automaticamente a cidadania cubana, sabia? Criticar o governo, então, nem pensar. O cubano tem de ser um soldado do regime, um porta-voz da sagrada revolución. É obrigado a deixar a sala de aula ou o trabalho para ir à praça escutar Fidel falar por cinco horas. Não pode acessar sites na internet e seu correio eletrônico é censurado. Ser homossexual em Cuba, até pouco tempo, podia dar cadeia.

Depois que Fidel se for, o que vai acontecer? Como el pueblo se comportará? E os cubanos de Miami? Tio Sam cessará o cruel embargo econômico? A ONU intervirá para ajudar a democratizar o país? Quem pode dizer? Mas o futuro já chegou e em breve falará oficialmente. Só espero que esse futuro mantenha as conquistas sociais trazidas pela Revolução e traga mais conforto e liberdade aos hermanos cubanos, que, mesmo com todas as dificuldades, são festivos e hospitaleiros. Ah, ia esquecendo de contar: todo turista, quando sai de Cuba, deve pagar ao governo uma taxa de vinte e cinco dólares, como presente à Revolução. Sem recibo.

Não há democracia em Cuba, é verdade, o que é um grande defeito do regime, mas isso não anula as conquistas sociais realizadas pela revolução cubana, conquistas que mesmo países ricos e democratas jamais conseguiram. Talvez a implantação da democracia em Cuba trouxesse também o risco de algum tipo de piora nos indicadores sociais, tão arduamente conquistados, é, talvez, mas, ao meu ver, é algo que deveria ter acontecido. Como eu acredito na viabilidade de uma democracia socialista, torço para que os cubanos, e nós brasileiros também, possamos um dia vivê-la. Hasta la victoria, siempre.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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A propaganda oficial anti-EUA é onipresente no país. Esta placa está no Malecón. Equivaleria a estar no calçadão de Copacabana, no Rio, ou na Volta da Jurema, em Fortaleza, ou na Av. Paulista, em São Paulo.

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O isolamento do regime fez, em alguns aspectos, o tempo parar em Cuba. Para os colecionadores de carros antigos, Havana é um paraíso.

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Comitê de Defesa da Revolução. Espalhados pelos bairros, os CDRs são a mais poderosa das organizações cubanas não governamentais. Eles desempenham tarefas de vigilância coletiva contra atos de desestabilização do sistema político cubano.  Também participam em tarefas de saúde, higiene, de apoio à economia e de promoção da participação cidadã. Qualquer cidadão crítico do regime tem, obviamente, ficha suja nos CDRs.

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A santeria cubana e seu sincretismo religioso. O regime comunista da ilha não tem simpatia pela religião, mas boa parte da população pratica algum tipo.

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Vendo tudo borrado com Havana Club. Ah, o rum cubano… Na porta de um bar no centro de Havana fui abordado por um simpático cubano, que era fã do Ronaldinho Gaúcho e me ofereceu um Havana Club 7 Anos por U$ 10, uma pechincha que ele conseguia por ser amigos dos donos do bar. Empolgado, entreguei-lhe a grana, ele entrou no bar e fiquei esperando. Tô esperando até hoje, eu e meu chapéu de otário.

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Enchendo el cabezón com Bucanero.

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Os famosos paladares. Comida caseira, gostosa e barata.

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Uma família cubana.

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Mojitos com Christina no Malecón.

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BuenaVistaSocialClub1999CarnegieHall-01Buena Vista Social Club

Eu já sabia da existência do disco produzido por Ry Cooder. Aliás, eu já conhecia Ry Cooder pela trilha sonora dos filmes Paris Texas e Crossroads (A Encruzilhada). Porém, nunca havia procurado escutar as músicas. Após esta minha viagem a Cuba, baixei as músicas e… foi paixão imediata. A partir daí esse disco tornou-se trilha sonora da minha própria vida. O disco foi gravado em 1996, em Havana (e lançado em 1997), a partir da ideia de Ry Cooder de reunir músicos da era de ouro da música cubana. O nome do disco era uma homenagem ao Buena Vista Social Club, um lendário clube de Havana dos anos 1940-1950, onde esses músicos se apresentavam. O curioso é que vários deles estavam afastados dos palcos, alguns já aposentados, e o sucesso mundial instantâneo do disco os fez retomar a carreira, levando-os a se apresentar em vários países. Eles todos chegaram a tocar juntos em 10.07.98, no Carnegie Hall em Nova York, numa apresentação antológica que foi registrada em disco (2006) e consta no documentário Buena Vista Social Club, de 1999, dirigido por Win Wenders. Tanto os discos como o documentário são maravilhosos. Infelizmente a maioria dos artistas já estava em idade avançada, e um a um eles morreriam nos anos seguintes, mas felizmente puderam saborear o reconhecimento mundial de seu formidável talento.
> Baixe o disco (55mb)

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Recomendo … o texto , nao Cuba !!! Luciano Hamada, São Paulo – jul2015

02- Lindo! Michele SJ, Fortaleza-CE – nov2016

03- icardo Kelmer, muito bom vc compartilhar essa experiência. Realmente adorei ler! Clícia Karine Marques, Fortaleza-CE – nov2016

04- Q texto prazeroso de se ler! Shirlene Holanda, Fortaleza-CE – nov2016

05- Genial!!!! Melhor relato sobre a ilha desconheço!!! Kelzen Herbet, Fortaleza-CE – nov2016

06- Hasta Siempre Cuba.. Claudia Meirelles Bahia, Fortaleza-CE – nov2016

07- Muito bom, Ricardo! Virgínia Ludgero, Lourinhã-Portugal – nov2016

08- Atualíssimo! Cesar Veneziani, São Paulo-SP – nov2016

09- Bacana seu texto! Parabéns. Rosina Santana, Vitória da Conquista-BA – nov2016

10- Meu caro. Grande reportagem. Ótimo texto. Ailton D Angelo, São Paulo-SP – nov2016

11- Reli e mantenho minha admiração pelos teus textos Ricardo Kelmer. Sobre liberdade eu concordo muito. Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – nov2016

12- Muito bom relato, bem verdadeiro. Ana Maria Castello, Nova Yok-EUA – nov2016

13- Sem nenhuma referencia a todo o historico da revolucao ou ideologias, nunca tive a menor vontade de ir para Cuba. A ideia de ser livre em um pais onde ninguem mais eh, de poder ir e vir qdo ninguem mais pode, sempre me causou repulsa. Nao, eu nao vou para Cuba. Otimo texto. =) Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – nov2016

RK: Tata, é certo que os cubanos não têm, ainda, a liberdade de ir e vir e nem a liberdade de expressão que nós temos, mas por que isso deveria invalidar que pessoas como eu e você, que lutamos por justiça social e liberdade, viajemos para Cuba para visitá-los? Visitar Cuba não significa necessariamente avalizar a repressão política ainda vigente lá nem os erros cometidos pelo regime. O país tem coisas lindas, e o povo cubano necessita desse intercâmbio com outras culturas. Você não acha? nov2016

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O dia em que o chinlone me pegou

02/02/2014

02fev2014

Assim como o chinlone, na vida é fundamental harmonizar-se com o mundo ao redor pra que o jogo fique bonito de se ver

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O DIA EM QUE O CHILONE ME PEGOU

Ou a arte zen de sair por aí à toa e encontrar o que se precisa
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E lá eu ia caminhando pela Visconde de Pirajá, seis da tarde. Apesar das pessoas apressadas e dos automóveis barulhentos, eu seguia leve e tranquilo. Na verdade, até me sentia meio em harmonia com toda aquela zorra. Levava uns exemplares do meu livro Baseado Nisso e uma missão ultrassecreta: deixá-los na La Cucaracha, uma loja em Ipanema que vende uns baratos ligados a cultura alternativa: roupas, livros, revistas, CDs e, é claro, sedinha para enrolar o baseado, maquininha de debulhar, essas coisas. Melhor lugar para vender meu livro só mesmo na passeata da legalização.

Na loja, meu livro ficou, mui honradamente, ao lado do sensacional Capitão Presença, livro do desenhista Arnaldo Branco. O Presença é o único super-herói que realmente salva. E foi inspirado no dono da loja, Matias Maxx, uma figuraça. Aí entraram dois caras e um deles foi direto no meu livro. Era simplesmente… o Arnaldo Branco. Uau! E o outro era o Allan Sieber, outro monstro dos quadrinhos. Fiquei tão abobalhado diante dos meus ídolos que depois de dez minutos é que consegui dizer algo além de dâââ…

Cessada a fase monga, troquei nossos contatos, combinei uma entrevista e nos despedimos. E segui caminhando de volta para casa, exercitando minhas pernas e admirando as das ipanemenses. Eis porém que, numa banca de revista, reconheço uma senhora… É Alzira, uma amiga recente, que dia desses me levou para ver uma peça sobre o Torquato Neto, que foi seu amigo. Você por aqui, que coisa boa, abraço, beijo. Ela me pegou pelo braço e saímos, ela comentando sobre um conto meu que havia lido. Depois falou que eu precisava conhecer o Álvaro, dono da Pororoca, uma famosa livraria especializada em misticismo. Mal fecha a boca, Álvaro se materializa bem à nossa frente. O susto foi tão grande que quase saí correndo.

O Álvaro é um cara simples, cinquentão com cara e jeito de garoto. Conversamos sobre livros e mercado editorial, ele disse que lembrava de meu primeiro livro e marcamos de continuar o papo outro dia em sua loja. E seguimos eu e Alzira, eu satisfeito com tantos bons encontros. Ela então me levou a uma galeria para conhecer o Estação Ipanema, com suas duas salas de cinema que eu, vergonhosamente, ainda não conhecia. Alzira me deu um puxão de orelha e subimos para conhecer.

No momento em que olhávamos a programação do Festival do Rio, um desconhecido chegou e… me ofereceu um ingresso de presente. Um ingresso para Mystic Ball, um filme do festival, última oportunidade de ver. Perguntei a Alzira se ela ficaria chateada se eu aceitasse aquele inesperado presente. Claro que não, aproveita que hoje você tá iluminado… Dei um abraço nela, depois te conto do filme, tchau, peguei o ingresso e entrei na sala escura, nem lembrava a última vez que eu fora ao cinema sem saber qual era o filme.

Tchan, tchan, tchan, tchan…. Que surpresa! Desde o instante em que sentei até o fim do filme, eu fiquei hipnotizado pelas imagens, fascinado, torcendo para não acabar. Como pude viver quarenta e dois anos sem saber que existia aquilo? O documentário conta a história de um canadense que se tornou o primeiro ocidental a praticar o chinlone ao lado dos mestres. E agora se dedica a divulgá-lo pelo mundo. Poizé, mas que diabo é chinlone?

Ronaldinho Gaúcho. Você certamente já o viu brincar com a bola, sem deixar cair no chão. Pois o chinlone é parecido. É um esporte tradicional de Mianmar, sudeste da Ásia, e existe há mil e quinhentos anos. Seis jogadores, homens ou mulheres, formam uma pequena roda e, usando apenas pés e pernas, passam a bola entre si, revezando-se como solista no meio da roda. A bola é oca, feita de feixes entrelaçados de ratan com espaços vazios formando pequenos buracos. Sem finalidade competitiva, o chinlone está mais para exibição artística, pois não basta não deixar a bola cair no chão – é preciso que as jogadas sejam plasticamente belas. Então o que se vê é uma espécie de dança coletiva regida pela própria bola, onde os movimentos combinam a graça delicada e sutil das danças do oriente com a rapidez e a precisão das artes marciais. Ou seja: Ronaldinho não daria nem para o começo.

O chinlone requer atenção aguda e permanente ao movimento da bola e dos outros jogadores. Requer também alto grau de leveza e elasticidade corporal. Mas, sobretudo, é indispensável que o grupo esteja totalmente harmonizado em torno da bola e funcione como uma única entidade feita de uma bola e doze pernas em contínua movimentação. O chinlone prioriza ao mesmo tempo a noção de grupo e o talento individual. E esses talentos não têm sexo ou idade: entre os melhores jogadores há garotas e velhinhos de setenta anos. Certas jogadas são tão curiosas e rápidas que só em câmera lenta pode-se entender como aconteceram. A habilidade dos jogadores é impressionante, e suas improváveis piruetas levam a pensar sobre onde afinal estão os limites da capacidade humana. Depois de ler os créditos finais, demorei a me levantar da poltrona ‒ estava inteiramente apaixonado pelo que acabara de conhecer. E louco de vontade de escrever a respeito. O mundo precisava conhecer aquilo.

Saí da sala com um sentimento de gratidão por uma noite tão generosa. Tantos encontros e surpresas incríveis… Mas ainda havia um último encontro a me esperar. E ele estava à minha frente, na saída da sala, segurando uma bola… de chinlone. Era Greg Hamilton, diretor e personagem principal do filme. Reconheci-o de imediato e, ignorando a timidez, fui falar com ele. Parabenizei-o, peguei a bola, fiz perguntas tolas em meu inglês capenga, ele me falou sobre o chinlone e ganhei um postal do filme. E fui embora para casa feliz, pensando… Assim como o chinlone, na vida é fundamental harmonizar-se com o mundo ao redor para que o jogo fique bonito de se ver. Não basta viver, é preciso encontrar-se.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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DOCUMENTÁRIO (em português)
Narração: Gilberto Gil

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CHINLONE, THE MYSTIC BALL

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DICA DE LIVRO

ICI2011Capa-01dO Irresistível Charme da Insanidade
Ricardo Kelmer – romance

Dois casais, nos séculos 16 e 21, vivem duas ardentes e misteriosas histórias de amor, e suas vidas se cruzam através dos tempos em momentos decisivos. Ou será o mesmo casal? Nesta história, repleta de suspense e reviravoltas, Luca é um músico obcecado pelo controle da vida, e Isadora uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. A uni-los e desafiá-los, o amor que distorce a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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.ODiaEmQueOChinloneMePegou-01a


Eu, Ro Ro e o lado B

26/01/2014

26jan2014

Naquele momento, o lado B do mundo sorria pra mim cantando blues, oferecendo tão somente seu calor e seu endereço

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EU, RO RO E O LADO B

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Gamei quando a vi cantando no Chacrinha, 1979. Depois escutei suas músicas na FM e comprei o disco. Adorava aquela voz rouca, o jeito largado de cantar, o escracho… O nome dela: Ângela Ro Ro. Eu tinha 15 anos, era só um adolescente bobo e certinho. E ainda estudava no colégio militar. Mas naquele momento, o lado B do mundo sorria pra Ricardinho cantando blues. Oferecendo tão somente seu calor e seu endereço. E eu sorri de volta.

Ingênuo, eu nem sabia que aquilo era blues. E também demorei a perceber que minha musa era sapata. Quando descobri, gostei ainda mais. Transgressão, esta era a senha. Moça sem recato, desacato à autoridade. Já me atraíam os que ousam e assumem sua loucura. Eu escutava Ro Ro horas a fio, arrancando os blues só pra maltratar. Me divertia com seus escândalos, os amores ruidosos, os porres homéricos. Aliás, naquele mesmo ano tomei meu primeiro porre. E no ano seguinte mudei de colégio, fugi da convivência diária com a lógica militar, eu me sentia violentado. Ainda era bobo, mas começava a entender que eu só deveria prestar obediência verdadeira a mim e a mais ninguém.

O garoto bobo cresceu. Namoradas, sexo e poesia, faculdade de comunicação, baseados, meu mal é a birita e um violão. Agora lia Bukowski, escutava Janis e Doors, me encantava o submundo artístico, os bregas de cabaré, o alternativo sempre mais interessante que o oficial. Minha ídola seguia seu caminho, arrasada, acabada, maltratada, torturada, desprezada, liquidada. Novos escândalos, novos discos. Mas eu preferia as antigas músicas, que obrigava as namoradas a escutar enquanto praticávamos sexo bonsai, ou seja, no banco do fusca. Assim não vai dar, minha vontade é tão grande, não pode esperar…

Bem, o Ricardinho bobo agora é quarentão. Mas continua fiel ao lado B. E neste momento tá na plateia do seu primeiro show da Ro Ro, uma falha no currículo que ele hoje consertará. Cai uma chuvinha chata sobre o Rio de Janeiro, mas o Circo Voador recebe um público razoável. O show será gravado pro DVD, o primeiro da carreira. E eu presente, que honra.

Ela está toda de preto, calça e blusa, cabelo solto. Ro Ro deixou de beber, pelo menos oficialmente. Que coisa. Ela agora é uma senhora desrespeito. Abana-se com um leque, reclama do calor, bebe água e brinca com a plateia, sempre palhaça. Mas não tá muito à vontade com o esquema meio careta de gravação, câmeras, maquiadora… Ela chama o primeiro convidado. Entra Luz Melodia, outro legítimo representante do lado B, e juntos cantam Tola Foi Você. Quer dizer, ela canta e ele tenta, lendo a letra no pedestal. Melódia tá meio viajandão e erra a letra. Deve ter mandado um venenoso no camarim.

Mando uma golada de vodca pra esquentar, não tire da minha mão esse copo. A segunda convidada é Alcione e elas cantam Joana Francesa. Mas a Marrom tá tensa, não se solta, pede pra repetir, depois erra a letra. Só na quarta tentativa a música sai. Quem diria, a Marrom amarelando… Depois Frejat divide com Ro Ro A Mim e a Mais Ninguém. Esse não errou a letra, palmas pra ele. Ro Ro reclama do calor de novo, será que ela tá na menopausa? Bebe mais água. Deve ser água, não é possível que seja vodca disfarçada.

A ruidosa plateia atiça e Ro Ro responde às gracinhas com seu velho humor agudo. Mas uma gracinha é gracinha demaaais… e ela não resiste. Pergunta o nome da garota, é Alice, a idade, tem 22 aninhos, flerta com ela, Alice no país das maravilhas lá em casa, e no fim anota seu telefone num papel e pede pra gracinha ligar na segunda. É isso aí, Ro Ro, tem que organizar a agenda. Depois ela enche o saco de retocar a maquiagem e dispensa a maquiadora, o cabelo já meio desalinhado, baixou o caboco roquenrou. Depois se agacha pra pegar o leque e confessa: Putz, quase peidei. Esta é a Ro Ro que tanto aprendemos a amar…

No fim, Melódia volta pra cantar de novo Tola Foi Você. Ah, agora o homem tá mais aterrissado, não parece aquela tarântula chapada do começo do show. E dessa vez acerta a letra, ufa. Depois Ro Ro faz o bis e se despede. Pronto, sua parte ela fez, agora é com o pessoal da edição do DVD.

E Ricardinho, cadê ele? Ele corre e alcança Alice, quer conhecer a musa da artista. Hummm, é uma menina linda e charmosa, não é que a Ro Ro tem bom gosto? Dou meu cartão e ela me recebe com simpatia. E aí, como você se sentiu com aquela azaração pública? Ela ri e diz que tá muito lisonjeada. E será que esse número que ela deu tá certo? Tomara que sim, ela responde. E você vai ligar? Ela dá um sorrisinho maroto e diz talvez. Mulher quando diz talvez, quer dizer sim, eu brinco. Ela sorri e confirma: talvez.

