Observatório 08.03.09

Ricardo Kelmer 2009

.

O QUE A PAIXÃO NÃO FAZ

danielamercury,camillepaglia01Que grande chance de ficar calada perdeu a escritora feminista estadunidense Camille Paglia. Numa recente entrevista pra revista Veja, Camille revelou estar desapontada com a música pop e especialmente com Madonna. Até aí tudo bem. O negócio pegou quando Camille passou a descarregar um caminhão de confetes sobre a cantora Daniela Mercury:

“Ela é a Madonna brasileira. Faz música pop mas possui outra dimensão incrível que Madonna não tem: um grande conhecimento sobre folclore, sobre os grupos étnicos brasileiros e sobre a história da Bahia”.

Grande conhecimento sobre folclore e grupos étnicos? A Daniela Mercury? Putz… Será que precisou vir uma intelectual lá dos Estados Unidos nos mostrar, a nós ignorantes brasileiros, quem realmente é Daniela Mercury?

Não, claro que não. Mas vamos relevar, por favor. Camille se apaixonou pelo tempero da baiana e, você sabe, a paixão nos faz ver coisas que não existem. Não sei se Daniela retribuiu os confetes da gringa empolgada mas uma coisa eu sei: é bom ela fazer urgentemente um intensivão sobre etnografia e folclore brasileiro antes que algum repórter mais curioso invente de querer comprovar a tese de Camille.

Depois dessa o precedente tá aberto pro Noam Chonski publicar um ensaio apaixonado sobre a Tati Quebra-Barraco. É, dona Orestina, é o fim do mundo.

.

A DISCUSSÃO TÁ ACESA

cacomaconha2A revista Época, edição 561, de 16fev2009, teve como matéria de capa a reportagem Maconha – Por que é preciso debater a legalização do uso da droga. A matéria, assinada por Ruth de Aquino, que é diretora da sucursal da revista no Rio de Janeiro, tem como imediata inspiração o atual movimento de um grupo de pessoas que defende a legalização do consumo pessoal de maconha.

Até aí nada demais. A maconha sempre teve seus defensores, principalmente entre artistas, estudantes e hippies. A novidade é que o tal grupo que inspirou a matéria é formado por políticos, intelectuais e especialistas de vários países, entre eles ex-presidentes como Fernando Henrique Cardoso, do Brasil, Cesar Gaviria, da Colômbia, e Ernesto Zedillo, do México. Pra eles, a sociedade tem mais a perder que ganhar com a proibição do consumo da erva. Ou seja: a bandeira da legalização agora é empunhada por gente chique de gravata, diploma e respeito internacional. A maconha agora deve estar se sentindo a rainha da bocada, ops, da cocada.

Mais cedo ou mais tarde isso teria mesmo que acontecer. Na verdade até que demorou muito pois é indiscutível que falhou estrondosamente a atual política de repressão dos governos em relação à questão da droga. Tudo o que se conseguiu foram bilhões de dinheiro gastos à toa, milhões de mortes e o fortalecimento do crime organizado. A tal guerra às drogas é uma guerra perdida desde o início pelo simples fato de que é impossível vencer algo que é natural à espécie humana: o anseio por estados especiais de consciência.

Sejamos realistas: as pessoas DESEJAM alterar o funcionamento cotidiano da mente, seja com álcool, nicotina, THC, cocaína, ecstasy, LSD, lança-perfume ou remédios. Elas querem, sempre quiseram e continuarão querendo usar drogas, sejam legais ou ilegais. E elas usarão, nem que precisem se envolver com o tráfico e arriscar serem presas.

Diante disso, a atitude mais sensata da sociedade seria trocar a política de guerra às drogas pela política de redução de danos, onde admite-se que os consumidores sempre existirão e que, assim sendo, o melhor não é prendê-los mas ajudá-los a lidar com a droga da melhor forma possível. Tentar proibir as pessoas de usarem drogas funciona tanto quanto tentar acabar com a aids proibindo o sexo.

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

>> Mais sobre este tema: Rio Droga de Janeiro – Série de 3 artigos sobre a questão da legalização das drogas

.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

Comentarios01 COMENTÁRIOS
.

Anúncios

3 Responses to Observatório 08.03.09

  1. Chris disse:

    E os policiais que ganham o seuzinho das bocas de fumo vão ficar na mão? Não interessa aos politicos e policiais corruptos que haja legalização de nada, a folha de Pagamento é mto grande e lucrativa, para simplesmente legalizar por que seria o mais racional.

    Curtir

  2. chicopianco disse:

    Artigo bem tecido. Li recentemente no blogue do Dennis russo na veja matéria esclarecedora sobre esse assunto, se quiser olhar kelmer, ela fica em : http://veja.abril.com.br/blog/denis-russo/

    pra lhe adiantar o quão curioso me pareceu esse artigo, transcrevo aqui somente o primeiro parágrafo.

    Cem anos atrás, em 26 de fevereiro de 1909, um grupo de diplomatas de 34 países se reuniu na China para a Comissão Internacional do Ópio e decidiu que essa droga tão nociva tinha que ser proibida no mundo inteiro. Começava ali a era da proibição das drogas. Até aquele dia, não existiam “drogas ilegais”. Maconha se comprava em armazéns na África, na Índia e no Rio de Janeiro. Cocaína era produzida pela Bayer e, assim como aspirina, vendida na farmácia.

    Sem dúvida, me sinto em outra época… abraço.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: