Odair José primeiro e único

07ago2010

Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

ODAIR JOSÉ, PRIMEIRO E ÚNICO

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Sujeito interessante esse goiano de Morrinhos. Ele ri pouco, mas vê-se que é boa-praça. Tem cara de bandido de velho-oeste. Mas suas músicas possuem uma ternura que salta aos olhos. Odair José é remanescente dos tempos em que não havia FM, a música popular não era tão diversificada como hoje e o rótulo “brega” sequer existia – em 1972 todo mundo era brega. Mas ninguém sabia disso.

Sua entrevista no Jô Soares Onze e Meia, em 1996, foi memorável. Odair contou como começou a se apresentar em Goiânia e de lá, ainda adolescente, foi para o Rio de Janeiro, onde chegou no fim dos anos 1960 e foi artisticamente adotado pela zona. Ele e seu violão já dormiram pelos banheiros da rodoviária de Londres. Mas o melhor é a música. Jô pede que ele toque algo. Ele pega o violão, assume aquele ar compenetrado de não-riam-porque-é-sério e toca. Do fundo do coração. A plateia ainda ensaia uns risinhos. O entrevistador tenta inserir piadinhas. Mas é inútil: Odair continua sério, mesmo cantando coisas que a maioria só cantaria de gozação.

Suas canções destilam considerações filosóficas sobre Deus, a vida, o amor, a paternidade, a solidão. Cheias de óbvios risíveis como só as grandes verdades podem ser. Mas também falam de garotas de programa, pílulas anticoncepcionais e empregadas domésticas envergonhadas. Tudo numa franqueza admirável. Tem o cara que comprou uma revista masculina e encontrou a foto da ex, olha que maldade. Tem o outro que sabe que a garota dá para os amigos dele só para fazer ciúme, a ingrata. Temas machistas? Ingênuos? Talvez. Mas na boca de Odair ganham ternura e romantismo insuspeitados. Você escuta e pensa: será que ele está falando sério mesmo? Pois, para o seu governo, está.

Odair estourou logo no primeiro disco, em 1972, com Vou Tirar Você Desse Lugar. Em 1973, com o polêmico sucesso Pare de Tomar a Pílula (porque ela não deixa nosso filho nascer), Odair provocou uma confusão danada. Parte da Igreja até simpatizava com a música pois ela parecia ser contra a pílula. Mas outra parte se incomodou bastante porque a música falava de sexo como se sexo, imagiiina, fosse algo natural. Odair quase provocou um cisma na Igreja. E ainda incomodou também o governo por supostamente atrapalhar a campanha de natalidade. E agora, proíbe ou não proíbe o diabo da música? Proibiram.

Logo depois, com Deixa Essa Vergonha de Lado, ele se tornou o guru-terror das domésticas. Nessa época a mídia alimentou uma polêmica: Odair José ou Caetano Veloso? Parece mentira mas é verdade. Os dois inclusive chegaram a cantar juntos a clássica Vou Tirar Você Desse Lugar. Tempos loucos aqueles!

Nos anos 80 Odair andou meio esquecido, mas nos 90 voltou à tona graças a movimentos musicais bem humorados como Os Necessários e a Banda Vexame, que o adotaram como padrinho. Os Titãs também declararam seu amor e lhe deram a música Baby. A partir daí Odair ganhou uma certa aura cult e hoje sua obra bem que merecia ser relida como fizeram com a de Roberto Carlos. Mas atenção. Ele não é neossertanejo de calças apertadas. Não faz o gênero bonitinho de Daniel nem é raposa velha como Reginaldo Rossi. Não tem o apelo de Roberta Miranda e muito menos a breguice intelectualizada de Falcão. Odair é único. Mas é um pato desajeitado entre os cisnes da grande mídia: por isso ela não o adota. Nada não, Odair. Inveja dessa gente.

A Globo-Universal lançou em 2001 o CD Odair José ao Vivo, com 18 canções. Lá estão velhos sucessos como Esta Noite Você Vai Ter que Ser Minha, Que Saudade de Você, A Noite Mais Linda do Mundo e Eu, Você e a Praça. Banda ensaiada, arranjos modernos, plateia empolgada. Tem também Vou Tirar Você Desse Lugar, claro. Você eu não sei, mas muita gente boa já chorou essa música num cabaré, agarrado numa garrafa de Dreher. Mas hoje não existem mais cabarés… Tempos estranhos.

“Encostei o meu carro na praça e você, um tanto sem graça, sorriu pra mim…” Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair. De preferência numa dessas noites em que está de saco cheio dessas mulheres sabidas demais das cidades grandes. Pegue sua bebida, sente ao sofá e entenda a mulher odaírica: ela certamente trabalha em loja de departamentos, tem um jeito simples, é discreta e honesta. Aborde-a com delicadeza. Ela tem um passado triste nos olhos e aceitará um drinque com reservas. E amará você do jeito que você é. Que, cá para nós, meu caro, é o que você anda precisando.
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Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

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> Este texto integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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VOU TIRAR VOCÊ DESSE LUGAR – O CURTA

Vou tirar você desse lugar (conto baseado na letra de Vou Tirar Você Desse Lugar. Um dia vai virar um curta-metragem, ah, vai)
De repente a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser apenas detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

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odairjose009OUÇA E BAIXE

E depois volte pra mim (disco Praça Tiradentes, 2012)
Não me venda grilos (o disco censurado O Filho de José e Maria, 1977)
Nunca mais (disco O Filho de José e Maria, 1977)
Na minha opinião (1975)
Dê um chega na tristeza (1975)

A noite mais linda do mundo (1974)
Cadê você (1973)
Eu, você e a praça (1973)
Vou tirar você desse lugar (ao vivo com Caetano Veloso, 1973)

Vou tirar você desse lugar (1972)
Esta noite você vai ter que ser minha (1972)

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VÍDEO

Odair José canta “Vou tirar você desse lugar” no Centro Cultural Light, Rio de Janeiro, 27.11.07

Odair José canta “Foi tudo culpa do amor” no Teatro Rival, Rio de Janeiro, jul2012
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LEIA

Discografia de Odair José

Vou tirar você desse patamar – Temática social na canção de Odair José – Trabalho acadêmico de Ana Karolina Cavalcante Assunção e Síria Mapurunga Bonfim (2011)

O trovador da luz vermelha – Entrevista com Odair José (jornal O Povo, Fortaleza, set2012)

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LEIA NESTE BLOG

Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

A celebração da putchéuris – A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro

A sociedade feladaputa de Geraldo Luz – Crítica social, literatura, filosofia, anarquismo, sacrilégios explícitos e sodomismos irreparáveis

Ser mulher não é pra qualquer um – É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

O brega não tem cura – Porque o senhor sabe, né, o brega sempre puxa uma dose, que puxa outra, que puxa a lembrança daquela ingrata, que puxa outra dose…

Maluquice beleza – Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra

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TrilhaDaVidaLocaDiv-04TRILHA DA VIDA LOCA
Contos e canções do amor doído

Mesclando música e literatura, este show reúne clássicos da dor de cotovelo da MPB e histórias de amor inspiradas em sucessos de Odair José, Waldick Soriano, Diana, Reginaldo Rossi e Fernando Mendes, num formato divertido e interativo. As canções são executadas por Ricardo Kelmer e Felipe Breier (voz e violão) e também em trechos de suas gravações originais, com participação da plateia. Paixões de cabaré, traições, vinganças e outras baixarias em nome do amor… Favor pagar o couvert antes de cortar os pulsos.

Texto e direção: Ricardo Kelmer. Com Ricardo Kelmer e Felipe Breier.

VÍDEO – CLIPE 1
Trechos do show

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Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

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9 Responses to Odair José primeiro e único

  1. Akasha disse:

    Ótimo texto, gostei de conhecer mais sobre a obra odaírica, e concordo com o final da mensagem, as inteligentes não estão sendo tão inteligentes por que estão indo contra sua natureza, e aquelas que não se preocupam tanto em ser sabidas é que estão sendo sábias. O autoconhecimento leva à felicidade!

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  2. Rosa disse:

    Odair, considerado pela mídia pejorativamente como “artista popular”, deveria ser ouvido/visto de uma forma não tão estigmatizada. Quem disse que é feio sofrer por um amor ingrato? Ou sentir saudades daquela pessoa especial? Afinal o que é produzido é poesia,ingênua que seja, mas poesia.

    Falando no mestre, ainda aguardo uma performance odaírica acolá com direito a cabo de vassoura fazendo as vezes de microfone e uma garrafinha de domecq ornando… ;]

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  3. MOHAN DAS disse:

    Cheias de óbvios risíveis como só as grandes verdades podem ser. (êita frase talentosa)

    Poir véio é que eu vivi essa era dourada da MPB.
    Hoje todos querem falar de amor em suas canções, mas quem é mestre fala por sí, como é o caso do Roberto Carlos, Márcio Greyck, Biafra e mais uma lista grande de nomes que caíram no esquecimento. Achei uma música muito inspirada do Zé Geraldo que é “Na Barra do Seu Vestido”. E essas canções estão voltando hoje pra mim e fazendo um sentido que eu nunca imaginaria que fisessem. Isso ocorreu quando minha mulher lendo seus textos de liberdade da mulher, resolveu ir embora.
    Mas a maior responsável mesmo foi a Clarice Linspector. Bom o jeito é mandar um ramalhete “olha outra aí Rua Ramalhete” e um poema do Geraldo Azevedo que diz: “Se voce vier pro que der e vier comigo eu lhe prometo o Sol se hoje o Sol sair…..”

    Um abraço

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  4. susanaxmota disse:

    mulher odaírica. Taí. 😛

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  5. Odair josé é o maior talento em termos músicais deste país.Trazendo a realidade de um povo e traduzindo seu sofrimento através de suas letras músicais. Mas como sempre este talento não tem o devido valor que merece, devido talvez a modenidade quem sabe o funk? tem mais qualidade e traga ao povo mais conhecimento?

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