Desculpem o atraso

08/03/2015

08mar2015

Em alguns minutos ela começaria a palestra, quando a mensagem chegou…

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DESCULPEM O ATRASO

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O salão do hotel estava lotado para sua palestra Feminismo no Século 21. Antes de começar, o celular fez o bip que ela tão bem conhecia. Leu a mensagem e suspirou… E correu para o elevador. Na suíte do nono andar, ele a recebeu, repreendeu-a pela demora e a estapeou. E ordenou que ficasse nua. De coleira e acorrentada, ela docilmente lambeu seus pés. Quando ele a pôs de quatro e a segurou forte pela cintura, ela tremeu de expectativa, antevendo o instante seguinte: ele montado sobre ela, o pau inteiro enfiado em sua bunda, e ela agradecida pela honra de servi-lo… Meia hora depois, ela agradeceu os aplausos, desculpou-se pelo atraso e iniciou a palestra. No rosto, a expressão compenetrada. No cu, a lembrança do gozo de seu senhor.
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Ricardo Kelmer 2014 – blogdokelmer.com

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> BDSM na Wikipedia – BDSM é a sigla de Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão e Sadomasoquismo. Na Wikipedia há informações básicas bem organizadas.

> Submissas na cama, mas não na vida – elas são feministas e adeptas do BDSM – Matéria do UOL, 18.12.17

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A vertigem

10/02/2015

09fev2015

AVertigem-01

Dizem que seo Pepeu, o louco da cidade, possui dois bichinhos mágicos que localizam coisas perdidas e fazem as pessoas se encontrarem. Mas ele está velho e tem de passar a alguém a missão de cuidar dos bichinhos

Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

Música sugerida para leitura: Sertão Noturno (Cristiano Pinho. Part. vocal: Raimundo Fagner)

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A VERTIGEM

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Os fatos que agora relatarei aconteceram há muito tempo. Mas parece que foi ontem.

Eu estava em Quixadá naquele sábado para resolver umas questões relacionadas a um imóvel de minha família, a casa onde moramos por muitos anos antes de mudarmos para a capital e que desde então estava alugada. Eu havia convencido meus pais a vendê-la e investir o dinheiro em ações na bolsa, obtendo muito mais rendimento. Porém, como a tarde já ia no fim e no domingo outros interessados visitariam a casa, decidi permanecer na cidade e me hospedei num hotelzinho na zona central. Após tomar um banho, aproveitei que o calor estava mais ameno e saí para dar uma caminhada pela redondeza.

Vinte e um anos. Esse era o tempo que eu não ia a Quixadá. Eu nascera e vivera ali até os quinze anos, quando minha família mudou-se para Fortaleza. Meus amigos de infância, o futebol com bola de meia, as quermesses na praça, tudo de repente ficou para trás. Determinado a vencer na cidade grande a qualquer custo, logo ajustei-me às suas leis, concentrando-me nos estudos e no trabalho, economizando dinheiro e deixando diversões e namoradas em terceiro plano. E tratei de convencer a mim mesmo, dia após dia, de que aquela era a minha verdadeira cidade. Em pouco tempo, substituí minha mentalidade interiorana por um comportamento metropolitano e Quixadá foi ficando cada vez mais relegada a um simples nome de cidade natal em meus documentos de identidade.

– Silvio?

Alguém falou meu nome. Era uma senhora. Encostada no portão de uma casa do outro lado da rua, ela acenava sorridente para mim. Atravessei a rua enquanto tentava buscar na memória quem poderia ser.

– Já vi que não lembra de mim.

Eu não lembrava mesmo.

– Fui sua professora de matemática.

Finalmente lembrei. Dona Necy. Estava bem mais velha e bem mais gorda.

– Desculpe, dona Necy. É que faz tanto tempo.

– Tenho memória boa. Você deve estar com… trinta e cinco?

– Trinta e seis.

– Até que não mudou muito. Está de volta à terrinha?

– Não. Só de passagem.

Ela me pegou pelo braço e me convidou para entrar um pouco.

– Acabei de fazer um docinho de caju – ela disse, animada.

Eu queria voltar logo para o hotel, pois levara o notebook e tencionava trabalhar aquela noite nuns relatórios da empresa. Porém, fiquei sem jeito de negar e me deixei conduzir à varanda da casa.

– Sente um pouquinho que eu vou pegar.

Era uma ampla varanda, que ocupava a frente e a lateral da casa. Calculei a área e vi que era maior que o quarto-e-sala onde eu morava. Havia duas cadeiras naquela parte da varanda, ambas de balanço, de ferro revestido com fios de plástico colorido, dessas que não existem mais nas cidades grandes. Sentei numa delas e o movimento de vai e vem da cadeira quase me deu vertigem.

Logo depois, dona Necy chegou e me entregou uma cumbuca cheia de doce. Enquanto eu comia, e o doce era desses com calda vermelha, realmente delicioso, conversamos um pouco. Falei que meus pais estavam bem, que iríamos vender a casa e que eu ainda era solteiro e trabalhava como diretor financeiro de uma empresa. Ela, por sua vez, contou que se aposentara, que seus filhos estavam todos casados e que Quixadá continuava do mesmo jeito que eu a havia deixado, com a diferença de que agora estava ainda mais quente. Falou e em seguida abriu um leque, começando a abanar-se.

– Muito gostoso o doce, dona Necy.

– Quer mais? Vou pegar.

– Não, obrigado – respondi, embora quisesse.

– Então vou pegar uma aguinha pra você.

Ela pegou a cumbuca e entrou, dirigindo-se à cozinha. Pensei na mania que esse povo do interior tem de oferecer comida às visitas. Para eles, você está sempre magro e precisando urgentemente engordar. Nesse momento, dei-me conta da presença de alguém ao meu lado, na porta da sala. Virei-me, achando que veria dona Necy, mas o que vi foi um senhor idoso, alto e magro. Vestia-se todo de branco, calça, paletó, sapatos e um chapéu de feltro, como se fosse sair. Seus olhos eram negros e me olhavam de um jeito estranho…

– Boa tarde – cumprimentei-o.

Ele não respondeu. Permaneceu no mesmo lugar, me olhando daquele jeito estranho, sem expressão. Ou melhor, com uma expressão, sim: de ausência. Mas uma ausência fixada em mim, difícil explicar. Era como se ele não estivesse ali – mas soubesse que eu estava. Senti um desconforto, uma insegurança, como se quem me olhasse pelos olhos daquele velho, de algum modo, soubesse de mim. Soubesse bastante de mim.

Desviei o olhar para o lado da rua. No céu, por trás das casas, o sol se punha entre as nuvens menstruentas, anunciando a noite do sertão.

– Ô, Pepeu, não vai falar com o rapaz, não? – disse dona Necy, chegando da cozinha. – É o Silvio, filho da Dezinha, que você conheceu. Lembra dela, Pepeu?

Ele continuou quieto e calado, encostado na porta. Dona Necy me estendeu o copo dágua e sentou. Bebi com gosto. Quando voltei-me para olhar para seo Pepeu, o lugar estava vazio, ele havia voltado para dentro da casa sem que eu percebesse.

– É primo torto de mamãe – explicou dona Necy, sem se importar com o repentino sumiço do velho. – Tem o juízo meio mole.

– Ah…

– Morava com ela, em Caiçarinha. Quando ela morreu, a gente trouxe ele pra morar com a gente.

– Ele não casou?

– Não. Nem teve filho. Já está com noventa anos, mas ainda tem saúde boa.

– E não causa problemas?

– Pepeu é quieto, faz mal nem a muriçoca. Só tem umas esquisitices, mas a gente já acostumou. A gente se acostuma com tudo, né?

Dona Necy riu. A loucura do agregado da família a divertia.

– Que esquisitices?

– Essas coisas de gente doida. Por exemplo, ele diz que cria uns bichinhos. Mas ninguém nunca viu.

– Devem ser invisíveis – brinquei.

– Ele gostou de você, viu?

– De mim? Me olhando daquele jeito?

– Quando não gosta, nem olha pra pessoa.

Sorri, lisonjeado.

– O doce estava ótimo, dona Necy, obrigado – falei, levantando-me.

– Tem certeza que não quer mais? Doce aqui não falta.

– Tenho que voltar pro hotel.

À noite, telefonei para meus pais e, após falarmos sobre a venda do imóvel, contei para mamãe que havia estado com dona Necy e seo Pepeu. Ela comentou que o conhecia.

– Seo Pepeu é bom de encontrar coisa perdida, sabia? – ela falou.

– Como assim?

– Se você perdeu qualquer coisa, é só falar com ele que rapidinho você encontra.

– Só a senhora mesmo pra acreditar nessas coisas, mãe – respondi, rindo das crendices interioranas dela.

– Ah, eu soube que Milena se separou. Tá solteirinha. Que nem você.

– Que Milena, mãe?

– A que você namorou.

Milena era uma garota de Quixadá que eu havia namorado na adolescência. Eu havia esquecido totalmente dela.

– Obrigado pela dica, mãe, mas prefiro as mulheres da capital.

Após desligar, sentei na cama e liguei o notebook para adiantar as tarefas que me aguardavam no escritório na segunda-feira, que eram muitas. Fiquei apenas na tentativa, pois o sono me chegou tão forte que adormeci no meio do trabalho com o notebook ligado, coisa que nunca havia me acontecido.

AVertigem-01No domingo, mostrei a casa para um casal que estava bastante interessado em comprá-la. Discutimos valores e combinamos que eu voltaria no fim de semana seguinte para concluir o negócio. E retornei ao hotel, satisfeito. Em breve, a casa onde eu vivera minha infância e que significava minha derradeira ligação com a cidade se transformaria num bom dinheiro, que eu esperava multiplicar rapidamente no mercado de ações.

Almocei no hotel e depois subi ao quarto para tomar um banho. Enquanto me vestia, olhando-me no espelho, achei minha imagem um tanto diferente… Recordei ter lido em algum lugar que os espelhos refletem nossa imagem cada um ao seu modo e que, por nos acostumarmos aos nossos reflexos cotidianos, nós nos estranhamos nos outros espelhos.

Pensava nisso quando de repente a lembrança de seo Pepeu tomou minha atenção. E quase pude sentir a mesma sensação de desconforto que me causara sua presença no dia anterior. Seo Pepeu e seu olhar estranho, sem expressão, mas que mexia com algo em mim. Seo Pepeu e seu olhar de quem parecia saber muitas coisas de mim.

Saí do quarto e fui pagar a conta. Conferi as horas: cinco da tarde. Caminhei até o carro, estacionado em frente ao hotel, e entrei. No entanto, em vez de rumar para a saída da cidade, fui à casa de dona Necy. Parei o carro, saí e bati palmas. Ela logo apareceu, sorridente.

– Vim me despedir.

– Mas ainda está quente pra pegar estrada – ela falou, já me puxando para dentro e fechando o portão. – Entre um pouquinho. Já almoçou?

– Já, obrigado.

– Mas aceita um docinho de caju, não aceita?

– Aceito. E seo Pepeu, está bem? – perguntei. E me senti um tolo por ter querido enganar a mim mesmo sobre o motivo de ter voltado à casa de dona Necy. Evidente que eu não fora me despedir – estava ali para rever seo Pepeu.

– Hoje ele me perguntou: cadê o filho da Dezinha?

– Sério?

– Não disse que ele tinha gostado de você?

Dona Necy entrou e logo retornou trazendo o doce. Como da outra vez, ela sentou em sua cadeira de balanço e, enquanto falava algo sobre a safra de caju, o som de suas palavras se acompanhava do barulhinho quase hipnótico do balançar da cadeira. Foi nesse momento que ele surgiu à porta em seu figurino branco, silencioso e impecável feito um gato.

– Olha quem veio ver você, Pepeu.

– Boa tarde, seo Pepeu. Como vai?

Ele não respondeu. Continuou parado, encostado à porta, o olhar ausente em mim. Dona Necy fez sinal com a mão, para que eu não me importasse, e começou a falar do clima, do custo de vida, da política local. Lembrou do tempo da escola e de como as crianças de hoje preferem o computador às brincadeiras na rua. Foi quando escutei a voz grave ao meu lado:

– Ele quer mais doce.

Seo Pepeu falara!

– Quer mais? – perguntou-me dona Necy, levantando da cadeira. – Me dê que eu vou pegar.

Dona Necy puxou-me a cumbuca das mãos e entrou. E eu olhei para seo Pepeu, ainda surpreso. Ele falara.

Foi esta a primeira vez que escutei sua voz. E ele falou de um modo tão natural, e havia uma tal lucidez das coisas por trás dela… Eu, de fato, havia terminado de comer e realmente queria mais, porém estava com vergonha de pedir. E ele percebera.

– O senhor também gosta de doce de caju? – perguntei, tentando parecer simpático. Ele apenas continuou me olhando, daquele jeito ausente. Senti-me ridículo, tentando me comunicar com um louco, e tive a nítida impressão de que seo Pepeu desdenhava de minha posição de são e normal.

Para meu alívio, dona Necy voltou, trazendo mais doce e me livrando do desconforto de fazer sala para a loucura. Conversamos mais um pouco e, em determinado momento, lembrei do que minha mãe me falara.

– É verdade que ele encontra coisas perdidas?

– Olha aí, Pepeu – ela falou, dirigindo-se a ele. – Silvio quer saber se você encontra as coisas. Encontra?

Seo Pepeu não respondeu. Continuava com seu olhar em mim, insistente e silencioso – e ausente.

– Você não perdeu alguma coisa ultimamente? – dona Necy me perguntou. Sim, eu havia perdido minha caneta predileta, uma de alumínio que tinha meu nome gravado. Perdera-a no dia anterior, logo que chegara a Quixadá.

– Sim, perdi uma caneta.

– Pede pra ele encontrar.

– O senhor pode encontrar minha caneta, seo Pepeu? – perguntei a ele. E flagrei-me desejando muito que a resposta fosse sim.

No silêncio que se seguiu, enquanto nós dois nos olhávamos e eu ansiava por sua resposta positiva, senti uma vertigem… E me veio, nesse exato momento, uma lembrança de minha infância… Lembrei de um poço que havia no quintal da casa do vizinho, um velho poço que fornecia água e do qual as crianças eram proibidas de se aproximar. Um dia, sem suportar mais a curiosidade, fui escondido até o poço e subi na borda. E na água lá embaixo, em vez de minha imagem refletida, vi um monstro horrendo. Com o susto, me desequilibrei e caí para dentro do poço. Felizmente fui rápido e consegui me segurar na borda, ficando pendurado lá enquanto o monstro, do fundo do poço, aguardava que eu despencasse. Com muito esforço, subi a parede e saí. Voltei correndo para casa, apavorado, o coração saindo pela boca. A experiência foi tão traumática que depois desse dia, bastava me aproximar de um poço para sentir uma forte vertigem. Olhar lá dentro, nem pensar.

A lembrança se dissipou e a vertigem foi sumindo aos poucos, o que me aliviou bastante. Agora eu estava novamente na varanda da casa de dona Necy, tendo nos meus olhos o olhar ausente de seo Pepeu. Mexi-me na cadeira para afastar o resto de vertigem que ainda sentia, sem saber bem quanto tempo estivera envolvido pela súbita recordação ou se alguém percebera alguma coisa.

Então seo Pepeu moveu-se, caminhando até dona Necy. Inclinou-se e sussurrou algo em seu ouvido. E voltou ao seu lugar, encostado na porta.

– Pepeu disse que se você trouxer um chocolate pra ele, ele encontra sua caneta.

Dar-lhe um chocolate? Que coisa infantil, pensei, decepcionado. E eu que, por um rápido instante, chegara quase a crer que ele possuía mesmo algum dom mágico, que transitava por outros mundos… Mas agora via que era tudo uma brincadeira entre eles, uma espécie de concessão que dona Necy fazia à estranha lógica da loucura.

Mesmo incomodado por ter feito papel de tolo, resolvi topar a brincadeira. Levantei e fui à mercearia da esquina. E logo voltei com o chocolate, que entreguei a ele. Seo Pepeu, porém, não o recebeu, deixando-me com o braço estendido no ar. Dona Necy riu e pegou o chocolate de minha mão, entregando a ele. Pensei que seo Pepeu fosse comê-lo ali mesmo, mas, em vez disso, guardou-o no bolso de dentro do paletó e tornou a sussurrar ao ouvido de dona Necy.

– Agora você espera que a caneta aparece – ela disse, me piscando um olho, como se estivéssemos brincando com uma criança.

Olhei para seo Pepeu e julguei ver um esboço de sorriso, uma quase imperceptível luzinha de satisfação em seu rosto… que um segundo depois sumiu, sem deixar vestígio. Então nos despedimos e fui embora.

Durante o trajeto de volta a Fortaleza a lembrança de seo Pepeu me fez companhia. Ele realmente me impressionara bastante. E havia provocado em mim algo difícil de precisar, um incômodo misturado com medo e… uma certa euforia. Por quê?

Enquanto eu dirigia, chegaram outras lembranças de minha infância… Lembrei de um tempo em que eu tinha passagem livre para outras realidades, que eu visitava sempre. Um tempo em que eu tinha amigos que os adultos não viam e com eles dividia segredos. Lembrei que eu tinha o poder de ficar invisível e fazia isso sempre que queria roubar doces da confeitaria ou quando queria ficar no quarto de minha prima sem ser notado, enquanto ela deitava em sua cama e se tocava intimamente como se estivesse sozinha. Era um tempo em que os dias eram cheios de aventuras e tudo era mágico e fascinante. Um tempo encantado que simplesmente havia sumido de minha memória, mas que durante aqueles momentos na estrada irrompeu no pensamento, feito bolhas que sobem à superfície da água fervente.

Na entrada da capital, envolto pelas lembranças, não percebi o sinal vermelho e passei direto pelo cruzamento. Freei o carro bruscamente, quase colidindo com um caminhão. Por pouco não causei um terrível acidente. Poderia ter morrido… Parei logo depois, assustado e ao mesmo tempo aliviado pela sorte que tivera. Melhor esquecer o passado, pensei, enquanto engatava a primeira e saía. Melhor voltar à realidade.

Nos dias seguintes, minha mente manteve-se focada nos afazeres do trabalho, que me consumia o dia inteiro e às vezes até a noite, quando levava tarefas para casa. Na quarta-feira, porém, enquanto trabalhava em minha sala na empresa, percebi que a luz do fim de tarde que vinha da janela refletia-se na estante em alguma coisa que eu não conseguia precisar o que era. Intrigado, levantei e fui conferir o que estava brilhando ali. Era uma caneta. Uma caneta de alumínio com meu nome gravado.

Senti um arrepio na espinha. Era a caneta que estava perdida! Mas como ela podia estar ali se eu a perdera em Quixadá? Seria seo Pepeu… responsável por aquilo?

Não, claro que não, imediatamente respondi para mim mesmo. Eu certamente me equivocara. Sem perceber, certamente eu trouxera a caneta comigo de Quixadá e…

E o quê? Eu pusera a caneta na estante e também não lembrava? Isso não. Claro que eu não fizera isso. Então como explicar?

Não encontrei nenhuma explicação. Não havia explicação. Durante três dias eu havia esquecido de seo Pepeu e agora ele subitamente voltava por meio daquele mistério. Seria mesmo possível que ele tivesse algo a ver com aquilo?

Pelo resto do dia a imagem do velho esquisito me perseguiu, aqueles olhos ausentes de expressão, mas que eu sabia me espreitarem atentos. E isso me fazia dividido. Se, por um lado, brisas suaves do outro mundo sopravam por intermédio de seo Pepeu, brisas que me arrepiavam os pelos e me traziam memórias de um tempo de magia e encantamento, por outro lado seus olhos pareciam querer me desmascarar, como se eu fosse culpado de algo…

AVertigem-01No sábado seguinte, voltei a Quixadá. Eu havia combinado com o casal interessado em comprar a casa que nos encontraríamos no domingo, mas minha vontade de rever seo Pepeu era tamanha que não pude esperar mais um dia.

Cheguei no fim da tarde e dona Necy me recebeu com a simpatia de sempre. Contei-lhe que havia encontrado a caneta.

– Que bom – ela respondeu. – Pepeu vai gostar de saber.

– Ele sempre faz… essas coisas?

– Que coisas?

– Encontrar objetos perdidos.

Ela riu.

– Você acredita nessas coisas?

– Eu? Bem… eu…

Parei de falar, encabulado feito um menino flagrado fazendo o que não deve. Simplesmente não consegui responder. Em que eu acreditava? Já não sabia.

– O povo mais jovem não liga pra isso não, sabe? Quem ainda acredita é o povo velho.

Sorri, sem jeito. Ao lado, no vidro da janela, vi minha cara envergonhada. Fiquei pensando: quem eu seria? Do povo jovem ou do povo velho?

– Ele está em casa?

– Pepeu? Não. Foi passear com os bichinhos dele.

– E ele sabe andar sozinho pelas ruas?

– Mas menino, Pepeu é esperto – ela confirmou, orgulhosa. – Só não sai quando os bichinhos dele não querem ir. Aí não tem quem faça Pepeu botar o pé fora de casa. Você não quer sentar um pouco? Tem suco de cajá bem geladinho, vou pegar pra você.

– Obrigado, dona Necy – recusei. – Mas eu preciso falar com seo Pepeu.

– Então vá por ali, ó, que você ainda pega ele.

Corri pela rua até que vi aquela figura magra e alta, metida em seu terno branco, o chapéu branco, ele e seu passo lento, parecendo não ligar nadinha para o mundo em volta. Quem visse não o distinguiria de qualquer desses velhos que seguem para a praça nos fins de tarde.

Diminuí o passo e fui me aproximando dele. O coração batia forte e o suor já me ensopava as costas. Estiquei o braço em sua direção e, antes de tocá-lo, escutei sua voz:

– Encontrou a caneta?

Seo Pepeu continuava caminhando, olhando para frente. Por um momento, achei que ele falara consigo mesmo.

– Sim… Encontrei sim. Vim agradecer.

Então me cheguei ao seu lado e o acompanhei em seu passo lento pela calçada. Perguntei como conseguira que eu encontrasse a caneta, mas ele nada respondeu. Comecei a sentir o peso do ridículo. Puxei mais conversa, mas ele continuou do mesmo jeito, silencioso e o olhar lá na frente ou, sei lá, em lugar nenhum.

Quando chegamos à praça meu entusiasmo inicial já havia se desmilinguido no meio daquele constrangimento, e de novo eu me sentia fazendo papel de tolo, confiando que podia domar a loucura. Foi quando, já sem saber mais o que falar, comentei sobre Milena, minha ex-namorada da adolescência, se ele a conhecia.

Mais uma vez. A sombra de um sorriso a lhe sobrevoar a face, rápida, um quase nada. Mas eu vi, sim. Perguntei novamente, se ele conhecia Milena.

– Quer encontrar a moça, né?

Meu coração deu um pulo. Então, mais para não perder o embalo da conversa do que qualquer outra coisa, respondi rapidamente que sim, e perguntei se ele podia me ajudar.

– Traga um chocolate, traga.

Um chocolate. O que ele queria dizer com isso? Que me faria encontrar a moça da mesma forma como encontrei minha caneta? Não quis arriscar perder a oportunidade e corri até uma banca de revistas, onde comprei uma barrinha de chocolate e levei para ele.

– O senhor gosta muito de chocolate, né, seo Pepeu?

Ele ainda guardava a barrinha no bolso interno do paletó quando olhou para mim e… sorriu! Sorriu de verdade. Bem, foi um sorriso de um segundinho só, camuflado pela boca rígida, mas ele sorriu sim. E falou:

– É pra mim não, é pros bichinhos. Agora pode ir, vá.

– Ir pra onde, seo Pepeu?

– Vá logo.

Ele parecia ter pressa. Mas eu não sabia o que fazer.

– Vá, vá – ele insistiu, me empurrando levemente. Eu olhava para ele e não sabia mesmo o que fazer. Devia voltar a Fortaleza? Encontraria Milena lá?

– Vá logo.

Não pude deixar de obedecer. Atravessei a rua e olhei para ele, que continuava indicando que eu devia prosseguir, vá, vá…

De repente, uma mulher surgiu bem à minha frente, quase esbarrando em mim. Paramos os dois, assustados.

– Não acredito… – ela falou, surpresa. – Silvio?!

– Milena? – balbuciei, ainda mais surpreso que ela.

– Está perdido aqui em Quixadá?

– Eu… ahnn…

Eu todo era uma confusão só. Aquele encontro era obra de seo Pepeu? Não, não era possível, não podia ser. Mas como não seria? Claro que era sim, só podia ser. Tinha que ser. Virei-me rapidamente para a praça, mas seo Pepeu não estava mais lá.

– Eu… vim resolver umas coisas.

Milena havia mudado, não era mais a menina que eu lembrava, obviamente. Mas continuava bonita.

– Que coincidência, Silvio. Eu nunca faço esse caminho. Mas hoje, sei lá por quê, resolvi vir por aqui.

Ficamos olhando um para o outro, no meio das pessoas que passavam, sem saber o que dizer. Ela enfim quebrou o silêncio, perguntando se eu estava sozinho.

– Eu? Sim, estou.

– Quer sair hoje à noite? Tem um barzinho novo que é bem legal.

Após me passar seu número de telefone, deu-me um beijo no rosto e seguiu caminhando. Então atravessei a rua e avistei seo Pepeu caminhando na direção de sua casa. Corri até ele.

– Foi o senhor que fez a gente se encontrar, não foi?

Ele não respondeu. Nem sequer olhou para mim.

– Por favor, seo Pepeu – implorei. – Eu preciso saber.

Nada. Ele continuou em silêncio, caminhando seu passo lento. E eu ali fiquei, parado na calçada, o coração feito uma britadeira, a ponto de ter um troço. No degradê do céu a tarde anunciava seu fim, abrindo caminho para a noite. Uma brisa soprou, eriçando os pelos do meu braço.

Mais tarde, no barzinho, pensei em comentar o ocorrido com Milena. Mas achei melhor não. Como dizer-lhe que em troca de um chocolate, um velho maluco havia mexido com as forças do além para que nos encontrássemos de repente naquela rua? Como explicar o que eu sentia, aquela confusão toda em minha cabeça? Como dizer-lhe que o outro mundo havia voltado, o mundo mágico da minha infância?

Para não ficar pensando o tempo todo nisso, tratei de conversar sobre várias coisas e rimos bastante dos velhos tempos, recordando nosso namoro de adolescentes. Ela me falou de seu casamento fracassado e eu contei sobre minha vida em Fortaleza. Ela me perguntou se eu estava solteiro e eu confirmei. No fim da noite, deixei-a em casa e trocamos um demorado beijo. Um beijo muito gostoso, por sinal, que me fez lembrar de uma antiga e doce sensação, a de ter Milena em meus braços, nós dois no banco do jardim de sua casa, prometendo um para o outro todas as estrelas do céu imenso de Quixadá.

Naquela noite, demorei a dormir. Estava absolutamente dividido. Uma parte de mim queria ardentemente acreditar que seo Pepeu tinha mesmo poderes mágicos, que talvez o mundo não fosse somente aquilo que os olhos veem, que talvez outras coisas existissem além da compreensão comum. Talvez os loucos tivessem respostas. Talvez fosse hora de eu buscá-las de outra forma que não fosse nos números frios dos relatórios financeiros.

Outra parte de mim, porém, balançava a cabeça, desapontada com minha própria tolice. O mundo real não estava ali, naquela cidadezinha do interior, eu sabia disso. Tampouco estava no passado, entre mentiras da imaginação infantil. A realidade ficava na outra ponta da estrada, para onde no dia seguinte eu voltaria.

AVertigem-01Na manhã seguinte, não escutei o despertador, e quando acordei já eram duas da tarde. Estava bem atrasado para o encontro com o casal que queria comprar a casa. Vesti-me às pressas e dirigi até o restaurante onde havíamos combinado o encontro. Felizmente, eles ainda me esperavam. Desculpei-me, almoçamos e pudemos, enfim, acertar os detalhes finais do negócio.

De volta ao hotel, o moço da recepção me informou que alguém me aguardava e apontou para o sofá ao lado. Virei-me, com a certeza que veria Milena. Mas o que vi foi um velho de terno e chapéu brancos.

Fui até lá, e antes que eu dissesse qualquer coisa, ele levantou-se calmamente e saiu do hotel. Segui-o e passamos a caminhar pela rua lado a lado, em silêncio. Ele queria passear comigo, pensei, como dois amigos fazem num fim de tarde. Eu, porém, queria tanto falar do dia anterior, saber dos bichinhos…

Então chegamos à pedra do Cruzeiro, um conjunto rochoso muito visitado por turistas em busca de uma vista panorâmica da cidade. Quando criança, eu adorava subir até o topo, mais de cem metros de altura, e lá me entretinha durante séculos com a paisagem. Seo Pepeu parou, olhou lá para cima, ajeitou o chapéu na cabeça e começou a subir por uma das trilhas. Pensei em protestar, não estava nem um pouco a fim de me cansar, mas não ousei falar nada, apenas segui-o.

Seo Pepeu subiu com espantosa agilidade, sem dar sequer um passo em falso. Eu, ao contrário, escorreguei várias vezes e estive a ponto de desistir. Felizmente, ele parou antes de chegarmos ao topo e pouco depois eu o alcancei, e sentei numa pedra para descansar. E só então foi que percebi a paisagem. Dali, boa parte da cidade se mostrava para nós, e lá longe, por trás dos montes de pedra que a circundavam, o sol poente enchia o céu de tons de vermelho, amarelo e laranja. Eu havia esquecido de como aquela visão era magnífica. Enquanto as nuvens lentamente trocavam de desenhos e o céu mudava de cor, senti-me como se estivesse fora do tempo…

– Você vai ficar com eles depois que eu for, não vai?

A voz de seo Pepeu…

– Com eles quem? – perguntei, meu olhar vagando pelo horizonte.

– Os bichinhos. Olhe, não pode se atrasar não, venha no dia que chamarem.

Os bichinhos, claro. Por um instante, ou teriam sido séculos?, eu havia esquecido deles.

– Que bichinhos são esses, seo Pepeu? ‒ indaguei, olhando para ele. Seo Pepeu, em pé, ao meu lado, também olhava para o horizonte.

– Deram pra eu criar, faz tempo. Um é o bichinho escondedor, gosta de esconder e encontrar as coisas, é danado que só.

– E o outro?

– É o bichinho alcoviteiro. Ele gosta de brincar com as pessoas, faz elas se perderem e se encontrarem. São pequenininhos, mas sobem em tudo que é canto. E gostam muito de chocolate.

Bichinho escondedor e bichinho alcoviteiro. Um que encontrava objetos, outro que fazia pessoas se encontrarem… Aquilo era absolutamente incrível. Continuei como estava, sentado na pedra, o olhar lá longe, além do tempo…

– Foi o bichinho alcoviteiro que fez sua mãe casar com seu pai, sabia?

– Como assim?

– Seu pai era moço festeiro, queria compromisso não. Então o bichinho fez ele encontrar com ela na rua sete dias seguidos em sete lugares diferentes.

Sorri, espantado. Aquilo era uma novidade.

– E quem lhe deu os bichinhos pra criar, seo Pepeu?

– Posso dizer não. Nem você vai poder dizer quem lhe deu. E vão ficar com você até o seu dia, viu? Quando você se for, eles voltam pra dentro da casinha deles e de lá só saem pras mãos do novo dono. E não pode ser mulher.

– Eles não gostam de mulher?

– Mulher ia usar pra fazer mal com a outra. E eles querem só brincar, fazer arte com o povo.

– Outra pessoa pode ver os bichinhos?

– Não. Eles estão sempre escondidos por trás das coisas.

A voz de seo Pepeu chegava lentamente aos meus ouvidos e se misturava à paisagem. De repente, tudo era uma coisa só, o sol se pondo, as pedras, o céu avermelhado e as palavras de seo Pepeu. O tempo passado e o tempo presente finalmente davam-se as mãos. Tudo fazia sentido.

– Tem uma coisa – ele continuou. – Os bichinhos não gostam nem de gato nem de padre.

– Por quê?

– Gato pode ver eles, eles não gostam. E padre deixa eles tristes.

– E eles falam com o senhor?

– Eu sei o que eles pensam. Com o tempo você vai saber também.

– E por que o senhor escolheu logo a mim?

– Eles que escolhem. Quando você chegou, eles me avisaram.

