Bordel Poesia estreia em São Paulo fev14

23/02/2014

23fev2014

BordelPoesiaCartaz-02a.

BORDEL POESIA ESTREIA EM SÃO PAULO

O Bordel Poesia estreou em São Paulo. Viva! Criado por mim em 2009, quando passava uma temporada em Fortaleza, o Bordel Poesia agora tem sua versão paulistana. A estreia aconteceu em 18.02.14, no Artilheiros Bar (Vila Madalena). Meu sócio nas edições paulistanas será o cantor e ator Fellipe Defall. A equipe conta ainda com Marcinha Fernandes, Shirlene Holanda e Luc Lic na produção. O evento terá periodicidade mensal.

Sabemos que há muitos saraus na cidade. A proposta do Bordel Poesia é oferecer ao público um sarau com elementos do teatro de revista, reunindo variadas expressões artísticas num ambiente cabaretizado. A ênfase é nos temas paixão, desejo e erotismo, mas vale qualquer tema. Todos podem se apresentar (por ordem de chegada), com números de literatura, música, dança, teatro, burlesco, humor, vídeo, fotografia etc. Na lojinha do Bordel, todos poderão vender ou trocar seus livros, CDs, DVDs etc.

> Mais sobre o Bordel Poesia

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sorteio de livros, CDs e DVDs

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IMAGENS DA ESTREIA
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BordelPoesia201402-103A loira receptiva da recepção
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BordelPoesia201402-127Marcos Maia e seu livro “Do escuro e depois”
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BordelPoesia201402-125Fellipe Defall soltando seu vozeirão
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BordelPoesia201402-122Ana Cris é carne nova
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BordelPoesia201402-120Renata Regina e seu livro “Flores, horrores e amores”
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BordelPoesia201402-114Poesia em libras (linguagem brasileira de sinais)
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BordelPoesia201402-113Carla Dias é carne nova
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BordelPoesia201402-111Gilson Ribeiro é carne nova
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BordelPoesia201402-108aMarcinha Fernandes, a loiraça belzebu do bordel
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BordelPoesia201402-109A lojinha do bordel. Traga seu livro, CD, DVD…
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BordelPoesia201402-110Ricardo Kelmer e Fellipe Defall apresentando carne nova
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BordelPoesia201402Foto-01aEvandro abalando no palco
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BordelPoesia201402Foto-04Ana Cris e Loop B, casal bordélico

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BordelPoesia201402Foto-14Bordel Poesia também é dança árabe

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BordelPoesia201402Foto-18Mag Faria e Luciano Costa, incríveis

. BordelPoesia201402Foto-23aO charme sensual de Janaína Flor de Lótus
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BordelPoesia201402Foto-25Dario da Josélia (depois de perder o cavanhaque) e o barman Catatau
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BordelPoesia201402Foto-24Janaína é carne nova

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P1020557x1y2O amor cabarético de Dario e Josélia (Vou tirar você desse lugar)
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BordelPoesia201402-133a
Dario, meu fi, você me aceita como sou?
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BordelPoesia201402-134a
E não interessa o que os outros vão pensar…
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BordelPoesia201402Rodrigo-01Rodrigo, do Artilheiros Bar
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Cubalança mas não cai

18/02/2014

18fev2014

A falta de democracia em Cuba é um grande defeito do regime, mas isso não anula as conquistas sociais realizadas pela revolução cubana

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CUBALANÇA MAS NÃO CAI

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Lá estou eu em Cuba, abril de 2006, três meses antes de Fidel baixar hospital, o irmão Raúl assumir (a presidência, gente) e o mundo inteiro voltar os olhos para o futuro da ilha. Uma semana de turismo em Havana, arriba!

