Glossário de termos e expressões canábicos
31/05/201031mai2010
.
.
Este glossário integra o livro Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha,
de Ricardo Kelmer
.
.
.
.
PARA COMPRAR
.
GLOSSÁRIO DE TERMOS E EXPRESSÕES CANÁBICOS
.
Por envolver algo proibido por lei, o universo cultural dos usuários de maconha é feito de comunicações sutis e muitas vezes codificadas. A necessidade de segurança os leva a serem criativos, e a espirituosidade e o bom humor são uma constante. Como ocorre com a língua de modo geral, os termos e expressões canábicos variam de acordo com os contextos social, temporal e geográfico do usuário, mas há aqueles de uso geral, e a todo momento surgem novos termos. Este trabalho, portanto, representa uma ínfima parcela da vasta cultura linguística da maconha no Brasil.
.
A
Acontecedor. Fumo que atrai acontecimentos inusitados ou interessantes. Da última vez que fumei do acontecedor, peguei o mesmo elevador que o Clodovil e o Tiririca…
Algum. Cigarro de maconha. Tem algum aí?
Alguém vai? Discreta indagação ou convite para fumar. Vocês aí, alguém vai?
Alto. Pessoa que está sob razoável efeito da maconha. Quando ela começa a querer tirar a roupa, já sei que tá meio alta.
Apertar. Preparar o cigarro. Muitos usuários consideram isso uma arte. Vou apertar mas não vou acender agora…
Apresentar. Oferecer maconha para que outros possam também usufruir. Pô, ninguém vai apresentar nada?
Aquele. Cigarro de maconha. Cadê aquele?
Asilado. Pessoa que está ou é desesperada para fumar. A gata tá asilada!
Avião. Aquele que faz a intermediação da compra ou que compra a maconha onde ela é vendida e leva ao usuário. Aquele nosso avião da Rocinha dançou!
Azucrinado. Sob forte efeito da maconha. Cara, fiquei azucrinado aquele dia que esqueci meu próprio nome.
B
Baculejo. Revista feita por policiais à procura de drogas. O mesmo que geral. Porra, tão dando baculejo até na saída da missa!
Bagana. Resto do cigarro de maconha. Apesar de apreciada devido a uma maior concentração de THC, apresenta o inconveniente de proporcionar prova material para um possível flagrante. O mesmo que beata, bia ou guimba. Ih, rapaz, esqueci a bagana na caixa de fósforo do papai.
Bagulho. Maconha. E aí, quem trouxe o bagulho?
Bahia. A pessoa de quem se espera que tenha maconha e que não tem (em oposição a salvador). Usado também para saber se a pessoa tem ou não maconha. Tu é Bahia ou Salvador?
Bala. Pequena porção de maconha vendida nas bocas de fumo. O mesmo que dólar. Também usado no diminutivo balinha. Vai uma bala aí, bacana?
Balão. Ato de pagar pela maconha e não receber. Naquela boca mauricinho leva balão.
Bandeira. Ação comprometedora que permite que se perceba que alguém está sob efeito, falando sobre, manuseando ou qualquer coisa relacionada à maconha. Segura tua gata aí que ela tá dando a maior bandeira.
Bandeiroso. Aquele que dá bandeira. Nunca vi ninguém mais bandeiroso!
Banzo. Estado causado pela maconha, que deixa a pessoa lerda e sem ação. Semelhante a morgação. Essa coisa me deu um banzo desgraçado.
Barato. Denominação clássica para o efeito da maconha. Esse cigarrinho aqui é daquele tipo que dá barato?
Baseado. Denominação clássica para cigarro de maconha. Deixa de papo, Íris, e aperta logo esse baseado!
Bater. Acontecer (o efeito da maconha). Fumei faz meia hora e agora que a lombra bateu.
Bater uma bola. Fumar maconha. Vamos bater uma bola antes ou depois?
Baurete. Cigarro de maconha. Termo cuja criação é comumente atribuída ao músico Tim Maia. Ô, Nelson Mota, não vai rolar um baurete?
Beata. Resto do cigarro de maconha. O mesmo que guimba. Joga fora que em viagem a beata é sempre da estrada.
Beatriz. Resto do cigarro de maconha. Também utilizado na forma abreviada: bia. Por falar nisso, quem é que tá atualmente com a Beatriz?
Beque. Cigarro de maconha. Wanessinha adora um beque antes de transar.
Beise. Cigarro de maconha (derivado de baseado). O papo tá muito bom, mas e o beise, tá com quem?
Berlota. Cada inflorescência da planta de maconha no ponto para ser preparada para fumar. Aquela coisa tem cada berlota!
Besteirinha. Pequena quantidade de maconha. Só consegui uma besteirinha.
Bia. Resto do cigarro de maconha. Não acredito! Não sobrou nem a bia?
Boa-noite. Tradicional cigarro que se fuma antes de dormir. Também conhecido por dorminhoco. Vamos fumar o boa-noite?
Bobeira. 1. Ação involuntária que permite que outros percebam que alguém está sob efeito da maconha. O mesmo que bandeira. Quando o Marquinhos fuma, fica dando bobeira! 2. Bobagem que se faz ocasionada pelo efeito da maconha. Da última vez que fumei e bebi, fiz cada bobeira…
Boca. Local onde é vendida a maconha (também usado de forma abreviada: boca). Aquela boca tá a maior sujeira.
Bode. Indisposição momentânea causada pela maconha. Não vou sair mais não, me bateu um bode…
Bola. Ver Dar uma bola.
Bolar. Fumar maconha. Será que a gente vai pro inferno se bolar um aqui na igreja?
Boldinho. Maconha. Originado de boldo, planta da qual se faz chá terapêutico. Pra dor de estômago, indico um boldinho…
Bomba. Maconha de forte efeito. Tenho uma bomba aqui que vai te deixar de quatro.
Bom-dia. Tradicional cigarro que se fuma após acordar. Também conhecido por despertivo. Quem é que vai no bom-dia?
Boqueiro. Aquele que é dono de boca de fumo ou negocia com maconha. Eu nunca ia desconfiar que a dona Juju era boqueira.
Braço-de-Judas. Cigarro muito grosso. Em referência à madeira da qual é feito o braço do boneco que é queimado nas festas juninas. Eita que hoje só tá rolando braço-de-Judas!
Brancão. Desmaio passageiro ocasionado por forte efeito da maconha. Originado do fato de que se vê tudo branco logo antes do desmaio. Deu um brancão na coitada e ela caiu no meio do velório.
Brau. Clássica denominação para cigarro de maconha. Melhor deixar o brau com o Vitinho que ele tem cara de santo.
Braúlio. Designação discreta para brau. O Braúlio tá gordo!
Braulito. Entidade sobrenatural considerada o espírito da maconha, e que surge quando se fuma. Também conhecido, de modo mais solene, como Grande Braulito. Ver Mescalito. Ó Grande Braulito, mostre-nos onde conseguir mais dessa marofa.
Brisa. Efeito da maconha de pouca intensidade. Pra assistir o culto, recomendo só uma brisa, senão dá crise de riso.
Brocado. Sob efeito do apetite acentuado que surge após se fumar maconha. O mesmo que laricado. O cara tá brocado!
C
Cabeça. 1. Cada inflorescência da planta de maconha já preparada e pronta para tratar. O mesmo que berlota e camarão. Essa maconha só tem cabeça… 2. Cada pessoa que vai participar do cigarro de maconha. Só essa tripinha pra estas três cabeças?!
Cabeça feita. Sob efeito da maconha. Não, muito obrigado, já tô de cabeça feita.
Cabeça-feita. Aquele que é usuário. Geralmente utilizado de forma elogiosa, no sentido de que a pessoa é inteligente, de opiniões formadas e/ou de bem com a vida. Pode referir-se também à relação tranquila que se tem com a maconha. Nessa roda só tem cabeça-feita.
Cabeça grande. Motivo (ou pretexto) pelo qual certos maconheiros fumam bastante, pois é necessário muita fumaça para encher sua cabeça, ao contrário de quem tem a cabeça pequena (cabecinha). Vou fumar esse sozinho porque minha cabeça é muito grande…
Cabeção. 1. Aquele que adora fumar maconha. Só tem cabeção nesse show. 2. Conotação depreciativa para aquele que está sempre querendo fumar maconha e não perde uma rodada, podendo não raro adquirir fama de chato oportunista. Fuma logo que lá vem o cabeção!
Cabelo de punk. Maconha de baixa qualidade por ser proveniente da folha e não da flor da planta. Os pedaços das folhas lembram os cabelos espetados dos punks e podem atrapalhar a confecção do cigarro. Esse cara só traz cabelo de punk.
Cachimbo da paz. Designação solene para cigarro de maconha. Em referência ao hábito indígena de se fumar coletivamente em eventos importantes. Tenho a honra de comunicar aos nobres colegas que o cachimbo da paz vai rolar lá na casinha do motor.
Cadê? Discreta indagação que se faz para saber se alguém tem maconha. Esse papo tá muito bom mas… cadê?
Caixão. Maconha de forte efeito, que deixa a pessoa atordoada (originado de onda caixão, que derruba e atordoa o banhista). Pega leve que esse fumo é caixão.
Camarão. Inflorescência da planta de maconha que lembra um camarão. O mesmo que cabeça. Tu vai ver como só tem camarão.
Canabis. Denominação para maconha ou cigarro de maconha. Originada do termo científico Cannabis sativa. Ah, nada como uma canabis pra relaxar…
Canal. Pessoa que sabe onde encontrar a maconha ou que faz a intermediação da compra. Eu sei de um canal que nunca falha.
Carburar. Fumar. Até a professora de ginástica carbura um antes da aula.
Careta. 1. Aquele que não fuma, não gosta, se incomoda com usuários e/ou é contra o uso da maconha. Lá em casa todo mundo é careta. 2. Cigarro comum, que não é de maconha. Acende agora um careta pra disfarçar. 3. Estado do usuário quando não está sob efeito da maconha. Vou apertar outro que eu já tô careta de novo.
Careta esperto. Aquele que não fuma mas não se incomoda de ter amigos usuários nem condena o uso da maconha. Minha irmã é careta esperta, mas meu irmão é careta careta mesmo.
Cavidade bucal. Discreta denominação para boca de fumo. Abreviação (mais discreta ainda): cavidade. Descobri uma cavidade numa rua atrás da delegacia.
Cecília. Semente de maconha. Não esquece de tirar as cecílias.
Cemitério. Lugar reservado para guardar as guimbas do cigarro, geralmente uma caixa de fósforo ou similar. Muitos maconheiros, quando estão sem maconha, procuram o cemitério e desmancham as guimbas para formar quantidade suficiente para fazer um novo cigarro. Estratégia utilizada também quando se quer fumar uma maconha com maior quantidade de THC, pois o mesmo se concentra nas guimbas. Guarda a bia aqui no cemitério.
Cera. Maconha da melhor qualidade. Uau, essa aqui é uma cera!
Chapação. Estado provocado por forte efeito da maconha. Menina, foi uma chapação geral!
Chapado. Aquele que está sob forte efeito da maconha. Cheguei chapadão lá no batizado!
Chapar. Ficar sob forte efeito da maconha. Putz, chapei total, vou dormir.
Charlie Brown. Cigarro de maconha, em referência ao famoso personagem de quadrinhos e TV. Tá na hora do Charlie Brown.
Charo. Cigarro de maconha. Libera o charo aí.
Chia. Resto do cigarro de maconha. Onde mesmo que eu deixei a chia?
Cigarro de carnaval. Cigarro de maconha. Variações: cigarro de artista, cigarro do capeta e cigarro de índio. Comumente usado no diminutivo. Cerveja não tem, mas eu trouxe um cigarrinho de carnaval…
Cinquinho. Pequena porção de maconha no valor aproximado de cinco reais. Porra, cara, tu não salva nem cinquinho não?
Cocô. Pequenos pedaços de maconha desprendidos devido ao manuseio de pedaços maiores. Geralmente é usado no diminutivo. Boa notícia: ainda sobraram uns cocozinhos…
Coice de mula. Efeito atordoante da maconha. Menino, que coice de mula que eu levei ontem…
Coisa. Maconha. E a coisa, quem é que tem?
Coisero. Pessoa que ganha a vida negociando com maconha. Originado de coisa. Pois é, o Gilmar é coisero.
Coisinha. Pequena quantidade de maconha. Essa coisinha aí não faz nem um baseado.
Confeccionar. Preparar o cigarro de maconha. O mesmo que apertar. Me apaixonei quando te vi confeccionando um brau enquanto com a outra mão passava batom.
Cortar o rabo. Ato de iniciar alguém a fumar maconha, muitas vezes revestido de caráter cerimonial por ser considerado um momento antológico que o usuário nunca esquece (como o primeiro porre). Devidos a diversos fatores, como o nervosismo e a expectativa, que impedem o relaxamento, a primeira vez nem sempre ocasiona uma viagem. Paulinha cortou o rabo de todas as amigas lá em Canoa.
Cuspindo bala. Estado muito comum causado pela maconha, logo após fumar, caracterizado pela secura na boca e falta de saliva para cuspir. Pede logo duas cervejas que eu tô cuspindo bala.
D
Da Jamaica. Maconha ou cigarro de boa qualidade, em referência à maconha jamaicana. Ah, esse é da Jamaica!
Da lata. Maconha da melhor qualidade. Referência à maconha encontrada embalada em latas, jogada ao mar por tripulantes de um navio estrangeiro para se livrar da prova do delito, fato ocorrido em 1989 no litoral do estado do Rio de Janeiro. Quarta-feira vai chegar uma da lata!
Danada. 1. Maconha. Cadê a danada? 2. Maconha de boa qualidade. Essa é danada!
Dançada. Ato de dançar. Não passa por aquela estrada que é dançada certa.
Dançar. Ser pego em flagrante com maconha ou fumando, pela polícia, pais ou outras pessoas comprometedoras. Vocês souberam que o Zenon dançou?
Dar uma bola. Fumar maconha. Variações: dar um dois, dar um pau e dar um pega. E aí, vamo dar uma bola pra comemorar que hoje é segunda?
Dar uma goma. Passar saliva no cigarro de maconha para que ele queime por igual e/ou para que não levante chama. Dá uma goma no tcheuris senão o vento vai fumar tudinho!
De baixo. Qualidade de quem não tem maconha. Quando eu tô de baixo, nunca tem blitz na rua.
De bobeira. Estado de silêncio e quieta concentração causado pela maconha. Variação: de bobs. Ih, a Andrea tá de bobeira…
De bode. Estado de lerdeza ou preguiça física e mental causado pela maconha ou pelo término do efeito. O mesmo que morgado. Ele fumou um e ficou lá na rede, de bode.
Debulhar. Preparar a maconha para ser fumada, picotando-a e separando galhos e sementes. O mesmo que tratar e destrinchar. Que beleza, já tá debulhada.
De Cabrobó. Maconha da melhor qualidade. Referência ao município pernambucano de Cabrobó, conhecido produtor de maconha. Vai chegar uma remessa de Cabrobó pra Semana Santa!
De cara. Estado daquele que não se encontra sob efeito da maconha ou não pretende fumar. Hoje eu tô de cara.
Dechavar. O mesmo que destrinchar e debulhar.
De cima. Qualidade de quem tem maconha. Não ande de cima por aqui que é sujeira.
Defumar. Fumar em um ambiente ou lugar pela primeira vez ou em homenagem a algo. Vamos defumar o carro novo da Ticiane!
Delegado. Pessoa que, numa roda de fumo, retém, consciente ou não, o cigarro para si. Ei, delegado, tu tá prendendo o brau.
Delírio. Colírio. Usa-se colírio para eliminar a vermelhidão dos olhos, comum após fumar maconha. Alguém tem um delírio aí?
Descolar. Conseguir maconha. Vou lá no morro ver se descolo uma coisinha.
Despertivo. Tradicional cigarro de maconha que se fuma após acordar. Também conhecido por bom-dia. E aí, o despertivo rola antes ou depois do café?
Destrinchar. Preparar a maconha para ser fumada. O mesmo que debulhar e tratar. Deixa que eu destrincho, tu demora muito.
Detonado. 1. Sob forte efeito da maconha. Dei só dois pauzinhos e fiquei detonado! 2. Diz-se do fumo que já acabou. Tem mais nada, foi tudo detonado ligeirinho.
Detonar. 1. Acender o cigarro para ser fumado. Detona o brau!!! 2. Fumar muito ou rapidamente. A turma detonou duzentos gramas naquele fim de semana.
Dezinho. Porção de maconha no valor aproximado de dez reais. Quero muito não, só dezinho mesmo.
Diamba. Maconha. Cadê a diamba?
Dichavar. O mesmo que dechavar. Tu dichava e eu aperto.
Dificultar. Dizer ou fazer algo que ponha obstáculos ou impedimento ao ato de comprar, fumar ou qualquer coisa relacionada a maconha. Qualé, maninha, vai dificultar mesmo?
Digestivo. Tradicional cigarro de maconha que se fuma após as refeições. Né por nada não, mas um digestivo agora caía bem…
Dispensar. Jogar fora a maconha ou a guimba do cigarro. A dispensa ocorre geralmente para evitar o flagrante ou porque o que sobrou do cigarro é pouco. Pode dispensar que eu já tô doidão.
Doidaço. Ver doido.
Doidão. Ver doido.
Doideira. 1. Efeito da maconha. Me deu uma doideira tão grande que eu fiz cinco músicas só no intervalo da novela. 2. Diz-se daquilo que é estranho ou interessante. Aquela viagem foi uma doideira!
Doido. 1. Sob efeito da maconha. Fiquei doido só com aquele pauzinho. 2. Usuário de maconha. Nunca imaginei que a Tetê fosse doida. 3. Qualidade daquilo que é estranho ou interessante. Esse conto do Kelmer é doido!
Dólar. Pequena porção de maconha vendida nas bocas de fumo. Também usado no diminutivo dolinha. Porra, o cara quer me vender o dólar a vinte reais!
Dorminhoco. Tradicional cigarro de maconha que se fuma antes de dormir. Também conhecido por boa-noite. Agora é sério, vamos fumar o último dorminhoco!
Douglas. Maconha. É provável que uma quantidade incontável de nomes de pessoas sejam usados com este nobre fim. O Douglas mandou avisar que infelizmente não vai poder vir.
Dragão. Aquele que quando fuma maconha, fuma bem mais que todos. Fuma logo antes de chegar o dragão.
E
E aí? Clássica e discreta indagação dos usuários que objetiva saber se alguém tem maconha ou se está no momento de fumar. E aí?
Emaconhado. Sob efeito da maconha. Também usado na forma maconhado. Esse povo só pode estar emaconhado.
Empapuçar. Enjoar por fumar em excesso. Não quero mais, tô empapuçada.
Encarar uma social. Ver social.
Encaretar. 1. Diz-se do efeito da maconha que passou, repentinamente ou aos poucos. Fiquei tão nervoso que encaretei. 2. Tornar-se careta. Depois que casou, a Gigi encaretou de um dia pro outro.
Encomenda. Designação discreta para maconha. Pode vir que a encomenda já chegou.
Engolir. Último recurso do usuário na iminência de ser flagrado. Ih, sujou! Engole, engole!
Enrolar. Preparar o cigarro, acondicionando a maconha na folha de papel. Deixa de papo e enrola logo esse negócio!
Entregação. Qualidade de pessoa, lugar, situação ou objeto que compromete o usuário. Esse livro que tu tá lendo é a maior entregação.
Entregar. 1. Comprometer, intencionalmente ou não, quem fuma ou está fumando ou manuseando maconha. Te abaixa aí, Fernandinho, ou tu ainda vai entregar a gente… 2. Denunciar quem fuma maconha. Foi a vizinha aqui de cima quem me entregou.
Envernizar. Atingir certo ponto onde, por ter fumado demais, a maconha não faz mais efeito. Pode se referir a períodos de algumas horas ou anos. Depois do quinto eu envernizei.
Envernizado. Aquele que se envernizou. A Vaninha não precisa fumar porque já tá envernizada.
Erva. Clássica denominação para maconha. Variação: erva maldita. O melhor lugar pra queimar erva é lá no meio do chuchuzal.
Esconder o jogo. Não se manifestar ou dizer que não tem maconha quando na verdade tem e há pessoas querendo fumar. Ih, ó o cara, escondendo o jogo…
Esperto. 1. Aquele que fuma. Fica frio que aqui todo mundo é esperto. 2. Estado de atenção e segurança quando se fuma ou em qualquer situação relacionada a maconha. Fica espertinha aí que agora a gente vai passar pela Rodoviária. 3. Cigarro de maconha. Tem um esperto aí?
Estandarte. Ação exageradamente comprometedora por parte do usuário que permite que outros saibam sobre sua condição. Olha o estandarte passando na avenida!
Estojinho. Recipiente utilizado pelos usuários para guardar maconha e objetos úteis como seda, pilão, tesourinha, colírio e outros. Como bom virginiano, eu trouxe meu estojinho…
Estudantil. Cigarro de pequenas proporções. Tenho aqui um estudantil, só pra dar uma ligadinha.
F
Falsa-lombra. Aquele que finge ou exagera o efeito da maconha. Que nada, isso é coisa de falsa-lombra.
Fazer. Forma abreviada de fazer a cabeça. E aí, fez?
Fazer a base. Fumar antes de alguma situação específica, para vivê-la sob efeito da maconha. Antes de sair a gente faz a base lá em casa.
Fazer a cabeça. Clássica designação para fumar maconha. Vamos fazer a cabeça que o filme já vai começar.
Fazer a canoa. Ato de preparar o papel no qual o cigarro de maconha será feito. Consiste em friccionar as bordas do papel uma contra a outra, deixando-o no formato similar ao de uma canoa. Faz a canoa pra eu apertar o brau.
Fazer a social. Ver social.
Fazer uma sauna. Fumar maconha junto com outras pessoas em local pequeno e fechado. Ver sauna. Fecha a porta que a gente vai fazer uma sauna.
Fechar. Preparar o cigarrro de maconha. O mesmo que apertar. A fissura era tão grande que fecharam o brau num papel de embrulhar pão.
Fedorento. Cigarro de maconha. Ô Luciano, cadê o fedorento?
Finélio. Ver fino.
Finólio. Ver fino.
Fino. 1. Cigarro de maconha (comparativamente ao cigarro comum). Tem um fino aí pra gente? 2. Cigarro muito pequeno. Variação: finélio, finólio, finório e fino de cadeia (em referência aos pequenos e discretos cigarros de maconha conseguidos pelos presos nas cadeias). Também utilizado no diminutivo fininho. Pô, Alexandre, tanta maconha aí e tu faz um fino de cadeia!
Fissura. Desejo intenso de fumar maconha. A fissura era tão grande que ele comeu ela só pra fumar um brau.
Fissurado. Indivíduo que tem fissura. Esse cara vive fissurado.
Fumacê. 1. Ato de fumar. Tá rolando um fumacê lá na cozinha. 2. Fumaça do cigarro. Fecha a janela que o fumacê tá no mundo!
Fumo. O mesmo que maconha. Também utilizado no diminutivo “fuminho”. Ultimamente só tem pintado fumo ruim.
Fumódromo. 1. Local apropriado para fumar maconha. O fumódromo é lá atrás, debaixo do cajueiro. 2. Tradicional ponto de uma localidade aonde os usuários costumam ir para fumar ou passam fumando. Aquela rua é o melhor fumódromo da cidade.
Futum. Cheiro forte de maconha que fica no ar, em parte do corpo ou em um objeto que foi manuseado enquanto se fumou ou que é manuseado constantemente pelo usuário. Traz um Bom Ar que aqui tá o maior futum.
G
Game. O mesmo que jogo (originado do inglês). Toma aí meus vinte pra fazer um game.
Ganja. Maconha (do sânscrito ganjica). Uma das exigências da palestrante é uma ganja da boa antes de começar a palestra.
Garantir. 1. Assegurar a maconha. Deu pra garantir o do fim de semana. 2. Demonstrar eficiência em relação à maconha, como preparar, fumar, fazer comércio, manter-se discreto etc. Pô, meu irmão, se garanta aí!
Garantido. Certo, assegurado. Refere-se geralmente ao ato de conseguir maconha. Fique tranquilo que comigo é garantido.
Gelar. Ato de apagar, sem querer, o cigarro de maconha. Ih, o cara deixou o brau gelar.
Geral. Revista feita por policiais. Esconde bem que a gente vai passar por uma geral.
Goma. Saliva. Usada para umedecer o papel do cigarro para que ele queime por igual e/ou para que não acenda chamas. Passa uma goma no baseado.
Grande Braulito. Ver Braulito.
Guimba. Resto do cigarro de maconha. O mesmo que bia. O baseado era tão grande que a guimba ficou do tamanho de uma caneta!
H
Haxixe. Resina extraída da planta de maconha. Vamos fumar um com haxixe pra comemorar que hoje é terça.
História. 1. Conjunto de fatos e/ou ações marcantes no universo dos usuários. Aquela festa foi a maior história! 2. Maconha. Também utilizado no diminutivo. Só sobrou uma historinha aqui…
I
Impregnar. Insistir o tempo todo para fumar maconha. Leva essa menina que ela já tá impregnando!
Impregnado. Indivíduo, ambiente ou objeto que está com um forte cheiro de maconha. Esse teclado tá impregnado!
Intera (é). Pequena porção de maconha que será juntada a outra para formar quantidade suficiente para um cigarro. Alguém tem uma intera aí?
Intoca. Local onde a maconha está escondida. A parada tá numa intoca ali que só eu sei.
Intocar. Esconder a maconha. Ih, eu intoquei mas agora não sei mais onde foi…
Iracema. Apetite exagerado que surge após fumar. O mesmo que larica. Tô na maior iracema!
J
Jererê. Forma clássica para designar cigarro de maconha. Muito utilizado numa conhecida cantilena em carnavais ou ocasiões festivas. Ê, jererê, je-rê-rê-rê-rê-rê-rê… Viva a maconha!
Joana. Designação para maconha. Abreviado de marijuana. Como é, a Joana vem ou não vem?
Jogo. Transação que envolve o comércio da maconha. Vamos fazer um jogo legal pro fim de semana.
L
Larica. Apetite exagerado comum após fumar. Me deu uma larica tão desgraçada que eu comi feijão frio com sorvete.
Laricado. Com muito apetite após fumar maconha. Tranca a geladeira que tá todo mundo laricado!
Lariquento. 1. Diz-se do fumo que desperta a fome. A gente fumou aquele lariquento e depois foi direto pro supermercado. 2. Aquele que costuma ter muita fome depois que fuma. Fumar em casa com esse lariquento é o maior preju, minha geladeira não aguenta.
Laura. Forma discreta para larica. Pronto, chegou a Laura.
Leda. Discreta denominação para seda, o papel usado para confeccionar o cigarro. Não acredito que vamo deixar de fumar porque ninguém tem uma leda…
Lei seca. 1. Falta de maconha momentânea. A cidade tá numa lei seca horrível. 2. Impossibilidade de se fumar maconha. Quando meu irmão tá aqui, rola a lei seca.
Liberado. Livre para fumar tranquilamente. Vai na boa, galera, que aqui no escritório é liberado.
Liberar. Fornecer maconha. Pô, libera aí, Aninha, tá todo mundo na fissura…
Ligar. Acontecer (o efeito da maconha). O mesmo que bater. Ah, agora ligou.
Ligadeira. Efeito da maconha, oposto à morgação. Me bateu uma ligadeira que eu fiquei quatro horas jogando gamão sem nem piscar.
Ligado. Sob efeito da maconha. Silvana só gostava de transar ligada.
Light. Maconha que não é muito forte. Esse fumo é light, Luíza, pode dar até pra tua mãe…
Limpeza. Qualidade da pessoa, lugar, objeto ou situação em que é permitido fumar, falar sobre maconha e afins. Pode ficar despreocupado, todo mundo aqui é limpeza!
Livrar. Oferecer maconha para quem não tem e está com muita vontade de fumar. Se o Mazinho não tivesse livrado, eu tinha ficado o fim de semana de cara.
Livrar a cara. Fumar um cigarro de maconha. Diz-se em referência a de cara. Tem unzinho aqui pra gente livrar a cara.
Lombra. Efeito da maconha. Essa música é resultado de uma lombra que a gente teve subindo a serra.
Lombra torta. Ação estranha, sem sentido, inconveniente ou prejudicial a si próprio ou a outros causada pela maconha. Que lombra torta… O cara foi embora a pé!
Lombrado. Sob efeito da maconha. A Carmem tava tão lombrada que dizia que tinham mudado o mar de lugar.
Louco. Sob efeito da maconha. Eu fiquei tão louca que sentia cada nota da música na minha pele…
Luz. Fraco efeito da maconha. É, deu uma luz…
M
Maconhado. Sob efeito da maconha. Também usado na forma emaconhado. Quando ele trepa maconhado, fica me chupando por duas horas.
Maconheiro. 1. Usuário de maconha. Maconheiro é sempre o filho dos outros, nunca o seu. 2. Pé de maconha. Abacate vem do abacateiro, mamão do mamoeiro, maconha do maconheiro.
Maconheiro sem-vergonha. Designação genérica usada por antipatizantes da maconha para depreciar usuários. Variação: maconheiro safado. Isso é coisa de maconheiro sem-vergonha!
Mal-com-ele. Discreta designação para maconheiro. Aqui só tem mal-com-ele!
Malhação. Diminuição deliberada de uma porção de maconha em quantidade e/ou qualidade. Esse fumo tá a maior malhação.
Malhar. Ato de fazer com que a porção de maconha que está sendo negociada, perca em quantidade e/ou qualidade sem que a outra pessoa perceba. Vou malhar o fumo desse otário.
Maloca. Local onde se esconde a maconha. O mesmo que intoca. Eu tenho uma maloca lá no quintal.
Malocar. Ato ou ação de esconder a maconha. O mesmo que intocar. O cara malocou a maconha pra poder fumar sozinho!
Maluco. Usuário de maconha. O mesmo que doido. Todo ano a gente faz o racha: bebum contra maluco.
Manga rosa. Maconha da melhor qualidade. Tem uma cor avermelhada característica. O feriadão tá salvo, chegou da manga rosa!
Maquininha. Engenhoca própria para confeccionar cigarros de tabaco, também utilizada pelos usuários de maconha. Comprei esta maquininha numa feira esotérica.
Maresia. Fumaça do cigarro de maconha, que pode causar efeito também em quem não fumou. É comum que o usuário desenvolva uma alta capacidade de sentir o cheiro da fumaça, por menor que seja ou por mais longe de onde venha, e que isso lhe proporcione uma imediata e rápida sensação de esperança e felicidade. Vovó ficava doidona só com a maresia que vinha do quarto.
Mareado. Estado de quem fumou passivamente e ficou sob leve efeito da maconha. Ih, o gato ficou mareado…
Maria Joana. Maconha. Originado de marijuana. Faz tempo que eu não falo com a Maria Joana.
Marica. Piteira própria ou improvisada para fumar o cigarro, por conta da dificuldade de se fumar a guimba ou para não deixar cheiro forte nos dedos. Na sex-shop eu vi uma marica com o formato de uma piroca.
Marijuana. Clássica denominação para maconha (do espanhol). Tá chegando a marijuana!
Marofa. Maconha. Cadê a marofa?
Marola. Efeito de pouca intensidade da maconha. Ver onda. Foi só uma marola, mas valeu.
Massa. 1. Maconha. Tá na hora de servir a massa! 2. Maconha da melhor qualidade. O cara tem uma massa!
Matar. Fumar a guimba do cigarro de maconha até não sobrar mais nada. Às vezes dá-se a alguém a honra de matar a guimba, outras vezes é algo disputado. Pode matar que eu já tô doidão.
Matinal. O primeiro baseado do dia. O mesmo que despertivo ou bom-dia. Agora vai rolar o matinal que é pro dia nascer feliz.
Mato. Maconha. Geralmente utilizado no diminutivo. Ouvi dizer que você tem um matinho aí pra melhorar essa festa…
Merreca. Porção de maconha considerada insuficiente. Olha a merreca que sobrou daquele patuá todo.
Mescalito. Entidade sobrenatural considerada o espírito do cacto peiote, que produz a substância psicoativa mescalina. O termo popularizou-se nos anos 1960-70 pelos livros do antropólogo Carlos Castaneda e ganhou destaque nas histórias em quadrinhos dos Freak Brothers. O Mescalito seria primo do Braulito, e também pode aparecer para usuários de maconha, o que revelaria a interconexão dos universos das entidades psicobotânicas. O Mescalito tá dizendo que devemos apertar outro.
Mesclado. Cigarro de maconha preparado com pasta de cocaína. O efeito é uma mistura dos dois. Lá em Manaus rola muito mesclado.
Metro. Unidade de medida de maconha: 1 quilo = 1 metro. Tá chegando um metro pro carnaval.
Mike Tyson. Maconha ou cigarro de maconha de fortíssimo efeito. Em referência à potência do soco do famoso pugilista. Cuidado que esse aqui é um Mike Tyson.
Moçada. Amigos usuários. O mesmo que galera, rapeize etc. A moçada tá fumando demais, cara…
Mofado. Diz-se do fumo que mofou pela ação do tempo. Por conta disso ele perde o princípio ativo THC e causa pouco ou nenhum efeito. Galera, ontem encontrei uma paradona atrás do armário. Calma, calma… Tava mofada.
Monopolizar. Reter o fumo ou o cigarro de maconha, geralmente com fins egoístas. Como é, vai ficar monopolizando mesmo?
Morgação. Estado de lerdeza e preguiça causado pela maconha. Também pode se referir a uma situação. Essa festa ficou a maior morgação.
Morgado. Lerdo, com preguiça e/ou sem vontade para fazer qualquer coisa, em decorrência da maconha. Ele fuma, fica morgado e vai dormir.
Muito doido. 1. Sob forte efeito da maconha. Vai atrás que ela tá muito doida. 2. Aquele que fuma muito. Aqui nesse bar só tem muito doido. 3. Diz-se de algo estranho ou muito interessante. Este poema é muito doido.
Muito louco. O mesmo que muito doido. Também usado no espanhol mucho loco.
Muqueca. Considerável porção de maconha. O mesmo que parada. A Rose tá com uma muqueca!
Mutema. Sobrenome que se aplica a quem tem maconha quando ninguém mais tem. Referência a Sassá Mutema, famoso personagem da novela da Globo, O Salvador da Pátria. Acaba de chegar o André Mutema.
Mutuca. Porção razoável de maconha. Guardei uma mutuca bacana e ela mofou todinha.
N
Narguilê. Artefato adaptado dos narguilês comuns para ser usado por usuários de maconha, muitas vezes improvisado a partir de vários objetos, dependendo do espírito inventivo do usuário. Esse aqui merece a gente fazer um narguilê!
Nas internas. Situação em que o cigarro de maconha é oferecido somente para algumas pessoas e consumido discretamente, seja porque há pouco ou para privilegiar a alguns. Vai lá no estacionamento que tá rolando um nas internas.
Negócio. Maconha. Vai pintar um negócio de primeira pro reveiôm.
Noia. 1. Viagem ruim. Forma resumida de paranoia. Aquele fumo me deu a maior noia. 2. Estado continuado em que fica o usuário por fumar demais. O cara nem sai mais de casa, tá na maior noia.
Noiado. Pessoa que está com noia. Passei um tempão noiado por causa daquela dançada.
O
Onda. Efeito da maconha. Agora bateu uma onda legal!
Osvaldo. Denominação discreta para maconha ou cigarro de maconha. Só faltava o Osvaldo aqui…
O vento fuma. Expressão usada quando alguém demora a fumar, desperdiçando maconha. Alguns usuários entendem que o vento também merece ficar doidão, mas a maioria não gosta dessa ideia. Pô, Mariana, assim o vento vai fumar o bagulho todinho.
P
Paia. Maconha de péssima qualidade. Mas que maconha paia!
Pala. O mesmo que bandeira. O Amaury tá dando pala.
Paludo. Pessoa que está dando pala. A Sandra hoje tá paluda que é uma beleza!
Parada. Porção de maconha. O cara ficou tão noiado que jogou a parada na privada e deu descarga.
Paranga. Porção considerável de maconha. O mesmo que mutuca. O Dudu mandou avisar que garantiu uma paranga pro feriado!
Passar a bola. Passar o cigarro de maconha. É comum pedir para passar a bola à pessoa que fica fumando o cigarro e não dá vez para que os outros também fumem. Pode ser complementado com o nome de algum jogador de futebol com fama de individualista, em evidência ou de nome folclórico, como Pelé, Mirandinha, Cafu, Ronaldinho, Edmundo, Maradona, Mazolinha etc. Passa a bola, Mirandinha!
Patuá. Razoável porção de maconha. Passei três meses fumando aquele patuá.
Pau. Cada trago que se dá no cigarro de maconha. O mesmo que tapa. Também utilizado no diminutivo. Só dei um pauzinho…
Paula. Forma abreviada de paulista.
Paulista. Modo característico de se fumar maconha com outras pessoas onde se dá apenas um trago e passa-se imediatamente o cigarro a quem está do lado. Fuma-se na paulista para um maior aproveitamento do cigarro. Sua origem pode estar ligada ao ritmo de vida apressado da capital paulistana, ou porque fumar em plena avenida Paulista é algo que requer rapidez e agilidade. Vamos fumar na paulista senão não vai chegar aqui.
Pegar. Fumar o cigarro de maconha. Ver dar um pega. Vamos pegar unzinho?
Perturbado. Sob razoável efeito da maconha. Aquele brau me deixou tão perturbada que eu falei duas horas com ela achando que era a Bebel.
Peruana. Modo característico de se fumar maconha que consiste em encher a boca de fumaça, sem tragar, e liberá-la devagar e aos poucos pelo nariz. Já fumou à peruana?
Picárdia. Mesquinhez. Usa-se geralmente quando o comprador sente-se lesado no negócio. Originado de picardia. Ah, maninha, deixa de picárdia.
Pilão. Qualquer objeto que se possa usar para socar o cigarro de maconha, geralmente um palito de fósforo, uma tampa de caneta ou similar. Alguém tem um pilão aí?
Pilar. Ato de socar cuidadosamente o cigarro de maconha. O baseado era tão grande que usaram um pincel atômico pra pilar.
Pilora (ô). Mal-estar ou leve desmaio causado pelo efeito da maconha. O mesmo que brancão. Deu uma pilora no coitado bem na hora de dizer sim.
Ping-pong. Monopolização do cigarro por duas pessoas, impedindo o restante de fumar. Como é, vão ficar mesmo nesse ping-pong aí?
Pitada. Rápida tragada no cigarro de maconha. Vou dar só uma pitadinha porque eu parei de fumar.
Poeira. Maconha transformada em pó devido ao manuseio. Não é apreciada por conta do fraco efeito. Só tem poeira naquela parada!
Ponta. Guimba do cigarro. O mesmo que bia. Vai dar pra fazer dois baseados com essas pontas.
Por falar nisso. Insinuação usada por maconheiros discretos quando desejam fumar ou para saber se alguém tem maconha. Sim, mas por falar nisso…
Prego. Pessoa muito chata quando está sob efeito da maconha. Equivale ao bêbado chato. Pense num cara prego: é o Dedé!
Pren-pren. Apelido carinhoso para prensado. Tive que cair com cinquentinha pros ômi e ainda levaram meu pren-pren.
Prensado. Fumo que é acondicionado em porções compactas para que ocupe menor espaço. Por esta razão ele normalmente é mais forte e mais caro. Tá chegando um prensado semana que vem.
Prensar. Acondicionar a maconha em quantidades compactas. Não é pouco não, é porque tá prensado.
Presença. Porção de maconha que se pede a outra pessoa. Dá pra arrumar uma presença?
Pressão. Ato de tragar e segurar a fumaça nos pulmões por muito tempo para conseguir um efeito maior. Dê um trago e faça pressão!
Preto. Maconha. Em comparação com a cocaína, que é branca. Deixei a branca, agora tô só no preto.
Produto. Maconha. Apareça lá que eu tenho um produto de primeira pra você experimentar.
Puxar fumo. Fumar maconha. O sobrinho da senhora toda noite puxa um fuminho na esquina com a filha do coronel.
Q
420. Número representativo do universo folclórico dos usuários, adotado a partir dos anos 1970. A origem, segundo a versão mais conhecida, estaria no fato de um grupo de jovens estadunidenses se reunirem frequentemente para fumar às 4:20 da tarde. O número foi usado para marcar o 20 de abril como data representativa e para a realização de eventos alusivos à maconha em todo o mundo. Também é caracterizado como uma espécie de código semissecreto de usuários, sendo usado em diversos contextos da vida cotidiana, assim como em obras artísticas e insinuações referentes à maconha. Quatro e vinte no terraço, beleza?
Queimar. Acender o cigarro. Queima logo esse brau que eu já tô me coçando todinho.
Quem vai? Discreto convite que se faz para saber quem vai participar do cigarro. E aí, quem vai?
Quem se habilita? Pergunta que se faz para saber quem pode preparar a maconha ou apertar o cigarro. E aí, moçadinha, quem se habilita?
R
Regular. Sujeitar a regras ou reprimir o uso de maconha. Qualé, meu irmão, tá regulando o brau?
Regulão. Aquele que regula o uso de maconha. Fumar junto com regulão é foda!
Resenha. Demora (para passar o baseado). Chegou na Shirlene, é uma resenha…
Rodada. 1. Passeio rápido para fumar. O mesmo que rolê ou rolé. A gente dá uma rodada e volta logo. 2. Giro completo que o cigarro faz num grupo que está fumando. Era tanta cabeça que só deu uma rodada!
Rodar. Passar o cigarro de maconha entre os que estão fumando. Esse negócio não roda não?
Rolar. Acontecer (a maconha). Vai rolar o baseado ou não vai?
S
Salvador. Pessoa que tem maconha e que oferece a quem não tem e está ávido para fumar. Pode ser complementado com “da pátria” em referência à novela da Globo O Salvador da Pátria. Chegou o nosso salvador!
Sauna. Diz-se do ambiente pequeno e fechado onde se reúnem pessoas para fumar. Esse carro tá a maior sauna!
Scud. 1. Maconha ou cigarro de maconha de excelente qualidade. Referência ao famoso míssil utilizado na Guerra do Golfo, em 1990-91. Tudo que eu queria agora era fumar um scud daqueles pra dormir. 2. Cigarro grande. Vai ver o tamanho do scud que tá rolando lá em cima da casa.
Se tocar. Aperceber-se de algo relacionado à maconha, geralmente comprometedor. A Dani tava com o baseado na orelha e nem se tocou.
Secura. 1. Forte desejo de fumar. Passei a semana toda na secura. 2. Falta de maconha. A cidade tá uma secura desgraçada. 3. Estado de baixa salivação causado pela maconha logo após fumar. Tem uma água aí pra matar essa secura?
Seda. Papel especial ou apenas mais apropriado para preparar o cigarro de maconha. Não acredito que a gente vai ter de parar numa lanchonete pra conseguir uma seda!
Segurar. Adquirir maconha. O cara segurou uma da massa!
Segura a coisa. 1. Expressão muito utilizada quando se quer fazer referência ao ato de fumar ou incentivar alguém a fumar. Vambora, menino, segura a coisa! 2. Bloco carnavalesco de Olinda que faz referências à maconha. O Segura a Coisa já tá saindo.
Social. Situação de caráter formal, geralmente envolvendo um ou mais não usuários, com a qual aquele que está sob efeito da maconha tem de lidar. Uma social costuma ser vista como algo incômodo e indesejado pelo fato de nela não se poder aproveitar devidamente o efeito da maconha, mas há usuários que apreciam lidar com tais situações e até se divertem. Usa-se: fazer a social, encarar uma social ou pagar uma social. A gente passa lá no velório, faz a social e vai embora.
Solto. Diz-se da maconha que não é prensada. Também usado no diminutivo. Ô saudade de um soltinho…
Só por causa disso. Expressão utilizada, por si só, como pretexto para se fumar. Só por causa disso eu vou apertar um.
Sugesta (é). 1. Susto desnecessário ou infundado que se leva por estar portando ou fumando maconha. Aquele carro da polícia me deu a maior sugesta! 2. Ação comprometedora por parte do usuário. Ei, Celsinho, te liga aí que tu tá dando a maior sugesta.
Sujar. 1. Comprometer. Para de andar com a Carol que tu vai te sujar rapidinho. 2. Ser flagrado com maconha, com usuários ou em situação afins. Ih, sujou!
Sujeira. Qualidade de pessoa, lugar, situação ou objeto comprometedor. Não acende agora que é sujeira!
Sugestivo. Cigarro de maconha. Vou apertar um sugestivo em homenagem à beatificação de Madre Paulina.
Sujo. 1. Qualidade da pessoa ou lugar ou objeto que possui caráter comprometedor e que por si só pode denunciar o usuário. Aquele bar já tá sujo. 2. Aquele que já teve problemas legais com relação a maconha. Metade dessa turma tá suja com a polícia. 3. Aquele que, por seu comportamento, não é bem visto entre os usuários e/ou entre os não usuários. Léo já fez tanta besteira que tá sujo em todos os bares daqui.
T
Tapa. Cada tragada que se dá em um cigarro de maconha. Muitas vezes usado no diminutivo. Vou dar só um tapa e vocês fumam o resto.
Tapa na cascavel. Tragada no cigarro de maconha. O mesmo que tapa na pantera. Vou ali dar um tapa na cascavel e já volto.
Tarugo. Cigarro de maconha de grandes proporções. A Bel fumou sozinha um tarugo do tamanho do meu braço!
Tchauris. Cigarro de maconha. O mesmo que tcheuris. Quem foi que trouxe o tchauris?
Tchauri-tchuri. 1. Cigarro de maconha. Cadê o tchauri-tchuri? 2. Expressão vaga para se referir à maconha ou ao efeito da mesma, ou ainda sem qualquer significado específico, geralmente utilizada quando sob efeito.Tchauri-tchuri, cumade!
Tcheuri-tchuri. O mesmo que tchauri-thcuri.
Tcheuris. O mesmo que tchauris.
Tchonga. 1. Maconha. A pergunta que não quer calar: cadê a tchonga? 2. Cigarro de maconha de tamanho considerável. A gente carburou uma tchonga da grossura de um coqueiro.
Texto. Designação discreta para maconha. Passa aqui que eu tenho um texto bacana pra você ler.
THC. Tetrahidrocanabinol. Principal substância psicoativa da maconha. Nas aulas de ciência política, a melhor coisa que aprendi foi que THC é melhor que FHC.
Tirar a cara. Fumar um cigarro para sair do estado de cara, em que não se está sob efeito da maconha. O mesmo que livrar a cara. Informo à Vossa Majestade que os Beatles foram ao banheiro do palácio tirar a cara.
Tó. Forma resumida de toma, muito utilizada quando o usuário, ao fumar, quer passar o cigarro mas não quer deixar escapar a fumaça pela boca. Tó…
Toco. Cigarro grosso de maconha. Vou apertar um toco em homenagem às formigas.
Tora. Cigarro de grande proporção. Vai precisar de duas pessoas só pra acender essa tora.
Torpedo. Cigarro de grande proporção. A especialidade da Luíza é apertar torpedo.
Tragar. Engolir a fumaça do cigarro e fazê-la sair, a maior parte, pelo nariz. Bill Clinton fumou mas não tragou.
Trago. Ato de fumar maconha. O mesmo que pega e pau. Ah, relaxa, só esse trago e a gente sai.
Tratar. Preparar a maconha para a confecção do cigarro. Consiste em picar em pequenos pedaços após retirar galhos e sementes. O mesmo que triturar, debulhar e destrinchar. Você trata e eu aperto.
Tripinha. Pequeno e fino cigarro de maconha. Não se empolgue não que é só uma tripinha.
Triturar. Ver tratar.
Troncho. Aquele que fumou e ficou de tal modo que o corpo parece torto e a expressão aparvalhada. A Juliana tá toda troncha, olha lá.
Trouxinha. Pequenino embrulho de maconha em forma de trouxa. Um fim de semana inteiro pela frente e só tem essa trouxinha?!
U
Um. Cigarro de maconha. Alguém tem um?
Unzinho. Denominação carinhosa para o cigarro de maconha. Variação: unzito. Vai rolar unzinho lá no banheiro, quem vai?
Usuário. Denominação de caráter mais social para quem fuma maconha. Em certos contextos distingue quem fuma de quem trafica. Nas pesquisas eu sou usuário, nos programas policiais eu sou maconheiro.
V
Vacilão. 1. Aquele que comumente age sem cuidado em sua relação com a maconha. Nunca vi um cara mais vacilão! 2. Aquele que diz ou faz bobagens quando fuma, permitindo que outros percebam que ele está sob efeito da maconha. Olha a vacilona lá, estirada na grama!
Vacilar. Agir sem cuidado, de forma a comprometer-se em relação à maconha. Paulinha tá vacilando demais, daqui a pouco dança.
Vela. Cigarro de maconha comprido. Olha o tamanho da vela!
Veneno. Maconha da melhor qualidade. Às vezes é complementado com de rato, em referencia à potência do veneno. Pô, mas que veneno!
Viajandão. Aquele que se encontra inteiramente absorto no efeito da maconha, geralmente em estado de contemplação. Fui assistir The Wall e só tinha viajandão na plateia.
Viajar. 1. Usufruir plenamente do efeito da maconha. Vou fumar um e viajar naquele livro! 2. Dizer ou fazer algo estranho, interessante, engraçado ou sem sentido, por ter fumado. Esquece o que eu disse, viajei.
Voyage. O mesmo que viagem (originado do francês). Ih, ó o cara… Na maior voyage!
X
Xavier. Aquele que regula o fumo. Oriundo de Regulador Xavier, famoso preparado à base de extratos vegetais para distúrbios da menstruação. Ei, Xavier, aqui também tem gente querendo fumar, viu?
Z
Zé. Maconha ou cigarro de maconha. Ah, se o Zé estivesse aqui…
Ziquizira. Efeito incômodo da maconha. Saí no meio do filme porque me deu uma ziquizira…
Zoado. Sob efeito da maconha, levemente confuso e/ou atordoado. Ainda tô zoado.
Zoeira. Confusão sonora ou de ideias causada pela reunião de pessoas sob efeito da maconha. Putz, mas que zoeira!
Zumbi. Pessoa sob forte efeito da maconha, de gestos lentos ao modo de um zumbi. Variação: zumbizado. O bagulho era tão bom que ficou todo mundo zumbi.
Zureta. Sob efeito da maconha. Não me pergunte coisa difícil que eu tô zureta.
Zuruó. Sob efeito da maconha. Equivale a zoado e zureta. Tá dando pra notar que eu tô zuruó?
.
> SUGESTÕES PARA A PRÓXIMA EDIÇÃO
Quer sugerir? Fique à vontade. É só enviar e-mail para rkelmer@gmail.com
.
.
Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com
.
Este texto integra o livro
Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha
> Onde comprar. Leia contos do livro. Adquira seu exemplar personalizado
.
.
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
.
.
01- Oi Ricardo Cara, eu ri demais “No Dia em que papai e mamãe ficaram muito doidos” hahahaha… isso já valeu o meu domingo. Beijos. Ana Cristina Souto, Fortaleza-CE – jan2006
02- Adorei o Mingo! Ele só destruiu todos os meus ídolos de infância, mas…tudo bem!Beijos Kelmérico. Cinthia Azevedo, Fortaleza-CE – mar2006
03- Pois eu ganhei o Baseado Nisso de presente de um amigo, na realidade ele sempre me mandava alguns textos seu por email e eu curtia muito então no meu aniversário ele me deu… inclusive está assinado … hehehehe Adorei dimais… a ponte dos pergaminhos metálicos… pirei… ahahahahaha. Julia – mai2006
04- bom pra começar o livro é da minha irmã e eu por mta curiosidade por conta do título não resisti… confesso que as histórias são fascinantes de modo que não se consegue parar de ler… bom eu acho q ela comprou na net… não sei bem Parabéns pelo sucesso…. Nycka, São Paulo-SP – mai2006
05- passei para lhe dizer que adorei ter lido um de seus livros foi a minha cunhada que me deu esta ai da sua lista de amigos a Rildete, ela virou fã mesmo e consequentemente eu também… (rsrs) abraços. Nanda Vasconcelos, Fortaleza-CE – mai2006
06- Terminei de ler “O Último Homem do Mundo” e confesso que eu me senti agradavelmente surpresa com o final. Na verdade, eu me encantei com toda esta estória que me parece tocar em sentimentos profundos de uma maneira simples e bem humorada. Acho que neste conto vc descreveu muito bem o horror e a solidão que podem acompanhar o prazer sem limites. Interessante que “ao acordar” o Agenor sentiu necessidade de pedir desculpas para a Dorinha. Muito meigo e belo…, sabia?! Bj_. Kátia Regis Albuquerque, João Pessoa-PB – out2006
07- beleza, muito bom o baseado! Cesar de Cesário, Campina Grande-PB – out2006
A travesti anã e sua irmã sapata
25/05/201025mai2010
Passeando pelas minhas comunidades no Orkut, ela encontrou uma chamada “Já dei pra um travesti” e aí, coitada, ficou apavorada
A TRAVESTI ANÃ E SUA IRMÃ SAPATA
.
Ricardo, que história é essa que você já deu pra travesti? Você é louco?! Isso foi antes ou depois da gente namorar? Pelo menos usou camisinha?
Esse aperreio todo aí era minha ex-namorada. Passeando pelas minhas comunidades no Orkut, ela encontrou uma chamada “Já dei pra um travesti” e aí, coitada, ficou apavorada. Ora, imagina se eu não ia entrar pra uma comunidade com um nome desse! Lógico. Ainda mais com aquela negona aloprada na capa, uma lapa de minhoca desse tamanho… Mas depois que entrei foi que descobri que ninguém lá mostrava o rosto, era só foto no escuro, foto do pingolim, da bunda, desenho e coisital. Só eu mostrando a cara. Já pensou, Katiuscia, se ingenuidade ganhasse prêmio?
Hummm… Pela sua expressão, minha amiga leitorinha, tô percebendo que você quer me perguntar alguma coisa, né? Tô certo ou tô errado? Então vá lá, perguntaí, tenha receio não, pode perguntar que eu respondo. Se eu já dei mesmo pra travesti, é isso? Ok. Respondendo: não sei, faz muito tempo, isso faz parte do meu passado obscuro, hoje eu me arregenerei, entrei pra igreja, aceitei o Senhor Jesus, comprei o sabonete do descarrego e deixei de ser homossexual de um dia pro outro. Satisfeita?
Lá na comunidade “Já dei pra um travesti” tem homem, mulher, menino, papagaio, o escambau. Até o papagaio, olhassó. Papagaio moderno não dá só o pé não. Tem uma tal de Daniela Cicarela Viadinho da Lapa, olha o nome da criatura desmantelada. Genial. Tem uns tópicos impagáveis, tipo “Dar pra travesti ao ar livre”. Ao ar livre? Caramba, essa modalidade esportiva eu não conhecia. E tem um tópico sobre um tal ativador de feromônio GLS com perfume Kamasutra e ativador APC. Menino, que babado forte! Vou montar uma barraquinha pra vender esse negócio na parada gay.
Mas o melhor tópico foi de um cidadão lá que anunciou assim: “Quem me comeria?” Olhassó o nível de desespero do povo brasileiro. Mas infelizmente não apareceu nenhum candidato. Nem o papagaio se manifestou. Coitado. Olha, Shirleny, se isso acontecesse comigo, eu te juro de pé junto que desistia da carreira e ia ser pizzaiolo.
Sessão Já Aconteceu Comigo. Uma vez eu tava numa festa dessas bem moderninhas. Pista lotada, luz negra, todo mundo louco, dançando… Uma menina linda me deu bola, sainha xadrez, meinha branca, a própria colegial sapeca matando a aula noturna. Tá pra nascer quem não tem tesão em colegial. Nesse dia eu tinha tomado umas e tava meio bruto. Então me cheguei na gata e nem perguntei nada: fui logo tascando o beijo nela. E ela correspondeu. Aí, no meio do amasso… percebi… um certo volume estranho… entre as pernas dela.
Putz, não acreditei. Olhaí, Pâmela, olhaí a situação pela qual pode passar o cidadão trabalhador e pagador dos seus impostos. Me afastei assustado. Tu é homem?, perguntei, torcendo pra ela dizer que não, que era mulher mesmo e que aquilo ali na verdade era um absorvente mal colocado. Mas ela respondeu, sorrindo: Sim, você tem algo contra? Fiquei tão abestalhado que balbuciei um pedido de desculpas, disse que infelizmente não rolava e saí, uma vodca por favor. Ô mundo doido.
No Orkut encontrei mais de duzentas comunidades relacionadas a travestis. Tem uma que diz que mulher sem celulite é travesti. Sério? Comassim? A Zuleika não tinha celulite. Humm, será por isso que ela nunca me deixou acender a luz? Xi… Será por isso que ela só queria atrás e de costas? Xapralá. Cadê minha vodca, cadê minha vodca?
Tem também aquelas comunidades que defendem que certas pessoas são travestis, como a Xuxa, a Claudia Raia, o atacante Fernandão e o Walter Mercado (ligue djá!). A Claudia Raia eu já sabia. Mas o Fernandão? Por isso que ele só joga enfiado entre os zagueiros…
Ciente do meu nobre dever de, como escritor, contribuir pra educação da juventude tupiniquim, pesquisei e separei algumas comunidades no Orkut sobre travestis. Afinal, entre meus queridos leitores pode haver alguém precisando sair do armário, sei lá. Tive o cuidado de manter o texto de apresentação, do jeitinho que foi escrito, pra preservar a originalidade da rica gramática orkútica. O texto em itálico após as setinhas (>>>) é o meu comentário. Viu, Melissa?
.
Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com
.
.
COMUNIDADES DAS TRAVAS
Quero namorar uma Travesti – Para todos aqueles que amariam namorar, noivar e até mesmo casar-se com uma linda Tv. São Lindas deusas na Terra.
>>> Lindas deusas na Terra? Tudo bem, realmente tem umas que são fenomenais. Mas em compensação tem outras que, francamente, devem ter saltado do Olimpo sem paraquedas.
Sou Travesti mas não sou puta! – Essa comunidade é para todas as T-girls, que apesar de terem nascido em corpo de homem, são mulheres de verdade, e que não se prostituem somente por sua condição física.
>>> Putz, T-girl é muito, muito gay… Mas, falando sério, esse negócio faz sentido. Talvez boa parte das travestis não se prostituísse se a sociedade as aceitasse mais e elas pudessem ter empregos comuns como qualquer cidadão.
A She-ra é um travesti – Você acha que com toda aquela força ela nasceu mulher?? Não mesmo, saiba que She-ra é e sempre será uma travesti de primeira linha, com um irmão Barbie e que mora num castelo que é um luxo!
>>> O quê? Não acredito! O He-Man é biba? Então devia mudar o nome pra He-Nem-Tão-Man. Gente, acabam de destruir a minha infância!!!
Crossdresser NÃO é Travesti!! – Esses machos acham que se tornam feminina pelo simples fato de vestir roupas feminas, mas esquecem dos pelos, falta de peito, barba,cabelo, entre tantas outras coisas. por isso nao se comparam a nós travestis que damos um duro danado para nos tornarmos mulheres e levarmos uma vida como tal. Se manquem bixas pão com ovo enrrustidas!
>>> Ahahahah! Bicha pão-com-ovo deve ser assim uma bicha bem feia, banguela, desempregada e ainda devendo na bodega.
Vovó Mafalda,o travesti do bem – Você lembra da nossa querida Vovó Mafalda? Pois eh. Na verdade ela era um homem! Um homem travestido de mulher, por tanto, um travesti. E é com muita honra que crio esta comunidade: Vovó Mafalda, o travesti do bem!
>>> O quê?! Vovó Mafalda também é travesti? Não, Vovó Mafalda, a senhora não…
Tenhu medo de travesti, e dai? – Bom, quero deixar bem claro que essa comunidade não é pra pessoas que descriminaum os travestis, mas sim que tme um certo receio, medo pela forma de se makiarem, de se vestir ou enfim, isso tb serve para drague kuin (naum sei escrever esse nome)….
>>> Você tem medo de travesti, meu filho? Muito medo, é? Hummm… Fale mais sobre isso.
Transei com travesti e sou H – Gay é aquele que sente atração por (homem) masculinidade , não por feminilidade!!!!!!!!!
>>> Taí, caro leitor, é uma boa teoria pra você defender no bar hoje à noite. Mas daqui que você explique que pé de pato não é guardachuva, até o garçom já te zoou.
Mulher tb gosta de travesti!!! – Mulheres também têm a fantasia de fazer amor com uma travesti bem gostosa, com peitos, bunda e barriguinha de mulher, mas com um algo mais bem gostoso…
>>> É verdade, querida leitorinha? Sério? Olhassó, quem diria… Você, com essa carinha aí de santa imaculada…
Eu nunka vi um travesti anão – Vc ja ando na rua e viu um Travesti Anão?? Vc ja viro a esquina e viu um Travesti Anão de calcinha? Vc ja viu um Travesti Anão com os peito pra fora??
>>> Eu nunca vi mas deve ter. Se duvidar, existe até travesti anã, albina e eleitora do Enéas. E com irmã gêmea sapata. E elas ainda têm um caso. Ô mundo doido.
.
LEIA NESTE BLOG
Abalou Sobral em chamas – Abram as portas da esperança! Que entrem as candidatas a Cinderela!
Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres
A diversidade sexual pede passagem – A luta pela legitimação da diversidade sexual como característica humana não é mais apenas uma luta de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros
As crianças transexuais – Putz, que espécie louca, a humana. O que ainda haverá para descobrir sobre nós?
Crimes de paixão – Detetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite.
.
SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG
As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada
As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz
Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?
O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…
.
DICA DE LIVRO
Indecências para o fim de tarde (Ricardo Kelmer, Arte Paubrasil) – Contos eróticos
Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)
.
.
01- Prezado Ricardo, Escrevo para dizer que adorei a sua coluna. A primeira que li foi sobre o Submundo Orkut. Há muito tempo não lia uma coluna tão divertida! Gostaria de saber com qual periodicidade a sua coluna é publicada. Caso possível, também gostaria de ter acesso aos preços e resenhas de seus livros. Um grande abraço, PS: Espero que meu namorado nunca entre na comunidade da qual você faz parte. Ou será que já entrou, com um fake profile, e eu, de besta, é que não sei? Valha, que desespero… Caroline Costa, Fortaleza-CE – set2006
02- li o teu artigo no o povo e vi teu video tb…como sempre, vc é brilhante. bj. Michele Diamanti, Taranto-Itália – set2006
03- Caro kelmer, li hj pela primeira vez a sua coluna no jornal o povo ! voce esta de parabens!! Depois de 4 anos morando fora do brasil e ,atualmente trabalhando ,literalmente, no fim do mundo, finalmente me reencontrei com o bom humor inteligente, ironico e muito divertido do nosso estado!!!!! Meus parabens e minhas recomendacoes! Ganhaste mais um fa cearense no sul do Sudao! abraco. Chico Furlani, Rumbek-Sudão – set2006
04- vc é ótimo! admirável ser, inteligente e com senso de humor maravilhoso. abraços, parabéns e obrigada por sua nobre presença nas páginas do jornal. Ana Virginia, Fortaleza-CE – set2006
05- valeu véio, gostei do texto!!! Luiz Sander, Rio de Janeiro-RJ – out2006
06- Adorei.Ri muito. Beijos. Mônica Burkle Ward, Niterói-RJ – out2006
07- Vc como sempre com o olhar fotografando tudo ligado em tudo e com esta facilidade de nos fazer imaginar as loucuras dos outros. VC É O MÁXIMOOOOOOOOOOOO Beijoss da sua amiga. EstrelaLouca, Rio de janeiro-RJ – out2006
08- AMEI , vc como sempre, muito criativo. bjs. Michele Diamanti, Taranto-Itália – out2006
09- Quase morro de rir da crônica, “A travesti anã e a irmã sapata.” Naquela parte “albina e eleitora do Eneás. E com irmã gêmea sapata.” kkkkkkkkkkkkkk!!!!!!!!!!!!!!!!! Boa demais, sua imaginação é f… Lua Morena, Brasília-DF – out2006
10- KKKKKKKK, adorei a crônica Ricardo. Valeu. abs. Ailton Medeiros, Natal-RN – out2006
11- Você nem sabe o quanto me ajudou hoje, meu irmão. Eu tava numa tristeza, porque fazem 15 anos que meu melhor amigo morreu de aids. Pense como eu ri! Foi mesmo que tirar um vampiro de um caixão. Adorei! E olha o tema. Meu amigo velho iria adorar! Ele como todo gay era espirituoso, super. Mas infelizmente pegou essa doença lá pela década de 80 quando não havia ainda muito recurso. É isso aí. Obrigada. Me animei. Bjs. Virgínia Ligia Freitas, Fortaleza-CE – out2006
12- adorei o texto da travesti anã.. hahahaha parabéns Ricardo! beijos. Priscila Piffer, Rio de Janeiro-RJ – out2006
13- Que texto doido da travesti anã! Ótimo! Tudo bem né? Beijo! Mellina Farias, São Paulo-SP – out2006
14- e ai cumpade, rolou ou não com o traveco? (risos) Cesar de Cesário, Campina Grande-PB – out2006
15- Adorei a “A TRAVESTI ANÃ E A IRMÃ SAPATA” kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk tou rindo até agora… kkkkkkkkkkkkkkkkk E o q vc falou é certíssimo, as pessoas não colocam suas caras,hipocrisia a flor da pele;) Muito bem abordado, crítico e espirituoso, como sempre;) valew!!!! Gizelle Saraiva, Natal-RN – out2006
16- Gostei demais da tua crônica sobre os travestis…Vc quase me matou de susto com essa estória de ter entrado pra uma comunidade com aquele título. Nem consigo imaginar este homem tão bonito, charmoso, inteligente,que eu beijei com tanto gosto (e ainda queria muito mais),sendo “devorado” por um traveco bem dotado.Ui!!!Que horror!!! Beijoqueira Saudosa, Fortaleza-CE – out2006
17- BOA TARDE, MEU CARO ESCRITOR!ADOREI” A TRAVESTI ANÃ EA IRMÃ SAPATA”!QUESE Ñ CONSIGO LER DE TANTO RIR,KKKKKKK. NÃO SE DESESPERE.SEUS FÃS LHE AJUDARÃO A PAGAR SEU ALUGUÉL, COMPRANDO SEUS BETESSELERS,RSRSRSRS.MUCHOS BESOS. Ângela Carvalho, Fortaleza-CE – out2006
18- Opa! Parabéns, adorei seu texto sobre travestis no orkut, eu ri muuuuuiiiitooooo! Beijos mil. Claudia Wonder, São Paulo-SP – jun2007
19- Meu amigo, que saudades de você escrevendo sobre o Matrix! Pela hóstia! Ana Paula Goes, Fortaleza-CE – abr2013
20- Muito bom! Ricardo, você tem umas tiradas ótimas! Taline Procópio, Fortaleza-CE – abr2013
21- Que bom que existam pessoas capazes de ir além destas caretices que a gente ver em redes sociais! Parabéns polêmico Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos. Michele SJ, Fortaleza-CE – abr2013
A profecia
18/05/201018mai2010
Este conto integra o livro Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha, de Ricardo Kelmer
.
A PROFECIA
A maconha terráquea, melhor da galáxia, está faltando no mercado. Os culpados são os mulgélicos, fanáticos religiosos que tomaram o poder no planeta. O Conselho Galático precisa decidir o que fazer
.
A SRA. ZIEGR, PRESIDENTA do Conselho da Confederação Galática, entrou na sala e ocupou sua poltrona à grande mesa. Ela trazia o semblante sério e nas mãos alguns envelopes.
– Conselheiros, bom dia. Convoquei-os a esta reunião extraordinária porque acabo de receber o relatório do Centro de Registros. Como é de conhecimento de todos, fatos preocupantes estão acontecendo no planeta Terra. Por causa deles seremos obrigados a cortar o suprimento da canabis terráquea a todos os planetas confederados por tempo indeterminado.
O rumor na sala foi geral.
– Silêncio, por favor, silêncio!
Mas os rumores cresciam e a presidenta Ziegr teve de bater na mesa. Ela entendia perfeitamente o porquê da indignação. Todos já haviam protestado em reuniões anteriores pela diminuição da cota de canabis terráquea para seus planetas e alertavam para o perigo do corte definitivo.
– Eu sabia que isso ia acontecer! – protestou o conselheiro Baqt. – Todos sabiam. Menos o Centro de Registros.
– Por favor, conselheiros. Deixem-me mostrar o relatório antes de discutir o que faremos.
As vozes se calaram e a presidenta Ziegr passou a ler o relatório. Ele dizia que a canabis já não podia ser encontrada com facilidade no planeta Terra e que já se estudava a possibilidade de pesquisar outros planetas para o plantio.
– Bobagem! – levantou-se Baqt, irritado. – Todo mundo está cansado de saber que, exceto a Terra, nenhum planeta desta zona da galáxia reúne condições perfeitas para o plantio da canabis!
– Isso mesmo! – complementou uma conselheira. – Por que gastar verbas com pesquisas inúteis? Precisamos intervir antes que a canabis terráquea seja totalmente extinta.
– Exatamente! Minha família, por exemplo, não fuma um baseado que preste faz mais de um ano – disse Reuzaramon, o mais velho dos conselheiros.
Ziegr escutou com paciência mais algumas considerações. Estavam todos revoltados. Então prosseguiu:
– Conselheiros, a canabis terráquea é material estratégico para a galáxia, todos nós sabemos. Foi ela que propiciou o desenvolvimento ecológico dos planetas confederados e lhes permitiu superar a delicada fase do término dos combustíveis fósseis. Para isso, no entanto, durante milênios as naves da Confederação abordaram a Terra e, na calada da noite, de lá retiraram a canabis para abastecer nossos mundos.
– Eram os deuses astronautas? Não. Eram os deuses maconheiros – sussurrou Reuzaramon para o colega ao lado.
– Agimos assim porque precisávamos da canabis, claro, mas também porque os terráqueos não estavam preparados para nos conhecer – continuou Ziegr. – Agora, porém, grandes mudanças operam naquele planeta e exigem que tomemos uma posição.
– São os mulgélicos, aposto!
– Eles mesmos – respondeu Ziegr.
– Calhordas! – gritou Baqt, erguendo-se. – Por causa deles só estou fumando maconha de Fens, aquela porcaria.
– Conselheiros, semana passada a nave da Monitoria 54 resgatou, da órbita da Terra, uma pequena cápsula contendo informações valiosas. São textos e imagens sobre o momento atual da Terra e que confirmam as informações do relatório do Centro de Registros.
Ziegr entregou a cada um dos conselheiros um óculos projetor, pediu que cada um assistisse com atenção e encerrou a reunião, avisando que prosseguiriam à tarde.
Reuzaramon, o mais velho dos conselheiros, rumou para o jardim dos fundos do prédio, lá era mais agradável. Sentou-se num banco, pôs o óculos projetor e ligou. Enquanto as imagens tridimensionais se formavam à sua frente, ele escutava…
.
A Ecologia toma impulso no planeta Terra no fim do segundo milênio da era cristã com a constatação de que a sociedade industrial e tecnológica produzia riqueza e conforto, mas também gerava um enorme perigo ao planeta e a todas as formas de vida. A partir daí uma crescente conscientização ecológica desenvolveu-se e direcionou os rumos de uma nova noção de desenvolvimento para o planeta: o desenvolvimento sustentável, onde a prioridade é manter os avanços tecnológicos sem abrir mão do equilíbrio ambiental.
No primeiro século do terceiro milênio um acontecimento crucial vem somar-se a toda essa revolução: a canabis, até então criminalizada em quase todo o planeta, é reconhecida oficialmente pela maioria dos blocos geopolíticos como matéria-prima estratégica para a sociedade. O baixo custo, a alta performance produtiva, a não necessidade de agrotóxicos e o seu caráter limpo e renovável a credenciam como a grande alternativa ecológica para a crise dos combustíveis fósseis que se instalara no mundo.
Assim, sob recomendação da ONU, os blocos geopolíticos mudam suas leis e legalizam a canabis. Cultivar, comercializar e consumir maconha deixa de ser crime, e as leis referentes a ela se inspiram nas leis que regulamentam outras drogas legalmente aceitas como o álcool. Dessa planta altamente estratégica extraem-se milhares de produtos essenciais ao dia a dia da sociedade, permitindo que o mundo respire aliviado após décadas de medo e incertezas quanto à saúde do planeta. A planta mostra-se eclética a ponto de ser utilizada também, e com muita eficácia, na medicina terapêutica.
Junto à canabis, outros recursos naturais também passam a ser utilizados dentro dos princípios do desenvolvimento ecológico. A canabis, porém, logo apresenta-se como carro-chefe dessa transformação, pois à sua intensa utilização industrial vem juntar-se o tema das liberdades individuais, gerando providenciais discussões sobre a relação do ser humano com as drogas e a questão do tráfico, da violência e dos interesses econômicos, além de questionar a eficácia dos programas de saúde pública e o tratamento policial dispensado ao usuário.
Nem todos, porém, concordam com isso. Ocorrem protestos em vários setores da sociedade e uma nova organização político-religiosa surge para combater o que ela entende por “exageros da democracia”, como o uso livre da maconha. São os autodenominados mulgélicos (multidões angelicais), fanáticos religiosos de caráter ultraconservador que cultuam a tecnologia máxima e defendem o terrorismo como forma de garantir seus valores. A eles se juntam todos aqueles que discordam da legalização da canabis, e assim a organização cresce e promove atos terroristas por todo o mundo, utilizando tecnologia química e biológica contra a população. Com discurso sedutor às mentes religiosas e amedrontando a muitos com sua política ultrarradical, tomam o poder em alguns blocos e aos poucos conseguem exterminar os principais líderes democráticos.
Estamos sob domínio dos mulgélicos há uma década. Eles governam o mundo globalizado, convocando todos a se entregar aos braços de seu deus, que em breve, creem eles, voltará para carregar os abençoados consigo rumo ao Paraíso, abandonando na Terra os seguidores de Satanás. Os mulgélicos perseguem aqueles que não comungam da crença de seu deus e castram as liberdades individuais conquistadas. Para eles, a canabis é a personificação do Mal e precisa ser combatida com toda a força e métodos possíveis. De nada adiantam os argumentos médicos e sociológicos, de nada valem os direitos humanos: os usuários passam a ser perseguidos pelo mundo inteiro e mortos com crueldade. E o cultivo da canabis, novamente proibido, abre caminho para o retorno de antigas, caras e poluentes formas de produção industrial, intoxicando novamente o planeta e pondo em risco o equilíbrio ambiental.
O culto exacerbado da tecnologia torna cegos os mulgélicos e eles não percebem que estão conduzindo a espécie humana ao seu extermínio. Contra esses argumentos, e até mesmo contra todos os fatos, eles respondem que seu deus está chegando para resgatá-los e assim ficará provado quem está certo.
Hoje, vivemos num planeta praticamente esgotado de recursos naturais e a grande alternativa foi bloqueada pela política repressora dos mulgélicos. O ar, os rios e os oceanos estão sujos. A preservação da fauna e da flora não é mais importante – importante é tentar converter os infiéis. Catástrofes naturais acontecem todos os dias, mas os mulgélicos veem nisso o legítimo cumprimento de suas profecias, o sinal dos últimos dias que antecedem a tão esperada chegada de seu deus.
A única possibilidade que nós, os resistentes dessa ditadura teocrática, vislumbramos foi pedir ajuda a outros planetas. Certamente, há vida em outros mundos, e talvez eles tenham passado por problemas semelhantes aos nossos. Talvez seus habitantes possam ajudar a Terra a reencontrar o caminho das liberdades individuais e do desenvolvimento autossustentável.
Isso é um pedido de socorro interplanetário. Talvez ainda haja tempo de salvar este planeta que já foi tão belo. Ainda podemos reaprender a respeitar as liberdades que pertencem ao ser humano. Clandestinamente, ainda cultivamos os últimos exemplares da canabis em plantações disfarçadas, o que nos proporciona raros momentos de prazer e a esperança de que ainda podemos retomar o crescimento interrompido. Mas tudo está por um fio, pois não sabemos até quando o planeta suportará.
Nosso plano é soltar esta mensagem no espaço, feito uma mensagem de náufrago. Talvez consigamos. É uma operação arriscada e com poucas chances de sucesso. Mas talvez alguma nave a recolha e esta mensagem alcance boas mãos.
.
Reuzaramon retirou o óculos projetor e olhou para o céu. Terra…, sussurrou ele. Era realmente um belo planeta. Lembrou que seu planeta natal vivera problemas semelhantes aos que os terráqueos agora viviam e que a história da evolução das espécies era sempre marcada por momentos cruciais onde velhos e novos valores protagonizavam o dramático teatro do mito do Juízo Final. Antes da criação da Confederação Galática muitos planetas morreram, e com eles o seu povo, por não saber encontrar seu próprio caminho de democracia e desenvolvimento sustentável. Hoje, a Confederação, ciente de que a morte de um planeta empobrece o Universo, estava sempre atenta para tentar ajudar – mas somente quando isso representava a última chance, pois o sagrado princípio da soberania dos mundos regia a Constituição Galática.
O velho conselheiro levantou-se do banco, guardando o óculos no bolso. Olhou mais uma vez para o céu e depois seguiu para a sala. Talvez fosse mesmo o momento da Confederação intervir.
.
– MUITO BEM, CONSELHEIROS – falou a presidenta Ziegr, contando os votos. – A maioria considerou que o Conselho deve intervir no planeta Terra. E que não podemos mais continuar roubando maconha de lá.
– Exatamente. O que está em jogo são os interesses da Galáxia.
– Isso mesmo! Os desvarios de um grupo de fanáticos religiosos não podem interromper a evolução do Universo.
– Mas como interviremos no planeta sem desrespeitar sua soberania? – insistiam os que não concordavam com a intervenção.
Reuzaramon pediu a palavra.
– Conselheiros, nenhum planeta é autônomo no último sentido do termo. Sabemos que todos os mundos estão ligados numa interdependência sutil, mas vital, e o que é feito a um repercute em todos. A Terra é apenas um dos elos dessa imensa corrente que se chama galáxia, que por sua vez é apenas um dos elos do Universo, que por sua vez é apenas um dos muitos universos possíveis. Quanto mais abrangemos nossa compreensão da realidade, mais percebemos o quanto tudo está ligado. O que acontece na Terra está influenciando o destino de outros mundos, e por isso a Confederação deve intervir.
– Você fala assim porque não é o seu mundo que será invadido!
– Conselheiros, por favor, deixem-me terminar. A espécie humana já está madura o suficiente para compreender que não está sozinha no Universo. Além disso, a canabis da Terra é a melhor de todas e ela é indispensável à evolução do planeta. Sem ela, não haverá desenvolvimento autossustentável. Sem ela, a Terra corre o risco de se destruir. E sem a Terra, senhoras e senhores deste Conselho, a Via Lactea enfrentará um grave desequilíbrio.
Reuzaramon foi aplaudido pela maioria. E mesmo os reticentes quanto à intervenção viram sentido em seus argumentos.
– A intervenção já foi decidida – falou Ziegr. – Mesmo assim, resta uma dúvida. Como faremos? Não podemos atacar os mulgélicos, nem podemos plantar canabis no planeta às escondidas.
– Que tal envolver o planeta numa grande baforada de maconha? – brincou alguém. – Assim todos finalmente experimentarão e tirarão suas próprias conclusões…
– O verdadeiro efeito estufa!
– Ou podemos fornecer armas com balas de canabis para os resistentes atirarem nos mulgélicos…
– Conselheiros, por favor. Precisamos de um plano de intervenção pacífica, sem comprometermos nossa carta de princípios. E não dispomos de muito tempo.
– Talvez possamos convencer os mulgélicos a retomar o crescimento ecológico – propôs uma conselheira. – Eles têm de entender que não há outra saída para o planeta deles.
– É inútil, minha senhora – falou Reuzaramon. – Para um fanático religioso, quem não está com ele, está de mãos dadas com o Mal.
Chegaram ao incômodo impasse. A intervenção se fazia necessária, mas parecia não haver maneira de realizá-la sem ferir os princípios éticos da Confederação. Até que Reuzaramon ergueu o braço.
– Amigos, acho que vislumbrei a saída do labirinto.
Todos olharam curiosos para ele.
– Nós sabemos o que pensam os terráqueos, sabemos sobre suas crenças e suas profecias. Isso é tudo que precisamos.
– Explique melhor, Reuzaramon – pediu Ziegr.
– Muitas profecias terráqueas falam do Juízo Final. Parte dos terráqueos já entendeu que a linguagem das profecias é simbólica, que “fim do mundo” é só o fim de uma fase, uma espécie de renascimento para a nova fase, tanto no âmbito individual quanto num âmbito social. Mas outros entendem ao pé da letra e acham que a salvação virá de fora. Estes se acham os eleitos e creem que seu deus, de fato, irá resgatá-los.
Todos ouviam atentos, curiosos por ver onde o velho conselheiro queria chegar.
– Ora, ora… As profecias se realizam porque no fundo as pessoas creem nelas. Se existe a profecia, então ela deve ser realizada.
– Sábias palavras, Reuzaramon. Mas quem vai realizar a profecia? E de que modo?
– Conselheiros… Esqueceram que quem acredita em deuses, precisa de deuses para viver?
Reuzaramon sorriu ao perceber que finalmente começava a ser compreendido.
.
NAQUELA MANHÃ, as nuvens do planeta Terra se abriram e dos céus desceram naves gigantescas, milhares delas, espalhadas por todos os países. Trombetas soaram ensurdecedoras, para todos ouvirem, em todos os cantos do mundo. De cada uma delas saiu um anjo com roupa prateada e grandes asas reluzentes para avisar que o grande dia chegara e que os eleitos seriam levados.
– Aí está! – berravam os líderes mulgélicos com lágrimas nos olhos. – Aí está o Deus Todo Abençoado que veio resgatar seu rebanho querido!
A imprensa do mundo inteiro transmitia o fim do mundo. Nas residências, nas repartições, nas academias, todos se mantinham em frente à TV. Audiência total. Até os botequins estavam lotados.
– Ô, seo Manel! O fim do mundo chegou. Desce aí a saideira.
– Só se você primeiro pagar o que deve.
Os mulgélicos atenderam ao chamado e ocuparam rapidamente os assentos das naves, emocionados, gratificados por sua fé finalmente recompensada. Muitos tentaram se converter de última hora, mas não havia mais lugar nas naves.
– Eu até que queria ir, mas os cambistas estão explorando!
– Que dia pro fim do mundo! Deus podia pelo menos esperar passar o réveillon.
Ao fim da manhã, as naves partiram, levando todos os mulgélicos ao paraíso prometido. Uma nave, porém, a maior de todas, permaneceu no pátio da sede da ONU. Suspense. Bilhões de pessoas acompanhando pela TV. Uma voz ecoou, vinda da nave:
– Amigos terráqueos. Ouviremos agora o pronunciamento da excelentíssima presidenta do Conselho da Confederação Galática, sra. Ziegr.
A presidenta surgiu à porta da nave, de microfone à mão. Pigarreou discretamente e começou a falar:
– Serei breve, amigos terráqueos.
Ela fez uma pausa, juntou as mãos como quem implora, e perguntou:
– Alguém tem unzinho aí?
.
Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com
.
> Este conto integra o o livro
Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha
> Onde comprar. Adquira seu exemplar personalizado
.
.
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
.
.
O dia em que papai e mamãe ficaram muito doidos
18/05/201018mai2010

.
Este conto integra o livro Baseado Nisso – Liberando o bom humor da maconha, de Ricardo Kelmer
.
O DIA EM QUE PAPAI E MAMÃE
FICARAM MUITO DOIDOS
Juninho está preocupado. Seus pais decidiram experimentar um baseado para saber o que o filho via de tão bom nisso
.
– Juninho, eu e sua mãe decidimos fumar um baseado com você.
O menino ficou olhando para os pais, sem acreditar no que escutava. Depois de tantos anos insistindo em conselhos, castigos e orações, seu pai e sua mãe resolveram experimentar para saber o que afinal o filho tanto via num cigarro de maconha. O importante era a união da família.
Juninho ficou tão surpreso, atordoado mesmo, que quando deu-se conta já havia entregue o baseado e seus pais estavam sentados em sua cama, fumando e tossindo. Juninho recusou-se a fumar também, inventou uma desculpa qualquer. Mas a verdade é que alguém tinha de ficar careta para segurar a onda.
– Não tô sentindo nada – reclamou a mãe.
– Calma, Vanda, demora um pouco – explicou o pai com ar de entendido. – Não é, Juninho?
– Você tá bem, mãe?
– Tô ótima, quer dizer, tô normal. Normalíssima – respondeu a mãe, rindo.
– Eu também – disse o pai. – Aliás, nunca me senti tão normal em toda a minha vida.
– Mãe, qualquer coisa tem leite na geladeira, viu?
– Vanda, há algo errado com minhas orelhas?
– Suas orelhas? – ela olhou curiosa para o marido. – Não, Afonso, por quê?
– Elas estão maiores, não?… – Ele apalpava as orelhas, intrigado.
– É normal, pai. É viagem.
– É normal as orelhas crescerem? – perguntou o pai, indo conferir no espelho do banheiro.
– Pois eu continuo normalíssima – observou a mãe, rindo. – Eu e minhas orelhas.
– Tem gente que não viaja da primeira vez, mãe.
– Vanda!!! Vem aqui correndo!
A mãe correu assustada. Chegou ao banheiro e deu com o marido se observando atentamente ao espelho.
– Eu sempre fui assim, Vanda? Sempre?
– Assim como? – Ela não compreendia. Juninho, atrás dela, muito menos.
– Como você pôde aturar essa barba horrorosa durante todos esses anos? Heim?
– Ué? Você sempre disse que era o seu charme…
– Sei não, acho que eu ficaria melhor sem barba.
– Pai… – Juninho começava a se preocupar.
– Não acredito! – exclamou a mãe, erguendo as mãos. – Minhas preces foram ouvidas!
– Mãe, não deixe… – pediu Juninho, assustado com o rumo das coisas. – Isso é viagem, mãe, é viagem…
– Então não se meta na viagem de seu pai – ralhou a mãe.
– Vanda, faz quantos anos que você não solta seu cabelo? – perguntou o pai de volta do banheiro, retirando de repente a fivela da cabeça da mulher. Ela tentou impedir, mas foi tarde.
– Afonso! Dá aqui, dá!
– Não fica melhor assim, filho? Sempre falei, mas ela nunca escutou.
– Pai, eu acho que… será que… vocês…
– Juninho, você tem algum CD aí pra eu dançar com sua mãe? O que é isso aqui?
– É rap. Acho que vocês não vão gostar muito não…
– Tá vendo, Vanda? Precisamos comprar uns CDs pra nós dois.
– Pai, bota um pouco desse colírio aqui…
– Afonso… – disse a mãe, o tom da voz levemente lânguido, como havia muito tempo ela não experimentava. – A noite está ótima… Bem que a gente podia ir dançar. Inaugurou um barzinho aqui perto…
– Sabe que você teve uma grande ideia?
– Não precisava pingar tanto, pai. Mãe, você tem certeza que…
– Vou tomar logo meu banho. Será que ainda sei dançar?
– E por que a gente não toma banho junto? Economiza água…
– Economiza água… Ahahahah!!! Economiza água… – repetiu a mãe, morrendo de rir.
Naquela noite, eles voltaram para casa às três da manhã. Juninho ainda rolava na cama, preocupado. Não conseguira dormir e muito menos estudar para a prova. Escutou abrirem a porta e experimentou um alívio imenso, que bom que estavam de volta. Os dois entraram se esforçando para não fazer barulho, mas não conseguiram.
– Afonso, você ficou um gato sem a barba…
– Aqui não, Vanda, vai acordar o Juninho…
Juninho virou para o outro lado. Não devia ter permitido, sabia que não devia. E se tivessem realmente gostado? E se ficassem viciados, o que podia acontecer? Seu pai tirara a barba depois de vinte anos, ficou tão estranho, não conseguiu olhar direito para ele. E se chamassem os amigos para fumar, o que eles achariam? E o trabalho deles, não podia prejudicar? E a mãe então, nunca vira a mãe rir tanto, parecia uma… uma louca. E se dessem muita bandeira e a polícia descobrisse, a vergonha que seria… Não podia fazer mal à saúde deles? Não era perigoso fumar e sair por aí?
Juninho puxou o lençol, fechando os olhos, tinha de acordar muito cedo. Bem, talvez fosse só empolgação, ele pensou, primeira vez é assim mesmo, pai e mãe são muitos inexperientes para fumar maconha.
Do corredor, ainda chegavam as vozes, abafadas:
– Afonso, onde será que ele guarda?
.
Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com
.
> Este conto integra o o livro Baseado Nisso
Liberando o bom humor da maconha
> Saiba mais/Adquira o seu exemplar personalizado
.
.
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
.
.
01- Oi Ricardo Cara, eu ri demais “No Dia em que papai e mamãe ficaram muito doidos” hahahaha… isso já valeu o meu domingo. Beijos. Ana Cristina Souto, Fortaleza-CE – jan2006
02- adorooooooooooo muito bom…rs. Magna Mastroianni, São Paulo-SP – abr2011
03- Adorei!!! Aliás, tenho lido vários, e tá difícil não gostar de algum, viu?rsrs. Bjão!! Simone Marini, São Paulo-SP – abr2011
04- Esse Ricardão!!! ahahahah :* Gisela Symanski, Porto Alegre-RS – abr2011
A água milagrosa do pastor pilantrão
25/04/201025abr2010
Putz, a que nível chegou a picaretagem religiosa. Esses pastores fazem mais milagres que o próprio Jesus!
A ÁGUA MILAGROSA DO PASTOR PILANTRÃO
.
Lá tô eu, o sofá, a tevê e o controle remoto. Muda daqui, muda dali, nada de interessante pra ver. Mais uma tentativa, zap, zap, e nada. Aí resolvo aloprar. Já que não consigo achar nada de interessante, vou ver o pior da tevê. Zap. Ponho num canal religioso. Putz, religião às vezes me enerva, e fanatismo religioso então, nem se fala. Mas se eu tô num bom dia, até que consigo rir vendo o absurdo que rola nesses canais religiosos. Rio da desgraça alheia, claro, pois é lamentável o que a religião faz com a capacidade crítica das pessoas.
Me ajeito no sofá e começo a assistir. É um canal evangélico. Um salão amplo e um pastor falando pra plateia atenta. O pastor é um negão de paletó, com uma puta pança de cerveja, e sua que nem chaleira, fica o tempo todo passando o lenço na testa. Essas igrejas faturam horrores e nem pra botar um arzim condicionado no culto, eu, heim. Percebo que o pastor tem uma cara de picareta impagável – esse é dos bons. E me ajeito um pouco mais no sofá, porque sei que vou dar risada. Mas nem imagino o que virá.
O pastor pilantrão manda subir ao palco uma senhorinha. Ela tem os seus setenta, muito simples, magrinha, e sobe ajudada por uma moça. O pastor anuncia que aquela senhora foi curada de trinta doenças, sim, trinta doenças, graças a quê? Graças à água milagrosa do rio Jordão. Que o fiel pode, evidentemente, adquirir na lojinha da igreja. Em garrafinhas de meio litro, litrão e garrafão família. E é claro que a água veio mesmo do rio Jordão, não tenho a mínima dúvida disso.
O pastor pergunta e a senhorinha confirma, sim, é verdade, foi curada de todas as doenças, agora tá boazinha. E a senhora trouxe a lista das doenças pra gente conferir?, pergunta o pastor, enxugando o suor da testa. A senhorinha diz que trouxe, sim, e tira um papel do bolso e passa pro pastor. Ele finge que tá impressionado com o caso, dá glória a Jesus, e começa a ler o nome das doenças. Tem doença mais comum, tipo resfriado e dor de cabeça. Tem também tosse de cachorro e frieira. Putz, a água milagrosa do rio Jordão cura até frieira? Essa é milagrosa mesmo.
Aí o pastor lê o resto das doenças. Escurecimento da vista. Foi curada. Passamento. Também foi curada. Espinhela caída. Também. Dor nas costas que responde na perna. Também.
A gargalhada que eu dou faz o gato sair correndo da sala, vruummm, um Ayrton Senna felino. Aumento o volume pra não perder nenhuma doença. Juízo fraco. Foi curada. Estalicido. Também foi curada. Dormência numa banda do corpo. Também foi. Cansaço no coração. Também. Os quarto arreado. Também. Pito frouxo. Também.
Ah, não, pito frouxo é demais, eu não aguento. Começo a passar mal de tanto rir. Percebo que até o pastor pilantrão se segurou nessa hora. Pito frouxo é realmente foda. Gente, como é que esses sujeitos podem ser tão cara de pau assim? E a senhorinha, quanto será que vai levar pra fazer esse papel ridículo? Uma mixaria, claro. Uma zilionésima parte do que será arrecadado ao fim de seu testemunho, ou só um lanchinho mesmo.
Tá pensando que acabaram as doenças? Acabaram nada. Vamos lá. Água nas junta. Foi curada. Zumbido. Foi curada. Gastura. Também foi. Lundu. Também. Entojo. Curada. Farnizim. Curada. Esquecimento. Curadíssima. Juízo incriziado. Também, nunca mais que teve. A pobre da senhorinha só fazia que sim com a cabeça, confirmando, fui curada, sim. Caramba, como que pode caber tanta doença numa criatura tão pequena?
Eu, no sofá, já nem consigo mais respirar, tô passando mal de verdade. Aí o pastor fecha a lista das doenças, dando glória a Jesus pela senhorinha ter sido curada de mau olhado. E de vozes e vultos. E também de sistema nervoso. Ahn? Ela foi curada de sistema nervoso? Mau olhado eu até entendo. Vozes e vultos, vá lá. Mas sistema nervoso é novidade. Doutor, meu sistema tá muito nervoso, me acuda.
Desligo a tevê me acabando de rir. Só faltava o pastor curar também a menopausa da senhorinha. Putz, a que nível chegou a picaretagem religiosa. Esses pastores fazem mais milagres que o próprio Jesus! Eu sento no sofá, enxugando as lágrimas, a barriga contraída de tanto rir. Será que a água milagrosa do rio Jordão cura câimbra no peritônio?