– E se, por acaso, eu não servir pro negócio?

– No dia que eles não tiverem mais dono, tudo vai parar.

– Como assim?

Ele não respondeu.

– Como assim tudo vai parar, seo Pepeu?

Virei-me e vi que ele já descia a pedra, enquanto minha pergunta era levada pelo vento.

Voltamos em total silêncio. Ao fim da descida, seo Pepeu seguiu por uma rua, sem olhar para trás, e eu segui por outra, voltando ao hotel. Sentia-me em paz, como alguém que finalmente encontra algo que havia muito procurava sem saber que procurava.

AVertigem-01Na segunda-feira pela manhã, do escritório, liguei para minha mãe e contei da caneta, do encontro com Milena e do que seo Pepeu falara sobre ela e papai. Ela riu e disse que era verdade, sim, que um dia, quando era solteira, procurou um senhor que vivia no meio do mato. Era um tipo meio ermitão e diziam que possuía poderes mágicos. Ela foi lá e encontrou um velho estranho, mas gentil, e ela lhe pediu que fizesse meu pai se apaixonar por ela. O velho disse que isso não podia fazer, mas que faria algo parecido.

– Pois ele fez – prosseguiu minha mãe, rindo gostosamente. – Fez seu pai se encontrar comigo por vários dias seguidos. Ele ficou tão cismado que não teve como não prestar atenção em mim. Depois que a gente casou, contei pro seu pai, mas você sabe que ele não acredita nessas coisas.

– E a senhora pagou pelo serviço?

– Dei um chocolate, como seo Pepeu havia me pedido. Saiu barato.

E os bichinhos, eu pensava, como seriam? Gordinhos de tanto chocolate? Talvez não, seo Pepeu dissera que eram ágeis. Podia-se andar com eles no bolso? Como era a casinha deles? Eu pensava nos bichinhos e a todo momento me vinham novas utilidades como encontrar documentos perdidos, forçar encontros providenciais, conferir se tal pessoa estava mesmo em tal lugar…

E o medo deles de gatos, que estranho… Então os gatos viam mesmo coisas? E quanto aos padres? Presumi que os bichinhos não gostavam deles pelo fato da Igreja Católica ter um passado reconhecidamente perseguidor para com outras crenças. Quem sabe os bichinhos não guardavam lembranças traumáticas de outros tempos, de cruéis perseguições?

Seo Pepeu dissera que no dia que os bichinhos não tivessem mais dono, tudo ia parar. O que podia significar? Uma profecia sobre o fim do mundo? Ele dissera também que eu ficaria com eles somente depois que ele se fosse. Bem, pela saúde que seo Pepeu tinha, esse dia ainda demoraria, o que era ótimo, pois eu queria aprender tudo sobre o outro mundo.

– Tudo, tudo – falei para mim mesmo. E ri que nem uma criança feliz.

Eu não estava mais dividido. Seo Pepeu era real, os bichinhos eram reais. O mundo mágico estava de volta.

Antes de sair para almoçar, liguei para o casal que compraria a casa. Comuniquei, sem dar muitas explicações, que o negócio estava suspenso e que, se fosse o caso, depois eu entraria em contato com eles. Desliguei o telefone e estiquei as pernas, relaxado e aliviado. De repente, vender aquela casa era algo que não fazia muito sentido. Talvez não fosse má ideia mantê-la alugada. Talvez, quem sabe, um dia eu cansasse da capital e voltaria a morar em Quixadá. Sim, por que não? Esquecer aquele negócio de mercado de ações e levar uma vida mais calma, sem tantas preocupações com lucros. Quem sabe com Milena. Por que não?

Então a secretária me tirou de meus devaneios, avisando que havia uma ligação para mim. Atendi. Era dona Necy. Ligava para avisar que seo Pepeu morrera na noite anterior. Ele estava bem, ela disse, havia feito seu passeio de fim de tarde e jantado normalmente. Morrera dormindo. O enterro seria à tarde.

Demorei alguns minutos até conseguir fazer algo. Seo Pepeu morto… Não parecia real. Não podia ser real, ele ainda tinha tanto a me ensinar…

Cancelei os compromissos da tarde, peguei o carro e mandei-me para Quixadá. Dirigi a toda velocidade, mas quando cheguei ao cemitério, o caixão já havia descido e dois homens o cobriam de terra. Havia pouca gente presente, só dona Necy e alguns familiares. Fiquei arrasado, pois queria ter visto seo Pepeu uma última vez.

– Ele gostava de você – dona Necy me falou, enxugando uma lágrima.

– Eu também.

– Acho que Pepeu pressentiu que ia morrer, pois ontem, antes de dormir, pediu pra lhe entregar uma coisa.

Dona Necy abriu sua bolsa, tirou um pequenino baú de madeira e me entregou.

– Ele guardava isso com muito cuidado, desde quando morava em Caiçarinha.

Segurei o bauzinho com as duas mãos, sentindo seu peso.

– Parece que tem alguma coisa dentro, mas eu não sei o que é. Pepeu me pediu pra eu entregar pra você sem abrir.

– Obrigado.

– Vamos agora lá pra casa tomar um café. Venha com a gente.

– Infelizmente não posso, dona Necy. Tenho que voltar logo pra Fortaleza.

Despedimo-nos e saí. Alguns minutos depois, eu estava na estrada, voltando para a capital. Dirigia tomado por uma mistura de tristeza, excitação e medo, e a todo instante olhava de canto de olho para o bauzinho de madeira no banco do passageiro.

Chegando em casa, pus o bauzinho sobre a cama e sentei ao lado. Minhas mãos tremiam e o coração batia descompassado. Uma gota de suor deslizou por meu rosto. Lá fora a tarde ia embora, e pela janela pude ver o céu começando a escurecer, anunciando a noite da cidade grande, tão diferente da noite do sertão. Dentro daquele pequeno baú estava a prova da existência do outro mundo, o mundo mágico que sempre existira, mas que eu um dia preferi esquecer. Bastava abri-lo e libertar os bichinhos.

Peguei o bauzinho e movi a tampa para cima, bem devagar. De repente, por um instante, surgiu na lembrança aquele terrível poço da minha infância… E imediatamente senti a vertigem me abraçar, novamente ela, a mesma vertigem. Interrompi o movimento, baixei a tampa e respirei profundamente. Está tudo bem, falei para mim mesmo, enquanto esperava a vertigem passar. Alguns minutos depois, quando me preparava para abrir de novo, uma pergunta surgiu em minha mente. E se… nada houvesse lá dentro?

Quando a noite veio, ela e sua escuridão, eu continuava lá, sentado na cama, o bauzinho ao lado. E a pergunta não calava em meu pensamento. E se nada houvesse lá dentro?

A madrugada chegou, ela e seu silêncio, e lá estava eu no mesmo lugar. Aquela pergunta não me deixara dormir. Nem dormi e nem tive coragem de abrir o bauzinho.

Quando amanheceu, guardei-o numa gaveta do armário e fui trabalhar. Esforcei-me como nunca para me concentrar no serviço, mas não consegui. Quando voltei para casa, a primeira coisa que fiz foi tirar o bauzinho da gaveta. Botei-o novamente sobre a cama e jurei para mim mesmo que daquela vez eu o abriria, eu precisava abri-lo e acabar de vez com aquela tortura. Sim, eu precisava fazer isso. Mas… e se nada houvesse lá dentro?

É a pergunta que me faço até hoje, cinquenta anos depois, quando cai a tarde e tiro o bauzinho da mesma gaveta, e sento na mesma cama do mesmo apartamento, tudo o mesmo. E se nada houver lá dentro?

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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Cristiano Pinho – Sertão Noturno
Trilha sonora do conto A Vertigem

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Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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LEIA NESTE BLOG

NoOlhoDaLoucura-01aNo olho da loucura – Ela está lá, insubornável feito um guardião de mistérios ancestrais, e zomba da nossa compreensão do mundo… E nada pode haver de mais perturbador

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

A pergunta – Um dia, porém, alguém desconfia. E entende que os que olham para fora, sonham, e os que olham para dentro, despertam. E aí a pergunta é inevitável

Minha noite com a Jurema – Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

Um cara que acabou de acordar – Por isso esse olhar de quem ainda não entendeu,  esse clima de Morfeu, essa preguiça de explicar

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Comentarios01COMENTÁRIOS

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01- Acabei de ler o conto sobre a loucura, do seu Pepeu. Pois saiba que eu segurei o ar por alguns instantes no final, achei muito legal. Vera Sabóia, Fortaleza-CE – jul2005

02 – Que o Seo Pepeu guie seu coração e a vc todo mesmo, ‘treim-rúim’, pelo túnel do irresistível-selvagem-charme da insanidade e lhe mostre a luz no fim! …que tire as tentações do caminho e lhe dê a paz! aaaaaaaaaamééémmmmmmmmm! Patrícia Rochael, Goiânia-GO – mar2007

03- Gostei muito, muito mesmo!!!Adorei! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – fev2015

04- Ricardo Kelmer, esse sempre foi um dos seus contos de que mais gosto. Muito bom mesmo!, Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – fev2015

05- Ricardo Kelmer, perfeito! Ana Velasquez, Altamira-PA – fev2015

06- Este livro é um dos melhores que conheço! Além do “Seo Pepeu”, tem outros contos alucinantes! Grande Ricardo Kelmer!!!- Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – fev2015

07- Eu amo Ricardo Kelmer. No bom sentido, macho réi. Você tem talento e um papo com você nos aproxima do tudo. Do ser inteligente que sabe combinar vida, pessoas, coisas, animais e o mundo de dentro e de fora de tudo. Nonato Albuquerque, Fortaleza-CE – fev2015

08- Esse é o conto preferido do Roman Peter Ciupka Junior, né não? Marcelo Gavini, São Paulo-SP – fev2015

09- Opa ! Fala seu Kelmer ! Lembrei que tinha lido esse conto ( muito bom !)la no seu livro ” Guia de sobre … ” … Acho que eu nunca comentei contigo mas esse conto tem um Q de ” Alem da Imaginaçao” … Luciano Hamada, São Paulo-SP – fev2015

AVertigem-01a


A grana do lanche

05/11/2014

05nov2014

A jovem advogada Dinorah descobriu que gosta de fazer sexo por dinheiro, e agora vive um dilema: afinal, ela é ou não é uma puta?

Este é um dos contos do livro recém-lançado Indecências para o Fim de Tarde (Editora Escrituras, selo Arte Paubrasil). Ele será publicado nesta postagem em 10 capítulos até 30.11.14. Os leitores que comentarem durante esse período concorrem ao sorteio de 1 livro impresso + 1 livro em PDF com dedicatória personalizada. Mesmo que você não goste de algo na história, para mim será muito útil acompanhar suas impressões durante a leitura.

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A GRANA DO LANCHE

cap. 1

DINORAH É UMA MOÇA BONITA, mas nada que chame demais a atenção. Tem vinte e cinco anos, faz o tipo mignon, pele clara, cabelo loiro ondulado na altura dos ombros, olhos castanhos, enfim, é uma dessas garotas que você vê aos montes nas tardes dos shoppings. Vive na capital, classe média alta, mora com os pais, não trabalha, abandonou Administração e agora cursa Direito numa faculdade particular. Desde a primeira vez, aos dezesseis anos, transou com onze caras, e também com a Pati, que depois se tornou a melhor amiga. E namorou um cara por quatro anos. O namoro terminou e é nesse ponto que encontramos Dinorah, solteira, numa mesa do café do shopping, olhando para uma nota de cem reais. E dizendo baixinho para si mesma: Eu não sou puta, eu não sou puta…

Esta é a nossa menina. Permita-me chamá-la assim, nossa menina, porque acho que combina com seu jeitinho quase infantil, e porque tenho a impressão que você também vai gostar dela. Mas por que Dinorah está repetindo para si mesma que não é puta? Porque horas antes ela conheceu um cara ali mesmo no café e… Bem, é melhor contar do começo.

Às sextas, após a última aula da tarde, Dinorah costumava passar no shopping que fica pertinho da faculdade para tomar um capuccino. Numa dessas sextas, ela viu um cara numa mesa próxima, tipo quarentão charmoso, de camisa social, gravata, paletó pendurado no encosto da cadeira, a pasta do tipo executivo ao lado no chão. E ela? Vestidinho estampado, sandalinha, mochila, cabelo preso. Os dois sozinhos. Ela achou o cara interessante, e ficou atiçadíssima quando ele ergueu a xícara de café, olhando para ela, e sorriu. E ela sorriu também. Logo depois ele estava em sua mesa e ela já sabia que o quarentão se chamava Carlos, morava em outra cidade, era executivo de uma empresa e uma vez por mês ia à capital a trabalho, era separado e não tinha filhos. Pelo menos foi isso que ele dissera.

Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa e ela disse que não bebia, o que era verdade. Enquanto ele pedia outro café, Dinorah sentiu que uma ideia instigante nascia em sua mente… Não, talvez não fosse na mente. Ideias podiam nascer entre as coxas? Se podiam, aquela definitivamente nascera lá. Aquele cara era um desconhecido, não era tão bonito mas era interessante, parecia ser confiável e estava abertamente a fim dela, e ainda morava em outra cidade… Transar com um desconhecido. Por que não?, pensou nossa menina, e agora a ideia tomava conta de seu corpo inteiro, feito uma onda de calor gostoso.

É, por que não, ela continuava pensando, e a ideia se tornara uma sensação que ficava cada vez mais excitante. Sexo sem compromisso, um cara mais velho, depois tchau, cada um segue sua vida, isso combinava com a sexta, sexta era um dia bom para experimentar coisas novas. Sim, decidiu Dinorah. Daria para ele, sim, bastava ele querer. Mas não gostou do nome, Carlos era sem graça. Executivo era mais sexy.

Do que você gosta, Executivo, posso te chamar de Executivo?, ela perguntou, disposta a mudar logo o papo para rumos menos formais. E ele respondeu que podia, e emendou, meio sério, meio insinuante: Gosto de garotas da sua idade. Dinorah sorriu, surpresa, uau, ele não perde tempo. Melhor assim, ela não estava mesmo a fim de muito papo. Posso te chamar de Loirinha?, ele quis saber. Pode, respondeu ela, gostando daquele joguinho. Do que você gosta, Loirinha? Ela decidiu que era hora de passar o ponto de não retorno: Gosto de caras que gostam de garotas da minha idade.

Quando a garçonete trouxe a conta, ela quis pagar sua parte, mas ele, delicadamente, perguntou se ela ficaria chateada se ele pagasse tudo. Se fosse uma situação normal, Dinorah ficaria, sim, ela acha que mulher tem que dividir a conta, principalmente ela que ganha uma boa mesada dos pais. Mas aquela não era uma situação normal, e ele pagar tudo combinava com a situação, um executivo bancar uma noite de prazer para uma jovem estudante safadinha. Não, Executivo, não vou ficar chateada, muito pelo contrário…

Menos de uma hora depois, Dinorah estava no motel com Executivo. Um desconhecido, um cara mais velho, experiente, isso era muito interessante e ela sentia-se bem safada. Executivo tinha um pau grande, mas ele a fodeu com cuidado para não machucar. Superexcitado, ele lambeu e chupou todas as partes de seu corpo, comeu-a em várias posições e gozou com ela montada nele, e ele sempre chamando-a de loirinha gostosa, loirinha safada…

No fim, após pagar a conta, Executivo perguntou-lhe se tinha gostado e ela respondeu que sim, e estava sendo 99% sincera, pois, embora sem orgasmos, ela tivera muito prazer. O 1% restante era porque ela achava que poderia ter se soltado um pouco mais. Ele deu-lhe seu cartão e disse que dentro de um mês estaria de volta.

Já no táxi, ele se ofereceu para deixá-la em casa, mas ela disse que preferia voltar para o shopping pois queria fazer um lanche. Seguiram pelas ruas em silêncio. Dinorah sabia que não o procuraria novamente, já havia realizado seu desejo safadinho, mas sentia-se bem e não via a hora de contar tudo para a amiga Pati, com quem adorava dividir suas confidências mais sórdidas. Quando o táxi parou em frente ao shopping e ela se preparava para abrir a porta do carro, Executivo pôs em sua mão, discretamente, uma nota de cem reais. Ela olhou para a nota, sem entender. É pro lanche, ele explicou, sorrindo calmamente, aceite, Loirinha, por favor. Confusa, ela pôs a nota dentro da mochila e desceu.

Numa mesa do café, Dinorah agora observava a nota de cem em suas mãos. Ainda podia sentir o pau do Executivo dentro dela, sua buceta latejando… Era para estar feliz, afinal a transa fora boa, o cara a tratara bem… Mas e aquela nota de cem? Por acaso ele achava que ela era uma puta? E, se achava, então valia cem pilas? Aquilo era muito ou pouco?

Pediu outro capuccino, mas bebeu sem vontade. Decidiu ir para casa, não se sentia muito bem. Entrou na sala e seus pais assistiam a um programa religioso na tevê. Beijou a mãe, beijou o pai e sentou-se com eles no sofá. Tudo bem, filha?, perguntou o pai. Ela respondeu que sim, só estava um pouco cansada. Tem lasanha no micro-ondas, avisou a mãe. Ela respondeu que estava sem fome e foi para o quarto. Sentada na cama, sentia-se um tanto angustiada. É pro lanche, Executivo dissera. Mas um lanche não custava tudo aquilo. Na verdade, com cem reais ela poderia jantar num ótimo restaurante, vinho incluído. Assim sendo, era óbvio que não dera o dinheiro para lanche nenhum. Ele havia lhe pago pelo sexo, era óbvio.

Eu não sou uma puta, falou para si mesma mais uma vez, e dessa vez amassava forte na mão a nota de cem. Que merda, como os homens podiam ser tão insensíveis? Levantou da cama e foi ao banheiro, controlando-se para não chorar. Por que ele tinha que estragar tudo? Fez um bolinho com a nota e jogou no vaso sanitário. Eu não sou uma puta. Ao contato com a água, a nota abriu-se e ficou boiando, como se olhasse para ela, duvidando do que ela dizia. Eu não sou uma puta e nem preciso dessa grana escrota, murmurou, a voz abafada pelo som da descarga.

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AGranaDoLanche-06acap. 2

NOS DIAS QUE SE SEGUIRAM, Dinorah ruminou sobre o assunto. Não estava arrependida, mas… havia a questão dos cem reais. Será que ele realmente achava que ela era puta? O que teria pensado, que naquela sexta, em vez de faturar, a puta decidira transar com um cara qualquer sem cobrar, e que coincidiu de ser ele? Mas, se fosse isso, por que ainda assim lhe dera dinheiro? Que merda, Dinorah não se conformava. Será que uma mulher não tinha o direito de trepar com um desconhecido sem ser confundida com uma puta?

No espelho do armário, nossa menina observou-se dezenas de vezes, virando de lado, fazendo poses. Será que tinha jeito de puta? Não, não podia ser isso, ela era uma garota normal, vestia-se como suas amigas e não exagerava na maquiagem. E, além do mais, tinha ódio dessas meninas muito fáceis, e sempre fora convictamente monogâmica em todos os seus relacionamentos.

Contou tudo para Pati. Desencana, respondeu a amiga, você não é puta, e o cara quis apenas ser gentil. Mas Dinorah não desencanou. Pesquisou sites de prostituição, olhou as fotos das garotas de programa, viu que a maioria cobrava mais que cem reais. Como Executivo podia achar que ela era uma daquelas mulheres?

Na última sexta do mês ela terminou o almoço no restaurante da faculdade e decidiu não ir às aulas da tarde, estava ansiosa demais, não conseguiria se concentrar. Botou os livros na mochila e foi para o café no shopping. Sentou-se em sua mesa predileta, pediu um capuccino e esperou. Meia hora ela esperou. Uma hora. Quase duas horas depois Executivo chegou, vestido do mesmo jeito, o paletó aberto, a pasta de executivo, e logo que entrou, percebeu sua presença. Posso sentar?, ele perguntou, simpático. Parecia contente em revê-la. Ela não conseguiu sorrir. Mas fez que sim com a cabeça e ele sentou.

– Cara, vou ser bem direta e quero que você seja sincero, tá? Por que você me deu aquela grana? Você acha que eu sou puta?

Ensaiara cuidadosamente aquelas exatas palavras durante as duas horas em que esperou por ele. Mas não falou nada disso. Porque simplesmente era uma questão que não tinha mais importância. Bem, na verdade ainda tinha importância, sim, mas de um outro modo… Saíra mais cedo da faculdade para garantir que o encontraria, e queria reencontrá-lo para tirar a limpo a história dos cem reais, sim, mas… algo nela havia mudado durante aquelas duas horas. Uma ideia estranha sobrevoava seus pensamentos, tão estranha que não ousava admiti-la… Mas de uma coisa ela sabia: queria transar novamente com aquele cara.

Uma hora depois, no motel, sob o peso do corpo dele, Dinorah gemia de prazer. Não era exatamente tesão pelo Executivo que sentia, e não era apenas tesão por estar sendo fodida por um quase desconhecido às cinco da tarde num motel, enquanto suas colegas assistiam aula de Direito Processual. Sim, tudo isso era excitante, porém enquanto ele metia firme em sua buceta e segurava suas pernas escancaradas na posição do frango assado, e ela assistia a tudo pelo espelho do teto, nossa menina fechou os olhos e imaginou os dois voltando para o shopping… Imaginou o táxi parando, os dois no banco de trás e… E o quê? A imagem seguinte parou um segundo antes de surgir em seu pensamento, esperando sua autorização. O táxi chegando no shopping, parando e… e…

Sem esperar mais pela autorização, a imagem que faltava invadiu de vez seu pensamento. O táxi para no shopping, Executivo abre a carteira, tira uma nota de cem e entrega a ela. Enquanto a imagem congelava em sua mente, ela recebendo o dinheiro no táxi, e na cama Executivo metia fundo em sua buceta, Dinorah gozou, de um jeito que nunca havia gozado antes, tão intenso que parecia que não ia acabar mais. E quando enfim acabou, na verdade não havia acabado: ela o abraçou com as pernas, puxando-o forte contra seu corpo e exigindo que ele continuasse a meter, e gozou novamente, outra vez intenso, uma coisa louca.

Pouco tempo depois, o táxi parou no shopping. Executivo deu-lhe um beijo no rosto e disse que no mês seguinte estaria no mesmo lugar novamente. Ela apenas sorriu. E aguardou quieta, sentada ao lado dele, as pernas juntas, mochila ao colo. Como nada aconteceu, ela aproximou a boca de seu ouvido e perguntou baixinho: Você não tá esquecendo nada? Ele pensou por alguns segundos, até que finalmente compreendeu. Então abriu a carteira, tirou uma nota de cem e deu para ela. Dinorah guardou-a na mochila, disse obrigado, abriu a porta e saiu. Instantes depois, no café, tomou o capuccino mais gostoso de quantos já tomara em toda sua vida.

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AGranaDoLanche-06acap. 3

NA SEMANA SEGUINTE, Dinorah marcou com Pati num barzinho, queria contar sobre seu segundo encontro com Executivo. Ela adorava sair com a amiga, apesar de Pati, morena do tipo gostosona como era, sempre atrair todos os olhares disponíveis do ambiente. Na noite em que se conheceram, numa festinha quatro anos antes, Pati beijava um cara e convidou Dinorah a se juntar a eles. Dinorah riu, pensando que aquela garota devia ser muito louca. Mas pensou por que não e aceitou. O beijo ficou triplo e eles terminaram na cama. No dia seguinte, já eram amigas.

Nossa menina chegou ao barzinho e viu a amiga bebendo no balcão com um homem. Ao ver Dinorah, Pati deixou-o lá sozinho e foi abraçá-la.

– Você vai dispensar aquele gato? – Dinorah perguntou.

– Dei pra ele ano passado. Deixa o gato ficar com mais vontade.

– Pati sempre arrasando os corações…

Sentaram-se numa mesa, e Dinorah contou o que acontecera na sexta anterior.

– Você cobrou pra transar, sua danadinha! – Pati comentou, surpresa.

– Eu não, só queria a grana do lanche. E nem precisava tanto.

– Mas você falou pra ele que era pro lanche?

– Não.

– Humm. Então agora ele vai achar que você cobrou pelo sexo.

– Talvez eu tenha cobrado mesmo.

‒ Talvez ou cobrou? Decida-se, Dinorah.

‒ Antes eu estava realmente superencucada, mas admito que, na verdade, eu estava achando excitante a ideia de ser paga pra transar. Nessa segunda vez, isso ficou claro pra mim.

– O nome disso não é prostituição, amiga?

– Ou será um fetiche?

– Você acaba de inventar o fetiche remunerado.

– Você também sai com os caras, Pati, eles te levam no carro deles, te pagam barzinho, restaurante, motel… É a mesma coisa, não? No meu caso, foi uma grana pro lanche.

– Tá bom, você venceu. Mas você por acaso gastou a grana com lanche?

– Não. Mas podemos gastar agora. Vamos pedir o quê?

– Ai, amiga, você não existe!
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AGranaDoLanche-06acap. 4

NÃO POSSO SER UMA PUTA, pensava Dinorah, sentada diante de seu guarda-roupa, porque puta nenhuma no mundo teria um guarda-roupa tão comportado. Porém, ser paga para transar, ah, isso tinha que admitir: era uma delícia. Nem o preço importava, o dinheiro em si não era importante, ela não precisava dele. Importante era ser paga. Lembrou da segunda transa, de como foi bom, do quanto se excitou imaginando que logo depois seria paga… Será que as putas também sentiam aquele mesmo tipo de excitação gostosa, aquele frenesi de saber que o homem à sua frente dispõe-se a gastar uma grana para estar dentro dela?

Decidiu dar um passo adiante em seu fetiche. Quando, no fim do mês, reencontrou Executivo no shopping e foram novamente para o motel, dessa vez ela fez diferente. Tirou a roupa, ficou inteiramente nua e pediu que ele se encostasse na bancada, o que ele fez. Ela ajoelhou-se no chão, abriu sua calça, pôs o pau para fora e o acariciou, vendo-o crescer rapidamente em suas mãos até ficar imenso e inteiramente rijo. Passou a língua devagar por toda sua extensão, beijou-o delicadamente na ponta e, um instante antes de começar a chupá-lo, parou de repente. Ergueu o rosto e olhou para ele. E falou, calmamente: Hoje eu quero adiantado.

Surpreso, Executivo abriu os olhos. Durante alguns segundos os dois se olharam em silêncio, o pau dele, duro e latejante, a um centímetro da boca de nossa menina, feito uma lança paralisada em pleno voo. Executivo sorriu e disse que aquilo não era problema. Ainda encostado na bancada, pegou a carteira, tirou uma nota de cem reais e entregou a ela. Dinorah pôs a nota sobre a cama e voltou à sua posição de joelhos. Segurou Executivo pelas coxas e começou a chupá-lo, fazendo exatamente como num vídeo erótico que vira aquela semana, engolindo o máximo que podia até senti-lo na garganta, até engasgar-se e lágrimas descerem por seu rosto, e depois voltando lentamente até a ponta da cabeça, sem deixar em nenhum momento de envolvê-lo totalmente com os lábios, sem usar as mãos, e repetindo o movimento cada vez mais rápido.

Pouco depois, ela percebeu que as pernas do Executivo tremiam e ele se apoiava na bancada com os braços. Ela o escutou gemer mais forte e logo depois sentiu o jato de sêmen em sua boca, um gosto de doce e salgado, morno, quase quente, que ela saboreou e engoliu. Depois afastou a boca e dirigiu o resto do jato para seu rosto, e com a outra mão espalhou o líquido pelas duas faces, pela boca, pelo pescoço, pelos peitos. Enquanto Executivo dobrava-se para trás, Dinorah, ainda ajoelhada e toda lambuzada de sêmen, olhava para a nota de cem sobre a cama e maravilhava-se de ser a mulher mais suja e feliz do mundo.

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DIAS DEPOIS DO TERCEIRO ENCONTRO com Executivo, Dinorah conheceu Bruno num bar, e o interesse foi mútuo. Ela, porém, não queria namorar, estava adorando a vida de solteira, e não cogitava interromper os encontros com Executivo. Mas Bruno insistiu, e uma noite transaram no apartamento dele. No dia seguinte, ela disse que não queria namorar, mas que topava ficar com ele, e assim foram ficando, ficando, até que um dia ela percebeu que estavam se relacionando como namorados. E decidiu deixar a coisa como estava.

Pouco mais velho que ela, Bruno administrava os postos de gasolina do pai, era rico e morava numa cobertura. Com ele o sexo até que era bom, mas… sempre faltava um algo mais. Ou ela é quem andava muito exigente? Sim, talvez fosse isso. As transas com Executivo haviam despertado seu lado selvagem, e com Bruno ela não se sentia sexualmente completa.

Uma noite, durante um fim de semana que passavam na serra, ela percebeu que havia putas na pracinha próximo ao hotel. A visão das garotas se oferecendo aos homens a fez sentir-se especialmente tarada naquela noite. Foram para o quarto do hotel e ela pediu que ele entrasse depois, exatamente cinco minutos depois. Bruno topou a brincadeira e quando entrou, ela estava nua, de quatro sobre o sofá, e o chamava: Quero que você me coma aqui. Bruno perguntou se ela não gostaria de tomar um banho antes. Não ‒ foi sua resposta, enfática. Pouco depois, enquanto Bruno satisfazia sua vontade, ela, gemendo alto de prazer, pediu que ele a chamasse de puta. Ele não chamou, e ela insistiu e insistiu, até que ele obedeceu. Mas o puta dele foi tão sem ênfase que ela não aguentou:

– Me chama de puta, porra, de puta safada! Vai, me chama, porque é isso que eu sou mesmo, uma putinha vagabunda! Eu sou muito putaaaaaaa!!!

E foi assim que ela gozou, o namorado comendo-a de quatro no sofá e ela berrando que era puta, para desespero dele, preocupado com o escândalo. E, apesar de Bruno nunca participar do texto exatamente como ela queria, assim passaram a ser seus melhores gozos, ele metendo nela de quatro e ela gritando que era puta, muito, muito puta.
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OS ENCONTROS COM EXECUTIVO se sucediam, sempre na última sexta do mês, quando ele ia à capital. Encontravam-se no café do shopping e seguiam para o motel. Quase não se falavam, não era necessário. Dinorah não queria saber sobre a vida dele e ele não tinha interesse pela vida dela – tudo que queriam era sexo. Os cem reais do lanche, Executivo pagava adiantado, logo que chegavam ao motel. A nota, Dinorah fazia questão de deixá-la à vista, e adorava ser fodida olhando para ela.

Era uma puta? Ou tudo aquilo era apenas uma fantasia? Ela ainda se perguntava isso. E ainda não sabia a resposta. Sempre escutara que o motivo das mulheres virarem putas era a falta de perspectivas ou os problemas familiares. Ela não tinha nenhum problema sério, levava uma vida confortável, tivera educação religiosa e mantinha uma ótima relação com seus pais. Não tinha motivo para querer ser uma puta. Bem, na verdade tinha um, sim: o fetiche de ser paga. Será que alguma outra mulher já havia virado puta pelo mesmo motivo?

Pelo sim, pelo não, nossa menina decidiu dar uma renovada no guarda-roupa. Comprou roupas novas, uns vestidos mais justos, umas calcinhas mais safadas. E comprou um vestidinho branco colante que jamais pensou que teria coragem de usar. Usou-o a primeira vez com Executivo. Enquanto o aguardava no café, sentiu que os homens a devoravam com o olhar. Era a primeira vez que era olhada daquela forma tão explícita. E era um delícia. Executivo adorou o vestido e pediu que ela o vestisse sempre, e sem calcinha, no que foi atendido. Não tem sempre razão, o cliente?

Executivo nunca lhe perguntou se ela de fato usava o dinheiro para lanchar. Ele apenas pagava e pronto, e Dinorah apenas recebia e transava que nem uma puta, ou pelo menos como achava que uma puta transava, com muita vontade. Passou a ler bastante sobre prostituição, devorando tudo que encontrava sobre práticas sexuais e preferências masculinas. Via vídeos na internet e depois praticava com, digamos assim, seu cliente.

– Cliente? É assim que você tá chamando o cara? – perguntou Pati, rindo da amiga. – Então você já assumiu a putice.

– Existe puta de um homem só?

– Se não existia, agora existe.

– Se ele me vê assim, pra mim tanto faz.