Indo pelo Malecón, a beira-mar de Habana, vi um out-door sensacional e não resisti. Parei para tirar foto. Era tipo publicidade de filme, o presidente Bush feito um vampiro e os dizeres: “El Asesino ‒ Próximamente em las cortes norte-americanas”, e bem em frente à oficina de interesses estadunidenses. Sim, pois o Tio Sam não possui embaixada em Cuba. Mas em compensación não largam Guantánamo. Cara de pau…

Bueno, foi uma semana intensa. Conheci mais sobre a história da ilha, visitei locais históricos, tomei mojitos y cubanitos, ouvi salsas e boleros, andei de coco-táxi, comi nos famosos paladares. E me apaixonei pela ilha. Enquanto escrevo esta crônica, por sinal, ouço os maravilhosos cantores cubanos e me dá vontade de voltar. Na verdade, o que mais me interessava era conhecer Cuba por dentro, hablar con los cubanos, me misturar a eles. Minha porção jornalista era maior que a porção turista. E a principal conclusão que tirei foi esta: é impossível entender Cuba em apenas uma semana. O comunismo cubano, aos meus olhos, se já era estranho, revelou-se um monstrengo surreal. Bem, vivendo no Brasil, um país de outro planeta, eu já deveria estar acostumado. Mas Cuba é demais. Lá tem três moedas! Como aquilo pode funcionar? Muitos cubanos me responderam assim: não funciona.

Em tese, o regime comunista cuida dos aspectos básicos da vida do povo: fornece moradia, comida, roupa, trabalho, escola e saúde. Mas na prática não é bem assim. Como a comida não dá para o mês todo, o cubano acaba comprando comida – do governo, claro. Se o cubano quer uma casa, o governo financia, mas é tão caro que grande parte acaba morando com os pais, com os sogros… E os médicos formados, que ganham trinta dólares por mês? Dá para comprar trinta sabonetes. Você morre de fome, mas morre cheiroso.

Evidentemente, não dá para analisar os problemas do país sem considerar o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. O povo cubano sofre diariamente, de várias formas, por conta dessa crueldade. Rodando pela cidade, vi muita pobreza, casas desmoronando por falta de conservação. Vi pedintes, vi prostituição masculina e feminina. Boa parte dos cubanos se agarra nos turistas, literalmente, como náufrago numa boia. Muito cubano trabalha como guia. Todo cubano tem um irmão ou amigo que trabalha numa fábrica de rum ou charuto e pode conseguir mais barato e coisital. Alguns te convidam para conhecer a casa deles, na maior simpatia. Você acha isso lindo, fica encantado… mas na despedida eles te pedem um trocadinho. E não tem como não dar, né?

Felizmente em Cuba não há miséria como no Brasil, não há favelas nem crianças bandidas, o narcotráfico internacional tem pouquíssima força lá e o sistema primário de saúde, assim como a educação básica, funciona de verdade. Ay, que inveja. Mas até lá tem corrupção, essa praga tão brasileira. E o que dizer da fome insaciável do governo? Ele é sócio de tudo na ilha, até daquele quartinho que você aluga no sótão de sua casa. Veja os tais paladares. São restaurantes caseiros, permitidos pelo governo, uma forma de garantir a muitas famílias uma rendinha extra. Mas o governo não permite mais que doze mesas. E não pode servir frutos do mar, para não concorrer com os restaurantes dos hotéis. E ainda tem que pagar quatrocentos dólares de imposto por mês, com ou sem cliente… Carajo! Essa quantia lá é uma fortuna! Um sócio desse acaba incentivando o jeitinho, que nós brasileiros tão bem conhecemos: não tem no cardápio do paladar, mas, se você pedir, servem camarão e lagosta à vontade. Só não pode discriminar na conta, claro. E ainda disfarçam uma mesinha a mais ali atrás da cortina… É aquela coisa: o cubano se faz de morto e o governo faz que não vê.

A pior coisa, porém, pelo menos para mim, é a asfixiante falta de liberdade. Sei que aqui caímos na velha discussão sobre o que é mais importante, pão ou liberdade. Eu, particularmente, apesar de aplaudir de pé a revolução cubana, prefiro morrer fugindo que viver preso de barriga cheia. Se alguém se ausenta mais de um ano da ilha, perde automaticamente a cidadania cubana, sabia? Criticar o governo, então, nem pensar. O cubano tem de ser um soldado do regime, um porta-voz da sagrada revolución. É obrigado a deixar a sala de aula ou o trabalho para ir à praça escutar Fidel falar por cinco horas. Não pode acessar sites na internet e seu correio eletrônico é censurado. Ser homossexual em Cuba, até pouco tempo, podia dar cadeia.