Volto pra casa satisfeito. Finalmente vi um show da minha primeira musa do lado B, tá consertada a falha no currículo. E quanto à bela Alice Talvez… Bem, se Ro Ro estiver muito ocupada, qualquer coisa eu tô por aqui, viu, Alice? Ricardinho aceitaria com muita honra ser o lado B da Ro Ro.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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Ângela Ro Ro e Luiz Melodia cantam Tola Foi Você
(DVD Ângela Ro Ro ao vivo, Circo Voador, 2006)

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> Ângela Ro Ro na Wikipedia

> Ângela Ro Ro no programa Marília Gabriela

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Entre rocks e feridos

05/09/2013

05set2013

De repente, caiu a ficha: Putz, vinte anos atrás eu estava no Rock in Rio

EntreRockEFeridos-01

ENTRE ROCKS E FERIDOS

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Dizem que o cara começa a envelhecer no dia em que acorda, se espreguiça diante do espelho e diz, todo satisfeito: Nunca me senti tão jovem! Pois tenho outra teoria. Você começa a ficar velho no dia em que vira objeto de arqueologia jornalística. Para ser exato, quando alguém te liga e diz assim: Oi, Ricardo, nosso jornal está fazendo uma matéria sobre os vinte anos do Rock in Rio e queremos entrevistar os que sobreviveram.

Generosas leitoras, diletos leitores, comunico oficialmente que acabo de ficar velho. Ou, para soar mais heróico, que sou um sobrevivente. De repente, caiu a ficha: Putz, vinte anos atrás eu estava no Rock in Rio! Rio de Janeiro, janeiro de 1985. Eu e meus febris vintanos, minhalma deslumbrada… Lembro como se fosse há duas décadas, eu e Paulo Marcio compramos a camiseta do festival, botamos a mochila nas costas e pegamos o semileito, dois dias e duas noites de estrada sem fim. Cheguei no Rio sem bunda, eu que já não tenho muita. Se fosse hoje, acho que eu surtaria antes de chegar em Minas, mas naqueles dias eu era super-homem, não precisava dormir e tinha fígado blindado. A viagem inteira na manguaça, cada parada uma festa. Até namorada arrumei no ônibus, acredita? A danada era noiva, e no escurinho do último banco me escolheu para sua despedida de solteira, que honra.

Confesso que não lembro muita coisa do festival. Quando penso que hoje as crianças já nascem com quinhentos giga de memória, que inveja. Eu, particularmente, não disponho de mais que um mói de vaga lembrança. Mas vamos lá, queimemos os últimos neurônios… Lembro que no caminho para Jacarepaguá perdi uma lente do meu oclim e tive que encarar o festival cego de um olho. Isso explica metade da minha amnésia. Que mais? Lembro que foi Vinicius de Moraes, falecido anos antes, quem abriu o festival. Não, não tomei um ácido e vi a alma dele no palco. É que Ney Matogrosso fez a abertura cantando Rosa de Hiroxima, letra do poeta.

Que mais? Lembro dos malucos do AC/DC, o new age do B52, a doidinha da Nina Hagen que tinha um leruaite com o, desculpe, Supla… Lembro também do Moraes Moreira, Paralamas… Ué, mas não era festival de rock? Era, né, mas isso é Brasil, minha filha, entenda. Que mais? Lembro de um torpedo desse tamanho que eu fumei e, inexperiente, entrei numa lombra de que todas as cem mil pessoas olhavam para mim com aquelas máscaras das crianças do filme The Wall, pense na paranoia. Apavorado, fui me esconder debaixo da catraca da bilheteria, Paulo Marcio rezando por mim. Acabei na enfermaria, glicose na veia, nunca mais na vida eu fumo maconha. Mas sejamos justos, a culpa não foi da planta, coitada, eu é que antes enxuguei meio litro de Tonel 01. O fato é que eu morri e lá no inferno ninguém me atendeu, todo mundo acompanhando o rock pela TV. Acordei recuperado e saí correndo de volta a tempo de ver o Rod Stewart. Ainda tomei uma cerva para comemorar. Jovem é assim, imortal.

Bem, agora que cumpri com meu dever de alertar a juventude sobre o perigo demoníaco das drogas, do rock’n’roll e das noivas taradas dos semileitos, dá licença que vou tomar um domecq e escutar meu Led Zeppelin. E fazer uma pajelança em honra da minha pessoa, eu, sobrevivente do primeiro Rock in Rio. Não tão imortal quanto naqueles dias, admito. Mas mais jovem que nunca.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Se estar velho é ter vivênciado o primeiro Rock in Rio, que dirá ter curtido o Woodstock… Tô fudido. Um abraço primo. Jamiro Dias de Oliveira Junior, Fortaleza-CE – jan2005

02- Caro Ricardo, Foi delicioso ler sua crônica, pena que tenha sido tão curtinha de curtir. Num outro ônibus ia eu com as noivas daquele outro ônibus. E que viagem foi aquela… no ônibus para Jacarepaguá, onde até o cobrador fumava e nem cobrava nada. Na lama da cidade do rock, todo mundo se melando de alguma. Os amigos, as namoradas, as amigas… que viagem. Sucesso, feliz ano novo. E viva o rock’n’roll. Abraço. Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – jan2005

03- Oi Ric! Adorei a crônica…espero que estejas bem.Quando vens por aqui? Beijinhos brancos com sabor de PAZ. Viviane Avelar, Sobral-CE – jan2005

04- Oi velhinho, a anestesia de 85 era boa, né? Ainda bem que sim pq agora está difícil, tem que nas escolhas conscientes senão dançamos, não ao maravilhoso som do ROCK en ROLL mas na vida mesmo. Obrigada pelas boas risadas que dei. bj bem graaaaaandão! Dijé, Fortaleza-CE – jan2005

05- rickie boy, é, o peso dos ânus! Eles passam avoando… Lembra o tempo do… como é que chamava mesmo? Legal… O que conta é não perder o rumor, quer dizer, o humor! Abração. Max Krichanã, Fortaleza-CE – jan2005

06- Sensacional, Kelmer! Que inveja… neste tempo eu tava aprendendo a dançar forró numa cidadezinha do interior, tentando conseguir uma primeira namorada, perto dos meus 14 anos. Só assisti o Rock in Rio II que não chegou nem perto do primeiro. Acho que a coisa mais próxima do primeiro deve ter sido Woodstock! Abraço, Parabéns pelas excelentes lembranças. Ronald de Paula, Fortaleza-CE – jan2005

07- Kelmo, Adorei a sua crônica sobre o Rock in Rio. Eu apesar de ser da sua mesma era geológica sofri muito mais porque morava em Quixeramobim, a muitos e muitos quilômetros de Jacarepaguá. Um grande abraço do seu eterno fã. Tibico Brasil, Fortaleza-CE – jan2005

08- Vc é um Gênio extrmamente criativo. Abrazos. Heloise Riquet, Fortaleza-CE – mar2005

09- Showwww de texto, viajei na história hehehe. Tbem estive no Rock in Rio, o q trouxe várias lembranças. Tem toda razão, quando jovens somos imortais ou ao menos pensamos que somos kkkk. Abner Rios de Alencar, Fortaleza-CE – set2013

10- Galera que vai pro Rock in Rio, se prepara que daqui há vinte anos quero ouvir as histórias! Ricardo Kelmer como sempre formidável! Jessika Thais, Fortaleza-CE – set2013

11- Muito boa, sorri e gargalhei….eu tb. usava oclinho e perdi a lente um dia, fora as lentes de contato perdidas no escurinho dos cinemas e “boites” (alguém sabe o que é/era isso?kkk) Marialucia da Silveira, Campinas-SP – set2013

12- Teu texto é uma viagem Ricardo!! Bjao. Liliana Araujo Moreira, Madri-Espanha, set2013

13- Bem que podia rolar ” Diários de Itapemirim” kkk. Francisco Coelho, Rio de Janeiro-RJ – set2013

14- Acho que vc não envelheceu tanto assim…continua o mesmo garoto com alma de poeta dos velhos tempos do Colégio Cearense. Yvana Oliveira, Fortaleza-CE – set2013


Profissão: sitcomicozinho

25/08/2013

25ago2013

Criatividade, senso de grupo e representatividade de talentos individuais: eis o segredo de uma boa equipe de sitcom

RK200503Roteiristas1

PROFISSÃO: SITCOMICOZINHO

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Galera, tem um pessoal aí de uma faculdade pesquisando sobre o trabalho de roteirista em equipe. Ah, legal, manda entrar. Oi, prazer, tudo bem? Senta aí. Vocês querem saber como funciona trabalhar em equipe, né? Então vamos lá.

Escrever roteiro de sitcom em equipe requer bem mais que talento criativo. Os integrantes da equipe devem formar um conjunto harmônico e eficiente e, para que isso seja possível, no grupo deve haver diferença de talentos: fulano é melhor criando piadas, sicrano na estrutura, beltrano nos diálogos e por aí vai. Criatividade, senso de grupo e representatividade de talentos individuais, eis o segredo de uma boa equipe de sitcom.

A equipe tem um líder. Sem ele, as ideias soltas do grupo ficam sem foco nem direção. Ele não é necessariamente o mais criativo ou o melhor piadista, mas deve reunir qualidades como liderança, senso de equipe, organização, disciplina, calma e paciência. Ele deve fazer com que todos se sintam inteiramente à vontade para criar e expor. Ele deve escutar todas as ideias e decidir qual é a melhor mas, caso fique em dúvida, todos votam para decidir. O melhor líder é aquele que sabe extrair o melhor de seus companheiros. Numa equipe de sitcom isso é fundamental: se o líder não incentiva ou se desrespeita o processo criativo, a equipe se desmotiva e o trabalho não rende.

Toda história nasce de uma entre as diversas ideias básicas que são apresentadas pelos integrantes da equipe. Os produtores analisam as ideias e selecionam a da vez. A ideia básica escolhida é então detalhada num texto curto, com começo, meio e fim. Após isso, a história é dividida em dois atos e as cenas são especificadas. A etapa seguinte é amplificar cada cena, detalhando as situações, marcando as piadas e citando os diálogos. Com a história finalmente estruturada em todas as suas cenas, monta-se o roteiro propriamente dito, com ações e diálogos especificados, além dos cenários e atores necessários para cada cena, a passagem exata do tempo e as orientações de dia ou noite para o pessoal da iluminação. A equipe de roteiristas tem ainda de fazer uma última leitura em conjunto, onde são corrigidas as falhas que restaram. Esse processo todo costuma acontecer em média em cinco ou seis dias.

A partir daí, entra-se em ritmo de ensaio e gravação. Numa reunião com atores, diretores e roteiristas, o roteiro é lido (cada ator lendo as falas de seu personagem), e então os roteiristas têm uma melhor noção das falas e das piadas, podendo alterar algo. Após as alterações, o roteiro é distribuído para elenco, direção e equipe técnica e começam os ensaios, que podem durar dois ou mais dias e são sempre acompanhados por um roteirista. Há um ensaio geral (o corridão) e depois acontece a gravação. O material é então levado à sala de edição, onde o episódio é montado cena a cena. O produto final de tudo isso é o que espectador vê na tela.

Não basta a história ser boa. É preciso que os atores saibam interpretá-la e que o diretor saiba conduzi-los em cena. É fundamental também o trabalho do pessoal da edição, que monta as cenas no computador, no tempo certo. Além disso há o trabalho de cenógrafos, maquiadores, figurinistas, iluminadores e assistentes e todos os profissionais que não aparecem na tela, mas que são imprescindíveis, desde o pessoal da limpeza e do refeitório até o motorista e o contínuo.

Algumas vezes a história é excelente, mas na gravação ela não é tão bem contada quanto poderia ser. Isso, evidentemente, é uma enorme frustração para os roteiristas. Outras vezes atores e diretores, com seu talento, conseguem transformar uma história, que no papel não era tão boa, em cenas tão divertidas que no fim a história acabou ficando melhor. Pode ocorrer também da edição final conter falhas e comprometer o esforço de roteiristas, diretores e atores. Enfim, são muitos detalhes envolvidos na qualidade do produto final – mas tudo começa na sala dos roteiristas, com uma boa história e com boas piadas.

Criar. Inventar. Puxar da cartola uma boa ideia. O trabalho de um roteirista de sitcom é por ideias para fora de sua mente, uni-las a outras ideias, lapidá-las e encaixá-las num determinado contexto. É uma tarefa cotidiana, que não pode parar, pois o cronograma tem de ser respeitado. Chova ou faça sol, os roteiristas devem ter ótimas ideias sempre, feito uma máquina de churros.

Mas nem sempre você está num bom dia, né? É aqui que entra a equipe. Se tudo dependesse de um roteirista apenas, no dia em que ele tivesse comido um acarajé estragado, as piadas não viriam, a história não andaria. Como são vários roteiristas, um acaba compensando o outro e a média de qualidade do trabalho é mantida. Outra coisa importante é o entrosamento e a confiança, ou seja, a capacidade de seus integrantes de funcionarem como uma equipe esportiva onde um passa a bola para o outro que faz o gol. O importante não é você fazer o gol, mas o gol acontecer. Você faz uma piadinha ruim, assumidamente ridícula, mas ela inspira o colega a fazer outra e você, por sua vez, a aperfeiçoa. O que vale é o produto final.

Se um roteirista se considera mais importante que os demais ou tem dificuldade de abdicar de sua ideia por uma ideia que a maioria considera melhor, não haverá harmonia na equipe e isso pode levar ou à saída do roteirista orgulhoso ou à queda de qualidade dos trabalhos. Trabalhar em equipe não é fácil. Quando os integrantes sabem abdicar de sua autoimportância e se entendem como partes integrantes de um mesmo organismo, pensando sempre em termos de grupo, então as boas ideias sempre vêm e os bons roteiros aparecem.

Pronto? Mais alguma informação? Então tá. Avisa quando for publicado, heim? Valeu. Tchau. Aí, galera, acabou a entrevista, todo mundo voltando ao trabalho, cadê aquela Playboy que eu tava lendo?

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

OS SITCOMICOZINHOS –  Roteiristas da foto, da esquerda para a direita: Ana Paul, Fábio Danesi Rossi, Ricardo Tiezzi, Ricardo Kelmer, Gustavo Melo, Luciana Bezerra e Macarrão (Alexandre Magalhães). Na equipe original constavam ainda os roteiristas Claudio Yosida, Nixxon Alves e Silva, Rinaldo Teixeira, Ricardo Barretto e Nina Crintzs. A equipe foi formada pela produtora americana Picante Pictures em 2003-2004 para a criação e produção de sitcons no Brasil, a partir de sua base no Rio de Janeiro. O sitcom Mano a Mano, criado pela equipe, teve sua primeira temporada de 12 episódios gravada na cidade do Rio de Janeiro e é considerado o primeiro sitcom brasileiro feito no formato tradicional do sitcom americano. Os episódios foram dirigidos por Vicente Barcellos, João Camargo e Estela Renner e exibidos e reprisados em 2005 pela RedeTV.
> Saiba mais sobre o Mano a Mano

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É o amor

07/08/2013

07ago2013

E os outros zezés e lucianos por aí?

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É O AMOR

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Como sou homem besta para chorar, é claro que ensopei a manga da camisa vendo 2 Filhos de Francisco (direção de Breno Silveira). Sempre me tocam histórias de superação, isso de lutar por um sonho. Não sou fã de música romaneja, mas é comovente acompanhar a trajetória do artista que, apesar das dificuldades, não desiste de sua arte. Mas então a pulga me coça a orelha: e os outros zezés e lucianos por aí?

A dupla do filme conseguiu chegar lá. Antes passaram muita necessidade, engraxando sapato, vendo a mãe chorar porque não tinha comida em casa, perderam um irmão. Palmas, eles merecem. Mas, que diacho, não consigo deixar de pensar nos outros. Todo mundo saindo do cinema cantando feliz, e eu, o estraga-prazer, pensando naqueles que lutam tanto ou até mais e, no entanto, não chegam lá. E aí?

E aí é isso mesmo, é a vida, uns chegam e outros não. É, você tem razão, se todos chegassem, não caberiam todos no palco. Cruel matemática a do sucesso artístico. Então a vida é injusta? É assim que ela trata seus artistas, aqueles que têm a sagrada missão de entreter e divertir o povo? O que afinal está errado com a arte? Por que para a grande maioria a arte nasce sonho bonito, mas aos poucos vira pesadelo e faz da vida um trágico erro de percurso?

Tenho um palpite. Ele é fruto de tudo que aprendi em minha própria vida, buscando ser escritor num país de não leitores. Não existe fracasso na arte. Porque a arte, por si só, é a eterna celebração da vida. Aqueles a quem a vida escolhe para serem artistas têm a missão de fazer arte e pronto. Se conseguirão se sustentar com ela, isso é outra coisa, a arte em si nada tem a ver com isso, não lhe peçam o que não é de sua competência.

A maioria dos artistas, de fato, não consegue se sustentar e desiste. Uma parte prossegue a duras penas, sempre maldizendo o sistema e envolta em amargura. Mas há aqueles que, mesmo com reconhecimento curto e dinheirinho minguado, continuam com sua arte, são felizes e não abrem mão dela ‒ porque não saberiam viver longe de seu grande amor. Jamais terão sua história contada no cinema, mas ela certamente é a melhor de todas as histórias. Esses encarnam o verdadeiro espírito artístico: fazer arte pela arte. Esses darão a volta completa na roda da experiência e chegarão, não necessariamente ao estrelado panteão das celebridades, mas ao ponto mágico de compreensão onde vida e arte se tornam uma coisa só, e dinheiro e fama não importam tanto quanto continuar… fazendo arte.