– Então deixe de ser besta e cobre mais, amiga.

– Ah, Pati, não é pela grana, é pelo prazer.

– Prazer tem esse cara. Conseguiu uma putinha bonita, classuda, futura advogada, que dá pra ele por cem pilas. Mixaria. Eu cobraria mais, na boa.

– Mas você é gostosona, Pati, tem peitão, bundão. Eu sou normal.

– Mas fode bem, não fode? É disso que os caras gostam.

Sim, fodia bem. Executivo que o dissesse. A cada vez Dinorah se soltava mais e vivia mais verdadeiramente seu fetiche de ser puta. Não importa se você tem prazer, aconselhava uma prostituta num livro de memórias, faça-os crer que tem e eles adorarão isso, e você terá real prazer por vê-los tão felizes. Interessante, pensou ela, matutando sobre esse trecho. Com Executivo, ela não precisava fingir, pois realmente sentia prazer. E sentia prazer não apenas físico, mas também em descobrir que aquela experiência lhe permitia explorar intensamente sua sexualidade, sem qualquer tipo de culpa, e isso era maravilhoso. Passou a adorar que ele gozasse em sua boca: ela engolia tudo e queria mais, sinceramente sedenta do jorro de sêmen. Aprendeu também a fazer anal, a receber o pau dele inteiro em seu cu, e se no início doía, depois passou a gostar e um dia foi assim que gozou, sentada sobre Executivo, o pau dele totalmente enterrado em seu cu, e ela subindo e descendo feito uma louca descabelada, transtornada pela sensação de estar sendo absolutamente preenchida por trás… e ainda ser paga por isso. Ah, era muita felicidade.

E o namoro com Bruno? Ia do mesmo jeito. Fora da cama se entendiam muito bem, saíam, bebiam e iam a festas, mas no sexo ela continuava um tanto insatisfeita. Sim, tinha prazer com ele, e ele com ela, mas com Bruno não conseguia ser a puta que sentia ser. Sexo anal, por exemplo, ele se recusava a fazer, dizia que era nojento, e ela não se conformava com isso.

Uma noite, enquanto viam um documentário sobre prostitutas na TV, Dinorah comentou que elas eram muito corajosas por trabalhar na rua de madrugada. E Bruno respondeu que elas não eram corajosas, eram doentes. Ela argumentou, dizendo que aquele era o trabalho delas, mas ele disse que era um trabalho de gente doente, e que quem pagava também era doente. Aquilo atingiu nossa menina em algum ponto sensível, era como se Bruno estivesse falando dela, e ela não era doente. Depois desse dia, Dinorah achou mais prudente não tocar no assunto. E deixou de gritar que era puta quando ele a comia de quatro. Uma pena, pois era o prazer mais gostoso que tinha com ele.
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UM DIA DINORAH RECEBEU a notícia que menos esperava. Após a transa, ainda no motel, Executivo lhe disse que um novo gerente assumiria seu lugar na empresa e que, por isso, ele não iria mais à capital. Aquela, portanto, era a última vez que se viam. Dinorah escutou em silêncio, sem conseguir acreditar. Ficou arrasada. Quando chegaram de volta ao shopping e ele lhe estendeu a nota de cem, ela olhou para ele com desdém e disse: É por conta da casa. E saiu.

Foi como se de repente lhe puxassem o chão de seus pés. De uma hora para outra ela perdia sua fantasia. Fantasia? Não, era mais que isso, e só agora ela se dava conta do quanto realmente precisava daquilo em sua vida. Ser puta não era só fantasia, era uma parte de sua vida que não podia mais ignorar. Foram treze meses lindos, treze encontros com Executivo onde aprendeu mais sobre sexo que em todas as suas experiências anteriores. Se dependesse dela, aqueles encontros nunca teriam fim.

E agora?, ela se perguntava, inconformada. Agora tinha apenas seu namorado, que não percebia o que ela era. Dinorah virou-se na cama, sem sono, e conferiu no relógio as três horas da madrugada. Puta. E pela milésima vez pensou no significado daquela palavra.

Dias e dias de tristeza, noites e noites mal dormidas. Dinorah não se conformava em ter sido abandonada. Até que um dia, quando já não suportava mais, entrou em contato com Executivo e perguntou se poderia visitá-lo em sua cidade uma vez por mês. Ela iria por conta própria, ele não precisaria se preocupar com nada. Mas Executivo disse que não seria possível.

– Por favor, você é meu único… cliente – ela completou a frase, e não se surpreendeu com o que dizia.

– Você vai conseguir outros, Loirinha, você é ótima.

– Você acha caro? Posso fazer por cinquenta.

– Obrigado, mas…

– Faço por dez reais, você quer?

– Loirinha, por favor…

– Um real.

Silêncio. Dinorah esperava ansiosa pela resposta. Acabara de pedir um real para transar. A puta mais barata do mundo.

– Você vai me cobrar um real? Tá falando sério?

– Sim.

– Como você pode cobrar um real por um programa?

– E como você pode não querer?

– Eu realmente não entendo.

– Não tente entender. Apenas aceite, por favor…

Novo silêncio. Dinorah sabia que havia ido longe demais. Mas era sua última cartada.

– Desculpa, Loirinha, não vai dar.

É, não deu. Executivo realmente não estava mais a fim. Ele, porém, disse que falaria com o gerente substituto, talvez se interessasse. Você promete?, perguntou nossa menina, um brilho de esperança acendendo-se em seus olhos. Ele prometeu.

Os dias seguintes foram de uma terrível expectativa. Ficou difícil prestar atenção às aulas. Passou a se irritar com qualquer coisa que Bruno dizia, e o sexo com ele, que já não era essas coisas todas, foi rareando até que ela perdeu de vez a vontade. Preocupado, ele perguntou o que estava acontecendo e ela desconversou, dizendo que estava concentrada nas provas da faculdade. Até mesmo a mãe percebeu algo errado, e para ela Dinorah disse que o problema era o namoro, que não ia bem. Para Pati, porém, contou a verdade, e a amiga sugeriu que fosse franca com Bruno e revelasse sua tara secreta.

– Ele me larga na mesma hora – Dinorah respondeu.

– Você arruma outro rapidinho, sua boba.

– Que homem iria aceitar isso, Pati?

– É. Só um cafetão mesmo.

– Cafetão eu não quero.

‒ Qual é o problema? Se alguém te arruma cliente, é justo que ganhe comissão.

– Eu sei que é justo. Mas não quero mais gente envolvida, entende?

‒ Então reza pro novo gerente gostar de você.

Um mês depois, o celular de Dinorah tocou. Era o novo gerente. Ele estava na capital e queria conhecê-la. No dia seguinte, uma sexta, ela pôs o vestidinho branco, sem sutiã e sem calcinha, e foi encontrá-lo no bar do hotel onde ele se hospedava. Chamava-se Jaques, era mais novo que Executivo e era um cara muito bonito. Ele disse que seu colega havia falado bem dela e que estava interessado.

– Ele te falou como é o meu esquema?

– Sim, Loirinha. Cem reais adiantados, né?

– Isso mesmo.

– Fechado. Vamos subir pro meu quarto?

– Você decide, Chefinho. Posso te chamar assim, você tem jeito de Chefinho.

E assim foi. Naquela noite, no décimo quinto andar do hotel, Dinorah foi novamente puta, agora com um novo cliente. Ele pagou adiantado, ela pôs o dinheiro sobre a mesinha ao lado e falou: Agora deixa tua putinha te chupar, Chefinho. E abriu a calça dele, recebendo em sua boca o pau do novo cliente, e nessa noite ela entendeu que os clientes de uma puta eram diferentes, uns mais cuidadosos, outros mais rudes. Aquele era do tipo rude. Não tinha o pau grande como o de Executivo, mas era um tanto indelicado, o que não a impediu em nada de sentir-se feliz, afinal estava novamente fazendo o que adorava fazer, estava outra vez transando por dinheiro. E dessa vez havia algo de muito especial: era a primeira vez do cliente, e era preciso fidelizar a clientela. Quer comer meu cu, Chefinho, é oferta especial da casa, ela perguntou, manhosa. E Chefinho quis, sim, e a pôs de quatro e a enrabou com violência, puxando seu cabelo, e Dinorah, mesmo sentindo-se rasgada por dentro, deleitou-se ao observar-se no espelho ao lado, parecia uma cadela devassa, e bem à sua frente, sobre a cama, os cem reais do lanche, mais belos que nunca.
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A VIDA VOLTOU AO NORMAL para Dinorah. As aulas voltaram a ser o que eram, a irritação com Bruno sumiu e até o sexo com ele ficou mais interessante. Bem, não tão interessante como com Chefinho, é verdade, que, diferente de Executivo, ia à capital duas vezes por mês. E sempre que ia, procurava Dinorah. E ela não recusava, o que a obrigou a ter o dobro de cuidado para que Bruno não desconfiasse.

Um dia, Chefinho disse que queria sexo a três, e perguntou se ela por acaso não tinha uma colega. A ideia não a agradou muito, mas não podia perder o novo cliente. Ela disse que falaria com uma amiga. A amiga era Pati, claro, a única que poderia topar aquela parada e, além disso, elas já haviam transado a três uma vez, não seria nenhuma novidade. Pati trabalhava como operadora de telemarketing para poder pagar a faculdade de Turismo e uma graninha extra certamente seria muito bem vinda. Além disso, era inteligente e descolada, saberia lidar bem com a situação.

– Ai, amiga, não sei se eu levo jeito pra puta.

– Ah, nem vem, eu sei que você gosta de uma boa putaria. E ele é lindo, você daria pra ele de graça.

– É rico?

– Acho que sim.

– Quanto a gente cobraria?

– Semana que vem ele volta. A gente marca um encontro e você negocia, que tal? Você é melhor que eu nisso.

Na semana seguinte, elas se encontraram com Chefinho no bar do hotel. Pati foi vestida com uma minissaia bem curta e um decote tão generoso que a cada dez segundos magnetizava o olhar abobalhado do Chefinho. Ele gostou dela, que se apresentou como Morena, e ofereceu duzentos.

– Pra cada uma, Chefinho? – perguntou Pati, à frente das negociações.

– Não, pras duas.

– Então nada feito.

Dinorah tremeu. Tudo que não podia acontecer era perder o cliente por ganância da amiga. Mas confiava nela.

– Quanto vocês querem?

– Quatrocentos é um preço justo.

– Tudo isso? Sua amiga cobra cem.

– Meu lanche é mais caro, Chefinho.

Dinorah suava. Conhecia bem Pati e sabia de sua personalidade forte e determinada. Determinada até demais. Talvez não houvesse sido uma boa ideia…

– Pago trezentos, Morena.

– Trezentos é o meu preço. Pague mais cem e terá duas meninas lindas e fogosas em sua cama.

– Você é tão competente quanto sua amiga?

– Se você não gostar, te devolvo a grana.

Dinorah aguardou nervosamente a resposta do homem. À frente dele, os peitos de Pati se ofereciam feito dois melões numa bandeja, e Chefinho, coitado, até se esforçava por não olhá-los, mas seus olhos inapelavelmente escorregavam para dentro do decote da Morena e a muito custo é que conseguiam sair de lá. Chefinho afrouxou o nó da gravata, deu um gole no uísque e falou, enfim, que o negócio estava fechado. Enquanto ele pedia a conta ao garçom, Pati piscou um olho para Dinorah, que sorriu aliviada.

Pati precisou devolver o dinheiro? Longe disso. As duas deram muito prazer ao Chefinho, uma de cada vez, as duas juntas, os três misturados, o pau na buceta da Loirinha e a boca nos peitos da Morena, Morena chupando Loirinha e Chefinho enrabando Morena… Duas horas depois ele estava esgotado, mas totalmente satisfeito com o dinheiro investido.

Quinze dias depois, Chefinho voltou à capital e a dupla Loirinha e Morena novamente compensou cada real pago por elas. Dinorah e Pati, grandes amigas e agora grandes parceiras do ménage à trois. Para Pati, além do prazer da putaria, que ela realmente gostava, havia agora seiscentos reais todo mês ajudando bastante no orçamento. Para Dinorah, alívio: o cliente estava garantido. E ainda ajudava a amiga. Tudo sob controle.

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A VIDA, PORÉM, RESERVAVA surpresas desagradáveis para nossa menina. Uma noite, três meses depois do início da parceria sexual com Pati, ao chegar à cobertura de Bruno, ela percebeu de imediato que algo não estava bem. Bruno recusou o beijo e disse que queria conversar. Sentaram-se no sofá, mas ele logo levantou-se e perguntou:

‒ Há quanto tempo você faz programa?

Dinorah tomou um susto tão grande que ficou muda.

‒ Não vai responder? ‒ ele insistiu.

Ela pensou em fingir que não sabia do que ele falava, mas percebeu que não conseguiria. E respondeu a verdade, que começara pouco antes de conhecê-lo. Ela podia ver a sombra da decepção em seus olhos, ele estava arrasado. Perguntou-lhe como descobrira e ele disse que dias antes um amigo a havia visto num bar com Pati e um homem, e os seguiu até o motel. Por quê, Dinorah?, Bruno perguntou. E ela nada respondeu. Por quê, Dinorah? E dessa vez ela respondeu a única coisa possível: Porque eu gosto.

O clima era horrível. A vontade era de levantar e sair correndo, mas ela sabia que não podia fugir assim daquele momento. Bruno tinha direito a um mínimo de consideração de sua parte.

– Não vai dar pra continuar.

– Desculpa, Bruno. Eu não queria que terminasse assim.

– Por isso você sempre defendia as putas. Você é uma delas.

Dinorah fechou os olhos. Ouvir aquilo daquela forma era doloroso. Mas…

– Você é uma doente, Dinorah.

Era doloroso, sim, mas foi nesse momento, confrontada com a acusação que sofria, que ela finalmente compreendeu. Não, não era doente. Era uma puta. Não era a sua profissão, mas gostava de transar por dinheiro, e isso era o bastante, não? Sim. Tinha alma de puta. Fosse fetiche, fantasia ou realidade, era isso que ela era: uma puta. Era puta, sim. De corpo e alma.

– Eu não menti pra você, Bruno. Te falei várias vezes que eu sou puta.

– Falou? Quando?

– Quando a gente transava.

– Mas… na transa não vale.

– É nesse momento que uma mulher revela suas melhores verdades, você não sabia?

Bruno não respondeu. Tinha os olhos marejados e olhava para um ponto qualquer no espaço. Dinorah sentiu pena dele, mas sabia que nada mais havia a ser feito. Caminhou até a porta, abriu e, após dezoito meses de um namoro que nunca deveria ter começado, saiu para sempre da vida de Bruno.

Naquela noite não conseguiu dormir, seu ser inteiro era um turbilhão de pensamentos e sentimentos. Por um lado, estava triste por Bruno. Não o amava, mas gostava dele. Como poderia ter sido diferente? Não, não poderia, ele jamais aceitaria sua condição. Por outro lado, sentia-se aliviada, pois agora finalmente não tinha mais dúvidas: ela era puta, sim. Transar por dinheiro era delicioso e não machucava ninguém, o que havia de errado nisso? Por que não continuar? E já que namorado nenhum a aceitaria, ela seguiria solteira mesmo, pelo menos enquanto sentisse prazer em ser puta.

Quando amanheceu e a claridade do dia invadiu o quarto, ela estava em paz consigo mesma, não mais havia conflito em sua alma. Então levantou e encontrou os pais na sala tomando café. Sentou à mesa e eles logo comentaram sobre o estado de espírito da filha. Ela riu e contou que estava novamente solteira. A mãe comentou que ela estava mais bonita, e que o namoro não estava mesmo fazendo bem a ela, e o pai lembrou que em poucos dias ela receberia o diploma de advogada, bola para frente, minha filha. Página virada, vida nova, ela respondeu, sorridente.

Após o café, calçou os tênis e, enquanto os pais saíam para a missa das oito, seguiu para o parque. Era um belo domingo ensolarado, ela pensou, perfeito para recomeçar a vida. Do parque mesmo ligou para Pati, para contar as novidades. Falou que ainda estava triste por Bruno, mas que se sentia muito feliz por ter finalmente assumido o que ela, de fato, era. E preveniu a amiga:

– Ele sabe que você também tá no esquema, Pati. Melhor a gente tomar cuidado.

– Eu não tô mais, Dinorah.

– Como assim?

– Eu ia te contar num momento mais oportuno… mas acho melhor resolver isso agora.

Dinorah sentiu um calafrio. O tom de voz da amiga a assustava.

– Mas… você estava tão animada. O que aconteceu, Pati?

– Eu e Jaques estamos namorando.

Ficou em silêncio. Pati e Chefinho namorando? Escutara direito?

– Viajo na próxima semana, já tô com tudo pronto. Vou morar com ele.

Não. Pati só podia estar brincando.

– É sério, Dinorah. Você vai ter que arrumar outro cliente.

– Mas… Pati…

– Desculpa, Dinorah. Boa sorte.

Ela escutou o som da ligação encerrada. Sentada no banco do parque, tinha a impressão que estava sonhando, que em breve algo aconteceria e ela, puff, despertaria. Mas nada aconteceu. Cinco minutos antes sorria feliz para o mundo, e agora estava totalmente sem chão. O namorado descobrira que ela era puta e o único cliente que tinha a abandonara para ficar com sua melhor amiga. Sem cliente, sem amiga, sem namorado, sem nada. Aquilo era a realidade, brilhando tão forte quanto o sol sobre sua cabeça.
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UM MÊS DEPOIS, RECUPERADA DO BAQUE, Dinorah começou a estudar as possibilidades. Tinha vinte e sete anos, era agora uma advogada formada e trabalhava num importante escritório. Dois anos antes começara a transar por dinheiro e descobrira nisso o grande prazer de sua vida. Embora tivesse plena consciência de todos os riscos envolvidos, não estava disposta a abrir mão do prazer. Precisava fazer algo para continuar tendo sexo pago.

Mas o quê, exatamente? Bater ponto em alguma rua? Não, isso estava fora de cogitação, pois temia por sua segurança e nem podia tornar públicas suas atividades. Os bares dos hotéis pareciam ser uma opção interessante, mas desistiu quando descobriu que teria que deixar uma gorda comissão com os gerentes. Tudo de que precisava era um único cliente, só isso.

Optou pelo Pai Tomás, um bar de sinuca que era frequentado também por mulheres que faziam programa. Lá certamente não encontraria conhecidos. Escolheu um vestido discreto, chegou no bar cedo e sentou-se num banco do balcão. Pediu um suco. Enquanto reparava no ambiente, percebeu que um cara acenava para ela da mesa de sinuca. Um segundo antes de sorrir de volta, reconheceu o cara: era um conhecido da faculdade. Que merda, pensou Dinorah, assustada. Desanimada, levantou e foi embora.

No dia seguinte, pesquisou mais lugares e encontrou um bar num bairro distante. Talvez lá não topasse com conhecidos. De fato, não topou, mas os homens que o frequentavam eram feios e grosseiros, jamais transaria com eles, nem por pouco nem por muito dinheiro.

Não lhe agradava ter que anunciar-se em sites de garotas de programa, mas pelo jeito não havia opção melhor. Então criou coragem e ligou para um número que conseguira num dos tais sites. Era o telefone de um tal Dinho, o cara que fizera as fotos das garotas. A ideia era fazer fotos bonitas e sensuais como aquelas, mas ela posaria de máscara para não ser reconhecida. Um dia depois ela foi ao estúdio conversar com o fotógrafo. Dinho tinha cinquenta anos, era um profissional experiente e lhe pareceu um cara confiável. Ela explicou que queria as fotos para fazer uma surpresa ao namorado, e marcaram a primeira sessão de fotos para a semana seguinte. Ela comprou algumas peças de lingerie, luvas e apetrechos. E as máscaras, claro.

No dia marcado, lá estava nossa menina, nervosa mas decidida. Dinho a tranquilizou, dizendo que ela era uma mulher linda, de sensualidade natural, que não ia ser difícil fazer boas fotos, e que podiam explorar seu jeitinho de menina, misturando ingenuidade e malícia, e ela adorou a ideia. Ele explicou que no estúdio ficariam apenas ele e sua assistente, que o ajudaria na iluminação e na troca de roupa. Combinaram que naquela primeira sessão ela fotografaria vestida e que, na segunda sessão, com ela mais relaxada, fariam as fotos de nu. Ele perguntou se ela aceitava uma taça de vinho para relaxar, mas ela recusou. E assim, durante as três horas seguintes, Dinorah experimentou várias poses, fez caras e bocas e trocou muitas vezes de roupa. Ao fim, Dinho elogiou-a e disse que ela se saíra muito bem.

Três dias depois, fizeram a segunda sessão, e dessa vez Dinorah aceitou a taça de vinho, pois estava mais nervosa. Foi uma sábia decisão. O vinho a ajudou a relaxar e ela posou com muita naturalidade para a lente de Dinho, seminua e totalmente nua, e enquanto os cliques se sucediam, ela lembrava das noites com Executivo e Chefinho, e aquilo tudo a deixou num tal estado de excitação que teve ímpetos de se masturbar ali mesmo, na frente de Dinho e de sua assistente. Quando a sessão terminou, ela continuou deitada sobre as almofadas por algum tempo, nua e relaxada, curtindo as boas possibilidades com que o futuro lhe acenava. Acho que temos fotos maravilhosas, Dinho falou, você fotografa muito bem. Dinorah agradeceu o elogio e a assistente lhe entregou sua roupa.

Dias depois, ela voltou ao estúdio e gostou bastante das fotos, todas feitas com muito bom gosto. As máscaras lhe escondiam bem a identidade, e seu corpo parecia mesmo o de uma adolescente. Mesmo nua e em poses provocantes, alguém diria que aquela garota era uma puta?

Pagou o restante do acertado e levantou-se para ir embora.

– Seu namorado é um cara de sorte – Dinho disse. – Ele vai ter uma bela surpresa.

Dinorah parou e pensou um pouco. Por que mentir para ele?

– Na verdade, não tenho namorado.

– As fotos são pra algum trabalho?

– Ahn… Não. Sim.

Dinho sorriu, e pelo sorriso, Dinorah desconfiou que ele já havia entendido tudo. Sentiu-se desmascarada.

– Fique tranquila, Dinorah, sou um profissional e já tô acostumado com esse tipo de trabalho. Se quiser alguma dica de site, posso sugerir alguns muito bons.

– Na verdade… – ela começou a responder, sem jeito. – Eu não sou exatamente o que você tá pensando, Dinho.

Ele a olhou curioso. Ela reparou que ele tinha olhos pretos muito bonitos, como não reparara antes? Aliás, não eram apenas os olhos, ele era realmente um cara bonito e charmoso, aqueles cabelos grisalhos, o porte elegante…

– O que você é, então?

De repente, ela sentiu uma imensa vontade de contar tudo para ele. Sim, mal o conhecia, mas talvez ele pudesse realmente ajudá-la, quem sabe?

– Tem um barzinho legal aqui perto, quer ir comigo? – ele perguntou.

Meia hora depois, na mesa do bar, Dinorah abriu o jogo sobre sua fantasia de transar por dinheiro. Contou sobre os programas com Executivo e Chefinho, o namoro frustrado com Bruno, o lance com Pati e também sobre seus planos de usar as fotos para conseguir um novo cliente. Dinho escutou tudo em silêncio. Ao fim, ela falou:

– Tá surpreso, né?

– Admito que sim.

– Você acha que eu sou uma puta?

Dinorah fez a pergunta e esperou nervosamente pela resposta. Não que ela fosse mudar o que pensava a respeito de si mesma, pois quanto a isso já não tinha dúvidas. Mas saber o que Dinho pensava tornara-se de repente algo muito importante.

– Não sei o que você é – ele respondeu, olhando sério em seus olhos. – Mas se é uma puta, então é a puta mais linda e verdadeira do mundo.

Ela ficou pasma. Não esperava por uma resposta como aquela. Ele tocou seu rosto com delicadeza, aproximou-se devagar, como se dando tempo para que ela recuasse, mas ela não recuou, e ele a beijou na boca. Suas línguas se envolveram num beijo quente enquanto as mãos buscaram com sofreguidão o corpo do outro. Dinorah estava gostando de tudo: o jeito dele de beijar, as mãos firmes em seu corpo, o cheiro… Séculos depois, quando suas bocas se separaram, ele falou, ofegante:

– Quero te comer, Dinorah. Agora.

Ela adorou ouvir aquilo. Já ia dizer eu também quando ele completou:

– Te pago adiantado, como você gosta.

Ela quase riu. Não seria nenhum sacrifício dar de graça para aquele cara, mas já que ele queria pagar, mil vezes melhor.

– Você me paga no motel.

– Pode ser em meu apartamento? Moro na rua de baixo.

– O cliente manda.

E foram. O apartamento era um quarto e sala com decoração simples e uma pequena sacada. Dinho pôs Lovage para tocar e a levou para o quarto. E lá transaram até a exaustão. Quando Dinorah acordou, já estava claro, e Dinho dormia ao seu lado na cama. Ela o observou por alguns instantes, admirando sua excitante beleza de homem vivido, as marcas no rosto… Para quem tinha cinquenta anos, ele estava bem, e até aquela barriguinha era um charme. E o pau, molinho como estava, nem lembrava o pau grosso e inquieto que horas antes metia gostoso nela, invadindo-a de todas as formas, com uma mistura de delicadeza e violência que ela adorou. Ela levantou-se, pegou a nota de cem no chão, vestiu-se e saiu em silêncio para que ele não acordasse. No elevador, viu-se no espelho e riu de sua cara de boba. Ah, não, Dinorah, ela pensou, você não está apaixonada, não está, entendeu?
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ESTA SIM, ESTA NÃO, ESTA SIM, esta não, esta sim. A escolha das melhores fotos não foi difícil, havia várias muito boas, e logo Dinorah tinha as suas prediletas separadas num arquivo em seu computador. Faria ainda uma segunda triagem e depois escolheria os sites onde as publicaria. Sua intenção era atrair homens de outras cidades, seria menos arriscado. Mas faria isso no dia seguinte, estava muito cansada, o dia fora cheio, com aula de manhã e à tarde, e no dia seguinte tinha que acordar cedo. E, além disso, havia dormido pouquíssimo na noite anterior.

A noite anterior… Ela desligou o computador e ficou lembrando da noite com Dinho, no apartamento dele. Fora uma transa incrível, maravilhosa mesmo. Ele a comera de um jeito que ela jamais havia sido comida antes, nem por Executivo, nem por Chefinho, nem por ninguém. Comera-a com vontade, com tesão, ao mesmo tempo com violência e com doçura, ao mesmo tempo o beijo alucinado e o pau entrando e saindo com delicadeza, como era possível aquilo? E metera nela olhando fundo em seus olhos, tão fundo que ela de repente se perdia no olhar dele e o quarto sumia, tudo sumia, e ela sentia-se uma coisa só junto dele, um único ser, que transava consigo mesmo… Que coisa louca.

Será que ele fazia isso com as outras garotas que fotografava? Será que havia gostado dela? Ele tinha um jeito especial de olhar, como se a visse como realmente era, e ela se sentia nua quando ele olhava assim, mais nua que quando esteve sem roupa diante dele no estúdio. Ou ele olhava assim para todas? Ele era atraente, inteligente, devia haver muita mulher atrás dele. Por que estava solteiro?

Dinorah virou-se na cama, sentindo-se docemente envolvida pelas lembranças da noite que teimava em não terminar. Será que ele ligaria, querendo outro programa? Ou era do tipo que não se envolvia com clientes? E se ela mesmo ligasse, com a desculpa de que queria fazer mais fotos? Parecia uma boa ideia, ela pensou, mas logo repensou: Caramba, e por que eu faria isso? Não. Não e não. Melhor esquecer o cara e se concentrar no que tinha a fazer. Se ele quisesse ser seu cliente, ótimo, e se ele foi um cliente de apenas um programa, ótimo também. E assim nossa menina adormeceu, com a questão resolvida.

Doce ilusão. A questão voltou à estaca zero dois dias depois: no escritório, durante o intervalo para o lanche, ela viu uma mensagem dele: Quero te ver de novo. Quem disse que conseguiu se concentrar depois disso? Enquanto tentava organizar o material de um cliente sobre sua mesa, os pensamentos e as dúvidas voltaram à sua mente. Até que não aguentou mais, saiu da sala e dirigiu-se ao banheiro, trancando-se num box.

– Oi, Dinho. É a Dinorah.

– Que bom que você ligou. Podemos marcar um horário?

Ele quer outro programa, pensou Dinorah, subitamente feliz.

– Claro. Pra quando?

– Pra hoje.

– Hoje?

‒ Sim, hoje.

‒ Bem, eu…

– Eu pago o dobro.

– Ahn… só um instante – ela falou, fingindo que estava em dúvida. ‒ Pode ser amanhã?

– Não. Eu pago o triplo, Dinorah. Não, o quádruplo. Mas tem que ser hoje.

Uau, ela pensou, desse jeito ele vai acabar me devolvendo tudo o que paguei pelas fotos…

– Deixa ver… Pode ser às dez? – ela perguntou, e achou aquilo superexcitante, fingir que consultava a agenda para ver se havia algum horário livre entre os programas do dia.

– Tá ótimo, te espero em meu apartamento. Você tem vestido preto?

Percebendo que alguém entrava no banheiro, respondeu baixinho:

‒ Tenho um que você não vai acreditar.

‒ Venha vestida nele, por favor.

Quando encerrou o expediente, foi direto para o shopping e comprou um vestido novo: preto, curtinho e de costas nuas. E às dez chegou no prédio do cliente. Nossa menina já tinha experiência, você sabe, mas ela nunca esteve tão nervosa como nessa noite. Enquanto o elevador subia, ela olhava-se no espelho e ajeitava o vestido, o cabelo, o brinco, o vestido de novo… E aquele batom vermelho, não estava um pouco demais? Percebendo o próprio nervosismo, ela terminou rindo de si mesmo: era a própria adolescente indo para o primeiro encontro.

Dinho a recebeu com um sorriso generoso, e disse que ela estava maravilhosa… Ela agradeceu e entrou. Ele ofereceu vinho, ela aceitou um pouquinho. Sentada no sofá da sala, sentiu voltarem as sensações da noite que passara com ele, o sexo gostoso, o cheiro bom do peito dele, aquele olhar intenso… Dinho chegou com o vinho, deu-lhe uma taça e brindaram. A esta noite, ele falou, e as taças tilintaram. E para Dinorah, aquele som foi como um sino a badalar a verdade que ela não queria admitir: estava apaixonada. Apaixonada por um cliente. Quanto amadorismo de sua parte…

Ela pediu que ele contasse um pouco sobre sua vida, estava curiosa por saber mais sobre aquele cara tão interessante. Ele contou que já fora casado, que tinha um filho da idade dela que morava com a mãe, que adorava seu trabalho de fotógrafo e que mais não falaria pois não conseguia se concentrar com uma mulher tão linda e especial pertinho dele. Dinorah riu, lisonjeada.

Dinho pôs a taça sobre a mesa, pegou a carteira, tirou quatrocentos reais e deu para ela. Dinorah pegou as quatro notas de cem, separou três e as devolveu a ele.

– Mas combinamos quatrocentos.

– Meu preço é cem – ela disse, sorrindo. – Guarde pras próximas vezes.

– Próximas vezes?

– Só se você não quiser.

– Eu quero muito mais que próximas vezes, Dinorah.

O que ele queria dizer com aquilo? Ela precisava saber.

– Muito mais como?

Ele respirou fundo antes de responder.

– Não consigo tirar você da cabeça desde o primeiro dia. Nunca conheci uma mulher tão incrível como você, acredite. Sei que isso não é a coisa mais sensata do mundo… eu não devia… mas… eu tô apaixonado, Dinorah.

Ela não acreditava no que ouvia. Pôs a taça sobre a mesa, ao lado da taça dele, e as duas tilintaram novamente. Aproximou-se, ficando colada ao corpo dele. E, com o rosto bem pertinho do dele, sussurrou:

– Eu é quem não devia. Mas também me apaixonei por você.

– Verdade?

Ela percebeu a felicidade nos olhos dele, e por um instante Dinho lhe pareceu um garotinho a ganhar o presente com o qual mais sonhava.

– Verdade. Mas não sei se isso é bom. Demorei pra aceitar o que eu sou, mas hoje eu não tenho nenhuma dúvida.

‒ O que você é?

