Amiga eleitora, amigo eleitor

26/08/2008

26ago2008

Estou aqui, ocupando um pouco de sua valiosa atenção, pra lhe dizer que sou um candidato diferente. Eu mereço seu voto porque sou franco

Franco Fortuna 01

AMIGA ELEITORA, AMIGO ELEITOR

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Olá, amigo eleitor, amiga eleitora. Estou aqui… Heim? Ah, é, esqueci. Mulher tem que vir antes, tem que puxar o saco delas. Ok, vamos começar de novo. Meu cabelo não assanhou? Olá, amiga eleitora, amigo eleitor. Estou aqui… Ah, é mesmo, tem que olhar no olho. Televisão é um saco.

Olá, amiga eleitora, amigo eleitor. Estou aqui, ocupando um pouco de sua valiosa atenção, para lhe dizer que sou um candidato diferente. Eu mereço o seu voto. Por quê? Porque sou franco. De todos esses rostos que você vê todo dia na sua tevê, e tem cada assombração, né, eu sou o único verdadeiro. Por quê? Porque eu digo a verdade, duela a quien duela… Heim? Não pode dizer isso? Lembra o ex-presidente? Ah, pega mal, já entendi. Desculpe, minha amiga, meu amigo, mas temos que seguir os marqueteiros. Afinal, pagamos caro por esses maquiadores de palanque.

Primeiro, vamos logo deixar claro uma coisa. Esqueça esse negócio de representatividade. Político não representa ninguém, a não ser ele mesmo. Se algum colega meu disser o contrário, das duas uma: ou ele está mentindo ou ainda não entrou no jogo. Ainda. Você vota e esquece, pois eles vão esquecer você. Estamos entendidos? Muito bem.

Por que estou na carreira política? Ora, porque é o melhor emprego do Universo. Pelo menos no Brasil. Você trabalha pouco, ganha muito e não sabe o que fazer com tanto privilégio. De quatro em quatro anos você distribui dentadura na favela, meia dúzia de cadeira de roda, treina o sorriso e aprende a responder pergunta cabeluda com qualquer frase que comece com “Veja bem…”. Aí você bota uma roupinha mais simplizinha, sai no sol quente apertando mão cheia de calo, põe criancinha feia no colo, promete coisas impossíveis, posa ao lado do prefeito e pronto, tem mais quatro anos de moleza pela frente. E se souber fazer a coisa, ainda garante umas indicações, assegura umas verbinhas, abre uma estrada em frente à sua fazenda… Projeto de lei? Ah, isso é muito chato. Mas vá lá, você contrata uma turma aí, eles estudam o caso e preparam um projeto bacana, como distribuição de colchonete para a população carente. Para o povo, quando cair morto, pelo menos não bater a cabeça.

Não, não estou sendo cínico, estou sendo franco. Você, por acaso, não ia querer um emprego desses, com direito a férias toda semana, abono, jeton, extra, extra adicional, auxílio paletó, auxílio cueca, custo moradia, custo telefone, custo tudo? Sem falar nas aposentadorias. Sem falar que você mesmo aumenta seu salário, já pensou? Sem falar na impunidade parlamentar. Sem falar nos desvios. Ah, minha amiga, meu amigo, nada se cria, tudo se desvia. Tem gente que desvia avião, um troço grande daquele, imagine merenda escolar, que cabe no bolso da calça. Sim, tem essa tal de CPI, eu sei. Mas, cá para nós, CPI na verdade significa Comissão que Parece que Investiga. Você acha que político vai sacanear o colega de profissão na cara dele? Não vai, é tudo comprometido.

Se eu penso no país? Para quê? O país por acaso pensa em mim, pensa em você? País não pensa. E este nosso não vai mudar nunca. Mudam as moscas, minha filha, mas a merda é a mesma. Quem é rico fica mais rico, e quem é pobre que se dane, quem mandou nascer? Como é que pobre consegue empréstimo se banco só empresta dinheiro para quem já tem dinheiro? Como é que alguém vai deixar de ser pobre se só para poder trabalhar tem de passar quatro horas preso num ônibus? Aliás, como é que alguém pode ganhar dinheiro se passa o dia inteiro trabalhando?

Político é um bandido eleito. Estou exagerando? Então veja o percentual de políticos envolvidos em algum tipo de crime. É bem maior que a média da população. Política é bandidagem politicamente correta. Infelizmente, meu tempo acabou. Foi um prazer conversar com você. Espero que me honre com seu valioso voto. Tudo que prometo é franqueza. Aliás, já estou cumprindo. Meu nome é Franco Fortuna, o único político que cumpre antes de prometer.

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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01- tem meu votooooooo. Haydee de Castro, Fortaleza-CE – set2012

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Quem tem a droga tem o poder

14/07/2008

14jul2008

Quem ganha e quem perde com a proibição das drogas?

QUEM TEM A DROGA TEM O PODER

(1a parte da trilogia Rio Droga de Janeiro)

“A gente não torce mais para a polícia acabar com as quadrilhas, pois a gente sabe que isso é impossível. A gente agora torce é para que apenas uma quadrilha se estabeleça no lugar onde a gente mora, pois é só assim que a gente tem um pouco de paz. De preferência a quadrilha que tem apoio da polícia.”

Quem disse isso foi uma amiga minha que mora no Morro do Vidigal, favela carioca da zona sul, um dos lugares com a vista mais deslumbrante do Rio de Janeiro. Ela lamentava a guerra entre quadrilhas de traficantes que há meses violenta o dia a dia de sua comunidade e obriga os moradores a conviver com tiros e explosões na madrugada, enfrentamento de quadrilha com quadrilha e quadrilha com polícia, mortes, toque de recolher imposto pelos bandidos…

Quem tem a droga tem o poder ‒ esta é a lógica cruel do Rio de Janeiro atual. Junte-se a isso pobreza, despreparo das forças de segurança, descaso dos governantes, indiferença das elites, interesses comerciais, corrupção em todos os poderes e, também, é claro, a existência de um ávido mercado consumidor e, pronto, você terá um poder paralelo capaz de se infiltrar em todos os níveis da sociedade, corroer suas bases, estabelecer suas próprias leis e tornar a vida do cidadão um inferno.

Os criminosos querem poder, muito poder, quanto mais melhor. Para isso, precisam de muito dinheiro. Droga é um negócio perigoso, mas é bastante lucrativo pois há muitos consumidores, inexiste fiscalização e não se paga imposto. Os maiores pontos de venda ficam nas favelas porque lá o Estado se recusa a ir. Lá as quadrilhas são o Estado: elas fazem as leis, fiscalizam seu cumprimento e punem os faltosos. Antigamente o traficante do morro era nascido no morro e era um romântico, pois atuava como um benfeitor da comunidade abandonada pelo Estado, usando seu poder para amenizar as dificuldades de sua gente. Hoje não é mais assim. O negócio da droga é para profissionais e não para Robin Hoods românticos. Os chefões não estão interessados em melhorar a vida de ninguém, mas em obter mais poder e se defender das outras quadrilhas que cobiçam seu território. E o cidadão? Este fica lá, impotente e apavorado no meio do fogo, sem ter a quem recorrer.

Se o problema ficasse restrito às favelas, as elites não estariam nem um pouco preocupadas. Mas a violência gerada pela bandidagem desceu o morro e alcançou a classe média e os ricos. Não há mais onde se esconder. Carro blindado, vidro escuro, condomínio fechado, cerca elétrica, câmeras de vigilância ‒ a sociedade gasta fortunas para se proteger, mas um dia a violência descobre uma brecha e ataca, nos transformando em mais um número das estatísticas. As quadrilhas, cada vez mais ousadas, exibem seu poder à luz do dia, decapitando o inimigo, tocando fogo no corpo e largando-o nas ruas, perto do metrô, para que todos entendam de uma vez quem é que manda no pedaço.

Minha amiga não quer guerra onde ela mora. Ninguém quer. O Estado deveria proteger os cidadãos, mas entra ano e sai ano, entra década e sai década, e isso não acontece. O que sobra ao cidadão? Apenas torcer para que a quadrilha que manda no bairro não seja atacada por outra quadrilha. A coisa chegou a tal ponto que é melhor viver na paz do tráfico que na guerra do tráfico, veja só o absurdo. Já que o narcotráfico não vai acabar nunca, melhor se entender com quem realmente manda no pedaço. E esse alguém não é a polícia. Nem o governador.

E por que diabos as forças de segurança não agem? Arrá! Chegamos a um segundo nível da questão. A polícia é incapaz de conter a força dos traficantes não exatamente porque são muitos e bem armados, mas porque os bandidos possuem conexões com a própria polícia, as forças armadas, políticos, juízes e governantes. Até mesmo com empresários e igrejas. Como derrotar algo tão poderoso?

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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..figdrogaspsicotropicusoutdoor

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Foto 1: Ana Carolina Fernandes/Folha Imagem
Foto 2: Psicotropicus

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Textos da trilogia Rio Droga de Janeiro

> Quem tem a droga tem o poder
> Os discretos sócios do narcotráfico
> Guerras às drogas não, antiproibicionismo sim

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JeffersonPeres-01As drogas chegam ao Senado

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Ricardo Kelmer

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