.
Ricardo Kelmer 2010 – blogdokelmer.com
.
.
AS DOENÇAS DA SENHORINHA
Como alguns leitores ficaram curiosos sobre o significado das doenças da senhorinha, resolvi pesquisar. Não consegui todas as respostas que queria, mas trouxe algumas. Se você quiser contribuir, fique à vontade. E se vocês da igreja quiserem incluir essas informações no rótulo da Água Milagrosa do Rio Jordão, cobro 10% sobre as vendas, afinal também tenho direito a meu dízimo.
Dor nas costas que responde na perna – É a famosa inflamação do nervo ciático, que fica na altura da bacia. Quando bate, o cidadão deita até em cama de prego pra passar logo.
Escurecimento da vista – Dá muito quando a gente entra no túnel. Ou quando a gente ainda não almoçou e tem de empurrar carro enguiçado.
Estalicido – Não encontrei nada sobre isso. Será que é mal típico de evangélico picareta? Hum, acho que não. Se fosse, seria “não estalícito”.
Frieira – Irritação na pele dos pés, sobretudo entre os dedos. É geralmente causada pelo frio, daí o nome. Coça pra caramba.
Passamento – Termo usado em regiões do Nordeste que quer dizer desfalecimento, uma perda repentina da consciência. Também conhecido por turica.
Pito frouxo – Aquele velho relaxamento dos músculos do cu que nos acomete com o avanço da idade, o que geralmente nos torna velhos peidões e velhas peidonas. O que não quer dizer, em absoluto, que não existam também jovens peidões.
.
ATEÍSMO E PICARETAGEM RELIGIOSA
Mais picaretagem – Vídeos sobre picaretagem religiosa
A picaretagem não tem fim – Vídeos sobre picaretagem religiosa
ATEA – Assoc. Bras. de Ateus e Agnósticos – Vale a pena conhecer. Ou você tem medo de mudar de ideia?
Neurocientista e escritora Suzana Herculano sai do armário – Bem vinda ao clube, Suzana!
O armário dos ateus – Os dados da ONU desmentem uma velha crença dos teístas, a de que uma sociedade sem Deus fatalmente descambará para a criminalidade e infelicidade geral
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
.
.
01- Tudo isso é caso de polícia. Mas, lamentavelmente, a nossa democracia, ou melhor, a nossa ANARQUIA, permite tudo.Enquanto isso, os bobos vão pagando o dízimo… Paullus – mai2010 (extraído da coluna Kelméricas, no jornal O Povo)
02- Cara não sou evangélico, e nem católico,por isso te digo…A igreja católica, e outras mais por ai, fazem a mesma coisa desde o começo do mundo(1500 anos atráz) e o povo não vê. (ela é mais discreta.) Lembra da sta inquisição? São todos farinha do mesmo saco, só querem poder e dinheiro.Trabalhar que é bom, só o operário….. Carlos – mai2010(extraído da coluna Kelméricas, no jornal O Povo)
03- Religião sempre foi um prato quente para atrais picaretas ecorruptos. Religão, poder e dinheiro sao ingredientes perigosos demais para serem menosprezados! isso é só uma mostra de que quando queremos, podemos ser enganados. Só mudando de assunto, alguem reparou como o colunista se parece com o comediante Rob Shneider? Marcos – mai2010 (extraído da coluna Kelméricas, no jornal O Povo)http://opovo.uol.com.br/colunas/kelmericas
04- cuidado com tuas observações…o amanha á DEUSpertence!!!vc pegou muito pesado com suas criticas!!talvz vc nunca leu sobre a historia do catolicismo e outras por ae….agora valdomiro santiago é um homem de DEUS!!!..tenho pena de pessoas como vc e com esas observações!!! de Deus NINGUEM SE ESCONDE..CUIDADO!!! DEUS EXISTE E É REAL!!!… Anônimo – mai2010 (extraído da coluna Kelméricas, no jornal O Povo)
05- É lamentavel, fico pensando como uma pessoa passa anos na faculdade pra escrever tanta *** . Sinceramente acho que deveria procurar outra profissao. Maria – mai2010 (extraído da coluna Kelméricas, no jornal O Povo)
06- pohh vc estudou tanto …é horivel pessoas que usam qualquer argumento pra chamar atenção!!!…foi muito infeliz da sua parte abordar um assunto ligado a fé do povo…desejo que vc pense mais ao abordar certos assuntos!!!..afinal vc estudo e lutou…que vergonha!!!..nunca zombe do trabalho de DEUS!!!qm avisa amigo é..!!! Coitado – mai2010 (extraído da coluna Kelméricas, no jornal O Povo)
07- CONCORDO PLENAMENTE COM VC RICARDO KELMER ISSO E UMA ALIENAÇÃO COM O POVO UMA FALTA DE RESPEITO. Jessyka – mai2010 (extraído da coluna Kelméricas, no jornal O Povo)
08- Boa KEL cara muito boa…pessoas criticam pq devem ser da igreja e sabe muito bem q tem suas picaretas! é assim msm a realidade poucos gostam! Rodrigo – mai2010 (extraído da coluna Kelméricas, no jornal O Povo)
09- Nossa Ricardo kelmer ri muito desta sua dissertação sobre a água milagrosa. Imaginei cada cena e achei hilária sua narrativa. Gislaine Rodrigues da Silva, Belo Horizonte-MG – fev2016
10- Por aqui há ar de Fátima enlatado à venda. Imagina ar de Jerusalém, deve curar umas 36 doenças e ainda dá conta da menopausa! Susana X Mota, Leiria-Portugal – ago2019
11- Muito bom! Chorei de rir! Márcia Morozoff, Luziânia-GO – ago2019
12- Kkkkk. Ficou engraçado demais essa crônica. Felipe Muniz Palhano Xavier, Fortaleza-CE – set2019
VINICIARTE – Cenas do espetáculo
05/04/2010Ricardo Kelmer 2010
Oba! Tá no ar mais um vídeo do VINICIARTE. Este novo vídeo tem duração de 7m46 e contém trechos de algumas apresentações realizadas em 2010. Pra quem ainda não conhece o espetáculo, dá pra ter uma boa ideia. Acho que nesse vídeo conseguimos passar um pouco do clima de poesia, romantismo e humor que rola no Viniciarte, as músicas e os poemas, a interação com a plateia, o charme do improviso, as brincadeiras com o Bedê… E, é claro, o encanto da voz e da beleza de nossa cantora Vanessa Moreno.
VINICIARTE – Vida, música e poesia de Vinicius de Moraes
ENREDO: Três amigos ensaiam o espetáculo sobre Vinicius de Moraes que apresentarão em 2013, no ano de seu centenário, mostrando poemas, músicas e fatos curiosos sobre a vida do poeta. No clima descontraído do ensaio, entre erros e acertos, eles descobrem as variadas facetas de Vinicius e sua real dimensão na cultura brasileira.
TEXTO E DIREÇÃO: Ricardo Kelmer
COM o escritor Ricardo Kelmer e os músicos Vanessa Moreno e Moacir Bedê
APRESENTAÇÕES MENSAIS no Esp Cult Alberico Rodrigues (Pça Benedito Calixto, 159 – Pinheiros – SP-SP)
> PROX. APRESENTAÇÕES
VENDAS para escolas, empresas, clubes e hotéis
Leve o Viniciarte até SUA CIDADE!
Celia Terpins – 11-9129.1530 – celiaterpins@gmail.com
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)
.
.
01- To contando os dias pra isso! beijos! e divulgarei bastante entre meus amigos! Bruna Barreto, Fortaleza-CE – abr2010
02- Tomara que um dia vocês e o Poeta da Paixão baixem aqui neste Terreiro de todos os Deuses, Demônios e bruxarias! Beeeeijo ser de mil e uns… talentos!!!! Que as Musas estejam sempre contigo!!!! Elas cataram todos os pedaços de Orfeu da Paixão despedaçado. Por que será que as mulheres dionisíacas dilaceraram Ele todinho? Por que, RK? Se tu tiveres uma pista diz pra mim, ok? ORFEU DA PAIXÃO SEMPRE ME ATAZANOU TAAAANTO!!!! NEI SEI A RAZÃO, MAS TU, VINÍCIUS E ORFEU CHEGARAM AGORA NO MESMO PACOTE. SERÁ O PACOTE DOS MARCADOS/FERRADOS COMA A MARCA DA PAIXÃO? MISTÉÉÉRIO….! Patrícia Lobo, Salvador-BA – abr2010
03- queria ver…vem para os USA…haha – Tatiane Falcon, Lake Ozark-EUA – abr2010
04- Sinto-me orgulhoso por ter na programação do Espaço Cultural Alberico Rodrigues o espetáculo VINICIARTE, um dos mais bonitos eventos que já se apresentaram na casa. A atuação dos artistas Ricardo Kelmer, Vanessa Moreno e Moacir Bedê encanta a todos. Alberico Rodrigues, São Paulo-SP – abr2010
05- Acabei de ver no blog o vídeo do viniciarte!!!!está muito bom !!!!! Será que posso começar a me animar em vc por aqui?me conta seus planos!!!!!!!!!!!!!!!!bjss saudades!!! Ana Maria Alcântara, Rio de Janeiro-RJ – abr2010
06- Meu querido e genial amigo Ricardo! Que espetaculo Maravilhoso! Vem para o Canada!!!!!!! Andrea – Windsor-Canadá – abr2010
07- vc sempre envolvido em projetos, q massa! Maria do Rosário Araújo, Campina Grande-PB – abr2010
08- Super bacana, Ricardo! Traz esse evento pra terrinha, traz!! Quero ser uma das primeiras a sentar à mesa com o poetinha e … poetar! Meire Viana, Fortaleza-CE – abr2010
09- vi o video do Viniciarte. Tao bonitoooo e, mais ainda, de paletò! Vou trazer uma gravata italiana pra voce. 😛 Aluska, Campina Grande-PB – mai2010
10- Estive no espetáculo em homenagem a Vinicius de Morais e parabenizo o elenco, músicos , cantores e poétas pela maravilhosa atuação! Grande Abraço! Marcia Villela, São Paulo-SP – jun2010
Cauby, eu sou seu ídolo
31/03/201031mar2010
Cauby, poderoso, tem o gesto exato pra cada momento, seja pra pedir o solo do teclado, seja pra tirar o lencinho do bolso e enxugar a testa
CAUBY, EU SOU SEU ÍDOLO
.
Cauby Peixoto faz show na Boate Oásis. E eu, que nos meus 34 anos nunca vira o Cauby de perto, pensei: É agora ou nunca mais. Sem querer botar mau agouro pra cima de ninguém, será que teria outra chance de assistir ao show desse monstro da música brasileira? Monstro no melhor sentido, claro, que ele não se ofenda. Até porque sua plástica continua resistindo bravamente ao tempo.
But Cauby is Cauby. E ele adentra o palco elegantérrimo num impecável conjunto amarelo-sóbrio, calça vincada e jaleco de zíper, nem um amassadinho sequer, a banda toda a caráter, uau. Peço uma vodca e me surpreendo emocionado. O homem está ali no palco, a cinco metros de mim, “sentimental eu sou… eu sou demais…”, o imortal Cauby. Tomo um gole. Fabiana comenta sobre o cabelo dele, que nem mulher consegue cachos tão perfeitos… Inveja, Cauby, inveja dessa gente.
Cauby, poderoso, tem o gesto exato pra cada momento, seja pra pedir o solo do teclado, seja pra tirar o lencinho do bolso e enxugar a testa em pequenos pousos tipo almofadinha de pó. Os olhos puxados brilham sob a luz dos refletores e ele vive profundamente cada verso de El Dia que me Quieras… Comoção geral, aplausos, suspiros. Cauby ergue a mão esquerda e, sutilmente, põe dois dedos a agradecer, dois dedinhos, nem mais nem menos, gesto clássico. Ou seria uma bênção? Eu, por mim, tomo mais um gole. E reconheço abençoado: o homem conhece mesmo o reino dos refletores.
No meio do show, pausa pra deixar subir ao palco um fã mais exaltado. Surpresa: é um rapaz dos seus 20 anos, visivelmente emocionado. Cauby o abraça e recebe com classe a homenagem do admirador juvenil, ah, l’amour, l’amour… Depois diz à plateia como é gostoso ser reconhecido pelos jovens. Não duvido, não duvido. O rapaz, à beira do choro, quer falar. A plateia assiste enternecida. Cauby estica o microfone e ouvimos a voz nervosa do moço: “Cauby… eu sou seu… sempre fui seu… ídolo…” Heim? Eu sou seu ídolo? Foi isso mesmo que ouvi? Olhamo-nos sem acreditar, eu e Fabiana, rindo do absurdo da coisa. Eu sou seu ídolo é demais. Cauby certamente pensou: será que eu conserto essa frase? Prudentemente, deixou como estava.
“Veja só, que tolice nós dois brigarmos tanto assim…” Cauby apresenta o tecladista, diz que ele é seu grande maestro, a plateia aplaude. “Conceição… eu me lembro muito bem…” Cauby abre o jaleco, deixa aparecer a camisa preta, põe elegante a mão no bolso e homenageia Nat King Cole: “When i fall in love… it will be forever…” Depois imita admiravelmente Sarah Vaughan, como só ele pode fazer. Então puxa o banquinho, senta-se, deixa seu maestro introduzir uma canção de notas tristes e abala Paris em chamas: “Ne me quites pas… Ne me quites pas…” Lembro emocionado de Maysa.
O clímax vem no fim com Bastidores, presente de Chico Buarque, música que é a sua cara, encarnada e esculpida. Cauby solta sua voz vitaminada, desliza o olhar pela plateia, delicia-se com os homens lá pedindo bis, bêbados e febris a se rasgar por ele. Mas Cauby, o cruel, não concede bis algum. Desce rápido ao camarim onde o aguarda entrevista pra tevê.
Aproveito pra ir ao banheiro. Lá, na parede, encontro um cartaz do show com a foto de Cauby ao lado de outro que dizia “Temos bolinho de bacalhau”. Salvo Cauby daquela má companhia e levo o cartaz ao camarim, pra que meu fã pouse nele sua sagrada dedicatória. Mas que nada. Meia hora de espera e o empresário insensível explica que Cauby está moooorto de cansado, ontem fez show e amanhã fará outro. Aplico a cara de pau: “Mas seo Zé, nós viemos de Teresina porque perdemos o show lá… Mas seo Zé, peça ao menos pra ele autografar este cartaz…” Tsc, tsc, nada feito. Cauby está tão cansado que certamente desfaleceria com tamanho esforço. Apelo pro desespero: “Mas seo Zé, eu também já tive uma banda de rock e sei como é importante a relação do fã com o ídolo…” Foi tão boa que não convenceu.
Vamimbora, Fabiana, esqueçamos o artista e sua ingratidão que ele não merece nossa tristeza. Devíamos é tê-lo deixado no banheiro, ao lado dos bolinhos de bacalhau. Ao atravessar a rua, porém, eis que passa por nós, num carro… quem?, quem? Ele, o monstro, sagrado e extenuado, sendo levado ao seu hotel. Acenamos empolgados, um restinho de esperança de que ele nos veja e acene também, pelo menos isso…
E não é que o danado nos vê? E não é que acena? Uau! São só dois dedinhos, assim sutilmente, bem rapidinho, uma migalha de atenção. Ou seria uma bênção? Mas acena, é o que importa. E pronto, esquecemos a frustração, vibramos de alegria. Dormiremos felizes. Um dia direi em minhas memórias que naquela madrugada de setembro de 1998 Cauby Peixoto acenou pra mim. Pra mim. Seu ídolo. Uau.
.
Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com
.
> Este texto integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos
.
LEIA NESTE BLOG
A celebração da putchéuris (Intocáveis Putz Band) – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band
Vingativas – Duas mulheres raptam um ator famoso e, como vingança por ele tê-las desprezado, levam-no a um hotel, amarram-no e…
Abalou Sobral em chamas – Abram as portas da esperança! Que entrem as candidatas a Cinderela!
O dia em que morri no Rock in Rio – O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários
Maluquice beleza – Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra
Paz e amor express – Durante cinco dias, o Festival Express cruzou a leste-oeste do verão canadense levando em seus vagões os ideais da união pela música, a esperança ainda viva de um mundo de paz e amor
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
.
.
01- Adoro ler esta, Kelmer! Parabéns. Felipe Barroso, Fortaleza-CE – abr2005
.
Breg Brothers com fígado acebolado
20/03/201020mar2010
Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…
BREG BROTHERS COM FÍGADO ACEBOLADO
.
Em abril de 1989 eu havia fechado meu bar, o Badauê, e decidi formar um conjunto musical, com meus amigos Cadinho e Jabuti. Nasciam Os The Breg Brothers. Objetivo oficial: homenagear a legítima música brega, aquela que ainda resiste em radiolas enferrujadas pelos bares da periferia. Bem, sejamos francos: na verdade tudo era mesmo uma grande raparigagem, mero pretexto pra encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos.
No dia do primeiro show, correndo pra não chegar atrasado, avancei o sinal na Antonio Sales e trombei noutro carro. Cadinho nada sofreu, mas eu cortei a boca. Foi Bia, tiete do fã-clube, quem nos socorreu. Improvisei bigode postiço pra disfarçar o ferimento e fiz o show. Pra você ver o grau de profissionalismo.
Impecáveis, nos apresentávamos em paletós brancos, flor na lapela e cabelo com gomalina. Românticos, jogávamos rosas pra plateia. Cantávamos os três e Jabuti tocava violão, com a banda por trás, no bom sentido. Compúnhamos e interpretávamos sucessos de mestres como Odair José, Genival Santos, Fernando Mendes e os Pholhas. Tudo com bom humor, sim, mas com muitíssimo respeito, por favor. Nossos nomes artísticos: Kelmo Lonner, Johnson Batista e Glaydson Gil. Nos vocais de apoio a beleza e as performances estonteantes de minha irmã Luce Érida e Daniele Ellery, mais conhecidas no mundo artístico das paradas de ônibus como Lucieuda Vai-Mais-Um e Danisléa Camburão. Nós sonhávamos com os programas do Irapuan Lima e da Hebe Camargo.
O Big Bang que originou o universo do movimento humorístico-musical de Fortaleza estava ainda em seus três primeiros segundos. Lailtinho Brega, Rossicléa, Meirinha e Neo Pi Neo eram estrelas em formação. Falcão já era estrela de brilho local, recém-saído da Arquitetura, e em breve brilharia no país inteiro. Os Necessários, do fenomenal Moacir Bedê, também já aprontavam, chegando a fazer no Badauê um show tão lotado que vendemos lugar até nos galhos da mangueira. Nesse cenário surgiram Os The Breg Brothers, com seu elegante brega de cabaré. Chiquérrimo.
Depois de conquistar um valioso 3º lugar no Festival de Música Brega do Pirata (Lailtinho em 1º e Meirinha & Rossicléa em 2º) e realizar o sonho de cantar com nosso ídolo Oswaldo Bezerra, o rei do brega do Pará, recebemos convites pra cantar em clubes e bares. E planejávamos gravar um LP, incluindo composições nossas como Menina do Lacinho Cor de Rosa, Tango do Padeiro e Samba do Bombril. A glória batia à porta, prometendo luzes e camarins. Quando fomos abrir, não era exatamente dona glória, era uma proposta profissional pro Jabuti, irrecusável. E lá se foi nosso genial compositor e guitarrista morar em Teresina. Eu e Johnson Batista ficamos tão arrasados que quatro meses depois, sem forças pra continuar, cancelamos os shows, avisamos o fã-clube e demos baixa no sonho.
Mas valeu. Foram muitas horas no boteco do Genival, que a continuação da avenida Desembargador Moreira, em nome do progresso, passou por cima. Cachaça com fígado acebolado, que delícia. E uns velhos discos arranhados na radiola do Genival. E mais uns patos, imagina, uns patos que andavam pelo quintal, ao lado de nossa mesa, acompanhando com quá-quás nossas inspiradas dores-de-cotovelo.
Um dia, voltávamos de uma farra, eram seis da manhã. Descíamos a Desembargador Moreira com a desavergonhada intenção de abrir o boteco do Genival, ainda não satisfeitos com a bebedeira. Então, eis que acontece aquilo que ficou conhecido no submundo do crime desorganizado como “o dia em que a vida do Cadinho deu uma virada”. Ele foi fazer o retorno em plena ladeira, mas calculou mal a velocidade: o fusca suspendeu as rodas laterais, foi virando, virando e, bufo!, virou. O fusca ficou de lado no asfalto, com Cadinho e Jabuti lá dentro. Eu vinha em meu carro atrás e parei, meio assustado, meio rindo do absurdo. Vi a cabeça de um jabuti saindo com dificuldade pela janela do carro virado. Naqueles dias o Jabuti estava engordando, de forma que entalou na janela e não conseguia sair. Embaixo dele Cadinho o empurrava, já desesperado, pois a gasolina escorria pelo asfalto. Cena inesquecível.
Com muito esforço Jabuti conseguiu passar pela janela, Cadinho saltou fora e desviramos o fusca. Felizmente arranhara pouco. Outros certamente ficariam assustados e terminariam na missa das seis da igreja de São Vicente, arrependendo-se dos pecados. Nós não: desceu uma estranha euforia e nos abraçamos, rindo e nos parabenizando pela aventura. Pra comemorar o feito, fomos beber Tiller’s Club (ai, a liseira…) e compor umas canções.
Hoje, morando aqui em Ipanema, vejo da janela da sala a lagoa Rodrigo de Freitas. Tem uns patos lá, sabia? Pois é, foram eles que me lembraram do boteco do Genival. E me inspiraram a escrever sobre os Breg Brothers, esse tempo em que a maior preocupação era encontrar um bar aberto de manhã. E o acorde certo pra dor de cotovelo.
.
Ricardo Kelmer 1996 – blogdokelmer.com
.
> Este texto integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos
.
.
Apresentação no Festival Brega do Pirata (1989)
.
.

Os The Breg Brothers ensaiam (Praia do Icaraí-CE, 1989)
.
O RETORNO
Em 1993, Os The Breg Brothers ressurgiram das cinzas com a chegada do garoto prodígio Rossé Rian, substituindo o saudoso Glaydson Gil. Rossé Rian trouxe alegria, vitalidade, juventude, poesia… Hummm, que é isso? Ele era o Bambi?
A nova formação, montada pro show no Cotó Clube do Montese, contava ainda com os vocais irresistíveis de Dani Gut-Gut e Sandra Sandrão, que bateu a foto e depois sumiu, arrependida daquela putaria toda. Veja a foto. Perceba o semblante de Lonner, preocupado com o empresário que sumiu com a grana, Rossé Rian cuidando de uma tiete, Dani Gut-Gut abalando em seu modelito Oncinha Paraguaia e Johnson Batista em sua clássica pose “E aí, gatinha, que tal um Tiller´s no meu muquifo?”
.
O REENCONTRO
Esta foto histórica, de 1997, mostra o tão aguardado encontro de todos os Breg Brothers. É claro que tinha que ser num balcão. Glaydson, já morando em Berlim (é o nosso Breg Brother mais chique), passava férias em Fortaleza. Uísque com catchup de tiragosto. Velhas canções, antigos chifres relembrados. Perceba Lonner chorando por uma safada acolá que o trocou por um dono de pizzaria. Rossé Rian era novinho, mas já usava boné pra esconder os chifres. Glaydson se esguelando, sofrendo por uma alemã que era atriz pornô. E Johnson sempre arrasado, coçando a testa. Ô sofrimento.
.
