Marchando com as vadias

maio 25, 2013

Ricardo Kelmer 2013

Se ser vadia é ser livre para exercer a própria sexualidade, então todas as mulheres precisam urgentemente assumir sua vadiagem, para o seu próprio bem e o de suas filhas

MarchandoComAsVadias-1.

A cultura patriarcalista e as religiões cristãs sempre temeram a sexualidade da mulher. Durante séculos a união do machismo com a religião fez as mulheres reprimirem sua própria liberdade, tudo em nome da família e de Deus, claro. As que ousavam viver naturalmente sua sexualidade, como os homens heterossexuais sempre viveram a sua, eram xingadas, perseguidas, agredidas, execradas, expulsas, estripadas, assassinadas, queimadas em fogueiras. E, evidentemente, iam para o Inferno, arder eternamente pelo pecado de serem livres.

Hoje a repressão diminuiu pois a cultura machista e a religião felizmente já não têm tanta força. Mas, de modo geral, a sociedade ainda teme a sexualidade feminina e, infelizmente, grande parte das próprias mulheres contribui para a manutenção dos valores machistas, aceitando certas vantagens que ele oferece mas esquecendo que essas tais vantagens cobram um alto preço no balanço geral. E muitas mulheres ainda não conseguem aceitar a independência sexual de outras mulheres, e assim unem-se aos estupradores ao criticá-las por serem… livres.

A apropriação do termo “vadia” pelas próprias mulheres é uma boa estratégia de luta pois usa a força do agressor contra ele mesmo. Se ser vadia é ser livre para exercer a própria sexualidade, então todas as mulheres precisam urgentemente assumir sua vadiagem, para o seu próprio bem e o de suas filhas. Muitas se sentem incomodadas com o termo, e isso é compreensível, mas o significado das palavras muda com o tempo e talvez as mulheres da próxima geração não tenham qualquer problema em dizer que são vadias e os homens que não temem o feminino terão orgulho da vadiagem de sua mulher.

Com os termos “louco” e “maluco” aconteceu algo parecido. Cansados de serem assim estigmatizados, os artistas, os trangressores e os inconformistas se apropriaram dos termos e hoje é comum que eles mesmos se autodenominem loucos, malucos e vagabundos, e não apenas eles mas muitas outras pessoas que discordam da normalidade. A imposição ditatorial de normas de comportamento, principalmente sexual, gera inevitavelmente esse tipo de repúdio e revolta. Mais justo seria respeitar as diferenças e aplaudir a liberdade de sermos quem somos.

Eu sou louco e vadio. Por isso prefiro as loucas e vadias, as putas, as vagabas e todas as que desafiam a cultura e a religião em busca da própria liberdade de ser. E é por isso que marcho feliz e orgulhoso ao lado delas.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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> Me estupra, meu amor – Fantasiar ser estuprada é uma coisa – querer ser estuprada é outra coisa totalmente diferente

> Os apuros do homem feminista – Minha busca por relações igualitárias foi dificultada também pelas próprias mulheres pois muitas, mesmo oprimidas, preferiam relações baseadas no velho modelo machista

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você tem medo do desejo feminino, é melhor não ir…

> As fogueiras de Beltane – A sexualidade sem culpa de uma sacerdotisa pagã

> O mistério da cearense pornô da California – Uma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e, entre uma e outra orgia, luta pela liberação feminina

> A noiva lésbica de Cristo – Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco

> O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

> A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…

> A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, Editora Objetiva/2005) – A ex-bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e submissão através do sexo anal

> A prostituta sagrada - A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990) – Um livro belo e libertador, que celebra o sagrado na sexualidade

> Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino – Livro de contos e crônicas sobre a mulher

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COMENTÁRIOS
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A Matrix em cada um de nós

maio 20, 2013

Ricardo Kelmer 2003

Em busca da realização mais íntima (tornar-se o Predestinado), o ego deve empreender uma longa jornada de autoconhecimento onde não faltarão medos e conflitos para fazê-lo desistir

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Em termos psicológicos a aventura de Neo, o herói de Matrix, é uma reedição moderna da antiga jornada humana rumo à autorrealização, ou seja, à realização do si-mesmo, o mais importante dos arquétipos, aquilo que há de mais profundo e verdadeiro em nós. Autorrealizar-se significa desenvolver o potencial adormecido e nos tornarmos quem somos destinados a ser porque é isso o que sempre fomos: a semente que já traz em si a árvore futura. Para isso, porém, a pessoa deve primeiro despertar, diferenciar-se da mentalidade comum da massa e conhecer quem de fato é uma grande aventura da vida inteira.

No primeiro filme mora a essência da história e ela é uma metáfora da luta cotidiana de cada um de nós para nos realizarmos. O personagem principal é Neo que, psicologicamente, representa o ego, centro da consciência, o arquétipo do eu. Em busca da realização mais íntima (tornar-se o Predestinado), o ego deve empreender uma longa jornada de autoconhecimento onde não faltarão medos e conflitos para fazê-lo desistir.

Mas o ego não está só na jornada. Na verdade ele é apenas o gerente da psique, administrando os vários aspectos pelos quais ela é formada e que fazem o “eu maior”. Esses aspectos, por viverem no escuro do inconsciente (fora da percepção do ego), agem influenciando as ideias e atitudes da pessoa, para o bem ou para o mal. Por isso, para autorrealizar-se a pessoa terá de reconhecer e lidar muito bem com eles. Os personagens principais de Matrix representam esses aspectos.

Morfeu é o incentivador, o componente yang da psique, que é associado ao masculino. Ele tem força, acredita e realiza. É a parte do eu que não se cansa de lutar pelos nossos sonhos, por mais loucos que pareçam, e é capaz de mover o mundo para torná-los reais. Quando tudo parece perdido é essa parte que permanece alerta, impulsiona e nos faz acreditar em nosso potencial.

Cypher é o traidor interno. Representa o componente sabotador do processo de crescimento psíquico. É a força retrógrada do eu total que sente falta do tempo em que tínhamos menos autoconsciência e, exatamente por isso, menos responsabilidades. Cypher está no poder quando desistimos de lutar e achamos mais cômodo permanecer onde estamos ou, se possível, regressar a um estágio anterior, menos comprometido com mudanças pessoais e novas verdades. Cypher tem medo de arriscar o novo e prefere a segurança do velho, o que provoca estagnação e crise. Ironicamente, o ego precisa desse perigoso aspecto para ser testado.

Trinity é o aspecto yin da psique, que é associado ao feminino, e representa o sentimento, a paciência e o cuidado. Ela é a porta para a dimensão do amor, imprescindível para que o ser se complete. A experiência dramática do amor, através de todas as suas facetas, pode impulsionar o ego rumo a níveis avançados de autoconhecimento e autoaceitação. Mas o amor não poderá fazer tudo sozinho: é preciso assumi-lo e cuidar dele no dia a dia, fato que a maioria dos homens, ao contrário das mulheres, demora a assimilar. Trinity aceita seus sentimentos no fim e é isso que ressuscita Neo, trazendo-a de volta à vida mais forte e capaz.