Eles olharão para trás e entenderão que a recompensa maior era a própria arte que faziam. E que mesmo devendo o aluguel, não deveram a alma. Que mesmo sem saber como seria o dia seguinte,  cumpriram seu destino. Por amor à arte. Que, no fundo, é o mesmo amor à vida. É o amor.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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01 Cara, li o texto sobre o filme…. vc disse tudo! Parabéns, ficou ducaralho! Vou ler o outro mais tarde, pois hoje tem banho mensal. Parabéns para nós, que arriscamos a vida com arte, e para vc escreveu tão bem a nossa labuta boa. Jayme Akstein, Rio de Janeiro-RJ – set2005

02- Linda crônica, além de me emocionar muitíssimo com o filme ( eu também ensopei não só a camisa mas também a saia, as meias, a fitinha do cabelo… ), agora você me fez reviver um pouco a emoção com as tuas tão bem empregadas palavras. Engraçado, depois que vi o filme, sempre falei muito bem dele, mas sempre completei meus comentários dizendo que o filme me fez pensar muito mais naqueles Zezés e Lucianos que estão por aí, vagando pela vida, e que por acasos ou não acasos do destino, não estão nem na telona, nem com suas vozes gravadas em CDs, e muitas vezes estão aí, vendendo bugingangas nas ruas sem que nos demos conta do sonho matado à força que existe por trás de cada um deles. Como você, também sai do cinema comentando como esse país deve estar repleto deles, e que dor que dá pensar nisso né ? Bem, só queria te dizer que teu texto veio em boa hora, quando estou justamente num momento de amor e ódio com a tal arte citada por você, pois por tabela vivo a peleja diária do Jayme na sua escalada para algum lugar que nem se sabe direito qual. E que justo hoje, estava num dia de descrença total, mas quando li tua crônica, me lembrei da essência dessa busca, do amor que move aqueles que buscam imprimir qualquer forma de arte nesse mundo nem sempre tão receptivo às nossas formas de expressão. Um beijo. Ilana Nahm Akstein, Rio de Janeiro-RJ – set2005

03- OLÁ RICARDO !!! COMO SEMPRE UMA POETA SENSÍVEL, PREOCUPADO COM O PRÓXIMO. CHEGAR AO SUCE$$O DEPENDE DO ESFORÇO E VONTADE DE CADA UM. SE TODOS OS ARTISTAS, POR MÉRITO CHEGASSEM AO TOPO, COM CERTEZA NÃO TERIA UM PALCO TÃO GRANDE QUE COUBESSE TODOS. O SEU JÁ ESTÁ PRONTO, É CERTO. SÓ FALTA UMA GRANDE CAMINHADA PRA CHEGAR ATÉ LÁ. AS DIFICULDADES EXISTEM, VOCÊ SABE. SE VOCÊ FÁCIL NÃO TERIA GRAÇA, NEM SATISFAÇÃO DE ATINGIR A META QUE CADA UM QUER PRA SUA VIDA. O CAMINHO É ESTE, SER AUTÊNTICO. PARABÉNS, MAIS UMA VEZ !!! NÃO O CONHEÇO, MAS, SINTO A PESSOA BOA, HUMANA QUE É, E PROCURA DEMONSTRAR NAS SUAS CRÔNICAS, POESIAS. UM PROFUNDO CONHECEDOR DO SEXO FEMININO. NÃO SEI ESCREVER BONITO, MAS, ESPERO TER PASSADO ENERGIAS POSITIVAS, NESTAS POUCAS PALAVRAS. SAUDAÇÕES. Lucimar Rabello, Vila Velha-ES – set2005

04- OI RICARDO… Que coincidência. Ontem, fui assistir o filme. Também saí de lá chorando. Até porque, conheci o Zezé na época em que ele vinha à Santos “mendigar “shows. Acho que realmente eles mereceram. È meu caro, se ficarmos falando das dificuldades de nossa área, levaria a noite toda. // Mas, como vc disse, é o amor… Mardito amor que só sabe fazer a gente sofrer… Seja qual for o tipo de amor… é o amor. Parabéns pela crônica. Cristiane Carvalho, São Vicente-SP – set2005

05- Muito legal, Rico. Como legítima representante dos não-artistas (com dor no coração, claro), faço minhas as suas sábias palavras. Grande beijo. Marta Crisóstomo Rosário, Brasília-DF – set2005

06- É isso aí mano. Para mim, os verdadeiros vencedores são aqueles que não abandonaram os seus ideais, mesmo com “reconhecimento curto e dinheirinho minguado”, os que não se entregaram ao sistema. Viva para eles… Claudio Roberto Azevedo, Fortaleza-CE – set2005

07- E ai, Ricardo… Você já imaginou, que é por algum motivo, muito especial, que algumas pessoas foram escolhidas, para percorrer este caminho, que realmente pode não ser fácil, é nem é pra ser. Que consigam transmitir sua arte, seja em que segmento for, para muitos, ou simplesmente poucos, não importa!!! O importante é que continuem, trazendo para nossas vidas: cores, risos, lagrimas, emoções, sentimentos, realidades e também muitos sonhos. Assim, como você, Meu Escritor Favorito!!! Rita de Cássia, São Paulo-SP – set2005

08- Fala Ricardo, gostei muito mesmo do seu texto, concordo com tudo o que você disse. Acho que todos concordariam se pudessem enxergar além das pretensões narcisisticas e da ignorância. A arte é a transmutação do sentimento urgente de viver que o artista sente e nada mais. Não deixa de me chamar pro lançamento do seu livro, abraço. Pedro Schprejer, Rio de Janeiro-RJ – set2005

09- Como é lindo esse teu lado, tua alma feminina. A vida é bem essa luta para aprendermos a ser verdadeiros. Os artistas sabem disso. É como você falou. Mas mesmo quem não é artista, muitas vezes tem que se vender um pouco (se é que existe isso) até encontrar seu limite e daí partir prá luta (como eu fiz), ou infelizmente se perder como muitos no furacão da insegurança e da ganância humana. No final nada há prá nos deixar mais em paz do que ser fiéis a nós mesmos. Eh…acho que eu vou ter que ver o filme…droga, detesto borrar a maquiagem. Lucilene Anderson, Fortaleza-CE – set2005

10- Ricardo, mais uma vez vc. fez Bingo!!!! Sinto-me uma das tais e ainda me pergunto se, nestes dias de total banalidade e baixa qualidade, lá no fundinho de nós, não há um sabotador esperto que prefere o anonimato e as dificuldades a vender barato nossa amante fiel de toda uma vida. Se não der pra estar próximo a uma Mona Lisa ou uma Capela Sistina, uma Divina comédia ou mesmo um ótimo romance do Saramago ou um poema do Pessoa, que nossa musa não vire consumo fácil do tipo imã de geladeira, a meu ver, o melhor ícone de nossos dias! Um grande abraço. Angela Schonoor, Niterói-RJ – set2005

11- podis crer… Fábio Morais, Rio de Janeiro-RJ – set2005

12- Putz, Ricardo, Sensacional. Tu é foda … Parabéns. Um grande abraço. Alvin, Fortaleza-CE – set2005

13- Excelente texto, sêo Ricardo! :D*. Susana Motta, Leiria-Portugal – set2005

14- É isso aí, Rika!!! Vc disse tudo; exatamente o que eu acho e a maioria ds pessoas sensíveis, artistas acham tbm. Quando existe mesmo a arte dentro de nós, quando a sentimos forte e latente , ela flui naturalmente, mesmo sem sabermos do seu retorno financeiro e profissional. Quando ela está enraizada dentro de nós, ela precisa sair de qualquer maneira e a nossa alma e a das pessoas ao nosso redor, agradecem. Anabela Alcântara Pinto, Fortaleza-CE – set2005

15- Ainda bem meu amigo (acho que já o posso chamar assim), que você não desistiu dos seus Sonhos, seguiu em frente e continua a escrever essas coisas tão bonitas, com tanta sensibilidade, que sempre nos toca fundo a alma. Um grande abraço, Heloisa Pontes, Fortaleza-CE – set2005

16- Ricardo, me sinto parte dessa crônica! Bj. Luciana P Martins, Rio de Janeiro-RJ – set2005

17- E aí, Ricardo? Não vi o filme, confesso que motivado por meu preconceito contra os sertanejos midiáticos, que passam o domingo a gemer nos Faustões e Gugus da vida. Pra minha surpresa, chega minha mulher, uma fã da boa música brasileira (leia-se Chico, Gil, Belchior) e alguma afinidade com o rock e o pop (Led, U2, santana, Sting, Phil Collins) e diz que viu e adorou. Você pode imaginar o quanto me senti duplamente traído, primeiro por ter ela ido ao cinema sem me consultar – ô cabra macho! – e segundo pela imperdoável escolha musical. Como todo corno que se preza, me conformei depois de alguns beijinhos e argumentos tais como: “a história é muito bonita…”, “os atores estão muito bem..;” etc. Mas o que interessa mesmo é essa sua bela visão do que seja o sucesso ou o fracasso, que transporto tanto para artistas quanto para o ser humano em geral. Há aqueles que procuram o sucesso a qualquer custo, e essas poucas linhas somente me permitem destacar duas categorias, mas há certamente muitas outras: aqueles sem nenhum talento e muito menos visão do processo a que se entregam ou participam, e que são pinçados por esta ou aquela gravadora, esta ou aquela empresa, este ou aquele partido ou grupo político como produto de uso e consumo, ou aqueles que têm talento, acreditam no que fazem e mesmo assim se deixam usar ou corromper por aquelas mesmas entidades e patrões. Tanto estes quanto aqueles, passarão pela vida, percebendo ao fim que por terem escolhido tal caminho, que não necessariamente é o mais fácil, ao perderem aquilo pelo que se venderam, como você mesmo disse, restará apenas o rancor de se sentirem abandonados, ou a cruel amargura de perceber o tempo perdido. Aos grandes homens, em todas as áreas, que não se venderam, não cederam ao apelo fácil de dizer sim a tudo e a todos, como você bem disse, não há fracasso. Poder caminhar a cada dia, construindo os seus sonhos e o dos outros, mesmo que estes nem saibam, nem agradeçam, é paga mais do que suficiente. Por isso meu camarada, sem pieguice nem baitolagem, como nos nossos tempos de menino, vai aí o meu quase inaudível aplauso a você mesmo, que me parece ter descoberto esse caminho da felicidade, de viver fazendo arte, vendo longe sem deixar de olhar pra dentro de si mesmo, ou melhor ainda; sem deixar de olhar pros próprios pés e dar valor a coisas simples como andar na areia e molhá-los na Praia de Iracema, Ipanema, no Leme ou Pontal… Um abraço. Paulo Marcelo, Brasília-DF – set2005

18- Adorei! Bom dia. Qdo vc aparece? Bj. Liége Xavier, Fortaleza-CE – set2005

19- Boa tarde! Olá Ricardo. Gostei de sua crônica, mas sabe o que acontece nós passamos pela vida com uma missão de aprender e ensinar. Sou uma apaixonada por arte, ela me faz sorrir e ser feliz. Gostei dessa frase: ” Porque a arte, por si só, é a eterna celebração da vida.”(Ricardo Kelmer) A diferença entre os que conquistam o sonho e os que ficam pelo caminho é a prova da existência de cada um. Devemos saber utilizar dos recursos conquistados para ajudar a humanidade, só assim a evolução acontece. Cacilda Luna, Fortaleza-CE – set2005

20- Ricardo, Eu ainda não assisti a este filme, talvez nem o vá, pois sei que como vc e todos os que assistiram, vou chorar, mas pensei tbem como vc, o que foram feitos dos outros “filhos de Chico” do mundo afora que nem sequer tiveram chance de sua expressão, com isso não quero desmerecer o poder de conquista destes dois irmãos, é que o mundo é muito estranho mesmo, por vezes carrasco. Mesmo assim a despeito de qualquer tristeza, dores ou eventuais problemas, eu continuo acreditando no amor e espero e desejo que você e todos os que sofrem diante de certas injustiças também continue a acreditar, porque basta que desejemos o amor… e haverá amor! Um abraço. Sandra A Dehn, Cuiabá-MS – set2005

21- Ô texto bom de se ler, bichorréi lindo!!! Como é gostoso seu jeito de pensar pra nós!!! Deus continue a te iluminar, que as musas te inspirem… Para que mais gente saiba que o que nos faz vivos…É O AMOOOOORRR!!!! Bjos. Karla Karenina, Fortaleza-CE – set2005

22- Parabéns, fazer arte não é para qualquer um. mas fazer boa arte é para poucos. Mesmo assim não desisto de fazer as minhas, como vc o faz. Dom não se compra na esquina, nasce com agente; somos abençoados pela vida. Beijos. Paula Rabelo, Rio de Janeiro-RJ – set2005

23- Valeu Ricardo, mais uma vez vc foi dez na sua forma de expressar seu pensamento, que na realidade compartilha com milhões de artistas que também tiveram que percorrer árduos caminhos para chegar ao sucesso. Os outros Zés da vida talvez não tenham tido dinheiro suficiente para produzir um filme e contar suas mazelas. Bjinhos. Mariucha Madureira, Brasília-DF – set2005

24- É O AMOR. Gostei muito do filme e confesso que chorei… Chorei porque é uma bela historia de vida. Marcia Morozoff, Brasília-DF – set2005

25- Cara, essa foi do caralho!!! Um grande abraço. Sergio Nogueira, Fortaleza-CE – set2005

26- Oi Ricardo! Muito boa essa critica!! Eu confesso que näo fui asssisti ao filme que todas as pessoas que eu conheco foram, por puro preconceito! Nao gosto da dupla. Nao so pelo estilo musical, mas por saber que eles sao pessoas que adoram destratar os outros sempre que nao tem nenhuma camera por perto. A ultima que fiquei sabendo foi de uma colega de trabalho que foi a um show deles aqui em Fortaleza, na vaquejada de Itapebussu. Eles passaram pelo camarote onde minha colega estava e ela, coitada, toda tiete, querendo conversar, tirar foto, foi surpreendida pela falta de educacao do Luciano (educacao nao se compre ) que foi bastante grosseiro. Bem, mas esse nao e o mais importante. O que mais me revolta nesse filme e saber que varias sao as pessoas que lutam dignamente, diariamente, por uma vida melhor, por um sonho, e que nao sao e nunca serao reconhecidas. So falta eles ganharem o Oscar. Tantos filmes bons ja tivemos, mas logico, nenhum a altura deste que conta uma historia tao bonita. Historia que e so olhar para o lado que veremos tantas outras, tao perto, tao sofrida, mas que nao merecem ser contadas , nem lembradas, muito menos admiradas, porque sao historias comuns, de pessoas comuns. Acho uma pena darmos tanto valor a pessoas tao futeis! Ana Karolina Nascimento, Fortaleza-CE – out2005

27- sou conteporâneo seu do santo inácio e do cearense. Depois de morar no rio e em sp hoje moro em brasilia. Quando estava em férias na nossa cidade ouvi uma crônica sua sobre o filme os dois filhos de francisco, depois passei a acompanhar sua coluna no jornal o povo (confesso que é a única coisa que leio). A tempos estou para solicitar seus livros mas só hoje venci a preguiça. Cláudio Gondim B. Farias, Brasília-DF – jan2007

28- Li várias crônicas ontem, mas, a que me fez ficar daquele jeito, foi: É o amor. Achei de uma beleza sem igual. Define muito bem a dureza que é a vida de um “artista”. Parabéns! Cada crônica tem um segredo escondido, até mesmo naquelas mais engraçadas! Acho que essa coragem que você tem de arriscar, mesmo com medo, você vai em frente e enfrenta os leões ferozes que aparecem e ainda consegue vencê-los. É essa coragem de ser você mesmo que encanta todos os que convivem com você e faz de você uma pessoa mais que especial! Obrigada pelas lágrimas de hoje! Obrigada por nos colocar em contato com o nosso eu mais profundo! E muito obrigada por não deixar a gente esquecer que esse mundo não é só matéria. Existe algo além disso… E é sobre isso que você sabe escrever muito bem! Um cheiro bem grande!!!! Vânia Vieira, Fortaleza-CE – jun2007

29- Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos ! vc conseguiu! emocionada! em extase! sem comentários para não perder a sençãção intraduzível do momento!UAU! Anosha Prema, Campinas-SP – ago2013

30- Puxa primo, você consegue colocar em palavras a realidade da vida por nós sentida com muita naturalidade e atentar para coisas imperceptível para muitos. Vânia Dias, Fortaleza-CE – ago2013

31- Grande Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos ! Seu texto está no ponto, maravilhoso e completamente real ! Abração forte! Erico Baymma, Fortaleza-CE – ago2013

32- Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos, grande texto em que eu concordo com cada palavra! Diego José, Fortaleza-CE – ago2013

33- Eu concordo com voce, mas se pensarmos direitinho, isso acontece em todas as areas, por exemplo, a gente tira pelos concursos publicos, pra juiz por exemplo… o cara estuda a vida toda, o salario é maravilhoso, pode mudar totalmente a vida, mas sao milhares de candidatos, e apensa algumas dezenas de vagas… Nem todos passam. Bruna Barros, Campina Grande-PB – ago2013

34- Ricardo Kelmer gostei muito desse filme! Vale à pena ver esta análise:http://www.cartacapital.com.br/…/view. Shirlene Holanda, São Paulo-SP – nov2013

35- Texto sensacional!!!Como é bom ler suas escritas…. Bjks. Carla Falcão Bouth, São Paulo-SP – nov2013

36- Lindo texto !!! Tanto quanto vc !!! Joyce Lôbo, Brasília-DF – nov2013

Bom ver você assim, entusiasmado. Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos que você….

Crônica para cabelos rebeldes

26/07/2013

26jul2013

Então, descobri uma das maiores invenções da humanidade: o creme hidratante sem enxágue

CronicaParaCabelosRebeldes-05

CRÔNICA PARA CABELOS REBELDES

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Olhei no espelho e minha alma roqueira mandou: Deixa o cabelo crescer, maluco! É, pensei eu, por que não? A última vez fora aos vinte anos, tava com saudade de ter cabelão. O espelho, mais sensato, me alertou: Aí em cima já tá faltando telha, cabelo fino e quebradiço, tu vai ser o espantalho que fugiu da roça… Fiz que não ouvi. Então, com vocês, na sessão sem noção, O Quarentão Roqueiro.

No começo, tudo bem. Mas logo o cabelo não parava quieto. Eu passava em frente ao salão e o dilema me roía, corto ou não corto? Em nome do roquenrou, resisti e não cortei. Mas o espantalho fujão comprou um boné. De dia até resolvia, mas… sair de boné à noite? Comprei um preto, que é mais discreto. Depois comprei um com as cores do meu time. No vigésimo boné, quando vi que comprara um repetido, entendi as mulheres viciadas em sapatos.

Descobri o gel fixador. Ufa, meus fios rebeldes enfim se acalmaram. Mas fiquei com uma cara estranha, parecia que tinha levado uma lambida de vaca. Será por isso que as pessoas riam de mim na rua? Aí, no camelô, conheci um gorro simpático, paguei e já sai com ele na cabeça. Na esquina, uma garotinha apontou pra mim: Olha, mãe, o Ziggy do Mundo Bizarro! Desconheço o Ziggy, mas voltei pra casa arrasado. Comprei outro gorro, mas piorou, fiquei o próprio rapper em crise existencial. Então li algo sobre cabelos rebeldes e no dia seguinte, arrá!, o exterminador de cabelos indisciplinados invadiu raivosamente o banheiro, jogou fora o dois-em-um e trocou por um xampu decente e um condicionador. É, mas de dia ainda preciso do boné, e sempre atento pra não cruzar com a garotinha sádica, e à noite o gel – e aquela impressão de escutar um mugido…

Um ano sem cortar, o cabelo no meio do pescoço. Tentei usar liguinha pra prender atrás, mas sobravam fios na frente, não deu certo. Então, descobri uma das maiores invenções da humanidade: o creme hidratante sem enxágue. Fiquei encantado. A vida ganhou novo sentido. Infelizmente, na estreia exagerei na dose e fiquei a semana inteira com cara de quem saiu do banho.

Obsessão capilar: não podia ver uma farmácia que ia lá dar uma olhadinha nos cremes. Um dia, entrei pra perguntar se já tinham inventado calmante pra cabelo e… minha vida mudou. Conheci Geísa, ah, Geísa. Casei com ela? Não, ela era a atendente e se tornou minha conselheira capilar. Me explicou tudo, que eu devia substituir imediatamente o neutrox, usar hidratante com filtro solar, variar o xampu, me apresentou um oleozinho pra passar nas pontas e indicou a promoção do condicionador, paga quatro e leva cinco…

Faz ano e meio desde aquele dia no espelho. O cabelo tá no ombro, já posso montar a banda de rock. E tem todo um ritual: xampu duas vezes, condicionador, hidratante e depois o oleozinho nas pontas. Como é tudo marca boa, agora a grana só dá pra almoçar duas vezes por semana. Virei o Faquir Cabeludo. E não é que ontem uma amiga me recomendou, olha só, uma pomada à base dágua, diz que é uma maravilha pra usar após o oleozinho. Deve ser. Mas custa os olhos da cara. E agora, almoço ou pomadinha? Geísaaaaaaa!

