Confissões de um míope

30/06/2012

30jun2012

O míope então restringe suas relações visuais com as pessoas a um raio de cinco metros e quem estiver além disso não faz parte de seu mundo. E acaba ganhando uma imerecida fama de boçal

CONFISSÕES DE UM MÍOPE

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Um dia contei para minha mãe que estava com dificuldade de enxergar o que o professor escrevia na lousa. Foi aí que descobri que era deficiente visual, um míope, e precisaria usar óculos. Míope. Palavra estranha. Não combinava comigo. Oi, meu nome é Ricardo e sou míope… Muito estranho. O óculos então, nem fale. Agora eu era um garoto de 12 anos que usava um artefato sobre o nariz e precisava viver com dois pedaços de vidro o tempo todo bem diante de meus olhos. É como acordar e descobrir que há um novo órgão em seu corpo que antes não existia. Como se já não bastassem as espinhas no rosto e a voz desafinando…

Nos primeiros dias você se sente meio idiota e se olha o tempo todo no espelho, sem qualquer intimidade com aquela pessoa ridícula que insiste em ser você. Agora você é uma mistura desengonçada de humano com, digamos, um pato. Você entra no ônibus e todos olham para o pato de calças. Em outros casos você se torna um pato invisível, principalmente para a garota da outra classe que de repente deixou de olhar para você.

Não consegui me acostumar com minha nova condição. Sempre que podia, tirava o óculos, escondia no bolso. Sem falar nas vezes em que esqueci no banheiro ou, crec!, sentei sobre o desgraçado. E a cada vez que fazia o exame de vista, me descobria mais cego, três graus, quatro, cinco… Onde ia parar?

Com o tempo, aprendi a conviver com o inimigo, uma relação de amor e ódio. Amor quando precisava ler as legendas no cinema ou ver de longe o Circular se aproximando. Ódio quando esquecia de tirá-lo e a gatinha do segundo ano achava de passar justamente nesse momento. Com óculos eu era o patinho feio, sem óculos o mundo virava uma coisa desfocada: você percebe que tem alguém olhando para você, mas não sabe quem é, nem se está olhando mesmo para você. Se responder ao aceno, poderá estar acenando justamente para aquele chato insuportável. Melhor fingir que não viu.

Nessa fase do processo o míope descobre que o menos pior é não olhar para ninguém, andar de farol baixo. Melhor fulano achar que você não o viu que achar que não quis falar com ele. O míope então restringe suas relações visuais com as pessoas a um raio de cinco metros, e quem estiver além disso não faz parte de seu mundo. E acaba ganhando uma imerecida fama de boçal.

Já adulto, passei a usar lentes de contato. Elas me prometiam um mundo novo, onde eu enxergaria tudo normalmente. Mas lentes requerem adaptação. Você deixa de ser um pato com óculos fundo-de-garrafa e se torna uma dondoca, sempre com unhas cortadas para não riscar a lente, estojinho com soro fisiológico e outros produtos e tendo que ir lavar as lentes bem no meio do filme. Isso quando elas não caem do olho no melhor da festa e você tem de pedir para acender a luz e todo mundo parar de dançar… Sei de um caso em que a moça, após ardente noite de amor, encontrou uma lente de contato na entrada de sua xana. Ela ainda pensou em ligar para o sujeito para ele devolver, mas desistiu, podia não ser dele… Fosse quem fosse, era um cavalheiro: preferiu ficar cego a interromper o ato e estragar o romantismo do momento. Se fui eu? Não estou autorizado a falar sobre o caso.

E os olhos vermelhos? Qualquer ventinho e, pronto, lá vai a dondoca para o banheiro. As lentes irritavam tanto que meus olhos eram uma constante tocha vermelha. Pô, cara, quantos baseados tu fumou? No início, eu ainda explicava, mas depois desencanei. E por que não usava colírio? Porque não podia, estragava a lente. Decidi que era melhor passar por maconheiro que enxerga que por careta cego.

E o ritual de tirar as lentes antes de dormir? Lavar bem as mãos com sabão, não enxugar, encher o estojinho com conservante, tirar a lente do olho, lavar e enxaguar, por as lentes no conservante, fechar com cuidado… Imagine esse meticuloso ritual depois de uma noitada daquelas. Várias vezes acordei no dia seguinte sem lembrar como conseguira fazer. E várias vezes descobri que não conseguira mesmo, pois o diabo da lente não estava no estojinho, putz, o que me fazia sair de quatro, cego e de ressaca, procurando uma coisa minúscula e transparente pelo chão do quarto, que ridículo.

Cheguei ao ponto em que trabalhava apenas para comprar novas lentes. Então desisti e, sem dinheiro para comprar óculos novo, resgatei um velho óculos de grau, de lentes escuras. Deixei de ser o doidão dos olhos vermelhos para ser o doidão que usa óculos escuro à noite. Mas como o grau estava defasado, eu agora era o doidão boçal que não falava com as pessoas. A situação estava cada vez pior.