Depois que Fidel se for, o que vai acontecer? Como el pueblo se comportará? E os cubanos de Miami? Tio Sam cessará o cruel embargo econômico? A ONU intervirá para ajudar a democratizar o país? Quem pode dizer? Mas o futuro já chegou e em breve falará oficialmente. Só espero que esse futuro mantenha as conquistas sociais trazidas pela Revolução e traga mais conforto e liberdade aos hermanos cubanos, que, mesmo com todas as dificuldades, são festivos e hospitaleiros. Ah, ia esquecendo de contar: todo turista, quando sai de Cuba, deve pagar ao governo uma taxa de vinte e cinco dólares, como presente à Revolução. Sem recibo.

Não há democracia em Cuba, é verdade, o que é um grande defeito do regime, mas isso não anula as conquistas sociais realizadas pela revolução cubana, conquistas que mesmo países ricos e democratas jamais conseguiram. Talvez a implantação da democracia em Cuba trouxesse também o risco de algum tipo de piora nos indicadores sociais, tão arduamente conquistados, é, talvez, mas, ao meu ver, é algo que deveria ter acontecido. Como eu acredito na viabilidade de uma democracia socialista, torço para que os cubanos, e nós brasileiros também, possamos um dia vivê-la. Hasta la victoria, siempre.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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A propaganda oficial anti-EUA é onipresente no país. Esta placa está no Malecón. Equivaleria a estar no calçadão de Copacabana, no Rio, ou na Volta da Jurema, em Fortaleza, ou na Av. Paulista, em São Paulo.

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O isolamento do regime fez, em alguns aspectos, o tempo parar em Cuba. Para os colecionadores de carros antigos, Havana é um paraíso.

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Comitê de Defesa da Revolução. Espalhados pelos bairros, os CDRs são a mais poderosa das organizações cubanas não governamentais. Eles desempenham tarefas de vigilância coletiva contra atos de desestabilização do sistema político cubano.  Também participam em tarefas de saúde, higiene, de apoio à economia e de promoção da participação cidadã. Qualquer cidadão crítico do regime tem, obviamente, ficha suja nos CDRs.

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A santeria cubana e seu sincretismo religioso. O regime comunista da ilha não tem simpatia pela religião, mas boa parte da população pratica algum tipo.

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Vendo tudo borrado com Havana Club. Ah, o rum cubano… Na porta de um bar no centro de Havana fui abordado por um simpático cubano, que era fã do Ronaldinho Gaúcho e me ofereceu um Havana Club 7 Anos por U$ 10, uma pechincha que ele conseguia por ser amigos dos donos do bar. Empolgado, entreguei-lhe a grana, ele entrou no bar e fiquei esperando. Tô esperando até hoje, eu e meu chapéu de otário.

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Enchendo el cabezón com Bucanero.

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Os famosos paladares. Comida caseira, gostosa e barata.

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Uma família cubana.

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Mojitos com Christina no Malecón.

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BuenaVistaSocialClub1999CarnegieHall-01Buena Vista Social Club

Eu já sabia da existência do disco produzido por Ry Cooder. Aliás, eu já conhecia Ry Cooder pela trilha sonora dos filmes Paris Texas e Crossroads (A Encruzilhada). Porém, nunca havia procurado escutar as músicas. Após esta minha viagem a Cuba, baixei as músicas e… foi paixão imediata. A partir daí esse disco tornou-se trilha sonora da minha própria vida. O disco foi gravado em 1996, em Havana (e lançado em 1997), a partir da ideia de Ry Cooder de reunir músicos da era de ouro da música cubana. O nome do disco era uma homenagem ao Buena Vista Social Club, um lendário clube de Havana dos anos 1940-1950, onde esses músicos se apresentavam. O curioso é que vários deles estavam afastados dos palcos, alguns já aposentados, e o sucesso mundial instantâneo do disco os fez retomar a carreira, levando-os a se apresentar em vários países. Eles todos chegaram a tocar juntos em 10.07.98, no Carnegie Hall em Nova York, numa apresentação antológica que foi registrada em disco (2006) e consta no documentário Buena Vista Social Club, de 1999, dirigido por Win Wenders. Tanto os discos como o documentário são maravilhosos. Infelizmente a maioria dos artistas já estava em idade avançada, e um a um eles morreriam nos anos seguintes, mas felizmente puderam saborear o reconhecimento mundial de seu formidável talento.
> Baixe o disco (55mb)

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MAIS SOBRE CUBA

Cuba (Wikipedia)

Revolução Cubana (Wikipedia)