MENINA DO LACINHO COR-DE-ROSA
Johnson, Lonner e Gil
Quando entrei no cabaré
Todo mundo se divertia
Nessa noite que rolava
Todo mundo aproveitava
A festa acontecia
Numa mesa mais escura
Vi uma cena comovente
Uma menina ainda nova
Com um lacinho cor-de-rosa
Me sorria tristemente
…Menina do lacinho cor-de-rosa
…Teu lugar não é aqui
…Levanta que eu te levo embora
…Vem que eu te faço ser feliz
Fui sentar na sua mesa
E ela logo me falou
Estranho pode parecer
Mas não procuro o prazer
O que eu quero é o amor
E me disse com a voz meiga
Num beicinho de chorar
Ainda não sou bem crescida
Mas já sei que nesta vida
O importante é amar
.
TANGO DO PADEIRO
Johnson, Lonner e Gil
Tudo era tão bonito
Quando eu te conheci
Você ficava deslumbrada
Com os presentes que eu lhe dava
As luzes do Iguatemi
Te dei calça Fiorucci
E um apartamento duplex
Da DeMillus dei de presente
Uma camisola transparente
Você ficou tão sexy
Você dizia que eu era um pão
Que eu era o fermento da sua vida
Mas me trocou pelo padeiro
E hoje o meu dinheiro
Não vale um semolina
.
.
LEIA NESTE BLOG
A celebração da putchéuris – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band
Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro
Ser mulher não é pra qualquer um – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro
Minha vida com Jim Morrison – Acordar e pegar logo uma cerveja pois o futuro é incerto e o fim estará sempre por perto
Vinicius Show de Moraes – Um show que homenageia Vinicius com suas músicas, seus poemas e as histórias da sua vida
Trilha da Vida Loca – Um show que une literatura e clássicos da dor de cotovelo
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
.
.
01- Pero prefiro esse brega “estilizado” de vcs!!! Lia Demétrio Aderaldo, Fortaleza-CE – abr2010
02- Ihvna Chacon iiiiiieeeeeeiiiiiiiiiiii – Ihvna Chacon, Fortaleza-CE – nov2010
03- Pra Luce: “Eu vou tirar voce desse lugar…” Nino Cariello, Fortaleza-CE – jan2011
04- Porra num sei onde tú tá com a cabeça que não empurra esses teus textos e livros prá psiquiatria…É MUITO BOM PRA DEPRESSÃO!!! kkkk Levanta o astral de qualquer propenso a putaria!! Ronaldo Rego, Fortaleza-CE – mar2011
RK: Breg Brothers cura depressão. Assim o nosso cachê vai aumentar, Ronaldo.
05- Ainda que esta escola aceite matrículas involuntárias de todos os homens, é Impressionante o quanto os escritores e artistas cearenses conscientes se declaram pós-graduados nessa filosofocornologia. 🙂 Lazaro Freire, São Paulo-SP – mar2011
RK: Sr. Lazaro Freire. Comunicamos que seu cadastro foi aprovado. Informamos também que não aceitamos desistência pois, de acordo com a sabedoria popular, ex-corno não existe.
RK: Teoria kelmérica sobre essa fixação do homem cearense com a questão da CORNAGEM. Acho que é aquela coisa: se você não pode com seu inimigo, una-se a ele. Cansado de lutar contra a natureza fogosa de suas conterrâneas, que simplesmente não se satisfazem com um homem só (ou uma mulher só), o homem cearense decidiu relaxar e fazer graça com a coisa. A cornagem, então, deixa de ser um mal que acomete o homem traído, um sofrimento sem cura, e se transforma numa grande GOZAÇÃO, motivo de piadas sem fim, fruto da capacidade de fazer humor com a própria desgraça. Se não for isso, então é outra coisa.
06- vidas passadas muito bem… éramos feliz e sabiamos muito bem… Gilberto Fonteles (Jabuti), Berlim, Alemanha – mar2011
07- rsrsrssssss… Muito bom! Estamos lindosssss!!!! Daniele Ellery (Danisléa Camburão), Rio de Janeiro-RJ – mar2011
08- Foi muito bom!!!Mas bom mesmo, foi quando a platéia jogou os pães semolina de volta na gente…….. Luce Galvão (Lucieuda Vai-Mais-Um), Fortaleza-CE – mar2011
09- Meu, tempos bons, não!!!! hahaha….a diversãoé o sentido da vida!!!!!! Ana Luiza Cappellano, Jundiaí-SP – mar2011
10- e vi também a nossa no Pirata com os Breg Brothers. Legal ter publicado! Isabella Furtado, Modena-Itália – abr2014
Cerejas ao meio-dia
28/02/201028fev2010
Linda e poética, ela dá a volta no carro e todas as buzinas se calam. Claro, um poema de cereja em plena avenida, não é todo dia
CEREJAS AO MEIO-DIA
.
Alto meio-dia de sábado. Converso com um amigo, à porta de sua loja, os carros passando na avenida, quando de repente ela surge. Caminhando na calçada, devagar e tranquila, aquele jeitinho avoado dela. Cabelinho solto. Sandalinha. E o vestidinho vermelho. Hummm, o vestidinho… Sabe cereja de bolo? Dessa cor. Quando vejo, a cereja sorri pra mim, aquele olharzinho sapeca que já desconcentrou muita estátua importante. Aquele sorrisinho doce que eu conheço e que me faz ficar derretido. Que nem chantili na boca.
Mas para o mundo um pouquinho, por favor, para. Devo estar vendo coisas. Aceno pra ver se é verdade. É verdade, ela dá com a mãozinha assim, meio torto, cereja é adoravelmente desajeitadinha. A brusca poesia da cereja que passa, diria o poeta. Mas talvez seja miragem, digo eu. Nunca se sabe, esse sol forte na moleira, melhor conferir. Num impulso, deixo o amigo falando sozinho, entro no carro e acelero. Anteontem ela estava na fila do cinema, o mesmo vestidinho, e eu fiquei louco pra puxar papo, mas fico tímido quando me interesso por uma mulher, é uma desgraça. E agora ela de novo, o destino dando uma forcinha, convém não rejeitar. Se por causa de um grito se perde a boiada, imagine uma cereja.
Crau! Cem metros depois lá está a cereja caminhando. Encosto devagarinho pra ela não assustar, os carros buzinando atrás: A dama de vermelho quer carona? Ela para, sorri chantili e ajeita o cabelinho que o vento despenteia, ajeita de novo, despenteia, ô vento chato, né? Ela imediatamente faz piada com o fato de estar com o mesmo vestido da noite do cinema. Deixe disso, cereja, por mim você pode usar esse vestido todos os dias, viu, usar e tirar, usar e tirar… Não, eu não digo isso, claro, só penso. Minha canalhice não vai a tanto. Lembre-se, sou um sujeito tímido.
Linda e poética, ela dá a volta no carro e todas as buzinas se calam. Claro, um poema de cereja em plena avenida, não é todo dia. Não era pra estar ali, é uma falha na Matrix. Ela entra e senta, perninhas juntas. Tento não olhar, juro, mas não dá. De perto é ainda mais suculenta. Ai, ai, somos dois desajeitados num momento crucial da vida. Como são ridículos os terráqueos… Procuro algo pra dizer, mas tenho a mais absoluta certeza que direi bobagem. Penso em coisas triviais, mas subitamente me toco que tudo que penso tem conotações sexuais, que coisa impressionante a minha mente. De carro é mais gostoso, né? Ou: se quiser reclinar o banco…
As opções são péssimas. Decido então falar do tempo. Mas quando abro a boca… ela pede pra eu parar, havíamos chegado. Já?! Que pena, eu ainda tentava sintonizar uma FM. Ela agradece, beijinho no rosto e desce. O lobo mau fica no carro, tristonho, olhando Vestidinho Vermelho atravessar a rua, sem entender o sentido de tudo isso. Não, tem que haver algo mais, as deusas do destino têm muito o que fazer, elas não se dariam ao trabalho de promover esse reencontro e tudo terminar assim, não, não faz sentido…
Os impulsos, ah, os impulsos… Ei, tenho um presente pra ti!, grito de repente, é a primeira coisa que me vem. Ela se vira e vem até a porta. Entrego-lhe um exemplar de Indecências para o Fim de Tarde, digo que é presente de aniversário. Ainda está longe, ela responde, e eu contra-ataco: o tempo é relativo, beibe. Hummm, que idiotice. Ela sorri sem jeito, e diz um obrigado daqueles que entra por um ouvido e não sai mais. Aí acontece algo incrível, algo que nem mesmo minha mente pecaminosa ousaria prever: cereja se inclina… aproxima seu rosto e… me beija levemente… no cantinho… da boca. E vai-se embora, faceira e cruel como só as aparições do meio-dia podem ser. Não. Isso não se faz com o cidadão trabalhador e pagador dos seus impostos. Não se faz.
Babando chantili. Ainda estou lá, sentado dentro do carro, babando chantili. E séculos se passam. Nascem e morrem os impérios… Eras glaciais… O sol se apaga… Quando dou por mim, ela já sumiu. Cerejinha se foi. Dessa vez, pra sempre. Ou pelo menos até o nunca mais do quem sabe quando. Mas quando? Eu sei. Quando ela, súbita falha na Matrix, surgirá atrapalhando o trânsito, vindo novamente suculenta em seu vestido vermelho. Sim, o vestidinho vermelho, que ela não sabe, e nem vocês vão dizer, é segredo, mas ela veste especialmente pra mim.
.
Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com
.
Esta crônica integra o livro
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino
Com que propriedade um homem pode falar sobre o universo feminino? Neste livro RK ousou fazer isso, reunindo 36 contos e crônicas escritos entre 1989 e 2007, selecionados em suas colunas de sites e jornais, além dos textos inéditos. Com humor e erotismo, eles celebram a Mulher em suas diversas e irresistíveis encarnações. Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido. Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.
.
LEIA NESTE BLOG
Insights e calcinhas – Uma calcinha rasgada pode mudar a vida de uma mulher? Ruth descobriu que sim
Mulheres que adoram – Dar prazer a uma mulher. O que pode haver de mais recompensador na vida?
Kelmer Para Mulheres – Nesta seção do blog, homem fica de fora
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
.
.
01 – Muito fofo!!!! Christina, Rio de Janeiro-RJ – mai2006
02- adoreeeii. Danielle Freire Milfont, Fortaleza-CE – mar2011
03- Gostei tbm… rsrsrsrss. Michelle Costa, Fortaleza-CE – mar2011
04- Adoro todo vestido vermelho… Já li este conto p um grupo de internos de uma casa de saúde mental. Só uma louca p levar a obra de um louco p os outros. Paula Izabela, Juazeiro do Norte-CE – mar2011
05- adorei a ‘cereja’. Gloria Sousa, Fortaleza-CE – mar2011
06- Uma delícia, adorei!! 🙂 Mabel Amorim, Campina Grande-PB – mar2011
07- Essa história aconteceu de verdade? Lindalva Barbosa, Fortaleza-CE – nov2013
08- Sempre trabalho esse texto em sala. Eles adoram! Dalu Menezes, Fortaleza-CE – nov2013
09- Adorei! Hummmm… porque o texto tem aquele flerte meio sapeca nele, o tipo que deixa o dia da gente mais feliz, sabe? Não aquela coisa forçada de pegação, mas só aquele gostinho, que faz a gente querer mais. Só que não pode, muita cereja doce de uma vez só da dor de barriga… Marina LF, Porto Alegre-RS – nov2013
10- Será que realmente os homens reparam em mulheres na rua assim? Ou só reparam em cerejinhas mesmo? Marina LF, Porto Alegre-RS – nov2013
11- Rsss…. imaginação fértil. Claudia Maria Crivellente, São Paulo-SP – nov2013
12- amei demais!!! Luciene Maia, Fortaleza-CE – nov2013
13- Nesse, como em outros contos RK Eu sempre fico vendo a cena, imaginando as pessoas exatamente com cada palavra, respiração… Enfim dou bastante risada com o desastrado sedutor da história… E tem códigos embutidos é? kkkkk Cereja má mesmo, mas quem manda ele ser lento? Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – nov2013
14- Hummmm bom. Sandra Allegreti, Fortaleza-CE – nov2013
15- Continuas sonhando, nem Freud explica. A gente continua o mesmo, so o tempo passa hehehe. Roberto Studart Soares, Fortaleza-CE – nov2013
16- Ricardo meu parabéns adorei, vestidinho cereja e sorriso chantili… Grazy Ribeiro, Orlândia-SP – jan2017
17- Viagei …Ricardo rs muito Lindoooo. Jeane Russo, Praia Grande-SP – jan2017
As vizinhas que a crise traz
24/02/201024fev2010
Jessi passou o gel e a fantasia de Rahbe foi devidamente realizada, enquanto minha pequena fazia o complemento, beijando e masturbando nossa generosa vizinha
AS VIZINHAS QUE A CRISE TRAZ
As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi
.
Más notícias. Perdi a última coluna de jornal que me restava. Pelo jeito os caretas do MNBC conseguiram convencer mais um editor de que Diametral é um péssimo exemplo pra juventude brasileira. Que bosta. Esse tal Movimento Nacional pelos Bons Costumes nos elegeu inimigos mortais, a mim e a Ninfa Jessi, desde que começamos nossa sexualíssima campanha pela ampliação do diâmetro do mundo.
– Ei, gatão, não nos abatamos! – Ninfa Jessi procurou logo me animar. – Em momentos de crise, vale a estratégia do cocô: é indo em frente que a gente encontra a saída.
O que seria de mim sem a sabedoria da minha pequena…
Rooooonc! O estômago deu o aviso: cinco da tarde e a gente nem tinha almoçado ainda. Fui na cozinha e abri a geladeira: uma garrafa dágua e um ovo. A coisa tava feia. Saímos catando dinheiro pela casa e tudo que conseguimos foi juntar quinze pratas. Me deu vontade de chorar. O que se faz numa situação dessa?
– Ora, o que qualquer cara de bom senso faria: daria a grana pra namorada ir no supermercado – falou Jessi, me tomando o dinheiro. – Nessas horas mulher sabe gastar melhor.
Meia hora depois Ninfa Jessi voltou do supermercado. Abri a porta do apartamento, ela me entregou a sacola e anunciou, toda solene: Hora de comemorar a crise! Na sacola havia uma garrafa de vodca vagabunda e um pacotinho de tiragosto. Sábia Jessi. Foi quando percebi, humm, que ela não viera sozinha, hummmm, havia uma garota parada atrás dela, de shortinho, camiseta e sandalinha, hummmmmmm.
– Encontrei Rahbe no elevador. Ela veio comemorar a crise com a gente.
Ninfa Jessi não presta. Rahbe é a ninfeta do 702 que adora acompanhar as aventuras sexuais de Diametral e Ninfa Jessi em minha coluna no jornal. Ops, minha ex-coluna. Que bosta, nem gosto de lembrar. Maldito MNBC. Rahbe me deu dois beijinhos e entrou na sala. Belo e volumoso par de peitos Rahbe tinha. Ideal pra fazer espanhola.
Dez minutos depois estávamos no tapete da sala, ouvindo The Doors, que Jessi adooora, e mandando ver na vodca. Na segunda dose ela e Rahbe chegaram à conclusão que eu deveria criar um blog pra continuar publicando nossas aventuras e brindamos a essa ideia. Depois Jessi serviu uma dose dupla pra todos e quis saber da ninfeta qual a nossa aventura que ela mais gostava, e Rahbe disse que era a transa com as enfermeiras na festa à fantasia, que aquilo a havia excitado bastante pois ela queria ser enfermeira. Na metade da garrafa, já bem animadinha, Jessi proclamou, soleníssima, que a melhor função da roupa sempre foi ser tirada, sapientíssima Jessi. Dito isso, fez um strip-tease completo, ao som de The Spy, em homenagem à nossa peituda vizinha que, ao final, aplaudiu bastante, maravilhada com a performance de minha pequena. Tão maravilhada que, tchum, pulou sobre ela.
As cenas seguintes eu assisti de camarote, as duas enlouquecidas no sofá num festival de línguas e dedos, cena de altíssima voltagem. Como Jessi sempre diz que nenhum homem chupa uma mulher como outra mulher chupa, aproveitei que elas faziam um meia-nove e tratei de aprender um pouco mais sobre o assunto. Em outras palavras: hora das fotinhas. Câmera na mão, registrei o valioso momento, até que não me controlei mais e entrei na festa, pedindo pra Rahbe me fazer uma espanhola naqueles peitões irresistíveis, o que ela fez com muita propriedade, acho que já tava acostumada ao pedido. Depois Rahbe cochichou no ouvido de Jessi, que sorriu e me disse:
– Gatão, ela quer ampliar o diâmetro. Vou buscar o gel.
Caramba, mais uma com essa fantasia de ser enrabada pelo Diametral. Fazer o quê, né? Enquanto Jessi ia no quarto pegar o gel, pus a ninfeta de quatro no sofá e, após verificar que o cu da moça era do tipo semirrosa, um tipo de valor 8,5 no mercado, fiz as preliminares com a língua até deixá-la alucinada, elas sempre ficam alucinadas com isso. Depois Jessi passou o gel e a fantasia de Rahbe foi devidamente realizada, enquanto minha pequena fazia o complemento, beijando e masturbando nossa generosa vizinha. Generosa e escandalosa. Caramba, como aquela menina berrava! Na reunião seguinte do condomínio os espiões do MNBC teriam um prato cheio pra reclamar. Povo recalcado. Não trepa nem deixa ninguém trepar.
Pedimos pra ela dormir com a gente mas Rahbe explicou que tava de recuperação em química e tinha prova no dia seguinte, ainda precisava estudar. Ninfeta responsável, exemplo bonito de se ver. Rahbe nos beijou e voltou pra casa toda felizinha, levando seu diâmetro semirrosa 8,5 devidamente ampliado. Agora ela não seria apenas uma simples leitora das aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – seria personagem. E antes de ir ainda deixou uma curiosa sugestão pra Jessi:
– Por que você não entra no ramo de strip-tease pela internet? Tem gente ganhando superbem com isso, sabia?
Mas Jessi não gostou muito da ideia. De manhã, porém, enquanto me despertava com seu tradicional boquete sabor menta, minha pequena já havia mudado de opinião:
– Começo amanhã mesmo, gatão. Vou usar aquele quartinho do fundo. Vinte minutos, cinquenta pratas. Ninfa Jessi, sua amante virtual. Que tal?
Ninfa Jessi não presta.
.
Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.com
.
.
> Confira os bastidores e as imagens desta aventura de Diametral e Ninfa Jessi. Exclusivo pra Leitores Vips. Basta digitar a senha do ano da postagem.
> Mais aventuras de Diametral e Ninfa Jessi
.
.
SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG
As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – Um casal apaixonado vive seu amor libertino com bom humor e muita safadeza
As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz
Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?
O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir
.
LEIA NESTE BLOG
Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres
.
DICA DE LIVRO
Indecências para o fim de tarde
Ricardo Kelmer – Contos eróticos
Uma advogada que adora fazer sexo por dinheiro… Um ser misterioso e sensual que invade o sono das mulheres… Os fetiches de um casal e sua devotada e canina escrava sexual… Uma sacerdotisa pagã e seu cavaleiro num ritual de fertilidade na floresta… A adolescente que consegue um encontro especial com seu ídolo maior, o próprio pai… Seja provocando risos e reflexões, chocando nossa moralidade ou instigando nossas fantasias, inclusive as que nem sabíamos possuir, as indecências destes 23 contos querem isso mesmo: lambuzar, agredir, provocar e surpreender a sua imaginação.
A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e salvação por meio da submissão no sexo anal
.
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
.
.
Jessi passou o gel e a fantasia de Rahbe foi devidamente realizada, enquanto minha pequena fazia o complemento, beijando e masturbando nossa generosa vizinha
Clube dos Espertinhos – Claro
17/02/2010Ricardo Kelmer 2010
Enlouquecer o cliente é fundamental
Desde dez2004 sou usuário da operadora Claro. São cinco anos fiel a uma operadora. Em minha inocência, achei que os clientes mereceriam mais consideração quanto mais antigos e fiéis fossem. Ô ilusão. Em 2009 a dona Claro me aprontou duas que quase me fizeram trocar de operadora.
A primeira foi me impedir de fazer ligações durante duas semanas. Por mais que eu ligasse, explicasse e provasse que não devia nada, a Claro não foi capaz de consertar o erro rapidamente. Liguei umas vinte vezes pra merda do 1052, anotei uma cacetada de número de protocolo, esquentei a orelha no telefone durante dias e nada.
Tudo começou com Pâmela. Mas a ligação caiu. Liguei novamente e falei com Samanta, que me passou pra Mariane, que me deixou esperando por meia hora e nunca mais voltou, deve ter morrido. Finalmente consegui falar com Liliane, que garantiu que em 48 horas o problema estaria resolvido. Putz, quarenta e oito horas, tudo isso? Bem, eu já tinha esperado três dias, dava pra aguentar mais dois.
Aguentei e, dois dias depois, nada de poder ligar. Liliane mentirosa. Falei então com Laurineide, que explicou que, na verdade, o prazo de conserto era de 5 dias úteis. O quê, cinco dias úteis?! Depois dessa maravilha de informação, pedi pra falar com a supervisora. Aí veio Janice. Dona Janice, o lance é o seguinte, eu não posso esperar cinco… alô?… alô? Caiu a ligação. Como toda boa supervisora, Janice certamente sabe que enlouquecer o cliente é fundamental.
Mudei a minha tática e fui diretamente na loja do shopping Eldorado, falei com Letícia. Que me atendeu com cara de paisagem e me passou pra Eliene. Que não resolveu. Voltei pro maledeto 1052 e falei com Elaine. Após 25 minutos de conversa e espera, espera e conversa, a ligação, obviamente, caiu. Pra resumir, depois vieram Daniel, Adriana e Indianara e mais e mais números de protocolos. A Claro só me deixou ligar normalmente depois de 15 dias da primeira reclamação. Recebi uns créditos a mais, é verdade, e isso até me confortou um pouco mas, pela desorganização da empresa, desconfio que isso não foi proposital e sim mais um erro que, pelo menos dessa vez, veio em meu favor.
Em dezembro troquei de plano e de novo mais confusão. A Claro se atrapalhou e não me passou o bônus a que eu tinha direito e ainda me cobrou valores indevidos. Demorei dois meses pra resolver o problema, depois de ir três vezes na loja e ligado várias vezes pro maledeto 1052. A Claro deu uma de João Sem Braço pra cima de mim: se colar, colou. Mas não colou porque eu esperneei, enchi o saco do pessoal da loja e no final o valor que eu paguei a mais me foi restituído. Mas não tô satifeito. E o tempo e dinheiro que perdi ao telefone e indo e vindo da loja? E a chateação? Sim, vou reclamar e encher o saco novamente. Querem me passar perna? Agora aguentem.
Como a Claro sabe que somente uma minoria dos clientes faz como eu, ela prossegue errando nas contas e cobrando sem querer valores indevidos. É uma estratégia bastante lucrativa. Por isso a Claro é a nova integrante do Clube dos Espertinhos, pra fazer companhia ao Pão de Açúcar e ao Tetra Supermercado (Lindóia-SP). O clube tá crescendo.
.
Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com
.
.
LEIA NESTE BLOG
> Clube dos espertinhos – Pão de Açúcar – Uma empresa séria não obriga seus clientes a ficarem de olho na própria empresa, com medo de a qualquer momento serem ludibriados
> Clube dos Espertinhos – Tetra – Fiquei olhando pra nota e pra etiqueta no pacote, me sentindo o Otário do Ano, sem acreditar que eu havia caído de novo no golpe do preço duplo
> Clube dos Espertinhos – Claro – Enlouquecer o cliente é fundamental
> Aviso prévio de traição – A partir de hoje poderei te trocar por outra a qualquer momento. Basta que ela sorria pra mim e que me faça agradinhos. E me dê o que você nunca quis me dar
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)
.
