Cerejas ao meio-dia

28fev2010

Linda e poética, ela dá a volta no carro e todas as buzinas se calam. Claro, um poema de cereja em plena avenida, não é todo dia

CEREJAS AO MEIO-DIA

.
Alto meio-dia de sábado. Converso com um amigo, à porta de sua loja, os carros passando na avenida, quando de repente ela surge. Caminhando na calçada, devagar e tranquila, aquele jeitinho avoado dela. Cabelinho solto. Sandalinha. E o vestidinho vermelho. Hummm, o vestidinho… Sabe cereja de bolo? Dessa cor. Quando vejo, a cereja sorri pra mim, aquele olharzinho sapeca que já desconcentrou muita estátua importante. Aquele sorrisinho doce que eu conheço e que me faz ficar derretido. Que nem chantili na boca.

Mas para o mundo um pouquinho, por favor, para. Devo estar vendo coisas. Aceno pra ver se é verdade. É verdade, ela dá com a mãozinha assim, meio torto, cereja é adoravelmente desajeitadinha. A brusca poesia da cereja que passa, diria o poeta. Mas talvez seja miragem, digo eu. Nunca se sabe, esse sol forte na moleira, melhor conferir. Num impulso deixo o amigo falando sozinho, entro no carro e acelero. Anteontem ela estava na fila do cinema, o mesmo vestidinho, e eu fiquei louco pra puxar papo, mas fico tímido quando me interesso por uma mulher, é uma desgraça. E agora ela de novo, o destino dando uma forcinha, convém não rejeitar. Se por causa de um grito se perde a boiada, imagine uma cereja.

Crau! Cem metros depois lá está a cereja caminhando. Encosto devagarinho pra ela não assustar, os carros buzinando atrás: A dama de vermelho quer carona? Ela para, sorri chantili e ajeita o cabelinho que o vento despenteia, ajeita de novo, despenteia, ô vento chato, né? Ela imediatamente faz piada com o fato de estar com o mesmo vestido da noite do cinema. Deixe disso, cereja, por mim você pode usar esse vestido todos os dias, viu, usar e tirar, usar e tirar… Não, eu não digo isso, claro, só penso. Minha canalhice não vai a tanto. Lembre-se, sou um sujeito tímido.

Linda e poética, ela dá a volta no carro e todas as buzinas se calam. Claro, um poema de cereja em plena avenida, não é todo dia. Não era pra estar ali, é uma falha na Matrix. Ela entra e senta, perninhas juntas. Tento não olhar, juro, mas não dá. De perto é ainda mais suculenta. Ai, ai, somos dois desajeitados num momento crucial da vida. Como são ridículos os terráqueos… Procuro algo pra dizer, mas tenho a mais absoluta certeza que direi bobagem. Penso em coisas triviais, mas subitamente me toco que tudo que penso tem conotações sexuais, que coisa impressionante a minha mente. De carro é mais gostoso, né? Ou: se quiser reclinar o banco…

As opções são péssimas. Decido então falar do tempo. Mas quando abro a boca… ela pede pra eu parar, havíamos chegado. Já?! Que pena, eu ainda tentava sintonizar uma FM. Ela agradece, beijinho no rosto e desce. O lobo mau fica no carro, tristonho, olhando Vestidinho Vermelho atravessar a rua, sem entender o sentido de tudo isso. Não, tem que haver algo mais, as deusas do destino têm muito o que fazer, elas não se dariam ao trabalho de promover esse reencontro e tudo terminar assim, não, não faz sentido…

Os impulsos, ah, os impulsos… Ei, tenho um presente pra ti!, grito de repente, é a primeira coisa que me vem. Ela se vira e vem até a porta. Entrego-lhe um exemplar de Indecências para o Fim de Tarde, digo que é presente de aniversário. Ainda está longe, ela responde, e eu contra-ataco: o tempo é relativo, beibe. Hummm, que idiotice. Ela sorri sem jeito e diz um obrigado daqueles que entra por um ouvido e não sai mais. Aí acontece algo incrível, algo que nem mesmo minha mente pecaminosa ousaria prever: cereja se inclina… aproxima seu rosto e… me beija… levemente… no cantinho… da boca. E vai-se embora, faceira e cruel como só as aparições do meio-dia podem ser. Não. Isso não se faz com o cidadão trabalhador e pagador dos seus impostos. Não se faz.

Babando chantili. Ainda estou lá, sentado dentro do carro, babando chantili. E séculos se passam. Nascem e morrem os impérios… Eras glaciais… O sol se apaga… Quando dou por mim, ela já sumiu. Cerejinha se foi. Dessa vez pra sempre. Ou pelo menos até o nunca mais do quem sabe quando. Mas quando? Eu sei. Quando ela, súbita falha na Matrix, surgirá atrapalhando o trânsito, vindo novamente suculenta em seu vestido vermelho. Sim, o vestidinho vermelho, que ela não sabe, e nem vocês vão dizer, é segredo, mas ela veste especialmente pra mim.
.

Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

.

Esta crônica integra o livro

Vocês TerráqueasSeduções e perdições do feminino

Com que propriedade um homem pode falar sobre o universo feminino? Neste livro RK ousou fazer isso, reunindo 36 contos e crônicas escritos entre 1989 e 2007, selecionados em suas colunas de sites e jornais, além dos textos inéditos. Com humor e erotismo, eles celebram a Mulher em suas diversas e irresistíveis encarnações. Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido. Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.

.

LEIA NESTE BLOG

Insights e calcinhas – Uma calcinha rasgada pode mudar a vida de uma mulher? Ruth descobriu que sim

Mulheres que adoram – Dar prazer a uma mulher. O que pode haver de mais recompensador na vida?

Kelmer Para Mulheres – Nesta seção do blog, homem fica de fora

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01 – Muito fofo!!!! Christina, Rio de Janeiro-RJ – mai2006

02- adoreeeii. Danielle Freire Milfont, Fortaleza-CE – mar2011

03- Gostei tbm… rsrsrsrss. Michelle Costa, Fortaleza-CE – mar2011

04- Adoro todo vestido vermelho… Já li este conto p um grupo de internos de uma casa de saúde mental. Só uma louca p levar a obra de um louco p os outros. Paula Izabela, Juazeiro do Norte-CE – mar2011

05- adorei a ‘cereja’. Gloria Sousa, Fortaleza-CE – mar2011

06- Uma delícia, adorei!! 🙂 Mabel Amorim, Campina Grande-PB – mar2011

07- Essa história aconteceu de verdade? Lindalva Barbosa, Fortaleza-CE – nov2013

08- Sempre trabalho esse texto em sala. Eles adoram! Dalu Menezes, Fortaleza-CE – nov2013

09- Adorei! Hummmm… porque o texto tem aquele flerte meio sapeca nele, o tipo que deixa o dia da gente mais feliz, sabe? Não aquela coisa forçada de pegação, mas só aquele gostinho, que faz a gente querer mais. Só que não pode, muita cereja doce de uma vez só da dor de barriga… Marina LF, Porto Alegre-RS – nov2013

10- Será que realmente os homens reparam em mulheres na rua assim? Ou só reparam em cerejinhas mesmo? Marina LF, Porto Alegre-RS – nov2013

11- Rsss…. imaginação fértil. Claudia Maria Crivellente, São Paulo-SP – nov2013

12- amei demais!!! Luciene Maia, Fortaleza-CE – nov2013

13- Nesse, como em outros contos RK Eu sempre fico vendo a cena, imaginando as pessoas exatamente com cada palavra, respiração… Enfim dou bastante risada com o desastrado sedutor da história… E tem códigos embutidos é? kkkkk Cereja má mesmo, mas quem manda ele ser lento? Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – nov2013

14- Hummmm bom. Sandra Allegreti, Fortaleza-CE – nov2013

15- Continuas sonhando, nem Freud explica. A gente continua o mesmo, so o tempo passa hehehe. Roberto Studart Soares, Fortaleza-CE – nov2013

16- Ricardo meu parabéns adorei, vestidinho cereja e sorriso chantili… Grazy Ribeiro, Orlândia-SP – jan2017

17- Viagei …Ricardo rs muito Lindoooo. Jeane Russo, Praia Grande-SP – jan2017


CerejasAoMeioDia-07a

Anúncios

8 Responses to Cerejas ao meio-dia

  1. Robson Garcez disse:

    Oi, RKelmer,

    Acabo de conhecer uma piatada do seu trabalho literário pela leitura de “É o amor” e “Cerejas ao meio dia”. Ambas as crônicas muito boas, mas a do vestidinho cereja é demais.

    A esta altura, você já sabe que eu fiquei sabendo de sua obra pelo Espaço Alberico Rodrigues, esse lugar paulistano que, ao seu jeito, dá uma ajuda danada pra que nossa cultura continue viva.

    Gostaria de ter acesso a todos os textos seus, a que me proponho ir lendo pouco a pouco.

    Sou professor (aprendiz, na verdade).

    Um abraço de admiração!

    Curtir

  2. Ana Claudia disse:

    Que meigo… gostei!

    Curtir

  3. Rosa disse:

    E eu aqui… “escarafunchando” os escritos do homem…
    Eita crônica doce do caramba! Sou suspeita pra falar, mas gosto demais desse teu lado(também). E eu concordo contigo: como são ridículos os terráqueos. Eu, sempre ridícula (e com orgulho) comento e comentarei sempre essas lindezas. Seo bonito! =)

    Curtir

  4. Hmmmmmm que interessante!!

    Estava pensando em frutas para o verão… e olha o que acho?
    Quem sabe??

    Abraços!

    Lindo o texto!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: