A dor da vida e a dignidade dos gatos

09mar2016

Ser feliz é para os fracos ‒ deve ser isso que os bichanos miam, quando nos observam em nossas tolas ânsias de felicidade

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A DOR DA VIDA E A DIGNIDADE DOS GATOS

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Um dia um gato preto surgiu lá em casa. Vinha da clínica veterinária de meu pai, recuperando-se de umas cirurgias. Tadinho, sofrera um acidente, e como seus donos não quiseram gastar com os procedimentos necessários, meu pai lhes propôs ficar com ele. O gato teve a vida salva, mas infelizmente uma perna lhe foi amputada. E assim ele foi morar conosco, e o rebatizamos de Saci.

Para que ficasse caseiro e não ousasse se aventurar pelas ruas, onde fatalmente levaria desvantagem com outros gatos e se machucaria, Saci foi castrado. Em sua nova realidade, numa casa bastante espaçosa, ele retomou a saúde e adaptou-se perfeitamente à vida trípede, reaprendendo a andar, correr e saltar. Caçava calango, pegava borboleta no ar e apanhava passarinho desavisado, e até os morcegos, que davam rasantes no quintal, tinham que ficar atentos, senão ele crau! Se a perna que faltava não ajudava na elegância, a altivez de gato seguia intacta. Sem poder subir em árvore nem passear pelos muros, seu campo de atuação resumia-se agora ao nível do chão e aos móveis mais baixos. Muitas vezes flagrei-o olhando para o alto da casa, ou para os galhos do sapotizeiro, ele quietinho, só olhando, a lembrança talvez passeando pelo tempo em que sua felinice era livre para ir caçar onde bem entendesse. Tu queria estar vadiando aí pelos telhados, né, Saci?, eu lhe perguntava. Ele virava para mim e seus olhos piscavam devagar, respondendo em digno silêncio.

Com meu amigo Saci aprendi sobre resiliência, sobre paciência e estratégia, e entendi que a felicidade, ou a liberdade, que tanto prezamos talvez seja feita de matéria que se molda às nossas limitações. É melhor ser feliz ou ser livre? Acho que os gatos preferem a segunda opção. Ser feliz é para os fracos ‒ deve ser isso que os bichanos miam, quando nos observam em nossas tolas ânsias de felicidade.

Celina quase morreu de um tiro de espingarda. Ficou paraplégica, e seu dono, a cartunista Laerte, precisou se desdobrar em cuidados, administrando-lhe remédios diários e construindo para ela um tipo de cadeirinha de rodas. Não deve ter sido fácil, nem para Laerte e, obviamente, nem para Celina, que de repente viu-se privada da liberdade de ir e vir, tão sagrada aos gatos, e agora vivia totalmente dependente de atenções alheias, sem controle do próprio mijo, sempre sujando-se toda… Como manter a altivez nesse estado lastimável? Foi dessa experiência trágica que a artista criou em 2013 uma série de tirinhas, uma obra magistral, impregnada de uma dor digna e dilacerante, e da aceitação inconformada com os quereres do destino.

Gatos são mesmo especiais. Mesmo domesticados, ainda conservam aquela sabedoria selvagem da qual cada vez mais nos afastamos. Mesmo com endereço fixo, gatos são bichos do mundo. Mesmo vencidos, fazem da dor, sua dignidade.

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Ricardo Kelmer 2015 – blogdokelmer.com

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CELINA, A GATA DA LAERTE
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 COMENTÁRIOS
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01- Vou levar emprestado Ricardo..Parabéns, Tu és brilhante. Claudia Meirelles Bahia, Fortaleza-CE – abr2016

02- Bacana! Rosina Santana, Vitória da Conquista-BA – abr2016

03- Amei. Kemi F. Kinzo, Curitiba-PR – abr2016

04- Gatos :~~ Mauricio Aragão, Fortaleza-CE – abr2016

05- Bravo! Iris Medeiros, Campina Grande-PB – abr2016

06- Por isso eu amo gatos, em especial, os negros. Dorah Andrade, São Paulo-SP – abr2016

07- É isso mesmo! Puxa, eu vejo minha gatinha querendo se aventurar e a gente impedindo pq ela foi criada em apto e agora, em casa, ao mesmo tempo que se assusta com carros passando na rua, tenta se aventurar pelos telhados das casas. A gente coloca cercas e ela e os gatos vizinhos – todos castrados – dão um jeito de pular, burlar ou abri-las. Como disse Manuel de Barros: liberdade caça jeito.
PS: ser livre também trás felicidade. Discordo que precisamos abrir mão de uma coisa pela outra. Quando olho para os meus gatos, tenho sempre a sensação de que lhes estou roubando a felicidade. Um deles, o mais companheiro, o gato mais “cachorro” que eu já vi, um dia escolheu ir embora. Ou sei lá se foi escolha ou se não conseguiu voltar. Se foi escolha, eu respeito e até admiro. Eu jamais desfaço de quem prefere ser livre. Ana Cristina Martins, São Paulo-SP – abr2016