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01- Recomendo … o texto , nao Cuba !!! Luciano Hamada, São Paulo – jul2015

02- Lindo! Michele SJ, Fortaleza-CE – nov2016

03- icardo Kelmer, muito bom vc compartilhar essa experiência. Realmente adorei ler! Clícia Karine Marques, Fortaleza-CE – nov2016

04- Q texto prazeroso de se ler! Shirlene Holanda, Fortaleza-CE – nov2016

05- Genial!!!! Melhor relato sobre a ilha desconheço!!! Kelzen Herbet, Fortaleza-CE – nov2016

06- Hasta Siempre Cuba.. Claudia Meirelles Bahia, Fortaleza-CE – nov2016

07- Muito bom, Ricardo! Virgínia Ludgero, Lourinhã-Portugal – nov2016

08- Atualíssimo! Cesar Veneziani, São Paulo-SP – nov2016

09- Bacana seu texto! Parabéns. Rosina Santana, Vitória da Conquista-BA – nov2016

10- Meu caro. Grande reportagem. Ótimo texto. Ailton D Angelo, São Paulo-SP – nov2016

11- Reli e mantenho minha admiração pelos teus textos Ricardo Kelmer. Sobre liberdade eu concordo muito. Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – nov2016

12- Muito bom relato, bem verdadeiro. Ana Maria Castello, Nova Yok-EUA – nov2016

13- Sem nenhuma referencia a todo o historico da revolucao ou ideologias, nunca tive a menor vontade de ir para Cuba. A ideia de ser livre em um pais onde ninguem mais eh, de poder ir e vir qdo ninguem mais pode, sempre me causou repulsa. Nao, eu nao vou para Cuba. Otimo texto. =) Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – nov2016

RK: Tata, é certo que os cubanos não têm, ainda, a liberdade de ir e vir e nem a liberdade de expressão que nós temos, mas por que isso deveria invalidar que pessoas como eu e você, que lutamos por justiça social e liberdade, viajemos para Cuba para visitá-los? Visitar Cuba não significa necessariamente avalizar a repressão política ainda vigente lá nem os erros cometidos pelo regime. O país tem coisas lindas, e o povo cubano necessita desse intercâmbio com outras culturas. Você não acha? nov2016

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Sociedade hipócrita, adolescentes drogados

08/02/2014

08fev2014

Inês continuará se drogando e mentindo. Porque os pais e a sociedade mentem para ela

SOCIEDADE HIPÓCRITA, ADOLESCENTES DROGADOS

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Acontece assim. Sua filha Inês, menor de idade, lhe diz que vai dormir na casa de uma amiga porque tem que estudar ou então porque vão para o aniversário de outra amiga, algo assim dito de forma bem natural para você não se preocupar. Porque na verdade Inês vai é para a boate dançar, beber, beijar, ficar, talvez um sexozinho… E você sabe que boates são proibidas para menores, e que é proibido servir-lhes bebida alcoólica. Por isso, sua filha precisa mentir para você.

Geralmente a aventura que começa com uma mentirinha termina sem maiores consequências, todos os dias milhões de adolescentes fazem isso. O problema é que às vezes o amigo que dirige bebeu demais, e no dia seguinte sua filha entra para as estatísticas das mortes envolvendo álcool e direção. Uma desgraça.

Sempre que ocorre um caso mais impactante, ou seja, depois que Inês é morta, começam as providências: fiscalizar bares, reprimir ambulantes, blitz na madrugada… De fato, é preciso fiscalizar e punir. Mas bem mais eficaz e barato é educar. Educar certo ‒ porque educação careta nunca vai resolver. Temos que ser francos com nossos filhos e, principalmente, com nós mesmos. E é justamente isso que nossa sociedade morre e não aprende: ser sincera com ela própria. E assim todo dia morre Inês.

Não adianta dizer a ninguém, principalmente a adolescente, para não usar droga, seja legal ou ilegal. Embora não pareçam, vestidos daquele jeito e com aquelas gírias e atitudes, adolescentes são humanos, e os humanos são uma espécie que tem necessidade de droga, por vários motivos. Como adolescente precisa muito de autoafirmação e é rebelde por natureza, a droga é ferramenta para seus anseios. O problema então não é se seu filho vai usar droga: é como ele vai usar. É a relação com a droga, e não exatamente o mero fato de usar droga, qualquer que seja, que determina se há ou não problema. Conte entre seus amigos aqueles que consomem alguma droga, legal ou ilegal, e levam vida normal: são maioria. A minoria é que tem problema com droga.