Mulheres, por causa do roquenrou eu hoje entendo vocês. Perdoem todas as vezes que reclamei da demora pra se arrumar, aquele monte de creme na pia do banheiro… Sou um homem mais sábio. Aprendi o que é frizz. E sei que, assim como caneta e isqueiro, liguinha de cabelo também some misteriosamente. Noite dessas sonhei que uma ponta dupla queria me estrangular, olha que horror. Levei o sonho pra Geísa interpretar e ela disse que era hora de aparar o cabelo. Ok, vou aparar. Mas vou logo avisando que eu gosto de rock progressivo, sim, mas escova progressiva, aí já é demais, né?

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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GALERIA DO QUARENTÃO ROQUEIRO

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MemoriasDeUmaJubaRebelde-01Memórias de uma juba rebelde

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CronicaParaCabelosRebeldesElas-03Um brinde a você que aturou minha rebeldia capilar

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RK200704JeriTurma03 Quarentão roqueiro arrumou bico de garçom em Jericoacoara. Flagrante dele xavecando as holandesas.

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CronicaParaCabelosRebeldesRK-02. Quarentão roqueiro fazendo programa pra completar a renda de escritor. A vida não tá fácil pra ninguém.

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.RK200703JuazeiroDoNorte02Quarentão roqueiro aliviando a bexiga após noite de sexo selvagem e drogas pesadas no convento das Irmãzinhas do Santo Prepúcio.

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CronicaParaCabelosRebeldesRK-011- Foto pro concurso de sósia do Fábio Jr.
2- Ziggy, do Mundo Bizarro
3- Garoto-propaganda de cachaça. A vida não tá fácil
4- No meio do mato esperando o papel higiênico

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Ser mulher não é pra qualquer um – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

A celebração da putchéuris – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

A volta da Intocáveis – Oh não! – Um show com os restos mortais da Intocáveis Putz Band

Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro

Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

A pouca vergonha do escritor peladão – Foi minha vizinha louca de Botafogo, a Brigite, quem me deu a ideia: Por que você não faz um ensaio fotográfico peladão pra comemorar seus 40 anos?

O dia em que morri no Rock in Rio – O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

Galinha ao molho conjugal – Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?

Confissões de um míope – O míope então restringe suas relações visuais com as pessoas a um raio de dez metros e quem estiver além disso não faz parte de seu mundo. E acaba ganhando uma imerecida fama de boçal

> Postagens no tema “biográfico”

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Quase morro de rir aqui com a briga tua com os cabelos, amei… Impossível compreender a alma feminina sem antes passar por uma experiência como essa. Definitivamente vc já é um PHD no assunto.:P Mas num corta o cabelo não… Eu também posso te dar vários toques. Se bem que já que vc conhece o creme sem inxague, seus problemas já estão praticamente resolvidos. Agora é só ficar aparando as pontas para não ter mais pesadelos, procurar fazer uma hidratação mensal e pelamordedeus exterminar o neutróquis, depois é só soltar a juba ao vento e partir para o roquenrou. Beijos, lindinho. Rafaela Almeida, Fortaleza-CE – jan2006

02- RICARDO TÁ MASSA, MUITO MASSA MESMO!!!! Adorei!!! Olha esse texto tá muito bom…quando eu voltar o traduzirei, adorei mesmo! Isabella Furtado, Modena-Itália – jan2006

03- kkkkkkkkkkkkkk!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Hilariante! Lembrei da minha filhinha que passa os mesmo problemas seu. Mostrei a crônica, ela deu muita risada. Só que ela disse o seguinte, shampoo só pode passar uma vez kkkkk!!!! bjs. Marcia Morozoff, Brasília-DF – jan2006

04- (…Foi quando descobri uma das maiores invenções da humanidade: o creme hidratante sem enxágue. Fiquei encantado…) Caraca velho… A crônica sobre o cabelo é a minha cara… Estou entre 2 e 3 anos sem cortar e passei pelo mesmo problema da revolta do FRIZZ e também pela solução do creme!!! Só ainda não cheguei no óleo 😀 Até minha namorada já tá achando bonitinho o danado. O mais engraçado é que ela tem cabelo curto (tempos modernos!). Mas confessa… O pior mesmo é ter que APARAR depois de ter tido tanto cuidado!!! Parece que estão cortanto um pedaço de você! humm… mas pera aí! Eles estão! Abraço. Nigini Abilio Oliveira, Campina Grande-PB – jan2006

05- Kelmer, adorei a crônica para cabelos rebeldes…vc me deu “dicas” ótimas…hehehehehee. Leila Siqueira, Fortaleza-CE – jan2006

06- Crônica para cabelos rebeldes é realmente muito engraçado Meus parabéns pelas idéias brilhantes! Tenha um 2006 cheio de realizações,saúde e muitas idéias Kelméricas! Luciana Lopes, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

07- Qué isso, cara, sai dessa!! Cabelo zuado É O QUE HÁ! Eheheheh! Tá bonito assim! beijos!! Giovanna Milozo, Jaú-SP – jan2006

08- Ricardo querido, prepare-se agora para uma nova saga: o trauma do cabeleireiro caro! Sim, porque depois de tanto sacrifício e conhecimento acumulado, você não vai deixar suas madeixas aos cuidados de um barbeiro de dez real, né?! Acho que você estava se achando muito lindo de cabelão na foto que abre essa seção… tá até com um jeitinho daqueles efebeos efeminados da Roma antiga… sem ofensas! Beijos grandes, Myla, Brasília-DF – jan2006

09- É cara, vc nao é o único quarentão a passar por isso. Sente o meu drama. Separado, doido pra voltar ao mercado, malhando na academia todo dia, 5 e maia da manhã (só dá tempo nessa hora). Imagina o esforço. Deu resultado, saradão, arrumo uma namorada 16 anos mais nova (e ainda psicóloga, te analisa até dormindo). Bom, aí ela vem: amor, vc tem cara de menino, deixa o cabelo crescer, vai… eu acho lindo, que nem piloto de fórmula 1… ai meu Deus, só faltava essa. Bom o que um ego disposto não faz. Aí deixei. Um mês, dois, três, quaaaatro…O cabelo não se entendia mais, ondulado na frente, liso atrás, um horror. E ela achando liiiiindo! Bota um boné, amor! Meu pai puto! Isso não é cabelo de empresário, cadê a credibilidade! 41 anos! Vc vai deixar de fechar negócio por causa desse cabelo! Minhas filhas, então… a mais velha (de 13) disse: pai, vc tá querendo paquerar minhas amigas é? Por que filha? A Diana disse que vc tá um gato! Que absurdo! Bom, foi aí que eu também apelei pros gelzinhos e pro “redutor de volume capilar”. É mole? Até que gostei do resultado. O bicho (o cabelo) até ficou mais comportado (mas cabelo grande não é rebeldia? Rebelde comportado? Ah quarentão indeciso…) Bom, aí veio o golpe fatal. Fui ao lanámento de uma livro de uma tia, num centro cultural aqui em Fortaleza. Muita gente cabeça, intelectuais, umas gatas…(tava de namorada a tiracolo, bem entendido). Aí chega uma amiga (linda) de uma prima e solta essa: Vc é metrossexual? (Pense no sangue esquentando)… Bom, eu disse, o Bilau é grande mas não tem um metro não…Quer saber duma coisa, chega de creminhos, cabelo enorme… Meu barbeiro (bom é cabelereiro mesmo, frescura de macho) tava com uma saudade de mim…Cara, vc voltou? Tem uns seis meses que eu cortei teu cabelo. Era promessa? Tá bom, corta logo essa p…Mas muito curto não! Deixa cobrindo o orelha porque minha gatinha acha que eu fico parecido com piloto de F1! Mas a grana…ainda tá meio longe… Valeu Ricardão! Um abraço com saudade! Sergio Nogueira, Fortaleza-CE – jan2006

10- Muito bom!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! A crônica do cabelo é ótima!!!!!!!!!!!! Luce Érida Galvão de Sá, Fortaleza-CE – jan2006

11- Oi Ricardo Fiquei totalmente solidária com você, também tenho cabelos finos, rebeldes e quebradiços. Pior que isso, tenho um redemoinho no alto da cabeça, bem no vértice do ângulo de 90%, que forma um aclive súbito, no formato de alça… detona qualquer visual chique. Teve até uma chapinha que já andou surfando nas minhas ondas, domou-as completamente, uma única vez, mas quando olhei no espelho e não vi aquele mar crespo e revolto, morri de tédio e de saudades dos meus cachos cheios de vida e rebeldia. Mas, segundo o último boletim fashion, chapinha é coisa do passado, pelo menos no momento “… os cabelos da estação apresentarão um visual muito mais descontraído e as ondas desalinhadas estarão em alta…” Então, relaxa (não os cabelos), a moda finalmente nos alcançou. Beijos. Marli Myllius, Curitiba-PR – jan2006

12- ricardo, adorei, nunca passei por esse processo não, até por que tenho calvice e os cabelos depois dos 30 sempre curtos, mais o damito deixou os cabelos uma epoca crescer e foi exatamente isso, e depois de curtos nunca mais deixou de usar o tal creme, muito bom. parabens. Glaucia Costa, Fortaleza-CE – jan2006

13- Cara, lí uma crônica tua, mto boa, excelente, vim aki te parabenizar, rolei de rir com a tua briga com os cabelos hauahauhaua, parabéns, vc eh mto bom!!!! Yve Santana do Nascimento, Rio de Janeiro-RJ – jan2006

14- Hummmmmmmmm… agora vc entende as mulheres? o creme para pentear sem enxague é uma maravilha não? 🙂 hihihihhihihihihi Beijos, lindo! Teu cabelo tá gigante! 🙂 Mellina Farias, Campina Grande-PB – jan2006

15- Ô comédia… Meu pai me chamou hj todo preocupado e pediu pra eu explicar umas coisas a ele. Quando eu vejo, uma sacola xeia de tubos de produtos de cabeleireiro e eu explicando como era que usava o creme sem enxágue…hehehhehe Daí nem resisti e botei a ele ler tua crônica e pra variar, adorou:P Rafaela Almeida, Fortaleza-CE – jan2006

16- Há um tempinho conheço seu trabalho e gosto muito do seu jeito de escrever. Por sinal, a sua saga para deixar o cabelo crescer foi demais!!!! Passamos por isso aqui em casa, quando meu marido, analista de uma empresa super careta, resolver dar uma de roqueiro também! Meus filhos e eu quase piramos. Passamos por todas aquelas etapas, como você, porém, com um agravante: ele se recusava a reconhecer os cabelos brancos! Pronto, lá fui eu tentar uma tinta, que não fizesse cair os poucos cabelos que lhe restavam! Fizemos muitas tentativas. Ficou castanho, achou escuro! Daí resolvi apelar para o dourado. Do louro ao louríssimo foi um pulo!!! Hoje, dois anos depois, muitos cremes, reparadores de pontas(o oleozinho), mousses, arquinhos( aqueles diademas fininhos, prá prender o cabelo da franja), liguinhas e toda a parafernália que só a minha menina e eu usávamos, ele resolveu que dá muito trabalho. Resolveu cortar o cabelo. AH! Ele nem briga mais com as minhas idas ao salão de beleza todos os sábados….rsrs Quando ele leu seu texto, quase morreu de rir e disse: “Viu? não sou o único louco no mundo!!!” Vanessa Campos, Uberlândia-MG – mai2006

17- Adorei, mas seus cabelos te conferem muito charme, mesmo ralinhos. Bjo. Christina, Rio de Janeiro-RJ – mai2006

18- Prefiro do jeito que tá agora… Samara Do Vale, Fortaleza-CE – jul2013

19- Kkkkkkkkk Tentei a uns 10 anos atrás também. Mas meus cabelos ficaram mais rebeldes ainda e foram embora… Francisco Junior, Fortaleza-CE – jul2013

20- Meu querido, esse é seu visual hoje? Deixou o cabelo crescer depois de Campina Grande, ou essa foto é antiga? Rógeres Bessoni, Recife-PE – jul2013

21- Amei! Aliás, to rindo muito no seu blog! rs. Isa Suzartt, São Paulo-SP – jul2013

22- Amei! A crônica, o cabelo!!! ahh, me envia o contato da Geisa? hehe. Marisa Vieira, Rio de Janeiro-RJ – jul2013

23- ahahahahahahah ri alto de algumas cenas que te vi. Adorei a leitura! Magna Mastroianni, São Paulo-SP – jul2013

24- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Ana Claudia Domene Ortiz, San Diego-EUA – jul2013

25- Boa! Magna Vanuza Araujo, Boqueirão-PB – jul2013

26- Muito bom RK! Eu lembro desse cabelo numa palestra tua ( talvez não igual a essa foto…. Tinha bem menos ). Fiquei curiosa pra saber quem é Ziggy Kkkkk. Ivonesete Zete Nizete, Fortaleza-CE – jul2013

27- “Sou um homem mais sábio. Aprendi o que é frizz.” KKKKKKKKKKKKKK ADOREI!!! Débora Araújo, Fortaleza-CE – jul2013

28- Mais uma preciosidade! Ana Erika Oliveira Galvao, Fortaleza-CE – jul2013

29- Kkkkkkk… ADOREI!!!!!! Denise Borges, Fortaleza-CE – jul2013

30- Toma jeito Kelmer e compra um pente. Alberto Marsicano Rodrigues, São Paulo-SP – jul2013

31- Curtinho, e “faltando telha” em cima, com pêlos caindo na testa: adoro! Combina mais com seu jeito “escritor quarentão” safado. Samara Do Vale, Fortaleza-CE – jul2013

32- Boa demais! Pedro Machado, Fortaleza-CE – jul2013

33- Ainda bem que passou. Tereza Cristina da Silva, Fortaleza-CE – jul2013

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Espirros e roteiros

14/06/2013

14jun2013

Se antes eu tinha insônia por me preocupar demais em descobrir o que precisava fazer, hoje me delicio em abrir a janela dos quartos dos hotéis, molhar a ponta do dedo e botar no vento

EspirrosERoteiros-02

ESPIRROS E ROTEIROS

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Foi minha saudosa avó Waltrudes, muito católica, quem me ensinou a, depois de espirrar, dizer sempre “Ave Maria”. E se espirrasse três vezes seguidas? Ave Maria, Ave Maria, Ave Maria. Foi com essa simpática mandinga que, durante a infância, eu pedia boa saúde. Tempos depois, achei que era hora de trocar de mandinga. Agradeci à Virgem os serviços prestados e adotei um verso de Manuel Bandeira que, por aqueles dias, virou meu lema de vida. Assim, depois do espirro, passei a proclamar, solene: “Vou-me embora pra Pasárgada”. Ah, ser amigo do rei e ter as mulheres que quiser na cama que escolher… Poesia, prazeres e paixões. Saúde é isso aí!

O rei era gente boa e nossa amizade durou alguns anos. Até o momento em que o taoísmo me abriu os olhos para a necessidade de ser mais fluido com a vida, captar seus ciclos e me harmonizar com seu ritmo. Então adaptei a mandinga à ideologia taoísta: “Vou-me embora pra onde tiver de ir”. Uma frase bem simples, mas que a partir daí nortearia minha vida, sempre me lembrando que é preciso confiar e estar inteiramente disponível para a vida a cada momento.

Corta para 2004. Lá estou eu largadão em casa, fazendo as contas da classificação do time, quando recebo um convite inesperado: escrever roteiros de TV para uma produtora americana. Precisava apenas tomar o avião no dia seguinte e passar uns tempos na cidade do Rio de Janeiro, onde havia morado dez anos antes. O Rio da violência, da guerra de traficantes, daquele casal de desgovernadores… Mas não precisei pensar muito, nem espirrar, para perceber que sim, devia aceitar o desafio.

Então cá estou no Rio de Janeiro, hospedado num hotel em Copacabana. Hoje é sábado de aleluia. Daqui da janela do quarto observo o trânsito nas ruas e lembro que combinara de ir ver um velho amigo que mora em São Conrado. Acontece que o acesso ao bairro passa pela Rocinha. Alguma daquelas balas do tiroteio entre policiais e traficantes pode ter o meu nome, sei lá, nunca se sábado o que pode acontecer.

Decidi ficar no hotel. Refém da guerra do tráfico, quem diria. Vendo TV e enchendo o cinzeiro de meleca. Mas não posso reclamar. Muito pior é a situação dos moradores da Rocinha que têm suas casas invadidas por bandidos e policiais indelicados e morrem de bala perdida na sexta-feira santa simplesmente porque escolheram a hora errada de devolver a fita na locadora. Isso sim ninguém merece. Tem mais: você segue em seu carro pela avenida e, de repente, um bando de homens armados surge na pista, aí instintivamente você pisa no acelerador e por conta disso morre metralhado no volante. Os assassinos planejavam roubar carros para com eles invadir a favela, destronar o chefe do tráfico e assumir o controle dos pontos de venda. De posse desses pontos, lucrariam mais e teriam mais poder para subornar policiais, políticos e juízes. Daria um bom roteiro para Por um Punhado de Pó, né? Ou Infiltração Máxima. Mas infelizmente esse é o roteiro da vida real da cidade maravilhosa.

Minha mãe liga, preocupada com as notícias. Lamenta a hora infeliz que escolhi para morar no Rio de Janeiro. Fazer o quê, mãe, sou apenas um operário de meu próprio destino. E estou sempre aprendendo que os interesses imediatistas do ego nem sempre constroem os melhores caminhos. Por isso é que abdiquei do controle racional sobre a vida, permitindo que o próprio caminho se manifeste. É um estilo arriscado de viver, eu sei, parece não oferecer nenhuma segurança. No entanto, é assim, me dispondo para a vida, que sinto a vida mais presente, ela e seus desígnios misteriosos e sábios, e o que ela traz é tudo o que eu preciso. Se antes eu tinha insônia por me preocupar demais em descobrir o que precisava fazer, hoje me delicio em abrir a janela dos quartos dos hotéis, molhar a ponta do dedo e por no vento.

É preciso estar no mundo, mãe, ainda que ele seja um lugar violento e só haja incertezas em suas estradas. O mundo é o que ele é, bom ou ruim, e é assim que sempre foi e será. Esconder-se das dores e dos perigos do mundo é se esconder da própria vida. Pasárgada é o melhor lugar que existe, mas melhor ainda é viver no lugar onde a gente deve estar. Melhor é confiar nos ventos do próprio destino e entrar em tal harmonia com eles que o roteiro que os ventos traçarem será sempre o mesmo que você precisa – justamente porque você não deseja nada, a não ser, é claro, ir para onde tiver de ir. Atchim!