O Oráculo soa como contrassenso na história: num mundo supertecnológico, onde a ciência atingiu seu apogeu e tudo depende de máquinas e programas, que importância teria uma senhora vidente, cheia de mistérios e ditando profecias? O Oráculo é a dimensão do sagrado em nossas vidas, o arquétipo do divino, o numinoso, algo pelo que nutrimos um sentimento de profunda fé e respeito. Pode ser uma religião formal, uma antiga tradição espiritual ou uma crença religiosa particular. Pode ser uma conexão intuitiva com a Natureza, com o Cosmos ou a Humanidade. Mas sempre será algo diante do qual nos tornamos reverentes, justamente por ser muito mais antigo e maior que nós. O sagrado é obscuro, misterioso, arredio ao intelecto e jamais o definiremos com exatidões científicas mas sem ele ficamos à deriva no grande caos da existência. Que seria dos resistentes de Matrix sem a fé no Oráculo?

Há ainda os agentes, sempre buscando eliminar os que se diferenciam. São representantes da própria sociedade, que age como uma boiada para melhor se organizar e se proteger pois para ela é melhor que todos ajam e pensem de forma parecida. A estratégia é natural e eficiente para a sobrevivência da espécie, sim, mas tem um alto custo: a anulação do indivíduo e a negação de sua singularidade. A maioria dos que tentam se diferenciar é dissuadida pela força da cultura ou por seu próprio sabotador interno e, com medo, volta à segurança da massa.

Mas alguns não desistem e apesar das dificuldades externas e dos conflitos internos, prosseguem em sua transformação pessoal rumo ao si-mesmo, à realização de sua potencialidade. São esses os predestinados que, com seu exemplo de vida, incentivam outros a fazerem o mesmo. Assim como Neo, aquele que se autorrealiza provoca a sociedade do melhor modo possível, forçando-a a reavaliar suas próprias regras e transformando-a.

Tudo, porém, tem início com o despertar, aquele toc-toc-toc na porta da consciência: acorde!

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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Este texto integra o livro Blues da Vida Crônica

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SOBRE O FILME

MatrixDVDCapa-1Matrix (The Matrix, EUA, 1999)
Argumento, roteiro e direção: Andy e Lana Wachowski
Elenco: Keanu Reaves, Lawrence Fishburne, Carrie-Anne Moss e Hugo Weaving

No futuro a humanidade é prisioneira de sua própria criação, a Inteligência Artificial, que criou a Matrix, uma realidade virtual onde foram inseridos todos os seres humanos para que eles não oponham resistência ao poder das máquinas. Todos não, pois um grupo de rebeldes mantém-se fora dessa realidade e luta para libertar o restante da humanidade. Eles creem na profecia do Oráculo que diz que um Predestinado um dia virá para vencer as poderosas máquinas e salvar a todos. Para eles Neo, um jovem que vive na Matrix, é o Predestinado. Neo de fato desconfia que há algo errado com a realidade mas não pode aceitar que ele seja o tão aguardado salvador.

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MATRIX, PSICOLOGIA E MITOLOGIA NO LIVRO:

Matrix2012Capa14x21a> Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas

Analisando o filme Matrix pela ótica da mitologia e da psicologia do inconsciente e usando uma linguagem simples e descontraída, RK compara a aventura de Neo ao processo de autorrealização que todos vivem em suas próprias vidas.

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LEIA TAMBÉM NESTE BLOG

> Blade Runner: Deuses, humanos e andróides na berlinda – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso.

> A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

> Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

> Mulheres na jornada do herói - É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

> Seguir a boiada ou as próprias convicções? – Aos poucos podemos, cada um de nós, começar a agir de acordo com as nossas próprias verdades, aquelas que nos fazem sentir mais vivos, úteis e autênticos

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Profundo hein Ricardo Kelmer! Amo tudo o que fala do “Si Mesmo”, deste mundo grandioso de possibilidades que levamos dentro de nós mesmo, mas que muitos não acreditam ter ou ser. Também acredito que somos essa “a semente que já traz em si a árvore futura”. Renata Kelly, Fortaleza-CE – mai2013

02- Me lembrei agora de Por uma cultura de paz!!! Kathia Albuquerque, Fortaleza-CE – mai2013

03- Toc-Toc-Toc… Robert Pereira, Salvador-BA – mai2013

04- Excelente artigo. Exercer o eu é poder, liberdade, transformação e unidade. Sorrisos de êxtase lendo o texto. Nayanna Freitas, Fortaleza-CE – mai2013


Lola Benvenutti e a coragem de viver

maio 13, 2013

Ricardo Kelmer 2013

A única salvação possível é sermos quem verdadeiramente somos. Parabéns, Lola, por sua coragem e autenticidade

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Uma garota de programa mantém um blog no qual conta sobre sua vida e narra o que faz com seus clientes. Você já viu esse filme, né? Eu também. Bruna Surfistinha tornou-se uma celebridade nacional graças a seu blog. Porém, tô falando de outra garota de programa. Seu nome: Lola Benvenutti. Seu diferencial é que ela é culta, é formada em Letras pela Universidade Federal de São Carlos-SP, gosta de literatura e escreve bem. O nome profissional foi inspirado na personagem Lolita, do romance de Vladimir Nabokov.

Lola, cujo nome verdadeiro é Gabriela Natália da Silva, tem 21 anos, mora atualmente em São Paulo, assume abertamente o que faz e não tem medo de mostrar o rosto. Ela conta que tornou-se garota de programa porque sempre gostou muito de sexo e tinha um desejo secreto de trabalhar no ramo. Cobrando R$ 250 por uma hora de programa, ela ganha muito mais do que ganharia dando aulas mas pretende fazer o mestrado de Estudos Culturais na USP, analisando o mundo da prostituição e do fetiche. E não pretende deixar de fazer programas.

Bundão de popozuda do baile funk? Lola não tem. Peitão siliconado de musa do carnaval? Também não. Em vez disso, ela exibe um visual meio roqueiro meio gótico, a mecha branca enfeitando o longo cabelo preto e várias tatuagens pelo corpo de pele branquinha, entre elas trechos de Manuel Bandeira e Guimarães Rosa, uau. Lola é um livro aberto ao prazer.

Lola tem participado de alguns programas da TV. A mídia adora esse tipo de notícia e certamente irá usar e abusar dela. Porém, pelo que vi, Lola é uma garota segura de si, apesar da pouca idade, e certamente sabe que pode usar a mídia a seu favor. Tomara que ela não perca sua essência, que me pareceu tão bonita quando sua estampa física.