.
A volta da Intocáveis – Oh não!
12/01/201011jan2010
Um show com os restos mortais da Intocáveis Putz Band
Dezembro de 2009 em Fortaleza. Uma raríssima conjunção astrológica, que ocorre a cada dez mil anos, fez com que eu (que moro em São Paulo), Toinho Martan (mora em Brasília) e Flávio Rangel (de volta de BH) estívessemos todos na cidade, junto com Moacir Bedê (mora em São Paulo). Desde 1994, quando eu ainda estava na Intocáveis, que não tocávamos todos juntos. Não resisti à ideia: quital um show pra comemorar esse glorioso momento?
Show marcado pra 29dez2009, terça-feira, no Bar do Papai. Tudo a ver, pois foi num bar administrado por Carlinhos Papai, o Compasso, em mar1994, que a banda fez seu show de estreia. E agora o show revival: Intocáveis Putz Band – A volta dos que já deveriam ter ido.
– Pô, cara – resmungou Martan, preocupado com a altíssima probabilidade de pagar mico. – A gente vai fazer um show sem nenhum ensaio?
– Não vejo nenhum problema – falei, eu como sempre sem qualquer noção de perigo.
– As crianças não vão gostar.
– Fica frio, Martan. Ninguém vai sacar que isso é coisa de artista decadente querendo faturar um troco pro Natal.
– Isso não vai dar certo.
– Cara, NUNCA deu certo – explicou Flávio, com toda sua lógica sem-noção. – Então, não será dessa vez que vai dar errado.
E assim foi. Deu tudo certo porque a fuleragem já é uma coisa errada por natureza. Bar lotado, as intoquetes em polvorosa, amigos que havia tempos não se viam, gente com saudade dos shows da Intocáveis e gente que nunca viu e queria ver – afinal tem gosto pra tudo. E, é claro, gente que chegou no bar e quando percebeu o que o esperava, deu meia-volta e se mandou.
Tocamos os nossos mais insuportáveis sucessos, inclusive o Particularmente eu prefiro quiabo cru, a pedido da fiel intoquete Maria Fernanda. Quer dizer, tentamos tocar, pois ninguém lembrava mais da letra, nem eu, que sou o autor. Nilton Fiore na percussão e JP no baixo seguraram a onda, junto com Flávio e Martan no violão. Eu filmei o show em meu celular e, é claro, subi ao palco e mandei ver no Manifesto Neomaxista Liberal: pelo direito de brochar sem ter que dar explicação, por uma delegacia de defesa do homem, pelo direito de dormir dentro…
Infelizmente Emílio Schlaepfer, o baixista oficial, e Karine Alexandrino, nossa Barbarella Pop-Star, não puderam comparecer. Ele porque virou pastor em Brasília e ela porque se recuperava da cirurgia de reversão de sexo. Neo Pi Neo e Ernesto deram suas canjas e Christiane Fiúza encantou a todos e a todas cantando Eu quero uma mulher. E Moacir Bedê, evidentemente, interpretou seus eternos e gosmentos sucessos Listen e Loving you, com seu afiadíssimo inglês de Cambridge.
Fiquem tranquilos. Garantimos que esse foi o primeiro e último revival da Intocáveis Putz Band. Pelo menos até a próxima conjunção astrológica.
.
Ricardo Kelmer 2010 – blogdokelmer.com
.
INTOCÁVEIS PUTZ BAND – A volta dos que já deveriam ter ido
Show com os restos mortais da Intocáveis
Bar do Papai, Fortaleza – 29dez2009 – Fotos: Levy Mota
.
Toinho Martan, Flávio Rangel, JP e Nilton Fiore segurando a onda
.
Christiane Fiúza: o nascimento de uma nova Intocável
.
Como eles conseguem rir das mesmas besteiras durante 16 anos?
.
Toda o charme, a beleza e o algo mais da intoquete Juju
.
Moacir Bedê: com ele a putchéuris consegue ser ainda maior
.
Ernesto e Neo Pi Neo: briga feia pelo microfone
.
.
.
LEIA NESTE BLOG
A celebração da putchéuris – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band
A volta da Intocáveis – Oh não! – Um show com os restos mortais da Intocáveis Putz Band
Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro
A sociedade fela da puta de Geraldo Luz – Suas músicas são baladas de melodias simplórias, conduzidas por uma inacreditável verborragia que mistura crítica social, literatura, filosofia, anarquismo, sacrilégios explícitos e sodomismos irreparáveis
Ser mulher não é pra qualquer um – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro
Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…
Galinha ao molho conjugal – Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?
.
> Ouça e baixe músicas da Intocáveis Putz Band
.
– AA Alcoólatra
– Canto bregoriano
– Elizabeth & Flávia
– Manifesto neomaxista liberal
– Meu nome é Mário
– Mulher
– Mulher (remix)
– Ovo virado
– Rapariguinhas do bairro
– Severina
– Sexy sou
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
.
.
01- Caraca, K. Isso foi farra boa. Quem sabe em 2020 a gente repete… Antonio Martins, Maceió-AL – fev2011
02- Se voltar vai sacaniar – Andre Soares Pontes, Fortaleza-CE – fev2011
O ridículo das religiões (filme)
02/01/2010Ricardo Kelmer 2010
Veja o filme pois certamente você rirá do absurdo das crenças dos outros. E, se tiver um mínimo senso de autocrítica, vai dar risada também das suas
Por que, em vez de falar diretamente a todos, Deus envia mensagens apenas a um ou outro escolhido, fazendo com que as pessoas sejam obrigadas a acreditar cegamente em tudo que eles dizem?
Será que os cristãos sabem que a história de Jesus Cristo é mais uma cópia de outras histórias anteriores sobre deuses que nasceram de mães virgens no dia 25 de dezembro, que fizeram milagres, foram mortos e ressuscitaram no terceiro dia?
De sexta pra sábado Deus proíbe os judeus de apertarem botões mas é possível enganá-lo usando-se maquininhas, criadas pelos próprios judeus justamente pra este fim. Mas o que Deus acha de ser enganado?
O comediante estadunidense Bill Maher percorreu alguns países entrevistando cristãos, judeus e muçulmanos e fez a eles perguntas simples, do tipo que as crianças fazem, e o resultado é hilário. Dirigido por Larry Charles (“Borat”), o documentário Religulous (religion + ridiculous) mostra com bom humor a irracionalidade das crenças religiosas e o perigo que elas representam pro futuro do mundo e conclama ateus e não-religiosos a saírem do armário. Você é religioso? Veja o filme pois certamente você rirá do absurdo das crenças dos outros. E, se tiver um mínimo senso de autocrítica, vai dar risada também das suas.
Que bom que filmes como esse estão sendo feitos. Isso indica que as pessoas não religiosas se sentem mais livres pra expor sua opinião sobre a religião e os malefícios que ela causa à humanidade. Somente assim a religião perderá seu injustificável privilégio de não poder ser criticada.
.
Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com
.
.
Religulous
2008, 101 min, Documentário
Classificação: 16 anos
Direção: Larry Charles / Roteiro: Bill Maher
Elenco: Bill Maher
Sinopse: O popular comediante Bill Maher viaja a destinos religiosos e analisa com humor as diferentes perspectivas sobre a religião. No documentário, Maher entrevista católicos, judeus e muçulmanos, entre outros credos. Do mesmo diretor de “Borat”.
.
Religulous – Treiler
.
.
LEIA NESTE BLOG
> Bem vindo ao clube dos excomungados – Pra Igreja o pecado de estuprar ou assassinar alguém é menor que o de praticar um aborto
> Memórias de um excomungado – Eu jamais havia cogitado a ideia de que era possível não ter religião ou não acreditar em Deus
> A menina, a exorcista e a cantora – Primeiro a menina é usada como laboratório de novas técnicas de exorcismo. Agora é usada como objeto de promoção de igreja evangélica. ATENÇÃO: CONTÉM MENSAGENS POUCO RESPEITOSAS DE FANÁTICOS RELIGIOSOS
> Religião certa e sexualidade errada – Com exceção daquelas mais ligadas à Natureza, as religiões atuais foram criadas por homens e refletem a mentalidade patriarcal dominadora
> Religião no esporte é gol contra – Se nada for feito, a religião invadirá os campos e quadras e o esporte virará uma cruzada entre os jogadores e seus deuses. ATENÇÃO: CONTÉM MENSAGENS POUCO RESPEITOSAS DE FANÁTICOS RELIGIOSOS
> Santa Luana, livrai-nos dos fanáticos – Crer que o ser supremo do Universo tá do meu lado e castigará quem discorda de mim e que o meu deus é real e os outros são mentira – isso não é fanatismo? ATENÇÃO: CONTÉM MENSAGENS POUCO RESPEITOSAS DE FANÁTICOS RELIGIOSOS
> Meu futuro de popistar cristão – Meus shows seriam superanimados, sempre acompanhados de meu time de ruivinhas cristãs de minissaia, as Noviças Viçosas
> O mundo é uma mentira – Este filme mostra o quanto a história é manipulada pelas elites religiosas e econômicas, que “criam” os fatos e nos fazem todos acreditarmos neles, lutarmos por eles, matarmos por eles
> Religião no poder é fogo – A primeira vítima da promiscuidade entre poder e religião é justamente o maior dos sustentáculos da democracia: a liberdade
.
MAIS SOBRE ATEÍSMO
> ATEA – Assoc. Bras. de Ateus e Agnósticos – Vale a pena conhecer. Ou você tem medo de mudar de ideia?
> Neurocientista e escritora Suzana Herculano sai do armário – Bem vinda ao clube, Suzana!
> Religulous (filme) – O comediante estadunidense Bill Maher percorreu alguns países entrevistando cristãos, judeus e muçulmanos e fez a eles perguntas simples, do tipo que as crianças fazem, e o resultado é hilário.
> Ateus.net – Bom site sobre ateísmo.
> Ateus do Brasil – Mais um bom site sobre ateísmo.
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)
.
.
01- Este texto mereceria uma resposta assim: se eu tivesse que ter uma religião só minha seria adorar você. Claire, São Paulo-SP – fev2011
A celebração da putchéuris (Intocáveis Putz Band)
20/12/200920dez2009
A história fuleragem da Intocáveis Putz Band
A CELEBRAÇÃO DA PUTCHEURIS
A história fuleragem da Intocáveis Putz Band
.
Boa noite. Nós somos a Intocáveis Putz Band e fazemos música com humor, humor com sexo e sexo sem amor. Com amor, preço a combinar…
Num belo dia de março de 1994, Toinho Martan, um pacato pai de famílias, me convidou pra montar uma banda. Eu, que não toco nada e canto menos ainda, mas que sempre sonhei ter uma banda, topei, afinal festa é o que nos resta. Estávamos excitadíssimos. O destino batia à nossa porta e nos acenava com possibilidades mis. Havíamos encontrado… o gênio da lâmpada.
‒ Queremos ganhar um milhão de dólares!
‒ É isso aí. E ser mundialmente conhecidos!
‒ E comer muitas mulheres!
Mas gênio da lâmpada no Ceará é liso, sabe como é, e tínhamos direito somente a um pedido. Dilema cruel. Que fazer? Muita calma nessa hora. Tratamos de pesquisar as piadas e estudamos bem o comportamento dos gênios. Eles são sacanas, deturpam os desejos alheios. Então, pra garantir, fomos logo ao que interessava e escolhemos as mulheres. Lembro que o gênio ainda perguntou se era isso mesmo, se não gostaríamos de pensar mais um pouco… Nós confirmamos, convictos. Ele então bateu as mãos e, puff!, sumiu no ar.
Nossa primeira cantora, Daniele Rogério, saiu da banda depois que o namorado viu os shortinhos que ela usaria nos shows. Decidimos então resgatar uma alma penada que cantava Tigresa aí pelos bares. Chamava-se Karine Alexandrino. Era insegura e dada a chiliques de artista, mas cantava bem e tinha uma beleza exótica, além do talento performático. Devia estar muito louca quando decidiu ser cantora de uma banda de malucos tarados. Sorte nossa.
Faltavam as vocalistas. Publicamos anúncio procurando “modelos bonitas com boa voz, interessadas ligar à noite”. Lembro de uma que teve a péssima ideia de levar o namorado pra entrevista, pode? Namorado não entende dessas coisas, minha filha. Infelizmente o anúncio não funcionou, mas tivemos sorte e pela banda passaram vocalistas maravilhosas como Valeska, Natasha, Fabiana e Luciana. A nata dos músicos também viajou na onda: Rian, Valdo, Claudinho, Nonô, Carlinhos, Vini, Denilson, Bedê, Ellis Mário, Pantico, Marcio, Vocal das Águas, Tim, Jabuti, Rossé… Era mais ou menos como filme dos Trapalhões: é ruim mas todo mundo quer participar. Os shows, sempre regados a muito uísque e improviso, eram uma molecagem só. As entrevistas, então…
‒ Afinal, qual a proposta musical da banda? ‒ perguntou o repórter, confuso.
‒ Divulgar os sagrados valores da putchéuris uêi ófi láifi cearense.
‒ Putchéuris?
‒ E também incentivar o bissexualismo feminino.
‒ Mas… o que significa isso?
‒ Você quer dizer: o que swingnifica isso?
Música, teatro, canalhice e humor. “Você prefere quiabo cozido ou quiabo cru? Questão de gosto, ô meu. Eu, por exemplo como cru e todo mundo come o seu.” Uísque, escracho e diversão. “Bem-aventurados enfim todos vós que atentais contra a moral e os bons costumes, vós que dais de comer à obscenidade e à alegria, vós que instigais a carícia e a polícia…” Tietes generosas, desbundes homéricos, ensaios que sempre terminavam em festa. “Pelo imprescindível direito de ver os gols da rodada, inclusive no motel!” ‒ eu gritava no Manifesto Neomaxista Liberal (com x mesmo), que criamos pra defender os direitos pós-modernos do pênis sexual masculino, é isso aí. Era o ponto alto do show. Os homens vibravam de euforia a cada item, as mulheres vaiavam e xingavam e o circo pegava fogo. Festa é o que nos resta.
No Anima Café Concerto, botamos uma cama de casal no palco e fizemos o show deitados. O show foi ótimo, mas divertido mesmo foi levar a cama num bugre, dá pra imaginar? Bebi tanto nessa noite que agarrei até minha irmã. Na Concha Acústica, me agarrei também, mas foi com um bando de metaleiros que no meio de Marinara subiram ao palco e arrancaram a Playboy cujo pôster central nos servia de partitura. Meu sangue ferveu quando vi a coitada da Marinara toda arreganhada voando de um lado pra outro na plateia. Fiz uma coisa inacreditável: larguei o microfone, saltei no meio dos caras e briguei até recuperá-la. Que coisa. Acho que naquele tempo eu era imortal… E assim, com shows como esse, a banda seguia, célere e predestinada, rumo ao glorioso… anonimato.
Faltava um clipe pra MTV. Então juntamos o cachê de cinco shows, rifamos uma noite de amor com o baixista Emílio, deixamos de beber por um mês e, ufa!, contratamos a produtora. Divulgamos no jornal e a boate Via Giulia ficou lotada. Como queríamos todo mundo no maior clima de alegria, liberamos a bebida. Não foi uma boa ideia. Depois, analisando as imagens, só o que se via era o garçom com a bandeja, passando na frente da câmera pra lá e pra cá. O clímax do fracasso foi quando nosso convidado especial, o músico Moacir Bedê, vestido de Chapolim e cheio de cerveja na cabeça, surtou no meio da música e desceu marretadas na cabeça do câmera, tôim, tôim, tôim! A marreta era de borracha, tudo bem, mas o câmera, coitado, estava trabalhando sério, concentrado. Resultado: o cara se aporrinhou, largou a câmera e foi embora. Lá se foram pelo ralo cinco cachês e um sonho de MTV.
Mas a verdadeira desgraça ainda estaria por vir. Um dia, ela morreu. Alexandrino? Não, a loira Savannah. Então fizemos um show-tributo pra mais bela (e sempre bem disposta) das atrizes pornô, com um telão atrás do palco a exibir uma de suas melhores performances, aquela da poltrona. Um casal foi embora indignado: pagamos pra ver um show de música e não sexo explícito! Flávio e Emílio, é claro, tocaram o tempo todo de costas pra plateia. Outra vez, montamos, junto com a Trupe Caba de Chegar, um divertido teatrinho com a música Libera a Pamonha, onde um policial de repente invade o palco e interrompe o show, alegando que tá todo mundo empamonhado. Uma crítica divertida à hipocrisia dos nossos costumes, que festejam drogas legais e marginalizam outras menos nocivas, que ridículo. Mas deixa esse papo pra lá que ele faz muita fumaça…
Em 95, mudei-me pro Rio de Janeiro. Larguei a banda pra seguir minha carreira de escritor. Mas minha participação prosseguiu via DDD: Alô?, Ricardo, o Martan e a Alexandrino brigaram de novo, a banda vai acabar, tá uma merda, você tem que falar com eles… Virei fonoterapeuta de banda, era o que faltava em meu currículo. Todo mês a banda acabava. Pra meu alívio, Alexandrino e Martan se entenderam, muito bem até, constituindo a união musical mais festejada da cidade desde Ayla Maria e Raimundo Arraes, uau. A banda foi deixando certos amadorismos, tocando melhor e ficando mais conhecida. A putchéuris continuava, claro, mas os shows agora caprichavam em efeitos e figurinos, Alexandrino desabrochava como a genial artista que é, cada vez mais Barbarela Pop-Star, e Martan se consolidava como a “glande cabeça pensante da música pop alencarina”. Vixe.
Em 99, cinco anos depois, saiu o primeiro CD, A Arte Menor da Intocáveis Putz Band. Demorou tanto que quando saiu, a banda já havia terminado. É um CD póstumo, portanto. Martan teve de chamar todos de volta e ensaiar pro show de lançamento no anfiteatro do Dragão do Mar. Bem, pelo menos o show foi inesquecível. Eu, Rian e João Netto tivemos participação fundamental: vestidos de mulher, corríamos alucinadas pela plateia agarrando os homens. E a crítica especializada em putchéuris, o que achou? Bem, se o próprio Martan vomitava no palco, seria natural que os críticos fizessem o mesmo ao escutar o disco, né?
No CD estão, devidamente registradas pra posteridade, os gôudem rítis Rapariguinhas do Bairro, AA Alcoólatra, Mulher, Sexy Sou e, é claro, Elizabeth & Flávia, o invejável menagiatruá que Martan viveu em Jericoacoara. Até seo Manel do Ferro Dentro, folclórico pastorador de carros da barraca Opção Futuro, participa com sua embolada Severina, que ele batuca no peito lá no estacionamento da barraca, pode pedir que ele faz. Tem também o Manifesto Neomaxista Liberal, claro, mas em estúdio não tem graça. O erro imperdoável foi não terem gravado Particularmente Eu Prefiro Quiabo Cru, um sensível tratado sobre preferências sexuais.
Hoje, dez anos depois do primeiro ensaio, aquela ex-alma penada dos bares fortalezenses é uma consagrada atriz e cantora: Alexandrino é um sucesso. Dizem até que ficou melhor ainda depois da mudança de sexo. Martan tem três lindas filhas e um eterno caso com seu violão. Flávio e Emílio continuam fiéis à música e às mulheres. E quanto a mim há controvérsias. Alguns boatos dão conta que me mandei pra Campina Grande e fundei uma seita pagã cujo culto acontece no meio do mato, sob a lua cheia, com dezesseis virgens vestais saltitando nuas ao redor da fogueira. Outros dizem que imitei Jim Morrison e morri na banheira de uma quitinete em Copacabana e que meu corpo está exposto pra visitação pública no banheiro do Roque Santeiro. Não nego nem confirmo.
Boas lembranças. Não me arrependo de nada. Talvez devesse ter bebido um pouco menos pra hoje lembrar de mais coisas. Porém, pensando bem, foi tudo perfeito do modo como foi. Bem, é verdade que às vezes, quando vejo minhas contas atrasadas, me pergunto se eu e Martan fizemos mesmo o pedido certo ao gênio. Talvez devêssemos ter pensado um pouquinho mais e… Mas acho que fizemos o pedido certo, sim. Não temos um milhão de dólares nem somos celebridades. Mas pelo menos teremos sempre boas histórias pra contar. No fim da festa, admitamos, é o que nos resta
.
Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com
.
.
> Músicas da Intocáveis Putz Band
> Baixe o disco (1999) 25mb
– AA Alcoólatra
– Canto bregoriano
– Elizabeth & Flávia
– Meu nome é Mário
– Mulher
– Mulher (remix)
– Ovo virado
– Manifesto (apresentação)
– Manifesto neomaxista liberal
– Rapariguinhas do bairro
– Severina
– Sexy sou
.
Intocáveis. Putz Band, 1994 (foto: Ricardo Batista)
Embaixo: Karine Alexandrino, Ricardo Kelmer e Toinho Martan.
Em cima: Flávio Rangel, Emílio Sclaepffer, Claudinho Nonô, Claudio Gurgel e Ana Valeska.
.
CURIOSIDADES
– O CD tem quatro capas, à escolha do freguês. A capa vermelha, do bonequinho, é de Sávio Queiroz, mecenas intelectual da banda.
– No início a banda se chamava Intocáveis Funck Band. Num show da calourada da Biologia da UFC, a banda mudou o nome, só por uma noite, pra Intocáveis Mitocôndria Band.
– A revista Playboy era usada como partitura na música Marinara, de Fausto Fawcett.
– O primeiro show foi no bar Compasso (Praia de Iracema, em fev1994), que era administrado por Carlinhos Papai. E o show de reencontro (29.12.09) foi no Bar do Papai, cujo dono era… Carlinhos Papai.
– O Reggae da Pamonha (escute aqui) não entrou no disco. Libera a pamonha, porra!
.
Intocáveis procura modelos-vocalistas (1994). A melhor candidata que apareceu levou o namorado pra entrevista, pode uma coisa dessa? Claro que foi reprovada.
.
Intocáveis. Putz Band, 1996 (foto: Ricardo Batista)
Da esq. p/ dir.: Emílio Sclaepffer, Valdo, Natasha Faria, Toinho Martan, Karine Alexandrino, Claudio Gurgel, Carlinhos Perdigão e Flávio Rangel.
.
.
VÍDEOS
Há pouquíssimos registros em vídeo da banda. Se você sabe de algum, por favor comunique.
.
Show em Fortaleza (Anima Café Concerto, jul94). A música é Corpo Vadio, da banda paulistana Nau. Quem canta é Daniela Rogério, que ainda estava na banda. A cama de casal no palco a gente levou num buggy, acredita? E tocamos uma das músicas todos deitados nela, aiai…
.
Compilação de duas matérias de TV por ocasião da gravação do CD, que aconteceu entre 1997 e 1998, e foi lançado em 1999.
.
QUADRINHOS
Toinho Martan tomou para si a inglória missão de desenhar a história da Intocáveis em quadrinhos. Confira aqui.
.
FALARAM POR AÍ
Performance e irreverência – Matéria do jornal O Povo sobre a cena musical fortalezense dos anos 1980 e 1990 (30.09.18)
.
A VOLTA (por uma noite)
A volta da Intocáveis – Oh não!
Um show com os restos mortais da Intocáveis Putz Band
.
.
LEIA NESTE BLOG
Ser mulher não é pra qualquer um – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro
A volta da Intocáveis – Oh não! – Um show com os restos mortais da Intocáveis Putz Band
Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro
A sociedade feladaputa de Geraldo Luz – Suas músicas são baladas de melodias simplórias, conduzidas por uma inacreditável verborragia que mistura crítica social, literatura, filosofia, anarquismo, sacrilégios explícitos e sodomismos irreparáveis
Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos
O dia em que morri no Rock in Rio – O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários
Todo mundo tem um lado cabaré – Toda vez eu tremo quando penso no desafio que é dirigir algo que, na verdade, é impossível de se controlar. Mas no fim sempre dá certo
Galinha ao molho conjugal – Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?