‒ Eu sou uma puta, Dinho. Você pode achar que é apenas um fetiche, mas eu sei bem o que eu sou.

– Eu gosto de você do jeito que você é.

– Putas não devem se apaixonar por clientes, é a regra número um.

– Eu sei. Mas é fácil resolvermos isso.

– Como?

– Basta você ser minha namorada.

– Não entendi.

– Aceite namorar comigo e eu continuarei te pagando, como um cliente.

Dinorah riu, mas continuava sem entender. Aquilo não fazia sentido.

– Sei que você já cobra barato. Mas eu jamais terei grana suficiente pra te pagar o tanto que eu quero te comer. Então a gente namora e você me faz um bom desconto, o que acha?

Aquilo começava a fazer sentido.

– Você queria um cliente exclusivo, né? É isso que falta pro teu fetiche, tô certo?

Estava certo, sim, ela pensou, estava certíssimo.

– Seja minha namorada, Dinorah. E eu serei o cliente que você tanto procura.

Dinorah puxou-o para si e o beijou apaixonadamente. Sim, aquilo fazia todo o sentido do mundo.
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AGranaDoLanche-06acap.10

NOSSA HISTÓRIA AGORA DÁ UM SALTO no tempo, um ano na frente. Você acha que esse namoro deu certo? Acha possível dar certo um namoro onde ela é puta e ele é cliente? Bem, até agora tem dado certo sim, e muito certo. Ela cobra por cada transa, cobra mesmo, e se ele não tem o dinheiro na hora, ela anota numa cadernetinha. Dez reais por cada transa. Se for só um boquetinho básico, cobra a metade, e ela sempre engole, feliz. Anal? Claro que faz, afinal é uma de suas especialidades. Meter em seu cu custa o dobro, porém ela sempre dá o anal seguinte de brinde, não é nenhum sacrifício. Ménage à trois é cortesia da casa, mas ela tem que aprovar previamente a outra. Swing foi uma novidade, ela não esperava, mas topou conhecer e hoje é ela quem pede para ir. Apesar da inflação, ela não pensa em aumentar preços, pois a quantidade de transas compensa e, além do mais, ela faz questão de manter o cliente, por quem está cada vez mais apaixonada. Ele, então, nem se fala: passou até a evitar as massas e a correr no parque para melhorar a forma física, pois quer ser um cinquentão em forma para que sua putinha sinta orgulho do namorado-cliente.

E as fotos que fizeram? Ficaram lá no computador, sem usar, ela já está satisfeita com a clientela que possui. Mas as roupas que comprou para fazer as fotos, essas ela faz questão de usar com Dinho, todas elas, e dia desses ainda comprou mais, inclusive uma fantasia de aeromoça, que essa era uma antiga fantasia dele, transar com uma aeromoça ao som do tema de Aeroporto 77. Um dia a mãe dela desconfiou daquelas roupas tão estranhas no guarda-roupa da filha e Dinorah decidiu contar a verdade… mas pela metade: disse que tinha esse fetiche de se fantasiar, e que o namorado adorava. Se a desculpa funcionou bem, até hoje Dinorah não sabe.

Mês e meio atrás, o casal decidiu que seria melhor morar junto. Só com a grana do táxi que ela pegava para ir vê-lo já fariam uma boa economia. E ainda tinha o escritório em que ela trabalhava, que ficava perto. Os pais aprovaram a ideia com ressalvas, principalmente o pai que não gostava do fato de Dinho ter a mesma idade dele. Fizeram um jantar de despedida para a filha única que saía de casa e Dinho jantou com eles, o que não serviu muito para que simpatizassem mais com ele, pois em certo momento Dinho não conseguiu controlar o hábito que tinha de chamar a namorada pelo apelido carinhoso. Nada preocupante, claro, se o apelido carinhoso não fosse… Putinha. Dinorah tentou consertar, mas ela e Dinho tiveram uma crise de riso e o jantar terminou num clima meio surreal, uns sem entender muito e outros se controlando para não rir.

Semana passada o namoro completou um ano. A comemoração? Uma viagem para o Pantanal, onde ficaram sete maravilhosos dias. E quem pagou a viagem foi ela, só com o dinheiro que juntou em um ano de programas com seu cliente amado. E, para completar o pacote nupcial, não cobrou um centavo para transar com ele, foi tudo cortesia.

Bem, quase tudo. No último dia, após o café da manhã na pousada, enquanto arrumavam as mochilas para ir embora, bateu o tesão urgente-urgentíssimo e começaram a se agarrar no quarto. Quando já estavam nus, e ela de quatro sobre a cama, Dinorah perguntou se ele ficaria chateado se ela… bem, se ela cobrasse por aquela saideira.

‒ Ah, Dinho, esta semana foi tão maravilhosa… Seria a cereja do bolo, você não acha?

‒ Uma puta com lábia de advogada… ‒ ele respondeu, rindo.

‒ Ou o contrário.

‒ Só tem um problema. Já gastamos tudo, estamos zerados.

‒ Não tem nada aí na carteira?

‒ Só cartão.

‒ Ah, não…

Nesse momento, o funcionário da pousada bateu na porta para ajudá-los a levar as bagagens. Dinho enrolou-se na toalha, foi até ele e conversou baixinho alguma coisa. Depois fechou a porta e voltou.

‒ Resolvido.

‒ O que você fez?

‒ Pedi emprestado um real ‒ respondeu ele, sorrindo e jogando a moeda sobre a cama. ‒ Agora, de quatro, Putinha. Já.

Dinorah imediatamente obedeceu e, feliz, voltou a ficar de quatro sobre a cama, a bunda empinada. E, de olhos fechados, aguardou o instante seguinte, aquele mágico instante em que a vida parece suspensa e tudo que existe é a quase insuportável expectativa de que no segundo seguinte ela sentirá um pau duro invadindo sua buceta, e ao lado lhe sorrirá o seu suado, e gozado, dinheirinho.
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Ricardo Kelmer 2013  – blogdokelmer.com

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IndecenciasParaOFimDeTardeCAPA-01aIndecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos eróticos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação. > saiba mais

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INDECÊNCIAS PARA VOCÊ TIRAR A ROUPA

IndecenciasParaVoceTirarARoupa-01aMuitas mulheres têm esse fetiche, o de exibirem-se anonimamente para o público. Então criei uma promoção: envio o livro e a leitorinha faz uma foto erótica com ele, sem precisar mostrar o rosto, e a foto será usada em cartazes de divulgação do livro. Você gostaria de participar? Clica aqui.

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01- A grana do lanche ou a grana por ter sido o lanche?! (O que pensa o Executivo da Loirinha? Como a Loirinha se sente? Vai saber! ) Confusa a situação da Dinorah, mesmo que uma garota deseje agir como uma puta por um dia (falo das artimanhas e safadezas), muitas vezes ela não quer ser paga por isso, é como se valesse pouco, como se diz no popular: fica se sentindo uma merda. O pior ainda é quando a garota namora o cara mais velho e já fica todo mundo falando que é por causa do dinheiro e o cara ainda quer dá uma grana pra garota para “ajudá-la” nas despesas… Já passei por isso. Os caras precisam ter mais noção, saber com quem estão lhe dando e não sair ofendendo as garotas assim. Renata Kelly, Fortaleza-CE, nov2014

02- O conto é ótimo,adorei!Mas realmente a situação dela é dificil de entender..pode ser que o cara tenha sido apenas gentil,mas em nossa sociedade tem muitos dogmas e preconceitos em relação á liberdade sexual da mulher.Então,entendo a confusão que ele tá sentindo…complicado. Thaís Guida, Rio das Ostras-RJ – nov2014

03- Eu só tenho uma coisa a dizer: BICHA BURRA! Como q me joga uma nota de 100 pila fora assim? AHUAHEUAHEUAEHU muito bom! Elaine Evangelista, São Paulo-SP – nov2014

04- Ricardo meu mestre em putaria, me diga… Este livro estará disponível à compra no próximo sarau? Ozi Garofalo, São Paulo-SP – nov2014

05- Eu acho que ta super certa sim! Quantas vezes uma mina nao dá e depois o cara nem olha na cara, sequer lhe dá um café ou cigarrinho de “depois”??? Tem mais é q cobrar mesmo AHUEHAUEHEUEHUE. Elaine Evangelista, São Paulo-SP – nov2014

06- Uaaaaaaaau! Não tinha lido os capítulos 2 e 3… O negócio esquentou hein! A verdade é que toda garota gosta de ser respeitada, mas tem o seu lado santa e seu lado puta. O complicado é o cara saber qual lado explorar na hora da transa, mas não custa nada a garota sugerir o que quer, talvez custe para o cara “a grana do lanche”. rs! E como eu falei no comentário anterior, os caras devem ficar ligados para não saírem ofendendo quem não quer ser assim uma “puta”, ser paga, mas se a garota tá afim e se excita com isso que mal tem né. Renata Kelly, Fortaleza-CE, nov2014

07- Entendo o conflito que ela vive…mas não acho que ela seja puta,acho que é um fetiche dela. Thaís Guida, Rio das Ostras-RJ – nov2014

08- Terminei de ler os capitulos agora, enfim, minha conclusão: ela nao era prostituta nao. Tinha apenas o fetiche de ser tratada com uma. Se fosse de fato, teria dado pra qualquer um (como os caras xexelentos do boteco q ela foi), pois é isso que as puta de fato fazem … se importam apenas em serem pagas ^^ Bem bacana a historinha, acho que faz quem lê pensar bastante e refletir ^^ Parabens Kelmer. Elaine Evangelista, São Paulo-SP – nov2014

09- Sucesso com sua inocente Dinorah. Gilvanilde, Fortaleza-CE, abr2015

10- Ô cabra pra se garantir esse Kelmer. Rogers Tabosa, Fortaleza-CE, abr2015

11- Ricardo Kelmer melhor a cada leitura. Diego Claudino, Rio de Janeiro-RJ – mai2015

12- Valeu, Primo. A Dinorah está com tudo. Parabéns pela graça e verossimilhança da criatura. Abração. Leite Jr., Fortaleza-CE – mai2015.

AGranaDoLanche-06


Literalmente

23/10/2014

23out2014

Literalmente-03
LITERALMENTE

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De minuto em minuto, a vida se revela só para você, feito um texto que se lê sozinho. E o texto, de palavra em palavra se desvela, feito a vida que passa na tela do tempo. Cada segundo vivido é vida que encurta. Em cada palavra lida, o ponto final se prenuncia. Tem vida o texto que se lê: ele nasce, cresce e morre diante dos olhos, e o sentido de tudo o autor infelizmente não pode dar. O sentido é justamente a própria busca por ele, na sutileza do que não se leu, nas entrelinhas do que virá. A vida não se repete, mas o texto sempre dá uma nova chance, e você pode voltar e revivê-lo, até que o sentido que lhe fugia reluza ao olhar num repente.

Releu o que escrevera, achou que estava bom e postou. E foi tratar de viver. Literalmente.
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Ricardo Kelmer 2014 – blogdokelmer.com

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LEIA TAMBÉM

AUltimaMensagem-01A metamorfose – Pai, filho e o fundo do poço

Desculpem o atraso – Ela, o feminismo e o BDSM

A última mensagem – Aprendendo sobre amor e perdão

Literalmente – O sentido dos textos e da vida

Prazer proibido – Essas mães e suas filhas…

Cem vezes mais – Deus é fiel, tá sabendo?

> mais minicontos

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01- Minicontos, muito bom. Tenho alguns também, gosto do estilo, combina com a atualidade. Antonio Martins, Maceió-AL – mar2015

02- Li e reli. Gostei! Rejane Porto Cult, Fortaleza-CE – mar2015

03- Adorei. Muito lindo Ricardo Kelemer. Vilma Galvão, Braga-Portugal – mar2015

04- Maravilha!!! Arlete Franco, São Paulo-SP – mar2015

05- Muito bom! Quando vem por aqui? Erika Lobo, Brasília-DF – mar2015

06- Vou ler…boa noite,Rica!bj e parabens sempre. Isabela Alcântara, Fortaleza-CE – mar2015

07- Amei!! Ana Andréa Gadelha Danzicourt, Tubarão-SC – mar2015

08- Vou ler !! Jane Arruda de Siqueira, São Paulo-SP – mar2015

09- Muito bom… adorei literalmente. Andrea Coelho, Lisboa-Portugal – mar2015

10- Belo texto! Cicío Bonneges, São Paulo-SP – mar2015

11- Cada dia melhor! Gisela Symanski, Porto Alegre-RS – mar2015

12- Muito bom! Emille Valença, Fortaleza-CE – mar2015

13- Pois sim…… Nada como uma boa leitura, e uma Vida no meio. Andrea Dal Castel, Rio de Janeiro-RJ – mar2015

14- Muito bem, Ricardo Kelmer! Parabéns, amigo, cujas palavras, nos levam a refletir sobre a vida e a morte — Eros/Thanatus. Abração, meu caro! Mônica Ananias, São Paulo-SP – jul2016

15- Texto lindo… Marilu Dias, São Paulo-SP – jul2016

16- Bravo! Clea Fragoso, Fortaleza-CE – out2019

17- É isso mesmo. E o texto não se repete, se reconfigura, se dá outro sentido. Feliz niver de novo, Barbixa Ricardo Kelmer querido do meu ♥️. Fabiana Z Azeredo, Fortaleza-CE – out2019 

18- Lindo Texto…Lindo Poeta😚❤👏👏👏👏 Irene Oliveira da Silva, São Paulo-SP – out2019

19- Eita! 👏👏👏 Sheyla Araujo, Fortaleza-CE – out2019 

20- Show! Marcondes Dourado, Fortaleza-CE – out2019 

21- Adorei! Fernanda Francisco Justino, Fortaleza-CE – out2019 

22- E por segundos vivi esse texto 🙂 Shirlene Holanda, São Paulo-SP – out2019

23- Cara , tu é muito show!!! Rsrsrs. Paz e luz!! Regia Alves, Fortaleza-CE – out2019

24- Nossa, vc escreve muito bem, parabéns! Fernanda Francisco Justino, São Caetano do Sul-SP – nov2019

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Por que brigamos

27/06/2014

27jun2014

Ou continuava tentando salvar o casamento, e todo o seu esforço não seria nenhuma garantia de sucesso, ou então salvava a si mesmo – se é que existia salvação para ela

PorQueBrigamos-06

POR QUE BRIGAMOS

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Quanto mais
eu penso em lhe deixar
Mais eu sinto que não posso
Pois eu me prendi à sua vida
Muito mais do que devia

A enfermeira termina de fazer o curativo e diz que ela pode descer da maca. Nádia desce e se olha ao espelho, vendo o lado do rosto inchado, o olho vermelho. A assistente social insiste: ela não pode deixar de fazer a denúncia. Nádia suspira… Lá fora na rua, em algum rádio, toca uma música… Ela reconhece, é um antigo sucesso da Diana. Então as imagens da noite anterior voltam, e outra vez vem a vontade de chorar. Mas dessa vez se controla e se deixa conduzir pela mulher. Na delegacia, em seu depoimento, ela afirma que… que… Nádia para e começa a chorar, interrompendo o que dizia. A assistente a conforta e a incentiva a prosseguir, diz que ela precisa ser forte, que seu exemplo pode ajudar outras mulheres. Nádia enxuga as lágrimas, levanta-se e diz calmamente que havia mentido, que na verdade ele não a agrediu, ela é que se machucou sozinha, sim, foi isso, foi só isso que aconteceu. E sai correndo da sala.

Quando à noite, de regresso
Você briga por qualquer motivo
Confesso que tenho vontade
De ir pra bem longe
Pra nunca mais lhe ver

No dia seguinte, enquanto aguarda o táxi na calçada, ela olha para o prédio. Entre as várias janelas, localiza a sala do seu apartamento. Vem-lhe a lembrança de uma noite, uma linda noite, ela e Afonso, os dois comemorando a passagem do ano juntinhos, vendo os fogos daquela janela, brindando com champanhe e beijos apaixonados… Mas o táxi chega e a doce lembrança se dissipa como a fumaça dos fogos. Meia hora depois está na rodoviária, esperando o momento de entrar no ônibus, o coração apertadinho… Tantas e tantas vezes tomou aquela mesma decisão e nunca teve coragem de ir até o fim. Mas agora é diferente. Haviam chegado ao limite máximo, ela não suportava mais. Precisava decidir: ou continuava tentando salvar o casamento, e todo o seu esforço não seria nenhuma garantia de sucesso, ou então salvava a si mesmo – se é que existia salvação para ela. Então um homem passou. Ela viu suas sandálias. E lembrou que as de Afonso estavam gastas, que ela prometera lhe dar um novo par de presente… Ela olha a hora no relógio, corre até a loja no primeiro andar e compra um par de sandálias, de couro preto, como ele gosta. E despacha na agência do correio ao lado, encomenda sem remetente. Depois corre para o ônibus, quase não chega a tempo, entra e senta em sua poltrona, suada e ofegante. Mas na saída da cidade o ônibus para. E ela desce. Mais uma vez não teve coragem.

Ó, meu amado
Por que brigamos?
Não posso mais viver assim sempre chorando
A minha paz estou perdendo
A nossa vida deve ser de alegria
Pois eu lhe amo tanto

Ela não lembra bem o início da discussão. Como sempre ocorre nessas horas, o motivo se perde em meio a tantas mágoas e de repente nem sabem exatamente por que estão brigando. O fato é que voltavam de um aniversário, tarde da noite. Ele estava com ciúmes por causa de uma bobagem qualquer e então a xingou, dizendo que jamais teria filhos com ela porque não queria dar-lhes o desprazer de terem uma mãe vagabunda. Ela fechou os olhos, tentando engolir a raiva. Mas não conseguiu: pegou a chave do carro, que ficava no mesmo chaveiro da chave do apartamento, e atirou longe, por cima do muro de um terreno baldio. Enquanto ele bufava de ódio, ela falou calmamente que iria provar que ele tinha toda razão no que dissera sobre ela, e saiu, pisando firme. Voltou somente no dia seguinte, à tarde. Tirou sua chave da bolsa e quando tentou abrir a porta, não conseguiu. Quando ele chegou, à noite, encontrou-a sentada no chão, do lado de fora, chorando. Ela disse que ele não deveria ter trocado a fechadura, e ele respondeu que ela não deveria ter jogado fora a chave dele. Minutos depois, no carpete da sala, em meio às almofadas e os muitos beijos de desculpas, treparam loucamente, com força e desespero, como havia muito tempo não o faziam.

Já não consigo esquecer as tolices
Que você diz nessas horas
Já tentei, mas não posso

Mais tarde, abraçados na cama, ele quase dormindo, ela toma coragem e toca no assunto da última briga, quer saber se ele não ficou preocupado quando ela saiu no meio da noite, dizendo que iria provar que ele estava certo ao dizer que ela era uma vagabunda. Ele diz, muito calmo e seguro: Claro que não, você é fraca demais pra isso. Ela não acredita no que ouve e espera que ele diga que está brincando, que na verdade ficou preocupado, sim. Mas ele já está dormindo. Ela levanta da cama e vai para a sala, sentando no sofá, e dessa vez tem certeza que seus pensamentos a enlouquecerão. Em sua mente, a voz dele ainda ecoa, repetindo feito um eco sem fim: fraca demais pra isso… fraca demais pra isso… E ao fundo, uma outra voz, a do desconhecido no motel, na madrugada anterior, no momento em que ele a penetrava deitado por baixo dela: Goza, putinha, goza…

Tenho a impressão que do amor
Que um dia existiu entre nós
Hoje só resta uma chama apagando

Olhando o álbum de fotos, ela ri do tempo de namoro, ela orgulhosa dele na festa de formatura e ele sem jeito ao lado de seu pai. Ela fecha o álbum e olha para o bolo sobre a mesa, a vela já quase no fim. Sete anos atrás, naquele mesmo dia, começavam a namorar, para um ano depois, exatamente um ano porque ele fez questão de que fosse no mesmo dia, casavam-se. Sete anos… Então um vento entra pela janela e apaga a vela. Ela olha o relógio: meia-noite. Ele esquecera. Mais uma vez. Não viria mais. Então pega o telefone e chama um táxi. Meia hora depois o motorista para em frente a um motel. Ela paga e desce. Um segurança do motel ainda tenta impedi-la, mas ela corre e entra na garagem de uma das suítes. Na confusão de gritos e xingamentos que se segue, o segurança a muito custo consegue, junto com Afonso, separar as duas mulheres que se batem. Uma delas vai embora, não sem antes quebrar com o tamanco os vidros do carro dele. E quanto à outra, Afonso a toma carinhosamente nos braços, beija-a longamente e a leva para dentro do quarto, enquanto ela balbucia, no meio do choro intenso, que ele não a deixe, por favor, por favor…

O medo de ficar só me apavora
E eu me desespero
Só me resta pedir a sua ajuda
Pedir que você não me deixe, meu amor
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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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A letra usada neste conto é da música Por Que Brigamos, versão de Rossini Pinto da música de Neil Diamond (I am, I said), um dos maiores sucessos de Diana. Este conto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino e o livreto Trilha da Vida Loca – Contos do amor doído

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Trilha da Vida Loca
Ricardo Kelmer, contos

O amor é belo. Mas também é ridículo, risível, trágico… Aqui estão reunidas seis histórias inspiradas em grandes sucessos musicais da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor. Amar é para estômagos fortes.

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Diana canta “Por que brigamos”

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Diana-03OUTROS SUCESSOS DE DIANA

Ainda queima a esperança

Canção dos namorados (Le vals de las mariposas)

Foi tudo culpa do amor

Tudo que eu tenho (Everything i own)

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LEIA NESTE BLOG

VouTirarVoceDesseLugar-03Vou tirar você desse lugar (Trilha da Vida Loca) – Josélia é uma das putas mais requisitadas do Leila´s. E Dario se apaixonou por ela

Lama (Trilha da Vida Loca) – No passado, eles se amaram perdidamente, e foram ao fundo do poço. Hoje, o ódio é tudo que os une

Odair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

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A última canção (Trilha da Vida Loca) – O que mais impulsionava sua voz, a raiva por ela brincar assim com seus sentimentos ou o ódio por pressentir que mais uma vez não conseguiria resistir? 

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TRILHA DA VIDA LOCA – O SHOW

TrilhaDaVidaLocaDiv-01Mesclando música e literatura, este show reúne clássicos da dor de cotovelo da MPB e histórias de amor inspiradas em sucessos de Odair José, Waldick Soriano, Diana, Reginaldo Rossi e Fernando Mendes, num formato divertido e interativo. As canções são executadas por Ricardo Kelmer e Felipe Breier (voz e violão) e também em trechos de suas gravações originais, com participação da plateia. Paixões de cabaré, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor… Favor pagar o couvert antes de cortar os pulsos.

Texto e direção: Ricardo Kelmer. Com Ricardo Kelmer e Felipe Breier
Duração: 2h (ou versão de 1h30)
> Saiba mais, veja vídeos do show

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TRILHA DA VIDA LOCA
Contos e canções do amor doído

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01- Quantas Nádias estão por aí, tentando salvar o que não tem conserto… Ana Velasquez, Altamira-PA – mar2015

02- Adorei! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – mar2015

03- Profundo Ricardo Kelmer. Bjs. Caroline Correia Maia, Fortaleza-CE – mar2015

04- Como vejo este tipo de relacionamento… Verdadeiros choques constantes de personalidade, até que um dia o amor some e fica a dúvida: um dia esteve ali? Ana Velasquez, Altamira-PA – mar2015

05- Muito bom. Pedro Luiz Oliveira, Fortaleza-CE – mar2015

06- Um misto de beleza e miséria. Miséria é viver assim, mendigando o carinho do outro, uma busca constante por algo que não existe de verdade e que faz a pessoa se perder de si mesma e viver o outro. Todo amor tem sim as suas brigas e conflitos, afinal cada um pensa da sua maneira. Mas viver assim é viver perdido. A gente tem raiva pela a personagem, mas quem de nós não já viveu esse sofrimento?! Na verdade, nem sabemos direito o que é amar. 07- Ah, adoro a música, apesar da sofrência em alto grau. rsrsrsrs Uma versão mais dramática pra vcs curtirem. https://www.youtube.com/watch?v=Nr5xeHMIGDQ. Renata Kelly, Fortaleza-CE – mar2015

08- Adoro essa música, Ricardo Kelmer!! Eu e a Monica Carvalhedo cantamos muuuuito no Karaokê!!!! rsrs bjs.. Lana Arrais, Fortaleza-CE – mar2015

09- Vocês não vão querer saber mais que o poetinha querido Vinicius de Moraes ou vão? Ele fala de catedra, pois teve 9 casamentos reais e nem sei quantos amores alem desses. Então vai ai um pedaço da música onde ele diz: Quem nunca curtiu uma paixão / Nunca vai ter nada, não / Não há mal pior / Do que a descrença / Mesmo o amor que não compensa / É melhor que a solidão / Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair / Pra que somar se a gente pode dividir? / Eu francamente já não quero nem saber / De quem não vai porque tem medo de sofrer / Ai de quem não rasga o coração / Esse não vai ter perdão

10- Eu concordo com o poetinha. Estou vivendo isso agora e entendo perfeitamente a personagem. Não é massoquismo não apenas acontece Renata, ninguem esta livre. Que bom que não esteja. Ricardo Kelmer você é simplesmente demais!!! Você consegue retratar todo o sofrimento humano nos seus pormenores e seus recantos mais escondidos da alma. Amei isso que escreveu. Presentão pra todos que sofrem ( vivem ) os males ( aventura ) do amor paixão ou seja la que nome tenha. Valeu!! Adorei o conto e muito obrigada. Beijão. Ana Andréa Gadelha Danzicourt, Tubarão-SC – mar2015

11- Existem relacionamentos que não sabemos o motivo pelo o qual continuamos, mas o fato é que essa chama que queima, a dor, o medo de perder o outro, só sabe dessa fúria quem já passou por isso, tudo certinho, em comum acordo, sempre, na verdade é um saco!! complicado de entender, mas paixão não se entende mesmo….. Kelmer vc é sempre fantástico!!! beijos no coração. Regia Alves, Fortaleza-CE – mar2015

12- Aff, detesto qdo Ricardo Kelmer, fica retratando minha vida. SQN! rsrsrsrs. Muito bom, sempre! Marina Oliveira, Fortaleza-CE – mar2015

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Protegido: As taras de Lara – Quarta é dia de dar na escada

07/01/2014

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Protegido: As taras de Lara – Quarta é dia de dar na escada (VIP)

07/01/2014

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Paixão de um homem

23/09/2013

23set2013

Solano é meu melhor amigo, e tudo que não desejo é que ele sofra por uma vagabunda que não merece uma gota das lágrimas que ele tanto chora

PAIXÃO DE UM HOMEM

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Amigo, por favor, leve esta carta

E entregue a aquela ingrata
E diga como estou

Puxo do bolso o envelope e fico olhando pra ele por um bom tempo. Envelope dobrado, meio amassado, escrito “Para Wangleide com paixão”. Quantas vezes fiz esse mesmo gesto? Perdi as contas. Como sempre, fico altamente dividido, querendo ajudar Solano mas com vontade de dizer que isso que ele faz é muito bonito mas… é totalmente inútil. Acontece que ele me pede com tanta dor, uma dor tão doída, que eu não consigo negar. Aí acabo levando as cartas dele pra Wangleide. Eu vejo ela todo dia no escritório, sou motorista da empresa, não custa fazer esse favor ao amigo, né? Mas custa sim. Solano é meu melhor amigo, daqueles amigos que hoje em dia é difícil encontrar. E tudo que não desejo é que ele sofra por uma vagabunda que não merece uma gota das lágrimas que ele tanto chora.

Com os olhos rasos dágua
E o coração cheio de mágoa
Estou morrendo de amor

Semana passada a gente bebia no Roque Santeiro, ouvindo o Golden Bregas volume 2, e dona Orestina apresentou a Jumara pra ele. Jumara é menina bonita, bem aprumada, até faz faculdade, e a mãe tem uma lojinha ali na rodoviária. Quem disse que ele se interessou? Nem olhou pra menina. Só queria saber de entornar cachaça e falar da Wangleide, que ela tinha deixado ele mais uma vez, que ela não atendia as ligações… Bebia, falava e chorava. Falava, chorava e bebia. Baixou quase um litro de Sapupara nessa noite e gastou o estoque de guardanapo todinho, só enxugando o choro, chega dava pena. Pediu pra eu ir com ele no orelhão ligar pra ela, eu fui, liguei, falei com ela mas a vadia não se sensibilizou. Ele ficou tão arrasado que se deitou embaixo da mesa e encasquetou que só saía de lá se a Wangleide fosse falar com ele. Acabou dormindo. A muito custo consegui pegar meu amigo e botei no Parangaba-Mucuripe, deitado no último banco, e pedi pro motorista acordar ele quando chegasse no terminal.

Amigo, eu queria estar presente
Para ver o que ela sente
Quando alguém fala em meu nome

Rapaz, se tem uma coisa pra desmantelar a vida do cidadão é mulher, viu? Nem bebida e nem jogo faz mais estrago. Olhe, só pra você ter uma ideia, um dia o Solano comprou cem blocos de papel de carta e escreveu “Wangleide, eu te amo” em todas as folhas, uma por uma, linha por linha. Levou um mês nessa empreitada, gastou duas caixas de bic vermelha. Ele mandou deixar na casa dela, encomenda registrada. O carteiro Josimar disse que quando ela recebeu e viu o remetente, falou assim: Mas esse corno não sossega! E sabe o que ela fez com a encomenda? Usou pra limpar a bunda. Pelo menos foi o que ela disse. Sim, ela mesma conta pra quem quiser ouvir. Aliás, a bunda dela… Deixa pra lá, não fica bem falar disso agora. Pois quando o Solano soube o que a ingrata tinha feito, você pensa que ele desistiu? Desistiu nada. No outro dia lá estava ele na porta da casa dela, com aquele carro do Loucuras de Amor, ele se declarando no microfone pra Wangleide e a vizinhança inteira tomando conhecimento. Ela? Não botou nem a cara no portão. E ainda chamou a polícia.

Eu não sei se ela me ama
Eu só sei que ela maltrata
O coração de um pobre homem

Solano, rapaz, tem tanta moça bacana por aí, essa mulher não é mulher pra você… Ele nem deixa eu falar, faz sinal assim com a mão e diz que se eu sou amigo dele, amigo de verdade, não fale dela desse jeito. Aí eu desanimo, né? Como é que eu digo que desde o primeiro dia essa safada chifra ele adoidado? Como é que eu digo que a cabeça dele tá parecendo aqueles cabides de pendurar roupa, é ponta pra todo lado, nem sei como é que o Solano consegue usar chapéu. Todo mundo na feira sabe que a Wangleide não presta, menos ele. Aliás, ele sabe, claro, mas se engana, diz que um dia ela vai se arregenerar e perceber o amor verdadeiro que ele sente por ela. A pessoa humana é assim, fecha os olhos pra não ver aquilo que faz o coração chorar. Ô desgraceira medonha.

Amigo, se esta cartinha falasse
Pra dizer a aquela ingrata
Como está meu coração

Ela não é nem bonita como ele diz. É meio malfeitona de corpo, sabe, tá meio sambada e ainda tem um braço seco. Tipo da mulher que depois de um filho embaranga de vez. Mas tenho que admitir uma coisa, que o Solano não me ouça: ô lapa de bunda aquela mulher tem, é uma coisa absurda! É o famoso fogão oito-boca. Com acendedor automático. E autolimpante. Um dia me contaram aquela piada do cara que foi enrabar uma mulher que tinha a bunda tão grande mas tão grande que ele escorregou e, bufo, caiu lá dentro, e depois de um tempo procurando a saída, encontrou outro cara que tinha caído lá já fazia uma semana, ahahahah!!! Pois cá pra nós, a Wangleide deve ter sido o modelo pra criar essa piada… Putamerda, eu não devia falar essas coisas. O Solano sofrendo que nem um condenado no inferno e eu fazendo brincadeira com o suplício do amigo. Desculpa, Solano.