Sabe, Lola, a maioria das pessoas não tem coragem de fazer o que gosta e nem de se dar o prazer de ter prazer. Preferem seguir a boiada da cultura e da religião pois isso é mais cômodo que ser autêntico. Sacrificam a própria realização pessoal com medo de serem mal faladas. Sem coragem de viver verdadeiramente suas vidas, tornam-se frustradas e passam a criticar e apedrejar as pessoas que são verdadeiras e vivem suas vidas com honestidade. Você certamente já levou muita pedrada, né, Lola? E certamente levará mais, afinal essa é a sina dos transgressores. Você pode jogar as pedras de volta, é seu direito, mas, olha, talvez seja mais útil usá-las para reforçar o castelo das suas convicções, tão bonitas quanto você.

A única salvação possível é sermos quem verdadeiramente somos. Parabéns, Lola, por sua coragem e autenticidade. O mundo amanheceu mais verdadeiro e poético por você ser quem você é.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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FALA, LOLA, FALA:

LolaBenvenutti-1“Acho curioso o fato de as pessoas tentarem imaginar qual acontecimento familiar macabro me levou a este caminho. Lamento desapontá-los, mas a verdade é que tive ótima educação. Fui criada no sítio, com os melhores valores que alguém pode aprender. A questão é que eu amo sexo! Quando ainda era menor de idade, entrava em sites de relacionamento e marcava com homens que eu nunca tinha visto na vida. Tornar-me acompanhante foi apenas uma maneira de unir dois gostos: sexo e dinheiro.”

LolaBenvenutti-12“Eu preferi ser honesta e contar, antes que alguém o fizesse. Sei o quanto meu pai ficaria magoado em saber disso por outra pessoa. Minha mãe creio que desconfiava, então não foi um susto tão brutal, mas, infelizmente, ela é do tipo que liga muito para o que os outros falam e creio que, com o tempo, isso minou nossa relação. Meu pai ficou seis longos meses sem falar comigo e eu achei que duraria a vida toda. Para minha surpresa, conversamos, ele me aceitou – deixando sempre claro que a filha dele, a Gabriela, sempre seria a mesma – e até foi à minha formatura. Tenho muito orgulho de ter esse pai que, apesar dos dissabores, sempre esteve do meu lado.”

LolaBenvenutti-10“As pessoas são hipócritas, vivem de sexo, veem vídeo pornográfico, mas não falam porque têm vergonha. Um monte de mulher entra no blog e fala que adoraria fazer o que eu faço, mas não tem coragem; e dos homens escuto as confissões mais loucas e cada vez mais esse tabu do sexo é uma coisa besta”

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> Blog de Lola Benvenutti: lolabenvenutti.blogspot.com.br

> Lola Benvenutti no Agora é Tarde (Band, 09.05.13)

> Lola Benvenutti no Super Pop (RedeTV, 06.05.13)

> ‘Faço porque gosto’, revela garota de programa recém graduada em letras (Portal G1, 29.04.13)

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COMENTÁRIOS
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01- Adorei a crônica, realmente é preciso ter muita coragem pra encarar os preconceituosos de frente e peito aberto. Nadine Araújo, Fortaleza-CE – mai2013

02- ELA É LINDA. QUE OS DEUSES/DEUSAS A PROTEJAM, AGORA E SEMPRE!!!!! LEMBRA DE MALENA E A SUA EXUBERANTE BELEZA? Patrícia Lobo, Salvador-BA – mai2013

03- Realmente… Cada um faz o que quer… Mesmo! Sexo pago nunca me faria feliz… Mas se faz a outras (os)… Que vivam assim, né? ;) Beijos, meu querido! Adulucami Menezes, Fortaleza-CE – mai2013


O major da China

maio 8, 2013

Ricardo Kelmer 2003

A folha em branco era o próprio Partido Comunista Chinês a me desafiar: ou você escreve trinta linhas ou então zapt!

OMajorDaChina-1

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Com 11 anos entrei pro Colégio Militar, lá se foi meu cabelão anos 70. No início até me empolguei com a novidade mas aos poucos emergiram certas incompatibilidades com a filosofia militar. Eu era um aluno estudioso mas ali a minha energia criativa e os anseios de liberdade não encontravam muito espaço. O colégio parecia desafiar minha natureza: Ei, mocinho, esse lugar é pequeno demais pra nós dois…

Passar por média era importante mas bem melhor foi me sagrar campeão do Torneio de Tampinha de 1977, organizado pelo grêmio, uma final arduamente disputada entre eu e Celestino. A medalha? Ostentei-a orgulhosamente no peito durante meses. Entrei pra máfia que protegia calouros em troca de lanche na cantina. Participava das excursões ao Colégio Imaculada Conceição pra paquerar as alunas e depois, inspirado nelas, escrevia contos eróticos que circulavam secretamente durante as aulas. Era divertido. Mas havia todas aquelas regras, hierarquias, aquela ênfase no “obedecer ordens”…

Então o major professor de geografia, disciplina que eu adorava, marcou a prova final. E, como sempre, nos passou cinco temas pra redação, um deles cairia. Tracei minha velha e infalível estratégia, inspirada na lei das probabilidades: estudar três temas, dar uma olhadinha no quarto e desprezar o quinto. Pois dessa vez falhou: caiu a China, o tema que eu não estudara. Putz, bateu logo a angústia. Eu, um dos melhores em geografia, tirar zero na redação, que vergonha. Respirei fundo, me concentrei. Mas a folha em branco era o próprio Partido Comunista Chinês a me desafiar: ou você escreve trinta linhas ou então zapt!

Aumentei logo o tamanho da letra, recurso básico. E tratei de errar aqui e ali, riscando e reescrevendo em seguida, tudo pra preencher as trinta linhas. Sobre a China, nada de economia, clima, bacias hidrográficas – apenas o ridiculamente óbvio: era um país enorme, ficava na Ásia, capital Pequim, o Japão bem ao lado e tinha a muralha. Estiquei o trivial que nem os olhos dos chineses. No fim percebi, desanimado, que ainda restavam sete intermináveis linhas. O que mais poderia dizer?

Resolvi apelar pro bom humor. O major, gente boa, ia entender. “Como já disse antes no primeiro parágrafo, caro professor, a China é o país mais populoso do mundo. Há quem diga por aí que isso se deve ao fato, veja só o senhor, dos chineses comerem com dois pauzinhos. Mas não há confirmação científica.” Pois é, juro por minha medalha de tampinha que escrevi isso. A piadinha cumpriu seu papel, sim, mas ainda restavam três malditas linhas. Então, aberta a porteira, soltei a boiada: “Bem, major, isso é tudo que sei. Se o senhor quiser saber mais, só me resta dizer: vá pra China!”