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro

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Bizarra vizinhança

06/06/2013

06jun2013

Qualquer dia darei minha contribuição e botarei no último volume o cedê do Geraldo Luz, aquela música que diz que o suicídio é a melhor solução

BizarraVizinhanca-01

BIZARRA VIZINHANÇA

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Finalmente consegui alugar um quarto-e-sala enquanto procuro um lugar definitivo para morar. É um pequeno apartamento, todo mobiliado. O prédio é mais velho que eu, mas está mais conservado. A dona do apê é uma artista plástica, por isso a sala é cheia de quadros estranhos, desses que a cada dia você vê uma coisa diferente. Ontem descobri um lobisomem saindo de uma concha, olhando feio pra mim…

Da janela dá pra ver o Cristo. Detesto aporrinhar os deuses, mas com uma semana pedi pro Cristo me ajudar. Sabe o que é, é o meu vizinho do sexto, ele é meio estressado, tem problema com a ex-mulher e vive gritando que a odeia e que vai matar a desgraçada, o prédio todo escuta. Minha vizinha de baixo, pra abafar os palavrões, bate carne na cozinha. A de cima berra umas músicas evangélicas, tão desafinada que Deus obviamente não vai aceitá-la. E eu no meio desse inferno.

Apesar dos queridos e bizarros vizinhos, estou gostando do bairro. Nas ruas tem muito carro, ônibus, moto, pedestre e camelô, mas de algum modo todos se entendem. Imagine um caminhão cheio de bode: na curva todos se amontoam, caem por cima dos outros, aquela confusão. Mas logo depois se ajeitam e tudo volta ao normal, né? Botafogo é parecido. A diferença é que aqui o caminhão está sempre fazendo a curva.

No primeiro passeio encontrei uma livraria, três cinemas e sete bancas de revista. E uma dúzia de bodegas. Me senti em casa. Perto do metrô vi uma banquinha de livros usados e parei pra olhar os títulos. E escutei sussurrarem meu nome… Era um livro do Castaneda, justamente o que faltava em minha coleção. O dono, um ex-hippie cinquentão, estava sentado lá dentro, incenso fumaçando, o três-em-um mandando ver no roquenrou. Ao saber que eu era do Ceará, se animou e me contou sua viagem pra Canoa Quebrada nos anos 70, mochila, carona na estrada, unzinho ao por do sol. Eu folheando o livro e ele lembrando de dunas, surubas e cogumelos, botou até uma fita do Led Zeppelin, gravação pirata. Saí de lá na maior maresia. Mas com o livro do Castaneda, e pela metade do preço. Botafogo, o bairro ideal.

Dias depois eu passava pela rua e escutei o grito: Ô, Ceará!!! Era o maluco psicodélico da banquinha, me acenando com um raro do Terence MacKenna, pechincha, dez real. Livro é mesmo uma droga perigosa. Assim como o alcoólatra não pode dar o primeiro gole, gente como eu não pode nem passar em frente a um sebo. Não resisti e levei o MacKenna. Botafogo é ideal, mas tem seus perigos.

Aos poucos, vou me ambientando no bairro, descobrindo atalhos, fazendo a simbiose. O jornaleiro guarda pra mim o JB das sextas. O dono da bodega na esquina é cearense e quando estaciono no balcão nas noites de frio, ele capricha na dose de Domecq. E na quarta-feira o cinema é mais barato, olha que bom. Só o meu vizinho estressado é que não tem jeito. Hoje, por exemplo, acordei outra vez com ele gritando e quebrando as coisas em casa, e embaixo o bate-bate na tábua de carne, e em cima os aleluias desafinados. Reclamei com o Cristo, mas ele anda ocupado desviando balas perdidas. Qualquer dia darei minha contribuição e botarei no último volume o cedê do Geraldo Luz, aquela música que diz que o suicídio é a melhor solução. Bizarro por bizarro…

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

> Pois o suicídio ainda é a melhor soluçãããooo…
Escute a música de Geraldo Luz (A droga)

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A pouca vergonha do escritor peladão – Foi minha vizinha louca de Botafogo, a Brigite, quem me deu a ideia: Por que você não faz um ensaio fotográfico peladão pra comemorar seus 40 anos?

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Galinha ao molho conjugal – Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?

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> Postagens no tema “biográfico”

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01- Kelmer, olha que “dunas, surubas e cogumelos”…. KKKKKKKK ADOREI!!! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK. Gustavo Lima Verde, Fortaleza-CE – jun2013

 


O major da China

08/05/2013

08mai2013

A folha em branco era o próprio Partido Comunista Chinês a me desafiar, ou você escreve trinta linhas ou então zapt!

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O MAJOR DA CHINA

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Com 11 anos, entrei para o Colégio Militar, e lá se foi meu cabelão anos 70. No início, até me empolguei com a novidade, mas aos poucos emergiram incompatibilidades com a filosofia militar. Eu era um aluno estudioso, sim, mas ali a minha energia criativa e os anseios de liberdade não tinham muito espaço. O colégio parecia desafiar minha natureza, ei, mocinho, esse lugar é pequeno demais para nós dois…

Passar por média era importante, mas bem melhor foi me sagrar campeão do Torneio de Tampinha de 1977, organizado pelo grêmio, uma final arduamente disputada entre eu e Celestino ‒ e a medalha, ostentei-a orgulhosamente no peito por meses. Havia uma máfia que protegia calouros em troca de lanche na cantina, e eu fiz parte, claro. E participava das excursões ao Colégio Imaculada Conceição para paquerar as alunas, e depois, inspirado nelas, escrevia contos eróticos que circulavam secretamente durante as aulas. Era divertido. Mas havia todas aquelas regras, hierarquias, a ênfase no obedecer ordens…

Então, na sétima série, o major professor de geografia, disciplina que eu adorava, marcou a prova final. E, como sempre, nos passou cinco temas para a redação, um deles cairia. Segui minha velha e infalível estratégia, inspirada na lei das probabilidades: estudar três temas, dar uma olhadinha no quarto e desprezar o quinto. Pois dessa vez falhou: caiu a China, o tema que eu não estudara. Putz, bateu logo a angústia. Eu, um dos melhores em geografia, tirar zero na redação, que vergonha. Respirei fundo, me concentrei. Mas a folha em branco era o próprio Partido Comunista Chinês a me desafiar, ou você escreve trinta linhas ou então zapt!

Aumentei logo o tamanho da letra, recurso básico. E tratei de errar aqui e ali, riscando e reescrevendo em seguida, tudo para preencher as trinta linhas. Sobre a China, nada de economia, clima, bacias hidrográficas, apenas o ridiculamente óbvio: era um país enorme, ficava na Ásia, capital Pequim, o Japão ao lado, e tinha a muralha. Estiquei bem o trivial, que nem os olhos dos chineses. No fim, percebi, desanimado, que ainda restavam sete intermináveis linhas. O que mais poderia dizer?

Resolvi apelar para o bom humor. O major, gente boa, ia entender. “Como já disse no primeiro parágrafo, caro professor, a China é o país mais populoso do mundo. Há quem diga por aí que isso se deve, veja só o senhor, ao fato dos chineses comerem com dois pauzinhos. Mas não há confirmação científica.” Pois é, juro por minha medalha de ouro de tampinha que escrevi isso. A piadinha cumpriu seu papel, sim, mas ainda restavam três malditas linhas. Então, aberta a porteira, soltei a boiada: “Bem, major, isso é tudo que sei. Se o senhor quiser saber mais, só me resta dizer: vá pra China!”

Entreguei a prova satisfeito, crente que minha espirituosidade renderia uma boa nota. Três dias depois, o major manda me chamar, eu deveria vestir a farda e ir até sua residência. Como morávamos próximos, fui caminhando até lá, sonhando com honras ao mérito. Ele me recebeu fardado, muito sério. Bati continência e ele me conduziu à sua sala. E me passou um sermão que jamais esquecerei. Falou de minha petulância e falta de respeito, que eu zombava da autoridade, que se eu pensava que podia mandá-lo para a China e ficar impune, estava muito enganado. “Por causa dessa estupidez, vou lhe dar um zero, não só na redação mas na prova inteira, e você vai para a recuperação! E só não será expulso do colégio por consideração a seu pai, de quem sou amigo!”

Expliquei que não quis ofender, só tentei por um pouco de humor… “Respeite a instituição, aluno! O Colégio Militar não é circo!”, ele metralhou, do alto de sua patente, os meus ingênuos 13 anos. Mas major, eu só estava brincando, o senhor não sentiu? “Eu não julgo as coisas pelo que sinto! Eu julgo pelo que vejo!”

Saí de lá humilhado. E decepcionado, pois gostava do major, era um bom professor. Mas o pior era a recuperação em geografia, que merda. Por essas e outras é que no ano seguinte saí do colégio. Por vontade própria, bom que se diga. Comemorei deixando o cabelo crescer por um tempão, viva a liberdade capilar!

Não guardo nenhum ressentimento, pelo contrário, tenho ótimas lembranças. O Colégio Militar me ensinou disciplina, me deu amigos e uma medalha de ouro. E o major? Nunca mais vi. Hoje rio do episódio e percebo que serviu para a fortalecer minhas convicções, por isso sou grato ao meu professor. Tornei-me escritor profissional e sempre lutei para que as regras não tolhessem minha criatividade e meus sonhos. A vida não é um quartel, mas há algo pelo qual vale a pena fazer uma guerra, ah, vale: é a essência do que somos.

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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

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O dia em que morri no Rock in Rio – O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

Galinha ao molho conjugal – Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?

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01- Kelmer, eu nao conhecia esta sua estoria. Parabens, e realmente foram anos incriveis! Helder Avila, Fortaleza-CE – jun2013

02- Histórias verídicas da época do Colégio Militar contadas pelo meu amigo Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos. Quem não acreditar, vá pra China. Rsrs João Ilo Barbosa, Fortaleza-CE – jun2013

03- Que legal!!! Gostei do que li!!! Adeli Timbó, Fortaleza-CE – jun2013

04- Lembro de uma discussão que tive com o Maj. Studart na sala, sobre o Rio Nilo. Eu não aceitava que o Nilo nascesse no centro sul da África e desaguasse no Mediterrâneo que fica bem ao norte. Caramba, foi metade da aula para entrar na minha cabeça que Sul, não sobe para o Norte e o Norte não desce para o Sul. rsrsrsrsrsrs. João Guy Almeida, Fortaleza-CE – jun2013


Cais e amores

22/04/2013

22abr2013

Sabia que foi também por causa de uma ventania medonha que hoje vim parar aqui nos Inhamuns, atrás de meu coração machucado que uma enfermeira levou em sua maleta?

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CAIS E AMORES

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Meu querido Cais,

Fiquei sabendo que você está de endereço novo. Trocou as águas poluídas da Praia de Iracema pela água fria da zona leste. Estou curioso para conhecer seu novo lar e brindar à mudança. Este fim de semana não vai dar porque tive de vir aqui em Crateús resolver uns probleminhas. Coisas do coração, sabe como é, esses desmantelos sentimentais que entortam a vida da gente. Mas não vamos falar disso. Logo estarei de volta a Fortaleza e aguarde que qualquer hora dou as caras por aí.

Cais Bar. Sim, sei que vai ser estranho sentar em suas novas mesas, olhar ao redor e não ver o mar. Mas quem aprendeu com o mantra das ondas de Iracema, sabe que é preciso sempre navegar e seguir os sonhos. E você navegou. Subiu a âncora, abriu as velas e permitiu que os ventos do destino soprassem seu sonho para outras águas.

O sonho… Ah, o que não se faz por um sonho, né? Pelo amor também: você chora, enche a cara, toma lexotan para dormir e entra no cheque especial do desespero. Deixa até crescer aquela barbicha horrorosa só porque ela gosta. Pelo amor, não duvide, você até larga o trabalho ao meio-dia e pega um ônibus pinga-pinga para Crateús, sem ter nem onde ficar, sete horas de estrada e mormaço só para pedir a ela mais uma chance, o olho cheio dágua, volta, por favor…

Hummm… Desculpe. Esse assunto de novo. Juro que não falo mais nisso. Pois bem. Cais Bar… É claro que as velhas lembranças não vão morrer. Jamais esquecerei aquela tarde de sábado em que eu, Nilo e Augusto Cesar fomos ao Cais, nem inaugurado ainda, nem mesa havia, e Ernesto nos serviu uma cerveja, transbordante de otimismo. Eu era apenas um ingênuo garoto de 20 anos, deslumbrado com as promessas da boemia, mas senti a solenidade do momento e, em contribuição, recitei Receita de Mulher, de Vinicius, com Nilo no violão e o mar na percussão. Como esquecer daqueles carros estacionados na areia, onde muitas vezes fui dormir para recuperar as forças e depois voltar à mesa dos amigos? E as famosas pedras? Quanta gente boa não se apaixonou ali, sob o incentivo dos gaiatos, já vai pras pedras, né?

Mas no balanço da vida, e do amor, tudo pode mudar. Por isso é preciso estar atento à vontade dos ventos e fazer a coisa certa. Quando os ventos sopraram outros visitantes para a Praia de Iracema, levando outros interesses e afugentando o público habitual, você resistiu, tentou manter-se firme no sonho. Quando o descaso do poder público pairou sobre aquele pé de castanhola feito a sombra do fim dos tempos, você ainda esperneou e comprou a briga. Mas o bom navegador sabe a hora de virar a vela.

Os ventos… Ai, ai. Eu não queria, mas vou escorregar para aquele assunto de novo. Sabia que foi também por causa de uma ventania medonha que hoje vim parar aqui nos Inhamuns, atrás de meu coração machucado que uma enfermeira levou em sua maleta? Pois foi. Ô desgraceira. Mas viver, e amar, é assim mesmo: tem hora que é preciso confiar na sabedoria natural dos ventos, e deixar-se levar, humilde, o coração apertado, rumo ao que nos chama, mesmo sem saber aonde vai dar. Mesmo sem saber se vai ser feliz ou se vai pegar o ônibus de volta a Fortaleza, triste e sozinho, olhando pela janela a árida paisagem da alma.

Velas ao vento, Cais Bar! Cumpramos com altivez nosso destino de navegar. Que venham novamente, nos ares dos novos tempos, as mesas cheias de amigos, velhas e novas caras, entardeceres e amanheceres ao violão, poemas de batom no guardanapo, caipirinha com açúcar e paixão. E, para não perder o hábito, quero pedir ao Beruaite uma música, pode ser? É Malacaxeta 2, aquele blues acústico do Pepeu, “você produz toda a luz que eu preciso, que eu gosto de ter…” É uma música muito especial para mim. Sei que é difícil, mas quem sabe os ventos deste sábado tragam esse blues até aqui no sertão e façam a moça sorrir e voltar para mim.

Pois é. Eu sei que no amor, assim como na vida, às vezes a gente insiste em não querer mudar. Mas aí bate a ventania da necessidade e não tem outro jeito: lá se vai a gente, para a Água Fria, para Crateús, para o raio que o parta, lutar pela vida e pelos sonhos. E pelo amor também, esse vento inexplicável que nos leva de cais em cais, esse vento que nos faz viajantes da estrada mais bela e insana que há.

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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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GalinhaAoMolhoConjugal-01Galinha ao molho conjugal – Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?

Inculta e bela, dengosa e cruel – Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

Maior que meu horizonte (por Wanessa) – E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

Essa loirinha desmiolada de sol – Duvido que ela tenha uma marquinha de biquíni assim – a loirinha insiste, com a graciosidade tristonha das cidades que sabem que seus argumentos são ótimos mas que não vão adiantar

> Postagens nos temas “biográfico”

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01- Não tenha dúvida, Ricardo, ela não te merecia. O amor inclui perdoar os defeitos de quem a gente ama. Palavra de quem já ficou mtos anos num relacionamento só, e vc sabe. Bjooosss. Christina, Rio de Janeiro-RJ – mai2006 



Terror e êxtase na caverna

15/04/2013

15abr2013

Durante um tempo, ali fiquei, em êxtase, me sentindo parte de tudo aquilo, em paz com a caverna e comigo

TerrorEExtaseNaCaverna

TERROR E ÊXTASE NA CAVERNA

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Anos atrás fui convidado a participar de uma expedição do Ibama à gruta de Ubajara, no Ceará. Mas não seria uma visita comum, de grupos de excursão, com limites fixados para se aventurar na gruta. Participariam apenas espeleólogos, agrônomos, geólogos e arqueólogos de vários estados, e o grupo estava autorizado a ultrapassar os limites turísticos e seguir até o mais distante ponto conhecido.

De manhã cedo, o chefe da expedição reuniu o grupo de vinte e três pessoas, distribuiu capacetes, lanternas, cordas, sacos de lixo e atentou para que não deixássemos nenhum objeto lá dentro. Explicou que seguiríamos por uma via de difícil acesso rumo à Sala das Maravilhas (67m de profundidade, percurso de 1.120m), local alcançado por poucos devido ao alto grau de dificuldade. Lembrou as técnicas básicas, a posição firme do pé de apoio, manter sempre à vista o colega da frente. Apresentou-nos o guia mestre, que conhecia bem a via e seguiria à frente de todos. Então dividiu-nos em três grupos, cada um com seu guia próprio, e lá fomos nós, fila indiana, desafiar os segredos da grande caverna.

Eu já visitara a gruta como turista. Agora era diferente. Desde o início, senti uma solenidade no ar, como se realizasse algo muito importante. À medida que descíamos, o ar se tornava mais úmido e pesado e a respiração mais difícil. A caverna nos envolvia em seu manto de escuridão silenciosa e tudo em nós era concentração, esforço e cuidado. E respeito, muito respeito por tudo aquilo que a Natureza criara havia milhares de anos e que, gentilmente, nos permitia explorar.

Logo, as dificuldades começaram. Certas passagens eram tão estreitas que alguém mais gordo não passaria. As encostas enlameadas, difíceis de escalar, provocavam quedas. Havia trechos onde o teto era tão baixo que nos arrastávamos pelo chão, meio corpo dentro dágua. Cada guia, por ser mais ágil e experiente, tinha a missão de ir à frente, fixar bem a corda e aguardar que o restante de seu grupo finalizasse a passagem. Senso de equipe era fundamental: todos tinham que ajudar e ser ajudados.

Aos poucos, a tensão, o cansaço e o medo minavam as forças, forçando a desistência de alguns. Esses paravam, sentavam e ali mesmo ficavam, sempre acompanhados, para aguardar o retorno dos que prosseguiam. E eu? Eu era o próprio entusiasmo. Sentia a caverna como algo vivo, dona de uma força imensa e sabedoria própria, e isso me enchia de uma profunda reverência. Alguns passaram maus bocados, mas eu me sentia muito à vontade, como se sempre tivesse feito aquilo.

De repente, nos deparamos com um estreito buraco no chão. Já caminhávamos por três horas e estávamos cansados, mas ainda teríamos que passar por ali para alcançar o nível inferior seguinte, que enfim nos levaria ao trecho final. O guia mestre, segurando a corda-escadinha, já nos aguardava lá embaixo para auxiliar na descida. Nesse momento, algo curioso aconteceu. A espeleóloga que ia à minha frente chegou-se junto do buraco e então… ficou imóvel. Esperei que iniciasse a descida, mas, em vez disso, ela deitou-se ao chão e ficou na posição fetal, contorcendo-se. Percebi que seu corpo todo tremia e ela choramingava: “Mamãe… mamãe…”

O guia do grupo, mais experiente, entendeu logo o que se passava e me explicou: “Ela vai ficar boa, isso acontece até com os experientes. Vou ficar com ela. Daqui pra frente você assume o grupo.” Engoli em seco, sem acreditar. Guia do grupo, eu?! Em minha primeira exploração? Ele sorriu e confirmou, “Você vai conseguir”, enquanto tomava conta da mulher em sua crise de choro.