Vou ficar aqui chorando
Pois um homem quando chora
Tem no peito uma paixão

Entro na sala. Wangleide tá em sua mesa, fazendo conta na máquina. Entrego o pedido assinado, a vagabunda carimba e me devolve o canhoto. Então puxo o envelope do bolso e jogo na mesa, bem na frente dela. Eu sei que ela sabe que é do Solano. E sei, ah, como eu sei, o quanto é inútil tudo isso. É inútil eu querer ajudar meu amigo, é inútil o sofrimento que há meses o coitado tá passando, foram inúteis todas as outras cartas que ele escreveu com tanta dor… Mas eu me sentiria um traidor se não fizesse o que ele me pede. Já que não posso fazer meu amigo feliz, pelo menos eu não lhe destruo a esperança, que é a única coisa que lhe resta nessa vida de merda.

Vou ficar aqui chorando
Pois um homem quando chora
Tem no peito uma paixão

Wangleide pega o envelope, põe contra a luz, vira do outro lado. Depois amassa ele todinho, faz uma bolinha e atira no cesto de lixo. Se eu vendesse papel de carta praquele abestado, ia ficar milionária, ela diz, levantando e saindo de trás da mesa. Caminha até a porta, fecha e gira a chave duas vezes. Vai ter que ser bem ligeirinho, viu, fofo, ainda tem duas entregas pra hoje, ela diz enquanto beija minha boca e começa a abrir minha calça. Depois se debruça na mesa, deitando o rosto sobre os pedidos de entrega. E ergue a saia, exibindo o rabão branco e abrindo bem as carnes com as duas mãos, como ela sabe que eu gosto. Eu sei que eu não devia. Sei que é totalmente imperdoável, eu sei, eu sei. Mas não tem jeito: nessa hora sempre lembro da piada da mulher da bunda grande e começo a rir.
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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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A música Paixão de um Homem, cuja letra foi reproduzida neste conto, é de autoria de Waldick Soriano, que a interpretou e consagrou com seu estilo inconfundível. Este e outros textos integram o livro Trilha da Vida Loca – Contos do amor doído. > Mais sobre o livro e o show homônimo

> Waldick Soriano (Caetité-BA, 13.05.1933 – Rio de Janeiro-RJ, 04.09.2008) foi um cantor e compositor brasileiro.
Waldick Soriano na Wikipedia

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Trilha da Vida Loca
Ricardo Kelmer, contos

O amor é belo. Mas também é ridículo, risível, trágico… Aqui estão reunidas seis histórias, inspiradas em grandes sucessos musicais da dor de cotovelo. Paixões de cabaré, porres horrendos, brigas, escândalos, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor. Amar é para estômagos fortes.

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Ricardo Kelmer no Eita Sarau (SP-SP) ago2013
Conto: Paixão de um Homem
Música: Paixão de um homem (Waldick Soriano)

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Paixão de um Homem (Waldick Soriano)

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WaldickSoriano001OUÇA E BAIXE

> DVD Waldick Soriano ao vivo (2006)

Gravado em novembro de 2006 no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro (ex-Cine São Luiz), em Fortaleza, cidade onde Waldick morou em seus últimos anos de vida, o show traz um repertório de bolerões clássicos. Direção: Patrícia Pillar.

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LEIA NESTE BLOG

odairjose010aOdair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

Vou tirar você desse lugar (Trilha da Vida Loca) – De repente a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser apenas detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

Lama (Trilha da Vida Loca) – E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central

Por que brigamos (Trilha da Vida Loca) – Ou continuava tentando salvar o casamento, e todo o seu esforço não seria nenhuma garantia de sucesso, ou então salvava a si mesmo – se é que existia salvação para ela

A última canção (Trilha da Vida Loca) – O que mais impulsionava sua voz, a raiva por ela brincar assim com seus sentimentos ou o ódio por pressentir que mais uma vez não conseguiria resistir?

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Homem Parabéns, vi você lá no Icaraí onde passamos um fim de semana com a turma toda…no comecinho de um poeta, de um escritor, falando de seus pensamentos e genial criatividade de raciocínio muito lindo ! Prazer em te conhecer. Edith V Dragaud, Fortaleza-CE – set2013

02- sempre..Ricardo Kelmer!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Cris Pinheiro Lima, Santos-SP – set2013

PaixaoDeUmHomem-01a


A putinha do quartinho do fundo

06/02/2013

06fev2013

Dei um gole na vodca e tentei me convencer que eu não estava enciumado pelo fato da minha namorada naquele momento estar tirando a roupa pra um gordão punheteiro lá do interior do Paraná

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A PUTINHA DO QUARTINHO DO FUNDO
As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi
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Striputinha. Foi o nome que Jessi escolheu pra sua personagem no serviço de strip-tease pela internet que ela criara. Striputinha, sua amante virtual, performance de vinte minutos, o cliente escolhe se ela será uma enfermeira, garçonete, policial e por aí vai. Ele deposita a grana e na hora marcada Jessi liga sua web cam no quartinho do fundo do apartamento, vestida conforme o gosto do freguês. Ninfa Jessi não presta.

Putz. Em menos de um mês de trabalho com strip cam minha pequena faturara o que eu ganhava em seis meses como jornalista. Sim, ganhava, pois não ganho mais: tô desempregado desde que o último jornal pro qual eu escrevia sucumbiu às pressões do MNBC, o famigerado Movimento Nacional pelos Bons Costumes, que nos persegue desde que eu e Jessi iniciamos nossa campanha pela ampliação do diâmetro do mundo.

– Agora sou eu quem vou te sustentar, meu amor – ela anunciou, toda animada, me mostrando o belo saldo da conta. – Diametral vai poder escrever o que quiser, na tranquilidade. E nunca mais vai pensar no aluguel na hora errada, viu?

Ela se referia a uma triste broxada que ocorrera comigo dias antes. Sim, broxar é sempre triste, mas daquela vez foi tristérrimo. Vou contar, mas vê se não sai espalhando por aí. Era aniversário da Dinda, uma ninfeta muito sapeca que Jessi conhecera na sex shop. Mês passado a danada fez 18 aninhos e a gente a chamou pra comemorar num motel, a três. Pois no meio do bem-bom, taças de vinho, no som um blues sensual, clima maravilhoso… eu de repente broxei. E não teve jeito que desse jeito. A sorte é que Jessi continuou o serviço por mim, com o pau artificial, e nossa vizinha voltou pra casa com seu diâmetro devidamente ampliado, bem satisfeitinha da vida. Não sou do tipo encucadão com esse tipo de coisa, e não foi a primeira broxada da minha vida, mas que foi chato, foi. E a culpa eu botei no aluguel atrasado, na ameaça de despejo, na cara feia da síndica, essas aporrinhações que afetam o desempenho até de um galo. Mas voltemos ao assunto principal.

Pra encarnar Striputinha e assegurar o anonimato, Jessi usa perucas, lentes de contato, máscaras e maquiagem. Sempre me impressiono quando a vejo produzidona, parece outra pessoa. Algumas roupas e acessórios ela possuía do tempo que trabalhou como garçonete no Bukowski, onde fazia números eróticos, e o restante ela comprou baratinho na liquidação de uma sex shop.

A estreia foi com um cara de Cambé, que vira as fotos e o vídeo no blog da Striputinha e escolheu a personagem Colegial. Pois bem. Meia hora antes do encontro Jessi já andava pelo apartamento toda paramentada: sainha plissada, meias até o joelho, blusinha com gravatinha, caderno junto ao peito. E ainda tinha a indefectível caneta na boca semiaberta. Perfeito. Tão perfeito que senti uma coisa estranha, uma mistura de tesão, fascínio e… ciúme.

– Caramba, Jessi, você nunca se vestiu assim pra mim.

– Você nunca pediu… – ela respondeu enquanto se abaixava e fingia ajeitar a meia abaixo do joelho só pra que eu percebesse a calcinha da Hello Kitty enfiada na bunda. Ninfa Jessi não presta.

Na hora marcada com o cliente, quando ela entrou no quartinho, eu já estava lá, estrategicamente posicionado num canto ao lado da mesa do notebook. Estava ansioso, na verdade nervoso mesmo, pra ver a estreia da minha pequena no ramo do strip cam. Até parecia que eu nunca a havia visto dançar nua no Bukowski.

– Te manda, Gatão.

– Ahn?

– Dá licença eu ficar sozinha com meu cliente?

Ainda tentei argumentar, que eu ficaria quietinho, que o cara não me veria… Não teve jeito. Saí do quartinho e Jessi, ou melhor, Striputinha trancou a porta. E aí, fazer o quê numa situação dessa? Enchi um copo de vodca, claro, e fui beber na sala, enquanto do quartinho vinha a voz sussurrante de April Stevens cantando Teach me Tiger, que foi a música escolhida por Jessi pra estreia da Colegial. Dei um gole na vodca e tentei me convencer de que eu não estava enciumado pelo fato da minha namorada naquele momento estar tirando a roupa pra um gordão punheteiro lá do interior do Paraná. Ciúme por quê? Era só um trabalho.

Vinte minutos e oito Teach me Tiger depois escutei sua voz.

– Gatão…

Virei-me e o que vi? Vi a mulher mais linda do mundo. Já meio desmontada da roupa de colegial, uma meia faltando, um peito fora do sutiã… Parada na entrada da sala, encostada na parede, ela me olhava e se acariciava com a mão entre as coxas. Ainda era Striputinha? Ou já era Jessi novamente? Acho que era as duas ao mesmo tempo. E eu conhecia muito bem aquela expressão…

– Me come. Agora.

Não foi um pedido. Foi uma intimação. Do tipo que mortal nenhum pode negar a uma mulher como Jessi. E não neguei. Puxei-a pelo braço e joguei-a no sofá, como bem merece toda colegial safadinha. Comi-a com violência e desespero, como se come a mulher que se ama mais que tudo na vida.

(continua)

Ricardo Kelmer 2012 – blogdokelmer.com

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> Leia a continuação (exclusivo para Leitor Vip)

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APutinhaDoQuartinhoDoFundo-4A putinha do quartinho do fundo (vip) – Confira os bastidores e as imagens desta aventura de Diametral e Ninfa Jessi (exclusivo para Leitor Vip)

Ainda não é Leitor Vip? Vamos resolver isso agora!

Mais aventuras de Diametral e Ninfa Jessi

April Stevens canta Teach me Tiger

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – Um casal apaixonado vive seu amor libertino com bom humor e muita safadeza

As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz

Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir

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Por trás do sexo analHá algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

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DICA DE LIVRO

IFTCapa-04aIndecências para o fim de tarde
Ricardo Kelmer – Contos eróticos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A ex-bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e salvação pela submissão no sexo anal

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COMENTÁRIOS
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01- saudade de te ler nesse tom do Diametral! e que profissão interessante essa da Ninfa Jessi… queria ver essa performance. tenho um carinho especial por esses dois personagens. adorei a aventura nova. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – fev2013

02- Bem melhor que essa coisa de Tons de Cinza. É tudo mais colorido e faz a nossa imaginação nos levar numa história sensual e sexualmente ingênua. Renata Kelly, Fortaleza-CE – mar2013

03- a Putinha do quartinho fundo.. A-M-E-I.. Paulla Sousa Barros, Fortaleza-CE – mar2013

Jessi passou o gel e a fantasia de Rahbe foi devidamente realizada, enquanto minha pequena fazia o complemento, beijando e masturbando nossa generosa vizinha

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06/02/2013

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Quando os homens não voltam para casa

18/01/2013

19jan2013

QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1.

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bJavier Viegas é tarólogo e resolve problemas do Além. Dessa vez uma moça deseja reencontrar o namorado que foi atraído por uma bela princesa para dentro de um quadro de parede.

Mistério, sobrenatural.

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

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QUANDO OS HOMENS NÃO VOLTAM PARA CASA

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OI, LU… Por favor, leia a carta com atenção. Você é a única pessoa em quem confio. Saiba que, apesar de tudo, ainda amo você. Beijos. Junior.

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Luciane leu o bilhete intrigada. Já fazia uma semana que não tinha notícia do namorado. No escritório avisaram que ele não ia lá fazia três dias, os porteiros do prédio não sabiam dele e seu telefone não atendia. No início, pensou que Junior se chateara com a discussão que tiveram e resolvera dar um tempo. Mas aquele sumiço não fazia sentido.

Então decidira falar pessoalmente com ele. Entrou no apartamento com a chave extra que possuía. Nada viu de anormal, estava tudo em ordem. Sobre a cama, encontrou o bilhete, e ao lado, o quadro que ele tanto gostava, a princesa sentada num banco à entrada de um bosque, o mesmo quadro que originara a fatídica discussão. Nunca viu nada demais naquele quadro, mas Junior nutria por ele uma tal admiração que ela simplesmente não entendia. Pôs o bilhete de lado e começou a ler a carta.

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A margem de um lago, um pequeno ancoradouro e um bote amarrado. Um caminho que sai do ancoradouro e penetra o bosque, por entre as árvores. Logo à entrada do bosque, um banco de madeira e uma princesa muito bonita, em trajes medievais, olhando triste para a curva do caminho, como se aguardasse alguém que de repente surgirá vindo do bosque…

Encontrei o quadro numa loja de usados e gostei dele de cara. A princesa me passava uma ternura tão grande… E havia a sensação de familiaridade, era como se eu a conhecesse de algum lugar, de algum tempo. Levei o quadro e pus na sala. Você deve lembrar desse dia: eu mostrei, você olhou e riu, e disse que princesas sempre fizeram o meu tipo, e que se acaso eu encontrasse uma pela frente, não pensaria duas vezes e lhe trocaria por ela. Lembra?

Primeiro, pus o quadro no corredor, para olhar sempre que eu passasse. Depois, trouxe para o quarto e deixei ao lado da cama, para que eu adormecesse olhando para ele. Várias vezes tentei lhe dizer do quanto o quadro me fascinava. Mas você apenas zombava dos meus comentários.

Para mim, aquela princesa estava presa no bosque. Ela era triste e passava os dias sozinha, chorando de saudade de seu país. Mas havia um leve brilho de esperança em seus olhos: ela esperava pela chegada de um cavaleiro que a libertaria. Ele viria do bosque e surgiria na curva do caminho. Ele a pegaria pela mão e juntos tomariam o bote que os levaria rumo ao país da princesa. Enquanto isso não acontecia, ela aguardava cantando uma canção melancólica que se espalhava pelo bosque e um dia chegaria aos ouvidos de seu libertador.

À noite, eu acariciava o quadro como se isso pudesse amenizar o sofrimento da princesa. Tirava o vidro, passeava a ponta dos dedos por sobre o papel e quase podia sentir o relevo das árvores, a água do lago, a pele dela, o cabelo…

Então, uma noite tive um sonho. Eu estava no bosque e seguia pelo caminho entre as árvores. Estava à procura da princesa e precisava muito encontrá-la antes que anoitecesse. E só havia um jeito: guiar-me por sua canção. Mas ventava muito e a voz dela se perdia nos ventos. Tentei muitos caminhos, sabia que ela estava perto, podia sentir sua presença… mas não a encontrei. Começou a ficar escuro e eu tive medo de me perder no bosque. Então, lamentando muito não tê-la encontrado, voltei.

Acordei no meio da noite chorando. O sonho ainda estava presente no quarto e eu podia sentir o vento, ainda ouvia os ecos da canção triste. Eu estivera tão perto… Ela estava ali, em algum lugar… e eu não soube encontrá-la. Não fui bom o bastante para ser seu cavaleiro – era isso o que mais me doía.

No outro dia nem fui trabalhar, impressionado com a força do sonho. Contei para você, lembra? Pela primeira vez você escutou com atenção e, então, falou que eu já estava exagerando, e que se continuasse assim, ia ficar doido. Você levantou com o quadro na mão e saiu, dizendo que ele era de mau gosto e que ia jogá-lo no lixo.

Alcancei você na sala. Avancei e puxei o quadro de sua mão, mas ele escapou e caiu. E espatifou-se no chão. Quando vi os pedaços de vidro espalhados, fiquei transtornado, uma dor imensa no coração. Tentei juntar os pedaços e você se abaixou para me ajudar, pedindo desculpas. Mas eu lhe empurrei, com raiva, e disse que dispensava sua ajuda. Você ficou olhando para mim, assustada. Certamente devia achar que eu não estava bem da cabeça ou, então, pela primeira vez teve um vislumbre do quanto aquele quadro era importante para mim. Não sei, afinal não conversamos mais. Você bateu a porta com força e foi embora.

No dia seguinte, inventei uma desculpa e novamente não fui trabalhar, não conseguiria me concentrar. E à noite tive o segundo sonho. Estava de novo no bosque e a cantiga da princesa me chegava por entre os ventos. Ela estava mais perto que na noite anterior… Eu queria prosseguir, mas já estava escuro e eu tinha medo de ficar perdido no bosque para sempre. Dividido nessa dúvida mortal, decidi voltar, uma dor me dilacerando a alma por mais uma vez deixar a princesa sozinha.

Como da outra vez, despertei logo, tão triste que suspirava. Por alguns instantes, o quarto pareceu ser o bosque, tão real que quase toquei as folhas no chão. Rapidamente, tomei o quadro no peito, como se faz com alguém que a gente gosta tanto que tem vontade de trazer para dentro de si. Apertei a princesa contra o peito enquanto fazia força para que o sonho não fugisse. E por alguns instantes deu certo: toquei um galho, segurei-o… Mas logo o bosque sumiu e eu estava de volta ao meu quarto, eu e minha enorme tristeza. Então, falei para a princesa ser forte e aguardar só um pouco mais, eu logo a encontraria. E foi com esse pensamento que adormeci, esperançoso de que o sono me conduzisse de volta ao bosque.

Mas não voltei. Acordei pela manhã decepcionado, sem ânimo nem para comer. Não fui trabalhar. Trabalhar como, sabendo que ela ainda estava lá, sozinha naquele bosque?

Sem conseguir pensar em outra coisa, saí para dar um passeio. Olhando para o lago do parque, escutei a voz da princesa. Estava distante, eu quase não ouvia. Mas ela era sim. Fiquei radiante: aquilo era um sinal. Então, voltei para casa com a certeza de que à noite eu a encontraria.

Já é madrugada e estou com sono. Logo mais estarei com a princesa e a levarei de volta a seu país. Não se preocupe comigo, eu voltarei.

Junior

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Luciane continuou olhando para o papel. Tentava organizar as ideias, mas todo o seu pensamento era um emaranhado de interrogações girando sem parar. Que diabo afinal estava acontecendo?

De fato, no início não ligara. Com o tempo, no entanto, o interesse de Junior pelo quadro lhe botou uma pulga atrás da orelha. Mas nem de longe imaginou que a coisa pudesse chegar a tal ponto. Lembrou que nos últimos tempos ele andava mais quieto e pensativo, questionando coisas e com considerações filosóficas a respeito da vida. Talvez houvesse faltado um pouco mais de tato de sua parte para entender o que se passava. Ele dizia que precisava ficar sozinho mais tempo, e ela considerou que ele não mais a queria. Talvez não fosse nada disso. Talvez ele ainda a amasse mesmo.

Aqueles dias longe dele serviram para rever algumas ideias. Pediria desculpas e tentaria ser mais compreensiva, afinal ela o amava muito e não imaginava a vida sem ele. Claro que ele também tinha seus defeitos, mas primeiro era preciso não perdê-lo, isso agora era o mais importante. Por esse motivo, resolvera procurá-lo.

Mas agora, aquela carta… E se ele estivesse lhe aprontando uma brincadeira?, pensou, subitamente irritada. Sim, Junior bem seria capaz disso. Ela ali preocupada e ele em algum lugar por aí, rindo de sua cara. É, ele estava lhe aprontando alguma. E ela fazendo papel de boba, perdendo tempo com os delírios de um cara metido a cavaleiro garboso e sua princesa casadoira. Conheceu outra mulher e agora inventava aquela palhaçada, era isso. Pois se quisesse, que a procurasse para esclarecer a situação. Tinha mais o que fazer.

E foi embora, batendo a porta.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1ELE, PORÉM, NÃO A PROCUROU. Os dias seguiram e a indefinição a deixava nervosa. Estava com saudades. E muito preocupada. Aquela carta não fazia sentido. E ainda havia a questão do trabalho: ele faltava já fazia uma semana, os colegas também estavam preocupados.

Voltou ao apartamento três dias depois. Estava decidida a chamar a polícia. Foi até o quarto e pegou o quadro sobre a cama. Então, percebeu algo tão estranho que teve de tapar a boca para não gritar. Ali, no quadro, no exato local onde o caminho fazia uma curva para entrar no bosque, ali havia uma nova figura, uma pessoa que não estava lá da última vez. E, olhando bem… era Junior.

Luciane largou o quadro sobre a cama. Um medo gelado lhe subiu a espinha. Olhou novamente o quadro. Havia mesmo um detalhe novo na paisagem, havia alguém vindo de dentro do bosque em direção à princesa. A imagem não estava nítida, mas era uma pessoa. E o rosto parecia com o de Junior, o formato, o cabelo, os olhos… Ou será que aquela pessoa sempre estivera ali? Não, impossível.

Luciane fechou os olhos e disse para si mesma, mentalmente: Junior está dentro desse quadro. Ao mesmo tempo em que resistia à ideia, sentia seu pensamento sendo atraído para ela. Junior estava naquele quadro, podia sentir isso. E quanto mais se deixava envolver pela ideia, mais absurda ela se tornava.

Olhou novamente. E se fossem dois quadros? Em sua brincadeira, Junior bem poderia ter substituído o primeiro quadro por aquele segundo. Mas não, não. Por que ele se daria ao trabalho de fazer tudo aquilo, por quê? Não fazia sentido.

Decidiu dormir no apartamento. Estava com medo, mas precisava descartar a hipótese de que seu namorado lhe pregava uma peça, ele que sempre fora muito brincalhão. Dormindo ali, talvez o surpreendesse chegando para trocar o quadro novamente. Precisava tentar.

Não conseguiu dormir de tanta ansiedade. Levantou assim que o dia clareou. A primeira coisa que fez foi pegar o quadro. E lá estava a mesma pessoa chegando pelo caminho – dessa vez, no entanto, a imagem estava mais nítida. Não havia dúvidas: era Junior sim. E ele estava bem próximo da princesa, quase tocando-a.

Luciane olhava o quadro impressionada. Da noite para o dia os contornos da figura adquiriram maiores detalhes, como se alguém houvesse retocado o quadro. Não havia engano: aquele era seu namorado… vestido feito um cavaleiro medieval.

– Junior… – murmurou, enquanto acariciava o quadro. – Junior, você está aí?

De repente, deu-se conta do que fazia e começou a chorar. Chorou pelo namorado cujo paradeiro desconhecia, e também pela possibilidade de estar sendo vítima de uma bizarra brincadeira. E chorou, principalmente, pelo medo de tudo aquilo ser verdade.

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A MOÇA DO BALCÃO suspendeu os olhos do livro que lia e olhou para Luciane.

– Bom dia. Meu namorado comprou este quadro aqui mês passado. – Luciane tirou o quadro da mochila. – Foi você quem vendeu pra ele?

– Estou lembrada, fui eu mesma. Algum defeito?

– Não, não é isso. É que… bem… Você lembra se o quadro tinha esse detalhe aqui, esse cavaleiro?

– Como assim?

– Tente lembrar, é importante.

– Não estou vendo nada de errado nele.

Luciane suspirou. Não ia ser fácil.

– Moça, eu sei que você não vai acreditar, mas…  Olha, eu tenho fortes motivos pra acreditar que meu namorado… caiu dentro desse quadro. – Pronto, falara. Estava dito. – Ele é esse cavaleiro que está vindo pelo caminho…

A atendente olhou para o quadro, e depois para ela. Viu o rosto cansado de Luciane, a expressão angustiada.

– Seu namorado… caiu dentro do quadro?

Luciane sentiu que ia chorar novamente. Controlou-se e tentou falar, mas não conseguiu. Sentia-se totalmente ridícula. A atendente continuava observando-a. A situação toda era absurda, irreal. Então, compreendeu que era inútil, estava fazendo papel de louca.

– Esqueça o que eu falei – ela disse, pondo o quadro de volta na mochila. – Não devia ter vindo aqui.

Quando se preparava para deixar a loja, um homem surgiu, vindo da sala ao lado.

– Por favor, não vá.

Luciane virou-se e viu um sujeito baixo, moreno, barrigudo. Vestia jeans, tênis e camisão estampado por fora da calça. Devia ter seus cinquenta anos. O homem tinha um olhar forte, mas amigável.

– Se não for incômodo, gostaria de ouvir sua história.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1A PEQUENA SALA tinha uma luminosidade suave que vinha de um vitral colorido na janela. No ar pairava um suave cheiro de incenso. Havia objetos antigos como baús, candelabros e estatuetas, muitos livros numa estante de madeira e belos quadros pelas paredes.

Luciane sentou-se numa cadeira que parecia ter quinhentos anos de idade. Reparou no homem que sentava do outro lado da mesa. Tinha trejeitos femininos. E falava com sotaque espanhol. Olhos negros, olhar amável. Era calvo na frente, mas atrás o cabelo descia numa trança até o meio das costas. Figura exótica.

A atendente entrou trazendo uma bandeja.

– Chá de capim-santo, querida – o homem falou. – É bom pros nervos. Obrigado, Ana Isaura. Agora pode nos deixar a sós, está bem? Não atendo ninguém.

– Dona Carlota tem consulta às seis, seo Javier.

– Desmarque, mulher. Diga que minha vó menstruou e que eu saí correndo pra lá. Passar bem.

Luciane riu. Exótico e gozador.

‒ Ana Isaura começou mês passado, ainda não entrou direito no clima desse negócio. Tenho essa loja de usados, meu anjo, mas também dou consulta de tarô. E resolvo outros babados. Nunca ouviu falar do tarô do Javier?

Tarô do Javier… Onde se metera?

– Você deve estar se perguntando, onde que eu fui parar, minha Virgem, não é? Mas não se preocupe, veio ao lugar certo, eu vou ajudá-la. Vamos lá, me conte essa história direito.

Luciane pesou a situação. Certamente se tratava do maior charlatão do bairro. Aquele sotaque espanhol devia ser puro golpe de marketing. A trança enorme nas costas, o jeitão de bicha… Vai ver nem era bicha, era tudo marketing. E a túnica branca, por que não usava? Certamente para não ficar estereotipado demais. Aquela gente sabia como fazer a coisa. Bem, não custaria nada contar para ele. Para quem mais, afinal?

Então, contou que Junior comprara o quadro ali e que se afeiçoara exageradamente a ele. Falou da crise por que passava a relação, da discussão por conta do quadro e que depois ficaram sem se falar por uns dias. Javier escutava atento.

– Uma semana depois, como ele não atendia o telefone, fui até lá. E só encontrei esse quadro. Quando voltei no outro dia, Junior começou a aparecer na paisagem, vestido de cavaleiro… – ela falou e sorriu sem jeito, nervosa, esperando que Javier sorrisse também. Mas ele continuou compenetrado, olhando em seus olhos. – E aqui estou eu.

Não falara da carta. Proposital. Queria ver até onde o sujeito era mesmo bom naquelas coisas.

– O que você acha que pode ter acontecido? – ele perguntou.

Ele queria saber qual a sua própria expectativa, raciocinou Luciane. Sabendo isso, jogaria de acordo. Gente esperta.

– Pra ser sincera, não sei mesmo.

Javier pediu o quadro. Ela tirou da mochila e entregou.

– Hummm, bom gosto pra homem, heim?…

Ele segurou o quadro com as duas mãos e fechou os olhos. Por um tempo assim ficou, a cabeça reclinada para trás, num movimento circular e vagaroso, respirando fundo. Ela acompanhava com atenção seus movimentos. Sentiu vontade de rir, mas se controlou. Quando tudo se resolvesse, Junior iria lhe pagar direitinho aquele ridículo todo, ah, iria sim, o cretino.

Javier abriu os olhos.

– Babado fortíssimo, meu anjo.

– Heim?

– Olha, não deu pra ver os detalhes, mas fizeram coisa bem feita com seu namorado.

– Uma mulher?

– Mulher. Mas não deu pra ver de quem se trata.

– Taí, não sabia que eu tinha uma rival… – ela ironizou. E não teve como evitar a lembrança de algumas amigas, umas certas colegas de escritório dele… Mas não, aquele papo era conhecido. Agora o charlatão ia dizer que podia desfazer o feitiço e que cobrava tanto, mas, como simpatizou com ela, deixava por tanto…

– Essa moça é poderosa.

– Eu conheço?

– Talvez. Mas é uma velha conhecida dele.

– E o que vai acontecer?

– Ele parece que está enfeitiçado. É como se estivesse sendo atraído por ela.

Luciane lembrou da canção triste da princesa…

– Ela deve ter atraído seu namorado com este quadro. Ele veio aqui e comprou, levou pra casa. Crau! Mordeu a isca direitinho.

– Mas onde ele está agora?

– O quadro está mostrando, meu amor. A princesa representa a mulher que jogou o feitiço nele. Ele já a encontrou.

– Você quer dizer que esse cachorro está me passando um chifre por aí? – ela falou sorrindo, tentando mostrar que aquilo não a afetava. Mas se descobriu verdadeiramente irritada com a tal hipótese. Talvez aquela priminha dele que vez em quando vinha para a cidade…

– Em outras palavras… é isso mesmo.

– Mas que diabo de mulher é essa que faz um homem largar casa, trabalho, se mandar, não avisar ninguém?…

– Babado forte, meu anjo, já falei. Não crê em bruxa?

– Não.

– Pois elas existem.

Ele só podia estar inventando tudo aquilo. Mas como explicar o que acontecia com o quadro?

– Claro que você tem o direito de desconfiar de tudo que estou falando, meu bem. Acontece que enquanto você desconfia, a rival ganha terreno.

Ele pôs o quadro sobre a mesa.

– Javier, eu não sou a pessoa mais cética do mundo, pode ter certeza. Mas você há de convir que essa história parece mais uma grande loucura.

– Se é loucura, o que você está fazendo aqui?

O tom de voz dele tornara-se mais sério. O olhar agora era grave.

– Muito bem. Digamos que eu acredite. E agora?

– Agora você me faz um cheque de mil reais e podemos começar. Normalmente eu cobro dois. Mas simpatizei com seus olhos…

– Mil reais?! De jeito nenhum.

– Se você acha que seu namorado não vale isso…

– Talvez não. E se eu não tiver esse dinheiro?

– E não tem como arrumar?

– E se arrumar? Que garantia tenho de que vai dar certo?

Ele se inclinou para frente e seu olhar mudou novamente. Tornou-se mais manso e envolvente. E ela podia senti-lo feito suaves ondas… que iam e vinham dentro de seus próprios olhos…

– Vai dar certo, meu anjo.

– E se por acaso não der? – As ondas iam e vinham, iam e vinham… formando um balanço agradável… inebriante… sonolento… – Você me devolve o dinheiro?

– Eu não falho, minha querida.

Por um instante, quase se deixou levar por aquele vai e vem… Mas, subitamente, uma forte vontade se manifestou e agitou seu pensamento, pondo-a em terra firme. A sonolência sumira.

– Isso não é garantia, Javier, você sabe disso.

Ele encostou-se de volta na cadeira. Pousou os cotovelos nos encostos, juntou as mãos sobre a barriga e cruzou os dedos. Encarou-a por alguns segundos, gravemente. Já não havia ondas em seu olhar.

– E você dizendo que não acredita em bruxas…

– Como?

Impressão ou ele tentara hipnotizá-la?

– Quantos anos você tem, Luciane?

– Vinte e sete.

– Você é nova. Se quisesse, podia ser ainda uma grande bruxa. O que tem de gente precisando de serviço. Você tem jeitão, é forte… Mas sem essas ombreiras, meu anjo, por favor. Não lhe caem nada bem. Se quiser, posso ser seu estilista, você me dá dez por cento do que faturar, que tal? Estilista de bruxa. Chique.

– Eu só quero meu namorado de volta.

– Encontrei pouquíssimas mulheres com sua força. E olhe que eu já rodei muito.

– Você é desses que se aproveitam do desespero das pessoas, Javier?

– Só cobro dos que podem pagar.

– Se posso ou não, não vem ao caso. O que estou discutindo é a garantia de seu serviço.

Ele sorriu.

– Você ganhou, sorcière. Não precisa pagar nada agora. Mas se seu namorado voltar, quero mil e quinhentos.

– Mil e duzentos.

– Mil e trezentos. É pegar ou largar.

Luciane sentia-se ridícula. Aquilo não estava acontecendo. Negociando com um charlatão a volta da pessoa amada…

– Combinado.

