Livros e odaliscas

16ago2011

Meia-noite. Volto do banho. Elas estão todas deitadas em minha cama, lânguidas odaliscas a me aguardar

LIVROS E ODALISCAS

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Putz, que perdição essas feiras de livros! Para um leitor compulsivo como eu, são verdadeira tortura. Tantos livros se oferecendo e tão pouco dinheiro… Mas sabe quando o diabo tenta, né? É aquela coceira que não deixa o cidadão em paz. E eu resisto a tudo, menos às tentações. Ai, a luxúria literária… Então lá vou eu. Respiro fundo e repito para mim mesmo: só tenho isso, só vou gastar isso. Neurolinguística, pensamento positivo, autocontrole. E seja o que o diabo quiser.

Das estantes, as tentações acenam e sorriem. Finjo que não é comigo. Para algumas, arrisco uma olhadinha de canto de olho, e passo reto. Mas tem umas ousadas: elas me puxam pelo braço e, quando dou conta, lá estou eu a acariciar sua celulose macia… E cheirar também, sim, adoro cheirar essas coisinhas. Um dia ainda inventarão livro eletrônico com cheiro. Então leremos O Perfume e sentiremos os odores da Paris antiga. As páginas do Brasil Nunca Mais federão a carne eletrocutada. Uau.

Saio da feira em êxtase, sete sacolas em cada braço, sacoleiro literário do Paraguai. Uma delas rasga próximo ao carro, livros caem, a capa de um deles amassa, eu quase choro. Sigo equilibrando dois Jung e um Campbell na cabeça, uma súbita admiração pelas lavadeiras. Chego em casa, sultão em seu harém: com qual odalisca começar? Esta. Não, aquela. Não, esta aqui que já está de páginas abertas. Bem, melhor tomar um banho antes. Ela não, eu.

Mas essas feiras não mexem apenas com minha porção leitor. Há também o escritor. E ele caminha silencioso, olhando os filhos dos outros nas vitrines. Termina comparando com os seus, não tem jeito. Então, acontece. De repente, ele surge na vitrine e, puff, somem todos os outros, só ele no mundo. O escritor passa em frente a seu livro, faz que não vê, para adiante, finge que esqueceu algo, passa de novo. A criatura está ali, e é claro que sabe que seu criador a observa. Se pudesse, desceria e lhe daria um bicudo na canela, protestar: Muito engraçado, eu te sustento e ainda sou obrigada a ficar aqui nessa posição ridícula o dia inteiro… Mas livro não dá bicudo. Sua vingança é botar mau olhado em si mesmo e não vender. Irgh!

O escritor então se afasta um pouco, quem sabe flagrará o momento exato em que o anônimo leitor se aproximará? Ah, o leitor, essa entidade mágica… O escritor o observa: ele se detém ante a vitrine, olha, estende o braço, toca sua criação, folheia seus primeiros segredos e, instante sublime!, chama o vendedor. Os dois conversam, não dá para ouvir o que dizem. Suspense. Rufam os tambores. Segundos depois, o leitor agradece e vai embora. Sem o livro. São cruéis, os leitores. Mas talvez não o fossem se o preço nas capas não desestimulasse tanto.

Filho não gosta que os pais o observem demais, analisem o tempo todo como se comporta. Então deixo o rebento lá, exposto em sua trágica solidão de quem não sabe o sentido da própria existência. E eu, por acaso, sei? Não sei se sei. Talvez não passe disso mesmo a minha sina: ser mensageiro das minhas profundezas, Mercúrio de mim mesmo. Seja o que for, não há mais retorno possível. Para mim, escrever é mais que prazer ou trabalho: é precisão. Se não botar para fora o que penso e sinto, enlouqueço de vez. E eu bem sei como tratam os loucos. Não quero ser mal tratado. Por isso sigo fingindo normalidade num mundo de reis nus e insanos.

Meia-noite. Volto do banho. Elas estão todas deitadas em minha cama, lânguidas odaliscas a me aguardar. Brinco de fechar os olhos e tentar adivinhá-las pelo cheiro, a textura da pele. Puxo uma delas e deslizo a língua em sua orelha, apoio o queixo no osso da lombada, deixo-me assim ficar, gozando as preliminares. Do inferno, me ameaçam os ecos de uma vaga preocupação com o cartão de crédito… Ela, porém, sussurra meu nome e é a visão de seu corpo seminu em minhas mãos que me salva. Sorrio agradecido e abro sua capa, devagar. Agora ela tem suas verdades escancaradas, e suspira. Agora sabe, finalmente, porque existe. Ela fecha os olhos e se delicia: de tanto saber que foi para esse sublime momento de entrega que foi criada, foi sim.

Quanto a mim, daqui a pouco tombarei para o lado e adormecerei, sua face pousada em meu peito. E sonharei um mundo lindo onde as sacolas não rasgam, nem preciso me endividar para ter os livros que nas vitrines sussurram meu nome.

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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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LEIA NESTE BLOG

O dilema do escritor seboso – Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras

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Piratearam meu livro novo. Eu rio ou choro? – Já que tem cópia pirata solta por aí, prefiro que você, que é leitor do meu blog, leia a pirata certa

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Adorei esta crônica. Parece que vc leu meus sentimentos e emoções acerca das feiras de livros e livrarias em geral. Fico assim tb, qual viciada diante do vício. Não consigo ir a uma livraria só para olhar. Preciso possuir o livro! Nem emprestado tem o mesmo sabor. Eu quero o livro pra mim. Assim mesmo, egoísticamente. Gosto de tê-los à minha volta, em todos os cantos. E gosto de relê-los depois de tempos. Livros me emocionam… mas preciso tocá-los. pois é… sou tarada por livros. Adorei a sua crônica. De verdade. Mesmo! beijosssssss cá da Ilha da magia. Odete, Florianópolis-SC – abr2007

02- nossaaaaaaaa, Ricardo Kelmer eu amei =P. Rosana Pereira Marinho, Juazeiro do Norte-CE – ago2011

03- meu amigo kelmer.. sua imaginação domina sua criatividade. ou seria o inverso (rs_rs). Roberto Paiva, Fortaleza-CE – ago2011

04- seu olhar odalisca/diz no fundo/ah! deixa estar… Jules Laforgue. Alberto Marsicano, São Paulo-SP – ago2011

05- Gostei como gosto de várias coisas q vc escreve, começando pelo “Mulher Selvagem”, passando pelo livro e os textos frequentes. Nathalie Sterblitch, Resende-RJ – ago2011

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2 Responses to Livros e odaliscas

  1. Pedro disse:

    Falai Kelmer! Hoje, na falta de um soltinho (não aguento mais prensado), fiz uma pesquisa ridícula no google só a título de curiosidade com as seguintes palavras: vendo fumo solto em Fortaleza…ehehehe…e adivinha o que apareceu: o seu blog! kkkkkkk…muito bom por sinal!! Já tinha te visto por aqui…acho que vc é amigo da Juliana (esposa do Cau)…bom, resumindo….teu blogue é irado!! Vou dá uma lida aqui. Abraços!

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