Vade retro Satanás

07out2011

O Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior

VADE RETRO SATANÁS

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Na primeira vez que o Diabo passou pela cidade corria o ano de 1974 e eu era pequeno demais para encarar. Tive de me contentar com os relatos de quem foi corajoso o suficiente para ir confrontá-lo, escutando atento, uma parte de mim tremendo de medo e a outra inteiramente seduzida. Se por um lado minha educação católica pintava-o como o mais temível dos inimigos, por outro lado crescia em mim o desejo de conhecê-lo e com ele medir forças.

Alguns anos depois as trombetas anunciaram sua volta e senti um frio no estômago. Chegara o grande momento e eu já não podia recuar. Tinha então meus 14 anos, estava mais crescidinho. Havia lido livros, visto filmes, escutado histórias sobre Ele e seus feitos terríveis. Eu já intuía que aquele encontro seria uma espécie de prova iniciática e que precisava passar por ela. Como nenhum de meus amigos tivera coragem de ir ver o filme, isso só aumentou meu medo. Então, mesmo sentindo cheiro de encrenca, lá fui eu assistir O Exorcista, o filme de William Friedkin.

Putz, foi um vexame! Voltei para casa apavorado. Avisei a meus pais que aquela noite dormiria no quarto deles e restou à minha mãe, que insistira que eu não fosse ao cinema, repetir o velho “eu avisei, eu avisei”. Apesar disso, não me arrependi. Até sentia um certo orgulho de mim.

A partir de então eu seria atraído por tudo que dissesse respeito ao modo humano de entender o Bem e o Mal. Deuses, demônios e heróis de variadas mitologias passaram a habitar minha biblioteca e dividir comigo o meu quarto. Revirei religiões, ciências e filosofias em busca de entender o que havia por trás dessa confusa e frágil dualidade. Viajei, conheci outras ideias, vivi experiências profundas que me puseram em contato com o melhor e o pior de mim. Aos poucos percebi que o Diabo que eu tanto buscava lá fora para tentar entendê-lo, na verdade sempre morara em meu interior, e que para decifrá-lo eu teria antes que decifrar a mim. Lúcifer se escondia sob a legião dos meus medos e bloqueios mais íntimos, me espreitando por trás de tudo o que eu desconhecia de mim mesmo.

O Exorcista é um marco na história dos filmes de terror. Roteiro, direção, interpretações – tudo é excelente. O drama pessoal do padre Karras, que se vê às voltas com um exorcismo justamente quando enfrenta uma forte crise de fé e de consciência por ter abandonado a mãe, é um dos destaques. Poucos filmes merecem fazer-lhe companhia na estante do gênero. Depois daquela primeira vez eu o veria outras mais, sempre esmiuçando detalhes. Numa delas levei um gravador e gravei o filme inteiro para ficar escutando depois. Também li o livro de William Peter Blatty do qual nasceu o roteiro.

O terror dos filmes de hoje é geralmente mais explícito, sanguinário e tecnológico, sem sutilezas psicológicas como em O Exorcista. Se hoje as novas gerações não se assustam tanto com ele quanto seus pais se assustaram, talvez seja porque nesses dias atuais o grande terror responde pelos nomes de violência, terrorismo e fanatismo religioso, e o bicho-papão agora são os bandidos cruéis e impunes a nos ameaçar nas esquinas da injustiça social e nos cargos políticos. A humanidade está possuída por seus próprios demônios inconscientes, o que faz do futuro da espécie e do planeta um perigoso horizonte de incertezas.

Sim, o Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior. O motivo é simples: lá é sempre o último lugar onde os humanos vão procurar a verdade. Se de fato pretendemos derrotar o Mal, é urgente que tenhamos antes de tudo, cada um, a coragem de entrar no quarto frio e escuro do nosso desconhecimento de nós próprios e, uma vez lá, reconhecer os demônios que procuramos sempre exorcizar… nos outros.

Água benta e crucifixos são uma beleza para afastar o capeta – em filmes. No roteiro mais realista de nossas vidas, é esse autoconhecer-se o verdadeiro exorcismo que pode nos libertar das piores possessões.
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Ricardo Kelmer 2001 – blogdokelmer.com

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O EXORCISTA (The Exorcist, EUA, 1973)
Direção: William Friedkin
Roteiro: William Peter Blatty

Baseado no romance O Exorcista, de Wlilliam Peter Blaty
Elenco: Max Von Sidow, Ellen Burstyn, Jason Miller e Linda Blair

Padre em crise de fé é procurado por mãe aflita cuja filha doente não consegue ser curada pelos médicos. Junto com ele um famoso padre exorcista tentará expulsar o suposto demônio da criança.

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TRÊILER OFICIAL

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Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

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2 Responses to Vade retro Satanás

  1. Ana Claudia disse:

    Muito bom esse texto, Ricardo… olha que coincidencia, sexta feira o Robert estava assistindo o exorcista. Eu assisti quando tinha 12 anos com um primo que tinha 13, ele ficou apavorado, eu nao, e ainda por cima fiz ele dormir no escuro (estavamos todos de ferias dormindo no mesmo quarto e eu disse que nao conseguia dormir nem com um tiquinho de luz, tinha que ser breu total! hahahaha… desde aquela epoca ja era boazinha ne?)

    O texto todo eh muito verdadeiro, adorei essa frase: “…Se de fato pretendemos derrotar o Mal, é urgente que tenhamos antes de tudo, cada um, a coragem de entrar no quarto frio e escuro do nosso desconhecimento de nós próprios e, uma vez lá, reconhecer os demônios que procuramos sempre exorcizar… nos outros.”

    Parabens!

    Curtir

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