– Sábia decisão  – ele falou, e levantou da cadeira, apontando o quadro. – Eu vou entrar hoje mesmo. E vou trazê-lo de volta.

– Vai entrar no quadro?

– Já entrei em muitos. Seu namorado não é o primeiro a cair nessa história. Mas vamos logo ao que interessa. – Ele caminhou até a porta. – Traga o quadro.

– Vamos aonde?

– Ao local do crime, lógico. – Ele abriu a porta e saiu. Ela o acompanhou. – A energia do babado ainda deve estar por lá. Vou ter de dormir uma noite no apartamento do seu namorado. Ana Isaura, vou sair mais cedo, pode fechar. Até amanhã. – Virando-se para Luciane, falou baixinho: – Você devia pensar melhor sobre ser uma bruxa…

– Não estou interessada.

– Que desperdício, meu anjo Mikael, que desperdício…

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1ERAM OITO HORAS quando chegaram ao apartamento. Javier entrou no quarto e procedeu como na loja: fechou os olhos e girou a cabeça, concentrando-se. Luciane observava da porta, aquele quarto lhe dava calafrios. Por um instante, ainda considerou a hipótese de desistir. Mas já havia ido longe demais.

– O portal é exatamente aqui, neste quarto – disse Javier após abrir os olhos. – Olha, vou precisar de treze velas brancas. Novas, viu? O supermercado ainda está aberto. Vou dormir no quarto, você na sala. Se quiser, pode comer alguma coisa, eu vou dormir de barriga vazia.

– E o quadro?

– Dorme comigo. Não se preocupe, vou encontrar seu namorado e ele vai voltar pra você, lindo e maravilhoso.

Meia-hora depois, Javier foi ao banheiro e trocou de roupa. Despediu-se dela e foi para o quarto, levando o quadro e as velas.

Luciane deitou no sofá da sala e manteve-se atenta. Mas não escutou nenhum som vindo do quarto. O que aconteceria? Estava exausta, os olhos pesando de tanto sono. Talvez a vizinha de baixo, talvez… O idiota bem seria capaz de se enrabichar por um tipinho daquele. Ou aquela caixa da farmácia…

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O BARULHO DO TRÂNSITO, as buzinas, os ônibus passando… Luciane despertou assustada, a claridade da manhã entrando pela fresta da janela. Eram nove horas. Dormira profundamente, como havia dias não o fazia. Levantou do sofá e correu para o quarto. Abriu a porta e não viu ninguém. No chão estavam as velas derretidas. Sobre a cama, o quadro. Aproximou-se. E viu Junior. Sentado no banco, ao lado da princesa, segurando-lhe as mãos.

– Bom dia, princesa…

O susto foi tão grande que ela tropeçou nas próprias pernas e caiu, gritando.

– Meu São Sebastião flechado, mas pra que esse escândalo, criatura? – Javier estava à porta do quarto, enxugando o rosto com uma toalha. ­– Eu, heim… Depois bicha é que é escandalosa.

– Cadê o Junior? O que aconteceu?

– Primeiro, se acalme. O mundo vai acabar mas não é hoje. O que acabou foi o papel higiênico do banheiro. Melhor providenciar.

– Já estou calma – disse ela, levantando-se.

– Vamos tomar um café que eu tenho algo muito importante pra lhe falar.

 

 

– ME ENGANEI. Isso não é coisa de gente desse mundo.

Sentado à mesa da cozinha, Javier tinha a expressão grave.

– Não?

– Eu bem que desconfiei ontem lá na loja.

– Do quê?

– A princesa perdida. Eu já soube de uns babados desses, mas nunca nenhum tinha caído em minhas mãos. Essa é a primeiríssima vez.

– Ainda não entendi – Luciane falou, servindo duas xícaras de café.

– Obrigado. Pois bem, a princesa perdida é uma princesa belíssima, a mulher mais bonita que já existiu. E olhe que entendo de beleza, já fui até jurado de concurso, sabia?

Luciane continuou séria.

– Ela é de um reino muito distante, que fica depois do lago. Um reino fora do tempo. E só um cavaleiro destemido pode ajudá-la a voltar pra casa.

Ela riu.

– Cavaleiro destemido, o Junior?! Você está brincando… Aquele frouxo morre de medo de altura.

– A princesa não o subestimou.

Luciane ficou séria novamente, lembrando da carta. Sentiu que não adiantaria muita coisa pensar em termos lógicos. Até ali se comportara como se estivesse no limite entre duas realidades, sem se decidir por nenhuma. Talvez fosse hora de se resolver.

– Essa princesa perdida, ela existe mesmo?

– Sim. Mas só pros homens.

– E por que diabo ela está fazendo isso com ele?

– Primeiro, porque ela precisa voltar pra casa, já lhe disse. E, depois, porque seu namorado se encantou com ela.

– Mas ele me ama.

– Não tem nada a ver com vocês, meu bem. É coisa dos homens.

– Aquele cachorro…

– Isso não é hora de briga. E eu não tenho vocação pra terapeuta.

– Francamente, cheguei ao fundo do poço. Ser trocada por uma princesa de papel…

– Ela é tão real quanto você, querida. Apenas vive no mundo dele, entende?

– Homem não presta mesmo! – Luciane continuava inconformada. – São todos uns fracos, não podem ver bunda se balançando na frente deles… Bunda de princesa então!

– Eu não acredito que a madona está com ciúmes.

– Ciúmes? Não seja ridículo, Javier…

– Pra ciúme, é salmo 115, viu? Sete vezes ao dia durante sete dias. Virada pra igreja de Éfeso.

Ela engoliu em seco a provocação. Estava com muita raiva e não tinha por que esconder. Se Junior não estava satisfeito com ela, por que então não a procurou antes para conversar? Mas não, saiu logo atrás da primeira que apareceu. Uma mulher de papel, do outro mundo, que ridículo.

– Diz que essa princesa tem uma voz lindíssima. Ela atrai os homens cantando, como as sereias.

– Além de princesa, cantora. Eu mereço.

– Mas tem um jeito de fazê-la parar de cantar.

– Qual é?

– Indo encontrá-la, pessoalmente. Exatamente como ele fez.

– Então chame de volta, Javier.

– Tsc, tsc. Agora não é hora.

– Por que não?

– Quando chega a hora do homem encontrar essa mulher, não se deve impedi-lo.

– Por quê?

– É uma velha lei do mundo da magia, meu amor. Não fui eu quem inventou.

– Leis existem pra serem quebradas.

– Essa eu não quebro, santa, não mesmo, olha o dedinho…

– Então o que fazemos?

– Nesse caso, nada.

– Ótimo. E ele vai ficar lá até quando?

– Não sei. Mas ele vai tentar levá-la de volta ao seu reino.

– Rola sexo nessa história? – Luciane perguntou, séria.

Javier riu.

– Estou falando sério, Javier.

– Vai depender dele.

– Então já deve estar rolando. – Ela se levantou, irritada.

– Pelo jeito, você não confia muito em seu namorado.

– Isso não é da sua conta.

– Devia se orgulhar dele. São poucos os homens que têm coragem de ir encontrar a princesa. E menos ainda os que conseguem levá-la de volta a seu reino. A maioria só quer sexo com ela. Esses, ela rejeita.

– E o que acontece com esses?

– Eles voltam e continuam os mesmos. Mas se o homem a olha além do desejo físico, ela o sagra cavaleiro de uma ordem muito especial. Ele volta outro homem, mais sábio, mais maduro.

Luciane pensou um pouco.

– Tenho que lhe mostrar uma coisa, Javier.

Ela mostrou a carta, envergonhada. Javier a leu em silêncio. Depois dobrou e entregou de volta.

– Por que você não me falou antes, dona cascavel? – ele perguntou, muito sério. – Teria me poupado trabalho.

– Desculpe. Eu só queria ver se você era bom mesmo. Agora vejo que é.

– Típico de bruxa. Bruxa que ainda tem muito que aprender. De qualquer forma, eu não posso trazê-lo de volta. Só podemos torcer pra que ele não fracasse.

– Vai ser uma torcida inútil.

– Não subestime os homens, meu anjo. Muitos partem com uma verdade e descobrem outras.

– Vou ter de ficar aqui torcendo pra que meu namorado seja forte o suficiente e resista a essa princesa? Acho muito difícil… Olha aqui a cara deles, parecem dois pombinhos apaixonados…

– Junior já deve ter sofrido um bocado com esse seu gênio, heim, menina?…

– Tenho o direito de ficar nervosa. E, além disso, estou pagando.

– Não vai mais pagar, meu bem. Ninguém pode ir lá buscar seu namorado. Aposto minha trança nisso.

– Que espécie de bruxo é você que não pode tirar um homem dos braços de uma princesa idiota?

– Ah, meu anjo, você ainda tem muito a aprender sobre magia…

– Pois me ensine. Agora quero aprender.

Javier a olhou num misto de riso e espanto.

– E pra quê, criatura louca? Não vai me dizer que é pra ir lá buscar…

– E eu poderia? – ela o interrompeu.

– Duvi-dê-o-dó. E mesmo que pudesse, eu não aconselharia.

– E se eu quisesse apenas observar?

– É arriscado.

– Por quê?

– É o mundo dela, só os homens vão lá.

– Pois eu quero ir.

Javier terminou de tomar seu café, levantou-se e lavou a xícara na pia.

– Desista, Luciane, é realmente muito arriscado.

– Eu assino um papel me responsabilizando, fique tranquilo. Apenas me diga o que tenho de fazer. Aí você cai fora e eu faço o resto.

Javier suspirou. Não era todo dia que se tinha o privilégio de ver uma bruxa daquelas em ação. No entanto…

– Quanto você quer, Javier?

Ele não respondeu.

– Eu lhe pago os mil e trezentos, está bem? E você me ensina como fazer.

– Não sei, acho melhor não facilitar…

– Mil e quinhentos.

Javier se assustou com a força das palavras dela. A bruxa enfim se revelava… Ele observou a mulher à sua frente, tão determinada que não duvidou que ela pudesse fazer mesmo o que tinha em mente. Mas o que poderia acontecer?

– Dois mil, Javier. Vai topar ou não?

Dois mil…, pensou Javier. Dava para passar quinze dias na praia comendo camarão. Bem longe daquelas loucas descabeladas atrás de homem. Mas que dia! Primeiro a princesa perdida, e agora uma bruxa ciumenta disposta a enfrentá-la, cara a cara, desrespeitar as sagradas leis da magia. Seria uma briga boa de se ver…

Mas não. Não estava disposto a patrocinar a quebra de uma lei tão forte, seu nome iria direto para o livro negro. Mas pensando melhor… também não precisava se arriscar tanto. Podia tão somente conduzi-la até o bosque, e ela que se virasse depois. Não era bruxa mesmo?

– Três mil – ele falou. – E nem pechinche porque não faço uma loucura dessas por menos.

– Combinado – Luciane sorriu, satisfeita. – Vou no banco pegar o dinheiro.

– Espera, criatura. Olha, só podemos agir à noite. Eu vou na loja e mais tarde nos encontramos aqui, tá? Mas você precisa ficar calma.

– Eu tô calma.

– Sente e olhe aqui pra lente da verdade. Aqui no meu olho, isso… – Ele a pegou pelos ombros, olhando fixamente em seus olhos. – Você me promete que não vai fazer nada, vai só assistir?

– Prometo.

– Não senti firmeza.

– Eu prometo. Juro.

– Se você desrespeitar as leis, não sei o que pode acontecer com você.

– Não vou fazer isso.

– Mostre que está ao lado de seu namorado, que confia nele. Assim como ele confiou em você, lhe contando essa história. Isso é importante. Você entende isso?

– Entendo.

– Entende mesmo?

– Sim.

Não, ela não entendia – percebeu Javier. Lógico que não entendia.

– Então pode trazer o dinheiro.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1OS DOIS DEITARAM na cama de Junior, o quadro entre eles. Eram dez horas da noite.

– Lembre-se, nós vamos despertar logo após o sonho, como Junior contou na carta. O portal vai estar aberto pro bosque, e assim que surgir, nós entramos. Se demorarmos, ele some.

– É tão fácil assim?

– Fácil?! Pelas doze pétalas! Claro que não, criatura! Esse portal só se abre uma vez na vida de um homem. E vai acontecer hoje de novo porque a energia do babado ainda está por aqui. Agora vamos dormir que a noite vai ser longa.

Ele ainda duvidava que uma mulher fosse capaz de entrar naquele mundo. Mas não custava tentar.

Luciane fechou os olhos. Magia, portais, criaturas do outro mundo, tudo isso a deixara bastante excitada. Era como se uma força nova, que jamais suspeitara possuir, houvesse de repente irrompido, e aquilo lhe proporcionava uma estranha e prazerosa sensação de poder. Javier alertara sobre o perigo, mas quem corria perigo era o seu namorado nos braços de uma princesa caçadora de homem. Ela, porém, Luciane, podia trazê-lo de volta. Tinha esse poder, sim, podia senti-lo como sangue correndo sob a pele.

Talvez Javier estivesse certo. Talvez fosse mesmo uma bruxa. Se era mesmo, saberia naquela noite.

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DESPERTARAM COMO JAVIER PREVIRA. Luciane abriu os olhos na escuridão do quarto. Estava ainda sonolenta, mas pôde ver perfeitamente as árvores do bosque… Pareciam sombras, mas… estavam ali, sim, as árvores estavam ali no quarto!

– Javier?…

– Não fale agora – ele respondeu baixinho enquanto saía da cama pelo outro lado. – Ande, levante.

Ela pôs os pés no chão e ficou de pé. A sensação era de sonho, mas podia sentir, pouco a pouco, a realidade concreta do quarto se apoderando de seus sentidos, de seu pensamento, como se a chamasse de volta…

Então, viu Javier tomando a trilha de terra entre as árvores e rapidamente o seguiu.

E foi como acordar. De repente, sentiu-se desperta. Estava no bosque, caminhando. Um silêncio tão grande, tão perfeito que metia medo. As árvores, o cheiro de mato… Era tudo real e, no entanto, era tudo meio nebuloso, como num sonho. Caminhava, mas não sentia bem o chão. Tocava as árvores, mas não as sentia inteiramente. Era como se seus sentidos estivessem anestesiados. O pensamento, porém, funcionava perfeitamente.

Não podia ser verdade, pensou. Devia ser alguma espécie de sonho…

– Pare de pensar, sua boba! Se continuar questionando, você automaticamente volta!

Javier estava pasmo: ela conseguira. O que uma mulher ciumenta não fazia…

– Onde está você, Javier? – Ela o escutava, mas não o via.

– Fiquei no meio do caminho, não consigo entrar mais. Mas não se preocupe comigo. Daqui posso ver você.

– Onde eles estão?

– Concentre-se.

Luciane fechou os olhos, e de repente soube que deveria pegar à esquerda. Caminhou durante algum tempo. Não tinha mais medo. Sentia-se forte e determinada. Após uma curva, avistou o banco de madeira e, logo mais à frente, o lago e o pequeno ancoradouro. Correu para lá, ansiosa. Mas não encontrou ninguém. Apenas água e névoa. E o silêncio.

– Eles já foram, Javier!

– Então você chegou tarde, meu bem.

– Mas não devem estar muito longe… – disse ela, procurando. A névoa sobre o lago, porém, não permitia enxergar mais que alguns metros.

– Acho que foi melhor assim, Luciane.

Ela mergulhou um pé na água. Era suave e morna.

– Ei, o que está fazendo?

Ela não respondeu.

– Luciane!

Ela mergulhou o outro pé.

– Sua desmiolada, você não vai encontrar ninguém nesse nevoeiro!

Enquanto avançava, ela sentia vagamente o chão do lago sob seus pés, a água subindo devagar pelo seu corpo…

– Luciane, saia daí enquanto é tempo. Você pode nunca mais encontrar o caminho de volta.

Ela começou a nadar, e era como se nadasse em nuvens.

– Junior! – ela gritou, entrando cada vez mais na névoa, e seu grito ecoou durante um longo tempo pelo silêncio infinito do lago.

Gritou de novo, mais forte. E ficou aguardando, flutuando… Mas nada, nenhum som de volta. Nadou novamente, cada vez mais para dentro das brumas. Algum tempo depois escutou:

– Lu, é você?

– Sou eu, Junior! Estou aqui!

Luciane sentiu uma irresistível alegria tomar-lhe conta. Junior estava ali em algum lugar – ela conseguira. Desafiara as leis da magia e vencera. Javier tinha razão: era mesmo uma bruxa. E quanto não havia perdido sem saber disso?

– Onde você está, meu amor? – ela gritou, excitada.

Pouco a pouco distinguiu no meio da bruma os contornos do bote e, em pé, a figura de Junior, empurrando-o com uma longa vara. Viu sua roupa de cavaleiro, a cota de malha, a calça justa, as botas… Em outra ocasião o acharia inteiramente ridículo e teria um acesso de riso. Mas agora não. Estava lindo… Aquele era o seu homem. Apenas seu e de mais nenhuma outra mulher.

Mas havia algo estranho… Havia algo novo em Junior, uma coisa diferente… Ficou a observá-lo enquanto flutuava. Ele estava realmente mais bonito, mas havia algo mais… Havia uma dignidade. Sim, uma dignidade, uma altivez de cavaleiro, uma postura digna de alguém… a serviço de uma princesa.

Nesse instante, desapareceu a alegria do reencontro e, em seu lugar, desceu-lhe a terrível sensação de ser preterida por outra mulher. Junior nunca se portara assim por ela. E a tal princesa, onde estava?

– Lu, o que está fazendo aqui?

– Vim buscar meu namorado, ora – ela respondeu, agarrando-se ao bote.

– Luciane, não! – Era a voz de Javier. – Você não precisa subir!

Ela subiu rapidamente.

– Meu amor, o que você está fazendo? – Junior perguntou, assustado. – Não pode ficar aqui.

– Eu pergunto, Junior, eu pergunto – ela falou, muito séria, pondo-se de pé no bote. – Que diabo você está fazendo aqui enquanto eu… Aliás, cadê a vaca?

– Quem?

– A princesa fajuta.

– Não está vendo?

Luciane não via ninguém além dele.

– Deve ter se mandado quando me viu. Pelo menos sensata ela é.

– Lu, você não pode ficar aqui.

– Me diga só uma coisa: o que essa princesa tem que eu não tenho, heim? Pode falar, não vou ficar com raiva.

– A gente conversa depois, Lu. Tenho que conduzir a princesa até seu reino. Quando eu voltar, a gente…

– Não, você vai voltar agora, vamos pra casa. Você não imagina o que eu passei por causa desse seu sumiço.

– Não posso, Lu. Por favor, compreenda…

– Junior, eu admito que errei algumas vezes… Você ainda me ama?

– Lu, você está estragando tudo!

– Eu não volto sem você.

– Eu não posso voltar agora! – Junior gritou, angustiado. – Você não entende? Eu não posso!

– Então também vou. Quero conhecer esse reino.

– Luciane, sua louca excomungada! – A voz de Javier. – Saia já daí!

– Dois homens querendo mandar em mim… Um metido a cavaleiro e uma bicha doida. Era só o que faltava. Junior, como você pode estar apaixonado por uma mulher que não existe, seu bobo? Eu existo, olhe pra mim…

– Lu, vou ter de botar você pra fora desse bote…

– Eu sou uma bruxa, meu amor. Você não pode comigo.

– Luciane, não faça isso! – Javier gritou de novo.

Junior a agarrou e a imobilizou. Mas Luciane tentou escapar e os dois perderam o equilíbrio. E caíram na água, afundando rapidamente, enquanto o silêncio voltava a tomar conta do lago.

Alguns segundos depois um corpo veio à tona. Era Luciane.

– Junior! – ela gritou, desesperada. Mas não escutou nada. – Junior!!!

Nenhuma resposta. Só o silêncio do lago.

– Javier, me ajude!

Mas Javier também não respondeu. Luciane procurou o bote e não o viu. Ao seu redor a névoa, a névoa sem fim. E o silêncio infinito, aterrorizante. O silêncio ensurdecedor.

– Junior!!! – ela gritou, cada vez mais desesperada, enquanto procurava a margem e não encontrava.

Mas ninguém respondeu.

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QuandoOsHomensNaoVoltamParaCasa-1DE MANHÃ CEDO, Javier levantou. Sentia-se cansado. Ao lado da cama havia um quadro com a paisagem de um bosque, um lago com ancoradouro e um banquinho de madeira. Nem princesas nem cavaleiros.

Minutos depois, fechou a porta do apartamento e saiu. Na rua o sol brilhava forte. Ele pôs o óculos escuro, fez sinal para um táxi e entrou. Deu bom dia ao motorista, indicou-lhe o endereço e acomodou-se no banco traseiro.

Por que mulher tinha de ser tão teimosa?, pensou. Tanto aviso para nada. Uma pena. Um talento maravilhoso desperdiçado. E o moço, tão bonito… Ele abriu o bolso do casaco e conferiu o maço de dinheiro, os três mil do serviço.

Mais adiante, quando passavam pelo parque, Javier viu a multidão, um carro da polícia parado. O táxi diminuiu a velocidade. Ele aproveitou e perguntou a uma senhora o que estava acontecendo. Ela respondeu que haviam encontrado dois corpos no lago. Um rapaz e uma moça.

Javier quase pediu para o motorista parar. Mas achou melhor não. Tinha certeza que não iria gostar nada do que veria.

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Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

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GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1cEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

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Comentarios01COMENTÁRIOS

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01- A “releitura” (somente uma nova leitura) me tocou quando percebi que a jornada de Júnior “quadro a dentro” para levar a princesa de volta para o reino e que somente ele poderia fazê-lo, seria um resgate, ou uma busca de harmonização dele mesmo. Colocar esse feminino no seu lugar dentro dele. Nossa! que linda metáfora! O quanto de amor ele sentia por sua namorada, cega de raiva e ciúmes do fantasma de todos os femininos. No final a tragédia do lago trazendo na minha visão da leitura, a morte do relacionamento. Quando ele compartilha com ela sua jornada e ela não consegue perceber, deu uma dó de tudo. Dele, dela, dos feminos e masculinos distorocidos. Um conto bem masculino com muita sensiblidade. Ivonesete Rodrigues, Fortaleza-CE – dez2012

02- Muito interessante esta releitura “cega de raiva e ciúme” e quem sabe e talvez cega de amor para trazê-lo de volta à realidade! Adorei! O melhor do livro! Michele SJ, Fortaleza-CE – jan2013

03- Que texto FANTÁSTICO,Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos!!!Riquíssimo!!!Por trás de tanta magia,muitas reflexões podem ser feitas tanto em relação ao comportamento feminino como o masculino,dentro de um relacionamento a dois!!!Quantas vezes,nós,mulheres,enxergamos princesas e vocês,homens,enxergam príncipes encantados que só existem nos quadros da nossa imaginação?Muitas,né?Por conta desses pensamentos lúdicos,acabamos nos aventurando por lagos perigosos e desconhecidos,nos afogando,muitas vezes, e,colocando tudo a perder!!!!Como diz a frase: o ciúme é sempre um mau conselheiro!!!! Silvana Alves, Fortaleza-CE – jan2013

04- Nesse aqui o Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos quebrou tudo. Vale muito a pena ler. E o livro todo é sensacional. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – jan2013

05- Ainda não consegui terminar de ler todos, mas este foi o que eu mais gostei! Maria do Carmo, São Paulo-SP – jan2013


Vingativas

04/04/2012

04abr2012

Duas mulheres raptam um ator famoso e, como vingança por ele tê-las desprezado, levam-no a um hotel, amarram-no e…

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VINGATIVAS

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Wuhmmm… Wuhmmmppfff… Foi o som abafado de sua própria voz que o despertou… aos poucos… como se voltasse de um lugar longe… muito longe… Ele abriu os olhos. E tudo que viu foi escuridão. Onde estava? Sentia-se zonzo. Tentou se mover, mas não pôde, tinha os braços e pernas presos. Então percebeu que estava deitado numa cama, amarrado com cordas. E nu. Estava nu! E uma mordaça na boca. Mas… que diabos de pesadelo era aquele? O que estava acontecendo?

Imediatamente, tentou lembrar dos últimos acontecimentos. A festa de lançamento de seu filme Vingativas, as tevês entrevistando-o, as fãs gritando e pedindo autógrafos… Depois, a boate, as garotas da cidade brigando por uma foto ao lado do ator principal… Ele até tentou atender a todas, mas era impossível. E depois… depois… nada. Não lembrava de mais nada.

Lentamente, a escuridão se dissipou. Apesar da confusão mental, percebeu que estava num quarto de hotel. Mas não era o seu quarto. Pela janela aberta podia ver o céu, as luzes da cidade… E ele amarrado na cama, nu. Mas que diabos, quem teria feito… Nesse momento, uma forte luz o atingiu em cheio, cegando-o. Demorou alguns segundos até entender que a luz vinha do banheiro. E na porta, a silhueta de uma… mulher.

Linda noite para uma vingança, não? – ela falou, e caminhou calmamente em direção à cama. Por um instante, ele teve a sensação de que já vivera aquele momento, aquela frase… A mulher ajoelhou-se ao seu lado na cama e só então pôde vê-la melhor… Era uma garota morena, e tudo que vestia era uma… máscara preta. E segurava uma taça. Na taça, um líquido vermelho. Não, não a conhecia. Mas havia algo familiar em tudo aquilo…

Imagem, ação! A voz veio do lado oposto do quarto. Havia outra mulher! E ela aproximou-se devagar. Era uma garota loira, também estava nua e usava máscara preta. E segurava algo… uma pequena câmera. Ela estava filmando! Ele tentou se soltar mais uma vez, mas não conseguiu. De repente, sentiu um líquido frio sobre seu pênis… A morena pingava vinho sobre ele. Lembrou da boate, teriam posto algo em sua bebida? Mas o pensamento não prosseguiu, pois a morena reclinou a cabeça, afastando os cabelos, e passou a lambê-lo. O contato da língua morna contrastou com o frio do vinho e ele fechou os olhos, sentindo o arrepio lhe percorrer o corpo inteiro, sentindo-se ser engolido pela boca ágil e macia. Tentou manter-se atento, mas no centro de seu ser pequenas ondas de prazer se formavam e vinham dar na praia dos sentidos, inundando o pensamento.

A luz que vinha do banheiro enquadrava certeiramente a cama, iluminando seu corpo nu. Sentia-se exposto como uma tela de cinema. A loira posicionou-se com a câmera de forma a aproveitar o máximo da luz. A morena então virou-se de frente para ele e passou uma perna sobre seu corpo. Ele duvidou que fosse acontecer o que imaginava. Mas foi o que aconteceu. Devagar, ela desceu sobre o pênis duro, devagar, enterrando tudo dentro dela. Em rápidos movimentos, ela subiu e desceu, desceu e subiu, e o vai e vem de seu corpo acionou novamente as ondas de prazer. E foi assim, no balanço das ondas cada vez mais fortes, que ele viu a garota fechar os olhos, estremecer e cravar as unhas em seu peito, e urrar feito bicho.

Nem bem a morena se recuperou, a outra rapidamente posicionou a câmera sobre a mesa, ajustou o enquadramento e foi para a cama. As duas mascaradas agora brincavam com seu pênis, uma oferecendo à outra, como se fosse um sorvete irresistível, as duas saboreando-o de uma só vez, ele nas duas bocas ao mesmo tempo, entrando e saindo, saindo e entrando… Então ele finalmente lembrou: a cena do seu filme! A mesma cena! Duas mulheres que raptam um ator famoso e, como vingança por ele tê-las desprezado, levam-no a um hotel, amarram-no, aproveitam-se bastante dele e no fim… o castram. Elas o castram! A ficção de Vingativas se tornava real! E foi assim, dividido entre o terror e o êxtase, que ele sentiu as ondas se transformando num tsunami que rapidamente percorreu o interior de seu corpo, afunilou abaixo da cintura, comprimiu-se e, finalmente, lançou-se num forte jato sobre as duas bocas. E ele viu as bocas sorverem todo o líquido que jorrava, com avidez, urgente, como se fosse a última água do deserto. Seus olhos teimavam em se fechar, mas ele viu quando a fonte secou e, então, as bocas se uniram num longo beijo, dividindo o líquido entre elas.

Enquanto ele arfava, sentindo as ondas se acalmarem dentro de si, elas se vestiram em silêncio e saíram. Ele pensou em chamá-las, mas não teve forças, ainda estava zonzo. Que loucura, que loucura…, pensou, fechando os olhos e engolindo a saliva seca, o coração ainda batendo forte, tum-tum-tum… Não, os amigos jamais acreditariam naquilo, nem que jurasse de pé junto. Ele vivera a cena de seu próprio filme, a mesmíssima cena, que coisa… Bem, só o fim mudara. Felizmente, para melhor. Ele sorriu e somente então abriu os olhos. E ficou sério. A morena estava de volta. Em pé, ao lado da cama. Olhando para ele com um sorriso estranho. E algo reluzia em sua mão… Uma faca! Foi tudo bem rápido. Num movimento certeiro ela aproximou-se, encostou a faca e… zapt!, cortou a corda de um dos braços. E foi embora. Para sempre.
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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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– Este conto integra os livros:
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino
Indecências para o Fim de Tarde

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LEIA NESTE BLOG

ATortaDeChocolate-02A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…

As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

Quem tem medo do desejo feminino? – Você consegue imaginar Nossa Senhora tendo desejos sexuais? Alguma vez na vida você a imaginou fodendo?

O íncubo – Demônios que invadem o sono das mulheres para copular com elas

Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou…

Amor em fuga – Que mundo idiota. Pra poder viver o amor, a gente tem que fugir de casa

A entrega – Memórias eróticas – A ex-bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e salvação por meio da submissão no sexo anal

Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

> Postagens no tema “erótico”

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada.

As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz.

Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Ô mulheres…. Que bichos malvados. Achei uma escrita envolvente, que une o leitor numa relação que não permite se desligar do texto de forma alguma. Parabéns, Kelmer. Só pra variar, né? ;D Herlene Santos, Fortaleza-CE – dez2012

02- Maravilha de conto! Karla Karenina, Fortaleza-CE – dez2012


Canalha Kelmer

23/03/2012

Rômero Barbosa, 2012

Cara, essa tal de Cibele queria era te dar. Queria ler sacanagens escritas por você pra depois tu comer ela todinha

CANALHA KELMER

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Por: Rômero Barbosa, 2012


Escrevia Contos, contos sobre minha vida interiorana; andar de bicicleta no final do dia, pescar com papai de canoa a remo, etc. Porém os conteúdos predominantes nessas curtas estórias vinham recheados de dilemas éticos, repúdio às injustiças humanas e falta de respeito ao meio ambiente.

Após escrevê-los, compartilhava via e-mail com meus amigos. Cibele, colega de curso, encostou em mim quando criava um desses contos. Fitou-me sensualmente:

 Tá escrevendo o quê?

 Só mais um conto enquanto a aula não acaba  respondi.

Ela permaneceu me olhando diferente, sorrindo maliciosa. Eu, ingênuo (ou idiota mesmo), levei na esportiva. Cibele continuou, direta:

 Você não escreve nada erótico?

Espontaneamente sorri, refutei espantado:

 Não. Meus Contos geralmente falam de conceitos morais, éticos. Sobre como viver bem em sociedade.

A moça fechou o viso, se encolheu no canto. Antes soltou um murmúrio:

 Vou voltar a assistir aula.

Sentido culpado, buscando me redimir, toquei no ombro dela e salientei (provavelmente o maior erro que cometi):

 Eu sei de um cara que escreve sacanagem de maneira legal, até…

 É, e quem é?  Perguntou ela ansiosa.

 Um tal de Ricardo Kelmer, ele tem um blog, mora em São Paulo eu acho. Entre lá e dê uma olhada.

Anotei num papel o endereço eletrônico pra ela.

Semanas depois conversando com amigos na mesa de bar, relatei o ocorrido. Os filhos da puta riram da minha cara, e pior, com razão. Ainda falaram “cara, essa tal de Cibele queria era te dar. Queria ler sacanagens escritas por você pra depois tu comer ela todinha.” Desesperado, corri ao telefone e liguei para Cibele. O celular deu fora de área. Lembrei do número residencial, liguei. Logo sua mãe atendeu e me relatou sua ausência, havia saído de férias para São Paulo. Foi o fim. Tenho certeza, Cibele foi dar ao tal Ricardo Kelmer. Que merda!
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> Rômero Barbosa mora em Porto Nacional, Tocantins

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LEIA NESTE BLOG

Cristal-03Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

Desconstruindo Kelmer (por Wanessa, inspirado no conto Cristal) – Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina…

Inculta e bela, dengosa e cruel – Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

Maior que meu horizonte (por Wanessa, inspirado na crônica Inculta e Bela, Dengosa e Cruel)E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

Confissões de uma leitorinha nua (por Leitorinha) – Fiquei tão à vontade pra ler a página dele na net que agora o fazia completamente nua

> Quer escrever um texto também? Envie para rkelmer@gmail.com

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As quarenta raposas

27/02/2012

27fev2012

Um silêncio vindo de fora do tempo caiu sobre sua figura altiva, e naquele eterno segundo ela foi o anjo vingador: belo, justo e implacável

AS QUARENTA RAPOSAS

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O desfile chegara ao fim. A última modelo concluíra sua performance e a plateia ainda aplaudia, quando de repente cessaram a música e as luzes. Os aplausos silenciaram e ficaram todos em expectativa. Foi nesse exato instante, no vácuo dos pensamentos, que o anjo da morte surgiu, e sua presença arrepiou a todos. Surgiu no início da passarela. Parecia ser apenas mais uma modelo num casaco de pele da coleção de inverno. Mas não era. Mais tarde a produção simplesmente não saberia explicar quem era aquela mulher. A equipe de modelos também não a reconheceu, e os seguranças balbuciaram desculpas.

Ela postou-se à entrada, séria, e cravou seus olhos negros por sobre a plateia. Um frisson correu pelo ambiente. Um vento frio cruzou o salão. Mas não se ouviu nenhum rumor, absolutamente nada, e flash nenhum foi disparado. A vida ficou suspensa e nada mais existiu. Um silêncio vindo de fora do tempo caiu sobre sua figura altiva, e naquele eterno segundo ela foi o anjo vingador: belo, justo e implacável.

E, no entanto, era linda, irresistivelmente linda… E sua figura atraía os olhos feito ímã. O casaco de pele de cor castanho deixava à mostra seus joelhos e os pés tocavam descalços a passarela. O rosto tinha traços indígenas sul-americanos e o cabelo negro descia numa trança pelas costas. E era rude e imperturbável seu olhar.

Pôs-se então a caminhar. Seu andar lento e seguro seguiu pelo silêncio frio da passarela, como se pisasse o interior de cada um. E em cada um o negrume dos seus olhos cravou-se sem dó, como um justiceiro que desnuda os pensares e nada escapa de seu julgamento. De repente, todos sentiram-se indignos, e era como se sua presença os enchesse a todos de uma dolorosa vergonha, vinda de algum lugar dentro deles mesmos.

Completado o percurso, ela parou e levou as mãos às costas. De um gesto libertou os longos cabelos, que espalharam-se pelo ar e assentaram-se sobre os ombros, pousando macios nas costas. Nesse momento a música disparou e as luzes coloridas voltaram a piscar. E o angustiante silêncio foi finalmente preenchido.

Agora era o ritmo frenético da música em alto volume. Agora eram as cores dos holofotes, piscando alucinadas. Seu passo tornou-se mais rápido. Ela percorreu o segundo corredor, perpendicular ao primeiro. E desabotoou o pesado casaco. Após o derradeiro botão, começou a girar, a girar, e seu casaco, acompanhando o movimento, parecia uma hélice. Aos olhos pasmos de todos surgiu o seu corpo nu, inteiramente nu. E ninguém conseguiu desviar o olhar daquele exótico bailado.

As primeiras gotas de sangue salpicaram os fotógrafos à beira da passarela, eles que depois perceberiam não terem feito foto alguma. O sangue bateu-lhes no rosto, no peito e atingiu os equipamentos. Surpresos, contorceram-se agoniados e cheios de nojo enquanto os primeiros gritos explodiam na plateia. Nas mesas mais atrás aquelas pessoas finamente vestidas viram, de um segundo para outro, suas roupas respingadas de sangue e também seus rostos e as taças de champanhe.

Enquanto ela girava e girava na passarela, o terror explodiu num grande rumor abafado pela música estrondosa. Rostos ensanguentados, semblantes apavorados. Roupas salpicadas de vermelho e gritos de pavor. Uns choravam descontrolados, sem compreender de onde vinha tanto sangue, outros corriam pela multidão sem saber para onde ir. Era de repente um imenso pesadelo, absurdo e real.

Então ela parou de girar. Livrou-se do casaco. Seu corpo nu surgiu inteiro e vigoroso sob o piscar das luzes. E ela caminhou para o lugar por onde entrara. O corpo nu avançou em passos serenos e decididos enquanto o braço arrastava atrás de si o pesado casaco, feito uma longa cauda castanha, deixando pelo chão um largo rastro de sangue.

Ela chegou ao início da passarela e foi recebida pelo estilista idealizador da coleção, que tentou falar, mas nada conseguiu dizer. Seu olho negro o atingiu em cheio, imobilizando-o, e por um momento ele viu não uma mulher, mas um bicho. Ela depositou pesadamente em seus braços o casaco ensopado de sangue, e antes de sumir para sempre, disse, bem perto de seu ouvido, para que a música não o impedisse de compreender o mais importante:

– É preciso matar quarenta raposas para fazer um casaco desses.

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Ricardo Kelmer 1996 – blogdokelmer.com

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vtcapa21x308-01> Este texto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

 

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O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas, uma popular crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

As fogueiras de Beltane – A filha da deusa está pronta. O ritual do casamento sagrado vai começar

Minha noite com a Jurema – Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

Xamanismo de vida fácil – A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos

O desejo da Deusa – Um encontro na praia, as forças da Natureza e um deus repressor

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A última mensagem

11/07/2011

11jul2011

A ÚLTIMA MENSAGEM

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Ele pôs a mochila com livros no chão e encostou-se no muro do colégio. Nervoso, digitou no celular uma mensagem para ela, dizendo que estava muito arrependido do que fizera. E esperou, olhando o movimento dos carros na avenida. Minutos depois, enviou outra mensagem, pedindo que ela o perdoasse, por favor. E ela novamente não respondeu. Na terceira mensagem, avisou que iria se matar. Dessa vez, ela respondeu: precisava de um tempo para pensar. Ele respirou fundo e esperou, ansioso pela resposta que definiria sua vida. Quinze minutos depois, o celular foi encontrado junto ao meio-fio, a alguns metros do corpo atropelado no asfalto. Na tela do aparelho, piscava a última mensagem recebida: “Eu te perdoo, meu amor. Vem correndo!”
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Ricardo Kelmer 2010 – blogdokelmer.com

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A metamorfose

19/06/2011

19jun2011


A METAMORFOSE

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Ele rastejou silenciosamente para trás do compensado que servia de parede no barraco e agachou-se. Pôs a pasta de crack sobre a latinha de cerveja amassada, acendeu o isqueiro e inalou pelo buraco. E de repente sumiram a dor, o desemprego, a fome, o leite do filho que ele não havia comprado… Quase no fim, o menino acordou. Pai, o que é isso? Subitamente a dor voltou, diferente, agora feita de vergonha e da sensação de fundo do poço. É veneno de barata, filho. E cadê a barata, pai?
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AMetamorfose-01A metamorfose – Pai, filho e o fundo do poço

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A última mensagem – Aprendendo sobre amor e perdão

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Cem vezes mais – Deus é fiel, tá sabendo?

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Como violentar crianças em 30 segundos – É a máxima do Compre Baton: hipnotize desde cedo uma criança e você terá um zumbi-consumidor para o resto da vida

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O punhal

05/06/2011

05jun2011

Haverá perigo maior que a recusa de viver o que é preciso viver? Ela compreendeu isso saltando no abismo de seu próprio medo de arriscar

OPunhal-02

O PUNHAL

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Faca, lâmina, estilete. Fora a saudade cortante que as mensagens trazem, ela não tem do que se queixar. Também não gosta de reclamar da saudade, pois ainda que traga consigo a melancolia, a lembrança de sua terra e seus amigos é uma companhia, uma presença que no fim das contas a impede de se sentir ainda mais só.

A distância e a solidão, que no início pesavam cruéis sobre seu ser, acabaram ensinando-a a extrair forças de si, a arrancar de dentro de sua alma aquilo que hoje a fortalece nos momentos em que a vontade é de largar tudo e pegar o primeiro voo de volta. Ela então para e respira fundo. Depois vai à janela olhar a rua, o movimento das pessoas. Lá fora o mundo segue seu caminho, tudo está como sempre esteve e deve estar. É somente dentro dela que os ventos sopram fortes, agitando a alma feito roupa no varal.

Banir de si o medo de arriscar o novo. Despir-se das armaduras que a protegem dos perigos do mundo. Mas que perigos? Haverá perigo maior que a recusa de viver o que é preciso viver? Ela compreendeu isso saltando no abismo de seu próprio medo de arriscar. Aprendeu arriscando, pagando para ver até onde era capaz. E ainda hoje se surpreende ao perceber que sempre é capaz de um pouquinho mais. É, para a alma imensa tudo vale a pena.

Intuitivamente, ela sabe que nasceu para ser feliz, sempre soube, mas… ah, esse duendezinho tagarela! Sempre brincando de convencê-la a boicotar a si própria. Tantas vezes ela lhe deu ouvidos, a boba. E estragou tudo. E depois olhava o estrago e não acreditava que ela mesma fizera aquilo, um gol contra no último minuto. Mas agora é diferente. O duendezinho ainda está lá, sim, mas agora ela ri das artimanhas do danado. A maior tentação hoje é seguir as pistas de sua sagrada realização.

Aprendeu também que o amor é uma chama que ilumina e dá sentido à vida, chama a aquecer corpo e espírito nas noites frias. Mas a chama um dia se apagou, e ela demorou para entender que não adianta tentar reacendê-la. Para quê? Para iluminar o que ela já conhece? Para aquecer o que não mais sente frio? Foi o amor que a levou para longe, foi por amor que ela fez tudo que fez, sim, mas agora ele não tem mais forças para conduzi-la, pois ela mudou, já não é a mesma, a vida mudou, tudo mudou. Haverá outros amores? Esbarrará em outra paixão irresistível na próxima esquina? Perguntas, perguntas…

Nas tardes de outono gosta de olhar as árvores, as folhas em tons de laranja, vermelho e amarelo caindo em rodopios. Ela também rodopia, mas em pensamento, girando pelas memórias, lembrando das verdades que antes tão bem sabiam movê-la. As verdades que a levaram ao lugar onde agora está, onde estão? Ficaram pelo caminho, como as folhas que caem das árvores quando não são mais úteis. Caem e voltam à terra, para se decompor, retornar à arvore em forma de nutrientes e ser folha novamente, outra folha, outra utilidade. A vida como passagem para algo maior. As verdades como trampolins para verdades mais abrangentes. O amor como portal para outros níveis de si mesma. O si-mesmo como guia maior de toda uma vida.

A rua lá fora, as pessoas caminhando, as árvores do outono… Ela dá por si, enxuga uma lágrima e volta o olhar à tela do computador, as mensagens dos amigos, notícias da terrinha, as palavras lhe trazendo os cheiros dengosos de um tempo antigo e tão presente, o calor dos abraços, a urgência dos desejos, velhas paixões que não morrem, um aperto no coração. Ai, a saudade é mesmo um punhal encravado, impossível de retirar… Nesses momentos, mais que nunca, ela se sente longe, muito longe de tudo… Mas então fecha os olhos e respira fundo, uma vez, depois outra… E abre os olhos. E pela janela ela vê que o mundo continua o mesmo. Tudo normal, tudo bem. Fora esse punhal enterrado no fundo da alma, está tudo bem, nada a reclamar.

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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vtcapa21x308-01Este texto integra o livro
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

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en español

EL PUÑAL
Ricardo Kelmer 2004

Cuchillo, lámina, estilete. Afuera la añoranza cortante que los mensajes traen, ella no tiene de lo que quejarse. Por el contrario, también no le gusta reclamar de añoranza pues aunque traiga siempre consigo la melancolía, la añoranza de su tierra y de sus amigos es una compañía, una especie de presencia que a fines de cuentas hace con que no se sienta tan sola.

La distancia y la soledad, que en principio pesaban crueles sobre todo su ser, acabaron enseñádola a extraer fuerzas de sí misma, a arrancar de dentro de su alma aquello que hoy la fortalece en los momentos en que la voluntad es de largar todo y coger el primer vuelo de vuelta. Ella entonces se para y respira hondo. Después va a la ventana mirar la calle, el movimiento de las personas. Allá fuera el mundo sigue su camino, todo está como siempre estuvo y como debe estar. Es solamente dentro de ella que los vientos soplan fuertes, agitando su alma como ropa en el colgador.

Expulsar de sí el miedo de arriesgar el nuevo. Desnudarse de las armaduras que la protegen de los peligros del mundo. ¿Pero qué peligros? ¿Habrá mayor peligro en el mundo que la repulsa en vivir lo que es necesario vivir? Ella comprendió eso saltando en el abismo de su propio miedo de arriesgar. Aprendió saltando, arriesgando, pagando para ver hasta donde era capaz. Y todavía hoy se sorprende al darse cuenta que siempre es capaz de un poco más, siempre un poquito más. Es eso, para el alma inmenso todo vale la pena.

Intuitivamente ella sabe que nació para ser feliz, siempre supo, pero ¡ah, ese diablito parlanchín! Siempre intentando convencerla a boicotear la propia felicidad. Tantas veces ella le dió oídos, la tonta. Y estropeó todo. Y después miraba el estrago y no conseguía creer que ella misma había hecho aquello, un gol contra en el último minuto. Pero ahora es diferente. El diablito todavía está allá, sí, pero ella no lo escucha o, si lo hace, se ríe de sus artimañas y sigue las pistas de su felicidad.

Aprendió también que el amor es una llama que ilumina y da sentido a la vida, llama a calentar cuerpo y espíritu en las noches frías. Pero la llama un día se apagó y ella tardó un poquito más en entender que de nada adelanta intentar reencenderla. ¿Para qué? ¿Para iluminar lo que ella ya conoce? ¿Para calentar lo que no más siente frío? Fue el amor que la llevó para lejos, fue por amor que hizo todo lo que hizo, sí, pero ahora él no tiene más fuerzas para conducirla pues ella ha cambiado, ya no es la misma, la vida cambió, todo ha cambiado. ¿Habrá otros amores? ¿Desbarrará en otra pasión irresistible en la próxima esquina? Preguntas, preguntas…

En las tardes de otoño le gusta mirar los árboles, las hojas en tonos de naranja, rojo y amarillo cayendo en volteos. Ella también voltea pero en pensamiento, girando por las memorias, acordándose de las verdades que antes tan bien sabían moverla. Las verdades que la llevaron al lugar donde ahora está, ¿dónde quedaron? Se quedaron por el camino, como las hojas que caen de los árboles cuando no son más útiles. Caen y vuelven a la tierra, para descomponerse y después retornar al árbol en forma de nutrientes y ser hoja nuevamente, otra hoja, otra utilidad. La vida como pasaje para algo mayor. Las verdades como trampolines para otras verdades más encerradas. El amor como portal para otros niveles de sí misma. El sí-mismo como guía mayor de toda una vida.

La calle allá fuera, las personas caminando, los árboles del otoño… Ella se da cuenta de sí misma, seca una lágrima y vuelve la mirada a la pantalla del ordenador, los mensajes de los amigos, notícias frescas de la tierra querida, las palabras traéndole los olores mañosos de un tiempo añejo y tan presente, el calor de los abrazos, la urgencia de los deseos, viejas pasiones que no mueren, un aprieto en el corazón. Ay, la añoranza sí es un puñal enclavado, imposible de retirar… En esos momentos, más que nunca, ella se siente lejos, muy lejos de todo… Y entonces cierra los ojos y respira hondo, una vez, después otra… Ella abre los ojos y por la ventana ve que el mundo continúa el mismo mundo. Todo normal, todo bien. Afuera ese puñal enterrado en el fondo del alma está todo bien, nada a reclamar.

TRADUÇÃO: Candice Graziani

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Comentarios01COMENTÁRIOS

01- Eu te conto. Ela está lá, sozinha e tem certeza de ter aprendido. E aprendeu. Mas as vezes ela faz questão de esquecer que aprendeu, pra não se privar… De sentir falta, de sentir tristezinha…. A vida muda diante de seus olhos. De fato, a vida é a mesma, ela so não conhecia assim, tão aberta à sua frente. /// Eu me mudei pra outro pais ha quase 8 meses. E parecia que vc descrevia alguns dos meus momentos.. Até deu pra pensar que vc me espionou. Gostei do texto. E ja que tava lá, tão facil de te escrever, e já que são 3h da manhã e minha cabeça se recusa a repousar (não me pergunte porquê), lá me venho eu, escrever mais uma a um desconhecido. Sem nem saber se terei ouvidos. Enfim, gostei do seu texto e é isso. Boa sorte! Fernanda, França – fev2005

02- Uma pergunta: poderia v. me explicar como vs (compositores, escritores…) falam de mim como se fosse eu mesma? V. naum estava pensando em mim qdo escreveu este ‘punhal’ ? Estava? Teté Bastos, California-EUA – fev2005

03- Ricardinho Te amo, com todo respeito e admiração! Fiquei encantada com esta crônica, você é fera em matéria de mulher, sabe unir a razão e a sensibilidade como ninguém, sorte de sua digníssima, parabéns!!!! beijões. Roberta Passos, Fortaleza-CE – mar2005

04- Valeu Kelma! André Rola, Rio de Janeiro-RJ – mai2005

05- Rika, Torno a dizer: amei o seu texto, lindo!!! Você é um homem com a alma feminina. Por isso, nos encanta e nos faz tanto bem. Por favor, não deixe nunca de escrever pra gente,tá? Obrigada e mais uma vez, parabéns! Beijos… Anabela Alcântara Pinto, Fortaleza-CE – mai2005

06- Ricardo, Conheci seu site é muito legal, adorei o texto o Punhal que por coinscidência ou não parece um pouco com minha vida, vivo bastante algumas passagens dele e a vida é assim mesmo, lá fora as pessoas vivem e nós é que teremos que lidar com os nossos punhais do dia-a-dia. Abraços. Vânia Cavalcante, Fortaleza-CE – mai2005

07- Oi Ricardo, amei O Punhal. Fala de você. Beijos e saudades. Valeska, Fortaleza-CE – mai2005

08- ah, sacanagem…agora li outra crônica…Punhal..ah q linda… parabéns! Muito bem, me explique como conseguiu tirar uma idéia tão feminina e atual??? putz, agora vou virar baba ovo…rs beijos de novo. Débora Pissarra, São Paulo-SP – jun2005

09- Óptimo texto, Ricardo. Bom lembrar, no entanto, que é importante que o punhal esteja enterrado dentro, bem fundo, a carne cicatrizando em volta, o gume calcificando. Mas a ponta saida, impedindo de nos acomodarmos, espetando na pele e fazendo sangrar ao primeiro sinal de resignação. Beijos de além-mar. Susana X. Mota, Leiria-Portugal – jun2005

10- estou mandando o link para duas amigas brasileiras que moram aqui em Pittsburgh e vieram casadas com maridos americanos que já ficaram no passado – vão se assustar e achar que vc as conhece secretamente e escreveu diretamente para elas :-). E sob uma ótica perfeitamente feminina, o que é um feito e tanto para um escritor do sexo masculino! AB, Pittsburgh-EUA – ago2005

11- Fascinada. Adriana Dry Sousa, Rio de Janeiro-RJ – jun2017

12- Amo seus textos! Me encanta e fascina ❤ ❤ ❤ Hoje, esse caiu perfeito para mim! Janine Moreira, Belfort Roxo-RJ – jun2017

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Protegido: O mistério da morena turbinada (VIP)

13/10/2010

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O mistério da morena turbinada

01/10/2010

01out2010

Aí um dia ela, inocentemente, leva o computador numa loja pra consertar. Algum tempo depois dezenas de fotos suas estão na rede, inclusive fotos íntimas

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O MISTÉRIO DA MORENA TURBINADA

1ª parte

Tem sempre um mistério na fila. E o mistério da vez me chegou através do Orkut, num pedido de adicionar. Fernanda, o nome dela. Olhei a foto da moça: morena, sorridente, cabelão preto liso, um decote generoso… Queria ser minha amiga. Que meigo. Mas não deixara recado. E Errikelmer não adiciona sem recado, são normas da empresa. Mas o diabo é que um decote daquele desestrutura a vida do cidadão trabalhador. Aceito.

Um clique e lá tô eu na página da morena. Hummm, na foto ampliada da capa a moça ficou ainda mais atraente. Dou uma sacada na apresentação e vejo que ela mora em Santos, tem 28 aninhos, humm, é psicóloga, humm, e modelo fotográfico, hummmm…. Ops. Modelo e psicóloga? Estranho, né? É, eu sei, mas não sejamos tão rígidos, esse mundo é louco mesmo. Então clico pra ver as fotos do álbum da Fernanda Fuschini, vamos conhecer melhor a moça que deseja ser minha amiga.

Raramente me surpreendo no Orkut, sou macaco velho. Mas daquela vez engoli seco. O que é isso?, eu me perguntava enquanto via as fotos. A morena realmente era violenta. Linda, gostosa, bundão, peitão, bocão, tudo ão. Um olho cinza-azulado e um sorriso manga-larga daqueles. Lá estava morena de shortinho, morena num impossível vestidinho branco tomara que caia, morena indo às compras, morena na balada com as amiguinhas e morena de biquíni, sentada assim, como direi, beeem descontraída pros olhos do internauta.

Babei nas doze fotos, logo eu que sou passado e cozido na casca do alho. No começo, pelas roupas desconcertantes que ela usava, sempre valorizando curvas e protuberâncias, sem falar na marquinha assassina do biquíni, achei que fosse alguma superatriz de cinema pornô ou uma garota de programa classe AA pra cavalheiros de fino trato. Mas logo me condenei por estar sendo tão preconceituoso. Por que uma psicóloga não pode também ser modelo, heim? Por que psicóloga não pode ser turbinada, usar roupitchas criminosas e ter um doce jeitinho brejeiro, heim, heim? Oh, como sou vil! Que mentalidade curta tenho eu! Sim, eu mereço apodrecer junto aos vermes rastejantes na lama fétida dos umbrais, sim, eu mereço! A moça era apenas espontânea, só isso. E queria ser minha amiga. Certamente gostou do meu singelo jeitão de batráquio de ressaca, talvez deseje me conhecer pessoalmente… Isso. Aí ela me ligará e eu a convidarei a visitar meu duplex com vista pra Paulista, e aí ela aceitará uma dose de blequilêibou, nós dois lá na varanda, aí ela dirá que pareço o Fábio Jr., ah, que é isso, Fernanda, assim você me deixa encabulado… Só um instante, Fernanda, meu celular tá tocando, só um instantinho, não vai fugir, heim? Alô? Alô?

Iludido, ô iludido, acorda! Fernanda não existe. Ela não passa de um personagem do Orkut, mais um dos milhares de perfis falsos criados pra sacanear com tarados sebosos como você, que passam o dia na internet atrás de mulher pelada. Entendeu, vagabundo? Agora desliga o celular e vê se cai na real.

Roupitcha básica pra ir na padaria

No instante seguinte, Fernanda sumiu no ar e o copo que ela segurava espatifou-se no chão. O duplex na Paulista evaporou-se e dei por mim de volta ao meu quartinho alugado nesse pombal do centro, que divido com Tábata, minha barata voadora de estimação, que, por sinal, é minha assistente. Quer dizer que Fernanda é uma miragem? Pô, sacanagem! Um demente que não tem o que fazer armou a arapuca e eu caí direitinho. Você, não, os seus hormônios masculinos caíram ‒ me corrige Tábata, que entende bem de instintos animais. Então, de volta à dura realidade, me achando o idiota dos idiotas, fui fuçar o Orkut da personagem Fernanda. E vi que ela gosta de ler, e até cita uns escritores que nunca ouvi falar na vida. Na tevê, curte telejornais, programas de entrevistas e… Ana Maria Braga?! Eclética, a moça. Demonstrando todo o seu lado sofisticado, ela curte jazz, blues e concerto de piano. Frequenta academia, claro, e, surpresa, mora com os pais. E uma de suas paixões é sua família, ô, que meigo. Meigo mas incongruente. O inventor da Fernanda Fuschini passaria fome se trabalhasse com perfil de personagens. A não ser que fosse uma história de esquizofrênicos.

Aí, curioso pra saber se alguém mais tinha caído na pegadinha, fui fuçar os recados dela. Putz! Como tem homem idiota nesse mundo! Rimos muito, eu e Tábata, olhando pra cara dos abestados, todos babando pela morena e deixando seus recadinhos melosos e ridículos. Um tal de Dica mandou essa: “oi.vc arrasa.cuida bem desse corpao que deus te deu.benza deus.ufa…….” Detalhe: o Dica é casado. Tome tenência, seo Dica! Tem medo da tua mulher descobrir essas tuas galinhagens não? E esse outro, um tal de Voltei: “nao sei o que falar suas fotos travaram minha boca,meu inconciente esta dentro de vc no meio das suas pernas fazendo vc gozar com a língua”. Ahahahah! Inconsciente agora tem língua e faz sexo oral. Que pena que Jung não conheceu o Orkut.

Decididamente, o melhor foi o Allan Genaro, de Santos, esse bateu o recorde: “ola fernanda….td bem???? me desculpe entrar sem permissao no seu orkut, mais nossa vc nao existe …… to bobo …..vc é muito linda, e o melhor vc mora perto de mim sabia?” Ahahahah! Pode uma coisa dessa? O cara já tá se imaginando saindo de casa, todo cheiroso, caminhando duas quadras e pegando a Fernanda pra sair. Vai ser iludido assim lá na Baixada!

Aliviado por não ser o único tarado seboso idiota do mundo, deixei um recadinho parabenizando o criador da pegadinha, sim, só pode ser homem, só homem faz essas merdas. Tábata quis também deixar recado, dizendo que era óbvio que a moça era siliconada, que se ela tivesse dinheiro também teria bunda e peitos maravilhosos como aqueles. Pense numa baratinha despeitada… Não permiti, claro. Pois não é que dias depois recebo recado de uma senhora, de sobrenome Fuschini, me parabenizando! Por desmascarar a tal fulaninha. A senhora afirmava que não existia nenhuma sem-vergonha como aquela na família dela e coisa e tal. Ahahahah! A incansável defensora da moralidade dos Fuschini. Não respondi ao recado, mas ele me atiçou de vez a curiosidade. Talvez a incrível morena não se chamasse Fernanda Fuschini, isso era bem provável. Mas ela existia, sim, estava ali na tela, em carne e osso ‒ e peitos. E se ela existia, agora eu queria descobrir quem ela era. Mais um mistério pro investigador Errikelmer. Atenda os telefonemas, Tábata, vou dar uma boa volta pela rede.

2ª parte

Maria Fernanda Fuschini. Encontrei alguém com esse nome numa lista de chamada pra matrícula da Unesp de Lorena, estado de São Paulo, vestibular de 2003, curso de Engenharia de Materiais. Arrá! Existia, de fato, uma Fernanda Fuschini. Mas como saber se era a morena das roupitchas impossíveis?

Insisti mais um pouco e encontrei outra Fernanda Fuschini no Orkut, mas esta era de Guarujá. Infelizmente não tinha nenhuma foto e quase nenhuma informação pessoal. Não parecia ter ligação com o caso. Hummm… Aquela estratégia não estava me levando longe, talvez eu devesse tomar uma outra linha investigativa. Mas qual? Tudo que eu tinha eram umas fotos e um nome que podia ser falso. Bem, já eram nove da noite e eu estava faminto. Então desci pro boteco, me encostei no balcão e pedi o velho xizégui. Com um joguinho da terceira divisão na tevê. Nada mal. O cidadão trabalhador também merece, né?

Nem precisava tanto

Sorte. Bom investigador tem que ter sorte. Alguns dias depois, acidentalmente, vi uma foto no Orkut e achei familiar… Caramba, era a morena! A mesma pessoa, mas com outro nome: Paula Marques. E esta morava no Rio Grande do Sul. As fotos eram as mesmas da Fernanda. Mas dados como idade e altura eram diferentes, assim como outras informações pessoais. Mais um perfil falso, certamente. Deduzi que os dois perfis foram criados por pessoas diferentes, dois caras que decidiram homenagear a morena turbinada reproduzindo suas fotos no Orkut. E talvez até houvesse mais perfis além daqueles dois, com outros nomes. A morena certamente não se chamava Fernanda nem Paula. Oquei. Mas não era muita coisa pra minha investigação. Eu precisava de algo novo.

Três semanas depois, quando eu já desanimava, a informação que eu buscava me chegou. Sem eu pedir. Sorte de bom investigador. Sabe esses amigos que não têm nada pra fazer na vida e todo dia te enviam foto de amadora, vídeo de sexo bizarro, essas coisas bem educativas? Pois é, eu tenho vários desse tipo, tanto amigos como amigas. Uau, que expressão mais curiosa: como amigas. Preciso dizer isso mais vezes. Mas voltemos ao prato principal. Um amigo tarado seboso me enviou um arquivo com uma centena de fotos de uma tal Maria da Graça Mello. Abri o arquivo, assim meio desinteressado, só pra dar uma conferida e… arrááá! Adivinha quem era a tal Maria da Graça. Adivinhooooou. Era a morena turbinada.

Entre as fotos, estavam todas as que eu já vira no Orkut. O resto, porém, era novidade. E que novidade! Agora dava pra conhecer bem melhor a moça. Analisando as fotos, desconfiei que ela seria mesmo do Rio Grande do Sul, pois numa delas havia uma cuia de chimarrão e em outra a placa do carro era de Porto Alegre. Mas quem teria conseguido todas aquelas fotos, e como? E o nome da moça? Será que Maria da Graça Mello também era outro nome falso? Atenda os telefones, Tábata.

Rô-rô-rô… Pois não é que esse era mesmo o nome verdadeiro? Maria da Graça é um desses casos de sucesso instantâneo da grande rede, uma lenda da internet. Veja só o que descobri: gaúcha de Cachoeira do Sul, 26 aninhos, 1,60m, Maria da Graça é formada em Direito pela Ulbra e trabalhava como bancária, sendo também modelo. Olhaí, modelo e advogada. E eu cismando porque a outra era modelo e psicóloga… Aí um dia ela, inocentemente, leva o computador numa loja pra consertar e algum tempo depois dezenas de fotos suas estão na rede, inclusive fotos íntimas: dois funcionários da loja copiaram as fotos de seu computador e publicaram na internet, os calhordas. As fotos se espalham e rapidamente a linda morena das roupitchas inacreditáveis se torna conhecida entre os internautas. Essa é a história. Que coisa, a gente não pode mais nem levar o computador pra consertar, é o fim do mundo. Ah, parece que ela processou a loja.

Insisti um pouco mais na pesquisa e descobri dezenas de sites que republicaram as fotos, com comentários ultra-apaixonados, de homens e mulheres. Descobri vídeos com suas fotos, realizados por admiradores anônimos. Descobri até um vídeo curtinho feito por um cara, de dentro de um carro, que a filmou saindo de casa e caminhando na calçada. Por aí você tira a paixão que a moça desperta na torcida. Sem ter a intenção, e a um custo que ela certamente jamais imaginou ter de pagar, Maria da Graça virou não apenas lenda ‒ virou musa da internet.

O que ela disse sobre isso tudo? Não sei, não encontrei nada. Mas encontrei uma matéria no Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, de 2005, onde ela comenta sobre por que chama a atenção: “Sou um pouco diferente das outras meninas, não sigo padrões comuns para me vestir e uso roupas mais ousadas.” Bem, pelo menos ela reconhece. Ela diz que nas idas frequentes a um shopping em Porto Alegre, sempre volta com muitos cartões de agências de modelos. Não duvido, não duvido. Mas diz que nunca ouviu nada ofensivo por causa das roupas que usa. Ofensivo? Claro que não. Ela é tão bonita e vistosa, e suas roupas tão ousadas, pra usar sua própria expressão, e o conjunto da obra é tão impressionante, que se alguém por acaso pensasse mesmo em ofendê-la, daqui que passasse o assombro ela já estaria longe.