O melhor é que adolescente não se envolva com droga nenhuma porque droga é coisa de adulto. Mas infelizmente eles se envolvem. E a proibição aguça ainda mais a curiosidade e traz o excitante sabor do proibido. E esse envolvimento começa em casa, vendo os pais fumando hipocritamente seu cigarrinho cancerígeno, bebendo sua cerveja ou tomando seus remédios para relaxar ou emagrecer.

Só há uma saída: informar honestamente, sem moralismos nem preconceitos. Mas infelizmente a sociedade insiste num comportamento que nunca vai funcionar porque é contraditório. Ela diz, em seu tom cinza e sisudo, que não devemos nos drogar ‒ mas os neons alegres e coloridos insistem no contrário. A sociedade não explica convincentemente por que uma droga pode e a outra não pode. Ela não esclarece por que incentiva tanto o uso de álcool e cigarro, drogas altamente letais, que lotam os cemitérios, e proíbe a maconha, comprovadamente menos nociva. Os pais, mal preparados, trocam a informação franca pela repressão moralista. Resultado: o adolescente capta toda essa contradição e percebe que o discurso oficial não é honesto nem faz sentido. Por que diabos seria ele o único a obedecer e se enquadrar a um esquema certinho e careta enquanto ao redor todos se drogam todo dia? Por que aceitaria ele ser o bobo da história?

Inês continuará se drogando e mentindo. Porque os pais e a sociedade mentem para ela. Porque é isso que merece uma sociedade hipócrita que lhe nega a verdade e tenta enganá-la com moralismos irritantes e contradições ridículas.

Não funciona proibir a droga. Mas funcionam as políticas de redução de danos, onde a sociedade admite que precisa conviver com a realidade das drogas em vez de varrê-la para baixo do tapete e, assim, fiscaliza e inibe o uso nocivo em vez de simplesmente proibir. Além de coerente, esta sim é uma mensagem clara e honesta aos nossos filhos, como se cada pai e mãe os chamasse para um papo e dissesse:

‒ A gente sabe que a droga existe e sempre vai existir. Se você já usa ou vai usar, então a gente quer que você use da melhor maneira e saiba exatamente o que pode acontecer.

Difícil dizer isso a seu filho ou sua filha, né? Difícil até imaginar que eles estejam por aí se drogando, legal ou ilegalmente. Mas é exatamente o que muitos pais agora desejariam ter dito para sua Inês e infelizmente não disseram. Agora é tarde.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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Quem tem a droga, tem o poder Quem ganha e quem perde com a proibição das drogas?

A pior campanha antimaconha do mundoFaltou bom senso e respeito aos criadores dos anúncios. Faltou noção das coisas. Faltou tudo

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DICA DE LIVRO

Baseado Nisso
Liberando o bom humor da maconha
Ricardo Kelmer – Contos + glossário – Ilustrações: Hemetério

Os pais que decidem fumar um com o filho, ETs preocupados com a maconha terráquea, a loja que vende as mais loucas ideias… RK reuniu em dez contos alguns dos aspectos mais engraçados e pitorescos do universo dos usuários de maconha, a planta mais polêmica do planeta. Inclui glossário de termos e expressões canábicos. O Ministério da Saúde adverte: o consumo exagerado deste livro após o almoço dá um bode desgraçado…

> saiba mais

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01- Indiscutivelmente existe um mundo de Inês ao nosso redor. Acreditava que seria o único a vislumbrar a necessidade de se educar as Inês desse nosso Brasil. Já estive em vários outros países buscando por elas, sem saber o que estava fazendo, mas fazendo. Porém é no Brasil que elas existem com maior frequência. Se a questão for educacional, o que acredito que seja, sei onde elas estão. Na classe média. preocupe-se com isso, escreva sobre isso, alerte sobre o que elas se tornarão. Quando era jovem, em meus surtos de inveja por não conseguir a menina a qual desejava, pensava espraguejando, esse carro do pai vai acabar e quero ver elas, Inês, buscarem algo melhor, eu. Soa presunçoso, mas não é. Estudava cerca de 10h por dia, tinham-me como futuro louco, por ser humilde, pobre, da Barra do Ceará e tentar conseguir algo melhor. O que acontece é que fui e minha praga se confirmou antes mesmo de eu chegar. Vi várias Inês buscarem em mim um futuro melhor. Como disse soa presunçoso, mas não é. A verdade é que hoje vejo em um alerta de um, aparentemente sensato, jornalista o que vi há 15 anos: as Inês buscando espaço em um lugar de onde a volta é difícil e dolorosa. Samuel Lopes, Fortaleza-CE – nov2006