Meio atordoado com tudo aquilo, passei à frente, me aproximei do tal buraco e toquei a corda-escadinha, por onde desceria dez metros na escuridão. Segurei firme, botei os pés e… fiz a besteira de olhar para baixo. Imediatamente um estremecimento me percorreu por inteiro, corpo e alma. O coração quis sair pela boca e um pavor imenso me tomou o pensamento, impedindo qualquer raciocínio ou movimento. Quase borrei as calças. Por um instante, achei que também teria um colapso nervoso. Mas fechei os olhos e respirei fundo, tentando me acalmar. Precisava me controlar para fazer a descida com toda a atenção.

Quando finalmente toquei o chão, senti uma enorme alegria, vontade de sair gritando. Mas agora eu era o guia do grupo e precisava ajudar os outros. Depois daí vieram mais dificuldades e mais colegas desistiram, esgotados física e mentalmente. Eu continuei e, quatro horas depois do início, alcancei o destino final, com mais oito pessoas.

A Sala das Maravilhas parecia a abóbada de uma catedral. Havia pouca luz, mas vi que tinha uns quarenta metros de altura e sua beleza e imponência me faziam ridiculamente pequeno. Deitei-me ao chão, maravilhado, e fiquei quieto, olhos fechados, escutando o som musical dos pingos dágua que caíam lá de cima. Eu vencera. Superara as dificuldades, o medo e a própria desconfiança em mim. Durante um tempo, ali fiquei, em êxtase, me sentindo parte de tudo aquilo, em paz com a caverna e comigo. Tive vontade de ficar ali para sempre.

No fim da tarde, ao sairmos da gruta, eu sentia que algo havia mudado em mim. De fato, a experiência me tornaria um homem mais forte e autoconfiante. Por outro lado, me faria também mais humilde perante a Natureza. Explorar cavernas tem seus perigos, sim, mas muito mais perigoso é nos considerarmos separados da Natureza, nos julgarmos superiores e acharmos que podemos controlá-la. Se você ainda pensa assim, recomendo uma descidinha a alguma caverna. Não esqueça de manter firme o pé de apoio. E não custa nada levar papel higiênico. Mas não deixe nada lá dentro, tá?

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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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> Este texto integra o livro Blues da Vida Crônica

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CavernaUbajara-3.
A gruta de Ubajara está situada no leste do Estado do Ceará, no Parque Nacional de Ubajara, Serra da Ibiapaba, . Dista 3km do centro da cidade de Ubajara, possui uma área de 6.299 ha e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O acesso à gruta se dá por meio de teleférico, que desce mais 550m. Também é possível chegar à gruta pela trilha dos Cafundós, numa descida de mais de 4km. No período de janeiro a junho, a temperatura média é de 16 a 18 graus durante a noite, e entre 20 e 24 graus durante o dia. No período de julho a dezembro, a temperatura média é de 28 graus durante o dia, e de 19 graus durante a noite.

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CavernaUbajara-4.
A gruta de Ubajara tem 1.120m de extensão, dos quais 420m estão abertos ao público com o acompanhamento de guias. A gruta de Ubajara possui galerias e salas com formações de estalactites e estalagmites, como a Pedra do Sino, a Sala das Rosas, a Sala dos Retratos e a Sala das Maravilhas.

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> Mais sobre o Parque Nacional de Ubajara

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Xamanismo de vida fácil – A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos

Minha noite com a Jurema – Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

A vida na encruzilhada (filme: O Elo Perdido) – Essa percepção holística da vida é que pode interromper o processo autodestrutivo que nos ameaça a todos

Carlos Castaneda (vídeo) – Especial da BBC sobre o polêmico antropólogo que estudou o xamanismo no México, escreveu vários livros e tornou-se um fenômeno do movimento Nova Era

O Elo Perdido (Missing Link) – Veja o filme. Homem-macaco tem sua família dizimada por espécie mais evoluída e vaga sozinho pelo planeta, conhecendo e encantando-se com a Natureza. Ao comer de uma planta, tem estranha experiência que o faz compreender o que aconteceu

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Vinicius Show de Moraes na Nova Consciência

13/02/2013

Ricardo Kelmer 2013

Trecho do show em Campina Grande (afrossambas)

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No sábado de Carnaval, 09.02.13, apresentamos o Vinicius Show de Moraes no Sesc Centro, em Campina Grande, na programação do Encontro da Nova Consciência. Esse festival multicultural, que é realizado desde 1992, reúne atividades diversas ligadas a arte, ciência, filosofias e religiões e tem como fio condutor o respeito às diferenças. Tenho a grande honra de participar desse festival desde 1996, como escritor, palestrante e, agora, também como intérprete de Vinicius.

Este vídeo mostra um trecho do show (o bloco dos afrossambas de Vinicius e Baden Powell) com a participação especialíssima de Waldemar Falcão, na flauta transversal, um amigo que conheci exatamente nesse festival, em 1997, e que nos anos 1970 tocou bastante com Zé Ramalho.

VSM201302-101aO formato do Vinicius Show de Moraes é ideal pra bares e restaurantes mas também cai muito bem em pequenos teatros, clubes e hotéis. Combina também com escolas, faculdades e espaços culturais, sem falar em eventos de empresas. Ah, em cruzeiros marítimos fica perfeito. E, antes que eu esqueça, 2013 é o centenário de Vinicius!

Mais informações e próximas apresentações

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VINICIUS SHOW DE MORAES
Cantando, recitando e falando de Vinicius

ViniciusShowDeMoraesDiv-6Este show nos traz a riqueza da vida e da obra de Vinicius de Moraes, um dos nomes mais importantes da cultura brasileira. Através das músicas, dos poemas e de fatos interessantes da vida de Vinicius, passeamos por grandes momentos da música e da poesia brasileiras e nos divertimos e nos emocionamos com a rica trajetória do homem, poeta, artista, amante, amigo e diplomata que fascinou e ainda fascina gerações no Brasil e no mundo.

TEXTO E DIREÇÃO: Ricardo Kelmer

COM: Ricardo Kelmer e Felipe Breier (violão)

DURAÇÃO: 2 horas (24 músicas, 7 poemas) ou versão de 1h30

COMPONENTES: Ricardo Kelmer (escritor, roteirista e produtor cultural, mora em São Paulo) e Felipe Breier (cantor e violonista, mora em Fortaleza).

CONTATOS: Ricardo Kelmer: rkelmer@gmail.com

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MAIS VÍDEOS

Clipe (3:48)

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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ViniciarteCamiseta-03a> Viniciarte – Conheça o espetáculo teatral que originou o Vinicius Show de Moraes

> Viver como Vinicius viveu – Viver outra vez aquele frio na barriga que antecede cada subida ao palco, recitar seus poemas por aí e mostrar a grandeza do Vinicius homem e artista – putz, tem sido tão gratificante fazer isso!

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01- realmente espetacular. Bruna Barros, Campina Grande-PB – fev2013

02- Amei… Joana Marques, Campina Grande-PB – fev2013

03- Ricardo, meu irmão, a honra foi minha, acredite! Tocar os afrossambas de Baden e Vinícius junto com você e Felipe Breier foi um momento inesquecível! Parabéns a vocês pelo lindo espetáculo e ao Felipe pela musicalidade e pela receptividade à minha participação! Valeu mesmo!!! Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – fev2013

04- Foi muuuito bonito de se ver e de se ouvir! Ainda trocamos umas ideias depois, durante o show no viaduto. Os caras são demais. Parabéns aos músicos pelo trabalho e a organização do ENC por trazê-los aqui! Mariana Andrade, Campina Grande-PB – fev2013

05- Se eu já era fã de Vinícius de Moraes, depois do espetáculo de ontem fiquei mais ainda, simplesmente a coisa mais linda que vi na minha vida, o Encontro Da Nova Consciência está de parabéns. Regina Paiva, Campina Grande-PB – fev2013

06- Foi muito bonito, gostei demais, uma pena que eu não tinha copo pra tomar o cachorro engarrafado de Vinícius hehehe. Rômulo Gondim, Campina Grande-PB – fev2013

07- Foi lindo! Marcos Moraes, Campina Grande-PB – fev2013

08- Não tem como não se apaixonar por esse show, perfeito. Géssyca Deize, Campina Grande-PB – fev2013

09- Foi LINDO, apenas! Tayane Cristine, Campina Grande-PB – fev2013

10- Parabéns pelo espetáculo Vinicius show de Moraes!Assistir aqui em Campina Grande, fiquei encantada! A forma de você recitar é suave e sacana, deixa as poesias de Vinicius com um ar poético humano , já tinha visto alguns livros seus e o seu site, o Felipe também canta divinamente. A musica Garota de Ipanema junto à poesia Receita de mulher, fechou com chave de ouro, linda! Wexyza Ferreira, Campina Grande-PB – fev2013


Os ensaboados da nova consciência

15/01/2013

15jan2013

Desde seu início, o encontro prioriza o diálogo e a troca sadia de experiências, buscando o fio de unidade que permeia todas as coisas

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OS ENSABOADOS DA NOVA CONSCIÊNCIA

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O Nordeste é mesmo uma terra curiosa. Nas ladeiras de Olinda chacoalha o mais divertido carnaval do planeta, e enquanto isso, a 200 km dali, na cidade serrana de Campina Grande, Paraíba, centenas de pessoas de todo o país e das mais diversas tendências se reúnem todo ano num grande evento onde se abraçam arte, filosofia, ciência e tradições. É o Encontro da Nova Consciência, um festival holístico que funciona, desde 1992, como um notável ponto de convergência da grande diversidade do pensamento humano.

Eu soube do evento em janeiro de 1996 por minha tia Liney, que de Recife me ligou para contar que sonhara que eu dava uma palestra no encontro. “Envia teu livro! Quem sabe eles te convidam…” Foi o que fiz, enviei um exemplar do Quem Apagou A Luz?, meu primeiro livro, recém-lançado. Dias depois lá estava eu dando a palestra, o sonho se realizara. O convite se repetiu, e pelos anos seguintes, no teatro municipal, falei sobre o filme Matrix, taoísmo, Jung, mitologia… Talvez minhas palavras tenham acrescentado algo de útil a alguém, mas muito mais aprendi que ensinei durante esses anos. Depois tornei-me apresentador dos eventos artísticos da noite, papel no qual me senti muito à vontade.

Em Campina Grande conheci pessoas que trouxeram mudanças significativas à minha vida. Escritores, artistas, cientistas, educadores, religiosos, líderes indígenas, gente simples do povo ‒ de todos eles absorvi conhecimentos e muitos tornaram-se meus amigos, maravilhosas amizades interdisciplinares. Foi lá também que vivenciei experiências com plantas de poder, como a ayahuasca e a jurema, e vi alargarem-se os horizontes de minha percepção da realidade e de mim mesmo.

À primeira vista, reunir tantas ideias diferentes no mesmo espaço pode soar caótico e inútil. No entanto, desde seu início, o encontro prioriza o diálogo e a troca sadia de experiências, buscando o fio de unidade que permeia todas as coisas. Isso me lembra o ato de escutar as várias testemunhas de um acontecimento: mesmo distintas entre si, as versões do mesmo fato contribuem para uma visão mais abrangente e precisa do todo.

Da plateia do teatro disparam flashes a toda hora: as pessoas querem uma recordação do dia em que sentaram à mesma mesa e se abraçaram representantes de diferentes religiões, todos acreditando que é possível sim transformar este mundo num lugar onde todas as crenças convivam em harmonia. Física quântica, psicologia, ecologia, medicina natural, educação, tarô, xamanismo – o evento é um colorido encontro das diversas versões da realidade. Lá a sociedade também discute seus problemas: loucura, alcoolismo, aids, prostituição, a questão indígena e os conflitos étnico-religiosos. Há espaço também para outros problemas como, por exemplo, decidir o melhor lugar para aguardar a chegada das naves extraterrestres que virão nos resgatar. Isso, é claro, para os que querem ser resgatados. Não sei informar quantos lugares há nessas naves, me desculpe a ignorância no assunto, mas no Encontro eu sei: tem espaço para tudo.

Lembra do ET de Varginha? Pois ele já esteve por lá, em slides. O evento também oferece passeio a sítios arqueológicos, há uma feira com vários expositores, um encontro de ateus e agnósticos e até mesmo um encontro mundial de, acredite, ex-ufólogos, só no Nordeste mesmo. Depois das palestras, debates e oficinas, vem a noite na praça, com seus bares e um grande palco onde se revezam dança, teatro, poesia, cinema e shows musicais que vão do forró ao metal mantra. Com direito a cervejinha gelada que ninguém é de ferro, né?

O evento possui um caráter naturalmente democrático, pois dele fazem parte até mesmo os que são contra. Isso pode ser aferido logo à entrada do teatro: de um lado, barulhentos e divertidos Hare Krishna, com suas roupas coloridas e instrumentos exóticos, entoando aqueles mantras dançantes, e do outro lado evangélicos distribuindo panfletos onde demonstram que esse negócio de Nova Era é coisa do demo.

No fim, vendo todas aquelas tradições, ciências, artes e filosofias dançando e celebrando de mãos dadas, vendo negros e brancos e índios, cristãos e muçulmanos entoando cânticos ao planeta e à humanidade, lembrei do festival de Woodstock. Passados 40 anos, cá estamos nós, no interior nordestino, buscando as mesmas coisas que aqueles pacíficos sonhadores: paz, amor, liberdade, união, respeito às diferenças…

Houve um ano em que fui para lá aproveitando a carona de meu amigo André Barbacena. Ele estava indo para Olinda, curtir aquele incrível carnaval que eu já conhecia de outros anos, e seguimos em seu fusca. André deu um gole na cerveja e logo enganchou seu coração na cintura de uma bela passista de frevo que descia a ladeira dos Quatro Cantos. Desejei-lhe felicidades e me despedi, combinando o reencontro para logo após o reinado de Momo. Botei a mochila nas costas e peguei o ônibus para Campina Grande, o coração no ritmo do frevo.

Na quarta-feira de cinzas lá estava eu de volta a Olinda. André, cansado mas alegre, trazia ainda uma cerveja na mão e um bocado de história para contar. Enquanto degustávamos uma tapioca com queijo, ele me falou do quanto se divertiu no bloco dos ensaboados, um bocado de gente descendo a ladeira ensaboando e passando xampu uns nos outros com um carro atrás jogando água, olha que coisa. Eu desatei a rir imaginando a cena.

Assim como nós em Campina Grande e os cabeludos de Woodstock, os ensaboados de Olinda, com sua alegoria, também desejam um mundo mais limpo, mais alegre e mais unido. Com muito frevo, amor e paz. Amém. Shalom. Oxalá. Axé.

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Ricardo Kelmer 2002 – blogdokelmer.com

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Site do evento: novaconsciencia.com.br

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LEIA NESTE BLOG

DiversosEIguais-01aEncontro da Nova Consciência – Diversos e iguais – Não precisamos concordar com os outros. Mas podemos aceitá-los, tanto quanto quisermos também ser aceitos

O psicólogo, a humanidade e a esperança – Os acontecimentos mostram que a humanidade está se unificando, unindo seus opostos

Entrevista com o ateu – Um pregador evangélico entrevista um escritor ateu

Pátria amada Terra – É animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária

A imagem do século 20 – Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisões. Não vimos este ou aquele país: vimos o todo

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 01- Adoro! Paula Izabela, Juazeiro do Norte-CE – jan2013

02- gostaria de conhecer…. Dhara Bastos, Fortaleza-CE – jan2013

03- Reunião de todos os loucos do Brasil.. Andre Soares Pontes, Fortaleza-CE – jan2013

04- Lá tem espaço para mostrar trabalhos em arteterapia Kelmer? Ppue se der acho q vou programar uns dias nessa “loucura” como disse o Andre Soares3>. Izabel Castro, Fortaleza-CE – jan2013

05- “Assim como nós em Campina Grande e os cabeludos de Woodstock, os ensaboados de Olinda, com sua alegoria, também desejam um mundo mais limpo, mais alegre e mais unido. Com muito frevo, amor e paz. Amém. Shalom. Oxalá. Axé.” Esse encontro entre as diferenças é a prova de que ainda é possível extirpar o maior câncer da humanidade: a intolerância!!! Silvana Alves, Fortaleza-CE – jan2013


Nasceu o Vinicius Show de Moraes

10/01/2013

Ricardo Kelmer 2013

Um show que homenageia Vinicius com suas músicas, seus poemas e as histórias da sua vida

ViniciusShowDeMoraesLogo-2.

O espetáculo teatral Viniciarte – Vida, música e poesia de Vinicius de Moraes, que criei e apresentei de 2009 a 2013, deu cria em 2012. Explico. Como costumo ir a Fortaleza duas ou três vezes por ano, juntei-me ao músico Felipe Breier, que mora lá, e criei a versão show do espetáculo. Foi assim que nasceu o Vinicius Show de Moraes, com músicas, poemas e um resumo da vida de Vinicius. Felipe Breier canta e toca violão, e eu faço vocal de apoio, recito os poemas e falo de Vinicius. Não é teatro como o Viniciarte mas também tem romantismo, humor e uma dose de reflexão, interação com o público e é pra todas as idades.

O formato do show é ideal pra bares e restaurantes mas também cai muito bem em clubes e hotéis. Combina também com escolas, faculdades e espaços culturais, sem falar em eventos de empresas. Ah, em cruzeiros marítimos fica perfeito.

Quem tiver interesse em contratar, seguem mais informações. E, antes que eu esqueça, 2013 é o centenário de Vinicius!

APRESENTAÇÕES REALIZADAS

– Bar e Rest Degusti, Bar do Papai, Creperia Ladeira Castro Alves, Rest. Cantinho do Frango (Fortaleza-CE)
– Bienal Internacional do Livro do Ceará (Fortaleza-CE, Centro de Eventos)
– Colégio Darwin (Fortaleza-CE)
– Encontro da Nova Consciência (Campina Grande-PB, Teatro Sesc)
– Centro Cultural Banco do Nordeste (Sousa-PB e Juazeiro do Norte-CE)
– Bar do Pelé (Sousa-PB)
– Crowdfunding Festival (Brasília-DF, Bar Garagem Cultural, Ceilândia)

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ViniciusShowDeMoraesBDK-01> SAIBA MAIS – PRÓXIMAS APRESENTAÇÕES

 

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NO FACEBOOK:
facebook.com/ViniciusShowDeMoraes

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VINICIUS SHOW DE MORAES
Cantando, recitando e falando de Vinicius

ViniciusShowDeMoraesDiv-6Este show nos traz a riqueza da vida e da obra de Vinicius de Moraes, um dos nomes mais importantes da cultura brasileira. Através das músicas, dos poemas e de fatos interessantes da vida de Vinicius, passeamos por grandes momentos da música e da poesia brasileiras e nos divertimos e nos emocionamos com a rica trajetória do homem, poeta, artista, amante, amigo e diplomata que fascinou e ainda fascina gerações no Brasil e no mundo.

TEXTO E DIREÇÃO: Ricardo Kelmer

COM: Ricardo Kelmer e Felipe Breier (violão)

DURAÇÃO: 2 horas (27 músicas, 7 poemas) ou versão de 1h30

COMPONENTES: Ricardo Kelmer (escritor, roteirista e produtor cultural, mora em São Paulo) e Felipe Breier (cantor e violonista, mora em Fortaleza).

CONTATOS: Ricardo Kelmer: rkelmer@gmail.com

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VÍDEOS

Clipe (3:48)

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Show em Campina Grande, Sesc Centro, 09.02.13 (6:58)
(programação do Encontro da Nova Consciência)

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Show no Bar do Papai (Fortaleza, 13.03.13). Música: Garota de Ipanema. Poema: Receita de Mulher (10:00)

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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O novo salto quântico da consciência

05/01/2013

05jan2013

Por qual razão tantas pessoas ousam se submeter a uma experiência incerta, largando a segurança de sua mente cotidiana e desafiando o desconhecido de si mesmo?

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O NOVO SALTO QUÂNTICO DA CONSCIÊNCIA

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A cada dia, mais pesquisadores ligados ao estudo da consciência, antropologia, psicologia e botânica se debruçam sobre uma possibilidade intrigante e polêmica. É provável que as plantas psicoativas (que induzem a mente a funcionar em estados especiais) possam ter contribuído significativamente para o surgimento da autoconsciência, fator decisivo que proporcionou aos nossos ancestrais, num determinado ponto da evolução, as condições para sobreviver e gerar a incrível espécie a qual pertencemos, o Homo sapiens.

Admitir tal hipótese é mexer num vespeiro. Muita gente se indagará: “Então nós humanos só existimos porque um bando de macacos comeram umas plantinhas e ficaram doidões?” Imagino os mais religiosos: “Era só o que faltava! Deixa só Deus escutar isso!” Pois infelizmente para muita gente, e até para alguns deuses, essa hipótese vem sendo estudada com seriedade e encontra ressonância positiva no meio científico.

Quem já passou por uma experiência com as tais plantas sagradas, como a Ayahuasca, o Peiote e a Jurema, sabe perfeitamente do imenso poder que elas guardam. E sabe também que elas não se prestam a um consumo recreativo, exatamente porque podem tocar muito fundo em nosso interior, abalando nossa compreensão da realidade e de nós mesmos e nos fazendo emergir da experiência profundamente transformados. Xamãs e pajés do mundo inteiro as utilizam há milhares de anos em contextos religiosos e terapêuticos. Atualmente, médicos e pesquisadores unem medicina acadêmica com antiquíssimas práticas xamânicas que envolvem o uso de plantas psicoativas e, com essa curiosa união, obtêm resultados animadores na cura de doenças, como a dependência química.

No Brasil, proliferam-se seitas que em seus rituais utilizam chás à base dessas plantas, chamando a atenção de estudiosos para o emergente fenômeno. Toma-se o chá para entrar num estado de consciência não ordinário, onde é possível viver experiências sensoriais e cognitivas as mais diversas. Há quem encontre pessoas vivas ou mortas, santos, entidades animais ou espíritos de plantas. Há os que experimentam capacidades psíquicas incomuns ou vivenciam uma intensa sensação de união com a Natureza e tudo que existe. Há quem passe por profundas experiências de autoinvestigação psicológica ou seja tocado por revelações importantes de caráter terapêutico e que podem mudar toda uma vida. Pode não acontecer nada, mas também pode ser prazeroso ou doloroso. Depende de cada um e de seu momento. Alguns religiosos radicais, sempre obcecados, diriam que é coisa do demônio. Alguns psicólogos talvez usassem o termo “terapia de choque”.

Por que a crescente procura atual pelas plantas de poder dos xamãs? Por qual razão tantas pessoas ousam se submeter a uma experiência incerta, largando a segurança de sua mente cotidiana e desafiando o desconhecido de si mesmo? Minha impressão é que isso tudo talvez signifique uma forma de religação à Natureza. Religação, sim, porque nós também fazemos parte da Natureza, mas infelizmente passamos a nos ver separados dela, nos distanciamos da sabedoria natural do planeta e agora, perdidos num mundo caótico e insano, buscamos experiências que nos reconectem às nossas verdades mais profundas. Entendo isso como um anseio natural e legítimo de uma espécie adoecida: o anseio de cura, liberdade, totalidade e harmonia com a Mãe Terra.

Por minha própria experiência, sei que plantas psicoativas podem ser muito úteis porque nos fazem olhar para dentro, nos reconectam às leis naturais e ao sagrado de nossas vidas, nos lembram de nosso potencial para a autocura e ajudam a nos libertarmos de medos, culpas e bloqueios. Não há como não se transformar após um profundo encontro consigo mesmo. É por isso que quem passa por tais experiências xamânicas engrossa a legião dos que entendem o mais importante: somente a profunda mudança interior de cada um é que fará finalmente com que o mundo mude para melhor.

Talvez nesse momento as plantas sagradas estejam nos alertando para o fato que quanto mais pessoas se religarem à sua verdade mais íntima, mais próxima a humanidade estará de seu ponto de equilíbrio. Porém, na busca angustiada pela cura, muitos exageram no remédio, caindo escravos justamente daquilo que um dia elegeram como libertador. As plantas sagradas não ficam de fora desse perigo. Tenho amigos que fazem parte de seitas que utilizam tais plantas e certamente discordarão. Respeito o que eles pensam e admiro sua busca pessoal, mas como tudo mais que existe, as plantas sagradas também possuem dois lados.

Religiões, seitas e gurus funcionam muito bem para os que necessitam de regras ou se sentem mais seguros pertencendo a um grupo. Porém, há pessoas que conseguem beber em todos os ensinamentos e usufruir do melhor que eles oferecem sem ter de se enquadrar em nenhum específico. É um caminho mais solitário, evidente, e exige um contínuo estar aberto ‒ mas que recompensa quem o trilha com a liberdade que nenhum outro caminho pode oferecer. As regras da seita ou as palavras do guru podem até iluminar por um tempo, sim, mas até mesmo essa luz pode cegar para os horizontes seguintes da jornada. É isso o que ensinam as plantas de poder, que devemos abandonar as muletas e aprender a caminhar por nós mesmos.

O atual processo coletivo de reconectar-se aos valores da Natureza pelas plantas psicoativas não significa uma espécie de retrocesso evolutivo e que devemos voltar a saltar pelas árvores. Nada disso. Uma vez ultrapassados, os marcos da evolução da consciência sempre nos impulsionam para o novo, jamais para trás. Porém, a verdadeira evolução avança em forma de espiral, e é por isso que quando o caminho parece retornar a um determinado ponto, ele está sim passando novamente por lá ‒ mas num novo nível, numa nova dimensão.

Talvez essas poderosas plantas, que acompanham nossa espécie desde seu nascimento numa impressionante relação simbiótica, estejam agora nos oferecendo a preciosa oportunidade de mais um salto quântico da consciência, uma intensa transformação da mente e de sua interpretação da realidade, como fizeram nossos peludos antepassados em algum ponto de sua jornada. Agora, porém, diferente deles, possuímos razão e discernimento. Possuímos milênios e milênios de experiência sedimentados no inconsciente comum da espécie e temos nossos próprios erros para nos guiar.

Retornaremos à Mãe Terra e ao sagrado, sim, porque não há outro caminho se quisermos de fato sobreviver como espécie. Mas o faremos num novo nível, porque agora estamos mais experientes para lidar com o grande mistério da vida, esse mistério que nos maravilha e assombra cada vez que olhamos para o sem-fim do Universo lá fora ou para o infinito interior de nós mesmos.

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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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EM ITALIANO

IL NUOVO SALTO QUANTICO DELLA COSCIENZA

RK analizza le piante psicoattive e la loro importanza nel processo evolutivo della specie umana

ONovoSaltoQuanticoDaConsciencia-1Ogni giorno che passa più ricercatori legati allo studio della coscienza, antropologia, psicologia e botanica investigano su una possibilità almeno intrigante e polemica. Probabilmente le piante psicoattive (che inducono la mente a funzionare in stati speciali) possono aver contribuito di maniera significante al sorgere dell’autocoscienza, fattore decisivo che ha proporzionato ai nostri predecessori, in un determinato punto dell’evoluzione, le condizioni per sopravvivere e per generare l’incredibile specie alla quale apparteniamo: l’Homo sapiens. Ammettere tale ipotesi è come toccare un alveare. Molti si chiederanno: “Vuoi dire che noi umani esistiamo soltanto perché un gruppo di scimmie ha mangiato delle piantine e si sono sballati?”

Immagino i più religiosi: “Era quello che ci mancava! Vediamo cosa dirà Dio al sentire questo!” Per la sfortuna di molta gente, e anche di alcuni dei, questa ipotesi viene da qualche tempo studiata con serietà e trova risonanza positiva nell’ambiente scientifico.

Chi ha già avuto un’esperienza con queste “piante sacre”, come “l’ayahuasca” (tisana ricavata dal vino di Banisteriopsis caapi e dalle foglie di Psychotria viridis), il “peyote” (Lophophora williamsii e Lophophora diffusa) e la “jurema” (Mimosa tenuiflora e Mimosa verrucosa) conosce perfettamente l’incredibile potere che hanno. E sa anche che loro non servono ad un consumo ludico, esattamente perché di solito vanno molto a fondo nel nostro interiore, indebolendo la nostra comprensione della realtà e di noi stessi, e ci fanno invece emergere da quest’esperienza profondamente trasformati. “Pajés” (gli indigeni dell’Amazonia che applicano la “pajelança”)* e sciamani di tutto il mondo le utilizzano da migliaia di anni nei contesti religiosi e terapeutici. Attualmente medici e ricercatori di diversi paesi uniscono alla medicina accademica le pratiche sciamaniche che coinvolgono l’uso di piante psicoattive e, con questa curiosa unione, ottengono risultati incoraggianti nella cura di molte malattie come la dipendenza chimica.

Attualmente in Brasile c’è la proliferazione di sette e di altri gruppi dissidenti a queste sette che nei suoi rituali utilizzano tisane a base di queste piante, richiamando l’attenzione degli studiosi a questo emergente fenomeno. Si beve la tisana per entrare in uno stato di coscienza non ordinario, dove è possibile vivere le più diverse esperienze sensoriali e cognitive. Alcuni incontrano persone vive o morte, santi, entità animali o gli spiriti delle piante. Alcuni provano capacità paranormali non comuni o vivono un’intensa sensazione di unione con la Natura e con tutto quello che esiste. Alcuni passano per profonde esperienze di autoindagine psicologica così come di autoguarigione, o sono toccati da rivelazioni importanti che possono cambiare tutta la vita. Può darsi che non capiti niente, ma può essere piacevole o doloroso. Può essere infernale o divino ma sarà sempre costruttivo. Dipende da ognuno e dal suo momento. I religiosi radicali, sempre accecati, affermerebbero che è una cosa del demonio. Forse alcuni psicologi userebbero il termine “terapia d’urto”. Forse non è nient’altro che un provvidenziale rincontro con se stessi e con la sua verità più intima.

Perché la crescente ricerca delle piante di potere dei sciamani? Per quale motivo tante persone osano sottomettersi ad un’esperienza incerta, abbandonando la loro sicurezza quotidiana mentale e sfidando il lato sconosciuto di se stessi? La mia impressione è che tutto questo probabilmente significa, in ultima istanza, una forma di ricollegamento con la Natura perché, nella realtà, siamo una parte integrante. Purtroppo, è successo che ci siamo separati da lei e, per questo motivo, ci siamo allontanati troppo della saggezza del pianeta, ed adesso, persi in un mondo sempre più caotico ed insano, cerchiamo con avidità delle credenze ed esperienze che ci ricolleghino al più grande senso della vita e alle nostre verità più profonde. Capisco questo come un’ansia naturale e legittima di una specie ammalata: l’ansia di guarigione, libertà, totalità ed armonia con la Madre Terra.

Dalla mia esperienza personale, so che le piante psicoattive possono essere molto utili perché ci fanno guardare dentro, ci ricollegano alle leggi naturali e al sacro delle nostre vite, ci ricordano il nostro potenziale per l’autoguarigione e ci aiutano a liberarci dalle paure, colpe e blocchi. È impossibile non trasformarsi dopo un profondo incontro con se stessi. È per questo che chi passa per tali esperienze sciamaniche aumenta la legione di quelli che capiscono la cosa più importante: soltanto il profondo cambiamento interiore di ognuno di noi potrà finalmente cambiare il mondo in migliore.

Forse è questo l’invito che le piante sacre fanno in questo momento alla nostra specie: più persone si ricollegano alla loro verità più intima, più l’umanità sarà vicina dal suo punto di equilibrio. D’altra parte, so anche che la specie umana è ammalata e che, nella angosciata ricerca della guarigione, è capace di esagerare nella cura. Per questo, in questa urgente ricerca di valori spirituali, è necessario soprattutto, dare priorità alla libertà e prestare attenzione al rischio sempre presente di diventare schiavi esattamente da quello che un giorno abbiamo eletto come liberatore. Le piante sacre non sono escluse da questo pericolo. Ho amici che fanno parte di sette che utilizzano tali piante e che sicuramente non saranno d’accordo. Rispetto quello che pensano e ammiro la loro ricerca personale. Però, così come tutto quello che esiste, anche le piante sacre hanno due lati. Se un lato libera, l’altro è lì pronto a schiavizzare nel caso tu sia eccessivamente legato alle piante, non rimanga attento ed equilibrato.

Religioni, sette e guru funzionano molto bene con chi ha bisogno di regole o si sente più sicuro appartenendo ad un determinato gruppo. Loro sono nella tua strada e questo deve essere rispettato. Ma esistono persone che riescono a trarre degli insegnamenti ed approfittare del meglio di quello che offrono senza dover inquadrarsi in nessuno specifico. È un cammino più solitario, evidentemente, ed esige un continuo “essere aperto” – ma, giusto per questo, ricompensa chi segue questo cammino con la libertà che nessun’altro può offrire. Sì, le regole della setta o delle parole del guru possono addirittura illuminare per un tempo, ma questa stessa luce può accecare i successivi orizzonti del processo. Il principale insegnamento delle piante di potere (così come dovrebbe essere l’insegnamento di ogni guru) è questo: dobbiamo abbandonare tutte le stampelle ed imparare a camminare da soli.

Questo attuale processo collettivo di ricollegarsi ai valori della Natura tramite le piante psicoattive non significa una forma di retrocessione evolutiva e che ci fa tornare a vivere sugli alberi. Non è niente di questo. Una volta ultrapassati, i segni dell’evoluzione della coscienza ci spingono sempre verso il nuovo, mai indietro. Succede che la vera evoluzione avanza come una espirale ed è per questo che quando il cammino sembra ritornare ad un determinato punto, nella realtà lui sta passando nuovamente lì – però in un altro livello, superiore, in un’altra dimensione.

Forse queste potente piante, che accompagnano la nostra specie dalla nascita in un’impressionante relazione simbiotica, stiano adesso offrendoci la preziosa opportunità di un altro salto quantico della coscienza, un’intensa trasformazione della mente e della sua interpretazione della realtà – come hanno fatto i nostri pelosi predecessori in qualche punto del loro processo. Adesso, però, diversamente da loro, abbiamo la ragione e il discernimento. Possediamo millenni e millenni di esperienza sedimentati nell’incosciente comune della specie ed abbiamo i nostri propri errori che ci guidano.

Ritorneremo alla Madre Terra ed al sacro, sì, perché non esiste un’altro cammino se vogliamo di fatto sopravvivere come specie. Ma lo faremmo in un nuovo livello perché adesso siamo più capaci per affrontare il grande mistero della vita, questo mistero che ci meraviglia e spaventa ogni volta che guardiamo l’infinito mondo fuori e dentro noi stessi.

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Ricardo Kelmer è scrittore, paroliere e sceneggiatore ed abita a São Paulo

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* N.T.:

PAJELANÇA: una forma di culto sciamanico esistente nella regione Nord del Brasile, con rituali d’origine indigena mescolati ad elementi dello spiritismo, cattolicismo e dei culti afro-brasiliani. I celebranti sono chiamati “pajés”, termine d’origine tupi che significa sciamano. La pajelança coinvolge canti e balli per chiamare gli spiriti, accompagnati soltanto del “maracá” (semplice strumento di percussione). La principale finalità è ottenere la guarigione di malattie fisiche. La pajelança non deve essere confusa con i credi, rituali e pratiche mediche proprie di ogni popolo indigene.

SCIAMANO: è il personaggio delle religioni tradizionali dell’Asia settentrionale, anche se esistono sciamani in altre società, come in America settentrionale ad esempio; il termine “xamã” designava determinati stregoni dell’Africa tradizionale. Secondo il credo, quando cade in stato di trance, lo sciamano è posseduto dagli spiriti che parlano e agiscono tramite lui. È la stessa cosa per il “pajé” fra gli indigeni brasiliani.

TRADUZIONE: Isabella Furtado – REVISIONE: Massimo Savigni

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LEIA TAMBÉM

MinhaNoiteComAJurema-1Minha noite com a Jurema – Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

Xamanismo de vida fácil – A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos

A vida na encruzilhada (filme: O Elo Perdido) – Essa percepção holística da vida é que pode interromper o processo autodestrutivo que nos ameaça a todos

Carlos Castaneda (vídeo) – Especial da BBC sobre o polêmico antropólogo que estudou o xamanismo no México, escreveu vários livros e tornou-se um fenômeno do movimento Nova Era. Legendado

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FILME: O Elo Perdido (Missing Link)
Um milhão de anos atrás, na África, homem-macaco tem sua família dizimada por hominídeos e ele vaga sozinho pelo planeta, conhecendo e encantando-se com a Natureza. Ao comer de uma planta, tem estranha experiência que lhe traz importantes revelações.

O Elo Perdido (Missing link, EUA, 1988)
Direção: David Hughes e Carol Hughes
Elenco: Peter Elliot, Michael Gambon, Brian Abrahams, Clive Ashley

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MISSING LINK – TRÊILER

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 COMENTÁRIOS
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01-  “…porque nós também fazemos parte da Natureza mas infelizmente passamos a nos ver separados dela, nos distanciamos da sabedoria natural do planeta e agora, perdidos num mundo caótico e insano, buscamos experiências que nos reconectem às nossas verdades mais profundas…”!!!Amei isso!!! Texto fantástico!!! Silvana Alves, Fortaleza-CE – jan2013

02- mas quando a encontramos tudo fica iluminado e na mais perfeita harmonia… sinto-me connectada com a mae natureza e por isso pareço estar feliz o tempo todo mesmo nos piores momentos… Dhara Bastos, Fortaleza-CE – jan2013


Viva Chitara

22/12/2012

22dez2012

Torço por ela, mas sei que Chitara não tem chances. Cedo ou tarde a pegarão. Mas ao menos ela terá provado o sabor da liberdade

Leoa-2a

VIVA CHITARA

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Faz uma semana que mudei meu hábito de ler jornal. Em vez de ir direto à página esportiva, agora abro o jornal na expectativa de saber notícias sobre ela, Chitara. Não, não é nenhuma nova cantora colombiana. É a leoa que fugiu do circo no povoado de Salgado, município de Paracuru, litoral oeste do Ceará. A leoa se embrenhou na mata e o Ibama, face o perigo da situação, autorizou o abate, condenando-a à morte.