.
.
Em 2012, Ricardo Kelmer iniciou uma parceria com Felipe Breier, e juntos passaram a se apresentar com show musicais-literários como o Vinicius Show de Moraes e o (este mais no clima da putchéuris) Trilha da Vida Loca.
TRILHA DA VIDA LOCA
Contos e canções do amor doído
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
–Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
.
.
01- Tive o prazer de ver aquele besteirol inteligente e idiota ao mesmo tempo no Jokerman, numa noite de domingo escaldante regada a muita cerveja e panfletagem de Karine Alexandrino com o manifesto bissexual feminino, perfomances bestiais de RKelmer e Loving You desafinadíssima e falsete do Paraguai de Moacir Bedê. Foi demais. Pouco tempo depois criei Os Moi, não com a mesma proposta, mas com o sarcasmo e besteirol inteligente que vocês faziam, além da fusão de sons que fazíamos. Fomos de 1994 a 1999 (primeira fase) e de final de 2000 a 2004. Por falência e rumos diferentes (filhos, mulheres, dinheiro, faculdade, emprego, uns ricos, outros pobres e outras mazelas que você conhece). Tenho o CD de 4 capas. Abraço. Jofran Fonteles, Fortaleza-CE – dez2009
02- Como não lembrar dessa experiência auditiva,mas tinha seu valor, fala sério! Teca Baima, Fortaleza-CE – dez2009
03- cínicos…kkkkkk. Renata Regina, São Paulo-SP – fev2011
04– Bons tempos… Ronaldo Caldas, Fortaleza-CE – fev2011
05- Muito legal!! Bom ler e recordar! Grande abraço! Marcio Roger, Fortaleza-CE – ago2011
06- Uma de suas melhores crônicas. literatura libidinosa e humorística de primeira. esse comentário swingnifica que… queremos mais! cru ou cozido, tanto faz. rsrsrs. Erika Zaituni, Fortaleza-CE – set2011
07- Kelmer, Não teria o que nao curtir, eu lhe conheço, embora nao faça parte desta consequencia…. que pena, mas algum dia algéum bebe. Espero que não seja eu sozinho. Espero que John Lennon não se configure mais como aquele que não saiu com Elton John nem com Yoko Ono – que mancada? ( só gil pra não transformar em cilada o sexo dos ancients egipicians). TODO MUNDO TREPA – Já dizia Roberto Freire por palavas inapropriadas. Você É, e eu não posso discutir isso a nao ser com você). Estão me dizendo que as palavras não dizem. Abração sempre bem carinhoso…. é meu coração…. Érico Baymma, Fortaleza-CE – set2011
08- kkkk, Ricardo, lembra o trabalho que deu pra levar essa cama no meu bugre? kkkkkk, só hoje é que vejo que valeu a pena! Antonio Martins, Maceió-AL – jan2012
09- Como não lembrar… Muuuuuito bom!!!! Saudades… Michelle Ribeiro Espindola, Fortaleza-CE – jan2012
10- nuss…como eu queria ter ido a um show desses. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – jan2012
11- Banda boa demais! Mas, naquela época, Fortaleza não tinha, (ou se tinha era muito restrito), abertura para esse tipo de som. Junior Faheina, Fortaleza-CE – jan2012
12- Banda indendiária. Como as grandes, não durou. Valmir Maia Meneses Junior, Lisboa-Portugal – jan2012
13- Para os que viram, viveram, sentiram e para os que não tiveram essa impagável oportunidade: um vídeo dos Intocáveis Putz Band. Considerada pela crítica especializada. em música, teatro, poesia, perfomance, gatinhos e mulheres incríveis como a BANDA ++++ f…FENOMENAL que o Ceará já lançou. Espero que apreciem, a preciosidade, direto do túnel do tempo… :-)) Patricia Nottingham, Brasília-DF – jan2012
14- Putz!!!! KKkKk era o que havia de melhor em Fortaleza e no mundooooo. Só a galerinha the best!!! kkk. Regiane Rocha, Fortaleza-CE – fev2012
Filme: Desconstruindo Harry
04/11/2009Ricardo Kelmer 2009
FICHA TÉCNICA
Deconstructing Harry
EUA, 1997 – 95 min
Elenco: Woody Allen, Kirstie Alley, Tobey Maguire, Demi Moore, Robin Williams, Billy Crystal e outros
Roteiro e direção: Woody Allen
Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original
.
RK COMENTA
Niilismos e orgasmos
Harry Block é um conhecido escritor que usa e abusa de referências autobiográficas em seus livros, o que acaba por incomodar seus amigos, familiares e amantes, que se descobrem nas histórias publicadas e não gostam nada de como foram retratados. Em meio a uma crise criativa, abandonado pela amante e preparando-se para ser homenageado pela própria escola que no passado o expulsou, Harry passa a se relacionar com seus próprios personagens, que lhe mostrarão novas formas de compreender sua vida confusa.
Eis mais um daqueles deliciosos personagens cheios de neuras de Woody Allen. Harry gasta todo seu dinheiro com análise, advogados e putas e ele é o primeiro a prevenir suas amantes para que não se apaixonem por ele. Acusado por sua ex-mulher de levar a vida baseado tão-somente em niilismo, cinismo, sarcasmo e orgasmo, ele consegue irritá-la ainda mais dizendo que com um slogan desses, seria eleito presidente da França.
Desconstruindo Harry é um filme muito divertido, principalmente para escritores que se relacionam intensamente com sua própria obra e com seus personagens. Se você costuma escrever inspirado diretamente em seus relacionamentos e nem sempre consegue distinguir o que inventou em seus textos daquilo que copiou da vida, então conheça Harry Block. E dê boas risadas dele e de você também.
.
Baixe o filme
> Factoryfilmes.net (áudio em português)
.
Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.com
.
.
Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes
Olha pegadinha – Quem nunca foi enganado? Esse ainda não nasceu
Paz e amor express – Durante cinco dias o Festival Express cruzou a leste-oeste do verão canadense levando em seus vagões os ideais da união pela música, a esperança ainda viva de um mundo de paz e amor
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)
.
.
Ser mulher não é pra qualquer um
31/10/200931out2009
É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão, as Belas, abalando nos modelitos, no outro, as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro
SER MULHER NÃO É PRA QUALQUER UM
.
Era no último dia do ano. Uns caras desciam pra avenida Beira-Mar com roupas de mulher, pra beber e jogar bola. Ideia genial, de uma só vez homenagear o melhor da vida: mulher, futebol e cerveja. Não necessariamente nessa ordem, é claro.
Avisei os amigos e em 1988 participamos da festa das bonecas da Volta da Jurema, tudo empolgado querendo ser mulher por um dia. Euzinha botei uma sainha, blusinha de alça com enchimento, meia tarrafa, uma maquiagem assim bem básica e calcei… o conga. Bicha pobre, tadinha. Nem peruca tinha. Mas descolei uma bolsa escândalo pra levar a garrafa de Ypióca. Mulher moderna é assim, pinguça e pragmática.
Meu batismo feminino foi de sangue: subi no carro, ele arrancou e saí bolando pelo asfalto, que nem tatu-bola, eu e a cachaça. Levantei zonza, procurando meu brinco, a saia toda torta, um peito no chão, a própria mulamba. Na mão, o gargalo da garrafa, tudo que restou da companheira. E no braço, hummm, um corte horrível, que me custaria doze pontos externos e oito internos. Hoje mostro a cicatriz com orgulho: Tá vendo, eu estive lá.
Aí o grupo cresceu e uma multidão ia assistir ao desfile das bonecas, uma centena de ensandecidas aprontando na Beira-Mar, desfilando em carroça de jumento, invadindo ônibus, agarrando os bofes, gritinhos, xiliques e coreografias. Um verdadeiro carnaval fora de época.
Anos depois, a festa tinha trio elétrico, axé music, muita bicha legítima e político querendo aparecer, ô racinha… Criamos então, em 93, um bloco dissidente: As Belas da Tarde. E elegemos como paraninfa Catherine Deneuve, claro. Ela foi convidada, mas seus compromissos não permitiram, tudo bem. Passamos a desfilar no pré-carnaval e a cada ano escolhíamos a Bela Rainha, que botava a faixa e abria o desfile, glória máxima na vida de uma Bela. Nosso ritual era sagrado: concentração ao meio-dia, modelitos-arraso, batons, brilhos e, por favor, qualquer coisa pra beber, o que é isso, licor de ovos, serve. As amigas e namoradas ajudavam na produção, lutando pelo título de Bela Madrinha. Diferente desses blocos onde os caras botam um limão no sutian e se acham mulher, a gente fazia questão de ficar bonita. Pra entrar no bloco tinha que ser convidada, isso mesmo, era coisa séria. Afinal ser mulher não é pra qualquer um.
É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão, as Belas, abalando nos modelitos, no outro, as madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro. Quarenta belas, uma parte já totalmente alucinada e a outra já clinicamente morta. O trenzinho percorre faceiro as avenidas ao som de Frenéticas, Xuxa e Ney Matogrosso, e quem está na rua corre pra não ser violentado pelo bando de taradas. As tevês cobrem a pouca-vergonha: “Estamos aqui na avenida Abolição e o trânsito está um caos, os policiais são impotentes diante do furor uterino das belas enlouquecidas!” A passagem pela Beira-Mar é apoteótica, e as Belas invadem os hotéis gritando “Ar-ren-ti-nos! Ar-ren-ti-nos!” Os gerentes ficam em estado de choque. Os seguranças tentam barrar a turba, mas, você sabe, é impossível deter um magote de bonecas bárbaras, tudo doida pra sentar no colo do gringo, tomar o uísque dele e detonar a lagosta.
Uma vez, pegaram um banhista e levaram a sunga dele, deixaram o coitado pelado no meio do calçadão. Ninfômanas! Outra vez, o bloco invadiu o Náutico, interrompeu o jogo de tênis e levou as bolas. Vândalas! A outra desmiolada, debutando no bloco com seus primaveris 16 anos, bicha linda mas inexperiente na vidaloca, saltou de bico na piscina sem perceber que tinha apenas meio metro de fundo: foi direto pro hospital com a testa aberta, bem feito, quem manda dar desgosto à família! E a outra que caiu do trenzinho? Foi salva da morte pelo pai que levou a filha transviada pra farmácia, e enquanto ele comprava soro fisiológico, não é que a condenada se apaixona por um creme de queratina e cai por cima da prateleira, derrubando tudo? Ô mulherzinha, deixa de ser desgovernada! E você não vai crer, mas teve um ano que uma Bela absolutamente sem juízo pegou no pingolim do soldado, acredita? Pois foi. Enquanto o soldado corria atrás dela, a Bela gritava: Mal-agradecido, não te chupo mais! Que coisa. Botavam o quê na bebida dessas moças?
No fim do percurso, a gente contabilizava as sobreviventes. E os namoros que restavam. Algumas Belas iam tomar glicose, outras esticavam a noite, insaciáveis. Mas a maioria não sabia mais nem em que ano estava. Uma vez, no dia seguinte, encontraram uma Bela semimorta no jardim de uma casa, ô vontade de ser uma orquídea… Outras conseguiam a incrível façanha de arrumar namorada, isso mesmo, namorada, vestido de quenga, a peruca parecendo um guaxinim molhado, o rímel escorrendo, aquele lastimável estado de embriaguez. É, tem gosto pra tudo. Pensando bem, nossas amigas mulheres eram mesmo sabidas: se aproveitavam da confusão pra fisgar aquele gatinho que nunca dava bola pra elas.
Em 96, o bloco desfilava pela Praia de Iracema, seguindo a bandinha de metais. Ao passar pela igrejinha, na hora da missa, as Belas, mui beatas e respeitosas, suspenderam a música, caminhando em silêncio. Uma até baixou o vestido, escondendo a peruca chanel que levava na parte da frente da calcinha. Porém… uma Bela isprito-de-porco não resistiu e soltou o refrão: “Na casa do Senhor não existe Satanás!” Pronto, as outras acompanharam, “Xô, Satanás, xô, Satanás”, a bandinha se animou, a festa voltou e os fiéis, apavorados, saíram correndo da igreja pensando que o próprio demo chegava com sua horda de dementes. Um ano depois, o Tribunal do Santo Ofício excomungaria todas as Belas, bem feito. Com exceção de uma que se arrependeu da vida pecaminosa e virou Carmelita.
A essa altura, o bloco já estava em franca decadência, as Belas todas velhas, barrigudas, cheias de pelanca. A época áurea dos corpinhos malhados havia passado e já tinha Bela pai de família levando os filhos pro desfile. Hummm, melhor parar. E assim as Belas da Tarde desceram a cortina, encerrando sua vistosa história de purpurina e alegria. Mas tem muito marmanjo aí que, por via das dúvidas, ainda guarda a meia arrastão no fundo da gaveta – eu, por exemplo. Sei lá, vai que um dia bate assim um revival. Já estamos excomungadas mesmo…
.
Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com
.
Foto 1: Concentração no bar Suspeito, do lendário Carlinhos Papai, 1993. Valmir Jr (Bela Rainha 1993 com o modelito A Perestroika da Fanta Uva), RK (Angelly Cabrita) e Rian Batista (Inês Fiúza Cover). A repórter é Selma Vidal.
Foto 2: Concentração no bar Suspeito, 1993. Valmir Jr, André Barbacena (A Filha de Glorinha) e RK.
Foto 3: O famigerado trenzinho, 1990. RK, Fred Schlaepffer (de biquinho), Emílio Schlaepffer (a bicha galinha), Marcio Régis (a bicha bêba), Nelsinho Machado (bicha séria), Vicente Vieira (bichinha de óculos) e Fábio Fabão (bicha toda-toda). A bela de chapéu, afff, até hoje não sei quem é esta criatura risonha. Será o Beká?
.
FOTOS
(clique para ampliar)
.
foto 4

O primeiro ano da putaria organizada, ainda Bonecas da Volta. Concentração, esperando o trenzinho chegar (1989)
- .
foto 5
Concentração. Dr. Galvão à esquerda, um entusiasta incentivador da bicholice alheia (1989)
.
foto 6
Tá no DNA. Família Vieira bem representada: Paula Dark, Vicentina e Marcela, a bicha debutante – que duas horas depois saltaria de cabeça na piscina infantil do Náutico (que tem meio metro de fundura) e terminaria seu debut no hospital (1989)
.
foto 7
Fredulina e Emília, as bichas arreganhadas (1989)
.
foto 8
Abalando a Beira-Mar em chamas. Emília toda linda no trenzinho e Vicentina arreganhando a perereca. E a bicha Ricardina de sainha de bolinha, tão meiga (1989)
.
foto 9
Pirâmide Purpurina. As bichas manifestando toda a sua classe e doçura no calçadão da Volta da Jurema (1989)
.
.
1993 – Concentração no bar Suspeito, do lendário Carlinhos Papai
foto 10
André Barbacena (A Filha de Glorinha), Valmir Jr (A Perestroika da Fanta Uva) e Carlinhos Papai sentindo algo estranho na retaguarda (1993)
.
foto 11
RK (Angelly Cabrita) com a maquiagem ainda funcionando (1993)
.
foto 12
Angelly Cabrita e as pernas que um dia abalaram a Volta da Jurema (1993)
.
foto 13
Invasão do Imperial Othon Hotel. Da esq. p/ dir.: Marcus Lima, Zá, ?, Pedro Neto, André Barbacena, ?, Rian Batista, RK, ?, Henrique Baima, Leão, Rossé Sabadia, Vicente Vieira e Humberto Pinho. Atrás, os turistas sem acreditar (1993)
.
foto 14
Invasão do Imperial Othon Hotel. Belas saudando Yemanjá. Um bando de bichas embriagadas dançando num pedacim de muro, como é que ninguém nunca despencou dali de cima? Milagre de São Sebastião Flechado (1993)
.
foto 15
Invasão do Imperial Othon Hotel. Em primeiro plano, RK (Angelly Cabrita) segura a peruca enquanto comanda a retirada. À esquerda, Humberto Pinho (Sherazeda) levando o uísque que roubou da mesa de um hóspede. Bem atrás da garotinha aterrorizada, Marcus Braga encarna uma madame levando na coleira seu lindo poodle imaginário. E à direita, Luís Sabadia com a cerveja que ganhou de um turista alemão que se apaixonou por ele – esses gringos têm um mau gosto… (1993)
.
.
1994 – Concentração na casa do Humberto
Em 1994, as Belas mais uma vez deram o ar da graça. A concentração foi na casa do Humberto Pinho. Reza a lenda que no outro dia, de manhã, a mãe dele foi no jardim e encontrou dormindo entre as plantas uma bela vestida de chapeuzinho vermelho, semimorta: era o Pedro Rogério, coitado, que bebeu tanto na concentração que sequer conseguiu sair no trenzinho pro desfile.
foto 16
Paulo Marcio (A Noiva do Chuck), Nelsinho Machado tendo um chilique, Vicente Vieira (Bonequinha de Luxo) e Sean (Oncinha Irlandesa) adorando o fon-fon em seu peitinho (1994)
.
foto 17
Valmir Jr todo orgulhoso com sua faixa de Bela Rainha 1993, Vicente Vieira (Madame Vicentina) e Tibico Brasil (Ânus Dourado) (1994)
.
foto 18
A da esquerda é o Gaúcho, a bicha la playa. A do meio é o Claudio Vignoli, futura bela pizzaiola. E a bela vitaminada da direita é o Fred Schlaepfer. Ao fundo, Romeu Duarte doido pra assumir e Chiquinho Aragão se embriagando pra tomar coragem (1994)
.
foto 19
João Netto (antes de virar servo do Senhor, claro) encarnando A Viúva do Xinim Carecido, ao lado de Humberto Pinho, A Louca do Cemitério (1994)
.
foto 20
Wilsinho Pinto (Afrodite Pokemon) toda meiga no trenzinho (1994)
.
foto 21
Celsinho Rocha e sua Radical Chota (1994)
.
foto 22
Sean, a Oncinha Irlandesa, achando o Brasil uma coisa assim muito exótica (1994)
.
foto 23
Vicente Vieira, Valmir Jr e Paulo Marcio, a Nojenta do Hospício (1994)
.
foto 24
Nelsinho Machado em seu glorioso momento de concentração. Tem que raspar esse sovaco, viu, mizifia? (1994)
.
foto 25
Volta da Jurema dominada (1994)
.
foto 26
A Noiva do Chuck e Madame Vicentina, irmãs unidas pela causa bicholítica (1994)
.
Você tem fotos das Belas? Manda que eu publico
.
.
.
LEIA NESTE BLOG
A celebração da putchéuris – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band
A volta da Intocáveis – Oh não! – Um show com os restos mortais da Intocáveis Putz Band
Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro
A sociedade feladaputa de Geraldo Luz – Suas músicas são baladas de melodias simplórias, conduzidas por uma inacreditável verborragia que mistura crítica social, literatura, filosofia, anarquismo, sacrilégios explícitos e sodomismos irreparáveis
Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…
Galinha ao molho conjugal – Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
.
.
01- Lonner, lembra que eu tenho MUITAS fotos das Belas da Tarde… Se eu abrir o baú, serei uma mulher morta! Carmem Távora, Brasília-DF – jan2011
02- Loucas eram as mulheres que aceitavam namorar esses caras! Fazer o que? Tem gosto pra tudo, kkkkkkkk – Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – jan2011
03- Kelmer eu li o texto no Vocês, terráqueas e morri de rir e de cuiriosidade de ver vcs pagando essemico! amei! vc fica ‘deliciosA! kkkkk. beijão! Ana Cristina Martins, São Paulo-SP – jan2011
04- A Rosane pediu prá dizer que se ela fosse homem,ela pegaria a loira.rs. Bia Rocha, São Paulo-SP – jan2011
05- Kelmer, adoooro essa sua obseção (ou será obceção, ou obcessão?) pelas mulheres. Vc curte todas, as livres, as loucas, e ate as falsas. bjo, saudade. Renata Regina, São Paulo-SP – jan2011
06- Meu Deus, quando lembro dessas coisas, me pergunto como foi que a gente sobreviveu, kkkk! Putz, Ricardo, está muito boa essa crônica! Claro que ela tem um lado especial para mim, pois vivenciei tudo isso. Mas, procurando me abstrair da minha participação disso tudo, ficou bem escrito e interessante de se ler. Um registro digno de um tempo bom! Vou mostrar para a Synthia, quero ver a cara dela, hahaha! Aquele abraço, meu amigo, e obrigado pela lembrança! Antonio Martins, Maceió-AL – mai2012
07- Texto adorável!!!!E não desgrudo dessa palavra(adorei,vicio já)..kkkKK..Mas não acho nenhuma melhor pra dfinir..adorei as fotoss!!!kkkkkkkkkkkkkk…Bora ser feliz!!! Thais Guida, Rio das Ostras-RJ – nov2013
08- Ricardo Kelmer de peruca loira, arrasO! Uma cabarete e tanto! Tereza Cristina da Silva, Fortaleza-CE – nov2013
09- o chico cesar é cirúrgico….afirma -“já fui mulher, eu sei,” mas , depois , mostrou admiração pelo caeteno “tan5as almas esticadas no curtume”…e mais adiante exigiu_”respeitem, pelo menos os meus cabelos.BRANCOS”. Stefenson Pinheiro, Fortaleza-CE – nov2013
10- Cadê a Dilma Bulhões que não tá aí? #Escândalo. Alberto Perdigão, Fortaleza-CE – nov2013
11- Muito massa esse artigo do Ricardo Kelmer! Quem não lembra das Bonecas da Volta? Acho que aquele de chapéu é o Carlo Romero. Ricardo Campos, Fortaleza-CE – nov2013
12- Olha isso Marina Sabino como eu já andava mal acompanhado. Alberto Perdigão, nov2013 – Fortaleza-CE
13- As Belas da Tarde. Ricardo que legal meu irmao. Show de bola. Celso Rocha, Jericoacoara-CE – nov2013
14- Você ficou muito bem Ricardo Kelmer….Deve ter sido uma época maravilhosa… Raquel Maria, Maranguape-CE – nov2013
15- Euzinha Alberto .Acompanhei por várias anos as belas.Era a repórter oficial da TV Manchete.kkkk. Selma Vidal, Fortaleza-CE – dez2013
16- O que acho o máximo na foto das 3 belas é o biquinho da toda cheia de charme loiríssima! Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – dez2013
17- Que pitéuzinho! Luc Lic, São Paulo-SP – dez2013
18- Saudade deste tempo muito assisti este desfile.TDB meu amigo. Cearucha Míriam Costa, Porto Alegre-RS – dez2013
19- podia ter de novo, viu? Juliana Melo, Fortaleza-CE – dez2013
20- Ri muito, bandidaaaa! Heraldo Goez, São Paulo-SP – dez2013
21- Gostei não..adoreiiii!!kkk..seu bom humor,sua mente livre..seus escritos..adoroooo!!!Mas ja´fico sem graça de falar toda hora que “adoreiii”””…kkkkk..bom domingo querido amigo!!!! Thais Guida, Rio das Ostras-RJ – nov2013
22- Essa crônica é show.Sempre bom relê-la! Monica Bürkle, Recife-PE – dez2013
23- Bom demais!! Cris Boscarato, São Pauço-SP – dez2013
24- Amei! Adorei as fotos. Se não fossem as legendas não te reconheceria Ricardo Kelmer. Selma Vidal, Fortaleza-CE – abr2019
ília, a
Digite sua senha para ver os comentários. |
Escrito por ricardokelmer 








