02- Sociedade sociedade sociedade… Tudo está errado porque se baseiam no que a sociedade vai pensar!!! E eles acabam educando jogando a verdade pra debaixo do tapete… Texto muito bem elaborado!!! Priscilla Uchoa, Fortaleza-CE – fev2014

03- Aplaudi de pé! Priscila Silva, Belém-PA – fev2014

04- Importante e a mais pura realidade…ate mesmo onde menos se imagina! Patrícia De Carli, Fortaleza-CE – fev2014

05- Excelente texto!!Parabéns! Thais Guida, Rio das Ostras-RJ – fev2014

SociedadeHipocritaAdolescentesDrogados-01a


O dia em que o chinlone me pegou

02/02/2014

02fev2014

Assim como o chinlone, na vida é fundamental harmonizar-se com o mundo ao redor pra que o jogo fique bonito de se ver

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O DIA EM QUE O CHILONE ME PEGOU

Ou a arte zen de sair por aí à toa e encontrar o que se precisa
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E lá eu ia caminhando pela Visconde de Pirajá, seis da tarde. Apesar das pessoas apressadas e dos automóveis barulhentos, eu seguia leve e tranquilo. Na verdade, até me sentia meio em harmonia com toda aquela zorra. Levava uns exemplares do meu livro Baseado Nisso e uma missão ultrassecreta: deixá-los na La Cucaracha, uma loja em Ipanema que vende uns baratos ligados a cultura alternativa: roupas, livros, revistas, CDs e, é claro, sedinha para enrolar o baseado, maquininha de debulhar, essas coisas. Melhor lugar para vender meu livro só mesmo na passeata da legalização.

Na loja, meu livro ficou, mui honradamente, ao lado do sensacional Capitão Presença, livro do desenhista Arnaldo Branco. O Presença é o único super-herói que realmente salva. E foi inspirado no dono da loja, Matias Maxx, uma figuraça. Aí entraram dois caras e um deles foi direto no meu livro. Era simplesmente… o Arnaldo Branco. Uau! E o outro era o Allan Sieber, outro monstro dos quadrinhos. Fiquei tão abobalhado diante dos meus ídolos que depois de dez minutos é que consegui dizer algo além de dâââ…

Cessada a fase monga, troquei nossos contatos, combinei uma entrevista e nos despedimos. E segui caminhando de volta para casa, exercitando minhas pernas e admirando as das ipanemenses. Eis porém que, numa banca de revista, reconheço uma senhora… É Alzira, uma amiga recente, que dia desses me levou para ver uma peça sobre o Torquato Neto, que foi seu amigo. Você por aqui, que coisa boa, abraço, beijo. Ela me pegou pelo braço e saímos, ela comentando sobre um conto meu que havia lido. Depois falou que eu precisava conhecer o Álvaro, dono da Pororoca, uma famosa livraria especializada em misticismo. Mal fecha a boca, Álvaro se materializa bem à nossa frente. O susto foi tão grande que quase saí correndo.

O Álvaro é um cara simples, cinquentão com cara e jeito de garoto. Conversamos sobre livros e mercado editorial, ele disse que lembrava de meu primeiro livro e marcamos de continuar o papo outro dia em sua loja. E seguimos eu e Alzira, eu satisfeito com tantos bons encontros. Ela então me levou a uma galeria para conhecer o Estação Ipanema, com suas duas salas de cinema que eu, vergonhosamente, ainda não conhecia. Alzira me deu um puxão de orelha e subimos para conhecer.

No momento em que olhávamos a programação do Festival do Rio, um desconhecido chegou e… me ofereceu um ingresso de presente. Um ingresso para Mystic Ball, um filme do festival, última oportunidade de ver. Perguntei a Alzira se ela ficaria chateada se eu aceitasse aquele inesperado presente. Claro que não, aproveita que hoje você tá iluminado… Dei um abraço nela, depois te conto do filme, tchau, peguei o ingresso e entrei na sala escura, nem lembrava a última vez que eu fora ao cinema sem saber qual era o filme.