Entreguei a prova satisfeito, crente que minha espirituosidade renderia uma boa nota. Três dias depois o major manda me chamar, eu deveria vestir a farda e ir até sua residência. O major morava perto de minha casa e fui caminhando até lá, sonhando com honras ao mérito. Ele me recebeu fardado, muito sério. Bati continência e ele me conduziu à sua sala. E me passou um sermão que jamais esquecerei. Falou de minha petulância e falta de respeito, que eu zombava da autoridade, que se eu pensava que podia mandá-lo pra China e ficar impune, estava muito enganado. “Por causa dessa estupidez vou lhe dar um zero não só na redação mas na prova inteira e você vai pra recuperação! E só não será expulso do colégio por consideração a seu pai, de quem sou amigo.”

Expliquei que não quis ofender, só tentei por um pouco de humor… “Respeite a instituição, aluno! O Colégio Militar não é circo!”, ele metralhou, do alto de sua patente, os meus ingênuos 13 anos. Mas major, eu só estava brincando, o senhor não sentiu? “Eu não julgo as coisas pelo que sinto! Eu julgo pelo que vejo!”

Saí de lá humilhado. E decepcionado pois gostava do major, era um bom professor. Mas o pior era a recuperação em geografia, que merda. Por essas e outras é que no ano seguinte saí do colégio. Por vontade própria, bom que se diga. Comemorei deixando o cabelo crescer por um tempão, viva a liberdade capilar.

Não guardo nenhum ressentimento, pelo contrário, tenho ótimas lembranças. O colégio militar me ensinou disciplina, me deu amigos e uma medalha de ouro. E o major? Nunca mais vi. Hoje rio do episódio e percebo que serviu pra fortalecer minhas convicções – por isso sou grato ao meu professor. Tornei-me escritor profissional e sempre lutei pra que as regras não tolhessem minha criatividade e meus sonhos. A vida não é um quartel mas há algo pelo qual vale a pena fazer uma guerra, ah, vale: é a essência do que somos.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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LEIA NESTE BLOG

> A celebração da putchéuris - A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

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> Confissões de um míope – O míope então restringe suas relações visuais com as pessoas a um raio de dez metros e quem estiver além disso não faz parte de seu mundo. E acaba ganhando uma imerecida fama de boçal

> Postagens no tema “biográfico”

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O gozo da língua

maio 2, 2013

Ricardo Kelmer 2012
.OGozoDaLingua-1
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O GOZO DA LÍNGUA
Ricardo Kelmer
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Pela maciez sonora dos fonemas
De formas acetinadas
Que a língua deslize

As arestas silábicas
Que a pronúncia obstaculizam
A língua sensibilize

E no subentende-se das reticências
Onde a linguagem se insinua
Que a língua dance nua

E mexa-se, revire-se, contorça-se
Lambendo-se ao prazer do ritmo
E no sabor do som deleitoso
Salive de gozo em êxtase linguístico

Ao silenciar dos versos que findam
Que descanse a língua de sua lida
E, enfim, adormeça, desmaiada e lânguida
Desmilinguida

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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OBS: Esse poema foi postado em meu mural no Facebook em 02.05.13 com a chamada “Em homenagem ao Dia da Língua Portuguesa, 5 de maio”. Quatro dias depois, ela já havia sido compartilhada por mais de cem pessoas. Fiquei agradavelmente surpreso com isso e muito feliz por chamar a atenção pra importância da valorização de nossa língua.
> Postagem no Facebook

> Mais poemas e músicas

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OGozoDaLingua-1bCartaz com poema. Pra copiar.

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01- estou me deliciando com a sua língua!!!!…rsrsrs. Sandra Regina, São Paulo-SP – mai2013

02- Pfvr, amei o poema inteiro (é lógico), mas essa parte ”…E no subentende-se das reticências Onde a linguagem se insinua Que a língua dance nua E mexa-se, revire-se, contorça-se Lambendo-se ao prazer do ritmo E no sabor do som deleitoso Salive de gozo em êxtase linguístico…” é tudibom e mais um pouco. Herlene Santos, Fortaleza-CE – mai2013

03- Isso é que é tratar bem a FLOR do Lácio. Kelsen Bravos, Fortaleza-CE – mai2013

04- A flor do Lácio, enfim desabrochou, rs. Lindo poema! Mirtes Waleska Sulpino, Boqueirão-PB – mai2013

05- Nossa!!!E salve a língua! :-) Flávia Regina Galdino, São Paulo-SP – mai2013

06- “Virge Maria! Nossassinhora!” Óia o poema q ele me oferece! rs Amoooooooooooooo. Joyce Néia, São Paulo-SP – mai2013

07- ui… Vlado Lima, São Paulo-SP – mai2013

08- eita, lascou-se! muito bom! Ana Cristina Martins, São Paulo-SP – mai2013

09- virei fã!! quando vc virá a Fortaleza?? gostaria de assistir um de seus ‘shows’. Débora Araújo, Fortaleza-CE – mai2013

10- Estupendo!!! Osvaldo Tsutomu Higa, São Paulo-SP, mai2013

11- Lindo poema! Gostoso poema. “Ao silenciar dos versos que findam Que descanse a língua de sua lida E, enfim, adormeça, desmaiada e lânguida Desmilinguida”. Demais… Fhatima Maria, Fortaleza-CE – mai2013

12- Renata Kelly Que lindo poema. Eu já estava pensando besteira, quero dizer, pensando em delícias, coisa boa. kkkkkkk. Fortaleza-CE – mai2013

13- Lindissimo, Ricardo! No meu caso, nao sei se somos amantes ou estamos travando uma batalha cruel! :-) Ana Claudia Domene Ortiz, San Diego-EUA – mai2013

14- Linda homenagem à nossa língua, Ricardo! Não tenho fragmento preferido porque amei tudo, tudinho! Dalu Menezes, Fortaleza-CE – mai2013

15- Monica Milena, leia isso menina. Kikóviscky Souza, Manaus-AM – mai2013

16- Eita, que línguo, digo, lindo. Dá para trocar a foto que ilustra o poema. Tá me deixando gago. Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – mai2013

17- Nossa, eu arrepiei!! “Ao silenciar dos versos que findam Que descanse a língua de sua lida E, enfim, adormeça, desmaiada e lânguida Desmilinguida” Uauuuu”. Jessika Thaís, Fortaleza-CE – mai2013

18- Massa!!!! Carlinhos Perdigão, Fortaleza-CE – mai2013

19- copiando DJÁ. Tayra Alfonso, São Paulo-SP, mai2013

20- Sensacional! Instigante! Vou ali e volto já… :-) Paulo César Norões, Fortaleza-CE – mai2013

21- Uauuuuuu Tocante. Marjorye Sanford Guimarães Filizola, São Benedito-CE – mai2013

22- Que maravilha. Vicente Pereira, Fortaleza-CE – mai2013

23- Parabéns Ricardo! Viva nossa Língua Portuguesa! Amaury Candido Bezerra, Fortaleza-CE – mai2013

24- Li na pagina do Waldemar e adorei! Parabens!!! Posso levar também? Biá Hamann, Houston-EUA – mai2013

25- fantastico grande kelmer. Marcelo Randemarck Galvao Galvao, Fortaleza-CE – mai2013