08- Gratidão querido Ricardo _/|\_ Aqui em casa prego e prezo esse aspecto que justamente faz daquele ser único. E, mesmo “de coração na mão”, permito aos meus (recolhendo-os apenas de noite) esse ir e vir. Encaro isso também como amor. Celine Santos, Rio de Janeiro-RJ – abr2016

09- “seu dono, a cartunista Laerte” é ótimo!!! Max Krichanã, Fortaleza-CE – abr2016

10- Lindo texto querido …eu que não tinha afeição por gatos…adotei uma fêmea com meu filho há 5 anos que fora jogada numa caixa com outros dá mesma ninhada dentro do meu prédio …machucados debilitados … Me apaixonei e descobri um mundo de fidelidade incrível …depois veio o macho que resgatei de um temporal quase morrendo de frio e fome também ainda filhote …mais descobertas e muita paixão e há um mês veio o filhote do casal…e definitivamente a inocência e vitalidade desse filhote me faz viva e agradecida pela companhia…pelo amor incondicional …pelas risos fáceis que me provocam e principalmente pelo afago nos momentos de tristeza … Arice Morais, Fortaleza-CE – abr2016

11- Gostei, Ricardo Kelmer. Compartilhei na Amo Gatos. Elinaudo Barbosa, Fortaleza-CE – abr2016

12- N o meu apê tem um gato…e é por aí… Adil Chaves, Fortaleza-CE – abr2016

13- Adorei Ricardo Kelmer, miauuuu. Maira Sales, Fortaleza-CE – abr2016

14- Gatos são surpreendentes e maravilhosos!!Nessa brincadeira ja adotei 3 e meu coração ainda quer mais….. Thayssa Sanches, Fortaleza-CE – abr2016

15- Amei, Ricardo Kelmer! Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA -abr2016

16- muito bom… tem um punhado deles aqui em casa… Cibele Baptista, Barretos-SP – abr2016

17- Meu amigo… acredite, você salvou minha segunda-feira infeliz! Paula Izabela, Juazeiro do Norte-CE – abr2016

18- Gato criado solto parece que vive em campo de concentração. Sempre estropiado, envenenado, doente. Tive muitos gatos solto, por isso os meus só saem supervisionados. Dois dos meus gatos nem querem sair. Margaret Regina Bloom, abr2016

19- Gente, que texto sóbrio…adorei!! Soraia Falcão, Juazeiro do Norte-CE – abr2016

20- Lindo, lindo! Carmem Mouzo, Rio de Janeiro-RJ – abr2016

21- Ah gente agora chorei…. Marialucia da Silveira, Campinas-SP – abr2016

22- Falar grande RK! Seus textos são tão atraentes que dá logo vontade de ler o resto!!! Quando vem por aqui? Qnd vamos marcar p tomar umas c Zé Paloma que agora está morando aqui? Abraços. Marcos André Borges, Fortaleza-CE – mai2016

23- Delicia de te ler. Morri com as tirinhas mizifiu! Magna Mastroianni, Londrina-PR – mai2016

24- Ricardo Kelmer esse é dos teus escritos publicados recentes, que leio e releio com uma graça diferente das habituais. Amei demais! E o que é ou foi feito do Saci? Lembro dele.  Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – mai2016

25- Que lindo Ricardo Kelmer. Sempre tive muito medo do Saci, esta crônica me fez vê-lo com outros olhos. Michele SJ, Fortaleza-CE – mai2016

26- Textos com muito conteúdo.Parabéns. 28- Gostei também do texto do temer. Aldenora Teles Areias, São Paulo-SP – mar2017

27- Que historia linda! Ana Cristina da Dilva, Campina Grande-PB – mar2017

28- Amuhhhh gatos😍linda história. Deusa Vieira, Barreirinhas-MA – mar2017

29- Muito lindo ! Chirley Felix, Paraisópolis-MG – mar2017

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8 Responses to A dor da vida e a dignidade dos gatos

  1. uau ricardo, adorei. alem de apEixonada por gatos, sou doida pelo laerte. e tb pelos teus textos!!!

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  2. Gilvanilde disse:

    Adorei a historia do Saci. As tirinhas não consegui ler; muito miúdas as letras, mas me pareceu bem interessante. É por aí, uma leitura mais leve e humana. Muito lindo o conto.

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  3. Chris disse:

    Que fofura esse texto… Os gatos merecem ❤

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  4. luadevirgem disse:

    Kelmer, que leitura fantástica e quão bom é achar quem nos traduz em letras. Parabéns!

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