Elas estão entre nós

30mai2012

Existiria uma espécie de buraco negro invisível, feito um dragão insaciável a devorar lindas e inocentes (e às vezes virgens) canetinhas?

ELAS ESTÃO ENTRE NÓS

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Por que diabos as canetas somem? É um grande mistério que sempre me afligiu. Num momento estão aqui, bem ao lado… e no momento seguinte, inexplicavelmente, não estão mais, sumiram. E aí ficamos feito idiotas, fuçando os papéis e apalpando os bolsos sem entender. Mistério. Existiria uma espécie de buraco negro invisível, feito um dragão insaciável a devorar lindas e inocentes (e às vezes virgens) canetinhas?

E isso não ocorre apenas com gente desligada como eu. Pergunte pra qualquer pessoa e verá que com ela as canetas também somem. Já cogitei que talvez um estilista maquiavélico costume contratar milhares de pessoas no mundo inteiro pra roubar canetas pra ele: na véspera dos desfiles, calada da noite, ele invade os camarins e despeja toda a tinta sobre os modelitos dos estilistas rivais.

Tá bom, é uma hipótese meio dramática, admito. Mas também já testei outras mais simples, como esta: as canetas não somem, são apenas passadas adiante. Você acha que perdeu a caneta, mas não, você a emprestou pra que fulano anotasse algo e ele simplesmente esqueceu de devolver. É, isso acontece, eu sei, mas se fosse só isso todas as fábricas de caneta já teriam falido, pois em vez de comprar, as pessoas apenas trocariam canetas entre si.

Outra hipótese é que as canetas, na verdade, saem pra dar uma voltinha, respirar ar puro, talvez um encontro romântico com aquela bonitona de ponta porosa. Tudo bem, elas têm esse direito. Porém, as ingratas nunca voltam desse passeio, já percebeu? E aí, onde vão parar? Haveria um esquema secreto nos motéis pra sequestrar canetas amantes? Mas com qual objetivo? Ora, pra operar a fusão do tungstênio e construir armas que equiparão milícias ultradireitistas nos Estados Unidos. Hummm… Ok, exagerei outra vez. O que você me diz então de organizadores de abaixo-assinado, eles sempre precisam de canetas, não?

Outro aspecto desse enigma é que as canetas nunca estão à mão quando mais precisamos, já notou? De repente, parado no sinal vermelho, você lembra que sonhou com a milhar do jogo do bicho. Caneta urgente! Você procura no bolso da camisa, no porta-luva, embaixo do banco. Nada. O sinal esverdeia, você tem que seguir e perde a chance de ficar rico. Dia seguinte a caneta surge, com a maior cara de pau, onde deveria estar. Mistério.

Você amarra a caneta ao telefone: ela se solta feito um Houdini e some. Você escreve seu nome num papelzinho e mete no interior da caneta: ela se vinga dessa intimidade forçada e nunca mais aparece. Você apela e compra uma caixa com cem canetas: em um mês só restará metade, como pode? Já cheguei a imaginar que as fábricas instalam nas canetas um potente micro-imã e assim, quando estamos desatentos, elas são atraídas de volta à fábrica, pra serem recarregadas e revendidas, gerando lucros fabulosos. Parece absurdo? Então me responda: quando foi a última vez que você usou uma caneta até a última gota de tinta, heim?

Noite dessas despertei com a solução do enigma: as canetas são uma espécie extraterrestre, muito brincalhona, que em seu planeta natal costumavam brincar a vida inteira de esconde-esconde. Um dia a brincadeira perdeu a graça pois ninguém queria mais procurar, só se esconder. Foi aí que souberam de um inacreditável planeta Terra onde as pessoas chegam a fixar nas paredes das cidades cartazes de “Procura-se”. É o paraíso, elas pensaram. E assim vieram todas, aos bilhões, brincar de esconde-esconde com os terráqueos.

Mas claro!, entusiasmei-me com a súbita revelação. Extraterrestres, é isso mesmo! E, como sou desses otimistas bobos que creem em equilíbrio cósmico, logo imaginei que existe, em algum planeta por aí, seres especializados em encontrar… canetas sumideiras. É só questão de tempo até chegarem aqui. E nossos problemas estarão resolvidos. Lógico! Agora tudo se encaixava perfeitamente.

Respirei aliviado. Eu podia voltar a dormir, estava finalmente resolvida a questão. Então, satisfeito, liguei o abajur pra anotar a ideia. Mas não encontrei a caneta.
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Ricardo Kelmer 2002 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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5 Responses to Elas estão entre nós

  1. vanessa disse:

    kkkk A-d-o-r-e-i a tese da caneta, baby!
    Faltou falar dos cleptomaníacos por canetas. Qto mais velha, mais mordida melhor! Se for aquelas de brinde (bem vagabunda), a gente quer mais ainda! Pediu para assinar ? A gente assina e joga logo na bolsa, o funcionário nem nota, tadinho. E tem aqueles que deixam a caneta de bobeira em cima do mesinha de trabalho…A gente tá lá, só fazendo uma visitinha, mas aquela caneta abandonada dando bobeira ali , tá pedindo para a gente afanar ,né? Guardar uma lembrancinha do escritor…(quem sabe ele fica famoso..)Adoro gente esquecida que nem dá fé que já perdeu mais uma caneta. Só Freud ou o tal do Jung explicam!
    beijos!!!

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  2. Michele disse:

    Rsrsrs. Muito interessante, já falei que seus textos seriam muito bem explorados em sala de aula para adolescentes??? Um humor leve, descontraído, despretencioso… Lembra-me umas coletâneas de crônicas que passavam na escola para os alunos leem chamadas : “Para Gostar de Ler”.Tinha desde Cecília Meireles a Fernando Veríssimo e outros. Muito legal essa linha. Pena que vc a abandonou;-( Precisamos, às vezes, ler coisas leves, pois a vida em si já é muito pesada. Parabéns pela belíssima crônica!
    Michele Jacinto

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