Modelito pra lavar louça

Modelito caseiro pra lavar louça

Satisfeito com a missão cumprida, ponho o caso na pasta Mistérios Resolvidos e me despeço de Maria da Graça, ainda meio encantado com toda essa mistura ambígua de sensualidade, inocência e perdição que ela inspira. Parece uma personagem do Manara. Então percebo Tábata me olhando com seu velho olhar pidão. Claro, garota, você também merece. E dou-lhe um docinho de amendoim, que ela adora. Quanto a mim, desço no boteco pra comemorar com um conhaque duplo mais uma lenda da internet desvendada. E quanto a você, Maria da Graça, gostaria que soubesse que agora você faz parte do time das minhas heroínas, junto a Druuna, Vampirella e Karine Alexandrino. Espero sinceramente que ganhe o processo contra a loja, que seja feliz e continue sendo a gracinha que você é. Será impossível controlar a publicação de suas fotos na rede pois, como você sabe, caiu na rede, é da rede. Mas, quem sabe, as mesmas fotos que te trouxeram constrangimento não te trarão alguma oportunidade interessante, né?

Ah, e quanto aos meus honorários, nem pense nisso, senhorita, por favor. Fiz por amor à profissão. Como? A gente se conhecer? Ahn… bem… claro que podemos. Mas olhe, eu fico tímido diante das minhas heroínas, é capaz de me dar gagueira, começar a tremer e sair correndo, vai ser vergonhoso. Como? Você me amarra numa cadeira? Super-Graça, não diga essas coisas… Heim? Você vai com aquele vestidinho branco da foto do balcão? Ah, não, o vestidinho branco não, assim você já tá abusando do cidadão trabalhador, tenha paciência. Tá pensando o quê, heim, heim? Aceito.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Este conto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

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Investigador Errikelmer passando mal.

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> Matéria com Maria da Graça Mello (RBS TV, 18.03.07)

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MGM057aVeja aqui as fotos proibidas da morena turninada e os vídeos com o making of dos ensaios eróticos. Exclusivo para Leitor Vip: basta digitar a senha de 2010.

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MAIS CASOS DO INVESTIGADOR ERRI KELMER

O mistério da cearense pornô da California – Uma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e entre uma orgia e outra luta pela liberação das mulheres

Tábata, a mulher barata – Não fazia parte dos meus planos ter uma secretária ninfômana, alcoólatra e escandalosa, mas fazemos uma boa dupla no mundo das investigações sexuais

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DICA DE LIVRO

IFTCapa-04aIndecências para o Fim de Tarde
Ricardo Kelmer – contos eróticos

Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.

A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e salvação por meio da submissão no sexo anal

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COMENTÁRIOS
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01- vc arrasa sempre..parabéns!!! Feliz Ano novo pra vc, que Deus o abençoe sempre e nos permita conviver com tal humor e inteligência por muitas décadas(se não se importar em ficar velhinho, claro) beijos de uma de suas … fãs – Ana Virgínia, Fortaleza-CE – dez2006

02- meu……………….. .fantastico somplismente fantastico a coluna da fernanda q vc fez magnifico…….sem palavras responde ai c puder Abraços. Gustavo Coelho, São Bernardo do Campo-SP – dez2006

03- Olá Ricardo!!! Amei o texto, divertido e real. Infelizmente. Eu já fui uma desses taradas de plantão, rs, qse caí na lábia dum “galã” orkutiano… Sorte, que desconfiava, um cara lindo, descente, inteligente…e não era viado? Só podia ser invençao dum barrigudo punheteiro que não tinha nada melhor a fazer do que sacanear mocinhas incautas como eu…rs Bom, é isso! Beijo pra vc e aceno pra sua assistente(de longe, não sou fã de baratas). Daniela Polvani, São Paulo-SP – dez2006

04- Comentário: Meu caro colega tarado seboso idiota da internet, também faço parte desta categoria e acho que sei de quem se trata esta morena turbinada, o nome da maravilhosa criatura é: Maria da Graça Mello. Sempre gostei (e quem não gosta?) de humor e sacanagem e vc escreve isso numa mistura bem dosada. Só que agora passarei a mandar os links dos seus textos pras listas que participo com maior afinco. Tarados unidos jamais serão detidos… Rubens, Fortaleza-CE – dez2006

05- keeeeeeeeeeeeeeeeeeeee !!!!!!!! FELIZ ANO NOVOOOOOOOOOOOOOOOO… Se a TURBINADA é psicólogaaaaaa…eu sou um mico de circoooooooooo…rsss… bjs Ro PS. Pelo menos meus turbos são verdadeiroooooooooooosssss…. .rsss… Rosângela Letty, São Paulo-SP – jan2007

06- Olá Ricardo estás bem?ADOREI O TEXTO,SAUDADES!!!!!!!!!!!! Silvana Reis, Lisboa-Portugal – jan2007

07- Ilustre Kelmer Entrou meses atras wem Marsicano 3 uma nifeta sexi chamada Marry Jane (Marijuana). Começou a me escrever tietando, texcendo elogios. Respondi com depoimentos erotixcos. E a coisa foi crescendo ate que sugeri um encontro. Mas a coisa nao rolava nunca. Era sempre aquela bolinação intwerminavel. Ate que um dia uma voz feminina surge no meu telefone e reconheci ser da (…), uma chinesinha anã cocainomana inveterada e psicoide. Falei; O que voce quer (…)??? E ela desligou. Depois num recado, a voz dizia-se da Marry Jane, mas pude sacar que o perfil Marry Jane era falso, e a ninfeta nao era outra senão a fronteiriça paranoica da (…). Que Puta Alugação!!! Alberto Marsicano, São Paulo-SP – jan2007

08- INDA RAI NEGORREI! ADOREI!!!!!!!!!!!! Ana Lúcia Castelo, Newark-EUA – jan2007

09- Ricardo! Você é mesmo um incansável observador das coisas do mundo! Grata pelo envio do convite ao seu texto. Aproveito para lhe desejar um 2007 pleno de inspiração e reconhecimento! Juraci Maia, Lisboa-Portugal – jan2007

10- Bom demais!!!! Marcos André Borges, Fortaleza-CE – jan2007

11- adoreeeeeeeeeeeeeeeeei txiuuuuuuuuu, o negócio lá da Gracinha kkkkkkkkkk A-D-O-R-E-I!!!!!!!!!!!!!!!! é tu e mais ninguem viu? kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk bjs bjs bjsssssssssssssssssssssssssss. Gizelle Saraiva, Natal – jan2007

12- hahahhhahahahaha.rs eu dei tanta risada lendo seu texto, mas que coisa né, impressionante como nos engamos nos deixamos seduzir e se não fossem pessoas inteligente como vce, para investigar estes casos, imagine só quantas babadas ja não teria o seu e outros monitores, fico imaginando a cara da sua baratinha tabatha rindo e pensando ai este galã parecido com o fabio junior fuçou fuçou e acabou descobrindo uma heroína da net que apenas tinha ido levar seu computador sem imaginar que suas fotos pudessem ser extraviadas. Achei sensacional e muito bem humorado o texto, parabens Ricardo pela investigação e por seu espírito crítico, bjus. Érika Ortiz, São Bernardo do Campo-SP – jan2007

13- Como tem passado? Adorei este conto! É bem real!!!!!! Tenha um feliz 2007! De coração! Danila Gomes, Fortaleza-CE – jan2007

14- Valeu, meu camaradinha! Continue mandando q eu vou lá e leio! Bom Ano Novo pr’ocê! Palmas pro novo L.F. Verissimo… Engate uma reduzida e mande bala q vc chega lá!Só podia vir mesmo é da capital do nosso Ceará — eu só num digo o nome da cidade pq, diferentemente de vc, sou VOZÃO do coração do meu povão!!! Mas tudo bem; sei reconhecer o talento alheio qdo vejo um q nem vc, mesmo q seja torcedor do “stela”, seu único “defeito”… Rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs! E vamo pa frente pq a campanha do BI tá só começano… Wander Nunes Frota, Fortaleza-CE – jan2007

15- Erri Kelmer , parabéns pelo caso resolvido e não esquecendo a ajudante voadora, Tábata, envio um abraço bem virtual, ajudante é ajudante e merece cumprimentos, né?Bem de longe, bem de longe.Adorei o mistério e seu decorrer.Qualquer mistério insolúvel pedirei humildemente a ajuda do investigador e sua, hã…, ajudante.Beijo.Feliz 2007. Lia Aderaldo, Fortaleza-CE – jan2007

16- SEU TEXTO SOBRE A MORENA É SIMPLESMENTE: I N C R Í V E L!!! Andrea Menge, Niterói-RJ – jan2007

17- Ricardo, Incrível o teu senso de humor e a tua capacidade para descrever tão bem os encantos e os mistérios que cercam a Maria das Graças! Parabéns! E quanto ao resultado da soma entre a “mistura ambígua de sensualidade, inocência e perdição que ela inspira” e os teus instintos animais em ebulição, sem comentários!!!! kkkkk. Kátia Regis, João Pessoa-PB – jan2007

18- Eu adorei o Mistério da morena turbinada. Modelo e Psicóloga. Há.Há. Na verdade Orkut é um grande divã de pobre. Ô povo pra suvinar analista. E aquelas autodefinições me matam. Neura pra todo lado. E quem se define nem percebe. Por isso mesmo adorei o investigador que desvenda mistérios no Orkut. Grande contribuição para a sociedade. Há . Há. Dê noticias. bjs. Marcinha Sucupira, Fortaleza-CE – jan2007

19- Adorei o texto da morena do Orkut. Mariucha Madureira, Brasília-DF – ja/2007

20- esse texto é muuuuuito bom!!!! hauhauahuaha dei muitas gargalhadas.. saudades de vc, qdo vem ao Rio?? Beeeijos meus e da Lívia. Daniela Cecchi, Rio de Janeiro-RJ – jan2007

21- Oiiii, vim te dar os parabéns =] adoreiii “O mistério da morena turbinada”, ótimo!!! aproveitando a oportunidade, feliz 2007! beijos : * Priscila Piffer, Rio de Janeiro-RJ – jan2007

22- Adorei a história rsssssssss… Ora, sou tua amiga no orkut há tanto tempo e vc nunca reparou que sou linda??? Rssssssssssssssss…… Afffff…. homem é tudo igual mesmo rssssssssss…. Um 2007 de muito sucesso pra vc, ricardo. Beijão. Ana Cristina Souto, Fortaleza-CE – jan2007

23- sei nao meu irmao, + continuo achando que e uma traveca do piaui!!!! melhor da rua joao pessoa, aqui em campina!!!! Cesar de Cesário, Campina Grande-PB – jan2007

24- Bom, muito bom, excelente uso das palavras, das imagens, dos aspectos sedutores da criação nesse exercício, tá tudo no lugar, como na morena… Outra coisa: com temas assim, até eu… Pense numa coisinha inspiradora! é, é mesmo um material pra te dar um milhão de dólares, de um milharal americano Abs. Max Krichanã, Fortaleza-CE – jan2007

25- Muito elogiado o “morena turbinada ” inclusive pela citada Karine Alexandrino que te manda um bj. bjão bonequinho ! Michele Diamanti, Fortaleza-CE – jan2007

26- Muito bom Ricardo! Esse é o seu estilo.Tema interessante e atual, humor e criatividade. Eu torcí para que fosse uma mensagem “real”. Pensando bem !!!! Eduardo Macedo, Recife-PE – jan2007

27- Oi Kelmer, To te lendo aqui de Paris acredita? Nada me separa de ti. Como sempre ri demais. Foi bom, pq hoje nao to la muito bem, em Paris, pode? So eu mesmo! Bjs. Lígia Virgínia, Paris-França – jan2007

28- kelmer, s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l, sampa tá te inspirando. fiquei até com vontade de conhecer a tábata e tomar um conhaques desses. bjs. Ihvna Chacon, Fortaleza-CE – jan2007

29- PARABENS!!! seu artigo é muito bem escrito e inteligente! a maria adorou o texto. Site Maria da Graça On Line – fev2007

30Eta crônica boa!! Mede forças com L.F.Veríssimo ou Fernando Sabino nos bons tempos. Adriano Petrachi, Ferrara, Itália – out2010


Giselle, a espiã nua que eliminou o Brasil

11/07/2010

11jul2010

Giselle, aquele rostinho lindo, aquele sorriso meigo, na verdade era uma fria e sedutora agente secreta a serviço da seleção francesa

GiselleAEspiaNua-02

GISELE, A ESPIÃ NUA QUE ELIMINOU O BRASIL

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Faltava meia hora pro jogo começar. Brasil e França lutando por uma vaga na semifinal da Copa do Mundo de Futebol de 2006. Horácio tomou banho cantando o hino nacional, se enxugou em meio a uns passinhos de samba e foi ao quarto se vestir. Estava tranquilo e otimista. Abriu a gaveta do armário e fez uma pose solene enquanto esticava o braço para pegar sua arma, a arma mortífera, aquela que levou o Brasil ao título em 2002 e agora o consagraria hexacampeão.

Ué? Que estranho… A cueca da sorte não estava na gaveta. Procurou então na outra gaveta. Nada. Procurou na outra, depois na outra… E nada. Estaria no cesto de roupa suja? Correu para o cesto, jogou tudo no chão… mas também não estava lá. Voltou ao quarto e procurou mais uma vez nas gavetas, olhando com redobrada atenção. Remexeu no guarda-roupa inteiro, olhou embaixo e em cima. Procurou sob a cama, atrás dos livros… e nada. A cueca simplesmente sumira.

Horácio procurou se acalmar, precisava se acalmar, a seleção brasileira dependia disso. Quando fora a última vez que usou? No dia do último jogo, claro, só usava a cueca da sorte em dia de jogo da seleção. Na Copa de 2002 usara sete vezes, nas sete vitórias do Brasil. Nesta Copa usara quatro vezes, nas quatro vitórias, a última alguns dias antes. Repassou os acontecimentos feito um filme: o último jogo, a vitória brasileira, a comemoração no bar, os amigos, todo mundo festejando… E depois? Depois terminou a noite com Gisele, ai, Gisele, ali mesmo em seu quarto. Gisele, a gata que todos cobiçavam. Ele nem acreditou quando ela lhe deu bola no bar, achou até que ela brincava com ele. Mas era sério. Ela lhe sussurrou no ouvido, com aquele sotaque francês encantador, que o queria, que o queria muito, e urgente. E aí, bem, aí ele aproveitou a boa sorte e a levou ao seu apartamento, onde transaram bastante, sexo de alta qualidade. E depois ela foi embora. E ele dormiu feliz, pela vitória no campo e na cama.

Será que Gisele levara a cueca? Mas por que levaria? Ela não tinha cara de ser colecionadora de cuecas amarelas usadas. E por que levaria sem lhe pedir? Não, não fazia sentido. Gisele era uma mulher de classe, uma francesa supereducada, que escolhera o Brasil para morar e…

E de repente uma bigorna lhe caiu sobre a cabeça. E tudo ficou espantosamente claro. Gisele era francesa! Tinha pai brasileiro, sim, mas nascera na França. E ele havia comentado no bar sobre a cueca da sorte. Ela sabia de tudo!

Durante algum tempo ficou ali, sentado na cama, em estado de choque. Uma espiã francesa… Não, não podia ser, essas coisas só acontecem nos filmes. Uma agente secreta que se infiltra entre torcedores brasileiros e descobre a principal arma da seleção pentacampeã… Não, isso já era demais, estava alucinando. Uma espiã que o seduzira maquiavelicamente e agora estava de posse da principal arma brasileira, muito mais poderosa que as arrancadas do Ronaldo, as pedaladas do Robinho e os dribles do Ronaldinho. E se ela já houvesse dado fim à cueca, rasgado, incinerado, desmaterializado?

Não, não, não. Não queria nem pensar nessa hipótese. Talvez a cueca ainda existisse, devia estar em algum lugar. Mas onde? Perguntar para Gisele de nada adiantaria, ela não revelaria o segredo que daria ao Brasil a vaga na semifinal. Quem diria… Gisele, aquele rostinho lindo, aquele sorriso meigo, na verdade era uma fria e sedutora agente secreta a serviço da seleção francesa. Um sistema tático mil vezes mais eficiente que o 4-2-2-2. Definitivamente, o futebol perdera sua romântica inocência.

Ligou a tevê, nervoso. Os times estavam em campo, o jogo iria começar. Precisava fazer alguma coisa. Pegou o telefone e ligou. Do outro lado, ela atendeu. Precisava ser frio também, ela não podia desconfiar de nada. Oi, Gisele, tudo bem, vai ver o jogo onde, ah, tá, não, vou ver aqui mesmo, tá, então depois a gente se encontra por aí, heim, claro que vai dar Brasil, ahahah, claro, um beijo, macherri.

Cínica. Cínica e fria como toda espiã. Ela estava muito confiante, exageradamente confiante, ninguém fica tão confiante assim quando vai jogar contra o Brasil. Horácio respirou fundo, procurando se acalmar. Tentou analisar a situação de modo racional. A seleção brasileira tinha os melhores jogadores do planeta, era a grande favorita ao título. Somente um desastre poderia fazê-la perder aquele jogo. É, talvez dessa vez o time não precisasse da cueca da sorte. Só uma vezinha. Então vestiu outra cueca, botou uma bermuda, a camisa, pegou uma cerveja na geladeira e ligou a tevê. Não mais veria o jogo com os amigos, não estava a fim de barulho e confusão. Veria em casa mesmo, sozinho.

O time nunca precisou tanto da cueca. A seleção estava irreconhecível, totalmente travada, absolutamente apática. Um completo desastre. Quando o árbitro encerrou o primeiro tempo, o placar em zero a zero, ele ficou ali sentado na poltrona e parecia que lhe pesava sobre os ombros toda a frustração de centenas de milhões de torcedores no mundo inteiro com a seleção canarinho. Então, sem aguentar mais, levantou da cadeira de um pulo, decidido. Calçou o tênis, pegou a carteira e saiu correndo. Desceu as escadas de cinco em cinco degraus, atropelou uma senhora na portaria, correu até a avenida. Só então lembrou que àquela hora táxi nenhum estaria na rua. E agora?

GiselleAEspiaNua-02aA última vez que fizera exercício foi uma faxina no apartamento, quando a faxineira não pôde ir, isso seis meses atrás. Estava meio gordinho, fora de forma. Mas o dever cívico se impunha. E o segundo tempo já estava começando! Então encheu-se de disposição e pôs-se a correr.

Com cinco minutos de corrida, as pernas começaram a pesar. Mas precisava prosseguir, precisava. Com dez minutos, já estava difícil respirar. Mas precisava, precisava. Com quinze minutos, suado e ofegante, pensou em desistir. Com vinte minutos, não pensou mais: desistiu. E parou. E se encostou num poste, quase botando os bofes pra fora. Não aguentava mais dar um passo. Se ao menos passasse um táxi… Então, do outro lado da rua, viu um bar, muitas pessoas. E uma tevê a transmitir o jogo. Caminhou até lá e perguntou do placar. Um a zero França.

Ele não acreditou. Conferiu o placar na tela da tevê. Infelizmente era verdade, o Brasil estava perdendo. E aquelas pessoas nem desconfiavam que a culpa era dele…

Nesse instante, alguma força insuspeitada emergiu do mais profundo do seu ser, espalhou-se por seu sangue e lhe deu forças. E Horácio recomeçou a correr. Bem, é verdade que mais parecia uma corrida em câmera lenta, mas pra ele era o maior esforço do mundo. Trinta minutos do segundo tempo, talvez ainda desse tempo, tinha que dar, tamanho esforço não poderia ser em vão. Trinta e cinco minutos. Ele seguia em seu passinho curto e arrastado enquanto o tempo, implacável, prosseguia mais rápido que o normal.

Quando cruzava a praça tropeçou numa pedra e se espatifou no chão, cena grotesca. Quase ficou lá para o resto da vida, mas levantou e, feito um zumbi, continuou sua marcha obstinada. Aos quarenta minutos do segundo tempo avistou a casa e juntou o que lhe restava de força para chegar lá, o coração à beira de explodir. Lembrou do primeiro maratonista grego, aquele que concluiu o percurso e caiu morto. Não, não podia morrer agora, agora não.

Finalmente, chegou à casa. A campainha, tocar a campainha… estender o braço… pressionar o botão… blim-blom… baixar o braço… encostar-se no portão… Um senhor apareceu, apressado, vestindo bermuda e camisa amarela. Seo Valdemar, pai da Gisele.

Sem saber como dizer o que precisava dizer, Horácio começou perguntando por Gisele. À sua frente, seo Valdemar o observava e parecia tentar desvendar o que aquela figura bizarra teria a ver com sua filha. Desconfiado, ele respondeu que Gisele tinha ido ver o jogo num bar. E agora? Seo Valdemar, sua filha está com minha cueca da sorte e eu preciso urgentemente estar dentro dela, da cueca, claro, para o Brasil virar o jogo. Como dizer uma coisa dessa? Não, não conseguiria.

Mas precisava, precisava. Respirou fundo e começou: Seo Valdemar… o senhor acredita em… superstição? O pai da moça se aproximou um pouco mais e, olhando-o firme nos olhos, respondeu: O Brasil perdendo e você me faz vir aqui porque quer saber se eu acredito em superstição? E lhe deu as costas, voltando para a sala.

Horácio sentiu que era o fim. Nada mais a fazer.

Mas se quiser entrar para ver o fim do jogo, entra logo e fecha o portão. Era a voz de seo Valdemar, que já sumia casa adentro.

Horácio obedeceu rapidamente e no instante seguinte estava na sala, ao lado de seo Valdemar e de uma senhora que entendeu logo ser sua esposa francesa, a mãe da agente secreta, que acenou para ele rapidamente, absorta na tela da tevê. Coitada, nem desconfiava das verdadeiras atividades da filha…

Quarenta e quatro minutos do segundo tempo. O Brasil continuava perdendo. Perdendo e jogando incrivelmente mal, sem atitude de pentacampeão. Os jogadores pareciam anestesiados, perdidos, incapazes de reagir. Que falta fazia a cueca! Ele tinha três ou quatro minutos para salvar o país, não podia mais desperdiçar nenhum segundo.

Por favor, onde fica o banheiro? Seo Valdemar, concentrado na tevê, apontou o corredor e ele saiu. Em frente ao banheiro mudou de direção e entrou rapidamente num quarto. Pelas fotos na parede, era o quarto de Gisele. Abriu o guarda-roupa e começou a tirar todas as peças de roupa. Na primeira gaveta, nada. Na segunda, nada. Nada na terceira, nem na quarta. Nem na quinta, sexta, sétima, oitava, como um guarda-roupa podia ter tanta gaveta?

De repente, parou. Parou e pela primeira vez teve a exata noção do que fazia. Estava na casa de uma garota que mal conhecia, procurando por uma cueca que nem sabia se ainda existia e que supostamente seria a responsável pelas vitórias brasileiras… Que ridículo. E pensar que chegara mesmo a imaginar que Gisele era uma agente secreta francesa cuja missão era raptar uma cueca… Não devia estar muito bem da cabeça. O Brasil perdia porque a França jogava melhor, simplesmente por isso, não tinha nada a ver com mandingas e rituais de boa sorte.

Falta!

Ele escutou a voz do locutor.

Falta na entrada da grande área, é a última chance do Brasil!!!

Horácio lançou-se novamente sobre o guarda-roupa, determinado, abrindo a última gaveta, tirando de lá todas as roupas e jogando tudo no chão. O intrépido cavaleiro arrancando as tripas do dragão guardião do tesouro encantado. Então, surgindo lá no fundo, o que viu? O tesouro. A cueca. A cueca amarela da sorte. Por alguns segundos, ficou olhando, sem acreditar, como se estivesse diante do Santo Graal.

É a última chance!, o locutor repetiu, despertando-o do transe.

Ele então livrou-se rapidamente dos tênis que calçava.

Momento dramático!

Tirou a bermuda e a cueca de uma puxada só.

O árbitro autorizou!

Pegou a cueca amarela e vestiu com toda a rapidez do mundo.

Correu pra bola!

Mas no segundo pé a cueca enganchou…

Bateu!

… e ele se desequilibrou e caiu no chão…

Pra fora!

… metade da cueca numa perna e a outra metade enganchada no pé.

GiselleAEspiaNua-02aFim de jogo! O Brasil está fora da Copa!

Ficou imóvel, deitado seminu no chão do quarto. Da sala, vinha a voz do locutor feito o eco de um som distante. Ao seu redor, vestidos, blusas, meias e calcinhas espalhados pelo chão. O Brasil estava fora da Copa. Toda uma nação derrotada pela astúcia de Gisele, a nova encarnação da espiã nua que abalou Paris.

Levantou. Tirou a cueca amarela, vestiu-se e calçou os tênis. Ainda pensou em arrumar a bagunça que fizera, mas não, pelo menos aquele trabalho Gisele teria. Na sala, seo Valdemar arrasado, ainda de olho na tevê, nem o viu passar. Na cozinha, sua esposa cantava a Marselhesa. Caminhou pela rua devagar, evitando o olhar das pessoas. Se elas soubessem…

Pegou um ônibus e sentou no último banco, encolhido em sua vergonha. Tentou pensar em outra coisa, qualquer coisa que fosse, mas não conseguiu. Então, não resistindo mais, tirou do bolso a cueca. E olhou para ela como alguém que espera ser despertado de um pesadelo. Então, feito uma bola de cristal, as imagens começaram a se formar à sua frente… Pôde ver as manchetes do dia seguinte, os programas de tevê, os comentários inconformados, as análises do jogo, todos buscando as causas da derrota. Viu a incrível dimensão que aquela derrota tomou. Viu a população saindo às ruas, exigindo a cabeça dos culpados, um drama nacional. Viu os jogadores sendo interrogados, o técnico demitido. Viu a polícia envolvida, viu vários suspeitos de traição à pátria sendo detidos, estrangeiros envolvidos num meticuloso esquema de espionagem, entre eles uma garota francesa que admitia ser uma agente secreta a serviço da seleção de Zidane e que contara com um comparsa brasileiro chamado Horácio…

Voltou a si de repente, assustado. Olhou para um lado e para o outro, com medo de alguém também ter visto o que ele vira. Olhou para a cueca mais uma vez. E então não teve dúvidas: esticou o braço pela janela e atirou-a no meio da rua. Depois se encostou no banco e respirou fundo. Pegariam Gisele, mas pelo menos não o pegariam com a prova do crime.

O ônibus seguiu pela avenida, sumindo no movimento da cidade que aos poucos voltava ao normal, afinal a vida segue. No asfalto, ficou a cueca amarela, agora saco de pancada dos automóveis derrotados.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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Este conto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

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GiselleAEspiaNua-02A GISELLE QUE INSPIROU ESTE CONTO
(E QUE ABALOU PARIS)

O conto Giselle, a Espiã Nua que Eliminou o Brasil (2006) foi inspirado na série literária de ficção Giselle, a Espiã Nua que Abalou Paris, que conta as aventuras da espiã francesa Giselle Montfort durante a Segunda Guerra Mundial. Giselle é uma integrante da Resistência francesa que usa sua beleza escultural para extrair informações dos oficiais nazistas na Paris ocupada e repassá-las aos companheiros de luta.

Com forte teor erótico e num estilo de diário de memórias, escritas pela própria heroína enquanto estava presa esperando a execução, a série foi escrita pelo brasileiro David Nasser, com a colaboração do fotógrafo francês Jean Manzon, e publicada em 59 capítulos em 1948 no jornal carioca Diário da Noite, obtendo enorme sucesso. Embora fosse pura ficção, o jornal tratava como verídicas as memórias de Giselle, o que aumentava a popularidade da história.

BrigitteMontfort-01Nos anos 1950, a série foi reescrita e publicada pela Editora Monterrey em livros de bolso populares, sempre com altíssimas vendas, e seguiu sendo reeditada até os anos 1980. Como a série termina com a morte de Giselle, e a Monterrey pretendia continuar apostando no filão, criou-se uma série (escrita sob o pseudônimo “Lou Carrigan” e publicada até o início dos anos 1990), sobre uma filha que Giselle tivera. Surge assim Brigitte Montfort, também linda e sexy, e espiã da CIA, atualizando o tema e vendendo ainda mais que a série da mãe. Não é nenhum exagero dizer que Giselle e Brigitte foram responsáveis pela iniciação de milhares de brasileiros nos prazeres da literatura erótica e, é claro, do sexo imaginativo. As voluptuosas mãe e filha ganharam corpo e rosto próprios pelo desenho genial de Benício, um dos grandes nomes da ilustração no Brasil. Hoje, os livros das duas séries são vendidos bem caros.

Eu, particularmente, não tive o prazer de ler as aventuras das admiráveis espiãs. Minha única lembrança de Giselle vem de um dos livros da série, que eu via na estante da casa de minha prima, que se chamava… Gisele. Era 1980, eu tinha os meus 14 anos e aquele livro me fascinava, me causando uma espécie de frisson. Não cheguei a lê-lo, apenas admirava a capa, lia a contracapa e fantasiava sobre o que ele poderia conter. O título era marcante e eu não o esqueceria jamais. Aliás, eu o considero um dos melhores de todos os tempos: evoca uma mulher linda e corajosa, que é espiã, está sempre nua, luta contra os nazistas e, com toda razão, abala Paris é perfeito. E, para completar, eu tinha nutria uma secreta paixonite por minha prima Gisele. Junte as duas Giseles e, pronto, está mais que explicado o frisson que aquele livro me causava. E, admito, ainda causa. (Ricardo Kelmer)

> Mais sobre a série

> Sobre o ilustrador Benício

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01– Achei muito legal!Fiquei cheia de expectativa pra saber que fim tinha levado aquela bendita cueca.Fiquei até cansada daquela correria do Horácio.Caramba,coitado!Na hora em que ele acha a cueca e começa a tentar vesti-la e acaba caindo no chão,imaginei que a mãe da Giselle fosse aparecer no quarto cantando a Marselhesa toda feliz…” Allons enfants de la Patrie,l e jour de gloire est arrivé…” e,derrepente, o encontraria deitado em cima dos vestidos,meias e calcinhas da filha,nu,com a cueca em uma das pernas.Que situação,heim? Adorei o texto do início ao fim.Muito bom.Vc descreveu muito bem as situações e emoções, me fazendo visualizar tudo como se fosse uma cena. Sidiany Colares, Fortaleza-CE – jul2006

02- Demais o texto!!!! Acertou em cheio na identificação do brasileiro com as superstições em copas. Ainda bem que os franceses não acaharm o meu gorrinho da sorte. Um abraço! Jayme Akstein, Rio de Janeiro-RJ – jul2006

03- Ahahahaha, delicioso, esse texto!! Olha, eu acho muito verosímil! Aliás, tenho quase a certeza que foi isso mesmo que aconteceu! Beijos. Susana Mota, Leiria-Portugal – jul2006

04- Hoje amanheci com nostalgia. Aos 59 anos acho ter este direito. Relembrei-me de meu início de carreira nas leituras. Gizele, a espiã nua que abalou pariz. Estou ao computador e apelo para o meu “santo” Google e eis que aparece em primeria página seu artigo da sua gizele nua que arrasou o Brasil… Leio, não leio, li! Cara, foi demais. Adorei. e tenho certeza que a gizele dos meus sonhos saudosos ainda está viva. A mesminha. Se bem que ela brigava mais era pelos Estados Unidos, não era? Não a sua Gizele, a outra. Ou era só contra a Rússia. Mas, está de parabens. Quem conheceu a outra, (octagenária por agora) sabe que seria bem capaz de abrir as pernas por uma boa causa (deles) é claro. Paulo Chinelate, Fortaleza-CE – set2007

05- Vc é muiiiito bom! risos Adoro … bjs Arlene, Rio de Janeiro-RJ – jul2010

06- muiiiiiiiiiiiito legal. este eu já li! beijosss. Lucia Gonczy, São Paulo-SP – jul2010

07- kkkkkkkkkkkkkk não fala mau da Giselle , eu era fã dela..alais fui fiel leitora da serie q fizeram de livro de bolso de uma filha(ficticia dela)A série ZZ7 Brigith Monfort , filha da espiã giselle com um genetal alemão… vc me trouxe lembranças…rsrs bjão. Beth Ghimel, Manaus-AM – jul2010

08- “kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk….Demais!!!” Lia Aderaldo Demétrio, Fortaleza-CE – jul2010

GiselleAEspiaNua-02a