Acontece que isso faz uma semana e nada de pegarem a leoa fujona. Moradores já avistaram o animal saltando uma cerca, bebendo água na lagoa, mas até agora nada de capturarem Chitara. Polícia, bombeiro, mateiro, atirador de elite, caçador, cão farejador ‒ já mandaram o diabo atrás dela, mas toda vez que a avistam, ela dribla todo mundo e desaparece. Helicóptero dá rasantes pela mata todo dia, botam galinhas e carneiros como isca… Não tem jeito. Chitara segue solta na mata, estressando pebas, preás e cassacos e ludibriando seus perseguidores como se dissesse: Vocês mandam na selva de pedra, mas nesta aqui mando eu!

Admito que nesse jogo de caça e caçador estou torcendo descaradamente pela caça. Claro que não desejo que ela ataque alguém. Quero apenas que Chitara aproveite seus últimos dias fazendo aquilo para o qual nasceu, viver junto à Natureza, caçar outros bichos, correr livre, leve e solta por aí ao vento, exercitar seus instintos de animal selvagem… Imagino que não deve ser fácil ter que se esconder o dia inteiro de monstros metálicos voadores e fugir de bípedes cruéis que querem a todo custo assassiná-la, mas convenhamos: para Chitara isso é mil vezes melhor que passar o resto da vida entristecendo numa jaula e ainda tendo que fazer gracinhas num picadeiro de circo.

Não sei se você sabe, mas arrancaram as garras de Chitara quando ela era bebê. Ela está, portanto, sem sua principal arma de ataque e sem sua melhor defesa. Mesmo assim já resiste há mais de uma semana. No início da fuga ela foi baleada, mas mesmo ferida não se entregou. Se ao menos lhe garantissem que não a matariam, que apenas lhe aplicariam um tranquilizante e a levariam a um zoológico decente… Mas não. A ordem é atirar para matar.

Defendo Chitara porque ela não tem mais como se defender do que lhe fizeram. Defendo porque não é justo retirar um animal de seu habitat, privá-lo de sua sagrada liberdade, mutilá-lo, aprisioná-lo numa jaula para o resto da vida e ganhar dinheiro às custas de sua escravidão e sofrimento. Se nesse momento Chitara ameaça a vida de seres humanos, isso é apenas a consequência final de todos os atos de ganância e crueldade praticados pelos humanos. Eu também fugiria. Você não?

Torço por ela, mas sei que Chitara não tem chances. Cedo ou tarde a pegarão. Mas ao menos ela terá provado o sabor da liberdade. Talvez no instante em que você lê esta crônica, Chitara já esteja morta, uma bala de grosso calibre alojada em seu corpo. Lerei a notícia com tristeza, sim, mas com esperança. Talvez a história de Chitara se transforme em lenda para as crianças daquelas bandas. Então imagino-as sentadinhas ao redor da avó, noite de lua, escutando atentas a história da valente leoa fugitiva e, em sua pura compreensão de criança, captando aquilo que a maioria dos adultos já esqueceu: melhor viver os riscos da liberdade que morrer numa escravidão tranquila.

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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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SAIBA MAIS

VivaChitara-2Leoa é ferida à bala, mas consegue fugir – Diário do Nordeste, 30.11.01

Leoa abatida a tiros em Paracuru – Diário do Nordeste, 07.12.01

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LEIA NESTE BLOG

A imagem do século 20 – Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisões. Não vimos este ou aquele país: vimos o todo

A mensagem de Avatar ao Povo da Terra – Temos de compreender o que os antigos já sabiam e nós esquecemos: a Terra é um ser vivo e nós fazemos parte dele

Pátria amada Terra – É animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Nãaaaaoooo! Chitara free! Marta Crisóstomo, Brasília-DF – dez2012

02- Boa, Kelmer!!! E, para ser sincero, penso que muitos de nós, arrogantes bípedes autointitulados “sapiens”, vivem em condições semelhantes às de Chitara. CHITARA FREE!!!! Haroldo José Barros, Recife-PE – dez2012

03- Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos, arrebentando como sempre!!! Viva Chitara!!! Kelzen Herbet, Fortaleza-CE – dez2012

04- Página esportiva, Ricardo???? Francamente… Luc Lic, São Paulo-SP – dez2012

05- que a Morte liberte Chitara, que chegue depressa e a leve com doçura… que nao possa mais ser ferida pelos homens, que seja encontrada sem vida, e melhor ainda: que nunca mais seja encontrada! Susana X Mota, Leiria-Portugal – dez2012

Adorei, querido! Vou reenviar para meus amigos!!!!!Adorei, querido! Vou reenviar para meus amigos!!!!!

Paz e amor express

06/12/2012

06dez2012

Durante cinco dias, o Festival Express cruzou a leste-oeste do verão canadense levando em seus vagões os ideais da união pela música, a esperança ainda viva de um mundo de paz e amor

PazEAmorExpress-1

PAZ E AMOR EXPRESS

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Em 1970, uns produtores malucos tiveram uma ideia maluca: alugar um trem, botar dentro um povo bem maluco e percorrer o Canadá fazendo shows de rock e blues. Que ideia abençoadamente louca! Durante cinco dias, o Festival Express cruzou a leste-oeste do verão canadense levando em seus vagões os ideais da união pela música, a esperança ainda viva de um mundo de paz e amor. Os passageiros? Anote aí: Janis Joplin, Greateful Dead, Buddy Guy, The Band, Sha Na Na, Flying Burrito Brothers e outros, tudo gente boa. A viagem está registrada num filme, Festival Express (direção de Bob Smeaton), que após trinta anos de pendengas judiciais, finalmente foi liberado para exibição.

Escolho a sessão da meia-noite do domingo. Um horário maluco para um filme maluco, podiscrê. Masco meu chiclete alucinógeno, entro no clima e me mando para o Espaço Unibanco. A fila para entrar é enorme, atrás de mim uma camiseta Janis Joplin Forever, na frente uma do Raulzito, todo mundo empolgado, ninguém quer perder o trem. A sala fica lotada, gente sentada no chão. As luzes se apagam, a viagem vai começar…

Se Woodstock foi um presente para o público, o Festival Express foi um presente para todos aqueles músicos. Os produtores lhes proporcionaram uma viagem inesquecível pelas paisagens canadenses, a raríssima oportunidade de estarem todos juntos num trem, muita música, a filosofia de paz e amor, algo que jamais aconteceria de novo. E eles aproveitam até a última ponta aquela louca festa sobre trilhos. O vagão-bar é o mais concorrido: um chega com a guitarra, outro traz a percussão, um beque em lá maior e a festa vira a noite, sem hora para acabar, como todas as festas deviam ser.

Sabe as rodinhas que a gente faz com os amigos, birita e violão, as músicas preferidas, falar besteira, celebrar a amizade, brindar à vida? Pois imagine a rodinha com aqueles malucos geniais, tudo chapado, se abraçando, improvisando letras absurdas em músicas sem pé nem cabeça, o uísque rolando solto, a fumaça no meio do mundo, Jerry Garcia no violão, Janis morrendo de rir… Como eram as músicas? Ah, bem profundas, coisas do tipo Tudo foi queimado até o talo… e o horizonte se abriu… uou-uou-uuu…

No meio da viagem acaba a birita. Os aloprados simplesmente beberam todo o bar do trem, bando de esponja. E agora? Roquenrôu is ríar tuistêi, mas sem encher a lata não dá, né? Paraí, motorista, vamos resolver esse problema! Então os malucos entram na primeira loja e compram todo o estoque de bebida, saem levando caixas e caixas, rindo como crianças fazendo danação. Agora sim, singue dâ blus, mêm!

A viagem está tão viajante que os músicos esquecem que têm de fazer shows, ih, é mesmo, o show… O trem para em Toronto, desce todo mundo, vamos trabalhar. A multidão fora do estádio é tamanha que o show é transferido para a praça. Quando Janis surge na telona do cinema corre um frisson pela plateia, exclamações, gritinhos. Eu me ajeito na poltrona, sei que lá vem paulada. A bluseira texana manda ver Cry Baby, aquela fossa doída que só ela sabia cantar, honey, i know she told you that she loved you much more than i did… Estou paralisado, nem pisco, but all i know is that she left you… São sete minutos antológicos, Janis berrando, miando, se descabelando, Janis rasgando a alma com o punhal de seu blues, o sangue respingando tela afora, i’ll always be around if you ever want me… Olho para trás e vejo duzentos pares de olhos arregalados, todos em transe. Esse é um de seus últimos shows, em breve ela partirá, so come on, come on and cry, baby… Estou todo arrepiado e não contenho as lágrimas. Quando Janis termina, o cinema inteiro explode em gritos emocionados como num show ao vivo, as pessoas se levantam para aplaudir, coisa de louco.

O filme também mostra um solo inenarrável de Buddy Guy, performances conjuntas das bandas e depoimentos dos artistas e produtores, além das belas imagens do público, aquela gente bacana e suas roupas coloridas, às vezes sem roupa mesmo, tudo na paz, ainda botando fé que as flores venceriam os canhões. Mas infelizmente a viagem dos anos 60 já estava no fim. Os Beatles pediram o divórcio e Janis, Jimmy e Jim saltaram do trem, não viveriam para ver em que se transformaria o mundo que eles um dia sonharam, esperançosos, que podia ser melhor. O trem dos sonhos parou, foi recolhido na garagem da história e fecharam o portão. Ficaram as músicas, as imagens. E a guimba de uma esperança, pequenininha, quase nada, mas que insiste em não apagar. 

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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Esta crônica inegra o livro Blues da Vida Crônica

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FILMEFestivalExpress-03FESTIVAL EXPRESS
Reino Unido/Canadá 2003
Dir.: Bob Smeaton
Com Janis Joplin, Greateful Dead, Buddy Guy, The Band, Sha Na Na e outros

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Janis em Cry Baby (Festival Express, Toronto, 1970)

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Trecho do filme Festival Express
Festinha num dos vagões do trem. Pense numa chapação grande…

 

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RK201401EitaPazEAmorExpress-03Performance da crônica Paz e Amor Express (Eita Sarau, jan2014, São Paulo)

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Maluquice beleza – Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra

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COMENTÁRIOS
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Os apuros do homem feminista

07/11/2012

07nov2012

Minha busca por relações igualitárias foi dificultada também pelas próprias mulheres, pois muitas, mesmo oprimidas, preferiam relações baseadas no velho modelo machista

OsApurosDoHomemFeminista-2

OS APUROS DO HOMEM FEMINISTA

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Sou um homem feminista, sim, pois atuo pela liberdade da mulher e para que o princípio feminino seja resgatado em nossa cultura, principalmente no homem. Porém, discordo quando dizem que no patriarcado apenas a mulher é violentada em seu direito à autorrealização. Claro que ela é muitíssimo mais prejudicada, mas muitos homens também são penalizados.

Como a grande maioria das crianças da minha geração, que nasceram nos anos 1960, eu fui educado numa cultura patriarcal e cristã, que condiciona as pessoas, desde pequenas, a ver na mulher um ser inferior e de natureza maligna. Tal condicionamento leva os homens, inconscientemente, a temer o feminino e a tentar controlar a mulher. Eu fui treinado assim. Porém, algo deu errado.

Adolescente na Fortaleza de 1980, comecei a viver uma contradição pessoal que me incomodaria por muito tempo. De um lado, a educação e os amigos tentavam me convencer de que mulher é incompetente e não merece confiança, que as que dão na primeira vez não servem para casar, que o homem deve ter amantes e a mulher não, que nós não sabemos por que batemos mas elas sempre sabem porque apanham… De outro lado, porém, algo em mim discordava dessas regras. A mulher me causava sensações de reverência e fascínio, me provocava o êxtase da beleza e me inspirava a fazer poemas e canções… A mulher era algo especialíssimo, havia nelas um quê de mistério e sagrado, e eu não as via como inferiores, pelo contrário: elas pareciam ter mais poder que qualquer homem.

Meus amigos contavam piadas machistas, e eu já não via tanta graça nelas. Eles namoravam garotas passivas que faziam o estilo futura-mãe-e-dona-de-casa, e eu buscava mulheres participativas e de sexualidade livre. Porém, infelizmente para mim, a maioria das mulheres se contentava em seguir os modelos de passividade preestabelecidos para elas. E eu me recusava a aceitar o modelo pré-moldado para mim, o de macho provedor e sempre forte, proibido de demonstrar fragilidade. Meu desacordo com as regras e a sensibilidade artística faziam algumas pessoas acharem que eu era homossexual, e muitas mulheres não entendiam que eu não ligava para virgindade, não concordava que a mulher mudasse o sobrenome após casar, nem queria tomar a iniciativa toda vez e nem sempre podia pagar sozinho a conta do motel.

Hoje, quase cinquentão, vejo claramente que minha busca por relações igualitárias foi dificultada também pelas próprias mulheres, pois muitas, mesmo oprimidas, preferiam relações baseadas no velho modelo machista, o que é uma triste contradição, sim, mas também é um cruel efeito do patriarcado. Vejo também que minha inadequação aos padrões culturais inevitavelmente contribuiu para a sensação de solidão que sempre me acompanhou. Somente hoje, liberto de vários condicionamentos da cultura cristã-patriarcal, é que me sinto livre para ser quem realmente sou e viver minhas próprias verdades, que não são as verdades misóginas com as quais fui criado. Hoje, ainda luto contra as sobras de minha formação machista, mas tenho um bom convívio com o feminino em mim, e isso me torna um homem mais inteiro, e ainda mais amante da mulher.

A cultura menos machista de hoje gerará pessoas mais equilibradas, que bom. E os homens que não temem o feminino livre serão mais felizes, pois haverá mais mulheres livres. Será um mundo mais feminino. Será um mundo melhor.

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Ricardo Kelmer 2012 – blogdokelmer.com

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AMulherSelvagem-11aA mulher selvagem – Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

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LIVROS

LivroMulheresQueCorremComOsLobos-01Mulheres que correm com os lobos – Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés –  Editora Rocco, 1994)

A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

O feminino e o sagrado – Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Vamo Apoiar! Alberto Marsicano Rodrigues, São Paulo-SP – nov2012

02- O presidente Sukarno da Indonesia declarouque so vai permitir carta de habilitação para mulheres (proibida no pais) quando inventarem o ‘poste de borracha’. Alberto Marsicano Rodrigues, São Paulo-SP – nov2012

03- Adorei, Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos, e que esses tempos de machismo e patriarcado que nos fere a todas e todos esteja mesmo no fim!!! Cristina Balieiro, São Paulo-SP – nov2012

RK: Obrigado a Wanessa B e às amigas e amigos do grupo Relações Livres pelos comentários e sugestões, que me fizeram alterar trechos do texto para evitar interpretações errôneas. Veja os comentários aqui. (jul2013) 

04- Belo texto do Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos !!! Rainha Frágil, Fortaleza-CE – jul2013

RK: Esta crônica tem despertado reações curiosas. As meninas do grupo Movimento Iuzômi, que se autodeclaram feminazis e misândricas, não gostaram nadinha. Postaram a crônica no grupo e os comentários sobre o texto e seu autor foram bem desfavoráveis. Seguem alguns comentários (preferi por as iniciais dos nomes):

SF: ééééé iuzômi + friendzone + mulheres são interesseiras + eu sou feminista e por isso sou bonzinho e to te fazendo um favor = essa merda de texto

SF: na parte de dividir conta de motel, ou das mulheres preterirem ele porque preferem um modelo machista de relacionamento. Isso é base do discurso ‘eu sou bonzinho, mas ela prefere o mauzinho’

SF: Não, o texto dele nem fala sobre não ser mono, ou ser mono… Ele fala da culpa das mulheres pela própria solidão e como muitas não querem ser igualitárias. Aliás, pelo que ele fala aí só ele quer ser igualitário no mundo HAHAHAHAH.

AM: tem tanta coisa ridícula nesse texto que tá difícil de mensurar

AM: se diz feminista mas é aquele típico machista benevolente que vê as mulheres como musas

RP: Vou comerr meu nescau cereal lendo isso pq ACORDAR SABOREANDO MALE-TEARS É TER UM DIA REPLETO DE ALEGRIA

RP: “E os homens que não temem o feminino livre serão mais felizes pois haverá mais mulheres livres para eles.” WAIT, WHAT?

LO: Culpando as mulheres loucamente! Como ele é sofrido, nossa!

CM: ESSE cara, falou um monte de merda sexista na pagina do evento de não monogamia, o tal do ricardo kelmer, lembra Yasmin?

NF: “A cultura menos machista de hoje gerará pessoas mais equilibradas, que bom. E os homens que não temem o feminino livre serão mais felizes pois haverá mais mulheres livres. Será um mundo mais feminino. Será um mundo melhor.” = homens sejam feministas pra garantir mais fodas

NF: “susanaxmota disse: Concordo com a Aline. Para mim, também o feminismo é um extremo sexista a evitar, tam-bém aprisiona. Aliás, como todos os “ismos”. Nada como ser realmente livre!” A mulher machista oprimindo o homem feminista, gente

05- Grande Kelmer, vc escreveu de forma simples e clara… Eu ainda vivo e convivo com este mesmo problema, tanto com a mulher, quanto comigo mesmo, devo dizer, porque o tal “modelo” é difícil de ser modificado qdo um outro ainda está em profunda construção e tb já apresenta outros problemas… No mais, somos sempre incompreendidos… Grande abraço. Ronald de Paula, Fortaleza-CE – jul2013

06- “Eu me considero um homem feminista”, já é, politicamente, bastante coisa! Jamile Mileipe, São Carlos-SP – jul2013

07- Sei não. Mas acho que vale a pena pesar algumas considerações: igualdade pressupõe direitos e deveres. então, por que não assumir posturas de sim ou não e pronto? e não jogar pra o outro a responsabilidade que pesa nos próprios ombros? é sempre mais fácil acusar e punir do que observar e depois bradar, se for o caso. Elieldo Trigueiro, Fortaleza-CE – jul2013

08- Feminismo é uma postura política, social e filosófica adotada por mulheres e homens sim. Está, em geral, relacionada a romper com a estrutura patriarcal de poder. No entanto, existem vários feminismos…. Considerar uma mulher frágil é negar o direito dela ocupar determinados cargos, justamente, cargos onde elas são agredidas e/ou violentadas. Pra mim, é aí que reside a seriedade da discussão machista/feminista. E quanto mais os homens reconhecerem a existência dessa violência e discutirem o absurdo cultural disso, melhor! Quanto à flor, gentileza deve gerar gentileza. Mas, infelizmente, muitas vezes, há interesses de dominação ou “panos quentes” por trás do singelo ato. É preciso inteligência, de ambos os lados, para discernir a situação. Kelmer, eu acompanho teu trabalho e creio que você deve continuar ofertando flores sem se preocupar com as opiniões. Principalmente, flores em forma de textos que nos salvam, mulheres e homens, do “machismo nosso de cada dia”. Um abraço! Jamile Mileipe, São Carlos-SP – jul2013

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