O chamado da caverna

02dez2012

Mas talvez não, talvez se decida por entregá-la ao mundo, mãe que não pode criar o filho porque sua missão termina em parir

Caverna-1a

O CHAMADO DA CAVERNA

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Olhar para a coisa pela primeira vez é como arrancar uma plantinha nova do vaso e tomá-la ao colo: tem-se de ter muito cuidado. É preciso também ter os olhos limpos para enxergar o que a coisa vai nos mostrar. Porque ao olhar viciado escapam as verdades simples, você sabe, a beleza primordial. Tem-se de olhar para a coisa com olhos de turista. Ou ao menos que se reconheça a aventura pela qual ela passou, vinda do fundo da caverna para chegar até seus olhos.

Olhar para a coisa pela primeira vez é como arrancar uma plantinha nova do vaso e tomá-la ao colo: tem-se de ter muito cuidado. É preciso também ter os olhos limpos para enxergar o que a coisa vai nos mostrar. Porque ao olhar viciado escapam as verdades simples, você sabe, a beleza primordial. Tem-se de olhar para a coisa com olhos de turista. Ou ao menos que se reconheça a aventura pela qual ela passou, vinda do fundo da caverna para chegar até seus olhos.

Não desista agora de entender, me deixe tentar explicar. Primeiro é o chamado, esse som que se agita vindo lá de baixo. Existe algo no escuro lá embaixo, agora o explorador sabe. E já não pode fugir, pois o chamado está nos ouvidos, cutucando por dentro das entranhas do pensamento, que nem uma loucura. É preciso, pois, descer à caverna e trazer o que se agita e implora por luz. O explorador então respira fundo e começa a descer.

A caverna é escura. A visão cotidiana de nada adianta. Sua lógica estranha é iluminada apenas pela lanterna do explorador, a lanterna da intuição, e mesmo ela mal pode com tanto breu. O chão escorregadio zomba de todo equilíbrio, mas as quedas fazem parte, forçoso conviver com elas. Ele avança, olhos atentos e ouvidos aguçados, à procura de algo que não sabe bem o que possa ser, mas que é algo que o aguarda ‒ e ao mesmo tempo foge dele.

Nesse momento, o explorador todo é um estado de alerta. Nesse mundo de coisas impalpáveis, as dúvidas coçam feito mosquito. A corda da razão está amarrada à cintura e é a única certeza de que poderá voltar à superfície. Mas ele não pode ficar pensando em voltar. Toda a atenção tem de estar centrada na busca, pois é nos detalhes da caverna que se esconde aquilo que o chama. De qualquer lugar pode vir algo, ele sabe. Assim, o silêncio pesado vai aos poucos se tornando som e ele aprende a escutar aquilo que não se ouve, mas pode-se pressentir.

Ops! Algo se moveu ali. Não, não era nada. Mais adiante, ops, dessa vez ele viu algo, sim. Ou não? O explorador mete-se por novas trilhas em busca do que lhe escapa, e é um arrastar-se pelo chão enlameado, um esgueirar-se por frestas sem fim, um meter-se por virgens e estimulantes escuridões… Há de se entender com morcegos e escorpiões e aprender com eles a lógica amoral da caverna. Cada vez mais distante de onde partiu, perdido entre tantas bifurcações, ele sabe que somente o encontro dará sentido a tudo aquilo.

Então ele arrisca e prossegue. Algo se move lá na frente, uma sombra no meio das sombras da noite eterna da caverna. O explorador vai atrás… e se perde pelo labirinto das entranhas… e mais adiante torna a se encontrar e se perde mais uma vez… e a seguir reconhece o caminho, por ali já passou. Ou não? Pensa em desistir, a fome apertando, a sede, o sono, o cansaço, o raciocínio embaçado, a terrível sensação de impotência ante a imensidão da caverna, as dúvidas sobre a utilidade de seu trabalho…

Ali! Logo adiante, ali! Encurralada, lá está ela, a coisa. Finalmente. Ele se aproxima, devagar. A coisa o observa, arisca. Imprevisível feito um bicho ferido. Mas linda, linda, indescritivelmente perfeita. Ele se aproxima mais um pouco, inútil conter o entusiasmo que lhe acelera o coração. No entanto, é preciso ir com jeito, a coisa é frágil, às vezes se quebra ao menor toque. Então, aconchegando a coisa no colo, com imenso cuidado, o explorador faz meia-volta e sobe o caminho. Ainda não pode festejar, é preciso atenção nos detalhes da subida, não pode errar o passo. Se foi a luz da intuição que o conduziu até a coisa, agora é a corda da razão que o fará retornar.

Lá em cima a luz do dia ofusca sua vista e ele necessita de uma pausa para se acostumar novamente à claridade da superfície. Sabe também que a luz racional do dia dissolve os contornos daquilo que vive lá embaixo e muitas vezes pulveriza seu sentido. Mas são os riscos do ofício: sua missão primeira será sempre descer e buscar o que implora por luz.

Ele então, sob a luz do dia claro, olha para a coisa que traz ao colo. Está suja, enlameada, carece de uns cuidados. Ele a levará para casa e pelos próximos dias ambos não se largarão, ele porque ainda sob efeito do entusiasmo, e ela porque só adquirirá vontade própria após deixá-lo. Muitas vezes ele será tentado a sacrificá-la no silêncio das madrugadas. Mas não, talvez se decida por entregá-la ao mundo, mãe que não pode criar o filho porque sua missão termina em parir.

É assim que escritores e artistas nos trazem suas criações, esses visionários do que ainda não existe. Convém tomá-las nas mãos com o igual cuidado, desarmar o olhar para poder ver. Ainda que escapem da ira assassina de seu criador, ainda que tenham mil anos e rodem o mundo, criações, como esta crônica, são coisinhas frágeis quando se olha a primeira vez.
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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- “Olhar para a coisa pela primeira vez…”. Todo aquele “resgate” me lembrou o Hades, da Eneida, a descida ao nosso eu… E eu senti isso no seu texto… O olhar para dentro para poder olhar para fora… Adorei o texto. Mesmo. Dalu Menezes, Fortaleza-CE – dez2012

Bom ver você assim, entusiasmado. Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos que você….
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