26- Adorei, Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos! Eroticidade e poesia na medida certa! Giancarlo Kind Schmid, Rio de Janeiro-RJ – mai2013

27- Obrigada, Rica! Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – mai2013

28- Perfeito!!! Domingos Braga Mota, Fortaleza-CE – mai2013

29- D E L I C I O S A!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Cris Pinheiro Lima, Santos-SP – mai2013

30- A palavra é bela. Eu sinto a vida nela… Ricardo Black, Fortaleza-CE – mai2013

31- Sensacional poema erótico de um grande amigo e grande escritor, Ricardo Kelmer. Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – mai2013

32- Maravilhoso. Heloisa Mello, Rio de Janeiro-RJ – mai2013

33- amei! compartilhei. Mel Lamego, Rio de Janeiro-RJ – mai2013

34- Delícia! Adorei! Adriana Dias, Palmas-TO – mai2013

35- Maravilhoso, gostei demais. Armando Soalheira, mai2013

36- UPIS! lindo mesmo! tem sensibilidade e fineza, não é vulgar. Sonia Novaes, Rio de Janeiro-RJ – mai2013

37- o vai vem das palavras em consonância ao carrossel……. Anamar Souza, mai2013

38- Belíssimo! Russana Melo, Recife-PE – mai2013

39- UAU!! Wildeberg Viana, Fortaleza-CE – mai2013

40- ai delícia! Andréa Crisóstomo, Fortaleza-CE – mai2013

41- Justíssima homenagem ao dia da Lingua Portuguesa !!!! Pedro Rui Botelho, Fortaleza-CE – mai2013

42- Sou fã de Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos, sempre! Elaine Christina, Campina Grande-PB – mai2013

43- J’ littérature erótique !!! Tetê Guarani-Kaiowá Macambira, Fortaleza-CE – mai2013

44- VC é demais amigo querido.Bj saudoso. Miriam Costa, Porto Alegre-RS – mai2013

45- Amei Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos. Vânia Luiza, Diadema-SP – mai2013

46- Sensacional! Muito criativo e sensível! Ana Erika Oliveira Galvao, Fortaleza-CE – mai2013

47- Perfeito!!! Domingos Braga Mota, Fortaleza-CE – mai2013

48- Nossa língua, fagueira e bela… Darlan Machado, Fortaleza-CE – mai2013


As Preciosas do Kelmer – abr2013

abril 28, 2013

Ricardo Kelmer 2013

AsPreciosasDoKelmer201304-1.

Criei uma revistinha no Facebook. Ela se chama As Preciosas do Kelmer e é feita de dicas e comentários sobre variados assuntos. A periodicidade é mensal, funciona por meio de uma única postagem que abasteço com subpostagens e os leitores podem comentar a qualquer momento e até sugerir assuntos. Por seu caráter dinâmico e interativo e por construir-se a cada dia, eu diria que é uma revista orgânica. A capa da revista é a própria imagem da postagem, que sempre trará imagens femininas.

Meu objetivo com As Preciosas é dar vazão à minha necessidade de comentar fatos do cotidiano. Pra mim o Facebook é ideal pra isso.

Aqui no blog postarei a edição do mês e a atualizarei a partir das atualizações no Facebook, sempre com imagens. Espero que você goste.

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AsPreciosasDoKelmer201304-1AS PRECIOSAS DO KELMER
Dicas e pitacos para o mês
#7, abr2013

Imagem da capa: Bruna Lombardi, atriz, modelo e escritora brasileira. Uma mulher que não se conformou em ser apenas linda.

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*** SORTEIO DE DVDS

Leitores que comentarem nesta edição das Preciosas do Kelmer concorrem automaticamente ao sorteio de DVDs. O sorteado escolhe entre vários títulos, entre eles:

2001, Uma Odisseia no Espaço – A História de O
Alucinações do Passado  – Bettie Page – Blade Runner – Calígula
Chicago – Desconstruindo Harry – Don Juan DeMarco
Lua de Fel – Matrix – Moulin Rouge – Nove Rainhas
O Elo Perdido – O Exorcista – Uma Cilada para Roger Rabbit

> Saiba mais sobre os filmes

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*** ADOLESCENTE ATACADA POR TALIBÃS PUBLICARÁ SUA HISTÓRIA

MalalaYousafzai-3Malala Yousafzai prossegue em sua luta contra o fanatismo religioso que impede a educação de mulheres. Ela foi baleada na cabeça em um ataque cometido no dia 09.10.13 contra o ônibus escolar no qual viajava no Vale do Swat (noroeste do Paquistão) por um grupo talibã que queria castigá-la por seu compromisso em favor da educação das meninas paquistanesas. Dias depois, foi transferida ao Reino Unido, onde foi tratada e submetida no início de fevereiro a duas cirurgias de reconstituição craniana. Em mar2013 a adolescente pôde voltar à escola, desta vez em Birmingham (centro da Inglaterra), onde a família viverá por algum tempo. Malala, que tem 15 anos, é uma das candidatas ao prêmio Nobel da Paz 2013. > Saiba mais

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*** LIVRANDO A SEMANA (56)

O COBRADOR (Rubem Fonseca) Editora Agir

O Cobrador, publicado em 1979, era aguardado não apenas por ser o quinto livro de contos de Rubem Fonseca, já então considerado um dos mais importantes e inovadores escritores do gênero no Brasil. Era também o primeiro livro após Feliz Ano Novo, de 1975, ter sido recolhido por ordem da censura, sob a alegação de ter conteúdo contrário à moral e aos bons costumes. A resposta veio no conto que dá título ao livro, em que Rubem Fonseca apresenta um de seus personagens mais inquietantes. Amálgama de bandido, poeta e revolucionário, o Cobrador é uma espécie de vingador não apenas da divisão de classes mas também da violência simbólica que é o controle da palavra.

> Adquira este livro na livraria Arte Paubrasil

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*** ISRAEL PRENDE JOVEM QUE SE RECUSA A ENTRAR NO EXÉRCITO

UmMundoMelhorNathanBlanc-1Nathan Blanc tem 19 anos e nas últimas 19 semanas foi preso oito vezes por ser contra serviço militar. Nathan sente uma forte conexão com seu país, do qual tem orgulho em vários aspectos. “Mas tenho uma aversão a nacionalismo”, explica. De qualquer modo, afirma não querer “lidar com política e conflitos minha vida toda”. O jovem quer estudar ciência ou tecnologia na universidade e sabe que pode ter prejudicado de algum modo seu futuro. “Mas isso é pequeno quando comparado aos meus princípios em risco”, conclui.

Assim como a paquistanesa Malala Yousafzai, este jovem israelense personifica o mundo melhor que desejam os amantes da paz. Que o exemplo deles motive muitos outros jovens a desafiar os valores de competição e intolerância propagados pela sistema capitalista e pelo fanatismo religioso.

> Saiba mais, veja o vídeo

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*** ARTISTA RUSSO VIVE SEM DINHEIRO TROCANDO SUA ARTE POR BENS E SERVIÇOS

UmMundoMelhorSergeyBolavin-1O artista russo Sergey Balovin encontrou uma maneira de viver pura e simplesmente de sua arte. Ele vive sem dinheiro, pintando retratos de amigos, conhecidos e desconhecidos e usando as obras para pagar alimentação, serviços, hospedagens e outras necessidades básicas diárias.

> Saiba mais

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*** SEGUIR A BOIADA OU AS PRÓPRIAS CONVICÇÕES?
Ricardo Kelmer

SeguirABoiadaOuAsPropriasConviccoes-2A paquistanesa Malala Yousafzai, o israelense Nathan Blanc e o russo Sergey Balovin, com seus exemplos de vida, estão mostrando ao mundo que… sim, um outro mundo é possível. À sua maneira, agindo de acordo com suas convicções pessoais, eles simbolizam a grande luta que travam nesse momento muitas pessoas em todo o planeta: a luta contra a opressão e por um mundo mais justo e harmonioso. > Leia a crônica na íntegra

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*** A LITERATURA MORRE NO SÁBADO

O Grupo Estado anunciou em 05abr que fará mudanças na organização do conteúdo do jornal “O Estado de S. Paulo” e um dos cadernos que deixará de existir é o suplemento literário Sabático, publicado aos sábados. É muito triste quando morre um caderno literário. Com ele, morre um pouco a própria Literatura e morrem também todos os autores do mundo. Morre a fantasia, o sonho, a imaginação, o encantamento. Morre a humanidade. As Preciosas do Kelmer, como uma revista que divulga a Literatura, não poderia deixar de registrar esse falecimento e lamentar a perda de mais um espaço literário. Que nasçam outros espaços. > Saiba mais

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*** LIVRANDO A SEMANA (57)

JUNG, O HOMEM CRIATIVO (Luiz Paulo Grinberg) FTD

Chamando o leitor a observar seus próprios conteúdos simbólicos, o texto refaz o percurso de Jung e, ao mesmo tempo, oferece uma chave para a compreensão da sua psicologia. Jung foi, por assim dizer, um acendedor de lampiões no racionalismo do século XX, e suas ideias continuam iluminando. > Adquira este livro na livraria Arte Paubrasil

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*** QUANTAS PESSOAS DEUS JÁ MATOU, FELICIANO?

QuantasPessoasDeusJaMatou-01Marco Feliciano é uma aberração política, um fruto lamentável da mentalidade de negociatas de cargos que nasceu na podridão do Congresso. Misógino, racista e homofóbico, ele jamais poderia ser presidente de uma Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Mas é, pois para os fanáticos religiosos democracia e direitos humanos não são importantes – tudo que interessa são os seus dogmas. Pra esses fanáticos as mulheres, os negros e os sexodiversos são seres inferiores e amaldiçoados por Deus.

Marco Feliciano defende a tese de que Deus matou John Lennon e os Mamonas. No caso de John Lennon foi um tiro em nome do Pai, um tiro em nome do Filho e um tiro em nome do Espírito Santo. No caso dos Mamonas, um anjo pôs o dedo no manche e Deus fulminou o grupo.

Segundo a Bíblia, Deus matou muita gente mesmo, mas como ela foi escrita há muito tempo, lá não constam John Lennon e os Mamonas. Talvez um dia Feliciano deseje escrever seu próprio evangelho e nele incluir os novos mortos por Deus. Assim sendo, segue uma listinha para ajudá-lo nessa sagrada empreitada:

> Quantas pessoas Deus já matou? (Ricardo Kelmer)

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*** VATICANO BAIXA FILMES PORNÔ COM NINFETAS, SADOMASOQUISMO E TRAVESTIS

O programa para compartilhamento de arquivos TorrentFreak, usando informações levantadas pelo site de pesquisas Scaneye, divulgou uma lista dos arquivos de torrent baixados por endereços de IP localizados no Vaticano. Será que esses filmes são abençoados por Deus? De qualquer modo, obrigado pela dica, Vaticano.

> Confira a lista dos filmes. E se você for fazer uma festinha, me convide! Posso levar umas amigas animadinhas?

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*** ESTUDO COMPROVA: HOMOFÓBICOS PODEM SER GAYS ENRUSTIDOS

Pessoas que estão seguras de sua própria sexualidade não se sentem ameaçadas por pessoas de orientação sexual distinta ou de práticas disntintas. Por que elas deveriam se sentir ameaçadas? A psicologia do inconsciente nos ensina que os conteúdos psíquicos não reconhecidos pela consciência são reprimidos no inconsciente mas de lá influenciam a personalidade. No caso dos homofóbicos, a sexualidade que eles tanto agridem nos outros provavelmente é o reflexo não reconhecido de sua própria homossexualidade. A mesma regra aplica-se aos religiosos homofóbicos, com a diferença que esses buscam justificar seu ódio e violência usando argumentos de sua religião. Ao pastor Marco Feliciano e outros homofóbicos, recomendo este vídeo que mostra uma pesquisa da Universidade da Georgia (EUA).

http://youtu.be/Y9UeKYF6sno

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*** FEMINISTA E SUBMISSA, SIM SENHOR

O BDSM é um conjunto de práticas fetichistas que envolvem fantasias de dominação, submissão e sadomasoquismo. É um jogo entre adultos e deve contar com três condições essenciais para ser bem jogado: ser saudável, seguro e consensual. A trilogia 50 Tons de Cinza, mesmo abordando o tema de forma bem confusa e desinformativa (e sem qualquer qualidade literária), contribuiu para tornar o BDSM mais conhecido do público médio. Um brinde!

Os jogos de dominação e submissão são apenas jogos. Porém, ainda tem muita mulher que confunde fantasia com realidade e, por isso, acha inconcebível que uma mulher fantasie ser submissa a um homem. O relato a seguir fala justamente sobre isso, sobre como uma mulher feminista, e altamente consciente de sua condição, é uma perfeita submissa no BDSM. Recomendooo.