Depois veio a fase das lentes descartáveis. Todo ano eu me consultava com a dra. Wélia e comprava seis pares de lentes. Mais finas e flexíveis, elas não irritavam tanto. Que maravilha da tecnologia oftalmológica! Eu deixaria de ser o doidão boçal e, aos 32 anos, seria finalmente um sujeito normal. Bem, quase, pois é difícil se livrar de um hábito de duas décadas – apesar de agora enxergar perfeitamente, eu sem perceber ainda evitava encarar as pessoas. Teria de reaprender a olhar nos olhos do mundo.

Pausa para o Discovery Channel Maravilhas do Corpo Humano. Uma coisa curiosa é que quando estava sem lentes, eu não entendia bem o que as pessoas diziam. Descobri que além de cego, ficava meio surdo. É que somos incrivelmente dependentes da linguagem visual que vem dos gestos sutis do corpo, e inconscientemente nos guiamos por eles para reforçar o sentido da palavra falada. Sem os gestos auxiliares, a recepção da mensagem pode ficar comprometida, como era o meu caso.

Ano passado, após seis anos de visão descartável, decidi fazer a tal cirurgia de miopia. Você deita, arregalam seu globo ocular, pingam um colírio alucinógeno e enquanto você viaja pelo cosmos o raio laser faz o serviço. Vinte minutinhos, coisa simples, sem dor. Entrei na sala com sete graus e saí com um, incrível. Melhorou bastante, é claro, mas agora tenho uma nova dificuldade. Ela se chama cegueira noturna. É relativamente comum nesses casos: durante o dia enxerga-se bem, mas à noite o mundo fica desfocado, as luzes confundem. Parece que preciso voltar à mesa de cirurgia para uma pequena correção. Putz, quando essa saga vai terminar?

Enquanto isso, não me leve a mal se naquela noite não respondi a seu sorriso. Apesar dos progressos, ainda sou um deficiente visual e necessito do apoio da sociedade…

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Ricardo Kelmer 2003 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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Blog do Kelmer comemora 4 anos com sorteio

20/06/2012

Ricardo Kelmer 2012

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O Blog do Kelmer tá comemorando o aniversário de quatro… anos. Viva! Obrigado a você, que tem paciência de me ler e dá sentido ao meu trabalho. E no aniversário do blog um leitor é quem vai ganhar o presente. Tô sorteando um kit kelmérico, vamos nessa? O sorteio acontecerá em 03jul. O kit contém:

> 3 livros kelméricos à sua escolha (conheça)
> 1 DVD do espetáculo Viniciarte (conheça)
> 1 DVD da festa Cabaré Soçaite (conheça)

Pra participar, acesse o Facebook (precisa ter conta lá, obviamente) e indique algo que você curte em meu trabalho.

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CURIOSIDADES DO BLOG

Acho que essas informações só interessam realmente ao dono do blog. Mas como certos leitores têm umas preferências estranhas, vai que isso interessa a eles também..
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ACESSOS INDIVIDUAIS (últimos 6 meses)

dez2011: 5.651. Média diária: 182
jan2012: 5.943. Média diária: 191
fev2012: 6.377. Média diária: 219
mar2012: 7.196. Média diária: 232
abr2012: 6.888. Média diária: 229
mai2012: 7.897. Média diária: 254

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POSTAGENS PUBLICADAS:
367
Média mensal: 7,6. Nos últimos meses a média mensal é 4.

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SEGUIDORES:
88
Eles são imediatamente comunicados de novas postagens. Como assim você ainda não segue o blog?

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POSTAGENS MAIS ACESSADAS
(desde jun2008)
É claro que as mais antigas têm vantagem. E, como seria de se esperar, as que tratam de sexo ou sexualidade estão entre as campeãs, ô povo safado…

01. Página inicial 106.099
02. Mapa e Índice de Postagens 9.830
03. As crianças transexuais 5.867
04. A mulher selvagem 5.803
05. As taras de Lara – Começando por trás 5.778
06. A travesti anã e sua irmã sapata 5.341
07. Por trás do sexo anal (1) 5.086
08. Cabaré Soçaite 4.995
09. Livros 4.511
10. Arquivos secretos 4.336

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POSTAGENS MAIS ACESSADAS (30 dias, de 20.05.12 a 20.06.12)

01. Página inicial 4.713
02. Cabaré Soçaite 336
03. O mistério da morena turbinada 246
04. As crianças transexuais 240
05. As vantagens de ter um amante 225
06. Por trás do sexo anal (1) 207
07. A mulher selvagem 201
08. Arquivos secretos 178
09. A ilha (uma fábula do autoconhecimento) 159
10. Queremos mulher carnuda 151

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MÉDIA DE COMENTÁRIOS POR MÊS: 21
Como costumo responder aos comentários, aproximadamente metade do total são meus

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01. Parabens R. Kelmer pelos 4 anos do blog. Abraço. Janailson Macêdo, Campina Grande-PB – jun2012

02. Parabéns pelos 4 anos. Kelmer publica um dos melhores blogs totalmente proibido para hipócritas, moralistas, dondocas, tabacudos e pessoas que ficam facilmente ofendidas. Eu não sou propriamente um leitor assíduo, muito pelo contrário. Newton Silva (pelo blog Gente de Mídia, Fortaleza-CE – jun2012



Protegido: Por dentro da mulher carnuda (VIP)

09/06/2012

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