Tchan, tchan, tchan, tchan…. Que surpresa! Desde o instante em que sentei até o fim do filme, eu fiquei hipnotizado pelas imagens, fascinado, torcendo para não acabar. Como pude viver quarenta e dois anos sem saber que existia aquilo? O documentário conta a história de um canadense que se tornou o primeiro ocidental a praticar o chinlone ao lado dos mestres. E agora se dedica a divulgá-lo pelo mundo. Poizé, mas que diabo é chinlone?

Ronaldinho Gaúcho. Você certamente já o viu brincar com a bola, sem deixar cair no chão. Pois o chinlone é parecido. É um esporte tradicional de Mianmar, sudeste da Ásia, e existe há mil e quinhentos anos. Seis jogadores, homens ou mulheres, formam uma pequena roda e, usando apenas pés e pernas, passam a bola entre si, revezando-se como solista no meio da roda. A bola é oca, feita de feixes entrelaçados de ratan com espaços vazios formando pequenos buracos. Sem finalidade competitiva, o chinlone está mais para exibição artística, pois não basta não deixar a bola cair no chão – é preciso que as jogadas sejam plasticamente belas. Então o que se vê é uma espécie de dança coletiva regida pela própria bola, onde os movimentos combinam a graça delicada e sutil das danças do oriente com a rapidez e a precisão das artes marciais. Ou seja: Ronaldinho não daria nem para o começo.

O chinlone requer atenção aguda e permanente ao movimento da bola e dos outros jogadores. Requer também alto grau de leveza e elasticidade corporal. Mas, sobretudo, é indispensável que o grupo esteja totalmente harmonizado em torno da bola e funcione como uma única entidade feita de uma bola e doze pernas em contínua movimentação. O chinlone prioriza ao mesmo tempo a noção de grupo e o talento individual. E esses talentos não têm sexo ou idade: entre os melhores jogadores há garotas e velhinhos de setenta anos. Certas jogadas são tão curiosas e rápidas que só em câmera lenta pode-se entender como aconteceram. A habilidade dos jogadores é impressionante, e suas improváveis piruetas levam a pensar sobre onde afinal estão os limites da capacidade humana. Depois de ler os créditos finais, demorei a me levantar da poltrona ‒ estava inteiramente apaixonado pelo que acabara de conhecer. E louco de vontade de escrever a respeito. O mundo precisava conhecer aquilo.

Saí da sala com um sentimento de gratidão por uma noite tão generosa. Tantos encontros e surpresas incríveis… Mas ainda havia um último encontro a me esperar. E ele estava à minha frente, na saída da sala, segurando uma bola… de chinlone. Era Greg Hamilton, diretor e personagem principal do filme. Reconheci-o de imediato e, ignorando a timidez, fui falar com ele. Parabenizei-o, peguei a bola, fiz perguntas tolas em meu inglês capenga, ele me falou sobre o chinlone e ganhei um postal do filme. E fui embora para casa feliz, pensando… Assim como o chinlone, na vida é fundamental harmonizar-se com o mundo ao redor para que o jogo fique bonito de se ver. Não basta viver, é preciso encontrar-se.

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro Blues da Vida Crônica

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DOCUMENTÁRIO (em português)
Narração: Gilberto Gil

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CHINLONE, THE MYSTIC BALL

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DICA DE LIVRO

ICI2011Capa-01dO Irresistível Charme da Insanidade
Ricardo Kelmer – romance

Dois casais, nos séculos 16 e 21, vivem duas ardentes e misteriosas histórias de amor, e suas vidas se cruzam através dos tempos em momentos decisivos. Ou será o mesmo casal? Nesta história, repleta de suspense e reviravoltas, Luca é um músico obcecado pelo controle da vida, e Isadora uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. A uni-los e desafiá-los, o amor que distorce a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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É a Tao coisa – Uma maneira intuitiva de compreender a realidade através da harmonia com o Tao

Rumo à estação simplicidade – Jurei me manter sempre no caminho, sem pesos nem apegos excessivos, pronto pra pegar a estrada no momento em que a vida assim quisesse

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