> Sou feminista e submissa (relato no blog Escreva, Lola, escreva)

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*** LIVRANDO A SEMANA (58)

LIVRO542-DomCasmurroDOM CASMURRO (Machado de Assis) Martin Claret

Do romance “Dom Casmurro”, pode-se dizer que o tema é mais o ciúme que o adultério. Por que a questão central não é o adultério? Porque não sabemos (nem saberemos) se Capitu o traiu. Machado escreve o romance com total ambiguidade, dando sinais de que de fato a mulher poderia ter traído o marido, mas este, contando sua própria história e sendo tão frágil, também pode ser um psicótico. Esse romance é o resultado de um exercício de escrita fabuloso, pois até hoje discute-se a força dos argumentos do narrador de “Dom Casmurro”. > Adquira este livro na livraria Arte Paubrasil

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*** SOBRE MACHADO DE ASSIS

Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 – Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário. Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou universidade. Sua obra foi de fundamental importância para as escolas literárias brasileiras do século XIX e do século XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público. Em seu tempo de vida, alcançou relativa fama e prestígio pelo Brasil, contudo não desfrutou de popularidade exterior. Hoje em dia, por sua inovação e audácia em temas precoces, é frequentemente visto como o escritor brasileiro de produção sem precedentes, de modo que, recentemente, seu nome e sua obra têm alcançado diversos críticos, estudiosos e admiradores do mundo inteiro. > Saiba mais

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*** COMÉRCIO ELETRÔNICO – EVITE ESSES SITES

Procon inclui em ”lista negra” mais 71 lojas virtuais não confiáveis. Antes de fechar sua compra, conheça a lista.

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*** MELODRAMA
Bruna Lombardi

BrunaLombardi-03Eu sou uma mulher espantada
o amor me molha toda
me deixa com dor nas costas
ele diz no fundo gostas
no fundo ele tem razão

o amor tinha de ser
mais uma contradição
tinha de ser verdadeiro
confuso e biscateiro
como em toda situação

tinha de ter remorso
e um querer e não posso
e toda essa aflição
tinha de me dar pancada
e eu cantar não dói nem nada
com um radinho na mão

tinha de fazer ameaça
que é pra poder ter mais graça
como toda relação
tinha de ser dolorido

rasgar um pouco o meu vestido
depois me pedir perdão
e como em todo melodrama
terminar na minha cama
até por falta de opção.

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*** LIVRANDO A SEMANA (59)

TODA POESIA (Paulo Leminski) Cia das Letras

Paulo Leminski foi corajoso o bastante para se equilibrar entre duas enormes construções que rivalizavam na década de 1970, quando publicava seus primeiros versos: a poesia concreta, de feição mais erudita e superinformada, e a lírica que florescia entre os jovens de vinte e poucos anos da chamada “geração mimeógrafo”. Ao conciliar a rigidez da construção formal e o mais genuíno coloquialismo, o autor praticou ao longo de sua vida um jogo de gato e rato com leitores e críticos. Se por um lado tinha pleno conhecimento do que se produzira de melhor na poesia – do Ocidente e do Oriente -, por outro parecia comprazer-se em mostrar um “à vontade” que não raro beirava o improviso, dando um nó na cabeça dos mais conservadores.

Pura artimanha de um poeta consciente e dotado das melhores ferramentas para escrever versos. Entre sua estreia na poesia, em 1976, e sua morte, em 1989, a poucos meses de completar 45 anos, Leminski iria ocupar uma zona fronteiriça única na poesia contemporânea brasileira, pela qual transitariam, de forma legítima ou como contrabando, o erudito e o pop, o ultraconcentrado e a matéria mais prosaica. Não à toa, um dos títulos mais felizes de sua bibliografia é Caprichos & relaxos: uma fórmula e um programa poético encapsulados com maestria.

Este volume percorre, pela primeira vez, a trajetória poética completa do autor curitibano, mestre do verso lapidar e da astúcia. Livros hoje clássicos como “Distraídos Venceremos” e “La Vie en Close”, além de raridades como “Quarenta Clics em Curitiba” e versos já fora de catálogo estão agora novamente à disposição dos leitores, com inédito apuro editorial.

> Adquira este livro na livraria Arte Paubrasil

PAULO LEMINSKI FILHO (Curitiba, 24 de agosto de 1944 – Curitiba, 7 de junho de 1989) foi um escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor brasileiro. Era, também, faixa-preta de judô. > Saiba mais

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*** POR QUE AS COTAS RACIAIS DERAM CERTO NO BRASIL
Reportagem de Amauri Segalla, Mariana Brugger e Rodrigo Cardoso, revista IstoÉ, edição 2264, 05.04.13

Desde que o primeiro aluno negro ingressou em uma universidade pública pelo sistema de cotas, há dez anos, muita bobagem foi dita por aí. Os críticos ferozes afirmaram que o modelo rebaixaria o nível educacional e degradaria as universidades. Eles também disseram que os cotistas jamais acompanhariam o ritmo de seus colegas mais iluminados e isso resultaria na desistência dos negros e pobres beneficiados pelos programas de inclusão. Os arautos do pessimismo profetizaram discrepâncias do próprio vestibular, pois os cotistas seriam aprovados com notas vexatórias se comparadas com o desempenho da turma considerada mais capaz. Para os apocalípticos, o sistema de cotas culminaria numa decrepitude completa: o ódio racial seria instalado nas salas de aula universitárias, enquanto negros e brancos construiriam muros imaginários entre si. A segregação venceria e a mediocridade dos cotistas acabaria de vez com o mundo acadêmico brasileiro. Mas, surpresa: nada disso aconteceu. Um por um, todos os argumentos foram derrotados pela simples constatação da realidade. “Até agora, nenhuma das justificativas das pessoas contrárias às cotas se mostrou verdadeira”, diz Ricardo Vieiralves de Castro, reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). > Leia a reportagem completa

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*** MULHERES (DES)COBERTAS
por Laura Greenhalgh – O Estado de S.Paulo

FeminismoAmina Tyler-02E a briga entre as ativistas do peito aberto e as muçulmanas defensoras dos véus? Que embate… De um lado, as moças do Femen, organização nascida na Ucrânia, de orientação “sextremista”. No cocuruto de uma estátua, em frente a uma mesquita, na Praça São Pedro, em Roma, ou num estúdio de TV, elas tiram a blusa com a velocidade do raio. E mostram os seios, em protesto pela opressão feminina. Do outro lado, alistam-se as seguidoras do Islã tradicional, milhares de adeptas dos jihabs e niqabs, decididas a não baixar a guarda. Juram por tudo que é sagrado, e aqui não se trata de força de expressão, que jamais serão subjugadas por feministas etnocêntricas, degradadas e por aí vai.

Os dois exércitos se engalfinham desde o mês passado, quando uma jovem da Tunísia, Amina Tyler, de 19 anos, postou na internet fotos nua da cintura para cima, com slogans sobre os seios: “my body is my own” (conhecido bordão feminista) ou “f*ck your morals” (empunhando um cigarrinho).  > Leia o artigo na íntegra

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*** UM MUNDO SEM DINHEIRO

Seria possível um mundo sem dinheiro? Isso acabaria com as desigualdades e injustiças sociais? Por que alguém quereria trabalhar se não ganharia por isso? Como alguém conseguiria obter as coisas de que necessita? O que seria feito de bancos e operadoras de cartão de crédito?

A cada dia, por todo o mundo, surgem várias iniciativas que defendem a ideia de que é possível um mundo sem dinheiro. A Carta do Mundo Livre é uma delas. Ela é feita de uma declaração de dez princípios que visa otimizar a vida na Terra para todas as espécies, erradicar a pobreza e ganância, e promover o progresso, e são baseados unicamente na Natureza, senso comum e sobrevivência.

> Conheça a Carta do Mundo Livre

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AsPreciosasDoKelmer201304-1AS PRECIOSAS DO KELMER

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Comentarios01COMENTÁRIOS

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01- A lista me surpreendeu. Vários q ainda não vi. Obrigada pelas dicas! Shirlene Holanda, São Paulo-SP – abr2013

02- Gostei muito de todos os temas aqui propostos, porém um me chamou muita atenção: “Quantas pessoas Deus já matou?” Deus vem sendo culpado por muita coisa ruim, vem sendo visto como aquele “senhor do exército” que fica no seu trono só dando ordens e fazendo os outros morrerem por ele. As religiões pintam em nossa mente esse deus, cruel, melindroso, irritadinho que se não fizermos o que ele quer, vem e nos dá os piores castigos. Cresci pensando assim e me perguntava onde estava aquele Deus justo e misericordioso que eu sentia em meu coração.
Deus não é esse ser que as religiões pregam, que usam como desculpa para matar uns aos outros, que usam para discriminar e humilhar, que usam para tirar dinheiro de quem pensa que tem fé. Isso aí chama-se interesse político e ganância por poder.
As pessoas ainda não sabem o que ou quem é Deus, eu mesma não sei. Mas sei sim, que há uma inteligência maior e imutável que está em conexão com o mundo inteiro, que nos dá o livre arbítrio para tomar as nossas próprias decisões e que nos tem imenso amor, pois o contrário já teria acabado com tudo isso aqui. O resto é “religião” e eu nem mesmo tenho a certeza de que isso seja coisa de Deus. Renata Kelly, Fortaleza-CE – abr2013

03- Gosto dele (Paulo Leminski). Tereza Cristina da Silva, Fortaleza-CE – abr2013


Cais e amores

abril 22, 2013

Ricardo Kelmer 2003

Sabia que foi também por causa de uma ventania medonha que hoje vim parar aqui nos Inhamuns, atrás de meu coração machucado que uma enfermeira levou em sua maleta?

CaisEAmores-1

Meu querido Cais,

Fiquei sabendo que você está de endereço novo. Trocou as águas poluídas da Praia de Iracema pela água fria da zona leste. Estou curioso pra conhecer seu novo lar e brindar à mudança. Este fim de semana não vai dar porque tive de vir aqui em Crateús resolver uns probleminhas. Coisas do coração, sabe como é, esses desmantelos sentimentais que entortam a vida da gente. Mas não vamos falar disso. Logo estarei de volta a Fortaleza e aguarde que qualquer hora dou as caras por aí.

Cais Bar. Sim, sei que vai ser estranho sentar em suas novas mesas, olhar ao redor e não ver o mar. Mas quem aprendeu com o mantra das ondas de Iracema, sabe que é preciso sempre navegar e seguir os sonhos. E você navegou. Subiu a âncora, abriu as velas e finalmente permitiu que os ventos do destino soprassem seu sonho pra outras águas.

O sonho… Ah, o que não se faz por um sonho, né? Pelo amor também: você chora, enche a cara, toma lexotan pra dormir e entra no cheque especial do desespero. Deixa até crescer aquela barbicha horrorosa só porque ela gosta. Pelo amor, não duvide, você até larga o trabalho ao meio-dia e pega um ônibus pinga-pinga pra Crateús, sem ter nem onde ficar, sete horas de estrada e mormaço só pra pedir a ela mais uma chance, o olho cheio dágua, volta, por favor…

Hummm… Desculpe. Esse assunto de novo. Juro que não falo mais nisso. Pois bem. Cais Bar… É claro que as velhas lembranças não vão morrer. Jamais esquecerei aquela tarde de sábado em que eu, Nilo e Augusto Cesar fomos ao Cais, nem inaugurado ainda, nem mesa havia, e Ernesto nos serviu uma cerveja, transbordante de otimismo. Eu era apenas um ingênuo garoto de 20 anos, deslumbrado com as promessas da boemia, mas senti a solenidade do momento e, em contribuição, recitei Receita de Mulher, de Vinícius, Nilo ao violão, o mar na percussão. Como esquecer daqueles carros estacionados na areia, onde muitas vezes fui dormir pra recuperar as forças e depois voltar à mesa dos amigos? E as famosas pedras? Quanta gente boa não se apaixonou ali, sob o incentivo dos gaiatos: “Já vai pras pedras, né?”

Mas no balanço da vida, e do amor, tudo pode mudar. Por isso é preciso estar atento à vontade dos ventos e fazer a coisa certa. Quando os ventos sopraram outros visitantes pra Praia de Iracema, levando outros interesses e afugentando o público habitual, você resistiu, tentou manter-se firme no sonho. Quando o descaso do poder público pairou sobre aquele pé de castanhola feito a sombra do fim dos tempos, você ainda esperneou e comprou a briga. Mas o bom navegador sabe a hora de virar a vela.

Os ventos… Ai, ai. Eu não queria mas vou escorregar praquele assunto de novo. Sabia que foi também por causa de uma ventania medonha que hoje vim parar aqui nos Inhamuns, atrás de meu coração machucado que uma enfermeira levou em sua maleta? Pois foi. Ô desgraceira. Mas viver, e amar, é assim mesmo: tem hora que é preciso confiar na sabedoria natural dos ventos, e deixar-se levar, humilde, o coração apertado, rumo ao que nos chama, mesmo sem saber aonde vai dar. Mesmo sem saber se vai ser feliz ou se vai pegar o ônibus de volta a Fortaleza, triste e sozinho, olhando pela janela a árida paisagem da alma.

Velas ao vento, Cais Bar! Cumpramos com altivez nosso destino de navegar. Que venham novamente, nos ares dos novos tempos, as mesas cheias de amigos, velhas e novas caras, entardeceres e amanheceres ao violão, poemas de batom no guardanapo, caipirinha com açúcar e paixão. E, pra não perder o hábito, quero pedir ao Beruáiti uma música, pode ser? É Malacaxeta 2, aquele blues acústico do Pepeu, “você produz toda a luz que eu preciso, que eu gosto de ter…” É uma música muito especial. Sei que é difícil mas quem sabe os ventos deste sábado tragam esse blues até aqui no sertão e façam a moça sorrir e voltar pra mim.

Pois é. Eu sei que no amor, assim como na vida, às vezes a gente insiste em não querer mudar. Mas aí bate a ventania da necessidade e não tem outro jeito: lá se vai a gente, pra Água Fria, pra Crateús, pro raio-que-o-parta, lutar pela vida e pelos sonhos. E pelo amor também, esse vento inexplicável que nos leva de cais em cais, esse vento que nos faz viajantes da estrada mais bela e insana que há.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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> Galinha ao molho conjugal – Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?

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> Postagens nos temas “biográfico” e “Fortaleza”

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